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RESENHA O QUE É REALIDADE

Caracterização da fonte de dados (autor, título e obra):


DUARTE JUNIOR, João Francisco. O que é realidade. São Paulo: Brasiliense, 2004. 10ª edição, 5ª
reimpressão (1ª edição: 1984)

Resumo:
No capítulo “Cai na real” o autor introduz o conceito de realidade como sendo não uma única
e verdadeira, mas como sendo múltipla e complexa. Diferentes observadores com diferentes
percepções apreenderão realidades diferentes. Exemplo do quadro e do rio. “as coisas adquirirem
estatutos distintos segundo as diferentes maneiras da intencionalidade humana” (p.12). Também é
apresentado o conceito de que o homem não é mero observador, mas também “construtor” da
realidade, ao contrário da posição receptiva que costuma colocar-se no dia a dia.
No segundo capítulo “No princípio era a palavra”, o autor coloca a importância da linguagem
na interpretação, portanto construção, da realidade. O homem transcende sua existência física e seu
meio-ambiente, vivendo em um universo simbólico. As coisas passam a existir no meu mundo a partir da
significação que lhes confiro, “A construção da realidade passa pelo sistema lingüístico empregado pela
comunidade” (p.25).
No capítulo “A edificação da realidade”, o autor preconiza a existência de diversos níveis da
realidade (zonas de significação distintas). Em um primeiro e predominante nível, a realidade cotidiana
fundamentada em nossa sobrevivência. E a partir desta esfera se desdobram os demais níveis, até que
atingimos uma zona de obscuridade, que seria o limiar da nossa realidade. Ao tentar traduzir um novo
nível para nossa linguagem e incorporá-lo, distorcemos parte dos significados provenientes destas
outras áreas. Não é possível deter todo o conhecimento, então devemos ter uma indexação da
distribuição do mesmo, sabendo a quem recorrer para encontrar um saber específico. A estrutura social
é construída sobre esta estrutura, que compreende o conhecimento teórico e o prático, portanto
também a divisão do trabalho. O processo que permite esta estruturação chama-se tipificação, e
determina padrões de interação entre indivíduos, e que formam a nossa realidade social cotidiana. A
institucionalização é a decorrência de tipificações recíprocas, estabelecendo padrões de
comportamento, até que se “cristalizem”, através do fenômeno de reificação. A realidade é edificada
pela dialética de reificação com três momentos distintos:
1- o comportamento é tipificado (realidade social como produto);
2- a instituição é reificada (a realidade torna-se independente);
3- esta realidade é passa a determinar a consciência (o homem torna-se produto).
O esquema normativo e explicativo que corresponde a uma instituição é chamado de
legitimação. Primeiro construímos o conhecimento em relação ao “como”, em um segundo nível
construímos as primeiras proposições teóricas a respeito e em um terceiro nível, as teorias explícitas e
restritas aos especialistas da instituição, e o último nível é o universo simbólico, que trabalha os
“porquês” e a interação entre os setores da instituição. As organizações ganham uma certa coerência e
ao serem legitimadas. Quando os motivos que são transmitidos às novas gerações são diferentes dos
reais motivos da instituição denominamos de ideologia. Em nossa sociedade pluralista existem inúmeros
universos simbólicos coexistindo, o que torna mais fácil a mudança social por não haver uma única
verdade absoluta.
No capítulo “A manutenção da realidade”, o autor propõe que um primeiro instrumento
protetor da manutenção da realidade é a padronização dos comportamentos. Um indivíduo isolado não
tem condições de alterar a realidade estabelecida, somente um grupo dissidente que compartilhe a
mesma visão de realidade. A sociedade procura “curar” os dissidentes utilizando a terapêutica como
forma de defesa. O segundo mecanismo autoprotetor é a aniquilação, e se destina aos dissidentes
externos, nele está envolvida a relação de poder entre as sociedades. Pode-se entender que os
intelectuais sejam uma sub-sociedade da sociedade onde vivem, e que isto representa um perigo para
os estados totalitários. Podemos diferir duas formas de conservação da realidade: rotineira e crítica que
funcionam através de hábitos e interações.
No capítulo “A aprendizagem da realidade”, o autor expõe que este processo se chama
socialização. Na socialização primária (construção da realidade subjetiva), no interior da família, o
conteúdo e a linguagem são aprendidos a medida que existe o desenvolvimento neurofisiológico. Os
significados que compõe o mundo e as esferas da verdade são interiorizados na consciência do
indivíduo. Partindo-se dos outros significativos até a sociedade. Pela socialização secundária (construção
da realidade objetiva), interiorizamos os ”submundos” onde o conhecimento é apresentado em
seqüência lógicas e pedagógicas, em geral na escola. Quando o conteúdo apreendido na socialização
secundária é desestruturado, o choque não será sério. Porém, no que tange a socialização primária,
podem ser comprometedores..
Sobre “A realidade Científica”, o autor afirma que mesmo quando não compreendemos a
ciência, temos uma tendência a acreditar em seu postulados. E salienta a necessidade de entendermos
que a ciência é apenas uma das formas de explicarmos a realidade, sempre de acordo com o ponto de
vista do observador. O mundo do cientista é derivado do mundo onde ele vive. Dependendo do objeto
de estudo, a ciência obtém um alto grau de exatidão, contudo quando o objeto é ser humano, a
complexidade e a transcendência do puramente físico impossibilitam as ciências humanas de serem
exatas e previsíveis.

Conceitos básicos:
a) pluralidade de realidades: as coisas adquirem significados distintos para observadores distintos;
b) homem como construtor da realidade: o homem constrói seu universo simbólico utilizando a
linguagem que conhece;
c) reificação:
• o comportamento é tipificado (realidade social como produto);
• a instituição é reificada (a realidade torna-se independente);
• esta realidade é passa a determinar a consciência (o homem torna-se produto).
d) manutenção: a sociedade procura manter a realidade, tanto através de terapêutica caso os
dissidentes sejam internos, quanto através de aniquilação caso sejam externos;
e) socialização: e socialização primária é a construção da realidade subjetiva,enquanto a socialização
secundária é a construção da realidade objetiva;

Argumentos defendidos pelo autor:


O autor defende a idéia de que a realidade, assim como a verdade não é única e indivisível.
Esta posição pode ser exemplificada pelas frases: “A realidade depende da percepção do indivíduo.
Assim sendo, não existe uma realidade única” (p.12). E “O homem é o construtor do mundo, o
edificador da realidade (p. 13). O autor reforça esta tese quando postula que “O real será sempre um
produto da dialética, do jogo existente entre a material idade do mundo e o sistema de significação
utilizado para organizá-lo” (p.29).
Segundo o autor, a nossa capacidade de traduzir em símbolos a realidade e transmitirmos
esta tradução aos demais modela a própria realidade que percebemos. Nas palavras do autor, o
“sistema lingüístico de que se vale um povo é condicionante de sua maneira de interpretar o mundo e
de nele agir (construindo a sua realidade)” (p26). Da mesma forma, nossa posição histórico-geográfica
determina nossa realidade, “a realidade que habitamos tem a sua definição ditada pelos grupos sociais e
culturais a que pertencemos, e uma orientação numa dada realidade pode parecer ilógica e mesmo
insana se vista a partir de outra” (p.102).

Perguntas e Respostas:

Existe alguma relação entre O que é a realidade e o Aliensta?


Um paralelo importante que podemos traçar entre as leituras é a credulidade da
sociedade em geral ao conhecimento científico, mesmo quando a própria sociedade não tem o
embasamento para entendê-lo, ou ainda quando desconfia dos motivos do cientista. Nas palavras
do autor, “Atualmente tendemos a acreditar apenas naqueles fatos que sejam cientificamente
provados, mesmo que não entendamos nada do que vem a ser ciência” (p. 91).

Podemos perceber a realidade sem distorcê-la?


O autor nos coloca novamente na caverna de Platão, onde não temos condições de
perceber a realidade em si, mas somente as nossas interpretações da realidade. Enxergamos a
realidade através de nossas condições histórico-geográficas, enfim, do que apreendemos em nossa
socialização. Portanto, simplesmente por percebermos a realidade, estamos assinalando a esta
realidade um significado, de forma que sempre terminamos com nossa interpretação da realidade,
e não uma realidade simples, única, indivisível.

Carolina Gomes