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A rtigos

Diálogo Entre a Química e a Arqueologia:
Análise de Artefactos Cerâmicos por Cromatografia Gasosa
César Oliveira
Centro de Química, Departamento de Química da Universidade do Minho, Braga
cesar@quimica.uminho.pt

Dialogue between Chemistry and Archaeology - Gas chromatographic analysis of ceramic
artifacts – discoveries in the mouth of Peralto stream (Esposende, Northern Portugal) revealed traces of Roman oc-
cupation along the Iberian Atlantic coast. Among them were found a large number of ceramic container fragments from
Baetica region (ancient Roman province in Hispania under the influence of the Guadalquivir River basin, nowadays
Andaluzia) from a shipwreck dating from the time of Augustus. Some questions were raised about the type of cargo in
the ship. The discovery was an opportunity for an exciting and fruitful collaboration between chemists and archaeolo-
gists.1 This paper presents some introductory concepts on the chemical analysis of ceramic artifacts.

Algumas descobertas arqueológicas no sítio da foz da ribeira do Peralto (Esposende, Norte de Portugal) evidencia-
ram a presença de vários testemunhos de ocupação romana ao longo da costa ibérica Atlântica. De estre estes destaca-
-se um elevado número de fragmentos de cerâmica da região Bética (antiga província Romana na Hispania sob a
influência da bacia do rio Guadalquivir, localizada aproximadamente no território da actual província da Andaluzia) de
contentores de diferentes tipologias, com origem num naufrágio datado da época de Augusto. Esta descoberta levan-
tou diversas questões sobre o tipo de carga transportado por esta embarcação, tendo representado uma oportunidade
para uma estreita colaboração entre químicos e arqueólogos. 1 Neste artigo apresentam-se alguns conceitos introdutó-
rios importantes na análise química de artefactos cerâmicos.

Introdução 1 Minho. Tinha na sua posse material cerâmico proveniente
de um naufrágio romano - um bico fundeiro de uma ânfora
No sítio da foz da ribeira do Peralto (Marinhas, Esposende, Haltern 70 com um extenso depósito de material orgânico
Norte de Portugal) têm sido encontrados achados arqueo- no seu interior (Figura 1) e um bordo de ânfora Urceus
lógicos que evidenciam a presença e a ocupação romanas (Figura 2), que ao contrário da primeira não apresentava
ao longo da costa atlântica. De entre eles, destaca-se um quaisquer vestígios de resíduos orgânicos visíveis a olho
número elevado de fragmentos de cerâmica Bética (antiga nu. Sabendo que trabalhava em cromatografia, pretendia
província Romana na Hispânia sob a influência da bacia do que efectuasse a análise aos dois fragmentos cerâmicos
rio Guadalquivir, aproximadamente a Andaluzia dos nos- para perceber qual o conteúdo original destas ânforas. Ini-
sos dias) provenientes de um naufrágio datado da época de ciou-se nesse momento um desafio, uma aventura ao estilo
Augusto e recolhidos, em 2005, na faixa da baixa mar de policial, uma aplicação muito directa e concreta da Quí-
Rio de Moinhos, em Esposende. Na grande maioria pre- mica. Teria de elaborar uma metodologia de extracção dos
dominam as ânforas da tipologia Haltern 70 (Figura 1), compostos orgânicos dos materiais cerâmicos e proceder
alguns fragmentos de ânforas de produção gaditana do tipo à sua análise por cromatografia gasosa com detecção por
Dressel 7-11 e de ânforas do Guadalquivir de tipo Urceus massa. No decorrer das pesquisas efectuadas foi constatada
(Figura 2). Os materiais cerâmicos encontrados neste nau- a existência de apenas um pequeno número de grupos de
frágio permaneceram alguns anos sem estudo até que… investigação europeus a trabalhar na área, assim como a
ausência de trabalhos publicados em Portugal.
O autor iniciou os trabalhos na análise química de artefac-
tos arqueológicos por um mero acaso. Já com alguns anos As argilas
de experiência na aplicação de técnicas cromatográficas à
análise de matrizes orgânicas complexas, foi contactado Para os arqueólogos, a tipologia e a análise macroscópica
em finais de 2011 por um arqueólogo, Rui Morais, na altura das argilas foi durante muito tempo o principal meio de
docente no Departamento de História da Universidade do identificação das peças estudadas. Todavia, uma simples
análise macroscópica a olho nu ou à lupa binocular poderá
1
Comemora-se este ano o segundo milénio da morte de Gaius Iulius não ser suficiente para distinguir a origem das cerâmicas,
Caesar Octavianus Augustus (César Augusto), o primeiro imperador pelo que o conhecimento das propriedades físicas, minera-
romano, considerado o fundador de Bracara Augusta (actual cidade de lógicas ou químicas das argilas pode permitir a obtenção
Braga). Numa organização conjunta dos municípios de Braga e Espo- de informações preciosas. Este foi durante bastante tempo
sende celebrou-se entre 10 e 12 de Setembro o “Bimilenário de Au-
o principal ponto de contacto entre a Química e a Arque-
gusto”, que incluiu o Simpósio Internacional “Chromatography and
DNA Analysis in Archaeology”. ologia, com a aplicação de técnicas de análise estrutural
Contactos: bimilenario.augusto2014@gmail.com como a difracção de raios X ou a Microscopia Electrónica

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e juntamente com esta.J ul -S et 14 Boletim Química n. minimizando o contacto com a atmosfera oxidante e re- 52 Q uímica 134 . azeite. Contudo. c) vista superior do bico fundeiro. compostos orgânicos solúveis (Figura 3). química e física quando cozida a uma temperatura suficien- bora extremamente importantes. -se na proximidade das áreas de produção dos bens con- sumíveis (vinho. cristalinas e sedimentares. Durante décadas este tipo de informação química contacto com a água e adquirindo dureza e estabilidades foi a única disponível para os arqueólogos. com facilidade. o que em alguns casos per. Os grãos da argila absorvem ou perdem água presentes nas cerâmicas.2H2O) deno- seus processos de cozedura. Um dos objectivos da aplicação destas téc. secagem e co. ao conjunto de minerais constituídos maioritariamente por nicas é o estudo da composição química das pastas e dos silicatos de alumínio hidratados (2SiO2. apresentado extenso depósito de material orgânico Figura 2 – a) Esquema de três tipologias de ânforas Urceus.indd 52 17-09-2014 22:03:54 . As espécies orgânicas. uma vez absor- As cerâmicas são obtidas pela moldagem.º 134. aparentemente sem vestígios de material orgânico de Varrimento. com superfícies específicas elevadas. expandindo-se ou contraindo-se. Torna-se por isso imperativo do-se carregadas negativamente nas faces e positivamente proceder à análise química dos vestígios orgânicos ainda nos bordos. apresentan- dos contentores cerâmicos. Estes. ilite.Al2O3. A rtigos Figura 1 – a) Esquema de uma ânfora Haltern 70. por consequência da degradação física e/ou química de rochas uma questão de economia de custos deveriam encontrar. encontram-se imobilizadas entre as camadas de argi- zedura de argilas. sendo facilmente moldável quando em micos. Quimicamente dá-se o nome de argila la. Normalmente apresentam uma estrutura fornecem informações indirectas sobre o conteúdo original laminar. b) vista do bordo de ânfora. estas técnicas analíticas temente elevada. preparados piscícolas). podendo cada partícula de argila absorver várias camadas de molé- Algumas propriedades das argilas culas de água. b) vista lateral do bico fundeiro exibindo a marca característica do oleiro. em. montemorilonite) com desde os locais de produção das ânforas até aos centros uma estrutura granular de grãos com dimensões reduzidas consumidores onde são encontrados os fragmentos cerâ. vidas. Geologicamente. as argilas mitirá identificar os barreiros de onde foram extraídas as são solos residuais ou sedimentares que se formam em argilas e os locais de produção das cerâmicas. pelo que A argila usada na produção de cerâmica é uma mistura a sua identificação permitirá conhecer as rotas comerciais de vários minerais (caulinite. minados caulim ou caulinite. inferiores a 4 µm.

uma fruta popular no Médio Oriente onde o uma miríade de alterações possíveis da matriz orgânica sumo desta era por vezes adicionado ao vinho. nalguns casos. canfeno. podendo ser quente o uso de resinas na impermeabilização de contento- facilmente lixiviadas na presença de água ou de outros sol- res cerâmicos usados no transporte ou armazenamento de ventes. os mono- terpenos como o α-pineno. procedimentos inadequados de recolha. responsável pela cor vermelha das uvas e Alguns exemplos de matrizes orgânicas vinhos. sendo a mais impor- A degradação natural dos compostos orgânicos conduz a tante a romã. Um bom indicador químico da presença forma a sua análise [2]. Por isso. como o reteno. uma antocianina estável ao longo do tempo. As elevadas via. normalmente resina de pi- nheiro. pimárico. ii) perduram resíduos orgânicos visíveis na superfície cerâmica interior Figura 4 – Transformação do ácido abiético em reteno pelo aquecimento de resinas naturais ou exterior dos vasos (muito frequente nas cerâmicas re- vestidas a material resinoso). pode ser encontrado em folhas de chá e na eliminação de vestígios orgânicos. camada de material resinoso. impedindo também que o oxigénio penetre através das paredes cerâmicas e oxide a matriz orgânica. A acrescer a estas dificuldades existe também a possibilidade de contamina- ção dos fragmentos cerâmicos durante o processo de depo- sição (por exemplo por lixiviação de camadas superiores ricas em material orgânico) ou uma reduzida concentração dos resíduos orgânicos. O ácido gáli- estes materiais orgânicos por contaminação química e/ou co. des- dos líquidos com os quais estiveram em contacto. limpeza ou res característicos da presença de vinho e/ou uvas. meio envolvente seco/húmido ou anaeróbio/oxi- Uvas/vinho: Os ácidos tartárico e gálico são biomarcado- dante). por ser hidrofóbica actua como agente imper- meabilizador. de vinho tinto é a malvidina. à complexidade química dessas substâncias naturais e às Os compostos aromáticos. Esta. origem a uma mistura de traçadores moleculares prove- nientes de matrizes orgânicas diferentes. que são invisíveis a olho nu [1]. orgânico preservado entre camadas Os resíduos orgânicos presentes nas cerâmicas podem ter Resíduos orgânicos presentes nas cerâmicas origem em diferentes tipos de matrizes orgânicas: As espécies absorvidas nas argilas são imobilizadas por Resinas: Dada a porosidade dos materiais argilosos é fre- interacções fracas entre as camadas da argila. com o conteúdo intacto). ter sido empregue para azeite dando estrutura vestígios do conteúdo original destes contentores. é frequente a impermeabilização destes com uma fina duzida (Figura 4). sos. depois de vazio. por exemplo. Desta forma exemplo. No caso metilação e descarboxilação dos compostos terpenóides. é possível encontrarem-se preservadas temperaturas de aquecimento alteram a sua composição na estrutura das argilas substâncias orgânicas provenientes química por promoverem reacções de aromatização. A estas acrescente-se a influência dos mais viscosos. ou iii) encontram-se resíduos Como exemplos de compostos característicos da presen- preservados entre as camadas de argila das paredes dos va- ça de resinas pode referir-se os ácidos abiético. comprometendo desta casca de carvalho. particular de contentores destinados ao transporte de líqui- originando novas moléculas de massa molecular mais re- dos. das condições de enterramento do material cerâmico (por exemplo. limoneno e As maiores dificuldades analíticas não se devem apenas borneol são compostos predominantes em resinas naturais.J ul -S et 14 53 Boletim Química n. No caso de fragmentos de contentores cerâmicos dade da malvidina em água diminui com o aumento do grau estas modificações são acrescidas da possibilidade de reu. embora armazenamento.indd 53 17-09-2014 22:03:54 . dificultando a sua análise química. Por orgânicos durante o período pós-deposicional. a malvidina está presente em algumas outras plantas.º 134. que podem induzir alterações adicionais a estejam presentes também em várias plantas. Os resíduos orgânicos presentes nestes materiais podem estar presentes em diferentes formas: i) o conteúdo orgâ- nico preservado (em casos muito raros encontram-se vasos ainda inviolados. Em geral. favorecendo a Q uímica 134 . mas também às alterações da composição cos de resina de pinheiro. como o azeite [3]. p-cimeno. o que dificulta grandemente a tare- Figura 3 – Representação de duas camadas de argila contendo material fa de análise e a obtenção de conclusões fiáveis. A solubili- inicial. Contrariamente ao ácido tartárico. isopimárico e 7-oxodesidroabiético. Toda- tar a sua capacidade de penetração na argila. de polimerização dos resíduos orgânicos. a deposição de peças em locais húmidos ou líquidos. são característi- suas misturas. A aplicação das resinas ocorre a temperaturas ele- alagados origina a perda por lixiviação dos compostos or- vadas por forma a diminuir a viscosidade destas e aumen- gânicos solúveis. não seriam empregues em contentores destinados a líqui- dura e o aquecimento [2]. A rtigos duzindo os processos de degradação natural dos materiais tilização dos mesmos em funções distintas das iniciais. um contentor inicialmente utilizado para vinho as argilas apresentam “memória” por preservarem na sua pode. Pensa-se que estes revestimentos química original provocadas por actividades como a coze.

tivamente estáveis ao longo do tempo ou decompõem-se no.57% de ácidos orgânicos como o glucónico. dando origem a com- presentes substâncias com propriedades antioxidantes como postos cuja detecção permite reconstituir a composição os tocoferóis e compostos fenólicos. Idealmente são compostos estáveis na natureza. apresentando elevadas quantidades de monossacaríde. encontrando-se esta de- siríngico . que afectem as oliveiras [7]. a malvidina liberta ácido posição totalmente definida.outro marcador importante do vinho tinto [5]. pendente de factores diversos como o tipo de pólen recolhido pelas abelhas. Os traçadores ou marcadores dos cafeico e ferúlico. apre- noleico e linolénico [6]. o linoleico (C18:2) Traçadores moleculares e o linolénico (C18:3). p-cumárico. siríngico. com os com- res de dissacarídeos. Além dos triglicéridos. pirúvico. Um dos compostos característicos do mel é o hidro. Dado o ele- compostos voláteis como os sesquiterpenos α-muuroleno ou vado tempo de permanência dos artefactos arqueológicos α-copaeno permite discriminar a área de produção do azeite. Figura 5 – Formação de ácidos gordos C16:0 e C18:0 por hidrólise de triacilgliceróis presentes no azeite Mel: o mel contém cerca de duzentas substâncias diferen.J ul -S et 14 Boletim Química n. A rtigos preservação desta em materiais arqueológicos [4]. 1). A identificação de traçadores moleculares permite rela- tes. Nestas con- dições os ácidos palmítico e esteárico são mais resistentes reduzido de fontes conhecidas (alguns exemplos na Tabela ao ataque químico relativamente aos ácidos insaturados li. em solos húmidos ou submersos. o mel pode ser caracterizado pela presença de [9]. cinâmico. arginina. re. sendo um produto natural não possui uma com- em ambiente fortemente alcalino. Estão também através de mecanismos conhecidos. máli. minerais. Por exemplo. enquanto o palmítico (C16:0) e o esteá- rico (C18:0) são os ácidos saturados mais abundantes (Figura Apesar de poderem sofrer alterações físicas. succínico e fumárico. vanílico e p-hidroxibenzóico exemplo. o levoglucosano (Figura 6) é um indicador sultante da digestão enzimática da glucose. esteróis e compostos resinosos. elágico. A identificação de vestígios de azeite moleculares são compostos químicos cuja presença é ca- em fragmentos cerâmicos é dificultada pela degradação dos racterística de uma única fonte emissora ou de um número compostos lipídicos por reacções de oxidação. n-octade- triptofano e cisteína. lípidos e compostos fenólicos como os canóico e cis-octadec-9-enóico podem estar relacionados ácidos gálico. algumas das substâncias orgânicas são rela- quantidades de fosfolípidos. e os ácidos n-tetradecanóico. nomeadamente os áci- inicial do material orgânico. também apresentar baixa solubilidade em água de forma a ficas ou climáticas e da existência de doenças características não serem facilmente lixiviados. o azeite contém também pequenas microbianas. cies lenhosas (em fogos ou na confecção de alimentos) teínas. da presença de celulose proveniente da queima de espé- co. e sazonais ou particularidades do seu manuseamento e róis. proteínas.indd 54 17-09-2014 22:03:55 . vitaminas. cloro. químicas ou 5). ferúlico. trissacarídeos e tetrassacarídeos [8]. uma espécie de impressão digital química. Os ácidos insa. n-hexadecanóico. pro. processamento. fosfolípidos e triacilgliceróis oxidados. turados mais abundantes são o oleico (C18:1).º 134. glucose e sacarose e quantidades meno. cuja presença distingue o azeite de outros óleos naturais. cítrico. monoésteres de cadeia longa (40 a 52 átomos de carbono) ximetilfurfural que é formado tanto pela desidratação de com número par de átomos de carbono. alcanos lineares hexoses em meio ácido como por reacções entre os amino- com número ímpar de átomos de carbono (C21 a C33) e ácidos ou proteínas e os hidratos de carbono [10]. Figura 6 – Degradação térmica da celulose com produção de levoglucosano 54 Q uímica 134 . pigmentos. aminoácidos como a prolina (dominante). Quando O mel. estes compostos devem estando os níveis destes dependentes das condições geográ. cionar o conjunto de compostos orgânicos determinados. postos ou misturas destes que estiveram na sua origem. os como a frutose. com as emissões resultantes da cozedura de carnes. condições ambientais Azeite: O azeite é composto por uma mistura de triacilglice. hidratos de carbo. cafeico. Por génico. As tem- ácidos gordos saturados com número par de átomos de peraturas elevadas ou armazenamentos prolongados po- carbono (C22 a C34). dem aumentar o nível de hidroximetilfurfural no mel [11]. clima. Nalguns casos a quantificação de sentando relações directas com a sua fonte. cerca de 0.

continua - Q uímica 134 .J ul -S et 14 55 Boletim Química n.indd 55 17-09-2014 22:03:55 .º 134. A rtigos Tabela 1 – Alguns marcadores de resíduos orgânicos Resinas O α-pineno β-pineno canfeno benzaldeído H H limoneno mirceno p-cimeno α-muuroleno H O OH O (+)-2-bornanona borneol verbenona verbeneno Vinho OH O O O HO HO OH OH OH O OH O OH OH ácido tartárico ácido málico ácido láctico O O HO O OH HO HO HO ácido ferúlico 4-etilguaiacol 4-etilcatecol O O O O O OH HO HO HO O ácido p-hidroxicinâmico vanilina siringaldeído .

provenientes maioritariamente hipótese do vinho ter permanecido algum tempo em reci- de compostos resinosos. Iniciou-se a investigação pela análise ao bico fundeiro de da análise ao bico fundeiro de ânfora Haltern 70 resulta- ânfora Haltern 70. 56 Q uímica 134 .J ul -S et 14 Boletim Química n.º 134. Triturou-se uma o 4-etilguaiacol e o 4-etilcatecol. por exemplo. Os primeiros resultados ram este trabalho. que pen. e numerosos alcanos de cadeia linear) duos orgânicos visíveis.continuação - O COOH COOH OH HO O+ O HO OH O O OH OH OH OH malvidina ácido xiquímico ácido siríngico Azeite CH3(CH2)7 (CH2)7COOH CH3(CH2)14COOH CH3(CH2)16COOH ácido oleico ácido palmítico ácido esteárico CH3(CH2)4 (CH2)7COOH CH3(CH2)17CH3 OH ácido linoleico nonadecano 3-metilbutan-1-ol O CH3CH2 (CH2)7COOH hexanal OH ácido linolénico hexan-1-ol H OH H H timol α-copaeno α-calacoreno Voltando aos dois fragmentos cerâmicos que origina. O bordo de ânfora Urceus. A rtigos . não levantou grandes problemas. α-copaeno sávamos ser de análise mais difícil por não apresentar resí. de azeite. encontravam-se sobrepostas o que pientes de madeira antes de transferido para a Haltern 70. químicos juntaram-se compostos característicos de óleos dualmente (Figura 7). a estes grupos de traçadores coluna flash. que conclusões se tiraram? Para além de numerosos compostos de origem resinosa. naturais (sesquiterpenos como o α-patcholeno.indd 56 17-09-2014 22:03:55 . Estas. assim como aldeídos fe- porção do resíduo e extraiu-se o material orgânico num aparelho Soxhlet. ção da lignina da madeira pelo álcool. e o α-muuroleno. Efectuou-se uma nova extracção seguida de uma transporte de vinho. Contudo. O cromatograma do extracto orgânico nólicos cuja presença poderia estar associada à degrada- revelou um elevado número de bandas de intensidade ele. tendo-se colocado a vada não resolvidas. por se acreditar que o extenso depósito ram compostos característicos da presença de vinho como de material orgânico facilitaria o estudo. mascarava a presença de compostos de intensidade mais Os resultados obtidos pareciam conduzir esta ânfora para o reduzida. dando origem a 20 fracções estudadas indivi. como.

usando-se colmeias de caixa as alças são re- tiradas no período de cresta com perturbações reduzidas do Vinho com azeitonas? enxame. podendo este procedimento explicar a anormal diversidade de hidratos Recentemente (2014) o mar de Esposende colocou a des- coberto vestígios arqueológicos de um naufrágio quinhen- de carbono encontrada no fragmento de ânfora Urceus. Q uímica 134 . De facto. E a ânfora Urceus? Nesta ânfora detectou-se um elevado número de compostos característicos de resíduos de vinho. extracção em sistema Soxhlet (b) e cromatografia em coluna flash ((c) existência de diferentes procedimentos para a extracção do a (e)) com eluição de diferentes fracções de compostos (f) mel. Era também comercializado para forta- lecer vinhos locais de qualidade inferior. o mel crestado. Esta primeira hipótese foi também suportada pela realização de análises cromatográficas a mel proveniente de origens ge- ográficas distintas. minimizando a interacção com as abelhas obreiras e a abelha rainha. o colesterol prove- entre si à luz da experiência actual. Neste processo. cuja presença é aparentemente incompatível com a utilização destes contentores enquanto colmeias cerâmi- cas. um lípido esteroide normalmente associado a resíduos de alimentos de origem animal. ou utilizado como substituto do mel. ou oliva ex defructum. Nesta altura. um produto de consumo frequente na a) época de Augusto. a forma tubular das col- meias provocaria a necessidade de espremer as colmeias Estes resultados pareciam ser inconsistentes por indiciarem para delas se retirar o mel (inclusive com a ajuda de água o transporte de azeitonas imersas em vinho. a reunião des- niente do corpo dessas abelhas e larvas [14] contaminaria tes resultados químicos com informações históricas permi. Novos achados É conhecido o hábito da época de Augusto de se adicionar mel ao vinho para o tornar mais doce [12. ain- Os materiais cerâmicos estão já em estudo… da nos nossos dias é vulgar fumigar-se as colmeias para acalmar as abelhas e as afastar.13]. Todavia. Estas conclusões foram mais para impedir que insectos como as formigas cheguem ao produto e. Este tem a função de criar um canal de água em torno da parte superior do bojo e impregnado o mel crestado. pode dever-se à aplicação de fumo durante o processo de crestar as colmeias para delas retirar o mel. mel. o que repre- quente) matando neste processo parte das abelhas e larvas sentaria uma mistura de matrizes orgânicas incompatíveis ainda no seu interior. b) colmeia de alças tidade de hidratos de carbono. Uma análise das diferentes formas das colmeias ancestrais e mo- Figura 7 – Pormenor do procedimento de extracção do resíduo orgânico dernas (a forma ancestral é tubular enquanto a moderna é da ânfora tipo Haltern 70: pulverização da amostra em almofariz de ágata uma caixa com quadros de alça) permitiu concluir-se da (a). Esta detecção foi inicialmente atribuída a contamina- ção pós-deposicional ou à manipulação indevida dos frag- mentos cerâmicos após desenterramento e limpeza. não se tendo detectado quaisquer vestí- gios de colesterol nas amostras de mel fresco.indd 57 17-09-2014 22:03:56 . correspondentes a um naufrágio da época romana. frequentemente situado a cerca de um materiais celulósicos terão sido emitidos para a atmosfera terço da parte superior do pote ou na proximidade da boca. de forma a permitir um acesso mais seguro ao mel. nem após a sua desidratação acelerada durante três dias a 80 ºC. ca- duas dezenas de pelouros (balas de canhão em pedra). bética. por tarde reforçadas com a análise de fragmentos cerâmicos de outro lado. Nestes últimos (uma espécie de tubos cerâmicos estriados no interior e abertos nas duas extremidades) detectou-se colesterol. Um tista de onde se recuperaram pratos em estanho e latão e outro facto curioso foi a detecção de levoglucosano. tiu concluir tratar-se de azeitonas em conserva de vinho. Na antiguidade.º 134. sugerindo a fortificação do vinho com produtos açucarados. evitar que este escorra ao longo das paredes. O defructum era um líquido doce obtido pela cozedura do mosto. assim como grande quan- Figura 8 – a) colmeia cerâmica romana. Embora a sua controu-se na mesma praia algumas centenas de fragmen- presença pareça não ser compatível com a utilização desta tos de ânforas. o levoglucosano 2 Recipientes com um ressalto muito saliente (mais raramente dois) e outros compostos provenientes da degradação térmica de em forma de aba ou “pestana”. ingrediente de cozinha. maioritariamente da tipologia Dressel 7/11 ânfora enquanto recipiente destinado a vinho adocicado. que poderia ser comercializado b) como bebida. com especial destaque para os ácidos tartárico e málico. A rtigos potes meleiros2 e colmeias. En- racterístico da queima de biomassa vegetal. como por exemplo. De facto.J ul -S et 14 57 Boletim Química n.

J.F. “Caracterização de mel com vista à produção de hidromel”. Rolando.sciencedaily. Archaeol. E. T. um dos quais um fotocatalisador de um metal de transição que absorve luz visível. Giachi.º 134. Riley. F. “Ânforas tipo urceus de produção Bética e Faull. Food Anal. nomeadamente no âmbito do desenvolvimento de fármacos. B. Um grupo de químicos da Universidade de Wisconsin–Madison. Consonni. Lamuela-Raventos.1251511) Paulo Mendes (pjgm@uevora. Estevinho. Revista de Prehistoria y Arque- 900-905 ología de la Universidad de Sevilla 17 (2008) 267-280 [8] R. J. Barnard.pt) Sociedade Portuguesa de Química visite-nos www.β-insaturadas. DOI: 10. C. Guasch-Jane. G. Science 344 (2014) 392-396. Skubi. Lett. Oxf. poucos métodos com eficácia similar existem para o controlo estereoquímico de reacções de cicloadição promovidas fotoquimicamente. Regert. 76 pescado en occidente durante la Antiguedad. M. Namieśnik.indd 58 17-09-2014 22:03:56 . Anal. Pires. “Uma das razões para que este campo tenha falhado até agora é que um único catalisador teve que fazer ambos os papéis. Jauregui. maior flexibilidade estereoquímica e melhor eficiência do que os métodos de cicloadição fotoquímicos enantiosselectivos reportados até agora. [12] R.L.R. 48 (2010) 3462-3470 [4] H.P. [1] R. Vanderplanck. concluiu. ainda não solucionado. 38 (2011) 977-984 produções regionais e locais do NW Peninsular”. Vancraenenbroeck. Um grande desafio. 44 (2011) 1807-1820 Actualidades Científicas Luz visível promove catálise assimétrica Em contraste com a grande variedade de sistemas catalíticos que estão disponíveis para controlar a estereoquímica de reacções de cicloadição promovidas termicamente. Archaeol.J ul -S et 14 Boletim Química n. C. Schultz. Iglesias.P.spq. J. Morais. Cádis. D. Sci. EUA. A rtigos Bibliografia [9] A. G. “Novos dados sobre as ânforas vinárias béticas [7] A. C. e um ácido de Lewis como co-catalisador estereosselectivo. absorver a luz e controlar a quiralidade”.W. Ibern-Gomez. 74 (2002) 4868-4877 Toxicol. Food Chem. [11] X. alteram-se ambos os efeitos. Cagliani.P. J. 21 (2002) 63-75 [13] R.” SPAL. Du. Anal. Esta técnica pode ter importante impacto nos químicos sintéticos que procuram compostos enantiosselectivamente puros.R. Chem. Evershed. F. Michez. TrAC-Trend Anal. L. Kujawski. A. Ao separar os dois papéis. Areshian. so Internacional CETARIAE 2005. K.N. Lo- (2013) 543-548 gnay. 401- (2004) 1672-1677 415 [6] F. Damascelli. G. Colombini. Cren-Olive. Salsas y Salazones de O. Food Control 32 [14] M. Methods 6 (2013) de tipo urceus. D. Palmisano. Dooley. Escola Superior Agrária de Bragança.P.L. usando um sistema de catalisador duplo. um dos investigadores. ou seja. Anal. M. pode-se fazer todo o tipo de alterações para promover a enantiosselectividade sem diminuir a capacidade do catalisador fotoquímico”. Cogliati. Morais. Chem. Chem.pt 58 Q uímica 134 . Congres- [5] M.M. C. J. Modugno. Archaeometry 50 (2008) 895-924 2008 [2] M.R. Pereira.M. K. A independên- cia destes dois catalisadores permite maior alcance. desenvolveu uma estratégia para a eliminação do problema da racemização em reacções de fotocicloadição [2+2] assimétrica de cetonas α.com/releases/2014/04/140424143653. Andres-Lacueva. Yoon. Mi- [10] M. “Modificando o catalisador único. 79 (2005) 83-90 (2008) 785-793 [3] N. Ribechini. 27 crochem.1126/science. na concepção de reacções de fotocicloadição catalíticas enantiosselectivas tem sido a dificuldade de controlar a race- mização que ocorre pela fotoexcitação directa de substratos ainda não coordenados ao catalisador. Gasparyan. A. M. Garnier. R. Feás. (fontes: http://www. com forma- ção dos correspondentes ciclobutanos. dissertação de mestrado em Qualidade e Se- gurança Alimentar. S. referiu Tehshik Yoon.htm J.