You are on page 1of 6

resenhas  229

Em defesa do conceito de sociedade vez mais individualizados que conduzem suas vidas
descoladas de instituições sociais, tais como família,
Anthony Elliot & Bryan Turner. On society. classe social e bairro residencial, as quais numa fase
Cambridge, Polity Press, 2012. 196 páginas. inicial do processo de modernização possuíam um
Carlos Benedito Martins peso considerável na regulação social de suas vidas.4
Os autores assinalam que expressões como
Este trabalho foi escrito por dois destacados “morte da sociedade”, “fim do social”, “fragmen-
sociólogos que têm fornecido contribuições signi- tação do sistema social”, “implosão de formas de
ficativas na área de teoria social. Anthony Elliot é sociabilidade” tornaram-se frequentes nos debates
professor de sociologia na Universidade Finders, acadêmicos atuais, de tal modo que a discussão
Austrália. Entre seus vários trabalhos na área de te- sobre “sociedade” passou a ser um tema antiqua-
oria social, vale destacar The Routledge companion do e enfadonho. Um sentimento de obsolescência
to social theory.1 Por sua vez, Bryan Turner é profes- a respeito do conceito espraiou-se em diferentes
sor de sociologia na City University of New York e tendências do pensamento social contemporâneo.
organizou a publicação da obra The New Blackwell Pensadores e políticos conservadores consideram
companion to social theory.2 que a dinâmica das sociedades modernas produziu
Os autores de On society partem do pressuposto em seu interior forças sociais que desencadearam
de que a reflexão sobre a sociedade, ou seja, o pro- situações de aguda desordem coletiva, engendrou
cesso de sua constituição, reprodução e transforma- profundas discordâncias culturais, de tal forma que
ção encontra-se no cerne da sociologia. Para eles, vem ocorrendo um contínuo e sensível colapso mo-
uma clara explicitação do conceito de sociedade ral da vida coletiva. Nessa perspectiva, o conceito
continua desafiando a disciplina em sua fase atual. de sociedade não possui nenhuma significância in-
Ressaltam que o complexo processo de globalização telectual para eles.
econômica, política e cultural que se intensificou a Os pós-modernistas, segundo os autores, ten-
partir da década de 1970 constitui uma das faces dem a identificar a sociedade de forma negativa,
salientes das sociedades contemporâneas. Ao longo uma vez que em suas análises ela tende a inculcar
do livro, eles procuram analisar o impacto que o nos indivíduos falsas crenças, mitologias e ideolo-
processo de globalização gerou no interior da teoria gias. Nesta apreensão analítica, a sociedade passou
social, uma vez que a sua existência tem desafiado a ser identificada como um espaço no qual ocorrem
interpretações clássicas e contemporâneas voltadas relações de forças políticas e econômicas e múltiplas
para a compreensão das sociedades modernas. formas de dominação e exploração humana. O con-
A noção de sociedade, segundo os autores, ceito de sociedade expressa uma das categorias uni-
tornou-se crescentemente problemática nos diais versais que causam profundo desgosto intelectual
atuais no interior da teoria social e no contexto do aos pós-modernistas. Jean Baudrillard, por exem-
debate público. Tal conceito vem sendo colocado plo, declarou o fim da existência do social, uma
sob suspeição por distintas tradições analíticas. vez que este regride na própria medida do desen-
Elliot e Turner consideram que Charles Lemert, volvimento das instituições modernas.5 Segundo os
em seu livro Sociology after the crisis,3 traçou de autores, várias teóricas feministas e pós-feministas,
forma perspicaz os percalços que esta noção vem por sua vez, afirmam que o conceito foi elaborado
enfrentando no pensamento social contemporâneo. fundamentalmente no universo masculino e con-
As reflexões de Ulrich Beck, por seu turno, consti- tém em si as marcas da dominação patriarcal. Para
tuem um ataque frontal ao conceito de sociedade, alguns pensadores de esquerda, por outro lado, a
na medida em que sua existência se transformou noção de sociedade encontra-se num um beco sem
numa “categoria zumbi”, ou seja, designa institui- saída diante do avanço do neoliberalismo, expres-
ções sociais que estão “mortas e ainda vivas”. Para sando também uma atitude de complacência dian-
Beck, o termo sociedade converteu-se numa pala- te do Estado de bem-estar social e mostrando-se
vra fantasmagórica pronunciada por agentes cada inábil em formular um projeto capaz de realizar
230  REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 28 N° 82

profundas transformações no modo de ser das so- diversas vertentes do pensamento social contempo-
ciedades contemporâneas. Para alguns teóricos da râneo que assumem a posição da “morte da socie-
globalização, tal como John Urry, também ocorre dade”, bem como da postura analítica que preconi-
neste âmbito uma situação de difícil sobrevivência za o advento de uma era “pós-social”.8 Assim, Elliot
do conceito de sociedade, já que o Estado-nação, e Turner mantêm intenso diálogo intelectual com
que constituiu um dos seus pilares básicos, encon- pensadores clássicos e contemporâneos que fornece-
tra-se em um acelerado processo de corrosão.6 ram contribuições significativas sobre a conceitua­
Por outro lado, como mostram Elliot e Turner, ção da sociedade.Os autores deixam claro que não
determinadas análises formuladas tanto pelos pen- pretenderam realizar um trabalho sobre a história
sadores clássicos como por sociólogos contempo- da teoria social. Movimentam-se alternadamente
râneos sobre o capitalismo industrial permanecem entre contribuições contemporâneas e clássicas so-
significativas teoricamente. No entanto, elas têm bre o conceito de sociedade, evitando construir um
sido desafiadas empiricamente quando confronta- cenário intelectual que ressalte as oposições entre
das com as profundas e velozes transformações so- determinados autores e suas concepções. Ao con-
ciais da sociedade contemporânea, motivadas pela trário, enfatizam que, embora autores discutidos
intensificação do processo de globalização econô- no livro possuam matrizes teóricas divergentes, suas
mica, política, cultural, e pelo desenvolvimento de análises apresentam certas convergências na apreen-
sofisticadas tecnologias de comunicação. são da sociedade moderna.
Como o conceito de sociedade em sociolo- O argumento central é de que a sociedade, do
gia tem sido construído historicamente tomando ponto de vista tanto teórico quanto da realidade vi-
como unidade empírica o Estado-nação e seus con- vida pelos agentes sociais, apresenta três conceitua-
tornos territoriais, o campo sociológico se mostra ções relevantes: sociedade como estrutura; socieda-
seguro ao examinar diversas instituições nacionais de como solidariedade e sociedade como processo
que operam em fronteiras territoriais demarcadas. criativo. Essas três concepções inicialmente formu-
Contudo, essa postura analítica se traduz em uma ladas no final do século XIX têm experimentado
atitude vacilante teoricamente diante da existência consideráveis transformações ao longo do tempo.
de fenômenos que transbordam as fronteiras nacio- Os autores realçam as múltiplas formas pelas quais
nais, tais como corporações transnacionais, crescen- esses três sentidos se vinculam, ora se entrelaçando,
te fluxo de mobilidade de pessoas e ondas de migra- ora mantendo relações conflituosas.
ções, deslocamento de capital financeiro que migra A concepção de sociedade como estrutura,
velozmente de um país para outro, desenvolvimen- na perspectiva dos autores, procura ressaltar os as-
to de novas tecnologias de comunicação que conec- pectos de competição, conflito, concorrência e ri-
tam indivíduos situados em diferentes localidades validade entre os atores sociais. Ao mesmo tempo
no planeta. Ao assumir que a sociedade pré-existe também contempla dimensões morais e de regras
às diferentes formas de relações sociais, a condu- de conduta que permeiam as relações sociais. A so-
ta analítica atrelada aos limites do Estado-nação ciologia historicamente surgiu como discurso da
tem se mostrado incapaz de analisar as diferentes ordem social proclamando o primado da estrutura
formas de relações sociais existentes na sociedade social sobre a existência dos indivíduos e enfati-
contemporânea. A questão que os autores procu- zando o poder das normas sociais na orientação de
ram levantar e discutir é se esta abordagem permite suas condutas. A este propósito, os autores fazem
compreender determinados problemas concretos menção ao trabalho de Robert Nisbet, The sociolo-
da sociedade contemporânea, uma vez que num gical tradition, sublinhando que a sociologia repre-
contexto de globalização as relações sociais não se sentou, para Nisbet, um dos diversos movimentos
confinam nos limites das sociedades nacionais, mas culturais que forneceu explicação sobre as consequ-
tendem a estender-se para além de suas fronteiras.7 ências sociais das revoluções industrial e francesa.
On society tem como principal objetivo (re)va- As correntes liberais e socialistas foram importan-
lorizar o conceito de sociedade, distanciando-se de tes na constituição inicial da sociologia, mas, para
resenhas  231

Nisbet, foi decisiva naquele momento a influência revoltas sociais que têm ocorrido com frequência
do pensamento conservador. Conceitos sociológi- em diversas cidades globais.9
cos, tais como autoridade, sagrado, comunidade, A intensificação da mobilidade de pessoas e a
foram forjados pelos pensadores conservadores que ocorrência de ondas migratórias contribuíram tam-
tinham como alvo crítico as posturas individualis- bém para a emergência de práticas políticas que
tas na análise da vida social. vêm sendo adotadas em vários países, que assumem
Para Elliot e Turner, apesar das diferenças ana- uma posição de custódia da sociedade como estru-
líticas entre os pensadores clássicos da sociologia, tura. Nesse sentido, a ênfase do discurso político de
há certa convergência no sentido de ressaltar o ca- segurança nacional e/ou internacional passou a ser a
ráter estrutural da sociedade. Durkheim assinalou proteção dos territórios nacionais contra a “imigra-
que o tipo de solidariedade específica que predo- ção ilegal”, o combate ao “terror” e a neutralização
mina na sociedade moderna propicia uma recipro- do terrorismo internacional. Para Elliot e Turner,
cidade moral nas interações sociais e constitui uma existe uma visível contradição entre a intensidade
das bases da produção da ordem social. Karl Marx, dos diferentes fluxos que ocorrem numa escala glo-
ao salientar a instrumentalização da natureza e da bal e a criação do que Turner denomina “sociedade
humanidade aprisionada pela lógica do capitalis- enclave”,10 ou seja, a criação de poderosas agências
mo, ressaltou que as relações sociais se encontram nacionais e internacionais que pretendem regular o
submetidas a um determinado tipo histórico de espaço territorial dos países e imobilizar a circula-
divisão de trabalho que se impõe aos indivíduos, ção de povos, bens e serviços.
independentemente de suas vontades. Max Weber, A versão conservadora dos defensores dessa
que procurou libertar a sociologia de conceitos co- concepção de sociedade tende a construir discur-
letivos ao longo de sua obra, tratou de forma inces- sos de teor marcadamente moralista, que atacam
sante estruturas de poder e de autoridade. A obra de forma contundente os defensores da legislação
de Parsons enfatizou a temática da coesão social, favorável ao aborto e dos que atuam em favor da re-
privilegiando teoricamente os conceitos de sistema gulação da pornografia. Em contrapartida, pregam
e estrutura social e salientando o papel da interiori- valores em defesa da família, acentuam o valor mo-
zação de normas sociais no processo de reprodução ral da fidelidade nas relações matrimoniais e pro-
da sociedade. curam criminalizar a prática da homossexualidade
O advento de diversas formas de globalização, etc. Essas posições fundamentalistas expressam um
o desenvolvimento de novas tecnologias de infor- confronto entre a concepção de sociedade como
mação, a formação e a expansão de comunidades estrutura, que privilegia a disciplina e defende cer-
multiculturais tiveram forte impacto na concep- tas instituições sociais, e uma postura que percebe
ção da sociedade como estrutura. Esse intrincado a sociedade com maior fluidez, procurando formas
e complexo processo sócio-histórico que marca as mais criativas de participação.
sociedades atuais aguçou as contradições sociais e Os autores salientam que a concepção de so-
causou uma pesada carga emocional para as cama- ciedade como solidariedade também possui longa
das sociais excluídas dos benefícios da globalização. trajetória na análise sociológica e nas humanidades.
Para os autores, houve uma guinada marcadamente Em sua fase inicial, esta formulação procurava com-
conservadora tanto no discurso teórico quanto no bater intelectualmente as concepções utilitaristas,
plano político. Cada vez mais, a concepção de so- individualistas e o conceito de homo economicus,
ciedade como estrutura vem sendo utilizada como dada sua incapacidade de compreender a importân-
uma forma de combate à diversidade cultural, cia dos vínculos sociais. O processo de globalização
como uma maneira de contestar os diversos movi- também tem desafiado esse conceito de solidarie-
mentos sociais que visam questionar os fundamen- dade, uma vez que está fundamentado numa forte
tos econômicos, sociais e culturais do capitalismo integração entre os membros que compartilham a
avançado. Essa modalidade de discurso também vida social – senso de pertencimento a uma comu-
representa um recurso estratégico para combater as nidade com mesma linguagem e cultura. Segundo
232  REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 28 N° 82

os autores, Ferdinand Töennies definiu os contor- sociais, para além dos já elencados, que tendem a
nos do conceito que posteriormente a sociologia solapar os laços de solidariedade social? Fenômenos
moderna passou a denominar “comunidade” (ge- como o deslocamento em grande escala de traba-
meinschat), ou seja, a existência de tipos de arranjos lhadores rurais para megacidades, obrigando-os a
sociais onde predominam unidade social, ausência abandonar suas relações familiares, costumes cultu-
de individualismo e prevalência de um sentimento rais para ingressar num mundo atomizado e marca-
altamente emocional, tal como acontece nas rela- do por uma impetuosa concorrência individual. Os
ções familiares e de vizinhança. O surgimento da autores assinalam que o movimento de migração
sociedade capitalista (gesselschaft), para Töennies, constituiu uma tendência mundial na sociedade
corroeu o tipo de relação social que existiu ante- contemporânea, no entanto ressaltam as peculiari-
riormente, intensificou a competição e expôs os dades que esse fenômeno assume em países asiáti-
trabalhadores a uma situação de exploração e po- cos como a Malásia e a China.12
breza. Na perspectiva de Alasdir MacIntyre, duran- Por outro lado, os autores apontam, entre ou-
te a revolução industrial as classes sociais possuíam tros pensadores sociais, as reflexões de Jurgen Ha-
internamente um grau de integração assentado em bermas e Jeffrey Alexander, que, partindo de pres-
determinados valores comuns, mas com o intensivo supostos analíticos diferentes, procuram enfatizar a
processo de urbanização a vida comunitária se frag- pertinência do conceito de solidariedade num con-
mentou e a aquela solidariedade se dissipou.11 texto de globalização e de multiculturalismo. Nessa
Após a hecatombe causada por duas guerras direção, Habermas salienta que a solidariedade foi
mundiais, o movimento em direção à solidariedade inicialmente pensada num contexto das socieda-
coletiva foi incorporado à vida política em muitos des nacionais e que, portanto, deve modificar seus
países, e não só europeus, como resultado do legado mecanismos analíticos de tal modo a se abrir para
da concepção keynesiana do Estado de bem-estar um horizonte global no qual emergem valores cos-
social. Durante o período pós-guerra, começou a se mopolitas que possibilitam (re)pensar a criação de
desenvolver uma cidadania social amparada pelas laços de solidariedade através de organizações e mo-
políticas públicas do Estado. Na avaliação dos auto- vimentos sociais transnacionais.13 Jeffrey Alexander,
res, isso permitiu a neutralização de conflitos gera- por sua vez, concorda que empiricamente a esfe-
dos por interesses econômicos e políticos. Ademais, ra civil das sociedades contemporâneas encontra-
o processo de solidariedade também se baseou na -se fragmentada por manifestações particularistas
unidade linguística, cultural e religiosa de diversas visíveis nos planos étnico e cultural. No entanto,
sociedades nacionais. Contudo, afirmam os autores, manifesta a crença na possibilidade de se construir
durante as últimas décadas do século XX, muitas uma genuína esfera política na qual o multicultu-
instituições sociais que fomentavam a solidariedade ralismo, ao contrário de constituir uma fonte des-
foram pressionadas e corroídas pela expansão das trutiva socialmente, possa representar uma oportu-
corporações multinacionais e pela implantação de nidade para a elaboração de um universo cultural
políticas neoliberais na década de 1970 que incen- baseado em valores universalistas criando vínculos
tivaram direta ou indiretamente o desenvolvimento de solidariedade. Em sua perspectiva, torna-se ne-
de um ethos individualista. cessário (re)construir o conceito de sociedade civil
Ainda existiria espaço hoje para uma concep- abrindo espaço para a confiança, a solidariedade so-
ção de sociedade como solidariedade num contexto cial e a reparação de injustiças sociais.14
social marcado por um capitalismo global que tem Na perspectiva de Elliot e Turner, o conceito
corroído as forças políticas de sindicatos em vários de solidariedade continua pertinente na análise so-
países e implementado políticas neoliberais causa- ciológica. No entanto, nas sociedades contempo-
doras de uma pesada carga social e emocional para râneas, este conceito tem assumido maior comple-
os indivíduos que necessitam da proteção de polí- xidade quando comparado a períodos anteriores.
ticas públicas? Como pensar isso, perguntam-se os Sua elaboração e sua prática hoje requerem certo
autores, diante da ocorrência de outros fenômenos grau de reflexividade emocional e uma abertura
resenhas  233

cognitiva por parte dos atores sociais. A solidarie- de Simmel que, opondo-se às rígidas determina-
dade na sociedade contemporânea tende a forta- ções sociais, concebia a sociedade como uma trama
lecer a comunicação e a interação simbólica entre complexa de relações entre os indivíduos, o que de
os indivíduos e, ao mesmo tempo, produz múlti- certa forma cria espaço para a iniciativa, a criativi-
plos discursos. As práticas solidárias gravitam em dade e o erotismo nos processos interacionais.
torno do estabelecimento de diálogos em variadas O apelo à criatividade exalta um conjunto de
esferas, mas encontram-se também incrustadas em valores, tais como a curiosidade, a inovação, o sen-
múltiplas formas de sociabilidade, fazendo circular timento de alegria de participar da vida social, a
valores democráticos e cosmopolitas cuja visibili- busca de comunicação e uma atitude de tolerância
dade tem aumentado consideravelmente por conta nas relações sociais. Ao mesmo tempo, a criativi-
de sua divulgação através de novas tecnologias de dade apresenta uma faceta ambígua, contingente,
informação. uma vez que se encontra na encruzilhada entre a
Além disso, a microanálise sociológica identi- real possibilidade de inovação e os limites impos-
fica a manifestação de modalidades espontâneas de tos pelas determinações sociais e culturais. Ou seja,
solidariedade, formando uma rede informal de pro- para Elliot e Turner, a criatividade situa-se num
teção e dando suporte àqueles que vivem isolados terreno de permanente tensão entre o horizonte
nas aglomerações urbanas. Trata-se da solidariedade provável da liberdade e os limites circunscritos pela
voluntária – lower-case solidarity –, distinta daquela presença de diferentes formas de dominação social
proveniente de movimentos nacionalistas e funda- e cultural. O aspecto instigante desta concepção re-
mentalistas – upper-case solidarity –, nos quais as pousa em sua dimensão contingente, em seu aspec-
relações sociais são reguladas por princípios de fide- to indeterminado, em sua ambiguidade intrínseca,
lidade política, moral e/ou religiosa e seus membros pois para os autores a criatividade pode tanto pro-
encontram-se passíveis de punição caso se desviem vocar efeitos sociais positivos como situações sociais
dos compromissos assumidos dentro desta lógica. opressivas. Nesse sentido, eles apontam que socie-
A concepção de sociedade como criação pro- dade como ato criativo pode produzir situações e/
cura afastar-se da análise que enfatiza a existência ou instituições voltadas à prestação de ações sociais
de forças sociais que atuam sobre as condutas in- solidárias tal como a organização da Anistia Inter-
dividuais, tão presente na ideia de sociedade como nacional, ou pode gerar práticas genocidas, como
estrutura. Ao mesmo tempo, busca distanciar-se Auschwitz ou o regime desenvolvido por Pol Po no
da postura que tem como alvo – num contexto de Camboja.
multiculturalismo – a criação de valores universais e Dentro desse contexto, os autores formularam
cosmopolitas capazes de reforçar os vínculos sociais a ideia de sociedades elásticas (elastic societies), vi-
numa sociedade globalizada, que marca a concep- sando destacar que hoje as relações sociais trans-
ção de sociedade como solidariedade. Essa terceira bordam seus espaços territoriais, ao passo que nas
formulação visa ressaltar a emergência de um con- sociedades tradicionais os laços entre os indivíduos
junto de questões perseguidas pelos atores sociais tinham por base a localidade, as relações familiares
que possuem profundas implicações políticas, tais e outras formas de grupos primários. O conceito de
como a disposição de realizar transformações nas es- sociedades elásticas permite analisar as interações
truturas de poder e a reivindicação da construção da sociais mediadas pelas diversificadas tecnologias de
identidade pessoal e sexual. As diferentes versões comunicação e seus efeitos nos planos social e polí-
desta concepção, em geral, vislumbram um fecun- tico, em contraposição às teorias críticas repletas de
do terreno no imaginário social, qual seja, a bus- uma visão nostálgica das relações sociais, predomi-
ca da liberdade e a luta pela autenticidade pessoal. nantes num período anterior. Os movimentos polí-
Elliot e Turner chamam a atenção para o fato de ticos contra regimes autoritários ocorridos no norte
que uma parte expressiva da teoria social contem- da África e no Oriente Médio em 2011, elucidam
porânea tem focado a questão da criatividade nos os autores, contaram com a telefonia portátil e com
planos social e político, inspirando-se nas reflexões as redes sociais para a organização de suas ações.
234  REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 28 N° 82

On society é uma expressiva contribuição para 4 Ulrich Beck, The reinvention of politics, Cambridge,
se repensar a teoria social diante dos desafios co- Polity, 1997.
locados pelo processo de globalização e suas múl- 5 Jean Baudrillard, À 1’ombre des majorités silencieuses ou
tiplas consequências sociais. Longe de descartar a la fin du social, Paris, Denöel/Gonthier, 1982.
relevância de análises sobre o processo de constitui- 6 John Urry, Sociology beyond societies, Londres, Rou-
ção e desenvolvimento das sociedades modernas, os tledge, 2000.
autores ressaltam como elas continuam fertilizando 7 Ver, a este propósito, Nicholas Gane, The future of so-
a imaginação sociológica. Longe de descartar a re- cial theory, Londres, Continum, 2004.
levância de pensadores clássicos e contemporâneos 8 Para uma discussão a respeito do advento de uma era
da sociologia que procuraram analisar o processo pós-social, ver David Holmes, Virtual politics: iden-
de constituição e desenvolvimento das sociedades tity and community in cyberspace, Londres, Sage,
modernas, os autores consideram que suas análises 1997.
continuam fertilizando a imaginação sociológica. 9 Ver Saskia Sasen, The global cities: New York, London,
No entanto, eles mantêm uma postura crítica em Tokio, New Jersey, Princeton University Press, 1991.
relação às analises sociológicas que têm confinado o 10 Bryan Turner, “The enclave society towards a sociolo-
conceito de sociedade ao Estado-nação e seus con- gy of immobility”. European Journal of Social Theory,
tornos territoriais. É necessária em sua perspectiva 10 (2): 287-303, 2007.
uma reavaliação das concepções que integram o 11 Alasdir MacIntyre, Secularization and moral change,
acervo da sociologia em face das novas configura- Oxford, Oxford University Press, 1967.
ções sociais marcadas pela emergência de um espa- 12 Ver a esse respeito o trabalho de Victor King, The so-
ço transnacional, onde ocorre um intenso fluxo de ciology of southeast Asia: transformation in a developing
capital financeiro, uma acentuada mobilidade de region, Honolulu, University of Hawai Press, 2008.
pessoas, ondas migratórias, novas tecnologias de in- 13 Jürgen Habermas, The posnational constellation: politi-
formação, constituição de valores cosmopolitas etc. cal essays, Cambridge, Polity, 2001.
Trata-se de um livro instigante que discorre – de 14 Jeffrey Alexander, The civil sphere, Oxford, Oxford
forma competente e embasado numa bibliografia University Press, 2006.
de excelente qualidade acadêmica – sobre a plura-
lidade de fenômenos que surgiram no contexto do
complexo processo de globalização econômica, cul- Carlos Benedito Martins
tural e política e que continuam desafiando nossa é Professor Titular do Departamento de
Sociologia da Universidade de Brasília
compreensão da sociedade atual. (UnB). Foi Professor-Visitante da
Universidade de Oxford em 2012.
E-mail: <carlosb@unb.br>.
Notas

1 Anthony Elliot, The Routledge Companion to social


theory. Londres, Routledge, 2010. Ver também seu
trabalho realizado em parceria com Charles Lemert:
The new individualism: the emotional cost of globaliza-
tion, Londres, Routledge, 2009.
2 Bryan Turner, The New Blackwell Companion to social
theory. Oxford, Blackwell, 2010. Em parceria com
Habibul Khondker, Bryan Turner publicou o traba-
lho Globalization East and West, Londres, Sage, 2010.
3 Charles Lemert, Sociology after crises, Boulder, Pa-
radigm, 2004. Sobre esta questão, ver o trabalho de
Willian Outwaite, The future of society, Oxford, Bla-
ckwell, 2006.