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Aspectos

relevantes da
biogeoquímica da

Maria Lúcia A. M. Campos e Wilson F. Jardim

Este artigo apresenta uma visão geral da química da hidrosfera, considerando aspectos da biologia, física e geologia.
Os oceanos são abordados como ponto de partida na discussão sobre a transferência de matéria e energia em
distintos ecossistemas, sendo destacado seu papel vital como regulador climático e mantenedor da vida na Terra.

 oceanos, mudanças climáticas, ciclo do carbono 

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Introdução cesso conhecido, muito dinâmico, sobre o fundo dos oceanos. Este “uni-
movido basicamente pela energia so- verso”, ainda obscuro hoje, pode ser
O planeta Terra é, na verdade, uma lar, e que movimenta cerca de 1 km3 visto como um grande potencial
enorme esfera com 2/3 de sua super- de água por ano apenas entre a energético a ser explorado, como uma
fície coberta de água, flutuando como hidrosfera e a atmosfera, fazendo com fonte de alimentos a ser sustentada e,
uma grande bola azul no espaço. A que o tempo de residência da água na também, como um importante aliado
hidrosfera (nome dado ao reservató- atmosfera seja pequeno, tipicamente que ameniza o efeito estufa, por meio
rio que agrega todos os tipos de água de 10 dias (veja o quadro sobre tem- da absorção de grandes quantidades
existentes no planeta), contém aproxi- po de residência). de dióxido de carbono da atmosfera.
madamente 1,4 x 109 km3 de água, Embora para os seres humanos a Um dos desafios atuais da comu-
sendo os oceanos o mais velho (3,8 água doce tenha uma importância ime- nidade científica é prever como um
bilhões de anos de existência) e o diata na manutenção da vida, os oce- possível aquecimento global poderia
maior (97,3%) dos reservatórios, con- anos têm um papel vital na manuten- influenciar a circulação oceânica e,
forme mostrado na Tabela 1. ção da vida no planeta Terra como um conseqüentemente, o balanço da
A ciclagem da água entre os reser- todo, apesar de se saber sobre a su- transferência de calor na Terra. Outros
vatórios (ciclo hidrológico) é um pro- perfície da Lua ou de Marte do que estudos vêm avaliando como as emis-
sões de partículas de aerossóis e de
Tabela 1: Inventário dos estoques de água nos vários reservatórios do planeta Terra gases pelos oceanos podem influen-
ciar a composição química da atmos-
Reservatório Volume/(106 km3) Porcentagem
fera e até mesmo o clima global.
Oceanos 13200000 97,2400
Geleiras 29,2000 2,1400
Águas subterrâneas 8,3000 0,6100 Propriedades da água e suas
Lagos 0,1250 0,0100 implicações
Mares 0,1040 0,0080
Solos 0,0670 0,0050
As fortes interações dipolo-dipolo
Atmosfera 0,0130 0,0010
Rios 0,0012 0,0001 entre as moléculas de água formam as
TOTAL 1358 100
chamadas ligações de hidrogênio, que
conferem à água características físicas
Adaptado de Grassi (2001)

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muito peculiares. Estas ligações de hi-
drogênio são responsáveis por confe- Uma idéia da quantidade de energia associada às águas
rir à água líquida o elevado calor espe-
cífico (ou capacidade calorífica espe- Para ter uma idéia da quantidade de energia liberada em um evento de chuva,
-1 o -1
cífica) de 1,0 cal g C . Isto significa assuma o seguinte cenário: a precipitação de 20 mm (chuva moderada no
que é necessário fornecer uma grande Brasil) sobre uma área de 1 hectare (10.000 m2). Multiplicando a área pela
quantidade de energia na forma de ca- altura da lâmina de água de chuva, tem-se um volume de 200.000 L de água.
lor (1 cal) para poder elevar a tempera- Se no processo de condensação, cada grama de água libera 540 cal, haverá
tura de 1 g de água líquida em 1 C. Ao a liberação de cerca de 108 x 106 kcal nessa área. Esta quantidade de calor é
energia que seria consumida para au- equivalente à energia liberada na explosão de cerca de 100 toneladas de dina-
mentar a movimentação das molécu- mite.
las é inicialmente absorvida para que-
brar as ligações de hidrogênio e, por-
tanto, a água absorve energia sem au- meio das correntes marinhas. Se não dade de energia absorvida no proces-
mentar sua temperatura drasticamente fossem os oceanos, nosso planeta te- so de vaporização é liberada para a
(Open University, 1995a). ria dias muito quentes e noites muito atmosfera. Isto significa que o calor é
Este elevado calor específico da frias. transportado de uma região do plane-
água reflete diretamente no clima e na Outras propriedades físicas da ta para outra na forma de calor latente
vida do nosso planeta. Primeiramente, água, importantes para entendermos a de vaporização, o que é muito impor-
o alto calor específico previne variações importância do oceano no clima global tante para a distribuição de calor e
rápidas de temperatura da água, que são: calor latente de fusão e vaporiza- estabilização do sistema climático glo-
podemos observar quando vamos à ção. Calor latente de fusão é a quanti- bal.
praia. Muitas vezes, no dade de calor necessá- Um outro ponto importante refere-
meio do dia, sentimos ria para transformar 1 g se à composição química da água pre-
a areia queimando Embora para os seres de uma substância do sente na hidrosfera. Alguns destes
nossos pés, enquanto humanos a água doce estado sólido para o es- íons, como o cloreto (abundante em
tenha uma importância 19
que a água do mar tado líquido (ou vice-ver- águas de alta salinidade), são chama-
permanece fria, visto imediata na manutenção sa). De forma análoga, o dos de conservativos
conservativos, pois sendo
que a areia tem um ca- da vida, os oceanos têm calor latente de vapori- muito pouco reativos, suas concentra-
lor específico muito um papel vital na zação refere-se à transi- ções dependem apenas dos proces-
mais baixo que o da manutenção da vida no ção entre o estado líqui- sos de mistura. Outros, como o íon bi-
água, isto é, o calor planeta Terra como um do e gasoso. O elevado carbonato e o íon H+ são não-conser-
que a areia absorve todo. calor latente de fusão da vativos, pois podem ser consumidos
eleva eficientemente água (80 cal), provoca ou gerados no corpo aquático, e suas
sua temperatura, gerando gradientes um efeito termostático no ponto de con- concentrações variam independente-
de temperatura na areia ao longo de um gelamento, pois uma grande quantida- mente dos processos de mistura. As
dia. de de energia precisa ser emitida ou ab- águas salgadas têm altas concentra-
O elevado calor específico da água sorvida para que haja mudança de es- ções de íons quando comparadas
faz com que apenas 2,5 m de coluna tado, evitando a rápida formação de àquelas encontradas tipicamente em
d’água do oceano seja equivalente à gelo na coluna d’água. A presença de águas doces (Tabela 2). Além disso,
toda capacidade calorífica da atmos- sais na água do mar (cerca de 35 g kg-1) as águas salgadas têm uma compo-
fera que está sobre o oceano (Libes, diminui seu ponto de congelamento sição química muito mais homogênea
1992). Em outras palavras, o oceano para -1,9 oC e, por isto, a água do mar em todo o planeta do que as águas
retém cerca de 1100 vezes mais calor nunca atinge temperaturas inferiores a subterrâneas, de rios e lagos. Frente a
que a atmosfera. Durante o verão, o este valor (Libes, 1992). esta distinta composição, é de se es-
calor é estocado nos oceanos e, du- Quando moléculas de água pas-
rante o inverno, parte desse calor é sam do estado líquido para o gasoso, Tabela 2: Concentração dos íons
transferido de volta para a atmosfera estas “carregam” grandes quantida- majoritários em água salgada e água doce
amenizando, assim, a temperatura do des de energia, devido ao elevado ca- (mmol L-1)
-1
ar. Apenas compreendendo o signifi- lor latente de vaporização (540 cal g ). Íon Água doce Água salgada
cado do elevado calor específico da Portanto, quando há transferência de
Na + 0,23 470
água, somado ao seu grande volume, água do oceano para a atmosfera há, Mg 2+ 0,14 53
já podemos perceber porque o ocea- também, transferência de calor. Uma K+ 0,03 10
no age como moderador climático, di- vez na atmosfera, o vapor d’água é Ca 2+ 0,33 10
HCO3 - 0,85 2
minuindo a amplitude das variações de transportado para outras regiões do
SO4 2- 0,09 28
temperatura entre as estações do ano, planeta e, quando este se condensa Cl - 0,16 550
e transferindo calor das regiões tropi- na forma de chuva, ocorre a liberação Si 0,16 0,1
cais para as sub-tropicais e polares por desse calor latente. A mesma quanti- Adaptado de Andrews et al., 1996.

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ção na superfície dos oceanos é domi-
O estuário como um grande reator químico nada por ventos que afetam uma ca-
O estuário é a conexão entre o continente e o oceano, sendo caracterizado mada de água de até algumas cente-
por uma região de mistura de águas com distintas composições químicas. As nas de metros levando, primariamen-
regiões estuarinas caracterizam-se pela diluição da água salgada, gerando te, à circulação horizontal, ou circula-
ção geostrófica (Open University,
grande variação na salinidade (e, conseqüentemente, na força iônica), isto é,
1995b). Esta circulação oceânica ilus-
de salinidade 35 na faixa oceânica (equivalente a cerca de 35 g de sais por kg
tra muito bem a forte interação que há
de solução), até virtualmente zero de salinidade no interior do rio. Na zona de
entre oceano e atmosfera. Como os
mistura de águas em estuários, o material coloidal é desestabilizado por ação
ventos e as águas na superfície se mo-
do gradiente de íons, flocula e acaba precipitando, fenômeno este que ocorre
vem relativamente devagar, o movimen-
principalmente em salinidades oscilando de zero até 5 formando, assim, zo-
to de rotação da Terra contribui para
nas de alta turbidez. Por ação das marés e da vazão do rio, este material
provocar a circulação da atmosfera e
particulado é ressuspenso num processo cíclico. Os estuários são caracteri-
do oceano. Essa força de rotação da
zados como sendo regiões de grande diversidade biológica, devido à riqueza Terra, que interfere na direção das cor-
da composição química das águas ali encontradas. Uma das maneiras clássi- rentes, é chamada de força de Coriolis.
cas de se investigar os processos químicos com respeito à conservação ou A Figura 1 mostra as principais cor-
não de espécies de interesse em regiões estuarinas é analisar como varia a rentes marinhas quentes e frias na su-
concentração desta espécie em função da salinidade, a qual é usada como perfície dos oceanos. É muito impor-
referência de diluição por se tratar de uma propriedade conservativa. tante enfatizar que as correntes mos-
tradas nesta figura são baseadas nas
Obs: É importante notar que a salinidade não tem unidade, pois atualmente médias de observações realizadas por
esta é avaliada pela razão de condutividade entre a amostra e uma solução períodos muito longos, e que variações
padrão. locais são muito freqüentes. Vemos
que tanto no norte do Atlântico como
20 no Pacífico as correntes seguem o sen-
perar que as regiões estuarinas, ou xo traz alguns exemplos do cálculo do tido horário, enquanto que no hemis-
seja, no encontro das águas interiores tempo de residência no oceano. fério sul, o sentido da circulação é anti-
(doce) com o oceano (água salgada) horário (isto se deve à força de
sejam caracterizadas por uma dinâmi- A circulação dos oceanos e a Coriolis). No Oceano Índico, a circula-
ca complexa sob o aspecto químico. transferência de calor ção é complicada pelas variações sa-
Estima-se que o volume de água que zonais dos importantes ventos Mon-
os rios lançam nos oceanos a cada A circulação dos oceanos é ções. Observando a Figura 1 fica evi-
ano seja da ordem de 3,6 x 1016 L, para provocada pela energia do sol, de for- dente, por exemplo, que a Corrente do
um volume de águas oceânicas de 1,4 ma direta e indireta, e pela rotação da Golfo leva águas mornas da região da
x 1021 L. Terra. Os ventos transferem sua ener- Flórida para o norte-nordeste do Atlân-
O tempo de residência de um íon gia para os oceanos, causando a mo- tico transportando, assim, uma gran-
majoritário num dado reservatório ser- vimentação das águas da superfície. de quantidade de calor, que vem ame-
ve como indicador para se entender Portanto, podemos dizer que a circula- nizar o clima do oeste Europeu.
os ciclos que atuam na coluna d’água
e suas interfaces, além de poder ser
usado como traçador de alterações Exemplo de como calcular tempo de residência
antrópicas, ou seja, aquelas causadas A concentração média do íon sódio (Na+) em água doce é de 0,23 x 10-3 mol L-1
pelo homem. O tempo de residência (Tabela 2). Assumindo-se que o volume de água doce lançado no oceano em
de uma dada substância ou espécie todo o planeta seja de 3,6 x 1016 L ano-1, qual o tempo de residência deste íon
química (íon) em um corpo aquático, na água do mar?
τ, é definido como sendo:
Sabendo-se que τ = A/F, será necessário calcular o estoque de sódio no oce-
τ = A/F ano e dividir este valor pelo fluxo (aporte) oriundo da água doce.
A = 1,4 x 1021 L (volume do oceano) x 0,47 mol L-1 (concentração média) = 644
onde τ é o tempo de residência (uni- x 1018 mol
dade de tempo), A é o estoque da es- F= 3,6 x 1016 L ano-1 x 0,23 x 10-3 mol L-1 = 8,28 x 1012 mol ano-1
pécie de interesse no corpo aquático
(em massa) e F é o fluxo de aporte (Fin) τ = 644 x 1018 mol/8,28 x 1012 mol ano-1 = 78 x 106 anos
ou da retirada (Fout) da espécie no sis-
tema sob estudo (em unidades de Este tempo de residência elevado permite que a concentração de sódio seja
massa/tempo), sendo que no estado homogênea em todo o oceano, independentemente da sua localização.
estacionário, Fin = Fout. O quadro abai-

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Figura 1: Principais correntes na superfície dos oceanos. 21

À medida que a massa d’água da das, isto poderia provocar uma diminui- do modelos matemáticos realizados
Corrente do Golfo vai sendo transpor- ção na densidade das massas de água por pesquisadores da Universidade de
tada para o norte, vai se tornando mais que atingem o norte do Atlântico. Devi- East Anglia na Inglaterra (http://
fria e mais densa, e acaba afundando do à sua baixa densidade, estas águas www.cru.uea.ac.uk/cru/info/thc), caso
até grandes profundidades (1000 – poderiam deixar de afundar, enfraque- haja um colapso da circulação
2000 m) provocando, assim, a movi- cendo a circulação termohalina. Segun- termohalina, em 30 anos poderia haver
mentação das águas profundas. Este
tipo de corrente é chamada de circu-
lação termohalina
termohalina, que é resultado do
gradiente de densidade que, por sua
vez, é conseqüência da combinação
entre a temperatura (“termo”) e a
salinidade (“haleto”) da água. A circu-
lação de águas profundas forma um
enorme “Cinturão Oceânico” (do inglês
Conveyor Belt), que move todo o oce-
ano (Figura 2; Millero, 1996). As cor-
rentes superficiais e profundas são as
grandes responsáveis pela distribuição
de calor nos oceanos e, conseqüen-
temente, em todo o planeta.
Sabemos que a temperatura média
do planeta vem aumentando, e se esta
subir o suficiente para derreter grandes
quantidades de gelo na região do Árti-
co, poderia haver um decréscimo na
salinidade da água do mar naquela re- Figura 2: Representação da grande circulação oceânica, com a cor clara representando
gião. Levando em conta também o fato temperaturas mais elevadas na superfície das águas, enquanto a cor escura representa a
das temperaturas estarem mais eleva- circulação profunda, com temperaturas mais baixas.

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um decréscimo de cerca de 8 oC na re- medida que “mergulhamos” em dire- fenômeno não é exclusivo dos ocea-
gião da Groenlândia e cerca de 2 o C ção ao fundo dos corpos aquáticos. A nos, e ocorre de modo muito similar
em grande parte da Europa. Isto pode- Figura 3 mostra a temperatura das em lagos relativamente profundos
ria ser traduzido em um decréscimo de águas de acordo com a profundidade (> 10 m), ou naqueles que, embora
3 a 5 oC na temperatura, o que seria em uma seção do Oceano Pacífico, rasos, ficam protegidos da mistura
equivalente a 30 ou até 50% da queda que vai desde a região da Antártida até causada pelo vento.
de temperatura que ocorreu nas maio- perto do Alaska (fonte: http:// Abaixo da camada de mistura, a tem-
res glaciações que já houve. Desta for- probbins.ucsd.edu/sio210/yr2001/ peratura decresce rapidamente até apro-
ma, fica estabelecido um paradoxo, thermo/p16_ptem.gif). ximadamente 1000 m de profundidade,
pois um aquecimento global poderia É muito fácil entendermos que a formando a chamada termo clina (Figu-
termoclina
levar a um clima mais frio. temperatura da água em qualquer cor- ra 4). Em latitudes mais baixas (trópicos),
Vemos portanto que os oceanos, po aquático profundo onde a variação de
além de terem uma enorme capacida- decresce com a profun- temperatura atmosféri-
O elevado calor
de térmica (devido ao alto calor espe- didade, visto que a con- ca durante o ano é re-
específico da água faz
cífico da água), são os principais res- dução de calor ocorre lativamente pequena, a
com que apenas 2,5 m
ponsáveis pelo transporte de calor ao de forma muito lenta. termoclina é permanen-
de coluna d’água do
redor do planeta (calor latente de va- Portanto, as camadas te, isto é, há uma estra-
oceano seja equivalente
porização e correntes marinhas), o que superiores de água, que tificação permanente da
à toda capacidade
vem demonstrar sua grande importân- recebem maior insola- coluna d’água, que im-
calorífica da atmosfera
cia na estabilização do nosso sistema ção, mantém uma tem- pede a mistura entre
que está sobre o oceano.
climático. peratura mais elevada as camadas de água
que as camadas infe- (pois estas apresentam
Distribuição da temperatura nos riores, com exceção das regiões pola- densidades distintas). Abaixo da
corpos aquáticos res, onde a insolação é muito baixa. zona profunda
termoclina (zona profunda) a tempera-
Além da temperatura, a ação dos ven- tura decresce muito lentamente até o
22 Já discutimos sobre a distribuição tos é também de suma importância leito do oceano. Essa pequena variação
de calor na superfície dos oceanos, para manter a camada superior de de temperatura nas águas profundas
mas agora temos que entender como água bem misturada, formando assim ocorre em todo o oceano e independe
é a distribuição do calor nas águas à a chamada camada de mistura
mistura. Este da estação do ano.
Com a entrada do outo-
no nas regiões temperadas,
a camada de água da su-
perfície começa a resfriar,
levando a um aumento da
sua densidade. Tal aumen-
to da densidade faz com
que essa massa de água
afunde, provocando então
uma mistura da coluna
d’água, com conseqüente
quebra parcial da termo-
clina (Figura 4). No inverno,
além das grandes turbulên-
cias provocadas pelas tem-
pestades, a densidade da
água superficial chega a
seu máximo (devido à gran-
de perda de calor), afun-
dando para profundidades
ainda maiores (100 – 300
m), atingindo assim o má-
ximo de quebra da ter-
moclina sazonal (Open
Univesity, 1995a). Note que
este tipo de circulação ver-
Figura 3: Isotermas das águas do Oceano Pacífico na longitude de 150oW, iniciando em latitude de tical é bastante distinto dos
aproximadamente 63 oS (perto da Antártida – km zero) e finalizando em cerca de 55oN, já próximo do outros tipos de circulação
Alaska (~13.500 km de percurso). anteriormente menciona-

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para as atividades antrópicas, foram
produzidos por organismos fotos-
sintéticos há milhões de anos. A
produtividade primária refere-se ao
acúmulo de biomassa de plantas com
o tempo, que ocorre pelo processo
fotossintético. Portanto, a produtividade
primária é quantificada pela massa de
carbono orgânico fixado em uma
determinada área (no caso de plantas
terrestres) ou volume de água, dentro
de um certo período de tempo. Nós
veremos mais adiante que a produ-
tividade primária tem grande influência
sobre a atmosfera e o clima da Terra.
Se para ocorrer a fotossíntese é in-
dispensável a presença de luz, então é
Figura 4: Detalhe da quebra gradual da termoclina em regiões temperadas, de acordo óbvio que este processo só poderá
com o mês do ano no Hemisfério Norte. ocorrer na zona fótica (ou eufótica, com
luz) que vai de 100 a 200 m de profun-
dos. A circulação vertical ocorre de matéria orgânica particulada, isto é, em didade no oceano, e até 10-20 m em
forma sazonal, e restringe-se a apenas tecido vegetal. Foi observado que o águas interiores. É nessa zona que
algumas centenas de metros nas tecido do fitoplâncton marinho possui ocorre grande consumo de nutrientes
regiões oceânicas temperadas, pois em média a proporção atômica C:N:P pelo fitoplâncton. É interessante obser-
são nessas regiões que ocorrem as de 106:16:1, chamada de razão de var que os oceanos são relativamente
grandes variações anuais de tempe- Redfield, o qual propôs a seguinte pobres em nitrogênio, enquanto que
23
ratura. estequiometria de reação para o pro- águas doces têm deficiência de fósfo-
cesso de fotossíntese: ro. Como mostrado na Figura 5a, em
Produtividade primária, distribuição águas oceânicas, nas primeiras deze-
de nutrientes e oxigênio na hidrosfera 106 CO2 + 16 NO3- + HPO42- + 122 H2O nas de metros da coluna d’água, parte
+ 18 H+ + luz dos nutrientes “retorna” para a forma
Embora vários elementos sejam ⇔ C106H263O110N16P + 138 O2 dissolvida pelo processo de decompo-
necessários para manter a vida, o ter- sição do ma-
nutrientes
mo “nutrientes
nutrientes” tem sido tradicional- Esta reação no sentido inver- terial morto e
Caso haja um colapso da dejetos mas,
mente utilizado para designar nitrogê- so representa o processo de res-
circulação termohalina, visto que a
nio, fósforo e silício. Estes nutrientes piração ou de decomposição da
em 30 anos poderia reciclagem
são também chamados de biolimi- matéria orgânica. Silicato é utili-
haver um decréscimo de de nutrientes
tantes, isto é, limitantes da vida. zado por alguns organismos,
cerca de 8 oC na região na zona fótica
A grande maioria dos organismos particularmente diatomáceas
da Groenlândia e cerca não é 100%
vegetais microscópicos que compõem (fitoplâncton) e radiolárias
de 2 oC em grande parte eficiente, uma
o primeiro elo da cadeia alimentar em zooplâncton – pequenos ani-
(zooplâncton
da Europa. parte da ma-
águas é chamada de fitoplâncton
fitoplâncton. mais sem locomoção própria)
Uma série de micronutrientes conten- para a formação do esqueleto ou téria orgânica
do, por exemplo, ferro, cobre e zinco, conchas (Libes, 1992). particulada afunda para águas mais
também são es- A fotossíntese pode ser zona afótica
profundas (zona afótica- sem luz). Por-
senciais para o definida como o processo tanto, a concentração de nutrientes vai
A Corrente do Golfo leva
metabolismo físico-químico pelo qual aumentando com a profundidade, pois
águas mornas da região
adequado do fito- plantas, algas e certas na zona afótica estes já não são mais
da Flórida para o norte-
plâncton. Nitrato espécies de bactérias usam consumidos, predominando apenas o
nordeste do Atlântico,
e fosfato, além de energia solar para sintetizar processo de decomposição da maté-
transportando, assim,
dióxido de carbo- compostos orgânicos. É o ria orgânica. Uma pequena quantida-
uma grande quantidade
no e água, são in- processo de fotossíntese que de de material particulado atinge as re-
de calor, que vem
corporados pelo fornece a energia necessária giões mais profundas, e por isto a con-
amenizar o clima do
fitoplâncton du- para a manutenção de pra- centração de nutrientes não continua
oeste Europeu.
rante o processo ticamente toda a vida na aumentando indefinidamente. A ausên-
de fotossíntese, Terra. Até mesmo os com- cia do processo fotossintético na zona
que transforma compostos bustíveis fósseis, que são tão indis- afótica impede a produção de oxigê-
inorgânicos dissolvidos na água, em pensáveis hoje para fornecer energia nio, restando apenas o processo de

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consumo de oxigênio durante a oxida- dissolvido nos oceanos por simples di- abundância de luz, devido ao esgota-
ção da matéria orgânica (Figura 5a). O fusão. mento de nitrogênio (primeiro nutrien-
processo de fotossíntese nos oceanos Como nenhuma reciclagem é 100% te a ser esgotado). Na chegada do ou-
é responsável pela supersaturação de eficiente, uma fração tono, a temperatura at-
oxigênio na água em cerca de 3% nos dos nutrientes produzi- mosférica começa a
Quanto maior a
primeiros metros da coluna d’água, atin- dos também “escapa” declinar e, com as tem-
exportação de carbono
gindo cerca de 10% de supersaturação da zona fótica, e é pestades, a termoclina
orgânico para o
em 50-70 m de profundidade (Millero, transportada na forma é parcialmente destruí-
sedimento, maior será
1996), mas em água doce pode atingir particulada para águas da. Assim, há uma pe-
consumo de CO2 da
facilmente 150% na superfície de cor- mais profundas. Este quena injeção de nutri-
coluna d’água e,
pos hipereutrofizados. nutriente vai sendo entes de volta para a
conseqüentemente, mais
A Figura 5b mostra que para cada redissolvido e, no inver- zona fótica, causando
CO2 da atmosfera poderá
100 unidades de carbono fixado na no, nas regiões tempe- uma segunda floração
ser dissolvido nos
forma de carbono orgânico, 10 unida- radas, o aumento da do fitoplâncton (porém
oceanos por simples
des atingem profundidades maiores, densidade da água na menos intensa), pois
difusão.
e menos de 1% é “enterrado” no sedi- superfície provoca a ainda há luz suficiente.
mento (Open University, 1995a). Ain- mistura das águas su- Com a entrada do in-
da que pareça pequena, esta expor
expor-- perficiais (quebra da termoclina), pro- verno, o nível de luz cai drasticamen-
tação de carbono orgânico para o se- movendo a reintrodução de nutrientes te, levando a uma grande diminuição
dimento é de suma importância, pois para a zona fótica (Figura 6; Libes, da taxa de crescimento do fitoplâncton.
este carbono se refere ao CO2 que es- 1992). Porém, nesta época do ano, o Em águas interiores, este fenôme-
tava dissolvido na água da superfície crescimento fitoplanctônico é limitado no também ocorre, mas com algumas
do oceano. Quanto maior a exporta- pela baixa quantidade de luz disponí- peculiaridades. Em lagos profundos ou
ção de carbono orgânico para o sedi- vel. Como a população de fitoplâncton mesmo naqueles mais protegidos de
mento, maior será o consumo de CO2 é baixa, isto também irá limitar a po- ventos, a estratificação térmica faz com
24 da coluna d’água e, conseqüentemen- pulação de zooplâncton. Quando a in- que as águas do fundo, quase sempre
te, mais CO2 da atmosfera poderá ser tensidade luminosa aumenta no início mantidas no escuro, também sejam re-
da primavera, a taxa de crescimento novadas por convecção no início do ou-
do fitoplâncton é bastante rápida (cha- tono, quando as temperaturas mais bai-
mada de floração), provocando tam- xas resfriam as camadas superiores
a bém o crescimento da destes corpos aquáticos, conforme já
população de zooplânc- discutido. A água mais fria (e mais den-
ton (consumidores). Du- sa) afunda, trazendo as águas do fun-
rante o verão, a produti- do do lago agora ricas em nutrientes
vidade primária é bas- que foram exportados pelo sedimento,
tante baixa, apesar da o qual está normalmente sob anoxia. E

b

Figura 5: Ilustração esquemática da: a) produção e mineralização da matéria orgânica no oceano com a profundidade e b) reciclagem e
transporte de carbono orgânico fixado para o sedimento marinho.

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assim, o ciclo biológico de assimilação durante todo o ano (Andrews et al., demos observar um incremento na pro-
de carbono ocorre em todos os reser- 1996). Isto ocorre porque a estra- dutividade primária devido à quebra sa-
vatórios da hidrosfera abertos para a at- tificação térmica não é quebrada duran- zonal da termoclina em regiões tempe-
mosfera, com grande quantidade de flu- te o ano, causando uma deficiência de radas e à ausência total da termoclina
xo de matéria nesta interface. nutrientes permanente. Uma exceção a nas regiões polares.
Neste exemplo, ilustrado na Figura esta regra ocorre na região equatorial
6, podemos perceber claramente que do Pacífico, próximo à costa do Peru. Fluxos na interface água-ar
o fenômeno físico de diminuição da Ali existe um fenômeno hidrodinâmico
temperatura levou a uma drástica mu- (ressurgência) que bombeia águas pro- A interface água-ar é uma região
dança na composição química das fundas para a superfície, promovendo muito dinâmica, onde a troca de ener-
águas daquela região oceânica (dis- um enriquecimento nutritivo dessas gia e de matéria ocorrem continuamen-
tribuição de nutrientes) que, por sua águas, que eleva a atividade biológica. te. Muito embora para todos nós a per-
vez, causou grande alteração no ciclo À medida que a latitude aumenta, po- cepção do fluxo de energia nesta
biológico. Vemos que não é possível
entender a composição química da
água do mar (ou dos sedimentos ma-
rinhos) sem considerar os processos
biológicos. Já podemos entender
como o fluxo de carbono orgânico
(produzido biologicamente) para o fun-
do do oceano pode controlar a con-
centração de CO2 na atmosfera. A prin-
cipal explicação para as baixas con-
centrações de CO2 na atmosfera du-
rante os períodos glaciais é, justamen-
te, maior exportação de carbono para
25
o sedimento.
A produtividade primária líquida
refere-se à diferença entre o carbono
fixado pela fotossíntese e aquele emi- Figura 6: Variações sazonais na concentração relativa de nutrientes, fitoplâncton e de
tido pela respiração. Hoje, estima-se consumidores heterótrofos (bactérias, protozoários e zooplâncton) em águas oceânicas
que a produtividade primária líquida temperadas.
total (marinha e terrestre) é
de 105 GtC (gigatonelada de
carbono) por ano, sendo que
46% se refere à produtivida-
de oceânica (Field et al.,
1998). Dos estimados 5,5 GtC
emitidos para a atmosfera a
cada ano por meio da quei-
ma de combustíveis fósseis,
os oceanos são responsá-
veis pela absorção de cerca
de 35% deste total. Porém,
nos oceanos, a produtivida-
de primária é muito variável.
Visto que a costa oceânica
recebe grandes incrementos
de nutrientes pelo transporte
de águas fluviais ricas em nu-
trientes, e como estas águas
permanecem bem mistura-
das o ano todo, nessa região
há uma elevada produtivida-
de primária (Figura 7).
Em águas tropicais e
equatoriais, a baixa produtivi- Figura 7: Distribuição da produtividade primária média nos oceanos em 1998, obtida pelo satélite
dade é praticamente uniforme SeaWiFES. (fonte: NASA)

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interface seja algo muito natural (vide na atmosfera, Caq - a concentração da rado, poderia ser causada pela escas-
a luz solar e a fotossíntese, por exem- espécie na água e KH, a constante de sez de elementos traços ou compos-
plo), o fluxo de espécies gasosas tem Henry. A Tabela 3 mostra alguns resul- tos orgânicos. Mas, só no final da dé-
sido muito pouco estudado. Gases tados de fluxo de CO2 obtidos nos re- cada de 80 (com o avanço da Quími-
biogênicos, gerados ou consumidos servatórios de três usinas hidrelétricas ca Analítica), é que foi levantada a hi-
por atividade biológica (respiração e do Estado de São Paulo. Estas medi- pótese de que o elemento ferro pode-
fotossíntese, por exemplo) como o CO2 das são quase sempre feitas com o ria ser o micronutriente limitante. Foi
e O2, causam um desequilíbrio de con- auxílio de câmaras colocadas sobre a então estabelecida pelo cientista ame-
centração na fase aquosa, fato este superfície da água, monitorando-se o ricano John H. Martin, a chamada “hi- hi-
que se reflete na trans- gás de interesse no in- pótese do ferro
ferro” (Boyd e Law, 2001).
ferência de massa nes- terior da mesma, em Em 1986 ele disse a célebre frase: “Dê-
Dos estimados 5,5 GtC
ta interface. intervalos de tempo me meio cargueiro de ferro que eu te
emitidos para a
De acordo com a pré-estabelecidos. darei uma nova era glacial”. A partir
atmosfera a cada ano por
Lei de Henry
Henry, todo cor- É interessante ob- desta data, vários experimentos in vitro
meio da queima de
po aquático tende a servar que, enquanto e in situ foram idealizados para se tes-
combustíveis fósseis, os
entrar em equilíbrio os reservatórios de tar esta hipótese.
oceanos são
com a atmosfera exis- Bariri e Barra Bonita são Os primeiros experimentos em lar-
responsáveis pela
tente sobre ele, o que corpos emissores de ga escala foram o IronEx I e IronEx II
absorção de cerca de
implica em dizer que os dióxido de carbono, o (abreviação de Iron Experiement), rea-
35% deste total.
gases presentes na reservatório de Promis- lizados nas águas do Pacífico Equato-
fase gasosa irão se dis- são atua como um rial, onde foram introduzidas algumas
solver na fase aquosa, sendo que a absorvedor (sumidouro ou túmulo) de toneladas de sulfato ferroso, acompa-
concentração esperada na fase líqui- CO2. Esta diferença de comportamen- nhando as respostas química e bioló-
da é dada por: to quanto ao CO2 é fruto da atividade gica que se seguiram. Sete dias após
biológica existente nos reservatórios, a introdução de ferro (IronEx II), a con-
26 CA = KH pA onde a predominância da respiração centração de CO2 na superfície da
sobre a fotossíntese gera corpos aquá- águas decresceu de 530 µatm para
onde CA é a concentração (atividade) ticos super-saturados com respeito a aproximadamente 420 µatm devido à
da espécie A na fase líquida, KH é a este gás. atividade fotossintética, ou em outras
constante de Henry e pA é a pressão palavras, a adição de meia tonelada
parcial da espécie A. É intuitivo assu- A fertilização dos oceanos por ferro de ferro resultou na retenção de 100
mir que se um gás está sendo gerado toneladas de CO2 (Coale et al., 1996).
na fase líquida e esta vai se tornando Com base na Figura 7, vemos que Em fevereiro de 1999 foi realizado
super-saturada com respeito a este gás, há uma elevada produtividade primá- o experimento “S S outhern O cean I ron
o mesmo tende a fluir para a atmosfe- ria nas regiões polares, porém, desde RE
RElease E xperiment” (SOIREESOIREE
SOIREE) nas
ra, num fluxo chamado evasivo (com os anos 20 foi observado que, nessas águas próximas do continente Antárti-
respeito ao corpo aquático). No entan- regiões, há concentra- co, cuja concentração
to, se num corpo iluminado a fotos- ção suficientemente inicial de ferro era de
“Dê-me meio cargueiro
síntese consome muito do CO2 dissol- elevada de nutrientes 0,08 nmol L-1 (Boyd e
de ferro que eu te darei
vido, a fase aquosa tende a ficar insa- para manter uma pro- Law, 2001). Neste ex-
uma nova era glacial”.
turada com respeito a este gás, e é de dutividade muito mai- perimento, em uma
John H. Martin
se esperar que, para compensar esta or, ainda que levando área de 50 km2 foram
insaturação, haja um fluxo invasivo do em consideração as li- adicionadas 4 tonela-
gás para a fase aquosa. De acordo com mitações impostas pela luz e pela das de FeSO4 (correspondente a 3,8
a primeira lei de difusão molecular de pressão dos consumidores. Já nos nmol L-1 Fe na camada de mistura de
Fick
Fick, o fluxo de massa na interface anos 30 foi levantada a hipótese de 65 m) e depois mais 1,5 toneladas no
água-ar é movido pela diferença de que a produtividade, abaixo do espe- 3o, 5o, e 7o dia do experimento. No 13o
concentração, de acordo com:
Tabela 3: Fluxos de CO2 medidos em reservatórios de usinas hidrelétricas no Estado de
F = -K (Catm/KH – Caq.)
São Paulo. O total de CO2 emitido foi estimado pelo produto do fluxo médio pela área da
represa.
onde F é o fluxo de massa numa dada
área e num período de tempo, o sinal Reservatório Fluxo Médio Total Emitido
(mg CO2 m-2 dia –1) (toneladas de CO2 dia-1)
menos indica que o mesmo ocorre no
sentido ar-água, K é a chamada cons- Barra Bonita + 4.080 + 1265
tante de transferência (função da Promissão – 1328 – 704
temperarura, turbulência na interface, Bariri + 6.117 + 385
etc), Catm - a concentração da espécie Adaptado de Furtado, 2001.

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dia, a biomassa fitoplanctônica aumen- portação de carbono para o sedimen- águas superficiais faz com que a cada
tou 6 vezes, e houve uma importante to. Portanto, o efeito da fertilização por dia diminua o número de mananciais
alteração na distribuição da população ferro nos oceanos po- que podem ser usados
de diferentes espécies de fitoplâncton deria ser apenas tran- para suprir a demanda
na região. Neste experimento, houve sitório, sem resultar na Impossível pensar num imposta pela crescente
a remoção de 2000 toneladas de CO2 perda efetiva de CO2 desenvolvimento população, aumentando
harmonioso, em termos
da atmosfera, sendo que depois de da atmosfera. Mode- os custos para torná-la
de sustentabilidade, sem
mais de 40 dias da fertilização, a los matemáticos ela- adequada aos seus vá-
pensar na preservação e
biomassa fitoplanctônica ainda era ele- borados a partir dos rios usos.
na exploração racional
vada. Poderíamos então dizer que or- resultados observados de todos os recursos Por outro lado, o
ganismos microscópicos dos oceanos no SOIREE sugerem hídricos no nosso oceano confina mais do
poderiam regular o sistema climático que, se o carbono in- planeta. que 97% da água da
do nosso planeta? corporado pelo fito- Terra, mas para os se-
A grande questão que ainda não foi plâncton naquele ex- res humanos o fato des-
respondida é: este carbono orgânico perimento permanecer na superfície do ta água não poder ser usada tal qual
fixado durante a floração do fitoplâncton oceano, em cerca de 12 meses este devido à sua alta salinidade, faz com
vai ser enterrado no fundo do oceano, retornará na forma de CO2 para a at- que este reservatório seja relegado a
ou vai apenas ser reciclado na coluna mosfera. um segundo plano no tocante a sua
d’água? Embora no início do experi- conservação. No entanto, foi mostra-
mento tenha sido observado que o Conclusões do que seu papel é fundamental na
crescimento do fitoplâncton foi mais efi- manutenção e no controle do clima
ciente do que o crescimento do zoo- Fica evidente que o nosso planeta planetário, seja pelas correntes mari-
plâncton, havendo um desequilíbrio, em tem um estoque imenso de água, um nhas ou pelo aprisionamento do car-
um tempo maior es- composto tão simples bono, além de ser o grande responsá-
pera-se que o equilí- sob o ponto de vista quí- vel pelo estoque de biomassa que su- 27
brio seja novamente Nas águas próximas ao mico, mas muito impor- pre grande parte das necessidades de
atingido, e todo o continente Antártico, a tante no controle de vári- alimentos para a humanidade. Impos-
fitoplâncton produzido adição de 4 toneladas de os parâmetros que afe- sível pensar num desenvolvimento har-
seja consumido. Por ferro levou à remoção de tam diretamente a nossa monioso, em termos de sustentabili-
2000 toneladas de CO2
este motivo, alguns ci- qualidade de vida. Muito dade, sem pensar na preservação e
da atmosfera.
entistas acreditam embora a água doce seja na exploração racional de todos os re-
que, mesmo que haja essencial para a manu- cursos hídricos no nosso planeta.
um aumento da produtividade primá- tenção da nossa vida, seu estoque no
Maria Lúcia A. M. Campos é professora Doutora do
ria, haverá um aumento da pastagem planeta é pequeno, e tem dado mos- Departamento de Química, Faculdade de Filosofia
(consumo) pelo zooplâncton na mes- tras de que embora seja um recurso Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de
ma proporção, apenas aumentando a renovável, não pode ser confundido São Paulo, 14040-901, Ribeirão Preto, SP.
lcampos@ffclrp.usp.br. Wilson F. Jardim - Instituto de
quantidade de nutrientes reciclados, com um recurso inesgotável. O desca- Química, UNICAMP. Caixa Postal 6154, 13084-971
sem necessariamente aumentar a ex- so com a preservação da qualidade das Campinas, SP.

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