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Hélio Elael Bonini Viana e Paulo Alves Porto

Este artigo descreve aspectos da construção da teoria atômica de John Dalton (1766-1844). Influenciado pelo corpuscularismo
newtoniano e interessado em fenômenos meteorológicos, Dalton procurou desenvolver um modelo que explicasse o
comportamento dos gases. Essas investigações o aproximaram de outras discussões correntes entre os químicos da época.
A partir de dados das massas envolvidas em transformações químicas e pensando em termos de átomos, Dalton propôs um
engenhoso método para determinar as massas relativas dos átomos. Esse episódio é um bom exemplo de como a construção
de idéias na ciência pode ser um processo bastante complexo.


Dalton, teoria atômica, massas atômicas

Recebido em 10/10/06; aceito em 18/10/07

A
proposição de uma teoria atô- elementares. A partir daí, Dalton de- (Partington, 1962).
mica quantitativa, realizada senvolveu o pioneiro conceito de Dois anos mais tarde, Dalton mu-
por Dalton no início do século massas atômicas relativas - ponto dou-se para Kendal, cidade na qual
XIX, influenciou profundamente o de- central de sua teoria. O estudo dos permaneceria por doze anos. Em
senvolvimento posterior da Química, principais aspectos do processo de Kendal, ele, além de ministrar aulas
por isso, seu nome é freqüentemente elaboração dessa teoria pode ser em uma escola quaker, apresentou
lembrado em livros didáticos de Quí- muito útil para a compreensão de conferências para um público interes-
mica. Entretanto, nem sempre se en- conceitos químicos sado em ciências e
contram descritos adequadamente fundamentais, bem Nem sempre se encontram adquiriu um hábito
os motivos que justificariam a impor- como para se com- descritos adequadamente que manteve pelo
tância de seu trabalho para a Química preender melhor co- os motivos que justificariam resto de sua vida:
moderna. Assim, este trabalho procu- mo a ciência se de- a importância do trabalho anotar de modo sis-
ra esclarecer alguns aspectos do pro- senvolve. de Dalton para a Química temático dados so-
cesso de elaboração da sua teoria John Dalton moderna bre fenômenos
atômica. O interesse inicial dele esta- (1766-1844) nasceu atmosféricos. Se-
va relacionado à meteorologia, que o em Eaglesville (Inglaterra) e foi edu- gundo Partington, entre 1784 e 1794,
conduziu às questões da composição cado como membro da Sociedade Dalton também contribuiu com solu-
da atmosfera e da solubilidade dos dos Amigos (grupo protestante sur- ções para problemas matemáticos,
gases em água. Dalton foi fortemente gido em meados do século XVII, cujos publicados no Gentleman’s Diary, e
influenciado pelo pensamento newto- adeptos ficaram conhecidos como com respostas científicas gerais para
niano, bastante divulgado no final do quakers1). Aos doze anos, começou o Ladie’s Diary, ambos periódicos
século XVIII e início do XIX na Ingla- a lecionar quando ainda iniciava seus destinados ao público leigo.
terra, e isso fê-lo aderir desde logo a estudos de matemática com Elihu Ro- Em 1793, Dalton chegou a Man-
uma concepção corpuscular para a binson, o qual manifestava interesse chester por meio da indicação de
matéria. Sua procura por explicações em filosofia natural e meteorologia. pessoas influentes de Kendal (dentre
para as questões relacionadas à Foi possivelmente nessa época que as quais se destacava um intelectual
atmosfera e aos gases o levou a Dalton iniciou a leitura de livros volta- quaker, John Gough), passando a tra-
especular sobre possíveis diferenças dos para a divulgação do newtonia- balhar como tutor de matemática e
de massas entre os átomos consti- nismo, iniciando assim a construção filosofia natural (Ferraz, 2001). No
tuintes das diferentes substâncias dos seus conhecimentos científicos mesmo ano, ele lançou o seu primeiro

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livro, Meteorological Observations and por partículas indivisíveis (os átomos), los químicos no último quartel do
Essays, o qual tratava de suas pes- bem como da teoria aristotélica dos século XVIII. Como foi esse processo
quisas sobre a atmosfera. minima naturalia (segundo a qual exis- de estabelecimento de conexões, ini-
O interesse de Dalton pelos fenô- tiriam pequenas partes da matéria cialmente destinado a explicar fenô-
menos atmosféricos acabou por con- que conservariam as propriedades do menos atmosféricos, é o que aborda-
duzi-lo a uma série de questões cor- todo), resultando em uma teoria cor- remos a seguir.
relatas. É importante ressaltar que, no puscular com características peculia-
final do século XVIII, a composição da res.
A primeira teoria das misturas
atmosfera (majoritariamente gás nitro- Apoiado nas visões corpusculares gasosas e a lei das pressões parciais
gênio, gás oxigênio, gás carbônico e de Boyle, Newton procurou relacionar Na época de Newton, suponha-
vapor de água - de acordo com a suas “leis universais” para o movi- se, em geral, a existência de um único
nomenclatura usada atualmente) já mento dos corpos com as interações fluido gasoso, o ar comum, o qual era
era conhecida. Entre- interpartículas, com encarado com sendo um elemento,
tanto, existiam diver- Para Newton, as ultimate o intuito de explicar devido a sua homogeneidade. Entre-
gências dentro da particles seriam as menores certos fenômenos, tanto, com os estudos realizados ao
comunidade cientí- partículas da matéria, como o comporta- longo do século XVIII pelos chamados
fica sobre se os flui- enquanto o conjunto dessas mento dos gases. químicos pneumaticistas, a atmosfera
dos gasosos esta- partículas menores formaria Por exemplo, na 23ª passou a ser concebida como cons-
riam combinados as first composition Proposição, Livro 2, tituída por vários tipos de “ares” e,
quimicamente na particles, as quais seriam as de sua célebre obra conseqüentemente, houve a necessi-
atmosfera ou se es- responsáveis pelas Principia, Newton su- dade da elaboração de novos mode-
tariam simplesmente propriedades geria uma explica- los que dessem conta dessa diver-
misturados. Além macroscópicas dos corpos ção para a lei de sidade (Thackray, 1970).
disso, considerando Boyle - de proporcio- Como mencionamos, no começo
a atmosfera como uma mistura, não nalidade entre a pressão e o volume do século XIX, Dalton estava entre os
estava claro para os cientistas da épo- do ar -, recorrendo a partículas que que buscavam compreender o fato
5
ca o porquê de os gases não esta- se repelem de acordo com uma força de a atmosfera ser constituída por
rem separados em camadas super- que diminui com o quadrado da dis- vários gases, de diferentes densida-
postas de acordo com a sua densi- tância entre elas. Entretanto, para des, e ainda assim ser homogênea.
dade. Newton, essas idéias ainda se encon- A primeira explicação formulada por
Diante desse quadro, Dalton bus- travam em um estágio preliminar de Dalton para essa questão foi “uma
cou aproximar-se do problema recor- hipóteses, havendo ainda muito a ser elegante variação do modelo newto-
rendo a noções corpusculares que feito pelos filósofos da Natureza para niano” (Fleming, 1974, p. 563), a partir
lhe pareciam mais condizentes com que essas hipóteses pudessem ser da livre interpretação da Questão 31
a realidade: o corpuscularismo newto- comprovadas. do livro Opticks, e da 23ª Proposição,
niano. No final do século XVIII e início Imerso nessa tradição corpuscu- Livro 2, dos Principia, ambos de New-
do XIX, circulavam na Inglaterra mui- lar inglesa, coube a Dalton relacioná- ton: cada gás se comportaria como
tos livros destinados à divulgação do la com as novas idéias propostas pe- um fluido elástico newtoniano, atuan-
newtonianismo para o público em
geral, e foi por meio dessa literatura
que Dalton teve seus primeiros con-
tatos com as idéias do célebre filósofo
natural oitocentista. Segundo Isaac
Newton (1642-1727), a matéria seria
constituída por diversos tipos de par-
tículas organizadas hierarquicamente:
as ultimate particles seriam as meno-
res partículas da matéria, enquanto o
conjunto dessas partículas menores
formaria as first composition particles,
as quais seriam as responsáveis pe-
las propriedades macroscópicas dos
corpos (Figura 1). Essa visão hierár-
quica da matéria é inspirada nos tra-
balhos de Robert Boyle (1626-1691),
nos quais se combinam aspectos
provenientes do atomismo antigo (se- Figura 1: Estrutura dos corpúsculos de ouro e prata segundo a concepção de Newton
gundo o qual a matéria seria formada (Thackray, 1970).

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do como se os outros gases não explicar, com base em sua teoria das determinado volume do que o gás
estivessem presentes na mistura. As- misturas gasosas, o fato de o aumen- carbônico (“carbonic acid gas”).
sim Dalton descreveu seu modelo: to da quantidade de um dos compo- A primeira teoria das misturas ga-
nentes em uma mistura gasosa não sosas enfrentou muitas críticas por
Quando dois fluidos elásti-
surtir qualquer efeito sobre a pressão parte dos pensadores da época: o
cos, denotados por A e B, são
de um outro componente: estava for- próprio John Gough, ex-professor de
misturados, não existe repulsão
mulada o que ficaria conhecida como Dalton em Kendal, criticou a alea-
mútua entre suas partículas; is-
a lei de Dalton das pressões parciais. toriedade de seus princípios. Todavia,
to é, as partículas de A não re-
A Figura 2, reproduzida por foi a partir da primeira teoria das
pelem as partículas de B, como
Thackray (1970), nos misturas gasosas
se repelem entre si. (Dalton Quando dois fluidos
dá uma clara noção que William Henry
apud Fleming, 1974, p. 563) elásticos são misturados,
da concepção ato- (1774-1836) com-
Esse enunciado corresponde ao mística de Dalton não existe repulsão mútua preendeu a relação
que podemos chamar de a “primeira subjacente à sua lei entre suas partículas entre a pressão
teoria das misturas gasosas” propos- das pressões par- Lei de Dalton exercida por um gás
ta por Dalton. As características dessa ciais. Cada um dos das pressões parciais e sua solubilidade
teoria implicariam em algumas con- gases que compõem em um líquido (a
seqüências, conforme observou a his- uma atmosfera composta apresenta- chamada lei de Henry).
toriadora da ciência Márcia Ferraz: ria uma pressão parcial idêntica àque-
la que apresentaria se estivesse em
Da lei de Henry para a teoria
A primeira conseqüência é atômica quantitativa
uma atmosfera simples (ou seja, caso
que cada tipo de gás agiria
não estivesse misturado a outros A Inglaterra no final do século XVIII
como se fosse o único presen-
gases). A primeira teoria das misturas era um palco privilegiado para o de-
te em um recipiente qualquer,
gasosas permitia explicar a maneira bate acerca do comportamento dos
contribuindo para a pressão
como os gases estariam dispostos gases, pois havia ali uma tradição que
total verificada em determina-
6 em uma atmosfera composta. De tem em Boyle e Stephen Hales (1677-
das condições de temperatura
acordo com esse modelo, átomos 1761) dois destacados pioneiros.
(considerando-se a influência
iguais não poderiam se encontrar pró- Nesse cenário, não se pode deixar de
do calor nas misturas gasosas).
ximos (se repeliriam) e átomos dife- mencionar os trabalhos dos chama-
Assim, a pressão total seria a
rentes não surtiriam qualquer efeito dos químicos pneumaticistas - Jo-
soma das ‘contribuições’ de
uns sobre os outros. Ainda com rela- seph Black (1728-1799), que foi pro-
cada gás. A segunda conse-
ção à Figura 2, podemos observar fessor de William Henry quando este
qüência levou-o a admitir que
que volumes aparentemente iguais estudava medicina; Joseph Priestley
o número de partículas de cada
apresentam quantidades diferentes (1733-1804); e Henry Cavendish
gás presente em uma mistura
de partículas. Assim, o nitrogênio (1731-1810).
é proporcional à sua pressão
(“azotic gas”), gás majoritário na Em meio a esse contexto, Henry
parcial. (Ferraz, 2001, p. 79)
atmosfera terrestre, apresentaria uma teve contato com um grande número
Dessa maneira, Dalton passou a maior quantidade de átomos em um de trabalhos sobre gases. Ao longo
de sua vida, Henry dedicou-se princi-
palmente à indústria química de sua
família (a qual fabricava, entre outros
produtos, a magnésia alba2 e a “água
artificial de Pyrmont” 3) e ao ensino da
“nova química” utilizando Tratado Ele-
mentar de Química de Lavoisier (Fer-
raz, 2003).
Durante os anos de 1802 e 1803,
Henry e Dalton estavam ocupados
com experimentos sobre a solubili-
dade dos gases em água: enquanto
o primeiro estava preocupado com a
produção de água gaseificada, o
segundo buscava investigar as solu-
bilidades dos gases, tendo em mente
a sua primeira teoria das misturas
gasosas. O próprio Dalton escreveu
Figura 2: Representação de Dalton para a constituição atômica da atmosfera terrestre, sobre seus experimentos e especu-
de acordo com sua primeira teoria das misturas gasosas (Thackray, 1970). lações dessa época:

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Anteriormente [à publicação nico somente poderia ser determina-
da chamada “lei de Henry”, em da pela análise dos gases misturados
1802], eu estava engajado em e aplicação da lei das pressões
uma investigação da quantida- parciais de Dalton. Henry interpretou
de de ácido carbônico 4 na que a solubilidade dos gases em
atmosfera. Foi motivo de sur- água seria um fenômeno estritamente
presa para mim que a água de mecânico:
cal pudesse indicar tão facil-
A teoria que Mr. Dalton me su-
mente a presença de ácido car-
geriu a este respeito, e que pa-
bônico no ar, enquanto que a
rece ser confirmada por meus
água pura, exposta por qual-
experimentos, é que a absor-
quer extensão de tempo, não
ção de gases pela água é pura-
fornecesse nenhum traço da-
mente um efeito mecânico, e
quele ácido. Eu acreditava que
que sua quantidade é exata-
a extensão de tempo pudesse
mente proporcional à densida-
compensar a fraqueza de afini-
de do gás, considerado sepa-
dade. Ao investigar o assunto,
radamente de qualquer outro
eu encontrei que a quantidade
gás com o qual pudesse estar
deste ácido, tomada pela água,
Figura 3: Aparelhagem utilizada por Henry acidentalmente misturado.
seria maior ou menor propor-
para medir a solubilidade dos gases em (Henry apud Farrar, 1974,
cionalmente à sua maior ou
água (Farrar, 1974). p. 214-215)
menor densidade na mistura
gasosa jazendo sobre a super- um determinado gás em água, mais Logo, Henry, apesar de inicialmen-
fície, e portanto deixei de me a sua pressão interna vai diminuir e te contrário, aceitou a primeira teoria
surpreender com o fato de a maior será a variação do nível da das misturas gasosas, conforme ma-
água absorver uma porção tão coluna de mercúrio (Farrar, 1974). nifestou Dalton:
7
imperceptível da atmosfera... Como decorrência da medição
O Dr. Henry se convenceu de
(Dalton, 1964, p. 141) dos valores de solubilidade do gás
que não havia sistemas de flui-
carbônico em água, Henry constatou
É possível que os experimentos de dos elásticos que dessem uma
a grande variação das quantidades
Dalton e Henry sobre a solubilidade solução tão simples, fácil e
desse gás absorvidas pela água em
dos gases em água tenham sido dis- compreensível como a que eu
condições nas quais a pressão e a
cutidos e encorajados por Thomas adotei, a saber: que cada gás,
temperatura eram constantes. Contu-
Percival (1740-1804). Uma razão para em qualquer mistura, exerce
do, a resolução desse problema so-
as pesquisas iniciais de Dalton e Hen- uma pressão distinta, a qual
mente foi encontrada por Dalton:
ry destacarem o gás carbônico é o permanece a mesma se os de-
fato de este ser, até então, o único Eu desconhecia as causas mais gases forem retirados.
gás cuja solubilidade em água já ha- dessas variações, até que meu (Dalton, 1964, p. 141)
via sido estudada - Priestley, por amigo, Mr. Dalton, sugeriu que
Dessa forma, o caminho encon-
exemplo, já havia mostrado como a essas variações provavelmente
trado por Henry para explicar por que
água gaseificada efervescia em um dependeriam da quantidade
o comportamento de cada compo-
recipiente com vácuo (Ferraz, 2003). variável de resíduos de gás não
nente da mistura gasosa é governado
Para encontrar os valores de solubili- dissolvidos; e ao repetir os
somente por sua própria pressão,
dade dos gases em água, Henry experimentos, com diferentes
independente da identidade e da
utilizou o equipamento ilustrado na Fi- proporções entre o gás e a
quantidade de outros componentes,
gura 3. O tubo graduado (A) admite água, esta sugestão foi com-
foi assumir a validade da primeira
uma determinada quantidade de pletamente confirmada. (Henry
teoria das misturas gasosas. Esten-
água e do gás a ser analisado. Com apud Farrar, 1974, p. 214)
dendo a sua pesquisa para cerca de
as válvulas (a) e (b) fechadas, o tubo
Caso o gás carbônico utilizado por cinqüenta outros gases (óxido nitroso,
(A) é agitado de forma que o nível do
Henry fosse suficientemente puro, o oxigênio, nitrogênio, gás sulfídrico...),
mercúrio presente em (B) sofra uma
efeito das variações não teria existido; Henry concluiu que, em uma dada
diminuição (o mercúrio se desloca em
mas com as técnicas utilizadas por temperatura, a massa de gás absor-
direção a C). Dessa maneira, a
ele, todos os gases deviam conter vido pela água é diretamente propor-
variação do nível da coluna de mer-
uma certa porcentagem de ar (as téc- cional à sua pressão parcial - enun-
cúrio indica a respectiva diminuição
nicas disponíveis naquele período ciando aquela que ficou conhecida
da pressão interna do gás originada
não permitiam a preparação de gases como lei de Henry.
pela sua solubilização em água. As-
muito puros). Conseqüentemente, a Segundo Nash (1956), Dalton
sim, quanto maior a solubilidade de
verdadeira solubilidade do gás carbô- rapidamente reconheceu a importân-

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cia do trabalho de Henry, relacionan- sença de qualquer tipo de gás absorvíveis, e as outras são
do-o com a sua primeira teoria das que não se una quimicamente mais, conforme aumentam em
misturas gasosas e com um modelo com a água, ela absorverá uma peso e complexidade. [Nota de
mecânico para a dissolução de um massa de gás igual à sua pró- rodapé: Experiência subse-
gás em água. A analogia de Dalton pria, ou então uma parte dela, qüente mostra ser essa conjec-
com um modelo mecânico fica bem igual a uma das seguintes fra- tura pouco provável.] Uma
clara no fragmento abaixo, no qual ele ções, a saber: 1/8, 1/27, 1/64, investigação acerca dos pesos
recorre a uma comparação entre uma 1/125, etc. - sendo estas fra- relativos das partículas últimas
partícula de gás exercendo pressão ções os cubos dos recíprocos dos corpos é um assunto, até
sobre a superfície da água, com uma dos números naturais 1, 2, 3, onde sei, inteiramente novo:
bala de canhão colocada no topo de etc., ou seja, 1/1, 1/23, 1/33, 1/ tenho ultimamente prossegui-
uma pilha piramidal desses projéteis: 4 3, etc. O mesmo gás será do nessa investigação com no-
sempre absorvido de acordo tável sucesso. O princípio não
Assim como uma bala distri-
com a mesma proporção, co- pode ser apresentado neste
bui sua pressão igualmente
mo se mostra na tabela a se- artigo, mas acrescentarei ape-
entre todos os indivíduos que
guir. (Dalton, 1805) nas os resultados, do modo
formam a camada mais baixa
como eles parecem ser deter-
da pilha, também uma partícula Para explicar os diferentes valores
minados por meus experimen-
de gás distribui sua pressão de solubilidade, Dalton especulou se
tos. (Dalton, 1805)
igualmente sobre todas as as diferentes massas dos átomos não
sucessivas camadas horizon- seriam a causa para essas variações: Assim, logo após a citação acima,
tais de partículas de água de a tabela de massas atômicas relativas
A maior dificuldade para con-
cima para baixo, até alcançar é apresentada na forma impressa6
templar a hipótese mecânica
a esfera de influência de uma pela primeira vez. É importante cha-
provém do fato de diferentes
outra partícula de gás. (Dalton, marmos a atenção para o fato de
gases observarem diferentes
18055) Dalton ter atribuído às massas atô-
leis. Por que a água não admite
8 micas a causa das diferentes solubi-
Em um artigo, lido em outubro de a mesma quantidade de qual-
lidades dos gases e, em uma nota de
1803 e que somente viria a ser pu- quer tipo de gás? Esta questão
rodapé, ter mudado de opinião,
blicado em 1805, denominado “On eu tenho considerado devida-
considerando ser essa uma “conjec-
the Absorption of Gases by Water and mente, e embora ainda não
tura pouco provável” à luz de outros
Other Liquids”, Dalton expôs seu tra- seja capaz de me satisfazer
resultados experimentais obtidos
balho sobre a solubilidade dos gases, completamente, estou quase
posteriormente.
procurando classificá-los de acordo persuadido de que essa cir-
Segundo Nash (1956), a ponde-
com as suas frações de solubilidade cunstância depende do peso
ração sobre a complexidade das par-
(Tabela 1) concebidas a partir de uma e do número das partículas últi-
tículas gasosas teria sido o ponto de
engenhosa relação matemática: mas dos diversos gases: aque-
partida para a construção de uma
les cujas partículas são mais
Se uma quantidade de água, teoria atômica quantitativa. Entretan-
leves e simples são menos
livre de ar, for agitada em pre- to, apesar da importância desse epi-
sódio, alguns detalhes não podem
passar despercebidos e devem ser
Tabela 1: Frações de diferentes gases, dissolvidos em uma dada quantidade de água, considerados para uma adequada
em condições de pressão suficientes para a impregnação (Dalton, 1805). A legenda avaliação desse processo. Em primei-
fornece nomes atuais para os gases estudados por Dalton. ro lugar, é preciso ter em mente que
o artigo de Dalton foi lido perante a
Bulk absorbed, the bulk Literary and Philosophical Society de
of water being unity.
Manchester em 1803, mas publicado
1/13 = 1 Carbonic acid gas, sulphuretted hydrogen, nitrous oxide somente em 1805. O texto publicado
3
1/2 = 1/8 Olefiant gas, of the Dutch chemists traz claras evidências de haver sido
1/33 = 1/27 Oxygenous gas, nitrous gas, carburetted hydrogen gas, from stagnant water modificado em relação ao original-
1/43 = 1/64 Azotic gas, hydrogenous gas, carbonic oxide mente lido. Uma das evidências mais
eloqüentes é o fato de Dalton propor
1/53 = 1/125 None discovered
no texto a hipótese de que as solubi-
Legenda: lidades dos gases dependeriam das
carbonic acid gas = gás carbônico sulphuretted hydrogen = gás sulfídrico massas das partículas e, em uma no-
nitrous oxide = óxido nitroso olefiant gas = etileno ta de rodapé, comentar que essa
oxygenous gas = gás oxigênio nitrous gas = monóxido de nitrogênio
hipótese seria pouco provável. Dalton
carburetted hydrogen gas = gás metano azotic gas = gás nitrogênio
hydrogenous gas = gás hidrogênio carbonic oxide = monóxido de carbono
não teria a menor dificuldade em fazer

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as modificações: ele próprio era o edi- B = 1 átomo de D, ternário. Esta repulsão se inicia com 2
tor das Memórias da Sociedade e, 2 átomos de A + 1 átomo de átomos de B para 1 de A, em
portanto, podia escolher quais artigos B = 1 átomo de E, ternário. cujo caso os 2 átomos de B es-
e quando seriam publicados. 1 átomo de A + 3 átomo de tão diametralmente opostos; a
B = 1 átomo de F, quaternário. repulsão aumenta com 3 áto-
A determinação das massas atômicas 3 átomos de A + 1 átomo de mos de B para 1 de A, em cujo
relativas: Um problema a ser discutido B = 1 átomo de G, quaternário. caso os átomos de B estarão
Para a determinação das massas Etc., etc. [...] afastados por apenas 120°;
atômicas relativas, era necessário que 1º Quando somente uma com 4 átomos de B a repulsão
Dalton desenvolvesse um modelo combinação de dois corpos é ainda maior, pois a distância
que explicasse as combinações pode ser obtida, deve-se pre- é de apenas 90°... (Dalton apud
químicas e que propiciasse a previ- sumir que seja binária, a menos Fleming, 1974, p. 570)
são de fórmulas para os compostos. que alguma causa aponte para
Dessa maneira, um “átomo com-
Elaborando a partir de sua primeira o contrário.
posto”, formado por quatro átomos,
teoria das misturas gasosas, Dalton 2º Quando duas combina-
apresentaria uma estrutura trigonal
procurou explicar as combinações ções são observadas, deve-se
plana, com os átomos dispostos a
químicas exemplificando com o caso presumir que sejam uma biná-
120° em torno de um átomo central,
de uma mistura de oxigênio e hidro- ria e uma ternária.
e um “átomo composto” formado por
gênio. Haveria repulsão entre os 3º Quando três combinações
cinco átomos teria uma estrutura te-
átomos de oxigênio e também repul- são obtidas, podemos esperar
tragonal plana (quatro átomos dis-
são entre os átomos de hidrogênio, que uma seja binária e as ou-
postos a 90° em torno de um átomo
o que resultaria em uma situação de tras duas sejam ternárias.
central). Observa-se, assim, a existên-
equilíbrio nessa mistura gasosa. Caso 4º Quando quatro combina-
cia de uma justificativa teórica (que,
algum evento rompesse esse equilí- ções são observadas, deve-
segundo alguns historiadores, teria
brio, haveria uma transformação: mos esperar uma binária, duas
sido formulada em um período poste-
ternárias e uma quaternária etc.
Calor, ou algum outro poder, rior) para a adoção da regra da má- 9
5º Um composto binário
previne a união dos dois ele- xima simplicidade.
deve ser sempre especifica-
mentos, até que - por uma faís- A data em que a lei das propor-
mente mais pesado do que a
ca elétrica, ou algum outro estí- ções múltiplas foi proposta é motivo
simples mistura de seus dois
mulo - o equilíbrio seja pertur- de controvérsia entre os historiadores
ingredientes.
bado. Então, o poder de afini- da ciência (Ferraz, 2004). Logo, é pre-
6º Um composto ternário de-
dade é capaz de superar os ciso deixar claro que não temos a
ve ser especificamente mais
obstáculos à sua eficiência, e intenção de afirmar que a formulação
pesado do que a mistura de um
resulta uma união química das dessa lei ocorreu antes de 1803 ou
binário e um simples, os quais,
partículas elementares de hi- após esse ano. Uma discussão dessa
se combinados, o constituem.
drogênio e oxigênio. (Dalton natureza necessitaria de um estudo
7º As regras e observações
apud Fleming, 1974, p. 567) mais aprofundado, que fugiria ao
acima igualmente se aplicam
escopo do presente artigo. De qual-
Após a combinação entre oxigênio quando dois corpos, como C
quer forma, parece-nos adequado
e hidrogênio, teríamos uma mistura e D, D e E etc., são combi-
afirmar que o modelo de combi-
formada por vapor de água e oxigê- nados. (Dalton, 1964, p. 163-
nações químicas de Dalton constitui-
nio. Caso fosse possível dar prosse- 167)
se em uma elaboração a partir da pri-
guimento à transformação, os “áto-
A quantidade de átomos combi- meira teoria das misturas gasosas.
mos de água” 7 e de oxigênio pode-
nados implicaria em vários tipos de Além de um mecanismo para a
riam agora se agrupar em pares. No
geometria, nas quais os átomos proposição das fórmulas dos “áto-
modelo proposto por Dalton, as
estariam dispostos de modo a minimi- mos compostos” resultantes das
interações aconteceriam na seqüên-
zar as forças repulsivas: combinações químicas, a elaboração
cia de um para um, obedecendo
da primeira tabela de massas atômi-
assim à chamada “regra da máxima Quando um elemento A tem
cas relativas exigiu também a utiliza-
simplicidade”. Seguindo esse racio- afinidade por outro B, não vejo
ção das proporções em massa envol-
cínio, passaríamos a ter vários tipos nenhuma razão mecânica pela
vidas nas combinações. Os primeiros
de combinações possíveis, o que foi qual ele não deva tomar tantos
valores já eram conhecidos por Dal-
denominado por Dalton como “lei das átomos de B quantos lhe são
ton, pois estavam disponíveis em
proporções múltiplas”: apresentados, e com os quais
publicações de outros autores. As-
possa entrar em contato... -
1 átomo de A + 1 átomo de sim, com base nas análises de Lavoi-
exceto que a repulsão dos áto-
B = 1 átomo de C, binário. sier para a água (85% de oxigênio e
mos de B entre si pode superar
1 átomo de A + 2 átomos de 15% de hidrogênio em massa), dos
a atração de um átomo de A...

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experimentos desse mesmo químico relativas (principalmente a do oxigê-
que envolviam a formação de óxidos nio, o qual se encontra presente em
de carbono, da análise de Austin para um número maior de compostos), ou-
a amônia (80% de nitrogênio e 20% tras massas atômicas relativas foram
de hidrogênio em massa) e da análise calculadas. Caso existissem outras
de Chenevix para o que hoje chama- substâncias constituídas por átomos
mos de anidrido sulfúrico (61,2% de de oxigênio e hidrogênio ou por áto-
enxofre e 38,8% de oxigênio em mas- mos de nitrogênio e hidrogênio, além
sa), Dalton dispunha de uma série de da água e da amônia, respectiva-
Figura 4: Representação dos “átomos
valores que indicavam as proporções mente, estas deveriam obedecer à lei compostos” de água, amônia e de outras
nas reações de formação de cada das proporções múltiplas (Figura 4). partículas que poderiam ser formadas,
uma dessas substâncias (Nash, Dessa forma, suas fórmulas, pela obedecendo à lei das proporções múlti-
1956). De posse desses valores, Dal- simbologia de Dalton, seriam consti- plas (www.nmsi.ac.uk, consultado em
ton estabeleceu entre eles e as mas- tuídas por dois átomos de hidrogênio setembro de 2006).
sas atômicas relativas (as quais ele e um de oxigênio (ou nitrogênio) ou
anteriormente especulara ser o moti- por dois átomos de oxigênio (ou nitro- nio e por um átomo de oxigênio, e que
vo das diferentes solubilidades dos gênio) e um de hidrogênio (respecti- o gás ácido nítrico8 seria formado por
gases em água) uma relação interme- vamente). um átomo de nitrogênio e dois áto-
diada pela regra da máxima da simpli- Com a determinação das massas mos de oxigênio. Logo, a existência
cidade. Desse modo, as sucessivas atômicas relativas do nitrogênio e do de diferentes óxidos de nitrogênio po-
combinações entre átomos, na pro- oxigênio, Dalton conseguiu explicar de ser considerada como exemplo
porção de 1:1, resultariam em fórmu- as várias proporções em massa en- prático da lei das proporções múlti-
las químicas que traduziriam as pro- volvidas na síntese dos óxidos de ni- plas.
porções em massa envolvidas nessas trogênio (em setembro de 1803, Dal- Em 1804, Dalton percebeu que
transformações observadas macros- ton teria repetido o experimento de hidrocarbonetos também obedece-
10 copicamente. Cavendish da combinação de nitro- riam à lei das proporções múltiplas:
Analisando, por exemplo, as pro- gênio e oxigênio sobre um álcali o gás hidrogênio carburado - atual-
porções em massa determinadas por mediante uma faísca elétrica). Anali- mente chamado metano - seria for-
Lavoisier para a água, constatamos sando a Tabela 2, observamos que o mado por um átomo de carbono e
que a água apresentaria uma propor- gás nitroso seria formado, segundo dois de hidrogênio; e o gás olefiante
ção em massa de 15 g de hidrogênio Dalton, quando 57,9 gramas de - atual etileno - seria formado por um
para 85 g de oxigênio, ou seja, 1 g de oxigênio reagem com 42,1 gramas de átomo de carbono e um de hidrogê-
hidrogênio para 5,66 g de oxigênio nitrogênio. Como vimos anteriormen- nio. Em 1808, William Hyde Wollaston
(valores determinados na época, e te, considerando-se a massa atômica (1766-1828) também declarou que
que constam na primeira tabela de do hidrogênio como sendo igual a 1, muitos dos resultados de suas análi-
Dalton). Pela regra da máxima simpli- a massa atômica relativa do oxigênio ses de sais, obtidos de reações de
cidade, um átomo de oxigênio se seria igual a 5,66 e a do nitrogênio neutralização, poderiam ser explica-
combinaria com um átomo de hidro- igual a 4. Adotando-se esses valores, dos por meio da lei das proporções
gênio, formando um “átomo compos- a proporção envolvida para a síntese múltiplas formulada por Dalton.
to” de água. Como o hidrogênio, nas do gás nitroso seria de (57,9 / 5,66) Ao entrar em contato com traba-
reações em que estava presente, de oxigênio para (42,1 / 4) de nitro- lhos sobre transformações químicas,
participava sempre com uma propor- gênio - ou seja, aproximadamente Dalton foi aos poucos incorporando,
ção em massa menor do que os 1:1. Logo, esse composto seria for- em sua teoria, idéias que até então
outros elementos, ele foi assumido mado por um átomo de nitrogênio e não a integravam - tais como as sobre
por Dalton como sendo o padrão, um de oxigênio, obedecendo assim afinidade química e também o caló-
sendo a ele conferida uma massa atô- à regra da máxima simplicidade. Por rico, as quais estavam presentes nos
mica igual a 1. Dessa forma, um áto- intermédio do mesmo raciocínio, veri- trabalhos de Lavoisier, por exemplo.
mo de oxigênio deveria ter uma ficaríamos que o óxido nitroso seria Cada átomo, fosse ele “simples” ou
massa atômica relativa igual a 5,66 formado por dois átomos de nitrogê- “composto”, possuiria uma determi-
(5,66 vezes maior que o padrão). nada “atmosfera”, ou invólucro, de
Seguindo o mesmo raciocínio, como Tabela 2: Valores determinados por Dalton calórico à sua volta (Figura 5). Assim,
a proporção em massa da amônia para as proporções elementares em mas- nessa nova concepção de Dalton, os
(determinada por Austin) é de 20 g sa dos óxidos de nitrogênio. átomos passaram a ter diferentes ta-
de hidrogênio para 80 g de nitrogênio, manhos: quanto maior seu calor es-
Nitrogênio Oxigênio
ou seja, 1 g de hidrogênio para 4 g pecífico (o que significaria que o
de nitrogênio, logo o nitrogênio pos- Gás nitroso 42,1 57,9 átomo seria capaz de reter uma maior
suiria uma atômica relativa igual a 4. Óxido nitroso 62 38 quantidade de calórico a sua volta),
A partir dessas massas atômicas Ácido nítrico 26,7 73,3 maior o átomo. Essas modificações

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no modelo atômico implicaram na posterior da Química e acabou caindo teoria atômica. A primeira seria sua
segunda teoria das misturas gasosas, no esquecimento. elaboração a priori, a partir da pecu-
a qual foi elaborada no ano de 1804 liar (e, estritamente falando, incorreta)
ou 1805. Essa segunda teoria permi- Considerações finais interpretação dada por Dalton a idéias
tiu o estabelecimento de conexões Diversos são os fatores que difi- de Newton sobre partículas. Além
diretas entre as “atmosferas” de calor cultam a reconstituição do caminho dessa possibilidade, haveria cinco
dos átomos e suas massas atômicas: percorrido por Dalton para a constru- outras: duas indutivas e três deduti-
ção de sua teoria atômica quantitati- vas. Assim, Dalton teria induzido a
Os calores específicos, de
va, tais como: o distanciamento en- teoria a partir das proporções múlti-
pesos iguais de quaisquer dois
tre as datas de leitura (1803) e publi- plas observadas na composição dos
fluidos elásticos, são inversa-
cação (1805) de seu artigo que con- hidrocarbonetos; ou a teria induzido
mente proporcionais aos pe-
tém a primeira tabela de massas atô- a partir das proporções múltiplas
sos de seus átomos ou molé-
micas relativas; a destruição de cerca observadas nos óxidos de nitrogênio.
culas... Os calores específicos,
de 75% dos arquivos de Dalton então Se o caminho foi dedutivo, poderia ter
de iguais quantidades de flui-
depositados na Literary & Philosophi- sido a partir do trabalho de Jeremias
dos elásticos, são diretamente
cal Society de Manchester, durante a Richter (1762-1807) com as massas
proporcionais a suas gravida-
Segunda Guerra equivalentes9; ou a
des específicas, e inversamen-
Mundial; e a multipli- Diversos fatores dificultam a partir da primeira teo-
te proporcionais aos pesos de
cidade de relatos, reconstituição do caminho ria das misturas ga-
seus átomos. (Dalton, 1964,
fornecidos pelo pró- percorrido por Dalton para sosas; ou, finalmen-
p. 58)
prio Dalton e por a construção de sua teoria te, a partir da segun-
A proposição desse modelo que seus contemporâ- atômica quantitativa; um da teoria das mistu-
previa diferentes tamanhos para as neos, para a origem deles foi a destruição, ras gasosas. Rocke
partículas, em função de suas dife- de sua teoria atômi- durante a Segunda Guerra observa que cada
rentes “atmosferas” de calórico, re- ca. Podemos ilustrar Mundial, de cerca de 75% uma dessas possibi-
sultou em algumas discrepâncias essas dificuldades de seus arquivos lidades é derivada
11
com resultados experimentais. Con- citando recente arti- depositados na Literary & de relatos do próprio
forme o leitor contemporâneo já terá go que discute essa Philosophical Society Dalton, embora não
percebido, esse aspecto do modelo questão. O historia- seja possível reduzi-
de Dalton - ao contrário das massas dor da ciência, Alan Rocke (2005), las a uma única. Considerando isso,
atômicas relativas - não teve influência enumera, de maneira esquemática, Rocke argumenta que Dalton, desde
significativa sobre o desenvolvimento seis possibilidades para a origem da o início de sua carreira científica, pen-
sava em termos de átomos. Ao de-
bruçar-se sobre o problema físico da
solubilidade dos gases (em 1803),
Dalton simultaneamente teve acesso
a dados sobre transformações quími-
cas e começou a fazer experimentos
químicos cujos resultados confirma-
vam sua hipótese atômica. Assim, de
acordo com Rocke:
[...] supondo que as especu-
lações atomísticas de Dalton
eram extraordinariamente vívi-
das e reais para ele, isso nos
ajudaria a explicar, em parte, a
multiplicidade das histórias
sobre a origem. Quando ele
começou a olhar quimicamen-
te, em vez de fisicamente, [...]
ele encontrou evidência para
os átomos em todos os proje-
tos a que ele se dedicou. Para
Dalton, tudo parecia confirmar
uma idéia em cujo germe ele
acreditara por tanto tempo; co-
Figura 5: Esquemas representativos da repulsão entre as “atmosferas” de calor que mo conseqüência, ele teve
circundariam cada átomo constituinte dos gases (Partington, 1962).

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problemas em arranjar sua mento (por meio do qual o indivíduo
própria filiação de idéias na
Referências
poderia entrar em contato com Deus)
ordem cronológica correta [...]. e a pureza moral - prática ativa do pa- DALTON, J. A new system of chemi-
Essa ordem pode ser diferente cifismo, da solidariedade e da filantro- cal philosophy. New York: Philosophi-
em diferentes relatos, dado que cal Library, 1964.
pia (Hill, 1987).
tudo estava tão fortemente co- 2
______. Experimental enquiry into the
Magnésia alba era o termo usado proportion of the several gases or elas-
nectado. (Rocke, 2005, p. 151) para designar o que nós conhecemos tic fluids, constituting the atmosphere.
Rocke, dessa maneira, defende hoje pelo nome de carbonato de Memoirs of the Literary and Philosophi-
que houve uma simultaneidade de fa- magnésio. cal Society of Manchester, v. 1 p. 244-
tores, teóricos e experimentais, no 3
Água artificial de Pyrmont era uma 58 (1805). (http://web.lemoyne.edu/
momento da gênese da teoria atômi- água mineral gaseificada artificial- ~giunta/dalton1.html, acessado em
06/2005).
ca quantitativa. mente.
4
______. On the absorption of gases
O estudo de caso que aqui apre- Ácido carbônico corresponde ao by water and other liquids, Memoirs of
sentamos mostra como Dalton, a par- chamado gás carbônico, hoje tam- the Literary and Philosophical Society
tir do corpuscularismo newtoniano, bém denominado dióxido de carbo- of Manchester, Second Series v. 1 p.
conseguiu construir uma teoria atô- no. 271-87 (1805). (http://web.lemoyne.
mica quantitativa mediante a utiliza- 5
Como o artigo citado encontra-se edu/~giunta/dalton52.html, acessado
ção de dados provenientes de estu- na Internet (http://web.lemoyne.edu/ em 06/2005).
FARRAR, W.V.; FARRAR, K.R.;
dos sobre transformações químicas. ~giunta/dalton52.html, consultado
SCOTT, E.L. The Henrys of Manches-
Esse processo de elaboração não foi em junho de 2006) sem paginação, ter. Part 3: William Henry and John
linear, mas repleto de complexidade. estas não estão designadas. Dalton. Ambix v. 21, p. 208-228 (1974).
6
É justamente em função dessa com- Os primeiros valores para massas FERRAZ, M.H.M. A um passo da teo-
plexidade que destacamos a impor- atômicas relativas podem ser encon- ria atômica, Ciência Hoje, v. 35, n. 211,
tância de os profes- trados em um cader- p. 81-83 (2004).
sores de Química co- no de anotações de ________ . A Lei de Henry, Ciência
Rocke defende que houve Hoje, v. 34, n. 199, p. 75-77 (2003).
12 nhecerem, com algu- uma simultaneidade de Dalton, datados de
________ . Dalton, os estudos sobre
ma profundidade, fatores, teóricos e setembro de 1803. a atmosfera e a matéria. Ciência Hoje,
7
esse episódio - tanto experimentais, no Para Dalton, as v. 30, n. 176, p. 78-79 (2001).
para refletirem sobre momento da gênese da partículas formadas FLEMING, R.S. Newton, gases, and
suas concepções por mais de um áto- daltonian chemistry: the foundations of
teoria atômica quantitativa
acerca da ciência, mo eram chamadas combination in definite proportion. An-
quanto para repen- de “átomos com- nals of Science, v. 31, p. 561-574 (1974).
GUERLAC, H. Some daltonian
sarem a abordagem didática dos postos”. Inclui-se nesse caso a água.
8
doubts. Isis, v. 52, p. 544-554 (1961).
conceitos envolvidos. Nesse caso, Dalton chama de HARTLEY, H. John Dalton (1766-
gás ácido nítrico aquilo que hoje se 1844) and the atomic theory - a lecture
Notas denomina por dióxido de nitrogênio. to commemorate his bicentenary. Proc.
1 9 Roy. Soc. B., v. 168, p. 335-359 (1967).
Os quakers são uma seita cristã Richter reconheceu relações
originada, entre tantas outras, na In- matemáticas entre as quantidades de HILL, C. O mundo de ponta cabeça.
glaterra do século XVII, em um perío- substâncias que reagem umas com Trad. Renato Janine Ribeiro. São Paulo:
Companhia das Letras, 1987.
do em que anseios de liberdade se as outras, por meio de uma série de
NASH, L.K. The origin of Dalton’s
manifestavam em diversos níveis. A estudos de neutralizações ácido- chemical atomic theory, Isis, v. 47,
reação contra a Igreja oficial encon- base. Não há consenso, entre os his- p. 101-116 (1956).
trava apoio, por exemplo, na afirma- toriadores da ciência, se Dalton teve PARTINGTON, J.R. A history of Chem-
ção de interpretações próprias da Bí- ou não acesso às idéias de Richter istry. v 3. London: MacMillan, 1962.
blia. Outra manifestação desse antes de 1803. ROCKE, A.J. In search of El Dorado:
pensamento oferecia a possibilidade John Dalton and the origins of the
Hélio Elael Bonini Viana, bacharel em Química pelo atomic theory. Social Research, v. 72,
de conceber a investigação dos se- p. 125-158 (2005).
Instituto de Química da Universidade de São Paulo
gredos da Natureza como forma de (IQ-USP), mestre em Ensino de Ciências - Modali- THACKRAY, A. Atoms and powers.
conhecer as obras de Deus. Ao con- dade Química, pela USP, é professor na rede parti- Cambridge: Harvard University Press,
trário de outras seitas radicais do pe- cular de ensino de São Paulo. Paulo Alves Porto, 1970.
ríodo, o quakerismo sobreviveu, ca- licenciado e bacharel em Química pelo IQ-USP, _______. The origin of Dalton´s chemi-
mestre e doutor em Comunicação e Semiótica (área cal atomic theory: Daltonian Doubts
racterizando-se como um grupo com de História da Ciência) pela Pontifícia Universidade
hábitos próprios, cultuando o recolhi- Resolved. Isis, v. 57, p. 35-55 (1966).
Católica de São Paulo, é docente no IQ-USP.

Abstract: The making of John Dalton’s Atomic Theory – This paper describes the making of John Dalton’s (1766-1844) atomic theory. Dalton was influenced by Newtonian corpuscularism, and had
a lifelong interest in meteorological phenomena. With this background, Dalton worked on models to explain the behavior of gases, and gradually became involved in the chemical debates of the time.
From data about the masses that take part in chemical transformations, and reasoning in terms of atoms, Dalton arrived at an ingenious method to determine the relative weight of the atoms. This
episode is a fine example of how the construction of scientific ideas may be a very complex process.
Keywords: Dalton, atomic theory, atomic weights

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