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A relação entre gênero as funções/cargos acessados pelas mulheres

O objetivo deste texto é mostrar a relação entre gênero e as funções exercidas


pelas mulheres no mercado de trabalho.

Os movimentos feministas são uma reação às condições existenciais da


mulher ocidental, distintas a depender da época, mas que, em geral, foram a de uma
profunda desigualdade, exploração e violência em diversas dimensões da vida social.
A partir da segunda onda do feminismo, no século XX, inicia-se uma produção teórica
cada vez maior nos estudos sobre as mulheres, sendo a categoria “gênero” uma das
suas principais aquisições e considerada indispensável para a análise histórica. Para
a historiadora Joan Scott, gênero é “um elemento constitutivo de relações sociais
baseado nas diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é uma forma primeira
de significar as relações de poder” (p. 21, 2011). Essa definição de gênero já traz
embutida a função do saber produzido sobre distinções anatômico-fisiológicas e
estéticas entre dois entes da mesma espécie, qual seja: legitimar a estrutura e
organização de uma sociedade, no que respeita aos papéis a serem e que podem ser
performatizados pelos indivíduos. Logo, são os saberes sobre as mulheres que
determinarão seus lugares na sociedade. No sistema produtivo, isso se refletirá nas
funções que podem ser exercidas pelas mulheres, nos cargos que elas podem ocupar,
nos seus salários e etc.
Os saberes sobre os sujeitos são históricos e se modificam em função do que
os sujeitos pensam sobre o que são, em função de mudanças estruturais, como as
econômicas, sendo que há uma interação entre as mudanças acontecimentais e
estruturais, e que são mais ou menos deterministas, dependendo do paradigma que
se escolha para ler a realidade estudada. É por isso que podemos observar, em
tempos históricos diferentes, as mulheres exercerem funções que em outra época não
seriam pertinentes a elas. Neste texto, estamos interessados, em particular, nos
saberes sobre as mulheres antes e depois do processo de industrialização no Brasil
do século XX.
No cenário do início da industrialização do Brasil, no final do século XIX e
primeiras décadas do XX, encontramos saberes que condenam a mulher aos
cuidados do lar, dos filhos e à subserviência ao marido; um ser dócil e útil, que não
teria condições de viver dignamente sem um homem que, de alguma forma, a guiasse.
Muitas imagens que vem a compor o ideário sobre as mulheres teriam sido reforçadas
e criadas a partir do século das luzes: Rousseau prescrevia uma educação voltada
para o lar; Kant dizia que a mulher deveria viver para o homem, pois ela não era um
sujeito ativo na história. Os ilustrados teriam produzido um ideal para o qual a sedução
seria a única fonte “de poder para a natureza feminina e a falta de autodeterminação
da mulher é também intrínseca à sua natureza” (GASPARI, 2003, p. 32). Esse ideal
do feminino acabou por restringir a existência da mulher à vida privada, sendo sua
participação no espaço público, no mercado de trabalho bastante limitada. Essa
situação começará a mudar com o advento da industrialização, principalmente no
século XX, não esquecendo das grandes contribuições dos movimentos feministas.
O processo de industrialização abriu novos campos de trabalhos para os quais
não havia mão-de-obra suficiente, daí que, para atender essa demanda, se iniciar a
inserção da mulher “nos meios profissionais e da escolarização” (GASPARI, 2003, p.
72). Apesar da industrialização ter dado as condições de inserção massiva da mulher
no mercado de trabalho, isso não se dá nas mesmas condições que os homens,
começando pela desigualdade salarial. Essa desigualdade ancorava-se na
representação da mulher como ser menos capaz, intelectual e fisicamente. Na década
de 30, com o avanço da industrialização, haverá uma diminuição do contingente
feminino no mercado de trabalho industrial e um aumento do masculino. Segundo
Rodrigues e Costa, esse problema também origina-se na própria família, que era
hostil ao trabalho feminino fora do lar. Para os pais, as filhas deveriam
assegurar o futuro, encontrando um “bom partido” para casar, o que
batia de frente com as suas aspirações de trabalhar fora e obter êxito
em suas profissões. Os homens procuravam desqualificar o trabalho
feminino, procurando não socializar informações importantes para
preservar seu espaço na esfera pública (p. 17).

São, pois os saberes (gênero) produzidos sobre o que seja a mulher que estão
condicionando o seu lugar no mercado de trabalho, e em outras dimensões da vida
social. Saltemos, pois, para as últimas décadas do século XX e início do XXI. No
Brasil, com o processo de redemocratização e as atividades dos movimentos
feministas, teremos uma ressignificação da “imagem social da mulher” (RODRIGUES
E COSTA, P. 24); sublinhando que esses não foram os únicos acontecimentos a
propiciar essa mudança, mas foram dos mais vitais. Há um questionamento sobre os
saberes que normatizam a existência da mulher, a exemplo da psicanálise, e de quem
são os sujeitos e instituição responsáveis pela produção desses saberes, culminando
com a mulher requerendo para si o direito de determinar o que ela é, algo negado
desde a ilustração. Já nos anos oitenta se tem uma clareza sobre os limites de
qualquer especialização do comportamento da mulher, desenvolve-se uma
consciência de “que qualquer definição, de papéis, da identidade e dos códigos de
comportamento da mulher é instável e transitória. Aparecem com maior clareza os
limites daquilo que seria característico da natureza social da mulher” (Ibidem).
Mesmo com essa nova consciência, com a crítica dos saberes sobre a mulher,
a sua situação continua desigual no mercado de trabalho, ainda que se tenham
concretizado mudanças nas últimas décadas. Se, por um lado, a partir da década de
80 um novo processo de integração da mulher ao mercado de trabalho deflagrasse,
por outro, e de lá até a atualidade, muitos problemas não foram resolvidos: as
mulheres ainda não conseguem alcançar cargos de chefia na mesmo proporção que
homens; a ausência de instituições de cuidados de crianças impede uma maior
inserção da mulher no mercado, pois cuidar dos filhos ainda é visto como uma tarefa
a qual a mãe é quem deve se dedicar; outro setores em que a mulher ainda tem sua
participação limitada são as dos três poderes do nosso Estado, algo que restringe o
campo de ação da mulher em políticas que possibilitem uma transformação estrutural
da sociedade (NUNE, 2014). O problema da mulher no Brasil, na sociedade ocidental
é estrutural. Apesar da efervescência de acontecimentos que atingem as formas de
dominação, os saberes normatizadores, os mecanismos de manutenção do status do
masculino em nossa realidade social − os desafios das mulheres não acabaram.
Podemos, a partir Fernando Braudel, dizer que os acontecimentos ainda não
modificaram suficientemente as nossas conjunturas econômica, social, política e
cultural, inscritas na média duração.
Diante da constatação dessa realidade social, o que poderíamos fazer? Sendo
um problema que atravessa não somente o mercado de trabalho, mas todas as
dimensões da vida social, as contribuições individuais tornam-se, inevitavelmente,
limitadas. Os movimentos feministas continuam na luta contra; políticas públicas
também têm sido praticadas, ainda que numa quantidade insuficiente; as mulheres
tornaram-se, individualmente, mais conscientes de sua situação, buscando, elas
mesmas, formas de contornar a assimetria nas relações sociais e pessoais. A nós,
enquanto professores, a abordagem de questões sobre gênero, sobre desigualdades
sócias entre homens e mulheres, sobre a própria história da mulher através do tempo,
possibilitaria o desenvolvimento de uma consciência história e social que estaria nos
fundamentos da transformação da realidade social, sem a qual uma mudança
profunda não é possível.