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Resenha Passeios em uma galeria de arte molecular

A EDUSP lança finalmente no mercado brasileiro um livro que é uma contribuição importante para que a química possa ser vista de forma mais realista pelas novas gerações de estudantes; para que ela seja melhor ensinada nas nossas escolas do ensino básico e universitário: Moléculas, de P Atkins. .W. O autor é um químico teórico da Universidade de Oxford. Ao longo dos anos, Atkins se tornou conhecido do público universitário de nossa área pela produção de diversos livros didáticos e de divulgação da química. A informação biobibliográfica na segunda orelha da edição brasileira, talvez traduzida da edição original, de 1987, poderia e deveria ter sido atualizada. Além dos três livros mencionados, dois deles líderes de adoção em suas respectivas áreas (um dos quais já traduzidos no Brasil), Atkins tem diversos outros publicados depois de Moléculas. Em minha opinião, Moléculas é a obra-prima de Atkins. Obras de divulgação de química são raras, mais raras ainda em nosso país. E raríssimas as que passam pelo duplo crivo de não distorcer o conhecimento científico e não sobrecarregar a leitora ou o leitor com uma carga pesada de pré-requisitos que dificultam ou mesmo impedem a leitura e só fazem reforçar a impressão (exatamente o que se deveria desfazer!) de que o conhecimento químico é privilégio de uma casta de iluminados. Como Atkins realiza proeza tão difícil? Uma introdução curta apresenta concisamente as poucas noções essenciais à leitura proveitosa do resto da obra. Fundamental é que o autor tem clareza sobre o público leitor que deseja alcançar. Ele se restringe às situações mais comuns; seleciona menos de uma dezena de elementos entre a centena que a natureza ou o engenho da ciência disponibiliza; apenas menciona que há uma enorme variedade de compostos não moleculares e se concentra
Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola

em moléculas, escolhendo, principalsamos pela gloriosa galeria da sexualimente exemplos da chamada química dade, na qual se exibem hormônios orgânica, moléculas que contêm sexuais e anticoncepcionais. Tudo isso átomos de carbono ligados a outros feito sem reducionismo: a química dá átomos de carbono, além de átomos chaves para uma nova forma de comde hidrogênio e, frequëntemente, uns preender o mundo e de admirá-lo; não outros poucos elementos. pretende ser a única coleção daquelas Essa capacidade de seleção é uma chaves. bela lição para professores de todos Um aspecto essencial para que o lios níveis de ensino, freqüentemente vro seja eficiente no seu propósito de acometidos como somos das tentadivulgar a química é o uso de numerosas ções do enciclopedismo e do rigorismo ilustrações. Há as representações (isto é, rigor mortis). estruturais das moléculas, as “plantas Expostos esses fundamentos, o da arquitetura química”, que o leitor autor convida quem o lê a acompanháaprendeu a ler na Introdução. Há lo por um passeio ao mundo molecuprincipalmente as espetaculares fotolar. Isto é, ao mundo comum, dos magrafias, coloridas em sua maioria, ao teriais naturais ou sintéticos, tal como lado de cada “peça da exposição”. Elas ele é representado pela são de grande efetiquímica. Há milhões de vidade, pois fogem Obras de divulgação de substâncias diferentes; muitas vezes ao química são raras, mais muitas dezenas de mióbvio. O oxigênio, raras ainda em nosso país. lhares são produzidas por exemplo, merece E raríssimas as que passam industrialmente, o que duas fotos. Uma depelo duplo crivo de não significa disponibilizar las mostra um grupo distorcer o conhecimento em cada recipiente vende simpáticos porcientífico e não dido quantidades inimaquinhos de focinhos sobrecarregar a leitora ou ginavelmente grandes rosados. Quem ler a o leitor com uma carga de um certo tipo de legenda e o texto sopesada de pré-requisitos molécula. Atkins se limibre a substância corque dificultam ou mesmo ta a exibir 160 molécurespondente verá impedem sua leitura las, uma pequena coleque a escolha não ção de objetos de arte molecular. tem qualquer arbitrariedade. “Ácido Como em um museu ou galeria sulfúrico” brinda-nos com a foto de bem organizados, as peças da coleção invertebrados marinhos que usam a estão organizadas tematicamente. substância como arma para sua defesa. Guiados pelo autor, visitamos as subsAlgumas ilustrações surpreendem por tâncias comuns do ar limpo, da água, virem de mundos supostamente alheios os poluentes atmosféricos mais coà química e às ciências. Por exemplo, muns; em outro capítulo, combustíveis, uma obra de Miró e outra de Boticelli, gorduras e sabões; a galeria dos políque, respectivamente, marcam o início meros, onde admira-se a variedade e e o fim da visita à galeria. a elegância do polietileno, do PVC, da O texto e as legendas prendem o borracha, dos nossos cabelos etc. leitor, freqüentemente, pelo inesperado Seguem-se as visitas ao mundo das e pelo humor. Na exibição da uréia, por moléculas que dão sabor e aroma. exemplo, aprende-se que, enquanto Vem depois o mundo da cor, onde nós excretamos urina, certos pássaros aprendemos sobre as origens químiusam a sua para formar belos penacas das cores de folhas, flamingos, vichos coloridos. nho, cicatrizes e bronzeado e admiraDe parabéns a EDUSP e os dois tramos umas poucas moléculas que nos dutores pelo lançamento de obra tão permitem apreciar a cor. Na sala final, relevante e com a qualidade gráfica aparecem analgésicos, estimulantes, que se poderia temer talvez fosse peruma pequena e representativa “galeria dida no lançamento da obra em nosso de horrores químicos”: o gás mostarpaís. da, a talidomida. Antes da saída, pasLuiz Otávio F. Amaral
Resenha N° 4 – Maio 2001

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