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Jackson Gois e Marcelo Giordan

Neste trabalho, apresentamos uma discussão a respeito dos processos de significação de representações
químicas na sala de aula a partir da contribuição da teoria semiótica de Peirce. Também neste trabalho discutimos
a contribuição das representações computacionais nos processos de significação na sala de aula de Química.
Com esta reflexão, queremos amparar o desenvolvimento de ambientes virtuais de Ensino de Química em
base teórica que nos permita conjugar aspectos epistemológicos da Química com os fundamentos da teoria
dos signos na direção de problematizar a produção de significados na sala de aula.


Semiótica, representação estrutural, significação

Recebido em 10/10/06; aceito em 18/10/07
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A
utilização apropriada de sim- que ocorrem em atividades de ensino chusetts, e é considerado o mais
bologias, desenvolvidas ao na sala de aula de Química. importante dos fundadores da moder-
longo de séculos, constitui Temos como objetivo neste texto na teoria geral da semiótica (Nöth,
uma parte significativa do conheci- trazer uma compreensão mais apro- 2005). Seus escritos têm recebido
mento químico por ser uma ciência fundada a respeito dos processos de atenção internacional por mais de um
que trata da matéria em uma escala significação de re- século e contribuíram
submicroscópica ou nanoscópica. presentações quími- No sentido de substancialmente pa-
A despeito da importância do uso cas na sala de aula compreender as relações ra a base do pensa-
apropriado das simbologias químicas a partir da contri- de significação de mento científico mo-
no âmbito da sala de aula de Química, buição da teoria se- representações próprias derno (Peirce, 1981).
é freqüente a dificuldade por parte de miótica de Peirce. grafadas e faladas que têm Seu pai, Benjamin
estudantes sobre a compreensão e Também temos co- lugar na sala de aula de Peirce, foi um distinto
o uso desses símbolos, o que é mo objetivo discutir Química, descrevemos as professor de Mate-
apoiado pelo estudo das concepções a contribuição das bases da teoria semiótica mática na Universida-
alternativas de estudantes de Ensino representações de Charles Peirce de de Harvard, sendo
Médio e Superior. computacionais nos considerado o mais
No sentido de compreender as re- processos de significação na sala de importante matemático norte-ame-
lações de significação de represen- aula de Química. Com esta reflexão, ricano em sua época. Sua família
tações próprias grafadas e faladas queremos, portanto, amparar o de- mantinha proximidade dos círculos
que têm lugar na sala de aula de Quí- senvolvimento de ambientes virtuais acadêmicos e científicos, e em sua
mica, descrevemos neste trabalho as de Ensino de Química em base teó- casa eram recebidos os mais reno-
bases da teoria semiótica de Charles rica que nos permita conjugar aspec- mados artistas e cientistas, de forma
Peirce e sua contribuição para a com- tos epistemológicos da Química com que desde criança Peirce já convivia
preensão dos processos de significa- os fundamentos da teoria dos signos num ambiente de natural inclinação
ção desse ambiente de ensino. Essa na direção de problematizar a produ- intelectual. Tinha aspirações ao co-
teoria trata explicitamente a relação ção de significados na sala de aula. nhecimento químico desde os seis
entre as representações e seus “mo- anos de idade e aos onze anos escre-
tores de significação”, o que é impor- Peirce: uma breve biografia veu uma pequena História da Quími-
tante para a compreensão dos pro- Charles Sanders Peirce (1839- ca.
cessos de ensino e aprendizagem 1914) nasceu em Cambridge, Massa- Por influência de seu pai,

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bacharelou-se em Física e Matemá- ve o seu inicio com o filósofo John conhecimento humano, em especial
tica na Universidade de Harvard, em Locke (1632-1704), que postulou uma nos processos de significação.
1859, e se graduou em Química com “doutrina dos signos” com o nome de
a qualificação summa cum laude Semeiotiké, em 1690, na sua obra A tríade signo, objeto e interpretante
(aprovado com louvor) na Lawrence Essay on human understanding (Nöth, A teoria semiótica de Peirce pro-
Scientific School em 1863 (Sebeok e 2005). Charles Sanders Peirce, no põe que o conhecimento humano po-
Sebeok, 1987). Peirce se considerou entanto, deu a contribuição de maior de ser representado por uma tríade:
químico por muito tempo durante sua peso para essa ciência que foi a últi- signo, objeto e interpretante. De acor-
vida, mesmo quan- ma ciência humana a do com o próprio Peirce, um signo é
do sua busca cientí- A Semiótica é a ciência dos ser estabelecida co- tudo aquilo que representa algo para
fica o levou para ou- processos significativos, mo área de conheci- alguém como, por exemplo, sinais es-
tras áreas do conhe- dos signos lingüísticos e mento no início do critos ou gestuais, desenhos, símbo-
cimento (Peirce, das linguagens. Esses século XX. los, situações ou imagens. Dentro da
1981). Além da Quí- processos significativos são A semiótica, que idéia da tríade, o signo é tudo aquilo
mica, ele tinha inte- mediados pela também tem por que está relacionado com uma se-
resse em várias ou- materialidade da palavra objeto de estudo to- gunda coisa e que a representa. Essa
tras áreas do conhe- grafada ou falada, de das as linguagens segunda coisa que é representada
cimento como Mate- símbolos escritos, gestuais possíveis (Santaella, pelo signo é chamada de objeto, a
mática, Física, As- ou naturais, e acontecem 2005), traz importan- qual pode existir concretamente ou
tronomia, Biologia, sempre que alguma coisa tes contribuições pa- não. A palavra “béquer” pode ser
Economia, Geodé- significa algo para alguém ra o entendimento do citada como exemplo de signo que
sica, Topografia, Car- papel da linguagem tem um objeto com existência con-
tografia, Lingüística, Filologia, His- nas ações humanas. Nesse ponto, creta. Quando essa palavra (signo) é
tória, Arquitetura, Artes Plásticas, Qui- não se deve confundir linguagem com lida, a mente do leitor é levada a ima-
rografia, Línguas (conhecia cerca de língua. Por língua, pode-se entender ginar um artefato vítreo de forma
dez), Psicologia e era um profundo a língua nativa, materna ou pátria, utili- aproximadamente cilíndrica aberto na
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conhecedor de Literatura. Trabalhou zada cotidianamente para a comuni- parte de cima e fechado na parte de
a maior parte de sua vida profissional cação de forma escrita e oral. No baixo. Na teoria semiótica, esse arte-
a serviço do governo federal em As- entanto, essa comunicação também fato é denominado de objeto. Por
tronomia e Geodésica durante o dia pode acontecer por intermédio de outro lado, a palavra “saudade” pode
e, de 1861 a 1891, no observatório outras linguagens como imagens, ser citada como exemplo de signo
da Universidade de Harvard durante gráficos, sinais, luzes, fenômenos na- que tem um objeto com existência
a noite (Santaella, 2005). O centro de turais, por meio do cheiro e do tato, e abstrata, pois ela leva a mente do
todo o interesse de Peirce era a Ló- muitas outras formas que constituem leitor a um sentimento relacionado à
gica, que ele considerava ser apenas diferentes formas de linguagens. ausência de alguém ou algo.
um outro nome da Semiótica. Con- De uma forma especial, o estudo A mediação é a principal caracte-
forme veremos abaixo, sua formação do fenômeno de promoção de signi- rística dos signos, pois eles se colo-
básica e inicial em Química provavel- ficado é importante para uma melhor cam entre o sujeito e o mundo tanto
mente contribuiu de maneira substan- compreensão das ações que ocor- para organizar atividades de produ-
cial para o desenvolvimento de sua rem no ambiente de ensino, media- ção material e simbólica, quanto para
teoria semiótica. das principalmente pelo uso da língua estruturar o pensamento. Ainda de
materna, mas também por um con- acordo com Peirce, o signo dirige-se
A Semiótica junto de simbologias a alguém, isto é, cria
A Semiótica é a ciência dos pro- próprias das dife- A teoria semiótica de na mente dessa pes-
cessos significativos (semiose), dos rentes áreas de co- Peirce propõe que o soa um signo equi-
signos lingüísticos e das linguagens nhecimento e por conhecimento humano valente ou mais de-
(Nöth, 2005). Esses processos signi- diferentes agentes pode ser representado por senvolvido, deno-
ficativos são mediados pela materia- presentes na situa- uma tríade: signo, objeto e minado interpretan-
lidade da palavra grafada ou falada, ção de ensino. Pelo interpretante te, que está relacio-
de símbolos escritos, gestuais ou na- fato de a Química nado aos construtos
turais, e acontecem sempre que algu- utilizar uma linguagem escrita e falada teóricos existentes nas mentes de
ma coisa significa algo para alguém tão relacionada com o uso de sim- quem pratica as mais variadas formas
(Peirce, 2005). Dessa forma, além de bologias exclusivas ou compartilha- de conhecimento. Nos exemplos
ser necessário que haja uma veicula- das por outras áreas das ciências citados acima, as palavras “béquer”
ção material do signo, é necessário exatas, é importante a utilização de e “saudade” criam na mente do leitor
também que este seja percebido e uma abordagem que considere expli- as idéias respectivas relacionadas a
compreendido por um ser vivo. citamente o papel da mediação dos essas palavras. Dessa maneira, o
Essa ciência propriamente dita te- signos lingüísticos na constituição do signo, o seu objeto e o interpretante

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criado na mente das pessoas formam Já o estudo do signo em relação propósito dessas relações para fins
uma tríade, a partir da qual podem ao seu objeto descreve de que forma de organizar ações no coletivo, entre
ser mais bem compreendidos os pro- o signo promove seu significado (Peir- outros fatores (Giordan, 2006).
cessos de significação. ce, 2005). Como veremos adiante, na Considerando as relações do sig-
Ainda de acordo com Peirce, cada sua especificidade, o conhecimento no com seu objeto, existem três tipos
signo cria um interpretante que, por químico dispõe de formas gráficas e de signo: ícone, índice e símbolo
sua vez, é representamen de um novo fonéticas peculiares que são usadas (Peirce, 2005). Os signos que têm o
signo, de forma que a semiose resulta quando lidamos com poder de significa-
numa série de interpretantes suces- a interpretação de Do ponto de vista de sua ção por ostentar al-
sivos, ad infinitum. Não haveria ne- fenômenos da trans- relação com os próprios guma semelhança
nhum primeiro nem um último signo formação dos mate- elementos da tríade com o seu objeto,
nesse processo de semiose ilimitada riais. O modo como peirceana, os signos semelhança essa vi-
(Peirce, 2005). Nem por isso, entre- essas representa- podem ser classificados em sual ou de proprie-
tanto, a idéia de semiose infinita impli- ções promovem três possíveis grupos: signo dades, são chama-
ca num circulo vicioso ou auto-refe- seus significados e a em si mesmo ou dos de ícones. Co-
rente. Ao contrário, esse processo compreensão das primeiridade; sua relação mo exemplo de
sucessivo estaria se referindo à idéia ações que tem lugar com seus objetos ou ícone dentro do co-
de dialogia no pensamento – diálogo durante o desenvolvi- secuntidade; sua relação nhecimento químico,
este entre as várias fases do ego –, mento das atividades com seus interpretantes ou podemos sugerir a
de maneira que, sendo dialógico, o de ensino são terceiridade utilização de um
pensamento se comporia essencial- questões importan- ‘objeto molecular’
mente de signos. Como cada pensa- tes no ensino da Química, em espe- concreto do tipo bola-vareta de uma
mento tem de dirigir-se a um outro, o cial quando a natureza dessas repre- espécie química qualquer como, por
processo contínuo de semiose (ou sentações é circunscrita às suas fun- exemplo, a água, no contexto de uma
pensamento) só poderia ser interrom- ções de mediação e de constituição aula sobre a descontinuidade da
36 pido, mas nunca realmente finalizado. do conhecimento. matéria. No mesmo instante em que
Na vida cotidiana, devido às exigên- Além disso, o campo coletivo na o professor utilizar esse tipo de recur-
cias práticas das realizações pesso- situação de ensino e aprendizagem, so em sua aula, a atenção do estu-
ais ou sociais, as séries de idéias não ou seja, a parte que pertencente tanto dante será dirigida para as esferas
continuariam de fato ad infinitum, mas ao professor quanto ao estudante distintas, talvez com colorações dife-
tecnicamente a seqüência da semio- também está no âmbito das relações rentes, e ligadas entre si. Esse tipo
se seria sempre possível (Nöth, 2005, entre os signos e seus objetos, pois de representação tem a intenção
p. 72). os interpretantes estão nas mentes de explícita de enfatizar duas proprie-
Do ponto de vista de sua relação cada participante da situação de sala dades: a descontinuidade da matéria
com os próprios elementos da tríade de aula, de forma que a relação entre nas unidades discretas da molécula,
peirceana, os signos podem ser clas- o signo e o interpretante pertence bem como a tridimensionalidade do
sificados em três possíveis grupos: apenas aos indivíduos particularmen- ente molecular. Dessa forma, por
signo em si mesmo ou primeiridade; te. Com isso, o campo de ação do semelhança com as teorias de Dalton
sua relação com seus objetos ou se- professor na situação de ensino, que sobre a descontinuidade da matéria
cuntidade; sua relação com seus pode ser visto como um processo de e de Lewis sobre os pares eletrônicos,
interpretantes ou terceiridade (Nöth, significação numa relação dos signos as bolas simbolizam os átomos de
2005). Neste traba- com seus objetos, hidrogênio e oxigênio e as varetas, as
lho, escolhemos rela- Ainda de acordo com deve ser entendido ligações químicas. Em nosso exem-
cionar as dimensões Peirce, cada signo cria um como um campo co- plo de ícone, qualquer pessoa sem o
do conhecimento interpretante que, por sua mum a dois lados, mínimo conhecimento químico (inter-
químico com as pos- vez, é representamen de de onde se podem pretante) e, portanto, sem nunca ter
síveis relações dos um novo signo, de forma extrair importantes tido contato com a idéia de molécula
signos com seus que a semiose resulta numa relações nos proces- (objeto) poderá identificar no ícone
objetos. Isso porque série de interpretantes sos de ensino e ‘objeto molecular’ unidades discretas
o estudo do signo sucessivos, ad infinitum aprendizagem. distintas separadas por algo que as
em si mesmo é de Faz-se necessá- une. Temos, portanto, a função de
base ontológica e sua contribuição rio observar que a abordagem do pro- promover significação por semelhan-
acontece no âmbito do conhecimento cesso de significação que expomos ça de propriedades entre o ícone
da natureza do signo, o que não traz não leva em consideração fatores de (objeto molecular) e seu objeto (ente
contribuições diretas ao estudo sobre natureza sociológica ou culturais molecular).
o desenvolvimento de ambientes de como, por exemplo, o valor atribuído Os signos que promovem signifi-
Ensino de Química nos quais esta- pela coletividade às relações de nexo cação em virtude de uma ligação fí-
mos interessados. entre o signo e o objeto ou, ainda, o sica direta com o objeto, indicando

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sua existência, são chamados de índi- gua portuguesa, pois ele já existe na indicial. Semelhantemente, dentro do
ces. Como exemplo de índice dentro mente do estudante. A palavra sozi- conhecimento químico, os mesmos
do conhecimento químico, podemos nha não denota um palito de fósforos signos poderão assumir qualidade
citar a utilização do símbolo do ele- em particular ou o elemento químico indiciais, icônicas e simbólicas, de-
mento químico carbono (C) no con- fósforo, mas um tipo ou algumas pos- pendendo do contexto em que são
texto de uma aula sobre elementos sibilidades de tipo de objeto de aplicados. O desejo dos educadores
químicos. Tão logo o professor utilize conhecimento. Os símbolos depen- é que o ensino promova a migração
essa simbologia, a dem do interpre- das relações de qualidades indicial e
atenção do estudan- Os signos que são tante porque é nele icônica dos signos próprios do co-
te será dirigida para o associados aos seus que reside a lei de nhecimento químico, para uma rela-
elemento químico car- objetos em virtude de uma associação ao obje- ção de qualidade simbólica, ou seja,
bono que, nessa si- lei ou convenção são to. Não dependem que os signos alcancem seus signifi-
tuação, geralmente chamados de símbolos. de si mesmos, co- cados por se relacionarem com cons-
tem apenas o nome Todas as palavras são mo no caso dos íco- trutos teóricos presentes nas mentes
como principal pro- símbolos porque não nes, para promover dos estudantes.
priedade. Os índices denotam coisas em o significado por-
promovem significa- particular, mas espécies de que não têm qual-
As dimensões do conhecimento
ção pelo fato de indi- coisas, próprios da sua quer semelhança químico e os signos
carem o objeto e de língua de origem com o objeto. E não Uma dificuldade freqüente dos es-
serem automatica- dependem de estar tudantes nas aulas de Química é a
mente afetados por ele, de forma que indicando fisicamente o objeto no de não entenderem o que o profes-
a indefinição do objeto acarreta a per- instante em que são proferidas (como sor está dizendo. Quando profissio-
da do significado pretendido. No caso no caso dos índices), porque já existe nais da Química se comunicam entre
da aula de elementos químicos, se o uma associação da palavra com a si, quase sempre não há necessidade
professor não explicar com antece- idéia em questão. de se explicitar se as referências são
dência que a letra ‘C’ representa o ele- Fora de seus contextos, toda for- feitas no nível macroscópico, submi-
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mento químico carbono (objeto), a ma de referência verbal na sala de croscópico ou simbólico, pois estes
escrita desta não será de nenhuma aula, tomando cada palavra separa- operam apropriadamente entre todos
utilidade para a significação preten- damente, é simbólica. Isso porque os níveis. As referências a cada uma
dida. Os índices não dependem do são utilizadas palavras como meio de das dimensões do conhecimento são
interpretante, uma vez que apenas referência aos objetos de conheci- plenamente compreendidas pelos
apontam para outro signo, obtendo mento, a menos que o professor te- interlocutores uma vez que conse-
assim seu significado. No caso da nha diante de si o laboratório químico guem transitar amplamente por todas
nossa aula de elementos químicos, ou o quadro negro, pois dessa forma elas. Já os estudantes geralmente
se estivesse presente um estudante poderá apontar para objetos ou utili- sentem dificuldade de entender a qual
que não conhecesse o idioma local, zar diferentes formas de grafia para dimensão do conhecimento os profis-
ele poderia mesmo assim compreen- promover significação de qualidade sionais se referem quando é neces-
der plenamente que a letra ‘C’ maiús- indicial. Idealmente, se considerar- sário transitar entre elas.
cula estaria indicando um objeto utili- mos apenas o âmbito de significados Considerando individualmente a
zado na aula (carbono). da língua portuguesa, toda forma de dimensão simbólica, macroscópica e
Finalmente, os signos que são as- referência falada, fora de seus contex- submicroscópica do conhecimento
sociados aos seus objetos em virtude tos, é simbólica, uma químico, quais são
de uma lei ou convenção são chama- vez que os estudan- Os símbolos dependem do os tipos de relação
dos de símbolos. Todas as palavras tes certamente com- interpretante porque é nele semiótica que pre-
são símbolos porque não denotam preenderão isolada- que reside a lei de valecem entre os
coisas em particular, mas espécies de mente quase todas associação ao objeto. Não signos e seus obje-
coisas, próprios da sua língua de ori- as palavras que fo- dependem de si mesmos, tos? Passamos a
gem. Como exemplo de símbolo, rem faladas. Dentro como no caso dos ícones, analisar, sob a visão
podemos citar a palavra ‘fósforo’ nu- dos significados do para promover o dos tipos de relação
ma aula sobre elementos químicos. contexto da sala de significado porque não têm de qualidade dos
Antes mesmo de o professor explicar aula de Química, no qualquer semelhança com signos, as formas de
a existência de um elemento químico entanto, essas for- o objeto referência a cada
com esse nome, ao se pronunciar mas de referência po- uma das três dimen-
essa palavra, vem à mente do estu- dem ser simbólicas, indiciais ou sões do conhecimento químico.
dante a idéia cotidiana do fósforo de icônicas, conforme descrito acima. A dimensão macroscópica do co-
acender fogo. Não é necessário que Ainda de acordo com Peirce, é di- nhecimento químico, conforme des-
se apresente algum objeto que mos- fícil, senão impossível, encontrar al- crito acima, trata dos fenômenos e
tre o significado dessa palavra na lín- gum signo desprovido da qualidade processos que são perceptíveis e

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observáveis por meio de informações existência de algo e, em alguns ca- visualização das partículas, mas utili-
sensoriais e medições, como varia- sos, elas o fazem a partir dos constru- za analogias e metáforas para se
ção térmica, cores e cheiros em um tos existentes na mente dos estudan- aproximar do conhecimento preten-
laboratório. Os professores se refe- tes. Apesar de existirem essas duas dido. Esse é o tipo de referência
rem a esse nível de conhecimento, componentes semióticas na dimen- semiótica icônica, uma vez que o pro-
com muita freqüência, de forma oral são macroscópica – indicial e simbó- fessor confia na relação de seme-
após uma aula de laboratório. Nesse lica – e de os professores por vezes lhança existente entre o objeto de co-
caso, são as palavras que constituem se referirem a ambas nhecimento, que se-
os signos a serem compartilhados numa mesma fala, Nas situações de ensino, a ria o estudo das pro-
pelo professor. Quando o professor não existe a menor relação de semelhança priedades cinéticas
fala sobre determinadas cores visua- possibilidade de con- entre o ícone e o objeto é de moléculas, e o
lizadas, ele está se referindo a eventos fusão por parte dos fonte de disputa entre o signo apresentado
específicos já conhecidos. Esse tipo alunos porque a refe- conjunto de critérios aos estudantes.
de informação é facilmente apreen- rência indicial indica o adotados pelo professor, Esse tipo de refe-
dido pelos estudantes, de forma que mundo concreto, re- que é apoiado no rência pode apre-
nas séries iniciais onde ocorre o con- al. O virtual, ou cons- conhecimento oficial, e o sentar problemas,
tato com a Química, aquilo que pri- truto teórico, que é a conjunto de critérios pois em toda analo-
meiro chama a atenção e provoca cu- referência simbólica, adotados pelos estudantes gia ou metáfora exis-
riosidade são as informações trazidas obtém significado do tem significados que
do laboratório. Os estudantes não concreto, que é a forma de referência se deseja que os estudantes se apro-
sentem dificuldade com as referên- indicial. A vontade dos educadores é ximem, como a noção de descon-
cias indiciais que os professores fa- que durante as atividades de ensino, tinuidade da matéria, e existem outros
zem na sala de aula: fica bastante nessa dimensão do conhecimento, significados que se deseja que os
claro a que o professor está se refe- os estudantes dependam cada vez estudantes se afastem, como a colo-
rindo quando, por exemplo, evoca a menos de referências indiciais e que ração dos entes moleculares. Caso
38 coloração de uma solução básica em estas sejam transformadas em cons- não seja tratado adequadamente, po-
presença de fenolftaleína. Existe ca- trutos teóricos capazes de serem de se tornar em uma fonte de concei-
ráter simbólico na representação ma- acessados por meio de referência tos alternativos quando a semelhan-
croscópica já que na situação de sala simbólica ou do interpretante. ça de propriedades entre o ícone e o
de aula podem ser feitos experimen- A dimensão submicroscópica do objeto não é tomada como motor da
tos de pensamento utilizando conhe- conhecimento químico trata do nível significação e quando não se discute
cimentos trazidos do cotidiano. molecular dos fenômenos químicos, explicitamente quais são os signi-
Podemos citar como exemplo uma si- como o movimento e a interação das ficados corretos e os incorretos.
tuação em que o professor pede para partículas. Esse nível de conhecimen- Essa propriedade da referência
os estudantes imaginarem o que to é um construto teórico resultado da icônica nos coloca, ao mesmo tempo,
acontece com cubos de gelo que são moderna unificação do conhecimento uma limitação e um potencial para li-
colocados dentro de um recipiente e químico teórico e experimental (Hof- darmos com o conhecimento científi-
deixados em temperatura ambiente. fman; Laszlo, 1991). Nessa dimensão co, uma vez que figuras, gráficos e
As palavras do professor vão direcio- do conhecimento, os signos resultam esquemas se tornam universais jus-
nar o pensamento dos estudantes de uma composição de palavras, tamente em função de sua múltipla
não para uma situação especifica figuras, analogias e metáforas. Em capacidade de referência. Se a mul-
vivida por eles, mas para conheci- aulas de Química, os professores se tiplicidade de referência abre um foco
mentos gerais rela- referem a esse nível de disputa na negociação de signifi-
cionados ao gelo e à A dimensão de conhecimento ge- cados, ela também nos faz lançar
temperatura ambien- submicroscópica do ralmente durante mão de outras formas de representa-
te, ou seja, para o conhecimento químico explicações sobre ção, com qualidades indicial e simbó-
interpretante. Nesse trata do nível molecular transformações ou lica, para exatamente selecionar uma
caso, não existe ca- dos fenômenos químicos, propriedades quími- propriedade em particular, colocando
ráter icônico porque, como o movimento e a cas. Quando o pro- em movimento os três motores da
via de regra, não interação das partículas fessor fala sobre coli- significação. Ou seja, nas situações
existe semelhança sões entre moléculas de ensino, a relação de semelhança
entre a representação macroscópica numa aula sobre cinética de partícu- entre o ícone e o objeto é fonte de
e o objeto de conhecimento. las, é comum a apresentação de disputa entre o conjunto de critérios
Dessa forma, quando os profes- figuras nas quais existam partículas adotados pelo professor, que é apoia-
sores se referem à dimensão macros- de formas variadas colidindo umas do no conhecimento oficial, e o con-
cópica do conhecimento, na maior contra as outras. O professor não se junto de critérios adotados pelos
parte das vezes, as palavras promo- refere a uma experiência vivida direta- estudantes. Essa mesma multiplici-
vem seus significados por indicar a mente pelo estudante, que seria a dade potencializa a criatividade do

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estudante para estabelecer vínculos contrário, no uso de tais objetos, deve madas em construtos teóricos capa-
entre três formas de representação de ser enfatizado o caráter icônico de se- zes de serem acessados por meio da
modo a construir interpretações sobre melhança e analogia com as proprie- referência simbólica do interpretante.
o fenômeno que se aproximem do dades de moléculas e átomos e não A dimensão simbólica do conhe-
conhecimento oficial. Se o ícone é um caráter indicial, para que os estu- cimento químico trata das represen-
fonte para elabora- dantes não pensem tações qualitativas, utilizando nota-
ção de significados O caráter indicial em que os átomos têm ções, terminologias e simbolismos
diversificados, é jus- representações da dimensão cores ou que as liga- especializados, e também trata das
tamente essa carac- submicroscópica do ções químicas são representações quantitativas, quando
terística que faz dele conhecimento químico deve bastões. Caso exista são utilizados gráficos e equações
um signo particular- ser explorado com cautela, caráter indicial ao se matemáticas. Esse nível de conheci-
mente útil para o en- já que as representações utilizar os signos des- mento é fruto da experiência acu-
sino. dessa dimensão do sa dimensão, isso se mulada dos químicos por meio de
Existe caráter conhecimento químico não constituirá num pro- práticas experimentais e teóricas, e
simbólico quando se apontam diretamente para blema em que incor- também de congressos mundiais
trabalha com a di- nenhum objeto conhecido rerão erros concei- onde são convencionadas as melho-
mensão submicros- no mundo real tuais profundos, já res formas de notação. O signo a ser
cópica, já que na si- que sempre que for compartilhado pelo professor é com-
tuação de sala de aula observa-se um feita referência a ela, a atenção do es- posto de palavras, notações e equa-
esforço por parte dos professores tudante será levada para as figuras e ções, como no caso de uma aula em
para fazer referência a construtos formas concretas e não para as fun- que há resolução de exercícios de
formados nas mentes dos estudan- ções que elas desempenham na cálculo de concentração de soluções.
tes. Podemos citar como exemplo de construção de interpretações do fenô- Esses signos compostos, por sua
representação, com qualidade sim- meno. vez, significam grandezas, leis e cons-
bólica, quando o professor, em uma Dessa forma, quando os profes- trutos teóricos, freqüentemente
aula sobre os estados físicos da sores se referem verbalmente à di- compartilhados pelos significados em
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matéria, procura exemplificar a proxi- mensão submicroscópica do conhe- torno de conceitos matemáticos. Em
midade relativa dos átomos no estado cimento, em alguns casos, as pala- aulas de Química, os professores se
de agregação sólido da matéria. O vras promovem seus significados referem a essa dimensão do conhe-
professor pode evocar oralmente co- devido à semelhança existente entre cimento durante a execução de pro-
mo exemplo um recipiente contendo as figuras presentes nas metáforas e cedimentos teóricos utilizando equa-
pequenas esferas (experimento de o modelo de partículas atualmente ções, grandezas e leis como, por
pensamento), de forma a exemplificar aceito e, em outros casos, elas o fa- exemplo, quando resolvem proble-
a pouca movimentação relativa entre zem com base nos construtos men- mas teóricos junto com os estu-
os átomos comparada aos outros tais dos estudantes. Nesse caso, exis- dantes.
estados de agregação da matéria. te possibilidade de confusão entre Quando o professor resolve um
O caráter indicial em representa- essas duas referências porque os exercício de cálculo de concentração
ções da dimensão submicroscópica estudantes podem não saber se o de solução de forma dialogada em
do conhecimento químico deve ser professor está se referindo às seme- sala de aula, são comuns as referên-
explorado com cautela na sala de lhanças icônicas ou ao construto teó- cias às grandezas e às leis na forma
aula. Isso porque as representações rico simbólico que se de notações espe-
dessa dimensão do conhecimento espera existir em sua A dimensão simbólica do cializadas e equa-
químico não apontam (pelo menos mente ou mesmo se conhecimento químico trata ções antes, durante
não deveriam apontar) diretamente a referência feita tem das representações e depois da resolu-
para nenhum objeto conhecido no qualidade indicial. Os qualitativas, utilizando ção. Vamos tomar
mundo real dos estudantes ou de professores, nesse notações, terminologias e como exemplo a re-
qualquer ser humano. Ao contrário, o caso, fazem referên- simbolismos especializados, solução de um exer-
objeto teórico do mundo no nível mo- cia a duas compo- e também trata das cício na qual a con-
lecular deverá ser construído ao longo nentes virtuais em representações centração de uma
do curso de Química, a partir de pro- uma mesma dimen- quantitativas, quando são substância dependa
priedades e conceitos que vão sendo são do conhecimen- utilizados gráficos e da temperatura da
aos poucos adicionados aos já exis- to. Também nesse equações matemáticas solução e que seja
tentes. Dessa forma, existe uma caso, a vontade dos necessário converter
inconsistência conceitual caso a utili- professores é que durante as ativida- o valor de concentração em massa
zação de objetos moleculares con- des de ensino, nessa dimensão do para concentração molar. Para resol-
cretos ou virtuais aponte diretamente conhecimento, os estudantes depen- ver o exercício, o professor lança mão
para objetos concretos do mundo dam cada vez menos de referências dos três tipos de referência semiótica.
sensível à percepção humana. Pelo icônicas e que elas sejam transfor- A referência de qualidade icônica se

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faz presente quando gráficos são resolução de exercícios de concentra- resolução de problemas é tratar essa
utilizados para se chegar a uma con- ção, podemos citar como exemplo a dimensão do conhecimento químico
clusão, seja por meio de semelhança exemplificação do processo de solubili- de uma forma familiar a eles: a mate-
geométrica ou algébrica. O signo, na zação de determinado sólido solúvel mática. Os professores, nesse caso,
forma de gráfico, por exemplo, promo- em água como, por exemplo, cloreto fazem referência aos significados
ve significação pelo simples fato de de sódio. Tão logo o professor inicie a com o uso das três qualidades semió-
existir semelhança visual ou de proprie- descrição da adição de um sólido ticas em uma mesma dimensão do
dades entre ambos. Em gráficos car- branco em água, a mente dos estudan- conhecimento. Também nesse caso,
tesianos, a semelhança com o objeto, tes será facilmente levada a imaginar a vontade dos professores é que,
no caso uma grandeza como a tem- uma cena parecida, não se referindo a durante as atividades de ensino nessa
peratura, ocorre na uma situação espe- dimensão do conhecimento, os
medida em que o au- Ao terminar de efetuar o cífica, mas a significa- estudantes dependam cada vez me-
mento ou a diminui- cálculo da concentração dos já dominados pe- nos de referências icônicas, indiciais
ção da grandeza junto com os estudantes e los estudantes como e simbólicas simples, e que estas
acompanha o au- escrever o valor final da água, sal de cozinha, sejam transformadas em construtos
mento ou a diminui- concentração na forma recipiente vítreo, obje- teóricos capazes de serem acessa-
ção do valor da ‘M = 2,0 mol/L’, o to para agitar a solu- dos por meio de referências simbó-
abscissa ou da orde- pensamento do estudante ção e outros. Nesse licas complexas.
nada. Quando a aten- será levado de volta ao caso, o conceito de
ção dos estudantes é significado inicial da letra ‘M’ que sal de cozinha se
Os signos e as representações químicas
direcionada para tal dissolve em água é computacionais: O Ensino de Química
semelhança na dimensão macroscó- plenamente conhecido por estudantes Tendo indicado os principais ele-
pica do conhecimento químico, a pro- do Ensino Básico, e pode ser acessa- mentos de ligação entre a teoria
moção do significado ocorre por meio do pelos professores por meio de refe- semiótica de Peirce e as situações de
de qualidade semiótica icônica. rências exclusivamente verbais para Ensino de Química, vamos nos con-
40 A referência indicial também está dar significação de qualidade simbó- centrar agora na confluência desse
presente nesse exemplo de resolução lica no contexto da aula de Química. ensino com as interfaces computacio-
de exercícios, quando se represen- Assim, a exemplificação do processo nais. O desenvolvimento do computa-
tam grandezas por meio de letras ou de solubilização de um sal promove dor tem influenciado fortemente seu
símbolos especiais. Quando o profes- seu significado a partir de relações com uso na escola, de forma que a minia-
sor estabelece em uma aula que a outras palavras e outros conceitos co- turização pode ser considerada como
letra ‘M’ maiúscula se refere à con- nhecidos dos estudantes (caráter sim- um dos fatores que possibilitaram a po-
centração molar, ao terminar de efe- bólico), e não por alguma semelhança pularização dessa tecnologia ao per-
tuar o cálculo da concentração junto presente no próprio signo (caráter mitir o acesso dos usuários domésticos
com os estudantes e escrever o valor icônico) ou por estar este exemplifi- ao processamento e armazenamento
final da concentração na forma cando um caso específico do objeto massivo de informação no computador
‘M = 2,0 mol/L’, o pensamento do de conhecimento (caráter indicial). de mesa. Além disso, os efeitos
estudante será levado de volta ao Dessa forma, quando os profes- produzidos pelas interfaces gráficas
significado inicial da letra ‘M’, no caso sores se referem à dimensão simbóli- vêm sendo aprimorados desde a
concentração molar. Apesar de du- ca do conhecimento, algumas vezes criação de ambiente de janelas. Com
rante a resolução algébrica do exercí- as palavras promovem seus signifi- isso, a comunicação entre usuário e
cio o pensamento dos estudantes cados por indicar a existência de algo; computador é feita por meio de ícones,
provavelmente estar voltado para o outras vezes, devido à semelhança e a execução dos aplicativos não exige
algoritmo de resolução em um deter- existente entre as figuras presentes conhecimento de programação por
minado momento, geralmente ao fi- nas metáforas e os modelos atual- parte do aluno (Giordan, 2005).
nal da resolução, seu pensamento mente aceitos; e em outros casos, as Quando as representações são
será levado ao significado do cálculo palavras promovem seus significados mediadas pelos recursos gráficos ofe-
dentro do contexto da Química. Essas pela relação com construtos teóricos. recidos atualmente pelo computador,
letras ou símbolos recebem seus Nesse caso, a possibilidade de con- a relação entre os signos e seus obje-
significados porque estão simples- fusão entre os três tipos de qualidade tos, em algumas dimensões da reali-
mente indicando a existência das semiótica é grande, e os estudantes dade química, pode ser profunda-
grandezas, o que configura a signifi- certamente ficarão confusos por não mente modificada. Os recursos de ani-
cação de qualidade indicial. saberem qual tipo de qualidade mação de imagens e simulação ofere-
E a referência de qualidade simbó- (icônica, indicial ou simbólica) é o cidos pelo uso dos computadores
lica está presente quando se lança mais apropriado para que as palavras podem trazer um novo caminho de
mão de conceitos e idéias já domina- e representações diversas tenham construção do conhecimento na sala
dos pelos estudantes para a resolução significado. O caminho mais curto en- de aula de Química.
do problema. Em nosso problema de contrado pelos estudantes para a No nível macroscópico, os signos

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geralmente se fazem presentes na sala construtos teóricos próprios dessa níveis macroscópico, submicroscópico
de aula de Química ou laboratório dimensão do conhecimento químico. e simbólico ou de composições de
didático pelo emprego das palavras O caráter icônico dessas represen- duas dessas dimensões do conheci-
como forma de referência aos fenôme- tações está presente na sala de aula mento, com o objetivo de propiciar a
nos ou da percepção destes por meio de Química geralmente na forma de fi- elaboração de significados por meio
dos sentidos como a visualização, o guras estáticas que simbolizam os áto- de representações, principalmente do
cheiro ou a variação de temperatura, mos e suas várias formas de repre- nível simbólico do conhecimento quí-
por exemplo. sentação e agrupamento no caso de mico. Nesse sentido, muitos ambientes
Quando se utiliza o computador, no livros didáticos e modelos atômicos virtuais de Ensino de Química têm sido
entanto, o caráter icônico das repre- concretos. Mesmo quando o compu- desenvolvidos na última década com
sentações nessa dimensão do conhe- tador é utilizado como meio de repre- o objetivo de permitir que o estudante
cimento químico passa a ter potencial sentação, é freqüente a utilização de visualize de forma integrada as várias
de uso benéfico ao ensino. O próprio imagens em que a natureza particulada representações do conhecimento
fenômeno a ser estudado pode ser da matéria é apresentada em um químico (Gois, 2007).
representado em uma animação sem formato no qual muitas características No desenvolvimento do programa
a necessidade de os estudantes o próprias desse nível de representação Construtor (Giordan e Gois, 2005), pro-
vivenciarem em laboratório. Em alguns são passadas por alto. curamos associar duas formas dis-
casos, isso é necessário devido à A utilização do computador pode tintas de signos próprios da Química.
periculosidade do fenômeno, como no ser feita de forma que a aparência su- Um deles, conhecido como fórmula
caso das transformações químicas gerida da qualidade icônica das repre- estrutural condensada, está relaciona-
que ocorrem em vulcões em erupção. sentações nessa dimensão do conhe- do com a dimensão simbólica do
Com isso, o caráter icônico estará cimento químico traga mais benefícios conhecimento químico. O outro, o qual
presente de forma a tornar mais claro ao ensino da Quími- é construído sob de-
um experimento de pensamento que ca. Os recursos grá- A utilização do manda por meio do
não foi vivenciado pelo estudante. ficos computacio- computador pode ser feita programa Construtor,
Quando o experimento de pensamento nais, amplamente de forma que a aparência é um objeto molecu-
41
é apenas narrado como, por exemplo, disponíveis na atuali- sugerida da qualidade lar virtual tridimen-
as mudanças de fase da água, este dade, aliados à utili- icônica das representações sional, o qual está
pode ser imaginado em alguns casos, zação de softwares nessa dimensão do relacionado com a
uma vez que o estudante conhece pelo de código aberto, conhecimento químico dimensão submicros-
menos a maior parte dos seus compo- junto com o conheci- traga mais benefícios ao cópica do conheci-
nentes como cubos de gelo, água na mento sobre simula- ensino da Química mento químico.
forma líquida e vapor d’água. Em ções por mecânica e A partir do uso do
outros casos, o experimento pode não dinâmica molecular, podem apresentar programa computacional Construtor
ser tão facilmente imaginável, como no com clareza muitas peculiaridades e (Gois, 2007), estudantes de Ensino
caso de fenômenos de transmutação propriedades inerentes aos processos Médio podem criar estruturas tridi-
nuclear que ocorrem em reatores atô- relativos a interações dinâmicas no ní- mensionais virtuais a partir de fórmulas
micos. Ao se utilizar uma animação, a vel de partículas atômicas como, por estruturais condensadas como
imaginação é auxiliada pela visualiza- exemplo, a movimentação relativa en- CH3CH2CH2CH3 (Tabela 1). Com essa
ção gráfica. Além disso, o foco de tre as partículas devido a colisões ferramenta, os estudantes podem
visualização do estudante pode ser intermoleculares e a própria tempera- visualizar as características da dimen-
direcionado corretamente para as tura. Dessa forma, o caráter icônico são submicroscópica da matéria, que
propriedades e suas representações desse tipo de representações pode ser é o objeto molecular virtual resultante
correspondentes como, por exemplo, utilizado para construir conhecimento a partir de uma representação da
a estabilização da temperatura duran- que ou não seria possível de outra dimensão simbólica, que é a própria
te mudanças de fase e a forma gráfica forma ou seria muito mais difícil utili- fórmula estrutural condensada.
da representação equivalente. A zando apenas palavras e imagens es- Ou seja, a partir de uma represen-
utilização de recursos computacionais táticas. A utilização de recursos com- tação com qualidade fortemente sim-
para visualização de representações putacionais para visualização de bólica ou convencional (fórmula estru-
dessa dimensão do conhecimento representações dessa outra dimensão tural condensada), o estudante tem a
químico possibilita a visualização de do conhecimento químico pode trazer possibilidade de elaborar significado
características importantes, do ponto para os estudantes uma perspectiva mais apropriado, dentro do atual para-
de vista do conhecimento químico, de mais alinhada com o conhecimento digma da natureza particulada da ma-
fenômenos de difícil visualização direta. científico atualmente aceito. téria, com o auxílio da mediação de
No nível submicroscópico, os sig- Além das contribuições em cada di- uma representação com qualidade
nos se fazem presentes nas represen- mensão do conhecimento químico, o icônica, de significação por meio de
tações imagéticas, além do uso das computador traz ainda a possibilidade semelhança, no caso o objeto molecu-
palavras como forma de referência aos de integração de representações dos lar virtual (Tabela 1).

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Tabela 1: A tabela relaciona, por meio do exemplo de duas diferentes representações compreensão holística das represen-
de uma molécula de butano (primeira linha), o tipo da representação (segunda linha), a tações e dos conceitos associados.
dimensão do conhecimento químico associado (terceira linha) e a qualidade semiótica
da significação (quarta linha). Jackson Gois (gois@ufpr.br), bacharel e licenciado
em Química pelo Instituto de Química (IQ) da Uni-
Categoria versidade de São Paulo (USP), mestre em Ensino
Representação Tipo de representação Dimensão do Qualidade de Química pela USP, é docente da Universidade
química conhecimento Semiótica Federal do Paraná – Campus Litoral. Marcelo
químico Giordan (giordan@fe.usp.br), bacharel e mestre em
Química, doutor em Ciências pelo IQ-UNICAMP,
CH3CH2CH2CH3 Fórmula estrutural Simbólica Simbólica Livre-docente em Educação pela Faculdade de
condensada Educação (FE) da USP, é docente da FE-USP.
Objeto molecular virtual Submicroscópica Icônica
tridimensional Referencias
GIORDAN, M. Uma perspectiva so-
ciocultural para os estudos sobre
elaboração de significados em situa-
A vontade dos professores de Quí- aula a partir da contribuição da teoria
ções de uso do computador na Edu-
mica é que sempre pudessem utilizar semiótica de Peirce. Conforme descrito cação em Ciências. Tese de Livre-Do-
objetos moleculares, virtuais ou con- acima, em cada dimensão do conhe- cência, Faculdade de Educação, Uni-
cretos, para suas aulas sobre estrutu- cimento químico prevalecem deter- versidade de São Paulo, São Paulo,
ra e propriedades da matéria e suas minadas qualidades semióticas de 2006.
transformações. No entanto, por moti- significação. No nível macroscópico do _____. O computador na educação
vos de praticidade, são utilizadas as conhecimento químico, prevalecem as em ciências: breve revisão crítica acer-
representações simplificadas, com relações indiciais e simbólicas. No nível ca de algumas formas de utilização.
letras e números, como a fórmula submicroscópico, são encontradas Ciência e Educação, v. 11, n. 2, p. 279-
304, 2005.
estrutural condensada da Tabela 1. A predominantemente as relações icôni-
GIORDAN, M.; GOIS J. Telemática
despeito do uso de representações cas e simbólicas de significação. No
42 educacional e Ensino de Química: con-
simplificadas por motivos de contin- nível simbólico do conhecimento siderações em torno do desenvolvi-
gência, é necessário que os significa- químico, no entanto, são encontradas mento de um construtor de objetos
dos dessas representações se tornem todas as qualidades de significação moleculares. Revista Latinoamericana
disponíveis aos estudantes. O uso do semiótica, ou seja, indiciais, icônicas e de Tecnología Educativa, v. 3, n. 2,
programa Construtor pode auxiliar o simbólicas. Com isso, a dimensão p. 41-59 2005.
estudante na elaboração desses simbólica do conhecimento químico GOIS, J. Desenvolvimento de um
significados, já que ele pode gerar certamente oferece maior dificuldade ambiente virtual para estudo sobre re-
presentação estrutural em Química.
objetos moleculares virtuais, de signifi- de compreensão dentro do que atual-
Dissertação de Mestrado, Universi-
cação com qualidade icônica, a partir mente é proposto como conhecimento dade de São Paulo, 2007.
de representações com qualidade sim- químico oficialmente aceito. HOFFMAN, R.; LASZLO, P. Repre-
bólica ou convencional. Ao utilizar esse Também tínhamos como objetivo sentation in Chemistry. Angewandte
programa, o estudante pode elaborar discutir a contribuição das represen- Chemie, v. 30, p. 1-16, 1991.
significados com meios mediacionais tações computacionais nos processos NÖTH, W. Panorama da semiótica:
mais sofisticados – os objetos molecu- de significação na sala de aula de de Platão a Peirce. 4ª ed. São Paulo:
lares –, de forma que, quando ele se Química. Conforme visto, as possibi- Annablume, 2005.
deparar com representações da di- lidades de representação das dimen- PEIRCE, C.S. Semiótica. 3ª ed. São
Paulo: Perspectiva, 2005.
mensão simbólica do conhecimento sões do conhecimento químico atual-
_____.Writings of Charles S. Peirce:
químico, estas possam ser facilmente mente veiculadas por intermédio dos A Chronological Edition, V. 1. Peirce Edi-
relacionadas com o significado da computadores permitem visualizar tion Project (Eds.). Indianapolis;
dimensão submicroscópica. fenômenos de difícil acesso ou mes- Bloomington: Indiana University Press,
mo de fenômenos que não poderiam 1981.
Síntese ser visualizados de outra maneira. Além SANTAELLA, L. O que é semiótica.
Conforme dito no início, tínhamos disso, com o uso do computador, é São Paulo: Brasiliense, 2005.
como objetivo neste texto trazer uma possível visualizar de forma dinâmica SEBEOK, T.A.; SEBEOK, J.U. Sher-
compreensão mais aprofundada a res- e integrada as representações perti- lock Holmes y Charles Sanders Peirce:
el método de la investigación. Barce-
peito dos processos de significação de nentes a cada dimensão do conheci-
lona: Paidós, 1987.
representações químicas na sala de mento químico, o que possibilita uma

Abstract: Semiotics in Chemistry: Peirce’s Sign Theory to Comprehend Representation – In this work a discussion about meaning processes of chemical representation in classrooms based on the
contributions of Charles Peirce Semiotics theory is presented. The discussion is extended to the contributions of computational representations in meaning processes in Chemistry classrooms. In
this discussion we intend to base the development of Chemistry learning virtual environments in a way that allows us to join epistemological aspects of Chemistry with the foundations of the sign
theory, so that meaning promotion in classrooms can be problematized.
Keywords: Semiotics, structural representation, meaning

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