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HISTÓRIA DA CULTURA E

DA SOCIEDADE NO MUNDO
CONTEMPORÂNEO

autor
LEONARDO TEIXEIRA

1ª edição
SESES
rio de janeiro  2015
Conselho editorial  luis claudio dallier saldanha; roberto paes; gladis linhares

Autor do original  leonardo teixeira

Projeto editorial  roberto paes

Coordenação de produção  gladis linhares

Projeto gráfico  paulo vitor bastos

Diagramação  bfs media

Revisão linguística  amanda duarte aguiar

Revisão de conteúdo  paulo cotias

Imagem de capa  olga tropinina | dreamstime.com

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida
por quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em
qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora. Copyright seses, 2015.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

T355h Teixeira, Leonardo


História da cultura e da sociedade no mundo contemporâneo /
Leonardo Teixeira
Rio de Janeiro : SESES, 2015.
120 p. : il.

isbn: 978-85-5548-114-7

1. Movimentos culturais. 2. Segunda guerra mundial. 3. Cultura.


I. SESES. II. Estácio. cdd 306.0981

Diretoria de Ensino — Fábrica de Conhecimento


Rua do Bispo, 83, bloco F, Campus João Uchôa
Rio Comprido — Rio de Janeiro — rj — cep 20261-063
Sumário

1. Pós-Segunda Guerra Mundial 5

1.1  O mundo após a segunda Guerra Mundial 7


1.2  A relação do Brasil com a Segunda Guerra e
o fim do Estado Novo 17
1.3  Descolonização da Ásia e África 19

2. A alternativa socialista e
os conflitos mundiais 25

2.1  O Socialismo Russo 27


2.2  Guerra Fria: política externa dos
Estados Unidos e União Soviética 29
2.3  Revolução Cubana 36
2.4  Revolução Chinesa 41

3. Movimentos culturais da década 1960-70 47

3.1  Movimentos Culturais nas décadas de 1960-70 49


3.2  O movimento afroamericano 50
3.3  O feminismo 59
3.4  O movimento Hippie 63
3.5  Maio de 1968 na França 65
3.6  Cultura brasileira nas décadas de 1960 e 1970 66
4. O neoliberalismo: internacionalização
da economia 75

4.1  Os caminhos da internacionalização da economia 77


4.2  O estado de bem-estar social – Welfare State 77
4.3  As políticas econômicas de
Margaret Hilda Thatcher e Ronald Reagan 79
4.4  A experiência de neoliberal na America Latina 82
4.5  O Brasil no contexto internacional 85

5. Globalização e o fim da URSS 95

5.1  Crise do sistema socialista soviético 97


5.2 Globalização 101
5.3  O Fórum Econômico de Davos 105
5.4  Fórum Social Mundial 106
5.5  11/09 e o início da guerra contra o Terrorismo. 109
5.6  Os Novos desafios da economia 112
1
Pós-Segunda
Guerra Mundial
Este capítulo pretende analisar a dinâmica contemporânea do mundo Pós-Se-
gunda Guerra. A crescente bipolarização da política interfere na construção de
um clima de instabilidade generalizado. Apesar da improvável instituição da
Terceira Guerra Mundial houve uma imposição de um clima de insegurança
responsável pelo avanço na corrida armamentista e consequente crescimento
da indústria bélica. Esse contexto afeta a dinâmica de vários países no globo.
Analisaremos as relações desse contexto com a crise do governo de Vargas no
Brasil e a eclosão dos movimentos de descolonização na África e na Ásia.

OBJETIVOS
•  Localizar o contexto de instabilidade e bipolarização mundial.
•  Identificar os objetivos da criação da ONU.
•  Compreender a crise do Estado Novo no Brasil.
•  Analisar o processo de descolonização da África e da Ásia.

6• capítulo 1
1.1  O mundo após a segunda Guerra
Mundial

Logo após a Segunda Grande Guerra o mundo conheceu outra configuração so-
cial, política e econômica. As transformações originadas do conflito mundial
estabeleceram uma nova ordem internacional marcada principalmente pela
polarização dos poderes entre países capitalistas e socialistas.
Em fevereiro de 1945 os líderes Winston Churchill, primeiro ministro da
Inglaterra, Josef Stalin da União Soviética, e Franklin D. Roosevelt dos Estados
Unidos da América, reuniram na cidade de Yalta na atual Ucrânia. Os três rea-
lizaram ao todo 3 encontros para chegarem aos acordos que colocaram fim a
Guerra e estabeleceram os rumos políticos pós conflito. O último dos encon-
tros foi realizado na cidade alemã de Potsdam, na qual foram assinados acor-
dos internacionais que figurariam durante o período conhecido como Guerra
Fria, o termo é utilizado para designar o período no qual Estados Unidos (po-
tência capitalista) e União Soviética (potência socialista) disputavam áreas de
influência para expandir seus poderes, porém os conflitos ocorriam de manei-
ra indireta sem que a rivalidade levasse a outra catástrofe bélica.
O clima de tensão no mundo era grande, pois ambas as potências possuíam
armas nucleares que colocavam em risco a vida no planeta. Entre os termos do
acordo, constavam, entre outros: a reapropriação dos territórios ocupados pela
Alemanha Nazista, a desmilitarização e redemocratização da Alemanha com o
fim do Nazismo, o julgamento dos criminosos de Guerra, organização dos va-
lores de indenização de guerra aos países vencedores do conflito, a divisão da
Alemanha em quatro áreas (EUA, Inglaterra, União Soviética e França).
Um dos pontos mais polêmicos em relação esse momento histórico é a ren-
dição do Japão. Na conferência de Potsdam, os aliados exigiram um documen-
to de rendição assinado pelo governo do Japão. Como o Japão não assinou o
termo, em agosto de 1945, meses após o fim dos conflitos armados, os EUA lan-
çaram sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki duas bombas atômicas que
mataram milhares de pessoas. Esse fato histórico não possui uma conclusão,
especulasse sobre o real motivo do lançamento das bombas, os historiadores
ainda não chegaram num consenso.

capítulo 1 •7
Ouça a música Rosa de Hiroshima, interpretada pelo cantor Ney Matogrosso e escrita
por Vinicius de Morais. Os resultados dos ataques foram catastróficos para os seres
humanos e o meio ambiente. Milhares de pessoas desenvolveram câncer, ficaram ce-
gas, surdas; em relação à natureza, plantações, rios e lagos foram contaminados, a
vegetação devastada. Nas duas cidades morreram aproximadamente 210 mil pessoas
com as explosões, e posteriormente os efeitos radioativos mataram outros milhares.
A Rosa de Hiroshima
Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

Logo em outubro de 1945 foi fundada a Organização das Nações Unidas.


Sua criação é resultado do encontro entre os países vencedores da Segunda
Guerra na cidade de São Francisco nos EUA. Após a Primeira Guerra, em 1919,
foi criada a Liga das Nações que possui a missão de evitar novos conflitos e bus-
car a manutenção da paz entre as nações, como sabemos ela fracassou em sua
missão, pois não conseguiu evitar o segundo conflito mundial.
A ONU, como é conhecida para nós brasileiros, possui, desde sua criação aos
dias de hoje, a missão de proteger a paz mundial, equilibrar as relações interna-
cionais, instituir a cooperação entra os países, garantir o respeito aos direitos

8• capítulo 1
fundamentais da humanidade, e incentivar o progresso social. Para tanto, fo-
ram inventadas diversos órgãos, agências especializadas, fundos, programas,
comissões, departamentos e escritórios, que auxiliam a intervenção em áreas
específicas e desenvolvem ações humanitárias. Citaremos algumas, pois atual-
mente são vinte e seis programas, fundos e agências, vejamos: Organização das
Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO); Fundo Monetário
Internacional (FMI); Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento
(BIRD); Organização Internacional do Trabalho (OIT); Organização Mundial da
Saúde (OMS); Organização de alimentação e Agricultura (FAO) e o Acordo Geral
de Tarifas e Comércio (GATT).
Notamos que a ideia e os objetivos são excelentes e poderiam afetar as rela-
ções mundiais de maneira favorável à todas as nações, porém o funcionamento
de sua estrutura mantém as grandes potências no controle da situação. Em sua
estrutura, encontramos entre outros,
a) Assembleia Geral – de natureza consultiva e de participação aberta a
todos os membros, analise as questões mundiais e emite uma recomendação
adequada a situação, no entanto não tem poder de decisão.
b) Conselho de Segurança – constituído de quinze países membros, é res-
ponsável pelas decisões da organização. Porém, cinco países são permanentes:
EUA, Grã-Bretanha, França, Rússia e China. Os outros membros são eleitos a
cada ano. A maior diferença entre eles é que os membros permanentes pos-
suem poder de veto às propostas do Conselho, isto é, os interesses diversos
das grandes potências emperram, em determinados casos, os trabalhos da
organização.
c) Secretaria Geral – responsável por convocar as reuniões e publicar
as decisões da organização, possui um secretário geral que é escolhido pelo
Conselho de Segurança e aprovado pela Assembleia Geral.
d) Tribunal Internacional de Justiça – Responsável por criar e regulamen-
tar uma legislação que seja acatada por todos os países do planeta.
Leia a seguir o preâmbulo da Carta das Nações Unidas, escrita no ano de sua
fundação:

capítulo 1 •9
Preâmbulo da Carta da ONU
NÓS, OS POVOS DAS NAÇÕES UNIDAS, RESOLVIDOS
a preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra,que por duas vezes, no espaço
da nossa vida, trouxe sofrimentos indizíveis à humanidade, e a reafirmar a fé nos direi-
tos fundamentais do homem, na dignidade e no valor do ser humano, na igualdade de
direito dos homens e das mulheres, assim como das nações grandes e pequenas, e a
estabelecer condições sob as quais a justiça e o respeito às obrigações decorrentes de
tratados e de outras fontes do direito internacional possam ser mantidos, e a promover
o progresso social e melhores condições de vida dentro de uma liberdade ampla.
E PARA TAIS FINS,
praticar a tolerância e viver em paz, uns com os outros, como bons vizinhos, e unir as
nossas forças para manter a paz e a segurança internacionais, e a garantir, pela acei-
tação de princípios e a instituição dos métodos, que a força armada não será usada a
não ser no interesse comum, a empregar um mecanismo internacional para promover o
progresso econômico e social de todos os povos.
RESOLVEMOS CONJUGAR NOSSOS ESFORÇOS PARA A CONSECUÇÃO DESSES
OBJETIVOS.
Em vista disso, nossos respectivos Governos, por intermédio de representantes reuni-
dos na cidade de São Francisco, depois de exibirem seus plenos poderes, que foram
achados em boa e devida forma, concordaram com a presente Carta das Nações Uni-
das e estabelecem, por meio dela, uma organização internacional que será conhecida
pelo nome de Nações Unidas. <http://nacoesunidas.org/carta/>

CONEXÃO
Visite o site <http://www.onu.org.br/> das nações unidas no Brasil e descubra as diversas
áreas de atuação da organização. Você poderá também verificar as principais discussões
políticas a respeito das relações internacionais.

Nos anos seguintes a 1945 o mundo passou a reconstruir todo prejuízo tra-
zido pela Segunda Guerra, tanto os meios concretos como as tradições e costu-
mes. O clima de desilusão na humanidade era grande e enormes feridas preci-
savam ser curadas. A crueldade do conflito tinha abalado o espírito humano,

10 • capítulo 1
campos de concentração, extermínio indiscriminado, desrespeito aos direitos
e bombas sobre as cabeças fizeram enormes estragos.
O resultado da guerra foi a emergência de duas grandes potências que pas-
saram a dividir o planeta em dois blocos. De um lado, os EUA que seguia a ló-
gica capitalista e do outro, a União Soviética, socialista. Notamos que a partir
desse momento histórico ocorrerá uma mudança no eixo de decisões políticas
e econômicas em perspectiva mundial. Passam a figurar Moscou e Washington
como centro de criação de programas políticos e econômicos. As três principais
correntes ideológicas eram o comunismo ligado a União Soviética, o socialismo
que procurava se instalar em alguns países europeus e o capitalismo.
O comunismo buscava a passagem do Estado para a o socialismo pela apro-
priação por parte do operariado dos meios de produção da riqueza social. Isso,
garantiam seus líderes, levaria a diminuição das injustiças sociais. Os socialis-
tas, que após a guerra possuíam representantes em quase todos os parlamentos
europeus, desejavam elaborar uma socialização gradual das propriedades agrí-
colas, industriais e dos bancos, para que pudessem garantir a igualdade e li-
berdade, com justiça. O capitalismo por sua vez desejava garantir o liberalismo
político e econômico alinhando o interesse das grandes indústrias ao governo.
Dessa forma, podemos observar que a Segunda Guerra trouxe um reordena-
mento geopolítico. Nas conferências de Yalta e Potsdam, descritas acima, fo-
ram criadas as alianças entre os países de interesses comuns e estabelecidas as
áreas de influência. O mapa do mundo passou a ser dividido em duas grandes
áreas, os aliados da União Soviética e os aliados do EUA.
O realinhamento dos territórios pode ser muito bem observado no mapa
da Europa, que de 1947 a 1989 possuía uma linha divisória que ficou conhe-
cida como cortina de ferro. O termo foi criado pelo primeiro-ministro inglês
Winston Churchill em 1946 para designar a divisão ideológica e política entre o
bloco socialista e o bloco capitalista.
A Europa dividia-se em parte Ocidental: Portugal, Espanha, França, Itália,
Grécia, Turquia, Luxemburgo, Bélgica, Países Baixos, Grã-Bretanha, Irlanda,
Dinamarca, Noruega, Suécia, Finlândia, Islândia e Alemanha Ocidental. Do
lado Oriental: Bulgária, Romênia, Hungria, Tcheco-Eslováquia, Polônia, União
Soviética e Alemanha Oriental. Restavam ainda países neutros de economia
de mercado Suíça e Áustria, e países neutros de economia socialista: Albânia
e Iugoslávia.

capítulo 1 • 11
Perante esse quadro, um ponto que nos chama a atenção é a divisão da
Alemanha. No ano de 1949 o território alemão passou a ser dividido em dois
países, que passaram a simbolizar a bipolarização mundial. A cidade de Berlim,
por exemplo, foi dividida em duas partes: de um lado a República Federal
Alemã, do outro a República Democrática Alemã, a primeira estava sob a influ-
ência do capitalismo estadunidense, enquanto a segunda sob a influência do
socialismo soviético.
Nesta região era possível observar o modo de vida dos dois blocos econô-
micos que possuíam a hegemonia no mundo. Rapidamente o capitalismo oci-
dental reconstruiu Berlim Ocidental que bastante modernizada passou a atrair
milhares de alemães de Berlim Oriental. Entre as décadas de 1950 e 1960 mais
de 2 milhões de alemães passaram da parte oriental da cidade para a ociden-
tal, todos procurando uma qualidade de vida diferente. Para evitar que mais
pessoas migrassem o governo da Alemanha Oriental construiu uma cerca, que
depois foi substituída por um muro de concreto que impedia a passagem tanto
de um lado como do outro.
O muro de Berlim ficou conhecido mundialmente e em novembro de 1989
sua destruição marcou o fim do período de hegemonia dos blocos socialista e
capitalista. Vejamos como cada um dos blocos organizou sua política econô-
mica durante meio século. Primeiramente os anseios capitalistas dos Estados
Unidos da América.
Para conter os avanços socialistas foi criada a Doutrina Truman. Esse proje-
to político e econômico visava auxiliar qualquer país contra o avanço dos comu-
nistas. A intervenção na Grécia e Turquia, por exemplo, resultou no assassinato
de diversos líderes, e na América Latina contamos também alguns golpes de
Estado, como no caso do Brasil.
Após o fim dos conflitos armados o território europeu estava bastante
destruído, cidades inteiras foram aniquiladas e os campos destruídos pelas
explosões. No entanto, por uma questão geográfica os Estados Unidos estive-
ram protegidos e viram durante a guerra suas indústrias crescerem e o desen-
volvimento tecnológico ser alavancado. Perante o medo do crescimento das
ideias comunistas nos países europeus devastados, em 1947 é lançado o Plano
Marshal. Neste planejamento foram enviados bilhões de dólares para países
como Bélgica, França, Itália, Grécia, Dinamarca, Holanda, entre outros. Esses
recursos foram fundamentais para a reconstrução dos países do ocidente euro-
peu. Juntamente com os dólares foram as empresas estadunidenses que pro-
duziam e disseminavam um modo particular de vida. Como a adesão ao plano

12 • capítulo 1
exigia contrapartidas, o líder soviético Josef Stálin recusou-se a participar e com
isso os países sob a influência da União Soviética não puderam receber essa
ajuda.
Dessa maneira, os países do Leste Europeu organizaram em 1949 o
Conselho para Assistência Econômica Mútua, conhecido como Comecon. A
intenção desse grupo era organizar recursos para reconstrução dos países que
não optaram pelo Plano Marshall. Entre os países instalou-se uma coopera-
ção científica e financeira que buscava o desenvolvimento de uma planifica-
ção econômica. No texto A situação económica ontem e hoje nos países do
Leste Europeu, numa conferência no Instituto Superior de Economia e Gestão,
o Professor Doutor Sérgio Ribeiro nos esclarece alguns pormenores do acordo
entre esses países, vejamos:

No plano económico, também em resposta ao Plano Marshall, de ajuda dos Estados


Unidos à Europa Ocidental para travar as tomadas de posição e as conquistas do mo-
vimento operário, sindical e político, e que levou à OECE, OCDE, CEE e EFTA, a URSS
lançou o Plano Molotov: uma série de acordos bilaterais, entre o estado soviético e
cada uma das democracias populares, que estipulavam, a longo prazo, ajuda técnica e
financeira, e intercâmbio de produtos e matérias-primas. Para a coordenação conjunta
da planificação económica, criou-se em 1949 o COMECON, o Conselho de Ajuda
Económica Mútua, organização de cooperação económica, científica e técnica fun-
dada pela URSS, Polónia, Checoslováquia, Bulgária e Albânia (que viria a abandonar
a organização), a esta aderindo entretanto a República Democrática Alemã (1950),
a Mongólia (1962), Cuba (1972) e o Vietname (1978). A Jugoslávia tornou-se país
associado em 1964. Foram celebrados acordos de cooperação com outros estados,
como a Finlândia (vizinha e cooperante, com uma história que gostaria de contar…)
Embora não se tratasse de um “mercado comum” - união aduaneira, nem sequer
de uma zona de trocas livres, o COMECON, depois de vinte anos dedicados à recu-
peração e estruturação em moldes e formatos novos, lançou em 1971 um “Programa
geral para extensão e aperfeiçoamento da cooperação e para o progresso da
integração económica socialista entre os países-membros”, a aplicar a longo
prazo, isto é, 20 anos, entre 1971 e 1990. Vejamos alguns dados, tão incertos e tão
falíveis como todos. Entre 1950 e 1970, a produção industrial passou do indicador
100 para 1157 na Bulgária, 1137 na Roménia, 758 na Polónia, 688 na URSS, 535 na
RDA, 520 na Hungria e 501 na Checoslováquia, enquanto que, em 5 países “ociden-
tais” de referência passou para 460 na Itália, 430 na RFAlemanha, 315 na França, 225

capítulo 1 • 13
nos Estados Unidos, e 178 no Reino Unido em claro declínio industrial. Em relação a
1939, antes da guerra, essa produção industrial teria crescido 36 vezes na Bulgária,
17 vezes na Roménia e na Polónia, 12 vezes na URSS, 8 vezes na Hungria, 7 vezes
na Checoslováquia e 6 vezes na RDA. Depois da necessidade imperiosa de um cres-
cimento quantitativo, tal como já referi, citando Lénine, no início dos anos 20, para a
União Soviética, a grande questão que começa na década de 60, e se coloca com toda
a acuidade na década de 70, é a da passagem a uma outra etapa, em que a vertente
qualitativa ganhasse maior importância, quer na racionalidade do aproveitamento
dos recursos, quer na qualidade dos produtos, com visíveis efeitos na modernidade
dos níveis de vida. (RIBEIRO, 2015, p.7-8)

Podemos notar que nos anos seguintes à Segunda Guerra os dois Blocos
Econômicos conseguiram crescer e desenvolver os países participantes dentro
dos planos capitalistas e socialistas. Dentro de cada um dos sistemas notamos
o desenvolvimento pautado nas pesquisas científicas e no avanço tecnológico,
as áreas industriais e de agricultura atingiram patamares muito superiores ao
século XIX.
A partir dos planos de recuperação econômica, tantos os países capitalistas,
quanto as democracias populares, como eram conhecidos os socialistas, ini-
ciaram a formação de alianças militares. No ano de 1949, sob a liderança dos
Estados Unidos, foi criada a Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN.
Países como Canadá, Grã-Bretanha, França, Itália, Portugal, Bélgica, Holanda,
Noruega, Islândia, Luxemburgo e Dinamarca estabeleceram uma união militar
para combater o comunismo, e caso algum países do Leste Europeu quisesse
aderir ao capitalismo, o poderia bélico estaria de prontidão. Do lado oposto os
países sob a influência da União Soviética estabeleceram o Pacto de Varsóvia.
A ação militar socialista previa que em casos de ataques dos países capitalistas
haveria um comprometimento de ajuda militar. Contudo, não foram poucas
as ações militares do Pacto de Varsóvia que se voltaram contra seus membros,
sempre no intuito de abafar revoltas contra o sistema socialista. A Primavera
de Praga foi um dos exemplos mais marcantes. Em 1968 o líder comunista
Alexander Dubcek passou a governar a Tchecoslováquia com a intenção de
construir uma socialismo mais humano, ou seja, dar liberdade aos membros
do partido e não seguir a risca as ordens vindas de Moscou. Diversas transfor-
mações passaram a incomodar a União Soviética, por exemplo o aumento das

14 • capítulo 1
atividades cristãs e a ampliação dos direitos civis, e logo as tropas militares or-
ganizadas pelo Pacto de Varsóvia invadiram a capital Praga para reprimir as re-
formas iniciadas pelo governo de Dubcke.
A partir desses pactos militares e dos acordos de auxílio financeiro averigua-
mos um padrão que funcionou durante quatro décadas e meia desde o ataque
nuclear ao Japão ao fim da União Soviética. Sem conflitos declarados, as duas
grandes potências do mundo viveram em constante confronto ideológico, polí-
tico e econômico: a Guerra Fria.
Para o historiador Eric Hobsbawn, podemos considerar a Guerra fria a
Terceira Guerra Mundial, porém com características bastante peculiares:

A Segunda Guerra Mundial mal terminara quando a humanidade mergulhou no que se


pode encarar, razoavelmente, como uma Terceira Guerra Mundial, embora uma guer-
ra muito peculiar. Pois, como observou o grande filósofo Thomas Hobbes, “a guerra
consiste não só na batalha, ou no ato de lutar: mas num período de tempo em que a
vontade de disputar pela batalha é suficientemente conhecida” (Hobbes, capítulo 13).
A Guerra Fria entre EUA e URSS, que dominou o cenário internacional na segunda
metade do Breve Século XX, foi sem dúvida um desses períodos. Gerações inteiras se
criaram à sombra de batalhas nucleares globais que, acreditava-se firmemente, podiam
estourar a qualquer momento, e devastar a humanidade. Na verdade, mesmo os que
não acreditavam que qualquer um dos lados pretendia atacar o outro achavam difícil
não ser pessimistas, pois a Lei de Murphy é uma das mais poderosas generalizações
sobre as questões humanas (“Se algo pode dar errado, mais cedo ou mais tarde vai
dar”). À medida que o tempo passava, mais e mais coisas podiam dar errado, política e
tecnologicamente, num confronto nuclear permanente baseado na suposição de que
só o medo da “destruição mútua inevitável” (adequadamente expresso na sigla MAD,
das iniciais da expressão em inglês – mutually assured destruction) impediria um lado
ou outro de dar o sempre pronto sinal para o planejado suicídio da civilização. Não
aconteceu, mas por cerca de quarenta anos pareceu uma possibilidade diária. A pecu-
liaridade da Guerra Fria era a de que, em termos objetivos, não existia perigo iminente
de guerra mundial. Mais que isso: apesar da retórica apocalíptica de ambos os lados,
mas sobretudo do lado americano, os governos das duas superpotências aceitaram a
distribuição global de forças no fim da Segunda Guerra Mundial, que equivalia a um
equilíbrio de poder desigual mas não contestado em sua essência. A URSS controlava
uma parte do globo, ou sobre ela exercia predominante influência – a zona ocupada

capítulo 1 • 15
pelo Exército Vermelho e/ou outras Forças Armadas comunistas no término da guer-
ra – e não tentava ampliá-la com o uso de força militar. Os EUA exerciam controle e
predominância sobre o resto do mundo capitalista, além do hemisfério norte e oceanos,
assumindo o que restava da velha hegemonia imperial das antigas potências coloniais.
Em troca, não intervinha na zona aceita de hegemonia soviética. (HOBSBAWN, 1995,
p.224)

Percebe-se dessa leitura que a divisão não era equânime, para Hobsbawn as
linhas que demarcavam as áreas de influência, tanto soviética quanto estaduni-
dense, foram traçadas ainda no final do conflito, entre os anos de 1943 e 1945.
O historiador nos explica que a crença no fim do mundo caso houvesse ou-
tro conflito armado não é suficiente para a compreensão do período. Ele nos
chama a atenção para o fato de que a Guerra Fria, primeiramente, alicerçava-
se na necessidade de garantir o futuro do sistema capitalista e do liberalismo.
Especialistas econômicos do período previam que o pós-guerra seria outra eta-
pa de crise, assim como ocorrera depois da Primeira Grande Guerra.
Portanto, o objetivo dos países do bloco capitalista era auxiliar os povos
a manterem suas instituições livres de regimes totalitários e a integridade
de cada nação. A ajuda financeira de recuperação estava atrelada a exigência
da aprovação pelos EUA do regime político e econômico adotado pela nação
solicitante.
Nesse caminho de protecionismo encontramos também o caso de milha-
res de judeus sobreviventes da Segunda Guerra. Durante o conflito a Alemanha
Nazista exterminou aproximadamente 6 milhões de judeus. Com o fim do con-
flito os sobreviventes passaram a ser conduzidos pelas organizações humani-
tárias para áreas na palestina, que na época era um território dominado pelos
ingleses. A ONU em 1947 resolveu criar então a divisão da área em dois estados:
o Estado Árabe e o Estado Judeu. No ano seguinte os líderes judeus consegui-
ram organizar a população e fundaram o Estado de Israel. Em grande parte essa
organização ganha força do movimento Sionista, criado quase meio século an-
tes. Pautados na leitura dos textos bíblicos, os sionistas acreditavam que existia
uma área reservada para o território de Israel, a Bíblia refere-se a Canaã. Um
judeu chamado Theodor Herzl lançou em 1895 o livro O Estado Judeu, no qual
afirmava ser necessária a constituição de um congresso formado somente por

16 • capítulo 1
judeus. Assim, os líderes sionistas que aceitaram a repartição elaborada pela
ONU entraram em conflito com os líderes árabes, que eram contrários a divi-
são. Árabes e judeus iniciaram um conflito armado, que reverbera até os dias
de hoje, e Israel ampliou sua área para além das linhas criadas em 1947. Ao
contrário, o Estado Árabe nunca foi criado, e os palestinos enfrentam conflitos
até os dias de hoje na tentativa de organizar um estado próprio. Os conflitos
originados pela constituição do Estado de Israel em 1948 são conhecido como a
Questão Palestina. Ao ampliar sua área de domínio Israel chegou a expulsar na-
quele momento novecentos mil palestinos de suas terras. A partir daí são inú-
meros conflitos armados, desde a primeira guerra árabe-israelense em 1948, a
segunda em 1956, a terceira em 1967, a criação de grupos terroristas rivais Al
Fatah e a Organização pela Libertação da Palestina; e o quarta conflito em 1973.
Desde sua criação Israel conta com o apoio do EUA, enquanto os árabes são
apoiados pela União Soviética, podemos notar os braços da Guerra Fria ao re-
dor do mundo. O povo palestino continua lutando para conseguir reconquis-
tar seu território e ganhar soberania. O movimento de insurgência chamado
Intifada conseguiu avançar e atualmente o povo palestino ocupa territórios na
Cisjordânia e na Faixa de Gaza, espaços que na teoria já eram destinados a eles,
porém são considerados sem soberania. Consolidar a paz nessa região é tarefa
infindável, não são raros os dias nos quais os meios de comunicação não in-
formam a continuidade dos conflitos e a morte de pessoas de ambos os lados.

1.2  A relação do Brasil com a Segunda


Guerra e o fim do Estado Novo

Durante a Segunda Guerra Mundial o Brasil era governador por Getúlio Vargas.
O governo brasileiro, apesar de características fascistas, manteve uma posição
neutra, tentando tirar proveito de ambos os lados, das potências do Eixo – Ale-
manha, Itália e Japão; e também dos aliados – EUA, Inglaterra e União Sovié-
tica. Em 1941 o Brasil iniciou uma série de acordos com os aliados, enviando
borracha e minérios de ferro, e possibilitou a organização de bases militares no
nordeste do país sob o comando dos estadunidenses. Como retorno conseguiu
financiamentos para obras de infraestrutura.

capítulo 1 • 17
Um ano mais tarde o governo alemão passou a atacar navios brasileiros
causando a morte de aproximadamente seiscentas pessoas. Este fato foi sufi-
ciente para o governo brasileiro declarar guerra as potências do Eixo. O exér-
cito nacional enviou vinte e cinco mil soldados para a região da Itália. A Força
Expedicionária Brasileira dirigidas pelo General Mascarenhas de Morais luta-
ram em Monte Castello, Fornovo, Castelnuovo e Collechio.
Seria demasiadamente contraditório lutar contra o nazi-fascismo na Europa
e ao mesmo tempo apoiar um governo que se aproximava desse modelo ideoló-
gico. Assim, alguns grupos liberais passaram a pressionar o governo de Vargas.
Intencionalmente, Getúlio realizou gradualmente a abertura democrática no
Brasil, libertou presos políticos, anistiou os exilados e organizou o processo
para eleição presidencial. Foram retomadas as filiações partidárias: União
Democrática Nacional – UDN; Partido social Democrático – PSD; Partido traba-
lhista Brasileiro – PTB; Partido Social Progressista – PSP; e o Partido Comunista
do Brasil.
Antes das eleições, em junho de 1945, Getúlio decretou a Lei Antitruste
que limitava a entrada de capitais estrangeiros no país, o que criou um clima de
insatisfação com as empresas estadunidenses. Com receio de que Vargas abor-
tasse o processo eleitoral, os líderes da UDN uniram-se aos militares e forçaram
a renúncia do presidente. O Brasil foi governado por José Linhares até a vitória
do general Eurico Gaspar Dutra.
A coligação partidária formada para a eleição de Dutra foi PSD e PTB. O pri-
meiro estava associado às indústrias, banqueiros e latifundiários, os quais du-
rante o governo de Vargas tinham ampliado bastante suas fortunas. A rede de
negócios entre os políticos e o setor privado havia criado um clientelismo elei-
toral que garantia o círculo de influências. Os votos eram negociados em tro-
ca de ações do Estado, ou seja, as pessoas escolhiam os candidatos conforme
a capacidade de cumprir promessas atreladas a participação no governo. Já o
Partido Trabalhista Brasileiro contava com o apoio dos operários, os dirigentes
sindicais mantinham próxima relação como o Ministério do Trabalho. O con-
chavo era simples, o ministério criava mecanismos de proteção ao trabalhador
e em troca, os sindicatos controlavam os trabalhadores no sentido de apoiar o
governo. Esses acordos conseguiam manter o apoio dos operários e evitava o
crescimento dos partidários do comunismo.
Em setembro de 1946 o Brasil ganhou uma nova constituição. No geral o
texto legal privilegiava as ideias liberais. Em seu artigo trinta e seis declara a

18 • capítulo 1
independência e harmonia dos três poderes, Legislativo, Executivo e Judiciário;
decreta a autonomia dos estados e municípios, inclusive para organizarem
seus territórios, estabelece o voto secreto e direto para presidente e prevê o
mandato de cinco anos para o governo. Em relação a educação, previa em seu
artigo cento e sessenta e seis a inspiração nos princípios de liberdade e idéiais
de solidariedade humana.
O plano de governo de Dutra estava pautado no desenvolvimento das áreas
da Saúde, Alimentação e Transporte. O programa foi denominado SALTE. Esse
programa de gastos públicos buscava priorizar setores essenciais para a socie-
dade e retirava seus recursos em parte das receitas orçamentárias nacionais e
outra de empréstimos. A não previsão de deficits orçamentários e o crescimen-
to da inflação fizeram o programa perder sua força e ele foi extinto em 1951.
O país passou a desconstruir a política de intervenção estatal do governo
de Vargas e assumir o liberalismo econômico. Com isso houve a aproximação
política econômica com os EUA. Com a Missão Abbink diversos economistas
americanos passaram a estudar a economia do Brasil para formular recomen-
dações e estruturar projetos para a economia nacional. Em plena Guerra Fria
essa relação culminou na criação da Escola Superior de Guerra que servia para
preparar e difundir a ideologia capitalista dos EUA. Em 1947 o Brasil assinou
um tratado de cooperação com os Estados Unidos para ampliar o combate aos
comunistas, O TIAR propunha inclusive a invasão de um país no qual a demo-
cracia fosse ameaçada, ou seja, o crescimento de políticas socialistas. Nesse ca-
minho o governo de Dutra proibiu a participação do PCB no Congresso, pren-
deu políticos filiados ao partido e pôs fim as relações diplomáticas com a União
Soviética.

1.3  Descolonização da Ásia e África


A Segunda Guerra trouxe inúmeras transformações para a organização política
do mundo. Uma ideia que ganhou força após os conflitos foi a de autodetermi-
nação de cada Nação. Esse direito tornou-se consenso entre os diversos povos
do planeta e foi evidenciado pelas Assembleias da ONU. Se o colonialismo já
havia se enfraquecido depois da Primeira Guerra, o segundo conflito mundial
colocou por terra o domínio imperialista nos países africanos e asiáticos. Entre
1945 e 1960 diversos países tornaram-se independentes. Novamente, podemos

capítulo 1 • 19
encontrar o enfrentamento entre EUA e União Soviética. Enquanto o primeiro
buscava ajudar os processos de libertação nacional para criar novos mercados
consumidores e produtores de matéria prima para suas indústrias, o segundo
focava sua ajuda na instalação de governos que rompessem com alógica capita-
lista e assim fragmentavam o modelo imperialista liberal. Óbvio que os países
que conseguiam suas independências tinham que assumir um dos lados da
bipolarização.
Em vários processos de libertação verificamos a relação pacifica entre me-
trópole e colônia, e nestes casos a transição do governo manteve a mesma es-
trutura, o que assegurou um dependência relativa para os países agora ditos
independentes. Isso significa que tendo um governo soberano não possuía
autonomia econômica e ainda estava submissa a economia da metrópole, seja
para questões relacionadas a tecnologia, investimentos, educação, etc.
Em 1955 o processo de libertação de diversos países resultou na Conferência
de Bandung, realizada na Indonésia. Representantes dos países africanos e asi-
áticos recém-libertos decidiram adotar uma postura de neutralidade em rela-
ção a Guerra Fria, e buscavam, acima de tudo, o fortalecimento e desenvolvi-
mento de suas Nações.
Durante a conferência surgiu a ideia de um Terceiro Mundo, para além das
duas grandes potências. A questão maior era que esses países não possuíam
condições econômicas suficientes para manter o desenvolvimento de suas na-
ções. Portanto, a consciência do subdesenvolvimento desejava encontrar auxí-
lio para a extinção da fome, da pobreza, para combater o racismo e por fim as
guerras locais.
Analisando a conjuntura atual podemos encontrar vários países partici-
pantes da conferência que ainda continuam enfrentando enormes dificul-
dades, seja para aumentar a renda per capita, o desenvolvimento de suas in-
dústrias, seja para liquidar as dívidas com os organismos de financiamentos
internacionais.
Devemos ressaltar que a expressão Terceiro Mundo não consegue abarcar
todas as características dos países a que se refere. Seria uma tarefa muito in-
grata colocar no mesmo grupo países como Brasil e Nigéria, ou ainda Chile e
Tailândia. Por exemplo, as taxas de mortalidade infantil de cada um desses pa-
íses são muito dispares, ou ainda o padrão de vida na Indonésia é distante do
uruguaio.

20 • capítulo 1
LEITURA
Sobre o processo de descolonização dos países asiáticos e africanos procure realizar leituras
sobre o processo indiano liderado por Mahatma Gandhi. O indiano pregava uma luta não-vio-
lenta e a desobediência civil. Indicamos ROHDEN, Huberto. Mahatma Gandhi: ideias e ideais
de um político místico. Alvorada, 1977.

REFLEXÃO
Leia a seguir o discurso do primeiro ministro indiano Jawaharlal Nehru em 1955 na Confe-
rência de Bandung. Defensor da autonomia do Terceiro Mundo, foi criador do conceito dos
países não-alinhados que buscavam não entrar para os blocos hegemônicos capitalista ou
socialista. Busque seus argumentos contra a adesão dos Estados neutros da África e da Ásia
aos blocos hegemônicos.
Sr. Presidente, a vez esta discussão tomou é um muito mais amplo do que aquele que já
esperava. Na verdade, ele cobriu toda a grande rubrica. Temos apenas tinha a vantagem de
ouvir o líder distinto da Delegação turca que nos disse que mentira, como um líder respon-
sável da nação deve fazer e não deve fazer. Ele nos deu uma declaração capaz do que eu
poderia chamar de um lado representando os pontos de vista de um dos principais blocos
existentes na atualidade no mundo. Eu não tenho nenhuma dúvida de que uma disposição
igualmente capaz poderia ser feito por parte do outro bloco. Eu pertenço a nenhum dos
dois e proponho a fazer parte de nem tudo o que acontece no mundo. Se tivermos de ficar
sozinho, vamos ficar por nós mesmos, aconteça o que acontecer (e Índia ficou sozinho, sem
qualquer ajuda contra um poderoso império, o Império Britânico) e nos propomos a enfrentar
todas as consequências [. . .] Nós não concordamos com os ensinamentos comunistas, nós
não concordamos com os ensinamentos anti-comunistas, porque eles são ambos baseados
em princípios errados. Eu nunca contestei o direito do meu país de se defender; que tem que.
Vamos nos defender com quaisquer armas e força que temos, e se não temos armas vamos
nos defender sem armas. Estou morto certeza de que nenhum país pode conquistar a Índia.
Até mesmo os dois grandes blocos de poder juntos não pode conquistar a Índia; nem mesmo
o átomo ou a bomba de hidrogênio. Eu sei o que meu povo está. Mas sei também que, se
depender dos outros, seja qual for grande poderes que eles possam estar se olharmos para
eles para se sustentar, então somos fracos, de fato [. . .] Meu país tem feito erros. Cada país
comete erros. Não tenho dúvidas de que vamos cometer erros; vamos tropeçar e cair e levan-

capítulo 1 • 21
tar-se. Os erros do meu país e talvez os erros dos outros países aqui não fazem a diferença;
mas os erros das grandes potências fazem a diferença para o mundo e pode muito bem levar
a uma terrível catástrofe. Falo com o maior respeito destas grandes potências, porque eles
não são apenas grande em poder militar, mas no desenvolvimento, na cultura, na civilização.
Mas eu alego que a grandeza às vezes traz valores bastante falsos, falsos padrões. Quando
eles começam a pensar em termos de força militar - quer se trate do Reino Unido, a União
Soviética ou os EUA -, em seguida, eles estão indo para longe do caminho certo e o resulta-
do disso será que o poder esmagador de um país conquistará o mundo. Até agora, o mundo
conseguiu evitar que; Eu não posso falar para o futuro[. . .] Tanto quanto eu estou preocupado,
não importa o que a guerra tem lugar; nós não vamos tomar parte nela, a menos que nós
temos que nos defender. Se eu participar de qualquer desses grandes grupos eu perder
minha identidade [. . .] Se todo o mundo for ser dividido entre esses dois grandes blocos qual
seria o resultado? O resultado inevitável seria a guerra. Portanto, cada etapa que ocorre na
redução nessa área no mundo que pode ser chamada a área não alinhado é um passo peri-
goso e conduz à guerra. Ele reduz esse objetivo, esse equilíbrio, essa perspectiva que outros
países sem poderio militar pode talvez exercer. Deputados deram grande ênfase na força
moral. É com a força militar que estamos lidando agora, mas eu defendo que as contagens
de força moral e da força moral da Ásia e da África devem, apesar das bombas atômicas e
de hidrogênio da Rússia, dos EUA ou outro país, contam [. . .] Muitos membros apresentados
aqui não vão, obviamente, aceitar a ideologia comunista, enquanto alguns deles vão. Pela
minha parte eu não sei. Eu sou uma pessoa positiva, e não uma pessoa ‘anti’. Eu quero bem
positivo para o meu país e do mundo. Portanto, somos nós, os países da Ásia e da África,
desprovido de qualquer posição positiva, exceto ser pró-comunistas ou anticomunista? Tem
que chegar a isso, que os líderes de pensamento que deram as religiões e todos os tipos de
coisas para o mundo tem que marcar para esse tipo de grupo ou que e ser puxa-sacos do
presente do partido ou de outro a realização de seus desejos e ocasionalmente, dando uma
ideia? É mais degradante e humilhante para qualquer pessoa com autoestima ou nação. É
um pensamento intolerável para mim que os grandes países da Ásia e da África devem sair
da escravidão para a liberdade apenas para degradar-se ou humilhar-se desta forma [. . .]
Digo a vocês, cada pacto trouxe insegurança e não segurança para os países que tenham
acordado. Eles trouxeram o perigo de bombas atômicas e no resto do que perto deles, teria
sido o caso de outra forma. Eles ainda não colocaram à força de qualquer país, submeto, a
que teve isoladamente. Ele pode ter produzido alguma ideia de segurança, mas é uma falsa
segurança. É uma coisa ruim para qualquer país, assim, para ser embalado em segurança.
(...) Hoje No mundo, eu apresento, não só por causa da presença destes dois colossos, mas
também por causa da chegada da era atômica e de hidrogênio-bomba, todo o conceito de

22 • capítulo 1
guerra, da paz, da política, mudou. Estamos a pensar e agir em termos de uma era passada.
Não importa o que generais e soldados aprenderam no passado, é inútil nesta era atômica.
Eles não entendem as suas implicações ou a sua utilização. Como um crítico militar eminente
disse: “Toda a concepção de guerra é alterado. Não há precedente. Pode ser assim. Agora
não importa se um país é mais poderoso do que o outro no uso da bomba atômica e a bomba
de hidrogênio. Uma é mais potente na sua ruína do que o outro. Isso é o que se pretende dizer
que o ponto de saturação foi atingido. No entanto se um país é poderoso, o outro também
é poderoso. Para bater o prego na cabeça, o mundo sofre; não pode haver vitória. Pode-se
dizer, talvez com razão, que, devido a esta terrível perigo, as pessoas se abstenham de ir à
guerra. Espero que sim. A dificuldade é que, enquanto os governos querem que se abstenha
de guerra, de repente algo acontece e há a guerra e daí ruína total. Há uma outra coisa: por
causa da posição atual no mundo não pode haver agressão. Se houver agressão em qualquer
lugar do mundo, ele é obrigado a resultar em guerra mundial. Não importa onde a agressão
é. Se alguém comete a agressão existe guerra mundial. Eu quero que os países aqui reali-
zem seus planos e não pensar em termos de qualquer limitação. Hoje, uma guerra por mais
limitada que pode ser é obrigado a levar a uma grande guerra. Mesmo se as armas atômicas
táticas, como são chamados, são utilizados, o próximo passo seria o uso da grande bomba
atômica. Você não pode parar essas coisas. Na luta de vida e morte de um país, não vai parar
aquém deste. Ele não vai decidir sobre nossas resoluções ou de qualquer outra pessoa, mas
ele iria entrar em guerra, destruição e aniquilação de outros antes de ela se aniquila comple-
tamente. Annihilation resultará não só nos países envolvidos na guerra, mas devido às ondas
radioativas que vão milhares e milhares de milhas que vai destruir tudo. Essa é a posição. Não
é uma posição acadêmica; não é uma posição de discutir ideologias; nem é uma posição de
discutir passado história. Ele está olhando para o mundo como ele é hoje.
Disponível em: <http://legacy.fordham.edu/Halsall/mod/1955nehru-bandung2.asp>.
Acesso em: 19 mai 2015.

ATIVIDADES
01. Qual a relação entre a criação do Estado de Israel e o contexto de Guerra Fria?

02. A partir do excerto do discurso do primeiro ministro indiano Jawaharlal Nehru em 1955
na Conferência de Bandung: “Nós não concordamos com os ensinamentos comunistas, nós
não concordamos com os ensinamentos anti-comunistas, porque eles são ambos baseados
em princípios errados.” Responda:

capítulo 1 • 23
03. Qual o posicionamento dos representantes da Conferência de Bandung em relação à
Guerra Fria?

04. O que representou a Conferência de Bandung para as nações africanas e asiáticas?

05. Qual a relação do final da Segunda Guerra com a crise do Estado Novo?

06. Quais eram as principais diretrizes de criação da ONU?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
RIBEIRO, Sergio. A situação económica ontem e hoje nos países do Leste europeu.
Exemplares disponíveis em: http://goo.gl/8sWPZ1 . Acesso em 13 de maio de 2015.
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos. O breve século XX (1914-1991). São Paulo: Com-
panhia das Letras, 1995.

24 • capítulo 1
2
A alternativa
socialista e os
conflitos mundiais
Este capítulo disserta sobre as experiências de socialismo real, a saber, o caso
na Rússia, Cuba e China. Contudo, em contexto de Guerra Fria as vivências so-
cialistas geram conflitos entre as potências: Estados Unidos e União Soviética.
Nesse sentido, analisaremos as políticas externas desses países e suas interfe-
rências na Guerra do Vietnã e nas ditaduras da América Latina. Portanto, foca-
remos nossas análises em alguns fatos históricos situados no instável período
que envolve o final da Segunda Guerra e a crise do socialismo real.

OBJETIVOS
•  Compreender o contexto de instabilidade da Guerra Fria e conflito político e ideológico
desse período.
•  Identificar a interferência norte-americana no conflito no Vietnã.
•  Verificar as especificidades da Revolução Cubana e Chinesa.
•  Reconhecer o debate historiográfico acerca do golpe militar no Brasil em 1964.
•  Analisar a Revolução Russa sob a ótica do socialismo real.

26 • capítulo 2
2.1  O Socialismo Russo
A história da União soviética tem suas raízes na Revolução Russa de 1917, que
retirou do poder o Czar russo e iniciou uma guerra civil. Os bolcheviques lide-
rados por Vladimir Lenin formavam o Exército Vermelho, que percorreu o ter-
ritório russo colocando os comunistas no poder. No início da década de vinte
realizou-se a união das repúblicas soviéticas. Com a morte de Lenin em 1924,
o comando Josef Stalin soviético passa para Josef Stalin que adota o regime de
economia planificada baseada na ideologia marxista-leninista. O país viven-
ciou um período de grande crescimento econômico com o desenvolvimento da
indústria e a coletivização, no qual as propriedades privadas foram transforma-
das em unidades cooperativas de produção estatizada.
Durante a Segunda Grande Guerra a Rússia foi bastante danificada, após a
quebra do acordo de não agressão os nazistas invadiram o território e realiza-
ram batalhas intensas, morreram milhares de pessoas de ambos os lados. Aos
poucos, Stalin conseguiu recuperar a economia e reconstruir o país. Realizou
investimentos nos setores de energia e comunicações; construiu indústrias de
base, estendeu as áreas de cultivo e mecanizou a agricultura, incentivou as pes-
quisas científicas e ampliou a rede de ensino.
O projeto stalinista de economia planificada previa uma produção econô-
mica controlada pelo Estado. As empresas estatais eram responsáveis pelo co-
mércio, indústria e serviços, e os trabalhadores eram funcionários do Estado.
Desta maneira, a propriedade dos meios de produção pertenciam a unidade
estatal. Não há competitividade e a produção é realizada visando atender as de-
mandas sociais.
Para o historiador Eric Hobsbawm,

A primeira coisa a observar na região socialista do globo era que, durante a maior parte
de sua existência, formou um subuniverso separado e em grande parte autossuficien-
te econômica e politicamente. Suas relações com a economia mundial capitalista ou
dominada pelo capitalismo dos países desenvolvidos, eram surpreendentemente es-
cassas. Mesmo no auge do grande boom no comércio internacional, durante a Era de
Ouro, só alguma coisa tipo 4% das exportações das economias de mercado capitalista
foram para as “economias centralmente planejadas”, e na década de 1980 a fatia de
exportações do Terceiro Mundo que ia para elas não era muito maior.

capítulo 2 • 27
As economias socialista mandavam um pouco mais de suas modestas exportações
para o resto do mundo, mas mesmo assim dois terços do seu comércio internacional na
década de 1960 (1965) se faziam dentro de seu próprio setor.( Os dados se referem,
em termos estritos, à URSS e Estados a ela associados, mas servirá como ordem de
grandeza). (UM International Trade, 1983, vol. I, p. 1046). (HOBSBAWM, 1995, 364-
365)

A autossuficiência da União Soviética gerou uma autossegregação do cam-


po socialista, como nos informa Hobsbawm. O transito de pessoas entre os
dois grandes blocos era ínfimo, claro que por motivos conscientes. As viagens
eram de rígido controle e a emigração improvável. Novamente nas análises de
Hobsbawm verificamos que o desconhecimento do bloco socialista pelo capi-
talista era imenso e vice-versa. Durante algumas décadas pouca informação
foi trocada sobre o que realmente ocorria nos dois mundos. Como não havia
equivalente real a experiência socialista soviética não era compreendida pelos
cidadãos do dito Primeiro Mundo.
Desde a Revolução Russa, os bolcheviques nunca intentaram construir um
Estado socialista de um país só. A ideologia marxista indicava que o processo
revolucionário russo seria apenas o inicio da transformação de escala mun-
dial. O processo de transição necessitou ser redirecionado quando o Partido
Comunista compreendeu que o país seria a solitária medalha do proletariado
vencedor, encontramos em Hobsbawm como os bolcheviques encontraram
uma saída,

[. . .] transformar sua economia e sociedade atrasadas em avançadas o mais breve pos-


sível. A maneira mais óbvia de se fazer isso que se conhecia era combinar uma ofensiva
total contra o atraso cultural das massas notoriamente “escuras”, ignorantes, analfabe-
tas e supersticiosas com uma corrida total para a modernização tecnológica e a Revo-
lução Industrial. O comunismo de base soviética, portanto, passou a ser um programa
voltado para a transformação de países atrasados em avançados. Essa concentração
de crescimento econômico ultrarápido não deixava de ter apelo mesmo no mundo ca-
pitalista desenvolvido em sua era de catástrofe, desesperadamente em busca de uma
maneira de recuperar seu dinamismo econômico. Era ainda mais diretamente relevante
para os problemas do mundo fora da Europa Ocidental e América do Norte, a maior

28 • capítulo 2
parte do qual podia reconhecer sua própria imagem no atraso agrário da Rússia sovi-
ética. A receita soviética de desenvolvimento econômico – planejamento econômico
estatal centralizado, voltado para a construção ultrarápida das indústrias básicas, de
infraestrutura essencial a uma sociedade industrial moderna – parecia feita para eles.
Moscou não era apenas um modelo mais atraente que Detroit ou Manchester porque
enfrentava o imperialismo: ao mesmo tempo, parecia um modelo mais adequado, so-
bretudo para países sem capital privado nem um grande corpo de indústria privada
com fins lucrativos. O “socialismo”, nesse sentido, inspirou vários dos países recém-in-
dependentes após a Segunda Guerra Mundial cujos governos rejeitavam o sistema
econômico comunista. (HOBSBAWM, 1995, p. 367)

Na leitura acima verificamos que o modelo russo de experiência socialista


consegue dar forma nova ao país e passa a ser utilizado por outros países do
mundo. Vejamos a seguir alguns exemplos de socialismo adotado em outras
partes do planeta.

2.2  Guerra Fria: política externa dos Estados


Unidos e União Soviética

Estados Unidos e União Soviética estavam no mesmo lado durante toda a Se-
gunda Guerra Mundial. Todavia, nem a Primeira nem a Segunda Grande Guer-
ra conseguiram resolver uma das questões centrais pela qual lutavam: quem
teria a hegemonia econômica no mundo? Quem seria a principal potência do
mundo contemporâneo? Terminados esses dois conflitos mundiais a questão
ainda não estava definida. Estados Unidos e União Soviética foram as duas na-
ções que mais saíram vitoriosas, todavia, ainda não estava deliberado de quem
seria o domínio econômico do mundo.
A Segunda Guerra Mundial terminou com alguns sinais relevantes do que
seria o encaminhamento das relações internacionais. O conflito terminou com
o ataque americano com as bombas atômicas no Japão. A Alemanha e a Itália
já tinham saído da guerra. O Japão dava sinais de desgaste e claramente não
conseguiriam continuar o conflito sem apoio europeu. No entanto, os ameri-
canos quiseram mostrar para o mundo o poderio bélico de sua nação. Assim,

capítulo 2 • 29
podemos evidenciar que o final da Segunda Guerra Mundial não é um período
de pacificação, mas um momento de mudança no tipo de conflito ao qual teria
início naquela fase.
Dessa maneira, iniciava-se o período da Guerra Fria. Esses 45 anos que vão
da bomba atômica ao fim da União Soviética é um período bastante heterogê-
neo da história mundial. Em primeiro lugar, porque a disputa por hegemonia
não estava resolvida. Em seguida, podemos pensar que as bombas atômicas evi-
denciaram o nível de destruição ao qual as potências tinham chegado. Assim,
um novo conflito armado poderia significar a destruição do planeta.
Portanto, a dinâmica que se estabeleceu foi a de um conflito político e ideo-
lógico sem o confronto direto entre as potências, como havia ocorrido durante
a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais. Apesar de objetivamente as possibi-
lidades de confronto direto serem quase nulos, havia uma ameaça constante de
emergir uma Terceira Guerra Mundial. Dessa maneira, foi um longo período de
tensão em diversas partes do globo. “os dois lados viram-se assim comprome-
tidos com uma insana corrida armamentista para a mútua destruição, e com o
tipo de generais e intelectuais nucleares cuja profissão exigia que não percebes-
sem essa insanidade.” (HOBSBAWM, 1995, p. 233).
Contudo, não ter um conflito direto não significa que Estados Unidos e
União Soviética não estivessem envolvidos em muitos confrontos na segunda
metade do século XX. Assim, atentaremos para as políticas externas dessas
duas potências nesse período. Esse contexto foi marcado por uma corrida ar-
mamentista por uma disputa ideológica e de tecnologia.

A peculiaridade da Guerra Fria era a de que, em termos objetivos, não existia perigo imi-
nente de guerra mundial. A URSS controlava uma parte do globo, ou sobre ela exercia
predominante influência- a zona ocupada pelo Exército Vermelho e/ou outras forças
armadas comunistas. Os Estados Unidos exerciam controle e predominância sobre o
resto do mundo capitalista. (HOBSBAWM, 1995, p. 225).

Em 1947 o governo norte-americano declara uma famigerada política co-


nhecida como “Doutrina Truman”. Essa agenda prevê um conjunto de medidas
políticas e econômicas contra a “ameaça comunista”, em que a administração
estadunidense assume o compromisso de defender o mundo da influência
soviética como forma de concretizar a bipolarização do mundo, os Estados

30 • capítulo 2
Unidos criaram o Plano Marshall. Nesse programa, o governo americano ofe-
rece apoio econômico aos países destruídos pela Segunda Guerra Mundial. Ao
mesmo tempo em que fortalecia o capitalismo, o Plano Marshall contribuía
para estabelecer uma política de dependência no globo.
Desde então, as interferências americanas, supostamente legitimadas pe-
los argumentos da Doutrina Trumam, cresciam. Nesse contexto, os norte-ame-
ricanos atuaram na Guerra da Coréia, na Guerra do Vietnã, no Irã, Guatemala,
apoiaram a invasão de Cuba e criam a “Escola das Américas”, no Panamá, onde
os militares eram incentivados a assumir o poder em seus países. Nesse senti-
do, Hobsbawm (1995) argumenta que houve uma expressiva corrida bélica e
armamentista no período da Guerra Fria. Mas, que sem dúvida, as principais
consequências desse conflito estão nas questões políticas como essas inúme-
ras formas de intervenção.
Pensaremos agora no exemplo da Guerra do Vietnã como forma de com-
preender a interferência da Guerra Fria nas políticas internas. Havia um movi-
mento menos pacífico na região asiática. As colônias africana e asiáticas passa-
vam por um processo de descolonização e naquele contexto a interferência dos
Estados Unidos e da União Soviética era determinante para definir qual seriam
seus novos aliados políticos.
A Guerra do Vietnã é considerada um dos conflitos mais violentos da segun-
da metade do século XX. Ocorreu na antiga região da Indochina, atuais Laos,
Vietnã e Camboja. Essa região era dominada pela França, mas seus habitantes
se organizavam para lutar pela independência. Ho Chi Minh foi um líder revo-
lucionário que teve um papel importante desde a resistência à invasão japone-
sa durante a Segunda Guerra. O líder vietnamita seguia tendências comunistas.
Em 1954, a independência do Camboja, Laos e Vietnã estava reconhecida pela
França. Ficou acordado que o Vietnã ficaria dividido entre o norte socialista e
o sul capitalista.
Todavia, em 1955, Ngo Diem, governante do Vietnã do Sul, comandou um
golpe tornando-se ditador. Essa ditadura foi marcada por diversas ações repres-
soras de perseguição religiosa, corrupção. Apesar de suas ações anti-democráti-
cas, Diem recebeu apoio dos Estados Unidos, pois havia uma ameaça de que os
comunistas, influenciados por Ho Chi Minh, pudessem ganhar caso o processo
fosse democrático.
A interferência dos Estados Unidos no Vietnã do Sul foi intensa, os norte
-americanos enviaram armas, dinheiro e treinamento militar par o ditador.

capítulo 2 • 31
Concomitante a esse investimento americanos crescia o movimento de oposi-
ção como a Frente Nacional de Libertação. Com o subsídio americano, o Vietnã
do Sul decidiu atacar o norte e se utilizou do arsenal de guerra oferecido pe-
los Estados Unidos. Foram longos ataques a região norte. O Vietnã do Norte
reagiu. Todavia, após o ataque a algumas embarcações americanas no Golfo de
Tonquim, Os Estados Unidos declararam guerra ao Vietnã do Norte. Assim, em
1965 os norte-americanos entraram no conflito na Ásia.

A Guerra do Vietnã desmoralizou e dividiu a nação, em meio a cenas televisadas de


motins e manifestações contra a guerra; destruiu um presidente americano; levou a
uma derrota e retirada universalmente previstas após dez anos (1965-75); e, o que
interessa mais, demostrou o isolamento dos Estados Unidos. Por que os Estados Uni-
dos foram se envolver numa guerra condenada, contra qual seus aliados, os neutros e
até a URSS os tinham avisado, é quase impossível compreender, a não ser como parte
daquela densa nuvem de incompreensão, confusão e paranoia dentro da qual os princi-
pais atores da Guerra Fria tateavam o caminho. (HOBSBAWM, 1995, p. 225).

A partir da citação de Hobsbawm fica evidente que não havia explicações


coerentes para a Guerra. Por isso, causou uma insatisfação notável entre parte
da população dos Estados Unidos e do mundo. Houve uma surpreendente re-
sistência dos vietcongues que conseguiram com suas táticas de guerrilha resis-
tir aos ataques americanos. A tropa americana se retirou do conflito em 1973.
Em 1976, o Vietnã se reunificou e passou a se chamar República Socialista do
Vietnã.
Assim, de maneira distinta URSS e Estados Unidos buscavam interferir em
políticas internas nos países dos mais diferentes locais do globo. Com exce-
ção de Cuba, a América Latina tinha um apoio mais consolidado dos Estados
Unidos como reflexo das décadas de políticas intervencionistas e expansionis-
tas como a Doutrina Monroe e a política de boa vizinhança.
Durante o período da Guerra Fria, a interferência dos Estados Unidos
nas dinâmicas internas dos países da América Latina foi muito intensa.
Economicamente, a América Latina dependeu das importações norte-ameri-
cana e de altas taxas de financiamento. No que se refere as políticas, entre as
décadas de 1960 e 1970, os Estados Unidos estiverem envolvidos com os golpe
militares do Brasil, Argentina e Chile. Leia atentamente um excerto do texto
Ditadura militar, esquerdas e sociedade no Brasil de Daniel Aarão Reis Filho.

32 • capítulo 2
“Na América Latina, entretanto, as coisas tomaram outros rumos. Em virtude da maior
presença dos EUA, do pouco peso da URSS, das opções definidas pela maior parte das
elites dominantes da área, de certas tradições culturais, os projetos autonomistas cons-
truídos com algum êxito até 1945 tenderam a perder fôlego e vigor. Houve resistên-
cias, sem dúvida. O peronismo na Argentina, a revolução boliviana, o aprismo no Peru, o
movimento democrático-popular na Venezuela, o nacionalismo mexicano, o varguismo
e o trabalhismo no Brasil, além de uma série de movimentos e experimentos na Améri-
ca Central, como o liderado por J. Arbenz na Guatemala, atestam a força acumulada e
as raízes sociais e históricas, em nosso continente, do programa nacional-estatista, em
luta pela conquista da autonomia.
Entretanto, a proposta de um desenvolvimento dependente e associado aos capitais
internacionais ganhou força ao longo dos anos 50, quando novas reestruturações da
divisão internacional do trabalho permitiram a alguns países mais importantes do con-
tinente - Brasil, Argentina, México - disporem de condições para emprender surtos
industrializantes.
As alianças então constituídas, e as expectativas geradas, pelo menos em alguns paí-
ses que puderam registrar altos níveis de crescimento econômico, como, por exemplo,
o Brasil dos 50 anos em 5 de Juscelino Kubitschek, minaram, mas não chegaram a
destruir as bases constituídas pela tradição nacional-estatista.
Com efeito, nem todos os dados estavam ainda jogados.
A vitória da revolução cubana, em 1959, a da revolução argelina, em 1962, o processo
de independências nacionais na África negra e no mundo árabe e muçulmano, a luta
revolucionária no Vietnã, retomada a partir dos começos dos anos 60, entre muitos
outros acontecimentos, conferiram novo alento aos movimentos nacional-estatistas la-
tino-americanos.
O enfrentamento entre Cuba e os poderosos Estados Unidos da América empolga-
vam as correntes nacionalistas, que se reconheciam como parte da nossa América,
um sonho de José Martí, que muito se assemelhava, nas condições da América Latina,
ao espírito afro-asiático formulado em Bandung. Assim, numa perspectiva mais ampla,
histórica, a revolução cubana pode ser avaliada como um elo a mais da longa luta dos
movimentos nacional-estatistas latino-americanos pela conquista de margens de auto-
nomia. Nesta mesma perspectiva, o caráter socialista do regime político e social cubano
deveria ser compreendido muito mais como uma imposição da pressão e do cerco dos
EUA - e da necessária aliança de defesa com a URSS - do que como uma evolução
consciente e estruturada da própria revolução.”

capítulo 2 • 33
As análises sobre a ditadura militar no Brasil são muito recentes. Ainda há
pouco consenso se há uma unidade entre os golpes por toda a América Latina
durante o período da Guerra Fria. Para o autor, há uma mudança explícita quan-
do as teorias marxistas foram substituídas pelas correntes da Nova História. Os
discursos notadamente marxistas que se utilizavam de conceitos como luta de
classes e modo de produção foram substituídos por análises dos indivíduos e
seus cotidianos durante a fase militar.

A abordagem propriamente histórica da ditadura militar é recente. Poderíamos dizer


que se trata de uma espécie de movimento de incorporação, pelos historiadores, de
temáticas outrora teorizadas quase exclusivamente por cientistas políticos e sociólogos
e narradas pelos próprios partícipes. De fato, a literatura sobre o golpe de 64 e o regime
que o sucederia ficaria marcada, em uma primeira fase, por dois importantes gêneros.
(FICO, 2004)

O Brasil vinha de uma frágil experiência democrática. Jânio Quadros ga-


nhou as eleições em 1960, mas não consolidou boas articulações políticas que
gerou a sua renúncia em 1961.

CONEXÃO
João Goulart era o vice-presidente que estava em uma viagem a China Comunista. Em tem-
pos de bipolarização, essa ação ocasionou um descontentamento de setores da elite e de
alguns governantes.

Segundo Toledo (2004): “pode-se dizer que o governo Goulart nasceu, conviveu e mor-
reu sob o espectro do golpe de Estado. Goulart foi empossado em setembro de 1961,
após a fracassada tentativa golpista de Jânio Quadros. Com sua inesperada renúncia,
JQ visava, contudo, o fechamento do Congresso que lhe fazia oposição. Não tendo o
povo saído às ruas para exigir dos militares a volta do renunciante, o golpe se frustrou.
A emenda parlamentarista, imposta ao Congresso nacional pela junta militar, pode ser
interpretada como um “golpe branco”. O Congresso, acuado e ameaçado pela espada,
reformou a Constituição sob um clima pré-insurreicional, contrariando, assim, dispositi-
vos constitucionais da Carta de 46.”

34 • capítulo 2
Houve uma movimentação para que João Goulart não assumisse a presidên-
cia do Brasil. Depois de muitas discussões ficou acordado que ele retornaria
ao Brasil para governar com algumas condições. Decidiram reduzir seu poder
e instalar um regime parlamentarista. Assim, desde o início do governo de
Goulart ficou evidente uma instabilidade e tentativa de controle por parte da
elite parlamentar.

Enquanto existe um forte consenso entre liberais e conservadores, divergentes são as


visões entre os setores de esquerda acerca da natureza e do significado do governo
Goulart. Para estes, vários foram os juízos aplicados: governo de “traição nacional”, de
orientação social-democrata ou democrático popular; governo populista de esquerda
ou nacional-reformista – e até mesmo de “orientação revolucionária”. Haveria, no entan-
to, praticamente um consenso entre os setores da esquerda ao interpretarem o período
de 1961-1964 como um momento em que a luta de classes no Brasil alcançou um de
seus momentos mais intensos, dinâmicos e significativos. (TOLEDO, 2004)

A figura de Goulart desperta muitos dissensos entre os historiadores que


versam sobre o golpe militar. Durante muitos anos a imagem de Goulart este-
ve associada as mudanças estruturais da sociedade e propostas como reforma
agrária. Nesse sentido, o golpe militar era explicado unicamente pelo fato dos
setores conservadores do Brasil se posicionarem contrários a essas mudanças.
Por outro lado, há uma problematização histórica mais recente que questiona
a figura de Goulart unicamente como político voltado às massas e às mudanças
sociais no Brasil. Aparece uma ideia de um político pouco hábil em criar esta-
bilidade. Nesse aspecto, essa nova historiografia divulga a imagem de Goulart
como um golpista: “as razões imediatas do que (descuidadamente) chama de
“revolução” derivavam da inabilidade de Goulart em “reequilibrar” o sistema
político.” (FICO, 2004). O fato é que o golpe militar:

Teve como protagonistas principais as facções duras das forças armadas e o empresa-
riado nacional (através de seus partidos, entidades de classe e aparelhos ideológicos)–
com o decidido apoio e o incentivo da embaixada e de agências norte-americanas
(Departamento de Estado, Pentágono e outras) –, não significa que devemos isentar
os setores nacionalistas e de esquerda pelo dramático desfecho do processo político.”
(TOLEDO, 2004)

capítulo 2 • 35
Dessa maneira, é importante pontuar o fato de inúmeros fatores contribuí-
ram para o Golpe Militar no Brasil em 1964. Há especificidades locais que dife-
renciam a experiência brasileira de outros casos na América Latina. Entre eles
podemos pontuar: a insegurança da elite brasileira, as tentativas golpistas de
Goulart, as mudanças estruturais na sociedade por meio dos Planos Trienais,
a desarticulação da esquerda brasileira, o exemplo da Revolução Cubana. No
que se refere ao contexto da Guerra Fria, foco de nossas análises neste capítu-
lo, os militares brasileiros contaram com o apoio da embaixada e das agências
americanas. Essa é uma permanência da experiência latino-americana acerca
da interferência dos Estados Unidos nas questões locais.

2.3  Revolução Cubana


A historiografia referente à Revolução Cubana é notadamente divergente em
suas análises, sobretudo porque suas produções inserem-se no contexto da
Guerra Fria. Nesse sentido, carregam um olhar tipicamente bipolarizado: ou
comprometem-se em demonizar as transformações pós-revolução ou, ao con-
trário, fazem do discurso historiográfico um caminho para divulgar as propos-
tas socialistas. “Muitos livros já foram escritos e publicados sobre Cuba e a
Revolução. Entretanto, muitas dessas obras têm uma única finalidade: atacar
(ou defender) o governo de Fidel Castro. É difícil separar a verdade da propa-
ganda”. (WILKERSON, 1967, p.5). Apesar das evidentes contradições nos textos
históricos acerca do processo revolucionário cubano, algumas semelhanças
são observadas.
A primeira ideia comum que aparece nesses distintos discursos é sobre as
motivações ideológicas que deram sustentação ao movimento revolucionário
cubano. Há um relativo consenso entre os historiadores de que esse movimen-
to não nasceu a partir de princípios socialistas, ele fez-se socialista ao longo do
percurso. Em contexto de Guerra Fria era notável a necessidade de posiciona-
mento. Dessa maneira, no decorrer das transformações foi necessário que o
discurso cubano se vinculasse às propostas soviéticas. Todavia, os documentos
históricos evidenciam a diferença entre a revolução em Cuba e o modelo russo
do início do século XX.
Dessa maneira, o movimento liderado por Castro não pretendia, inicialmen-
te, concretizar os caminhos marxistas. No contexto inicial buscavam: acabar

36 • capítulo 2
com a ditadura, garantir maior autonomia em relação aos Estados Unidos e
melhorar as condições de trabalho na ilha. Assim, naquele momento era um
movimento mais humanista que marxista-leninista.
A divergente literatura sobre a Revolução Cubana apresenta dados bastan-
te contraditórios sobre as condições socioeconômicas da ilha antes dos movi-
mentos revolucionários. Entretanto, reconhecem a situação de dependência a
qual Cuba se encontrava antes de 1959.
No que se refere ao contexto político, Cuba era marcada por uma depen-
dência aos Estados Unidos no período pré-revolucionário. A independência da
Espanha não representou a construção de uma autonomia política efetiva. O
texto da primeira constituição cubana autoriza a intervenção militar norte-ame-
ricana. Apoiados na lógica da Doutrina Monroe, os estadunidenses construíam
uma relação de dependência com os governos cubanos por meio da Emenda
Platt que permitia ao governo dos Estados Unidos interferir nos assuntos inter-
nos de Cuba. Com a escusa de defender a soberania cubana, os estadunidenses
tinham legitimidade para intervir com a suposta intenção de: assegurar vida,
propriedade individual e liberdade para a população.
Além do contexto de dependência, a ilha era marcada por anos de uma ex-
periência ditatorial. O governo Fulgêncio Batista foi caracterizado por uma con-
juntura de intensa corrupção e repressão. Batista se inseriu na política cubana
na década de 1930, com um forte domínio das forças armadas, o sargento se
estabeleceu no poder com um regime bastante autoritário de 1934 a 1944. Em
1952, Fulgêncio Batista regressou ao cenário cubano por um golpe de Estado,
retomando o forte controle do exército.
Em 1953, um movimento revolucionário, conhecido como 26 de julho, or-
ganizou um ataque ao Quartel de Moncada com a intenção de se armar para
acabar com a ditadura de Batista. O movimento não foi vitorioso naquele mo-
mento, porém, inaugurou um processo de resistência à ditadura de Batista. Os
ideais prematuros desse Movimento não foram, naquele contexto, guiados pela
proposta do comunismo.
Os manifestantes do movimento 26 de Julho foram presos após a tentativa
de conseguir instrumentos para armar a população contra a ditadura. Em 1953,
Fidel Castro elaborou sua própria defesa, A História me absolverá, legitimou
Castro como líder do movimento revolucionário e fez de seu texto uma referên-
cia ao processo revolucionário e aos anseios desejados. Esse documento serviu
como forma de divulgação dois ideais dos revolucionários para a população
cubana que assistiu o ataque.

capítulo 2 • 37
O assalto a Moncada tinha terminado na derrota. Mas essa primeira batalha, o capí-
tulo inicial da Revolução, não foi totalmente um fracasso: embora o forte não tivesse
sido tomado, a atenção do povo despertou. Fidel Castro e o Movimento 26 de Julho
tornaram-se conhecidos. Em Oriente, pelo menos, o espírito da resistência à tirania de
Batista fora implantado. (HUBERMAN; SWEEZY, 1960, p. 48)

Em 1955 Fidel Castro exilou-se no México, momento primordial da siste-


matização dos novos caminhos da Revolução. Naquele momento, Castro co-
nheceu Ernesto Guevara e Camilo Cienfuegos, personagens indeléveis para a
concretização da Revolução Cubana. O novo grupo pôde organizar o segundo
ataque ao regime ditatorial de Batista.
Os revolucionários foram surpreendidos pelo exército de Fulgêncio Batista.
Todavia, os 22 sobreviventes refugiaram-se na Sierra Maestra, local fundamen-
tal para consolidar as estratégias de guerrilha ao mesmo tempo em que serviu
como experiência de sensibilização dos revolucionários, pois encontraram fa-
mílias que lutavam pela sobrevivência. De 1956 a 1959 as propostas dos revolu-
cionários ganharam legitimidade perante a população. Numerosos campos de
resistências se formaram por toda a Sierra Maestra. Em 1959 a situação já era
insustentável e o ditador Fulgêncio Batista fugiu de Cuba.
É importante pontuar que o movimento revolucionário foi composto pelos
trabalhadores do campo uma vez que Cuba ainda não havia presenciado uma
revolução burguesa estrutural, o operariado não constituía uma força homogê-
nea e forte na revolução. Após 1956 a revolução concentrou-se notadamente no
campo, por meio dos grupos guerrilheiros, isso nos faz refletir sobre a impor-
tância dos camponeses para a resistência revolucionária.

O grupo original estava constituído de jovens, em sua maioria estudantes, saídos de


várias classes sociais, mas os recrutas que a eles se juntaram eram principalmente de
origem camponesa. Não há estatísticas precisas sobre isso, mas tal era a opinião gene-
ralizada dos soldados que interrogamos, e que haviam estado em Sierra Maestra: que
três quartos ou quatro quintos dos soldados que participaram das campanhas vitoriosas
finais de 1958 eram camponeses. (HUBERMAN; SWEEZY, 1960, p. 102)

38 • capítulo 2
O governo pós-revolução foi liderado por três figuras relevantes da articula-
ção revolucionária. Manuel Urritia assumiu como presidente provisório, José
Miro Cardona representava o primeiro-ministro enquanto Fidel Castro era o
comandante-chefe das Forças Armadas.
O início do governo pós-revolucionário foi estruturado nos ideais do discur-
so Castrista. Dessa maneira, não havia ainda um compromisso com os ideais
socialistas. Centrado nas propostas humanistas do documento de 1953, as
intervenções do novo governo buscavam melhorar a distribuição de renda no
país.

O programa do novo governo baseou-se diretamente em “A História me absolverá”, e


sua ação priorizou, portanto, medidas tendentes à elevação do nível de vida do povo, à
superação do analfabetismo, da prostituição, do jogo, da corrupção, da discriminação
racial, da repressão, da crise habitacional e do desemprego. (SADER, 2001, p.25)

Nesse sentido, medidas como reforma agrária, projetos de alfabetização de


jovens e adultos e nacionalização de algumas empresas começam a ganhar cor-
po na nova administração. “Nenhum professor primário deve ganhar menos de
duzentos pesos, como nenhum professor secundário deve receber menos de
trezentos e cinquenta, se quisermos que se dediquem inteiramente à sua ele-
vada missão.” (CASTRO, 1979, p.59). Essas medidas transformam, aos poucos,
a condição miserável da população urbana e rural da ilha. No entanto, não ha-
via nenhuma articulação declarada com a internacionalização do comunismo.
Quando Fidel Castro foi questionado sobre a linha ideológica presente em sua
Revolução respondeu: “Nossa revolução não é capitalista nem comunista; sim-
plesmente urbana e humanitária.” (CASTRO apud. RIVERO, 1963, p.15).
Todavia, a partir da década 1960, observou-se uma aproximação do gover-
no de Cuba aos interesses soviéticos concomitante a um aumento nos confli-
tos com os Estados Unidos. Os estadunidenses queimaram uma plantação em
Cuba e criaram embargos à taxa de açúcar cubano, ações que causaram um
prejuízo antológico na ilha. Por outro lado, o governo cubano estatizava várias
empresas de refinarias de petróleo norte-americanas como a Texaco e a Shell.
Nesse sentido, notadamente os norte-americanos diminuíam suas influên-
cias políticas sobre a ilha. Ao mesmo tempo, a União Soviética colaborava com
o governo revolucionário muito mais por oposição aos Estados Unidos do que
para aumentar sua influência soviética na América para Hobsbawm:

capítulo 2 • 39
Durante várias décadas, a URSS adotou uma visão essencialmente pragmática de sua
relação com os movimentos revolucionários, radicais de libertação do Terceiro Mundo,
pois nem pretendia nem esperava aumentar a região sob o governo comunista além da
extensão da ocupação soviética no Ocidente, ou da intervenção chinesa (que não podia
controlar inteiramente) no Oriente. (HOBSBAWM, 1995, p.423)

Imerso nesse contexto de instabilidade e conflitos, Fidel Castro, em 1961,


pronunciou pela primeira vez o caráter socialista da Revolução Cubana. A par-
tir desse discurso mudanças estruturais passaram a ser percebidas na dinâmi-
ca interna e externa da política cubana.

Porque o que os imperialistas não podem nos perdoar é o fato de estarmos aqui; o que
os imperialistas não podem nos perdoar é a dignidade, a integridade, o valor, a firmeza
ideológica, o espírito de sacrifício e o espírito revolucionário do povo de Cuba. Isso é
que não podem nos perdoar: que estejamos aqui, na frente dos seus narizes, e que
tenhamos feito uma revolução socialista no próprio nariz dos Estados Unidos. [. . .] Viva
a revolução socialista! Viva Cuba livre! (CASTRO apud. LÖWY, 1999, p.264)

Em contexto de Guerra Fria, as declarações do caráter socialista da


Revolução alteraram sobremaneira a relação entre a ilha e os Estados Unidos. O
rompimento dessa relação também modificou as trocas com demais países ca-
pitalistas, desenvolvidos ou não. Dessa maneira, as aclamações ao socialismo
provocaram a instalação de embargo econômico, intervenções militares e déca-
das de boicote político. Somente a partir do século XXI esse cenário começou a
se modificar. Para maior parte da historiografia sobre o assunto, o contexto da
Guerra Fria obrigava um posicionamento.

De uma forma ou de outra, todos os grandes problemas mundiais se relacionaram com


o conflito Estados Unidos e URSS, ou foram por eles influenciados. Por outro lado,
a barreira de mitos, distorções e falsidades, criadas por máquinas de propaganda de
ambos os lados, impediu, durante muito tempo, qualquer julgamento mais crítico que a
opinião pública pudesse ter sobre o conflito. Assim, o trabalho do historiador se tornou
extremamente difícil, sem fontes documentais confiáveis e bastante polêmico. (BAR-
ROS, 1988, p.02)

40 • capítulo 2
Desde o início da administração revolucionária em Cuba muitas mudan-
ças haviam ocorrido. No entanto, após a declaração do caráter socialista da
Revolução outras transformações precisaram ocorrer sobretudo no discurso
dos administradores. A concepção nacionalista defendida pelos integrantes
do Movimento 26 de Julho ia, lentamente, sendo substituída pelos argumentos
da luta de classes internacionalista típica das análises marxistas. Além disso, o
processo de expropriação de empresas se intensificou explicitamente. Ou seja,
foi fundamental alterar algumas práticas e discursos após a incorporação de
Cuba ao cenário socialista.
Há pouco consenso dentro da literatura se a Revolução Cubana foi positiva
ou negativa para a população da ilha. As visões estão impregnadas das análises
políticas bipolarizadas. Todavia, é primordial olhar para transformações no
plano social que possibilitaram uma redução quase que total do analfabetismo
na ilha. Além de uma melhoria inquestionável no setor da saúde e da redução
da mortalidade infantil. A história dessa Revolução ainda é muito recente e o
distanciamento dos historiadores ainda é questionável. Mas, precisamos fazer
uma leitura atenta a esse contexto histórico de apologias e procurar interpretar
as mudanças na ilha sob a luz do socialismo real em tempos de Guerra Fria.

2.4  Revolução Chinesa


Para Wladimir Pomar (2003) a Revolução Chinesa ainda é pouco conhecida no
Brasil. Escassas são as traduções de documentos feitas em português. Para o
autor, muito de nossos conhecimentos sobre a Revolução Chinesa são origi-
nários de concepções senso comum. Neste capítulo, buscaremos compor uma
visão sintética da Revolução Comunista na China a partir dessa restrita produ-
ção literária.
Assim como a Revolução na Rússia e em Cuba, a Revolução Chinesa não
ocorreu como previa Marx após a tomada de consciência dos trabalhadores das
indústrias. A Revolução teve sua origem nos conflitos no campo entre proprie-
tários de terra e agricultores. O processo revolucionário comunista ocorreu de
1949 a 1962 e pretendia, além de resolver às questões da distribuição da terra,
garantir maior autonomia política para China.
Historicamente a China foi intensamente explorada por potências euro-
peias, sobretudo o Reino Unido, como forma de expansão do capitalismo em

capítulo 2 • 41
sua fase monopolista. O final do século XIX foi marcado por diversos conflitos
e tentativas de garantir independência política e econômica a China. A Guerra
dos Boxers foi uma revolta de cunho nacionalista fortemente reprimida pelas
nações estrangeiras entre 1898 e 1900.
No início do século XX uma forte resistência ao modelo monárquico
bem como a dependência econômica às potências europeias marcou as lu-
tas políticas chinesas. Em 1908, Sun Yat-Sen fundou o Partido Nacionalista
(Kuomintang). Em 1911 foi proclamada a república na China. “Mesmo após a
República, em 1911, a China permaneceu um mosaico de regiões dominadas
por senhores de guerra, proprietários rurais com exércitos próprios lutando
entre si pelo predomínio nacional.” (POMAR, 2003, p.16). Fica claro nesse con-
texto a ausência de um Estado forte e centralizado capaz de criar uma unidade
aquele contexto de diversidade cultural e econômica. Dessa maneira, mesmo
republicana, a China continuava com pressão dos tukiuns, senhores da guerra,
que governavam de maneira soberana as diversas províncias chinesas.
Todavia, essa falta de unidade propiciava o surgimento e organização de ou-
tras frentes de resistência. A influência da Revolução Russa e a permanência de
dominação estrangeira na China incentivaram a criação de outros grupos so-
ciais interessados em intensificar as transformações no país. A partir de 1921,
o Partido Comunista da China estabelecia seu poder como forma de oposição
aos ‘senhores da guerra’ em diversas regiões do país.
Ao longo da administração de Sun Yat-Sen houve relativa harmonia entre
setores bastante divergentes da China. Tanto o Partido Nacionalista como o
Comunista buscavam enfrentar os proprietários de terra em conflitos dian-
te uma guerra civil. Todavia, em 1925 morre Sun Yat-Sen. A partir desse mo-
mento, um processo de desentendimento entre esses setores se inicia. “Com
efeito, após a morte de Sun Yat-Sen em 1925, o governo do Kuomintang que
reconquistou quase toda a China, rompe com o partido comunista que exige
uma profunda reforma agrária e cujos progressos inquietam os comerciantes.”
(GUINSBURG, 1963, p.225).
Chiang Kai-shek assume o governo da China como representante de uma
área mais conservadora do partido. Em 1927 houve uma antológica persegui-
ção do governo chinês que definiu o rompimento das relações entre partido na-
cionalista e o Partido Comunista Chinês (PCC). Entretanto, esse cisma forçou
os representantes comunistas a migrarem para o campo, lugar fundamental
para impulsionar a revolução estruturada por táticas de guerrilha. Essa nova
guerra civil redividiu os posicionamentos políticos no país.

42 • capítulo 2
De 1937 a 1945 o povo chinês teve que resistir as tentativas de invasão e do-
mínio japonês. Esse movimento consolidou a articulação dos camponeses e
operários ao PCC pois a população sentiu-se defendida e apoiada pelo Partido.
Em 1949, iniciou a fase da Revolução centrada nos referenciais comunistas.
Os revolucionários proclamaram a República Popular da China, sob a liderança
de Mao Tse-tung. Em seguida, a China vivenciou uma série de reformas cuja in-
tenção era alterar o modelo agrário dependente ao qual esteve comprometida
por tantos anos. Estratégias como: coletivização das terras, controle estatal da
economia e nacionalização de empresas estrangeiras fizeram parte do nomea-
do de Grande Salto para Frente. Não havia um consenso entre os revolucioná-
rios acerca do melhor caminho para se aplicar na China. O setor vitorioso optou
por um projeto de industrialização com forte mobilização política. “a moder-
nização que produziu o novo regime a partir de 1949 até 1976, com todas as
críticas a certas etapas de “irracionalidade” econômica, logrou êxito em trans-
formar um país semicolonial e verdadeiramente arcaico em uma das novas po-
tências industriais do mundo até metade da década dos 1970.” (SANTILLÁN,
2012, p.106).
Todavia, a China passou por um momento de crise a qual exigiu um recuo
estratégico que fez com que o governo adotasse uma política de combinação
entre capitalismo e socialismo. Esses reajustes da década de 1960 precisam ser
situados na lógica da Guerra Fria. Esse delicado caminho escolhido pelo gover-
no chinês abalou a relação com a União Soviética. Nesse sentido, os chineses
decidiram implementar uma nova mudança nomeada de Revolução Cultural.
Essa revolução foi estruturada por Mao no intuito de mobilizar a população
de intelectuais e formadores de opinião da China. Essa tentativa intensificou
um processo de repressão na China uma vez que o exército vermelho tomou
atitudes como destruir templos, confiscar livros, perseguir movimentos contra
-revolucionários. A ideia de fortalecer a imagem de Mao e reprimir a população
gerou um movimento de insatisfação popular.
Mao Tsé-Tung morreu em 1976 e os moderados voltaram ao poder. Seu su-
cessor foi Deng Xião-Ping que assumiu uma política econômica e desenvolvi-
mentista e permitiu a entrada de tecnologia e capital estrangeiro. Desde então,
as transformações caminharam para uma abertura econômica às multinacio-
nais capitalista concomitante a uma manutenção da política controlada pelo
Partido Comunista.

capítulo 2 • 43
Em 1978 o país adotou a política das Quatro Modernizações, que consagra reformas
internas como a descoletivização gradual da agricultura, a introdução de uma economia
mercantil dentro de uma estrutura socialista, a criação de áreas específicas para a cap-
tação de capital e tecnologia estrangeiras e a instalação de empresas transnacionais,
destinadas principalmente à exportação. Nas Zonas Econômicas Especiais (ZEEs),
geralmente províncias costeiras, introduziu-se legislações próprias para permitir o esta-
belecimento de determinados mecanismos capitalistas e o assentamento de capitais e
empresas estrangeiras. (VISENTINI, 2011, p.132)

Comunismo de mercado ou capitalismo de Estado são expressões que co-


mumente vêm associadas ao modelo político-econômico adotado pela China
no século XX. A historiografia lida mais uma vez com os percalços do tempo
recente. No entanto, a China do século XXI compõe o cenário de intensa pro-
dutividade industrial. Por conta da abundante oferta de mão-de-obra, a China
representa uma produção de altíssima competitividade no mundo. A revolução
comunista possibilitou uma redução do analfabetismo e um expressivo aumen-
to da produção industrial. Milhares de pessoas saíram da condição miserável a
qual estavam inseridas. Contudo, paralelamente há movimento de repressão
política que impede uma intervenção mais democrática na tomada de decisão.

Podemos finalizar delineando qual é o modelo sob o qual a China pretende inserir-se
na economia global a partir da reforma. Existe sobre esta questão um consenso na
literatura orientada para a construção de modelos gerais, e em certa literatura mais
específica sobre o papel da China na economia global como um país que, explorando
suas vantagens comparativas (enorme oferta de força de trabalho a baixo custo) se
especializa na indústria leve intensiva em mão-de-obra (têxteis, produtos eletrônicos de
consumo) orientada à exportação, modelo que coincide com nossa análise das redes
de investimento. (SANTILLÁN, 2012, p.114)

ATIVIDADES
01. Quais características comuns podemos observar nas revoluções e experiências de so-
cialismo real na Rússia, Cuba e China?

44 • capítulo 2
02. Quais foram as principais medidas adotadas pelos Estados Unidos para controlar e pre-
venir o avanço do socialismo no mundo?

03. Explique a afirmação: “a Revolução Cubana não nasceu socialista, ela fez-se socialista”.

04. Comente o execrto de texto de Toledo (2004): “Aliviadas por não terem de se envolver
militarmente no país, as autoridades norte-americanas congratularam-se com os militares e
políticos brasileiros pela “solução” encontrada para superar a “crise política” no país.”

LEITURA
Leiam dos artigos como forma de aprofundas as discussões:
TOLEDO, C. 1964: O golpe contra as reformas e a democracia. Rev. Bras. Hist. vol.24
no.47 São Paulo, 2004.
VISENTINI, P.F. A novíssima China e o sistema internacional. Rev. Sociol. Polít., Curitiba,
v. 19, n. suplementar, p. 131-141, nov. 2011.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CASTRO, Fidel. A História me absolverá.
BARROS, Edgard Luiz de. A Guerra Fria: a aliança entre russos e americanos: as origens da
guerra fria: a destruição atômica é irreversível? São Paulo: Atual, 1988.
BETTELHEIM, Charles. A luta de classes na União Soviética. Volume II. Rio de Janeiro: Paz e
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____. A transição para a economia socialista. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1969.
ESCOSTEGUY, Jorge. Cuba hoje. 20 anos de revolução. São Paulo: editora Alfa-Ômega, 1978.
FARIA, Ricardo de Moura. As revoluções do século XX. São Paulo: Contexto, 2001.
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46 • capítulo 2
3
Movimentos
culturais da década
1960-70
Este capítulo busca sintetizar os principais movimentos culturais da década de
1960-1970. Esses movimentos nos ajudam a descontruir as restritas análises
políticas as quais a historiografia se dedicou a analisar nesse contexto. Olhar
para o movimento hippie, para o crescimento das concepções feministas e
para as ações de emancipação dos afro-americanos nos ajudam a interpretar o
mundo para além das visões bipolarizadas comumente divulgadas pela mídia
ocidental.

OBJETIVOS
•  Localizar o contexto de eclosão dos movimentos de resistência afro-americanos.
•  Identificar os princípios do movimento feminista.
•  Compreender o discurso do movimento hippie.
•  Reconhecer a concepção cultural e social divulgada nos movimentos de maio de 68..
•  Analisar aspectos da cultura brasileira de 1960-1970.

48 • capítulo 3
3.1  Movimentos Culturais nas décadas de
1960-70

As décadas de 1960 e 1970 foram de enorme efervescência cultural, no mais


amplo sentido que essa palavra possa atingir. Nasceram diversos movimentos
que influenciaram diversas gerações. As questões morais e o modo de vida ca-
pitalista foram amplamente questionados. O feminismo buscou dar força ao
papel da mulher na sociedade, em relação a sexualidade a liberdade era o alvo,
a autoridade e estrutura hierárquica foram atacadas na procura de uma relação
mais horizontal, inclusive o papel da humanidade em relação a natureza.
Iniciemos nossos estudos com a questão da contracultura, surgida nos
Estados Unidos da América. Entre os jovens da geração de 60 um movimen-
to ganhou força no sentido de contestar o caráter cultural e social do modelo
de vida estadunidense. O objetivo principal era transgredir os valores que pa-
dronizavam a sociedade, isto significava um rompimento que buscava ampliar
os limites, encontrar novas possibilidades, não tratava-se de um movimento
de simples destruição do que existia, mas uma proposta nova de organização
social.
Aqueles jovens criaram uma onda política-cultural que confrontava o con-
trole social com uma postura que respeitava a liberdade individual e o não
preconceito. Argumentavam contra guerra, a fabricação de armas, defendiam
o uso de entorpecentes, procuravam uma alimentação vegetariana, em suas
ações e ideais pretendiam não prejudicar o próximo.
Dentro de todas essas manifestações, iniciaremos com a questão dos direi-
tos civis no Estados Unidos da América. O movimento dos Direitos Civis espa-
lhou-se pelos diversos continentes e procurava garantir a igualdade entre as
pessoas perante as leis, independentemente da religião, etnia ou cor da pele.
Um bom exemplo desse período foi o Free Speech Movement, criado pelos
estudantes da Universidade da Califórnia em Berkeley. Eles protestavam pelo
direito de liberdade de expressão contra a repressão da administração da uni-
versidade. No site da organização podemos encontrar relatos do período, a es-
tudante Bettina Aptheker nos relata o inicio do movimento:

capítulo 3 • 49
Nós nos chamamos de “veteranos”, não de uma guerra, mas de um movimento. Em 1º
de Outubro de 1964, centenas de nós cercou um carro da polícia no campus de Berke-
ley da Universidade da Califórnia e nos recusamos a permitir que a polícia prendesse
Jack Weinberg, um estudante de graduação em matemática, que era participante de
uma mesa no Congresso de Igualdade Racial na central Sproul Hall Plaza do campus.
Eu segurei o carro por 32 horas com Jack dentro e 950 policiais se concentraram do
lado de fora da entrada principal do campus à espera de ordens para iniciar um ataque
para quebrar-nos. Pouco antes de 19:00 na sexta-feira, 3 de Outubro negociadores
dos estudantes liderados por Mario Savio, que viria a se tornar o porta-voz primário para
o Movimento, chegaram a um acordo intermediário com o presidente da universidade.
O Movimento de Liberdade de Expressão nasceu. Durou até meados de dezembro. No
final, depois de um sit-in no principal edifício da administração, que resultou na prisão
de quase 800 alunos, uma greve de professores, alunos de pós-graduação e equipe
sancionada pelo conselho de trabalho local que paralisou o campus, e com o apoio do
toda liderança do movimento dos direitos civis liderado pelos afroamericanos, come-
çando com o Dr. Martin Luther King, Jr., vencemos nossas demandas centrais. Em 14
de dezembro, os Regentes da Universidade da Califórnia, afirmaram que, “de agora em
diante, os regulamentos que regem a liberdade de expressão nos campi universitários
não irão além do âmbito da Primeira e Décima Quarta Emendas da Constituição dos
EUA.” Os regulamentos que regem a liberdade de expressão alterados em praticamen-
te todos os campus no país, terminando proibições dos oradores comunistas, e mais
importante permitindo que alunos e professores realizassem o diálogo político e orga-
nizassem com menos medo de represálias administrativa arbitrária. (Bettina Aptheker,
texto disponível em http://www.fsm-a.org/FSM-A%20short%20histories.html).

No relato da estudante podemos perceber o desenvolvimento da luta por


direitos de expressão atrelados ao movimento de luta por igualdade de direitos
para o movimento afroamericano de 1961.

3.2  O movimento afroamericano


Oprimidos por uma sociedade que segregava direta e indiretamente, o movi-
mento negro nos EUA influenciou a onda de protestos da década de sessenta. A
luta essencialmente era por direitos políticos, sociais e econômicos mas resul-

50 • capítulo 3
taram numa revolução cultural. Cansados da violência policial, da discrimina-
ção em escolas, no emprego e no atendimento dos serviços público, milhares
de jovens uniram-se para confrontar os alicerces da sociedade estadunidense.
O movimento incluía jovens e adultos de ambos os sexos e buscou apoio no
campo e cidades nas diversas regiões do país. As lideranças do movimento pos-
suíam características diferentes e portanto os planos de cão podiam variar.
Um dos líderes do movimento conhecido mundialmente é Martin Luther
King Jr., pastor protestante nascido em Atlanta em janeiro de 1929. Influenciado
pelas ideias de Mahatma Gandhi organizava protestos não-violentos como o da
cidade de Montgomery. Essa ação política tinha como objetivo atingir o siste-
ma de transporte público que mantinha a segregação racial entre os usuários
do sistema. Os lugares na parte dianteira do ônibus eram de uso exclusivos
das pessoas de cor branca, e os do fundo destinavam-se aos negros. Caso não
houvesse mais acentos vazios e um branco entrasse no ônibus, alguma pes-
soa negra devia ceder seu acento para o branco sentar. Em dezembro de 1955
a costureira Rosa Parks sentou num dos bancos do ônibus que era reservado
para pessoas negras. Rosa recusou-se a ceder seu acento quando o motorista
do ônibus ordenou que os passageiros negros mudassem de acento para liberar
espaço para um homem branco que acabara de entrar no ônibus. Ela foi presa,
julgada culpada e teve que pagar uma multa. Esse fato resultou no boicote de
um ano que causou sérios problemas financeiros para o sistema de transporte
público do município de Tuskgee no Alabama. Luther King também foi preso
durante o período do boicote, e na ocasião dizia estar orgulhoso por ter sido
preso por unir seu povo contra a injustiça num protesto não violento.
O mais célebre discurso de King foi proferido em 1963 na famosa marcha
para Washington, entitulado I have a dream - eu tenho um sonho. Leia um tre-
cho a seguir

Há cem anos passados, um grande americano, sob cuja simbólica sombra nos encon-
tramos, assinava a Proclamação da Emancipação. Esse momentoso decreto foi como
um raio de luz de esperança para milhões de escravos negros que tinham sido marca-
dos a ferro nas chamas de vergonhosa injustiça. Veio como uma aurora feliz para termi-
nar a longa noite do cativeiro. Mas, cem anos mais tarde, devemos enfrentar a realidade
trágica de que o Negro ainda não é livre. Cem anos mais tarde,  a vida do Negro é
ainda lamentavelmente dilacerada pelas algemas da  segregação e pelas correntes da

capítulo 3 • 51
discriminação. Cem anos mais tarde, o Negro continua vivendo numa ilha isolada de
pobreza, em meio a um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos mais tarde,
o Negro ainda definha a margem à margem da sociedade americana, encontrando-se
no exílio em sua própria pátria. Assim, encontramo-nos aqui hoje para dramatizarmos
tal consternadora condição. Em um sentido viemos à capital de nossa nação para des-
contar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república escreveram  as palavras
majestosas da Constituição e da Declaração de independência, estavam assinando
uma nota promissória da qual cada cidadão americano seria herdeiro. Essa nota foi
uma promessa de que todos os homens teriam garantidos seus inalienáveis direitos à
vida, à liberdade e à busca da felicidade. É óbvio que ainda hoje a América não pagou
tal nota promissória no que diz respeito aos seus cidadãos de cor. Em vez de honrar tal
compromisso sagrado, a América deu ao Negro  um cheque sem fundos; um cheque
que foi devolvido com a seguinte inscrição: “fundos insuficientes”. Nós nos recusamos
aceitar a ideia, porém, de que o banco da justiça está falido. Recusamos acreditar não
existirem fundos suficientes  nos grandes cofres das oportunidades desta nação. Por
isso aqui viemos para cobrar tal cheque – um cheque que nos será pago com as rique-
zas da liberdade e a segurança da justiça. [. . .] Voltem ao Mississipi, voltem ao Alabama,
voltem à Carolina do Sul, voltem à Geórgia, voltem à Louisiana, voltem à favelas e aos
guetos de nossas modernas cidades, sabendo que, de alguma forma, esta  situação
pode e será alterada. Não nos enpojemos no vale  do desespero. Digo-lhes, hoje, meus
amigos, que apesar das dificuldades e frustrações do momento, ainda tenho um sonho.
É um sonho profundamente enraizado no sonho americano. Tenho um sonho  que al-
gum dia esta  nação levantar-se-á e viverá o verdadeiro significado de sua crença. “Afir-
mamos que estas verdades  são evidentes; todos os homens foram criados iguais”. [. .
.] Quando permitirmos que a  liberdade ressoe, quando a deixarmos ressoar  de cada
vila  e cada aldeia, de cada estado  e  de cada cidade, seremos capazes de apressar o
dia  quando todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus  e gentís, protestantes
e católicos, com  certeza poderão dar-se as  mãos e cantar  nas palavras da antiga
canção negra: “Liberdade  afinal! Liberdade afinal! Louvado  seja Deus, todo-misericor-
dioso, estamos  livres, finalmente!” (KING, 1963)

Notamos o discurso exigente e ao mesmo tempo pacifista de King. Suas


ideias estão alinhadas ao pensamento libertário da fundação da nação ameri-
cana. Foram grandes os avanços na legislação a favor do movimento, segun-
do o professor Robert Sean Purdy da Associação Nacional de Pesquisadores e

52 • capítulo 3
Professores de História das Américas, Luther King amplia a luta no sentido de
fundar ações afirmativas para os negros, vejamos:

o fim da discriminação econômica e da pobreza entre os negros passou a ser o prin-


cipal objetivo do movimento. Luther King propôs a criação de uma legislação em favor
dos pobres e introduziu a questão da “ação afirmativa para negros”. Os veteranos ativis-
tas negros A. Philip Randolph e Bayard Rustin propuseram um “Orçamento de Liberda-
de”: US$ 100 bilhões seriam destinados em 10 anos a criar empregos e desenvolver
os bairros pobres. Esta última não saiu do papel, mas serviu como uma importante
reivindicação simbólica. Campanhas locais feitas por sindicatos conseguiram a implan-
tação de alguns programas de ação afirmativa em empresas. E, finalmente, os abusos
mais extremos de discriminação formal acabaram desmantelados. Outras campanhas
econômicas, porém, faliram, como “O Movimento pela Liberdade em Chicago”, liderado
por Luther King, que enfrentou forte violência de residentes brancos e a oposição da
prefeitura democrata de Richard J. Daley e não conseguiu atrair suficiente apoio entre
negros. Os ganhos econômicos ficaram restritos aos programas sociais de Johnson
conhecidos popularmente como a “Guerra contra a pobreza”, e aos programas de “ação
afirmativa” implementados por ele em 1965, que se estenderiam, em 1975, a todas
as instituições que recebessem dinheiro ou fizessem negócios com o governo federal.
Influenciadas pelas ações do governo federal, muitas universidades e até algumas em-
presas também implementaram programas de “ação afirmativa” e “sistemas de cotas”
para minorias raciais e mulheres na década de 1970. Ao final das contas, os ganhos
dos movimentos negros dos anos 1960 e 1970 foram contraditórios. Havia mais rostos
negros nas manifestações culturais, nos esportes profissionais e na política. Negros
podiam comer em restaurantes, hospedar-se em hotéis e usar serviços públicos. No
Norte e no Sul, escolas em áreas de população misturada acabaram com a política de
segregação. “Ações afirmativas” e, particularmente, “cotas raciais” permitiram que mais
negros ingressassem nas universidades e no funcionalismo público. (PURDY, 2015)

Assim como King outro grande líder do movimento negro estadunidense foi
Malcom-X. A diferença mais marcante entre os dois é que Malcom-X defendia a
criação de um Estado independente para os negros.
Nascido em Omaha no estado de Nebraska, o jovem Malcom Little experi-
ênciou a violência desde a infância, como o assassinato de seu pai por espanca-
mento. Malcom se envolveu com traficantes no Harlem, bairro de Manhattan
e durante um período se dedicou a atividades criminosas, até ser preso por

capítulo 3 • 53
assalto a residências. Na prisão ele conhece a passa a estudar o islamismo. Em
sua autobiografia Malcom-X narra como seu irmão Reginald conseguiu aproxi-
má-lo da religião islâmica. Ao receber uma carta cheia de notícias ele notou que
o irmão havia escrito uma instrução, se ele parasse de comer carne de porco e
fumar, o irmão lhe mostraria uma forma de sair da prisão. Três ou quatro dias
depois do recebimento da carta Malcom-X resolveu não comer a carne, fato que
causou estranhamento em todos os presos de sua ala, vejamos a narrativa de
Malcom-X:

A reação foi muito engraçada. A notícia se espalhou rapidamente. Na prisão, onde bem
poucas coisas quebram a rotina monótona, os menores incidentes provocam uma tem-
pestade de conversas. Naquela noite, em toda a ala onde ficava minha cela, não havia
quem não estivesse comentando que Satã (apelido de Malcom-X) não comia carne de
porco. O que me deixou muito orgulhoso, de uma estranha maneira. Uma das imagens
universais do negro, tanto na prisão como fora dela, era a de que não podia passar sem
carne de porco. Fez-me bem constatar que o fato de eu não comer a carne deixara
espantados especialmente os presos brancos. Mais tarde, quando li e estudei o islã,
descobri que inconscientemente manifestara minha primeira submissão pré-islamica.
Eu havia experimentado, pela primeira vez, o ensinamento muçulmano: "Se você der
um passo na direção de Alá, Alá dará dois passos em sua direção” (Malcom-X, 1992,
p. 157)

O líder islâmico que Malcom-X seguia chamava-se Elijah Muhammad, que


defendia uma vertente do islamismo para o empoderamento dos negros. Em
uma de suas pregações no Harlem, Malcom-X explicava sua religião tentan-
do conquistar os frequentadores da igreja cristã, às audiências para cativá-los
eram chamadas pescarias,

Estão vendo as minhas lágrimas, meus irmãos e irmãs... Não surgem lágrimas em meus
olhos desde que eu era pequeno. Mas não posso me conter agora, quando sinto a
responsabilidade que tenho de ajudá-los a compreender pela primeira vez o que essa
religião do homem branco, a que chamamos de cristianismo, tem feito conosco... Irmãos
e irmãs que estão aqui pela primeira vez, por favor, não fiquem chocados. Sei que não
esperavam por isso. Porque quase nenhum de nós, pretos, tem pensado que talvez
estejamos cometendo um erro por não tentar descobrir se não existe alguma religião
espacial para nós ... uma religião especial para o homem preto. Pois existe tal religião.
É chamada islã. Deixe-me soletrar para vocês: I-s-l-a-til! Islã! (Mlacom-X, 1992, 212)

54 • capítulo 3
A religião serviu como alicerce para o pensamento de Malcom-X em relação
as questões dos afroamericanos. Porém, com o passar dos anos ele foi perce-
bendo que as ações não poderiam se limitar aos aspectos religiosos, e passa
a construir um discurso a favor dos direitos civis. Seus discursos tornaram-se
mais ácidos e violentos, pois acreditava que a transformação não seria possível
sem passar por um conflito. Malcom-X lutava pela libertação do homem negro
na sociedade americana e não apenas de sua integração.
Ao retornar de sua viagem a Meca, Malcom-X foi surpreendido por diversos
repórteres no aeroporto de Nova Iorque. Todos aguardavam ansiosos a opinião
dele sobre a onda de violência no verão de 1964. Um repórter perguntou sobre
os “irmãos de sangue” que estariam sendo treinados para violência e que esta-
vam cometendo assassinatos, ao que Malcom-X respondeu:

Ao ouvir aquelas perguntas do homem branco, subjetivamente procurando um bode


expiatório, tive a certeza absoluta de que estava novamente na América. A juventude
branca de Nova Iorque estava matando a torto e a direita, fazendo vítimas; isso era
um problema “sociológico”. Mas quando a juventude preta mata alguém, a estrutura
de poder prontamente se empenham em crucificar alguém. Quando os homens eram
linchados ou assassinados a sangue-frio de outras maneiras, sempre se comentava: -
As coisas vão melhorar. Quando os brancos guardavam rifles em suas casas, dizia-se
que a Constituição lhes garantia o direito de defenderem seus lares e a si mesmos.
Mas quando os pretos sequer pensavam em ter rifles em suas casas, isso era con-
siderado “sinistro”. Disse aos repórteres algo que eles não estavam esperando. Falei
que o homem preto americano precisava deixar de pensar no que o homem branco
lhe incutira: a ideia de que o homem preto não tinha outra alternativa senão suplicar
por seus supostos “direitos civis”. Declarei que o homem preto americano precisava
reconhecer que tinha base para levar os Estados Unidos a julgamento perante a ONU,
sob a acusação formal de “negação de direitos humanos” ... e que se Angola e África do
sul eram precedentes, então a América não poderia escapar a uma censura expressa.
(Malcom-X, 1992, p.340)

Em junho de 1964 Malcom-X discursou no Harlem na fundação da


Organização da Unidade Afro-americana – OAAU. Os propósito organização era
a união entre os afro-americanos no intuito de construir uma sociedade justa e
equânime. Sobre a questão da moradia, por exemplo, vajamos a forma de ação
da organização:

capítulo 3 • 55
A OAAU irá travar uma luta sem descanso contra esses males em nossa comunidade.
Deveremos ter organizadores para trabalhar com nosso povo para resolver esses pro-
blemas e começar um programa domiciliar de auto desenvolvimento. Em vez de esperar
que o homem branco venha organizar nossa vizinhança, vamos fazer isso nós mesmos.
Aqui está o nosso erro. Uma pessoa de fora não pode arrumar a sua casa tão bem
quanto você. Um forasteiro não pode cuidar de suas crianças como você pode. Não
pode cuidar das suas necessidades como você. Uma pessoa de fora não pode enten-
der seus problemas tão bem quanto você. Você ainda está procurando por alguém de
fora para fazer isso. Nós vamos fazer isso ou nunca será feito. “Nós propomos uma gre-
ve de aluguéis”. Sim, mas não pequenos movimentos num só quarteirão. Todo homem
no Harlem estará na greve. Traremos todos os Negros desta cidade; a OAAU não irá
sossegar enquanto houver um Negro não participante da greve. Ninguém pagará alu-
guel. A cidade vai parar. E eles não podem nos colocar na cadeia porque elas já estão
cheias com a nossa gente. Sobre as nossas necessidades sociais eu espero não estar
assustando ninguém. Eu deveria parar agora mesmo e lhes dizer que se você é do tio
de pessoa que se assusta, que tem medo, nunca deveria aproximar-se de nós. Porque
vamos assustá-lo pra valer! E você não terá muito para onde ir porque já está meio
morto. Economicamente você está morto – morto e quebrado. Você foi pago ontem e já
está duro agora mesmo! (Malcom-X, 1964)

Verificamos o quanto a questão da união era fundamental para Malcom-X.


O pensamento ativista dele influênciou fortemente os movimentos dos afroa-
mericanos nas décadas seguintes. Ele constituía seus discursos essencialmen-
te pela conduta islâmica, na violência como mecanismo de autodefesa e o so-
cialismo como contraponto a corrupção capitalista.
Outro passo importante das lutas contra as práticas racistas nos Estados
Unidos foi a fundação do Partido Pantera Negra. Fundado com os mesmos in-
tuitos de Martin Luther King e Malcom-X o partido buscava consolidar o prin-
cipio da autodefesa, criando grupos de vigilantes nos bairros afroamericanos
contra a violência da polícia. Durante esse período foram realizadas inúmeras
manifestações a favor dos direitos civis das comunidades afroamericanas e não
foram poucos os que terminaram de maneira violenta causando morte de ma-
nifestantes e de policiais.
Os fundadores do partido foram Huey Newton e Bobby Seale, que em 1966
resolveram agregar o pensamento marxista na luta a favor de sua comunidade.

56 • capítulo 3
Devido a violência de suas ações aos poucos o partido foi enfraquecendo, prin-
cipalmente por conta dos conflitos com a polícia. Diversos membros foram
presos. No entanto, o tratamento hostil da policia causou indignação em di-
versas instancias, ao ponto do Congresso americano abrir vários processos de
investigação sobre os casos de abuso da força policial.
O lema do partido era Nós queremos liberdade, nós queremos poder para
determinar o destino de nossa comunidade negra. Vejamos abaixo alguns itens
do texto do Ten-Point Program, o Programa dos dez pontos, de outubro de 1966.

Queremos Pleno Emprego para o nosso povo. Acreditamos que o governo federal é
responsável e obrigado a dar a cada homem emprego ou um rendimento garantido.
Acreditamos que, se os empresários americanos brancos não vão dar pleno emprego,
em seguida, devem ser tomadas os meios de produção a partir dos empresários e
colocado na comunidade, para que as pessoas da comunidade possam organizar e
empregar todos os seus cidadãos e dar um alto padrão de viver. Queremos o fim do
roubo capitalista em nossa Comunidade Negra. Nós acreditamos que este governo
racista tem roubado de nós, e agora estamos exigindo a dívida em atraso de quarenta
acres e duas mulas. Quarenta acres e duas mulas foram prometidos 100 anos atrás
como restituição pelo trabalho escravo e assassinato em massa dos negros. Nós acei-
taremos o pagamento em moeda que será distribuída às nossas muitas comunidades.
Os alemães estão agora ajudando os judeus em Israel pelo genocídio do povo judeu.
Os alemães assassinaram seis milhões de judeus. O racismo americano tomou parte
no massacre de mais de cinqüenta milhões de pessoas negras; portanto, sentimos que
esta é uma demanda modesta que nós fazemos. [. . .] Queremos uma educação para o
nosso povo que exponha a verdadeira natureza desta sociedade decadente americana.
Queremos uma educação que nos ensina Nossa História Verdadeira e o nosso papel
na sociedade atual. Nós acreditamos em um sistema educacional que vai dar ao nosso
povo um conhecimento de si. Se um homem não tem conhecimento de si mesmo e sua
posição na sociedade e no mundo, então ele tem pouca chance de se relacionar com
qualquer outra coisa. Queremos um fim imediato da brutalidade policial e assassinato
de pessoas negras. Acreditamos que podemos acabar com a brutalidade policial em
nossa comunidade negra organizando grupos de autodefesa pretas que se dedicam
a defender a nossa comunidade negra da opressão policial racista e da brutalidade.
A Segunda Emenda da Constituição dos Estados Unidos dá o direito de portar armas.
Portanto, acreditamos que todas as pessoas negras devem se armar para a autodefesa.

capítulo 3 • 57
[. . .] Queremos terra, pão, habitação, educação, vestuário, justiça e paz. Quando, no
curso dos acontecimentos humanos, se torna necessário a um povo dissolver os laços
políticos que o ligavam a outro, e assumir, entre os poderes da terra, a estação sepa-
rada e igual a que as leis da natureza e Deus da natureza a autorizam, um respeito
decente às opiniões da humanidade exige que se declarem as causas que os levam
a essa separação. Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que
todos os homens são criados iguais; que são dotados pelo Criador de certos direitos
inalienáveis; que entre estes estão a vida, a liberdade ea busca da felicidade. Isso, para
assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus
justos poderes do consentimento dos governados; que, sempre que qualquer forma
de governo se torne destrutiva de tais fins, é o direito do povo alterá-la ou aboli-la e
instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando seus poderes em
tal formulário, a respeito deles parecerá muito provavelmente efetuar suas segurança
e felicidade. A prudência, certamente, ditará que os governos estabelecidos por muito
tempo não deve ser alterado por luz e causas transitórias; e, consequentemente, toda
experiência tem mostrado que os homens estão mais dispostos a sofrer, enquanto os
males são suportáveis, do que a se desagravar, abolindo as formas a que estão acostu-
mados. Mas, quando uma longa série de abusos e usurpações, perseguindo invariavel-
mente o mesmo objeto, indica o desígnio de reduzi-los ao despotismo absoluto, é seu
direito, ele é seu dever, de jogar fora de tal governo, e de fornecer protetores novos para
sua segurança futura. (The Ten-Point Program).

O funcionamento do partido deu-se até o inicio da década de 1980. Em seus


últimos anos trabalhou para melhorar as condições de vida das comunidades
afroamericanas em diversas cidades.

CONEXÃO
Assista ao filme sobre a vida desse importantíssimo ativista negro, realizado pelo diretor
Woody King Jr. em 1981: Malcom-X – A morte do Profeta.

58 • capítulo 3
3.3  O feminismo
O movimento feminista tem suas origens nas ideias da Revolução Francesa. Em
Nova Iorque no ano de 1848 realizou-se um congresso para discussão dos direi-
tos das mulheres. A liberdade e igualdade devem ser instaladas como direitos
sociais a todos os cidadãos, indiferentemente do sexo.
Na década de 1960 a publicação do livro de Simone de Beauvoir, o Segundo
Sexo, deu força ao movimento ao pontuar que a hierarquia entre os sexos é uma
construção social que pode ser desconstruída. A escritora partiu da filosofia
existencialista para analisar tal construção

Em verdade, a natureza, como a realidade histórica, não é um dado imutável. Se a mu-


lher se enxerga como o inessencial que nunca retorna ao essencial é porque não opera,
ela própria, esse retorno. Os proletários dizem “nós”. Os negros também. Apresentando-
se como sujeitos, eles transformam em “outros” os burgueses, os brancos. As mulheres
— salvo em certos congressos que permanecem manifestações abstratas — não dizem
“nós”. Os homens dizem “as mulheres” e elas usam essas palavras para se designarem
a si mesmas: mas não se põem autenticamente como Sujeito. Os proletários fizeram a
revolução na Rússia, os negros no Haiti, os indo-chineses bateram-se na Indo-China:
a ação das mulheres nunca passou de uma agitação simbólica; só ganharam o que
os homens concordaram em lhes conceder; elas nada tomaram; elas receberam (Cf.
Segunda Parte, § 5). Isso porque não têm os meios concretos de se reunir em uma
unidade que se afirmaria em se opondo. Não têm passado, não têm história, nem reli-
gião própria; não têm, como os proletários, uma solidariedade de trabalho e interesses;
não há sequer entre elas essa promiscuidade espacial que faz dos negros dos E.U.A.,
dos judeus dos guetos, dos operários de Saint-Denis ou das fábricas Renault uma co-
munidade. Vivem dispersas entre os homens, ligadas pelo habitat, pelo trabalho, pelos
interesses econômicos, pela condição social a certos homens — pai ou marido — mais
estreitamente do que as outras mulheres. Burguesas, são solidárias dos burgueses e
não das mulheres proletárias; brancas, dos homens brancos e não das mulheres pre-
tas. O proletariado poderia propor-se o trucidamento da classe dirigente; um judeu, um
negro fanático poderiam sonhar com possuir o segredo da bomba atômica e constituir
uma humanidade inteiramente judaica ou inteiramente negra: mas mesmo em sonho
a mulher não pode exterminar os homens. O laço que a une a seus opressores não é
comparável a nenhum outro. A divisão dos sexos é, com efeito, um dado biológico e não

capítulo 3 • 59
um momento da história humana. É no seio de um mitsein original que sua oposição
se formou e ela não a destruiu. O casal é uma unidade fundamental cujas metades se
acham presas indissolúvelmente uma à outra: nenhum corte é possível na sociedade
por sexos. Isso é que caracteriza fundamentalmente a mulher: ela é o Outro dentro de
uma totalidade cujos dois termos são necessários um ao outro. (BEAUVOIR, 1970, p.
13-14)

Verificamos nesse trecho que a filosofa trata da mulher num determinado


espaço e tempo. Ela trata do feminino em relação as circunstâncias históricas,
como na fala sobre as mulheres burguesas. Nesse livro ela tentou demonstrar
como a realidade feminina deve ser definida pela própria mulher, na luta pela
liberdade individual e a realização da condição feminina.
Na mesma seara de pensamento, os movimentos feministas da segunda
metade do século XX reivindicaram essencialmente a igualdade de direito en-
tre os gêneros. A participação feminina era exigência do movimento, que bus-
cando equivalência entre homens e mulheres, desejavam ocupar os ambientes
de trabalho, político e etc.
A partir da década de 1970, o movimento feminista tomou novos rumos.
Diferentemente das gerações anteriores que focavam a luta na opressão do pa-
triarcado e do capitalismo, a nova geração procurou ampliar as discussões para
a opressão das próprias mulheres e daí construírem um movimento unitário
que abarcasse todas as vertentes do movimento.
Essa corrente do feminismo francês surge entre as mulheres com escolari-
zação mais elevada. Grande exemplo desse período é Antoinette Fouque, uma
das fundadoras do Movimento de Libertação Feminina – MLF. Durante o mo-
vimento de 1968 ela fica surpreendida com o machismo estabelecido entre os
ativistas. Nesse período as mulheres utilizaram a comunicação de massa para
denunciar a desigualdade por elas enfrentadas nos níveis políticos e culturais.
Foi um período de intensa atividade

CONEXÃO
Leia trecho da História esquecida da corrente feminista e classista do site Sempreviva
Organização Feminista

60 • capítulo 3
E para clareza do meu propósito destacarei três diferentes correntes principais, apresenta-
das aqui muito sucintamente. Para as diferencialistas é necessário valorizar a feminilidade como
necessidade especifica cuja as raízes deveriam ser buscadas em sua função procriadora. Essa
corrente animada por Antoinette Fouque e continuada pelas “Des Femmes” (Mulheres) teve um
impacto entre as artistas, as escritoras e etc. Em 1979 essa corrente se apropria ilegitimamente
da sigla MLF (Movimento de Libertação das Mulheres) e a registra como uma marca comercial.
Para o feminismo radical o trabalho doméstico é a base material da exploração econômica
de todas as mulheres qualquer que seja for sua classe social. As mulheres constituem uma
classe explorada pelos homens, a opressão patriarcal beneficia economicamente e direta-
mente a todos os homens da mesma maneira, em função dessa análise toda aliança com
movimentos mistos é julgada inoportuna ou mesmo perigosa. Para essa corrente a retórica
da diferença é um simples avatar da ideologia dominante, é necessário então combatê-la
sem descanso. As Revistas “Questions féministes” e depois “Nouvelles questions féminis-
tes” levaram essas diferentes análises ao longo dos anos. Essa corrente desempenha um
grande papel na configuração teórica do feminismo principalmente na França. Para esse
movimento (Delphy 1970) não era mais o capitalismo, mas o patriarcado, a luta principal;
não é mais a luta de classes tradicional, mas a luta feminista e etc. Para o feminismo clas-
sista o discurso da diferença não era somente o produto de uma ideologia dominante. Ele é
igualmente a expressão de uma primeira reação dos oprimidos à consideração de que nos
reencontramos em todos os movimentos sociais nascidos de uma opressão. É necessário
então barrar a ideologia das diferenças que naturaliza a relação social sem cair, no entanto,
no sectarismo exagerado em relação às mulheres sensíveis a esse tipo de retórica. Para as
feministas classistas, todas as mulheres são oprimidas, mas não da mesma maneira. A explo-
ração de classe tradicional interfere na opressão patriarcal. Para as feministas desta corrente
é necessário combinar a ação autônoma e com a ação unitária com outros movimentos
sociais, principalmente o movimento operário para fazer avançar a libertação das mulheres. 
Essa orientação encontrará um eco não negligenciável entre as assalariadas dos bancos, dos
correios, da saúde ou entre setores privados, levando o desenvolvimento de grupos de mu-
lheres empresárias e de comissões de mulheres sindicalistas, que incentivaram numerosos
debates dentro do movimento sindical até o fim da década de 70. (http://www.sof.org.br/
textos/15 publicado em 16 de junho de 2011)

A luta feminina continua. Nos dias atuais encontramos diversos avanços


como o direito de voto, o acesso a escolarização e ao mercado de trabalho,
ocupação de cargos políticos e da administração pública, fatos que poderiam

capítulo 3 • 61
parecer inverossímeis no início do século passado. Contudo, muito ainda pre-
cisa ser feito para romper com os preconceitos e a violência que ainda atinge
milhões de mulheres ao redor do planeta.
Reformulado, o movimento atual utiliza o próprio corpo como ferramenta
de comunicação. Se outrora o símbolo do feminismo foi a queima dos sutiãs,
atualmente as jovens ativistas tem escrito na pele suas reivindicações. A trans-
gressão de exibir o corpo nu está a serviço da batalha contra a mercantilização
do corpo feminino.
Em Toronto no Canadá, um oficial de segurança, numa palestra aconse-
lhou as mulheres a se vestirem de forma mais apropriada para evitar que fos-
sem estupradas. Sua fala causou indignação tamanha e aproximadamente três
mil mulheres foram as ruas da cidade para protestar. Nasceu daí o movimento
denominado Slut Walk – no Brasil, ficou conhecido como Marcha da Vadias.
Em nosso país o termo gerou polêmica, mas a luta feminina vai além da culpa-
bilização da mulher pela violência sexual. O movimento possui em sua pauta
o a igualdade de gênero, a extinção da violência simbólica, física e sobretudo
doméstica.
Leia a seguir trecho da Carta Manifesto da Marcha das Vadias de Brasília:

No mundo, marchamos porque desde muito novas somos ensinadas a sentir culpa e
vergonha pela expressão de nossa sexualidade e a temer que homens invadam nossos
corpos sem o nosso consentimento; marchamos porque muitas de nós somos res-
ponsabilizadas pela possibilidade de sermos estupradas, quando são os homens que
deveriam ser ensinados a não estuprar; marchamos porque mulheres lésbicas de vários
países sofrem o chamado “estupro corretivo” por parte de homens que se acham no
direito de puni-las para corrigir o que consideram um desvio sexual; marchamos porque
ontem um pai abusou sexualmente de uma filha, porque hoje um marido violentou a es-
posa e, nesse momento, várias mulheres e meninas estão tendo seus corpos invadidos
por homens aos quais elas não deram permissão para fazê-lo, e todas choramos porque
sentimos que não podemos fazer nada por nossas irmãs agredidas e mortas diariamen-
te. Mas podemos. ( Exemplares disponíveis no site: https://goo.gl/zlLBLf, acesso em
20 de maio de 2015)

62 • capítulo 3
3.4  O movimento Hippie
Dentro desses inúmeros movimentos o movimento hippie surge como grande
arma da contracultura. Os jovens buscavam construir uma alternativa ao mode-
lo de vida padronizado da sociedade estadunidense.
A princípio o senso comum julga o movimento como um grupo de jovens
drogados e que pensam apenas nos prazeres da vida, sem coragem de enfrentar
o “verdadeiro” trabalho. No entanto, o movimento hippie juntamente como o
feminismo e o movimento negro foram durante as décadas de 1960 e 1970 os
germinadores de ideias políticas e culturais que transformaram em diversos
aspectos a vida social.
Os hippies foram grandes ativistas contra as guerras que assassinavam mi-
lhares de pessoas e destruía a natureza. Suas manifestações organizadas eram
alvos de repressão policial e pelo descaso da imprensa, que era controlada no
sentido de marginalizar o movimento.
As principais características desse movimento estavam atreladas a descons-
trução dos padrões morais e do modelo capitalista de vida. Os Hippies eram
extremamente ligados as questões da natureza, preferiam viver em grupos co-
munitários nos quais dividiam tarefas, pregavam o fim das fronteiras nacionais
para que todos pudessem pertencer ao mundo. O Rock and roll e as drogas fa-
ziam parte do cotidiano hippie, a questão da liberdade individual e da experi-
mentação eram fundamentais para eles. Muitos passaram a seguir os ensina-
mentos de mestres espirituais do oriente, o que os aproximou bastante daquela
cultura. Temas como meditação, budismo, vegetarianismo foram introduzidos
no caminho da paz espiritual. A vida de solidariedade e simplicidade era oposta
ao fenômeno consumista daquela época.
Um dos ícones do movimento hippie foi o professor da Universidade de
Harvard Timothy Francis Leary, neurocientista, futurista e libertário. Timothy
era defensor do uso de LSD para o aumento da consciência humana. Perdeu
seu cargo de professor por realizar uma experiência com sua turma de alunos.
A seguir vejamos uma excerto de sua Declaração da Evolução

Quando, no curso da evolução orgânica torna-se óbvio que um processo de mutação


é inevitavelmente dissolver os laços físicos e neurológicos que ligam os membros de
uma geração para o passado e, inevitavelmente, direcionando-os para assumir, entre as

capítulo 3 • 63
espécies da Terra a estação separada e igual a que as Leis da Natureza e Deus da
natureza a autorizam, uma preocupação decente para a harmonia da espécie requer
que as causas da mutação deve ser declarado. Consideramos estas verdades como
evidentes: Que todas as espécies são criadas diferentes, mas iguais; Que são dota-
dos, cada um, com certos direitos inalienáveis; Que entre eles estão liberdade de viver,
liberdade para crescer, e liberdade de buscar a felicidade em seu próprio estilo; Que,
para proteger estes direitos dados por Deus, estruturas sociais naturalmente surgir, ba-
seando a sua autoridade sobre os princípios do amor de Deus e do respeito para todas
as formas de vida; Que sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de
vida, à liberdade e harmonia, é dever orgânico dos jovens membros dessa espécie de
mutação, para cair fora, dar início a uma nova estrutura social, colocando suas bases
em tais princípios e organizando seu poder de tal forma como parece provável para
produzir a segurança, felicidade e harmonia de todos os seres sencientes. (Timothy
Leary, The Declaration of Evolution, exemplares disponíveis em: http://goo.gl/vtxdqQ,
acesso em 20 de maio de 2015. )

Como diz o professor Timothy, é hora de dar início a uma nova estrutura
social. O movimento hippie buscou de diferentes maneiras construir um novo
modelo social, rejeitando o excesso de consumo, o progresso técnico que arra-
sa a natureza, a urbanização em detrimento do campo e a violenta luta pela as-
censão social. Não podemos, no entanto, compreendermos o movimento como
um grupo homogêneo, havia diferenças marcantes, inclusive opostas, como
em relação ao uso de alucinógenos.
Contudo, uma nova proposta se instalava na sociedade ocidental. Leia a le-
tra traduzida de Imagine, música de Jonh Lennon, que pode nos demonstrar o
espírito de transformação:

Imagine
Imagine não haver o paraíso
É fácil se você tentar
Nenhum Inferno abaixo de nós
Acima de nós, só o céu
Imagine todas as pessoas
Vivendo o presente

64 • capítulo 3
Imagine que não houvesse nenhum país
Não é difícil imaginar
Nenhum motivo para matar ou morrer
E nem religião, também
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz
Você pode dizer que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Espero que um dia você junte-se a nós
E o mundo será como um só
Imagine que não ha posses
Eu me pergunto se você pode
Sem a necessidade de ganância ou fome
Uma irmandade dos homens
Imagine todas as pessoas
Partilhando todo o mundo
Você pode dizer que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Espero que um dia você junte-se a nós
E o mundo viverá como um só
(Jonh Lennon, Exemplares disponíveis em: http://goo.gl/9NrhKd. Acesso em 25 de
maio de 2015)

3.5  Maio de 1968 na França


A França foi em maio de 1968 palco de uma das maiores manifestações estu-
dantis de todos os tempos. Estudantes universitários uniram-se aos operários e
pararam o país com uma greve que abarcava diversos setores. Aproximadamen-
te nove milhões de pessoas saíram às ruas para protestar. O governo de Charles
de Gaulle deparou-se com inúmeras reivindicações que resultaram na renuncia
do presidente alguns meses depois.
O início dos protestos ocorreu numa passeata pacifica na Universidade
de Paris em Nanterre, na qual os estudantes desejavam acomodações

capítulo 3 • 65
mistas, ou seja, quartos partilhados por homens e mulheres. As autoridades
da Universidade decidiram expulsar alguns líderes do movimento e fechar as
portas da escola. A repressão violenta por parte da polícia só atraiu mais simpa-
tizantes como o Partido comunista Francês e alguns sindicatos. Rapidamente a
cidade de Paris transformou-se num campo de batalha.
Podemos desconfiar que não se tratava apenas de um anseio estudantil por
liberdade sexual. Os protestos estavam pautados em um redirecionamento
político necessário para aquele momento histórico. Desde o final da Segunda
Guerra Mundial era a primeira vez que o sistema capitalista apresentava sinais
de desgaste e uma crise financeira espalhava-se sorrateiramente. Além disso, a
luta política dos partidos de esquerda ainda focavam apenas o enfrentamento
do poderio burguês, desprezando outras formas de opressão, os jovens estavam
denunciando o massacre das individualidades.
Na agenda daqueles jovens estavam, entre outras, matérias como a liber-
dade e valorização das subjetividades, as questões ambientais, as reclamações
dos movimentos feministas e homoafetivos, os direitos dos idosos e a questão
da loucura. Diversas frases curtas serviam como lema do pensamento dos jo-
vens de 1968, como por exemplo: é proibido proibir! A imaginação no poder;
prazer sem restrições; sejamos realistas: exijamos o impossível.

3.6  Cultura brasileira nas décadas de 1960 e


1970

A década de 1960 impulsionou muitas mudanças sociais, política e culturais.


Inseridas no conflito indireto da Guerra Fria, diversas nações experimentavam
a apoderamento juvenil como motor de transformações nas estruturas. O duelo
para manter as áreas de influência de EUA e União Soviética se estabelecida na
corrida espacial, no cinema, e nos partidos políticos. A guerra do Vietnã assom-
brava com a capacidade destrutiva e o massacre de civis. O Brasil era oprimido
pelo momento mais crítico da Ditadura Militar.
A cultura brasileira nos anos sessenta e setenta do século passado expe-
rimentou uma complexa teia de referências e intercâmbios. A busca pelo na-
cional e popular influenciava a expressão da modernidade no cinema, teatro
e música. Os três setores artísticos desejavam problematizar sobre o acesso ao

66 • capítulo 3
público, pois consideravam que a arte deveria tratar das questões nacionais
de maneira realista e, portanto, deveriam chegar aos sujeitos dessa realidade.
Todas essas formas de expressões experimentais enfrentavam a forte repressão
por parte dos militares.
O Cinema Novo foi um movimento inspirado no cinema neorealista italia-
no e na francesa nouvelle vague. Os cineastas brasileiros procuram um cami-
nho que trouxesse mais realismo as telas nacionais. As discussões odorridas
no I Congresso Nacional de Cinema Brasileiro deram fruto ao Cinema Novo em
1952. A obra que denota a transformação é Rio, 40 Graus de Nelson Pereira
dos Santos. Lançado em 1955 o filme narra o cotidiano de cinco jovens de uma
favela carioca que vivem da venda de amendoim nas areias de Copacabana, no
Estádio do Maracanã e no turístico Pão de Açúcar. O filme revela cruamente os
personagens das ruas do Rio de Janeiro, os políticos, os policias, as crianças
faveladas, o mundo do crime. A descrição realista do domingo de verão carioca
incomodou os militares que censuraram o filme.
Inaugurada estava a onda de cinema brasileiro que priorizava os conceitos
que poderiam denunciar para o próprio povo brasileiro a realidade do contex-
to social: as desigualdades e a exploração. O tipo de filme cabeça realizado no
Brasil também possuía a estética realista europeia mas buscavam a nacionali-
zação das técnicas e da forma, o objetivo principal eram criar obras degustáveis
pelas classes populares. O foco passava para os personagens e suas falas.
Grande expoente desse movimento cinematográfico foi o baiano Glauber
Rocha. Na busca de uma estética apropriada ao movimento, ele produziu fil-
mes que realizavam crítica ácida da realidade. Ao todo a censura da ditadura
militar proibiu nove filmes de Glauber. Em 1967 o filme Terra em Transe foi
premiado no festival de cinema de Cannes e é considerada sua melhor obra. O
cineasta baiano levou ao extremo o lema do movimento: uma câmera na mão e
uma ideia na cabeça.

LEITURA
Leia o livro de Zuenir Ventura sobre as transformações oriundas dos movimentos da década
de sessenta - 1968: o Ano que Não Terminou, Zuenir Ventura, Editora: Nova Fronteira 2006.

capítulo 3 • 67
Na mesma linha o teatro nacional possuía o protesto como germe de suas
expressões. A maior aspiração era a conscientização da população das mazelas
impostas pelo regime militar e a exploração capitalista. O desejo de agredir a
moralidade burguesa-cristã estava nas diversas peças que recusavam se enqua-
drar na arte comercial, eram comuns o linguajar coloquial sujo e corpos nus
nas cenas que procuravam sempre uma mensagem política.
As peças de diversos grupos teatrais seguiam o engajamento político das
artes. O Arena de Augusto Boal foi tido como maior exemlar do teatro de resis-
tência na década de sessenta no Brasil. Como textos como Arena conta Zumbi
e Arena conta Tiradentes o grupo inaugura uma modalidade de representação
que aproxima os personagens da plateia. Na peça Murro em ponta de faca o
diretor escancara as entranhas do poder na política brasileira e seus esquemas
de manipulação.
Nesse caminho também, o Teatro Oficina de José Celso Martinez mantém
até os dias atuais a crítica aos valores da sociedade burguesa e consumista que
são sagrados para a classe média nacional. O grupo conseguiu manter-se ativo
mesmo durante o Ato Institucional n.º 5 que perseguiu inúmeros artistas du-
rante o embrutecimento da censura no Brasil do governo militar. Logo a seguir
veremos esse momento histórico.
Leia um relato sobre a peça o Assalto:

Escrita em 1967 quando a ditadura militar no Brasil entrava no seu auge, o autor com
pouco mais de 20 anos, já teve a sua primeira peça, Santidade, censurada pelo gover-
no do General Costa e Silva, e com o próprio presidente em todas as redes de TV do
território brasileiro, com o texto da peça em punho e definitivamente proibindo-a de ser
encenada por tratar abertamente de homossexualismo. Com a primeira obra censurada
Zé Vicente partiu pro seu segundo texto e primeiro a ser encenado: O ASSALTO. Na
sua primeira versão, encantou não só os críticos e o público habitual de teatro pela qua-
lidade e poesia do texto e também a juventude libertária e transformadora de 1968 por
tocar abertamente nos tabús, não só do homossexualismo mas também dos movimen-
tos de esquerda, que na época assaltavam os bancos para se manter e sustentar as
guerrilhas que se armavam nos campos para desestruturar o regime militar. Zé Vicente
coloca em O ASSALTO, dois personagens Vitor e Hugo (brincadeira evidente com o
nome do escritor), o primeiro jovem bancário solitário vindo do interior para São Paulo
se tranca numa sala com o segundo, um varredor pai de família, pra tentar comprar

68 • capítulo 3
sua companhia. A tentativa de simbolizar a direita e a esquerda com os dois e evidente,
mas se confunde no decorrer da situação como tesão explícito do bancário, símbolo da
direita, no varredor, obviamente símbolo da esquerda, mas que aumenta a sua renda se
prostituindo nas horas vagas. O ASSALTO, apesar de escrito há mais de 30 anos mos-
trou, nesta montagem ser uma peça atual demais, inclusive por se passar num banco,
igreja do maior deus do momento: o dinheiro. Zé Vicente, é considerado até hoje como
um dos maiores dramaturgos surgidos no Brasil, com suas peças de câmara faz verda-
deiras peças religiosas, lembrando sempre a sua origem numa família pobre em Minas
Gerais, estudante de seminário deixando transparecer seu cristianismo, que em alguns
momentos lembra o de Jean Genet. Com o endurecimento da ditadura militar brasileira
na época, o autor, muito perseguido, caiu no ostracismo, sendo quase esquecido pelas
gerações seguintes, mas suas críticas contundentes ao mundo atual continuam nesta
montagem. (http://teatroficina.com.br/plays/7 , acesso em 23 de maio de 2015)

Em relação à música, destacam-se os Festivais da Canção que eram veicu-


lados pela televisão. Nomes como Milton Nascimento, Geraldo Vandré, Chico
Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo, Maria Bethânia, Toquinho,
Elis Regina, Jair Rodrigues, Nara Leão marcaram época e produziram canções
com temática nacional e de crítica ao modelo social.
As vertentes que se destacaram foram a Jovem Guarda, com músicas român-
ticas e guitarras elétricas, nascida no programa televisivo de mesmo nome, essa
linguagem modificou o comportamento dos jovens brasileiros, importando o
rock and roll estadunidense e inglês. As letras eram açucaradas e normalmente
com temática amorosa, porém algumas críticas eram realizadas em favor da
liberdade de expressão adolescente. Os ícones da Jovem Guarda foram Roberto
Carlos, Erasmo Carlos, Wanderléa, Ronnie Von, Jerry Adriani, Vanusa, entre
outros. Muitos críticos do movimento apontam para a alienação do grupo em
relação as questões políticas nacionais. Por outro lado, o Tropicalismo foi um
movimento que lutou contra a presença dos militares no poder. Criado duran-
te o período de ampliação do poder dos militares, a Tropicália inspirava-se no
sincretismo da cultura brasileira. A música influenciada pelo rock and roll ga-
nhou estética misturando as manifestações da cultura popular, resultando em
letras e sonoridade que transgrediam os padrões da época. O movimento não
esteve atrelado somente a música. Nas artes plásticas, por exemplo, o artista
Hélio Oiticica trazia renovações como a introdução do espectador no exercício
da liberdade.

capítulo 3 • 69
A canção Baby de Caetano Veloso é ótimo exemplo da critica tropicalista
em relação ao mercado de consumo e a difusão de valores internacionais pelo
mercado fonográfico que encharcava os ouvidos da população brasileira. O
descompromisso juvenil é apontado frente ao desprezo de grandes músicos
brasileiros. Vejamos

Baby
Você precisa saber da piscina
Da margarina, da Carolina, da gasolina
Você precisa saber de mim
Baby, baby, eu sei que é assim
Baby, baby, eu sei que é assim
Você precisa tomar um sorvete
Na lanchonete, andar com a gente, me ver de perto
Ouvir aquela canção do Roberto
Baby, baby, há quanto tempo
Baby, baby, há quanto tempo
Você precisa aprender inglês
Precisa aprender o que eu sei
E o que eu não sei mais
E o que eu não sei mais
Não sei comigo vai tudo azul
Contigo vai tudo em paz
Vivemos na melhor cidade
Da América do Sul, da América do Sul
Você precisa, você precisa, você precisa
Não sei, leia na minha camisa
Baby, baby, I love you
Baby, baby, I love you
(Caetano Veloso, exemplares disponíveis em: http://letras.mus.br/ , acesso em 23 de
maio de 2015)

O resultado dessa ebulição de movimentos críticos ao poderio do exér-


cito, e consequentemente o aumento da esquerda provocou medo na direita
ultraconservadora brasileira. As ações do Comando de Caça aos Comunistas
– CCC, no país representam o quanto o pensamento de esquerda no Brasil era

70 • capítulo 3
perseguido. Atores e atrizes foram brutalmente atacados durante a peça Roda
Viva de Chico Buarque, alguns membros da Igreja Católica que passaram a se
dissociar dos militares sofreram represálias. Momento marcante do período
foi o conflito direto entre estudantes da Universidade Mackenzie – direitistas,
e os da Universidade de São Paulo – esquerdistas, na rua Maria Antonia em São
Paulo. Em 3 de outubro de 1968 diversos estudantes iniciaram uma batalha que
resultou na morte de um secundarista do Colégio Marina Cintra.
Outro evento marcante do período foi a Passeata dos Cem Mil, realizada no
dia 26 de junho de 1968. Após a morte de um estudante no restaurante univer-
sitário durante um protesto contra o aumento do preço das refeições, as orga-
nizações estudantis convocaram assembleias para organizar algumas manifes-
tações públicas contra o regime militar. A manifestação de 21 de junho acabou
com milhares de pessoas feridas e três mortes de estudantes. Para aliviar as
tensões o governo militar liberou a realização da passeata no dia 26. As ruas da
Cinelêndia foram tomadas na tarde daquele dia, entre os estudantes, artistas,
políticos, intelectuais o lema Abaixo a ditadura, o povo no poder era entoado
por todos.
Durante a realização da passeata não houve conflito, mas nos dias que suce-
deram vários estudantes foram detidos em diversas capitais brasileira e em 12
de outubro daquele mesmo ano, o congresso da União Nacional dos Estudantes
– UNE, realizado clandestinamente na cidade de Ibiúna, no interior do estado
de São Paulo terminou com a prisão de mais de mil estudantes.
Os anos de chumbo da ditadura brasileira estavam começando. Em 2 de se-
tembro de 1968 o deputado do partido MDB discursou no Congresso a favor do
boicote das mulheres brasileiras em relação aos soldados do exército, seu irôni-
co texto incentivava as moças a não se relacionarem com militares. O dirscurso
gerou polêmica e logo os militares pediram a cassação do deputado. A rejeição
por parte do Congresso resultou na promulgação do Ato Institucional número
5 – AI-5; o mais duro golpe do regime militar no Brasil.
O texto apresenta contradições enormes, pois trata o Golpe dos militares
como uma revolução que luta para assegurar a autêntica ordem democrática no
país, baseada na liberdade e no respeito à dignidade da pessoa humana. Seria
risível se não fosse pelo número de mortes que esse documento provocou.
O texto com força de lei permitia ao presidente Artur da Costa e Silva sus-
pender as atividades do Congresso, suspender os direitos políticos de qualquer
cidadão por dez anos e conforme o quinto artigo, a suspensão significava:

capítulo 3 • 71
I. A cessação de privilégio de foro por prerrogativa de função;
II. suspensão do direito de votar e de ser votado nas eleições sindicais;
III. proibição de atividades ou manifestação sobre assunto de natureza política;
IV. aplicação, quando necessária, das seguintes medidas de segurança:
a) liberdade vigiada
b) proibição de frequentar determinados lugares
c) domicílio determinado
§ 1º - O ato que decretar a suspensão dos direitos políticos poderá fixar restrições ou
proibições relativamente ao exercício de quaisquer outros direitos públicos ou privados.
(Ato Institucional n.º 5, disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/AIT/ait-05-
68.htm)

Após o AI-5 a vida tornou-se demasiadamente controlada, não no sentido


mais cotidiano como comprar pão na padaria ou ir ao médico, mas sim em re-
lação às criticas ao governo e o desejo de uma sociedade mais justa e menos
opressora. Para que você tenha uma ideia, em todas as redações de jornais
haviam funcionários do governo para censurar as notícias. Em sua maioria as
notícias tratavam e enaltecer o governo militar. A propaganda política soube
criar o marketing que apresentava o governo militar como responsável pelo de-
senvolvimento e progresso pelo qual o país passava, um adesivo com os dizeres
Brasil, ame-o ou deixe-o tinha grande circulação nas cidades brasileiras.
O período de rígida opressão durou até a segunda metade da década de se-
tenta, quando iniciou-se um processo gradual de redemocratização da política
nacional.

CONEXÃO
A tortura tornou-se rotina nos centros especializados da Polícia do Regime Militar, acesse
o site http://www.memorialdaresistenciasp.org.br/memorial/default.aspx para ampliar seus
conhecimentos sobre esse triste período da história nacional.

72 • capítulo 3
ATIVIDADES
01. Sintetize os principais argumentos do discurso de Martin Luther King e Malcom-X.

02. Um dos lemas de maio de 68 era: é proibido proibir! Explique essa ideia relacionando-a
com o movimento de Maio de 68 na França.

03. Explique o excerto do manifesto de Simone Beauvoir e relacione-o ao movimento fe-


minista: “A divisão dos sexos é, com efeito, um dado biológico e não um momento da história
humana.”

04. Dê três exemplos da música brasileira entre 1960 e 1970 e argumente sua relação com
a resistência política.

LEITURA
Leia um dos discursos mais importantes do século XX: KING, Martin Luther. Eu tenho um
sonho. Exemplares disponíveis em: http://www.dhnet.org.br/desejos/sonhos/ihavedreamr.
htm. Acesso em 20 de maio de 2015.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ASSOCIAÇÃO TEAT(R)O OFICINA UZYNA UZONA, http://teatroficina.com.br/home
BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo: Fatos e Mitos. Trad. Sérgio Milliet. Difusão Europeia do Livro,
São Paulo, 1970.
FORDHAM UNIVERSITY, Internet History Sourcebooks Project. Documentos disponíveis em:
http://legacy.fordham.edu/Halsall/index.asp

capítulo 3 • 73
KING, Martin Luther. Eu tenho um sonho. Exemplares disponíveis em: http://www.dhnet.org.br/
desejos/sonhos/ihavedreamr.htm. Acesso em 20 de maio de 2015.
PURDY, Sean. Direitos civis e contracultura nos EUA. Exemplares disponíveis em : http://anphlac.
fflch.usp.br/direitos-civis-eua-apresentacao. Acesso em 20 de maio de 2015.
X, Malcom. Autobiografia de Malcom-X / com colaboração de Alex Haley. Rio de Janeiro: Record,
1992.
X, Malcom. PALESTRA DE MALCOLM X NA FUNDAÇÃO DA “ORGANIZAÇÃO DA UNIDADE
AFRO-AMERICANA” (OAAU) – Audubon Ballroom, Harlem – Nova York, 28 de junho de 1964.
Exemplar disponível em: http://goo.gl/qSLdrJ . Acesso em 20 de maio de 2015.
Marxist History: USA: Black Panther Party . THE TEN-POINT PROGRAM. Exemplares disponíveis em:
https://www.marxists.org/history/usa/workers/black-panthers/1966/10/15.htm

74 • capítulo 3
4
O neoliberalismo:
internacionalização
da economia
Este capítulo você irá estudar sobre a internacionalização da economia. Parti-
remos da construção do Welfare State, uma modalidade de política-econômica
na qual o Estado interfere para fazer crescer a economia e para garantir direitos
sociais. Logo em seguida, veremos como a partir da década de oitenta diversos
países passaram a recuperar o liberalismo político e econômico, processo ao
qual denominamos neoliberalismo. Por fim veremos a consequência dessa po-
lítica em nosso país.

OBJETIVOS
•  Identificar as características do Estado de Bem-Estar Social.
•  Verificar a dissolução das políticas acima em prol de uma economia voltada para o merca-
do: o neoliberalismo.
•  Reconhecer as consequências do neoliberalismo na América Latina.
•  Analisar o processo de abertura política no Brasil pós Regime Militar.

76 • capítulo 4
4.1  Os caminhos da internacionalização da
economia

O Neoliberalismo é o novo formato do liberalismo político e econômico do sé-


culo XIX. Podemos defini-lo como um conjunto complexo de práticas e teorias
que buscavam a separação do Estado da religião e da independência dos po-
deres políticos, como executivo, judiciário e legislativo. Um dos maiores pen-
sadores do liberalismo foi Montesquieu, que contrário ao absolutismo do rei,
defendia que a separação dos poderes era essencial para impedir a tirania real.
O filósofo Rousseau, por sua vez, era partidário de um liberalismo que sujeitava
o controle do Estado ao contrato social construído pela sociedade. Sobretudo o
liberalismo protege a propriedade privada e a liberdade individual, pautado na
crença da meritocracia, ou seja, os indivíduos são responsáveis por suas con-
quistas e o Estado não deve interferir nos interesses particulares.
O neoliberalismo ganhou força na política ocidental principalmente a par-
tir dos anos oitenta. Mas antes, façamos uma pequena revisão dos anteceden-
tes políticos e econômicos da década de setenta.

4.2  O estado de bem-estar social – Welfare


State

O Estado de bem-estar social originou-se das ideias keynesianas como uma al-
ternativa para a crise europeia ligada a Grande Depressão de 1929. Para John
Maynard Keynes a questão do desemprego seria solucionada pelo fortaleci-
mento da economia de mercado. Seus princípios renovaram a economia políti-
ca de livre mercado. O plano de Keynes era manter os investimentos públicos e
privados nos diversos setores da economia para equilibrar a capacidade produ-
tiva a demanda do mercado, estabilizando o pleno emprego.
Considerado um dos maiores economistas do século XX, a principal obra de
Keynes é o livro A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda.
Para os conservadores e liberais europeus o Estado de bem-estar social
buscava suprir as necessidades de todos os cidadãos numa política econômi-
ca que criava um aglomerado de bens e serviços regulamentado pelo Estado.

capítulo 4 • 77
Tais direitos sociais serviriam inclusive para manter os avanços do pensamento
político comunista. As políticas sócias previam assistência médica, educação,
habitação e juntamente com a iniciativa privada o pleno emprego.
Nos Estados Unidos da América o presidente Franklin D. Roosevelt instituiu
um plano econômico para recuperar o país da crise de vinte e nove. O Estado
americano abandonou por um tempo o liberalismo econômico e passou di-
retamente a interceder nas questões econômicas. Realizou obras públicas de
infraestrutura como rodovias e reflorestamentos, construiu aeroportos, criou
financiamentos agrícolas, o que resultou em milhares de empregos e elevou a
demanda às indústrias privadas.
Por sua força no Congresso, o presidente conseguiu aprovar a Lei de
Seguridade Social, que garantiu previdência, seguro-desemprego, habitação e
salário mínimo. O New Deal recuperou a economia estadunidense, apesar de
inúmeras críticas por parte dos empresários.
O The Social Security Act assinado em 1935, buscou estabelecer, para o bem
-estar geral, um sistema de benefícios, custeados pela federação, para atender
os idosos, os cegos, os deficientes, a maternidade, a saúde pública em geral e os
desempregados. Leia a seguir o trecho sobre a ajuda aos desempregados

TÍTULO III- SUBVENÇÕES aos Estados para DESEMPREGO DE COMPENSAÇÃO DE


ADMINISTRAÇÃO APROPRIAÇÃO SEÇÃO 301. Para a finalidade de auxiliar os Esta-
dos na administração de suas leis de compensação de desemprego, não é autorizada a
apropriar, para o ano fiscal que termina em 30 de junho de 1936, o montante de 4000
mil dólares, e para cada ano fiscal, posteriormente, a soma de 49 milhões dólares, para
ser usada como a seguir fornecida.
PAGAMENTOS AOS ESTADOS
SEC. 302. (a) O Conselho de Administração de tempos em tempos certificar ao Secre-
tário do Tesouro para o pagamento a cada Estado que tem uma lei de compensação
de desemprego aprovadas pelo Conselho ao abrigo do Título IX, os montantes que o
Conselho determina que seja necessário para a boa administração de tal lei durante o
ano fiscal em que esse pagamento deve ser feito. A determinação do Conselho deve
basear -
(1) a população do Estado;

78 • capítulo 4
(2) uma estimativa do número de pessoas abrangidas pela lei do Estado e do custo de
administração da referida lei; e
(3) outros fatores que o Conselho julgue relevantes. O Conselho não deve atestar para
pagamento nos termos desta seção em qualquer ano fiscal num montante total supe-
rior ao montante destinado para esse fim para aquele ano fiscal.
(B) Fora das quantias apropriadas para esse fim, o Secretário do Tesouro, ao receber
uma certificação ao abrigo da subsecção
(A), pagar, através da Divisão de Desembolso do Departamento do Tesouro e antes de
auditar ou liquidação pelo General Accounting Office, a agência estatal encarregada da
administração da referida lei o montante assim certificada.
Exemplares disponíveis em: http://ssa.gov/history/35act.html , acesso em 20 de maio
de 2015)

Pela leitura do texto notamos a organização dos repasses federais para o au-
xílio ao desemprego nos diversos Estados da federação. Essa estratégia, junta-
mente com as citadas anteriormente, funcionava para manter o crescimento
da economia.

4.3  As políticas econômicas de Margaret


Hilda Thatcher e Ronald Reagan

Na Inglaterra o welfare state foi resultado da política do Partido Trabalhista


que venceu as eleições para primeiro ministro com Clement Richard Attlee, em
1945. Para as reformas implementas no país, Attlee contou com uma equipe
que incluía Aneurin Bevan e Jonh Maynard Keynes. O trabalho de estatização de
minas de carvão, das empresas de gás, dos transportes, ocorreram juntamente
com a criação do Serviço Nacional de Saúde.
No entanto, o planejamento econômico de seu governo não conseguiu recu-
perar a finança inglesa, muito devido ao enorme gasto com o programa social.
Logo, nas eleições próximas seu partido foi derrotado pelos conservadores, que
realizaram algumas mudanças, porém mantiveram as bases do daquela refor-
ma social.

capítulo 4 • 79
A mudança radical viria apenas em 1979 quando o Partido Conservador
vence as eleições e Margareth H. Thatcher trona-se primeira-ministrada da
Inglaterra. Sua política econômica foi responsável por desmantelar o welfare
state criado pelo Partido Trabalhista.

CONEXÃO
Assista ao filme The Iron Lady – A Dama de Ferro, no qual Meryl Streep interpreta Margareth
Thatcher num dos momentos mais conturbados de seu governo, a Guerra das Malvinas. O
filme biográfico conta por meio de flashbacks a carreira política da primeira-ministra inglesa.

A primeira-ministra governou durante onze anos a Inglaterra e sempre


manteve um programa liberal de governo. Sua proposta era, primeiramente, a
redução do aparelho de Estado que custava muito para se manter, diminuir os
impostos dos ricos e ampliar os impostos para os pobres, e garantir mais liber-
dade aos consumidores e produtores. Nos cinco primeiros anos conseguiu pri-
vatizar inúmeras empresas estatais, fato que acarretou diversas manifestações
e greves por todo país.
O neoliberalismo de Thatcher, por conta do enorme endividamento do
Estado, reduziu os gastos nos setores da educação, habitação e do programa de
pleno emprego. Sua equipe econômica preocupou-se com grande ajuste fiscal
e reformas que atendessem ao mercado.
O ministro da fazenda durante o governo de José Sarney, em 1987, Luiz
Carlos Bresser Pereira, elaborou como veremos a seguir, análise do período no
qual ocorreram as ações neoliberais,

Desde meados dos anos 80, os países altamente endividados têm-se dedicado a pro-
mover o ajuste fiscal, a liberalizar o comércio, a privatizar, a desregulamentar. Os re-
sultados foram positivos, na medida que se superaram os aspectos agudos da crise: a
balança de pagamentos voltou a um relativo controle, por toda a parte caíram as taxas
de inflação, os países recuperaram pelo menos alguma credibilidade. Mas não se re-
tomou o crescimento. O pressuposto neoliberal que estava por trás das reformas — o
pressuposto de que o ideal seria um Estado mínimo, ao qual caberia apenas garan-
tir os direitos de propriedade e os contratos, deixando exclusivamente ao mercado a

80 • capítulo 4
coordenação da economia — provou ser irrealista. Em primeiro lugar porque, apesar
do predomínio ideológico alcançado pelo credo neoconservador, em país algum — de-
senvolvido ou em desenvolvimento — este Estado mínimo demonstrou ter legitimidade
política. Não há sequer apoio político para um Estado que apenas acrescente às suas
funções clássicas de garantir a ordem interna, as de prover a educa- ção, dar atenção à
saúde e realizar políticas sociais compensatórias. Os cidadãos continuam a exigir mais
do Estado. Em segundo lugar porque rapidamente se percebeu que a idéia de que as
falhas do Estado eram necessariamente piores que as falhas do mercado não passava
de dogmatismo. As limitações da intervenção estatal são evidentes, mas o papel es-
tratégico que as políticas públicas desempenham no capitalismo contemporâneo é tão
grande que é irrealista propor que sejam substituídas pela coordenação do mercado,
nos termos sugeridos pelo pensamento neoliberal. Como Przeworski (1996: 119) ob-
serva, “a visão (neoliberal) de que na ausência de suas ‘tradicionais’ falhas, os mercados
seriam eficientes parece que atualmente está morta, ou pelo menos moribunda”. Por
outro lado, tornou-se cada vez mais claro que a causa básica da grande crise dos anos
80 — uma crise que só os países do Leste e do Sudeste asiático conseguiram evitar
— é uma crise do Estado, que se dá de três formas: uma crise fiscal do Estado, uma
crise do modo ou das estratégias de intervenção estatal, e uma crise da forma burocrá-
tica pela qual o Estado é administrado.l Ora, se a proposta de um Estado mínimo não
é realista, e se o fator básico subjacente à crise ou à desaceleração econômica e ao
aumento dos níveis de desemprego é a crise do Estado, a conclusão só pode ser uma:
o caminho para resolver a crise não é provocar o definhamento do Estado, enfraque-
cê-lo ainda mais do que já está enfraquecido, mas reconstruí-lo, reformá-lo. (PEREIRA,
1996, p. 5 – 6)

Nos EUA, concomitantemente, assumia o governo o Partido Republicano,


com o candidato Ronald Reagan. O presidente havia sido ator nas décadas an-
teriores, e tinha ganhado bastante popularidade como representante da em-
presa General Eletric e da Screen Actors Guild.
Sua carreira política iniciou-se com o governo da Califórnia. Durante o final
da década de sessenta sua ação consistiu no endurecimento das leis, como a
tentativa do retorno da pena de morte na legislação estadual, e a perseguição
aos comunistas. Atacou duramente os estudantes da Universidade de Berkeley
que protestavam contra a discriminação e a pela ampliação dos direitos de li-
berdade de expressão.

capítulo 4 • 81
Na presidência do EUA, Reagan governou por oito anos a partir de 1980.
Durante seus dois mandatos a economia do país voltou a crescer, mas o custo
disso foi bastante alto. A política adota por ele estava interligada ao fortaleci-
mento da Guerra Fria e a programas de pesquisas militares para desenvolvi-
mento de armas como o escudo espacial contra mísseis, o Strategic Defense
Initiative.
O governo de Reagan foi profundamente marcado pelo militarismo.
Reativando a Guerra Fria ocupou posições no oeste europeu organizando ba-
ses militares armadas de mísseis de longo alcance. No Caribe invadiu a ilha de
Granada para abafar reformas de esquerda. Na Nicarágua auxiliou os guerri-
lheiros contra o governo sandinista, enviando recursos, armas e agentes da CIA
para treiná-los. O bloqueio econômico a Cuba foi reforçado. Sua campanha an-
ticomunista era cotidiana, seus discursos rechaçavam a União Soviética, a qual
denominava o Império do Mal.
No oriente, Reagan seguia a lógica de combate a ideologia de esquerda. Suas
ações na Líbia, nos conflitos internos do Afeganistão, no embate entre judeus
e palestinos e na Guerra Irã-Iraque sempre pretendiam defender os interesses
estadunidenses frente à influência da União Soviética. Se na década de noven-
ta Sadham Hussein e os fundamentalistas do Talebã tornaram-se inimigos do
EUA, durante os oitentas eram aliados que recebiam recursos financeiros e
armas.

4.4  A experiência de neoliberal na America


Latina

As transformações politico-econômicas inauguradas pelo processo de globali-


zação que alastrou o projeto neoliberal de governança demonstram a relativa de-
pendência de dominação dos países desenvolvidos sobre os não-desenvolvidos.
Na história latino americana, o processo histórico seguiu o mesmo padrão.
Os pacotes de financiamento internacional sempre vieram atrelados a interfe-
rências políticas e na economia das instituições das nações credoras.
Segundo o professor aposentado de Economia da Universidade Nacional
Autónoma do México, David Ibarra, a união entre os Estados e esse modelo ide-
ológico levaram:

82 • capítulo 4
Consequentemente, o neoliberalismo e a globalização postulam critérios que devem
satisfazer os governos — singularmente os do Terceiro Mundo —, quase sempre com
escassa ou nula anuência dos cidadãos afetados. Em consequência, o pós-modernis-
mo neoliberal anuncia o fim da história, dos grandes relatos filosóficos e suas ideolo-
gias, e inclusive a do Estado-Nação com suas responsabilidades sociais e seu empe-
nho em cuidar do bem comum, da soberania e identidade nacionais1 . Em troca, situa a
esperança na eficiência de mecanismos automatizados, fora do desejo humano, como
o mercado ou estado de direito construído ex professo, em torno do próprio cânone
neoliberal. Trata-se de cumprir regras, acompanhadas de incentivos e castigos que, su-
postamente, afastam os cidadãos de decisões caprichosas e os canalizam à otimização
economicista dos seus comportamentos, como se aí esgotassem todos os propósitos
humanos. Em termos propagandísticos, o neoliberalismo difundiu, no Terceiro Mundo,
a tese esperançosa de que o jogo livre dos mercados fecharia a brecha do atraso, ao
passar não somente pela abertura de fronteiras, como também pela estabilização de
preços e contas públicas. Com algum simplismo, postulou-se que o desenvolvimento
exportador e de investimento estrangeiro erradicariam a pobreza crônica do subde-
senvolvimento, enquanto a difusão automática das melhoras tecnológicas elevaria os
padrões de vida e se inverteriam em favor da orientação mercantil das políticas públi-
cas. De modo análogo, sublinhou-se que os mercados abertos e a transparência das
transações do governo ou dos particulares colocariam um fim na procura de gastos ou
privilégios desmerecidos, isto é, serviriam de antídoto eficaz contra a corrupção (IBAR-
RA, 2011, p.239)

De maneira geral, nos países da America latina o projeto neoliberal desviou


a autonomia das nações para os organismos internacionais e reestruturou a so-
ciedade. Podemos destacar as seguintes alterações na economia:

•  Reduziu a intervenção estatal;


•  Acelerou a privatização de empresas estatais;
•  Providenciou a abertura econômica;
•  Reordenou as classes sociais;

capítulo 4 • 83
Para o economista mexicano, as mudanças em relação ao campo político
trouxeram:

O nacionalismo é substituído por uma espécie de cosmopolitismo mal interpretado; se


dissolvem as soberanias dos Estados e as entidades nacionais; o presidencialismo au-
toritário e o corporativismo são substituídos por um regime de divisão de poderes, jogo
de partidos e sistemas eleitorais mais transparentes. Como consequência, muito muda-
ram os valores, os interesses, as instituições, a composição das elites e sem dúvida a
distribuição de ingressos. Com relação a segunda vertente, a abertura de fronteiras e a
supressão de travas no investimento estrangeiro mudaram radicalmente as liberdades
nacionais ante o exterior. (IBARRA, 2011, p.242)

O resultado natural dessa reorganização foi a redução da taxa de crescimen-


to na América Latina. Enquanto isso, mesmo em níveis pequenos ocorreu o
crescimento da renda per capita nos países desenvolvidos.
Perante esse quadro, devemos ressaltar a questão do trabalho. A dita flexibi-
lização do trabalho levou ao desmonte de várias leis que protegiam os trabalha-
dores. Atualmente no Congresso Nacional tramita um projeto nesse sentido.
Dados da Organização Mundial do Trabalho – OIT, apontam para o crescimen-
to do trabalho informal nos países latinos americanos, o que exclui o trabalha-
dor das garantias sociais relacionadas ao tema.
Vejamos o que nos indica o relatório da OIT 2014,

O desempenho do mercado de trabalho América Latina e no Caribe 2014.


A perda de dinamismo econômico na maioria dos países da região em 2014, tem-
se refletido numa redução significativa na taxa de criação de emprego, ou seja, na pro-
cura de trabalho. Como se mostra na figura 5, a taxa de emprego regional caiu, tal como
em 2013, comparação ano (entre os mesmos trimestres de cada ano). Note-se que a
redução na taxa de crescimento econômico começou a produzir variações negativas
(queda) na taxa emprego urbano desde o segundo trimestre de 2013, o que confirma o
terceiro trimestre de 2014, apesar da ligeira recuperação da atividade econômica. Isto
implica que, a partir desse período, taxa de crescimento do emprego é menor do que a
taxa de crescimento da população em idade ativa. (OIT, 2014)

A análise dos dados nos permite verificar que o Produto Interno Bruto entre
2010 e 2014 caiu de 7% para 1,1%, enquanto a taxa de variação do trabalho urbano
foi de 1% para -1%, o que significa uma regressão de 2% em quatro anos. Dessa

84 • capítulo 4
maneira, percebemos que a região latino americana está, sob a égide do neoli-
beralismo, criando empregos em ritmo menor que épocas anteriores, a crise in-
ternacional de 2009, por exemplo, resultou na redução de um milhão de vagas.

4.5  O Brasil no contexto internacional


Na segunda metade da década de setenta, o governo militar brasileiro aumen-
tou o volume de empréstimos financeiros. Na tentativa de evitar a recessão
que se anunciava emprestamos recursos internacionais para financiar nossa
produção. Porém os juros atrelados ao capital fizeram explodir nossa dívida
externa. Somente entre 1972 e 1981 nossa dívida saltou de dez para sessenta
e dois bilhões de dólares. Isso não ocorreu somente no Brasil, diversos países
do terceiro mundo também elevaram suas dívidas. O capital financiado pelo
primeiro mundo retornava em forma de juros gigantescos.
A dívida externa brasileira se avolumou principalmente na tentativa do go-
verno de aquecer nossa economia com a construção de obras de infraestrutura
como hidrelétricas, estradas, e a entrada de multinacionais em nosso mercado.
Além disso, a especulação financeira providenciou o enriquecimento de
pessoas com informações privilegiadas. O governo vendia títulos que pode-
riam ser resgatados a valores muito maiores. O círculo da crise capitalista se
instalou. Empresários aumentavam o preço de seus produtos, os produtores de
matéria-prima para as indústrias também o faziam, os trabalhadores reivindi-
cavam maiores salários, resultado, os empresários aumentavam novamente o
preço para ampliar seus lucros.
O General João Batista de Oliveira Figueiredo governou o Brasil de 1979 a
1985. Filho de militar, ele sempre se destacou na carreira. Esteve por um ano
na Escola Superior de Guerra e a partir do Golpe Militar de 1964 trabalhou no
Serviço Nacional de Informações – SNI.
Seu governo foi marcado pelo crescimento da inflação. A desigualdade na
distribuição de rendas se aprofundou, pois, as pessoas mais ricas do país fica-
vam com três vezes mais o percentual dividido pela metade da população.
O historiador brasilianista Thomas Skidmore, situa a realidade brasi-
leira do período no contexto internacional. Em seu Livro Brasil: de Castelo a
Tancredo 1964-1985, explica que a partir de dados do Banco Mundial é possível
demonstrar que o Brasil possuía uma distribuição de renda das mais injustas
do mundo.

capítulo 4 • 85
Para conter os problemas na área econômica, Figueiredo nomeou o minis-
tro Delfim Netto. Seu plano econômico previa o aumento da produção agríco-
la para ampliar as exportações, investimentos na produção de energia, gastos
com educação, habitação e saúde.
Porém, conforme Skidmore:

Delfim poderia repetir seus êxitos do passado? Ou a deterioração da economia mun-


dial excluía a possibilidade de adoção de uma estratégia de crescimento acelerado
no Brasil? No fim de 1979 a resposta veio parcialmente. Os indicadores econômicos
eram mistos. O PIB crescera a 6,8 por cento, a melhor taxa desde 1976. Mas a inflação
disparara para as alturas dos 77 por cento, quase o dobro da taxa de 1978 e a mais
alta de qualquer ano desde 1964. As notícias do setor externo não eram menos desfa-
voráveis. O déficit em conta corrente passara de US$7 bilhões em 1978 para US$10,5
bilhões em 1979 e o ingresso de capital estrangeiro caíra de US$10,1 bilhões em
1978 para somente US$6,5 bilhões em 1979. Para cobrir o deficit do balanço de pa-
gamentos o Brasil teria que reduzir suas reservas cambiais em US$2,9 bilhões. O diag-
nóstico anterior de Simonsen parecia comprovado. A economia brasileira estava sendo
atingida pelos dois problemas tão conhecidos desde 1945 - aceleração da inflação e
emagrecimento das divisas cambiais - com os quais o ministro não se preocupou no
período 1967-74 quando agiu como verdadeiro tzar da economia. Agora, porém, esses
problemas existiam. Não podendo mais aplicar a política de altas taxas de crescimento
que anunciara inequivocamente em agosto, Delfim decidiu arriscar. Decretou uma ma-
xidesvalorização de 30 por cento em dezembro de 1979 e logo em seguida, em janeiro,
anunciou o plano de desvalorizações e de correção monetária antecipada para todo o
ano de 1980. A meta era reduzir as expectativas de inflação e inverter o seu ímpeto.
Mas, se a inflação excedesse a uma taxa prefixada, o cruzeiro superdesvalorizado en-
corajaria as importações, desestimularia as exportações e estimularia os investidores
a evitarem instrumentos financeiros que pagassem taxas de juros reais negativas. A
jogada do ministro não lhe foi favorável, porque as forças por trás da inflação e o déficit
na balança de pagamentos estavam profundamente enraizados na estrutura da eco-
nomia brasileira e em suas relações com a economia mundial. (SKIDMORE, 1988, p.
421-422)

Comenta-se que quando indagado sobre o problema da inflação no Brasil,


o ministro explicava que primeiro deveríamos esperar o bolo crescer para de-
pois dividi-lo. Claro que a divisão igualitária nunca ocorreu. O planejamento

86 • capítulo 4
econômico fracassou e o Brasil precisou recorrer ao Fundo Monetário
Internacional – FMI. A contrapartida dos empréstimos para pagamento da dí-
vida externa levou a política econômica nacional a reduzir os gastos públicos,
principalmente em atendimentos sociais, congelar salários e ampliar a liberda-
de para o mercado internacional.
Juntamente com as questões econômicas, Figueiredo precisava equalizar
os conflitos sociais. Para isso realizou algumas concessões e a repressão se
abrandou. Porém, a linha dura com os comunistas continuou, militantes dos
partidos PCB e PC do B continuavam sendo presos, as greves operárias eram
reprimidas e os simpatizantes da luta camponesa perseguidos.
O mais largo passo do presidente, nesse sentido, foi a lei de anistia política,
logo em 1979.

Embora os problemas econômicos fossem urgentes, uma das primeiras e mais impor-
tantes decisões de Figueiredo foi política. Dizia respeito à anistia, questão vital para que
o Brasil abandonasse o regime autoritário e reintegrasse na sociedade e na política os
milhares de exilados políticos que tinham fugido do país ou sido perseguidos no exte-
rior desde 1964. Esta era uma questão para a qual a oposição conseguira mobilizar
considerável apoio. Os entusiastas da anistia apareciam onde quer que houvesse uma
multidão. Nos campos de futebol suas bandeiras com a inscrição Anistia ampla, geral
e irrestrita eram desfraldadas onde as câmaras de TV pudessem focalizá-las. Esposas,
mães, filhas e irmãs se destacavam de modo especial pelo seu ativismo, o que tornava
mais difícil o descrédito do movimento por parte da linha dura militar. O Cardeal Arns
chamou mais tarde a luta pela anistia “a nossa maior batalha”. A revogação por Geisel
em dezembro de 1978 da maior parte dos atos de banimento foi seguida agora pela
lei da anistia, aprovada pelo Congresso em agosto de 1979. Foram beneficiados com
a medida todos os presos ou exilados por crimes políticos desde 2 de setembro de
1961 (a data da última anistia - houve 47 na história do Brasil). Ficaram excluídos
os culpados por “atos de terrorismo” e de resistência armada ao governo, os quais
foram reduzidos a apenas uns poucos, quando da aplicação da lei. A anistia também
restabelecia os direitos políticos daqueles que os haviam perdido nos termos dos atos
institucionais A nova lei trouxe de volta grande número de exilados, inclusive Leonel
Brizola e Luís Carlos Prestes, anteriormente excluídos por determinação do presidente
Geisel. Achavam-se novamente no Brasil outras betes noires dos militares como Miguel

capítulo 4 • 87
Arraes, Márcio Moreira Alves e Francisco Julião, juntamente com figuras-chave do PCB
e do PC do B (ambos ilegais). A anistia foi um poderoso tônico na atmosfera política,
dando imediato reforço à popularidade do presidente. Mostrava também que Figueiredo
confiava que podia resistir às objeções da linha dura por ter permitido o reingresso na
política de tantos “subversivos”. Com os comunistas de antiga linhagem e os trotskistas
novamente no Brasil, e com a imprensa virtualmente livre (embora sujeita a pressões,
ameaças e até violências ocasionais), o sistema político brasileiro parecia mais aberto
do que em qualquer outra época desde 1968. O movimento pró-anistia, contudo, não
estava satisfeito com a nova lei. Queria que fossem chamados à responsabilidade os
que deram sumiço a 197 brasileiros que se acreditava terem sido assassinados pelas
forças de segurança desde 1964. Sobre muitos deles havia dossiês detalhados, inclu-
sive relatos de outros presos que foram testemunhas oculares. Aqui a oposição tocava
em um nervo exposto - o medo dos militares de que uma investigação judicial algum dia
tentasse fixar responsabilidades pela tortura e morte de prisioneiros. Um bom exemplo
da reação da linha dura (talvez partilhada por “moderados” cujos antecedentes possivel-
mente lhes fossem desfavoráveis) aconteceu em março de 1979 quando os militares
tomaram medidas para fechar a revista Veja por ter publicado uma reportagem sobre
supostos campos de tortura com ilustrações fotográficas. A polícia também apreendeu
exemplares de Em Tempo, quinzenário esquerdista que em meados de março publicara
uma lista de 442 supostos torturadores. (SKIDMORE, 1988, p. 423-425)

Nota-se, pela leitura do trecho acima que a questão da anistia foi valorizada
pela população, mas, no entanto, a crítica era urgente, pois a lei livrará os tortu-
radores do regime do banco dos réus.
O governo foi aos poucos construindo a transição para a democracia, mas
não de forma libertária. Manobras políticas foram criadas para transmitir o po-
der aos civis da Arena, evitando assim a escala da oposição ao poder.
A desestabilização econômica acelerou o processo de abertura política, pois
a opinião pública aos poucos foi desconfiando do governo por conta dos escân-
dalos de corrupção.
O partido de oposição Movimento Democrático Brasileiro – MDB, vinha
desde os meados da década de 1970 conseguindo vitórias no Congresso, como
o fim dos Atos Institucionais. Nas eleições de 1978 haviam os candidatos do
MDB conseguiram cinquenta e dois por cento dos votos para o Senado, contra
trinta e quatro por cento da Arena.

88 • capítulo 4
No governo de figueiredo o pluripartidarismo é restabelecido e surgem os
seguintes partidos: Partido Democrático Trabalhista – PDT, de linhagem so-
cial-democrática era liderado por Leonel Brizola; Partido Democrático Social
– PDS, continuação da Arena, era dirigido por José Sarney, aliado aso militares;
Partido do Movimento Democrático Brasileira – PMDB, herdeiro do MDB, agru-
pava uma diversidade ideológica interessante, de liberais a comunistas, o líder
era Ulisses Guimarães; Partido Trabalhista Brasileiro – PTB, liderado por Ivete
Vargas, o partido parecia uma dissidência do PDS, mas contava com o apoio
dos militares também; Partido dos Trabalhadores – PT, representava o pensa-
mento de esquerda operária no país, criado a partir do movimento no ABC pau-
lista que com Luiz Inácio Lula da Silva, contava com sindicatos dos professores,
bancários, entre outros.
O movimento sindical havia agitado o final da década de 1970, na leitura de
Skidmore encontramos:

Em outubro de 1978, outro grupo de metalúrgicos não logrou alcançar as reivindi-


cações que fazia porque o seu líder, o presidente da Federação dos Metalúrgicos, de
âmbito estadual, encurtou a duração da greve, aceitando um acordo com ganhos li-
mitados para os trabalhadores. O contraste era assim muito acentuado entre o Lula
do “novo sindicalismo” e o “Joaquinzão”, velho colaborador do governo. O Sindicato
dos Metalúrgicos e Lula ganharam surpreendente notoriedade, sendo este descrito por
grande parte da imprensa (ajudada em alguns casos por sugestões do Planalto, isto é,
Golbery) e pelos progressistas da Igreja como o legítimo representante, não comunista,
da classe trabalhadora. Lula de repente tornou-se o mais conhecido líder trabalhista
desde 1945. Os comentários na imprensa lembravam que quanto mais o governo se
aproximava da redemocratização tanto mais se impunha o processo de negociação en-
tre o capital e o trabalho. A abertura política foi usada portanto para justificar o ativismo
sindical e a resposta do governo foi a melhor evidência de suas verdadeiras intenções.
(SKIDMORE, 1988, p. 401)

O movimento sindical conseguiu levar a greve naqueles anos mais de meio


milhão de trabalhadores. Lula tornou-se naquele momento, o líder sindical de
maior referência desde o fim do governo getulista em 1945.
Nas primeiras eleições para governadores dos estados brasileiros que con-
tou com os votos diretos da população, em 1982, as vitórias dos partidos de
oposição foram surpreendentes, assim como as realizadas para os cargos de

capítulo 4 • 89
deputado e senador. Logo em 1894, espalhava-se pelo país o desejo de eleição
diretas para presidente. A emenda pró-diretas foi criada pelo deputado mato-
grossense Dante Oliveira, porém não obteve vitória no Congresso. No entanto,
o movimento pelas diretas já foi um dos maiores acontecimentos da história
do Brasil.

A emenda das Diretas Já foi apresentada em 1983 pelo deputado Dante de Oliveira
(PMDB-MT). O engenheiro civil, que ficou nacionalmente conhecido por causa da pro-
posta, nasceu em 1952, em Cuiabá. Além de atuar na Câmara Federal, foi deputado
estadual, prefeito de sua cidade e governador de Mato Grosso. Faleceu em 2006, em
Cuiabá, vítima de uma pneumonia. A ideia de apresentar o retorno do voto direto, quase
20 anos depois do golpe militar de 1964, veio durante a campanha eleitoral para de-
putado em 1982. Nas palavras do próprio de Dante de Oliveira: “Quando eu percebia
que, em todos os comícios e reuniões que fazia naquela campanha, quando falava das
questões das diretas, de o povo recuperar o voto para presidente, a resposta da popula-
ção era sempre mais forte, maior, era mais profundo. Aquilo foi me marcando, dia a dia.
Quando me elegi federal, falei: vou apresentar a emenda das diretas para restabelecer
esse direito do povo.” (Site da Câmara dos Deputaods: http://goo.gl/3Alw0z)

CONEXÃO
Veja a ilustração virtual que narra a história das diretas já, em comemoração aos 30 anos
do movimento no site da Câmara dos Deputados, em http://www.camara.gov.br/internet/
agencia/infograficos-html5/diretas/index.html.

Com a derrota da Emenda Dante de Oliveira, os rumos da política brasilei-


ra ocorreram nos bastidores do Congresso. A disputa formalizada ficou entre
Paulo Maluf do PDS e Tancredo Neves do PMDB.
Em 15 de janeiro de 1985 o candidato do PMDB, ex-governador de Minas
Gerias, Tancredo Neves, foi escolhido presidente do Brasil. A oposição havia
conseguido uma vitória importante para a reabertura democrática no país.
Porém, poucos dias antes da posse, Tancredo foi internado com uma crise agu-
da de infecção e faleceu antes de assumir o governo. Em seu lugar, tomou posse
o vice José Sarney.

90 • capítulo 4
Os anos de governo do maranhense Sarney foram conturbados e levaram o
país a hiperinflação. O período denominado Nova República foi dominado por
planos econômicos que procuravam eliminar a inflação. O primeiro deles foi o
Plano Cruzado do ministro Dílson Funaro. O cruzado tornou-se nossa moeda
oficial e a principal ação foi o congelamento total de preços e salários. As pes-
soas vigiam nas ruas os aumentos de preços, alguns eram conhecidos pejorati-
vamente como fiscais do Sarney. Porém, meses depois o presidente anunciou
o Cruzado II que descongelou os preços e logo a inflação retornou com força
redobrada. Funaro demitiu-se do cargo e em lugar assumiu Luiz Carlos Bresser
Gonçalves Pereira. Novamente um plano econômico era criado para salvar o
Brasil. O Plano Bresser estava pautado na redução de gastos do Estado e na con-
tenção dos preços, mas a inflação chegou perto de trinta e um por cento ao mês.
Ao manter a moratória da dívida externa, ou seja, suspender os pagamentos, a
pressão internacional sobre o país se acentuo, fato que ampliou nossos proble-
mas econômicos. Por último, em 1989 foi lançado o Plano Verão de Maílson da
Nobrega, continha em seu pacote anti-inflacionário o congelamento de preços
e a redução de serviços e tarifas públicas, medidas que em nada alteraram a
realidade brasileira. A crise inflacionária atingiu 1.800% ao ano em 1989.
O acontecimento histórico de maior relevância na Nova República foi sem
dúvida alguma a Assembleia Constituinte e a Constituição Federal de 1988.
A Assembleia Nacional Constituinte foi formada a partir das eleições para
deputados e senadores no ano de 1986. O partido com maior número de vitó-
ria naquelas eleições foi o PMDB, portanto para presidente da assembleia foi
nomeado o deputado Ulisses Guimarães. Leia a seguir um pequeno relato da
história da assembleia.

No dia 15 de novembro de 1986, realizou-se eleição para a Assembleia Nacio-


nal Constituinte, que, instalada em 1º de fevereiro de 1987, promulgaria, 20 me-
ses depois, a atual Constituição. Participaram da escolha dos constituintes mais de
69 milhões de eleitores (exatos 69.003.963), com forte predominância do eleitorado
urbano (67,57%), refletindo o extraordinário crescimento das cidades, acelerado a par-
tir da década de 70 (hoje mais de 80% do eleitorado brasileiro é urbano). A Assembleia
foi integrada por 559 parlamentares (487 deputados e 72 senadores), com renovação
de 45% em relação à composição do Congresso na legislatura anterior. A campanha
que precedeu a eleição encerrou o mais importante ciclo da história republicana, no que

capítulo 4 • 91
diz respeito ao pluralismo de propostas, ao embate ideológico e ao vigor cívico da par-
ticipação do povo nas ruas e praças públicas. É verdade que, após a Constituinte, ainda
foram significativas tanto a primeira campanha presidencial pós-64, mais marcada pelo
caráter partidário e carisma dos candidatos, quanto a mobilização pelo impeachment
do presidente eleito em 1989, menos de três anos após a sua posse. Contudo, esses
dois momentos, assim como as eleições que vieram depois, também com grande parti-
cipação popular, foram natural desdobramento do avanço democrático e do pluralismo
construído no processo constituinte. A expressão cívica, política e social da mobilização
pré-Constituinte foi assim destacada pelo presidente da Assembleia, Ulysses Guima-
rães, no seu pronunciamento de abertura dos trabalhos: “É um parlamento de costas
para o passado este que se inaugura hoje para decidir o destino Constitucional do país.
Temos nele uma vigorosa bancada de grupos sociais emergentes, o que lhe confere
nova legitimidade na representação do povo brasileiro. Estes meses demonstraram que
o Brasil não cabe mais nos limites históricos que os exploradores de sempre querem
impor. Nosso povo cresceu, assumiu o seu destino, juntou-se em multidões, reclamou a
restauração democrática, a justiça e a dignidade do Estado.” No mesmo pronunciamen-
to, Ulyssses tratou dos condicionamentos externos, condenando a “insânia dos centros
financeiros internacionais e os impostos que devemos recolher ao império mediante a
unilateral elevação das taxas de juros e a remessa ininterrupta de rendimentos [. . .] bru-
tal mais valia internacional, que nos é expropriada na transferência líquida de capitais.”
Com essas palavras, Ulysses Guimarães incorporou o forte teor nacionalista adotado
por vários segmentos envolvidos na campanha, que reclamavam, principalmente, maior
controle sobre a atuação e remessa de lucros de empresas multinacionais, preferência
à empresa nacional nas compras do governo, reserva de mercado às mineradoras na-
cionais e a definição de empresa nacional, com vantagem sobre as estrangeiras ou de
capital majoritariamente estrangeiro – todos os itens contemplados na elaboração da
Carta. (Site da Câmara dos Deputados - http://goo.gl/xc7V8g)

O processo de escrita da nova Constituição Federal foi marcado pela divisão


de dois grupos de pensamento opostos. De um lado os representantes da es-
querda nacional: PT, PDT, PV, PCB e PC do B. Do outro, a ala conservadora da
política brasileira: PFL, PTB, PL e PDS. Assim como nos dias atuias, verificamos
que o PMDB mantinha uma postura dúbia, pois em certos momentos aliava-se
aos progressistas, noutros com o dito Centrão.
Em comum, todos os partidos desejavam o voto direto para presidente,
o equilíbrio e harmonia entre os três poderes e a liberdade de expressão. A

92 • capítulo 4
maioria dos desacordos giravam ao redor da manutenção da exploração capi-
talista. Temas como o número de horas para a jornada de trabalho, a reforma
agrária, os interesses das multinacionais, eram debatidos e cada lado cedia um
pouco em certa medida. Claro que muitas críticas podem ser feitas ao texto
constitucional, mas é evidente que na história do Brasil, trata-se do documento
mais democrático.
Com a Constituição Federal de 1988, o processo de redemocratização brasi-
leiro trouxe as seguintes transformações, entre outras,

•  Igualdade de direitos entre os cidadãos, gêneros e etnias.


•  Racismo é crime.
•  Liberdade de expressão.
•  Novos direitos trabalhistas.
•  Novos direitos sindicais.
•  Novos direitos políticos.
•  Equilíbrio e independência dos três poderes.
•  Proteção ao meio ambiente.

LEITURA
Leia o artigo o artigo 5.º da constituição Federal de 1988 que trata dos Direitos e Garantias
Fundamentais para o cidadão brasileiro. Exemplares disponíveis em: http://www.planalto.
gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm.

ATIVIDADES
01. Explique o termo Welfare State.

02. Quais as principais características do governo de Ronald Reagan, presidente dos EUA
nos anos 80?

03. A partir da leitura do artigo quinto da Constituição Federal de 1988, cite 6 aspectos que
a diferenciam dos textos oficiais do Regime Militar.

capítulo 4 • 93
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
SITE DA CÂMARA DO DEPUTADOS, Exemplares disponíveis em: http://www.camara.gov.br/internet/
agencia/infograficos-html5/diretas/index.html , acesso em 20 de maio de 2015)
PEREIRA, Luiz Carlos Bresser P436a Administração pública gerencial: estratégia e estrutura
para um novo Estado. Brasília: MARE/ENAP, 1996. Exemplares disponíveis em: http://www.enap.
gov.br , acesso em 24 de maio de 2015.
IBARRA, David. O neoliberalismo na America Latina. Rev. Econ. Polit. [online]. 2011, vol.31, n.2, pp.
238-248. ISSN 0101-3157.  http://dx.doi.org/10.1590/S0101-31572011000200004. Acesso em:
20 de maio de 2015) 
OIT Panorama Laboral 2014 Lima: OIT / Oficina Regional para América Latina y el Caribe, 2014. 117
p. Exemplares disponíveis em: www.iol.org , acesso em 22 de maio de 2015.
SKIDMORE, Thomas. BRASIL: DE CASTELO A TANCREDO 1964 - 1985 Trad. Mário Salviano Silva
Rio de Janeiro: PAZ E TERRA , 1988

94 • capítulo 4
5
Globalização e o fim
da URSS
Este capítulo você irá estudar sobre o fim da União Soviética e o processo de
Globalização. Para tanto, analisaremos como o Partido Comunista de forma
autoritária foi burocratizando as relações políticas e econômicas, o que resul-
tou na estagnação da economia. A saída foi encontrada no final da década de
oitenta com o desmanche da URSS e a abertura política dos países socialistas.
Ao ser derrubada, barreira física do muro de Berlim, simboliza a passagem dos
mercados liberalizados para o Leste Europeu e outros países do mundo, ini-
ciando assim o processo de Globalização.

OBJETIVOS
•  Localizar as causas da dissolução da União soviética.
•  Identificar as políticas de abertura do bloco socialista ao mercado liberal.
•  Verificar como se estruturou a Globalização.
•  Reconhecer os agrupamentos que representam as forças dos mercados capitalista inter-
nacionais e os representantes de uma via alternativa.
•  Analisar os novos desafios da economia globalizada.

96 • capítulo 5
5.1  Crise do sistema socialista soviético
A derrocada do modelo socialista implantado na União Soviética ocorreu em
virtude de inúmeros fatores, que provavelmente serão fruto de diversas pesqui-
sas científicas. Devemos, no entanto, relembrar que os governos que sucede-
ram a Segunda Guerra Mundial, na extinta União Soviética eram pautados em
governos totalitários de um único partido que centralizava os poderes, reprimia
a liberdade de expressão, não permitiam a participação popular nas tomadas
de decisão, mantinham uma classe de dirigentes com privilégios incontáveis,
ou seja, colocava em práticas o inverso do pensamento socialista de uma socie-
dade com mais igualdade e justiça.
Para alguns estudiosos, o início do problema se dá no endividamento do
Estado para financiar a corrida armamentista. Os países do leste europeu esta-
vam arruinados no final da Segunda Guerra, foi necessário muito investimen-
to para reconstruí-los e a partir daí criar uma indústria de base que realizasse
a transformação progressiva dos países. Durante algum tempo o crescimento
da economia acompanhou a modernização das nações, no entanto, a corrida
armamentista redirecionou os investimentos e as outras indústrias passaram
a diminuir suas produções, o resultado foi a falta de bens necessários a manu-
tenção do cotidiano das pessoas.
Como vimos anteriormente, o governo de Ronald Reagan venceu a Guerra
Fria ao reforçar a competição em relação ao poderio militar. A União Soviética
não conseguiu manter o ritmo de investimento e governo de Gorbachev assu-
miu uma postura de rendição, no sentido de colocar fim a competição na pro-
dução de armas.
Em segundo lugar, a burocracia do Estado Soviético era enorme e atrapa-
lhava o desenvolvimento econômico por dar lentidão a mais simples tomada
de decisão.
Segundo Jaqueline Sant’ana e Rodolfo Scotelaro:

De fato, havia uma “pirâmide” de poder na URSS. Tendo como base uma população
de aproximadamente 250 milhões de pessoas, o Partido Comunista soviético contava
com apenas 14,8 milhões de associados. Dentre eles, um número módico de pessoas
“indicadas” preenchiam o Comitê de Segurança do Estado (o KGB), o aparelho das For-
ças Armadas, a Administração estatal e o Aparelho do Partido. Essas instituições, por

capítulo 5 • 97
sua vez, tomavam decisões que atingiam toda a população russa, fosse ela comunista
ou não. Todas elas participavam da escolha dos integrantes do Comitê Central, que
escolhia então o Presidium do Conselho de Ministros, enquanto o KGB, o Aparelho
das Forças Armadas e a Administração estatal decidiam o Conselho de Ministros da
URSS, que posteriormente elegia o Secretariado do Comitê Central. Essas duas gran-
des organizações organizavam então o chamado “Politburo” 4 soviético. Através deste
estreitamento político, criou-se um novo grupo social privilegiado, uma elite composta
por generais, oficiais superiores, altos funcionários do partido e do Estado, membros
dos soviéticos, diretores de fabricas, escritores, artistas, compositores e cineastas. Essa
elite tinha muitos privilégios por contribuir com o governo, tais como clínicas, lojas e
serviços especiais, salas reservadas de embarque em estações e aeroportos e meios
próprios para receber produtos escassos no mercado. Essa “casta” privilegiada não
sentia as dificuldades da maioria da população soviética, que com toda uma tradição
sindical forte, tinha suas greves proibidas e violentamente reprimidas por Stalin. Forma-
da por um grupo fechado da alta burocracia, a Nomenklatura, defendia a manutenção
da ditadura do partido único, de modo a impedir que os cidadãos controlassem o fun-
cionamento dos órgãos do Estado. Podemos considerar neste instante o pensamento
do sociólogo alemão Robert Michels, que em sua obra “Sociologia dos Partidos Polí-
ticos”, publicada em 1911, nos diz que a democracia desemboca, inevitavelmente, em
uma oligarquia marcada pela vontade de poder, com a emergência de líderes, peritos e
políticos profissionais. Nesse sentido, quanto maior a representação das massas, maior
a necessidade de uma organização política forte para esquematizá-la. O grande erro
dos socialistas, para ele, era a negação do caráter elitista de todas as organizações po-
líticas. Esta pode ser uma explicação para o fortalecimento da burocracia soviética no
período pós-Lênin. Ainda segundo Michels, o partido político, para ampliar seu espaço
de ação e angariar votos e aprovação popular, necessita deixar de lado suas opiniões
mais ferrenhas e seus programas políticos mais extremos, optando por propostas mais
centralizadas, de meio-termo, visando agradar o maior número possível de pessoas. A
integridade política é então comprometida, dada a “relação de promiscuidade com os
elementos políticos mais heterogêneos”. (SANTOS 7 DARRIEUX, 2015)

Como terceiro ponto temos a ausência de democracia nas relações. O pla-


nejamento econômico ficava por conta dos burocratas que publicavam relató-
rios bastante questionáveis sobre o desenvolvimento da economia. Por falta
de controle externo, as empresas que forneciam os bens de consumo não se

98 • capítulo 5
preocupavam com a concorrência, uma vez que esse inexistia, e produziam
bens e serviços de baixa qualidade. Exemplo de como a burocracia atrasava
o desenvolvimento da região é a relação entre as pesquisas científicas e a in-
dústria. Apesar do número expressivo de cientistas altamente qualificados, os
resultados das pesquisas e as invenções levavam anos para chegar a indústria
pois o caminho dentro da burocracia era longo.
Em 1985, assume o comando o comunista democrático Mikahil Gorbachev.
No documento denominado Dossiê Russo trata da história de seu governo.
Vejamos:

Por mais complexa que tenha sido a História, ela se realizou. O tempo não volta atrás,
avança sempre. Mas qual será o lugar da idéia socialista no futuro? Para responder a
tal pergunta, começarei por comentar o período da perestroika. Nas primeiras etapas,
nós, inclusive eu, dizíamos: a perestroika é o ressurgimento e a depuração das idéias de
Outubro, a sua realização na prática. Hoje eu diria que tal afirmação continha tanto uma
parcela de verdade quanto uma de ilusão. A verdade consistiu em que nós realmente
queríamos devolver o poder ao povo (tirá-lo da nomenklatura burocrática), enraizar uma
verdadeira democracia popular, superar o alheamento das pessoas com relação à pro-
priedade, consolidar na prática a justiça social. Já a ilusão consistiu em que eu, como a
maioria, supúnhamos: nós podemos atingir esse objetivo aperfeiçoando o sistema exis-
tente. No entanto, logo ficou claro: a crise, que atingiu o país no fim dos anos 70 e início
dos 80, não tinha caráter parcial e sim caráter sistêmico. A lógica do desenvolvimento
levou à necessidade não de aperfeiçoar o sistema, mas de intervir em suas próprias
bases, modificando-as. O limiar foi a XIX Conferência do partido, que em 1988 tomou a
resolução de promover uma reforma política democrática. A perestroika deu os maiores
passos nessa direção. Ela destruiu as bases do totalitarismo. Consolidou normas de-
mocráticas (eleições livres, pluralismo político) e liberdade de pensamento e religião no
país. Deu também os primeiros passos para substituir a forma estatal única e imutável
da propriedade pela diversidade das suas formas, iniciando a transição para a econo-
mia de mercado. A transição para novas relações sociais foi iniciada de forma gradual,
reformista, pacífica. Somente mais tarde, após a desintegração da União Soviética, co-
meçou a prevalecer na Rússia outra estratégia, de choque. Estratégia, classificada por
mim, mais de uma vez, de neobolchevismo, capaz de provocar muito derramamento de
sangue, o que aconteceu também mais de uma vez. O curso dos acontecimentos e a
evolução das reformas depois de 1992 fizeram-me refletir profundamente sobre

capítulo 5 • 99
muitas das questões que, antes até do advento da perestroika, pareciam perfeitamen-
te claras. Entre elas, o que é o socialismo? Qual é nosso objetivo? Não descreverei
todas as etapas de minhas reflexões, mas a conclusão delas decorrente é a seguinte:
qualquer desenvolvimento só é possível se existir diversidade interna. A consecução
de um ideal, como conseqüência da vitória de uma das tendências ou correntes exis-
tentes e da eliminação das outras, conduz qualquer sistema à crise e à ruína. Assim, o
esmagamento do pluralismo político na URSS, a liquidação de todos os partidos não-
comunistas e, depois, a introdução da identidade de pensamento repressiva no próprio
partido comunista constituíram a virada decisiva para o totalitarismo. A conseqüência
foi a eliminação real da igualdade de direitos das nacionalidades, a supercentralização
da administração e a unificação ideológica do modo de vida dos diversos povos, de
sua espiritualidade sob a capa de um demonstrativo internacionalismo. O resultado é
conhecido. Do exposto, concluo: é equivocado e sem perspectiva buscar a criação de
uma sociedade com base em princípios exclusivamente socialistas. É chegada a hora
de pensarmos com categorias mais gerais a toda civilização. Estou convencido de que
a nova civilização inevitavelmente assimilará alguns traços peculiares ao ideal socia-
lista, pois esse ideal existe há séculos e reflete as recônditas aspirações e os sonhos
do homem. No entanto, ao longo dos séculos, tanto na consciência social quanto na
política, foram elaborados diversos pontos de vista – conservadores e radicais, liberais
e socialistas. Existem individualismo e coletivismo. Tudo isso é realidade, e em toda
parte. A busca da síntese desses fenômenos, opiniões e tendências, e da sua melhor
interação, segundo critérios rigorosamente humanistas, eis o que assegurará o nosso
avanço a uma nova civilização. (GORBACHEV, 1998, p. 17-18)

Assim, verificamos que o governo de Gorbachev procurou redemocratizar a


União Soviética aos poucos. A liberdade de expressão foi ampliada, novos par-
tidos se formaram, diretores das fábricas foram eleitos pelo voto dos trabalha-
dores. As mudanças eram conhecidas pelos termos Glanost e Perestroika, que
significam, respectivamente transparências nas relações políticas e reconstru-
ção econômica.
As reformas do governo de Gorbachev levaram o país a uma economia
modernizada e uma política mais livre, o que desagradou enormemente os
dirigentes do Partido Comunista. A reação dos burocratas e militares conser-
vadores levaram ao fim o governo de Gorbachev. Porém, a abertura tinha forta-
lecido o grupo liberal que desejava a ampliação das reformas. O resultado foi a

100 • capítulo 5
autonomia das nações que compunham a União Soviética e consequentemente
seu fim.
Um dos maiores símbolos da Guerra Fria era o muro de Berlim. Uma bar-
reira física gigantesca que contava com mais de cem quilômetros de extensão,
milhares de pessoas forma presas ao tentar ultrapassa-lo e o número de mor-
tos chegou a oitenta. Nada mais justo que transformá-lo no símbolo do fim da
bipolarização mundial. Com o fim da União Soviética a população da capital
alemã passou a protestar e exigir sua derrubada. O momento foi televisionado,
milhares de pessoas portanto diversas ferramentas atacaram o muro e começa-
ram a destruí-lo.
Após vinte e oito anos de existência o muro foi completamente derrubado
por máquinas e em outubro de 1990 a Alemanha estava novamente unificada.

5.2  Globalização
Nos últimos anos do século XX, o capitalismo financeiro se consolidou em todo
o planeta. As empresas ultrapassaram as fronteiras nacionais e passaram a
atuar em diversas Nações. As revoluções tecnológicas foram imensas principal-
mente no campo das telecomunicações e da biotecnologia. As relações de tra-
balho foram alteradas por todas essas inovações e resultaram num desemprego
estrutural que provoca o alargamento da distancia entre as pessoas mais ricas
e as mais pobres do planeta.
Para compreendermos como esse quadro foi pintado, devemos retomar o
início da década de 1970, quando a reorganização das forças produtivas econô-
micas fortaleceu sua intensidade em âmbito internacional. O capitalismo reor-
denou as relações entre Estado, empresas particulares e sociedade civil. Essa
reorganização foi denominada globalização. Foi nas escolas de administração
estadunidense que o termo passou a ser utilizado, ele servia para tratar do mo-
vimento empresarial de expansão transnacional. Para Kalina Vanderlei Silva,
globalização é:

principalmente um processo de integração global, definindo-se como expansão, em


escala internacional, da informação, das transações econômicas e de determinados
valores políticos e morais. Em geral, valores do Ocidente [. . .] É uma nova fase do

capítulo 5 • 101
Capitalismo, surgida com o fim do bloco socialista e a queda do muro de Berlim em
1989; eventos que levaram à grande expansão de mercados, alcançando áreas antes
vetadas ao Capitalismo. (SILVA, 2008, p.169-170)

Em nosso tempo os aspectos econômicos e culturais estão imersos na ideia


de globalização, enquanto que no aspecto político encontramos o neoliberalis-
mo – é o retorno da ideia de Estado mínimo, no qual ocorre a menor interven-
ção estatal possível na economia e no mercado. No encontro deles forma-se a
nova ordem mundial.
Para os defensores da ideia de globalização as transformações pelas quais o
planeta vem passando têm trazido benefícios para a humanidade. No entanto,
temos percebido que novamente, os mais privilegiados são aqueles que detém
as grandes empresas multinacionais e o mercado financeiro. O acumulo cres-
cente de riqueza tem gerado cada vez mais populações marginalizadas. Já a po-
lítica neoliberal tem se fortalecido em diversos países. A abertura de mercados
e a redução da intervenção do Estado tem contribuído para o alargamento dos
mercados globais.
Vale a leitura do texto introdutório do livro Por uma outra globalização de
Milton Santos:

Vivemos num mundo confuso e confusamente percebido. Haveria nisto um paradoxo


pedindo uma explicação? De um lado, é abusivamente mencionado o extraordinário
progresso das ciências e das técnicas, das quais um dos frutos são os novos materiais
artificiais que autorizam a precisão e a intencionalidade. De outro lado, há, também,
referência obrigatória à aceleração contemporânea e todas as vertigens que cria, a
começar pela própria velocidade. Todos esses, porém, são dados de um mundo físico
fabricado pelo homem, cuja utilização, aliás, permite que o mundo se torne esse mundo
confuso e confusamente percebido. Explicações mecanicistas são, todavia, insuficien-
tes. É a maneira como, sobre essa base material, se produz a história humana que é a
verdadeira responsável pela criação da torre de babel em que vive a nossa era globa-
lizada. Quando tudo permite imaginar que se tornou possível a criação de um mundo
veraz, o que é imposto aos espíritos é um mundo de fabulações, que se aproveita do
alargamento de todos os contextos (M. Santos, A natureza do espaço, 1996) para
consagrar um discurso único. Seus fundamentos são a informação e o seu império, que

102 • capítulo 5
encontram alicerce na produção de imagens e do imaginário, e se põem ao serviço do
império do dinheiro, fundado este na economização e na monetarização da vida social
e da vida pessoal. (SANTOS, 2006, p.9)

O autor nos instiga a refletir sobre a nova modalidade de capitalismo pois


ainda nos encontramos à serviço do dinheiro. Essas mudanças do sistema fo-
ram reforçadas por transformações na área das tecnologias (informática e tele-
comunicação). Podemos verificar como se alteraram os métodos de produção,
as relações de trabalho na organização das empresas e como os Estados tem
tratado a política financeira.
Todas essas mudanças têm alterado a vida das pessoas ao redor do plane-
ta. Uma das mudanças mais palpáveis ocorreram na área das comunicações.
Atualmente as informações chegam às pessoas quase que em tempo real, ou
seja, no frescor dos acontecimentos. De certa forma, isso pode ajudar a orga-
nização da opinião pública a favor de mudanças no quadro social. O caso da
Primavera Árabe foi um exemplo da possibilidade de organização pelas redes
sociais. No Brasil, por exemplo, o Movimento Passe Livre, entre outras organi-
zações, conseguiu colocar milhares de pessoas nas ruas em protestos que atin-
giram a maioria das capitais do país.
Porém, do outro lado, os aspectos negativos são muitos. O desemprego es-
trutural, a diminuição dos direitos sociais, a terceirização nas relações de tra-
balho, têm ampliado a desigualdade social e aprofundado a miséria no mundo.
O geografo Milton Santos dissertou pelo apoderamento dos mecanismos
tecnológicos e sociais no sentido de utilizar a globalização para a transforma-
ção. Leia a seguir o texto O mundo como pode ser; uma outra globalização.

Todavia, podemos pensar na construção de um outro mundo, mediante uma globaliza-


ção mais humana. As bases materiais do período atual são, entre outras, a unicidade da
técnica, a convergência dos momentos e o conhecimento do planeta. É nessas bases
técnicas que o grande capital se apóia para construir a globalização perversa de que
falamos acima. Mas, essas mesmas bases técnicas poderão servir a outros objetivos,
se forem postas ao serviço de outros fundamentos sociais e políticos. Parece que as
condições históricas do fim do século XX apontavam para esta última possibilidade.
Tais novas condições tanto se dão no plano empírico quanto no plano teórico.

capítulo 5 • 103
Considerando o que atualmente se verifica no plano empírico, podemos, em primeiro
lugar, reconhecer um certo número de fatos novos indicativos da emergência de uma
nova história. O primeiro desses fenômenos é a enorme mistura de povos, raças, cul-
turas, gostos, em todos os continentes. A isso se acrescente, graças aos progressos
da informação, a “mistura” de filosofias, em detrimento do racionalismo europeu. Um
outro dado de nossa era, indicativo da possibilidade de mudanças, é a produção de
uma população aglomerada em áreas cada vez menores, o que permite ainda maior
dinamismo àquela mistura entre pessoas e filosofias. As massas de que falava Ortega
y Gasset na primeira metade do século (La rebelión de las masas, 1937), ganham uma
nova qualidade em virtude da sua aglomeração exponencial e de sua diversificação.
Trata-se da existência de uma verdadeira sociodiversidade, historicamente muito mais
significativa que a própria biodiversidade. Junte-se a esses fatos a emergência de uma
cultura popular que se serve dos meios técnicos antes exclusivos da cultura de massas,
permitindo-lhe exercer sobre esta última uma verdadeira revanche ou vingança. É sobre
tais alicerces que se edifica o discurso da escassez, afinal descoberta pelas massas.
A população aglomerada em poucos pontos da superfície da Terra constitui uma das
bases de reconstrução e de sobrevivência das relações locais, abrindo a possibilida-
de de utilização, ao serviço dos homens, do sistema técnico atual. No plano teórico,
o que verificamos é a possibilidade de produção de um novo discurso, de uma nova
metanarrativa, um novo grande relato. Esse novo discurso ganha relevância pelo fato
de que, pela primeira vez na história do homem, se pode constatar a existência de uma
universalidade empírica. A universalidade deixa de ser apenas uma elaboração abstrata
na mente dos filósofos para resultar da experiência ordinária de cada homem. De tal
modo, em um mundo datado como o nosso, a explicação do acontecer pode ser feita
a partir de categorias de uma história concreta. É isso, também, que permite conhecer
as possibilidades existentes e escrever uma nova história. (SANTOS, 2006, p.10-11)

Conforme o autor, no momento atual as forças de convergência para uma real


transformação estão estabelecidas, uma vez que a técnica avançada e a univer-
salização empírica criam condições para a organização de movimentos que
transformem as condições impostas pelo capital.

104 • capítulo 5
5.3  O Fórum Econômico de Davos
A sede do Fórum Econômico Mundial – FEM, fica na cidade de Davos na Suíça.
Essa organização internacional promove a cada ano o encontro das mais im-
portantes empresas do mundo.
Para os organizadores do evento, é preciso tomar medidas para melhorar
a condição de vida dos seres humanos no planeta, uma vez que o processo de
globalização está instalado e muito provavelmente não regredirá.
No entanto, alguns críticos apontam que o encontro no fundo está a serviço
a lógica liberal capitalista e culmina em acordos internacionais e reorganização
de algumas relações diplomáticas. Outros, indicam que o FEM contribui para
o aumento da miséria e para a destruição da natureza em escalas exponenciais,
uma vez que organiza as ações da economia de mercado.
Leia a reportagem da RFI, uma rádio pública da França que transmite suas
mensagens via internet. O texto trata de uma pesquisa realizada antes do even-
to do FEM em janeiro de 2015.

Maioria das riquezas estará nas mãos de 1% da população em 2016.


No ano que vem, mais da metade da riqueza do planeta vai estar nas mãos de
apenas 1% da população mundial, em um contexto de desigualdades que se acentuou
com a crise, segundo um relatório publicado nesta segunda-feira (19) pela Oxfam In-
ternational, organização de combate à fome e à pobreza. O alerta acontece na véspera
do início do Fórum Econômico Mundial em Davos (Suíça), que a entidade vai copresidir.
A Oxfam afirma que os mais privilegiados viram sua fatia de riqueza aumentar de 44%
em 2009 para 48% em 2014. Se a tendência permanecer, a taxa vai superar 50%
em 2016. A diretora-executiva da entidade, Winnie Byanyima, disse que a explosão
da desigualdade está atrasando “em décadas” a luta contra a pobreza. “Queremos re-
almente viver em um mundo onde 1% é dono de mais do que o resto de nós juntos?”,
questionou. “Os pobres são atingidos duas vezes com a desigualdade crescente - eles
recebem uma fatia menor do bolo econômico e, porque a extrema desigualdade preju-
dica o crescimento, há um bolo menor para ser compartilhado.”
De acordo com o relatório da organização, os 80 indivíduos mais ricos do mundo
possuem a mesma riqueza que os 50% mais pobres do planeta, o equivalente a cerca de
3,5 bilhões de pessoas. Esse resultado é ainda maior do que a concentração registrada
há um ano, quando metade da riqueza do mundo estava nas mãos dos 85 mais ricos.

capítulo 5 • 105
Medidas contra desigualdades
A Oxfam indicou que, em Davos, vai pedir que sejam tomadas atitudes para se lidar com
o problema, incluindo a repressão contra a evasão fiscal pelas corporações e avanços
em direção a um acordo global sobre as mudanças climáticas. O Fórum de Davos se
inicia na quarta-feira e reúne a elite econômica mundial. Byanyima também quer a rea-
lização de uma cúpula internacional sobre tributação, “para reescrever as regras fiscais
internacionais”. Ela pede que os dirigentes internacionais combatam “os interesses par-
ticulares” dos milionários, “que criam obstáculos para um mundo mais justo e próspero”.
Para compilar sua pesquisa, a Oxfam usou dados dos anuários sobre patrimônio
mundial do banco Crédit Suisse, referentes aos anos 2013 e 2014, assim como a lis-
ta de bilionários da revista Forbes. (Exemplares disponíveis em: http://goo.gl/b1quyr,
acesso em 23 de maio de 2015)

A partir da leitura da reportagem podemos deduzir que os acordos realiza-


dos em Davos não têm contribuído para a diminuição da desigualdade social
no mundo.
Veremos a seguir a respostada dos movimentos sociais ao encontro em
Davos. Nasce o Fórum Social Mundial.

5.4  Fórum Social Mundial


O primeiro Fórum Social Mundial – FMS, ocorreu na cidade de Porto alegre, Rio
Grande do Sul em janeiro de 2001. Diversos movimentos sociais, a comunida-
de civil e inúmeras ONG´s reúnem-se anualmente para formularem propostas
e ações a fim de dirimir as desigualdades sociais ampliadas pelo processo de
Globalização político-econômica.
Os ataques ao neoliberalismo e o imperialismo são palavras de ordem do
movimento que possui uma proposta apartidária e não governamental. A arti-
culação entre pessoas, movimentos sociais, instituições possibilita uma comu-
nicação ampliada e o fortalecimento de caminhos alternativos para modelos
econômicos mais sustentáveis e justos.
No encontro de 2001, transpareceu a oposição clara do FSM contra o Fórum
Econômico Mundial.

106 • capítulo 5
Leia a seguir a Carta de Princípios do Fórum social Mundial realizado em
Porto Alegre, elaborada após o acontecimento como documento avaliativo e
instiuidor.

Carta de Princípios do Fórum Social Mundial


1. O Fórum Social Mundial é um espaço aberto de encontro para o aprofundamento
da reflexão, o debate democrático de ideias, a formulação de propostas, a troca livre
de experiências e a articulação para ações eficazes, de entidades e movimentos da
sociedade civil que se opõem ao neoliberalismo e ao domínio do mundo pelo capital e
por qualquer forma de imperialismo, e estão empenhadas na construção de uma so-
ciedade planetária orientada a uma relação fecunda entre os seres humanos e destes
com a Terra.
2. O Fórum Social Mundial de Porto Alegre foi um evento localizado no tempo e no
espaço. A partir de agora, na certeza proclamada em Porto Alegre de que “um outro
mundo é possível”, ele se torna um processo permanente de busca e construção de
alternativas, que não se reduz aos eventos em que se apoie.
3. O Fórum Social Mundial é um processo de caráter mundial. Todos os encontros
que se realizem como parte desse processo têm dimensão internacional.
4. As alternativas propostas no Fórum Social Mundial contrapõem-se a um processo
de globalização comandado pelas grandes corporações multinacionais e pelos gover-
nos e instituições internacionais a serviço de seus interesses, com a cumplicidade de
governos nacionais. Elas visam fazer prevalecer, como uma nova etapa da história do
mundo, uma globalização solidária que respeite os direitos humanos universais, bem
como os de todas os cidadãos e cidadãs em todas as nações e o meio ambiente, apoia-
da em sistemas e instituições internacionais democráticos a serviço da justiça social, da
igualdade e da soberania dos povos.
5. O Fórum Social Mundial reúne e articula somente entidades e movimentos da
sociedade civil de todos os países do mundo, mas não pretende ser uma instância
representativa da sociedade civil mundial.
6. Os encontros do Fórum Social Mundial não têm caráter deliberativo enquanto
Fórum Social Mundial. Ninguém estará, portanto, autorizado a exprimir, em nome do
Fórum, em qualquer de suas edições, posições que pretenderiam ser de todos os seus/
suas participantes. Os participantes não devem ser chamados a tomar decisões, por
voto ou aclamação, enquanto conjunto de participantes do Fórum, sobre declarações
ou propostas de ação que os engajem a todos ou à sua maioria e que se proponham a

capítulo 5 • 107
ser tomadas de posição do Fórum enquanto Fórum. Ele não se constitui portanto, em
instancia de poder, a ser disputado pelos participantes de seus encontros, nem preten-
de se constituir em única alternativa de articulação e ação das entidades e movimentos
que dele participem.
7. Deve ser, no entanto, assegurada, a entidades ou conjuntos de entidades que
participem dos encontros do Fórum, a liberdade de deliberar, durante os mesmos, sobre
declarações e ações que decidam desenvolver, isoladamente ou de forma articulada
com outros participantes. O Fórum Social Mundial se compromete a difundir ampla-
mente essas decisões, pelos meios ao seu alcance, sem direcionamentos, hierarqui-
zações, censuras e restrições, mas como deliberações das entidades ou conjuntos de
entidades que as tenham assumido.
8. O Fórum Social Mundial é um espaço plural e diversificado, não confessional, não
governamental e não partidário, que articula de forma descentralizada, em rede, entida-
des e movimentos engajados em ações concretas, do nível local ao internacional, pela
construção de um outro mundo.
9. O Fórum Social Mundial será sempre um espaço aberto ao pluralismo e à diver-
sidade de engajamentos e atuações das entidades e movimentos que dele decidam
participar, bem como à diversidade de gênero, etnias, culturas, gerações e capacidades
físicas, desde que respeitem esta Carta de Princípios. Não deverão participar do Fó-
rum representações partidárias nem organizações militares. Poderão ser convidados a
participar, em caráter pessoal, governantes e parlamentares que assumam os compro-
missos desta Carta.
10. O Fórum Social Mundial se opõe a toda visão totalitária e reducionista da eco-
nomia, do desenvolvimento e da história e ao uso da violência como meio de controle
social pelo Estado. Propugna pelo respeito aos Direitos Humanos, pela prática de uma
democracia verdadeira, participativa, por relações igualitárias, solidárias e pacíficas en-
tre pessoas, etnias, gêneros e povos, condenando todas as formas de dominação assim
como a sujeição de um ser humano pelo outro.
11. O Fórum Social Mundial, como espaço de debates, é um movimento de ideias
que estimula a reflexão, e a disseminação transparente dos resultados dessa reflexão,
sobre os mecanismos e instrumentos da dominação do capital, sobre os meios e ações
de resistência e superação dessa dominação, sobre as alternativas propostas para re-
solver os problemas de exclusão e desigualdade social que o processo de globalização
capitalista, com suas dimensões racistas, sexistas e destruidoras do meio ambiente
está criando, internacio nalmente e no interior dos países.

108 • capítulo 5
12. O Fórum Social Mundial, como espaço de troca de experiências, estimula o co-
nhecimento e o reconhecimento mútuo das entidades e movimentos que dele partici-
pam, valorizando seu intercâmbio, especialmente o que a sociedade está construindo
para centrar a atividade econômica e a ação política no atendimento das necessidades
do ser humano e no respeito à natureza, no presente e para as futuras gerações.
13. O Fórum Social Mundial, como espaço de articulação, procura fortalecer e criar
novas articulações nacionais e internacionais entre entidades e movimentos da socie-
dade, que aumentem, tanto na esfera da vida pública como da vida privada, a capacida-
de de resistência social não violenta ao processo de desumanização que o mundo está
vivendo e à violência usada pelo Estado, e reforcem as iniciativas humanizadoras em
curso pela ação desses movimentos e entidades.
14. O Fórum Social Mundial é um processo que estimula as entidades e movimentos
que dele participam a situar suas ações, do nível local ao nacional e buscando uma
participação ativa nas instâncias internacionais, como questões de cidadania planetária,
introduzindo na agenda global as práticas transformadoras que estejam experimen-
tando na construção de um mundo novo solidário. (Exemplares disponíveis em: http://
forumsocialsp.org.br/o-que-e/principios/#2 )

O documento demonstra claramente que o objetivo do FMS é construir es-


paços de discussão e propostas de ações para um outro mundo possível, mais
justo e menos desigual. Ponto relevante do texto é o item que garante a abertura
a todas as opiniões e não confere força deliberativa ao encontro no sentido de
construir um poder único.

5.5  11/09 e o início da guerra contra o


Terrorismo.

Em primeiro lugar, devemos esclarecer que tanto cristianismo quanto o isla-


mismo são religiões que derivaram do judaísmo. No entanto, podemos perce-
ber que atualmente milhares de conflitos, inclusive armados, ocorrem em nos-
so mundo, pautados no discurso de defesa da fé, ou seja, em nome de Deus, ou
Alá, ou Jeová.

capítulo 5 • 109
A característica essencial que une essas religiões é a crença monoteísta. São
consideradas religiões monoteístas aquelas que possuem apenas uma divinda-
de, ou seja, somente um Deus é adorado. Exatamente neste ponto podemos en-
contrar resultados maléficos dessa adoração exclusiva. Em diversos aspectos a
religião leva as pessoas a paz de espírito, ao trabalho em comunidade, ao amor
ao próximo, produzindo valores de solidariedade. No entanto, quando a fé co-
loca-se como verdadeira e única entre tantas outras, passamos à intolerância.
Inúmeras guerras assolam o planeta por motivos políticos e econômicos, mas
possuem como pano de fundo argumentos religiosos.
O fundamentalismo religioso é negado por diversos líderes espirituais, pois
a conotação negativa do termo tende a colocar sob as mesmas características
posturas que não condizem com as práticas religiosas.
Para a historiadora Kalina Vanderlei Silva,

Há algumas divergências entre os estudiosos do tema quanto ao caráter e ao senti-


do histórico do fundamentalismo. Para alguns autores, como Michael Hardt e Anto-
nio Negri, as diferentes correntes fundamentalistas estão ligadas pelo fato de serem
vistas interna e externamente como movimentos antimodernos, como ressurreições
de identidades e valores primordiais que antecedem e se opõem à modernidade e à
modernização. Para esses autores, o fundamentalismo é um tipo paradoxal de teoria
pós-moderna, tendo surgido cronologicamente após a modernidade. Já Rouanet con-
sidera que apenas alguns aspectos da modernidade técnico-científica é utilizada por
eles para fins antimodernos. Robert Kurz, por sua vez, apresenta uma visão semelhante
à Rouanet ao afirmar que tantos grupos terroristas quanto a sociedade ocidental e seu
totalitarismo econômico são adeptos da chamada “razão instrumental”, típica da moder-
nidade técnica-científica. Para Rouanet e Kurz, ao que parece, o fundamentalismo é um
sintoma da própria modernidade, não um fenômeno constitutivo da pós-modernidade, e
muito menos (como querem os fundamentalistas) uma volta ao passado. (SILVA, 2008,
p. 164-165)

A discussão conceitual nos remete ao fato de que entre a técnica e a crença


existe um espaço de práticas que têm alterado diversas sociedades. Inúmeras
ações terroristas ao redor do planeta têm assassinado milhões de pessoas.
Entre elas destacamos o atentado em 11 de setembro de 2001 às Torres
Gêmeas, em inglês World Trade Center, nos EUA. Imagine você andando para
o trabalho pelas ruas da cidade e de repente, bem à sua frente, um avião com

110 • capítulo 5
centenas de passageiros choca-se contra um arranha-céu. Você pisca os olhos,
conversas com as pessoas ao lado e, novamente, outro avião faz o mesmo.
Esse relato foi experienciado por cidadãos estadunidenses naquela manhã
de setembro em Nova Iorque. Os ataques foram assumidos pelo líder do grupo
terrorista Al Qaeda, Osama Bin Laden.
Porém, para compreendermos os atentados ao WTC, precisamos estar aten-
tos ao fato de que a relação dos EUA com alguns países do Oriente é bastante
conturbada desde as últimas décadas do século XX. Em relação ao Afeganistão,
especificamente, a política de dominação iniciou-se com a campanha contra a
ocupação da União Soviética. Naquele momento o auxílio vinha em forma de
financiamentos e armas de guerra.
Após o fim da Guerra Fria, a política externa dos EUA buscou explorar os
recursos minerais – principalmente petróleo – de diversos países. A influência
dos EUA em questões culturais e políticas desagradava a população e os líde-
res religiosos. O apoio a Israel, a Guerra do Golfo, entre outros fatos históricos,
demonstram como os EUA desejavam expandir seus domínios naquela região,
portanto podemos desconfiar que as relações Ocidente – Oriente foram ficando
cada vez mais estremecidas.

CONEXÃO
Assista ao filme 11 de Setembro dirigido por Sean Penn, Youssfe Chachine, Amos Gitaï,
Alejandro González Iñárritu, entre outros. O filme é composto de 11 curta-metragens, dirigido
por diferentes diretores. Em 2002 foi vencedor do prêmio especial do festival de Cannes.

Na manhã de 11 de setembro de 2001, os 19 membros da organização Al


Qaeda realizaram o sequestro de 4 aviões com passageiros. O destino de dois
aviões foram os prédios do WTC em Nova Iorque, matando todos os passagei-
ros e diversas pessoas que trabalhavam no prédio. As imagens chocantes po-
dem ser vistas em diversos vídeos espalhados pela internet. As Torres Gêmeas
sucumbiram duas horas mais tarde arrastando diversos prédios ao redor.
Os outros aviões foram destinados, respectivamente para ataques ao
Pentágono e a capital Whashington. A estimativa oficial é que morreram apro-
ximadamente três mil pessoas, de diversas nacionalidades e em sua maioria
civis.

capítulo 5 • 111
A resposta estadunidense veio em larga escala com a chamada Guerra
Contra o Terror. O fundamentalismo político do governo de George W. Bush,
bastante arraigado no cristianismo, construiu um discurso maniqueísta que
opunha o mal – o terrorismo islâmico, ao bem – liberalismo econômico demo-
crático cristão. Ao acusar os terroristas de ameaça iminente, pois atacavam os
ideais estadunidenses, o presidente iniciou uma guerra que substituía a oposi-
ção comunista da Guerra Fria, pelo terrorismo responsável pelo 11/09.

LEITURA
Scowen, Peter. O Livro Negro Des Estados Unidos. Editora Record, 2003. No livro o autor
elabora uma análise da história dos EUA no que se refere a sua política externa. Diversos
episódios são interpretados, como a Guerra da Coréia, no sentido de demonstrar como o
próprio país é responsável pelos ataques ao WTC. O autor escreveu o texto depois que sua
irmã sobreviveu ao atentado de 11/09.

5.6  Os Novos desafios da economia


Não foram apenas as torres do WTC que ruíram após os ataques terroristas de
11/09. A estrutura da economia capitalista também sofreu abalos e uma crise
de escalas mundiais arrasou diversas nações, inclusive os EUA.
O ponto de início da crise foi a estagnação da economia estadunidense.
Diversos especialistas apontam que logo após os atentados os rumos escolhi-
dos pela equipe econômica não foram suficientes para solucionar os proble-
mas que já se apresentavam no final da década de 1990. Entre as ações pode-
mos destacar:

•  Altos investimentos no setor bélico para financiar a Guerra contra o


Terror;
•  Intervenção para manter os juros baixos;
•  Ampliação do crédito e incentivo ao consumo, que resultaram no endivi-
damento das famílias estadunidense;
•  Relaxamento do controle do sistema financeiro.

112 • capítulo 5
Durante quase uma década, essas medidas conseguiram mascarar os pro-
blemas da economia, porém o resultado apareceu na crise avassaladora de
2009. Os efeitos da crise reverberaram pelas economias da Europa e Ásia, levan-
do diversos países ao desemprego estrutural.
Para alguns economistas, já em 2014 países como Alemanha e EUA apre-
sentaram melhoras em suas economias. Conforme dados do Fundo Monetário
Internacional – FMI, nos próximos anos pode haver um pequeno crescimento
da economia mundial, pesquisas indicam algo ao redor dos 4%.
No início da década de noventa, o livro chamado O fim da história e o último
homem, de Francis Fukuyama causou polêmica ao propor que o capitalismo,
vitorioso após a queda do muro de Berlim, estabeleceu-se como único modelo
de sistema político-economico, não havendo possiblidade de vias alternativas,
tão pouco uma transformação.
No entanto, em diversos países ao redor do mundo novas formas de pro-
duzir, comprar, vender e trocar têm se consolidado. O processo denominado
Economia Solidária tem conseguido interferir no processo de acumulação de
capital que tanto gera desigualdade pelo mundo. Leia a seguir as características
dessa expressão da sociedade civil em parceria com os Estados.

Compreende-se por economia solidária o conjunto de atividades econômicas de produ-


ção, distribuição, consumo, poupança e crédito, organizadas sob a forma de autogestão.
Considerando essa concepção, a Economia Solidária possui as seguintes caracterís-
ticas:

a) Cooperação: existência de interesses e objetivos comuns, a união dos esforços


e capacidades, a propriedade coletiva de bens, a partilha dos resultados e a responsa-
bilidade solidária. Envolve diversos tipos de organização coletiva: empresas autoges-
tionárias ou recuperadas (assumida por trabalhadores); associações comunitárias de
produção; redes de produção, comercialização e consumo; grupos informais produtivos
de segmentos específicos (mulheres, jovens etc.); clubes de trocas etc. Na maioria
dos casos, essas organizações coletivas agregam um conjunto grande de atividades
individuais e familiares.
b) Autogestão: os/as participantes das organizações exercitam as práticas partici-
pativas de autogestão dos processos de trabalho, das definições estratégicas e coti-
dianas dos empreendimentos, da direção e coordenação das ações nos seus diversos
graus e interesses, etc. Os apoios externos, de assistência técnica e gerencial, de

capítulo 5 • 113
capacitação e assessoria, não devem substituir nem impedir o protagonismo dos ver-
dadeiros sujeitos da ação.
c) Dimensão Econômica: é uma das bases de motivação da agregação de esforços
e recursos pessoais e de outras organizações para produção, beneficiamento, crédito,
comercialização e consumo. Envolve o conjunto de elementos de viabilidade econômi-
ca, permeados por critérios de eficácia e efetividade, ao lado dos aspectos culturais,
ambientais e sociais.
d) Solidariedade: O caráter de solidariedade nos empreendimentos é expresso em
diferentes dimensões: na justa distribuição dos resultados alcançados; nas oportuni-
dades que levam ao desenvolvimento de capacidades e da melhoria das condições de
vida dos participantes; no compromisso com um meio ambiente saudável; nas relações
que se estabelecem com a comunidade local; na participação ativa nos processos de
desenvolvimento sustentável de base territorial, regional e nacional; nas relações com
os outros movimentos sociais e populares de caráter emancipatório; na preocupação
com o bem estar dos trabalhadores e consumidores; e no respeito aos direitos dos
trabalhadores e trabalhadoras.
(Exemplares disponíveis em: http://goo.gl/Mdn2Se, acesso em: 02 de junho de 2015)

Pela leitura do texto podemos perceber que existem vias alternativas, como
os movimentos de alterglobalização que pretende difundir e consolidar ideias
de uma outra globalização possível. Projetos construídos para reverter os male-
fícios da globalização econômica que tem ampliado a desigualdade no mundo.
A intensão é promover os valores humanos essenciais, proteger o meio ambien-
te e as condições climáticas, desenvolver a justiça econômica e a proteção ao
trabalho, garantir as liberdades civis, étnicas e a paz.
Finalmente, você e eu podemos perceber que a história não chegou ao seu
fim.

ATIVIDADES
01. Elabore um texto relacionando as consequências da queda do muro de Berlim com a
Globalização.

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02. Explique o trecho do texto a seguir:
O Fórum Social Mundial se opõe a toda visão totalitária e reducionista da economia,
do desenvolvimento e da história e ao uso da violência como meio de controle social pelo
Estado. Propugna pelo respeito aos Direitos Humanos, pela prática de uma democracia ver-
dadeira, participativa, por relações igualitárias, solidárias e pacíficas entre pessoas, etnias,
gêneros e povos, condenando todas as formas de dominação assim como a sujeição de um
ser humano pelo outro. (Carta de Princípios do FSM)

03. Assista ao documentário Fahrenheit 9/11 de Michael Moore e redija um texto sobre as
causas e consequências do atentado às Torres Gêmeas.

LEITURA
Fukuyama, Francis. O fim da história eo último homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
SANTOS, Jaqueline Sant’ana Martins dos Santos & DARRIEUX, Rodolfo Scotelaro Porto Darrieux.
O stalinismo e a burocracia do estado soviético. Exemplares disponíveis em : http://www.
tempopresente.org/index.php?option=com_content&view=article&id=5341:o-stalinismo-e-a-
burocracia-do-estado-sovietico&catid=36&Itemid=127 , acesso em ; 25 de maio de 2015.
GORBACHEV, Mikahil. Outubro como um marco na história contemporânea. Estud. av.
[online]. 1998, vol.12, n.32, pp. 7-18. ISSN 1806-9592. http://dx.doi.org/10.1590/S0103-
40141998000100002. Acesso em 08 de maio de 2015)
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único a consciência universal.
Rio de Janeiro: Record, 2006.
SILVA, Kalina Vanderlei. Dicionário de conceitos históricos. 2.ed. – São Paulo: Contexto, 2008.

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