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Hobbes e a teoria clássica do riso

UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS


Pró-reitoria Comunitária e de Extensão

Reitor
Pe. Aloysio Bohnen, SJ

Vice-reitor
Pe. Marcelo Fernandes de Aquino, SJ
Hobbes e a teoria clássica do riso
Pró-reitor Comunitário e de Extensão
Vicente de Paulo Oliveira Sant'anna

Quentin Skinner

Tradução
Alessandro Zir

Diretor
Carlos Alberto Gianotti

Conselho Editorial
Carlos Alberto Gianotti
Fernando Jacques Althoff
Pe. José No Follmann, SJ
Pe. Marcelo Fernandes de Aquino, SJ
Nestor Torelly Martins

EDITORA UNISINOS
Coleção Aldus
7
© 2002 Quentin Skinner
Hobbes e a teoria clássica do riso
Título original: Hobbes and the Classical Theory of Laughter
2002 Direitos editoriais em lingua portuguesa, para o Brasil, fornecidos
pelo autor à Editora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos
EDITORA UNISINOS
ISBN 85-7431-143-1 A COLEÇÃO ALDUS
Coleção Aldus
7
Sob a direção de Fernando Althoff e Nestor Torelly Martins

Editor
Carlos Alberto Gianotti

Preparação A Coleção Aldus tem seu nome inspirado


Rui Bender
em Aldus Pius Manutius (1450?-1515), im-
Revisão
Renato Deitos pressor humanista italiano estabelecido em
Editoração Veneza, que a partir de 1501 produziu a pri-
Décio Remigius Ely
meira coleção de livros de bolso. Numa época
Capa em que os livros eram caros e difíceis de ma-
Isabel Carballo
nusear, Aldus começou a editar livros com
Impressão
Gráfica da Unisinos, primavera de 2002 cerca de 11xl6cm. Para diminuir o volume e o
preço de seus livros, Aldus encomendou ao
ourives Francesco Griffo o desenho de um
A reprodução, ainda que parcial, por qualquer meio, das páginas que
compõem este livro, para uso não-individual, mesmo para fins didáticos, tipo de letra que viria a ser conhecido como
sem autorização escrita do editor, é ilícita e se constitui numa
contrafação danosa à cultura. itálico (grifo), que permitia um maior número
Foi feito o depósito legal.
de caracteres por página.
0 formato "livro de bolso" criado há qui-
Editora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos nhentos anos por Aldus é hoje o preferido
dos leitores em todo o mundo. A EDITORA
EDITORA UNISINOS
Av. Unisinos, 950
93022-000 São Leopoldo RS Brasil
UNISINOS, mediante esta coleção, em forma-
to diferenciado e impressa em papel espe-
Telef.: 51. 5908239 cial, procura levar assuntos interessantes
Fax: 51. 5908238
editora@unisinos.br aos leitores por um preço acessível.
6 COLEÇÃO ALDUS

APRESENTAÇÃO PELOS EDITORES


Sobre o autor

Quentin Skinner, inglês, nascido em 1940,


formou-se na Universidade de Cambridge, onde Neste sétimo volume, a Coleção Aldus
obteve sua graduação em História em 1962.
traz aos leitores o filósofo Quentin Skinner
Foi membro do Instituto para Estudos
Avançados de Princeton na década de 1970, falando sobre o riso. Diz o próprio Skinner em
mas passou o restante de sua carreira em sua apresentação que Hobbes e a teoria clás-
Cambridge, onde foi professor de Ciência
Política de 1978 a 1996 e é atualmente o sica do riso foi estruturado para uma pales-
Regius Professor de História Moderna. 0 tra — A filosofia e o riso — feita por ele na
professor Skinner tem recebido vários títulos
honoris causa e é membro de várias academias,
Sorbonne, em 12 de junho de 2001. Trechos da
incluindo a Academia Britânica, a Academia conferência foram publicados pelo Le Monde
Americana e a Academia Européia. Sua obra três dias depois e pela Folha de S. Paulo de 4
tem sido traduzida para 19 idiomas, inclusive o
português, em que se encontram cinco de seus de agosto de 2002.
livros. Dentre os seus vários trabalhos Motivados por essa leitura, procuramos
destacam-se Machiavelli [1981), Reason and
Rhetoric in the Philosophy of Hobbes (1996), Quentin Skinner — de quem é impossível não
Liberty Before Liberalism [1998) e Visions of destacar a amabilidade e a generosidade —
Politics (três volumes, 2002). 0 mais conhecido
é The Foundations of Modern Political Thought
para que pudéssemos incluir o texto na Cole-
(dois volumes, 1978), que venceu o prêmio ção Aldus. Professor Skinner não apenas revi-
Wolfson em 1979, o prêmio Benjamin sou o texto ora publicado, mas também
Lippincott da Associação Americana de Ciência
Política em 2001 e foi recentemente referido preparou uma introdução para os leitores brasi-
pelo Times Literary Supplement como um dos leiros. As referências encontradas no correr
cem livros mais influentes dos últimos
cinqüenta anos.
das páginas são um convite para conhecer
mais sobre os autores e obras citados.
B COLEÇÃO ALDUS

Skinner diz que o tema do riso é essen-


cialmente humanista. Ao longo deste livro ele
prepara um inventário, procede a classifica-
ções e desenha o riso no quadro das ques- APRESENTAÇÃO
tões humanas. Oscar Wilde dizia que, se o
homem das cavernas tivesse aprendido a rir,
a história teria sido diferente.
Boa leitura!
Setembro de 2002. A primeira vez que me interessei pelas
idéias de Thomas Hobbes sobre o riso foi
quando escrevia meu livro Reason and Rheto-
ric in the Philosophy of Hobbes (Razão e Retó-
rica na Filosofia de Hobbes). Meu principal ob-
jetivo naquele trabalho era mostrar as cone-
xões entre as concepções filosóficas de Hob-
bes e a cultura humanista da Renascença.
Um dos aspectos da teoria do discurso per-
suasivo, herdada da cultura retórica da anti-
ga Roma pela Renascença, era a crença de
que o riso pode ser usado como uma arma po-
tente em debates legais e políticos. Se, como
particularmente argumentava Quintiliano no
seu Institutio Oratoria, podemos ser bem-su-
cedidos ao fazer com que nossos adversários
dialéticos pareçam ridículos, provocando o
riso contra eles, então podemos esperar ar-
ruinar sua causa e persuadir nossa audiência
10 COLEÇÃO ALDUS HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA DO RISO 11

a tomar partido por nosso lado. Hobbes põe the Renaissance (Por que Rir Importava na
essa teoria para funcionar de forma devasta- Renascença). Ela foi originalmente apresen-
dora nos últimos capítulos do Leviathan, nos tada na Universidade de Harvard, depois na
quais ele monta uma sátira selvagem dos es- Universidade de Columbia e, numa versão
tudos escolásticos e da teologia da Igreja Ca- bastante revisada, foi proferida como uma
tólica, transmitindo seu escárnio e desprezo das Henry Tudor Memorial Lectures na Uni-
por meio de uma série de piadas, sarcasmos versidade de Durhan em 2000, e nessa forma
e outras formas de ridículo. publicada na revista History of Political
Comecei a perceber que Hobbes estava Thought1 Solicitado em particular por Kinch
completamente versado na literatura clássi- Hoekstra e Susan James, reescrevi então e
ca, em que ele encontrava – como, por exem- ampliei meu original. Apresentei a nova ver-
plo, em Quintiliano – uma explicação sobre são (em francês) como uma das Marc Bloch
como podemos aprender a falar e escrever Lectures na Ecole des Hautes Etudes de
num tom zombeteiro, e isto me levou a consi- Paris em 2001, e ela foi publicada no Le Monde.
derar a teoria subjacente que Hobbes tinha a Como resultado, inúmeras pessoas envia-
respeito das relações entre o riso e o despre- ram-me comentários críticos, sugestões
zo. 0 resultado foi este trabalho, no qual para novas conferências e explicações adicio-
procuro traçar as raízes da crença de que a nais a meu argumento. Dessa forma encora-
emoção expressa pelo riso é sempre uma jado, retornei ao texto uma vez mais e o rees-
mistura de alegria e escárnio, para mostrar crevi de uma maneira nova, ampliada e dife-
como essa teoria ganhou proeminência no rente. Esta é a versão que aqui é publicada
primeiro período da filosofia moderna e final- pela primeira vez.
mente explicar por que eventualmente surgiu
uma tentativa de desafiá-Ia e desacreditá-Ia.
Minha primeira tentativa de desenvolver
1 Quentin Skinner, "Why Laughing Mattered in the Re-
esse argumento tomou a forma de uma con- naissance", History of Political Thought 22 (2001), pp.
ferência intitulada Why Laughing Mattered in 418-47.
12 COLEÇÃO ALDUS

Por fornecerem prestimosos comentá-


rios às versões anteriores do meu texto, sou
particularmente grato a Vic Gatrell, Angus
Gowland, Philip Pettit e Christopher Ricks.
Meu maior débito é para com Kinch Hoekstra
e Susan James, que leram as sucessivas ver-
sões do meu trabalho com um cuidado minu-
cioso e também me ofereceram importantes Certo dia, Thomas Hobbes (1588-1679)
referências adicionais. disse a seu amigo e biógrafo John Aubrey
0 contato para a publicação do meu que, embora "Aristóteles tenha sido o pior
ensaio em português foi feito por Thaís Jardim, professor que já existiu, o pior político e o
e devo a ela muitos agradecimentos por de- pior estudioso de ética", seria preciso admi-
monstrar tão generoso interesse. Também tir que "sua retórica e seus estudos dos ani-
2
quero oferecer meus agradecimentos a Ales- mais eram esplêndidos". Sem sombra de
sandro Zir por traduzir meu ensaio, à Editora dúvida, a Retórica de Aristóteles (384 a.C.–
Unisinos por aceitar a idéia da tradução, es- 322 a.C.) foi uma obra com a qual Hobbes fi-
pecialmente a seu diretor, professor Carlos cou profundamente impressionado. Um indí-
Alberto Gianotti, e aos responsáveis pela sé- cio desse impacto no seu pensamento tem
rie em que meu ensaio aparece, professores sido freqüentemente notado. Quando Hob-
Fernando Althoff e Nestor Torelly Martins. bes, pela primeira vez, volta-se para o exame
do caráter das "emoções", nos capítulos 8 e
9 do The Elements of Law (Os Elementos da

2 Aubrey 1898, vol. 1, p. 357.


14 COLEÇÃO ALDUS

Lei), de 1640, ele estabelece várias de suas


definições mediante quase que verdadeiras
citações do livro 2 do texto de Aristóteles. 3
Mas uma outra influência semelhante da Re-
tórica tem sido bem menos discutida. Quando II

Hobbes se pergunta, no capítulo 7 do The Ele-


ments of Law, e novamente no capítulo 6 do
Leviathan, a respeito da natureza das emo- A observação mais freqüentemente ci-
ções expressas pelo fenômeno do riso, ele tada de Aristóteles sobre o riso vem de um
texto conhecido pelos antigos latinos como
passa a esboçar uma teoria do ridículo, que é
muito parecida com as análises de Aristóte- De partibus animalium, no qual observa que os
les na Retórica e na Poética. É com a tradição seres humanos são as únicas criaturas que
aristotélica de reflexão sobre o risível, e com riem. 4 Este pode também ter sido o texto que
a posição peculiar de Hobbes nessa tradição, Hobbes tinha em mente quando falou a Au-
brey de sua admiração pelos "estudos dos
que eu estarei envolvido no que segue. Assim
como fazem os autores clássicos e do início animais" de Aristóteles. Para os meus
do período moderno, que vou discutir, devo propósitos , entretanto, as observações mais rele-
enfocar duas questões específicas: Que emo- vantes de Aristóteles podem ser encontra-
ções expressa o fenômeno do riso? Como das na passagem do livro 2 da Retórica, em
deve ser entendido e apreciado o fenômeno que ele discute o comportamento dos jovens.
do riso? Hobbes foi um dedicado estudioso desse tex-
to, do qual produziu uma paráfrase em latim

3 Para uma discussão dos paralelismos ver Strauss


1963, pp. 36-41; Zappen 1983; Skinner 1996, pp. 4 Aristóteles 1961, III. 10, p. 281. Para uma discussão
38-9. desse ponto, ver Screech 1997, pp. 1-5.
16 COLEÇÃO ALDUS HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA DO RISO 17

no início dos anos 1630. 5 Foi desta paráfrase gestão que já estava presente em sua obser-
que alguém (mas não Hobbes) 6 fez a tradução vação anterior de que entre as origens do
que foi publicada em 1637 como A Brief of the prazer estão "as ações, os ditos e as pes-
Art of Rhetoric (Um Resumo da Arte da Retó- soas ridículas". 8 Como ele mesmo adverte,
rica), a primeira versão do texto de Aristóte- ele já tinha examinado essas implicações na
les a aparecer em inglês. Se considerarmos Poética, especialmente na breve seção em
essa versão, encontraremos Aristóteles di- que ele discute o tipo de mimese que se mani-
zendo que uma das características dos jo- festa na comédia. 9 A comédia trata do que é
vens é que eles são "amigos da alegria, e por- risível, e o risível é um aspecto do vergonho-
tanto adoram zombar dos outros". Isto o leva so, do feio ou do baixo. Chegamos a rir de ou-
a investigar os sentimentos expressos pela tras pessoas, porque elas exibem alguma fal-
alegria deles e a constatar que "a zombaria é ta ou marca constrangedora que, enquanto
um insulto gracioso", tendo antes nos asse- não dolorosa, as torna ridículas. Dessa for-
gurado que o insulto "é a degradação do ou- ma, são especialmente risíveis os inferiores
tro por diversão". 7 em algum sentido, sobretudo os moralmente
A sugestão básica de Aristóteles é, por- inferiores, embora não os completamente de-
tanto, que a alegria induzida pela zombaria é pravados. 10
sempre uma expressão de desprezo, uma su- É possível que Aristóteles estivesse em
dúvida, no que diz respeito a algumas dessas
observações, com as considerações que Pla-
tão faz sobre o riso em vários de seus diálo -
5 A paráfrase de Hobbes pode ser encontrada em Chats-
worth, como Hobbes MS D.1: Latin Exercises (Exercícios
em Latim).
6 Como a próxima edição de Karl Schuhmann deverá mos-
trar, a versão inglesa da paráfrase de Hobbes contém 8 [Hobbes (?)] 1986, p. 57.
muitas anomalias e erros de tradução, o que sugere que 9 Entretanto, pode ser que Aristóteles esteja se referin-
ela não pode ser dele. (Sendo assim, coloco o nome de do a uma discussão mais ampla que fazia parte do se-
Hobbes entre colchetes ao me referir a esse texto.) gundo livro, agora perdido, da sua Poética.
7 [Hobbes (?)) 1986, pp. 70, 86. 10 Aristóteles 1995, 1449a, p. 44.
18 COLEÇÃO ALDUS HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA DO RISO 19

gos. No Filebo, Platão examina a natureza do com a aparente insanidade do sábio. Um dos
ridículo11 e, na República, antecipa o princípio cidadãos, ao fazer uma visita a Demócrito,
central da análise de Aristóteles, ao declarar "começou a chorar em voz alta como uma
que o riso está quase sempre ligado à repro- mulher chorando a morte de um filho". Mas
vação do vício. 12 Seria justo dizer, entretan- mesmo diante dessa explosão aparentemen-
to, que as observações de Platão são disper- te trágica, Demócrito teria apenas sorrido.
sas e desordenadas em comparação ao en- Hipócrates escreve que, de início, censurou
volvimento direto de Aristóteles com o as- Demócrito por sua insensibilidade, mas este
sunto, e talvez não seja surpreendente que teria explicado: "estou apenas rindo da huma-
tenha sido a análise de Aristóteles que exer- nidade, cheia de loucura e vazia de quaisquer
ceu a maior influência na antiguidade. boas ações" e de um mundo em que os
Encontramos a teoria de Aristóteles homens se ocupam de "assuntos sem nenhum
compreendida segundo duas linhas de pensa- valor e consomem suas vidas com coisas ridí-
mento distintas, mas convergentes. culas". Hipócrates ficou muito impressionado
Uma era a médica, que parece ter se ori- e, ao deixar Abdera, agradeceu às pessoas
ginado com a carta apócrifa de Hipócrates a por lhe terem dado a oportunidade de falar
respeito de Demócrito, o filósofo sorridente. com "o sapientíssimo Demócrito, que sozinho
Hipócrates relata ter sido chamado pela gen- é capaz de dar sabedoria aos homens do mun-
13
te de Abdera – cidade para a qual Demócríto do todo".
havia se retirado quando atingiu uma idade 0 outro grupo de escritores que explo-
avançada – porque estavam preocupados rou as conexões entre o riso e o desprezo foi
o dos retóricos, que, neste caso, se
inspram iretamente em textos de Aristóteles. A
d
11 Ver Platão 1925, 48c-50b, pp. 332-40, e conferir tam- análise mais elaborada é a de Cícero (106 a.0
bém Platão 1926, 935d-936a, vol. 2, pp. 462-4, pas-
sagem em que ele discute a necessidade de se controlar
o uso do ridículo pelos escritores cômicos.
12 Platão 1930-35, 452d, vol. I, p. 436. 13 Joubert 1579, Apêndice, pp. 358, 363-4, 375.
HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA DO RISO 21
2ALDUS
0 COLEÇÃO

-43 a. C), livro 2 do De Oratore, no qual o per- dos para se fazer piada são fornecidos pela
18
sonagem que representa César é persuadido feiúra e pela deformidade física " .
a discursar sobre o conceito do risível. César Outro retórico importante a examinar
começa fornecendo uma reformulação e uma as relações entre o riso e o desprezo é Quin-
elaboração do argumento de Aristóteles: tiliano. No livro 6 do seu Institutio Oratoria, en-
contramos uma discussão que parece dever
0 campo próprio e, como se poderia dizer, a
província do riso estão restritos a temas muito tanto às explicações de Aristóteles
que são, de alguma forma, ou indignos ou de- quanto às de Cícero. Ouintiliano reitera que o
formados. Pois a causa principal, se não a riso "tem sua origem em coisas que são de
única causa, da hilaridade são aqueles tipos algum modo ou deformadas ou indignas"",
de observações que mencionam ou distin-
acrescentando que "os ditos engraçados são
guem, de uma maneira que em si mesma não
é inconveniente) algo que14é de algum modo muitas vezes falsos (sempre torpes), muitas
inconveniente ou indigno. vezes engenhosamente distorcidos e de for-
18
ma alguma lisonjeiros". Jogando claramen-
César segue explicando que a inconve-
te com os verbos ridere e deridere, ele conclui
niência pode ser de uma natureza tanto mo-
que "nossa alegria não está muito longe da
ral quanto física. Sugere, novamente num es- derrisão", já que a emoção incontrolável
tilo bem aristotélico, que "ternas para o ridí-
expressa por ela será freqüentemente a de uma
culo podem ser encontrados em vícios visíveis
superioridade desdenhosa. Quando rimos,
no comportamento das pessoas, desde que estamos freqüentemente nos gabando ou
as pessoas em questão não sejam nem espe-
glorificando diante de outra pessoa, por ter-
cialmente populares e nem figuras de uma
mos constatado que, comparadas conosco,
verdadeira tragédia". 15 E a isso ele acrescen- elas sofrem de alguma fraqueza ou defeito
ta que "outros temas especialmente adequa-

16 Cícero, 1942, II. 59. 239, vol. 1, p. 374.


14 Cicero 1942, II. 58. 236, vol. 1, p. 372. 17 Quintiliano 1920-2, VI. 3. 8, vol. 2, p. 442.
15 Cícero 194 , II. 59. 238, vol. 1, p. 374. 18 Ouintiliano 1920-2, VI. 3. 6, vol. 2, p. 440.
22
COLEÇÃO ALDUS

desprezível. Como sintetiza Quintiliano, "a


maneira mais ambiciosa de se gabar é falar
zombando". 19

III

Com a redescoberta da teoria clássica


da eloqüência — uma das conquistas caracte-
rísticas da cultura renascentista —, a teoria
clássica do riso foi igualmente despertada.
Parece ter sido nas primeiras décadas do sé-
culo XVI que alguns dos principais humanistas
resolveram investigar o significado e a impor-
tância do riso. As contribuições mais impor-
tantes foram a de Baldessare Castiglione, no
seu Libro del Cortegiano, de 1528, e a de
Juan Luis Vives, no seu De anima & vita, de
1539. Mais tarde, no mesmo século, pela pri-
meira vez desde a antigüidade, começou a
aparecer uma literatura tanto sobre os as-
pectos fisiológicos quanto sobre os aspectos
psicológicos do fenômeno. 2 ° Aqui, o pioneiro

20 Para outras relações de teóricos do riso renascentis-


tas, ver Screech 1997, p. 58, e especialmente
Ménager 995, pp. 7-11. 0 estudo de Ménager é excelente,
1
19 Quintiliano 1920-2, XI. 1. 22, vol. 4, p. 166. e devo muito a ele.
2ALDUS
4 COLEÇÃO HOBBES E A TEDRIA CLÁSSICA DO RISO 25

foi Laurent Joubert, um médico de Montpel- como o faz Rodolph Goclenius no seu Physica
li er, cujo Traité du ris foi publicado pela primei- commentatio de risu & lacrymis, de 1597.
ra vez em Paris em 1579. Logo em seguida, Hobbes também liga o riso e as lágrimas em
vários tratados semelhantes surgiram na sua crítica ao De mundo de Thomas White,
Itália, incluindo o De risu, ac ridiculis de Celso bem como Descartes em Les passions de
Mancini, de 1598, o De risu de Antonio Loren- /'ame (As paixões da alma, Editora Martins
zini, de 1603, e o Phisici, et philosophi tracta- Fontes).
tus de risu de Elpidio Berrettario, de 1603. Entre os elementos comuns ao riso e ao
Como no caso dos teóricos clássicos, choro, esses escritores apontam que eles
todos esses escritores assumem que a per- são peculiares à humanidade, que são em
gunta mais importante sobre o riso é quais grande parte incontroláveis e que parecem
emoções o provocam. 21 Alguns deles abor- ser reações excessivamente intensas a al-
dam o problema considerando o fenômeno do gum movimento interior da alma. Concordam
riso juntamente com o do choro. Francisco perfeitamente que as principais emoções ex-
Vallesio, um dos médicos de Filipe II, incluiu pressas pelo choro devam ser o desânimo e a
um capítulo intitulado De risu et fletu no seu tristeza, talvez acompanhados em algumas
Controversiae, de 1582, enquanto Nicander ocasiões pelo medo. Mas, como admite expli-
Jossius publicara um tratado completo com o citamente Bright, a causa do riso "é mais di-
mesmo título em 1580. Timothy Bright, um fícil de se descobrir, e sua razão não é tão
médico londrino, justapõe da mesma forma o clara". 22 Que paixão da alma poderia ser tão
riso e o pranto em seu Treatise of Melancholie complexa e poderosa, a ponto de nos fazer
(Tratado sobre a Melancolia), de 1586, assim "explodir", como diz Vallesio, dessa forma
23
"quase convulsiva"?

21 Isso contrasta com alguns dos estudos mais interes-


santes da história do riso, que se concentram nos gê-
neros da comédia e em seu potencial subversivo. Ver, 22 Bright 1586, p. 162.
por exemplo, Bakhtine 1970, Thomas 1977. 23 Vallesio 1582, p. 222.
26 COLEÇÃO ALDUS HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA DO RISO 27

Um dos sentimentos envolvidos todos argumenta que a paixão que nos leva ao riso
concordavam com isso – deve ser alguma for- deve estar sempre relacionada de alguma for-
ma de alegria ou felicidade. Entre os escrito- ma à alegria, enquanto Francisco Vallesio
res humanistas, Castiglione enfatiza no seu afirma, de maneira mais direta, que "é minha
Cortegiano que "o riso é percebido somente crença que os homens riem sempre que algo
no homem, e (de certa forma) é sempre um agradável acontece " . 27 No espaço de uma ge-
exemplo de uma certa alegria e disposição jo- ração, todos os que escreviam sobre o as-
cosa que ele sente em seu íntimo". 24 De for- sunto entenderam essa suposição como algo
ma parecida, em De anima & vita, Vives diz garantido. Em Les passions de l'ame, Descar-
25
que "o riso nasce da felicidade e do prazer" , tes simplesmente observa que "o riso parece
doutrina que foi largamente repetida pelos ser um dos principais signos da alegria" 28 , en-
humanistas das gerações seguintes. quanto Hobbes conclui, no The Elements of
Encontramos as mesmas suposições na Law, de um modo ainda mais rápido, que o
li teratura médica, e o pioneiro nesse contex- riso "é sempre alegre". 29
to é o médico Girolamo Fracastoro no seu De Reconhecia-se, entretanto, que essa
26
sympathia & antipathia rerum, de 1546. A alegria devia ser de um tipo peculiar, já que
causa da alegria, declara Fracastoro, deve ela parece estar conectada de algum modo
ser sempre alguma forma de felicidade inte- aos sentimentos de sarcasmo, desprezo e
rior. Laurent Joubert concorda com isso e mesmo ódio. Entre os humanistas, Castiglio-
ne constrói um dos primeiros argumentos
nesse sentido. Quando rimos, estamos sem-
24 Castiglione 1994, p. 154. pre "debochando e escarnecendo", estamos
25 Vives 1550, p. 206. sempre procurando "escarnecer e debochar
26 Ménager 1995, p. 8, observa que Fracastoro foi um dos
médicos designados pelo Vaticano a comparecer ao
Concílio de Trento. Ele também era bem conhecido como
poeta e recebeu louvores de Sir Philip Sidney. Ver Sidney 27 Vallesio 1582, p. 220.
1912, p. 35. Sobre Hobbes como leitor de Fracastoro, 28 Descartes 1988, artigo 125, p. 153.
ver Leijenhorst 1996. 29 Hobbes 1969, p. 41.
28 COLEçAO ALDUS HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA 00 RISO 29

de vícios". 30 Thomas Wilson discorre longa- tudo que é ridículo, quer tenha sido feito ou
mente sobre essa sugestão na sua Arte of dito". E qualquer coisa que viermos a achar
Rhetorique (Arte da Retórica), de 1554, o pri- ridículo, explica Joubert, será sempre "algo
meiro grande tratado neoclássico em língua que nos surpreenderá por ser feio, deforma-
inglesa sobre eloqüência. Wilson inclui uma do, desonesto, indecente, malicioso e muito
longa seção no livro 2 desse tratado, intitula- pouco conveniente". Assim, nosso riso resul-
da "Deleitando os ouvintes e incitando-os ao tará sempre da contemplação de feitos e di-
riso", na qual ele afirma que experimentamos tos "que têm um aspecto desagradável, em-
sentimentos de desprezo sempre que perce- bora não sejam lastimáveis". Isto, por sua
bemos "a afetação, a baixeza e a deformida- vez, significa que a alegria que experimenta-
de" no comportamento de alguém, e então mos nunca pode ser pura. Não conseguimos
somos levados a "rir e escarnecer franca- nunca evitar uma certa antipatia ou desdém
31
mente". diante da baixeza e da feiúra, e assim "o feitio
Se nos voltarmos para os médicos escri- usual do nosso riso é o desprezo ou o escár-
tores, encontraremos a mesma teoria larga- nio". Joubert vai ainda além e acrescenta
mente desenvolvida. Talvez a análise mais su- que, em conseqüência desses sentimentos
til seja a de Laurent Joubert, embora ele re- complexos, o riso nunca pode estar comple-
conheça uma dívida para com o trabalho ante- tamente desconectado da tristeza. "Como
rior de François Valleriola, seu colega de tudo que é ridículo se origina da feiúra e da
Montpellier. No primeiro capítulo do seu Trai- desonestidade", e como nunca podemos con-
té, Joubert propõe a seguinte questão: "Qual templar tais desprazeres com equanimidade,
é o tema do riso?" Valendo-se das discussões segue que "qualquer coisa ridícula nos dá um
32
de Valleriola, Joubert responde que rimos "de prazer e uma tristeza combinados".

30 Castiglione 1994, pp. 155-6.


31 Wilson 1554, fos. 74v, 75r. 32 Joubert 1579, pp. 15-6, 30, 87-88.
HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA DO RISO 31
30 COLEÇÃO ALDUS

A ênfase que Joubert punha na tristesse que mesmo Deus é mostrado nas Escrituras
raramente foi levada adiante, mas sua alega- como se escarnecesse do que é pecamino-
ção de que o riso é basicamente uma expres- so. 34
são de escárnio diante de coisas ridículas foi Até agora, a explicação que descobri-
bastante reiterada, especialmente por aque- mos na literatura médica e humanista do Re-
les que queriam conectar as intuições dos nascimento tem uma aparência completa-
humanistas àquelas da literatura médica que mente neoclássica. É verdade que os escrito-
surgia. Talvez o escritor mais importante a res da Renascença ficam em geral satisfei-
estabelecer essas relações tenha sido Ro- tos, pelo menos inicialmente, em enfeitar e
bert Burton, que declarou na Introdução da repetir as alegações dos clássicos. Não obs-
sua Anatomy of Melancholy (Anatomia da Me- tante, qualquer sugestão de que eles se-
lancolia), de 1621, que nunca teria havido guiam às cegas as autoridades antigas seria
"tanta oportunidade para o riso quanto en- um grave equívoco e exigiria pelo menos duas
contramos em nosso mundo desordenado". importantes ressalvas.
Ele ainda explica que "desprezamos e conde- Em primeiro lugar, em relação a vários
namos um mundo de loucos" quando rimos e escritores renascentistas, é preciso enfati-
que no mundo nunca houve tanta loucura para zar que encontramos dois acréscimos impor-
desprezar e condenar, tantas pessoas "lou- tantes aos argumentos herdados. Antes de
cas e ridículas". 33 Sir Thomas Browne, outro qualquer coisa, eles dão uma nova ênfase ao
médico impregnado de cultura humanista, papel do imprevisto, e logo da surpresa, na
fala num estilo semelhante no seu Pseudodo- motivação da alegria. No De Oratore, Cícero
xia Epimedica, de 1646. Ao discutir a paixão aludiu à importância do inesperado, mas seus
do riso, ele concorda que "existe um riso de seguidores renascentistas deram muito
desprezo ou de indignação", acrescentando mais ênfase a esse ponto. Castiglione enfati-

33 Burton 1989, pp. 37, 57, 101. 34 Browne 1928-31, vol. 3, p. 312.
HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA DO RISO 33
32 COLEÇÃO ALDUS

za que "certos acontecimentos inusitados" previsto e o inesperado dão origem à admira-


são particularmente capazes de "provocar o tio, que, por sua vez, dá origem à delectatio,
riso", especialmente se surpreendemos nos- que, por sua vez, provoca o movimento facial
sos ouvintes falando "o contrário do que eles que chamamos de riso". 37 Francisco Vallesio
chega a ser maçante quando reconhece a
esperam". 35 Vives elabora mais ainda essa
idéia, argumentando que nossa alegria "sur- análise de Fracastoro e se apropria dela.
"Pela minha experiência", relata ele, "sou le-
ge de uma sensação nova de prazer" e que
"coisas imprevistas e inesperadas têm mais vado a acreditar que os homens riem quando
efeitos sobre nós e nos conduzem mais rapi- algo ao mesmo tempo prazeroso e novo acon-
damente ao riso do que tudo mais".
36 tece; a novidade dá origem à admiratio, o pra-
Para uma análise mais completa, preci- zer dá origem à alegria", e é a combinação de-
38
samos retornar aos escritores médicos, os les que nos faz rir.
primeiros a introduzir na argumentação o A ênfase que Fracastoro dá à admiratio
foi rapidamente assumida pelos humanistas,
conceito-chave de admiratio. A discussão pio-
neira parece ser aquela de Girolamo Fracas- em particular por certos comentadores da
Poética de Aristóteles. Aqui, o pioneiro pare-
toro, no seu De sympathia, de 1546. "As coi-
sas que geralmente nos levam a rir", diz ele, ce ter sido Vicente Maggi no seu In Aristotelis
"devem trazer alguma novidade" e devem Librum de Poetica Communes Explicationes,
aparecer diante de nós "de forma repentina e de 1550. Falando com a veemência típica dos
eruditos humanistas, Maggi declara que "não
inesperada " . Quando isso acontece, ficamos
no mesmo instante admirados, o que, por sua tenho como expressar o tanto do meu es-
vez, gera em nós uma satisfação. A seqüên- panto por Cícero não ter dito uma única pala-
cia emocional é, portanto, a seguinte: "o im- vra sobre o tema da admiratio como uma das

37 Fracastoro 1546, fo. 23v, fo. 24r.


35 Castiglione 1994, pp. 188, 190. 38 Vallesio 1582, p. 220.
36 Vives 1550, p. 207.
34 COLEÇÃO ALDUS HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA DO RISD 35

causas do riso, quando o fato é que na ausên- Para os escritores médicos, essa ques-
cia da admiratio não é nunca possível que o tão tinha pouca importância, mas para os hu-
riso ocorra". 39 A razão pela qual a presença manistas era, muitas vezes, a mais significa-
da admiratio é indispensável é que rimos so- tiva. Eles encontraram a chave para sua res-
mente quando encontramos coisas novas e posta na alegação de Aristóteles de que pes-
surpreendentes. É a presença da novitas que soas completamente depravadas não são
nos induz à admiração, e é nossa impressão propriamente motivo para zombarias. Casti-
de admiração que nos faz rir. glione amplia essa idéia, sugerindo que os ví-
Outro acréscimo importante feito pelos cios que merecem especificamente nosso
teóricos renascentistas à teoria clássica do desprezo são aqueles que exibem uma certa
riso surgiu da sua percepção de uma lacuna falta de naturalidade em vez de uma perversi-
na explicação original de Aristóteles. A tese dade completa, especialmente aqueles que
de Aristóteles na Poética tinha sido que o riso "vão um pouco além", conduzindo assim a um
é uma reprovação do vício, ao expressar e comportamento extravagante. "As vaidades
provocar sentimentos de desprezo em rela- e inconveniências ordinárias provocam repul-
ção àqueles que têm um comportamento ridí- são, mas, quando elas assumem uma dimen-
culo. Entretanto, como Maggi aponta no seu são exagerada, freqüentemente conduzem ao
comentário à Poética, Aristóteles deixa de riso." As pessoas que visivelmente "vão um
fornecer, o que é atípico, uma definição do ri- pouco além" e comportam-se de uma forma
dículo, e portanto não indica os vícios parti- inconveniente reduzem a si mesmas ao ab-
culares que são mais facilmente ridiculariza- surdo, e isto explica por que "provocam mais
dos e assim escarnecidos por meio do riso. 40 o riso do que a repulsão". 41
Dentre os vícios que resultam de não se
observar esse ideal de mediocritas, um dos

39 Maggi 1550, pp. 301-27.


40 Maggi 1550, parte 3, especialmente p. 325. 41 Castiglione 1994, pp. 163-4.
36 COLEÇÃO ALDUS HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA DO RISO 37

mais desprezíveis, segundo a opinião geral, é gura do hipócrita apontada como a que mais
a avareza. Nicander Jossius aponta essa fra- merece ser ridicularizada. Esta é a afirmação
queza como uma das "características do cor- de Henry Fielding, no ensaio teórico que serve
po e da alma" em que mais obviamente "se de introdução a seu romance cômico Joseph
escondem temas para o ridículo". 42 Celso Andrews, de 1742. Repetindo a tradução que
Mancini termina o seu De risu, ac ridiculis es- Hoby faz de Castiglione, Fielding começa es-
pecificando, num estilo parecido, que um dos tabelecendo que os vícios mais sujeitos a es-
defeitos que "mais merecem ser ridiculariza- cárnio são aqueles que exibem uma certa
dos" é a sovinice dos homens de idade, por- "falta de naturalidade". Prossegue afirmando
que a avareza desfigura e torna monstruoso que "a falta de naturalidade provém de uma
43
qualquer homem. Também Paolo Beni, nos dessas duas causas: vaidade ou hipocrisia" e
seus Commentarii à Poética de Aristóteles, que "da descoberta dessa falta de naturali-
afirma que a figura do sovina sempre rende dade surge o ridículo – que sempre repercute
um dos melhores personagens para a comé- no leitor com surpresa e prazer". Mas ele
dia. 44 Esta sugestão não deixou de exercer acrescenta que isso acontece "num grau
influência sobre os escritores de comédia da mais alto e mais forte quando a falta de natu-
época, como nos lembram o Volpone de Ben ralidade surge da hipocrisia em vez de surgir
Johnson e o L'avare de Molière. da vaidade". Conclui observando que "Ben
De todos os vícios sujeitos ao escárnio, Johnson, que entre todos os homens foi
entretanto, dizia-se que os mais flagrantes quem melhor compreendeu o ridículo, fez uso
eram a hipocrisia e a vanglória. Se dermos principalmente da falta de naturalidade dos
45
uma olhada nas teorias pós-renascentistas hipócritas" em suas comédias.
da comédia, encontraremos geralmente a fi- Diferentemente, os teóricos renascen-
tistas tendem a dar mais ênfase à falta de

42 Jossius 1580, p. 75.


43 Mancini 1598, pp. 22-30.
44 Beni 1613, p. 162. 45 Fielding 1985, pp. 28-9.
HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA 00 RISO 39
38 COLEÇÃO ALDUS

mas, sendo orgulhosas e arrogantes", sus-


naturalidade procedente da vanglória e do or-
tenta Castiglione, que estamos justificados
gulho. É possível que tenham sido diretamen-
"para debochar e escarnecer até provocar o
te influenciados por Platão nesse ponto, pois
riso". Ele dá o exemplo dos homens que "fa-
Sócrates não apenas argumenta, ao exami-
lam da importância de sua família e da nobre-
nar a natureza do ridículo no Filebo, que aque-
za de seu nascimento" e das mulheres que se
les que têm um comportamento absurdo de-
gabam de sua própria "beleza e elegância". 48
vem estar sofrendo de algum tipo de vício,
Celso Mancini se refere à figura cômica e es-
mas acrescenta que o vício em questão é ge-
tereotipada do miles gloriosus, "o soldado
ralmente uma falta de conhecimento a res-
pretensamente cheio de glórias", como um
peito de si mesmo, especialmente a presun-
outro tipo de pessoa "cujo convencimento
ção. 46 É mais provável, entretanto, que os nos faz rir", porque "sabemos que tal presun-
escritores renascentistas estivessem se re-
ção é ridícula e porque tamanha falta de mo-
ferindo a uma sugestão de Cícero, do livro 2
deração nos irrita". 49 Falando num tom mais
do De Oratore, no qual o personagem que re- grandioso, Lodovico Castelvetro – outro co-
presenta César começa a sua análise do ridí-
mentador erudito da Poética de Aristóteles –
culo declarando que as pessoas que mais me-
sugere que a causa principal do riso surge do
recem ser escarnecidas são "aquelas que
fato de nossa natureza decaída e corrupta
agem de uma forma particularmente conven-
ter nos "entulhado de vaidade e orgulho " . 50
cida". 47 Mais uma vez, essas idéias não deixaram de
Seja qual for sua origem, essa sugestão
exercer influência sobre os escritores de co-
foi amplamente desenvolvida pelos escritores
média da época, que freqüentemente mos-
humanistas da Renascença. É quando as pes-
tram uma aversão especial por aqueles que
soas "se gabam e se vangloriam delas mes -

48 Castiglione 1994, pp. 155, 163.


49 Mancini 1598, pp. 229-30.
46 Platão 1925, 48c-49c, pp. 332-6. 50 Castelvetro 1570, fo. 53v.
47 Cícero 1942, II. 58. 237, vol. 1, p. 374.
40 COLEÇÃO ALDUS

agem sem "medida" e pretendem ir além dos


seus limites. O exagerado amor-próprio de
Malvolio na Twelfth Night (Décima Segunda
Noite), de Shakespeare, a vaidade presunço-
sa de Puntarvolo em Every Man Out of his Hu- IV
mour(Homens Aborrecidos), de Johnson, o ri-
dículo arrivismo de M. Jourdain no Bourgeois
Gentilhomme, de Molière, são variações so- Até o momento, tenho considerado as
bre o mesmo tema satírico. duas formas principais em que a teoria clás-
sica do riso foi ampliada e desenvolvida duran-
te a Renascença. Mais importante do que
isso, entretanto, é o fato de que alguns es-
critores desse período começaram a expres-
sar dúvidas sobre a suposição dominante na
teoria clássica, a suposição de que o riso é in-
variavelmente uma expressão de desprezo
pelo vício. Eles começaram a se perguntar se
esse argumento não seria muito exagerado,
para não dizer equivocado. É realmente ver-
dade que nosso riso é sempre uma expressão
de escarnecimento? Não é evidente que al-
guns tipos de riso – por exemplo, o riso das
crianças – expressam uma satisfação ple-
51
na?

51 Alguém poderia acreditar que pudessem então ser en-


contradas, além disso, algumas objeções morais ao riso
42 COLEÇÃO ALDUS HDBBES E A TEORIA CLÁSSICA DO RISO 43

Vários escritores médicos, sem dúvida e surpreendente. Desenvolvendo essa idéia


preocupados em livrar-se do peso da cultura de uma maneira mais sistemática, o médico
escolástica, enfatizaram particularmente Elpidio Berrettario, de Pisa, no seu Tractatus
esse ponto. Fracastoro insiste que "as coi- de risu, introduz uma distinção perspicaz en-
sas que são ditas a respeito do ridículo não tre o que ele considera dois gêneros distintos
são corretas", pois a verdade é que "o riso é de alegria. Um é o genus discutido por Aristó-
" 52
feito de alegria e admiração combinadas . teles na Poética, a saber, aquele em que nos-
Vallesio refere-se à análise antiaristotélica so riso é provocado quando vemos vícios que
de Fracastoro e passa a adotá-la. Ele começa podem ser ridicularizados sem problema.
declarando que "os homens riem quando algu- Mas o outro não está ligado ao escárnio e
ma coisa ao mesmo tempo agradável e nova surge simplesmente "quando somos levados
acontece" e acrescenta que "nossa alegria ao riso por alguma coisa que nos é muito que-
54
acaba quando a sensação de novidade ou a rida ou que nos dá satisfação " .
sensação de prazer passa". 53 Disso ele infere Essas dúvidas não estavam restritas à
que nosso riso não precisa ter nada a ver com li teratura médica. Em seu comentário à Poé-
o desprezo, já que também pode ser uma sim- tica, Castelvetro começa sua análise da pas-
ples resposta a um acontecimento agradável sagem na qual Aristóteles teria argumenta-
do, conforme ele traduz, que "o risível é uma
subdivisão do desprezível", replicando que "o
desdenhoso, especialmente a seu uso (conforme as ins- riso pode ser provocado por coisas puramen-
truções dadas por Cicero), como um meio para zombar te agradáveis". 55 Em seus ainda mais porme-
da fraqueza e dos defeitos dos outros. Mas tais escrú-
pulos são raramente expressos nesse período. Sir Tho- norizados Commentarii sobre a Poética, Beni
mas More é o único humanista importante a fazer esse questiona a alegação de Aristóteles de que a
tipo de afirmação antiaristotélica. Ver More 1965, p.
192. Preocupações mais tardias a respeito do uso zom-
beteiro do riso podem ser encontradas em Cockagne
2000, pp. 79-82, 89-91.
52 Fracastoro 1546, fos. 23v.-24r. 54 Berrettario 1603, fo. 7r, 19r.
53 Vallesio 1582, p. 220. 55 Castelvetro 1570, fo. 50v, fo. 51r.
44 COLEÇÃO ALDUS HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA DO RISO 45

comédia está sempre preocupada com a re- num floreio, que rimos não apenas quando en-
provação do vício, apontando que "não é raro contramos nossas crianças e amigos, mas
que a comédia retrate homens bons e que os também quando contemplamos uma mulher
56 59
retrate de uma forma louvável". estimada ou uma pedra preciosa.
Estas observações eram, muitas vezes, Segundo esses escritores, outra situa-
reforçadas por uma concepção antiaristotéli- ção em que, às vezes, o riso pode surgir é
ca da alegria e do prazer, que podem dar ori- quando experimentamos uma mudança re-
gem ao riso. A emoção subjacente, argumen- pentina em nossas expectativas, seja na for-
tam alguns teóricos, pode ser com freqüên- ma de alguma justaposição surpreendente ou
cia a simples joie de vivre, que não está ligada de algum outro tipo de incongruência. Embo-
a nenhum sentimento. de superioridade ou ra, no geral, um seguidor fiel de Aristóteles,
desdém. Fracastoro observa que "freqüente- Nicander Jossius ilustra essa possibilidade
mente rimos e demonstramos nossa alegria com considerável minúcia. Ele propõe que
quando encontramos nossos amigos e conhe- consideremos como reagiríamos "se uma
cidos, ou ainda nossas crianças, e mais ge- mulher colocasse roupas masculinas, ou pu-
57
ralmente aqueles que nos são queridos". sesse a espada à cintura e se dirigisse à pra-
Castelvetro ilustra o mesmo mise-en-scène, ça pública, ou se um soldado cheio de glórias
descrevendo uma situação na qual "um pai e sentasse com meninos na escola para apren-
uma mãe acolhem sua pequena criança com der gramática, ou se um príncipe se vestisse
risos e mimos, enquanto de forma semelhan- como um camponês". Certamente iríamos
te um amante vai ao encontro da sua amada rir, mas a razão de nossa hilaridade seria a
rindo". 58 Referindo-se com aprovação à análi- completa incongruência dessas coisas, o fra-
se de Fracastoro, Berrettario acrescenta, casso em se dar o devido respeito "ao tempo,

56 Beni 1613, p. 103. Ver também pp. 162 e 197.


57 Fracastoro 1546, fo 23v.
58 Castelvetro 1570, fo. 51r. 59 Berrettario 1603, fos. 19r, 20v, 21v.
HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA DO RISO 47
46 COLEÇÃO ALDUS

" 6o
ao lugar, à moderação ou à adequação . uma forte distinção entre o cômico e aquilo
que ele descreve como burlesco. Ao mesmo
Embora essas situações sejam sem dúvida ri-
tempo em que este último gênero "contribui
dículas, Jossius parece sugerir que iríamos
mais do que qualquer outro para a•alegria de-
rir delas menos por desprezo do que por pura
li cada e o riso", ele nunca faz isso tentando
perplexidade.
provocar o desprezo. Mais exatamente, ele
Essas idéias foram desenvolvidas algu-
produz seu efeito comunicando o "absurdo
mas vezes na cultura augustana, numa defe-
surpreendente" de alguma situação, "como
sa geral da alegação de que pode existir um
61 Encontramos quando reservamos os modos daqueles que
riso puramente bondoso. são mais elevados para os que são mais bai-
essa sugestão nos artigos de Joseph Addi-
xos" ou produzimos outras "distorções e
son sobre o riso, que aparecem no Spectator,
- exageros". O resultado, se bem alcançado, é
de 1711, nas explicitamente anti-hobbesia
nas Reflections upon Laughter (Reflexões so- que vamos rir, mas nossa alegria, nesses ca-
sos, 62
será "cheia de bom humor e benevolên-
bre o Risol , de Francis Hutcheson, publicadas cia".
em 1725, e talvez de forma mais interessan-
Estes últimos argumentos foram, sem
te no prefácio de Fielding a seu Joseph
dúvida, muito importantes para a evolução
Andrews. Conforme vimos, a análise de Fiel-
das teorias modernas da comédia. Como te-
ding, à primeira vista, parece completamente
mos visto, entretanto, tão cedo quanto nas
clássica, pois ele aceita que a comédia almeja
primeiras décadas do século XVIl, já se torna-
ridicularizar certos tipos de afetações e con-
ra largamente aceita a idéia de que a teoria
corda que os vícios mais suscetíveis ao es-
cárnio são a avareza, a hipocrisia e a vaidade. clássica do riso só tinha sido parcialmente
Ao mesmo tempo, entretanto, ele estabelece

62 Fielding 1985, pp. 26-8. Sobre a evolução do contraste


entre o riso produzido pela sátira (desdenhoso e escar-
60 Jossius 1580, pp. 71-2.
necedor) e o riso produzido pelo burlesco (simpático),
61 Sobre esse desenvolvimento, ver Tave 1960, esp. pp. ver Paulson 1988.
43-87.
48 COLEÇÃO ALDUS
HOBBES E A TEDRIA CLÁSSICA DO RISO 49

bem-sucedida na explicação desse fenômeno inconveniente de alguma maneira, ainda as-


versátil. Para obter uma síntese da teoria sim não precisa ser tosco". Guyon diz que
mais complexa que desde então se tornara "tudo o que provoca o riso dá prazer" e afirma
ortodoxa, o melhor que temos a fazer é consi- incisivamente que "o riso é a todos muito
derar aquela fonte de máximas convencio- agradável, de forma que qualquer um que o
nais, o conseilleur francês Louis Guyon, que provoque de um modo louvável, numa ocasião
inclui um capítulo sobre o riso na terceira edi- adequada, será bastante elogiado". Seu de-
ção das suas Diverses Leçons, de 1617. sejo – conforme explica num espírito muito tí-
Guyon mantém-se fiel a vários argumen- pico do Renascimento – é, portanto, "mos-
tos clássicos. Concorda com Aristóteles que trar quais métodos uma pessoa discreta
"somente o homem é capaz de rir" e acres- deve usar a fim de provocar o riso", se o obje-
centa que "algo súbito e inesperado" deve tivo for, ao mesmo tempo, "sempre preser-
63
acontecer para que o riso seja provocado. var a própria dignidade".
Sente-se inclinado a aceitar a alegação bási-
ca de Aristóteles de que "a causa do riso
deve ser uma certa deformidade, porque ri-
mos somente daquelas coisas que são incon-
venientes e que parecem ser feitas de forma
tosca". Como deixa claro, entretanto, sua
lealdade intelectual está longe de ser estrita-
mente relacionada a Aristóteles; ele prosse-
gue desenvolvendo uma explicação mais com-
plexa, embora ainda convencional. Em primei-
ro lugar, enfatiza que é possível rir "de forma
civilizada" e explica que "qualquer um que re-
flita adequadamente vai ver que aquilo que
nos faz rir é quase sempre algo que, embora 63 Guyon 1617, 1.3.3, pp. 434-42.
HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA DO RISO 51

para quem a admiratio é uma paixão funda-


mental, inicia sua análise do riso, em Les pas-
sions de Fame, salientando a importância da
novidade e do imprevisto, argumentando que
V ri mos apenas quando algo "faz subitamente
com que os nossos pulmões se inflem", de
forma que "o ar que eles contêm é forçado
A idéia de que o riso pode ser tanto para fora, através da traquéia, com ímpeto,
aprazível quanto desdenhoso e, assim, pode produzindo um ruído inarticulado e espontâ-
fazer parte de uma vida propriamente "civili- neo". Ele acrescenta que essas alterações fi-
zada" tornara-se largamente aceita nas pri- siológicas características ocorrem somente
meiras décadas do século Xvii. Por isso, é quando um evento novo e repentino é asso-
chocante descobrir que, nas duas discus- ciado a sentimentos de admiração. 0 sangue
sões mais conhecidas sobre o riso da gera- vindo do baço deve ser "impelido até o cora-
ção seguinte – aquelas de Hobbes e Descar- ção por alguma emoção mais branda de ódio,
tes –, essas suposições são deixadas explici- ajudada pela surpresa da admiratio", se o re-
tamente de lado em favor de um retorno a um sultado tiver de ser o tipo de dilatação à qual
64
ponto de vista seguramente clássico. está associado o riso.
Isso não quer dizer que Hobbes e Des- Hobbes traz à tona as mesmas caracte-
cartes restabeleçam a teoria aristotélica em rísticas em sua primeira e mais completa dis-
sua forma mais tacanha. Ambos recuperam e cussão do riso, apresentada no capítulo 9 de
reafirmam os dois desenvolvimentos do argu- The Elements of Law. Ele também enfatiza a
mento de Aristóteles, conforme já analisei. importância da novidade e da surpresa, argu-
Antes de qualquer coisa, eles dão uma ênfase mentando que "uma mesma coisa deixa de
considerável ao conceito originalmente intro-
duzido na discussão por Fracastoro, o con-
ceito da surpresa ou admiração. Descartes, 64 Descartes 1988, artigo 124, pp. 153-4.
52 COLEÇÃO ALDUS HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA 00 RISO 53

ser ridícula quando se torna corriqueira ou aparecem entre aqueles que ironicamente
usual. Seja o que for que provoque o riso, elogia como os célebres escolásticos, que
deve tratar-se de algo novo e inesperado". ele ataca no livro 4 sob o título de "vã filoso-
Ele também acredita que a causa do riso deve fia". 66 É a avareza do clero que ele satiriza na
ser algo que dá origem à admiração, especial- sua argumentação fulminante sobre a "pro-
mente na forma de "uma compreensão súbita veitosa" doutrina do purgatório. 67 E é a hipo-
de alguma habilidade daquele mesmo que ri". crisia do clero que ele espirituosamente nos
Quando experimentamos "a súbita intuição obriga a reconhecer, quando compara o cor-
de nossa diferença e superioridade", nós po eclesiástico a um reino de fadas: "As fa-
65
mesmos fervilhamos de alegria. das não casam; mas existem entre elas os in-
Hobbes também concorda a respeito cubos, que copulam com quem é feito de car-
dos vícios específicos mais sujeitos ao debo- ne e sangue. Os padres também não ca-
66
che e ao escárnio. E surpreendente que nem sam".
ele nem Descartes forneçam uma explicação 0 que é surpreendente, entretanto, é
explícita desse aspecto da teoria renascen- que nem Hobbes e nem Descartes mencio-
tista do riso, como o fazem Beni, Mancini ou nam o desafio direto à teoria aristotélica,
Castelvetro. Mas quando Hobbes opta por surgido ao longo do Renascimento, omissão
escrever de forma satírica - como faz mais do ainda mais surpreendente quando se consi-
que nunca no livro 4 do Leviathan -, as fra- dera que esses dois filósofos usualmente ex-
quezas que ele ridiculariza, podemos reco- pressam com vigor seu menosprezo pela filo-
nhecer, são os três vícios que os teóricos da sofia de Aristóteles. A alegação principal de
Renascença haviam distinguido: a vanglória, Descartes a respeito do riso, em Les pas-
a avareza e a hipocrisia. São os vícios do or- sions de 1'ame, permanece completamente
gulho e da vanglória, especialmente quando

66 Hobbes 1996, cap. 46, p. 458.


67 Hobbes 1996, cap. 44, p. 426.
65 Hobbes 1969, pp. 41-2. 68 Hobbes 1996, cap. 47, p. 481.
54 COLEÇAO ALDUS HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA 00 RiSo 55

aristotélica. Como ele explica, "embora o riso A despeito desse floreio característico
possa parecer um dos principais sinais da ale- de auto-admiração, a explicação que Hobbes
gria, a alegria não pode ser a causa do riso, a segue fornecendo é completamente clássica.
menos que ela seja apenas moderada e esteja Sua definição, muito citada, formulada inicial-
ao mesmo tempo misturada com um elemento mente no The Elements of Law, diz o seguinte:
de ódio ou admiração". 69 A conexão do riso A paixão do riso não é nada senão uma súbi-
com o ódio e o desprezo é algo a que Descar- ta glória que surge de uma súbita concep-
tes dá uma particular atenção; ele retorna ção de alguma superioridade em nós mes-
mais tarde a esse ponto em sua discussão de mos pela comparação com as fraquezas
alheias, ou com as nossas próprias fraque-
la moquerie. "0 escárnio ou a zombaria é um
zas em tempos passados. 72
tipo de alegria misturada com ódio, e quando
este sentimento surge inesperadamente, o A invocação da glória e a ênfase dada à
resultado é que desatamos a rir. " 70 glorificação sobre os outros foram, muitas
0 recurso de Hobbes ao mesmo argu- vezes, apontadas como a quintessência dos
mento clássico é ainda mais significativo, já sentimentos hobbesianos. Entretanto, como
que ele abre sua discussão, no The Elements ficará evidente a partir de agora, elas se limi-
of Law, proclamando que sua própria análise é tam a um pouco mais do que citações não ad-
inteiramente nova: mitidas das fontes antigas de Hobbes, em
Há uma paixão que não tem nome, e seu si- particular da análise do riso feita por Quinti-
nal é aquela perturbação do semblante a Iiano no livro 6 do seu Institutio Oratoria.
qual chamamos de RISO, que é sempre ale- Mais tarde, Hobbes sublinha sua fideli-
gria; mas qual alegria, em que pensamos e dade ao classicismo, enfatizando que os sen-
em que ponto triunfamos quando rimos, isto
até o momento ninguém explicou. 71 timentos de glória que ele está descrevendo
são invariavelmente desdenhosos e escarne-

69 Descartes 1988, artigo 125, p. 153.


70 Descartes 1988, artigo 178, p. 195.
71 Hobbes 1969, p. 41. 72 Hobbes 1969, p. 42.
56 COLEÇÃO ALDUS HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA DO RISO 57

cedores. "Os homens riem das fraquezas dos Hobbes e Descartes propõem teorias
outros, em comparação com as quais suas similares, mas a análise de Hobbes é muito
próprias habilidades são realçadas e torna- mais elaborada, abarcando vários elementos
das ilustres." Sendo assim as coisas, "não é característicos. Um deles é a sugestão, pro-
de se admirar, portanto, que os homens con- posta no final da discussão em The Elements
sideram odioso ser motivo de riso, pois, of Law, de que algumas vezes nós rimos não
quando se ri deles, é porque estão sendo es- porque sentimos desprezo por alguma pes-
carnecidos, isto é, derrotados". Hobbes re- soa em particular, mas porque nos damos
sume as coisas de forma ainda mais brutal no conta de algum absurdo mais geral. Esta
final do capítulo, quando apresenta a sua possibilidade permite aquilo que Hobbes des-
"comparação da vida dos homens com uma creve como sendo "um riso não-ofensivo",
corrida" e explica o papel, nessa corrida, das que acontece quando rimos "dos absurdos e
diferentes paixões da alma: "Cair de repente dos defeitos abstraídos das pessoas, em si-
nos dispõe a chorar. Ver outros caírem nos tuações nas quais todos podem rir em con-
dispõe a rir". 73 Como no caso de Descartes, a junto". 75 Esse riso ainda será uma expressão
sugestão básica de Hobbes é que o riso ex- do nosso escárnio, mas, em vez de debochar
pressa a sensação, alegre e desdenhosa, da diretamente de outras pessoas, estaremos
74
nossa própria superioridade. nos unindo para ridicularizar alguma caracte-
rística burlesca do mundo e de seus absur-
dos.
73 Hobbes 1969, pp. 41, 42, 48.
74 Heyd 1982, numa discussão que é excelente a não ser
Curiosamente, Hobbes nunca retorna a
por esse aspecto, faz a sugestão questionável (p. 289) essa sugestão em nenhuma de suas discus-
de que isso pode se dever à influência direta de Descar- sões subseqüentes sobre o riso. Mas ele in-
tes. Mas isso é porque Heyd supõe (p. 286) que Hobbes
discute o riso pela primeira vez apenas em 1650, en- troduz ainda outra distinção em The Elements
quanto a principal discussão de Hobbes sobre o assunto
(no The Elements of Law) na verdade data de 1640, oito
anos antes da publicação de Les passions de l'ame de
Descartes. 75 Hobbes 1969, p. 42.
HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA 00 RISO
58 COLEÇÃO ALDUS 59

of Law, a qual reitera, subseqüentemente, sions (Das Paixões). Este inclui uma reafirma-
tanto na versão latina quanto na versão ingle- ção incisiva do seu argumento básico e come-
sa de seu último Leviathan. Sugere que um ça pela declaração de que "a imaginação súbi-
contraste precisa ser estabelecido entre os ta das próprias77 habilidades é a paixão que nos
dois diferentes modos como a sensação de leva ao riso". Como esta observação deixa
superioridade manifestada pelo riso pode claro, Hobbes não pensa que o próprio riso
surgir. Algumas vezes, as pessoas riem "das seja uma paixão, embora ele fale de forma
fraquezas dos outros, em comparação com elíptica, numa passagem em The Elements of
as quais suas próprias habilidades são real- Law, da "paixão do riso". Mais exatamente,
çadas e tornadas ilustres , e em particular
" como ele indica no começo daquela discus-
"de zombarias cuja graça sempre consiste são, ele considera a ocorrência do riso como
em descobrir mostrar à nossa mente, com o "sinal" natural de uma paixão. Acrescenta,
elegância, alguns absurdos cometidos pelos em The Elements of Law, que a paixão em
outros". Mas, em outros momentos, as pes- questão "não tem nenhum nome "78 , mas, no
soas riem "de suas próprias ações, que nun- manuscrito de 1650, Hobbes a nomeia com
ca deixam de ir pelo menos um pouco além confiança, observando que ela gira exatamen-
das suas próprias expectativas, e também te ao redor daqueles sentimentos de superio-
76
das suas próprias piadas". Quer dizer, riem ridade — "da imaginação das próprias habilida-
quando fazem a descoberta agradável e re- des" — que ele particularmente distingue.
pentina de que elas são ainda melhores do As palavras finais de Hobbes sobre o
que tinham suposto. riso podem ser encontradas nas duas ver-
Depois dessa discussão no The Elements sões do Leviathan, embora a passagem rele-
of Law, Hobbes retorna ao tema do riso em vante da edição latina de 1668 não seja muito
1650, no seu fragmento manuscrito Of Pas-

77 Hobbes, Of Passions, BL Harl. MS 6083, fo. 177r.


76 Hobbes 1969, pp. 41-42. 78 Hobbes 1969, pp. 41-42.
COLEÇÃO ALDUS HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA DO RISO 61
60

mais do que uma tradução do que aparece na mas também "com as nossas próprias fra-
edição inglesa de 1651. Hobbes começa re- quezas em tempos passados". A idéia de que
tornando à definição que já tinha fornecido em nós, às vezes, rimos de nossos egos anterio-
The Elements of Law. "A glória imprevista", res não é retomada em nenhuma das versões
declara novamente, "é a paixão que provoca do Leviathan. Talvez Hobbes tenha começado
aquelas caretas que chamamos de riso." Da a acreditar, como, muitas vezes, parece su-
mesma forma, retorna à sua alegação mais gerir, que nossos egos anteriores podem ser
antiga: a sensação de superioridade que dis- considerados como equivalentes a outras
põe as pessoas ao riso pode emergir de duas pessoas, de forma que não haja nenhuma dis-
maneiras. Elas podem conseguir realizar algo tinção a ser feita. 80 Ou talvez tenha começa-
que está além das suas expectativas, com o do a sentir que tal auto-ironia é menos co-
resultado de que irão rir "por causa de um mum do que ele anteriormente tinha suben-
ato imprevisto, feito por elas mesmas, que as tendido, especialmente como enfatiza em The
agrada". Alternativamente, seu sentimento Elements of Law que ninguém ri "de suas pró-
de superioridade pode provir mais diretamen- prias tolices do passado", a menos que este-
te da sua percepção, em outra pessoa, de al- ja certo de que isso não acarreta "nenhuma
guma fraqueza desprezível ou "deformida- desonra no presente". "Pois quando uma pia-
de". 79 da irrompe sobre nós ou sobre amigos cuja
Hobbes agora passa por alto a interes- desonra nos atinge, nunca rimos. " 81 Seja qual
sante possibilidade que tinha notado ante- for a razão dessa omissão, o resultado é que
riormente em The Elements of Law de que a Hobbes trata, no Leviathan, apenas do que
sensação de "superioridade " que nos faz rir
pode surgir não apenas da comparação de
nós mesmos "com as fraquezas alheias", 80 Isto é, parece que a concepção de Hobbes é a de que,
mesmo quando nosso riso se dirige às nossas próprias
fraquezas de outros momentos, ele é um exemplo da
nossa ascendência momentânea sobre outras pessoas.
79 Hobbes 1996, cap. 6, p. 43. 81 Hobbes 1969, p. 42.
COLEÇÃO ALDUS HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA 00 RISO 63
62

sempre tinha considerado como sendo a prin- mas minha hipótese é que foi por causa da
cipal causa do riso, a saber, "a apreensão de concepção mais geral de Hobbes sobre a na-
alguma deformidade no outro, em compara- tureza humana que a teoria aristotélica per-
ção com a qual as pessoas de súbito aplau- maneceu tão irresistível para ele. Como ele
dem a si mesmas". 82 expressa no Leviathan, é uma de suas cren-
Antes de voltar à segunda questão prin- ças mais fundamentais "que precisamos evi-
cipal que quero considerar, preciso parar denciar uma inclinação geral de toda humani-
nesse ponto e perguntar o que pode ter leva- dade, um desejo perpétuo e incansável de po-
do Hobbes a retornar à sua forma antiga e der e mais poder, que cessa somente com a
parcialmente desacreditada de pensar sabre morte". 83 Descobrimos não apenas que os
o riso, ao mesmo tempo em que alega com homens "amam naturalmente a liberdade e o
tanta força a novidade de sua própria expli- domínio sobre os outros". Descobrimos tam-
cação. Será que ele pensava que o desafio à bém que no homem "a alegria está na compa-
teoria aristotélica colocado por tantos escri- ração de si mesmo com os outros", de forma
tores renascentistas estava simplesmente que os homens "só podem se deleitar com o
mal dirigido? Talvez, mas parece estranho que é superior". 84 E de acordo com a teoria
que ele nunca mencione qualquer das dúvidas clássica do riso, rimos ao mesmo tempo para
mais freqüentes ou que não deixe claro, em expressar alegria e para transmitir uma sen-
momento algum, que está escrevendo com o sação de superioridade escarnecedora e des-
objetivo de responder a elas. Poderia ele sim- denhosa. Isto sugere que o interesse espe-
plesmente não estar a par de que a teoria cial que Hobbes tem pelo riso, bem como sua
aristotélica tinha sido tão amplamente criti- adesão à explicação clássica, pode provir do
cada por sua óbvia unilateralidade? Confesso fato de que, de acordo com essa análise, o fe-
que não conheço a resposta a esta questão,

83 Hobbes 1996, cap. 11, p. 70.


82 Hobbes 1996, cap. 6, p. 43. 84 Hobbes 1996, cap. 17, pp. 117, 119.
64 CoLeção AwuS

nômeno do riso fornece uma ilustração per-


feita de suas concepções mais gerais a res-
peito da natureza humana.
VI

Vou tratar agora da outra questão nota-


da pelos autores que tenho discutido. Como
mencionei inicialmente, a outra questão so-
bre a qual eles geralmente refletem diz res-
peito a como devemos avaliar o fenômeno do
riso, o que devemos pensar dele. Para aque-
les que pensam que o riso é — ou pelo menos
pode ser — uma expressão pura de alegria e
prazer, há pouca dificuldade aqui. É possível
aceitar o fenômeno como digno de ser cultiva-
do sem maiores problemas, pelo menos em
algumas de suas manifestações. Já vimos
essa defesa do riso em escritores humanis-
tas como Castelvetro, Beni e Guyon, e
pode-se encontrar uma nobre reformulação
dela no livro 4 da Ética de Spinoza, no qual o
riso é tratado como um elemento daquele
lado mais leve da vida que Spinoza tem como
85
propósito nos recomendar.

85 Spinoza 1985, IV, P. 45, pp. 571-2.


66 COLEÇÃO ALDUS HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA DO RISO 67

Mesmo para aqueles que pensavam no qüentemente à melancolia. 87 0 exemplo ao


riso como sendo invariavelmente uma expres- qual os médicos constantemente recorriam
são de escárnio, era ainda possível pensar no era Demócrito, cujo temperamento bilioso
riso como algo importante e digno de ser en- tornava-o tão impaciente e irritável, que,
corajado. Uma razão tinha sido dada pelo pró- conforme descreve Burton em The Anatomy
prio Aristóteles, quando insistiu que os vícios of Melancholy, ele eventualmente se deprimia
88
merecem ser reprovados e que o riso, um dos quase a ponto de se matar. A decisão de
meios mais efetivos para reprová-los, tem um Demócrito de cultivar o hábito de rir foi um
papel moral a desempenhar em nossas vidas. remédio para a sua perigosa situação. Fazen-
Uma razão muito diferente tinha sido apre- do de si mesmo um constante espectador
sentada pelos escritores médicos que discu- dos absurdos humanos, conseguiu superar
ti, para quem a disposição de rir das tolices seu mau humor rindo de tudo o que provocas-
da humanidade era considerada como um se o seu desprezo. Isto não apenas melhorou
meio de preservar a saúde. Como Laurent o fluxo de seu sangue, tornando-o dessa for-
Joubert explica em detalhes, o encorajamen- ma temporariamente mais sangüíneo, mas o
to desse tipo de alegria é excepcionalmente ajudou a expelir a bílis negra, que teria de ou-
valioso no caso das pessoas de compleição tro modo trazido de volta a sua melancolia.
fria e seca, portanto de coração pequeno e Como Joubert conclui, devemos ser sangüí-
duro. 86 Qualquer pessoa amaldiçoada com neos e leves de coração para permanecer "ci-
esse temperamento sofre de um excesso de vilizados", e a virtude médica do riso provém
atra bills ou bílis negra no baço, que, por sua do fato de que sua ação violenta nos permite
vez, dá origem a sentimentos de raiva e, se corrigir um desequilíbrio ameaçador em nos-
não tratados, leva à perda do esprit e conse- so temperamento.

87 Joubert 1579, pp. 81-3, 273-6.


86 Joubert 1579, pp. 251-4, 258-9. 88 Burton 1989, p. 2.
68 COLEÇÃO ALDUS HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA DO RISO 69

Durante o século XVIl, entretanto, cada ciente para o seu próprio triunfo", declaran-
uma dessas defesas do riso começou, por di- do que "isso é uma glória vã e um argumento
ferentes razões, a encontrar dificuldades. de pouco valor". 89 Subseqüentemente, no Le-
Em primeiro lugar, a crença no riso como uma viathan, fala num tom ainda mais deprecia-
forma de tratamento médico perdeu gradual- dor, acrescentando que "rir muito dos defei-
mente a credibilidade. Uma das conquistas tos dos outros é um sinal de pusilanimida-
da fisiologia do século XVI~ foi minar o prestígio de". 90 A impressão que ele sempre transmite
da psicologia dos humores, e depois dessa é que o riso é algo que precisa ser eliminado
rejeição a conexão aparentemente íntima en- ou pelo menos controlado. Thomas Fuller, um
tre riso e bom humor foi reduzida a nada mais pregador monarquista cujas concepções no
do que uma metáfora. Mais surpreendente, a geral não são muito próximas das de Hobbes,
crença de que o riso deveria ser encorajado expressa dúvidas bastante parecidas no seu
como um meio de escarnecer do vício, ou ain- tratado The Holy State (O Estado Sagrado),
da como uma inocente expressão de conten - de 1642. Fuller reconhece que algumas zom-
tamento, caiu da mesma forma em descrédi- barias não devem ser consideradas "ilíci-
to no final do século XVII. Esse acontecimen- tas", desde que "não excedam em quantida-
to, entretanto, é mais difícil de entender, e de, qualidade ou sejam inoportunas". Mas
eu gostaria de terminar meu ensaio , tentando ele expressa um considerável constrangi-
esboçar, e se possível explicar, essa mudan- mento e declara, como Hobbes, uma espe-
ça cultural. cial antipatia por aqueles que riem das fra-
Encontramos já uma marcante desapro- quezas alheias. "Não escarneça", adverte ele
vação do riso entre vários escritores mora- no seu capítulo Da Zombaria, "dos defeitos
li stas da metade daquele século. 0 próprio naturais de qualquer um que não esteja em
Hobbes sempre expressa consideráveis re-
ceios e dúvidas. Ele se refere com desgosto,
em The Elements of Law, àqueles que pen-
89 Hobbes 1969, p. 42.
sam "nas fraquezas alheias como motivo sufi- 90 Hobbes 1996, cap. 6, p. 43.
70 Coi_EoÂo AimS HDBBES E A TEDRIA CLÁSSICA DO RISO 71

condições de se corrigir." Pois "como pode o Lord Chesterfield Letters to his Son (Cartas a
objeto da tua piedade ser o objeto do teu di- seu Filho), de 1748, descobriremos que o riso
vertimento"? "Desenvolver o hábito de escar- foi absolutamente proscrito. "Desejo de co-
necer deles" é ter um comportamento em ração", assegura o conde a seu filho, "que
nada melhor que o dos filisteus quando obri- muitas vezes possam te ver sorrir, mas que
garam Sansão a "servir de divertimento para nunca possam te ouvir rir, por toda a tua
eles". 91 vida". 93
Se considerarmos a geração seguinte, e Por que o riso caiu em tal descrédito
especialmente os livros de cortesania que en- com esses escritores do comportamento
tão começam a proliferar, encontraremos cortês? Talvez a principal origem dessa hosti-
uma hostilidade ainda maior. Considere-se, li dade possa estar ligada a uma exigência de
por exemplo, a discussão do riso que aparece altos padrões de decoro e autocontrole. Um
no livro de Lord Halifax Advice to a Daughter importante aspecto desse assim chamado
( Recomendações a uma Filha), de 1688. Ne- processo "civilizador" toma a forma de um
nhuma dama, argumenta Halifax, deve procu- apelo por respeito mútuo e comedimento,
rar cultivar o caráter de "uma mulher mais particularmente de um apelo ao contro-
bem-humorada" e apresentar-se a si mesma le das várias funções do corpo que tinham
como alguém que "pensa que deve estar sem- sido previamente classificadas como involun-
pre rindo, ou com um largo sorriso", pois tárias. 94 0 riso começou a ser visto como um
essa suposta "necessidade de aparecer o tipo de grosseria nos dois sentidos do termo:
tempo todo como infinitamente contente" tanto como um exemplo de incivilidade e inde-
envolve um "grave engano". 92 Se dermos uma li cadeza quanto como uma reação descontro-
olhada, uma geração mais adiante, no livro de lada e, portanto, bárbara que precisava,

91 Fuller 1642, pp. 155, 156, 181. 93 Chesterfield 1901, Carta 144, vol. 1, p. 213.
92 Halifax 1969, p. 298. 94 Elias 1994, pp. 110-17; Thomas 1977, p. 79.
72 COLEÇÃO ALDUS HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA 00 RISO 73

numa sociedade educada, ser dominada e, de bém do seu comportamento indecoroso. Mas
preferência, eliminada. nunca sugere – mesmo no caso de uma tal hi-
Não se encontra quase nada dessa ani- laridade, baixa e vulgar – que precisamos por
mosidade contra o riso mesmo nos livros esse motivo controlá-Ia e eliminá-Ia.
mais exigentes de cortesania do século XVI. Dentro de poucas décadas, entretanto,
Considere-se, por exemplo, a atitude adotada tal falta de preocupação com esses escrúpu-
por Castiglione, no seu Libro del Cortegiano. los sociais começou a ser considerada falta
Ele está certamente preocupado em assegu- de educação. Se perguntarmos, por exemplo,
rar que nossa alegria não seja nunca vulgar e por que Lord Halifax previne sua filha contra o
nem de um tipo que dê origem a blasfêmias ou hábito da "tola hilaridade", aprenderemos
a hostilidades perigosas. Mas ele está tão que ele considera tal "tipo barulhento de ani-
longe de ver o riso como algo inerentemente mação" contrário não apenas "à sagacidade e
bárbaro que, no livro 2 do Cortegiano, faz com aos bons costumes", mas também "à modés-
que a figura impecável de Lady Emilia peça a tia e à virtude". A razão por que o riso deve
M. Bernarde, depois de uma conversa parti- ser evitado é que ele é "uma característica
cularmente espirituosa, que "nos permita rir de tipo baixo, que reduz a mulher a uma condi-
contando piadas e nos ensine como devemos ção inferior e a degrada da classe daquelas
usá-Ias". 95 Nem jamais encontraremos Hob- que são mais refinadas". 96 Uma geração mais
bes dizendo que sua razão para desaprovar o adiante, encontraremos Lord Chesterfield
riso é que este lhe parece indecoroso. Ele expressando o mesmo compromisso em ter-
adequadamente observa, em The Elements of mos ainda mais veementes. Tão peremptória
Law, que os homens riem de coisas indecen- é a sua exigência de decoro que o riso – este
tes e enfatiza, no Leviathan, que devemos rir notável veículo de desprezo – é ele próprio
não apenas dos vícios dos outros, mas tam- transformado num objeto de desprezo. A ra-

9 5 Castiglione 1994, pp. 153, 155, 159-60. 96 Halifax 1969, p. 298.


74 COLEÇÃO ALDUS HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA DO RISD 75

zão pela qual o conde insiste que o riso deve lavras, como sinais de um tipo de fraqueza
ser totalmente evitado é que "não há nada psíquica que qualquer pessoa com respeito
tão tacanho e tão mal-educado". "Pessoas próprio vai querer controlar ou, pelo menos,
de sensibilidade e educação devem mostrar dissimular.
estar acima" daqueles que se habituam ao Algum dos escritores que mencionei
riso. Rir é "algo baixo e inconveniente", espe- chega a esse nível de perspicácia? A respos-
cialmente por causa do "ruído desagradável ta, talvez pouco surpreendente, é que, em
que o riso provoca e da distorção chocante da geral, eles não parecem fazer isso. Nessa ge-
face que ele ocasiona" sempre que sucumbi- neralização, entretanto, há pelo menos uma
mos a ele. 97 exceção: é Hobbes. 98 Tão cedo quanto no The
O imperativo de decoro foi, sem dúvida, a Elements of Law, podemos encontrar Hobbes
principal causa do crescimento, no início do observando que são geralmente aqueles que
período moderno, de um movimento para ba- "são ávidos de aplausos, por tudo aquilo que
nir o riso da sociedade educada. Para qual- eles fazem bem", que têm prazer em rir "de
quer um numa cultura pós-freudiana, entre- suas próprias ações, que nunca deixam de ir
tanto, parecerá natural sugerir uma outra pelo menos um pouco além das suas próprias
razão muito diferente para considerar o ri- expectativas". Ele também observa que tal
so, especialmente o riso desdenhoso, como riso consiste, com efeito, "na recomendação
algo a ser evitado ou controlado. Tais irrup- de nós mesmos à nossa própria estima, por
ções podem ser interpretadas não apenas meio da comparação com as fraquezas e os
como bastante agressivas, mas também absurdos dos outros homens". É neste ponto
como estratégias óbvias para tentar lidar que ele acrescenta um comentário desdenho-
com sentimentos de inadequação e insegu- so: "é uma glória vã e um argumento de pouco
rança. Elas podem ser vistas, em outras pa-

98 Um indício dessa mesma idéia pode ser encontrado em


97 Chesterfield 1901, carta 144, vol. 1, p. 212. Descartes 1988, art. 179, p. 196.
HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA 00 RISO 77
76 COLEÇÃO ALDUS

valor pensar nas fraquezas alheias como mo- sando essa idéia em tons ainda mais intimida-
99
tivo suficiente para o seu próprio triunfo". tivos:
Entretanto, vamos encontrar a primeira [0 riso] se manifesta na maioria daqueles
sugestão explícita de Hobbes de que o riso é que estão conscientes das poucas habilida-
sinal de uma falta de auto-estima na sua Res- des que possuem; que se sentem forçados a
se manter de bem consigo mesmos, obser-
posta, de 1650, ao Prefácio de Sir William
vando as imperfeições dos outros. E, por
Davenant ao Gondibert: isso, rir muito dos defeitos dos outros é um
Mentes elevadas que refletem sobre assun- sinal de pusilanimidade. Pois uma das ocupa-
tos elevados não têm tempo disponível para ções próprias das mentes elevadas é ajudar
o riso e ficam satisfeitas com a contempla- a libertar os outros do escarnecimento e
ção de suas próprias capacidades e virtu- comparar a si mesmas somente com os
des, de forma que não precisam das fraque- mais hábeis. 10 '
zas e dos vícios de outros homens para se
recomendar a si mesmas por meio da com- Como esta é a palavra final de Hobbes
paração, como fazem todos os homens sobre o assunto, é surpreendente encon-
quando riem. 100 trá-lo introduzindo dois elementos inteira-
mente novos em sua teoria básica de que o
Nessa passagem, Hobbes aproxima
riso é uma expressão de desprezo. Um deles
duas idéias igualmente severas a respeito do
é que, como é apropriado às mentes elevadas
riso, a saber, que pessoas importantes não
compararem a si mesmas somente com os
terão motivo e nem tempo para cultivá-lo.
mais hábeis, elas não terão oportunidade de
Se nos voltarmos para o Leviathan, pu-
alimentar tais sensações de superioridade e
blicado no ano seguinte, encontraremos Hob-
escárnio. Sua outra sugestão, ainda mais
bes dando toda atenção à sugestão de que o
exigente, é que pessoas talentosas têm o de-
riso revela uma fraqueza de caráter e expres-
ver moral adicional e concreto de ajudar os

99 Hobbes 1969, p. 41-2.


100 Hobbes 1971, p. 53. 101 Hobbes 1996, cap. 6, p. 43.
78 COLEÇÃO ALDUS HOBBES E A TEORIA CLÁSSICA DO RISO 79

outros a cultivarem sentimentos similares de Aqui, o dever de exigir e ajudar os outros


magnanimidade e respeito. a cultivarem um verdadeiro sentido de mag-
Embora Hobbes até então, em suas nanimidade é tão enfatizado que Hobbes se
obras publicadas, nunca tenha expressado aproxima da alegação humanista tradicional
essas idéias, de modo algum elas foram ade- de que virtus vera nobilitas est
sões novas. Ele nutriu essas idéias por um Para Hobbes está claro, então, que o
tempo considerável, como fica evidente em riso é, fundamentalmente, uma estratégia
uma carta extraordinária, de admoestação e para enfrentar sentimentos de inadequação.
aconselhamento, que enviou a Charles Caven- Mas é esta a razão por que ele pensa que o
dish, o filho mais novo do segundo conde de riso deve ser controlado? Talvez não seja a
Devonshire, na época em que ele estava resi- sua razão principal, pois, em primeiro lugar,
dindo em Paris, em 1638: ele enfatiza sua aversão à agressão que tam-
bém considera presente no riso. Para enten-
Encorajar aqueles que nos são inferiores,
ser cordial com os que nos são iguais e com der essa aversão, devemos começar lem-
os que nos são superiores, perdoar as toli- brando do princípio mais básico da sua filoso-103
ces daqueles com quem conversamos e aju- fia política: "buscar a paz e obedecê-Ia",
dar os homens que correm o risco de se tor- Quando Hobbes lista as linhas de ação que
nar motivo de riso — estes são sinais de no-
devemos seguir se quisermos preservar a
breza e de maestria do espírito. Adorar a si
mesmo ao avistar a fraqueza de outros ho- paz, afirma que uma dessas "cláusulas da
mens, como os que riem e escarnecem, é paz" ("que de outra forma são chamadas leis
104
característica de alguém que se põe a com- da natureza") é que "nenhum homem, por
petir102
por honra com tais homens ridícu- ações, palavras, expressão ou gesto, deve
los.
declarar ódio ou desprezo a outro homem". A

103 Hobbes 1996, cap. 14, p. 92.


102 Hobbes 1994, carta 28, vol. 1, pp. 52-3. 104 Hobbes 1996, cap. 13, p. 90.
80 COLEÇÃD ALDUS HDBBES E A TEORIA CLÁSSICA DO RISO 81

razão pela qual a observação desse preceito quando somos continuamente "ultrapassa-
é indispensável para a paz é que "todos os si- dos". Dentre as maneiras de atrair a miséria,
nais de ódio ou desprezo provocam brigas; uma será, portanto, agir com vanglória, pois
visto que a maioria dos homens prefere arris- aqueles que sofrem dessa fraqueza "perdem
car a vida a não ser vingado". 105 Como temos terreno olhando para trás"; outra será exibir
visto, Hobbes, invariavelmente, trata o riso pusilanimidade, pois essa fraqueza nos faz
como um sinal de desprezo. A principal razão "perder terreno diante de pequenos obstácu-
de sua hostilidade é, portanto, que considera los". 106
o riso como uma ameaça óbvia à paz. Estas características da vida enquanto
Há muitas indicações, entretanto, de uma corrida assumem uma importância espe-
que Hobbes também é movido pelo pensa- cial quando nos lembramos do que diz Hobbes
mento de que, se o riso escarnecedor indica a respeito das faltas reveladas por aqueles
falta de auto-estima, isso dá mais uma razão que se comprazem em rir desdenhosamente.
para que se deva evitá-Io. Ele trata desse ar- Como temos visto, ele declara que o riso é
gumento no final do capítulo 9 de The Ele- uma "glória vã" e que "rir muito dos defeitos107
ments of Law, no qual estabelece sua explica- dos outros é um sinal de pusilanimidade".
ção mais completa do riso e de seu valor. Mas ele agora acrescenta que, se nos entre-
Nesse capítulo, ele aprofunda a sua imagem garmos a essas fraquezas, perderemos ter-
da vida como uma corrida, acrescentando que reno na corrida da vida, já que a vanglória nos
"devemos supor que essa corrida não tem faz olhar para trás e a pusilanimidade nos dei-
outro objetivo, outra grinalda, senão ser o xa embaraçados. Ele também acredita que
primeiro". A conquista da felicidade vem de perder terreno nessa corrida particular é a
conseguir "continuamente ultrapassar o que pior coisa que nos pode acontecer. Sendo as-
está pela frente", enquanto a miséria surge

106 Hobbes 1969, pp. 47-8.


105 Hobbes 1996, cap. 15, p. 107. 107 Hobbes 1969, p. 42; Hobbes 1996, cap. 6, p. 43.
82 CDLEÇÃO AL
DUS

sim, temos fortes razões para controlar


qualquer disposição ao riso, já que temos for-
tes razões para controlar os sentimentos de
vanglória e pusilanimidade, que têm sua ex- BIBLIOGRAFIA
pressão no riso. Não podemos nos dar ao luxo
de nos entregar a nenhuma dessas fraquezas
enquanto lutamos para nos manter de pé
num mundo competitivo e hostil.
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Bond, 4 vols., Oxford.
Aristotle (1926). The 'Art' of Rhetoric, ed. and trans.
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