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O H ath a -Y o g a é uma ciência mile-

nar da Índia, com exercícios e técnicas


precisas que demonstram surpreendente
conhecimento das profundas forças e
mecanismos do ser humano.

N ão se trata meramente de uma


ginástica no estilo o cidental. A seme-
lhança é apenas aparente, pois enquan-
to a ginástica do Ocidente consiste ape-
nas num treino sistemático do aparelho
locomotor, ainda que indiretamente exer-
ça uma ação benéfica sobre todo o or-
ganismo, o H ath a-Y o ga, além de atuar
sobre o aparelho locomotor, age de
maneira direta sobre o sistema endócri-
no e estimula a conexão do sistema
nervoso central com o sistema nervoso
vegetativo produzindo uma ação profun-
da e geral s o b r e o organismo.
Mas, o H ath a -Y o g a é mais. É uma
ciência e uma técnica que visam um a
educação integral do homem e um de-
senvolvimento de todas suas possibili-
dades naturais.
A lém de desenvolver ao máximo
as potencialidades fís ic a s , tenta conse-
gu ir uma perfeição física e psicológica
que sirva de base à construção de um a
perfeição psicomental, a um a consciên-
cia e 'concentração mais profundas, des-
pertando e ativando correntes nervosas
habitualmente inativas.
Seus resultados são surpreendentes
no campo da saúde, mesmo nos casos
em que a terapêutica parece inoperante.
E estabelece imediatamente a integra-
ção corpo-mente com a conseguinte di-
minuição dos problemas emocionais.
O Y o g a não é uma religião, apesar
de nos ter chegado da Índia fortemente
impregnado de Hinduísmo. N o entanto
sua prática vitaliza e dinamiza a vida
religiosa, qualquer que seja seu credo.

É o método mais completo, cientí-


fico e simples p ara a obtenção da per-
feição natural, na parte que depende da
FUNDAMENTO E TÉCNICA DO HATHA-YOGA
A N T O N IO B L A Y FO NTCUBER TA
Diplomado em Psicologia

FUNDAMENTO E TÉCNICA DO

H A T H A - Y O G A

G U IA CO M PLETO PARA A A P L IC A Ç Ã O DESTA C IÊ N -


C IA M IL E N A R IA DA ÍN D IA , AO D E S E N V O L V IM E N T O
F ÍS IC O , P S ÍQ U IC O E M ENTAL DA P E R S O N A L ID A D E

EDIÇÕES LO Y O LA
São P a u lo
1971
Título do original espanhol
FUNDAM ENTO Y T É C N IC A DEL H A T H A -Y O G A

T radução

ALCÂNTARA S I L V E IR A

CAPA

G U IL H E R M E V A L P E T E R IS

Direitos Reservados

E D IÇ Õ E S L O Y O L A
R u a Vergueiro, 165 - C. Postal 12958 - T e l.: 278-0304 - São Paulo

Im presso no B rasil
Printed in the Brazil
ÍNDICE

PR E FÁ C IO À ED IÇ ÃO B R A S IL E IR A ..................................... 11

PRÓLOGO ................................................................................... 17

IN T R O D U Ç Ã O ............... ............................................................. 25
1. Os Yogas e o Hatha-Yoga ....................................... 25
Sistemas de Yoga ..................................................... 31
Definição precisa do Hatha-Yoga. Sua posição em
relação aos demais sistemas ........................... 33
Vantagens do Hatha-Yoga ......................................... 37
2. O Y oga e a Religião Católica ................................... 37
3. O Yoga e a Ciência Médica ..................................... 43
4. O Yoga e a vida moderna ........................................ 46

P r i m e i r a S ec ç ã o

P R E S S U P O S T O S IN D I S P E N S Á V E I S

C a p ít u l oI — Correlação entre corpo, emoções e mente . . . . 51


Conceito unitário da pessoa ............................................ 52
O corpo .............................................................................. 53
Sistema endócrino ........................................................... 54
Chakras .................................. 60
Sistema nervoso ................................................................. 61
Sistema cérebro-espinhal ................................................... 62
Medula espinhal ................................................................. 64
Nervos cranianos .............................................................. 64
Nervos raquianos ou espinhas ....................................... 64
Sistema nervoso v egetativ o ................................... 66

CAPÍTULO I I — Etapas do Hatha-Yoga ...................................... 73

C apítulo I I I — Elementos formais do Hatha-Yoga .............. 79


Art. 1. "Asana”, ou postura física ................................ 80
Art. 2. “Pranayam a” e respiração ................................ 90
A) A respiração como função fisiológica — 90
B) A respiração como ato p s ic o ló g ic o ............ 91
Quadro de correspondências psicológicas
dos diferentes tempos de respiração,
segundo seu modo de realizar-se ___ 101
1. Inspiração, inalação ou "Puraka” . 101
2. Expiração, exalação ou "Rechaka”. 102
3. Suspensão ou “Kum bhaka” interno. 103
3 bis. Suspensão ou "K um bhaka” externo 103
C ) Significação e Função do "Pranayam a” .. 107
D ) Efeitos dos exercícios de "Pranayam a” e de
respiração consciente ................................. 117
Art. 3. Princípios do relaxamento consciente ou domí-
nio do tônus muscular ...................................... 122
1.Substituição de uma atividade por outra . 127
2. Sono profundo ............................................. 130
3. Relaxamento total consciente ..................... 130
Art. 4. A correta atitude da mente no Y oga ............... 143
Pensamento e atenção central ........................... 144
Como se chega à atenção central ...................... 152
1. N o Hatha-Yoga ........... 153
2. E m outros Yogas ....................................... 156
3. N a vida diária ............................................. 160

C apítulo IV — Visão de conjunto ............................................ 163

Segun da s e ç ã o

P R A T IC A DO H A T H A -Y O G A

C apítulo V — Asanas ................................................................. 171


1. "Suryanam askar” ou saudação do Sol ................. 171
“a sa n a s” de d e s c a n s o , r e s p ir a ç ã o e m e d it a ç ã o .

2. “V ajrasana”, ou posição diamantina .................. 174


3. "Sukhasana”, ou posição fácil ................................ 174
4. “Svastikasana”, ou posição próspera .................... 176
5. “P admasana”, ou posição do Lótus ...................... 178
5 bis. “Ardha-Padmasana”, ou meia posição do Lótus . 179
6. “Siddhasana”, ou posição perfeita ........................ 181
6 bis. Exercícios preparatórios para o “Siddhasana” .. 182

"A SA N A S” DE AÇÃO FÍSICA E PSÍQUICA.

7. “Sarvangasana”, ou postura de todo o corpo ___ 183


8. “Paschimottanasana”, ou posição de extensão pos-
terior ......................................................................... 187
9. “Ardha-Bhujangasana”, ou meia posição da cobra . 189
10. “Bhujangasana”, ou posição da cobra .................. 190
11. “Ardha-Shalabhasana”, ou meia posição do gafa-
nhoto ....................................................................... 192
12. “Shalabhasana”, ou posição do gafanhoto ........... 192
13. “Dhanurasana”, ou posição do arco ...................... 193
14. “Matsyasana”, ou posição do peixe ...................... 194
15. “Padahastasana”, ou posição da cegonha ........... 196
16. “Shirshana”, ou posição sobre a cabeça ........... 197
17. “Shimhasana”, ou posição do leão ......................... 203
18. “Trikonasana”, ou posição triangular .................. 204
19. “Uddiyana-Bandha”, ou contração abdominal, 1.a
variação .................................................................... 206
19. bis. “Uddiyana-Bandha”, 2.ª variação ........................ 208
20. “N au li”, ou isolamento dos retos abdominais e suas
variações .................................................................. 211
21. “Vakrasana”, ou posição de torção ....................... 214
22. “Ardha-Matsyendrasana”, ou torção da coluna ver-
tebral ......................................................................... 215
23. “Matsyendrasana”, ou torção total da coluna ver-
tebral ......................................................................... 217
24. “Yoga-M udra”, ou símbolo do Yoga, 1.ª, 2.a e 3 ª
variações .................................................... 218
25. “Halasana”, ou posição do arado ............. 220
26. A A rvorezinha ........................................................... 222
27. “Vriksasana”, ou posição da árvore ...................... 225
28. “Viparita-Karani”, ou posição pélvica, 1.ª e 2ª va-
riações ...................................................................... 227
29. “Supta-Vajrasana”, ou posição do sonho diamantino 229
30. “Mayurasana”, ou posição do pavão real .............. 230

Capítulo V I — Exercícios práticos de respiração consciente e


de Pranayama ...... 233
E m que consiste a respiração consciente ..................... 233
1. Respiração abdominal ............................................ 235
2. Respiração completa ouintegral ........................... 240
3. Respiração purificadora ...................................... 247
4. Respiração neurovitalizadora ................................ 248
5. Exercícios de extensão geral ................................. 250
6. Exercícios de contração geral ................................ 251
I ntrodução à P rática do “P ranayama ” ........................... 252
Preliminares ................................................................. 252
Normas gerais de execução .......................................... 253
sobre o “puraka”, ou inspiração ................................. 253
sobre o “rechaka”, ou expiração ................................ 254
sobre o “kumbhaka”, ou retensão ............................... 255
sobre a duração de cada tempo ................................ 256
sobre os perigos do “Pranayama” ............................ 257
Resultados do “Pranayama” ......................................... 258
Práticas complementares no “Pranayama” ................. 259
“Ushahpana” ou limpeza das fossas nasais ................. 259
“Jalandhara-Bandha”, ou chave do queixo ................. 260
“Nasagra-Drishti” e “Bhrumadhya-Drishti” ou fixação do
olhar nasal e frontal .............................................. 261
Modo correto de fechar as narinas na respiração alter-
nada ....................................................................... 262
E xercícios de “P ranayama ” ........................................... 263
1. “Surkha Purvak” ou “pranayama” fácil ................ 263
2. “Ujjayi” .................................................................. 265
3. “Kapalabhati” ......................................................... 267
4. “Bhastrika” ............................................................ 271

Capítulo V II — “Savasana”, ou postura do cadáver: Prática


do relaxamento geral consciente ................................. 275
Local e emprazamento ................................................. 276
Posição ......................................................................... 277
Respiração .................................................................... 278
Atitude mental ........... 279
1.ª fase: Consciência física periférica ................... 279
2.a fa s e : Consciência prânica ou de formigamento .. 279
3.ª fase: Consciência sensitivo-emotiva .................... 280
4.a fase: A autoconsciência mental ........ 281
5.a fase: Consciência da obscuridade, do vazio ___ 282
6.a fa s e : Consciência de luminosidade, de plenitude . 284
Duração .............................................................................. 284
Quando pode ser praticado .................... 285
Fenômenos que podem surgir durante o relaxamento .. 285

C apítulo V I I I — Conselhos práticos e sugestões ................... 289


Os exercícios de Yoga para as mulheres ........................ 293
As crianças podem fazer Yoga? ..................................... 293
Plano de exercícios de Y oga ........................................... 294
Plano básico de exercícios de Yoga, para pessoas de boa
saúde compreendidas entre os dezoito e os quarenta
anos de idade ............................................................. 294
Breve plano de exercícios de Yoga ................................ 295

T erceira seção

VÁR IO S ASPECTO S DO H A T H A -Y O G A

C apítulo IX — Vida natural, alimentação e sexualidade . . . . 299

C apítulo X — Introdução à terapêutica iogue ........................ 305


O conceito de enfermidade ............................................ 305
Terapêutica geral ............................................................. 314
Psicoterapia ...................................................................... 315
Terapêutica especial .......................................................... 318

C apítulo X I — Oriente, Ocidente e Espiritualidade ............ 323

C O N C LU SÃ O .............................................................................. 327

B IB L IO G R A F IA ........................................................................... 329
PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA

P or J e a n - P ie r r e B a s t io u

Professor de Y o g a form ado pelo “Y o g a -


-Institute” de Santa Cruz (Bom baim ,
Ín d ia ), “H ath a -Y o g a R atn a” (jó ia do
H a th a -Y o g a ), pela “Y o ga-V e d a n ta Forest
A cadem y”, Sivanandanagar, H im alayas,
Índia. M em bro fundador da Sociedade
B rasileira de Estudos de Y o ga.

O Yoga chegou-nos da índia fortemente impregnado


de Hinduísmo. Nada mais fácil, entretanto, que dissociá-lo
desse conjunto de escolas espirituais. Aliás, os próprios
Satgurús ( grandes mestres de Yoga) não se cansam de
repetir que o Yoga não é uma religião, acrescentando
que sua prática, todavia, valoriza, dinamiza a vida reli-
giosa, qualquer que seja o seu credo, transformando a
simples rotina em uma adesão consciente.
Compreenderemos melhor essa característica do Yoga
ao recordar que essa ciência, ou melhor: essa “educação
integrai do homem”, para usar a feliz definição do Shri
Yogendra, Diretor-fundador do “Yoga-Institute” , de Santa-
-Cruz, Bombaim, é muito anterior aos Vedas, alicerces do
Hinduísmo, anterior à Pérsia, anterior mesmo à conquista
da índia pelos arianos. Os selos de cerâmica, de mais de
12 HATHA-YOGA

cinco mil anos, descobertos recentemente nas escavações


arqueológicas de Mohenjo-Daro, no vale do Hindus, confir-
mam esta asserção.
Entretanto, se como observa Maryse Choisy em La
Métaphysique des Yogas, o Yoga não contém o Veda, nem
o Veda contém o Yoga, na Í ndia todas as escolas espiri-
tuais de renome, ortodoxas ou não, adotaram o Yoga como
condição “sine qua non” da plena realização de seu ideal
filosófico ou espiritual.
Para ilustrar esse fato notável tomemos, por exemplo,
o Mimansa que, juntamente com o Yoga, faz parte dos seis
Dárshanas ( pontos de vista ou escolas espirituais) que
constituem o Hinduísmo. (Em bora anterior aos Vedas, “o
Yoga acabou, sem violência, sem gritos e guerras, por ins-
talar-se bem no coração do Bramanismo”: Maryse Choisy,
Revue Planête n.° 21.) O Mimansa, na sua exposição dos
Purusharthas, ensina-nos que a vida do homem (Purusha)
tem quatro finalidades ou metas a atingir (Arthas), fina-
lidades essas que, pela ordem, são Dharma, Artha, Kam a
e Moksha, que significam, respectivamente, a realização
no plano moral, a realização no plano social, a procura do
prazer e a realização no plano espiritual. (Quanta sa-
bedoria ao situar riqueza e prazer entre Dever e Vida
Espiritual!) Percebemos, de imediato, que o Yoga tem
sua aplicação a qualquer uma dessas finalidades, como
veremos a seguir.
1. Em Dharma. A primeira etapa do Yoga, Yama,
que nos ensina a evitar as atitudes negativas, e a segunda,
Niyama, que nos recomenda as atitudes positivas a obser-
var, revelam-se de grande ajuda na obtenção dessa realiza-
ção no plano moral. Mas o Yoga faz também da saúde um
dever moral. A terceira e quarta etapas, Asana e Pranaya-
ma, de imenso valor terapêutico, permitem ao yogi gozar
da mais inabalável saúde e de uma espantosa resistência
PREFACIO A EDIÇÃO BR ASILEIR A 13

orgânica e nervosa. E quando se conhece o efeito positi-


vo de um perfeito equilíbrio glandular sobre o comporta-
mento, compreende-se toda a ênfase dada pelo Hatha-Yoga
a essas duas etapas.
2. Em Artha. A prática do Yoga leva ao autocon-
trole emocional e à concentração mental, dois fatores
decisivos de eficiência e de êxito no âmbito da vida pro-
fissional e social.
3. E m Kama. O Yoga alerta-nos tanto sobre os pra-
zeres que contribuem para nossa elevação como sobre os
que, além de aviltar-nos, podem até nos destruir. No âm-
bito sexual, o Yoga oferece-nos valiosas lições que autori-
zam transformar a força genésica em ojas ou força mental
e espiritual. A palavra de ordem do Yoga neste setor é
“não reprimir brutalmente, não negar, mas sim conhecer
e S U B L IM A R ” . Esta técnica é utilíssima para empreen-
der a última meta, Moksha.
4. E m Moksha. quatro etapas restantes do Yoga
permitem um esforço metódico para a consecução da
realização no plano espiritual, através do Pratyahara, des-
ligamento do mundo sensorial, Dhárana, concentração
Dhyana, meditação e, enfim, Samadhi, iluminação, con-
templação.
Da mesma forma, associa-se o Yoga aos outros Dár-
shanas. A célebre Academia Yoga-Vedanta (Yoga-Vedanta
Forest Academy) fundada pelo grande Swami Sivananda,
perto da cidade sagrada de Rishikesh, é prova evidente
da feliz união do Yoga com o Vedanta. O mesmo aconte-
ce com o Samkya, etc.
Uma das fortes e dinâmicas correntes místicas da
Í ndia, o Bhakti, que utiliza a mais vibrante devoção como
meio de realização espiritual, analisando, nos seus Bhakti-
Sástras (tratados devocionais) os graus e formas de devo-
ção, descreve o caminho externo (Bahiranga-Sádhana) e
14 HATHA-YOGA

o caminho interno (Antaranga-Sádhana) e ensina ser o


primeiro constituído de oferendas, cânticos, leituras dos
livros sagrados, prostrações, etc., constando o segundo de:
1 .°) Vairagya, a renúncia; 2.°) Jnana, o conhecimento;
3.°) Ù pasana, a adoração interior e (atente bem o leitor!)
4.°) A PRÁTICA D O YO GA. Novamente vemos o Yoga
valorizando, ajudando, dinamizando uma mística.
Mesmo o Budismo e o Jainismo, doutrinas dissidentes
do Hinduísmo, recorrem ao Yoga, esse Yoga que penetra,
agora, no Ocidente com força explosiva.
Na Í ndia encontramos muitos fervorosos praticantes
entre Persas e Muçulmanos, e Ben Gurion, ex-Presidente
de Israel, não hesitava em demonstrar sua entusiástica
adesão ao Yoga.
E que acontece a respeito no Ocidente?
Depois de certa desconfiança por parte dos meios cris-
tãos, surgiu, enfim, o depoimento de “um iogue de Cristo
na obra do Padre Dechannet, monge dominicano, livro que
editado com “lmprimatur” e “Nihil Obstat", recomenda a
prática do Yoga aos católicos, como auxiliar na obtenção
das três virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade.
Antonio Blay, autor do excelente livro que o leitor vai
ler, oferece-nos um capítulo, muito bem construído, sobre
“o Yoga e o Cristianismo”, capítulo talvez mais importan-
te, para a aceitação desta união, que todo o livro de De-
channet, pois não sendo sacerdote, não precisava ele esfor-
çar-se exaustivamente na justificativa de sua posição. Bas-
taria ao eminente psicólogo espanhol uma exposição sere-
na, apoiada em argumentos que não podem sofrer contes-
tação, para chegar conosco a esta conclusão evidente: o
Yoga pode ser de grande valor para e no Cristianismo.
Basta, para tanto, usar, como observa sabiamente Blay,
o discernimento, esse mesmo discernimento, Viveka, que
todos os Satgurús recomendam aos seus cheias (discípu-
PREFÁ CIO A EDIÇÃO BR ASILEIR A 15

los), pois sem o cultivo constante dessa qualidade, o pro-


gresso na sádhana, vereda espiritual, arrisca-se a ser ape-
nas uma ilusão.
Aquele que procura, dentro do Cristianismo, a perfei-
ção espiritual, poderá muito bem apoiar-se sobre as téc-
nicas do Yoga, a fim de caminhar com mais firmeza pe-
las três vias tradicionais (qu e na índia seriam autênticas
sádhanas) , a Purgativa, a Iluminativa e a Unitiva, até
atingir a condição de “Perfeito”.
Mas não é apenas sob este aspecto que o livro de Blay
merece nossa entusiástica recomendação. Provavelmente
essa obra representa o que de melhor foi, até hoje, escrito
sobre Hatha-Yoga, por um ocidental. Blay sabe apresen-
tar a milenar escola indiana sem reduzi-la a simples condi-
ção de ginástica, sem deformá-la, em nome de nossa cultu-
ra. Ao contrário: Blay usa da sua formação, da sua con-
dição de psicólogo para apresentar-nos o Hatha-Yoga em
toda sua plenitude de ciência autêntica. Neste livro duas
civilizações se unem para completar-se, enriquecer-se mu-
tuamente numa causa comum: O H O M E M .
Comovente encontro espiritual entre Ocidente e
Oriente!
Quando Santo Agostinho, em suas Confissões, excla-
ma: “Percorri ruas e praças deste mundo, buscando-Te
sempre. .. e não Te encontrava porque em vão procurava
no exterior aquilo que estava dentro de mim ”, o grande
Católico unia-se ao poeta e místico hindu K abir que, por
sua vez afirmava de forma admirável: “Se expulsas Deus
fora de ti, o que adoras é a distância!” .
Rudyard Kipling equivocou-se quando afirmou que
Ocidente e Oriente jamais se encontrariam. Na hora
ecumênica em que vivemos, uma ponte luminosa já foi
lançada entre Oriente e Ocidente. Essa ponte é o Yoga,
o Yoga que precisamente significa UNIÃO.
P R Ó L O G O

1. NOSSO OBJETIVO

Fazemos neste livro uma exposição elementar, mas


clara e prática, dos princípios, técnicas e principais apli-
cações do Hatha-Yoga.
As fontes de informações em que baseamos nosso tra-
balho são, principalmente, as seguintes:
1.a Um cuidadoso estudo da maior parte da litera-
tura existente sobre a matéria, de autores modernos, cuja
relação se encontrará na bibliografia, no fim do livro.
2.a A experiência pessoal do autor.
3.a A experiência de numerosos amigos e colaborado-
res pessoais, alguns dos quais com vários anos de prática
assídua e inteligente do Hatha-Yoga. Destes últimos rece-
bemos valiosíssimos conselhos e demonstrações práticas;
aos outros transmitimos algumas orientações particulares,
seguindo depois, com atenção, os resultados obtidos. A to-
dos ficamos agradecidos e a todos dedicamos este livro que
também quase entre todos foi escrito.
Segundo afirma a tradição do Oriente, para aproveitar,
na devida forma, o ensinamento do Yoga, deve-se aprendê-
-lo diretamente de um gurú, de um professor, que por haver
passado por todos os graus de treinamento, está em condi-
18 HATHA-YOGA

ções de graduar corretamente sua aplicação a cada aluno.


O autor deste livro não é um gurú, mas apenas um estu-
dante dessa matéria; o livro, por essa razão, não pretende
ser, absolutamente, um ensinamento como o que o professor
transmite ao aluno, mas sim um conjunto de comentários
sistematizados, que um estudante oferece a seus compa-
nheiros de trabalho, sobre conselhos e pequenos detalhes
práticos que lhe ensinaram, que ele aprendeu com a prática
ou foi recolhendo, aqui e ali, de outros mais adiantados.
Acreditamos que o presente trabalho possa constituir
uma ajuda eficaz para as pessoas que, desejosas de obter
os múltiplos benefícios derivados da prática do Yoga, estão
não obstante, impossibilitadas de contar com um professor
que as oriente e lhes mostre, diretamente, os mil peque-
nos detalhes da técnica e as sutis disposições internas que
determinam a correta e indispensável atitude interior.
Existem muitos livros escritos sobre o Hatha-Yoga.
Muitos, excelentes sob o ponto de vista de uma detalhada
descrição do aspecto físico dos exercícios. Outros o são sob
o ângulo da erudição, das teorias filosóficas, dos estudos
comparativos, da evolução do Yoga nos diversos países
através da História, etc. Alguns deles são, certamente, de
muito boa qualidade. Em nenhum, todavia, pudemos en-
contrar focalizadas as práticas do Hatha-Yoga sob o ângu-
lo da psicologia ocidental, nem tampouco uma minuciosa
descrição das atitudes internas e dos estados subjetivos
pelos quais se atravessa durante a prática dos exercícios.
Acreditamos que a apresentação do Hatha-Yoga em
sua forma clássica, com sua linguagem exótica, suas des-
crições simbólicas, místicas ou esotéricas, embora lhe em-
preste um caráter peculiar e um sabor característico que
predispõem em quem os aceita, à adoção de uma atitude
mágica, até certo ponto muito útil, tem, em contrapartida,
o inconveniente de afastar outras tantas pessoas, menos
PRÓLOGO 19

predispostas, magicamente, ao estudo e ao aproveitamento


do Yoga. Estas formas crípticas e hiperbólicas, tão fre-
qüentes, fazem do Yoga algo estranho e longínquo para o
leitor ocidental que, habituado a descrições lógicas, siste-
máticas e progressivas de todos seus conhecimentos, vê
naquele algo perigoso e irracional.
Mas, pior ainda é cair no outro extremo e fazer uma
descrlção do Yoga como se fosse simplesmente um tipo de
ginástica no estilo ocidental, pois assim se fere duplamente
o conteúdo essencial do Yoga: em sua forma e em seu espí-
rito. O Hatha-Yoga é muito mais que uma ginástica
muscular.
Apresentar o Hatha-Yoga evitando esses inconvenien-
tes, foi uma das intenções que nos orientaram na redação
deste trabalho. Por este mesmo motivo, nosso objetivo,
ainda que dentro de uma visão global antropológica, é
predominantemente psicológico.
Outra finalidade foi a de oferecer algumas descrições
do aspecto subjetivo ou estados de consciência que se expe-
rimentam e das atitudes internas que devem ser adotadas
na prática do Yoga. Cremos, assim, preencher uma lacuna
existente na literatura iogue e, ao mesmo tempo, ser úteis
a quem busca orientação concreta sobre a melhor maneira
de praticar os exercícios do Yoga.
Finalmente, outro objetivo foi o de apresentar o Hatha-
Yoga sob uma perspectiva mais ampla que a usual, na
qual possamos apreciar melhor suas múltiplas possibilida-
des. Este ramo do Yoga tem sido injustamente menospre-
zado, mesmo por alguns tratadistas de outros sistemas do
Yoga. N o nosso modo de entender, esta atitude só pode
ser atribuída a uma falta de suficiente aprofundamento
no espírito do Hatha-Yoga. Uma coisa é cada um eleger
o tipo de Yoga que mais convenha às suas características
pessoais, e outra coisa é emitir um juízo a respeito de uma
20 HATHA-YOGA

matéria em si mesma. Com estas páginas julgamos contri-


buir para uma compreensão melhor do Hatha-Yoga por
parte de todos e para sua maior utilização no futuro, tanto
em seu aspecto de eficaz terapêutica psicossomática de
múltiplos transtornos da saúde, como em seu aspecto de
técnica de integração da personalidade.
É evidente que este livro não pretende ser mais que
uma pré-iniciação, um ponto de partida, dirigido especial-
mente à prática efetiva do Hatha-Yoga. Por esta razão,
omitimos toda discussão de tipo teórico, assim como as
constantes referências bibliográficas que perturbariam a
leitura continuada e fluente.
Já é hora, assim o cremos, de que os conhecimentos
valiosos do Oriente e do Ocidente principiem a entrosar-se
e que, numa fusão orgânica e fecunda, permitam-nos obter
uma perspectiva mais rica, mais completa e, portanto,
mais certa, da natureza do homem em seus mecanismos.
Também neste sentido vai um pouco de nossa minúscula
contribuição.

2. P lano do l iv r o

Na Primeira s e ç ã o exporemos as idéias gerais que são


o suporte, o fundamento, ou melhor, a contraparte inte-
lectual de algumas das leis que regem o funcionamento
da natureza humana. A clara compreensão destas idéias
é totalmente imprescindível para que o aluno ocidental
tire o máximo proveito dos exercícios. A mente também
deve fazer sua ginástica paralelamente ao corpo. Sempre
que possível, utilizaremos a linguagem e os conhecimentos
da ciência ocidental, mas sem entrar em demasiados tec-
nicismos que dificultariam a leitura por parte do leitor
médio, e que podem ser encontrados, sem dificuldade, em
obras de divulgação ou de especialidade científica, pelo
leitor particularmente interessado no assunto. A Biblio-
PRÓLOGO 21

grafia que colocamos ao final do livro poderá servir de


orientação neste sentido.
A Segunda s e ç ã o está destinada à exposição prática
dos exercícios do Hatha-Yoga. Principia pelos asanas ou
posturas, dando instruções concretas para cada exercício,
sobre a maneira de fazê-lo, duração, atitude mental, efeitos,
etc. Vem, depois, a descrição dos exercícios fundamentais
de respiração consciente e de pranayama, onde entramos
em extensas minúcias para evitar qualquer possível erro
de técnica. Em seguida, damos a forma prática de con-
seguir o relaxamento geral consciente, assim como uma
detalhada descrição dos estados subjetivos pelos quais se
atravessa em sua execução, fenômenos que podem surgir
e co m o resolvê-los, etc. Evidentemente, esta se ç ã o se com-
pleta com a primeira, pelo que é imprescindível que as
duas sejam “trabalhadas” ao mesmo tempo.
Na Terceira s e ç ã o esboçamos alguns temas comple-
mentares, como: regime alimentar, higiene e vida sexual;
introdução a uma terapêutica iogue e valor do Oriente pa-
ra o Ocidente e para a espiritualidade.

3. A Q UEM SERÁ DE UTILIDADE

O livro, tal como está concebido, será de utilidade às


seguintes pessoas:
a) Às que procuram melhorar seu estado de saúde
e aumentar suas energias;
b) À s que desejam elevar e desenvolver seu tônus psí-
quico;
c) Às que queiram estabilizar e aumentar sua capa-
cidade mental;
d) Aos médicos em geral e aos neurologistas, psiquia-
tras e psicólogos em particular, como verdadeira intro-
dução à terapêutica psicossomática;
22 HATHA-YOGA

e) A quem tenha interesse em conhecer, por razões


culturais, os princípios e as práticas desta milenária ciên-
cia do Hatha-Yoga.

4. Co m o deve ser estudado e a p l ic a d o

Para obter-se o máximo proveito do conteúdo deste


livro, recomendamos o cumprimento, dentro do possível,
dos seguintes requisitos:
a) Leitura atenta e repetida. Há muitas coisas que
não serão compreendidas numa primeira leitura, uma vez
que várias delas estão tratadas sob uma perspectiva muito
diferente da usada no Ocidente. As descrições dos estados
subjetivos somente irão adquirindo significado à medida
que se avance na prática dos exercícios. Muitas passagens
que se julgavam sem sentido ou que pareciam tê-lo de-
masiadamente superficial, adquirirão, então, novo relevo
e valor.
b ) Praticar os exercícios prescritos, lentamente, sem
pressa, e ajustando-se de maneira estrita às normas e con-
selhos que são dados para cada caso no decorrer do livro.
c) Controlar constantemente os resultados, para po-
der apreciar as melhoras conseguidas, a conveniência de
modificar este ou aquele exercício, atitude, estado, etc.
Outras indicações serão dadas mais adiante, no desen-
volver de cada tema da obra.

5. D e d ic a t ó r ia

Pelo que foi, como guia e expoente do mais alto dos


iogues, dedico estas páginas à memória de meu mestre
Swâmi Siddheswarânanda, da Ordem de Ramakrishna.

6. A g r a d e c im e n t o s

Queremos patentear aqui, finalmente, nosso reconhe-


cimento a todos quantos, amigos e colaboradores, ajuda-
23

ram-nos a fazer este livro. Especialmente, D. F. A., que


constitui um exemplo vivo de tudo quanto aqui é exposto
e de quem aprendemos o mais importante na técnica do
Hatha-Yoga.

7. A d v e r t ê n c ia s o b r e a s e g u n d a e d iç ã o

O fato de que num ano haja se esgotado a primeira


edição deste livro, é uma clara demonstração do crescente
interesse que, na Espanha e nos países da Hispano-Amé-
rica, desperta o estudo e a prática das técnicas do Yoga,
seguindo assim um movimento geral que se observa em
toda a Europa e na América do Norte.
Por outro lado, os numerosos testemunhos de satis-
farão e de agradecimento que constantemente vem rece-
bendo o autor destas páginas, parecem mostrar que o livro
cumpriu sua missão de ajudar eficazmente a quantos pro-
curaram um conhecimento mais amplo e uma técnica mais
precisa na prática do Yoga. Os alunos e consulentes da
Se ção de Yoga do nosso Centro de Estudos de Psicologia
Aplicada — D H A R M A — dão igualmente constante teste-
munho dos excelentes resultados que obtêm da prática do
Yoga, tanto no aspecto físico, como no psicológico, quan-
do aplicado com inteligência e perseverança.
INTRODUÇÃO

1. Os Yogas e o H a th a -Y o g a

ESDE muitos anos, o que mais vem chamando a

D atenção do homem ocidental, com respeito ao Orien-


te e, em especial, no que se refere à Í ndia, é o extraordi-
nário desenvolvimento que alcançaram, nesses países, o
conhecimento e a aplicação das forças da alma, dos po-
deres da mente e da gigantesca energia da vontade. A
ciência ocidental contemporânea começa, agora, com cres-
cente assombro, a vislumbrar sua extraordinária importância
e a aceitar sua evidente realidade.
É certo que esse genuíno desenvolvimento anímico e
espiritual diz respeito, na Índia, somente a uma minoria
selecionada, que oferece, precisamente por isso, contraste
notável com a ignorância e a miséria em que, pelo menos
até agora, tem vivido a grande massa da população. Isto,
porém, tom a ainda mais notável a circunstância de que
a experiência deste conjunto de “sábios” e de “iogues” a-
ja podido subsistir em sucessão ininterrupta durante vá-
rios milênios e haja dado lugar à elaboração de uma ver-
dadeira ciência, com técnicas precisas que demonstram
surpreendente conhecimento das profundas forças e meca-
26 HATHA-YOGA

nismos do ser humano. fo rç a s e mecanismos que a ciência


ocidental, após havê-las ignorado ou negado durante mui-
to tempo, vai redescobrindo pouco a pouco nestes últimos
anos batizando-os com nomes novos e criando com eles
novas técnicas de higiene e terapêutica. Falaremos disso
mais adiante. Desejaríamos, por enquanto, apenas assina-
lar a imemorial antigüidade, a exatidão e a extraordinária
vitalidade da “ciência sagrada” dos sábios da milenária
civilização da Índia.
É esta ciência que se conhece com o nome de YOGA.
A palavra “Yoga” possui dois sentidos principais:
1. União. 2. Meios ou técnicas para atingir a essa união.
N a primeira acepção, Y oga significa qualquer catego-
ria de uniões. Nos sistemas filosóficos e religiosos da Índia
esse termo é usado no sentido de realizar a união do prin-
cípio espiritual do homem (atm a) com a Divindade (Brah-
m a), mas significa igualmente a união consciente do as-
pecto material do homem com seu aspecto espiritual, e da
personalidade superficial com a personalidade profunda.
Noutras palavras, é o estado de integração, de unificação
consciente dos aspectos superficiais, profundos e superio-
res do homem.
N a segunda acepção, Yoga é o conjunto de técnicas
precisas e sistemáticas que levam ao desenvolvimento de
determinados níveis de consciência, não atualizados na
maior parte dos homens, e a integração de tais níveis em
uma única unidade de consciência total e permanente.
Mencionamos as palavras desenvolvimento e unifica-
ção. Esta definição de Yoga implica que o homem neces-
sita dessas qualidades no grau que, pelo menos, poderia
tê-las. Com efeito, o Yoga, como outras doutrinas de diver-
sas tradições, ensina-nos que o homem vive de maneira
muito limitada em vários aspectos de sua natureza.
Estas limitações podem agrupar-se em três classes:
INTRODUÇÃO 27

1.a F a l t a d e d e s e n v o l v i m e n t o — A consciência hu-


mana vive limitada, circunscrita, à simples superfície do
seu ser. Em seu íntimo jazem grandes energias e maravi-
lhosas faculdades, das quais o homem apenas toma conhe-
cimento no transcurso de sua vida. Qualquer delas, atua-
lizada, bastaria para transformar completamente a vida
humana. Mencionemos somente, como exemplo, as faculda-
des de percepção extra-sensorial (telepatia, visão à distân-
cia, etc.) estudadas pela moderna ciência chamada Parap-
filcologia; o domínio perfeito da dor; o poder mental, ca-
paz de concretizar os mais audaciosos projetos e possibi-
lidades entrevistos por uma sadia e criadora imaginação;
a intuição artística, hoje apenas manejada por poucos e,
assim mesmo, de maneira totalmente descontrolada; a in-
tuição metafísica, tão a miúdo confundida e misturada
com as elucubrações e complexidades de alguns sistemas
de Lógica, e, numa outra ordem de idéias, o enorme poder
transfigurador do amor espiritual, o acesso ao mundo so-
brenatural da G r a ç a ...

Em certos momentos de calma, de tranqüilidade, em


que o silêncio adquire um a solidez estranha, o homem se
apercebe, de repente, de que algo profundo e grande está
presente no seu íntimo. Noutras ocasiões, é uma comoção,
um desgosto, um sobressalto que o fazem vislumbrar, por
um instante, a existência de regiões de força e de poder
extraordinários, regiões em que a inteligência e o amor,
transcendendo o pensar e o sentir, possuem, em si mes-
mas, um a realidade majestosa e soberana.

O que distingue o homem superior, aquele que se des-


taca por suas notáveis capacidades, sejam de uma ordem
ou de outra, do homem vulgar, do homem primário, é pre-
cisamente a circunstância de que o primeiro tem acesso
(muitas vezes sem saber o porquê, nem como) a alguns
desses níveis superiores de seu próprio ser.
28 HATHA-YOGA

2 .a F a l t a d e u n i d a d e — O homem vive como reino


dividido. As diversas faculdades ou níveis de consciência
atuam em completa independência uns dos outros, quando
não o f azem em recíproca oposição. O corpo procura algo
diferente ou contrário do que a sua vontade deseja; seus
sentimentos reagem, geralmente, contra suas idéias e con-
vicções; o que deseja num certo momento, deixa de querer
em outro, etc. É vasta a quantidade de energia que tais
tensões consomem e lamentável a diminuição de rendi-
mento produzida por essa atuação vacilante, que chega,
às vezes, a esterilizar completamente uma existência.
É neste fato que encontramos a origem de toda neu-
rose e de tantos transtornos de caráter, como a ansiedade,
a timidez, a impulsividade, a abulia etc., que constante-
mente prejudicam a livre e completa expressão das pos-
sibilidades do homem.
3.a F a l t a d e h i e r a r q u i a — Refere-se esta ao fato de
não bastar que os diversos níveis do homem (vegetativo,
afetivo, racional, intuitivo, etc.) estejam integrados, mas
à necessidade de que os inferiores atuem em completa
subordinação aos superiores, de modo estável, sem esforço
excessivo, sem grandes “sacrifícios” (pois isto demonstra-
ria que não se conseguiu de modo firme a unidade mencio-
nada anteriormente). Acontece, às vezes, que no momento,
o homem consegue unificar sua estrutura complexa. Esta
unificação, porém, por vezes se acha centrada num nível
superior e, então, o homem pratica o bem em todas as
suas acepções, mas outras vezes se situa em torno de
um nível inferior; neste caso, o homem desce, baixa em
sua valorização humana, pratica o mal, o homem põe-se
de acordo consigo próprio para fazer o que não deve.
Passa, assim, do predomínio de um nível para o predo-
mínio de outro. Sua posição é instável e perigosa.
A ordem hierárquica correta deve ser: Espírito, al-
ma, corpo. Entendemos por Espírito a fonte espiritual
INTRODUÇÃO 29

da alma, o lado da alma que se dirige para Deus. São as


faculdades mais superiores do homem: intelecto, vonta-
de; e amor espirituais. São as que devem predominar so-
bre todas as outras e reger a todas elas.
Entendemos por alma o mundo da consciência psi-
cológica, onde se realiza o encontro do espiritual com o
material, o campo em que se fere a batalha da afirmação
do ser espiritual e do seu existir como tal, de sua ação e
de sua expressão através e mediante todos os níveis da
existência, desde o mais elementar ao mais superior.
Entendemos por corpo nosso componente físico ma-
terial, com todas as suas funções e necessidades, mas tam-
bém o lado subjetivo do mesmo, isto é, o lado ou fonte da
alma que, inserida na matéria, permite-nos vivê-la cons-
cientemente.
Talvez tudo isso pareça demasiado abstruso e teórico.
Pedimos ao leitor não se assustar com a forma, quiçá um
pouco complicada, por enquanto, pela qual apresentamos
estas considerações, mas é necessário assinalar os obje-
tivos mais elevados que podem ser alcançados com a ciên-
cia com que nos ocupamos, embora estejamos ainda bas-
tante longe de tais resultados. tod as essas coisas são
realizáveis e, à medida que o estudioso progride na práti-
ca inteligente e perseverante do Yoga, verá tudo isto mais
claramente e “mais de perto”.
Sobrepujar estas limitações, desenvolvendo todas as
possibilidades naturais que o homem encerra dentro de
si mesmo, e permitir-lhe viver seus valores espirituais sem
interferência de instrumentos defeituosos, eis a finalida-
de do Yoga.
Resumindo, podemos dizer que o Yoga é a ciência da
perfeição natural. Que, em todos os países e civilizações
estruturam-se diversas técnicas de perfeição, algumas
muito trabalhadas e enriquecidas por muitos lustros de
30 HA T H A - Y O G A

experiência. Dentre estas se destaca, de maneira brilhan-


tíssima, a técnica da ascética cristã. Não obstante no
Yoga há algo que a própria ascética cristã pode aproveitar
para o enriquecimento do seu já extenso patrimônio cultu-
ral: referimo-nos ao seu duplo caráter de integração e de
sistematização. O Yoga estudou todas as vias naturais
suscetíveis de levar à integração, e, em cada uma, elaborou
um a sistematização estrita de processos e etapas, de resul-
tados comprovados. O Yoga é uma verdadeira ciência.
Acabamos de afirmar ser o Yoga uma ciência, e agora
acrescentamos: é um a ciência experimental. Seus méto-
dos e técnicas provêm da experiência e, aplicados nas de-
vidas condições, produzem sempre idênticos resultados, as
mesmas experiências, iguais estados de consciência. A
experiência é a verdadeira fonte, a verdadeira origem do
Yoga. A experiência de notáveis seres humanos que, ao
longo de vários séculos, aplicaram, estudaram e aperfei-
çoaram com paciência infinita, o comportamento que a
tradição de sua época lhes transmitiu, por intermédio de
seus gurús, de seus mestres. É pois, na profunda e siste-
matizada experiência que encontramos a origem do Yoga.
Quando folheamos os livros primitivos do Yoga, nossa
atenção é fortemente atraída pela linguagem em que fo-
ram escritos. Um a linguagem tão profunda e simbólica,
que não entendemos quase nada ao primeiro contato.
Parece mais tuna série de disparates, uma coleção de exa-
geros absurdos, de tal sorte, que muitos dos primeiros
investigadores ocidentais, que empreenderam seu estudo,
tiveram que abandoná-lo desanimados, e alguns deles, ao
invés de confessar sua incapacidade, sua falta de preparo
para tal cometimento, preferiram declarar que ali não
havia nada, a não ser uma série de grosseiras superstições,
sob a roupagem da exuberante imaginação oriental. Mais
tarde, porém, pouco a pouco, alguns gurús consentiram em
informar aos sinceros investigadores ocidentais, e os pró­
INTRODUÇÃO 31

prios indianos eruditos começaram a transcrever em lin-


guagem mais moderna os textos clássicos, acrescentando-
lhes comentários para esclarecer os significados duvidosos,
circunstância que tomou possível separar, de maneira cla-
ra, o conteúdo científico e experimental da cultura, filo-
sofia, religião e mitologia próprios da época e locais em
que foram escritos. Graças a tudo isso, atualmente, dis-
pomos de bons textos e de autorizados comentários, aces-
síveis ao estudioso que se interessa pelo assunto.

S is t e m as de Y oga

Definimos, anteriormente, o Yoga como a ciência da


união, da integração humana. Neste sentido, todas as es-
pécies de Yoga têm esse mesmo objetivo. O que determina
e qualifica as diferentes técnicas não é o seu objetivo, mas
seus meios, os instrumentos e mecanismos que empregam,
do maneira predominante, para chegar àquele.
As principais classes ou sistemas do Yoga são os se-
guintes:
1. H a t h a - Y o g a — Utiliza o domínio externo e inter-
no do corpo como ponto de partida e como meio para
chegar à sua integração.
2. Emprega a atividade externa, a
K a r m a -Y o g a —
vida ativa, com renúncia progressiva ao objeto da ação.
3. B h a k ti-Y o g a — É o do amor e devoção a Deus,
a serviço do próximo.
4. R a j a - Y o g a — Utiliza o domínio interno dos me-
canismos da atividade mental.
5. G n a n a -Y o g a — Emprega o discernimento e co-
nhecimento abstrato.
6. M a n t r a - Y o g a — Usa o domínio do som, externo
e interno, e a aplicação do ritmo a determinadas combi-
nações de sons.
7. T a n t r a -Y o g a — Emprega a prática das energias
psíquicas e fisiológicas.
32 HATHA-YOGA

Os textos clássicos mais importantes de cada um


desses ramos do Yoga são:
1. — Goraksha, Shiva e Gheranda Sam-
H a t h a -Y o g a
hita Hatha-Yoga Pradipika e Yoga Kundali Upanishad.
2. K a r m a - Y o g a — Bhagavad Gita, Bhagavata Pura-
na e Narada Purana.
3. B h a k t i - Y o g a — Bhagavad Gita, Bhagavata Pura-
na e Narada Purana.
4. R a j a - Y o g a — Yoga Darshana, Roga-Sara San-
graha e Jivan-Mukti Viveka.
5. G n a n a - Y o g a — Mandukya Upanishad, com os
comentários de Shankara e os karikas de Gaudupada,
Akshi e Varaha Upanishad, bem como todas as obras de
Shankara.
6. M a n t r a - Y o g a — Hamsa Upanishad, Brahma V i-
dya Upanishad e Maha Vakya Upanishad, Agni Purana.
7. T a n t r a - Y o g a — Shat Chakra-Nirupana, Paduka-
-Panchaka, Linga Purana e Devi Bhagavata Purana.
O texto mais famoso é, sem dúvida, o dos Yogasutras
de Patanjali, dos quais existem muitas traduções e não
menos comentários. O grande favor de que ele desfruta
é devido à circunstância de que, embora seja um tratado
básico de Raja-Yoga, constitui uma espécie de síntese, de
recapitulação de vários sistemas, integrando-os em uma
unidade orgânica. Estabelece, na prática do Yoga as oito
etapas progressivas que a seguir resumimos:
1.ª Y a m a ou abstinência. O aspirante deve abster-se
de toda espécie de violências, mentira, roubo, luxúria e
ambição.
2.a N i y a m a ou observação. Cultivo da pureza do cor-
po e da mente; alegria, austeridade e pensamento cons-
tantemente voltado para a Divindade.
3 .ª posição correta. Refere-se a que o corpo
A sana ou
consiga adotar uma posição estável, sem que se obstruam
INTRODUÇÃO 33

as energias circulantes. Em etapas mais adiantadas, sig-


nifica também uma correta atitude psíquica e mental.
4.ª P r a n a y a m a o u domínio do ritmo respiratório. Seu
objetivo é o emprego consciente das energias psíquicas.
5.ª P r a t y a h a r a ou isolamento da mente dos estímu-
los sensoriais, mantendo-a perfeitamente desperta e atenta.
6 .ª D h a r a n a o u concentração perfeita. Aplicação to-
tal da mente sobre um ponto (físico, psíquico, mental e
espiritual).
7 .ª D h y a n a o u meditação contemplativa. Fase de pe-
netração da mente no ponto assinalado em D h a r a n a .
8.ª S a m a d h i o u êxtase. Fase final da ascenção da
consciência: unificação, integração, identificação total do
sujeito com o objeto.
Como se vê, cada uma dessas etapas é uma prepara-
ção necessária para a seguinte e, no conjunto, fazem in-
tervir no processo de desenvolvimento todos os aspectos e
níveis do homem.

D e f in iç ã o p r e c is a do H a t h a -Y oga. Su a p o s iç ã o e m

RELAÇÃO AOS DEM AIS SISTEMAS

A palavra Hatha é formada de duas palavras sâns-


critas Ha, que significa Sol, e Tha, que significa Lua.
Por isto, H A T H A é a conjunção de ambos os astros. Por
Sol se entende o princípio positivo, ativo, masculino da
Criação e, por conseguinte, também do homem. E por Lua,
o princípio negativo, passivo, feminino. H A TH A é, assim,
a união consciente dos princípios que constituem a dua-
lidade básica do homem: espírito-matéria.
De um ponto de vista experimental, podemos tentar
definir o Hatha-Yoga, dizendo ser ela:
“A técnica de integração ou unificação natural do
homem mediante:
34 H ATHA - Y O GA

a progressiva purificação do corpo,


o desenvolvimento de suas potencialidades,
a perfeição de seu funcionamento, e
a crescente integração da mente com ele,
de tal modo que, mediante a regularização do ritmo e do
tônus fisiológico, determinam-se automaticamente certos
estados de consciência desejados, e, vice-versa, dado um
estado mental determinado, o corpo reage com uma adap-
tação perfeita e imediata, tanto em seu funcionamento
interno como externo.”
Confessamos ser bastante difícil definir, como seria
de se desejar, qualquer espécie de Yoga. Seus efeitos com-
preendem tantos aspectos da personalidade, muitos deles
completamente novos e desconhecidos da maioria das pes-
soas, que não é possível encerrá-los em alguma definição.
Não obstante, à medida que iremos descrevendo os diver-
sos processos e fases do trabalho a realizar, iremos apre-
ciando melhor o que seja o Hatha-Yoga. Mas desde já de-
vemos observar que somente aquele que pratica fiel-
mente os exercícios, que realiza o descrito e o viva pessoal
e intensamente, somente esse chegará a saber, para além
de toda definição, o que, na realidade, é o Yoga.
Em relação aos demais sistemas, o Hatha-Yoga ocupa
um lugar muito peculiar: uns o olham como algo infe-
rior, devido à ênfase que coloca no aperfeiçoamento do
corpo físico; outros olham-no como um bom auxílio, em-
bora não indispensável, para chegar a estágios profundos
de interiorização. Finalmente, alguns o consideram como
um passo absolutamente necessário para que o trabalho
posterior sobre a mente seja total e permanente.
Pensamos que a utilidade e o rendimento do Hatha-
-Yoga dependem principalmente do modo como se aja. De-
pende da maior ou menor aplicação do indivíduo à sua
INTRODUÇÃO 35

execução. Quando se fazem intervir todas as funções psi-


cológicas num exercício físico, é evidente que, além do
melhor resultado físico obtido, produzem-se transforma-
ç ã o desenvolvimento das referidas funções psicológicas.
Porque só se desenvolve aquilo que se exercita. Por isto
é t ã o i mportante e fundamental, na prática do Yoga,
aprender a razão de cada exercício, já que algumas posi-
ções, que parecem bastante fáceis e inócuas, podem pro-
duzir resultados fabulosos, quando executadas na forma
correta. Também se explica porque muitas pessoas, que
gastaram tempo praticando o Hatha-Yoga, hajam obtido
apenas efeitos puramente físicos, como em qualquer outro
tipo de ginástica ocidental.
Resumindo nossa opinião sobre a utilidade do Hatha-
Yoga para o Ocidente, diremos que, deixando de lado ca-
sos particulares, quando bem executado, constitui ele sem-
pre uma excelente ajuda para o homem de nossa excitada
e apressada civilização. Vejamos uma primeira classifica-
ção do Hatha-Yoga.

1. H a th a -Y o g a in fe r io r — É o que, preocupando-se
exclusivamente com o físico, somente procura sua perfei-
ção e o desenvolvimento das potencialidades que nele exis-
tem, até conseguir resultados extraordinários de resistên-
cia e de “malabarismo fisiológico”. Seus adeptos conver-
tem se em idólatras do corpo e a perfeição atingida os
aprisiona ao invés de libertá-los. É certo que tais resul-
tados podem ser conseguidos com determinadas práticas
de Hatha-Yoga: as proezas do “faquirismo” autêntico e os
records conseguidos por certos atletas e contorsionistas,
Inclusive ocidentais, são provas por todos vistas e conhe-
cidas. Esta espécie de Yoga, porém, não nos interessa.
Pode ter interesse para a investigação científica determi-
nar a resistência que pode alcançar o corpo humano sub-
metido a determinado treinamento, assim como a possibi-
36 HATHA-YOGA

lidade de regular e até de inverter à vontade os processos


fisiológicos da digestão, por exemplo, mas nós nos diri-
gimos apenas àquelas pessoas que buscam no Yoga um
meio preciso e seguro para superar-se, enaltecendo sua
vida Ce criaturas humanas.

2. H a t h a -Y o g a s u p e r io r — Este procura os seguintes


objetivos:
a) conseguir, dentro do possível, uma perfeição fí-
sica e fisiológica que sirva de base à construção de uma
perfeição psicomental, segundo reza o antigo refrão
“mens sana in corpore sano” ;
b) conseguir uma consciência mais profunda, me-
diante o despertar e a ativação de correntes nervosas ha-
bitualmente inativas.
c) adestrar o corpo a fim de torná-lo um instrumen-
to eficiente, tanto em sentido passivo como ativo, no ren-
dimento físico, afetivo, mental e espiritual;
d) internamente, tomar consciência do corpo para
poder desligá-la dele à vontade. Ou, em outras palavras:
conhecê-lo para esquecê-lo, permitindo, assim, às nossas
faculdades superiores, desenvolverem-se em completa li-
berdade nas funções espirituais que lhe são próprias.
Como se pode ver, isto é algo muito diferente do que
habitualmente se pensa a respeito do Hatha-Yoga. Alguém
até mesmo objetará que isso não é o verdadeiro Yoga, mas
uma adaptação do autor que escreve estas linhas. A este
respeito, devemos dizer que a adaptação existe sim, mas
somente na linguagem, uma vez que os conceitos e as
idéias expostos podem ser encontrados, com toda clareza,
nos textos e comentários clássicos do Yoga, por todos quan-
tos queiram refletir, meditar e praticar, com sinceridade,
o que neles vem indicado.
INTRODUÇÃO 37

V antagens do H ath a-Y oga

As vantagens mais destacadas que este Yoga apresen-


ta são as seguintes:
a ) Saúde. O estado físico que produz é algo que
está mais além do conceito corrente que se tem sobre a
saúde, o qual é já por si um bem excelente e nunca bas-
tante bem ponderado. E se, ao iniciar o sadhana ou exer-
cícios, o estado de saúde do discípulo ou sadhaka é defi-
ciente, a prática adequada ante vigilância competente, res-
tabelecerá a saúde por completo, inclusive na maioria dos
casos em que a terapêutica médica parecia inoperante.
b) Estabelece imediatamente a integração corpo-
mente, diminuindo, assim, a intensidade dos problemas
emocionais, origem da maior parte das dificuldades do
caráter e da conduta. Falaremos disso com mais detalhes
no transcurso desta obra.
c) Devido ao maior domínio que o homem tem, em
geral, sobre o físico, constitui o modo mais fácil para pas-
sar, gradativamente, dos estados de consciência mais ele-
mentares aos mais superiores e difíceis.

2. O Y oga e a r e l ig iã o c a t ó l ic a

Estando, por um lado, os textos clássicos do Yoga


envolvidos com as diversas religiões e sistemas filosóficos
da antiga Índia e, por outro lado, devido ao completo des-
conhecimento que, durante muito tempo, se teve do seu
conteúdo científico, sem falar de suas formas teóricas, é
natural que a Igreja receasse o Yoga, e, velando pela in-
tegridade do dogma e da moral entre seus fiéis, prevenis-
se-os contra a prática e a leitura dessa matéria.
Hoje, entretanto, as coisas estão mais claras. Nobres
teólogos e filósofos católicos abordaram o assunto com
seriedade. Homens de ciência, especialistas em diversas
disciplinas médicas, foram à Índia para estudar os iogues
38 HATHA-YOGA

in loco. Submeteram-nos à experimentação objetiva, com


espírito desapaixonado, durante as diversas fases de suas
práticas; fizeram eletrocardiogramas, estudaram-lhes a
respiração, o pulso, a temperatura, etc. Existem, na Índia,
centros de investigação em que médicos estudam e apli-
cam os exercícios do Hatha-Yoga no tratamento de nu-
merosas doenças.
Chegou-se, assim, a deslindar, claramente, os dois
aspectos apresentados pela tradição da Índia sobre o Yoga.
De um lado, os resultados consistentes numa série de téc-
nicas, de exercícios físicos e psíquicos, e os resultados fi-
siológicos e psicológicos conseguidos com os citados exer-
cícios. É isto que constitui o aspecto científico do Yoga.
De outra parte, o aspecto especulativo ou teórico pelo qual
se tentam explicar ou interpretar os fatos e as experiên-
cias. É nessas interpretações que existe divergência entre
a filosofia cristã e o hinduísmo. Divergência de concei-
tos filosóficos, dificultada ainda mais pela enorme dife-
rença de língua e de tradição cultural.
As teorias, porém, não afetam diretamente os resul-
tados obtidos. O importante é estabelecer a realidade e
a natureza desses resultados, para poder aplicá-los com
utilidade, servindo de base sólida para uma interpretação
objetiva. Mesmo quando ainda falta muito para com-
preender e apreciar, objetivamente, todos os resultados
conseguidos pelo iogue, o que já está bem estabelecido é
mais que suficiente para compreender sua utilidade e
aproveitar seu exercício.
Se esta distinção entre fatos e teorias do Yoga pode
manter-se com claridade e rigor, não existirá a menor di-
ficuldade para o cristão consciente beneficiar-se das gran-
des vantagens do Y oga e, ao mesmo tempo, evitar resvalar
para teorias alheias e estranhas às ensinadas pelo magis-
tério da Igreja. Deve, apenas, ter cuidado em escolher tex-
tos e mestres nos quais predomine o sentido prático dos
INTRODUÇÃO 39

fatos e que sejam conscientes do mundo cultural a que


pertencem (1).
Não podemos fazer, aqui, um estudo minucioso da fi-
losofia da Índia, nem compará-la com a filosofia cristã.
Diremos apenas algo para guia do leitor cristão(2).
A perfeição do homem, objeto da ascese cristã, possui
dois aspectos que se complementam mutuamente: natural
e sobrenatural. A perfeição natural, à que o homem está
obrigado, diz respeito ao dever de conservar e desenvolver,
com perfeição, os bens que recebeu de Deus, desde o corpo
até às suas faculdades espirituais mais altas. Este desen-
volvimento, embora condicionado à natureza de cada pes-
soa, no grau em que seja atingível depende do esforço e
do engenho do homem. Para este fim se destinam a Me-
dicina, Higiene, Psicologia, Arte, Filosofia, etc.
A perfeição sobrenatural, para a qual está destinada
a vida humana, depende, única e exclusivamente, de um
dom gratuito de Deus: da graça santificante. G anha para
o homem em virtude da ação redentora de Jesus Cristo;
aceita pelo cristão mediante as virtudes teologais, Fé, Es-
perança e Caridade; transmitida pelos sacramentos e con-
servada pela observância dos mandamentos do Decálogo

(1 ) Permitimo-nos recomendar ao leitor, sob o ponto de vista


ortodoxo, os seguintes livros da Bibliografia : para a prática: 11, 12,
15, 16, 20, 22, 26, 28, 30, 36, 46 e 49; e para a teoria: 7, 8, 11, 62,
63 e 67.
(2 ) Recomendamos o precioso livrinho intitulado L a vote du
silense, assinado por um misterioso “Yogue de Cristo”, com o signi-
ficativo subtítulo L ’expérience d’un moine ( “A experiência dum mon-
g e ''), editado por Desclée de Brouwer, Bruges, Bélgica, 2.ª edic.,
1956, com as correspondentes autorizações eclesiásticas. Nele o autor
recomenda a prática do Yoga, inclusive aos sacerdotes, pelos notá-
veis e benéficos efeitos que produz, segundo sua própria experiência,
embora procure separar cuidadosamente o aspecto prático das teorias
filosófico-religiosas em que comumente estão envoltos os tratados so-
bre esta matéria.
Em posteriores edições, o autor firmou-o com seu verdadeiro no-
me: J. M. Déchanet, O.S.B. Veja-se em Bibliografia .
40 HATHA-YOGA

e dos preceitos da Igreja. É a graça santificante que in-


fundindo vida sobrenatural na alma, fá-la participante da
vida divina, unindo-a sobrenaturalmente a Deus. Esta
união com Deus não pode consegui-la, o homem, por sua
própria indústria, nem tampouco por seu esforço: pode
ele preparar-se, dispor-se a recebê-la, anelá-la e rogá-la,
mas nada mais. Como criatura finita, não pode alcançar,
por si mesma, o infinito, sendo necessária uma ação par-
ticular do Criador para que a relação Criador-Criatura se
converta num vínculo de filiação.
A vida sobrenatural eleva, dignifica e completa a vida
natural do homem: permite-lhe estancar sua sede de
transcendência e libertar-se de sua limitação. São os braços
que Deus estende ao homem para elevá-lo até Ele.
A melhor preparação para a vida sobrenatural é a
perfeição natural. A vida sobrenatural se amolda, se adap-
ta ao natural. Daí ter o cristão dupla obrigação de pro-
curar a perfeição natural: como ser humano e como veí-
culo de recepção e de expressão da vida sobrenatural. E,
por sua vez, a vida da graça permite completar, de ma-
neira eficiente, a perfeição natural.
Nos textos orientais fala-se freqüentemente na união
da alma com Deus, como resultado prático do Yoga. Tal
afirmação, sob o ponto de vista católico, é errônea, como
acabamos de ver. Mas, de nenhum modo desvirtua os “fa -
tos” : afeta apenas a interpretação, a concepção filosófica
a que nos referimos. O Yoga, em sua fase superior, con-
duz a um notável grau de conhecimento imediato de si
mesmo, e ao domínio magnífico da própria personalidade:
isto significa que o Yoga nos situa, como fim de sua ação,
no limite exato da nossa realidade e da nossa relatividade.
Aqui terminam as possibilidades do Yoga com relação à
vida espiritual. Neste ponto é já o homem sozinho, sem
técnica alguma, mas com a ajuda de Deus, que deve dar o
INTRODUÇÃO 41

passo decisivo e total de abrir-se totalmente ao Criador,


Sustentador e Salvador ou, ao contrário, permanecer iso-
lado e encerrado dentro de si m esm o...
Cremos que se mantiver esta dupla discriminação que
acabamos de mencionar, teorias-fatos e natural-sobrena-
tural, poderá o cristão desenvolver-se com tranqüilidade
e liberdade em meio de textos e correntes culturais em que
se misturam dados e idéias de valor muito heterogêneo,
tanto sob o ângulo do Yoga, como em várias outras disci-
plinas que se prestam à confusão.
Sob o aspecto prático, o auxílio que o Yoga oferece ao
cristão, para o efetivo cumprimento dos deveres que sua
vocação exige, é extraordinário. Podemos fixá-lo em três
pontos principais:
1.° Domínio sobre a vida instintiva.
2.° Controle sobre a atividade mental.
3.° Superação dos problemas emocionais.
É inútil tentar destacar a importância e a dificuldade
que a regularização das paixões e, em especial da sensua-
lidade, apresenta para o cristão, por ser um fato mais que
conhecido, experimentado mesmo por todo o mundo. A in-
clinação para a carne faz-se cada vez mais exigente, em
completa divergência com a direção do espírito. Isto cons-
titui o principal drama da vida espiritual da maior parte
dos cristãos. Conseguir que os impulsos meramente ani-
mais, sem menoscabo de sua integridade e vitalidade, per-
cam o caráter anárquico e absolutista que, em geral, apre-
sentam, é um dos resultados mais belos e demonstrativos
que produz a prática inteligente e perseverante do Yoga.
Conseguir que este resultado seja alcançado sem necessi-
dade de repressões violentas e sem procurar artificiais
substituições compensadoras, é prova de que a técnica
iogue é correta e talvez a mais conforme à natureza huma-
na. Com efeito, através do Yoga, se consegue verdadeira
sublimação natural dos impulsos biológicos de tipo se-
42 HATHA-YOGA

xual em energia mental e em força de caráter, graças a


um processo de transformação que poderia ser classifica-
do como alquímico.
Outra grande dificuldade encontrada pela maior par-
te dos cristãos na prática da vida piedosa, é a imensa
dificuldade em fazer meditações e orações mentais na
devida forma. A dificuldade provém da incapacidade de
concentrar-se suficientemente no tema escolhido e de man-
ter a mesma linha de ação mental e afetiva sem sentir
fadiga. Podemos afirmar, junto com muitos guias espiri-
tuais, que a vida espiritual de muitos cristãos não progri-
de, nem de longe, o que deveria, por falta de verdadeira
oração mental. O acerto da mente e a capacidade de apro-
fundar-se em sua ação, é outro resultado que, indefectivel-
mente, alcança o assíduo praticante do Yoga.
Por fim, a vida inquieta que leva a maior parte das
criaturas de nossa época, é devida, em grande parte, a
problemas de tipo emocional que o mesmo gênero de vida
artificial de nossa sociedade delineia e impede de dar-lhes
solução, como assim o demonstrou abundantemente a in-
vestigação psicológica contemporânea. Estes problemas
emocionais, expressos através de mil contradições no com-
portamento e contínuas tensões no estado de ânimo, in-
terpõem-se continuadamente em tudo quanto faz o ho-
mem, e também, é evidente, em sua vida religiosa. Sur-
gem, assim, os problemas de fé que, absolutamente, não o
são; a interminável questão dos escrúpulos; a necessidade
de estar, constantemente, trocando de guia espiritual, etc.
todas essas dificuldades, como o dissemos repetidas
vezes, são definitivamente superadas mediante a prática
inteligente e perseverante do Yoga, em suas diversas for-
mas. No nosso modo de entender, o Yoga, em suas várias
escolas, é o método mais completo, científico e simples
para a obtenção da perfeição natural, na parte que depen-
INTRODUÇÃO 43

de da mão do homem, e, portanto, a melhor ajuda para


a prática eficiente da vida cristã.

3. O Y oga e a c iê n c ia m é d ic a

Referimo-nos, anteriormente, a investigações realiza-


das na Índia por notáveis especialistas da ciência médica
(dr. Rogel Godel, dr. Thérèse Brosse, etc.), assim como a
vários centros de experimentação, onde médicos indianos
e ocidentais estudam sistematicamente a aplicação dos
diversos exercícios do Yoga para a cura de enfermidades;
por exemplo, o de Lonavla, de Bombaim, dirigido por
Swami Kuvalayananda; o de Rishikesh, com Sivananda
Sarasvati e outros.
Pois bem, todas essas investigações e experiências evi-
denciaram o seguinte:
1.° Que os exercícios de Hatha-Yoga produzem no-
táveis efeitos sobre o corpo, de maneira que podem aliviar
ou curar, quando bem feitos, muitíssimas doenças de tipo
funcional e orgânico, pela ação que exercem, de modo
completamente natural, sobre toda a rede do sistema ner-
voso e sobre as vísceras e glândulas, inclusive as situadas
nas partes mais profundas do corpo humano.
2.° Que os praticantes do Hatha-Yoga possuem saúde
magnífica e um a resistência física que sobrepuja em muito
o considerado normal.
3.° O extraordinário domínio sobre as funções fisio-
lógicas que todos os hatha-iogues adquirem, inclusive das
funções normalmente consideradas fora da ação voluntá-
ria, como o ritmo cardíaco, suspensão da respiração, pe-
ristaltismo intestinal, etc.
4.° Que a determinados estados fisiológicos corres-
pondem estados de consciência muito particulares por sua
lucidez e profundidade.
44 HATHA-YOGA

5.° Que o planejamento das técnicas tradicionais do


Hatha-Yoga exige conhecimentos tão profundos dos me-
canismos fisiológicos e psicológicos, alguns deles recém-
-descobertos pela ciência ocidental e outros ainda por des-
cobrir, que espanta como essas técnicas puderam ter sido
estudadas e elaboradas em tempos tão remotos.
6.° Que na base de vários tratamentos médicos mo-
dernos, estão subjacentes os mesmos princípios do Yoga.
Isto não significa que a ação científica do Ocidente
esteja somente limitada a redescobrir coisas já ultrapas-
sadas. Seria pueril não ver, nem admirar, o enorme pro-
gresso que a ciência moderna realizou e está continuamen-
te realizando, de tal vulto, que chega a parecer pràtica-
mente impossível que um único homem possa abarcar, por
si mesmo, tudo quanto se conhece no campo da Medicina.
Mas também seria lamentável que o orgulho e a satisfação
do já adquirido, por legítimo que seja, impedisse ver e
aceitar o que ainda permanece por adquirir, embora algo
disto tenha que ser aprendido de uma cultura milenar
oriental. Felizmente não é assim, já que vimos, recente-
mente, a reativação dos estudos visando a aproximação
cultural do Ocidente a vários países do Oriente e, nos
últimos congressos científicos internacionais, as contri-
buições científicas do Oriente expressamente colocadas no
primeiro plano do interesse geral, ao lado das recentes
aquisições do Ocidente.
Vejamos alguns pontos de contato ou de semelhança
entre algumas técnicas médicas ocidentais e o Yoga.
O primeiro ponto de semelhança reside no aspecto
externo oferecido pelo Yoga. Faz já muitos anos que o
Ocidente descobriu a ginástica e, ao ver os exercícios do
Hatha-Yoga, publicados profusamente nas revistas e livros
de viagem, a reação imediata é classificá-los como ginás-
tica, como algo já conhecido, embora de forma mais ou
INTRODUÇÃO 45

menos exótica. N a realidade, a semelhança é apenas apa-


rente. A ginástica ocidental é um treino sistemático do
aparelho locomotor, dos músculos voluntários da ação, ain-
da que indiretamente exerça ação benéfica sobre todo o
organismo. O Hatha-Yoga, sob o ponto de vista mera-
mente físico, além de atuar sobre o aparelho locomotor,
age de maneira direta sobre o sistema endócrino, estimula
a conexão do sistema nervoso central com o sistema nervo-
so vegetativo, produzindo, com isso, uma ação profunda e
geral sobre o organismo que pode ser regulada e dirigida
segundo convenha, mediante seleção dos exercícios.
Mas o Hatha-Yoga é, ao mesmo tempo, tanto ou mais
que um exercício fisiológico, um exercício mental. E esse
exercício, além dos efeitos propriamente psicológicos, pro-
duz ação também sobre o organismo, através de métodos
que a ginástica ocidental ainda não conhece nem pratica.
Podemos agora enumerar as seguintes diferenças:
Do ponto de vista energético, a ginástica ocidental é
um adestramento ordenado de gasto. O Y oga cria e ar-
mazena novas energias. A ginástica se baseia na ação e
no esforço. O Yoga no repouso e na inteligência.
O objetivo da ginástica é a saúde física. O do Yoga
é a saúde mental, passando pela saúde física.
O estudo comparativo da ginástica respiratória oci-
dental e os efeitos de todas as variedades de regulação
respiratória do pranayama indiano exigiria todo um vo-
lume. Diremos algo sobre isto mais para a frente.
A hipnose aplicada no tratamento das enfermidades,
após várias vicissitudes, conseguiu um lugar estável entre
as técnicas terapêuticas modernas, e já é conhecido o vasto
domínio que, sobre tal matéria, possuem os orientais. A
técnica do rêvê éveillé de Desoilles; as técnicas de domínio
do tônus muscular ou da relaxação, hoje tão em voga, im-
pulsionados por Jacobson, Alexander, Schultz; a sugestão,
46 HATHA-YOGA

numa palavra, todas as técnicas psicológicas e psicossomá-


ticas encontramo-las descritas e aplicadas nas velhas des-
crições dos vários Yogas. Mesmo a Psicanálise, à parte o
progresso certo e necessário que representou para o Oci-
dente no duplo aspecto de revelar à ciência o manancial
subjetivo do homem, e de ressaltar a importância da dinâ-
mica instintiva na economia geral da pessoa, é encontrada,
embora formulada muito diferentemente, em diversos tex-
tos orientais antiqüíssimos (V. bibl. M. Choisy e G. Goster).
Outro aspecto curioso que vincula o Oriente à Psica-
nálise contemporânea é a moderníssima ciência da Pa-
rapsicologia, cujo objetivo é o estudo dos fenômenos e fa-
culdades paranormais, como a telepatia, a clarividência, a
telequinesia, etc. Todos esses fenômenos, perfeitamente
naturais e conhecidos de há muito no Oriente, contam, em
vários textos clássicos com as técnicas definidas de seu
desenvolvimento. Neste sentido, é notável que, no Yoga,
estes poderes, embora considerados como um passo normal
no desenvolvimento da consciência, são considerados como
constituindo um perigo para o desenvolvimento verdadei-
ramente espiritual do aluno, já que podem ser obstáculos
para o prosseguimento do trabalho interior, seja porque o
discípulo se deixa impressionar demasiado por eles, trans-
formando-se em causa de temor ou, ao contrário, porque
ao possuí-los, adquiram um sentido de posse e de orgulho.
Assim, os fatos do Yoga, outrora ignorados ou negados
pela ciência ocidental, vão ocupando lugar cada vez mais
importante no setor do conhecimento científico moderno,
auxiliando assim a obtenção duma visão mais completa,
mais certa e, portanto, mais útil, da natureza do homem.

4. O Y oga e a v id a m oderna

Para muitas pessoas apresenta-se a questão de saber


se o Yoga é compatível com a vida de ação, com o ritmo de
INTRODUÇÃO 47

vida existente no Ocidente. Se não se fica prejudicado


ao permanecer determinado tempo, todos os dias, quieto
e imóvel, como se não se tivesse coisa melhor que fazer.
Se não ficarão prejudicadas as faculdades dinâmicas e o
espírito empreendedor, graças aos quais o homem pode se
defender, nesta época de constantes exigências materiais,
de eficiência e de organização.
Quem quer que reflexione seriamente sobre o ritmo
imposto pela vida moderna, verá claramente que a eficiên-
cia e o rendimento não dependem, em absoluto, de mover-
-se muito, mas de mover-se bem; não permanecendo apri-
sionado dentro da ação, mas ficando por cima do que se
faz, mantendo uma visão global de todos os seus aspectos,
domínio de seus elementos e a coordenação de suas diver-
sas fases. E para conseguir isto, é de todo indispensável
que o homem seja concentrado, coordenado e equilibrado.
E a produtividade da vida moderna produz tudo me-
nos isto: serenidade e equilíbrio. Pelo contrário: agitação,
superficialidade, convencionalismos, artifícios sociais, emo-
tividade, excitação constante, tensão ao máximo, acumula-
ção de dados, mais obrigações, mais dificuldades etc., eis aí
a norma quase habitual da vida que todo homem moder-
no, de ação, conhece por experiência. O homem está obri-
gado a viver com a corda do seu arco esticadíssima, pro-
jetada sempre para a frente, tentando viver para além do
seu presente, fazendo o que tem entre as mãos de qualquer
maneira para poder fazer o que está esperando ainda e
deveria já estar feito, vivendo sempre fora de s i . . . Sem
embargo, é claro que a verdadeira atividade, a verdadeira
produtividade e eficiência, têm sua sede apenas e inteira-
mente dentro da mente. Porque é o próprio homem que
tem que ser eficiente, é o seu modo de ser interior que é
ou não eficiente. E este modo de ser interior é que lhe
permitirá ou não atuar eficientemente, porque o homem
48 HATHA-YOGA

nunca fará outra coisa senão o permitido pelo seu modo


pessoal de ser e da maneira que ele seja. Tal como o ho-
mem é no seu íntimo, assim atuará, porque não tem nada
mais com que atuar, nem qualquer outra maneira.
Por conseguinte, está bem claro que o melhor que o
homem do Ocidente pode fazer para seguir perfeitamente
o seu caminho, é aprender a concentrar-se e a equilibrar-
-se, a aprofundar-se um pouco mais e a elevar-se às regiões
superiores de seu próprio ser, até onde possa ver-se a si
próprio e ver o mundo em que age, dum modo objetivo e
com visão global; até onde possa contemplar sua própria
ação e a ação dos outros, sem fadiga, sem esforço, como
quem contempla, com serena visão panorâmica, cada uma
das partes e o todo, ao mesmo tempo, de um espetáculo
extraordinariamente interessante. Nessas regiões eleva-
das, onde a ação surge como criação, onde os conheci-
mentos cedem seu lugar ao conhecimento; os convencio-
nalismos, à autenticidade; os esforços, ao poder, e as
emoções, ao amor.
Porque este, este e não outro, será o homem verda-
deiramente eficiente em sua vida externa e feliz também,
ao mesmo tempo, em sua vida interior.
P r i m e ir a s e ç ã o

PRESSUPOSTOS INDISPENSÁVEIS
Ca p ít u l o I

C O R R E L A Ç Ã O ENTRE CORPO,
EMOÇÕES E MENTE

ESDE a mais remota antigüidade tem-se observado,

D tanto no Oriente como no Ocidente, a existência de


uma relação entre o corpo físico, sua forma, seu estado e
seu funcionamento e as reações psicológicas, o tempera-
mento, o caráter e a conduta das pessoas. Hipócrates, Ga-
leno, Teofrasto e muitos outros deixaram o resultado de
seus conhecimentos e observações nesta matéria. to d a s
essas observações, porém, se bem que de valor muito va-
riado, e de acordo com os pontos de vista peculiares a cada
um, desenvolveram-se empiricamente, misturadas quase
sempre a superstições e preconceitos próprios da época de
cada autor, e embora não se negue valor aos dados reco-
lhidos, seus resultados não foram dignos de crédito para
serem aplicados com segurança absoluta na prática. Só
recentemente é que esses estudos converteram-se numa
verdadeira ciência. A metódica investigação de uma le-
gião de cientistas levou a estabelecer a existência de cor-
relações precisas entre certos órgãos, tecidos e funções fi-
siológicas, e determinadas atitudes temperamentais, pre-
52 HATHA-YOGA

disposições, preferências, etc., assim como também um es-


treito paralelismo entre as alterações de uns e de outros.
Assim nasceram numerosas escolas de Tipologia humana
de bases somáticas, psicossomáticas ou psicológicas.
Também os modernos descobrimentos sobre anatomia
e fisiologia do cérebro e do sistema nervoso em geral, leva-
ram a estabelecer experimentalmente algumas das causas
e mecanismos da ação da mente e o estado de ânimo, emo-
ções, etc., sobre o funcionamento do corpo e, vice-versa, o
que constitui o fundamento da chamada Medicina psicos-
somática. E ainda mais recentemente surgiu a Medicina
antropológica, ainda em formação, na qual a dupla ver-
tente psíquica e somática (física) permanece superada nu-
ma visão do homem em conjunto, como uma unidade na
qual o aspecto estático e o dinâmico, o objetivo e o subje-
tivo, o individual e o social, são vistos como elementos in-
tegrantes desta unidade total e vivente que é o homem.
Não entraremos em detalhes sobre estas tendências e
doutrinas, por mais interessantes e úteis que sejam em si
mesmas. Como nosso objetivo é somente dar a conhecer os
mecanismos fisiológicos que interferem na interação cor-
po-alma para compreender melhor a ação do Yoga em cada
caso particular, daremos, em brevíssimo resumo, uma des-
crição dos principais elementos de tal inter-relação.
C o n c e it o U n i t á r i o d a P e s s o a — O homem é uma uni-
dade complexa, integrada por substâncias materiais de
diversas ordens, estruturadas organicamente e animadas
por um princípio espiritual a que denominamos alma.
O conjunto forma uma unidade funcional e substancial,
que é a pessoa. Não há ação alguma em que não interve-
nham necessariamente o princípio espiritual e um ou ou-
tro mecanismo material, que lhe serve de veículo adequa-
do de expressão ou de impressão. to d a ação exercida sobre
ele, por qualquer de seus componentes, afeta todo o resto
CORRELAÇÃO ENTRE CORPO. 53

da personalidade, seja de modo benéfico ou prejudicial.


Para isso não há ações isoladas, não há efeitos parciais.
Se bem que a ação possa afetar, de um modo mais direto,
a um determinado órgão ou função, todo o resto da per-
sonalidade reage necessariamente, adaptando-se, do me-
lhor modo possível, ao impacto recebido.

O C o r p o — O corpo é o instrumento da alma para


pôr-se em contato com o mundo sensível e nele expres-
sar-se. Para cumprir adequadamente esta função precisa
possuir uma estrutura que lhe permita:
a ) P or-se em contato com o mundo que o rodeia
do modo mais exato, amplo e rápido possível.
b ) Selecionar o útil e rejeitar o nocivo.
c) Assimilar completamente o útil, e desligar-se do
inútil, evitando estancamentos prejudiciais.
d) Desenvolver-se adequada e ativamente no mundo
físico com energia e rapidez, em forma adequada.
Os outros níveis da personalidade exigem análogos
requisitos.
A doença aparece:
a) Quando um órgão ou função não corresponde de-
vidamente a seu papel dentro da economia geral.
b) Quando as funções não estão suficientemente in-
tegradas entre si.
c) Quando a capacidade de rendimento do organis-
mo é inferior à pressão que elementos estranhos exercem
sobre ele, sejam micróbios ou pessoas, sejam circunstân-
cias físicas ou sociais.
Por isso, a saúde depende diretamente de:
a) Bom estado e funcionamento de cada órgão e
função.
b) Estreita integração de todos os mecanismos e ní-
veis, subordinados os inferiores aos superiores.
c) Energia vital circulante.
54 HATHA-YOGA

Este tríplice objetivo se consegue mediante as seguin-


tes estruturas fisiológicas:
1. As glândulas de secreção interna ou sistema en-
dócrino.
2. O sistema nervoso em suas três divisões.
E estes sistemas por sua vez, dependem, em sua nu-
trição, do seguinte:
3. Aparelho respiratório.
4. Sistema circulatório.
5. Aparelho digestivo.
Em conjunto, todos os órgãos, aparelhos e sistemas
se completam entre si, constituindo um maravilhoso exem-
plo e modelo de vida social perfeitamente organizada.
Agora passaremos a fazer uma breve descrição dos
dois principais sistemas, dando especial atenção à corres-
pondência entre o físico e o psíquico.
A fim de facilitar estas matérias, normalmente bas-
tante áridas, para os leigos, apresentá-las-emos, sempre
que possível, em quadros e esquemas resumidos.

S is t e m a E n d ó c rin o — As glândulas de secreção inter-


nas ou endócrinas são focos de energia estimuladores do
desenvolvimento quantitativo e qualitativo das estruturas
fisiológicas e base material das psicológicas. (V. fig. 1.)
O sistema endócrino exerce uma tríplice função den-
tro do organismo:
1. Função reguladora das formas, isto é, regular e
estimular a diferença das formas individuais, das linhas
do corpo. As principais glândulas que exercem esta ação
são: tireóide, paratireóide, hipófise e sexuais.
2. Função reguladora da nutrição dos tecidos. Esta
ação favorece a vida vegetativa e causa o desenvolvimento
CORRELAÇÃO ENTRE CORPO. 55

e o crescimento do volume do corpo. Neste sentido, as


principais são: supra-renal, timo e hipófise.
3. Função reguladora do sistema nervoso vegetati-
vo, do qual falaremos mais adiante.
As glândulas nunca atuam independentemente umas
das outras, apesar de o fazerem em mútua correlação,
umas vezes em forma antagônica (correlação de antago-
nismo), como, por exemplo, a tireóide e a supra-renal, e
outras vezes no mesmo sentido (correlação de sinergia)
56 HATHA-YOGA

como é o caso da hipófise que favorece a ação da tireóide


e das sexuais.
Há uma série de glândulas que exercem ação conjun-
ta de assimilação, de integração (constelações de função
excitante-anabólica), mediante a qual favorecem os pro-
cessos de construção e conservação do organismo, e que
são as seguintes: timo, córtex supra-renal e paratireóide.
Outra série, em contrapartida, colabora conjuntamente
num trabalho de desassimilação, de desintegração (cons-
telações de função excitante catabólica) contrária ou com-
plementar à mencionada anteriormente, e são: tireóide,
supra-renal medular, hipófise e sexuais.
Conforme o resultado dessas constelações, assim será
a constituição física e funcional do indivíduo.
Foi comprovada fartamente a existência de uma cor-
relação entre a atividade bioquímica de cada glândula e
grupo de glândulas e determinados traços psicológicos, as-
sim como também a circunstância de, ao modificar o fun-
cionamento de determinada glândula, observar-se modifi-
cação automática do traço caracterológico correspondente.
Embora os traços psicológicos correlatos às glândulas
não estejam ainda delimitados com precisão absoluta, per-
mitimo-nos apresentar, num quadro (págs. 58-59), o resu-
mo da ação que cada glândula parece exercer sobre a psi-
que, baseando-nos principalmente nos estudos do célebre
cientista N. Pende. Indicamos sua ação, tanto no caso de
funcionamento normal, como no caso de funcionamento
anormal, seja por excesso (hiper) ou por defeito ( hipo).
Pelo que se vê nesse quadro, é importantíssimo o bom
funcionamento de nossas glândulas de secreção interna,
tanto sob o ponto de vista da saúde e da energia, como
sob o ponto de vista do caráter e da conduta. São muitas
as pessoas que ainda ignoram que a maior parte das
dificuldades com que defrontam em seu desenvolvimento
CORRELAÇÃO ENTRE CORPO... 57

Sahasrara, ou lótus de mil pétalas

F IG. 2. Os chakras ou centros de força prânica,


segundo a F isiologia esotérica da antiga Índia.

na vida, assim como os defeitos ou deficiências de seu


caráter, que consideram geralmente sem remédio, são
apenas produto de defeituoso funcionamento glandular e,
portanto, perfeitamente modificáveis mediante uma ação
perseverante e inteligente.
CORRELAÇÃO PSÍQUICA NOS CASOS

Principal função Principal correlação


Glândula
fisiológica psicológica

Com exatidão, ignora-se.

Epífise ou pi- Regulação do cresci- Integração psíquica e


neal mento. Equilíbrio endó- desenvolvimento intelec-
Hipófise ou pi- crino e orgânico. M últi- tual.
tuitária plas correlações com as
demais glândulas.

Tireóide A ção m orfo-regulado- Regulação da rapidez


ra. Crescimento dos os- das reações neuropsíqui-
sos. Regulação, proces- c a s : pensar, sentir e
sos de recâmbio, nutri- agir.
ção e temperatura.

Paratireóide Regulação do metabo- Fluidez, continuidade


lismo do cálcio. e elasticidade psíquica.

Timo Estim ula a assimila- Afetividade. Delicade-


( Predominante ção. Crescimento do cor- za de sentimentos. Sen-
na infância. po em peso e em altura, tido estético. M em ória
Posteriormente juntamente com a tireói- imediata e do tipo sen-
involuciona) de e a hipófise. sorial.

Pâncreas Regulação do metabo- Emocionabilidade. R e-


lismo dos açúcares. gulação, avidez, desejos
vegetativos.

Su pra-renais: Favorece o crescimen- Espírito de luta. Ca-


Córtex to somático e especial- pacidade de r e a ç ã o .
mente os caracteres se- E nergia das reações psí-
cundários de virilidade: quicas.
músculos, pêlo, voz. F or -
ça e resistência física.

M edula Excitação do sistema


nervoso simpático.

Sexuais Caracteres s e x u a i s . E xcita a esfera dos


Contribui para o desen- sentimentos e desenvol-
volvimento harmônico, ve os instintos funda-
m orfológico e funcional. mentais. Estim ula as
A ção tônica sobre o sis- atividades intelectuais.
tema nervoso vegetati-
vo. M últiplas correlações
com as demais glân -
dulas.
DE FUNCIONAM ENTO ANO RM AL

H iper Hipo

Caráter lento e frio, mas espírito Infantilismo psíquico.


de aventura e combatividade. Ten- Vontade fraca. Timidez
dência ao domínio, ao abuso. Crí- Sugestionabilidade. Atraso
tica e rebelião. Insone. intelectual. Dificuldade em
manter a atenção. Muito
sono.

Irreflexão. Inconstância. Impulsi- Apatia. Lentidão nos pro-


vidade. Inquietude. Imaginação mui- cessos psíquicos. Inteligên-
to viva. Insone. cia atrasada. Depressão.
Linguagem deficiente. Mui-
to sono.

Astenia, fatigabilidade. Anorexia. Tendência a espasmos e


Lentidão psíquica. a alucinações sensitivas e
sensoriais. Agressividade.
Fobias. Opressão. Medo da
solidão. Sensações raras.
Exterior tranqüilo, frio, pa-
ciente.

Emotividade excessiva. Abulia. Ti- Apatia. Debilidade mental.


midez. Grande imaginação evocati-
va. Fator predisponente à perver-
são moral e sexual.

Apatia temperamental. Lentidão Depressão do tônus psí-


psíquica. quico. Excitabilidade. Iras-
cibilidade.

Irascibilidade. Agressividade. E s- Submissão. Abatimento.


pírito belicoso. Ressentimento. Ina- Exagerada sensibilidade à
daptabilidade. Exaltação psíquica. dor. Perseverante, sério e
trabalhador, mas dominado
pela tristeza e pela depres-
são. Neurastenia.

Exagerados sentimentos altruístas Timidez. Depressão. A pa-


e, ao mesmo tempo, egoístas. Forte tia. Pouco rendimento qua-
vontade. Tendência à posse e ao do- litativo em artes, ciências
mínio. Otimismo, expansão e ini- e letras. Puerilismo afe-
ciativa. tivo.
60 HATHA-YOGA

A maior parte dos exercícios do Yoga estão concebidos


de modo a atuar diretamente sobre essas glândulas endó-
crinas e, por esta razão, seus efeitos são tão notáveis, e
modificam efetivamente a personalidade.

C h a k r a s — A s doutrinas do Y oga estabelecem estes


exercícios para influir, não já diretamente sobre as glân-
dulas do corpo, mas sim sobre centros de energia fluí-
dica, de prana, que, segundo dizem, são os verdadeiros
elementos ativos, os centros criadores e sustentadores das
referidas glândulas. O sistema endócrino seria, assim,
o resultado, a manifestação física do sistema de centros
prânicos ou chakras (V. fig. 2).
Segundo também ditas doutrinas do Yoga, a cada
centro ou chakra corresponde um estado espiritual de
consciência, de maneira que, à medida que se vão ativan-
do mediante a afluência de energia psíquica ou prana
pela ação dos exercícios do Yoga, vão conduzindo progres-
sivamente o iogue aos diversos estados de interiorização e
elevação espirituais.
A energia psíquica para produzir este despertar dos
chakras pode provir de três fontes diferentes, segundo o
tipo de Yoga que se pratique:
a) Do exterior: ar, sol, alimentos, certos ambientes
e determinadas pessoas.
b ) Do centro situado na base da coluna vertebral,
o muladhara, onde reside uma poderosíssima energia de-
nominada kundalini.
c) Do centro situado no vértice superior da cabeça,
de sahasrara, onde está situada a shakti ou energia es-
piritual, que ao descer, invade todos os demais centros,
produzindo uma transformação total no iogue.
Também é possível transferir energia de um centro
para outro, dentro do próprio organismo, produzindo as-
sim determinadas trocas em seu funcionamento.
CORRELAÇÃO E N TR E CORPO... 61

A título de informação permitimo-nos apresentar, a


seguir, um quadro em que indicamos as correlações que,
segundo ficou dito, parecem existir entre as glândulas, os
centros ou chakras, os plexos nervosos e os diversos níveis
de consciência.

Estado de consciência segundo


Centro
níveis
ou Glândula
Chakra Função normal Pleno desenv.

1. M ula - Supra-renal Coccígeo. Consciência fí- Discernimento


dhara sica. P o s s e espiritual.
material.

2. Svadhis - Sexuais. Sacro. Impulso sexual Transmutação.


thana e de luta. Criação de
uma nova per-
sonalidade.

3. M a n i- Pâncreas. Epigástrico Cérebro vege- Desejo de rea-


pura
tativo. V i d a lização espiri-
emocional ins- tual
tintiva.
4. Anaha- Timo. Cardíaco. A u t o c o n s - Am or univer-
ta ciência v i t a l . sal.
Vida afetiva.
5. Vishud- Tireóide. Laríngeo. Expressão psi- Inspiração e
dha cológica. expressão cria-
dora.

6. A jn a Hipófise. Cavernoso. Integração da A u t o c o n s -


pessoa. V i d a c i ê n c i a in-
intelectual. tegral.

7. Sahas- Pineal. — Energia aními- Realização es-


rara ca. Vontade. piritual.

S i s t e m a N e r v o s o — O sistema nervoso é o maravi-


lhoso instrumento vivo da máquina humana que cuida do
governo e da direção da individualidade mediante:
a) Recepção e transmissão de toda espécie de im-
pressões e impulsos.
62 HATHA-YOGA

b) Elaboração e integração de respostas.


c) Unificação e governo da síntese pessoal.
Isto é, cuida de estabelecer toda classe de relações,
dentro e fora do organismo e integra-as, instantânea e
constantemente, numa unidade planificada.
O sistema nervoso divide-se em duas grandes seçõ es:
a) Sistema nervoso da vida de relação, ou cérebro-
-espinhal.
b ) Sistema nervoso da vida de conservação ou ve-
getativo.

N a realidade, estes dois sistemas atuam sempre em


mútua colaboração, já que, segundo dissemos anterior-
mente, não existe ação isolada (seja ativa ou passiva)
nesta unidade complexa que é o homem, ainda que, de
fato, predominem um e outro em cada caso particular
(V. fig. 3).

O S is t e m a Regula toda ativi-


C é r e b r o -E s p i n h a l —
dade da vida consciente e voluntária: mediante ele perce-
bemos, conhecemos, pensamos, queremos e nos movemos;
graças a ele nos relacionamos com o mundo exterior e
com nossos semelhantes, e por ele podemos também nos
elevar por sobre a vida instintiva animal e expressar nossos
mais altos valores humanos.
Vejamos, muito esquematicamente, sua estrutura e
funções, segundo o quadro oferecido a seguir:
F ig . 3. Encéfalo. Esquema de suas principais divisões.
64 H A T H A - Y O G A

M e d u l a E s p i n h a l — É o elemento central de condu-


ção, do qual partem os nervos motores e onde vão parar
os sensitivos, enlaçando, assim, todos os pontos do nosso
corpo com o cérebro. Os núcleos radiculares que se en-
contram ao longo da medula cuidam assim mesmo da
nutrição adequada de toda a rede de nervos espinhais.

N e r v o s C r a n i a n o s — São doze pares de nervos, a


origem dos quais está quase por completo no tronco ce-
rebral e dos quais:
Quatro são exclusivamente motores: músculos dos
olhos, da cavidade orbicular e da língua.
Três são sensoriais: olfato, vista e ouvido.
Os cinco restantes são mistos, isto é, sensitivos e mo-
tores ao mesmo tempo, cuidando da intervenção do resto
dos músculos do rosto e de vários do pescoço (mímica
facial, músculos, laringe, faringe, etc.), das mucosas sen-
sitivas da boca, ouvido, faringe e laringe, e do sentido
do gosto. Entre esses nervos está o X par, chamado pneu-
mo-gástrico ou vago, que se origina no bulbo, de grande
importância na regulação da vida vegetativa e da qual
logo falaremos.

N ervos R a q u ia n o s ou E s p in h a is — São 31 pares de


nervos mistos (sensitivos e motores) repartidos da seguin-
te maneira: 8 cervicais, 12 dorsais, 5 lombares, 5 sacros e
1 coccígeo. Sua função é a seguinte:
F ig . 4. Sistema nervoso central.
66 HATHA-YOOA

S i s t e m a N e r v o s o V e g e t a t iv o — Regula toda a ati-


vidade que tende à conservação vegetativa do indivíduo
e da espécie, isto é, das funções da nutrição, desenvolvi-
mento e reprodução, que o homem tem em comum com
os demais seres vivos: animais e plantas.
A vida psíquica e, com ela, o córtex cerebral, influi
sobre o sistema nervoso vegetativo, ocasionando nele no-
táveis mudanças. Os estudos modernos demonstraram que
não existe região do nosso organismo, por mais insignifi-
cante, que não seja enervada pelo vegetativo.
Quando nosso corpo, em seu aspecto vegetativo, fun-
ciona bem, as vias vegetativas, ao alcançar o tronco cere-
bral, produzem estados de ânimo de prazer, ou bem-estar
que são muito úteis e que influem intensamente, inclu-
sive nos atos superiores do nosso psiquismo, como se po-
de ver no quadro que organizamos para mostrar essas
correlações.
Este sistema vegetativo chama-se também autônomo.
1.° Porque funciona à margem de nossa vontade.
2.° Porque suas atividades, quando normais, se rea-
lizam por sob o umbral da consciência.
Vejamos sua estrutura de modo esquemático:

órgãos centrais: Tronco cerebral e diencéfalo.


CORRELAÇÃO ENTRE CORPO. 67

Cérebro

Hipófise
Olho
Vértebras cervicais
Bulbo raquídeo
Cerebelo
G lân d u la salivar Vértebras dorsais

Tireóides

Pulm ão

Coração

F íg ad o
Estôm ago
Supra-renais
Rim
Pâncreas

Intestino delgado

Região sacra

Intestino grosso
Região coccígea
B exiga

Genitais

FiG. 5. Sistema nervoso simpático. Visão esquemática


dos órgãos que inervam.

e todas as trocas bioquímicas. Dirige, em resumo, todas


as necessidades fundamentais para a conservação da
vida física.
Para isto vale-se de dois sub-sistemas: simpático e
parassimpático. Estes parecem atuar de modo antagô-
nico entre si, mas, na realidade, fazem-no de maneira
complementar, como as rédeas com que se dirige um ani-
mal de tiro.
O sistema simpático transmite os impulsos que ten-
dem a produzir, dentro do sistema vegetativo, um esta-
68 HATHA-YOGA

Cérebro
Hipófise
O lho
Bulbo raquídeo
Cerebelo
Glândula salivar

Tireóides

Pulmão

Coração

Fígado
Estômago
Supra-renais
Rim
Pâncreas

Intestino delgado

Intestino grosso

Bexiga

Gônadas

FiG. 6. Sistema nervoso parassimpático. Visão esquemática


dos órgãos que inervam.

do de contração, condensação, poupança. Isto é, tuna ten-


dência centrípeta de todo o mecanismo visceral: o homem
se contrai por dentro. Tal ocorre quando se vive uma si-
tuação de alarme: o coração, assim como a respiração,
aceleram-se; a pupila dilata-se; a musculatura intestinal
contrai-se, inibem-se os músculos bronquiais, a fibra lisa
dos órgãos digestivos e da bexiga; provoca-se maior secre-
CORRELAÇÃO ENTRE CORPO... 69

ção das glândulas supra-renais e estimula-se a ação volun-


tária: em resumo, favorece o espírito de luta e predispõe
o indivíduo a exteriorizar-se e a proteger o interior.
O sistema parassimpático tem, como dissemos, uma
função contrária e complementar à do simpático. Dentro
do homem visceral, favorece uma tendência centrífuga,
de gasto, expansão e ampliação: o homem se expande
interiormente e afasta-se do exterior. Excita os processos
da digestão, diminui o ritmo cardíaco e dilata os vasos;
também facilita as atividades excretoras; diminui o vo-
lume respiratório e provoca o sono. Em suma: predispõe
o indivíduo a isolar-se do exterior e estimula sua ativi-
dade visceral.
Como órgãos reguladores e coordenadores desta dupla
corrente simpático-parassimpático, encontramos numero-
sos centros localizados no tronco cerebral (protuberância
e bulbo raquiano) e no diencéfalo (particularmente no hi-
potálamo). Vê-se, pois, a grande importância desta região
posterior da cabeça, para onde confluem as grandes cor-
rentes nervosas procedentes de todos os níveis neurofisio-
lógicos. Com efeito, é nesta região que parece se realizar
a integração geral do sistema nervoso. É importante des-
tacar este fato, pois que nos justificará muitas das ações
e técnicas prescritas nos exercícios de Yoga.
O estudo e a compreensão do que acabamos de expli-
car sobre os sistemas endócrino e nervoso é de muita im-
portância para a compreensão da ação e da intenção de
nosso organismo em seus diversos estados; para ver o
sentido que encerra quase sempre toda alteração de seu
funcionamento e, enfim, poder escolher inteligentemente
os exercícios mais adequados para restabelecer a saúde
física, psíquica e inclusive a mental.
Finalmente, apresentamos quadros, nos quais resu-
mimos a ação mútua que existe entre os estados físicos,
anímicos e mentais.
70 HATHA-YOGA

A ção do corpo

sobre emoções e estados de ânimo

a) A segurança física
produz: Segurança e confiança em si mesmo.

b) A vitalidade produz: Euforia, energia, expansão, otimismo.

c) O aumento da sensibi-
lidade somática pro-
duz: Facilidade de contato afetivo; promove
cordiais relações humanas; sensibi-
lidade e compreensão do estado fí-
sico e afetivo do próximo.

sobre a mente
a) Ao melhorar a quali-
dade do sistema ner-
voso central, produz-se: Aumento de capacidade mental; per-
cepção clara, correta e rápida; mais
material de imagens e idéias donde
resulta maior produtividade mental.
b) Da consciência dos
movimentos involuntá-
rios, resulta: Rápida e adequada reação mental e fí-
sica ante qualquer estímulo.

c) D a integração físico-
mental, resulta: Sentido realístico, prático, realizador,
eficiente; capacidade de aprofundar-
-se mentalmente, concentração e do-
mínio da atividade e do descanso
da mente. Maior sensibilidade a al-
terações do corpo e compreensão do
que mais convém à sua saúde.

A ção do estad o de â n im o e das e m o ç õ es

sobre o corpo
Se são e m o ç õ e s p o s i t iv a s :

Estimulam a atividade em geral:


a) Aumentam a energia e a rapidez de todos os processos vitais.
b) Aumentam as defesas orgânicas contra os agentes patogê-
nicos.
c) Estimulam a atividade física como prazer:
CORRELAÇÃO ENTRE CORPO... 71

Se são e m o çõ es n e g a t iv a s :

1. Em oções excitantes : Ira, ódio impaciência, veemência, etc.


a) Causam desequilíbrios em todos os mecanismos reguladores
do organismo, produzindo principalmente:
Transtornos digestivos.
Transtornos nervosos.
Transtornos circulatórios.
b) Predispõem aos traumatismos.
c) Produzem em continuação, emoções e estados anímicos de-
primentes.

2. E m oções deprimentes : Tristeza, insegurança, temor, tédio, etc.


Diminuem a vitalidade em geral:
a) Enfraquecem a energia vital e tomam lentos todos os pro-
cessos vitais.
b) Diminuem as defesas orgânicas.
c) Dificultam toda atividade artística.

Sobre a mente

S e sã o e m o ç õ e s p o s it iv a s :

a) Aumentam a produtividade mental.


b) Facilitam a visão do aspecto positivo de todas as coisas.
c) Ampliam e clareiam a perspectiva mental.
d) Favorecem a iniciativa e as idéias criadoras.
e) Estimulam a expansão intelectual e o contato social.
f) Facilitam a compreensão humana.

Se s ã o e m o ç õ e s n e g a t iv a s :

1. Excitantes:
a) Desequilibram a perspectiva.
b) Provocam julgamentos e decisões extremas.
c) Causam instabilidade mental.
d) Aumentam a polêmica e a agressividade.
e) Produzem em continuação estados emocionais e mentais de-
primentes.

2. D eprim entes:
a) Diminuem a produtividade mental.
b) Induzem idéias negativas: anulam toda iniciativa.
c) Limitam e obscurecem de maneira progressiva a perspectiva
mental.
d) Produzem um isolamento mental completamente estéril.
72 HATHA-YOGA

A ção da m ente

U ma m ente clara, a t iv a , serena, profunda e estável produz:

sobre o corpo

a) Perfeita regularidade de seu estado e atividades.


b) Capacidade de influir voluntariamente no funcionamento, in-
clusive vegetativo.
c) Aumento da qualidade dos tecidos.
d) Transformação consciente dos impulsos instintivos estimu-
lando os superiores, à vontade.
e) Transformação do corpo em instrumento material de maior
eficiência.

sobre o estado de ânimo e as emoções

a) Regulamentação e direção das emoções, estimulando as posi-


tivas e transformando as negativas.
b) Facilidade na expressão dos sentimentos afetivos e estéticos.
c) Estabilidade nos estados emocionais positivos.
d) Possibilidade de usar as emoções como instrumentos de con-
tato humano em forma construtiva.

M útua correlação

Resumo

M ente-corpo — Estabilidade, equilíbrio, profundidade, realidade,


coordenação.
Mente-estado emocional — Mente cordial, humana, expansiva;
prazer de pensar.
Estado emocional-corpo — Emoções sadias, realistas, estímulos
biológicos: prazer da ação.
Ca p ít u l o I I

ETAPAS DO HATHA-YOGA

S grandes efeitos físicos e psíquicos produzidos pela

O prática do Yoga, evidentemente não podem ser o re-


sultado imediato de uma prática mais ou menos apressada,
por maior empenho que se coloque nisso. A transformação
do nosso organismo é um trabalho laborioso, que, além da
orientação técnica e de boa vontade, exige tempo. O mes-
mo acontece com a nossa vida psíquica: hábitos com vá-
rios anos de antigüidade não podem ser mudados radical-
mente em quinze dias ou um mês. Estamos tão habitua-
dos a viver em nossos níveis superficiais, tanto físicos co-
mo mentais, que o aprofundar um pouco mais requer um
bom trabalho. É claro que qualquer transformação autên-
tica e duradoura somente pode ocorrer quando operamos
em nossos níveis mais profundos. Este aprofundamento,
que parece muito difícil, quando não impossível, à maio-
ria das pessoas, é proporcionado quase automaticamente
ao praticante do Yoga, através dos exercícios, mas exige
tempo. Tempo e dedicação.
A prática do Yoga produz, já desde os primeiros dias,
efeitos sensíveis que se experimentam como uma mudan-
74 HATHA-YOGA

ça geral de atitude e uma disposição mais ampla e mais


equilibrada para todas as coisas. É preciso, porém, não
confundir. Tais efeitos são apenas conseqüência da re-
moção, da agitação da camada mais superficial dos hábi-
tos mais ou menos anquilosados, das atitudes, sãs ou não,
que se foram cristalizando no decorrer do tempo. Median-
te os exercícios preliminares, tudo isso se agita, se remove,
permitindo sentir, ligeiramente, algo novo e vivo, o impul-
so vital, a energia de vida que jazia oculta, enterrada, por
detrás das valas de inumeráveis atitudes artificiais conver-
tidas em automáticas, isto é, aspectos da vida, livre e es-
pontânea, degenerados em algo mecânico e inconsciente.
É evidente, porém, que não podemos nos contentar
em sentir unicamente algo mais profundo, em descobrir
em nosso íntimo a existência de valores que havíamos qua-
se esquecido. Não basta percebê-lo: é necessário adotá-lo.
Não basta conhecer: é preciso viver. É necessário nos
transformarmos, nos renovarmos naquilo que realmente
somos, que, por ser vida, é sempre uma coisa nova, fresca,
viva, espontânea e completamente afirmativa. Tal proces-
so de transformação total requer tempo e perseverança.
Não obstante, seria errôneo acreditar que tempo e
perseverança significam esforço penoso. Nada disso. Se
desde os primeiros dias, o sadhaka ou exercitante do Yoga
experimenta efeitos agradabilíssimos, não há razão para
que não os continue experimentando durante toda a prá-
tica do Yoga. De fato, cada exercício e cada minuto de
prática efetiva incrementam o trabalho de transformação
e, portanto, a capacidade de viver melhor.
Se se deseja trabalhar seriamente, há que evitar as
divagações da imaginação que, em determinadas pessoas,
pode provocar sugestões fantásticas sobre efeitos milagro-
sos que esperam alcançar através do Yoga, ou sobre ma-
ravilhosos poderes "psíquicos com os quais pensam deslum-
ETAPAS DO HATHA-YOGA 75

brar a seus semelhantes. Está bem claro que essas pessoas


que esperam dominar as forças da Natureza sem conse-
guir dominar-se a si mesmos em primeiro lugar, seguem
um caminho errado. O Yoga é um processo científico que,
embora utilize energias ainda não manejadas conscien-
temente pela ciência ocidental, não escapa, graças a
Deus, à lei geral que exige que todo desenvolvimento deva
seguir um a evolução progressiva e gradual.
Aquele que está decidido a praticar o Yoga para mu-
dar sua personalidade, deve preocupar-se exclusivamente
em fazer bem o que no presente possa fazer, sem sonhar
demasiado com suas futuras realizações. Seu futuro de-
pende do presente. O presente é o único que importa ago-
ra, é o único que pode aproveitar. O sentido realista é uma
das primeiras qualidades que o discípulo precisa adquirir.
Mas fique o sadhaka tranqüilo. O Yoga, inteligentemente
dosado, é a técnica mais rápida que existe para se conse-
guir a fortaleza do corpo, para corrigir, de maneira defi-
nitiva, seu funcionamento defeituoso, para tranqüilizar a
mente, para estimular a iniciativa, para alcançar maior
segurança própria e para afirm ar a supremacia da inteli-
gência e da vontade sobre toda a nossa vida psíquica.
A prática do Hatha-Yoga pode ser dividida em duas
grandes etapas: a etapa elementar, preparatória ou puri-
ficadora e a etapa superior, eficiente ou integradora.
N a primeira etapa procura-se conseguir o seguinte:
1.° Compreender e assimilar bem os princípios em
que se baseiam os exercícios, assim como sua técnica de
execução.
2.° Adquirir a suficiente purificação e adestramento:
a) Físico — Limpeza interna geral e, em especial, do
aparelho digestivo, sistema nervoso, aparelho respiratório;
ativação equilibrada de todo o sistema glandular endócri-
no; aquisição da necessária flexibilidade e resistência dos
76 HATHA-YOGA

músculos e articulações, em especial os abdominais e a


coluna vertebral.
b ) Emocional — Tranqüilidade, serenidade e otimis-
mo; sentimentos mais estáveis e profundos.
c) Mental — Conquista de um descanso mental à
vontade; possibilidade de manter a atenção clara e viva,
mas sem esforço, e poder aplicá-la ao que convenha, sem
qualquer distração.
Sob o ponto de vista oriental, ainda mais:
d) Prânico — Purificação dos condutores (nadis) de
energia sutil ou prana, para que esta possa circular livre-
mente por todo o organismo sutil.
N a segunda etapa, procura-se aplicar as qualidades
obtidas na primeira, de maneira conjunta e sistemática,
na obtenção do objetivo próprio do Yoga superior, que já
definimos anteriormente:
a ) Conseguir, dentro do possível, uma perfeição físi-
ca e fisiológica que sirva de base para a edificação de uma
perfeição psicomental, segundo reza o antigo ditado: Mens
sana in corpore sano.
b ) Conseguir uma consciência mais profunda, me-
diante o despertar e a ativação de correntes nervosas ha-
bitualmente inativas.
c) Adestrar o corpo para servir de instrumento efi-
ciente, tanto no sentido passivo como no ativo, e no ren-
dimento físico, afetivo, mental e espiritual.
d) Internamente, tomar consciência do corpo para
poder dele desprendê-la à vontade. Isto é, conhecê-lo, per-
mitindo assim que nossas faculdades superiores possam
desenvolver-se em completa liberdade nas funções espiri-
tuais que lhes são próprias.
Ou, dizendo de outro modo: desenvolver e atualizar
as capacidades internas físicas, psíquicas e espirituais, in-
tegrando assim todos os níveis superficiais do homem com
ETAPAS DO HATHA-YOGA 77

os profundos e os superiores numa única unidade de cons-


ciência integral e permanente.
Tal objetivo parece ser demasiado ambicioso para
atrevermos a formular e a desejar. Não importa; segun-
do parece, alguns chegaram a esse resultado. Grande é o
que o homem pode fazer quando põe em jogo todas as suas
energias, entusiasmo, perseverança e inteligência; porém,
pode ele fazer ainda muito mais quando se harmoniza
com a vontade de Deus, aceita seu auxílio e se deixa levar
suavemente pela sua poderosa mão.
J
C a p ít u l o I I I

ELEMENTOS FORMAIS DO
HATHA-YOGA

AM O S agora estudar os elementos que intervém ne-


V cessariamente em todo exercício de Yoga. Aqui so-
mente poderemos falar de alguns aspectos desses elemen-
tos. Somente poderemos apresentar uma introdução, por-
que outros aspectos não podem ser transmitidos por es-
crito, já que é preciso o contato direto com o instrutor
para a transmissão da noção correta de determinados ges-
tos, atitudes, estados e disposição. Outras características,
entretanto, só podem ser descobertas após o devido exercí-
cio das práticas: vão sendo descobertas à medida que se
vai chegando aos estágios correspondentes.

Não obstante, esforçar-nos-emos para apresentar uma


descrição o mais ajustada possível aos fatos, assim como
as indicações de tipo prático que julgamos mais úteis a
quem queira praticar os exercícios com o máximo aprovei-
tamento. Devemos advertir, porém, uma vez mais, que,
na prática, há muito mais coisas das que aqui serão ditas,
muitos aspectos que escapam a qualquer descrição. Assim,
80 H AT HA - Y OGA

pois, quando se tiver lido o que aqui ou em outros livros


se escreve a respeito dos estados de consciência obtidos
mediante a prática do Yoga, seria um exemplo de prudên-
cia, p o r parte do leitor, abster-se de formular juízos, jul-
gando haver compreendido de que se trata. Poderá ele
fazer uma idéia ligeira, poderá, no máximo, intuir algo,
mas se não tiver passado pela prática, não poderá saber
com exatidão o que realmente se experimenta.
E agora, apesar de todos os “mas” que acabamos de
escrever, encarecemos a necessidade do estudo e reflexão
sobre tudo quanto vamos explicar, devido ao seu caráter
verdadeiramente prático e fundamental. Em todo exer-
cício de Hatha-Yoga devem intervir os quatro seguintes
elementos:
1. Asana ou posição correta.
2. Pranayama ou regulação do impulso respiratório.
3. Relaxamento ou regulação do tônus muscular.
4. Atitude mental correta.
Dada a sua importância, vamos dedicar um capítulo
de certa extensão à descrição de cada um desses elemen-
tos básicos.

A r t . 1. “A s a n a ” o u p o s t u r a f ís ic a

Dá-se o nome de Asana à posição que o corpo deve


adotar na prática do Hatha-Yoga. Às vezes é seguida de
algum movimento para passar de uma à outra fase ou
tempo do mesmo Asana.
Cada Asana forma uma unidade completa e quando
corretamente executado produz os seguintes efeitos:
1.° Movimenta determinados músculos, ossos, arti-
culações, habitualmente diferentes, ou pelo menos de mo-
do distinto do que é usado na vida corrente.
2.° Exerce um a ação mecânica sobre diversas vísce-
ras e glândulas, estimulando seu melhor funcionamento
ELEMENTOS FORMAIS DO HATHA-YOGA 81

por meio de compressão ou massagem realizadas desse


modo natural.

3.° Favorece a atividade de determinados nervos e


plexos nervosos, o que produz, além do seu efeito físico,
uma modificação em profundidade e amplitude da sensi-
bilidade interna.
4.° Acidentalmente modifica o curso da circulação
sanguínea em todo ou parte do corpo, com o efeito de sua
revitalização.
5.° Produz de maneira natural:
a) um determinado tipo de respiração,
b) um particular estado de consciência vegetativa,
c) um característico estado mental.
Sob o ponto de vista oriental produz, ademais, os se-
guintes efeitos:
6.° Põe em contato várias correntes prânicas (ener-
gia sutil) com determinados níveis, o que produz uma de-
finida ação estimuladora da circulação prânica em geral e
sua particular acumulação em determinados chakras.

7.° Isola o físico e o psíquico de certas correntes de


energia procedentes da Terra e do ambiente, ou modifica
a forma de sua entrada, o que facilita o trabalho de me-
ditação ou a obtenção de determinados estados mentais.

8.° Cada Asana fundamental reproduz, simbolica-


mente, no microcosmos (o homem) uma fase da criação
cósmica, que produz, por ressonância ou consonância de
formas, um específico estado de consciência espiritual.
9.° Constitui uma porta por onde a consciência do
homem, devidamente despertada e integrada, pode apro-
fundar-se e estender-se até além de sua habitual limita-
ção pessoal.
Permitam-nos fazer um pequeno comentário a cada
ponto.
82 HATHA-YOGA

1.° Nossa habitual vida cotidiana está formada por


um número limitado de gestos e movimentos, quase sem-
pre os mesmos, para os quais se utilizam, como é natural,
os mesmos músculos. Mas existem outros muitos que
apenas fazemos trabalhar em poucas ocasiões. Com o
conjunto dos asanas consegue-se que esses músculos es-
quecidos entrem em ação, o que, além dos salutares efeitos
fisiológicos correspondentes, produz um a sensação de pra-
zer muito curiosa. Assemelha-se à que se experimenta
quando, após permanecermos várias horas imóveis numa
posição forçada, podemos trocar enfim a posição: uma
sensação de alívio, de frescor, de descanso.
2.° A compressão e massagem realizadas durante os
asanas sobre as vísceras e glândulas é um dos efeitos mais
notáveis do Yoga. Graças a esta ação é possível influir
em seu funcionamento de um modo perfeitamente natural.
É sabido que grande parte das doenças tem origem num
defeituoso funcionamento glandular ou dos órgãos do apa-
relho digestivo. Nos laboratórios de Rishikesk e de Lonavla
comprovou-se a grande eficácia dos asanas, não somente
para fortalecer ao máximo o organismo, como também
para curar todos os seus transtornos funcionais.
Mas o benefício dessa ação glandular e visceral dos
asanas não pára aqui. O bom funcionamento do apare-
lho digestivo, isto é, sua completa limpeza interna, pro-
duz um notabilíssimo estado de consciência que podería-
mos definir como “de claridade e leveza”. Já vimos an-
teriormente os efeitos que, de sua parte, exerce também
sobre o psiquismo a atividade das diversas glândulas.
N a realidade, observa-se aqui claramente que o homem
pensa e sente com todo seu organismo e não somente com
seu cérebro.
3.° A ciência afirma que nossa atividade psíquica se
realiza, no que depende do corpo, graças à ação de trans-
missão efetuada pela sutil e complexa rede de nervos e
ELEMENTOS FORMAIS DO HATHA-YOGA 83

estruturas nervosas do encéfalo e da medula espinhal. Por


conseguinte, é claro que o perfeito funcionamento deste
sistema produzirá efeitos surpreendentes no psiquismo.
Mas, segundo a tradição iogue, paralelamente ao sistema
nervoso, existe no homem uma rede de condutos de subs-
tância mais etérea e sutil, chamados nadis, através dos
quais circula uma energia, verdadeira base da energia ner-
vosa, conhecida sob o nome de prana. Esta parte sutil do
sistema nervoso é a que, na realidade, permite a atividade
psíquica, do mesmo modo que o sistema nervoso torna
possível toda a atividade física e fisiológica dentro do
organismo. Segundo, pois, o ensinamento tradicional do
Yoga, é o efeito exercido pelos asanas sobre os vários
nadis e chakras que, favorecendo uma melhor circulação
prânica, permite a obtenção de novos estados de consciên-
cia mais amplos e profundos.
4.° É coisa sabida que a circulação sanguínea possui
dupla função dentro do organismo: proporcionar a todas
as células do corpo o oxigênio e as substâncias nutritivas
indispensáveis para seu metabolismo, e levar os resíduos
desse metabolismo para os órgãos eliminadores, que nesse
caso são os rins e os pulmões. Quanto melhor irrigado está
um órgão, maior vitalidade possui.

O Yoga, porém, utiliza a circulação do sangue de ou-


tro modo ainda: como estímulo mecânico. Em determina-
dos asanas suprime-se quase inteiramente a circulação de
certas regiões devido à pressão exercida sobre esse ponto,
e ao desfazer o asana, em virtude do impulso circulatório,
o sangue penetra de modo torrencial, sob pressão, reali-
zando uma verdadeira lavagem no local previamente de-
terminado. Portanto, é uma autêntica revitalização de
todos os pontos mais importantes do organismo o que se
consegue, juntamente com os outros efeitos, mediante a
prática dos asanas do Hatha-Yoga.
84 HATHA-YOGA

5.° É um fato já sabido que qualquer atitude física,


mantida durante algum tempo, produz automaticamente
uma atitude psíquica correspondente no sentir e no pen-
sar, estabelecendo seu próprio ritmo respiratório. Quando
a posição física é correta, a atitude psíquica e a respira-
ção também o são. Cada asana fundamental é uma atitu-
de física “modelo”, básica. Através de um conjunto de
asanas produz-se, pois, paralelamente, um conjunto de
atitudes e estados psíquicos básicos, fundamentais. Por
isto pode-se dizer que o Yoga, quando praticado com dedi-
cação, é não somente um curso de adestramento e desen-
volvimento psíquico e mental, como também físico.
6.° A contextura material do homem pode ser con-
siderada sob o ponto de vista da energia, como um conjun-
to de correntes energéticas de várias cargas e polaridade,
correspondendo cada uma a determinada função fisioló-
gica no aspecto físico, e a um a determinada área de cons-
ciência no aspecto psíquico. N a linguagem clássica do
Yoga, são as diversas correntes vitais (vayús) ou os cinco
pranas fundamentais.
Pois bem, na execução dos asanas, estas várias corren-
tes prânicas se cruzam e se combinam de várias maneiras,
facilitando a acumulação de energia em um ou outro dos
chakras, com o qual se estimula sua atividade. N a prática
avançada, esta ação estimuladora da circulação prânica e
do progressivo desenvolvimento dos chakras incrementa-se
mediante um tipo de respiração e de concentração men-
tal particulares.
7.° Se agora considerarmos o homem, não de modo
isolado, mas em relação ao mundo que o rodeia, sempre
sob o ponto de vista energético, encontrar-nos-emos com
o ensinamento tradicional do Yoga (que a investigação
ocidental começa também a aceitar), de que o homem
está constantemente penetrado por numerosas energias ou
irradiações procedentes da Terra umas, e outras prove-
ELEMENTOS FORMAIS DO HATHA-YOGA 85

nientes do Sol e dos inumeráveis corpos siderais que po-


voam nosso Universo.
Embora a ciência não conheça, todavia, com exatidão,
a natureza dessas irradiações ou energias, o ensinamento
do Yoga afirma que o corpo humano se polariza negativa-
mente pela energia procedente da Terra e, positivamente,
pela energia proveniente do Sol.
Devido a isso, os asanas, além de seus efeitos fisioló-
gicos, produzem uma modificação acidental no trajeto
dessas energias dentro do organismo, o qual se traduz
em sensíveis modificações psíquicas. No shirshasana, por
exemplo, que, conforme se verá, consiste em permanecer
perfeitamente vertical sobre a cabeça, a polaridade per-
manece exatamente invertida e, por estranho que pareça,
é extraordinária a sensação de descanso, de estabilidade e
energia que, durante a mesma, se experimenta, quando se
conseguiu dominar, de modo suficiente, a técnica de exe-
cução. Em todos os asanas destinados ao trabalho mental,
meditação e exercícios de pranayama, o corpo permanece
sempre formando um círculo fechado com as pernas, com
o qual o iogue consegue permanecer relativamente isolado
das correntes da Terra. Com efeito, quem quer que pra-
tique o suficiente para dominar a parte de adestramento
prévio, os exercícios denominados padmasana, siddhasana
c outros similares, notará de modo muito claro o estado
de recolhimento e de elevação que se produz, de maneira
perfeitamente natural, ao manter a posição com tranqüi-
lidade durante alguns minutos.
8.° Dada a natureza deste livro, não podemos de-
senvolver este ponto nem o seguinte como seria nosso
desejo. Diremos apenas que, segundo um a lenda indiana,
Brahm a criou o Universo adotando determinadas atitu-
des meditativas que, mais tarde, revelou misteriosamente
a alguns sábios da primitiva Índia, como técnicas secretas
para alcançar a perfeição. Esta é, de acordo com a tra-
86 HATHA-YOGA

dição mítica, a origem sagrada dos asanas e dos exercí-


cios de pranayama do Hatha-Yoga.
Deixando de lado as lendas, o fato experimental com-
pro vado é que a prática bem feita dos asanas favorece
grandemente o recolhimento e a elevação do espírito e
vice-versa, e que uma atitude reverente, como a de quem
está cumprindo um rito, é a que melhor facilita a execução
perfeita dos exercícios iogues, assegurando seus melhores
resultados psíquicos e mentais em curto tempo.
9.° O enunciado deste ponto se refere aos resultados
mais avançados da prática dos asanas. Segundo a tra-
dição iogue, à medida que se vão aperfeiçoando os exercí-
cios, vai-se unificando a consciência e mais para a frente
continua aumentando em profundidade e em amplitude,
até chegar a descobrir experimentalmente novos vínculos
que unem a todos os seres da Criação.
Com referência ao modo de sua execução, os asanas
do Hatha-Yoga apresentam características que os distin-
guem de qualquer outra espécie de exercício. Vejamos as
mais importantes:
1.° Permanência progressivamente prolongada.
2.° Extrema lentidão de execução.
3.° Normalmente devem realizar-se de forma suave,
evitando o esforço.
4.° Absoluta necessidade de que a prática de cada
asana esteja acompanhada simultaneamente dos três fa-
tores que já mencionamos antes e que descrevemos nos
capítulos seguintes: respiração, relaxamento e atitude
mental adequada.

1. A permanência progressivamente prolongada é um


dos traços mais característico dos exercícios do Yoga.
Determinados efeitos fisiológicos e psicológicos somente
podem ser conseguidos mantendo-se em tempo relativa-
mente prolongado a mesma postura. Por isto, a maior
ELEMENTOS FORMAIS DO HATHA-YOGA 87

parte dos asanas são executados uma única vez, mas au-
mentando-se sua duração, à medida que se vai progredindo
na prática, diversamente dos exercícios da ginástica oci-
dental, que são feitos sempre repetidas vezes. É que a con-
cepção do exercício é totalmente diferente. No Yoga, cada
asana é um modo de estar para chegar a um modo de
ser. Somente quando se faz interiormente também o
exercício que o corpo está fazendo, somente então se prin-
cipia a executá-lo de modo correto. Cada asana corres-
ponde a um determinado estado de consciência, mas para
chegar a este, é necessária um a adaptação laboriosa da
mente, do tônus muscular e da respiração, conforme ex-
plicaremos mais para a frente. Fundamentalmente, o
exercício do Yoga não é um “fazer”, no sentido físico co-
mum, mas sim um “expressar-se”.
2. A extrema lentidão de execução é outra carac-
terística muito própria do Yoga. Além do efeito que esta
lentidão produz na ordem fisiológica, que é o de coorde-
nar, de maneira cada vez mais consciente, a mente com o
músculo, beneficiando, portanto, maravilhosamente a todo
o sistema nervoso, além, dizíamos, desse efeito, a lentidão
de execução corresponde ao fato de que o asana correto
é feito fundamentalmente na consciência, na mente, desde
o íntimo; sua objetivação física é apenas um efeito, um
resultado de sua execução subjetiva. Por isto o tempo não
conta, é secundário.
O importante é ir realizando o asana com a mente,
cm todas as suas fases e momentos, enquanto se vai ex-
pressando essa ação do modo simultâneo, através do domí-
nio muscular, contraindo ou relaxando os músculos certos,
o que, por sua vez, e automaticamente, se traduz no gesto
ou movimento adequado.
Isto, é claro, só acontece quando se chega a determi-
nado estágio de adiantamento. No princípio, o processo
88 HATHA-YOGA

é quase inverso: ao ter um a leve idéia do exercício ou


postura, quase imediatamente o corpo o adota, situa-se
imediatamente nela, quase sem saber como; depois, vai
adquirindo consciência da ação propriamente muscular
e, finalmente, desperta para o estado mental próprio do
asana. Isto se dá porque a mente está muito identifica-
da com o corpo e com o movimento, e por estar identi-
ficada inconscientemente com eles, não pode conhecê-los,
regulá-los, nem manejá-los, de forma consciente e volun-
tária. Quanto mais cedo o discípulo possa adotar a atitude
descrita em primeiro lugar, mais rápido também será o
seu progresso.
3. Normalmente, a execução dos asanas é suave,
procurando evitar o esforço. Com efeito, sempre que é
possível conseguir um resultado sem forçar nada, o Yoga
prefere a suavidade. O objetivo é o de criar e armazenar
novas energias, evitando qualquer gasto energético inú-
til. E isto por duas razões: porque esta criação e pou-
pança aumentam o poder e a resistência do organismo, e
porque a acumulação de energia produz o despertar de
diversos chakras, estimula uma circulação prânica melhor
e favorece a tomada de consciência de novos estratos de
nossa personalidade. Por outro lado, a suavidade e a
precisão no movimento estimulam a inteligência, pelo
que, também aqui a energia que se poupa no exterior é
invertida na mente.
4. Por último, há o fato interessante de que a exe-
cução de cada asana deve ser acompanhada de respiração,
relaxação e atitude mental adequadas. N a realidade, como
já o dissemos antes, os quatro elementos caminham sem-
pre juntos. Procura-se não apenas fazê-los ir juntos, mas
caminhar em perfeita harmonia, funcionando de modo
integrado e em sua mais elevada possibilidade. Quando
o asana está correto, a atitude mental também será cor-
reta, o mesmo acontecendo com a respiração e o tônus
ELEMENTOS FORMAIS DO HATHA-YOGA 89

muscular ou grau de contração. A mesma unidade pode


ria ser conseguida partindo de qualquer dos outros três
elementos, seja a mente, a respiração ou o domínio mus-
cular. O específico do Hatha-Yoga é que, para chegar à
integração da personalidade, toma o físico como base de
trabalho, segundo já explicamos anteriormente.
Não esperamos que o estudante possa, desde o come-
ço, seguir, nem sequer compreender “bem” todos estes
conceitos e normas de execução. Não obstante, julgamos
conveniente expô-los porque cremos que o leitor ocidental
precisa compreender, ou pelo menos, vislumbrar até onde
leva o caminho que percorre; ainda que, por enquanto,
esteja ele em seu começo. À medida que vai praticando,
aplicando com critério e perseverança tudo quanto possa
compreender, todas estas normas irão deixando de pare-
cer-lhes meras palavras ou idéias. À medida que as apli-
que, irá vivendo-as e, ao vivê-las, conscientemente, com-
preendê-las-á no seu verdadeiro sentido. Um a experiência
cada vez mais clara e um discernimento progressivo mais
profundo substituirão as idéias e teorias mais ou menos
ocas e superficiais. E serão esta experiência e este discer-
nimento os únicos que lhe poderão demonstrar e explicar
claramente o caminho que conduz a seu interior, assim
como o próprio conteúdo desse interior.
Façamos, finalmente, uma esquemática referência à
classificação dos asanas.
Os asanas são divididos segundo vários critérios.
1. Pela região física que utilizam.
2. Pelo chakra, plexo e glândula que ativam.
3. Pelo grau de dificuldade: elementares e superiores.
4. Por sua utilidade: de preparação e fundamentais.
5. Por seu objetivo: de ativação físico-prânica e de
meditação.
Mais tarde na Parte Prática daremos mais indicações.
90 HATHA-YOGA

A rt. 2. “P ran ay am a” E RESPIRAÇÃO

Estes dois termos são geralmente considerados como


sinônimos por muitos estudiosos do Yoga. N a realidade,
são termos bem diferentes embora guardem certa relação
entre si. Esta confusão é motivada por várias obras de
vulgarização, nas quais não se conseguiu distinguir nem
expor, com clareza, conceitose métodos que, embora guar-
dem certa semelhança exterior, diferem profundamente
em sua natureza essencial.
Vamos expor, sempre partindo da perspectiva do
Yoga, algumas das idéias fundamentais tanto sobre o
pranayama, como sobre a respiração. Como sempre, em-
pregaremos a linguagem ocidental, que esperamos seja de
melhor compreensão do leitor destas linhas, assim como
também os achados da ciência moderna em relação com
a respiração, particularmente os da Psicologia e os da
Medicina Psicossomática.
Através de um simples quadro, apresentaremos o lado
fisiológico da questão, deter-nos-emos um pouco mais para
expor seu aspecto psicológico, de muito mais interesse
para o estudioso que não seja médico, geralmente muito
pouco conhecido, e, finalmente, exporemos algumas idéias
fundamentais sobre o conceito do pranayama tal como o
entende e pratica o iogue indiano.

A) A RESPIRAÇÃO COMO FUNÇÃO FISIOLÓGICA

A respeito da extraordinária importância da respira-


ção para a manutenção do bom estado de saúde, escreveu-
-se e falou-se muitíssimo no Ocidente, nos últimos quaren-
ta anos. Por isto, excusamo-nos de nos estender sobre o
assunto. Limitar-nos-emos a resumir no quadro seguinte
os principais efeitos da respiração sobre o organismo.
ELEMENTOS FORMAIS DO HATHA-YOGA 91

Principais efeitos físicos da respiração

1. Intercâmbio gasoso nos alvéolos pulmonares.


2. Aumento mecânico da pressão, alternativo, no
tórax e no. abdômen. Isto produz maior afluência de san-
gue numa e noutra região, com o conseqüente estímulo
do trabalho cardíaco.
3. Transporte, dentro do organismo, do oxigênio e
do anidrido carbônico.
4. Constante massagem, devido ao movimento rít-
mico respiratório, do coração e dos órgãos e vísceras ab-
dominais.

Principais efeitos bioquímicos

1. Assegura a hematose ou conversão do sangue


venoso em arterial.
2. Regula o equilíbrio ácido-base do organismo.
3. Favorece as combustões orgânicas.
4. Influi no equilíbrio humoral e nervoso.
5. Estimula os intercâmbios nutritivos das células,
tecidos e órgãos de todo o corpo.
6. Fornece ao organismo grande parte da energia
de que necessita.

B) A RESPIRAÇÃO COMO ATO PSICOLÓGICO

A respiração é o primeiro ato do homem ao nascer.


É um ato vital que a pessoa humana executa como um
todo.
Com ele estabelece sua primeira relação com o exte-
rior. O primeiro ato do homem é, pois, um ato social.
Por meio da respiração, o homem mantém contato
permanente e ininterrupto com o mundo que o rodeia,
num intercâmbio vital de primeira necessidade.
Assim, a respiração vem a ser a dialética que mantém
o homem no mundo através de seu aparelho respiratório.
9.2 HATHA-YOGA

Esta dialética se realiza através de dois níveis dife-


rentes que, embora sem solução de continuidade entre si,
mantêm-se geralmente ignorados um do outro: o nível
consciente, vígil, voluntário e o nível inconsciente, auto-
mático, involuntário.
É fato bem conhecido da Psicologia moderna que a
maior parte dessa dialética se realiza sob o limiar da cons-
ciência vígil do homem, no nível inconsciente. Esta é a
razão pela qual o homem, tão amiúde, se vê a si mesmo
como um estranho, um desconhecido, como um estrangei-
ro que não compreende nada do que acontece a seu redor:
“acontecem coisas” ; de súbito, ele se sente assim, pouco
depois vê-se de outra maneira; nascem-lhe impulsos estra-
nhos, experimenta reações inesperadas, etc., e o pior é que
ele não compreende absolutamente nada de tudo isso;
nem de onde vem, nem o sentido que possa ter. Escapa ao
homem o “como” de sua vida, não podendo, portanto, de
maneira alguma, compreender o seu “porquê”.
Descobrir esses níveis inconscientes do psiquismo que
limitam e condicionam a vida vígil, e incorporá-los à per-
sonalidade consciente, para que esta, assim, recobre sua
plena liberdade interior, tem sido um dos principais obje-
tivos de toda ascese elevada.
As várias escolas modernas de psicanálise procuram
conseguir, cientificamente, resultado semelhante, embora
com profundidade muito diferente. Já mencionamos, na
Introdução, que esse é, também, um dos objetivos centrais
do Yoga, e que todas suas práticas, quando executadas de
maneira correta, conduzem, indefectivelmente, a esse fim.
Voltemos, porém, aos dois planos ou níveis de cons-
ciência de que falávamos, embora fazendo um sucinto pa-
rêntese psicológico.
A personalidade total e única se ordena e se expressa
através dos dois níveis citados anteriormente: o superfi-
ELEMENTOS FORMAIS DO HATHA-YOGA 93

cial e o profundo. Daí falar-se de uma personalidade pro-


funda e de uma personalidade superficial.
A personalidade profunda é a que se estrutura basica-
mente sobre os impulsos e tendências instintivas psicovi-
tais da natureza humana. A personalidade superficial se
constrói sobre a base de nossa mente racional. A forma-
ção da personalidade poderia ser comparada à construção
do poço de uma mina que começasse a ser construído ao
mesmo tempo a partir do fundo e da superfície.
A personalidade profunda é a resultante de nosso psi-
quismo elementar biológico confrontado com os fatos vi-
vidos ao longo de nossa história pessoal, em constante pro-
pósito de expressar totalmente suas necessidades e conse-
guir seus objetivos. É portanto, uma realidade dinâmica
com intenção definida que atua, constantemente, em nosso
psiquismo consciente, desde sua parte mais profunda,
dando-lhe um determinado impulso, direção e sentido.
A personalidade superficial é a resultante do impacto
social sobre nossa personalidade profunda. Resultante que
é vivida com nossa mente consciente.
A expressão fisiológica da personalidade superficial se
realiza, principalmente, através do telencéfalo e dos nervos
cranianos e espinhais.
A expressão fisiológica da personalidade profunda se
realiza, principalmente, através do diencéfalo, tronco ce-
rebral e sistema nervoso vegetativo.
Quando os objetivos pessoais, elaborados graças ao
impacto social, contrapõem-se aos objetivos próprios da
realidade psicovital, produzem-se estados de tensão e de
conflito. A personalidade profunda surge como oposta à
personalidade superficial. O eu instintivo, com todas as
suas forças e capacidade, aparece como inimigo do eu cons-
ciente, apesar de que este somente possa subsistir e atuar
graças às energias procedentes daquele.
94 HATHA-YOGA

A partir deste momento, o eu consciente tentará, man-


ter sua hegemonia, rechaçando e reprimindo o eu instin-
tivo com todos seus conteúdos e potencialidades. Mas,
essa repressão forçada do eu instintivo fora da área da
consciência, enfraquece en ergicam en te e reduz o campo
de visão e de ação do eu consciente.
Por outro lado, o eu instintivo, em virtude de grande
energia acumulada, pressiona a todo momento o domínio
a que está artificialmente submetido, ameaçando trans-
bordar, e transbordando ocasionalmente, de fato, as de-
fesas do eu consciente, com a conseqüente ameaça de des-
moronamento de todas as idéias e idealizações que com
tanto trabalho este foi construindo, e das quais se sente
tão orgulhoso.
Neste duplo jogo do consciente e do inconsciente, en-
contramos a origem de toda a gama de alterações de
tipo psicogênico da personalidade, desde os mais elementa-
res transtornos do caráter até os profundos transtornos
neuróticos graves.
Se se conseguisse estabelecer uma relação harmônica
entre toda a energia contida na personalidade profunda,
assim como seus valores sadios, e a personalidade cons-
ciente, mediante técnicas adequadas de relação, conversão
e integração, teríamos o desiderato da personalidade na-
tural funcionando como uma unidade total de expressão
completa de suas possibilidades. E este é um dos objeti-
vos básicos do Yoga.

Esta integração da personalidade eqüivale, na ordem


fisiológica, à integração de todos seus sistemas nervosos.
Ao conseguir uma, obtém-se também a outra.
O Hatha-Yoga é, no nosso modo de ver, a melhor
técnica existente para conseguir, de modo sistemático e
preciso, esta integração da personalidade, mediante o
ELEMENTOS FORMAIS DO HATHA-YOGA 95

progressivo domínio do tríplice sistema nervoso: central,


simpático e parassimpático.
Voltando, porém, ao nosso tema de respiração, di-
remos existir uma estreita relação entre a personalidade
profunda ou nível inconsciente e a respiração, também
denominada profunda. Assim como entre a personalidade
consciente ou superficial e a respiração superficial.
Quando dizemos respiração profunda referimo-nos a
uma autêntica profundidade, que quer dizer também to-
talidade. Em geral, o homem não sabe o que seja respirar
profundamente. Confunde-o com o inspirar com muita
força, como encher os pulmões sob pressão, com risco de
prejudicar inclusive seu próprio organismo. Não, o ho-
mem não sabe, não pode respirar totalmente, porque o
homem está entupido.
Para respirar profunda e totalmente, é necessário que
não haja impedimento algum na livre entrada e saída do
ar, de acordo com a verdadeira capacidade e necessidade
do indivíduo. Exige que os movimentos de inspiração e ex-
piração funcionem sem inibição alguma, consciente ou in-
consciente. Respirar totalmente implica em relacionar-se
inteiramente com o mundo que nos rodeia, sem temores,
restrições ou reservas, com todo nosso ser. Porque se há
tensões emocionais reprimidas, existem também contra-
ções musculares inconscientes que impossibilitam qualquer
ação livre. Conforme ficou dito anteriormente, é toda a
pessoa que respira e não apenas seus pulmões e seu dia-
fragma; é toda a pessoa que se expressa biologicamente
através da respiração, como em qualquer outro aspecto
vital; e se a pessoa, em seu íntimo, está reprimindo al-
go, necessariamente se expressará reprimindo também
sua respiração.

Por isso dizíamos que o homem não sabe, não pode


respirar totalmente. Perdeu, ou melhor dizendo, distorceu
96 Hatha-Yoga

o profundo e sadio automatismo da respiração correta.


Por debaixo de sua respiração superficial, a única de que é
consciente, o homem está realizando uma retenção de ar
quase permanente, de caráter normal, que não é outra coisa
senão uma expressão fisiológica de sua perturbação emo-
cional, de seu inconsciente egocêntrico. Análogo mecanis-
mo encontramos nas perturbações do aparelho digestivo,
como diremos mais detalhadamente na Terceira s e ç ã o .
De fato, o homem está sustentando um duplo ritmo de
respiração: um, superficial, que se relaciona com sua ativi-
dade vígil e consciente, que segue todas suas oscilações;
outro, profundo, caracterizado por quase permanentes re-
tenções internas de ar, de ritmo muito lento, que se cor-
responde com sua personalidade inconsciente, profunda.
Existe uma evidente relação entre os níveis superfi-
ciais e os profundos da respiração, como existe também
entre o inconsciente e o consciente psicológicos.
Se a respiração superficial se aprofunda, ambos os
níveis põem-se em contato, estabelecendo-se uma comuni-
cação direta entre os mesmos, produzindo-se uma verda-
deira transfusão de energia do inconsciente para o cons-
ciente, com o que não somente diminui a tensão e o gasto
energético que esta exige, mas também, ao mesmo tempo,
aumenta o capital energético do eu consciente. Este vai,
assim, ampliando-se e aprofundando-se: as energias que
alimentavam a personalidade subconsciente incorporam-
-se, então, à consciência vígil, o que se sente como uma ex-
traordinária sensação de alívio, de descanso, e ampliação
da mente, dos afetos e da vontade; numa palavra: como
fecunda expansão de consciência.

A respiração é, portanto, o único processo que, sendo


profundamente vegetativo, automático e inconsciente, po-
de, ao mesmo tempo, fazer-se, regular e dirigir-se cons-
ELEMENTOS FORMAIS DO HATHA-YOGA 97

cientemente com a vontade. Neste fato particular que a


natureza coloca à nossa disposição, viram os iogues india-
nos, há vários séculos, um meio para poder penetrar, di-
retamente com a mente, nesses níveis profundos e mane-
jar, libertando-as da inconsciência, as energias psíquicas
do mundo vegetativo e do inconsciente.
É neste sentido, direta ou indiretamente, que estão
previstos e estudados os exercícios respiratórios que são
praticados no Yoga, embora haja outra face da questão
que, segundo o Yoga, é ainda mais importante que a pró-
pria respiração, e que estudaremos no próximo parágrafo:
referimo-nos ao aspecto sutil do pranayama, o domínio da
energia prânica.
Passemos agora a um estudo concreto e particular do
processo respiratório em cada um de seus aspectos e fases.

Q uadro de c l a s s if ic a ç ã o dos t ip o s e fases da r e s p ir a ç ã o


98 HATHA-YOGA

Façamos uma sumária explicação de cada ponto.


a) A respiração clavicular, alta ou superior, como ,
seu nome indica, é a que se realiza preferencialmente na
parte superior dos pulmões. É o tipo da respiração que
permite a entrada de menor quantidade de oxigênio. É
muito freqüente nas mulheres. Observamo-la, porém, em
ambos os sexos sempre que há contrações mais ou menos
inconscientes dos músculos abdominais como conseqüên-
cia de estados de tensão, angústia, etc.
A respiração costal ou média é a que utiliza prefe-
rencialmente a região média dos pulmões para a entrada
de ar. É melhor que o tipo anterior já que oferece maior
volume à ventilação. Está sempre associada a uma res-
piração secundária alta ou baixa.
A respiração abdominal, baixa ou diafragmática é a
que se realiza de preferência na parte baixa dos pulmões.
Devido ao maior movimento do diafragma é melhor que
as anteriores e permite a entrada de maior quantidade
de ar. É a respiração que é feita com menos esforço fi-
siológico. De fato, é a que se faz sempre que se está des-
cansando profundamente. N a Parte Prática falaremos de
suas aplicações.
A respiração completa ou integral, como seu nome
o indica, é a que resulta da utilização total, ainda que
sem forçar, do volume pulmonar. Resulta da combinação
harmônica das três anteriores: abdominal, média e supe-
rior. Reúne todas as suas vantagens e não tem nenhum
inconveniente. N a parte descritiva dos exercícios práticos
explicaremos, minuciosamente, sua correta execução e
seus efeitos.
b) A respiração superficial é a que permite somente
a entrada de pequena quantidade de ar nos pulmões. Pode
ser feita mediante a respiração alta, média ou baixa.
ELEMENTOS FORMAIS DO HATH A-YO GA 99

Acha-se diretamente relacionada com a atividade superfi-


cial de nosso psiquismo.
A respiração profunda utiliza toda a capacidade pul-
monar de acordo com a verdadeira necessidade do orga-
nismo num momento dado. Consegue-se fazê-la quando se
domina perfeitamente a respiração completa. É a expres-
são da personalidade total, profunda e superficial, livre
de impurezas físicas, psíquicas e mentais.
c) A respiração rápida, em seu aspecto fisiológico,
mostra a necessidade de prover o organismo de muito oxi-
gênio, como no caso de um vigoroso esforço físico. No as-
pecto psicológico relaciona-se com um estado de agitação
emocional e mental. Pode ser superficial ou profunda.
A respiração lenta é a do estado de repouso, de tran-
qüilidade física, emocional e mental. Repouso mental não
significa necessariamente estado de inconsciência, mas
indica a existência de pouco movimento de imagens men-
tais e de idéias.
A respiração irregular ou arrítmica é o resultado de
uma mistura de estímulos emocionais e mentais de inten-
sidades diversas ou de caráter contraditório (por exemplo:
desejo de fazer algo e, ao mesmo tempo, receio de fazê-lo,
etc.). É, por infelicidade, um dos tipos de respiração mais
freqüentes no homem moderno.
A respiração rítmica se realiza quando toda a pessoa
faz uma respiração para algo. O corpo, o estado emocio-
nal, a mente e a vontade estão todos integrados numa
única unidade. A pessoa integral caminha (interna ou
externamente) de modo firme e seguro para seu objetivo.

d) Inspiração, inalação ou puraka. É o movimento


do aparelho respiratório que permite a entrada do ar nos
pulmões. Psicologicamente, é o ato pelo qual o indivíduo
recolhe ou deixa entrar o ar de que necessita; relaciona-se
100 HATHA-YOGA

diretamente com a afirmação do indivíduo dentro de si


mesmo. É o aspecto centrípeto da respiração da pessoa.
Mais adiante traçaremos um esboço de suas variedades e
correspondências caracterológicas, assim como das de cada
uma das restantes fases ou tempos da respiração.
Expiração, exalação ou rechaka. É o movimento do
aparelho respiratório que expulsa o ar dos pulmões. Psi-
cologicamente, é o ato com o que o indivíduo expulsa ou
se desprende do ar viciado de seus pulmões. É o aspecto
centrífugo da respiração. Relaciona-se com a expansão da
personalidade e com as formas que adota.
Suspensão, retenção ou “kumbhaka” interno (com os
pulmões cheios de ar). É a fase ou tempo de retenção que
se realiza, com uma duração mais ou menos prolongada,
entre a inspiração e a expiração. Este “kumbhaka” tem,
na prática do Yoga, muita importância. Psicologicamente,
corresponde a um ato assimilador, retentor e conservador,
em seu duplo aspecto fisiológico e psíquico. É a fase ou
movimento de equilíbrio relativamente estável.
Suspensão, retenção ou “kumbhaka” externo (com os
pulmões sem a r). É a fase ou tempo transcorrido entre
uma expiração e a inspiração seguinte. Psicologicamente
é um ato pelo qual se mantém em estado de vazio, de au-
sência de ar, do mundo e dos conteúdos do eu. Momento
de equilíbrio instável. Alheamento, abstração ou morte.
e) Polaridade da respiração. Denomina-se assim o
fato de poder a respiração ser feita por uma ou outra das
ventas do nariz. Segundo a teoria iogue, a energia inspi-
rada se polariza de modo positivo ou solar se se inspira
através da venta direita, já que, então, segue a trajetória
do principal nadi ou nervo sutil de caráter positivo, de-
nominado pingalâ, que vai do chakra da frente, ajna, até
o último centro da base da coluna vertebral ou muladhara,
seguindo uma trajetória sinusóide, durante a qual atra-
vessa os vários chakras ao nível da coluna vertebral. Por
ELEMENTOS FORMAIS DO HATH A-YO GA 101

seu lado, a inspiração realizada através da venta esquerda,


polariza-se negativamente por seguir o curso do nadi lunar
ou negativo idâ, de trajetória simétrica à do pingalâ.
Seus efeitos, segundo Theos Bernard, são os seguintes:
Polaridade positiva ou solar. Produz efeitos catabóli-
cos ou estimuladores do gasto de energia orgânica. Pro-
duz calor: é aferente e aceleratória.
Polaridade negativa ou lunar. É refrescante, anabó-
lica, eferente e inibitória para os órgãos. Aumenta a nu-
trição e a força.
Segundo se depreende de tudo quanto temos mostrado
nas descrições anteriores, o modo de respirar de uma pes-
soa reflete seu modo de ser, porque é expressão direta do
seu estado de vida, isto é, da maneira de viver e de seu
modo de estar no mundo.
Por julgar de utilidade, permitimo-nos delinear esque-
maticamente os principais traços psicológicos que, segundo
temos observado, correspondem a cada tempo de respira-
ção, de acordo com o seu modo de execução. Leve-se em
conta que estas correspondências têm validez só quando
se manifestam dominante e habitualmente na respiração
de uma pessoa. E também, está claro, quando o tipo de
respiração não seja motivado ou influenciado por defini-
das situações objetivas, quer do tipo fisiológico (enfermi-
dades, esforço físico) quer do tipo psicológico (situações
de violência, de perigo, etc.).

Q U A D R O D E C O R R E S P O N D Ê N C IA S PSICOLÓGICAS DOS
D IF E R E N T E S TEM POS D E R E S P IR A Ç Ã O , S E G U N D O
S E U MODO D E R E A L IZ A R -S E

1. In s p ir a ç ã o , in a l a ç ã o o u “p u r a k a ”

Completa, sem esforço — O indivíduo deixa que o


mundo (a r) entre em seu interior para a sua própria re-
102 HATHA-YOGA

vitalização, segundo a medida exata de suas necessidades.


Recebe do mundo sua energia vital. Atitude aberta. Par-
ticipação e compenetração do indivíduo com o seu mundo
ambiente. Aceitação das pessoas e coisas tais como são.
Completa, mas tensa, ativa — O indivíduo toma, colhe
do mundo o ar, a energia de que necessita para subsistir.
Afirma-se a si próprio em seu interior. Contrai-se, prepa-
rando-se para enfrentar um a atividade exterior, física ou
psíquica. Necessidade de reforçar sua própria segurança
ou sua própria capacidade.
Insuficiente, superficial — Teme colher, pedir, receber,
aceitar. Teme afirmar-se. Não permite que penetrem em
seu interior. Vive à superfície de sua personalidade.
Violenta, abrupta — Ânsia de ter, de receber, de pos-
suir. Reafirmação urgente de si próprio por ter a sensa-
ção de perigo iminente. É como uma preparação para de-
fender-se e para atacar.

2. E x p ir a ç ã o , exalação ou “re c h a k a ”

Completa, sem esforço — O indivíduo desprende-se e


deixa que retorne ao mundo, fracamente transformado, o
ar que recebera. Relaxa-se, afrouxa-se, descansa. Entrega
a expansão total de si mesmo. Generosidade. Abnegação.
Completa, mas forçada — Rechaça, expulsa para o
exterior o ar viciado, inútil e prejudicial. Afirma-se a si
próprio mediante a atuação no mundo e diante deste.
Atitude decidida para manter-se à prudente distância de
pessoas e coisas. Atitude dominadora. Individualismo.
Atividade personalista.
Insuficiente — Quer conservar, reter, guardar algo.
Teme que o despojem, teme entregar tudo, entregar-se in-
teiramente.

Violenta, abrupta — Protesto, repulsa, agressividade.


ELEMENTOS FORMAIS DO HATH A-YOGA 103

3. S uspensão ou “k u m bhaka” in t e r n o

(com pulmões cheios)

Natural, sem esforço — Aproveitamento total da ener-


gia. Reforçar, vitalizar. Concentração e aprofundamento
da mente sobre algo que está presente, que se possui (seja
energia física, sejam estados afetivos ou mentais).
Forçada, compulsiva — Quer reter, conservar, de mo-
do compulsivo, neurótico. Não quer soltar, atuar, expres-
sar-se. Teme sair de si mesmo.

3. b is . Suspensão ou “k u m bhaka” externo

(com pulmões vazios)

Natural, sem esforço — Distanciar-se do vaivém das


coisas. Abstração. Atitude receptiva, expectante de algo
mais que o devir da existência concreta e mutável. Espe-
ra algo completamente novo.
Forçada, compulsiva — Nada deseja do mundo: quer
isolar-se, fugir para o abstrato ou para o inconsciente.
Nega-se a colher, a pedir e a receber: nega-se a viver.
Considerando agora o ciclo completo da respiração
agrupado segundo seu modo de execução, obteremos o
seguinte quadro:

1. R e s p ir a ç ã o com pleta, natur al, se m esforço

Inspiração — Atitude aberta para receber e aceitar as


pessoas e coisas tais como são. Participação e compene-
tração do indivíduo com o seu mundo ambiente.
Retenção ou kumbhaka interno — Aproveitamento
total da energia. Reforço, vitalização. Concentração e
aprofundamento da mente sobre conteúdos do eu. Cons-
ciência da própria realidade.
Expiração — Entrega e expansão total de si próprio.
Relaxa-se, afrouxa-se, descansa. Dádiva de si mesmo. Ge-
nerosidade. Abnegação.
104 HATHA-YOGA

Suspensão ou kumbhaka externo — Atitude recep-


tiva, expectante de algo novo. Consciência da própria re-
latividade.
Como se vê, neste tipo de respiração, produz-se uma
circulação total da energia, com seus conseqüentes efei-
tos: uma revitalização física geral, um circuito completo
da vida afetiva e um processo completo de renovação men-
tal. Esta seria a respiração própria de um a pessoa comple-
tamente sã, sob todos os pontos de vista.

2. R e s p ir a ç ã o com pleta, m a s t e n s a , a t iv a , fo r ç a d a

Inspiração — O indivíduo toma, agarra do mundo


tudo quanto considera ser-lhe necessário para subsistir
em todos os sentidos. Atitude afirmativa de si mesmo em
seu interior. Reforço de sua própria segurança e capa-
cidade. Contrai-se, preparando-se para enfrentar uma ati-
vidade exterior, física ou psíquica.
Retenção — Aproveitamento total da energia, mas
com tendência a reter e a conservar o que se possui mais
que o devido. Exagerado desfrute das próprias posses.
Expiração — Rechaça e expulsa para o exterior tudo
quanto considera inútil ou prejudicial. Afirma-se diante
do mundo mediante sua atividade exterior. Atitude deci-
dida para manter-se à prudente distância de pessoas e
coisas. Atitude de mando. Individualismo.
Suspensão externa — Quando se faz o tipo de respira-
ção completa, mas tensa, quase nunca se realiza a suspen-
são do movimento respiratório no vazio, de modo apreciá-
vel. A pessoa está muito ansiosa para fazer e para possuir,
e não quer permanecer nenhum momento sem nada.
Tal tipo de respiração é próprio das pessoas de ação.
Mas, se não for combinado periodicamente com o tipo de
ELEMENTOS FORMAIS DO HATH A-YOGA 105

respiração descrito anteriormente e, portanto, com os es-


tados mentais e afetivos correspondentes, observa-se fa-
cilmente que isso conduzirá a um rápido esgotamento, a
uma hiperatividade que prejudicará inevitavelmente sua
saúde, seu estado de ânimo e sua capacidade mental. É
a respiração das pessoas que nossa sociedade acha que
funcionam “bem”, que são eficientes, ativas e práticas.
Poderíamos dizer que é a respiração que idealmente a pró-
pria sociedade ocidental praticaria.

3. R e s p ir a ç ã o in s u f ic ie n t e , s u p e r f ic ia l

Inspiração — Teme colher, pedir, receber, aceitar. Te-


me afirmar-se. Não permite que penetrem em seu interior.
Vive apenas na superfície de sua personalidade.
Retenção — Quer reter, conservar, de modo compul-
sivo, neurótico. Não quer soltar, atuar, expressar-se. Te-
me sair de si próprio.
Expiração — Não quer desprender-se de todo. Teme
que o despojem, que abusem dele. Teme entregar tudo e
entregar-se de todo.
Suspensão externa — Quer isolar-se, distanciar-se,
fugir. Teme colher, pedir e receber: teme viver.
Tal respiração é própria de pessoa que vive fechada
com seus conflitos. Teme sair de si mesmo e teme, ou-
trossim, penetrar totalmente ou que outros entrem dentro
dele. É a pessoa que vive a décima parte ou menos ainda
de suas possibilidades. É um cidadão praticamente en-
terrado num nível de vida ínfimo em comparação com o
que poderia viver. Por isso, sofre. Não só porque produz
pouco, mas também sabe e sente que poderia fazer muito
mais. Para essas pessoas, descobrir a respiração comple-
ta e praticá-la com regularidade, marca um alvo comple-
tamente novo em sua existência.
106 HATHA-YOGA

4. R e s p ir a ç ã o v io l e n t a , a b r u p t a , c o m p u l s iv a

Inspiração — Ânsia de ter, de receber, de possuir.


Reafirmação urgente de si mesmo, por ter a sensação de
perigo iminente. Preparação para defender-se ou para
atacar, num sentido ou noutro.

Retenção — Quer reter, conservar, de modo compul-


sivo, neurótico. Não quer soltar, atuar, expressar-se.
Expiração — Protesto, repulsa, agressividade.
Suspensão externa — Não quer nada do mundo:
deseja apenas isolar-se, fugir para o abstrato ou para o
inconsciente. Nega-se a colher, a pedir e a receber: ne-
ga-se a viver.
Esta respiração é própria de estados psíquicos pato-
lógicos. Aparece por ocasião de determinadas crises. Num
sentido menos marcado, encontra-se em pessoas caracte-
rizadas por grande irregularidade do ritmo em todas as
coisas de sua vida, com muitas inibições por um lado e
explosões agressivas em outras ocasiões.
Evidentemente, nem sempre os tempos do ciclo res-
piratório se apresentam dessa maneira uniforme que des-
crevemos até aqui. Em certas pessoas pode haver uma
respiração superficial sem retenções, em outras, o carac-
terístico pode ser os grandes períodos de suspensão ou de
vazio com o correspondente prolongamento da inspiração
imediata, etc.
Não obstante, a compreensão destes lineamentos que
demos, será mais que suficiente para compreensão do
significado psicológico de qualquer tipo ou fórmula res-
piratória e para poder orientar o leitor em seu trabalho
de reeducação.
Compreendendo-se bem tudo quanto dissemos, ver-
-se-a também, prontamente, o porquê da importância que
o Yoga deu, desde tempos imemoriais, a determinados ti-
ELEMENTOS FORMAIS DO HATH A-YOGA 107

pos de respiração, ainda que se considere aqui somente


sob o ponto de vista psicológico.
E se, por outro lado, levarmos em conta que a mútua
interdependência existente entre respiração e estado psí-
quico poderá ser utilizada voluntariamente, mediante a
regulação consciente do nosso ritmo respiratório, creio
que começará a parecer evidente a qualquer estudioso
que reflita, a extraordinária importância da disciplina
iogue e do enorme papel que ela pode desempenhar no
nosso próprio desenvolvimento e aperfeiçoamento, como
de sua utilidade terapêutica, quando devidamente dosada
e executada, em todos os casos de transtornos psicossomá-
ticos e psíquicos.
Tudo isto, porém, constitui apenas a parte externa ou
comum do pranayama. Permitam-nos agora dar uma vis-
ta de olhos sobre seu aspecto oculto ou interno, segundo
o ensinamento tradicional indiano.

C) S ig n if ic a d o e função do “p r a n a y a m a ”

A palavra pranayama é composta de dois termos:


prana, que significa respiração, alento primordial, energia
vital, e ayama, que significa pausa, retenção. Literalmen-
te, pranayama quer dizer, pois, retenção do alento. Nos
textos clássicos de Yoga emprega-se o termo com diferen-
tes significados, mas todos eles giram em torno do que
acabamos de mostrar.
Em nossa opinião, a definição que explica melhor o
significado é a seguinte: Pranayama é a parte do Yoga
que trata do domínio das energias psíquicas mediante a
regulação do movimento respiratório.
O Yoga afirma que quando o domínio do movimento
respiratório é conseguido com perfeição, consegue-se a fa-
culdade de governar à vontade todas as forças inerentes
à natureza do homem, adquire-se o domínio completo do
108 H A T H A - Y O GA

funcionamento interno do corpo, desenvolvem-se novas fa-


culdades mentais e psíquicas e, enfim, realiza-se por expe-
riência direta a natureza espiritual do homem.

Não é necessário dizer que tais resultados são obtidos


em sua totalidade somente quando o sadhaka, ou aspi-
rante, reúna determinadas condições, como: primeiro, as-
sistência e direção de um gurú ou mestre competente, que
guie e proteja o aspirante em seu difícil e arriscado tra-
balho; segundo, capacidade de entregar-se a este com
total dedicação e, terceiro, possuir as excepcionais condi-
ções físicas, psíquicas e morais que lhe permitam resistir
ao extraordinário esforço e às tremendas tensões vibrató-
rias exigidas pela conquista desse objetivo final, através
do Hatha-Yoga. Os que não reúnem tais condições e, mes-
mo assim, aspiram também a essa meta superior, devem
seguir outro tipo de Yoga.

Aquele, porém, que procura através do Hatha-Yoga


apenas melhorar suas condições físicas de saúde e de
resistência, estabilizar seu estado emocional e ampliar sua
capacidade mental, não precisa evidentemente, submeter-
-se a nenhum desses riscos. A se ç ã o do presente livro
dedicada à prática de exercícios, tanto dos asanas como
do pranayama, é especialmente feita para tais pessoas,
e a execução desses exercícios, se se levam em conta e
se seguem à risca os conselhos e instruções que os acom-
panham, não oferece, em absoluto, o menor perigo. Ao
contrário, unicamente um bem-estar extraordinário resul-
tará de sua prática assídua e inteligente, já desde os pri-
meiros dias.
Mas aqui temos interesse em explicar, embora de ma-
neira sumária e em linhas gerais, o funcionamento do
mecanismo que permite obter esses resultados ao que pa-
rece tão extraordinários. Sua compreensão será de muita
utilidade, ainda que não se siga, em toda sua trajetória
ELEMENTOS FORMAIS DO HATH A-YO GA 109

superior, o caminho do Hatha-Yoga, para poder aplicar


o mesmo princípio subjacente na técnica do pranayama,
devidamente adaptada a outros quaisquer caminhos da
interiorização.
Vimos que o significado da palavra pranayama é o
de “retenção do movimento respiratório”. O aforismo n.° 2
do Livro Primeiro dos Sutras de Patanjali que, como ficou
dito na Introdução, é um dos textos mais autorizados, de-
fine o Y oga (trata-se do R aja-Y oga), como “Yogas Chitta
vritti nirodhah” , que se pode traduzir por: “A união se
alcança mediante o refreamento dos movimentos da men-
te (ou substância m ental)”. Isto é, encontramo-nos nova-
mente com a afirmação de que o meio supremo proposto
para passar de um nível de consciência a outro consiste
na supressão de um movimento. No pranayama é a reten-
ção da inspiração e da expiração; isto é, a prolongação do
kumbhaka. No Raja-Yoga é a retenção da atividade da
mente. Sem respirar e sem pensar: não é isto exatamente
a morte? Não nos precipitemos.
Prana, dizem os textos tradicionais, é a força vital do
Universo. É o princípio de todo dinamismo, força e movi-
mento. No homem, é dessa força vital que é feito o corpo
sutil, diferente do físico, mas graças ao qual se realizam
todos os fenômenos energéticos do organismo. Regula as
relações que se desenvolvem dentro do indivíduo e as que
se realizam entre este e o mundo. É o substrato vital, ener-
gético, de todas as funções orgânicas e psíquicas. É o
elemento dinamizante de toda a espécie de substâncias.
Não há, entretanto, como confundi-lo com o princípio di-
vino, com o espírito. Prana é o princípio sutil da energia
atuante no mundo fenomênico, mas é um elemento relati-
vo, criado. Está mais além da percepção normal do homem,
mas, como tantas outras coisas que ele não pode perceber,
segundo seu funcionamento habitual, faz parte integran-
te da imensa riqueza e variedade da Criação.
110 HATHA-YOGA

O homem extrai o prana de diversas fontes: do Sol,


do ar, dos alimentos, etc., embora não seja nenhum dos
elementos físicos ou químicos que os compõem. Circula
através dos milhares de nadis ou nervos sutis que consti-
tuem substancialmente o corpo sutil, e se armazena nos
diversos chakras ou centros que, por sua vez, são as es-
tações especializadas encarregadas da distribuição prânica
por todo o organismo psíquico.
O sistema da união do organismo psíquico ou sutil
com o corpo físico é duplo: o prana que circula pelos na-
dis, verte-se ao longo de todo o sistema nervoso, e o prana
estacionado nos chakras, vitaliza as glândulas de secre-
ção interna, através dos plexos nervosos.
O que se veio a chamar “força nervosa” não é senão
uma das manifestações do prana. A vitalidade de uma
pessoa, sua irradiação magnética, sua “personalidade” são
expressões de prana. A quantidade de prana que maneja
um indivíduo constitui seu verdadeiro capital energético.
Até aqui vimos falando do prana no seu sentido mais
amplo, genérico. A sutil fisiologia indiana, assinala a exis-
tência de cinco “ares vitais” ou vayús principais, que tam-
bém recebem o nome genérico dos cinco pranas vitais. São:
prana, apana, vyana, samana e udana. Os mais significa-
tivos de todos eles são prana e apana.
Prana, em seu verdadeiro sentido, com primeiro vayú,
é a energia da função absorvente, atrativa, integradora:
tira do ambiente a energia que o indivíduo necessita, prin-
cipalmente através do ar inalado.
Apana é a força vital de ação propulsora, expulsiva,
desintegradora: expele os elementos que não necessita,
que o estorvam. Sua função, no aspecto fisiológico, ma-
nifesta-se principalmente nas excreções: urina, matérias
fecais e emissão de sêmen.
ELEMENTOS FORMAIS DO HATH A-YOGA 111

Salta à vista o paralelismo que existe entre as fun-


ções destes dois vayús, ou ares vitais, e as dos dois movi-
mentos básicos da respiração. A função do prana é ho-
móloga (no aspecto sutil) à função fisiológica da inspira-
ção ou puraka: centrípeta e integradora. A função do
apana, em relação ao movimento de expiração ou rechaka
é centrípeta e desintegradora.
A finalidade imediata do Y oga através do pranayama
é a união, harmonia ou equilíbrio destas duas energias:
prana e apana. O ponto que une ou separa ambas as
energias ou movimentos é precisamente o kumbhaka ou
ponto neutro, tanto o interno como o externo. Daí sua
importância no Yoga.
O homem registra em sua consciência psicológica, em
sua mente, tão-somente as mudanças que nela se operam.
Não registra diretamente coisas, a não ser movimentos (de
qualquer ordem psicológica que possam ser). Por con-
seguinte, todo fenômeno de consciência é uma troca ou
mutação que se opera em seu interior, seja corresponden-
do a um a mudança externa, seja correspondendo a uma
mudança interna.
Tudo quanto existe está sujeito a mudanças, é mu-
tável por natureza. A vida orgânica, de modo mais evi-
dente possível, é mudança incessante. Todo movimento
natural está sujeito a um ciclo ou trajetória definida,
que se repete constantemente, isto é, rítmico. A vida, em
todos os seus aspectos, é um conjunto de movimentos
rítmicos. Cada nível vital tem seu próprio ritmo que o
caracteriza.
A consciência do homem normal registra alguns dos
ritmos existentes em sua própria personalidade. O con-
junto de tudo quanto registra constitui sua vida psíquica
consciente. É indubitável, porém, que existem muitos
outros níveis os quais habitualmente não percebe. Uns
deles correspondem a aspectos elementares ou primitivos
112 H ATHA-YOGA

(consciência celular orgânica, consciência racial, instintos


primitivos de agressividade, etc.). Outros correspondem
a aspectos normais, porém não registrados conscientemen-
te ou reprimidos (inconsciente geral, inconsciente analí-
tico). E outros, afinal, correspondem a esferas realmente
superiores (intuição metafísica, psíquica, amor e consciên-
cia espirituais, capacidades criadoras, etc.) dos quais o
homem raramente tem consciência. O homem permanece
limitado, aprisionado por tudo quanto constitui sua cons-
ciência superficial ou externa. Literalmente está hipnoti-
zado por suas percepções sensoriais e pelas reações subje-
tivas que as mesmas provocam. Este mundo real, mas
parcial, que absorve toda sua mente, impede-o de ter cons-
ciência das restantes realidades de sua personalidade.
Mas como conseguir, deixando para trás os níveis infe-
riores, ascender e penetrar nesses níveis superiores de sua
alma e tomar posse estável dos mesmos?
Precisamente porque o homem está apegado, unido,
identificado totalmente a esses processos psicológicos que
são tão-somente parte do seu conteúdo total, resulta evi-
dente que o passo para outros níveis mais profundos e
mais superiores, somente poderá ser dado na medida em
que ele possa m udar o ritmo habitual em que se move
sua consciência. Isto é, a passagem de um nível para ou-
tro será conseguida mediante a mudança correspondente
do ritmo. Mas, que ritmo? Ritmo de quê? De tudo: rit-
mo da atividade mental, do estado afetivo, ritmo da res-
piração. Tudo segue junto, tudo forma um a unidade.
Para fazer esta mudança, o Hatha-Yoga utiliza a regula-
ção do ritmo respiratório. Outras Yogas, porém, utilizam
meios diferentes.

Cada estado de consciência tem seu quadro completo


de ritmo de todas as funções. Daí que, ao mudar, por
exemplo, o ritmo de respiração, produz-se automaticamen-
ELEMENTOS FORMAIS DO HATHA-YOGA 113

te a correspondente mudança das demais funções. O tipo


da respiração de uma pessoa alegre caminha sempre
junto com a mesma euforia afetiva e a mesma produtivi-
dade mental (salvo, é claro, diferenças pessoais); a pessoa
ativa, criadora, mas serena e equilibrada, tem um ritmo
respiratório que é próprio dessas qualidades e qualquer
pessoa que respire do mesmo modo (basicamente) sen-
tir-se-á igual. Claro está que falamos de uma respiração
estável, contínua, convertida em automática, e não de um
determinado momento em que se respire de um ou de
outro modo.
Falávamos da mudança de ritmo respiratório como
chave das mudanças dos estados de consciência. A me-
lhor maneira de mudar um ritmo é aproveitar o momento
em que haja um ponto zero, no instante em que não há
nenhuma força em movimento, nenhuma resistência a
vencer. O leitor terá observado, certamente, a correspon-
dência psíquica especial que temos dado a ambos os
kumbhakas no quadro do estudo dos movimentos respira-
tórios: quando positivos, ambos têm um caráter de pene-
tração, de acesso. Ambos têm uma trajetória mental com-
pletamente diferente daquela que corresponde aos dois
movimentos respiratórios.
Porém, deve-se ter cuidado. Aqui falamos somente do
aspecto teórico do pranayama para ter uma visão de suas
possibilidades. Encarecemos novamente ao estudante que
leve muito a sério os conselhos e avisos que damos na
Parte Prática antes de tentar experiências mais ou menos
aventurosas com sua respiração.

O kumbhaka conduz a um superior estado de cons-


ciência, quando feito com atitude mental correta. Ao vol-
tar à respiração normal, tal estado tende a desaparecer,
pelo menos no princípio. Ao fim de certa prática, o es-
tado superior vai-se estabelecendo de modo cada vez mais
114 HATHA-YOGA

firme, até que ao fim converte-se num estado habitual,


que se mantém em seu nível profundo, seja qual for o
ritmo respiratório, sem prejuízo de que a parte superfi-
cial da consciência atenda às diversas exigências da vida
concreta. Estabeleceu-se um a conexão. A partir deste es-
tado, toda a atividade da mente será realizada “dentro”
desta consciência clara e profunda, sempre desperta, sem-
pre presente e ativa.
Quando este processo é feito pelo sadhaka apenas com
um nível da consciência e da mente, conduz a um está-
gio imediatamente superior, constituindo um definido e
progressivo passo na conquista da personalidade, mas
unicamente um passo. Assim, deve o sadhaka ir evoluindo
passo a passo, conquistando, gradualmente, um grau a
mais de profundidade. E quando, ao fim, poderá fazer
esse processo com toda a mente, com todo o amor, com
toda a energia e vontade, atingirá então o estado de cons-
ciência espiritual, o estado de integração total do homem.
Podemos, agora, responder a pergunta feita antes:
“sem respirar e sem pensar, não é isto a morte?” Sim,
realmente, não respirar e não pensar é a morte, mas é a
morte transitória de um estado superficial de consciência
para dar nascimento a outro novo estado mais amplo,
mais profundo e mais elevado.

Existem outras explicações para a função do kum-


bhaka, no trabalho superior do Yoga. Mencionaremos
duas das mais significativas.

Segundo os ensinamentos do Yoga, particularmente


do tipo “tântrico”, o homem é o campo energético cria-
do por dois corpos principais de diferentes polaridades: o
chakra muladhara, situado na base extrema da coluna
vertebral, onde se localiza a energia fundamental da ma-
téria, chamada kundalini (que significa “enroscada”), de
polaridade negativa, e o chakra sahasrara, situado no
ELEMENTOS FORMAIS DO HATH A-YO GA 115

vértice superposterior do crânio, onde existe a shakti


espiritual, de polaridade positiva. Estes dois pólos, locali-
zados nos extremos do eixo do corpo humano, estabele-
cem, assim, um campo de energia, dentro do qual realiza-se
toda a gama de fenômenos da consciência humana. A
qualidade dos fenômenos varia entre maior espiritualida-
de e maior materialidade, segundo aquele se realize atra-
vés de um chakra situado mais próximo do centro superior
ou do centro inferior.
Todos os fenômenos de consciência são efeitos do
prana que, dentro do campo energético mencionado, cir-
cula através de todos os nadis, ou nervos sutis. Mediante
a absorção do prana na inalação ou purakha, e sua acumu-
lação durante o kumbhaka ou retenção, estimula-se ou
carrega-se a energia oculta do kundalini, fazendo-se as-
cender através do conduto central, denominado sushumna
(contraparte sutil da medula espinhal) até alcançar, de-
pois de penosos esforços, o centro superior ou sahasrara,
produzindo, assim, a união de ambas as energias funda-
mentais, estado conhecido sob o nome de samadhi. Esta
ascensão do kundalini só é possível durante a retenção ou
kumbhaka, já que, por ocasião dos movimentos respi-
ratórios, a energia do kundalini se deslocaria pelos nadis
laterais idâ e pingalâ. Vê-se também aqui, claramente,
a razão da importância atribuída ao kumbhaka no Hatha-
-Yoga clássico e nottântrico.
É evidente que o processo é excessivamente perigoso,
tanto para o corpo como para a mente. Sua execução
requer constante assistência de um professor verdadeira-
mente qualificado. Mencionamo-lo aqui somente a título
informativo, já que, de nossa parte, prevenimos os exal-
tados entusiastas contra o menor intento neste sentido.
Outra explicação do fenômeno que acontece na cons-
ciência, como efeito do kumbhaka é a seguinte:
116 HATHA-YOGA

A consciência humana funciona permanentemente


por efeito de dupla polaridade: atração e repulsão. Esta
dualidade, que afeta a todos os aspectos do nosso psi-
quismo, está subjacente em todos os aspectos do constante
vaivém do existir: alegria, tristeza; prazer, dor; atividade,
repouso; pensar, agir; inspiração, expiração, etc. A ener-
gia, ou elemento dinamizante da consciência, está sempre
circulando, movendo-se em conjunto, num sentido que
poderíamos denominar horizontal: interior-exterior, eu-
-mundo. Quando a tendência a mover-se em um ou nou-
tro sentido se detém, quando a mente pode permanecer
desperta e indiferente diante de qualquer dualidade da
existência, então ambos os impulsos ficam equilibrados e
neutralizam-se mutuamente, e toda a energia acumulada
no interior não encontra a via habitual de saída, num sen-
tido ou noutro. É quando, então, com um ato conjunto
da mente e da vontade, pode penetrar-se com não muita
resistência, em níveis mais profundos do psiquismo hu-
mano, com toda a energia concentrada de que se dispõe
naquele momento.
Temos aqui mais um kumbhaka psicológico, com os
mesmos efeitos descritos anteriormente.
Aqui terminam as três explicações do mecanismo da
ação do kumbhaka na integração das forças da alma hu-
mana. Embora expostos de modo muito fragmentário,
cremos serem elas suficientes para termos uma idéia do
modo de operar dos mecanismos psíquicos e do modo de
manejar as energias. Se bem que as explicações sejam di-
ferentes, é possível que todas elas sejam igualmente corre-
tas. Como explicação, completam-se mutuamente. O que
variam são o ponto de focalização, a perspectiva, e, possi-
velmente também, os meios de execução, a técnica. Nada
mais poderemos dizer aqui sobre este tema. Apenas per-
mitimos observar a indicação de que existem outros kum-
ELEMENTOS FORMAIS DO HATH A-YOGA 117

hhakas além dos respiratórios. O estudioso que queira


refletir descobrirá algo mais do que ficou escrito.
Após essa escapada pelo campo da teoria, vejamos co-
mo os exercícios do pranayama afetam toda a personali-
dade física e psíquica do praticante do Yoga.

D) E f e it o s d o s e x e r c íc io s d e “p r a n a y a m a ” e de

RESPIRAÇÃO CONSCIENTE

Precisamos distinguir três tipos de respiração:

1. Respiração em geral.
2. Respiração própria de cada asana.
3. Os exercícios respiratórios propriamente ditos.

1. R e s p ir a ç ã o em geral — Desta já falamos ante-


riormente, especialmente na parte dedicada à respiração
como ato psicológico. Aqui somente diremos que a prá-
tica dos exercícios de asanas e de pranayama produz uma
mudança definida na respiração habitual. A maior elasti-
cidade dos pulmões e do aparelho muscular respiratório
conseguida com os exercícios, traduz-se por uma respira-
ção muito mais profunda. Entra muito maior quantida-
de de oxigênio no fim do dia o que aumenta a purificação
do sangue e, por conseguinte, revitaliza-se todo o orga-
nismo. Acentua-se a ação da massagem mecânica pro-
duzida pelos movimentos de inspiração e de expiração
sobre o coração, estômago, pâncreas, fígado, rins e intes-
tinos, graças a que as funções desses órgãos ficam eficaz-
mente estimulados. A saúde melhora rapidamente. Trans-
tornos funcionais de vários tipos são prontamente corri-
gidos e eleva-se o tônus vital de todo o organismo em geral.
No aspecto psíquico produzem-se paulatinamente todos
os efeitos que em nosso breve estudo psicológico anterior
já descrevemos com referência a uma respiração comple-
ta, profunda e natural.
118 HATHA-YOGA

2. R e s p ir a ç ã o p r ó p r i a d e c a d a “a s a n a ” — N a exe-
cução dos asanas, é muito difícil, a princípio, poder re-
gular qualquer tipo de respiração: respira-se como se pode.
À medida que a técnica melhora vai se produzindo por si
mesma uma respiração peculiar, perfeitamente adaptada
à posição adotada pelo corpo. Recordemos que somente
quando o asana é correto, a respiração o é também. A ca-
racterística desta respiração correta é ser feita sem o me-
nor esforço, produzindo plena satisfação.

3. Os EXERCÍCIOS r e s p ir a t ó r io s PROPRIAMENTE DITOS


— Consideraremos separadamente: a) a respiração abdo-
minal; b) a respiração completa ou integral; e c) a res-
piração de ritmo especial ou pranayama específico.
a) Respiração abdominal — É o melhor exercício de
ação sedativa sobre o sistema nervoso. Nele predomina,
de modo natural, a expiração, de ação eminentemente va-
gotônica. Elimina todas as tensões e contrações abdomi-
nais, facilitando o trabalho a todo aparelho digestivo.
Proporciona o estado de repouso e de relaxamento da
musculatura, proporcionando útil descanso ao aparelho
locomotor e ao sistema nervoso central. É a respiração
ideal como exercício especial das pessoas superexcitadas,
tensas, preocupadas, hiperativas.

b ) Respiração completa ou integral — N a Parte Prá-


tica, faremos uma descrição mais detalhada de seus efeitos
fisiológicos, mas diremos aqui, sumariamente, que:
Esta respiração exercita todos os músculos, cartilagens
e articulações do aparelho respiratório, assim como é evi-
dente alcançarem os pulmões sua máxima elasticidade;
atua eficazmente sobre o sistema circulatório, aparelho
digestivo e sistema nervoso e endócrino; desenvolve a
capacidade e o hábito de respirar de modo profundo, com-
pleto e espontâneo e, por fim, produz os efeitos psicoló-
gicos que descrevemos antes.
ELEMENTOS FORMAIS DO HATH A-YOGA 119

As vantagens deste tipo de respiração, residem princi-


palmente no fato de que a proporção básica da respiração
comum não se altera, isto é, que a expiração é pelo menos
tão ampla quanto a inspiração, intercalando-se uma peque-
na retenção, que evita a produção, em qualquer momento,
da hiperventilação pulmonar. Maneja-se, assim, maior
quantidade de oxigênio sem outras conseqüências senão
a de elevar o tônus vital, que repercute favoravelmente
em todas as funções físicas e psíquicas em geral.

c) A respiração de ritmo especial ou “pranayama”


específico — Nos vários exercícios de pranayama observa-
mos que variam de modo definido um ou vários dos tempos
ou elementos que compõem toda a respiração normal.
Em alguns exercícios é o puraka ou inspiração o que
se altera, seja fazendo-o muito rápido, seja fazendo-o atra-
vés de determinada venta do nariz, de modo regular ou
alternado. Em outros é o kumbhaka que se prolonga mais
que o comum, no qual se exigem determinados movimen-
tos da glote ou da garganta. Noutros, vemos que é o re-
chaka o que varia de maneira preferencial, seja fazendo-o
brusco ou forçado ou lento e suave. Outros exigem, final-
mente, diversas manobras complementares tais como a
oclusão parcial da glote, colocação especial da língua, etc.
Qual o objetivo de todas essas variações introduzidas
nos movimentos respiratórios? Qual a sua finalidade?
Não oferecem tais exercícios perigo para a saúde física ou
psíquica de quem se entrega a eles?
Sob o ponto de vista físico, vemos que seu efeito é
o de submeter a uma exercitação especializada todos os
elementos anatômicos que intervém na respiração, isto é,
que em primeiro lugar constituem um adestramento que
permitirá respirar melhor. Sob o aspecto físico ou fisioló-
gico, merece menção especial a notável ação que certos
exercícios representam para o sistema nervoso: o cons-
120 HATHA-YOGA

tante domínio exercido sobre os diversos músculos respi-


ratórios (intercostais externos e diafragma na respiração
superficial, e o serrino maior, peitorais menores, escaleno,
trapézio e rombóide na inspiração profunda) põe em ten-
são a parte dorsal da coluna vertebral, assim como o exer-
cício de flexão da garganta, denominado jalandhara-ban-
da, que intervém no kumbhaka, põe em tensão a parte
cervical da mesma. Com o que se estimula o sistema ner-
voso simpático e as raízes dos nervos espinhais.

Alguns dos exercícios são destinados exclusivamente a


um trabalho de ventilação e de purificação. Tal ocorre,
por exemplo, com o kapalabhati, no qual se acelera no-
tavelmente a circulação do sangue e melhora sua quali-
dade, com o que se consegue uma varrida geral das impu-
rezas do organismo carregadas pelo sangue venoso. Ao
mesmo tempo, limpa-se de mucosidades ou de aderências
estranhas todo o conduto respiratório, desde as fossas na-
sais até os alvéolos pulmonares.

Sob o aspecto sutil, limpam-se todos os estancamentos


de prana acumulados ao longo da rede de nadis e favo-
rece-se a livre circulação prânica em todo o organismo
sutil. Outros exercícios são destinados a acumular prana
em determinados centros, e outros a estimular a corrente
prânica positiva ou negativa separadamente.

Os kumbhakas ou suspensões que se intercalam na


respiração e que, à medida que se adianta na prática do
pranayama, tendem a prolongar-se, têm a finalidade de
acumular, cada vez mais, energia em determinadas zonas
e chakras, o que permite reforçá-las e tomar consciência
delas, de modo cada vez mais profundo. Esta vitalização
dos níveis profundos é um dos fatos mais importantes das
práticas iogues que ainda não foram compreendidas, como
merecem, pela ciência ocidental.
ELEMENTOS FORMAIS DO HATH A-YO GA 121

A respeito dos perigos que apresenta o pranayama


para o aluno ocidental, podemos dizer o seguinte:
É certo que a prática abusiva e incorreta dos exer-
cícios de pranayama pode produzir graves transtornos
físicos e psíquicos, principalmente do tipo nervoso, car-
díaco e pulmonar.
Sob o ponto de vista da Fisiologia sutil indiana, a
prática excessiva ou errada do pranayama ocasiona facil-
mente congestões prânicas que podem chegar a produzir
a deformação ou mesmo a ruptura de algumas estruturas
do organismo sutil, de efeitos desastrosos, especialmente
sobre o cérebro.
Também é certo que se, ao invés de procurar orienta-
ção competente, alguém, que não goze de boa saúde física
e psíquica, empreende, por sua própria conta e risco, os
exercícios forçados de respiração, o mais certo é ficar bas-
tante prejudicado em lugar de beneficiar-se.
Não se vá, pelo exposto, converter o pranayama num
tabu. Isso serve para demonstrar claramente duas coisas:
1.a) que os exercícios de pranayama produzem efeitos mui-
to intensos e reais e, 2.a) que é preciso usar de grande
prudência e sentido comum para sua prática adequada.
Boa saúde, clara percepção do assunto, vida moral
elevada, discernimento, capacidade de auto-observação,
prudência e decisão, são os requisitos básicos que é neces-
sário reunir quem queira praticar os exercícios de prana-
yama sem qualquer risco.
A respeito da diferença racial aduzida por alguns
contra a prática do pranayama pelos ocidentais, cremos
sinceramente que não tem importância efetiva a circuns-
tância de se pertencer a este ou àquele grupo racial para
poder praticar, com resultados benéficos, o Yoga em geral
e o pranayama em particular. Há numerosos exemplos de
ocidentais que se consagraram à prática do Y oga sem o
122 HATHA-YOGA

menor contratempo. De nossa parte, conhecemos várias


pessoas que vêm praticando exercícios de pranayama há
mais de dois anos com efeitos simplesmente magníficos.
O que seria desejar muito é que todo aluno de Yoga
pudesse ter a assistência de um competente guia ou mes-
tre. Como isto no Ocidente é realmente difícil, não há
mais remédio senão supri-lo redobrando a prudência e
documentando-se da melhor maneira possível.

A r t. 3. P r in c íp io s do relaxam ento c o n s c ie n t e

OU DOMÍNIO DO TÔNUS M USCULAR

Sabemos que toda vida é movimento, é atividade inte-


ligente, que se expressa ritmicamente. Esse ritmo é cons-
tituído por dois tipos de movimento: contração e dilatação.
Este duplo movimento é encontrado em toda manifes-
tação vital: o movimento centrípeto, contrátil, de tendên-
cia ao interior, ao centro, e o movimento centrífugo, ex-
pansivo, de dilatação, de tendência ao exterior, à expan-
são e ao crescimento. Desde o simples ato de andar, de
fazer um gesto, até mesmo a vida toda do homem vista
em conjunto, passando por todos seus atos fisiológicos,
emocionais e mentais, tudo é constante expressão do mes-
mo ritmo fundamental.
Mas esse duplo movimento, essa atividade, alterna,
por sua vez, de modo também rítmico e necessário, com o
repouso, com o descanso, com o relaxamento.
Temos, assim, um duplo ritmo:
ELEMENTOS FORMAIS DO HATH A-YOGA 123

e é preparação para o outro e vice-versa, formando um


ciclo completo e ininterrupto.

No homem há muitos níveis vitais, cada qual com


seu próprio ritmo de atividade e descanso, de duração di-
versa. Por exemplo, o ciclo vigília-sono é diferente do
ciclo exercício-repouso de determinado grupo de múscu-
los, e estes ritmos são, por sua vez, diferentes do ciclo pen-
sar-sentir, etc.
Há, pois, um ritmo próprio de cada nível vital. Mas
há, também, um ritmo próprio do conjunto de níveis, ou
seja, do homem considerado como uma única unidade.
Sempre há algo em movimento, enquanto outras coisas
estão em repouso. Quando se está fazendo grande esforço
físico não se pode pensar profundamente; quando se está
num intenso estado emocional, não se pode descansar fi-
sicamente, nem regular o pensamento reflexivo, etc. Logo,
o repouso absoluto não existe na Natureza. No homem, o
repouso de algo significa sempre a colocação em marcha
de outra coisa: o repouso da atenção, a atividade da ima-
ginação; o repouso do exterior, a atividade interior; o re-
pouso do inferior, o trabalho do superior.
Para o homem de nossa civilização moderna, pratica-
mente não existe outra atividade aceita e valorizada, senão
a que deriva de seu trabalho profissional, do cumprimento
mais ou menos estrito das obrigações familiares, de sua
vida de relação social e de algumas diversões. Usa seu
corpo, sua mente e sua afetividade, mas de um modo ge-
ralmente superficial e, portanto, fragmentário. Pode ser
uma atividade muito intensa em determinadas ocasiões,
mas isto não impede que seja feita com níveis relativa-
mente superficiais.
Após esta atividade, o homem se entrega ao descanso,
seja permanecendo acordado, seja submergindo-se no sono.
Quando descansa, estando acordado, quase sempre perde-se
124 HATHA-YOGA

em divagações inúteis ou em imaginações estéreis, de ma-


neira que, embora fique aliviado do corpo, acaba mental-
mente mais cansado e mais irritado que antes de começar.
Se dorme, cai na inconsciência ou permanece num estado
de sonho, durante o qual emergem estranhos pesadelos, re-
flexo de suas tensões emocionais. Em qualquer caso, acorda
insatisfeito, com a sensação de que algo não anda bem, de
que, de certa maneira, está perdendo tempo precioso. Nesta
hipótese, mesmo querendo, o homem não consegue, não
pode descansar totalmente, pois é evidente que sua saúde
e o rendimento de sua atividade diária se ressentem.
Outra situação semelhante pode ser observada como
conseqüência da limitada percepção da mente. De toda a
gama de atividades vitais, todas necessárias e fundamen-
tais, o homem somente percebe um a pequena parte, valo-
rizando uma parte ainda menor. O homem somente tem
consciência, e ainda assim de maneira muito superficial,
de alguns processos psicovitais, e, destes, valoriza, como
atividade útil, quase exclusivamente um tipo de atividade:
a ação exterior. Não percebe a energia criadora dentro de
si mesmo, de modo direto, em primeira mão, percebendo-a
apenas através de sua expressão nos próprios movimentos
e atividades, sejam físicos ou psíquicos, quando ela já
perdeu seu frescor, sua realidade de energia viva, pura e
indiferenciada: vive as formas e as sensações, mais que
o impulso e a energia vital da alma.
Daí o considerar o outro aspecto essencial, o descanso,
o relaxamento, como uma diminuição, como uma necessi-
dade imperiosa, à qual não há remédio senão ceder, já que
não é possível subtrair-se a ela, embora se o tente com
freqüência, mas sem resultado. O homem do Ocidente não
sabe apreciar, porque não o descobriu, o aspecto positivo
do repouso. Valoriza o descanso em virtude de sua capa-
cidade de renovar a possibilidade de nova atividade exte-
ELEMENTOS FORMAIS DO HATH A-YOGA 125

rior, mas não aprecia diretamente seu valor positivo, por-


que, na realidade, não o conhece. Para o homem ociden-
tal moderno, descanso de sua atividade externa vem a ser
sinônimo de imaginação inútil, de divagação estéril ou de
inconsciência. E sendo assim, é perfeitamente natural que
o menospreze. Nesse caso, o indivíduo, obsessionado pelo
desejo de fazer mais e mais, nega-se a si mesmo toda
oportunidade de descanso, passa todo o dia de modo tenso,
física e mentalmente, e acaba inclusive incapacitando-se
para poder descansar quando, esgotado, por fim, por causa
da desmedida ação e tensão, procura refúgio e descanso
no sono. Invadem-no nervosismo e inquietude que, valha
o paradoxo, mantêm-no afastado do sono que tanto está
anelando. Alterou-se o mecanismo regulador do descanso,
por desobediência contínua à lei de um dos seus ciclos
fundamentais, e sofre suas conseqüências.

Resumindo, diremos que a falta de um perfeito des-


canso e relaxamento, conseqüência, de um lado, do de-
feituoso desenvolvimento e funcionamento interior do
homem e, de outro, do ritmo acelerado de toda a vida
moderna, produz muitos efeitos prejudiciais n a atividade
de toda a pessoa, dentre os quais cabe destacar os seguin-
tes, por sua importância:

1.° Impede ou dificulta o sono eficazmente repa-


rador.
2.° Altera a saúde, favorecendo em especial: os trans-
tornos de tipo nervoso; as enfermidades orgânicas de tipo
funcional (a clássica “úlcera de estômago”), constipação
intestinal crônica, transtornos cardíacos e respiratórios,
etc., e predispõe aos acidentes e traumatismos.
3.° Aumenta a urgência do descanso e diminui o ren-
dimento em geral.
4.° Aumenta as tensões emocionais, dando como re-
sultado um aumento dos estados negativos: insegurança,
126 HATHA-YOGA

medo, irritabilidade, instabilidade, ressentimento, agressi-


vidade, etc. Dificultando assim mesmo o poder estabelecer
harmônico contato social e corretas relações humanas.
5.° Aumenta a inquietude da mente e diminui sua
capacidade de rendimento, produzindo: agitação, incapa-
cidade de concentração, de aprofundamento; favorece
eventualmente a eclosão de idéias obsecantes, fobias, etc.
6.° Diminui a eficácia da vontade, que, apesar de
muito esforço, não consegue superar as próprias dificul-
dades.
7.° Dificulta a produtividade de ordem superior: re-
flexão serena e profunda, criação artística, investigação
científica e filosófica, etc.
8.° Dificulta o desenvolvimento de uma fecunda vida
espiritual.
Ao lado deste quadro um pouco forte, mas exato, dos
males causados pela prolongada falta de suficiente e ade-
quado descanso, está o fato de ser possível aprender-se a
redescobrir o próprio ciclo natural de atividade-repouso e
sujeitar-se a um ritmo básico. Chegar a isso não significa,
de modo algum, diminuir o rendimento, já que não se
trata dum “ir tirando”, seguindo o capricho mais ou me-
nos equivocado dos impulsos superficiais; significa que,
no momento de “fazer”, faz-se tudo quanto se deve fazer
de acordo com as circunstâncias, respondendo-se com toda
a personalidade a cada estímulo, vivendo-se com um ren-
dimento de 100%, e no momento de descansar, descan-
sando-se também integralmente, com rápida e total re-
cuperação, sem falar nos demais efeitos beneficentes
derivados de um descanso correto.
H á três formas corretas de descanso:
ELEMENTOS FORMAIS DO HATHA-YOGA 127

1. S u b s t i t u i ç ã o d e u m a a t iv id a d e p o r o u t r a — Ba-
seia-se no fato do ritmo alternado da atividade dos diver-
sos níveis mencionados antes. Este modo de descansar é
o que se faz, ou tenta-se fazer, habitualmente no trans-
correr do dia, quando, ao ficarmos cansados de fazer algo
passamos a fazer outra coisa: depois de ler ou estudar
durante muito tempo, passeamos; após caminhar bastan-
te, sentamo-nos para descansar e fazer reflexões, etc. Mas
para que este descanso seja correto, realmente útil, é ne-
cessário dominar a mente por completo de modo seja ela a
que dirija o processo, evitando ser dirigido pelo estado de
agitação ou de cansaço geral. Isto é, requer certa prática
prévia dos exercícios de Y oga ou de alguma outra técnica
que facilite o domínio mental.
Apresenta três formas diferentes, segundo o predo-
mínio de um ou de outro nível:
a) Substituição da atividade mental por outra de
tipo emocional ou físico.
b ) Substituição da atividade emocional-afetiva por
outra de tipo físico ou mental.
c) Substituição da atividade física por outra de tipo
afetivo ou mental.
Dá-se a primeira quando, após intenso trabalho in-
telectual, procura-se distração em conversas amistosas,
brincadeiras ou estados afetivos mais elevados. Ou tam-
bém em exercícios físicos: passeios, esportes ou exercícios
de Hatha-Yoga.
A segunda, quando, após suportar estados afetivos,
alegria ou tristeza, amor ou temor, experimenta-se a
necessidade de “fazer coisas”, seja pensando, seja agindo
fisicamente.
E a terceira quando, depois de prolongada atividade
física, tende-se a descansar o corpo e a ocupar a mente,
quando se conseguiu o seu domínio, em reflexões, estudos
128 HATHA-YOGA

e projetos com sentido concreto e realista, sem sinal de


sonho ou de divagação. O u também se substitui a ati-
vidade física por outra de tipo subjetivo-afetiva mais ou
menos elevada.
Dentro desta terceira forma de descanso parcial, de
aparência tão simples e chã, existem diversas possibilida-
des de enorme alcance. Vejamos algumas:

Como já mostramos antes, o repouso externo é a me-


lhor oportunidade para a atividade interior eficaz e pro-
dutiva. Quando graças ao treinamento proporcionado
pelos exercícios iogues, o indivíduo domina bem toda ou,
pelo menos, as quatro primeiras fases do relaxamento total
consciente, nas quais se consegue uma definida abstra-
ção do corpo e que a mente possa continuar sendo positi-
vamente consciente sem os estímulos dos sentidos, então,
pode-se obter novos e positivos estados de consciência que
permitem manter, durante o descanso físico, uma ativida-
de pelo menos tão viva e criadora quanto sua atividade
exterior. Esta atividade psicomental, que nada absoluta-
mente tem que ver com a divagação nem com o sonho
imaginativo, passa a ser precisamente o elemento fecundo
e renovador de sua atividade no mundo físico.

N a próxima parte, destinada a descrever a relação


total, indicam-se, em grandes traços, os sucessivos esta-
dos subjetivos pelos quais se atravessa no caminho da
interiorização iogue. Estes estados ou fases são conseqüên-
cia, não de um a atividade, mas de um a cessação progres-
siva de atividades mais ou menos inconscientes (contra-
ções e tensões dos diversos níveis). Pois bem, cada uma
destas fases pode ser tomada como ponto de partida para
uma série de atividades de ordem completamente nova
em relação às habituais.
Como não podemos esmiuçar aqui todas as técnicas
que os diversos Yogas utilizam para o desenvolvimento das
ELEMENTOS FORMAIS DO HATH A-YO GA

diversas faculdades, já que estamos circunscritos ao


Hatha-Yoga, basta-nos dizer, e isto será suficiente como
orientação inicial, que, uma vez conseguidas as fases do
relaxamento a que nos temos referido, pode-se empreen-
der, com segurança de alcançar resultados surpreendentes,
qualquer das seguintes atividades :

1 .ª Progressivo conhecimento de si mesmo (conteúdo


dos estados somato-psíquicos e mentais, sentido das ten-
dências e impulsos, etc.).
2.a Criação de novos estados anímicos, à vontade.
3.a Desenvolvimento da intuição psíquica e mental.
4.a Modificação de certos traços do caráter.
5 .a Influir no melhor funcionamento dos órgãos e
funções fisiológicas.
6 .a Desenvolvimento de qualidades mentais.
7 .a Meditação mais profunda.
8 .a Oração mais sincera e total.
A técnica a seguir para toda a transformação e de-
senvolvimento consiste, esquematicamente, no seguinte:
Respiração completa. Relaxamento físico, emocional
e mental. Atenção central (não pensamento; veja-se o
artigo seguinte sobre este tem a). Visualização clara e fir-
me, incluindo os aspectos objetivos e subjetivos do que se
procura. Vontade afirmativa.
Não obstante, temos que advertir, que se não se con-
seguiu previamente o domínio suficiente do relaxamento
e da mente, tudo isto não terá utilidade, prestando-se me-
lhor a formar ilusões falsas e perigosas. Para consegui-lo
precisa trabalhá-la devidamente. O Yoga é uma técnica,
não uma ciência infusa.
sobre os dois últimos pontos, meditação e oração,
somente diremos que do mesmo modo que o relaxamento
consciente permite-nos passar do mundo externo ao mun-
130 HATHA-YOGA

do interno, também nos ajudará eficazmente a ultrapas-


sá-los e, transcendendo-os, permitir-nos o acesso ao mun-
do superior ou espiritual do homem. Suas faculdades mais
elevada s, a mente abstrata, a intuição ética, o amor e a
vontade espirituais, assim como as inspirações sobrenatu-
rais da Graça, manifestar-se-ão à consciência do homem
com toda a sua grandeza.
Mas isto acontecerá somente quando este, reduzindo
ao silêncio todos os seus poderes inferiores, fazendo calar o
homem inferior, se recolher por completo, em seu íntimo
e, elevando-se internamente em sincera aspiração, suba,
peça e espere.

2. Sono profundo — O sono, quando profundo,


produz excelentes resultados de recuperação geral, embo-
ra tenha o inconveniente de subtrair do indivíduo ainda
na fase de desenvolvimento, várias horas diariamente da
consciência ativa.
As condições necessárias para que o sono seja tran-
qüilo, profundo e reparador, podem resumir-se nas três
seguintes:
1. Bom estado de saúde.
2. Ausência de conflitos emocionais, afetivos ou men-
tais pendentes de solução interior.
3. Realização suficiente de exercícios físicos duran-
te o dia.

3. R e l a x a m e n t o t o t a l c o n s c ie n t e — É uma certe-
za adquirida pela psicobiologia moderna que toda tensão
emocional traduz-se numa contração muscular. E que
toda representação psíquica conservada dentro da mente,
expressa-se em forma orgânica numa contração muscular
permanente, com a correspondente alteração das diversas
funções fisiológicas: respiração, digestão, eliminação, co-
ordenação motora, etc. Os conflitos psíquicos se expres-
ELEMENTOS FORMAIS DO HATH A-YOGA 131

sam, assim, através do corpo, da mesma forma pela qual


se expressam com freqüência através da mente, pertur-
bando seu funcionamento normal.
Mediante o relaxamento muscular consciente conse-
guem-se desfazer todas estas contrações, mesmo as in-
conscientes, de modo lento, porém seguro. E ao mesmo
tempo que se desfazem estas contrações, vão desaparecen-
do as correspondentes tensões emocionais, e os incessantes
problemas que alteram a mente, perdem, em sua maior
parte, urgência e importância.
O corpo recobra o funcionamento normal e a saúde,
em geral, melhora notavelmente, graças a uma produção
maior de energia e a sua melhor circulação por todo o
organismo.
A vida afetiva deixa de depender dos mil estímulos e
mudanças superficiais, e adquire estabilidade e profundi-
dade como até então não conhecera.
A mente não só consegue libertar-se de sua febril
hiperatividade, passando a um estado de calma e sereni-
dade, como também adquire vigor e clareza extraordiná-
rios, aumentando sua capacidade de aprofundamento e
de penetração.
O relaxamento total consciente se converte num dos
meios mais eficazes para o cultivo da vida interior,
considerada como a contraparte viva e fecunda da vida
exterior.
O relaxamento, para ser correto e total, precisa reu-
nir, necessariamente, estas duas condições básicas:
1 .ª Progressiva distensão de todos os músculos, su-
perficiais e profundos. Total tranqüilidade emocional.
Cessação de todo movimento mental, ou seja de todo pen-
samento, imagem ou idéia.
2 .ª Em nenhum momento se há de perder a cons-
ciência. Atitude positiva da atenção-vontade que constan-
132 HATHA-YOGA

temente dirige o processo de relaxamento progressivo ao


longo de toda sua duração.
Que ninguém se desencorage ao ler estas condições,
nem as considere totalmente irrealizáveis por havê-las ten-
tado repetidas vezes sem conseguir nenhum resultado po-
sitivo. É muito natural que qualquer pessoa que inicie o
relaxamento, sem outra preparação a não ser sua boa von-
tade, fracasse uma ou outra vez em seu intento de apa-
ziguar a mente. Isto que parece tão difícil, senão impos-
sível, converte-se em algo relativamente fácil mediante a
prática conjunta dos diversos elementos do Hatha-Yoga.
De fato, e falamos por experiência própria, é muito
fácil conseguir este relaxamento físico, emocional e men-
tal, sabendo-se utilizar bem os seguintes princípios (1).
1.° Afrouxar as contrações musculares conscientes.
2.° Converter em conscientes as contrações incons-
cientes para assim poder soltá-las voluntariamente. Isto
se consegue mediante uma prolongada prática do ponto
anterior ou, muitíssimo mais rápido, mediante a execução
de alguns asanas básicos: sarvangasama, sirshasana,
paschimottanasana, etc.
3.° Aproveitar o efeito sedativo da respiração abdomi-
nal, em particular do tempo de expiração.
4.° Criação prévia de uma imagem mental do estado
a conseguir.
5.° Prática suficiente para começar a atualizar a
atenção cerebral.
to d a contração de um músculo implica sempre na
presença, consciente, ou não, de energia e da mente sobre
este músculo. to d a retração ou contração permanente

(1 ) Para um adestramento progressivo de relaxamento sem a


prática dos asanas iogues, pode-se consultar nosso livrinho Relajación
y energia, Sirius, Barcelona, 1960.
ELEMENTOS FORMAIS DO HATHA-YOGA 133

constitui um gasto constante e estéril de ambas, energia e


mente. Ao libertar a contração, liberta-se a energia que a
mantinha e se liberta também a mente de sua concentra-
ção, mais ou menos inconsciente, sobre a dita contração.

Portanto, à medida que progride o estado de relaxa-


mento consciente, produz-se um sucessivo desprendimento
(liberação) da mente (consciência) dos níveis superfi-
ciais, assim como um automático despertar ou tomada de
consciência dos níveis profundos.

Ao mesmo tempo, e sob o ponto de vista da energia,


podemos ver que o relaxamento produz os seguintes
efeitos:
1.° Cessação de gasto. Com efeito, o consumo de
energia para o sustento físico e psíquico se reduz ao mí-
nimo durante todo o exercício de distensão.
2.° Libertação da energia do inconsciente. A liber-
tação da energia implicada na contração inconsciente,
diminui a carga energética da resistência, (tensão) do
inconsciente e se incorpora ao eu consciente, tudo o que
se registra como uma verdadeira libertação e fortaleci-
mentos físico e psíquico, que se mantêm imediatamente
para sempre.
3.° Criação de nova energia. Mediante a libertação
da reprimida e mediante a constante respiração rítmica.
4.° Acumulação. É o resultado dos pontos anteriores.
A cessação do gasto favorece todo o processo de
recuperação e revitalização orgânica. A libertação da
energia do inconsciente diminui a resistência orgânica e
psíquica ao bom funcionamento. A criação de nova ener-
gia incrementa a vitalidade total da pessoa. Enfim, a
acumulação resultante permite aplicá-la, sem grande es-
forço e com grande eficácia, a uma maior atividade, pro-
fundidade ou elevação.
134 HATHA-YOGA

Se se entender bem o que antecede, o leitor não es-


tranhará, parece, os assombrosos resultados que se atri-
buem a um relaxamento consciente bem feito. Eis aqui
alguns deles:
1.° Perfeito descanso do corpo.
2.° Recuperação extraordinariamente rápida de qual-
quer espécie de fadiga.
3.° Melhora do funcionamento do corpo em geral e
cura dos transtornos originados por hiperatividade orgâ-
nica ou por tensão.
4.° Aumenta a energia física, psíquica e mental.
5.° Tranqüiliza, aclara e aprofunda a vida afetiva.
6.° Descanso da mente.
7.° Serena, aclara e aprofunda a vida mental.
8.° Descobrem-se novos estados subjetivos: interio-
rização.
9.° Facilita-se, por afastar os obstáculos, a eclosão
de uma consciência superior: elevação.

Não obstante, tudo isto, que para alguns parecerá


teoria inútil, é de muita utilidade prática, posto que, à
medida que se vai compreendendo melhor o relaxamento
em todas suas fases e aspectos, vai-se formando um qua-
dro ou imagem mental que, no momento da prática efetiva
do relaxamento, predispõe à sua execução automática e
poupa para quem a pratica muitas tentativas inúteis,
erros e, inclusive, um ou outro susto.
Passando, agora, ao aspecto da execução progressiva
do relaxamento total, cumpre-nos assinalar as fases pelas
quais se atravessa em sua realização. Estas fases podem
ser consideradas objetiva e subjetivamente, isto é, des-
crevendo o que ocorre com o indivíduo que se relaxa, e o
que experimenta o próprio indivíduo, enquanto vai se
relaxando.
ELEMENTOS FORMAIS DO HATHA-YOGA 135

Objetivamente, o relaxamento consciente consta das


seguintes etapas ou fases:
1.ª Muscular superficial, que, por sua vez, conduz à
2.ª Consciência de formigamento ou de vibração.
3.ª Mental superficial.
4.ª Muscular profunda, que, por sua vez, conduz à
5.a Emocional profunda, e esta à
6.ª Mental profunda.

Subjetivamente, durante o relaxamento consciente


passa-se pelos seguintes estágios:
1.° Consciência física periférica.
2.° Consciência de formigamento ou de vibração.
3.® Sensação de placidez, de bem-estar geral.
4.° Descanso mental. Silêncio.
5.° Consciência de obscuridade, de vazio.
6.° Consciência de luminosidade, de plenitude.
O primeiro estágio já é conhecido de todos. É o que
se sente quando, por fim, estando cansado de muito exer-
cício físico, pode alguém estender-se na cama. Junto com
a sensação geral de descanso, percebe-se, de modo global,
todo o corpo. É simplesmente o descanso físico.
O segundo estágio é conseguido quando, junto com o
descanso físico, mantém-se a consciência desperta e tran-
qüila. Percebe-se, então, um a sensação geral de formiga-
mento ou de ligeira vibração dentro de todo o corpo, que
principia quase nas extremidades, mas vai se generalizan-
do com a prática. Corresponde à consciência prânica.
O terceiro vem automaticamente, se se persiste no
abandono progressivo, mas consciente, de todo o corpo.
Um a sensação de extraordinário bem-estar invade a cons-
ciência, primeiro de modo apenas perceptível, mas que
pouco a pouco, vai-se consolidando, até que, após um
tempo mais ou menos longo de prática, pode ser conse-
130 HATHA-YOGA

guido quase instantaneamente. Correspondente à auto-


consciência sensitivo-emotiva.

No quarto estágio consegue-se que a mente deixe de


dar voltas e, sem necessidade de qualquer esforço, se tran-
qüilize e se aquiete. Obtém-se isto dirigindo suavemente
a atenção até o próprio processo de pensar, sem querer
trocá-lo nem suprimi-lo, mas apenas encarando-o com
tranqüilidade e imparcialidade. Nada mais. O silêncio
faz-se por si só. Silêncio que tem algo muito especial, que
está feito de “algo”, que é tangível, extenso e inteligente.
Esta fase corresponde à autoconsciência mental.
A quinta fase se inicia quando o aluno percebe que
pode afrouxar-se e abandonar-se mais um pouco, mas
sempre de modo consciente. É freqüente que, neste mo-
mento, a experiência termine, porque o principiante leva,
quase sempre, um susto. Sente-se afundar até algo obs-
curo e desconhecido que o faz reagir instintivamente.
Não há, nesta experiência, o menor perigo, embora seja
natural que, a princípio, o indivíduo se assuste. Devemos
avisar, não obstante, ser de todo necessário que a mente
(a atenção) se mantenha sempre desperta, serena, em es-
tado positivo, dominando a situação sendo capaz de fazê-
-la cessar quando o deseje.
Depois, quando afinal consegue transcender a etapa
anterior, o aluno passa para um estado completamente
novo, que escapa a qualquer tentativa de descrição. A
consciência de plenitude e de luminosidade que experi-
menta, é de uma espécie totalmente diferente da que ex-
perimentou na terceira etapa. Renunciamos a descrevê-
-los, mas convidamos o aluno a não se deixar desanimar
pelas dificuldades que possa encontrar ao longo de todo
este processo, até chegar a esta etapa final.
A atitude que permite este relaxamento progressivo
é: ir libertando todo esforço (de qualquer tipo) e manter
ELEMENTOS FORMAIS DO HATHA-YOGA 137

a atenção (não o pensamento) sempre clara, desperta,


alerta. Observar-se-á que a melhor maneira de ir libertan-
do é aproveitar o momento de cada expiração. A mente
segue um processo muito característico. Notará que a
atenção que, a princípio, era como a usual, que se em-
prega ao encarar qualquer situação exterior com interesse,
lentamente vai-se interiorizando, até que se dá conta de
que “é algo muito profundo” o que está dirigindo todo o
processo. Isto apresenta, como é natural, sua dificuldade,
posto que a mente, por não ter imagens a que se agarrar
e falhar todo o estímulo da atenção superficial, resiste a
deixar sua sede habitual de atividade, ou tende a submer-
gir-se no sono. Mas, com perseverança e habilidade, con-
segue-se o resultado final.

Tanto para “ir” para o estado de relaxamento pro-


fundo, como para dele “voltar”, é indispensável usar-se,
em todo momento, do máximo discernimento e suavidade,
evitando-se, em absoluto, qualquer abuso ou esforço, todo
excesso ou violência.
A inobservância destes requisitos pode provocar sérios
transtornos físicos ou psíquicos no aluno imprudente. N a
Parte Prática daremos a descrição detalhada de como de-
ve realizar-se cada uma das etapas.
Os impedimentos para a prática correta do relaxa-
mento são de três tipos:

1. D e o r ig e m f í s i c a — Qualquer mal-estar ou en-


fermidade dificulta o relaxamento superficial e impede os
estágios profundos. A medida que a saúde melhora au-
menta a facilidade para o relaxamento, e vice-versa, à
medida que se progride no relaxamento, melhora-se no
estado de saúde em geral.
Dentro de uma ordem menor de dificuldades, há que
mencionar as coisas incômodas. O relaxamento completo
138 HATHA-YOGA

exige que o corpo possa ser esquecido completamente, e


para isto é preciso que as sensações físicas, procedentes
da própria postura, ruídos, temperatura, etc. sejam as
mais favoráveis.

2. De o r i g e m e m o c i o n a l — Como já dissemos ante-


riormente, toda tensão emocional dificulta ou impede o
relaxamento. Mas também à medida que o relaxamento
progride, desaparecem natural e automaticamente todas
as tensões e problemas emocionais, ainda que para isso se
exija certo tempo de perseverante exercitação.
O estado emocional que mais impede o progresso no
relaxamento, como também em qualquer outra atividade
é, sem dúvida alguma, o medo. Não o medo aos exercí-
cios, mas o medo em geral: cristalização da insegurança
que sentiu e sente o indivíduo dentro de si mesmo diante
da vida. Este medo, que tem muitas ramificações e usa
múltiplos disfarces, interpõe-se continuamente em tudo
quanto a pessoa empreende, especialmente naquelas ativi-
dades ou atitudes que tendem a querer eliminá-lo.
É aqui que mais aparatoso se mostra o êxito do rela-
xamento que, inteligentemente combinado com a respi-
ração integral e com alguns asanas, consegue, em tempo
relativamente curto, uma mudança radical, muito difícil
de conseguir com qualquer outro sistema ou tratamento.

3. De o r ig e m m e n t a l — É um fato conhecido de
todos a grande dificuldade que representa o tranqüilizar
e descansar a mente. E se não se consegue relaxar a men-
te, fazê-la silenciosa, não se alcança total relaxamento fí-
sico e emocional. Mas a maior parte das atividades da
mente que não pode ser dominada, não procede da mesma
mente, mas sim de outras fontes.
Encarando o assunto em termos gerais, podemos esta-
belecer que a mente recebe estímulos para sua atividade
automática das seguintes origens:
ELEMENTOS FORMAIS DO HATH A-YOGA 139

a) Corpo físico — Percepções através dos cinco sen-


tidos põem em incessante movimento todos os conteúdos
subjetivos do eu. Em segundo lugar, as sensações proce-
dentes do estado somático, em especial nos casos de exis-
tência de mal-estar, de incomodidades ou de transtornos
orgânicos, dificultam também a tranqüilidade mental.
b ) Organismo prânico — Se existem impurezas ou
“nós” de prana que obstam sua livre circulação, a mente
torna-se, por sua vez, entorpecida para poder relaxar.
Mas se a circulação prânica é demasiado rápida, devido a
um movimento respiratório também rápido, então, a men-
te é, do mesmo modo, impelida mecanicamente para
uma atividade forçada, que impossibilita seu descanso.
Existe um estreito paralelismo entre o ritmo respiratório
(prânico) e o ritmo da atividade mental.
c) Estados emocionais — São, em geral, o maior es-
tímulo da atividade mental. Quase 90% dos pensamentos
e 100% das imaginações têm, como verdadeiro motor, os
estados emocionais que a pessoa, de modo mais ou menos
inconsciente, mantém constantemente: medo, desejo, am-
bição, etc. Quando os estados emocionais realmente se
tranqüilizam, torna-se mais fácil regular à vontade a ati-
vidade mental. Se as emoções persistem, pode a mente
imobilizar-se momentaneamente, mas é impossível fazê-la
descansar natural e tranqüilamente. Deve ter-se em conta,
porém, que à medida que se vai praticando o relaxamento,
como acontece nos demais exercícios de Yoga, apesar das
dificuldades apresentadas pelas emoções reprimidas, estas
vão, paulatinamente, afrouxando-se e libertando-se.
d) Da mesma mente — Em primeiro lugar está a
inércia mental, pela qual a mente tende a um movimento
contínuo, automático, de modo incansável. Não obstante,
isto não constitui grande dificuldade: mediante o relaxa-
mento acompanhado duma respiração mais lenta e pro-
140 HATHA-YOGA

funda, a mente se tranqüiliza por si mesma, seguindo,


como que encantada, fascinada, o ritmo respiratório. Mas
é necessário haver-se solucionado previamente os estímu-
los procedentes dos níveis físico e emocional. Outra difi-
culdade que pode surgir do próprio nível mental, é a dos
problemas especificamente mentais, que a pessoa precisa
resolver, problemas objetivos que exigem solução definida.
Enquanto esta solução não é encontrada, existe na mente
uma tensão que dificulta as fases adiantadas do relaxa-
mento. Estes problemas devem ser solucionados indepen-
dentemente de qualquer técnica psicofisiológica. Mas,
conforme já mostramos antes, os problemas de natureza
exclusivamente mental, são, na realidade, muito poucos.
Embora o indivíduo que os possua não o acredite, a maior
parte dos problemas tem origem instintiva emocional ou
afetiva, de modo que, ao solucionar-se estes níveis, o pro-
blema desaparece ou perde toda sua força.

Os quatro fatores que acabamos de mencionar como


fontes de estímulo para a atividade mental, como pode
ser facilmente compreendido, não são independentes uns
dos outros, mas constituem uma vertente quádrupla do
mesmo e único fenômeno do existir humano no plano su-
perficial da personalidade.

O relaxamento total consciente possui algumas van-


tagens notáveis sobre as outras formas de descanso, in-
clusive a do sono profundo.
A primeira vantagem consiste em que a recuperação
física é muito mais rápida num estado de relaxamento
bem feito do que no sono.
A segunda vantagem é que, mediante o relaxamento
consciente, existe verdadeira resolução dos conflitos emo-
cionais inconscientes, sendo aquele uma verdadeira psico-
terapia profunda, coisa que o sono normal não pode fa-
ELEMENTOS FORMAIS DO HATHA-YOGA 141

zer, senão quando é de grande duração e supondo-se não


haverem sido acrescentados novos fatores ao problema.
A terceira vantagem é quiçá a mais notável, é que
no relaxamento se conserva, em todos os momentos, um
estado de consciência positivo, com a mente perfeitamente
desperta, embora tranqüila, com os seguintes resultados:
Aumento efetivo da energia mental e não apenas re-
cuperação.
Progressivo self-insight ou auto compreensão.
Tomada de consciência de níveis da personalidade
mais profundos e mais elevados do que os que constituem
a vida habitual da maior parte das pessoas.
Para terminar este estudo sobre o relaxamento como
exercício especial, diremos que os melhores colaboradores
para conseguir-se um bom relaxamento consciente são os
seguintes:

1. E s f o r ç o c o n s c ie n t e — Quanto mais consciente é


uma contração, mais fácil é relaxá-la voluntariamente.
Convertê-la de consciente em inconsciente para poder
afrouxar depois, é um dos efeitos que os asanas iogues pro-
duzem no sadhaka. Por isto, a prática do Hatha-Yoga é
uma das melhores preparações para fazer o relaxamento
com êxito rápido.

2. A r e s p i r a ç ã o c o n s c ie n t e — É o meio mais fácil


para se conseguir êxito no relaxamento. Um a respiração
abdominal lenta e profunda, seguida com calma pela men-
te, conduz por si só ao relaxamento profundo. O mo-
mento ótimo para “soltar” é a expiração, que deve ser
muito lenta e completa.

3 . A m e n t e c o n t r o l a d a e a a t e n ç ã o c e n t r a l — Pri-
meiramente, aprender a manter-se desperto e tranqüilo,
sem pensar. Isto exige prática, mas é relativamente fácil
consegui-lo, quando praticado junto com os demais exerci-
142 H ATH A - Y O GA

cios iogues. Em segundo lugar, aprender a registrar com


uma olhada interna, o estado em que se encontra, para
ver o que deve ser corrigido ou melhorado, isto é, para
dirigir incontinenti todo o exercício de relaxamento. E,
em terceiro lugar, o ato de aumentar o aprofundamento
do estado, ato que consiste num “ver e querer” simultâ-
neo, sem dialética, sem discurso, somente com um ato da
mente-vontade que, desde o íntimo, ordena com suavida-
de, mas com segurança, soltar e aprofundar constante-
mente mais e mais.

N a Parte Prática descreveremos sua execução com


mais detalhes, sob a epígrafe do nome sânscrito do asana
utilizado para esta prática, que é savasana ou posição do
cadáver. Agora vamos nos referir, brevemente, ao relaxa-
mento realizado em outras circunstâncias:

a) Como parte integrante da execução dos asanas —


Cada exercício de Yoga requer, para sua execução, deter-
minados músculos. Mas para que o asana seja correta-
mente executado, é preciso que somente atuem os mús-
culos exatos, apenas estritamente necessários para a exe-
cução e mantença da posição. Todos os demais devem
permanecer relaxados. Este é um dos pontos essenciais da
sua execução correta e, portanto, do êxito do mesmo de-
pende a obtenção dos melhores resultados dos asanas.
A princípio, o estudante raramente percebe a impor-
tância disto, que ele considera pequenos detalhes. É este
estado de relaxamento especial de cada asana que permite
chegar aos estados subjetivos ou de consciência próprios
de cada exercício. Chegar a este relaxamento particular
exige, desde logo, prática assídua e atenção. Em primeiro
lugar, é difícil conseguir descobrir diretamente que se es-
tá fazendo uma série de contrações “parasitas”, inúteis.
Requer uma boa dose de observação. Mas chegar a afrou-
xar por completo estes músculos exige um domínio e uma
ELEMENTOS FORMAIS DO HATHA-YOGA 143

maestria que o principiante entusiasta está muito longe


de imaginar. Sem embargo, repetimos, esta é uma das
condições mais importantes dum asana perfeitamente exe-
cutado. As outras três são, como se verá: lentidão da
execução, respiração adequada e correta atitude mental.
b) Na vida diária — U m pouco de auto-observação,
no decorrer do dia, permitirá verificar-se, ao final, a enor-
me quantidade de energia que se consome diariamente
com as tensões musculares, perfeitamente inúteis, que são
feitas a todo instante. Estas tensões ou contrações mus-
culares parasitas, são sempre produto de um mal-estar físi-
co, de tensões emocionais ou mentais. Esta atitude viciada,
além da fadiga inútil que produz, em decorrência do cons-
tante esforço nervoso e muscular que exige, prejudica a
elasticidade e a agilidade dos movimentos físicos, entorpe-
cendo a fluidez psíquica do pensar, do sentir e do reagir.
A prática sistemática do relaxamento como exercício
especial, produzirá o domínio suficiente para evitar, com-
pletamente, também durante o dia, todas essas tensões per-
mitindo corrigi-las instantaneamente, na hipótese de serem
produzidas por uma momentânea situação de esforço.
O desaparecimento das tensões inconscientes, durante
o dia, produz os diversos efeitos que já mencionamos: au-
menta o rendimento e eficiência de toda nossa atividade,
tanto interior como exterior, e capacita-nos a aprender
a sentir e a gozar, cada vez mais, de todas as pequenas
coisas da vida diária, que estão cheias de mensagens vivas
de alegria e serenidade para todo aquele que aprende a en-
cará-las com os olhos da mente, bem claros e bem abertos.

A rt. 4. A correta a t it u d e da m ente no Y oga

Vamos, agora, nos ocupar da atitude da mente na


prática do Yoga. Como o encaramos sob esta perspectiva
144 HATHA-YOGA

e com fins exclusivamente práticos, e não sob o ponto de


vista filosófico ou da psicologia acadêmica, seja-nos per-
mitido continuar expondo nossas idéias livremente e sem
tecnicismos de nenhuma espécie, procurando tão-somente
a melhor maneira de nos fazer compreendidos pelo leitor
que tenha suficiente interesse no problema.
A matéria tem sua dificuldade de exposição na cir-
cunstância de ter que descrever uma atitude interna, uma
disposição subjetiva do experimentador. De nossa parte,
trataremos de superar esta dificuldade mediante a apre-
sentação de diversas observações através de frases curtas,
destinadas mais a provocar uma resposta interna do
estudante que descrever objetivamente uma atitude. Mas
é preciso que quem quiser “compreender” dedique-se in-
teiramente a escutar, a ler, tentando penetrar o espírito
mais que a forma das idéias. Somente assim será possí-
vel chegar a aprender algo realmente “novo” acerca de
sua própria mente.
Existem pontos básicos que o estudante sincero tem
necessidade de ir compreendendo se tiver que penetrar,
um dia, na prática interna ou fase superior do Yoga:

Pensam ento e atenção central

1. N a prática do Yoga, como acontece em qualquer


técnica de interiorização, é de todo indispensável que o
pensamento vá diminuindo até desvanecer-se, à vontade,
e que a atenção se intensifique e aumente em clareza, pro-
fundidade e estabilidade.
2. O pensamento lida com dados, compara-os e com-
bina-os; abstrai e infere. Sua ação é inestimável em todos
os aspectos existenciais do homem. Porém, não o ajuda,
salvo em casos excepcionais de puro predomínio metafí-
sico, no trabalho de sua interiorização e de sua simplifi-
cação. A atenção correta, quando é desenvolvida plena-
ELEMENTOS FORMAIS DO HATH A-YO GA 145

mente, é a única faculdade que permite a integração e a


unificação de todos os níveis e planos da mente humana.

3. O objetivo ou finalidade de ambos é o conheci-


mento. O pensamento utiliza representações mentais ou
idéias de ordem mais geral ou abstrata. A atenção vin-
cula diretamente o intelecto, a todos os conteúdos de
consciência, fazendo-os “inteligíveis”, isto é, permitindo
“ver dentro” deles.
4. O pensamento “dá voltas” ao redor do objeto
pensado. A atenção une diretamente, em linha reta, o
objeto com o sujeito através da mente.
5. O homem está praticamente hipnotizado pelas
imagens mentais, pelas idéias que, em rápida sucessão, es-
tão aparecendo em sua mente. Está tão acostumado com
elas, que chega a crer que unicamente elas são a verdade,
e assim, somente através delas busca a Verdade: a verda-
de de si mesmo, da Natureza e de Deus.
6. Devido à experiência de que o conhecimento das
coisas concretas, obtido mediante a mente, permite-lhe
manejá-las e modificá-las mais ou menos satisfatoriamen-
te, chegou à convicção de que toda verdade depende de
acertar com a idéia adequada, a que corresponde à coisa.
Isto é correto no que se refere às “coisas” , ao mundo
objetivo externo; também o é com respeito aos conteú-
dos naturais de si mesmo. Porém não o é com respeito
a este “si mesmo”.
7. A mente humana pode possuir verdades, porém
não a Verdade. A Verdade do homem é o próprio homem,
todo ele, inclusive sua mente. A Verdade contém a mente,
mas a mente não pode conter a Verdade.
8. A mente do homem é um aspecto muito elevado,
quiçá o mais elevado, mas afinal de contas, não é mais
que isto: um aspecto do homem total.
146 HATHA-YOGA

9. O esforço mais positivo que a mente humana pode


fazer na ordem do trabalho espiritual é precisamente o de
alcançar sua própria neutralização, isto é, a de conhecer
sua própria relatividade, sua total inadequação para co-
nhecer a verdade espiritual.

10. A atividade de pensar chegou a ser um vício


que o homem adquiriu e que utiliza automaticamente,
mesmo quando não é necessário, inclusive quando o pre-
judica. Não cessa, não pára nunca, não pode freá-lo,
perdeu seu domínio e está, o homem todo, à sua mercê.
E continuará sendo escravo de sua mente até que se dê
conta de que nenhuma das idéias que possa ter, será sua
Verdade, e que somente a Idéia que o possui é a que o
constitui, a que é sua única verdade.

11. O homem em sua atitude egocêntrica, quer


“possuir” Deus para conhecê-lo. Mas é Deus quem tem
o homem na palma da mão, dando-lhe o ser e o existir
com um ato perfeito e soberano de sua atenção, de sua
vontade e de seu amor.
12. Temos que considerar duas espécies de atenção:
atenção particular e atenção central.
A atenção particular é a que dirige a ação da mente
consciente até um determinado objeto (interno ou exter-
no) de modo exclusivo. Este é o significado corrente da
atenção. Quando se mantém algum tempo a atenção, ela
se denomina concentração. É muito importante dominá-
-la bem, mas não é isto o que aqui mais nos interessa.
A atenção central é o ato de estar muito desperto,
muito consciente, mas sem dirigir-se a nenhum objeto,
interno ou externo, em particular. Nela se registra tudo
quanto aparece na consciência, porém de maneira que a
atenção não fique absorvida no fenômeno, mas que conser-
ve sua própria posição central e imóvel. Vem a ser uma
ELEMENTOS FORMAIS DO HATH A-YOGA 147

atenção geral, porém com a diferença de que, na atenção


central, a percepção é clara, definida, precisa e instânta-
nea, em lugar de ser vaga e difusa como na atenção geral.
Também se diferencia da atenção geral em que nesta, a
consciência está como que num estudo nebuloso e informe,
ao passo que, na atenção central, há um núcleo ou ponto
central de extraordinária intensidade.
13. Do mesmo modo que o sol, sem perder sua posi-
ção central e imóvel, ilumina, com seus raios, tudo quanto
se põe dentro de seu campo esférico de luz, a atenção
central permanece desperta e tranqüila, embora imóvel,
registrando tudo quanto aparece no campo da consciência,
mas sem ficar absorvida por isso.
14. Um a vez conseguida esta atenção central, pode-
-se utilizar, em qualquer momento, a atenção particular,
sem que aquela desapareça.
A atenção particular então se converte em um raio
de atenção central, deixando de ser exclusiva e passando
a ser tão-somente preferencial, conservando uma vincula-
ção consciente com seu centro.
15. Para poder chegar a esta atenção central, é ne-
cessário, primeiramente, compreender que não se a possui.
Todo mundo julga saber o que é a atenção, e pensa que
se trata somente de conseguir maior estabilidade o domí-
nio disso mesmo que conhece.
Em segundo lugar, é necessário procurar estar aten-
to, com a atenção corrente (a única de que dispõe no
princípio) em qualquer momento e circunstância. Se se
observa cuidadosamente, apreciar-se-ão os numerosos lap-
sos e pequenas ausências que sua atenção sofre ao longo
do dia. É preciso conseguir estar sempre desperto.
É preciso, em terceiro lugar, aprender a manter esta
mesma atenção corrente em linha reta, isto é, seguir aten-
to sobre o mesmo ponto, ainda quando pareça que a coisa
148 H ATHA - Y O GA

já está percebida suficientemente, vencendo a tendência


a passar a outro objeto, a procurar outro estímulo. E
tudo isso deve fazê-lo sem forçar a mente em qualquer
sentido, mas ao contrário, afrouxando cada vez mais toda
tensão mental.
Assim deve aplicar-se a toda espécie de objetos: físi-
cos, sensações, sentimentos, idéias, intuições, etc.

16. O único meio de chegar à atenção é a atenção.


17. Estar atento é estar intencionalmente consciente.
18. O pensamento é o conhecimento fraccionado em
unidades de tempo e espaço. A atenção leva ao conhe-
cimento como instante intemporal e como ponto fora do
espaço (inespacial) .

19. O mundo do pensamento é um círculo fechado


ou, melhor dizendo, um a esfera limitada. O pensamento
é um meio para chegar a conhecer o temporal e o exten-
so. A atenção é o ato que permite conhecer e progredir
do superficial ao profundo, do complexo ao simples, do
material ao espiritual.
20. A atenção é o intelecto encarnado no instante.
21. A atenção central, em nenhum momento é ex-
clusiva. to d a atenção que diminui o campo da consciência
é porque está mesclada com uma tensão.
22. A atenção é o eixo da vida psíquica. É o centro
da vida consciente, em cujo interior se desenvolvem todos
os processos psíquicos. Centro que está mais além do tem-
po e do espaço, mais além do físico e do psíquico.
23. A atenção é uma experiência: é a experiência.
24. Muito poucas pessoas, pouquíssimas, conhecem
em realidade a atenção central. Mas muitas pessoas, mui-
tíssimas, julgam conhecê-la muito bem. Esta crença não
passa de uma idéia a mais, um pensamento desvanecedor.

(f
ELEMENTOS FORMAIS DO HATH A-YOGA 149

25. A atenção é o único elemento comum a todas as


técnicas do aperfeiçoamento, de interiorização e do desen-
volvimento do homem.
26. A atenção central não é uma atitude passiva. É
o ato permanente da mente superior.
27. A atenção é o indicador que acompanha o de-
senvolvimento da mente humana desde os limites da sel-
va até aos pés de Deus.

28. Quando a atenção não tem preferências, é a


atenção central.
29. A atenção central exige um correto relaxamento
do corpo e da mente.
30. A atenção correta deixa livre o fluir da vida.
31. A atenção não impede nem dificulta absoluta-
mente nenhuma faculdade do homem. O único incompa-
tível com a atenção é a inconsciência.
32. A atenção é tanto mais correta quanto do mais
profundo venha, não quanto mais para dentro vá.
33. A atenção adquire vida por si mesma quando
pode fazer-se por detrás da zona do pensamento.
34. O ponto de onde olha é o da identificação do
homem, é o ponto com o qual está identificado.
35. À medida que a atenção se faz mais profunda,
mais central, o homem mais se aproxima de “si próprio”.
36. A atenção não produz o gasto de energia porque
não exige nenhum trabalho, nenhuma contração. A aten-
ção é um ato, não um processo.
37. A atenção trabalha em linha reta, enquanto o
pensamento trabalha em linha circular ou em ziguezague.
A atenção é o caminho mais curto para chegar a qualquer
verdade. A atenção é o atalho para o conhecimento do eu.
150 HATHA-YOGA

38. A tensão não aumenta, em nenhum momento,


o rendimento da atenção. A verdadeira atenção se conse-
gue precisamente quando se desfazem todos os esforços,
quando toda a energia está livre.
39. A consciência se desperta, na história do homem,
graças ao esforço, mas uma vez despertada, a mantença
dum esforço é um gasto inútil que somente prejudica o
rendimento útil da atenção.
40. O homem tem, utiliza uma atenção. Mas não
conhecerá a verdadeira atenção espiritual até que não
se dê conta de que existe uma atenção que o possui.
41. O ponto mais importante da atenção, no traba-
lho interior, é precisamente o seu ponto de origem. Ponto
de origem em todas suas acepções: neurofisiológica, psi-
cológica, mental e filosófica.
A evolução psicológica de uma pessoa começa na in-
fância e, de maneira uniforme, a partir do centro para
a periferia; depois vai procedendo lentamente em sentido
inverso, embora então de modo claro, preciso, definido,
da periferia para o centro. Mas a maioria das pessoas se
deteve na metade do caminho.

42. O ponto de origem real da atenção é o centro


da mente ou intelecto espiritual. E este intelecto central
tende sempre para o centro das coisas.
43. O pensamento é um processo temporal (ocorre
no tempo) e complexo (é constituído por vários atos e
elementos). A atenção é um ato simples e instantâneo
(aqui e agora).
44. N a atenção central, o presente aumenta sua im-
portância, e o instante, sua presença, até que incluem o
tempo dentro deles.
45. Ao princípio, a atenção é superficial, feita com
esforço da mente. À medida que se consegue afrouxar este
ELEMENTOS FORMAIS DO HATHA-YOGA 151

esforço da mente e manter a consciência desperta, a aten-


ção vai se centralizando.
46. A atenção pode manter-se desperta com mais
facilidade, ao princípio, até os estímulos sensoriais (per-
cepções visuais, auditivas, etc.). Depois, pode manter-se,
já com maior estabilidade, no mundo das sensações físicas
internas. Segue o mundo afetivo ou de emoções e senti-
mentos. E chega, afinal, a poder ser inclusive espectador
consciente dos próprios processos do pensamento.
47. A atenção é a faculdade que nos permite pe-
netrar dentro do conteúdo de toda vivência, de todo
fenômeno de consciência. O centro último de todo con-
teúdo vivencial e de todo fenômeno de consciência é o eu
espiritual.
48. A atenção é o elemento fecundante da ativi-
dade mental. Graças a ela, o pensamento pode aprofun-
dar-se, pode deixar de mover-se em círculo fechado, pas-
sando a fazê-lo em espiral.
49. A atenção é a chave do domínio e do desenvol-
vimento da mente, assim como dos poderes ou faculdades
superiores do homem.
50. A atenção desenvolve, de modo imediato, a intui-
ção. Quanto mais profunda uma, mais elevada a outra.
51. A atenção central nunca isola, nunca separa,
nunca exclui.
52. A atenção central chega a sê-lo verdadeiramente
quando é permanente.
53. A atenção, quando mantida desperta na mesma
direção, sempre avança, penetra e aprofunda.
54. Não se pode permanecer atento e continuar-se
interiormente no mesmo lugar.
55. O pensamento, para ser fecundo, tem que ocu-
par um lugar dentro do ponto central da atenção. H á
de ser, vá lá o paradoxo, a esfera dentro do ponto. E to-
152 HATHA-YOGA

da esfera é o centro expressado simultânea e totalmente


em três dimensões.
56. A atenção central permite à mente ter uma vi-
são pluridimensional e instantânea do objeto.
57. A atividade ou o repouso não modificam subs-
tancialmente a atenção central.
58. À medida que a atenção se aprofunda, modifi-
cam-se os estados de consciência.
59. A atenção plenamente atualizada é caracterís-
tica do homem superior.
60. O pensamento empresta à atenção os conceitos,
idéias e imagens para poder expressar a intuição em ter-
mos lógicos.
61. A atenção é o ponto central que integra o exter-
no e o interno, o inferior e o superior.
62. A atenção central mata e desagrega, sem drama,
tanto o eu superficial, como o eu inferior.
63. A atenção central é o meio pelo qual a luz e a
força da alma penetram em todos os desvãos e escaninhos
da mente, fazendo desaparecer as trevas presentes e puri-
ficando os impulsos, sentimentos e idéias de toda sujeira.
64. Com a atenção central percebem-se e atendem-
-se, espontaneamente, os valores permanentes.
De tudo quanto precede, depreende-se que a atenção
central é, na ordem mental, o término do trabalho iogue.
Pois bem, de que maneira os exercícios de asanas condu-
zem a esse objetivo? Através de que fases definidas a ati-
tude mental corrente chega a transformar-se no estado de
atenção central? É o que iremos agora delinear.

Como se chega à atenção central

1. No Hatha-Yoga. 2. Nos outros Yogas. 3. N a


vida diária.
ELEMENTOS FORMAIS DO HATHA-YOGA 153

1. No Hatha-Yoga — É evidente que, ao começar a


prática dos asanas, o aluno a faz com a atitude mental
corrente de atenção particular mais ou menos adestrada,
mas superficial. Um a vez bem conhecida a técnica exter-
na de execução, em todos os seus detalhes, o estudante
principia a executar cada exercício com cuidado e lenti-
dão, pondo a máxima atenção na realização correta de
todas suas fases e procurando manter a fase final na
devida forma. Até aqui está empregando uma atenção
periférica externa. É a primeira fase da atenção.
Quando a técnica de execução torna-se-lhe familiar,
de modo a não precisar mais pensar, de maneira especial,
no que precisa fazer, no momento seguinte, deve, então, o
aluno aprender a prestar atenção à execução do movimen-
to, como movimento, isto é, a tomar consciência de que
está se movendo e ir acompanhando este movimento in-
ternamente, prestando atenção à parte do corpo que se
move, e “desejando” que se mova. É uma atenção no cur-
so do impulso motor, tanto como no mesmo movimento.
No instante em que, o asana está no seu tempo final
ou de permanência, a atenção do aluno deve concentrar-se
no afrouxamento dos músculos que não intervêm ativa-
mente no asana, deve estar atento à ação de relaxar. Esta
atenção interior do movimento, tanto ativo como passivo,
constitui a segunda fase da atenção. Esta consciência in-
terior do movimento deverá estar presente no sucessivo,
sempre que seja executado qualquer exercício de Yoga.

À medida que continua, a prática aparece de modo na-


tural, quando as indicações dadas são seguidas fielmente,
outro estado de consciência. Particularmente nos momen-
tos de permanência ou parte estética do exercício, come-
çará o aluno a observar um a sensação particular, de tipo
geral e difuso, sempre agradável, embora muito suave a
princípio. Esta sensação caminha paralela à consciência
154 HATHA-YOGA

do afrouxar, à atenção do relaxamento muscular próprio


de cada asana. É muito difícil descrever com exatidão o
estado que o aluno experimenta, pelo que nos limitamos
a indicar sua presença; o próprio estudante o descobrirá,
por si mesmo, na prática. Verá também que, neste es-
tágio, não necessita apenas pensar, mas que pode perma-
necer plenamente consciente e desperto. Esta sensação
geral agradável estende-se e se aprofunda por si só e
corresponde a um aspecto do terceiro estágio do relaxa-
mento geral, que descrevemos anteriormente. Esta é a ter-
ceira fase da atenção.
Estas três fases serão suficientes para que no Yoga
se procure tão-somente efeitos benéficos de tipo físico. O
tempo necessário para passar de uma a outra etapa varia,
evidentemente, em cada pessoa. O aceleramento do pro-
gresso depende de três fatores: execução lenta e conscien-
te, relaxamento correto e atenção permanente.

Observar-se-á que, através das três fases descritas, a


atenção experimenta uma mudança notável. De parti-
cular e superficial, que era no começo, vai se convertendo
em mais geral e profunda à medida que se avança na prá-
tica dos exercícios. Do mesmo modo sente-se que cada
fase corresponde ao relaxamento duma camada superficial
da mente, que permite tomar consciência d a imediata
mais profunda. Esta atenção mais profunda se consegue,
a princípio, tão só durante o momento central do exercí-
cio, mas, pouco a pouco, vai mudando o tom geral da
consciência durante o dia, quase imperceptivelmente, mas
de modo seguro. Ao fim de algum tempo, estabelece-se
permanentemente um estado de consciência, em que a
atenção tem duas atividades simultâneas: de um lado, re-
gistra e atua segundo a necessidade externa de cada si-
tuação, mas, de outro lado, existe um permanente bem-
-estar, que se registra ativamente num nível mais profun-
ELEMENTOS FORMAIS DO HATHA-YOGA 155

do da mente e se mantém à parte da atividade superficial


da atenção, vindo a ser como sua decoração de fundo.
Isto é o começo da atenção central. N a realidade, é a
atenção central do nível vegetativo.
Se o sadhaka persiste na prática diária dos exercícios,
procurando seguir, com todo o esmero, as indicações re-
cebidas, chegará a aperfeiçoar as fases anteriores, de
maneira a manter-se na terceira fase da atenção durante
todo o dia. O momento dos exercícios será para ele um
dos mais aguardados, já que lhe permitirá penetrar ainda
mais nesse estado de tranqüilidade e de bem-estar. É,
então, que aparece a fase seguinte.
Agora é na própria mente que o aluno deve fixar a
atenção. Observará que a sensação de bem-estar, assim
como a consciência do movimento e a mesma percepção
global do corpo, realizam-se dentro do limite duma idéia,
duma imagem mental, que prefigura o exercício em todas
as fases e aspectos de sua execução. Descobrirá que é esta
imagem ou idéia que se une diretamente a este ou àquele
movimento e a esta ou àquela sensação. Tornar-se-á cons-
ciente da idéia dentro da qual se realiza todo o processo
do exercício. Descobrirá, verá a imagem mental, com a
qual até então estava identificado o próprio estudante.
Não que tenha de formar qualquer idéia; esta já ali, es-
tava desde o momento em que começou o primeiro exer-
cício. Somente terá que descobrir, que ver. Com isso passa
a ser observador de suas próprias idéias. Não se pode
fazer isto com êxito se não se conseguiu plenamente a
fase anterior. Aqui o pensamento como processo não exis-
te, desapareceu completamente. Percebe-se estaticamente
a imagem mental, a idéia. Isso é tudo. Esta é a quarta
fase da atenção. Bastante trabalhosa de alcançar, mas de
alguns efeitos magníficos.
Quando se logra certa facilidade em conseguir este
estado, ao qual se chega, indefectivelmente, com constân-
156 HATHA-YOGA

cia e habilidade, já é possível repetir o mesmo estado


durante o dia, em momentos de descanso da atividade
mental. Pouco a pouco chega a estabilizar-se esta cons-
ciência profunda de observador, na qual já não se está
identificado com as próprias imagens mentais. É o estado
de atenção central no próprio nível mental.
Segue-se ainda outra fase que é mais uma ampliação
da anterior. Dela diremos que, junto com a autoconsciên-
cia frente às idéias, aparece a autoconsciência da energia.
Vive-se diretamente intelecto e vontade como sujeito.
Observar-se-á que, na Parte Prática, dá-se para cada
exercício uma atitude especial da mente com respeito a
alguma idéia ou algum ponto do organismo. Não há con-
tradição com as diversas fases que acabamos de descrever.
Na prática se verá que podem ser feitas, simultaneamente,
ambas as ações mentais. As diversas fases que acabamos
de descrever vêm a ser o pano de fundo sobre o qual pode
manter-se a mente em direção ao ponto ou idéia prescritos.

2. E m o u t r o s Y o g a s — Não é o Hatha-Yoga, como


já dissemos repetidas vezes, o único caminho para chegar
ao estado de integração psicológica e, portanto, também à
atenção central. Os vários Yogas propugnam pelo mesmo
objetivo e variam tão-somente nos meios de atingi-lo.
Como este livro se refere exclusivamente ao Hatha-
-Yoga, não podemos nos estender sobre os outros tipos
de Yoga. Não obstante, permitam-nos fazer uma breve re-
ferência a eles, com o fim de apreciar, sob outros ângulos
de visão, o modo de chegar à atenção central.
No Bhakti-Yoga indiano, o Yoga da devoção, distin-
guem-se duas grandes etapas: a Vaidhi-Bhakti e a Prema-
-Bhakti N a primeira, o iogue adora a Deus mediante o
cumprimento estrito do ritual prescrito nos livros sagra-
dos ( shastras). O amor à Divindade se expressa através
ELEMENTOS FORMAIS DO HATHA-YOGA 157

de uma série de ações externas, estabelecidas previamente,


ao longo de todo o dia. Seu cumprimento exige constante
atenção às formas externas: os instrumentos do ritual e
suais próprias ações junto, está claro, com um constante
oferecimento de tudo isso a Deus.
N a segunda etapa, o amor crescente à Divindade co-
meça a ser vivido diretamente: a meditação e a oração
passam a ser o elemento primordial da vida do iogue.
A atenção se dirige, de modo permanente, a seus senti-
mentos, de maneira que estes e as idéias superficiais ce-
dem lugar a outros mais profundos. O coração e a aten-
ção vão simplificando suas operações, e a atenção vai se
tornando cada vez mais profunda, mais central, até che-
gar o momento em que, purificada toda, a personalidade
de suas identificações com os níveis grosseiros e superfi-
ciais, vive toda a energia psíquica como uma só unidade.
Isto é o que interpreta o iogue por haver alcançado a união
com Deus. Nós nos abstemos aqui de qualquer interpre-
tação filosófica ou religiosa. O que interessa destacar é
o fato de a atenção dar passos definidos para a interiori-
zação, até chegar ao que denominamos atenção central,
de modo bastante parecido ao que descrevemos antes; só
que, neste Yoga, o nível que trabalha preferencialmente
é o afetivo em lugar do físico, como no Hatha-Yoga. Sua
fórmula, pois, é a de atenção-amor. À medida que apro-
funda também o outro.
No Gnana-Yoga, ou Y oga do conhecimento, o elemen-
to fundamental de trabalho são as idéias. É condição pré-
via para o iogue que segue este ensinamento, haver obtido
um completo domínio de sua vida instintiva e passional,
de modo que este Yoga requer quase sempre haver-se se-
guido, até determinado grau de aproveitamento, qualquer
dos outros Yogas que trabalham com níveis mais elemen-
tares até a obtenção do dito domínio. Seguindo uma das
158 H ATH A - Y O GA

classificações tradicionais deste Yoga, o conhecimento po-


de ser de duas espécies: a savishaya e a avischaya, segun-
do se refira às coisas ou a Deus. N a primeira, passa-se da
percepção externa do objeto à percepção da imagem do
objeto, e daí à percepção do conceito, até que se consegue
perceber o aspecto real e ver o aspecto relativo do fenô-
meno de consciência implicado em todo o processo.
N a segunda fase de conhecimento, passa-se da abs-
tração do mundo sensível, asansakti, mediante a prática
sistemática da concentração e meditação, dharana e dhya-
na, para a identificação pura, sem pensamento e sem ob-
jeto, nirvikalpa.

Apesar da excessiva brevidade deste esboço não é di-


fícil verificar como todo o processo consiste numa pro-
gressiva percepção (mediante a atenção) de níveis cada
vez mais interiores da mente, dos quais se consegue a
desidentificação dos mais superficiais, até chegar à per-
cepção de um nível ou de conhecimento indiferenciado,
idêntico à atenção central em sua total realização.
O Raja-Yoga, ou Yoga real, utiliza a percepção dos
mecanismos da atividade mental como meio da realização.
As fases mais específicas do Raja-Yoga são: Prathyahara,
dharana, dhyana e samadhi. No prathyahara, ou isola-
mento da mente, aprende-se a manter a atenção comple-
tamente desperta, longe de todo estímulo de origem sen-
sorial. Para consegui-lo, aconselha-se “observar” (estar
atento a) as imagens que se vão formando de modo auto-
mático na mente de quem quiser impor silêncio a ela.
Quando esta observação ou olhada mental pode manter-
-se de modo ativo, tranqüilo e imóvel, todas as imaginações
cessam de aparecer por si mesmas. Então pode-se iniciar
o dharana ou concentração.
No dharana a atenção se dirige, total e precisamente,
ekagra, a um ponto físico externo ou interno, sensação,
ELEMENTOS FORMAIS DO HATHA-YOGA 159

sentimento ou idéia. Quando esta atenção pode manter-


-se imóvel e ativa, sem forçar nenhum mecanismo mental,
durante alguns instantes, está conseguido o dhyana.

A meditação ou dhyana, não passa duma concentra-


ção anterior prolongada. Não consiste em pensar, mas
em olhar, em estar atento. Esta, atenção prolongada nu-
ma mesma direção tem um extraordinário efeito de pe-
netração subjetiva.
Quando a meditação ou dhyana, podo prolongar-se
durante o tempo suficiente, transforma-se a utomática-
mente no samadhi ou estado do total identificação. Se-
gundo esta identificação se realize com um ou outro nível
da personalidade, tom diferente valor e afetividade ( vi-
tarka, vichara, anada e asmita).
Aqui, mais que em qualquer outro Yoga, vê-se clara-
mente o papel fundamental que desempenha a atenção
para passar para os diversos graus de consciência (que se
vão alcançando.
O Karma-Yoga ou Y oga da ação, é o da vida dedica-
da à atividade exterior mas com total renúncia aos resul-
tados da ação. As diversas fases deste Yoga podem ser
resumidas como segue:
No homem normal a ação é sempre egocêntrica, pois
em todos os momentos procura uma utilidade pessoal. A
princípio é num sentido mais elementar ou material (sen-
sualidade, prazer, comodidade, riqueza, etc.); depois, con-
tinua egocêntrico, porém num sentido mais psicológico
(egoísmo, vaidade, orgulho, autoridade, poder), inclusive
num sentido espiritual (excesso de perfeição, — perfeccio-
nismo — , orgulho espiritual). As primeiras etapas consis-
tirão em ir-se desprendendo dos motivos grosseiros, o que
se fará inevitavelmente com a mudança dos superiores.
N a realidade, esta renúncia é uma permuta a posteriori,
160 HA T H A - Y O GA

porque a finalidade inicial é a inferior, e é somente de-


pois da ação que se renuncia a seu benefício, que se
sacrifica a ganância com a outra finalidade.

Mais adiante, esta renúncia pode ser feita já no mes-


mo momento da ação e abarca toda a espécie de proveito
pessoal, converte-se numa renúncia universal. O grau mais
elevado consistirá em viver a ação como puro impulso es-
piritual, à parte de todo apego a qualquer tipo de resul-
tados da ação. É o cumprimento estrito e espontâneo da
vontade de Deus, tal como a intui o iogue. Para que o Yoga
seja eficiente é necessário que tanto a ação como a renún-
cia cheguem a ser feitas com todo o ímpeto da pessoa e
desde o mais profundo da mente e da vontade.
Geralmente, este Yoga se associa à prática de um ou
vários Yogas: Bhakti, Gnana ou Raja. No transcurso des-
te Yoga pode-se ver como a atenção vai se deslocando dos
níveis instintivo-afetivos mais inferiores aos mais superio-
res e, dentro destes, dos superficiais aos mais profundos,
até que, devido à total abnegação e renúncia (desidentifi-
cação) do eu, o iogue pode perceber e apoiar-se exclusiva-
mente no puro impulso à ação, de origem espiritual.

3. N a v id a d i á r i a — O homem, na civilização ociden-


tal moderna, leva uma vida de atividades, tensões e agi-
tação. Obrigado a rendar 100%, resta-lhe muito pouca
ocasião de cultivar uma existência pessoal, uma vida in-
terior. O homem é obrigado a viver totalmente em função
do nível superficial da sociedade. Submerso no turbilhão
dum dinamismo que ameaça arrastá-lo, vê-se necessitado
de prestar atenção quase simultânea a numerosas maté-
rias e atividades que aumentam perigosamente sua tensão
total. O homem, colocado no meio destes dois pontos
limites: sua resistência vital e a exigência social, se não
logra organizar, com hábil ginástica, um novo ritmo liber-
tador, torna-se irremediavelmente condenado a passar a
ELEMENTOS FORMAIS DO HATHA-YOGA 161

vida toda resistindo, mantendo esta constante corrida con-


tra o relógio, com a perspectiva de que o menor tropeço
poderá ser-lhe fatal.
Não obstante, o homem que encontra, junto à sua
atividade exterior, maneira de poder praticar o Yoga ou
uma disciplina semelhante, que possa ter uma existência
autenticamente religiosa e espiritual, consegue, primeiro,
equilibrar a vida e, depois, chegar ao ponto em que a ati-
vidade se converte em elemento positivo e até necessário,
como expressão externa de sua vida interior e espiritual.
Há também o caso de algumas pessoas de vida ativa
intensíssima que, mesmo sem praticar conscientemente
estas d isciplinas, chegam a alcançar um grau notável de
madureza e profundidade humanas; atingem um estado
que deixa aparentado com a “sabedoria” e “venerabilida-
de”. Sabedoria que nada tem que ver com os conheci-
mentos técnicos, profissionais ou comerciais de qualquer
espécie, mas que está relacionado mais com um conheci-
mento profundo do homem e com o desprendimento de
todo o externo e de todo o relativo.
Certos grandes financistas, comerciantes e capitães
de indústrias, todos eles veteranos de poderosas empresas,
são conhecida ilustração do que afirmamos. Que aconte-
ceu em seus casos? Diz-se serem eles produtos da expe-
riência, pessoas que viveram muito e intensamente. Mas,
em que se constitui, realmente, essa experiência da vida?

Vemos que, de um lado, sem exceção, a vida de tais


pessoas, é caracterizada por um entusiasmo, por uma
energia e por uma vontade extraordinários; de outro lado,
que todas elas tiveram que suportar múltiplas dificulda-
des, fracassos e desenganos. É evidente que, no caso dos
vencedores, a energia e a perseverança ultrapassaram a
resistência representada pelos reveses. Mas outro processo
se realiza paralelamente a esses resultados exteriores.
162 HATHA-YOGA

No princípio de toda vida ativa, o entusiasmo e as


idéias que se utilizam são intensas, mas correspondem, evi-
dentemente, a planos superficiais da personalidade. Dese-
ja-se triunfar, ter êxito, conseguir tal objetivo especial; a
atividade tem um caráter evidente de luta, em que o triun-
fo significa a vitória de alguns estritos valores pessoais.
Os reveses e fracassos constituem a presença duma
negação da idéia alimentada com o intenso desejo, assim
como também a negação de poder satisfazer tal desejo. De
momento, há um a neutralização da imagem mental e dos
sentimentos, com os quais o indivíduo estava identificado.

H aja ou não posterior reação diante do fracasso, o


efeito desta contraposição é que se vive acidentalmente a
não-realidade de tal idéia e de tais desejos. Embora força-
do e temporário, há um desinteresse com relação à referida
imagem mental. É natural que esta situação, repetida
várias vezes, produza simultaneamente progressivo des-
prendimento e um aprofundamento da consciência.
Cada novo esforço exige a atualização de novas ener-
gias, e cada desengano ou fracasso é uma nova renúncia
forçada à imagem e aos dinamismos egocêntricos do eu.
Cada vez vive-se mais a energia da ação e reação, o impul-
so criador, e vê-se melhor a relatividade de toda forma
exterior, tanto das pessoas como das coisas. À medida que
se vai se desenganando (desidentificando) das formas su-
perficiais, vai tomando incremento sua consciência direta
da energia indiferenciada, do impulso vital da alma.

Assim, através de cruenta peregrinação, o homem de


ação vai descobrindo todos os níveis de sua personalidade
e vai se desprendendo de cada um deles. Chega a perce-
ber e a viver, como máxima realidade o seu impulso cria-
dor, uma profunda compreensão da natureza humana, que
é produto da compreensão e renúncia dos conteúdos efê-
meros de si próprio.
C apítu lo IV

V I S Ã O DE CONJUNTO

A PESS OA humana, objetivamente considerada, é a


unidade complexa formada pelo eu espiritual, prin-
cípio vital, intelectivo e volitivo, e pelo conjunto de es-
truturas materiais, nas quais e mediante as quais, esse
eu se expressa.
Subjetivamente, o homem é uma unidade funcional de
consciência que pensa, sente, quer e age. este viver do
homem se faz em três sentidos ou direções: dentro de si
mesmo, em relação com o mundo e em relação com Deus.
Sendo o eu espiritual idêntico em todos os casos, é
evidente que o valor qualitativo de uma pessoa dependerá
praticamente dos outros dois fatores: qualidade das estru-
turas materiais e modo de pensar, sentir, querer e agir.
A qualidade do corpo e seu estado de saúde, que de-
pendem particularmente do funcionamento correto das
glândulas endócrinas e das estruturas do sistema nervoso,
delimitam a capacidade de atualização, de desenvolvimen-
to e de expressão dos valores superiores do espírito.
Mas, por sua vez, o corpo pode ser grandemente in-
fluenciado pela ação inteligente da mente e da vontade.
Quanto mais sãs sejam as estruturas materiais, ocor-
rerá que:
164 HATHA-YOGA

a ) O corpo gozará de maior saúde e vitalidade.


b ) O estado de ânimo será mais positivo, otimista
e disposto.
c) A mente perceberá mais correta e rapidamente.
d) As respostas ou reações, tanto físicas como psí-
quicas, serão mais corretas e adequadas.
e) A consciência refletirá melhor tanto a realidade
material como a espiritual.
O homem, apesar de ser objetivamente espírito e ma-
téria, não vive, subjetivamente, senão relações entre ambas
as realidades. Os atos e estados de consciência são mais
espirituais ou mais materiais, segundo o fator predomi-
nante na relação. A evolução interna do homem consiste
na circunstância do fator espiritual incrementar-se cada
vez mais na consciência, de maneira que, sem negar abso-
lutamente o fator material, mas, pelo contrário, aprovei-
tando ao máximo todas as suas possibilidades, os aspectos
todos da vida estejam conscientemente animados e dirigi-
dos a partir dos níveis superiores da alma humana. Esta
evolução culmina no momento em que o homem se apóia
tão-somente no centro espiritual do seu ser, onde o eu
espiritual tem sua plena realidade, de onde, por um lado,
e mediante um ato livre e consciente, abre-se e entrega-se
a Deus e, por outro lado, vivendo com toda a capacidade
desenvolvida de sua personalidade, expressa-se por com-
pleto no mundo.
Esta evolução da consciência humana atravessa várias
etapas bem definidas. O homem está identificado com
muitos valores meramente superficiais de sua personalida-
de e do mundo. Confunde-se com eles. No momento duma
emoção, crê ser, por completo, essa emoção. Tem uma
idéia e crê ser ele próprio essa idéia. Sente um impulso,
e o mais real para ele é esse impulso. Falta-lhe um eixo
constante da personalidade. Falta-lhe a permanente au-
toconsciência como objeto de todas suas experiências.
VISÃ O DE CONJUNTO 165

Além disso, o homem vive só na superfície de sua per-


sonalidade. Não percebe, não sente, não conhece a maior
parte das riquezas que se encontram cm seu interior. Mas
o fato de ele não a conhecer não quer dizer que ela não
atue, que não influa em sua consciência. Em seu interior
há muita coisa boa e multa coisa prejudicial. Há muita
coisa infantil e multa coisa superior. Mas não pode alcan-
çar o superior enquanto não se desprender do inferior.
E não pode desprender-se do inferior ou elementar se não
o vive, se não é consciente dele diretamente.
Assim, pois, o trabalho do autêntico desenvolvimento
da personalidade tem duplo aspecto: converter em cons-
ciente as identificações, até então inconscientes, da mente,
para logo poder desprender-se delas, e aprender a viver
com o melhor e mais elevado de sua personalidade, pene-
trando cada vez mais nas zonas genuinamente espirituais,
para que a personalidade mantenha correta hierarquia de
valores em sua nova estruturação.
O Hatha-Yoga trata do primeiro aspecto aplicando a
mente sobre o corpo, e conseguindo que as energias ope-
rantes no organismo humano se purifiquem, se intensifi-
quem e circulem livremente. Esta é a ação dos asanas e
do pranayama.
O segundo aspecto ou seja o aprofundamento e ele-
vação da consciência, é conseguido pelo Yoga mediante o
relaxamento e a atenção central.
Mediante os asanas purifica-se, fortalece-se e ativa-se
o funcionamento todo do corpo, e a mente pode captar
novos estados de consciência vegetativa, produto de uma
saúde autenticamente profunda, base sólida para estados
mentais de qualidade superior. Mediante o pranayama e
a respiração profunda aprende-se a regular a consciência,
a circulação da energia física e prânica, conseguindo-se
assim também novas percepções corretas e novos estados
de consciência positivos.
106 HATHA-YOGA

Um a vez conseguido isto, poderíamos dizer que a meta-


de inferior do homem já é uma unidade que funciona de
maneira correta. N a ordem do desenvolvimento da perso-
nalidade cumpriu ela sua missão, consistente em ser ins-
trumento eficiente de impressão e de expressão material
do eu. Na ordem da interiorização já deixa de estorvar,
porque pode ficar de lado tranqüilamente, durante algum
tempo, funcionando de modo automático, e a mente, já
livre de identificações inconscientes com esta realidade
psicovital, pode empreender seu próprio trabalho nos níveis
mais superiores com plena liberdade e eficiência.
Mediante o relaxamento, consegue-se o desprendimen-
to efetivo da mente da metade inferior do homem. Ao
mesmo tempo que consegue para o corpo um perfeito des-
canso e recuperação, a mente liberta o corpo, abstrai-se
das sensações e emoções e pode descobrir novas realidades
elevadas em seu interior. N a realidade, é o único modo de
descobri-las. Para poder colher algo novo há de se aban-
donar o que se havia colhido. O homem aprende assim,
mediante o relaxamento consciente, a aproveitar de ma-
neira notável, os momentos de descanso que antes resul-
tavam praticamente estéreis. Aprende a situar-se à von-
tade num plano superficial ou num plano profundo, e a
passar, com facilidade, de uns para outros. Aprende a
manejar seus próprios mecanismos psíquicos.

Mas, de pouco valeria todo esse trabalho se ao mesmo


tempo não conseguir profunda modificação no funciona-
mento da mente. Aprender a manter plena consciência
em qualquer situação, em qualquer estado, em qualquer
nível. Conseguir um ponto de referência lúcido e está-
vel. este é o verdadeiro segredo, a verdadeira chave que
valoriza todas as demais práticas e exercícios, de qualquer
espécie que sejam. este ponto de referência não pode ser
nenhum pensamento, embora o pensamento possa ajudar
VISÃO D E CONJUNTO 167

até certo ponto a aproximar-se dele. este ponto de refe-


rência, sempre presente e consciente, é a atenção central.
Ter esta atenção central é ser consciente para além de
qualquer fenômeno psíquico ou mental. Sob um ponto de
vista fenomênico, esta atenção poderia denominar-se si-
lêncio mental, mas sob o ponto de vista espiritual deveria
chamar-se o silêncio do eu, pois é o nascimento dum novo
estado, o ponto de partida duma nova fase superior da
vida. Somente quando existe a atenção central pode m a-
nejar-se à vontade, sem necessidade de repressões, a vida
instintiva afetiva e mental, já que, a partir de então,
deixa-se de depender delas.
Vamos descrever, em continuação, os principais exer-
cícios de Hatha-Yoga, que podem ser praticados sem pe-
rigo algum pelo aluno ocidental, desde que goze de per-
feita saúde e siga, com discernimento, as normas e con-
selhos que já foram e continuarão sendo dados ao longo
desta obra. Aqueles cuja saúde não seja muito boa tam-
bém podem praticar Yoga, do qual tirarão grande pro-
veito, mas é conveniente que o façam sob a competente
supervisão dum especialista.
Não é necessário fazer todos os exercícios descritos.
Alguns são fundamentais e não devem ser omitidos em
nenhum programa de Yoga. Outros são auxiliares ou
complementares, pelo que sua escolha fica a cargo do
gosto e da preferência do estudante. Não obstante, no Ca-
pítulo IV daremos algumas orientações neste sentido.
Os efeitos produzidos pelos asanas e pelo pranayama
são múltiplos, tanto sob o aspecto físico como sob o psí-
quico, pelo que insistiremos mais em descrever detalha-
damente a maneira correta de executá-los do que em
pretender ser completos nos resultados. Limitar-nos-emos
aos mais importantes; o aluno irá descobrindo por si
mesmo os demais.
Segunda seção

P R Á T I C A DO H A T H A - Y O G A
C a p ít u l o V

A S A N A S

1. “S u ry a n a m a s k a r ” o u s a u d a ç ã o a o S o l

O S U R Y A N A M A SK A R não é propriamente um exercí-


cio do Hatha-Yoga clássico. N a antiga tradição in-
diana, cumpria ele dupla finalidade ginástica e religiosa,
e era praticado no preciso instante do nascer do sol.

Como o quadro de exercícios que constituem o suryu-


namaskar faz trabalhar todos os músculos, ao mesmo
tempo em que exercita a coluna vertebral, torna-se um
excelente preparo físico para os asanas, já que constitui
um verdadeiro curso abreviado de ginástica, segundo é ela
entendida no Ocidente. Descrevemo-lo aqui, pois, como
útil complemento para as pessoas que, desejando aprovei-
tar as vantagens que assinalamos, querem praticá-lo. (Ve-
ja-se figura 7).
Execução: 1. De pé, com o corpo erguido, pernas
e pés juntos, os músculos da face relaxados e as mãos
juntas diante do peito.
F ig . 7. “Suryanamaskar”, ou saudação ao Sol.
ASA N A S 173

2. Mantendo as mãos juntas, erga os bruços pura


cima, ao mesmo tempo em que vai fazendo uma inspira-
ção lenta e completa.
3. Incline-se para frente, enquanto expira, até co-
locar as mãos no chão.
4. Estique a perna direita para trás, apoiando-se
sobre as mãos e o pé esquerdo. Mantenha a cabeça alta
olhando para a frente. Nesse meio tempo faça uma ins-
piração.
5. Estique agora a perna esquerda também para
trás até que os pés fiquem juntos. Apoiando-se agora nas
mãos e nos pés, eleve o tronco até que o corpo forme um
ângulo reto como se vê na ilustração. Retenha o ar.
6. Dobre os braços e faça descer totalmente o corpo
de modo que a frente, o peito, as palmas, os dedos dos
pés e, muito ligeiramente, os joelhos, se apoiem no chão.
Enquanto durar este movimento, expire.
7. Mantendo os braços e as pernas no mesmo lugar,
levante a cabeça e dobre o tronco para trás, à altura do
quadril. Inspiração.
8. Curve a espádua e empine as nádegas para cima,
como no tempo número 5, retendo o ar.
9. Estenda a perna direita até ficar igual ao tempo
número 4, mas agora é a perna esquerda a que fica esten-
dida. Inspire.
10. Estenda a perna esquerda até ficar com os pés
juntos, e volte à mesma posição do número 3. Expire.
11. Procure voltar à posição iniciai lentamente, fa -
zendo um a nova inspiração, até ficar com todo o corpo
vertical e as mãos juntas acima da cabeça.
12. Baixe as mãos, juntas, até diante do peito.
Expire.
O conjunto de movimentos resulta muito harmônico
além de útil. Pode repetir-se, se se quiser, até dez vezes.
174 HATHA-YOGA

“A S A N A S ” D E D ESCANSO , R E S P IR A Ç Ã O E M E D IT A Ç Ã O

2. “V a j r a s a n a ” OU POSIÇÃO DIAM ANTINA

É esta uma posição de descanso, como também um


passo preliminar do supta-vajrasana, que descreveremos
mais adiante.
E xecução: Ajoelhe-se, procurando fazer que as per-
nas desde os joelhos até os dedos dos pés, toquem no
chão, os dedos voltados para dentro de modo que seus ex-
tremos quase se toquem.
Sente-se lentamente, de maneira que as nádegas se
apoiem sobre o lado interno e as plantas dos pés, e as
coxas sobre a barriga da perna. Conserve o tronco, o
pescoço e a cabeça erguidos. As palmas das mãos devem
descansar naturalmente sobre os joelhos. Respiração com-
pleta e lenta. (V. foto 1)
A t it u d e m e n t a l : Atitude de repouso, de meditação.
D u r a ç ã o : Esta posição, como todas as de descanso e
meditação pode durar o tempo que se deseje.
O b se rv a ç õ e s: A dificuldade deste asana reside no
esforço que devem fazer as articulações dos joelhos e dos
pés. No princípio não se poderá manter muito tempo a
posição sem que estas articulações se ressintam, mas sem
necessidade de forçá-las, elas irão cedendo com a prática.
E f e it o s : Reforça os músculos, articulações e ner-
vos das pernas. Especialmente eficaz nos casos de dores
ciáticas.
Psiquicamente produz estado de calma, serenidade,
predispondo à meditação.

3. “ S u k h a s a n a ” , o u p o s iç ã o f á c il

Como seu nome indica, esta é uma posição muito


fácil, porém, eficaz, que se utiliza para meditar e para fa-
zer exercícios de pranayama.
ASANAS 175

Execução: Sentado no chão com as pernas Juntas e


entendidas. Dobro a perna d ireita o coloque o pé debaixo
da coxa esquerda. Dobre, então, a perna esquerda e colo-
que o pé esquerdo debaixo da coxa d ireita. ( V. foto 2)
Se se preferir, pode-se inverter a ordem das pernas e
dobrar primeiro a perna esquerda. O tronco deve man-
ter- s e, d u r a n te todo o tempo, erguido o natural. As mãos
podem ser c ol oca das c omo no a sana anterior, ou também
junt o à pa r t e i nferior do abdômen, uma palma em cima
da outra. É conveniente que os joelhos fiquem o mais per-
to possível do chã o, porém sem forçá-los (V. fig. 8).

A t it u d e m e n t a l : Atitude de repouso, de meditação.


D u ração : Como a anterior, podendo-se nela perma-
necer o tempo que se deseje.
O b se rv a ç õ e s: Se se mantiver a posição durante o
período suficiente, observar-se-á como os joelhos descem
mais sozinhos, devido ao fato de afrouxar-se a contração
inconsciente da articulação coxo-femural.
176 HATHA-YOGA

E f e it o s : O s efeitos físicos não têm importância.


Psiquicamente, tranqüilidade e descanso.

4. “ S v a s t ik a s a n a ” , o u p o s iç ã o p r ó s p e r a

este asana é uma posição clássica de meditação e


respiração muito apreciada, já que sua execução é muito
fácil e consegue-se muita estabilidade. Em sânscrito,
svastika significa “auspiciuso” , “próspero”, e, segundo pa-
rece, este asana assim se denomina porque nele se cru-
zam as pernas, o que era considerado pelos arianos, como
sinal de bons auspícios.

F IG U R A 9 a

Execução: Sentado no chão, com as pernas juntas


e estendidas. Dobre a perna direita e coloque a planta
do pé junto à coxa esquerda, o calcanhar junto ao nasci-
mento da mesma. Com a mão esquerda erga um pouco os
dedos do pé direito. Simultaneamente dobre a perna es-
ASANAS 177

querda de maneira que o dedo grande do pé direito sobres-


saia dentre a barriga da perna e a coxa entre as quais está
colocado o pé, e o calcanhar esquerdo fique colocado no
começo da coxa direita de modo análogo ao que se fez
com o calcanhar direito. Os dedos do pé esquerdo se in-
troduzem entre a barriga da perna e a coxa direitas, dei-
xando que apareça somente o dedo grande do pé.
Nesta posição, as pernas permanecem cruzadas exa-
tamente pelos tornozelos. Evite toda pressão desagradá-
vel dos ossos. Quando as pernas estão devidamente ajus-

F ig u ra 9b

tadas, resulta uma posição firme e confortável, que pode


ser mantida durante muito tempo sem esforço (V. figu-
ras 9a e 9b).
A titu d e m e n t a l: Atitude de repouso, de meditação.
D uração: O tem po qu e se deseje.
Conserve o tronco erguido, porém na-
O b serv açõ es:
tural. Os braços podem ser relaxados de modo que a
palma de cada mão descanse sobre a barriga da perna
178 HATHA-YOGA

correspondente. Também pode colocar-se de maneira que


as mãos permaneçam junto à parte inferior do abdômen,
a direita sobre a esquerda e as pontas dos polegares jun-
tas. A posição pode iniciar-se, se assim se deseja, dobran-
do-se a perna esquerda ao invés da direita, seguindo-se,
então, a mesma técnica descrita, devidamente adaptada.
Os olhos podem permanecer cerrados ou semicerrados.

E f e it o s : A circulação do sangue permanece sensi-


velmente diminuída nas extremidades inferiores em vir-
tude da contração e pressão de seus músculos flexores,
pelo que toda a região pélvica aumenta sua irrigação.
Tonifica também os nervos coccígeos e sacro.
Tranqüilidade e estabilidade mental. Recolhimento.

5. “ P a d m a s a n a ” , o u a p o s iç ã o d o l ó t u s

O padmasana é a posição clássica mais conhecida e


apreciada para as práticas do pranayama e da meditação.
Ainda que seus efeitos físicos não tenham grande impor-
tância, deve ser aprendida cuidadosamente, inclusive pelas
pessoas que tão-somente se interessam pelo aspecto saúde,
já que constitui a preliminar indispensável de vários
asanas e posição básica para as práticas adiantadas do
pranayama. Atribuem-se a este asana grandes efeitos
psíquicos, mentais e espirituais.

E xecução: Sentado no chão com as pernas juntas


e estendidas. Dobre a perna direita e coloque o pé sobre
a coxa esquerda, o mais perto possível do abdômen, de
modo que a planta do pé fique no ar e o joelho permane-
ça em contato com o solo. Dobre agora a perna esquerda
e coloque o pé sobre a coxa direita, de modo simétrico ao
que foi colocado o outro pé. Mantenha a coluna verte-
bral reta. As mãos podem ser colocadas sobre os joelhos;
uma em cima da outra sobre ambos os calcanhares, ou
ASA N A S 179

com os braços estendidos apoiando o pulso no joelho,


dedos índice e polegar unidos por suas extremidades e os
dedos restantes estendidos (gnana-mudra) (V. fotos 3, 4,
5,6 e 7 ).
A titu d e m e n t a l: Atitude de repouso, de medita-
ção. A atenção deve situar-se no ponto anterior da so-
brancelhas.
O b s e r v a ç õ e s : O importante é chegar a conseguir que
a posição fique totalmente confortável, mesmo quando se
mantenha uma ou duas horas. Para isto é preciso que
exista um bom estado de relaxamento geral, sem menos-
cabo da correção da posição. Quanto mais perto o pé
estiver da virilha, mais fácil será o asana.
A cabeça pode manter-se erguida ou pode inclinar-se
pura frente, apoiando-se o queixo no peito (Jalandhara-
Bandh a ). Os olhos podem manter-se abertos, semicer-
rados ou cerrados completamente, segundo a espécie de
emprego que se der ao asana.
E fe ito s : N a ordem física, seus efeitos limitam-se
a uma maior irrigação nos órgãos da região pélvica, to-
nificando-os e facilitando a absorção das secreções das
gônadas.
Sob o ponto de vista psíquico, seus efeitos são magní-
ficos. Tranqüiliza o estado emocional e a mente. Faci-
lita sobremaneira o recolhimento interior e a elevação do
espírito. Devido ao perfeito equilíbrio de todas as corren-
tes do corpo, neutraliza temporariamente os impulsos fi-
siológicos e permite maior agilidade na atividade psíquica,
mental e espiritual. Esta é a posição ideal para todo tra-
balho sério de meditação.

5 b is . “A r d h a -p a d m a s a n a ” , o u m e ia p o s iç ã o do l ó t u s

Sendo o padmasana, como dissemos, a posição básica


para tantos exercícios, dentro de todas as espécies de Yoga,
180 HATHA-YOGA

é conveniente aprender quanto antes sua prática. Quando,


devido à pouca elasticidade das articulações, ela apresen-
ta dificuldades, é preciso praticar determinados exercícios
que permitam ir vencendo, paulatinamente, tais obstá-
culos. Para isto, descrevemos o ardhapadmasana, que se-
guido com perseverança, cumprirá este objetivo.
Execução: Sentado no chão, com as pernas esten-
didas. Dobre a perna direita e coloque o calcanhar sobre
a coxa esquerda, o mais perto possível da virilha, conser-
vando a perna esquerda estendida. Observar-se-á que o
joelho direito fica um pouco erguido. Não é preciso for-
çá-lo para que toque o chão. Mantenha a posição tal
como a descrevemos até aqui, durante alguns minutos ca-
da dia; o joelho irá descendo sozinho graças ao maior re-
laxamento que se irá obtendo.
Depois faça o mesmo com a perna esquerda, conser-
vando, agora, a perna direita esticada. Acostume-se a
praticar cada dia de um a cinco minutos, alternadamen-
te, com cada perna.

Quando não sentir dor nenhuma nesta prática pre-


liminar, então deve ir acostumando-se a que a perna do-
brada, a partir do joelho, faça um suave movimento de
torsão, de modo que o pé se apoie sobre a coxa, não late-
ralmente sobre o tornozelo, senão sobre a parte superior
do pé, conservando a planta para cima.

Um a vez conseguido isto, pode-se passar a fazer o úl-


timo passo: a partir da posição inicial de sentado no chão
com as pernas estendidas, dobre a perna esquerda e colo-
que o pé debaixo da coxa direita como se fosse executar
o sukhasana e, então, dobre a perna direita e coloque o
pé na virilha esquerda, com a planta para cima, como foi
descrito antes.
Feito isto, mude e faça o mesmo com a outra perna.
Mantenha a espádua erguida.
ASANAS 181

Pratique este exercício duas ou três vezes ao dia, au-


mentando progressivamente a duração, ainda que tenha
que evitar, cuidadosamente, todo esforço excessivo, que
provocaria, provavelmente, pequena lesão dos delicados li-
gamentos do joelho e o incapacitaria, durante alguns dias,
para prosseguir nas práticas. Evite também andar muito,
antes e depois de fazer estes exercícios.
Quando conseguir fazer o ardha-padmasana comoda-
mente, com ambas as pernas alternadamente, durante uns
dez minutos, pode já tentar fazer o padmasana completo.

6. “S id d h a s a n a ” , ou p o s iç ã o p e r f e it a

O siddhasana é outra posição preferida para as prá-


ticas de meditação. As pessoas cujas pernas sejam exces-
sivamente grossas ou curtas, acharão muito mais fácil
fazer este asana que o padma.
E x e c u ç ã o : Sentado no chão com as pernas juntas e
estendidas. Dobre a perna direita e coloque o calcanhar
no períneo, exatamente entre o ânus e os testículos. A
planta do pé tem que ficar tocando o lado interno da coxa
esquerda. Dobre agora a perna esquerda e coloque o cal-
canhar no osso pubiano, exatamente acima do começo do
pênis e de modo que a borda inferior do pé se introduza
entre a coxa e a barriga da perna direita.
Como o pé direito estava como que na mesma altura
da coxa esquerda, ao dobrar o joelho esquerdo para colo-
car a perna, como foi dito antes, o pé direito permanece
seguro também entre a coxa e a barriga da perna es-
querda, à semelhança do pé esquerdo, que permanece en-
tre a coxa e a barriga da perna direita. Forma-se, assim,
uma dupla chave de perna, que dá à postura muita esta-
bilidade e firmeza.
182 HATHA-YOGA

Mantenha a coluna vertebral e r e t a . A cabeça pode


permanecer direita ou inclinada, formando o jalandhara
bandha. As mãos podem ser colocadas também como no
padmasana (V. fotos 2, 8, 9 e 10).
A t it u d e m e n t a l : Atitude de repouso, de meditação.
A atenção deve situar-se no ponto interno das sobran-
celhas.
O b se rv a ç õ e s: Evite causar a mais leve pressão sobre
os testículos, que devem permanecer acomodados entre os
dois calcanhares. Para que o pé que permanece colocado
em cima adote a posição conveniente, é preciso que a
perna faça um movimento de torsão, de maneira que o
calcanhar permaneça mais alto que os dedos.
O exercício pode ser feito também mudando a ordem
das pernas.
Em nenhuma hipótese será conveniente prolongar o
siddhasana mais de uma hora.
E f e it o s : O s efeitos do siddhasana, com ligeiras va-
riações, podem ser considerados análogos aos do pad-
masana.

6 b is . E x e r c íc io s p r e p a r a t ó r io s p a r a o “ s id d h a s a n a ”

O siddhasana, como ficou dito, é considerado como


outro asana escolhido para a prática do pranayama e da
meditação.
Também aqui, à semelhança do que ocorre no pad-
masana, muitas pessoas experimentam grande dificuldade
para fazer a posição diretamente, pelo que é conveniente
fazer, primeiro, outros exercícios preparatórios.
Dois são os exercícios mais aconselháveis para chegar
rapidamente ao siddhasana.
Consiste em aprender a man-
P r im e ir o e x e r c íc io :
ter-se sentado sobre um calcanhar, digamos o direito, con-
ASANAS 183

servando a outra perna, neste caso a esquerda, estendida


no solo. O calcanhar deve estar colocado na região peri-
neal, exatamente entre o ânus e os testículos. Deve-se al-
ternar a prática com a outra perna.
Aumente-se a duração prudentemente. este exercício
é destinado a aumentar a flexibilidade dos joelhos.
S e g u n d o e x e r c íc io : Sentado no solo, dobrem-se la-
teralmente as pernas, de maneira que as plantas dos pés
fiquem juntas. Trata-se agora de conseguir, paulatina-
mente, duas coisas: que os joelhos permaneçam o mais
próximo possível do solo, e que os pés, conservando sem-
pre as plantas unidas, aproximem-se também o máximo
possível do tronco.
Para executar este exercício, é preferível, primeiro,
que os joelhos toquem o solo, o que se conseguirá tão-so-
mente mantendo os pés bastante afastados ainda do tron-
co. Quando os pés, então, não possam aproximar-se mais
sem se erguer os joelhos, incline-se o tronco para frente,
com o que se aumentará a tensão dos tendões e ligamen-
tos articulares e, com a prática, aumentará também sua
elasticidade.
Ao fim de alguns dias, observar-se-á que se poderá
aproximar os pés mais junto do tronco do que antes. As-
sim, combinando-se com paciência os movimentos des-
critos: aproximação dos pés ao tronco, conservação dos
joelhos junto ao solo e ligeira flexão do tronco até o chão,
conseguir-se-a suficiente elasticidade dos músculos e das
articulações para abordar, com êxito seguro, a execução
do siddhasana.

“A S A N A S ” DE AÇÃO FÍSICA E PSÍQUICA

7. “S a r v a n g a s a n a ” , o u POSIÇÃO de todo o corpo

este é um dos asanas fundamentais mais importan-


tes. Convém estudá-lo e praticá-lo cuidadosamente por
184 HATHA-YOGA

causa de seus grandes efeitos benéficos, tanto físicos co-


mo psíquicos.

Execução: Estendido no solo de costas. Os braços


ju n to ao corpo e as palmas das mãos no soalho. Inspire.
Levante, pouco a pouco, as pernas do solo até que
formem um ângulo reto com o tronco. Apoiando-se ago-
ra mais firmemente com as mãos no solo, erga aos poucos
o tronco, conservando mais ou menos o mesmo ângulo
reto formado pelas pernas e o tronco, até que os pés ultra-
passem a linha da cabeça. Apoie-Se agora com os cotove-
los, e, dobrando os antebraços, leve as mãos às costas, na
espádua, para suster o equilíbrio. Ato contínuo erga com-
pletamente o tronco e as pernas, de modo que fiquem em
perfeita linha reta, vertical sobre o solo, formando ângulo
reto com a cabeça. Neste momento dever-se-a retificar a
posição das mãos, aproximando-as das omoplatas para
facilitar melhor a conservação do equilíbrio.

O corpo se apoia no solo pela parte posterior do pes-


coço e a cabeça, pelos ombros e os cotovelos. O queixo
permanece fortemente unido ao extremo superior do es-
terno, como no jalandharabandha.

to d a esta série de movimentos que descrevemos deve


ser feita muito lentamente e sem solução de continuida-
de, formando um todo regular e harmônico. Faça respi-
ração abdominal.

Um a vez conseguida a posição correta, relaxe todos


os músculos que lhe seja possível, sem prejudicar a con-
servação do asana.

Para desfazer a postura, proceda exatamente em sen-


tido inverso. Desça primeiro o tronco suavemente, dobran-
do as pernas para trás (isto é, por cima da cabeça) a fim
de manter estável o centro de gravidade. Estenda os bra-
ASANAS 185

ços sobre o solo para apoiar o peso do corpo no descimento


do tronco. Termine o descimento do tronco conservando as
pernas num quase ângulo reto com ele. E por último bai-
xe , pouco a pouco, as pernas até atingir a posição inicial.

É preciso evitar qualquer movimento brusco no desci-


mento muito mais que na subida, do tronco e das pernas,
O s músculos abdominais, as pernas e os braços são os
pontos da alavanca que permitem manter um movimento
regular e equilibrado. Faça, ato contínuo, um pouco de
relaxamento geral (V. fotos 11, 12 e 13).
Após verificar que a postura está
A t it u d e m e n t a l :
correta, concentre-se no pescoço e na nuca.
D u r a ç ã o : Este exercício deve ser feito uma única vez.
Sua duração poderá ser de um a doze minutos, mas au-
mentando-se muito lentamente a duração, por exemplo
um minuto cada quinze dias. Notar-se-a claramente um
ligeiro mal-estar ou um a sensação de peso nas pernas, que
o avisará discretamente para cessar o exercício. Obedeça
sempre a essas leves indicações de sua mente instintiva.
O bservações: O sarvangasana é considerado, por
muitos professores de Yoga, como o exercício mais eficaz
do repertório iogue. Em sua execução correta é preciso
cuidar que a posição seja efetivamente vertical. Quem
pratica o exercício tem a sensação de estar perfeitamente
vertical, quando, na realidade, não o está. O que mostra
claramente haver se conseguido a postura correta é pre-
clsar-se fazer muito pouco esforço para manter o corpo
nessa posição e experimentar-se profunda sensação de
descanso. Isto se deve ao fato de que, estando o corpo
perfeitamente vertical, o esforço exigido para manter o
equilíbrio é mínimo.
O ângulo reto que a cabeça deve formar com o tron-
co, exige, às vezes, alguns dias de ensaios, mas, no final,
pode ser obtido facilmente. Outro obstáculo que alguns
encontram, a princípio, é que a conservação do pescoço
neste ângulo dificulta-lhes a respiração, provocando rápi-
do congestionamento. Isto também desaparece em poucos
dias, quando se consegue aumentar a flexibilidade das
vértebras do pescoço e, ao mesmo tempo, diminui a ten-
são muscular inconsciente.

Durante a permanência deste exercício são muitos os


músculos que podem ser afrouxados. É preciso descobri-los
com perseverança. Como dissemos na parte teórica, este
relaxamento permite aprofundar a atenção e obter os me-
lhores resultados tanto físicos como psíquicos dos asanas.
Quanto à duração do exercício, nunca há de se chegar
à fadiga sob nenhum pretexto. A resistência se desenvol-
ve gradual e progressivamente, com prática perseverante,
suave e inteligente.
E f e i t o s : O sarvangasana é por excelência, o exercí-
cio regenerador de todo o organismo. Devido à posição
vertical e invertida das pernas e do tronco, o sangue ve-
noso corre facilmente para o coração, o que alivia qualquer
congestão venosa das pernas e das visceras abdominais.
Alivia o trabalho normal do coração. Estimula notavel-
mente a atividade da glândula tireóide e outros órgãos
situados na garganta e no tórax. O sistema nervoso sim-
pático fica fortemente estimulado e, por seu intermédio,
todos os órgãos da vida vegetativa por ele enervado.

Outro efeito importante deste asana é facilitar o do-


mínio do impulso sexual, já que favorece a absorção da
secreção intersticial tomando mais vigorosa a vida física
e psíquica da pessoa.
Um a sensação de calma e de poderosa energia invade
todo o psiquismo, até permanecer de maneira permanente,
quando foi conseguido o domínio na execução correta do
sarvangasana. Aumenta, outrossim, e não fracamente, a
vivacidade intelectual, afetiva e motora.
AS A N A S 187

8. “ P a s c h i m o t t a n a s a n a ” , o u p o s iç ã o de e x t e n s ã o
POSTERIOR

Este asana tem por objeto produzir uma extensão de


todos os músculos posteriores do corpo.

Execução: Deitado de costas. Separe lateralmente os


braços do corpo até que permaneçam em linha reta com
ele, mais além da cabeça, enquanto se faz uma inalação
completa. Então, enquanto vai exalando suavemente, erga
o tronco junto com os braços até obrigar à posição senta-
da. Sem parar, continue dobrando o tronco mediante a
contração dos músculos do abdômen até que as mãos to-
quem os pés, dos quais pegará o dedo grande com o índice
da mão correspondente, apoiando-se a frente nos joelhos.
Permaneça nessa posição de três a quinze segundos.
Ato contínuo, e enquanto inspira novamente, levante
a cabeça primeiro e o tronco depois, até voltar à posição
deitada no solo com os braços estendidos além da cabeça.
Exale e volte a colocar os braços ao lado do tronco, como
na posição inicial (V. fotos 15 e 16).

1.ª V a r ia ç ã o : Um a forma mais fácil de fazer este


asana consiste em iniciar o movimento a partir da posição
sentada, ao invés da estendida.

2.ª V a r ia ç ã o : Outra form a ainda mais fácil para


os que não podem fazer bem as formas anteriores, con-
siste em realizar o exercício com apenas uma perna esten-
dida. Para isto dobra-se a perna direita e coloca-se o pé
Junto à coxa esquerda, de maneira que a planta, em toda
sua extensão, fique tocando a parte interna da coxa, o
calcanhar junto ao nascimento da mesma e o lado exter-
no do pé tocando o solo. Faz-se, então, a flexão do tronco
semelhante à segunda forma, até que a cabeça toque o joe-
lho, enquanto com as mãos segura-se o tornozelo esquerdo
para ajudar na flexão do tronco. Repete-se três vezes com
188 HATHA-YOGA

cada perna. Quando esta variação já pode ser feita com


facilidade, é conveniente passar à primeira ou segunda
forma do exercício nas quais este é feito com as duas
pernas juntas (V. foto 14).
A t it u d e m e n t a l : A atenção se localiza ao longo da
coluna vertebral.

D uração: O exercício pode ser feito de três a sete


vezes m as à m e d id a qu e se p ro g rid e em s u a execução, con -
vém ir p ro lo n g a n d o o tem po de p e rm a n ê n c ia d a flexão.

O bservações: Não é necessário esforçar-se demasia-


do para chegar a tocar os joelhos com a cabeça. O impor-
tante é que a flexão do tronco seja corretamente executa-
da, procurando-se não curvar os ombros excessivamente.
Com a prática, a elasticidade aumentará e a cabeça che-
gará aos joelhos sem esforço algum. Não deve dobrá-los,
porém. A flexão precisa ser feita principalmente mediante
a contração dos músculos do abdômen. Procure fazer que
haja continuidade durante todo o movimento, sem brus-
quidão nem violência de qualquer espécie. Quando che-
gar ao ponto de flexão máxima, lembre-se sempre de re-
laxar os músculos que não necessitam estar ativos para
manter a posição; notará serem numerosos. Relaxe-se bem
ao fim de cada exercício.

A contração dos músculos abdominais com-


E f e it o s :
prime as vísceras. Os músculos posteriores dos músculos
são também esticados. Aumenta, pois a flexibilidade des-
tes músculos e a melhor circulação do sangue, provocada,
eleva seu tônus vital. Aumenta a circulação ao longo da
coluna vertebral com grande benefício do tecido nervoso.
A compressão exercida sobre as vísceras abdominais du-
rante o exercício estimula seu funcionamento e, em espe-
cial, a atividade peristáltica dos intestinos. Com efeito,
considera-se este exercício, quando executado corretamen-
te, o melhor remédio contra a constipação intestinal ou
ASANAS 189

prisão de ventre. Os nervos, cuja raiz se origina na ex-


tremidade inferior da coluna e que enervam os órgãos
pélvicos, são esticados e tonificados de maneira bem efe-
tiva, e esses mesmos órgãos (sexuais, reto, bexiga e prós-
tata) são irrigados com mais abundância e comprimidos
do que resultam benefícios. Demonstrou-se que este asana
cura também o lumbago crônico e as dores procedentes
do nervo ciático. Excelente contra a obesidade. Em resu-
mo, este é um dos asanas mais benéficos do elenco iogue,
pelo que não deve faltar em nenhum programa ou plano
de exercícios, por mais abreviado que seja.
Psiquicamente, produz, no abdômen, grande e praze-
rosa sensação de leveza e “limpeza”. Aumenta o domínio
sobre o corpo e a confiança do aluno em si próprio. Se-
gurança, energia e decisão.

9. “A r d h a - b h u j a n g a s a n a ” , o u m e i a p o s iç ã o d a cobra

este asana é preparatório para o bhujangasana


completo.
E x e c u ç ã o : Coloque o joelho direito no solo e a per-
na esquerda, flexionada em ângulo reto, como se fizesse
uma genuflexão. Inspire nesse momento. Expire e, ao
mesmo tempo, transfira o peso do corpo para o pé es-
querdo. Estenda agora a perna direita para trás, abaixan-
do o tronco verticalmente até que as mãos toquem o solo.
Mantenha a coluna vertebral e r e t a . Permaneça nesta po-
sição de três a quinze segundos sem ar. Então, lentamente,
volte à posição inicial.
A t it u d e m e n t a l : Mantenha a atenção na extremi-
dade inferior da coluna vertebral.
D uração: Três vezes em cada perna.
Trate de conseguir a mesma atitude
O bservações:
da figura n.° 10. O ponto de onde se exerce maior tensão
190 HATHA-YOGA

é na extremidade da coluna vertebral: procure não con-


verter esta tensão em excessiva.
E f e it o s : Faz desaparecer os depósitos de gordura da
região glútea. Aumenta a flexibilidade da estrutura mus-
cular, óssea e articular da metade inferior do corpo.In -
crementa o sentido de equilíbrio geral.

10. “B h u j a n g a s a n a ” , o u p o s iç ã o d a c o br a

este asana recebe seu nome devido à semelhança que


assume o corpo com o citado réptil.
E x e c u ç ã o : Estendido no solo, de bruços, coloque as
palmas das mãos no piso por baixo das axilas. Inspire. En-

tão, pouco a pouco, vá erguendo a cabeça e, depois, a


parte superior do tronco, sem apoiar-se propriamente com
as mãos, mas sim fazendo tração com os músculos da espá-
dua. Quando estes músculos não suportarem mais, ajude
Asanas 191

então, com as mãos, para terminar de erguer a metade


superlor do tronco. Procure não erguer ao mesmo tempo
a parte inferior, ou seja, do umbigo para baixo. O impor-
tante não é erguer-se muito, mas curvar bem a coluna ver-
tebral, desde a cabeça até a região lombar. Depois de assim
permanecer uns instantes, expire lentamente ao mesmo
tempo em que aperfeiçoa a postura. Enquanto mantiver
o asana, faça uma respiração superficial (V. foto 17).
Para descer, faça exatamente o processo inverso: inicie
o descenso apoiando-se com as mãos, e quando possa conti-
nuar apenas com o esforço dos músculos da espádua, deixe
de apoiar-se com as mãos. Relaxe-se bem ao terminar.

A t it u d e m e n t a l : A atenção deve estar colocada na


coluna vertebral, sucessivamente em todas as vértebras
que se vão dobrando.

D u r a ç ã o : A retenção do asana pode ser de cinco


seg undos a um minuto. O exercício pode ser repetido de
três a sete vezes.

O b s e r v a ç õ e s : É importante que o movimento de ele-


varão se inicie sem a ajuda das mãos, mas tão-somente
à força de tração dos músculos da espádua, e que a flexão
da coluna seja lenta e progressiva, isto é, passando de
uma a outra vértebra. No momento da flexão máxima,
evite que os pés se separem, como tende a ocorrer sem se
perceber. Ao terminar o exercício, apoie a frente no solo
o notará como isso descansa o pescoço.

E f e it o s : este exercício dá total flexibilidade à colu-


na vertebral e corrige suas deformações, pelo que todo o
sistema nervoso é beneficiado. Estimula fortemente os rins,
facilitando seu trabalho de purificação e de eliminação.
É excelente para todas as vísceras abdominais e para a obe-
sidade, inclusive a de origem endócrina, de modo seguro.
Confiança em si mesmo, domínio neuromuscular.
192 HATHA-YOGA

11. “A r d h a - s h a l a b h a s a n a ” , o u m e i a po s iç ã o
DO GAFANHOTO

Este exercício é preparação para o asana completo


shalab, que virá depois. Como para muitas pessoas o
shalabhasana apresenta grande dificuldade, a prática pré-
via desta forma mais simples, durante algum tempo, será
de utilidade a fim de se poder abordar a posição completa
sem demasiado esforço.
E xecução: Deitado no solo, de bruços. Braços ao
longo do corpo com as palmas das mãos tocando o piso.
Faça uma inspiração completa. Erga, então, a perna di-
reita o quanto possa, mas mantendo-a reta, sem dobrar
os joelhos. Permaneça assim de dois a dez segundos, re-
tendo a respiração. Desça, então lentamente a referida
perna enquanto expira suavemente. Relaxe-se.
Repita o exercício com a outra perna (V. foto 18).
A t it u d e m e n t a l : A aten ção deve estar colo cad a n a
reg iã o coccígea o u extrem id ade in fe rio r da c o lu n a ver-
tebral.
D uração: Repita o exercício de três a sete vezes, al-
ternadamente com cada perna.
O bservações: Evite dobrar os joelhos e também in-
clinar o corpo ao erguer a perna. A eficácia do exercício
depende da correta elevação e do tempo que conseguir
mantê-la, sem esforço excessivo.
E f e it o s : Como este exercício é tão-somente prepa-
ração para o que vem em seguida, não tem importância
descrever aqui os do asana completo, mas em menor in-
tensidade.

12. “ S h a l a b h a s a n a ” , o u p o s iç ã o do g a f a n h o t o

E x e c u ç ã o : Estendido no solo, de bruços. Braços ao


longo do corpo, com as palmas das mãos apoiadas no chão.
A cabeça apoiada sobre o queixo ou sobre a fronte, segundo
ASANAS 193

se prefira. Faça uma inspiração completa e depois, com


vigoroso impulso, levante as pernas sem dobrar os joe-
lhos, mantendo-as o mais alto possível, de dois a dez se-
gundos. O peso do corpo permanece sustentado pela ala-
vanca formada pelo queixo ou a fronte, o tórax e as mãos.
Desça depois lentamente as pernas e expire. Relaxe-se
(V. foto 19).
A t it u d e m e n t a l : Mantenha a atenção nas últimas
vértebras da coluna.
D u r a ç ã o : Repita o exercício de três a sete vezes,
aumentando a duração da permanência das pernas no
alto, à medida que possa ir fazendo-o sem violentar-se
excessivamente.
O bservações: este exercício exige bastante esforço.
É um dos poucos asanasque requer a execução de um
movimento brusco e rápido. Muitas pessoas sentem gran-
de dificuldade para poder erguer as coxas do solo. Neste
caso, devem praticar o ardha-shalabhasana durante algum
tempo. Evite dobrar ou separar as pernas ao elevá-las.
Observará que se colocar as mãos poucos centímetros mais
para cima, o exercício torna-se mais fácil.
E f e it o s : Exerce forte pressão sobre os intestinos e
sobre as vísceras do abdômen, pelo que evita ou corrige
a constipação, tonifica o fígado e os rins. Fortalece os
músculos do abdômen e das regiões lombar e sacra. Esti-
mula grandemente os nervos que têm suas origens na
parte inferior da coluna vertebral. Produz sensação de
agilidade e ligeireza, ao mesmo tempo que aumenta a sen-
sação de vigor e de energia.

13. “D h a n u r a s a n a ” , o u p o s iç ã o do ar c o

Em sânscrito, dhanus significa arco, e o asana recebe


este nome devido à semelhança que apresenta o corpo com
um arco, quando se faz esta posição.
194 HATHA-YOGA

Execução: Deitado sobre o solo, de bruços, com os


braços ao longo do corpo. Dobre as pernas e encolha os
tornozelos. Inspire. Erga o tronco do solo, como no bhu-
jangasana e, ao mesmo tempo, puxe as pernas com as
mãos para erguê-las o mais alto possível, curvando a es-
pádua. Expire. Mantenha a posição durante todo o tempo
que lhe seja confortavelmente possível, fazendo respiração
superficial. Quando sentir fadiga, desfaça pouco a pouco
o asana, relaxando-se uns instantes (V. foto 20).
A t it u d e m e n t a l : Mantenha a atenção nas regiões pél-
vica e sacra.
D u r a ç ã o : Comece fazendo o exercício três vezes. Au-
mente uma vez por semana até chegar ao máximo de
sete vezes.
O bservações: Algumas pessoas acham esta posição
muito fácil de ser feita, enquanto outras têm mais difi-
culdades. O mais difícil é conseguir-se a elevação das
coxas. A princípio o exercício é facilitado quando é feito
com as pernas separadas, mas quando já se tem alguma
prática, convém, que as pernas estejam o mais juntas pos-
sível. Durante a posição, mantenha a cabeça bem alta.
E f e it o s : Exercício muito bom para a coluna ver-
tebral. Mas sua ação mais notável consiste no estímulo
geral das glândulas endócrinas e, particularmente, das
tireóides.
Psicologicamente, aumenta a vivacidade da mente e a
força de caráter.

14. “M a t s y a s a n a ” , o u p o s iç ã o do p e ix e

O matsyasana é o exercício complementar do sarvan-


gasana, pelo que deve ser feito imediatamente após este.
Execução: Sente-se em padmasana. Auxiliando-se
com as mãos e os cotovelos, incline-se para trás até que o
vértice superior da cabeça apoie-se no solo, permanecendo
AS A N A S 195

assim a cabeça dobrada para trás em ângulo reto e toda


a espádua descrevendo um arco. Com as mãos, segure os
pés. Respiração abdominal (V. foto 21).

Desfaça a postura e, estendido no solo, descanse.

A t it u d e m e n t a l : A atenção deve dirigir-se ao ple-


xo solar.
D uração: Aproximadamente a metade do tempo de-
dicado ao sarvangasana.

O bservações: As pessoas que ainda não podem fazer


o padmasana, deverão fazer o ardha-matsyasana ou forma
simplificada, que consiste em iniciar a posição sentado em
sukhasana ao invés de fazê-lo em padmasana. O restante
da postura é igual. As mãos deverão apoiar-se na parte
superior das coxas. Mas logo que se consiga fazer o padma-
sana, faça-se a forma completa do matsyasana (V. fig. 11).

E f e i t o s : Produz um a massagem natural das partes


congestionadas do pescoço e do tórax. Tanto a glândula
tireóide como a paratireóide ficam estimuladas por uma

maior irrigação sangüínea. Os vértices superiores dos pul-


mões recebem suficiente quantidade de ar; estimulam-se
também os nervos cervicais e as glândulas situadas no cé-
rebro. Exerce ação benéfica sobre a coluna vertebral por
sua flexão complementar à executada em outros asanas.
190 HATHA-YOGA

O ar entra livremente e experimenta-se agradável sensa-


ção de descanso.
Devido à ação exercida no plexo solar, este exercício
favorece a tranqüilização emocional e estimula o estado
de confiança em si mesmo.

15. “ PADAHASTASANA” , OU POSIÇÃO DA CEGONHA

O padahastasana é exatamente igual ao paschimotta-


sana, mas executado de pé.
Execução: De pé, com os braços juntos ao corpo.
Erga os braços lentamente, enquanto vai inalando, até
que os braços fiquem em linha reta ao tronco. Mantenha
a posição e a respiração alguns segundos.
Enquanto expira, flexione o tronco mantendo os bra-
ços estendidos até que a cabeça toque os joelhos. Com as
mãos, segure os tornozelos. Mantenha a posição, sem ar,
alguns segundos, de acordo com sua capacidade.
Erga lentamente o tronco, sempre com os braços em
linha reta, enquanto vai inalando, até ficar em linha
vertical. Baixe os braços pouco a pouco, expulsando o
alento (V. fotos 22 e 23).
A t it u d e m e n t a l : A aten ção deve d irigir-se d e n tro
d a fren te, no po n to cen tral dos olhos.

D u r a ç ã o : De três a cinco vezes, ainda que deva ir


prolongando o tempo de permanência em reflexão, sem
respirar, à medida que se vá progredindo na prática des-
tas posturas.
O b s e r v a ç õ e s : Procure fazer com que os joelhos não se
dobrem ao flexionar o tronco. Se contrair o abdômen, a
flexão ficará mais fácil. Se não consegue tocar os joelhos
com a cabeça, não se preocupe: isto será feito com o
devido treino. O importante é que a flexão seja feita man-
AS A N A S 197

tendo-se o tronco o mais reto possível, sem exagerar a


curvatura da espádua. Erga-se pouco a pouco, pois, se
não o fizer assim, poderá sentir tonturas por causa da
mudança demasiado rápida da pressão na cabeça. Não
force muito nem os movimentos, nem as retenções, posto
que isto o faria retroceder mais que adiantar: suavidade
e perseverança são a senha do Yoga.
Exercício excelente para todos os órgãos
E f e it o s :
abdominais, assim como para os nervos e músculos dor-
sais. Constitui excelente remédio para a adiposidade.
Efeitos estimulantes sobre os rins, fígado e pâncreas. Os
órgãos sexuais, como seus nervos, irrigam-se abundante-
mente de sangue, com o que sua atividade ganha mais
vigor. Efeito excelente, merecedor de ser assinalado, é a
estimulação cerebral que produz.
Aumenta a energia psíquica, confiança em si mesmo,
serenidade, claridade mental e otimismo.

16. “S h ir s h a n a ” , o u p o siç ã o sobr e a c a b e ç a

este é um dos asanas fundamentais, considerado pelos


mestres de Y oga como o mais importante. Recomendamos
cuidadoso estudo e execução.
Execução: De joelhos, cruze os dedos das mãos e
apoie os antebraços no solo. Coloque agora a cabeça no
solo, de modo que fique apoiada sobre o vértice superior
e que as mãos entrelaçadas abarquem e se ajustem à
região póstero-superior da mesma, servindo-lhe de supor-
to (V. fig. 12-a e foto 27).
Transferindo, agora, o peso do corpo para a cabeça
o os antebraços que formam o ângulo básico do suporte,
erga os pés do solo, conservando as pernas juntas e dobra-
das, os joelhos tocando ainda o peito. Aprenda a conser-
var assim o equilíbrio. Servir-lhe-a de ajuda lembrar que
198 HATHA-YOGA

os pontos de apoio para elevar os pés e manter o equilíbrio


são os cotovelos, além da cabeça. A muitos principiantes
custará mais que o devido aprender a fazer a postura,
porque, por estranho que pareça, esquecem-se de utili-
zar os cotovelos como ponto de apoio e fazem mil tentati-

FIGURA 12 a

vas para manter o equilíbrio exclusivamente sobre a ca-


beça, conforme se vê claramente nas figuras 12-b e 12-c
da página seguinte.
Quando conseguir manter bem o equilíbrio na forma
descrita, o que não é nada difícil, erga então lentamente
as coxas, conservando os joelhos algo flexionados, e ao
chegar este ângulo, formado pelas pernas, ao ponto mais
alto, estique por completo as pernas, de maneira que todo
o corpo permaneça em perfeita linha vertical sobre o solo
(V. fotos 28, 29, 30 e 31).
A respiração deve ser tranqüila durante todo o pro-
cesso de execução.
O exercício do shirshasana é muito mais fácil de fazer
do que faz supor sua forma espetaculosa. Mas é necessá-
rio que todos os passos que descrevemos e ilustramos com
desenhos e fotos, sejam feitos com muita lentidão, tran-
qüilidade e continuidade.
ASANAS 199

Para desfazer a postura, segue-se exatamente o pro-


cesso inverso do seguido para fazê-la, com a mesma len-
tidão e a mesma suavidade.
P r e c a u ç ã o : Nunca se levante imediatamente após
fazer o shirshasana. A mudança brusca de pressão den-
tro do organismo poderia produzir várias moléstias e
transtornos. Permaneça ajoelhado com a cabeça próxi-
ma ao solo, entre ou sobre as mãos, durante o tempo
suficiente para sentir-se completamente descongestionado.
Ou, então, sem erguer a cabeça do solo, deite-se pouco a

FIGURA 12 b FIGURA. 12 c
200 HATHA-YOGA

pouco, de costas, durante pelo menos, tanto tempo quanto


durou o exercício.
A t it u d e m e n t a l : Mantenha a atenção na região pos-
terior da cabeça.
D uração:A permanência nesta postura pode ser de
cinco segundos nos primeiros ensaios, até alcançar o má-
ximo de doze minutos, aumentando com prudência a du-
ração em um minuto cada quinze dias.
O b s e r v a ç õ e s : Deve-se estar atento ou fazer que al-
guém o comprove, a que a posição do tronco fique ver-
dadeiramente vertical, já que a tendência de alguns prin-
cipiantes é no sentido de curvar a cintura para trás. Isto
impediria um dos melhores efeitos deste exercício, que
é o de conseguir um descanso perfeito. Quando se do-
mina bem a estabilidade do equilíbrio, produz-se um re-
laxamento progressivo da musculatura, já que a posição
perfeitamente vertical não exige esforço algum para a sua
mantença.
Outra precaução que deve ser tomada é a de evitar
que o descenso se faça bruscamente. É preciso manter
um constante domínio muscular da posição e do movimen-
to. A queda violenta, além dos danos próprios do golpe,
anularia completamente os resultados conseguidos duran-
te o asana. Desenvolvendo-se a posição aos poucos, evi-
tar-se-a praticamente todos os perigos de quedas.
Nos dois ou três primeiros dias, é possível que, no
momento da execução, se observe certo congestionamento
na cabeça. Não há motivo para alarme. Tal sensação
desaparecerá com uns segundos de descanso, deixando-se
ser incômoda a poucos dias de prática.
É preciso vigiar para que não seja excedido o tempo
mantido da postura. Notará, primeiramente, um ligeiro
tremor das pernas, e depois, uma crescente sensação incô-
moda de peso, que indicará claramente haver chegado o
ASANAS 201

limite da capacidade. Siga sempre estas indicações des-


de que apareçam e não tente, de maneira alguma, igno-
rá-las ou resistir-lhes.
Nos primeiros dias também é bastante prático fazer
o exercício junto a uma parede, a fim de evitar uma queda
de espáduas, na hipótese de perder o domínio do equilí-
brio. A prática de poucos dias será suficiente para que se
possa comprovar que o exercício não apresenta, realmente,
nenhuma dificuldade séria para sua execução.
Conforme dissemos, este asana é conside-
E f e it o s :
rado pelos mestres de Yoga, como o mais importante do
Hatha-Yoga. Seus efeitos benéficos são numerosíssimos,
tanto no terreno físico como no psíquico. Além do efeito
estimulante sobre todos os órgãos abdominais e suas
funções, que são comuns aos demais asanas invertidos,
aqui a ação se faz sentir de maneira particularmente in-
tensa no cérebro e demais estruturas alojadas no crânio,
todas elas de importância vital, tanto para a vida vege-
tativa como para as faculdades superiores da mente. Se-
gundo a tradição iogue, este exercício facilita também o
desenvolvimento de nossas faculdades psíquicas e intui-
tivas, predispondo o discípulo verdadeiro para uma vida
espiritual mais eficaz.
Com efeito, é do encéfalo e dos demais elementos ner-
vosos alojados no crânio que partem todas as atividades
do indivíduo, tanto as conscientes como as inconscientes,
tanto as do tipo fisiológico, como as psicológicas e as es-
pirituais. Sendo o cérebro o mecanismo de expressão da
mente, é evidente que, segundo seja a qualidade e o modo
de funcionar deste delicado mecanismo, assim será a
qualidade e o modo de funcionar do indivíduo. Melhorar
o funcionamento e a qualidade do cérebro quer dizer, pois,
melhorar a personalidade toda.
Ademais, segundo o testemunho constante de indiví-
duos dotados de genuínas faculdades intuitivas, e segun-
202 HATHA-YOGA

do tende também a comprovar a experimentação cientí-


fica moderna, existem numerosas regiões da mente que
permanecem inativas, em estado latente, aonde parecem
localizar-se muitas faculdades novas e quase desconheci-
das por completo, que são hoje objeto de estudo da para-
psicologia: telepatia, clarividência, premonição, telequine-
sia, etc., além das antigas conhecidas e desenvolvidas pe-
los mestres e adeptos do Yoga. Estas faculdades da men-
te, afirmam os mestres do Yoga, pertencem, por direito
próprio e natural, ao homem e nada têm de misteriosas
nem de sobrenaturais; são tão-somente expressão algo
superior, ao mesmo tempo que testemunho, da natureza
espiritual da alma humana. Subjetivamente, seu desen-
volvimento depende da amplitude e da profundidade em
que funciona a mente e, objetivamente, da melhor quali-
dade e total vitalização dos conteúdos cerebrais.
Mediante o shirshasana, todo o conteúdo do crânio
recebe forte estímulo para seu melhor funcionamento, gra-
ças à abundante quantidade de sangue que, excepcional-
mente, circula em toda a região craniana durante o exer-
cício. Esta revitalização cerebral, à parte os demais estí-
mulos de tipo prânico, mudança de polaridade magnética,
etc., facilita já por si o desenvolvimento, e toma consciên-
cia destes níveis ignorados da mente, além de vigorizar os
que funcionam normalmente.

A hipófise e o correspondente centro sutil ajna, incre-


mentam sua atividade com os conseqüentes efeitos físicos
e psíquicos. Estimula-se também o funcionamento prâni-
co de numerosos centros menores situados na cabeça. O
centro sahasrara, ou “lótus de mil pétalas”, que se rela-
ciona com a glândula pineal, faz sentir também sua pre-
sença progressivamente em forma de uma percepção suave,
mas clara e evidente, de uma realidade grande, imensa,
serena e poderosa, que vive e respira detrás de todas as
ASANAS 203

formas contingentes, limitadas e efêmeras da personali-


dade humana.

Apesar de que tudo quanto vimos dizendo poderá pa-


recer absurdo e fantástico a todo aquele que não haja pra-
ticado pessoalmente e de forma eficiente os exercícios de
Voga, quisemos realçar alguns de seus resultados superio-
res, porque são muitas as pessoas que se afastam do Hatha-
Yoga julgando que seus efeitos são exclusivamente de or-
dem física, pessoas que, se houvessem conhecido melhor a
matéria, teriam podido se beneficiar com suas vantagens.
Resumindo, o shirshasana é um exercício que, quan-
do executado com as devidas disposições internas, produz,
no transcurso do tempo, uma transformação geral da per-
sonalidade em suas diversas fontes: física, psíquica, men-
tal e espiritual.

17. “S im h a s a n a ” , ou p o s iç ã o do le ã o

O simhasana é um exercício vigoroso de extensão em


que intervém um músculo que raramente recebe suficien-
te atenção: a língua. Neste asana imita-se a ferocidade
do leão, pelo que recebeu esse nome (V. fig. 13).
Execução: Sentado em padmasana, siddhasana ou
sobre os calcanhares, com os dedos dos pés dobrados para
dentro, as mãos apoiadas sobre os calcanhares.
Faça uma inspiração completa. Ao dilatar o peito,
sentirá uma sensação de tensão muscular que invade to-
do o corpo. Abra a boca e estenda a língua até o mais
longe possível. Abra completamente os olhos e estire os
braços e os dedos das mãos fortemente. Recolha, então,
a língua para dentro da boca e apoie com força sua ex-
tremidade no paladar. Estire e recolha-a novamente de
cinco a dez vezes. Expire e descanse.
204 HATHA-YOGA

E f e it o s : este exercício reforça os músculos e órgãos


do pescoço, olhos, peito e espinha dorsal. Bom remédio
contra a amidalite nascente. Estimula a secreção salivar.

18. “T r ik o n a s a n a ” , o u p o s iç ã o t r ia n g u l a r

Execução: De pé, com as pernas separadas. Erga


lateralmente os braços até alcançar a posição horizontal,
com as palmas voltadas para cima. Nesse ínterim, faça
uma inspiração completa.
Flexione o tronco lateralmente para a direita, man-
tendo os braços em linha reta, até que os dedos da mão
direita toquem os artelhos do pé direito. Durante esta
flexão, que deve ser lenta, expire. Ao tocar o pé, volte o
rosto para cima. Mantenha esta posição uns segundos.
Volte à posição de levantado, inspirando. Baixe os
braços, expirando.
Faça o mesmo exercício flexionando para a esquerda
(V. fig. 14).
ASANAS 205

A titude m e n t a l : A atenção deve fixar-se na coluna


vertebral, a partir da cintura até a base do crânio.
D uração: O exercício pode ser feito, por ambos os
lados, de duas a cinco vezes.

O bservação: Ao flexionar o tronco procure não do-


brar os joelhos. O movimento não pode ser totalmente
lateral, mas não exagere a inclinação para a frente. M an-
tenha os braços sempre em linha reta. Ainda que, de mo-
206 H ATHA-YOGA

mento, não chegue a tocar o pé com a mão, não se preo-


cupe: o importante é que a flexão da cintura seja feita
corretamente e sem dobrar os joelhos.
E f e it o s : Tonifica os nervos espinhais, dá elasticida-
de às vértebras. Os músculos laterais e dorsais são tam-
bém exercitados. Forte massagem dos rins. Excelente
para eliminar a gordura da cintura.
Aumenta a sensação de liberdade, elasticidade e li-
geireza.

19. “U d d iy a n a - b a n d h a ” , o u c o n t r a ç ã o a b d o m i n a l ,
1.ª VARIAÇÃO

este importante exercício pode ser executado de pé ou


sentado em padmasana. Ainda que estritamente não seja
nenhuma asana, habitualmente é assim considerado devi-
do à sua extraordinária utilidade. Descrevemos aqui sua
forma clássica e daremos, depois, outra forma algo mais
complicada, embora também útil, para a qual esta pri-
meira variação servirá de preparação.
E x e c u ç ã o : De pé, com as pernas separadas e ligei-
ramente dobradas: as mãos apoiadas na parede superior
das coxas; o tronco ligeiramente arqueado, como se mos-
tra na foto n.° 24.
Faça agora uma inspiração completa, e ato contínuo,
mediante uma exalação forçada e rápida, esvazie comple-
tamente os pulmões. Isto pode ser feito de uma só vez ou
mediante várias expirações sucessivas, além duma final,
que será facilitada arqueando-se ligeiramente o tronco e
adiantando-se um pouco a cabeça, para conseguir comple-
ta expulsão de ar. Neste momento contraem-se com força
os músculos do abdômen e ergue-se o diafragma, de m a-
neira que o umbigo fique o mais próximo possível da colu-
na vertebral. Havendo repuxado todos os músculos o mais
possível para dentro e para cima, faz-se uma contração
AS A N A S 207

imitando o gesto de vomitar, com o que as vísceras ten-


dem a subir ainda mais, para o que também é conveniente
apoiar-se convenientemente com as mãos nas coxas.
Produz-se, então, grande cavidade abdominal, que se
estende desde o arco inferior das costelas até o pélvis. Os
músculos posteriores do pescoço ficam também automati-
camente contraídos.
Mantenha esta posição o tempo que seja possível, sem
esforço excessivo. Relaxe, então, instantaneamente, todos
os músculos do abdômen, da espádua e do pescoço. Inale
devagar e, ao expirar, acabe de afrouxar completamente
todos o s músculos abdominais. Faça várias respirações
normais para descansar (V. fotos 24, 25 e 26).
A t it u d e m e n t a l : A a ten ção deve fix a r-s e n a colu n a
vertebral, vé rte bra s dorsais e cervicais e n a re g iã o do b u l-
b o ra qu id ian o.
D uração: De três a sete vezes por sessão.
O b s e r v a ç õ e s : Apesar de parecer difícil, por causa da
explicação, fazer-se este exercício, logo se encontrará, com
um pouco de prática e de atenção, a maneira adequada
de executar os vários gestos que, dada a sua natureza
são difíceis de serem descritos. Não force excessivamente
nenhuma contração, nem prolongue demasiado o tempo
de retenção. Se após afrouxar os músculos, necessita
fazer uma inspiração muito precipitada, isto mostra que
prolongou excessivamente a contração. É muito impor-
tante, um a vez terminado o exercício, relaxar completa-
mente toda a parede abdominal. este exercício deve ser
feito, ainda mais do que os outros, com o estômago
completamente vazio, mas se houver tomado um copo de
água salgada antes de executá-lo, isto ajudará, pois atua-
rá como laxante.
E f e it o s : O con teúdo do intestino se com prim e, a
a ção p eristáltica é e stim u la d a e as m a té ria s a rm a z e n a d a s
208 HATHA-YOGA

nas dobras do cólon são movimentadas. Efeito estimu-


lante dos ramos simpáticos do sistema nervoso vegetativo.
Estimula também as secreções gástricas e o funcionamen-
to do fígado.
Magnífico efeito vitalizador psíquico, eleva o tônus
afetivo e o dinamismo mental.

19. b is . “U d diy a n a -b a n d h a ” , 2.a V a r ia ç ã o

Esta segunda variação do uddiyana-bandha não figu-


ra nos livros clássicos do Hatha-Yoga que pudemos con-
sultar. Mas Theos Bernard, que praticou longamente sob
a direção de peritos gurús na Índia, menciona-a em seus
dois livros dedicados ao Hatha-Yoga. Como a experiência
nos confirmou sua efetiva superioridade sobre a outra
forma do uddiyana, expomo-la aqui como forma mais
elaborada da primeira variação, sobre a qual está basea-
da. Eis sua descrição:
Execução: De pé, com os calcanhares separados
uns quarenta centímetros, tronco e pernas ligeiramente
flexionados, as mãos apoiadas sobre as coxas. O corpo
adota assim uma posição quase de cócoras com a coluna
vertebral descrevendo uma curva.
Acomode-se nesta posição e esvazie os pulmões. Um a
vez expelido todo o ar, faça um a forte contração com os
músculos abdominais, erguendo as vísceras até que se
forme uma grande depressão sob o diafragma, ficando
o umbigo o mais próximo possível da coluna vertebral.
Esta contração produz uma inclinação maior, do tronco
para diante.
Nesta ação há também uma contração dos dois mús-
culos da espádua. Como estes músculos são paralelos e
regulam a coluna vertebral, mantendo-a em seu lugar,
atuam fazendo um movimento para cima e para dentro
ASANAS 209

dos músculos localizados ao longo do abdômen, desde a


união das costelas até o pélvis, provocando uma concavi-
dade. O diafragma ocupa, então, a posição mais elevada
possível, depois de haver sido aspirado até a cavidade
torácica. Para ajudar o esforço muscular, deve o aluno
encurvar-se um pouco mais e pressionar os joelhos com
as mãos, empurrando todo o tronco para cima. Havendo
colocado todos os músculos o mais para dentro e acima
possível, até a coluna vertebral, realiza-se uma ação como
de vomitar, que consiste em comprimir as vísceras abdo-
minais e movê-las para cima.
Até aqui tudo é idêntico à primeira variação. Mas
agora, de súbito, relaxe todo o abdômen. Em seguida
torne a contraí-lo e a soltá-lo. Repita estas contrações
o relaxamentos alternadamente dez vezes seguidas antes
dc tornar a inspirar. Ao final da décima contração, rela-
xe o abdômen, endireite-se e faça uma inalação completa.
Descanse alguns segundos até que a respiração esteja
completamente normal. Isto constitui um a volta de dez
unidades. Quando estiver descansado, esvazie rapidamen-
te os pulmões e tome a repetir as dez contrações.
A t it u d e m e n t a l: A mente deve estar concentrada na
nuca de onde parte toda a ação do uddiyana.
D u ração : Comece com três voltas de cinco u n id a d e s .
Quando puder fazê-lo comodamente, aumente a duração
de cada volta para dez unidades, depois para quinze, para
vinte e para vinte e cinco. Mas efetue o exercício muito
lentamente. Não force nunca nenhum exercício nem
imponha a violência a seu organismo. Se o exercício
causa uma fadiga insólita, diminua o tempo ou a dura-
ção pela metade. As práticas do Yoga são para desen-
volver a fortaleza e isto exige tempo. A medida que o
corpo se habitua, será possível ir aumentando progres-
sivamente o número de contrações. Sem embargo, nunca
210 HATHA-YOGA

sacrifique o vigor da contração pela rapidez, que virá em


seu devido tempo.
Quando puder fazer comodamente três séries de vinte
e cinco contrações, ao que se pode chegar com dois meses
de prática diária e regular, então aumente uma volta ou
série a mais, e outra volta daí a quinze dias. De maneira
que com três meses poderá fazer cinco voltas de vinte
e cinco contrações cada uma, num total de cento e vin-
te e cinco contrações.
Com a prática, e sempre com prudência, poderá ir
aumentando o número de voltas até chegar a dez, com o
que somarão 250 as contrações em cada sessão.
A norma segura para saber que está em condições de
aumentar o número de unidades ou de voltas sem qual-
quer perigo, é sentir-se, ao terminar o exercício, tão tran-
qüilo quanto antes de começar. O número de contrações
em cada volta poderá também ser aumentado paulatina-
mente até chegar a 50 por volta, o que dará um total de
500 contrações por sessão.
Não tenha pressa alguma em aumentar a rapidez nem
o número de voltas. Ao contrário, esforce-se por adquirir
perfeita liberdade numa rapidez e num número de voltas.
O bservações: importante e, ao mesmo tempo, di-
é

fícil dominar o movimento graças ao qual cada contração


é seguida de um súbito relaxamento dos músculos abdo-
minais. Para consegui-lo, é preciso levar em conta que
a contração é o único movimento ativo e que deve ser
feito como um a pancada relativamente seca e instantâ-
nea, da qual se retira a força logo que se golpeia; o rela-
xamento, em troca, é simplesmente o resultado passivo de
afrouxar ou soltar a contração.
Assim, o exercício pode ser definido como um a série
de dez contrações súbitas, embora vigorosas e profundas,
dos músculos do abdômen.
ASANAS 211

este exercício não deve ser feito à noite, já que im-


pediria conciliar o sono. Também é evidente que para
praticá-lo deve ter-se o estômago completamente vazio.
O exercício se complementa com o nauli, que descre-
veremos a seguir. Mas, enquanto não se estiver em con-
dições de realizar o nauli, convém fazer um pouco mais
de relaxamento e de respiração abdominal para equilibrar
a ação do uddiyana.
E f e i t o s : O s mesmos citados na variação anteriormen-
te descrita. Remédio excelente para acabar com a preguiça
intestinal. Todos os órgãos situados na cavidade abdominal
são fortemente estimulados, tanto por efeito de massagem
realizada, como pela ação exercida sobre as ramificações
do sistema neurovegetativo que os enervam.
Psicologicamente, é um dos exercícios mais estimu-
lantes e mais aptos a desenvolver a força de caráter e a
confiança própria.

20. “N a u l i ” o u is o l a m e n t o dos r e t o s a b d o m i n a i s
E SUAS VARIAÇÕES

este exercício é complementar ao uddiyana, e embora


sua execução correta apresente bastante dificuldade, con-
vém dominá-lo bem, já que é considerado um dos mais
importantes do Hatha-Yoga.
Considera-se apto para empreender, com êxito, a prá-
tica do nauli, aquele que se exercitar durante seis meses
na prática do uddiyana-bandha.
Execução: A primeira fase da execução do nauli
consiste exatamente em fazer o uddiyana-bandha em sua
primeira variação, ou seja, mantendo a contração abdo-
minal. As mãos devem ser colocadas com uma ligeira va-
riação: ao invés de serem postas em direção aos joelhos,
deverão ser colocadas um pouco mais acima e na direção
da face interna da coxa.
212 HATHA-YOGA

Após um a rápida e completa expiração, faça uma


contração de todos os músculos da região abdominal, como
no uddiyana. Conservando esta posição, isole os músculos
retos abdominais e empurre-os para frente. A princípio
talvez seja bastante difícil conseguir esta ação indepen-
dente dos referidos músculos centrais. Isto não deve ser
motivo de desânimo; prossiga pacientemente as provas.
Volte a praticar uddiyana e, depois, tente novamente.
este isolamento central dos retos é conhecido com o
nome de madhyama-nauli. Depois de manter a postura
todo o tempo que seja confortavelmente possível, relaxe
os músculos e faça uma vigorosa inspiração (V. fig. 15 a).
“D a k s h in a -n a u li” e “V a m a -n a u li ” : Recebem estes
nomes, respectivamente, o isolamento do reto abdominal
direito ou esquerdo, em separado. Quando se domina com
facilidade o madhyama-nauli, tenta-se empurrar para
frente somente um dos retos abdominais. Para fazê-lo,
junto com a ação da mente e da vontade, inclina-se, ligei-
ramente o corpo para a direita e a mão do mesmo lado
se apoia também, porém com mais força, na coxa, no caso
do dakshina-nauli, e para a esquerda, na hipótese do va-
ma-nauli. Com atenção e perseverança conseguirá fazê-lo
perfeitamente (V . figs. 15-b e 15-c).
Quando se consegue realizar com facilidade estas va-
riações separadamente, passa-se, então, a fazê-las alter-
nando uma com a outra. Enquanto se mantém a con-
tração geral do uddiyana, empurra-se para a frente o reto
direito, relaxa-se e empurra-se, em seguida, o reto esquer-
do, relaxa-se e volta-se a empurrar o direito e assim su-
cessivamente. Com isto, todo o corpo adquire um movi-
mento rítmico ondulatório ou circular e também os dos
músculos abdominais parecem realizar um movimento
circular. Isto é o que se conhece com o nome de nauli-kriya
ou rotação do reto abdominal.
ASANAS 213

Quando não puder mais continuar mantendo o im-


pulso para respirar, relaxe todo o abdômen e faça uma
inspiração vigorosa. Descanse antes de voltar a começar.
Não se deve empreender a prática do nauli-kriya até
que não se domine facilmente o dakshina e o vama. Por
sua vez, estes não devem ser tentados até que não se exe-

cute, com toda a facilidade, o madhyama-nauli. Tudo isto


requer um a prática perseverante de vários meses.
A t it u d e m e n t a l : A atenção deve seguir, cuidadosa-
mente tudo quanto tem que ser feito em cada momento,
já que este exercício é um dos que requerem mais concen-
tração para ser dominado. O ponto básico da atenção deve
ser o bulbo raquidiano.
214 H A T H A - Y OGA

D uração: Começar por três vezes e ir aumentando


uma vez mais por semana, até alcançar o número de sete
vezes por sessão.
E f e it o s : O nauli, juntamente com o uddiyana, são
os melhores exercícios que se conhecem para regular o
funcionamento correto de todo o aparelho digestivo, espe-
cialmente dos intestinos, corrigindo todos seus transtornos
de caráter funcional.

21. “V a k r a s a n a ” , o u p o s iç ã o de to r ç ão

este exercício é fácil preliminar para as pessoas que


não podem ainda fazer o ardha-matsyendrasana, no qual
a torção da coluna vertebral é muito mais pronunciada.
E x e c u ç ã o : Sentado no solo, com as pernas juntas e
estendidas. Dobre a perna direita de modo que a coxa e o
joelho se apoiem fortemente no abdômen e no peito. Erga
depois o pé direito e coloque-o ao lado externo da coxa
esquerda. Estando a coluna vertebral, assim como a ca-
beça, perfeitamente e re ta s , vire-as para a direita tanto
quanto possível. Estenda o braço direito para trás, apoian-
do-se no solo; o braço esquerdo deve ser colocado à frente
do joelho direito, de modo que a pressão da axila esquer-
da mantenha o joelho para trás (V. fig. 16).
Depois de três respirações completas, repita o exercí-
cio, mudando as pernas.
A t it u d e m ental: Fixe a atenção na coluna ver-
tebral.
O bservações: Vigie para que a coluna vertebral se
mantenha e r e t a .
E f e it o s : A torção exercida sobre a coluna vertebral,
produz, juntamente com o bhujangasana e o matsyendra-
sana, ação protetora sobre os rins. Devido ao afluxo de
sangue que provoca sobre as vértebras e sobre os nervos
ASANAS 215

espinhais, ocasiona ação terapêutica e rejuvenescedora


em todo o organismo.

Sob o aspecto psicológico, cria confiança própria, de-


cisão e perseverança.

22. “A r d h a - m a t s y e n d r a s a n a ” , o u to r ç ão d a c o l u n a
VERTEBRAL

este exercício, como o anterior, faz trabalhar a colu-


na vertebral, produzindo-lhe uma torção para ambos os
lados, mas neste, que agora nos ocupa, o efeito é muito
mais forte. Não obstante, o exercício original do iogue
matsyendra é ainda mais difícil, pelo que será descrito
em último lugar. Vejamos agora esta variação.
E xecução : Sentado no solo com as pernas juntas e
estendidas.
Coloque o calcanhar direito debaixo da coxa esquerda.
Continuando, faça passar o pé esquerdo por sobre a coxa
direita e apoie sua planta no solo (V. foto 32).
Gire o ombro direito de modo que o joelho esquerdo
passe por sob a axila esquerda. Estenda o braço esquerdo
216 H A T H A - Y O GA

de maneira que o tríceps se apoie na face interna do joelho


e com a mão, pegue o dedo grande do pé. Fica, assim, a
parte inferior da coluna vertebral em torção, como tam-
bém, mas em menor grau, a região dorsal.
Agora dobre o braço esquerdo e leve-o para trás da
espádua, de modo que, com os dedos desta mão, pegue o
cinto do calção ou de qualquer roupa que estiver usando,
como é mostrado na fotografia. D este modo consegue-se
a torção completa da região dorsal.
Por último, vire o pescoço e a cabeça para a direita
o quanto possível. Com isto, consegue-se a torção da parte
cervical da coluna. to d a a coluna vertebral fica, então,
figurando uma espiral (V. fotos 33 e 34).
Mantenha a postura completa alguns segundos, até
sentir a conveniência de desfazê-la.
Desfaça o asana, repetindo-o pelo outro lado.
A respiração tem que ser forçosamente superficial,
mas procure torná-la regular e tranqüila.
A t it u d e m e n t a l : Mantenha a atenção na coluna
vertebral, o que conseguirá, evidentemente, sem esforço
algum.
D u r a ç ã o : Faça o exercício uma única vez para cada
lado, mas aumentando o tempo de permanência à medida
que lhe seja possível fazê-lo sem violentar-se.
O bservações:Mantenha o tronco o mais e r e to pos-
sível. O exercício apresenta muita dificuldade, principal-
mente no fim do primeiro tempo, para as pessoas gordas
ou que tenham pouca flexibilidade nas articulações. Por
seus notáveis efeitos benéficos, vale a pena o esforço que
se empregue em dominá-lo bem. Não se esqueça de exe-
cutá-lo sempre por ambos os lados.
E f e it o s : É um dos melhores exercícios que existe
para curar os transtornos das vísceras abdominais. Cura
AS A N A S 217

o lumbago e toda espécie de reumatismos musculares da


espádua. Tonifica extraordinariamente todos os nervos
espinhais e os do complexo simpático, provendo-os de
abundante fluxo sangüíneo.
Psiquicamente, aumenta em muito a energia e o
domínio próprio. Produz um sentido de segurança e de
estabilidade.

23. “M atsyendrasana” , ou torção total da

COLUNA VERTEBRAL

este exercício é único pela torção que produz em toda


a coluna vertebral. Sua execução é bastante difícil.
E xecução: Sentado no solo com as pernas juntas e
estendidas.
Coloque o calcanhar direito sob o umbigo. Em se-
guida, dobre a perna esquerda, erguendo o joelho e colo-
cando o pé no lado externo do joelho direito, apoiada a
planta no solo (V. fig. 17).
Gire o ombro direito de modo que o joelho esquerdo
passe por debaixo da axila esquerda. Estenda o braço es-
querdo de modo que o tríceps se apoie na face interna do
joelho que está levantado e, com a mão, pegue o dedo
grande do pé esquerdo ou apoie a palma no joelho direito.
Fica, assim, a parte inferior da coluna vertebral em torção,
como também, embora em menor grau, a região dorsal.
Em continuação, dobre o braço esquerdo e leve-o à
espádua, de modo que, com os dedos desta mão, segure
o cinto do calção ou da roupa que estiver usando, como é
indicado na fotografia do ardha-matsyendrasana. D este
modo consegue-se a torção completa da região dorsal.
Por último, gire o pescoço e a cabeça para a direita
o mais que seja possível. Com isto se consegue a torção
da parte cervical da coluna, que fica formando uma espiral.
218 HATHA-YOGA

Como se vê, o matsyendrasana é semelhante à sua


forma mais fácil, exceto na colocação inicial do pé di-
reito, que aqui se coloca no abdômen ao invés de debaixo

da coxa esquerda. Esta simples mudança dificulta mui-


to mais a execução, mas seus efeitos são também muito
mais fortes.
As demais características e observações são as mesmas
que indicamos para o ardha-matsyendrasana.

24. “Y oga - m u d ra ” , o u s í m b o l o do Y o g a ,
l.a, 2.a E 3.a VARIAÇÕES

Existem três formas deste asana, todas muito úteis.


A última é a que oferece mais dificuldade, pelo que se
fará bem em praticá-las por ordem, já que cada uma serve
de preparação para a seguinte.
E xecução: 1.a Variação — Posição inicial parecida
com a do vajrasana descrita anteriormente, porém com os
joelhos e os pés algo separados, e sentado no chão entre
os calcanhares. Os braços nas costas, segurando o pulso
ASANAS 219

direito com a mão esquerda. Inspire lenta e profunda-


mente. Retenha o ar alguns segundos, e depois, expiran-
do, incline-se profundamente para diante até que a fronte
loque o solo. Procure fazer com que as nádegas se ergam
o menos possível do solo ao inclinar-se. Permaneça nesta
posição tanto tempo quanto lhe seja confortavelmente
possível. Depois, endireite-se de novo pouco a pouco, ins-
pirando com suavidade. Termine o exercício com uma
expiração lenta (V. fig. 18a).

2.ª Variação — Sente-se em padmasana. Faça uma


inspiração completa. Ponha os braços na espádua, segu-
randdo o punho direito com a mão esquerda. Enquanto
expira lentamente, incline-se para adiante até que a fron-
te toque o solo. Permaneça assim, sem respirar, o tempo
q u e lhe seja possível. Endireite-se, então, pouco a pouco,
no mesmo tempo que faz um a respiração. Expire e des-
canse (Veja fig. 18b).
3.ª Variação — Sente-se em padmasana. Feche as
mãos de modo que os dedos anular e mínimo rodeiem o
calcanhar correspondente. Desta maneira, ao inclinar o
tronco para diante, os punhos farão pressão na parte in-
220 HATHA-YOGA

ferior do abdômen. Siga, então, o exercício tal como na


2.a variação (V. fotos 35 e 36).
A t it u d e m e n t a l : A atenção deve estar dirigida para
a fronte e entre as sobrancelhas, com uma atitude de sub-
missão e simplicidade.
D uração: Pode-se fazer o exercício de duas a cinco
vezes.
O bservações: No princípio, é possível que não con-
siga tocar o solo com a fronte. Como já dissemos repetidas
vezes, não há porque preocupar-se com isso, já que com
a prática aumentará a elasticidade e o grau suficiente
para completar o exercício.

Massagem intra-abdominal e reforço da re-


E fe ito s :
gião lombar. Remédio magnífico contra a prisão de ven-
tre em todas suas formas. Tonifica as vísceras abdominais
e desenvolve os músculos do abdômen.
Psicologicamente, produz estado de ânimo agradável
e simples.

25. “H alasana”, ou p o s iç ã o do arado

este exercício tem por finalidade aumentar a elastici-


dade dos ligamentos de todas as vértebras da coluna. Devi-
AS A N A S 221

do à semelhança com um arado, que o corpo apresenta,


ao adotar esta posição, deu-se-lhe este nome.
E xecução: Estendido no solo sobre as costas, com os
braços ao longo do corpo, as palmas das mãos para baixo.
Inspire. Erga, então, as pernas, lentamente e sem dobrá-
las. Quando estiverem formando ângulo reto com o tron-
co continue elevando-as, sem parar, junto com o corpo,
apoiando as mãos no solo, com força. Continue dobrando
o corpo para trás até que a ponta dos pés toque o solo por
cima, quer dizer, mais além da cabeça. Permaneça nesta
posição de cinco a quinze segundos, respirando tranqüila
e regularmente.
Dobre a seguir o tronco um pouco mais, de modo que
os pés atinjam maior distância, mantendo sempre as per-
nas retas. Permaneça assim, de cinco a quinze segundos.
Então, se for possível afastar mais os pés da cabeça,
de modo que o corpo se apoie agora sobre as vértebras cer-
vicais. D este modo consegue-se que toda a coluna verte-
braI participe do exercício. Conserve esta posição o tempo
que seja possível, sem fazer esforço excessivo (V. foto 37).
Depois, desfaça a postura suavemente, até voltar à
posição inicial. Relaxe-se.

Variações: — Existe outra forma que consiste em pôr


os braços mais além da cabeça, no solo, no momento em
que as pernas passam por cima dela. Outra variação con-
siste em colocar as mãos atrás do pescoço, ao invés de
colocá-las além da cabeça (V. fotos 38, 39 e 40).

A titu d e m e n t a l: A atenção deve fixar-se, durante


o movimento, na coluna vertebral e, nos momentos está-
ticos, na nuca.

D uração: A d u ra ç ã o to ta l do exercício d ev erá ser de


um a q u a tro m in u tos, evitando-se, em absoluto, d im in u ir
esse tem po.
222 HATHA-YOGA

O bservações:Certas dificuldades de execução deste


asana são evitadas ou corrigidas procurando-se não tor
nar rígidos inutilmente os músculos da garganta e do
tronco. Respire tranqüilamente enquanto estiver nas fases
estáticas. Que todo o exercício se mantenha dentro duma
coesão homogênea, sem brusquidão nem acelerações de
qualquer espécie.

E f e i t o s : Extraordinário e saudável efeito para toda


a coluna vertebral juntamente com a medula e os nume-
rosos centros nervosos que nela existem. Aumenta a irri-
gação sangüínea em todas as vísceras abdominais. Exce-
lente para os transtornos menstruais. Notável estímulo
da circulação sangüínea do cérebro.

26. A A RVOREZINHA

É um exercício preparatório para o vrikasana, ou po-


sição da árvore, que estudaremos depois. Não deixa de ser,
entretanto, por si só, um exercício muito útil e completo.
E x e c u ç ã o : De pé com os braços junto ao corpo. Faça
com que todo o peso do corpo se apoie sobre a perna di-
reita. Erga o pé esquerdo, fazendo-o escorregar ao longo
da perna direita, parte interna, até que o calcanhar che-
gue à extremidade inferior da virilha direita. apoie for-
temente os dedos do pé sobre a parte que se encontra acima
da rótula. Será conveniente a ajuda das mãos para colo-
car o pé nesta posição (V. fig. 19a).
Junte as mãos diante do peito como se estivesse oran-
do. Após alguns segundos, erga-as pouco a pouco, man-
tendo-as unidas. Enquanto faz este movimento, inspire
lentamente, de modo que o seu final coincida com o ponto
de máxima elevação das mãos. Permaneça nesta posição
uns instantes, uns segundos (V. fig. 19b).
ASANAS 223

Agora, sem mover os braços, flexione o tronco para


frente, ao mesmo tempo em que expira, até que as mãos
toquem o solo. Permaneça nesta posição um momento,
durante breves segundos (V. fig. 19c).
Pouco a pouco, erga o tronco e volte à posição ante-
rior, com os braços igualmente retos e as palmas juntas.

FIGURA 19 a FIGURA 19 b
224 HATHA-YOGA

Enquanto isso, inspire. Desça os braços e coloque as mãos


novamente à frente do peito, conservando sempre as pal-
mas juntas. Expire e faça o pé esquerdo voltar à posição
inicial. Descanse.
Repita seguidamente o exercício com a outra perna,
do mesmo modo.
A t it u d e m e n t a l : A atenção deve fixar-se no abdô-
men, enquanto se faz a flexão, e na nuca, quando se está
em posição levantada, o que facilitará, segundo é fácil
comprovar, a mantença do equilíbrio, tal como se deseja.
Faça o exercício uma única vez sobre cada
D u ração :
perna. À medida que progredir n a prática, deverá fazer o
exercício com mais lentidão.
O bservações: é possível que, no princípio, sinta-se
alguma dificuldade em manter o equilíbrio, mas se o
exercício é executado lentamente, com poucas tentativas
superará a dificuldade. Faça os movimentos sem brus-
quidão ao passar de um para o outro. Não faça esforços
ASANAS 225

desnecessários: vá afrouxando os músculos que não in-


tervém no asana.
E f e it o s : Trabalho da articulação coxo-femural, do
nervo ciático, dos músculos da barriga da perna e dos
abdominais. Estimula o trabalho dos rins e, pela massa-
gem das vísceras do abdômen, favorece os processos de
digestão e de eliminação dos alimentos, assim como tam-
bém o desaparecimento da gordura abdominal.
Efeito notável de domínio sobre o sistema nervoso.
Segurança e tranqüilidade.

27. “V r i k s a s a n a ” , o u p o s iç ã o d a árvore

Esta posição possui várias formas de execução. Ha-


vendo descrito já uma das relativamente fáceis, passare-
mos, agora, a duas variações de maior dificuldade.
Execução: 1.a Variação — De pé, coloque, ajudado
pelas mãos, o pé direito na parte superior da coxa esquer-
da, como se começasse a fazer o padmasana. Junte as
mãos diante do peito, como se estivesse rezando. Após
alguns segundos mantendo o equilíbrio, erga-se lentamen-
te, conservando-as sempre unidas. Enquanto executa este
movimento, faça uma inspiração lenta e profunda, cujo
final tem que coincidir com o instante de máxima eleva-
ção das mãos. Permaneça uns segundos nesta posição.
Dobre agora os braços, pelos cotovelos, para trás, enquan-
to vai exalando, até que as mãos, sempre juntas, toquem
a espádua entre as omoplatas.
Volte à posição anterior, ou seja, com as mãos eleva-
das, e daqui à posição inicial, com as mãos diante do peito.
Durante estes últimos movimentos faça uma respiração
completa.
Incline-se agora para a frente, conservando sempre
o equilíbrio sobre o pé esquerdo, até que as mãos ou os
dedos cheguem ao solo, aos lados do pé. Se for possível,
Figuras 20 a, 20 b e 20 c

pegue o tornozelo ao invés de colocar as mãos no solo.


Permaneça assim uns segundos.
Enquanto se levanta, inspire e volte à posição de antes
de inclinar-se, ou seja com as mãos à frente do peito.
Expire. Suavemente segure o pé direito e volte a perna à
posição inicial. Descanse uns segundos e repita o exercí-
cio com a outra perna.
ASANAS 227

2.ª Variação — Principia-se como na forma anterior,


mas ao colocar os antebraços e mãos na espádua, fica-se
enquanto se faz a flexão do tronco que, se for pos-
sível, deve permitir tocar os joelhos com a cabeça. Um a
ve z incorporado, erguem-se as mãos, volta-se à posição
inicial e baixa-se o pé (V. figs. 20a, b e c).
A titu d e m e n t a l: A mantença do equilíbrio exige
constante atenção durante todo o exercício. Atenção que,
embora leve em conta todos os movimentos que o corpo
vai executando, está principalmente centrada na parte
posterior da cabeça: no cerebelo, bulbo raquidiano e ou-
vido interno.
O bserv açõ es: Todos os movimentos que constituem
o exercício devem ser feitos com muita lentidão e harmo-
nia. O joelho da perna que se mantém dobrada deve
ficar o mais atrás possível, para que o pé não escorregue.
É possível que se sinta bastante dificuldade para fazer
todas as fases do asana sem perder o equilíbrio. Desenvol-
va o por partes, progressivamente.
E f e i t o s : Excelente exercício para aumentar o domí-
nio do sistema nervoso e a elasticidade da coluna verte-
bral. Um dos efeitos surpreendentes deste asana é faci-
litar uma melhor e mais profunda respiração. Exerce
também ação estimulante sobre todos os órgãos situados
na região pélvica.
N a ordem psicológica, aumenta o domínio próprio, a
segurança e o equilíbrio emocional.

28. “ VlPARITA-KARANl” , OU POSIÇÃO PÉLVICA,


1.a E 2.a VARIAÇÕES

Possui este exercício certa semelhança com a execu-


ção exterior do sarvangasana, mas seus efeitos diferem
em intensidade, variando também alguns dos órgãos be-
neficiados.
228 H ATHA-YOG A

E x e c u ç ã o : 1 .ª Variação — Deitado no solo em decúbi-


to dorsal ou seja com a boca para cima, braços ao longo
do corpo e palmas apoiadas no solo. Faça uma inspiração
completa. Erga pouco a pouco as pernas sem dobrá-las,
até que formem um ângulo reto com o tronco. Apoiando-
-se agora com as mãos no solo, erga suavemente o tronco,
conservando mais ou menos o mesmo ângulo reto forma-
do pelas pernas e o tronco, até que os pés ultrapassem a
cabeça. apoie-se, então, com os cotovelos e dobrando os
antebraços, aplique as mãos na região pélvica posterior,
tal como é mostrado na foto n.° 18, para suster o equilíbrio.
Faça respiração abdominal lenta (V. foto 41).

2.a Variação — Faz-se primeiro a forma descrita an-


teriormente com os mesmos detalhes, mas depois, sem
mover o tronco, que continua ligeiramente inclinado, erga
as pernas até que fiquem em perfeita linha vertical sobre
o solo (V. foto 42).
Depois, desfaça lentamente o asana, voltando à posi-
ção inicial. Relaxe-se e descanse uns minutos.
A t it u d e m e n t a l : A atenção deve estar fixada no ab-
dômen e no plexo solar.
D uração: O asana é executado uma única vez.
Pode
começar mantendo-se a posição trinta segundos e ir au-
mentando um minuto cada semana até chegar à duração
máxima de dez minutos.
O b s e r v a ç õ e s : A primeira forma descrita é de muito
fácil execução, mas seus efeitos são notáveis. As pernas
e o tronco devem ficar num ângulo tal que o esforço para
manter a postura seja mínimo. Cada qual deve procurar,
através de tentativas, o ponto exato em que lhe seja mais
fácil manter-se e, uma vez encontrado, não mudá-lo, em
absoluto, enquanto dura a posição.
Um dos pontos mais importantes para que o asana
produza os esplêndidos efeitos que pode apresentar, é
AS AN AS 229

conseguir com que os músculos que não intervém na po-


sição, e que são muitos, vão se relaxando. Quando, em
virtude de estar praticando-o durante um mês, julga que
domina o asana, descobrirá, com surpresa, um belo dia,
que de repente, pode afrouxar um pouco mais a muscula-
tura profunda, o que revela novas e pequenas contrações
que haviam passado despercebidas e, com isso, a posição
assumirá aspecto e “sabor” completamente novos. O mes-
m o s e a plica a todos os demais asanas.

A segunda variação é mais difícil de ser mantida que


a primeira, devido a que o centro de gravidade se desloca
até chegar à mesma linha do cotovelo, o que exige muito
mais esforço nos braços para sua manutenção.
EFEITOS: Geralmente os efeitos na região abdominal
são parecidos com os do sarvangasana, embora algo mais
su a ves. A diferença do sarvangasana consiste em que aqui
sedeixa, livre a passagem do sangue através do pescoço,
que, assim, chega à cabeça, como no shirshasana que já
descrevemos no seu lugar, mas também com mais suavi-
dade. Os efeitos são, assim, mais gerais, uniformes e har-
mônicos do que nas demais posturas invertidas, mas tam-
bém algo mais lentos. este exercício alcançou grande
popularidade entre as mulheres, porque, entre outros efei-
tos, suaviza e revitaliza a pele do rosto, pescoço e peito,
suprimindo toda espécie de rugas da face.
incrementa de maneira suave e harmônica o tônus
psíquico da pessoa.

2 9 . " S u p t a -v a j r a s a n a ” , ou p o s iç ã o do sonho d ia m a n t in o

Descreveremos aqui duas variações desta posição.


Posição inicial idêntica à primeira forma
execu çã o :

do Yoga- Mudra: ajoelhado e sentado no solo, entre os


calcanhares, e os joelhos algo separados entre si.
230 HATHA-YOGA

Em continuação, ajudando-se com os braços e os co-


tovelos, arqueie o tronco para trás até que a parte poste-
rior da cabeça toque o solo e, também em continuação, a
espádua. Coloque as mãos na nuca ou debaixo do oco
formado pela curvatura lombar. Respire sem esforço e
conserve a posição todo o tempo que seja confortavelmen-
te possível (V. fotos 44 e 45).
Variação — Outra forma da mesma postura consiste
em iniciar o exercício de joelhos, sem estar sentado; incli-
ne-se, então, para trás, auxiliando-se com os braços e os
cotovelos, até que a parte superior da cabeça toque o
solo, permanecendo todo o tronco formando um arco o
mais perfeito possível. As mãos se apoiam sobre as coxas
(V. foto 43).
A t it u d e m ental : Situe a consciência no plexo solar
e no plexo cardíaco.
O b s e r v a ç õ e s : N a primeira forma notará, a princípio,
excessiva tensão na parte anterior das coxas e nos joelhos.
Não prolongue, pois, demasiado o exercício no começo. Com
a prática sentir-se-a você perfeitamente cômodo nele.
Além dos efeitos indicados no Vajrasana,
E f e it o s :
estimula-se a circulação no plexo solar, com efeito tonifi-
cante geral do estado vegetativo. Estimulante da energia
psíquica, excelente para eliminar as depressões nervosas.

30. “M ayurasana” , ou p o s iç ã o do pavão real

este exercício exige grande esforço muscular e muito


treino antes de se conseguir fazê-lo com propriedade, se
não se está muito habituado aos exercícios ginásticos.
Execução: Ajoelhe-se no solo com os joelhos separa-
dos. apoie as mãos no solo com os dedos voltados para
dentro; sente-se sobre os calcanhares e apoie os cotovelos
no abdômen. Incline-se para frente até que a fronte se
AS A NA S 231

no solo (V . fig. 21 a ). Transfira agora todo o peso


do corpo sobre estes três pontos: os dois cotovelos e a fron-
te. Levante, em continuação, lentamente as pernas e es-
tenda-as para trás. Equilibre o peso do corpo de modo que
possa levantar também a cabeça e sustente-se exclusiva-

FIGURA 21 a

mente sobre as mãos, mantendo o corpo como que numa


prancha horizontal (V . fig. 2 1 b ).
Mantenha a posição durante o tempo que seja possível.
Pa ra desfazê-la, proceda exatamente em sentido inverso e
com lentidão. Nunca se deixe cair de repente.
A t i t u d e m e n t a l : Atenção fixada no abdômen, onde
os cotovelos se apoiam em toda a coluna vertebral.
D u ração : Comece mantendo a posição somente dez
segundos. Aumente progressivamente a duração até che-
g ar ao limite de dois minutos.
E f e i t o s : Devido à grande pressão intra-abdominal
que exerce, esta posição beneficia extraordinariamente to-
dos os órgãos do abdômen. Afirma-se que, além de curar
232 HATHA-YOGA

todos os transtornos do aparelho digestivo, cura a diabete,


devido à ação especial exercida sobre o pâncreas.
Psicologicamente este exercício produz um efeito mui-
to estimulante sobre todo o psiquismo. Compara-se seu
efeito ao produzido por uma descarga de adrenalina.

F i g u r a 21 b

Existem, além das apresentadas, muitas posições com


várias finalidades. Nas fotografias poderão ser apreciadas
algumas delas: o uttida-padmasana, baddha-padmasana,
iogasana, utana-kurmakasana, virasana. Não obstante, a
prática cuidadosa de apenas alguns dos asanas são mais
que suficientes para levar bastante longe o estudante sin-
cero e perseverante (V. fotos 46, 47, 48, 49 e 50). Antes
de escolher e começar a praticar algum asana, leia com
atenção os conselhos dados no Capítulo IV desta s e ç ã o .
C a p ít u l o VI

EXERCÍCIOS PRÁTICOS DE RESPIRAÇÃO


CONSCIENTE E DE PRANAYAMA

E m que c o n s is t e a r e s p ir a ç ã o c o n s c ie n t e

CHAVE da respiração consciente (não dos exercícios


A especiais do pranayama), consiste no seguinte: fa-
zer exatamente o mesmo que a Natureza faz em nós, ao
respirarmos, mas fazendo-o de modo algo mais intenso e,
sobretudo, com plena consciência. Não consiste ela em im-
por exteriormente, mediante nossa vontade, um ritmo novo
à nossa maneira natural de respirar, mas em utilizar o
mesmo ritmo com que respiramos, ampliando-o suavemen-
te, e tomando progressiva consciência desse ato. É um
descobrir, seguir e ampliar nossa respiração natural.
Faz-se a respiração consciente mediante o domínio
direto da mente sobre os músculos ativos respiratórios.
Não consiste em aspirar ar, mas em acionar devidamente
a dita musculatura: diafragma, intercostais, etc. Isto quer
dizer que a mente há de estar na dependência do movimen-
to muscular e não na de fazer entrar ar, sob pressão,
através do nariz, contrariamente ao que sempre se ensi-
234 HATHA-YOGA

nou no Ocidente. A respiração adquire, assim, suavidade


e naturalmente muito características, que bastariam para
situar esta técnica respiratória à frente de qualquer outra
por direito próprio.
Os mesmos exercícios de pranayama, em seu aspecto
fisiológico, não têm outra finalidade senão adestrar o
aparelho respiratório em todos os sentidos, para que possa
chegar a fazer qualquer espécie de movimentos com plena
liberdade e desembaraçá-lo de qualquer tipo de impurezas
e obstruções, até que, afinal, seja capaz de fazer uma
respiração autenticamente sadia, livre, profunda e es-
pontânea. Isto é, o pranayama desempenha uma função
similar à feita pelos asanas com relação ao corpo, também
no aspecto físico.
Devido, porém, ao total paralelismo existente entre
nossas funções fisiológicas e nossas funções psíquicas, é
evidente que, paralelamente a estes efeitos de ordem
material, a respiração consciente produzirá também uma
limpeza, uma vitalização e um aumento geral de todo
nosso psiquismo.
Se um dos efeitos dos asanas era o de integrar a cons-
ciência do nosso corpo com a consciência de nossa vonta-
de, através de determinadas posturas, aqui se produzirá o
mesmo resultado, mas através de progressiva tomada de
consciência e ampliação do movimento respiratório. Com
isto aprendemos a fazer, primeiro, que nossa mente, ca-
minhe uníssona com um de nossos ritmos biológicos mais
importantes; segundo, a regular conscientemente a ener-
gia vital circulante dentro de nossa unidade psicossomáti-
ca, e, terceiro, a descobrir e a expressar, espontaneamente,
novos níveis mais profundos de nossa personalidade.
Nos asanas aprende-se a “estar” para chegar a “ser” ;
na respiração consciente descobre-se o modo de “atuar”
que a vida emprega em nós, para chegar a conseguir a
EXERCÍCIOS PRÁTICOS DE... 235

expressão espontânea e total de nossa vida através do nos-


so próprio atuar.
Nos asanas aprende-se a desfazer as contrações in-
conscientes que nos impedem de adotar uma atitude — in-
terna e externa — correta; na respiração consciente se
aprende a se expressar sem interferências, de modo livre e
natural. Os asanas são o aspecto estático do nosso desen-
volvimento; a respiração é o aspecto dinâmico. Ambos
constituem o suporte biológico, a prefiguração de nossa es-
trutura psíquica, mas também são ambos, ao mesmo tem-
po, e expressão física do nosso modo de ser e de fazer.
A integração da mente com o corpo através dos asanas
nos proporciona uma correta atitude mental. A mesma
integração, através da respiração, permite-nos manter uma
e la atividade mental.
Os asanas preparam o corpo para a respiração correta,
mecanicamente: o pranayama faz o mesmo, porém dina-
micamente. Tudo converge harmonicamente no Yoga para
a mesma finalidade; integrar, desenvolver e libertar os
vá rios níveis de nossa personalidade.
Descreveremos, a seguir, as duas formas básicas da
respiração consciente: respiração abdominal e respiração
completa ou integral.
Embora seja certo que a respiração natural consciente
é o término das práticas físicas do pranayama, pelo que
deveria ser descrita depois deste, não menos certo é que,
quanto melhor se pode fazer a respiração consciente, maior
rendimento se obterá dos exercícios do pranayama. Ambas
as respirações se auxiliam e se completam mutuamente.

1. R e s p ir a ç ã o a b d o m in a l

Pode-se fazer de pé, sentado ou deitado, embora as


posições mais favoráveis sejam as duas últimas.
236 HATHA-YOGA

Condição primordial para que seu resultado seja bas


tante rápido, é que a coluna vertebral se mantenha em
perfeita linha reta, seja vertical ou horizontal, segundo
se esteja sentado ou deitado, mas sem que se marque a
curvatura lombar, isto é, de modo que todas as vértebras
dorsais e lombares toquem o solo em que esteja deitado
ou poderiam tocar a parede, se se estivesse sentado (V. as
figuras 22, 23 a e 23 b ) .
Se se estiver deitado, ver-se-a em seguida em que
consiste a posição ideal da coluna ao dobrar as pernas
erguendo os joelhos. Ao fim de um instante, logo que se
consiga um ligeiro relaxamento geral, ver-se-a como, au-
tomaticamente, começa-se a respirar exclusivamente com
o abdômen. Com a prática, pode-se fazer o mesmo ainda
com as pernas estendidas.

F IG U R A 22

Se se estiver sentado em padmasana ou em siddhasa-


na, a coluna vertebral adota naturalmente esta posição
vertical. Se não se dominam estas posições, podem ser
feitas num assento bem baixo, com as pernas cruzadas e
sentado bem para dentro, de modo que as costas se apoiem
ou possam tocar no espaldar ou na parede. Um par de
almofadões colocados no solo, junto à parede, constituem
um assento muito prático para o principiante.
E xecução : Para iniciar a respiração abdominal: após
uma expiração completa, deixe de respirar voluntariamen-
te durante uns poucos segundos, até que “sinta vir” o
impulso para inspirar. Deixando-se, então, levar por este
EXERCÍCIOS PRÁTICOS DE... 237

impulso, e apoiando-se nele, permita ao diafragma diri-


gir o movimento abdominal pelo qual, dilatando o abdô-
men e a parte inferior dos pulmões, faz que o ar penetre
neles sem esforço. Enquanto se está fazendo este movi-
mento, apoie-se mentalmente nele e amplie-o para fazê-lo
um pouco mais profundo.
Depois de um ou vários segundos de retenção natural,
de acordo com o grau do relaxamento ou descanso que

a j a conseguido alcançar, deixe que o diafragma faça des-


cer as costelas inferiores e, com elas, o abdômen, graças ao
qual o ar sairá suavemente. apoie ligeiramente este mo-
vimento para que a saída do ar seja mais completa.
238 H A TH A -Y O G A

A partir deste momento seguirá o automatismo res-


piratório, sem querer alterá-lo, exceto no suave impulso
amplificador, tal como ficou mencionado antes. Tanto a
inspiração como a expiração têm que ser feitas sempre
através do nariz.
Durante todo o processo, o abdômen é o único que se
move, já que o peito permanece praticamente imóvel. Mas
o movimento do abdômen, repetimos, quando se consegue
fazer o exercício respiratório de maneira correta, não é
feito direta ou ativamente pelo próprio indivíduo (eu
consciente), mas é obra exclusiva do diafragma (mente
instintiva) ao qual o sujeito deve limitar-se a seguir com
atenção em sua ação natural, livre e espontânea. N a rea-
lidade, não é o indivíduo que faz o exercício de respiração,
mas é a vida que respira nele, limitando-se ele a permitir,
observar e seguir, com toda a atenção, o processo natural
de respirar que se realiza em seu interior.
Se o estudante pudesse observar alguém dormindo
profundamente, teria o melhor exemplo vivo duma respi-
ração abdominal tecnicamente perfeita, embora incons-
ciente. Esta mesma respiração, mas seguida com plena
consciência, é aqui a respiração abdominal perfeita.
Ter-se-á imediato sinal de que se executa correta-
mente a respiração quando se sentir especial sensação de
descanso, ligeireza e liberdade, completamente novas e
impossíveis de se conseguir enquanto não se domine bem
toda a técnica de execução.
A titu d e m e n t a l: N o começo da prática, a atenção
deve estar fixada, sem tensão, no bulbo raquidiano e nas
terceira, quarta e quinta vértebras cervicais, aproximada-
mente, antes de iniciar a inspiração. E no diafragma en-
quanto durar todo o movimento respiratório.
Quando dominar bem ou não interferir o automatismo
respiratório, situe a mente, sempre perfeitamente desper­
EXERCÍCIOS PRÁTICOS DE... 239

ta centrada no ponto médio mais ou menos entre os ou-


vidos, dentro da cabeça.
N ão faça nunca a menor violência com a mente: o
que não conseguir agora, será conseguido em seu devido
tempo, se perseverar com inteligência.
D uração A duração da respiração abdominal pode
:
ser de várias horas sem inconvenientes. M as como des-
canso geral, de meia a um a hora completa é uma duração
mais que suficiente.
e f e it o s : Seus efeitos são numerosíssimos, porém, po-
demos resumi-los da maneira seguinte:
Descanso geral de toda a atividade vegetativa de tipo
simpático e ligeira estimulação da de tipo vago. Repouso
total e recuperação do sistema nervoso central e de suas
funções. Tranqüilização emocional completa.
Detém automaticamente a tendência da mente a es-
pecular e a divagar. É o exercício que conduz, de manei-
ra toda natural, ao relaxamento profundo e à tranqüili-
zação mental.
O bservações: A rapidez em conseguir o êxito na res-
piração abdominal depende principalmente de três fato-
res: da correção da postura, do estado de relaxamento e
da adequada atitude mental.
Em realidade, é aplicável aqui tudo quanto temos
dito das diferentes fases do relaxamento geral consciente,
já que a respiração abdominal é a contraparte respirató-
ria deste estado.

Se, devido a contrações inconscientes, for impossível


seguir o ritmo natural de sua respiração por sentir-se ini-
bido de prestar-lhe atenção, não se preocupe nem se vio-
lente. Continue na mesma posição e deixe que a mente
se dirija tranqüilamente até um objeto qualquer. Ato con-
tínuo, a respiração restabelecerá seu ritmo automático.
240 HATHA-YOGA

Com muita suavidade, então, como quem não quer a coisa,


tente percebê-la, senti-la e segui-la. Ao fim de alguns en-
saios consegui-lo-a plenamente.
A p l ic a ç õ e s : A respiração abdominal é a respiração
do descanso. Por conseguinte, deve ser praticada nos se-
guintes casos:
Para praticar o relaxamento físico, seja total ou
parcial.
Para poder dormir à vontade.
Para afrouxar as tensões emocionais.
Para descansar a mente.
Para praticar a meditação contemplativa.

2. R e s p ir a ç ã o com pleta ou in t e g r a l

A respiração completa é a combinação dos três tipos


de respiração: abdominal, média e clavicular.
Esta respiração é chamada completa porque nela:
a) Intervém todo o aparelho respiratório.
b) Enchem-se de ar os pulmões, de acordo com a sua
verdadeira capacidade.
c) Seu efeito atinge a todos os órgãos e funções do
organismo.
d) Participam de sua execução tanto o aspecto pre-
dominantemente passivo automático, inconsciente (respi-
ração abdominal), como o aspecto predominantemente
ativo, voluntário, consciente (respiração média e clavicu-
la r), do nosso psiquismo.
e) Expressam-se todos os níveis da personalidade.
Também aqui, todo o processo respiratório deve ser
feito consciente e ativamente, mediante a regulação ou
domínio da ação dos músculos respiratórios. N a primeira
fase da inspiração, é o diafragm a que deve atuar cons-
EXERCÍCIOS PRÁTICOS DE... 241

cientemente e, na segunda fase desta mesma inspiração,


são os diversos músculos elevadores das costelas.
É sempre o movimento respiratório que a mente tem
que seguir e dirigir e não o ar que se inspira, nem a pres-
são intrapulmonar resultante.
É aqui onde mais exageros se cometeram no Ocidente.
Ensinou-se, repetidas vezes, que o importante é a quanti-
dade do ar que entra nos pulmões e isto, aceito assim sem
mais, produziu verdadeiros abusos fisiológicos. Habitua-
ram-nos a inspirar com força todo o ar possível, todo que
" caiba” dentro dos pulmões, submetendo esses órgãos a
pressões excessivas além de alterar a regulação automática
do equilíbrio biológico estabelecido pelas leis de nossa na-
tureza. Depois expulsa-se o ar bruscamente, “soprando-o”
pela boca. A característica da ginástica respiratória oci-
dental parece ser o esforço, a violência. Não é de se estra-
nhar, pois, que às vezes se produzam resultados prejudi-
ciais como conseqüência desse errôneo tipo de cultura fí-
sica: alterações neurovegetativas diversas; desequilíbrio
ácido-base do organismo; transtorno do metabolismo da
água, das gorduras, do calor; enfisema, etc.
Como se pode verificar através de tudo quanto temos
dito até agora, a concepção da respiração no Yoga é com-
pletamente diferente. Sem desconhecer a eficácia even-
tual de certos exercícios de esforço (veja-se, por exemplo, o
bhastrika no pranayama) a norma de todo exercício é a
suavidade, o aumento progressivo do esforço e, sobretudo,
a constante assistência da mente bem desperta e vigilante,
que é a que dirige todo o processo.
A verdadeira respiração profunda não é a que tenta
chegar até muito ao fundo à força de pressão, mas a que
se inicia, se desenvolve e se completa conscientemente, a
partir do mais profundo da mente e da estrutura nervosa
vegetativa. A respiração profunda não vai para, mas vem
242 HATHA-YOGA

do profundo. Respirar profundamente não é penetrar


muito ar, mas expressar um impulso profundo. O ato
de respirar é um impulso centrífugo do sistema nervo-
so; a entrada do ar é tão-somente uma conseqüência, um
efeito passivo.
A consciência deve descobrir o impulso nervoso e se-
gui-lo no seu idêntico sentido e não limitar-se a perceber
somente o ar, que não significa aqui senão o aspecto ma-
terial da respiração.
No momento de inspirar acontecem dois fatos simul-
tâneos: de um lado, do centro inspiratório situado no bul-
bo raquidiano e como conseqüência de diversos estímulos,
surge o impulso nervoso que, transmitido pelo nervo frê-
nico, impulsiona o descenso do músculo diafragmático,
com a conseqüente dilatação do abdômen e da parte infe-
rior da caixa torácica; segue, depois, um movimento de
elevação das costelas, conseqüência da ação de diversos
músculos (intercostais, abdominais, escapulares, dorsais)
que aumenta o volume da parte média e superior dos
pulmões.
De outro lado, e simultaneamente com a ação mus-
cular citada, devido à pressão do vazio criada pelo aumen-
to de volume da caixa torácica, o ar é atraído para seu
interior, até encher a capacidade total pulmonar.
Pois bem, sob o ponto de vista iogue, o mais impor-
tante é tomar consciência do fato mencionado em primei-
ro lugar. Não tanto no sentido de tomar consciência
duma função fisiológica, mas especialmente no sentido
de sincronizar a mente consciente com este movimento.
É a unificação do movimento ou atividade da mente e da
respiração natural.

Vimos insistindo tão reiteradamente sobre este pon-


to, não somente para destacar sua importância, mas tam-
bém para contrair o ensinamento que nos foi dado no
EXERCÍCIOS PRÁTICOS D E... 243

Ocidente a respeito da respiração profunda. A experiência


demonstrou-nos a extraordinária importância disto que
parece um pequeno detalhe de interpretação. Com efeito,
os resultados conseguidos com a respiração consciente, tal
como a aconselhamos, têm-se mostrado excelentes, parti-
cularmente sob o ponto de vista psicológico.
O traço característico da respiração completa é ser
composto de duas fases muito claramente distintas quan-
to ao seu modo de execução. A primeira fase é constituída
pela inspiração abdominal e, tal como dissemos em seu
devido lugar, nela predomina o impulso automático, e a
mente-vontade somente trata de descobrir, seguir e apoiar
este impulso inspiratório que se manifesta no movimento
do diafragma. A segunda fase, que segue a primeira sem
solução de continuidade, consiste na expansão e elevação
das costelas, movimento que é mais consciente e que pode
ser dirigido com a vontade.
E x e c u ç ã o : Pode ser feito de pé, sentado ou deitado,
embora as posições mais favoráveis sejam as duas pri-
meiras.
U m a vez que a respiração completa começa com a
respiração abdominal, a posição da coluna vertebral há que
ser a mesma que temos indicado para a referida respira-
ção. Se o exercício é feito de pé, é conveniente que, ao
esperar o impulso inspiratório, se procure evitar a curva-
tura lombar, para o que é útil inclinar-se para a frente
muito ligeiramente. No momento em que o diafragma des-
ce, ou seja à medida que se inala pelo abdômen, é preciso
recuperar a posição bem erguida, na qual se prossegue o
movimento inspiratório até o fim. Vejamos o processo:
Após uma expiração completa, deixe de respirar vo-
luntariamente durante uns poucos segundos, até que “sin-
ta vir” o impulso para inspirar. Então, deixando-se levar
por este impulso e apoiando-se nele, permita ao diafragma
244 HATHA - Y OGA

dirigir o movimento abdominal, pelo que, dilatando o ab-


dômen e a parte inferior dos pulmões, consegue-se que o
ar penetre neles sem esforço algum. Enquanto estiver fa-
zendo este exercício, apoie-se mentalmente nele e amplie-o
para fazê-lo mais profundamente.
Em continuação, e sem interromper a entrada do ar,
vergue-se completamente e eleve as costelas inferiores e a
parte média do tórax, de maneira que o ar penetre agora
suavemente na parte média dos pulmões. Ato contínuo,
erga a parte alta do peito a fim de que o ar penetre in-
clusive nos vértices pulmonares. Para fazer este último, é
prático fazer um pequeno gesto de rotação com os ombros,
puxando-os para cima e para trás, com o que se facilita
o acesso do ar à parte mais alta dos pulmões. No momento
de fazer este gesto, contraia ligeiramente o abdômen, com
o que o ar será empurrado também para cima.
Todos esses movimentos precisam ser feitos de manei-
ra continuada, um após o outro, formando uma única uni-
dade, sem forçar nem violentar nada, em nenhum momen-
to. O movimento há de resultar uniforme, suave e natural.
Retenha o ar de um a cinco segundos e, ato contínuo,
inicie a expiração. Comece afrouxando a tensão da parte
alta do aparelho respiratório, continue com a parte média
do mesmo e termine com um relaxamento abdominal
completo. O ar deve fluir sempre pelo nariz, de um modo
regular, suave e uniforme.
Ter-se-á imediato sinal de que se executa corretamen-
te a respiração quando se sentir especial sensação de ple-
nitude e satisfação, que é possível já tenha experimentado
alguma vez espontaneamente, ao respirar profundamente
sem procurá-lo nem saber de que maneira o fez. Tem-se,
então, a impressão de que o ar enche não somente o peito,
mas também as costas.
EXERCÍCIOS PRÁTICOS DE... 245

A t it u d e m e n t a l : Enquanto não se domine perfeita-


mente a técnica de execução, é conveniente que a aten-
ção siga com cuidado todos os movimentos do aparelho
respiratório a fim de ir regulando-os. Quando as diferen-
tes fases da execução não oferecerem mais dificuldade
alguma, então a mente, embora por um lado siga todo
o processo respiratório, por outro se centraliza na parte
posterior da cabeça.
O movimento respiratório é acompanhado das se-
guintes imagens mentais. Ao inspirar, imagina-se que a
energia prânica contida no ar, em forma de pontinhos bri-
lhantes, penetra no organismo para vitalizá-lo física, psí-
quica e mentalmente. Enquanto dura a retenção do ar,
forma-se a imagem de que a energia prânica se fixa e se
assimila profundamente, removendo todas as impurezas
que existem no interior. Ao expirar, imagina-se que todas
as impurezas físicas, psíquicas e mentais são expulsas ao
mesmo tempo com o ar viciado, deixando o indivíduo com-
pletamente limpo, são e forte em todos os aspectos.
D uração: A respiração completa pode ser feita de
três a dez vezes numa única sessão, embora começando o
primeiro dia somente com três respirações e aumentan-
do-se uma respiração por sessão cada dia.
Podem ser feitas três sessões diárias, cada uma um
pouco antes das três refeições principais do dia.
E f e it o s : Relacionados sucintamente são os seguintes:
1. Desenvolvimento completo de todos os elementos
do aparelho respiratório e aumento de sua fortaleza e
elasticidade.
2. Estimula suavemente o trabalho cardíaco.
3. Graças à massagem produzida pelo movimento
alternado de elevação e descenso do diafragma, e à al-
ternada contração e relaxamento dos músculos abdomi-
246 HATHA-YOGA

nais, recebem um estímulo definido e têm seu funciona-


mento melhorado: estômago, pâncreas, fígado, intestinos,
baço e rins.
4. Aumenta a eliminação do anidrido carbônico e
também a absorção de oxigênio, enriquecendo assim a
qualidade do sangue.
5. Graças à melhor qualidade do sangue, aumenta
a vitalidade de todos os tecidos e órgãos do corpo.
6. Estimula todas as combustões orgânicas.
7. Melhora a qualidade e a resistência do sistema
nervoso em todas as suas divisões.
8. Aumenta o intercâmbio nutritivo das células,
tecidos e órgãos de todo o corpo.
9. Aumenta todas as defesas do corpo e eleva o tô-
nus geral do organismo.
Enfim, seu efeito benéfico estende-se a todos os órgãos
e funções do corpo sem exceção.
Psicologicamente, a respiração completa produz o de-
senvolvimento da confiança própria, aumenta a energia
psíquica, estabiliza o estado de ânimo, incrementa o auto-
domínio, proporciona uma atitude aberta, decidida e em-
preendedora, além das restantes qualidades que mencio-
namos detalhadamente na Parte Teórica deste livro.
O b s e r v a ç õ e s : Recomendamos ao estudante a estrita
observância das instruções que vimos dando na técnica
de execução deste exercício e, particularmente, da reco-
mendação de não forçar nem violentar jamais qualquer
movimento.
Prevenimos também o estudante para não exagerar
a duração do exercício, mas ir aumentando a dose de res-
piração profunda com prudência.
Se já sofreu algum transtorno cardíaco ou pulmonar,
abstenha-se de praticar a respiração profunda por sua
EXERCÍCIOS PRÁTICOS DE... 247

conta. Consulte previamente o médico. O mesmo cabe


dizer se sofre atualmente de qualquer doença.
Não queira dominar a forma correta de respirar desde
os primeiros dias. É necessário prática perseverante e pa-
ciente, na qual tenta-se melhorar a técnica diariamente.
Os asanas, o relaxamento e os exercícios de pranayama
ajudá-lo-ão eficazmente para consegui-lo.
Se, após fazer os exercícios, notar que está excitado,
nervoso, com dificuldade para dormir e descansar, isto
significa que se excedeu na duração deste e de outros
exercícios estimulantes. Pratique então uns momentos de
respiração abdominal, fazendo ao mesmo tempo relaxa-
mento, até que se sinta calmo e perfeitamente tranqüilo.
Durante o dia, ser-lhe-á também útil fazer uma ou
duas respirações completas toda a vez que sinta necessi-
dade de aumentar sua tranqüilidade, autodomínio ou con-
fiança própria. Com o tempo fará isto automaticamente
em qualquer momento que o necessite.
Agora, como complemento, descreveremos quatro
exercícios clássicos, nos quais a ação muscular é combi-
nada com a respiração, exercícios esses de grande eficácia
para os efeitos indicados em cada um deles.

3. R e s p ir a ç ã o p u r if ic a d o r a

E x e c u ç ã o : De pé, com as pernas algo separadas e as


mãos entrelaçadas na espádua.
Faça uma inspiração completa. Retenha o ar dentro
dos pulmões durante o dobro de tempo empregado em
inspirar.
Coloque, então, os lábios como se fosse assobiar ou
soprar, mas bem firmes. Expulse o ar, dando dois ou três
sopros muito fortes, como se tentasse apagar uma vela
248 HATHA-YOGA

situada a dois metros de distância, mas sem modificar a


posição dos lábios e evitando insuflar as bochechas. Faça
com que o ar saia do peito completamente, ainda que te-
nha que fazer outras pequenas expulsões adicionais.
Descanse, fazendo respiração normal durante uns
instantes.
Se o desejar, pode fazer o exercício outra vez, mas não
é conveniente fazê-lo mais de duas vezes seguidas.
este exercício é muito eficiente para recuperar ener-
gia quando se está fatigado. Também é muito útil fazê-lo
quando se permaneceu durante muito tempo em lugares
de ar rarefeito, como, por exemplo, espetáculos públicos
em locais fechados, escritórios mal ventilados, etc., já que
elimina rapidamente todas as toxinas acumuladas nos
órgãos respiratórios.
Aumenta as defesas orgânicas contra infecções trans-
mitidas pelo ar: resfriados, gripe, etc. Excelente também
para eliminar a dor de cabeça, quando produzida por fa-
diga ou tensão.

4. R e s p ir a ç ã o n e u r o v it a l iz a d o r a

Execução: De pé, com as pernas ligeiramente sepa-


radas e as mãos junto do corpo.
Faça uma inspiração completa. Retenha o ar. Erga
os braços para a frente até tê-los em posição horizontal,
quase completamente relaxados. Feche as mãos muito
devagar e vá dobrando os braços, pondo em progressiva
tensão todos os músculos até que, ao chegar os punhos
aos ombros, estejam todos os músculos dos braços e dos
ombros em seu ponto de máxima contração. Estenda de
novo os braços, mas conservando a tensão muscular, como
se tivesse que vencer uma forte resistência para conseguir
EXERCÍCIOS PRÁTICOS DE... 249

esticá-los. Atraia-os novamente para os ombros com ra-


pidez e mantendo o estado de tensão, repetindo estes dois
últimos movimentos duas ou três vezes.
Isto é, na primeira vez em que se dobram os braços,
inicia-se a contração geral e o movimento é lento. Fazem-
se os demais movimentos conservando a tensão e com a
máxima rapidez possível.
Por fim, expire com força o ar pela boca, em forma
de sopro, de uma só vez.
Descanse e faça uma respiração completa.

F igura 24
250 HATHA-YOGA

Seu efeito é o de uma vitalização geral muito intensa


do sistema nervoso.

5. E x e r c íc io s d e e x t e n s ã o g e r a l

Execução: De pé, com as pernas juntas e os braços


junto ao corpo.
Enquanto faz uma inspiração completa, erga pouco a
pouco os braços para a frente e para cima, mas aumen-
tando progressivamente a força de extensão dos mesmos,
como se quisesse afastá-los cada vez mais do corpo, e como
se, ao chegar acima, tentasse tocar o teto. Todo o corpo
há de ir se estendendo para cima de maneira que, num
certo momento, ficar-se-a na ponta dos pés e todos os
músculos no ponto máximo de extensão ou esticamento.
Observar-se-á que este ponto máximo corresponde à posi-
ção que figura na ilustração n.° 24. Mantendo esta tensão
geral, assim como o alento, desça lateralmente os braços
até que fiquem em linha horizontal. Sentir-se-a a tensão
dos ombros, braços, antebraços, mãos e dedos no seu es-
forço de chegar o mais longe possível.
Depois de manter esta posição três ou quatro segun-
dos, retire lentamente toda a força posta no exercício e
volte à posição inicial, enquanto expira pouco a pouco
pelo nariz. Descanse e faça respiração completa.
este exercício é excelente porquanto põe em ação vá-
rios músculos que geralmente estão inativos. Estimula a
circulação geral do sangue e reforça o sistema nervoso.
O exercício de extensão geral é o equivalente do ato
de espreguiçamento que, instintivamente, fazem tanto os
homens como os animais, a fim de vitalizar os músculos
que ficaram muito tempo inativos.
Convém complementar este exercício com o de con-
tração geral que vamos descrever a seguir.
EXERCÍCIOS PRÁTICOS DE... 251

6. E x e r c íc io s de c o n t r a ç ã o g e r a l

Execução: De pé, com as p e rn as a lg o se p a ra d a s e os


braços ju n to ao corpo.
Faça uma inspiração completa. Lentamente feche as
mãos e, contraindo todos os músculos flexores do corpo,
vá colocando-os em tensão máxima, especialmente os dos
braços, como se tentasse abraçar, com supremo esforço,

um inimigo mortal. Os punhos se dirigem para o plexo


Molar; o ombro se dobra como efeito da contração abdo-
minal e as pernas também se dobram ligeiramente, como
conseqüência do esforço realizado. É importante que a
força seja feita gradualmente e que o maior número pos-
sível de músculos venha a contrair-se (V. fig. 25).
252 HATHA-YOGA

Após manter esta tensão máxima durante uns segun-


dos, relaxe-se subitamente e expire pela boca.
Descanse e faça respiração completa.
Tanto este exercício como o anterior não devem ser
feitos mais que um a vez. Ambos se complementam mu-
tuamente.
O efeito da contração geral é excelente, tanto para a
musculatura como para o sistema nervoso. Além disso,
este exercício, quando prolongado um pouco mais, faci-
lita o êxito no relaxamento, já que permite converter em
conscientes várias contrações inconscientes que impedem
ou dificultam, habitualmente, obter o relaxamento geral.
A extensão e contração gerais são o equivalente muscular
de vários exercícios físicos. Por esta razão é muito útil
fazê-las quando se esteve muito tempo sentado, sem pos-
sibilidade de passear ou fazer suficiente exercício. Um a
extensão e uma contração conscientes proporcionarão
grande descanso para o corpo e para a mente, permitin-
do prosseguir no trabalho, quando necessário, sem a me-
nor dificuldade.

INTRODUÇÃO A PRÁTICA DO “P R A N A Y A M A ”

P r e l im in a r e s

Fora as indicações concretas que iremos dando na


descrição de cada um dos exercícios de pranayama ou res-
piração rítmica, queremos dar previamente algumas nor-
mas, todas elas fundamentais, que se referem em comum
a toda esta espécie de exercícios. Ao longo desta exposi-
ção prática do pranayama, seguimos muito de perto as
orientações dadas por Swami Kuvalayananda, diretor do
Laboratório Experimental de Y oga de Lonavla, Bombaim,
por ser a pessoa que, no nosso entender, oferece maiores
garantias tendo em vista suas minuciosas e conscienciosas
EXERCÍCIOS PRÁTICOS DE... 253

experimentações sobre as diversas técnicas de respiração


e sobre os efeitos de cada um dos exercícios. Encarece-
m o s grandemente o seu cuidadoso estudo e aplicação.

Cada volta de pranayama é geralmente um ato com-


pleto, constando de três partes:
1. O puraka, inalação ou inspiração.
2. O kumbhaka, retenção ou suspensão. Quando
não é indicado expressamente o contrário, entende-se que
se trata do kumbhaka interno, ou seja, com os pulmões
cheios de ar.
3. O rechaka, exalação ou expiração.
As posições mais indicadas para a prática do prana-
yama são as mesmas recomendadas para o trabalho men-
tal ou de meditação, e são as seguintes: siddhasana, pad-
masana, sukhasana e svastikasana. De todas elas as mais
recomendáveis são o padma e o siddha, porque se lhes
atribuem valores psíquicos particulares. As outras duas
podem ser empregadas enquanto aquelas não forem domi-
nadas facilmente, já que são de mais fácil execução.

N O R M A S G E R A IS D E EXECUÇÃO

s o b r e O “PURAKA” , OU INSPIRAÇÃO

1. Todo o puraka, inclusive o primeiro, deve come-


ça r após uma exalação completa.
2. Começa-se o puraka sempre mediante a ação do
diafragma, e não com uma aspiração pelo nariz, O ar entra
automaticamente no aparelho respiratório ao expandir-se
o tórax pela ação do diafragma, e depois pelo movimento
de elevação da caixa torácica, produzido pela ação dos
músculos intercostais. Pela ação do diafragma, o ar pene-
tra na parte inferior dos pulmões, e pela ação dos inter-
costais, nas regiões média e alta dos mesmos. O restante
do aparelho respiratório tem uma função passiva, isto é,
254 HATHA-YOGA

acompanha e adapta-se ao movimento iniciado pelo dia-


fragma, facilitando a passagem do ar para os pulmões.
3. Durante todo o puraka, a inalação precisa ser
uniforme, isto é, a força da corrente de ar inspirado deve
ser mantida no mesmo grau durante a inalação. Assim,
o ato de inspirar, em nenhum momento deve ser diminuí-
do ou aumentado em rapidez.
4. Salvo em determinados exercícios, que serão in-
dicados expressamente, a inspiração precisa ser sempre
suave e silenciosa.
5. É melhor dominar os músculos abdominais por
uma ligeira contração do que dar-lhes uma dilatação to-
tal. Assim é que o abdômen não deve ser totalmente
avançado, não deve ser dilatado tudo quanto possa ser,
mas somente na medida que permita à parte inferior dos
pulmões encher-se por completo de ar. Comprovou-se,
através de experiências, que o abdômen controlado permi-
te a inalação de maior quantidade de ar que o abdômen
completamente dilatado. Também sua ação benéfica so-
bre o sistema nervoso é muito maior.
6. O puraka deve ser sempre tão completo que nem
um centímetro cúbico a mais de ar possa ser introduzido
nos pulmões sem esforço excessivo.
7. Todo o puraka deve acabar tranqüilamente. Não
se deve fazer caretas nem contrair os músculos do corpo
no momento de completar a inspiração. É preciso com-
preender que nenhuma tensão exercida em outros mús-
culos que não os respiratórios capacitará a pessoa para
fazer entrar um único centímetro cúbico mais de ar.

so b re o “ RECHAKA” , OU EXPIRAÇÃO

1. A expiração é executada mediante o simples re-


laxamento do diafragma e dos músculos intercostais.
EXERCÍCIOS PRÁTICOS DE... 255

Nunca forçando ativamente a expulsão do ar, salvo em de-


determinados exercícios.
2. Também, salvo em determinados exercícios, nos
quais este extremo será indicado expressamente, a expi-
ração precisa ser realizada sempre pelo nariz, nunca
pela boca.
3. Durante todo o rechaka, a exalação tem que ser
uniforme, isto é, a força da corrente de ar deve ser man-
tida no mesmo grau durante toda a expiração. O ato de
expirar não deve ser diminuído ou aumentado, em ne-
nhum momento, em rapidez.
4. Salvo em determinados exercícios, a expiração
deve ser sempre suave e silenciosa.
5. E, por ultimo, tem que ser sempre tão completa
que nem um centímetro cúbico mais de ar possa ser ti-
nido dos pulmões, sem esforço excessivo.

SOBRE O “K UM BH AK A” , OU RETENÇÃO

1. A primeira coisa que é preciso fazer para começar


0 kumbhaka é fechar totalmente a glote e depois formar
o jalandhara-bandha ou chave do queixo.
2. Durante todo o kumbhaka deve-se manter o ab-
dômen ligeiramente contraído. Segundo Kuvalayananda,
a vantagem real do kumbhaka, sob o ponto de vista físico,
reside precisamente nesta contração abdominal.
3. Não se deve ter pressa alguma para começar a
prática do kumbhaka. É necessário que o seu início deva
ser precedido de uma temporada de prática exclusiva de
puraka ou rechaka, de acordo com esta proporção de base
1 : 2 como duração respectiva de ambos os movimentos.
4. Quando se começar a prática, o kumbhaka deve
ser desenvolvido com muita lentidão e precaução. O kum-
bhaka é a parte mais delicada do pranayama, razão pela
qual exige a máxima atenção do aluno.
256 HATHA-YOGA

s o b r e A DURAÇÃO DE CADA TEMPO

1. O tempo dado ao puraka deve ser a metade do


que se dá ao rechaka.
2. Quando se começa a praticar o kumbhaka, a pro-
porção base dos três tempos deverá ser: 1-2-2, isto é, 1 para
a inspiração ou puraka, 2 para a retenção ou kumbhaka
e 2 para a expiração ou rechaka. Assim, por exemplo, se
a inspiração dura quatro segundos, a retenção e a expi-
ração deverão durar oito segundos cada uma.
Quando se tiver bastante tempo de prática de prana-
yama (três meses no mínimo, embora varie o tempo ne-
cessário segundo as pessoas), pode-se começar a seguir a
proporção de base: 1-4-2. No caso anterior de uma ins-
piração de quatro segundos, a retenção será de dezesseis
segundos e a expiração de oito segundos.
3. Ao fixar a medida do kumbhaka, o principiante
deverá ter em conta que possa manter o alento comoda-
mente durante sua duração total. Esta comodidade de
execução tem que incluir não somente o kumbhaka, mas
também o rechaka e o puraka subseqüentes. A prática
total do pranayama deve ser feita sempre com maior fa-
cilidade e liberdade, sem sacudidas, violências e sufocações
em nenhum estágio de sua execução. Qualquer dificul-
dade em manter-se estas condições significa ser absolu-
tamente necessário reduzir a duração geral do exercício,
ainda que conservando sempre a mesma proporção de base.
Assim, no último exemplo citado antes, poderia ser redu-
zida de 4-16-8 para 3-12-6.
4. O tempo da proporção básica entre o puraka e o
kumbhaka é de 1-2 ou de 1-4, conforme mencionou-se an-
tes. Um principiante deverá seguir o primeiro. Porém,
seja qual for a proporção adotada, a medida do kumbhaka
deverá ser determinada em primeiro lugar pela sua faci-
lidade em manter a devida comodidade ao longo de todo
EXERCÍCIOS PRÁTICOS D E... 257

o processo, e depois na proporção escolhida com referên-


cia ao puraka.
5 . No pranayama o tempo deve ser contado mental-
mente. Pode tomar-se como unidade, um segundo, uma
pulsação ou batida do coração, ou qualquer outro movi-
mento rítmico que possa ser memorizado facilmente. A
princípio pode aparecer dificuldade em contar mentalmen-
te as unidades de tempo e seguir, simultaneamente, os mo-
vimentos respiratórios com a atenção exigida. Ao fim de
certa prática, o contar converte-se em algo automático, e
a atenção pode, então, ser aplicada livremente ao exercício.
6 . O rechaka ou expiração, deve durar sempre mais
tempo que o puraka. A proporção ortodoxa ou clássica en-
tre o puraka e o rechaka é de 1 : 2. Também aqui deve
levar-se em conta que o rechaka nunca deverá ser tão pro-
longado que exija que a seguinte inalação seja apressada.
De fato, ao fixar as proporções das três partes componen-
tes do pranayama, isto é, do puraka, kumbhaka e recha-
ka, deve prever-se que possam ser executados comodamen-
te não apenas uma volta de pranayama, mas todas as
voltas sucessivas de uma mesma sessão. Não se deve sen-
tir sufocação alguma em nenhum momento da prática do
pranayama, qualquer que seja o número de voltas que
se execute cada vez. De maneira que se deve ter todo o
cuidado tanto ao fixar a duração das partes que compõem
uma simples volta como ao fixar o número total de voltas
que se queira executar cada vez,

SOBRE OS PERIGOS DO “ PRANAYAMA”

1. Encarecemos ao aluno nunca permitir que seu


entusiasmo se superponha à sua razão. O pranayama é
uma arma que conduz facilmente ao abuso. Ao jogar com
o pranayama o homem joga também com seus nervos, co-
ração e pulmões. O esforço indevido ou os métodos im-
258 H ATH A-YOGA

perfeitos em sua execução podem prejudicar as referidas


partes vitais permanentemente. Por conseguinte, cada
qual deve proceder, em sua prática, com a devida precau-
ção e cuidado. Quando assim se faz e se segue, com aten-
ção e confiança, as instruções recebidas, o pranayama é
completamente inofensivo.
2. Se deseja evitar qualquer perigo, deve o aluno pro-
ceder de maneira a conservar, em todo o momento, perfei-
to controle sobre o aparelho respiratório. to d a s as fases
do pranayama devem poder ser executadas com suavidade
e comodidade, evitando-se que, a qualquer momento, sur-
ja sensação de sufocação ou de cansaço. Deve-se começar
com a medida que seja mais fácil de ser mantida e ir pro-
gredindo com muita lentidão e precaução.
3. No rechaka ou expiração há menos perigo de fa-
zer-se esforços indevidos do que no puraka ou no kumbha-
ka. Mas se o rechaka é feito com excessiva força e pro-
fundidade, pode prejudicar o coração.
4. Se o puraka ou o kumbhaka mantém-se mais
além da proporção correta, prejudica, em primeiro lugar,
os pulmões e, depois, o coração.
5. Previne-se formalmente toda a pessoa que sofra
ou haja sofrido distúrbios pulmonares ou cardíacos abs-
ter-se, absolutamente, de praticar pranayama e, em es-
pecial, o kumbhaka, salvo se o faça com a supervisão de
pessoa competente.

R e s u l t a d o s do “ p r a n a y a m a ”

Se estas e as demais instruções que são dadas ao


longo desta obra forem seguidas cuidadosamente, o aluno
não só evitará qualquer perigo de prejudicar sua saúde,
como verificará que o pranayama, quando bem executado,
é fonte de grande vitalidade para o corpo e de profunda
EXERCÍCIOS PRÁTICOS DE... 259

paz para a mente. Com efeito, o pranayama correto é exer-


cício muito útil e rápido para o desenvolvimento físico,
psíquico e mental do homem.

PRATICAS COMPLEMENTARES NO “P R A N A Y A M A ”

Existem diversas práticas ou manobras que intervém


na execução dos exercícios de pranayama. Vamos descre-
ver brevemente as mais fáceis e indispensáveis.

“U s h a h p a n a ” o u l i m p e z a d a s fo s sa s n a s a is

é evidente que para poder praticar bem os exercícios


de respiração é necessário que as fossas nasais estejam
livres de qualquer obstrução causada por mucosidades.
Tal limpeza é conhecida com o nome de neti, que é um dos
shat karmas ou práticas purificadoras do Hatha-Yoga.
Existem duas formas de neti: a seca e a úmida.
A forma seca consiste em introduzir a extremidade
do um fio num a das fossas nasais, enquanto se sustém a
outra extremidade com a mão esquerda. Inala-se forte-
mente de maneira que o fio penetre mais no interior, até
puder ser tirado pela boca suavemente. Faz-se o mesmo
com a outra fossa nasal.
Nós, entretanto, preferimos a forma úmida, conhecida
com o nome de ushahpana. Consiste em absorver cinco
ou seis vezes água pelo nariz soltando-a pela boca. Con-
vem que a temperatura da água não esteja muito dife-
rente da do corpo. Coloca-se água no côncavo das mãos,
inclina-se a cabeça e aspiram-se vários sorvos que irão
saindo depois pela boca.
Quando se controla bem esta forma, aprende-se, ade-
mais, a fazer o processo inverso, isto é, tomar sorvos de
água com a boca, expelindo-os pelo nariz.
260 HATHA-YOGA

A melhor hora para fazer o ushahapana é pela ma-


nhã, por ocasião do asseio e também antes de principiar
os exercícios de pranayama.
É preciso ter a precaução de fechar a glote a fim de
evitar que a água penetre no aparelho respiratório. Os
que estão habituados a fumar sem tragar farão isto muito
facilmente, já que é feito exatamente com o mesmo gesto
do fumante.
Além da limpeza das fossas nasais, este exercício pos-
sui efeitos benéficos para os olhos e para o cérebro.

“J a l a n d h a r a - b a n d h a ” , o u c h a v e do q u e ix o

N a prática do Hatha-Yoga existem três contrações es-


peciais conhecidas com o nome de bandhas. São o mula-
-bandha, o uddiyana-bandha e o jalandhara-bandha.
O mula-bandha é uma contração dos esfínteres anais
feita em determinados exercícios asânicos ou de pranaya-
ma. Devido à circunstância de que sua execução defei-
tuosa possa acarretar forte prisão de ventre ou alterações
no funcionamento genital, abstemo-nos de recomendar
sua prática sem um guia competente.
O uddiyana-bandha ou contração abdominal já foi
descrito entre os asanas.
O jalandhara-bandha ou chave do queixo, consiste em
pressionar o mento firmemente contra o peito. Aquele po-
de ser colocado contra a depressão jugular, cavidade trian-
gular da união das clavículas, ou então sobre o peito, a
uns quatro dedos mais abaixo da citada depressão.
O jalandhara-bandha é praticado enquanto dura o
kumbhaka ou retenção do ar, nos exercícios de pranaya-
ma. Um a vez terminado o período do kumbhaka, ergue-se
a cabeça e se principia o rechaka ou expulsão.
EXERCÍCIOS PRÁTICOS DE... 261

O primeiro efeito desta bandha é reforçar a mantença


do ar inspirado dentro dos pulmões, evitando que a pres-
são exercida pelo menos, prejudique a glote e as termi-
nações nervosas desta região. Exerce também uma tração
superior sobre a coluna vertebral e, provavelmente sobre
a medula, atuando assim sobre o cérebro.

“N a s a g r a -d r is h t i” e “B h r u m a d h y a -d r i s h t i ” ou
FIXAÇÃO DO OLHAR NASAL E FRONTAL

O nasagra-drishti consiste em fixar a vista na ponta


do nariz.
O bhrumadhya-drishti consiste em fixar a vista nas
sobrancelhas.
estes exercícios são freqüentemente aconselhados na
prática da meditação ou durante os períodos de kumbha-
ka no pranayama.
Ambos os exercícios, quando feitos sem forçar exces-
sivamente os olhos, têm efeito estimulante sobre o cérebro
através do nervo ótico, contribuindo para estabilizar a
mente. Aconselha-se, entretanto, às pessoas que tenham
nervos fracos, abster-se de praticá-los, a menos que o fa-
çam com a supervisão de uma pessoa competente.
Permitimo-nos aconselhar o praticando de Yoga dar
mais importância à atitude mental que ao mesmo movi-
mento físico. Portanto, na hipótese destes exercícios, pro-
cure olhar mais mentalmente ou estar atento às sobran-
celhas do que forçar fisicamente os olhos para realizar a
convergência indicada. Verá, assim, que se produz o mes-
mo efeito, evitando-se todos os inconvenientes do exercício.
A medida em que a mente aprenda a estar atenta ao ponto
interior das sobrancelhas, os olhos se adaptarão sozinhos,
automaticamente e sem violência alguma, ao gesto exigido.
262 H A T H A - YOGA

M odo correto de fechar as n a r in a s na

RESPIRAÇÃO ALTERNADA

Nos vários exercícios de pranayama é necessário man-


ter fechada uma ou outra narina e, no kumbhaka, as
duas. Para fazer isto, há uma técnica tradicional que pa-
rece ser a mais conveniente. Consiste no seguinte:
Abre-se a palma da mão direita. Fecham-se os dedos
índice e médio. Agora colocam-se o polegar e os outros de-
dos esticados na extremidade superior do nariz, o polegar
ao lado direito e o anular e o mínimo à esquerda, como
mostra a fig. 26 a, reproduzida abaixo.

FIGURA 26 a

Então, conforme se vê, se o lado do nariz a ser fechado


é o direito, os dois dedos esticados permanecem na mesma
posição, mas o polegar escorrega para baixo, até permane-
cer junto à cartilagem da asa do nariz, pressionando-o
até a membrana central, por sob o osso nasal. Se é o lado
direito que deve ser fechado, o polegar volta à posição
original, os dedos que estavam esticados deslizam-se para
baixo até atingir a asa esquerda, fazendo pressão suficien-
te sobre a cartilagem elástica até encontrar a membrana
central por sob o osso nasal (V. figs. 26 b, c e d ).
EXERCÍCIOS PRÁTICOS DE... 263

Quando é necessário fechar ambas as narinas, fazem-


se simultaneamente os dois movimentos descritos para
cada lado. Se as narinas devem permanecer abertas, a
mão poderá fazer duas coisas. Se, após deixar as narinas
abertas, deve seguir-se um a respiração alternante, os dois
dedos e o polegar podem descansar de ambos os lados da
ponta do nariz, mas, se depois não há fechamento alter-
nado das narinas, é melhor descer a mão e fazê-la des-
cansar sobre o joelho.

F igura 26 b F igura 26 c FIGURA 26 A

EXERCÍCIOS D E “P R A N A Y A M A ”

1. “ SURKHA PURVAK” OU “PRAN A YA M A ” FÁCIL

Pode ser feito de pé ou, melhor, sentado em padma-


nana, siddhasana, sukhasana ou svastikasana.
E x e c u ç ã o : Após um a expiração completa, faça uma
Inspiração integral durante quatro segundos. Retenha o
ar dentro dos pulmões, fechando a glote e formando o
jalandhara-bandha, durante oito segundos. Desfaça então
o jalandhara-bandha, abra a glote e faça uma expiração
completa, também durante oito segundos.
264 H A T H A - YOGA

A fórmula respiratória no começo é, pois, 4-8-8.


Faça o exercício até três vezes diárias durante a pri-
meira semana. Não ultrapasse este número nem a dura-
ção dos tempos de respiração. N a semana seguinte, pode
acrescentar outra respiração a mais, da mesma proporção,
e outra mais na terceira semana, de maneira que chegue,
assim, a fazer cinco respirações diárias da proporção 4-8-8.
Quando puder manter esta respiração sem o menor
esforço durante as cinco respirações, varie a fórmula, au-
mentando o puraka em um segundo e, em dois segundos,
o kumbhaka e o rechaka, resultando assim a fórmula
5-10-10. Comece, porém, a primeira semana desta fórmu-
la com apenas três respirações, acrescentando outra mais
cada semana, como no caso anterior, até chegar a fazer
cinco respirações de duração 5-10-10.
Um a vez que consiga fazer isto com toda a facilidade,
mas não antes, varie novamente a fórmula, fazendo, en-
tão, a seguinte: 4-16-8. Faça este exercício não mais que
três vezes por sessão e por dia. Aqui se começa a utilizar
a fórmula de base 1-4-2. Ao fim de um a semana, acres-
cente outra respiração da mesma proporção 4-16-8 e outra
na terceira semana. Assim é que fará então cinco respi-
rações por sessão e por dia na proporção 4-16-8.
A medida que possa ir fazendo o indicado, com toda
a comodidade, aumente um segundo a inspiração ou pu-
raka e na proporção correspondente aos demais tempos.
Assim será: 5-20-10, 6-24-12, 7-28-14 e 8-32-16. Não ultra-
passe em nenhuma hipótese esta última proporção. Re-
corde as instruções dadas nas Normas Gerais de Execução.
Não tenha pressa alguma em aumentar o kumbhaka; pelo
contrário, procure fazer da melhor maneira possível o
exercício nas proporções mais simples antes de pretender
passar para outras superiores.
estes exercícios podem ser feitos também como res-
piração polarizada. Por exemplo, quando controlar bem
EXERCÍCIOS PRÁTICOS DE... 265

a proporção 5-20-10, respirando por ambas as narinas, re-


duza a proporção para 4-16-8, procedendo como segue:
Após uma expiração completa, feche a narina direita,
tal como ficou indicado nas Práticas Complementares;
inspire pela narina esquerda durante quatro segundos;
feche ambas as narinas e, formando o jalandhara-bandha,
retenha, durante dezesseis segundos; erga a cabeça, abra
a narina direita e expire durante oito segundos. Em con-
tinuação, pela mesma narina direita, inspire durante
quatro segundos e assim sucessivamente. A inspiração
deve ser feita sempre pela narina pela qual se expirou, e
a expiração deve ser feita com a outra narina pela qual
se fez a inspiração.
O b s e r v a ç õ e s : De nenhum modo deverá começar a
praticar esse ou outros exercícios de pranayama sem ter,
pelo menos, umas semanas de prática efetiva de respira-
ção integral.
Qualquer sensação de sufocamento, tontura ou fa-
diga indica a necessidade de se diminuir imediatamente
o número ou a duração das respirações. Encarecemos ao
praticante de Yoga habituar-se a respeitar sempre as in-
dicações que lhe darão seu próprio organismo. Com isto
evitará toda espécie de efeitos prejudiciais, tanto na prá-
tica do pranayama como dos asanas.
E f e i t o s : este é um dos melhores exercícios que exis-
tem para reforçar e controlar o sistema nervoso. Aumenta
sua capacidade de rendimento e desenvolve enormemente
as faculdades mentais.

2. “U j j a y i”

este é um dos oito tipos de pranayama citados pelo


Hatha-Yoga Pradipika. Os sete restantes são: surya bheda,
sitkari, sitali, bhastrika, bhramari, murcha e plavini. D e-
le s daremos também mais adiante o bhastrika.
266 HATHA-YOGA

Execução : Sentado em qualquer uma das posições


antes indicadas. Faça uma expiração completa. Inale me-
diante um a inspiração integral, por ambas as narinas, du -
rante seis segundos. Durante toda a inspiração deverá
manter-se a glote parcialmente fechada, com o que se
produzirá um som semelhante ao que se produz quando
se está soluçando, porém mais suave e contínuo. Procure
fazer com que tenha um tom baixo, mais suave e uniforme.
Evite que o ar produza qualquer fricção dentro do nariz,
ou em toda a região olfativa.
Ato contínuo inicie o kumbhaka, ou retenção, median-
te o fechamento total da glote e o jalandhara-bandha.
Mantenha esta retenção durante doze segundos. Termina-
do este tempo de kumbhaka, comece o rechaka.
Levante a cabeça, abra a glote e comece a relaxar o
peito lenta e uniformemente, com o que o ar sairá do
mesmo modo durante o tempo da expiração. Mantenha a
glote também parcialmente fechada, produzindo um som
de tom baixo, porém uniforme. A medida que relaxa o
peito, os músculos do abdômen devem ir se contraindo até
que seja expelido todo o ar disponível nos pulmões. Não
obstante, é preciso evitar toda espécie de esforço, como te-
mos dito repetidas vezes. A expiração tem que durar doze
segundos, igual ao kumbhaka.
Durante os primeiros quinze dias de prática de ujjayi,
deve-se fazer a expiração através de ambas as narinas.
Porém, a partir deste tempo a expiração poderá fazer-se
exclusivamente através de idâ, ou seja, pela narina es-
querda.

Depois de um mês de iniciado o exercício, poderá


aumentar-se o tempo da inspiração para oito segundos, o
da retenção para dezesseis e o de expulsão também para
dezesseis segundos.
EXERCÍCIOS PRÁTICOS D E... 267

Duração: O u j j a y i pode ser feito sete vezes em cada


sessão, aumentando-se três vezes cada semana, até chegar
ao número tope de vinte e oito respirações por sessão.
A t it u d e Quando controlar a técnica de
m ental :
execução, concentre a atenção, durante o exercício, den-
tro da cabeça, aproximadamente no ponto médio entre
os ouvidos.
O b s e r v a ç õ e s : Recordamos, uma vez mais, a absoluta
necessidade de evitar-se todo esforço ou violência ao pra-
ticar os exercícios de pranayama. Também lembramos
que estes exercícios foram planejados para pessoas que
gozem de boa saúde, cuja idade esteja compreendida entre
os dezoito e os quarenta anos.
Qualquer pessoa que não esteja nestas condições, de-
v erá consultar previamente o médico. Preste também
atenção às instruções que damos a respeito da forma
progressiva de aumentar a duração do exercício, precau-
ções a tomar, etc.
E feitos: Aumenta o calor do corpo. Estimula o fun-
cionamento da glândula tireóide. Diz-se que sua execução
perfeita protege contra perturbações digestivas, resfriados,
tuberculose, doenças nervosas e estados depressivos.
Sob o aspecto psicológico, aumenta a vivacidade da
mente e sua capacidade de compreensão.

3. “K a p a l a b h a t i”

O kapalabhati é um dos seis exercícios purificadores,


conhecidos no Hatha-Yoga como shat karmas. Sua finali-
dade é a limpeza completa das narinas, assim como o resto
do aparelho respiratório. O nome kapalabhati significa
"que faz brilhar o crânio”.
No princípio da prática, a posição que se pode adotar
é a de sentado em qualquer das formas descritas anterior-
268 HA THA -YO GA

mente. Mas na prática mais adiantada, é imprescindível


fazê-lo em padmasana, por ser a única posição que asse-
gura estabilidade suficientemente firme para não alterar
o equilíbrio do corpo, enquanto se faz o exercício, o qual
assume certa violência nas fases adiantadas.
O kapalabhati é um exercício exclusivo de expiração
ou rechaka. N ele também se suprime o kumbhaka, e a
inspiração ou puraka é somente complementar. Essencial
mente consiste em uma série de expirações súbitas e for-
çadas, feitas com rapidez, graças à sucessiva contração
dos músculos abdominais e a ação do diafragma. Os mús-
culos respiratórios das costelas devem intervir apenas du-
rante estas expulsões, já que se limitam a manter o peito
firme e erguido durante toda a realização do exercício.
este é o único exercício de pranayama, juntamente
com o bhastrika, em que a inspiração e expiração não de-
vem ser profundas. Devido a que as costelas permanecem
praticamente imóveis durante todo o curso de kapalabhati,
é compreensível que os movimentos respiratórios não pos-
sam ser profundos.
A glote tem que permanecer completamente aberta
para evitar toda fricção do ar dentro do aparelho respira-
tório, já que sendo violenta a expulsão do ar, qualquer
fricção poderia prejudicar os delicados tecidos de que
aquele é revestido.

E xecução : Faça uma inspiração completa. Em se-


guida faça um a contração rápida e vigorosa dos músculos
abdominais, com o que se elevará o diafragma e sairá uma
porção de ar dos pulmões. Esta contração há de ser como
um golpe, não como uma contração sustentada; é um fazer
e soltar, algo assim como o movimento rápido que se faz
ao assoar-se o nariz ou ao limpar a garganta, porém exe-
cutado exclusivamente mediante a contração abdominal.
EXERCÍCIOS PRÁTICOS DE... 269

No momento em que solte a contração, sem fazer nada


especial para isso, e devido ao relaxamento abdominal, o
ar entrará nos pulmões. Esta entrada de ar é feita passi-
vamente, já que ativamente não se faz nada, em absoluto,
para consegui-lo, nem para aumentar ou reter o ar entra-
do. Imediatamente, depois de relaxar ou soltar a contra-
ção, faça outra contração abdominal, e outra e mais outra,
até completar o número de expirações previstas.

Por conseguinte, o exercício se caracteriza por uma


série ininterrupta de expirações forçadas, produzidas por
súbitas contrações dos músculos abdominais e elevações
do d iafragma. As contrações se sucedem umas às outras
com a máxima rapidez possível sem exagerar, nem forçar.
O rechaka é rápido e vigoroso, enquanto que o puraka
é uniforme e tranqüilo. N a realidade, a única função
exercida pelo puraka é proporcionar, passivamente, o ar
suficiente para fazer a expulsão seguinte, a qual é a ver-
dadeira parte essencial deste exercício.
Como as costelas não intervêm de maneira ativa em
nenhum momento da respiração, o peito permanece todo
o período praticamente imóvel.
D uração: O número de expirações ou expulsões que
se aconselha fazer nas primeiras semanas é de onze. Assim,
pois, onze expirações seguidas constituirão uma volta de
kapalabhati. Depois destas onze expirações relaxa-se todo
o aparelho respiratório e respira-se normalmente um ins-
tante para descansar. Em seguida inicia-se outra volta de
Kapalabhati. É de três o número de voltas para o princi-
piante. Com isso o estudante fará em uma sessão 33 expi-
rações divididas em três voltas de 11 expirações cada uma.
Depois de um mês de prática com esta proporção, po-
de se aumentar as expirações de cada volta a 22. Assim
se farão 66 expirações no total, repartidas em três voltas
de 22 expirações cada uma. Cada quinze dias pode-se au-
270 Hatha-Yoga

mentar o número de expulsões em mais 11, até chegar


ao total de 121 expulsões em cada volta.
Quanto à rapidez com que devem se suceder as expi-
rações, é conveniente que o estudante acomode-se à sua
própria facilidade. Mas como pauta inicial para o princi-
piante, pode-se indicar fazer um a expiração por segundo.
Pouco a pouco poderá ir aumentando, paulatinamente, a
rapidez, até alcançar duas expirações por segundo.
A t i t u d e m e n t a l : A atenção deve ser fixada no abdô-
men, imaginando-se que mediante as rápidas expulsões,
todo o organismo está sendo purificado.
O bservações: Procure evitar qualquer violência ex-
cessiva, que somente causaria prejuízos. Mais vale co-
meçar com suavidade e, à proporção que se controle a
técnica, ir aumentando o vigor e a rapidez das expulsões,
do que sacrificar a execução correta à rapidez. Qualquer
tentativa para alcançar rapidez à custa de vigor das ex-
pulsões ou forçando o mínimo que seja a laringe e as na-
rinas, é errada.
Novamente lembramos que qualquer pessoa que sofra
de alguma enfermidade pulmonar, cardíaca ou nervosa,
deve abster-se totalmente da prática destes exercícios.
Mas quem, gozando de boa saúde, se atenha, com discer-
nimento às indicações que foram ou irão sendo dadas mais
adiante, não têm, absolutamente, nada que temer da prá-
tica do pranayama.
E f e i t o s : O kapalabhati produz rápida eliminação de
todas as mucosidades que aderiram ao aparelho respira-
tório. Reforça o sistema nervoso. Elimina grandes quan-
tidades de anidrido carbônico, permitindo também absor-
ver maior quantidade de oxigênio, o que enriquece o san-
gue e renova os tecidos. Corrige todas as afecções provoca-
das pelo frio. Tonifica a circulação sangüínea e eleva
o rendimento metabólico.
EXERCÍCIOS PRÁTICOS DE... 271

Psicologicamente aumenta o controle próprio e a ca-


pacidade de concentrar a mente.

4. “B hastrika”

Em sânscrito bhastrika significa “fole”. Seu nome


provém da semelhança que este apresenta com incessan-
tes e rápidas expulsões de ar.
Sua execução compõe-se de duas partes. A primeira
é idêntica ao kapalabhati, que acabamos de descrever, e
a segunda é semelhante ao ujjayi, mas mantendo a glo-
te perfeitamente aberta, tanto na inspiração como na
expiração.
A posição indicada para o bhastrika é a mesma que
mencionamos como mais conveniente para o kapalabhati:
qualquer asana, de meditação para o principiante, e o
padmasana para a prática mais adiantada.
E xecução : Após uma inspiração completa, contrai-se,
súbita e vigorosamente, os músculos abdominais, relaxan-
do-os a seguir, e voltando a contraí-los onze vezes segui-
das, tal como foi indicado no kapalabhati. O peito tem
que manter-se firme e elevado, ainda que sem exagero.
O ar deve poder sair sem obstrução alguma a cada golpe
de contração abdominal. Mecanicamente, e sem que a
vontade participe disso, ao soltar cada contração o ar en-
trará em quantidade suficiente nos pulmões para permitir
a seguinte expulsão.
Após as onze expulsões, faz-se uma inspiração com-
pleta e retém-se em kumbhaka durante doze segundos.
A seguir, desfaz-se o jalandhara-bandha e expira-se sua-
vemente durante outros doze segundos. Descanso de um
minuto e volta-se a começar.
Ao fim de um mês de prática, o kumbhaka e o recha-
ka final podem ser aumentados para dezesseis segundos
272 HATHA-YOGA

cada um. Passa-se depois, quando o anterior possa ser


feito com toda a comodidade, à fórmula básica de 1-4-2,
fazendo-se, então, uma respiração inicial de 6-24-12 que
se aumenta prudentemente até chegar a 8-32-16, propor-
ção tope que não deve ser ultrapassada, e à qual se deve
chegar depois duma prática assídua de, pelo menos, cinco
meses. Entende-se que esta respiração deve ser feita
sempre depois da série de expulsões forçadas, formando
em conjunto expulsões e respiração rítmica, uma volta
de bhastrika.

Quanto ao número de expulsões em cada volta, pode


ser aumentado progressivamente de modo análogo ao in-
dicado para o kapalabhati.
D uração : O bhastrika não deve ser praticado mais
de três voltas em cada sessão, embora a duração de cada
volta possa ir sendo aumentada de acordo com o indicado
anteriormente.
O b s e r v a ç õ e s : Em primeiro lugar, não se deve tentar
fazer bhastrika até que não se controle facilmente a
execução do kapalabhati. Depois, à medida que se pra-
tique bhastrika, diminua-se paralelamente a prática do
kapalabhati como exercício independente, até que, ao
atingir o máximo do bhastrika, se suprime inteiramente o
kapalabhati.
O bhastrika é um dos exercícios que podem causar
mais prejuízos se não for praticado convenientemente.
Qualquer sensação de fadiga, de tensão ou de superexci-
tação tem que ser o sinal de alarme indicador da conve-
niência de parar o exercício e diminuir a dose no sucessivo.
Se o praticante se ajustar inteiramente a todas as indi-
cações dadas, e se seu estado de saúde for bom, longe de
experimentar qualquer distúrbio, notará claramente os
extraordinários efeitos de purificação física e psíquica
produzidos por este exercício.
EXERCÍCIOS PRÁTICOS DE... 273

E feitos : Aumenta a circulação sangüínea e tonifica


todo o sistema nervoso. Renova e purifica todo o corpo.
Facilita a digestão e aumenta o apetite. Produz em todo
o sistema um a espécie de choque elétrico, pelo que produz
um a acumulação de energia em todos os sistemas: ner-
voso, muscular e circulatório.
Psicologicamente, o bhastrika produz um aprofunda-
mento notável da consciência. Aumenta a serenidade e
o sangue frio diante de qualquer situação, e fortalece a
vontade no grau máximo.
Aqui damos por terminado os exercícios da pranaya-
ma. Existem muitos mais, porém quisemos nos limitar
a dar uma boa descrição dos mais fundamentais, já que
a sua prática é mais que suficiente para proporcionar
abundantes frutos físicos e psíquicos a todo estudante
sério e consciencioso, para quem a prática do pranayama
seja algo mais que uma curiosidade ou um entretenimen-
to passageiro. Antes de começar algum exercício, leia
com atenção os conselhos e sugestões que são fornecidos
no Capítulo IV.
V
C a p ít u l o VII

“ SAVASANA” OU POSIÇÃO DO CADÁVER: PRÁ-


TICA DO RELAXAMENTO GERAL CONSCIENTE

E
STA posição constitui uma boa ilustração do espírito
que anima o Yoga e que tanto diferencia esta técnica
oriental da ginástica do Ocidente. Vemos, com efeito, que
esta posição que consiste apenas em ficar deitado de cos-
tas no solo, perfeitamente tranqüilo e relaxado, apesar da
aparente simplicidade de sua execução, é considerada pe-
los mestres de Yoga como o mais difícil dos asanas.
É que, com efeito, para se poder relaxar consciente
e voluntariamente toda a musculatura, é preciso ter-se ad-
quirido antes o completo controle do corpo e da mente.
N a atualidade estendeu-se muito no Ocidente a acei-
tação do relaxamento como técnica excelente para con-
seguir grande melhora nas perturbações de tipo psicosso-
mático, assim como também para acalmar os estados de
ansiedade de todos os tipos, superar as depressões psíqui-
cas, etc., pelo que muitas são as pessoas que tentam as-
sumir o controle de sua execução e muitos também os
276 HATHA-YOGA

médicos que o prescrevem aos seus pacientes. Numerosos


especialistas modernos — como Jacobson, Alexander,
Schultz, Krapf, etc. — estudaram e sistematizaram sua
técnica, criando diversos métodos e sistemas próprios.
Exporemos, a seguir, algumas normas práticas, ex-
traídas exclusivamente de nossa experiência do Yoga,
baseadas na prática pessoal ou com as quais dirigimos
muitas pessoas que nos solicitam orientação sobre a me-
lhor maneira de chegar rapidamente ao relaxamento ge-
ral consciente. Por conseguinte, tudo quanto vamos indi-
car é resultado de uma vasta experiência, de eficácia dia-
riamente comprovada.
Primeiramente recomendamos ao leitor que leia, uma
vez mais, as considerações que expusemos na parte teó-
rica, ao discorrer sobre os princípios do relaxamento geral
consciente (pág. 130).
L o c a l e e m p r a z a m e n t o : O local escolhido para a prá-
tica de relaxamento tem que ser tranqüilo, bem ventilado
e a salvo de interrupções inoportunas. A temperatura
deve ser tal que, na hipótese de se permanecer dormindo,
não haja possibilidade de resfriamento. Convém, no inver-
no, abrigar-se suficientemente no mesmo sentido.
N a realidade, não se trata de prevenir a possibilidade
de permanecer dormindo. É que, durante o relaxamento
profundo, o corpo permanece numa situação similar à do
estado de sono: diminui a temperatura interna, a freqüên-
cia cardíaca, a respiração faz-se mais lenta e profunda, etc.
Quanto à tranqüilidade do local, se não for possível
conseguir-se silêncio completo, poder-se-a fazer a postura
num lugar em que os ruídos sejam muito familiares, de
maneira que se fique totalmente certo de que, durante o
tempo do relaxamento, nada nem ninguém irá interrom-
per o exercício.
SAVASANA OU POSIÇÃO DO CADÁ VER 277

O savasana deve ser feito sobre uma base bem hori-


zontal, plana e relativamente dura. A cama, portanto, de-
ve ser excluída, salvo total impossibilidade de acomodar-se
de outro modo. Dois cobertores, dobrados ao longo, colo-
cados no solo, são muito bons para fazer o exercício.
Também pode-se utilizar com vantagem uma fina camada
de borracha, recoberta com uma lona e um cobertor.
P osição: A posição consiste em ficar deitado em de-
cúbito dorsal, ou seja, de boca para cima, com os pés algo
separados em posição perfeitamente natural e os braços
também algo separados do tronco, com as palmas das
mãos para cima e os dedos um pouco dobrados com na-
turalidade.
É necessário observar certas minúcias para atingir
ma is rapidamente o resultado final. Um a delas é verificar
que a coluna vertebral fique na posição mais plana pos-
sível, isto é, é conveniente que o maior número possível de
vértebras toque no solo. Referimo-nos, está claro, à região
lombar que aqui, como dissemos ao tratar da respiração
abdominal, convém fique em linha reta às restantes vér-
tebras. Um pouco de prática tornará possível conseguir
isto comodamente. O sinal de que tal foi conseguido é
que a respiração surge espontaneamente na forma abdo-
minal, com sensação de liberdade, comodidade e plenitude.
Outro detalhe que a prática demonstra ter importân-
cia é a posição da cabeça. Com efeito, uma pequena va-
riação n a inclinação da cabeça para frente ou para trás,
pode entorpecer ou facilitar o relaxamento. Há uma po-
sição precisa, em que a cabeça fica otimamente colocada,
a fim de que o sangue circule sem qualquer obstáculo e a
respiração possa prosseguir seu curso sem a menor difi-
culdade. Cada qual tem que procurar, por si mesmo, a po-
sição exata que, geralmente, exige tão-somente uma va-
278 HATHA-YOGA

riação de poucos milímetros sobre a que foi adotada no


primeiro momento.
No Yoga se prescinde completamente de almofadões
e de outros meios artificiais para serem colocados sob os
joelhos, os braços ou o pescoço, como vimos ser aconse-
lhado em algumas técnicas ocidentais de relaxamento.
A cabeça tem que ficar apoiada no mesmo plano que o
restante do corpo, sem almofada alguma. A experiência
demonstra que, deitado numa superfície horizontal, e
cumprindo-se as demais condições gerais, pode-se conse-
guir um relaxamento perfeito.
A boca mantém-se naturalmente fechada, ainda que
a mandíbula inferior, ao relaxar-se os músculos do rosto,
fique sempre algo caída.
Os olhos são mantidos semicerrados ou completa-
mente fechados. Nesta fase elementar do relaxamento,
aconselhamos mantê-los semicerrados para contrariar a
tendência do principiante de permanecer dormindo.
Mostra a experiência que, no começo do relaxamento,
nos poucos minutos de permanência na posição indicada,
sente-se, freqüentemente, imperiosa necessidade de movi-
mento. Tal necessidade, que é psicológica e não física,
deve ser combatida e dominada até que desapareça. Não
obstante, se se praticaram, previamente, alguns asanas de
esforço, essa necessidade de movimento não surgirá. O des-
canso, então, torna-se a continuação natural do exercício.
R espiração: Ao iniciar o relaxamento faça sempre
duas ou três respirações completas. Depois passe a fazer
respiração natural abdominal, embora sem forçá-la. M an-
tenha esta respiração, que se irá tomando, por si mesma,
mais lenta e profunda, à medida que se integre no estado
de relaxamento e que voltar a ser mais ligeira quando
o estado seja também mais superficial. Ao desejar termi-
nar o exercício de relaxamento faça sempre duas ou três
respirações integrais antes de tentar mover-se.
SAVASAN A OU POSIÇÃO DO CADÁVER 279

Não interrompa nunca bruscamente o relaxamento


sem fazer antes estas respirações completas. O afasta-
mento ou aproximação consciente do corpo é sempre feito
mediante estes dois elementos: mente e respiração. Sua
ação há de ser, a todo momento, suave e gradual.
A t i t u d e m e n t a l : A atitude mental é o eixo do relaxa-
mento consciente, como o é também de todos os demais
exercícios de Yoga. A mente consciente precisa chegar a
ser o elemento dinâmico e diretor de tudo quanto esteja
sob ela: corpo físico, etérico ou prânico e estado emocional.
A atitude mental, ao longo de todas as fases elemen-
tares do relaxamento, consiste tão-somente em manter a
atenção perfeitamente desperta e tranqüila com a idéia
constante de afrouxar e relaxar cada vez mais todos os
músculos do corpo.
Vejamos agora, minuciosamente, a execução prática
de cada uma das fases do relaxamento geral consciente.
1.ª FASE: Consciência física periférica. Depois de sen-
tir-se deitado e respirando, afrouxe todos os músculos dos
quais esteja consciente, com um gesto interior de soltar,
de afrouxar, de deixar ir. A cada expiração vá repetindo
esta atitude de afrouxamento geral que é o mesmo que fa-
zemos quando, muito cansados, podemos afinal estender-
mo- nos na cama, e nela nos “deixamos cair”. Mantenha
clara, na mente, esta idéia de afrouxar, soltar, relaxar, a
cada nova expiração. Quando sentir todo o corpo tranqüi-
lo e repousado, terá conseguido fazer a primeira fase. Em
alguns casos isso exige vários dias de tentativa perseve-
rantes; chega-se a ela, porém, com toda segurança.
2.ª FASE: Consciência prânica ou de formigamento.
Esta se apresenta por si mesma quando a fase anterior
ficou bem estabelecida.Insensivelmente, vai desaparecen-
do a percepção física geral do corpo, substituída por uma
280 HATHA-YOGA

percepção mais interior, que se converte, em seguida, num


formigamento ou ligeira vibração, como se o corpo esti-
vesse atravessado, ou melhor, constituído por sutil corren-
te elétrica. Esta percepção começa a ser notada primeira-
mente nas mãos e nos pés, depois nos braços e pernas e
vai se estendendo, pouco a pouco, por todo o tronco e pela
cabeça. Para chegar a esta fase não há nada de especial
a fazer, já que ela é a continuação natural do primeiro
estágio. Ocorre, com freqüência, que a observação do
formigamento só pode ser conseguida nas extremidades e
se passa à fase seguinte sem que ela haja se generali-
zado por todo o corpo. Mesmo quando isto é devido a
uma falta de relaxamento regular dos músculos do tronco
e da cabeça, não se lhe deve dar demasiada importân-
cia, posto que, na fase seguinte, obter-se-á igualmente
esse afrouxamento geral.
3.ª f a s e : Consciência sensitivo-emotiva. Quando lhe
parecer que não pode relaxar conscientemente nenhum
músculo a mais, dirija, então, sua atenção ao ritmo respi-
ratório, sem fazer nada, somente percebendo-o, seguindo-o
e sentindo-o passivamente. Quando esta atitude de espec-
tador for conseguida, então, com muita suavidade, “pense”
que a respiração se faz mais lenta, tranqüila e profunda.
Não faz mal forçá-la ativamente. Verá como a respiração
segue sem perceber esta indicação da mente. Volte, ago-
ra, à idéia de afrouxar mais, soltar mais, afrouxar, sol-
t a r . .. Como conseqüência desta atitude, começará a
notar ser invadido por extraordinária sensação de placi-
dez e de bem-estar, o que se experimenta principalmente
no plexo solar, na região cardíaca e na cabeça.
Como se pode ver, todo o processo consiste na combi-
nação destes três elementos: a ação constante de afrouxar
mais e mais; fazer uma respiração abdominal lenta, tran-
qüila e profunda, e conservar a mente desperta e serena,
com a idéia sempre presente de maior relaxamento geral.
SAVASANA OU POSIÇÃO DO CADÁVER 281

Com isto pode-se dar por conseguido o estágio ele-


mentar do relaxamento geral. Embora até aqui não se
haja falado em controle mental, que virá nas fases se-
guintes, comprovar-se-a que a mente, ao chegar ao final
da terceira fase que descrevemos, está mais calma, mais
tranqüila, como se se pensara há muito tempo e como
se o próprio ato de pensar não tivesse, nesses momentos,
grande importância.
este grau de relaxamento já basta para assegurar
todos os benefícios de tipo físico e afetivo que assinala-
mos na parte teórica.
4 .ª f a s e : A autoconsciência mental. Um a vez que se
consiga facilmente os estados de placidez e de bem-estar
gerais, próprios da terceira fase do relaxamento consciente,
pode empreender-se, com êxito, o estágio superior, que se
Inicia com o relaxamento mental ou controle do pensa-
mento. Tentar abordar esta fase sem haver conseguido
ultrapassar as anteriores, é submeter-se a um esforço tão
penoso quanto inútil. Mas, se inicia o controle da mente
após haver dominado os demais níveis, surpreender-se-a
com a facilidade com que consegue o controle do próprio
processo de pensar, que tão difícil, senão impossível, pa-
rece ao desconhecedor prático do Yoga.
Estando na terceira fase do relaxamento, dirija sua-
vemente a atenção para seus próprios pensamentos. As-
sim como, na terceira fase, “olhava” tranqüilamente o
ritmo respiratório, “olhe” agora sua própria atividade
mental, sem fazer nada, sem querer mudá-la nem supri-
mi-la, somente como espectador passivo, que assiste ao
espetáculo das idéias e imagens que vão e vêm, sem inter-
vir nelas com qualquer objetivo, nem sequer para valo-
rizá-las ou julgá-las. Verá que isto é muito fácil de se
conseguir sem grande esforço. Quando esta atitude de
espec t ador estiver firmemente estabelecida (o que pode ser
282 HATHA-YOGA

conseguido aos dez ou quinze dias após o início desta


quarta fase de relaxam ento), ordene à mente que, desde o
mais profundo, mantenha-se silenciosa. “Queira” , sim-
plesmente, que tudo se tranqüilize, que a mente fique lim-
pa, tranqüila e silenciosa. Repita duas ou três vezes, muito
sutilmente, mas de modo claro, a ordem: silêncio, mais
silêncio, silêncio profundo, silêncio. . .
No máximo ao segundo ou terceiro ensaio, conseguirá,
pelo menos por instantes, um silêncio completo da mente.
Silêncio que será o efeito de um aprofundamento real
da consciência e não de uma imobilização artificial o
forçada da mente. Quando sentir esse silêncio mental
em estado de perfeita lucidez exigida pelo relaxamento
consciente, um novo nível de consciência emergirá do fun-
do da personalidade. A primeira impressão que se expe-
rimenta ao conseguir realmente esse silêncio mental cons-
ciente é sentir-se imensamente livre, ou talvez fosse mais
adequado dizer, sentir-se como libertado. Tem-se, ao
mesmo tempo, a evidência de estar em contato com algo
mais grandioso, imenso, vivo e poderoso do que tudo quan-
to conhecia até então.
esse estado poderá ser renovado uma vez ou outra,
até que, muito lentamente, então, ir-se-a fixando no mais
profundo da consciência vígil. Aqui começa a funcionar
a atenção central no próprio nível mental. A partir deste
momento, deixa de depender-se da própria atividade
mental: principia-se a ter consciência de um nível da
própria realidade, mais além do pequeno mundo das for-
mas mentais de tipo pessoal (que são as únicas que nos
preocupam), formas estas que poderão começar a ser ma-
nejadas à vontade. O controle do pensamento começa a
ser um fato em todos os momentos do dia.

5.ª fase: Consciência da obscuridade, do vazio. Esta


quinta fase é exatamente o efeito do prolongamento da
SAVASANA OU POSIÇÃO DO CADÁVER 283

anterior. A impressão de silêncio transforma-se aqui, por


si só, na percepção duma obscuridade crescente e de um
vazio cada vez mais ativo. A realidade grande e viva que
começa a perceber na quarta fase adquire aqui estranho
vigor. É algo que parece negar toda a noção de vida, tal
como a conhecemos: é vasto e imenso e, entretanto, vazio
e escuro; é vivo e poderoso e, no entanto, perfeitamente
desconhecido; é inteligente e, apesar disso, não compreen-
demos absolutamente nada de sua natureza. A mente
lendo a agarrar-se às velhas experiências e aos estados ha-
bituais e, não obstante, sente a imperiosa necessidade de
ir à frente, de soltar tudo quanto ainda esteja preso e pe-
netrar nesse mundo misterioso novo e desconhecido. Quan-
do a mente afrouxa um pouco mais, tem-se a impressão
de estar caindo num abismo negro e sem fundo. Trata-se,
evidentemente, apenas de um estado subjetivo, conseqüen-
te no afrouxamento, por momentos, das fortes identifica-
ções de nossa consciência, em seus estratos profundos com
as velhas experiências de nossa vida elementar. Não existe
qualquer perigo nesta descida ao interior se a mente per-
manecer centrada em seu próprio nível mental, isto é, se
conseguir manter a atenção central como núcleo consis-
tente e integral ao longo de toda a experiência. É dificí-
limo descrever exatamente esses estados e experiências.
Mas quem chega ou esteja próximo, compreenderá do que
se tra ta. Não há, porém, forma possível de comunicá-las
aos outros. Dizíamos não haver perigo algum nessas ex-
periências quando se consegue manter perfeita coesão
mental ou ponto integrado da atenção. É este ponto que
torna possível que, em qualquer momento, se possa retro-
ceder na experiência. É ele que nos permite controlar a
situação. Se esta unidade de atenção não estiver presente,
deve-se renunciar completamente a este tipo de experiên-
cias e estados: é que a personalidade não está suficiente-
mente integrada no nível da mente.
284 HATHA-YOGA

6.ª f a s e : Consciência de luminosidade, de plenitude


Pouco podemos dizer sobre esta fase, além de afirmar sua
existência. D a mesma maneira que a noite sucede ao dia,
às trevas interiores segue-se a luz interior da alma. Este
estado subjetivo, embora dentro de uma ordem perfeita-
mente natural, parece corresponder à experiência de " si
mesmo”, a uma evidência imediata, como objeto da rea li-
dade espiritual da alma. Nada mais poderemos dizer. Acres-
centaremos tão-somente que depois, ao “nos encaixarmos”
perceberemos, com espanto, a estranha limitação em que
habitualmente vivemos dentro do minúsculo e emaranha-
do mundo dos próprios pensamentos e desejos pessoais.
Algumas pessoas alheias a estes estados não deixarão
de ver, em tudo isto, perigosos desvios ou definidos trans-
tornos mentais. Existe uma norma que permite apreciar,
com bastante segurança, se a pessoa progride ou retroce-
de, se realmente cresce ou se desvia, se alcança um nível
criador ou de desvario. . . A pessoa que progride, que cres-
ce interiormente, apresentará maior capacidade para com-
preender, aceitar e comunicar-se no mundo de seus seme-
lhantes. Viverá interiormente com maior paz e alegria,
sentindo-se, ao mesmo tempo, mais próximo do coração
de seu irmão. Adaptar-se-a melhor a qualquer circuns-
tância e, não obstante sua influência pessoal, sua irradia-
ção interior se afirm ará cada vez mais fortemente. Dei-
xará de depender interiormente de pessoas e coisas e cada
vez mais se sentirá mais unido, mais compenetrado a tudo
quanto vive e respira. Desaparecerá de seu interior todo
temor e toda insegurança, substituídos por um crescente
amor e uma sincera religiosidade.

E, agora, voltemos à “técnica”.


D uração : Pode manter-se o estado mental indicado,
isto é, se não se cair em inconsciência, pode manter-se o
exercício durante o tempo que se desejar. Mas, como
S AS A N A OU POSIÇÃO DO CADÁ VER
V
A 285

exercício especial de descanso e de recuperação, quinze a


trinta minutos são suficientes. Permitimo-nos recomen-
dar, não obstante, e se se dispuser de tempo, aumentar-se
até uma hora o tempo dedicado ao savasana, embora par-
tindo no início dos quinze minutos e aumentando, pro-
gressivamente, sua duração, até chegar ao tempo limite
de uma hora.
Q u a n d o p o d e s e r p r a t i c a d o : O melhor momento para
a prática do savasana de grande duração é, sem dúvida
alguma, depois de fazer os asanas. Mas também entre um
e outro asana é conveniente praticar alguns instantes o
savasana como descanso, até que, tanto a respiração como
o ritmo cardíaco, estejam totalmente normalizados e se
possa prosseguir com o asana seguinte.
Sempre que se estiver fatigado fisicamente, deve-se
praticar o savasana durante quinze ou vinte minutos e
comprovar-se-a sua enorme capacidade de recuperação.
E, finalmente, pode-se praticá-lo sempre que se deseje, já
que não apresenta contra-indicação alguma para a pessoa
sã, salvo os deveres do próprio estado...
F enôm enos que podem s u r g ir durante o relaxa-

A experiência própria e a alheia ensinou-nos que,


m en t o :

durante a prática do relaxamento geral consciente, podem


surgir alguns fenômenos que, embora não tenham conse-
qüências, podem momentaneamente assustar ou descon-
certar o principiante. Vejamos os mais freqüentes.

1. Pequenas sacudidas nas extremidades. Ocorre a


princípio, sentirmos, algumas vezes, como se uma perna
ou um braço dessem, subitamente, um salto, como con-
seqüência de uma descarga nervosa. Tal fenômeno não
tem importância alguma. Pode ser devido a um estímulo
de correntes nervosas ou a estancamentos prânicos que
perturbam a circulação. Melhorando esta, graças ao re-
laxamento, produz-se pequena descarga libertadora. Com
286 HATHA-YOGA

um pouco de prática, desaparece completamente este tipo


de sacudidas.
2. Fenômenos sensoriais subjetivos. Acontece a de-
terminadas pessoas, quando quietas, principiar a ver ros-
tos ou paisagens, uns conhecidos, outros não. este fenô-
meno é sempre devido, durante o relaxamento consciente,
a que não se conseguiu manter a atitude mental positiva
certa. Quando a mente está ocupada em fazer algo de-
finido, não há lugar para visões de qualquer espécie.
Recomendamos ao estudante de Hatha-Yoga não se deixar
levar por este tipo de percepção, a não ser que o faça com
a autorizada supervisão de um a pessoa competente nesta
matéria. Tais visões desaparecerão completamente quan-
do se procura tornar a mente mais ativamente desperta,
regulando a todo momento o que se está fazendo e man-
tendo-se os olhos semi-abertos.
Outras pessoas percebem vozes ou música, e outras,
inclusive, sentem intensos e agradáveis perfumes. Tudo
isto não tem importância e, portanto, não é preciso dar-
lhe alguma. A este tipo de fenômenos é aplicável o mes-
mo que temos dito até aqui.
Outra coisa são certos sons que podem surgir preci-
samente quando se está mais atento e tranqüilo. Estes
sons, que têm várias modalidades, podem não ser produ-
to de nenhuma atitude errônea, podendo corresponder
à atividade vibratória de determinados centros prânicos
superiores.
Um a das formas de saber com certeza se efetivamente
é assim, é comprovar o seguinte:
1.° Que quanto mais “claro, desperto e tranqüilo” se
está, também mais claramente se percebe o som referido.
2.° Que quanto mais claro e intenso se percebe o
som, tende-se, de um modo natural, a um maior recolhi-
mento e elevação da mente.
SAVASANA OU POSIÇÃO DO CADÁVER 287

Se tal não acontece, então convém aplicar o que temos


dito no caso das visões. Se mesmo assim não desapare-
cerem os ruídos, convém deixar a prática do relaxamento
e consultar um neurologista.
3. Fenômenos de movimentos. Se, devido à circuns-
tância de ter deixado de estar atento, durante uns mo-
mentos, começar a notar como se o solo balanceasse, ou
como se tudo começasse a girar, faça o seguinte:
Em primeiro lugar, não se assuste: comprove simples-
mente o que está acontecendo; segundo, respire um pouco
mais profundo, aumentando a inspiração uma e outra vez
e, por último, faça uma inspiração completa e abra os
o lh o s. O mal-estar cessará por completo.

4. Fenômenos de imobilização. Se, devido também


a uns momentos de ausência mental, parecer-lhe encon-
trar-se repentinamente incapaz de poder mover-se, mesmo
querendo, faça o seguinte:
1.° Tranqüilize-se e não faça nenhum esforço nem
violência de qualquer espécie.
2.° “Pense” que quer fazer uma inspiração um pouco
mais profunda, duas ou três vezes.
3.° Tente aumentar, efetivamente, pouco a pouco,
as sucessivas inspirações.
4.° Faça uma inspiração completa, ainda que suave.
5.° Faça uma inspiração completa, profunda e abra
os olhos.
Ao fim de uns quatro ou cinco segundos haverá ces-
sado por completo o estado anormal.
C a p ít u l o VIII

CONSELHOS PRÁTICO S E SUGESTÕES

1. Não espere nem tente conseguir desde os primei-


ros dias a execução completa dos asanas. U m período de
treinamento progressivo, que pode variar desde alguns
dias a várias semanas, é totalmente necessário para a
maior parte dos exercícios.
2. Por muito entusiasmo que tenha, não queira con-
seguir, de um a vez, a perfeição de todos os asanas que
pratique. Vale mais dedicar-se a fundo a trabalhar um
ou dois deles, durante umas semanas, e praticar os outros
como complemento.
3. Evite o entusiasmo demasiadamente excessivo, já
que isto o fará usar mais esforço que o conveniente nas
primeiras sessões do Yoga. Recorde que o êxito nos asanas
não depende precisamente do esforço físico por si mesmo,
mas que a atenção, o relaxamento e a lentidão são de
máxima importância.
4. Os asanas são feitos com maior liberdade ao meio-
dia ou à tarde do que pela manhã, depois de levantar-se.
Sem embargo é muito conveniente que os exercícios de res-
piração e o uddiyana se façam também pela manhã.
290 H A T H A - Y O GA

5. Deixe transcorrer sempre meia hora, no mínimo,


entre os exercícios de Yoga e as refeições.
6. Nunca comece nenhum exercício sem que haja
decorrido, no mínimo, hora e meia depois das refeições
leves e três horas e meia após as refeições pesadas.
7. Nunca comece os asanas ativos se está cansado ou
com mal-estar físico. Descanse primeiro e tranqüilize-se,
8. É conveniente a toda pessoa que sofra de qual-
quer enfermidade, no presente, ou que haja padecido
anteriormente algum distúrbio, que possa haver deixado
debilitado algum órgão do corpo, abster-se de praticar, por
sua conta, os exercícios de Yoga, e especialmente os que
exigem maior esforço. Consulte antes um médico.
9. Depois dos asanas, não tome ducha imediatamen-
te, se for possível. Espere, no mínimo, meia hora.
10. Se, por algum motivo, devem interromper-se os
exercícios durante algum tempo, ao recomeçá-los deverão
fazer-se de novo com duração reduzida, ainda que a me-
dida completa possa ser alcançada com maior rapidez.
11. O praticante do Yoga deve chegar ao fim dos
exercícios totalmente fresco, tranqüilo e animado. Qual-
quer sintoma de debilidade ou cansaço, indica que os exer-
cícios foram feitos defeituosamente ou em doses excessivas.
12. Entre um e outro asana é conveniente fazer o
descanso suficiente para que o ritmo respiratório e o car-
díaco estejam completamente normalizados. Convém ter-
minar a série dos asanas com o savasana.
13. Será bom iniciar e terminar a sessão de Yoga
com algumas respirações completas.
14. Escolha os exercícios que deva fazer de acordo
com o tempo de que disponha. Porém, uma vez escolhidos,
não os troque diariamente.
CONSELHOS PRÁTICOS E SUGESTÕES 29 1

15. N a escolha, procure fazer que os diversos asanas


se complementem mutuamente, de modo que todas as re-
giões do corpo participem dos exercícios.
16 . De qualquer maneira, sejam poucos ou muitos os
exerc íc i os selecionados, convém que em cada sessão figu-
rem, no mínimo, os seguintes: respiração completa, uddi-
yana, sarvangasana, shirshasana e savasana.
17. Não há inconveniente, dispondo-se de tempo su-
ficiente, que se façam duas sessões diárias de Yoga.
18. É boa tática praticar diariamente os exercícios
indicados no n.° 16, e acrescentar alguns outros que se
pode ir variando, por exemplo, cada quinze dias.
19. H á alguns exercícios que, pelas semelhanças que
apresentam entre si em algum sentido, podem ser per-
mu tados, de quando em quando. Por exemplo, o pasch-
mottanasana e o padahastasana; o sarvangasana e o vipa-
ritakarani; o matsyasana e o supta-vajrasana.
20. Alguns períodos de descanso entre dois asanas,
podem ser dedicados à prática de exercícios preparatórios
do padma ou do siddhasana.
21. Se faz sessão de Yoga à noite, abstenha-se de
praticar uddiyana-bandha, mayurasana, kapalabhati e
bhastrika. É muito possível que estes produzam insônia.
22. Use sempre seu discernimento e sentido comum,
tanto para escolher como para executar os exercícios.
23. Aprenda a ouvir a voz de sua mente instintiva
com discernimento, distinguindo-a com clareza de todo
capricho, preguiça e compulsão. Ela indicará com cres-
cente clareza o que lhe convém fazer em cada momento e
como deve fazê-lo.
24. Como peça de roupa, use um simples slip ou um
calção de esporte que não dificulte nenhum movimento
nem aperte a cintura. Porém, em tempo frio, use sempre
292 HATHA-YOGA

um bom “jersey” amplo e calção largo para evitar resfria-


do durante os momentos de descanso.
25. Se puder praticar os exercícios de Yoga ao ar
livre, muito melhor. Porém, sob a condição de estar só.
O fato de haver gente dificultaria manter a correta ati-
tude de atenção e relaxamento mental.

26. O matsyasana deve ser feito sempre imediata-


mente depois do sarvangasana, já que o complementa,
e o savasana depois do shirshasana, pelo mesmo motivo.
Por isto convém fazer estes dois últimos asanas no fim
da sessão.

27. As senhoras e senhoritas que praticam os exer-


cícios de Yoga convém fazê-lo sem creme nem maquila-
gem de nenhuma espécie, já que isto dificultaria a livre
transpiração através da pele.

28. Nos primeiros dias da prática de Yoga notará


uma notável mudança em seu estado de ânimo. Depois
no fim de umas semanas, parecer-lhe-a que já não expe-
rimenta mudança alguma. É que, no princípio, a ação
era especialmente exterior ou superficial. Depois, o tra-
balho se realiza em zonas mais profundas do corpo e da
psique, e por esta razão não é de estranhar que não se
percebam as mudanças que, sem dúvida alguma, estão se
produzindo constantemente.
É preciso perseverar na prática, sem fazer muito ca-
so das flutuações de nossa sensibilidade, que, com o
tempo, deixarão seu lugar para um estado permanente
de solidez e serenidade.
29. Se o estudante de Y oga pratica oração e medita-
ção — e isto é muito de se desejar — é conveniente que
as faça depois dos exercícios de pranayama. Notará como
atinge a um recolhimento muito maior. A ordem das prá-
ticas diárias será, pois: asanas, pranayama e meditação.
CONSELH O S PRÁTICOS E SUGESTÕES

OS EXERCÍCIOS DE YOGA PARA AS MULHERES

Todos os exercícios descritos até aqui podem ser p ra-


ticados indistintamente tanto por homens como por mu-
lheres, desde que seu estado de saúde seja completamente
normal. No caso de sofrer de algum distúrbio deve ser
procurada a devida orientação.
Não obstante, as mulheres farão bem em suspender
os exercícios de Yoga, especialmente os de posição inver-
tida e os de esforço abdominal, durante as regras e o pe-
ríodo de gestação.
Quanto à duração dos exercícios, pode ser inicialmen-
te a mesma que a indicada anteriormente no seu devido
lugar, mas seu aumento progressivo deve ser algo mais
suave e mais lento que o indicado para os homens.

As CRIANÇAS PODEM FAZER YOGA?

Embora o mais saudável para as crianças seja mover-


-se, correr e pular livremente segundo seu próprio impulso
natural, os inconvenientes da vida citadina impedem ou
dificultam quase sempre que essa necessidade física possa
satisfazer-se suficientemente. Por isso, é bom que a crian-
ça da cidade faça também alguns exercícios de Yoga.
Além das vantagens físicas que derivam naturalmente dos
asanas, estes ser-lhe-ão úteis para aumentar seu controle
neuromuscular e desenvolver seu sentido de disciplina.
As crianças dos sete aos doze anos deverão limitar-se
estritamente aos seguintes exercícios: dhanurasana, bhu-
j angasana, ardha-salabhasana, paschimottanasana, hala-
sana e Yoga-mudr a. Evidentemente, elas devem evitar,
mais que os adultos, esforço e violência na execução.
Dos doze aos dezesseis anos, os exercícios podem ser
estendidos aos seguintes: dhanurasana, bhujangasana, ar-
294 H A T H A - YOGA

dha-salabhasana, halasana, paschimottanasana, ardha-


matsyendrasana, Yoga-mudra, viparita- karani; e, como
exercícios respiratórios, respiração completa e ujjayi.

P lano de e x e r c íc io s de Y oga

é necessário que antes de começar a praticar os asa-


nas e o pranayama elabore-se um quadro ou plano em que
figurem, por ordem, os exercícios selecionados.
A seguir, apresentamos alguns desses quadros, a títu-
lo de orientação.

P LA N O BÁSICO DE EXERCÍCIO S DE Y O G A , PARA P E S -


SOAS DE BO A SAÚDE, CO M PREENDIDAS ENTRE OS
D EZO ITO E OS Q UA R E NTA ANO S DE IDADE

Duração aproximada: 45 minutos

1. Respiração integral 5 vezes


2. Uddiyana-bandha 5 vezes
3. Paschimottanasana 5 vezes
4. Bhujangasana 3 vezes
5. Shalabhasana 3 vezes
6. Dhanurasana 3 vezes
7. Sarvangasana 6 minutos
8. Matsyasana 1 minuto
9. Shirshasana 5 minutos
10. Savasana 10 minutos
11. Sukha purvak 5 respirações
12. Kapalabhati 3 voltas

duração inicial de cada exercício há de ser a indi-


cada no texto e há de atingir o tempo indicado no quadro
precedente de maneira progressiva e sistemática.
CONSELHOS PRÁTICOS E SUGESTÕES 295

BREVE P LA N O D E EXERCÍCIO S DE Y O G A

Duração aproximada: 25 minutos

1. Respiração completa 3 vezes


2. Uddiyana 3 vezes
3. Paschimottanasana 3 vezes
4. Sarvangasana 5 minutos
5. Matsyasana 1/2 minuto
6. Shirshasana 3 minutos
7. Savasana 5 minutos
8. U jjayi 7 respirações

estes quadros de exercícios podem ser feitos também


duas vezes por dia. Neste caso poder-se-ia fazer o plano
breve pela manhã e o básico à tarde.
Ca p ít u l o I X

VIDA NATURAL, ALIMENTAÇÃO


E SEXUALIDADE

A T IT U D E correta do homem diante da vida, sob o


A ponto de vista do Hatha-Yoga, pode ser resumida
em pouquíssimas palavras: vida simples, em permanente
contato com a Natureza, aprendendo a conhecê-la melhor,
a obedecer as suas leis e a colaborar com ela em sua cons-
tante ação criadora. Abundância de água, de sol, de ar.
Passeios, exercícios e entretenimentos ao ar livre. Cultivo
da terra, sob a forma de um a pequena horta ou jardim.
Deitar-se cedo e levantar-se com o sol. Alimentação sim-
ples e sadia, de tipo exclusivamente vegetal. Não ter medo
da solidão dos homens, nem da companhia de D e u s ...

Quão longe estamos de tudo isso! Porque aqui, no


Ocidente, a cidade cada vez mais nos afasta do campo; a
civilização nos afasta da Natureza e a cultura nos afasta
da simplicidade. O Ocidente está fugindo da Natureza, de
sua natureza; está se desnaturalizando. E isto produz, a
crescente perturbação mental e moral que angustia em
conjunto todo o Ocidente em forte contraste com seu ex-
traordinário desenvolvimento técnico e cultural.
300 HATHA-YOGA

É necessário que o homem ocidental redescubra que


continua sendo um rebento dessa mesma Natureza tão
profundamente descrita nos livros; que está submetido às
suas leis e que, como criatura natural, nutre-se de sua
seiva vital em comunidade com os demais seres da cria-
ção; que compreenda que somente se pondo em contato
direto com a Natureza, viva e sincera, encontrará o frag-
mento de si mesmo que permanece esquecido em seu in-
terior e que ele anda procurando às cegas por entre a
selva, morta e enganosa, da cidade.

Surgem assim, muitos problemas que não passam de


sintomas deste viver limitado e artificial do homem, sem-
pre afastado de sua própria natureza. Perdeu ele o sen-
tido inferior das sadias necessidades naturais e começou
a viver com hábitos nocivos para o corpo, do mesmo modo
que, por haver se esquecido de Deus, deificou seus p r ó p r i o
problemas — seus desejos e seus temores — e ameaça dei-
xar morrer de consunção a própria alma espiritual.
Trataremos aqui, apenas e muito brevemente, de dois
desses problemas: o da alimentação e o da vida sexual.

Nos ensinamentos das diversas escolas de Yoga, é


tradicional que a alimentação que o sadhaka deve ingerir
precisa ser sattvica, isto é, exclusivamente vegetal. Pois
bem, antes de tomar qualquer decisão neste sentido é con-
veniente considerar duas coisas.

Primeiro, que na Índia, praticar Yoga significa con-


sagração completa a ele, fazer dele o centro de toda a
vida do aluno. Não é uma prática complementar, mais
ou menos importante, mas marginal. É converter-se
num iogue. Daí o fato de que somente os ocidentais que
desejam dedicar-se completamente ao objetivo do Yoga
superior, podem considerar-se incluídos dentro desta nor-
ma dietética.
VIDA NATURAL, A L IM E N T A Ç Ã O E... 301

Em segundo lugar, é preciso ter-se em conta que no


tipo de alimentação influem poderosamente, entre muitos
outros, os fatores climáticos, a tradição cultural, o tipo
ocupação a que o indivíduo se dedica, etc. Assim, por
exemplo, nos países muito frios não se pode prescindir,
praticamente, de gordura animal, mesmo porque nesses
paises é habitual escassear ou faltar por completo muitos
produtos importantes de tipo vegetal. Contudo, somente
queremos observar que a questão do regime exclusivamen-
te vegetal não é assunto tão simples como muitos entu-
siastas vegetarianos pretendem. Tampouco, sob o ponto de
vista médico, está claramente definida a questão de saber
se o regime vegetariano é superior ao misto.
Como estamos falando sob o ponto de vista do Yoga,
em relação com os princípios ou normas mais adequados
para uma vida integralmente sã, resumiremos o critério
que nos parece mais sensato, da maneira seguinte:
1.° Pelo único fato de fazer um regime exclusiva-
mente vegetariano, ninguém alcançará a perfeição física
nem moral.
2.° Em determinadas etapas do trabalho interior so-
bre o Yoga, o regime exclusivamente vegetal parece ser
inteiramente indispensável.
3.° t o d a mudança brusca no tipo de alimentação,
particularmente quando imposta por súbita decisão do
discípulo, possivelmente pode produzir diversos distúrbios
na saúde.
4.° Que toda mudança de conduta no mundo físico,
pura ter autenticidade e valor, há que surgir como con-
seqüência automática, sem esforço, de uma mudança sub-
jetiva ou interior, real e estável. Mudam-se, então, as
necessidades orgânicas e o gosto se desloca insensivelm en-
te para o que corresponde ao novo estado.
5.° Que enquanto tal mudança não faz sentir sua
presença, o melhor é cada qual seguir o mesmo regime
302 HATHA-YOGA

alimentar que faz no momento, se observa ser ele bom


para a saúde, ainda que seja aconselhável evitar toda
espécie de excesso de alimentação e, especialmente, do
seguinte:
a) Bebidas alcoólicas. b ) Carnes e pescados, c) Co-
midas fortemente condimentadas. d) Café, chá e fumo.
e) Bebidas geladas ou muito quentes.
E sobre a função sexual, qual a atitude do Yoga?
Neste sentido, todas as escolas de Y oga coincidem em re-
comendar a castidade como requisito indispensável para
a prática efetiva da fase superior do Yoga. Castidade que
não quer dizer precisamente total abstinência, mas uso
estrito da função sexual para a procriação. E nas etapas
mais elevadas, inclusive a abstinência total é de absoluta
necessidade.
Evidentemente, tal parecerá, a muitas pessoas, exage-
rado ou de cumprimento muito difícil por parte de pes-
soas normais. Vejamos o problema mais de perto.
Não há dúvida de que o impulso sexual constitui sério
problema para todo aquele que sente a necessidade de agir
de acordo com sua consciência moral, com a moral cristã
em geral, e com a católica, em particular. Mas, será esse
problema realmente de tão difícil solução? Já dissemos na
Introdução deste l ivrinho, ao discorrer sobre a u t i l i d a de
do Yoga para o homem religioso, que ela produz, dentro
da personalidade, uma transformação real de energias que
torna muito mais factível o controle do impulso sexual,
sem necessidade de fazer restrições mórbidas, nem procu-
rar compensações artificiais de qualquer tipo. É que o p ro-
blema do sexo, conquanto problema, não é precisamente
sexual. A fraqueza da carne não é, para começar, nenhu-
m a fraqueza da carne. É mais debilidade da capacidade
de estar bem desperto, atento, consciente dos níveis pes-
soais profundos e superiores. É a mente-vontade que está
VIDA NATURAL, ALIM ENTAÇÃO E. 303

quase sempre apagada ou à meia-luz. E é quando se vive


neste estado semi-obscuro ou sonolento, que todos os as-
pectos da vida, que deveriam ser vividos através do senti-
mento e da mente, não encontram facilmente o seu pró-
prio caminho, desviando-se para as zonas mais elemen-
tares do psiquismo, produzindo um estímulo artificial do
mundo vegetativo; necessidade de sentir a sensação de
comer, de beber, de prazer sexual. Todo sentimento ou
pensamento que não pode se extravazar pelo coração ou
pela mente, tenta extravazar-se pelo estômago ou pelos
órgãos genitais. É sempre a vida não vivida nos níveis
conscientes superiores, e que deveria tê-lo sido, que supera-
limenta os níveis vegetativos inferiores, através do incons-
ciente. Portanto, a fraqueza da carne é, na realidade, su-
peralimentação artificial da carne.
N a nossa sociedade, o sexo se converteu em argumen-
to secreto da vida, como se toda a sociedade humana hou-
vesse permanecido fixada, pregada, presa à adolescência;
argumento que está por trás da maior parte das ativida-
des privadas do homem: espetáculos, artes, passatempos,
modas, anedotas, anúncios, etc. De modo semelhante ao
dinheiro, ou à “economia”, passou a ser o argumento pú-
blico da vida, aceito pela sociedade. Como se a vida ne-
cessitasse de qualquer argumento para ter sentido, para
ter realidade e para ser plenitude.

Se vivessemos a vida plenamente, com todos os nossos


sentidos e com toda a nossa realidade, não teríamos ne-
cessidade de criar argumentos fictícios que nos ocultas-
sem e justificassem nosso mísero e lamentável modo atual
de viver. Sejamos sinceros, espontâneos, autênticos e cria-
dores de todos os atos da vida e todos os mecanismos
compensadores, assim como todas as mentiras torpemen-
te piedosas, se desvanecerão no mundo ilusório de maya
em que sempre estiveram.
304 HATHA-YOGA

O sexo é um problema e continuará sendo enquanto


o homem continuar tendo o complexo de castração, de
impotência espiritual. Somente quando o homem se afir-
ma e sente a si mesmo presente e potente no nível espi-
ritual, deixará de precisar afirmar-se constantemente nos
demais níveis inferiores. Mas ao mesmo tempo, somente
quando deixar de afirmar-se nestes níveis inferiores, po-
derá afirmar-se, por sua vez, nos superiores.
este duplo processo, à primeira vista contraditório,
pode ser realizado pelo homem verdadeiramente desperto,
mediante um ato de vontade, pelo qual, rogando a assis-
tência divina e afirmando sua própria realidade espiritual,
decide submeter seus mecanismos físicos e psíquicos a uma
transformação científica e completa tal como acontece
com a ação do Yoga.
Resumindo, diremos que o sexo constitui um intrinca-
do problema devido à circunstância de estar artificialmen-
te superestimulado por todos os impulsos criadores, espon-
tâneos, vivos e naturais, que deveriam ter se expressado
através dos níveis superiores: espiritual, intelectual, social
e afetivo, sem havê-lo conseguido por causa do defeituoso
desenvolvimento em amplitude, profundidade e intensida-
de da mente consciente e, portanto, também da vontade
Somente quando o homem conseguir afirmar sua
mente e vontade num nível espiritual, fazendo com que
sua consciência se aprofunde nos restantes níveis supe-
riores, poderá expressar os impulsos vitais de todas as
ordens através dos correspondentes níveis de um modo
ordenado, já que desaparecerão os superestímulos e as
compulsões de cada um deles. Para conseguir esta tríp lice
ação de despertar, aprofundar e elevar a consciência, a
prática inteligente e perseverante do Yoga, em qualquer
de seus tipos, é a maneira mais direta, científica e com-
pleta que se conhece.
C a p ít u l o X

INTRODUÇÃO À TERAPÊUTICA IOGUE

S e o Yoga tem tantas qualidades como as apontadas


no decorrer deste livro, é evidente que sua ação pode-
rá ser aplicada vantajosamente na normalização do
funcionamento do corpo, e inclusive da mente, quando
estiverem no estado anormal que denominamos “enfer-
midade”. Muitas dessas aplicações se depreendem já
claramente dos mesmos princípios subjacentes nos exer-
cícios de Y oga que foram descritos.
Vamos dar uma sucinta introdução ao que deveria
ser uma terapêutica iogue, levando em conta as atuais con-
cepções da Medicina Psicossomática e Antropológica, que
coincidem, em vários pontos fundamentais, com as antigas
doutrinas e experiências dos Yogas.

O CONCEITO DE ENFERMIDADE

Durante estes últimos anos, o conceito que se tinha


de enfermidade, evoluiu surpreendentemente. Graças à
306 HATHA-YOGA

contribuição dos mais variados ramos de especialidades


médicas, como Psiquiatria, Neurologia, Medicina interna,
etc., chegou-se a obter uma visão mais completa do ho-
mem, para o que também contribuíram não poucos soció-
logos e filósofos, de tal sorte que a enfermidade deixou
de ser vista como simples sintoma dum órgão ou de uma
função deficiente, para converter-se no sintoma duma
pessoa, no grito de alarme da personalidade total, no indí-
cio de um modo anormal de viver. Num a palavra: como
expressão da personalidade profunda, através de seu or-
ganismo físico e de sua mente.
Já afirmamos, em outro local, que a pessoa é consti-
tuída por uma grande diversidade de planos e de níveis,
todos em plena atividade e integrados numa unidade mais
ou menos harmônica. De todo esse conjunto de realidades
vitais, o homem somente percebe normalmente uma por-
ção muito pequena, a que denominamos consciente. É
nesta região que se acha entronizado o eu consciente, que
serve de ponto de referência para valorizar, manejar e
integrar as demais realidades do mundo vígil.
Mas detrás desse pequeno mundo consciente estão
outras imensas regiões que também são parte do homem,
e das quais somente de quando em quando têm-se notícia,
Assim, por exemplo, num momento de grande perigo no
qual surgem reações muito inteligentes mas em que a
pessoa não teve tempo de pensar nem de decidir conscien-
temente. Ou quando, noutra ocasião, invadem-nos senti-
mentos estranhos e intensos como, por exemplo, uma
grande admiração, uma nostalgia ou até uma forte agres-
sividade, sem motivos que o justifiquem suficientemente.
Também quando, de repente, se percebem claramente so-
luções a problemas que, durante muito tempo, havíamos
tentado inutilmente resolver, etc.
Poderemos considerar, em grandes traços, que exis-
tem três regiões nesse mundo inconsciente: um a região
INTRODUÇÃO A TERAPÊUTICA IOGUE 307

inconsciente relacionada com um nível sub-humano, no


qual jazem todos os impulsos animais e as experiências da
raça humana desde os tempos primitivos: é a sede do eu
inferior. Outra região que está à mesma altura, por assim
dizer, da vida consciente atual, e que é onde está centra-
da principalmente toda a dinâmica secreta da nossa vida
presente: e é aí que quase sempre se alimenta o eu super-
ficial. E, finalmente, existe outra região que está por ci-
ma do nível habitual de nossa consciência, onde estão os
aspectos superiores, espirituais, de nosso psiquismo para
a qual o homem consciente se dirige em busca de tudo
quanto considera como bom, belo e verdadeiro: é onde
reside o eu espiritual.
Por conseguinte, o homem é constituído pelo conjun-
to de todos esses níveis ou realidades vivas que, dotados
de energia vital e com tipos definidos de atividade, ten-
tam manifestar-se de um modo ou de outro. Dito de outra
maneira, a pessoa está sempre tentando expressar toda
sua natureza. Um a parte deste ato de expressar se rea-
liza através de seus mecanismos psicológicos conscientes
e a outra, a maior parte, se expressa através de seus me-
canismos inconscientes profundos.
estes mecanismos profundos emergem, por sua vez,
pura o exterior, seja através do nível psicológico, produ-
zin do alterações mais ou menos estranhas em seu psiquis-
mo, seja através do nível somático da personalidade, alte-
rando, então, eventualmente, o funcionamento fisiológico
de um modo mais ou menos forte. Mas, tanto num como
noutro caso, sempre existirá uma alteração do resto da
personalidade, posto que não existe transtorno orgânico
que não se corresponda com uma alteração psicológica e
vice-versa, ainda que exista o predomínio de um ou outro
dos dois setores.
Pois bem, uma vez que, de toda sua própria realidade
o indivíduo tão-somente percebe a pequena região cons-
308 HATHA-YOGA

ciente — conjunto de idéias, sentimentos, recomendações,


etc. — , todos os mecanismos profundos e seus resultados
aparecer-lhe-ão como algo totalmente estranho a si mesmo.
O indivíduo se encontra então com que uma enfermidade
ou um transtorno do caráter, aparece prontamente, de
maneira inexplicável, diante dele, isto é, ante o eu cons-
ciente, que não pode considerá-lo por menos que algo com-
pletamente alheio à sua própria atividade.
Vejamos um exemplo muito simples. Um a pessoa que,
desde a infância, viveu triste e afastada interiormente das
pessoas que a rodeiam, esforça-se, no entanto, em ser e re-
presentar o modelo da “criança boa” que lhe inculcam os
mais velhos: ser carinhoso, dócil, aplicado, desejando sem-
pre o bem e reprimindo todo sentimento hostil para o mun-
do que a não compreende. Esta criança sentirá a necessi-
dade imperiosa de romper, de vez em quando, este molde
externo de conduta imposto do exterior, para sentir-se um
pouco mais a si mesmo em seu interior, em sua esponta-
neidade. A idéia do “eu bom” e do “dever”, aceita cons-
cientemente, contrapõe-se à afirmação do eu espontâneo
que aparece em seguida como o “eu mau” , que ela tenta
conservar oculto no interior, reprimindo-o no inconsciente,
Ela quer “ser boa”, mas de vez em quando vem-lhe a idéia
e o impulso, “não se sabe de onde”, de fazer esta ou aquela
travessura, de desobedecer às ordens recebidas, de “esca-
par” à opressão do dever. Esta rebeldia, que faz também
parte do “proibido”, tentará reprimi-la no inconsciente'
Ao cabo de certo tempo, a criança terá somente consciên-
cia do seu desejo de ser melhor e de seu constante mal
-estar interno. Não poderá acompanhar o processo que se
desenvolve em seu interior: ela quer ser boa e, em certas
ocasiões, se sente “inexplicavelmente” má.
Se o problema é bastante intenso e persiste durante
o desenvolvimento pessoal, será freqüente que, já adulto,
INTRODUÇÃO A TERAPÊUTICA IOGUE 309

qualquer exigência externa mais forte que a habitual (d i-


ficuldades profissionais, econômicas, familiares, sociais,
etc.) provoque uma reação completamente desproporcio-
nada da tensão existente no interior, seja produzindo al-
terações no funcionamento do corpo (mal-estar geral ou
definidos transtornos funcionais), seja produzindo irrita-
bilidade ou depressão psíquicas, cuja origem a pessoa não
consegue descobrir, mas que não constituem senão um
protesto inconsciente da personalidade profunda diante
das novas obrigações e exigências do mundo exterior. Na
realidade, o indivíduo ( eu consciente) deseja cumprir tal
obrigação, mas acha que “não pode”, que algo lhe falta
e quanto mais se esforça conscientemente para superar a
dificuldade, maior resistência interior está criando, au-
mentando, assim, a intensidade do problema. Se exterior-
mente renuncia ao dever, então sua própria valorização
ante o mundo sofrerá um rude golpe, o qual, por seu tur-
no, exigirá novas tentativas e esforços para recuperar o
prestígio diante de si próprio e diante dos o u tro s... En-
contra-se enfim num verdadeiro círculo vicioso do qual
ser-lhe-á muito difícil sair sozinho.
O homem é, portanto, de certa forma, autor, ator e
espectador, ao mesmo tempo, de seus próprios problemas.
É autor conquanto realidade profunda, embora normal-
mente inconsciente. É ator porque são seus próprios meca-
nismos — órgãos físicos e funções orgânicas, emoções, sen-
timentos, pensamentos, idéias, decisões, etc. — que inter-
vém em sua atuação vital, tanto para o exterior como em
seu próprio interior. E, por último, é também espectador
conquanto na posição do eu consciente percebe as variações
que ocorrem em seu estado físico e psicológico. Habitual-
mente esta percepção é fragmentária, já que ele somente
percebe aquelas variações que, por sua intensidade, im-
põem-se à sua atenção, e dificilmente chega a dar-se conta
de toda a ação de forma global, pelo que também sempre
310 H A T H A - Y O GA

se lhe escapa a verdadeira trama argumentai de sua ati-


vidade. Logo voltaremos sobre estes pontos.
Tudo quanto dissemos até aqui refere-se ao mecanis-
mo que intervém nas enfermidades — físicas ou psíqui-
cas — cuja origem tem raízes predominantemente na ati-
tude da personalidade profunda. Não há dúvida, porém,
da existência também de numerosas enfermidades, cujas
causas temos que procurar mais diretamente em definidos
fatores externos à própria pessoa e aos quais esta não
pode sobrepor-se: enfermidades congênitas, infecções, trau-
matismo, etc. Não se acredite, porém, que esta separação
possa ser estabelecida clara e definidamente, porque tanto
num tipo de enfermidade como em outro, intervém sem-
pre ambos os fatores: a própria personalidade com seu
estilo de vida e sua capacidade de reação e de adaptação,
e as situações externas — físicas ou psicológicas — que
determinam, condicionam ou causam a manifestação
patológica. Só que nuns casos predominará em sua
nes
se o aspecto subjetivo pessoal, e em outros o aspecto
objetivo externo.
Resumindo, podemos dizer que a enfermidade pode
apresentar-se com o predomínio de uma das duas seguin-
tes características:
1.ª Como expressão biopsicológica dum estilo geral
de vida do indivíduo numa determinada situação. São as
enfermidades de tipo predominantemente psicogênico, que
também podem ser psicológicas, funcionais ou orgânicas,
segundo a predisposição do indivíduo, ainda que, na p rá-
tica, predominem os dois primeiros tipos.
2.ª Como tentativa de reação da pessoa — psique e
soma — diante de um impacto agressivo da realidade ex-
terior, material ou moral.
Não existe nenhuma separação estrita entre uma e
outra forma de desenvolvimento da enfermidade; varia
INTRODUÇÃO A TERAPÊUTICA IOGUE 311

apenas a intensidade. No primeiro caso predomina o aspec-


to de iniciativa, de atitude pessoal — consciente e incons-
ciente — diante da vida. No segundo predomina o fator
externo, sendo a enfermidade tão-somente o resultado da
reação defensiva física e psíquica, mais ou menos eficiente.
É por isto que toda enfermidade exige tratamento
global da pessoa que a expressa. E é por isso, também, que
toda terapêutica verdadeira exigirá uma transformação
geral do indivíduo, o que somente poderá ser conseguido
mediante um a ação a fundo sobre seu soma, sobre sua
psique e sobre seu espírito.
to d a enfermidade, ou melhor dito, toda pessoa enfer-
ma passa, sucessivamente, por três etapas:
1. Ponto de alarme — Ante a situação ameaçadora
— objetiva ou subjetiva — que se delineia, diminui o
equilíbrio dinâmico anteriormente existente e que cons-
tituía o que se denomina saúde. Diminuem, portanto, a
fluidez das atividades biopsicológicas e seu rendimento.
Surge a tensão.
2. Ponto máximo de tensão — Ao persistir a situa-
ção anômala, aumenta o esforço biológico e psicológico;
paralisam-se ou diminuem as outras atividades e concen-
tra-se toda a energia disponível na manutenção da inte-
gridade da pessoa diante da ofensiva dos elementos per-
turbadores. A tensão chega ao ponto máximo e o rendi-
mento geral diminui até chegar quase à completa anula-
ção, exceto no setor especialmente afetado.
3. Ponto de ruptura do equilíbrio — Ao fracassarem
os esforços reativos para manter a integridade pessoal e
repelir a situação anômala, produz-se, ao fim, a ruptura
efetiva do equilíbrio da pessoa, aparecendo, então, a enfer-
midade ou transtorno propriamente dito. O ponto de rup-
tura não é senão a expressão focalizada do processo geral
ou conflito a que estava submetido o indivíduo, que se ma-
312 H A TH A-YO G A

nifesta na perturbação dum órgão, duma função fisioló-


gica ou duma função psicológica. este órgão ou funç ã o
em que se verte o problema e se produz a ruptura, corres-
ponde sempre ao ponto de menor resistência da persona-
lidade num momento dado; seja fisiológico — fraqueza
constitucional ou adquirida — seja psicológico — susceti-
bilidade especial, insegurança, debilidade latente, etc.
Faz muitos séculos que o Oriente estudou o problema
da limitação do homem em geral e da enfermidade em
particular. Pode-se tentar resumir suas conclusões, nesse
sentido, como segue:
1. Toda limitação da criatura hum ana e, portanto,
também toda enfermidade, procede da falta de discerni-
mento espiritual ( avidya) do homem, que o faz tomar e
apreciar o mundo efêmero do fenômeno pelo mundo da
única realidade espiritual.
2. Essa falta de discernimento espiritual produz um
estado de confusão mental, do qual, por sua vez, d erivam
todos os erros e limitações do homem ( maya). A origem
de todas as enfermidades é, pois, em última análise, de
natureza mental, entendendo-se aqui por mental tanto os
conteúdos da mente como os da mente inconsciente.
3. Devido à confusão mental, o indivíduo, conquan-
to realidade espiritual, se identifica com seus próprios
processos de consciência: percepções sensoriais, sensações,
desejos, sentimentos, imaginações, pensamentos, etc. Cada
um desses atos ou operações, apesar de sua natureza tran-
sitória e superficial, confunde-se e é tomado pela própria
realidade do indivíduo (jivatma). Daí aderir-se a eles,
pretendendo conservar alguns, os agradáveis, e repelir ou
negar os outros, os desagradáveis. Como, além disso, esta
seleção está baseada no erro ou falsa perspectiva inicial,
é evidente que ela há de levar a uma constante contradi-
ção com a verdadeira natureza das coisas e de si próprio.
INTRODUÇÃ O A TERAPÊUTICA IOGUE 313

originando toda espécie de problemas: espirituais, psíqul-


cos e fisiológicos.
4. A identificação do indivíduo, conquanto realidade
espiritual, com suas operações respectivas, leva a uma vida
cheia de erros, contravenções constantes às leis naturais,
já que ele não procura senão experimentar estados agra-
dáveis para o pequeno eu superficial, como efeito de sua
supervalorização pessoal (identificação com a “idéia do
eu - ahamkara — ”) e de sua identificação com os pra-
zeres do sexo e dos sentidos.
A supervalorização pessoal leva ao isolamento interior
do indivíduo e à repulsa valorativa dos demais, criando
toda espécie de problemas de relação humana: familia-
res, profissionais, sociais, etc. Como é lógico, esta repulsa
valorativa adota múltiplas formas e inclui todos os ti-
pos de relação:
a) F uga ou negação de tudo quanto represente au-
toridade: Deus, pais, chefes da profissão ou emprego,
autoridades legais e suas leis, etc.
Esta negação oculta-se, às vezes, à própria consciên-
cia do indivíduo, atrás de uma atitude superficial de de-
voção, obediência e servilismo.
b) Repulsa ou desvalorização dos que estão em pla-
no de igualdade: cônjuge, colegas, sócios, amigos e de-
mais pessoas que constituem seu mundo social.
c) Exigências e tiranias sobre todos quantos são ou
lhe parecem inferiores: filhos, empregados, criados, etc.
A identificação com os prazeres sexuais converte esta
função, ao mesmo tempo, natural e sagrada, e fonte do
magníficas energias, num mero mecanismo de compensa-
ção para a maior parte das insatisfações procedentes dos
outros níveis, criando assim toda uma gama de novos pro-
blemas: morais, sociais, fisiológicos, etc.
314 H A T H A - Y O GA

A identificação com os prazeres dos sentidos leva a


adotar costumes antinaturais que prejudicam a saúde
pouco ar, pouco exercício, alimentos e bebidas excitantes,
pouca tranqüilidade, etc.
Para remediar todos os males procedentes dessas errô-
neas identificações, a Índia elaborou técnicas conhecidas
com o nome de Yogas que, mediante a progressiva tomada
de consciência de tais identificações, se harmonizam cada
vez mais com a mente, até chegar ao estado final de li-
bertação (moksha), no qual todas as limitações, produto
da ignorância espiritual, tornam-se objetiva e subjetiva-
mente superadas. Há que assinalar que em todas essas té
c
-
nicas, a mudança no funcionamento do corpo e no tipo de
vida é sempre acompanhada e, de certa forma, dirigida
pela mudança de atitude mental, que aprende a ser m ais
ampla, mais profunda e mais elevada.

T e r a p ê u t ic a geral

A terapêutica geral tem dupla missão:


1.° Tranqüilizar o corpo e a mente, enfrentando
assim, o estado de tensão criado pelo distúrbio ou en-
fermidade.
2.° Elevar o tônus vital, corrigindo, portanto, o de-
ficit energético experimentado pelo enfermo.
Tal ação pode ser resumida em duas palavras: e q uili-
brar e revitalizar. O resultado não é outro senão o per-
mitir que a própria energia vital do indivíduo possa fluir
livremente através de todos os níveis da person alidade:
físicos, afetivo-emocionais e mentais. Muitas vezes esta
ação já é suficiente para que o distúrbio, se não era grave,
desapareça completa e definitivamente. Em caso contrá-
rio, depois de conseguir até um ponto satisfatório o duplo
INTRODUÇÃ O A TERAPÊUTICA IOGUE 315

objetivo da terapêutica geral, poderá empreender-se, com


êxito, a terapêutica especial do distúrbio concreto.
No Yoga, o primeiro objetivo, ou seja, a tranqüiliza-
d o do corpo e da mente, será conseguido mediante a prá-
tica correta e prolongada do savasana com respiração
abdominal, acompanhado do correspondente quadro men-
tal de tranquilização e repouso.
O segundo objetivo, ou seja, a elevação do tônus
vital, será conseguido rapidamente graças à ação conju-
gada de três fatores:
a) Prática moderada de alguns asanas de revitali-
zação, segundo o permita o estado do paciente: Viparita-
karani, sarvangasana curta, padahastasana, etc., segui-
dos sempre de um savasana prolongado.
b) Prática progressiva da respiração integral e, após
algum tempo, acrescentar o sukha purvak.
c) Imaginação ativa e estimulada dum quadro men-
tal de saúde e energia.

P s ic o t e r a p ia

Os problemas de predomínio psicogênico são mais


acessíveis à ação especial da psicoterapia, que precisa con-
sistir, para ser realmente resolutiva, numa série de toma-
das de consciência de diversos estados subjetivos muito
parecidos com os indicados anteriormente, quando fala-
mos da visão oriental da enfermidade. Assim, juntamente
com a terapêutica geral, que acabamos de descrever, con-
vém passar pelas etapas mentais que exporemos a seguir.
Se se recordar a imagem que demos ao falar do homem
como autor, ator e espectador simultâneo de seus próprios
problemas, poder-se-á acompanhar mais facilmente a de-
lineação do processo mental a seguir.
1. Consciência de espectador — Consiste em apren-
der a perceber o conjunto de ações que caracterizam o
316 H A T H A - Y O GA

próprio estilo de vida. É apreciar, com certo detalhe, toda


a ação vista exteriormente, sem tentar julgá-la nem valo-
rizá-la: é simplesmente uma tomada de dados. Para fazer
isto proveitosamente é conveniente selecionar um período
de tempo suficiente no qual tenha havido ocasião de se
expressar um ciclo completo do círculo vicioso que carac-
teriza o estilo anormal de viver.
2. Consciência do espetáculo — Um a vez que se pos-
sui uma série de dados obtidos na fase anterior, é preciso
chegar a compreender o argumento existente por trás da
ação ou conjunto de ações. É o chegar a descobrir a tra-
ma argumental ou sentido que inconscientemente tenta-se
expressar mediante o próprio atuar. Não se trata de jus-
tificar-se nem de inventar nada, mas de descobrir, à luz
dos fatos comprovados, a intenção subjacente. Se os da-
dos forem recolhidos com esmero, esta segunda fase é
muito mais fácil de ser conseguida.
3. Consciência de ator — Consiste, agora em chegar
a ser consciente da ação no mesmo momento em que ela
está sendo executada. Evidentemente, trata-se aqui dl
ações realizadas no presente. De todos os tipos de ações,
H á muitas ações que parecem não ter nenhum significado
especial e ser do mais anódino. Mas, se nos habituamos
a estar atentos no momento de qualquer ação, por mínima
que pareça, descobriremos que há muitas delas que são
acompanhadas de intensa carga emotiva, agradável ou
desagradável. São precisamente estas as que mais interes-
sa descobrir incontinenti, e estas abundam muito mais do
que nossa consciência habitual nos faz crer. É preciso
aprender a estar presente em todos os momentos nas ações
que executamos, até chegar a sermos plenamente cons-
cientes, de que “somos nós mesmos que estamos fazendo
e sentindo isto e aquilo, aqui e agora”.
Esta fase apresentará alguma dificuldade se, antes,
não se conseguir ser consciente do que se está sentindo
U Ç Ã O À TE R A PÊ U TIC A IOGUE
I NTR OD 317

no momento da ação. Mas, embora não dum modo cons-


tante, vai-se conseguindo apreciar, com maior freqüência,
novos estados subjetivos que haviam passado, até então,
completamente despercebidos.
4. Consciência de autor — Um a vez que se está cons-
ciente do próprio atuar e sentir de um modo imediato,
vivido imediatamente, pelo menos em certa medida, se
descobre que se é o autor de tal ação ou de tal conduta,
também de um modo imediato, já que se adquire a segu-
rança da vontade atualmente presente, assim como da ra-
zão de tal vontade. Isto é algo muito diferente de “pensar”
ou “crer” que se é o autor de suas ações. Aqui, o ser
autor é um ato presente da vontade expressada através de
uma idéia também atualmente viva e presente. N a rea-
lidade, é um a descoberta. E, por certo, uma descoberta de
algo profundo, importante e vital. Neste momento, deixa-
se de estar pendente de tal idéia e, portanto, também de
tal conduta. Neste mesmo momento sente-se dono da si-
tuação e pode-se mudar todo o esquema sem qualquer es-
forço. A força que o retinha permanece desvanecida ao
seu contato afetivo com a mente consciente. Sente-se
libertado de um antigo condicionamento ou limitação, e
agora pode atuar livremente, de acordo com o nível de
compreensão alcançado.
to d a s estas fases se auxiliam e se complementam
mutuamente. Cada qual prepara a seguinte, mas ao mes-
mo tempo esclarece a anterior. Todo este processo é, na
realidade, um a progressiva interiorização da mente, da
atenção, até chegar à atenção central sobre a qual já fa-
lamos com certa extensão no devido lugar.
Também fazemos notar aqui a semelhança que este
processo apresenta com as diversas fases do processo te-
rapêutico psicanalítico, de um lado, e com as diversas
fases do trabalho de interiorização próprios do Raja e do
318 H A T H A - YOGA

Gnama-Yoga, de outro lado. Trata-se de algo mais que


uma semelhança casual. É que a psicanálise ocidental
vem a ser como que uma etapa elementar do Raja-Yoga,
O que a psicanálise faz com determinado setor da perso-
nalidade, o Raja-Yoga o faz com todos os conteúdos da
mente, com toda a atividade mental.
Para seguir pessoalmente, através deste processo de
autodescobrimento, é muito útil contar com a assistência
de um perito psicoterapeuta que, se possível, seja versado
tanto na técnica analítica ocidental — que corresponde à
primeira fase do tratamento completo — como nas mal/t
profundas técnicas dos diversos Yogas. Como isto, porém,
na prática é muito difícil, é preciso contentar-se com os
meios de que se disponha; aliás, pelo menos na atualida-
de, pode contar-se desde logo com a ajuda de muito bons
psicoterapeutas ocidentais. No último caso, mais vale co-
meçar o trabalho ainda que sozinho e dispendendo mais
tempo, que permanecer sem fazer nada, perdendo tempo
em lamentações completamente inúteis. A prática inteli-
gente dos exercícios de Hatha-Yoga, tal como os temos
descrito, levarão também, quando se pratica durante tem-
po suficiente, ao mesmo resultado.
Passemos, agora, a dar um a breve resenha sobre a
Terapêutica especial.
Tomamos as notas que vêm a seguir sobre o efeito
terapêutico dos vários asanas da obra do conhecido mé-
dico indiano Dr. V. G. Rele, Yogic Asanas for Health and
Vigour, e do excelente livro de Y. Selvarajan, Yoga and
Health (V. Bibliografia).

T e r a p ê u t ic a e s p e c ia l

Sem dúvida alguma os exercícios de Yoga asseguram


ao indivíduo o bem-estar físico, mas sua ação é também
terapêutica e recuperadora. Dão elasticidade à coluna
vertebral e fortalecem os músculos abdominais. Realizam
INTRODUÇÃO A TERAPÊUTICA IOGUE 319

massagem e amassamento de todas as vísceras situadas


i i i » abdômen, fazendo-as recuperar seu ritmo normal, eli-

minado até a menor prisão de ventre e, portanto, o esta-


do de auto-intoxicação. Corrigem o defeituoso funciona-
mento do fígado. Estimulam, sobretudo, a circulação ge-
ral do sangue, mantêm o equilíbrio emocional e ajudam
a recuperar a elasticidade orgânica própria da juventude.
Alguns asanas incrementam a atividade metabólica do
corpo mediante o aumento das secreções das glândulas
endócrinas pelo que, entre outras coisas, são úteis para
reduzir a gordura no caso de pessoas obesas. Elevam tam-
bém o tônus dos tecidos neuromusculares.

Diz-se que o iogue que pratica os asanas por razões


espirituais, conserva eterna juventude e vive além do tem-
po destinado ao comum dos mortais. De fato, os exercícios
de Yoga estão concebidos de maneira a aumentar os pro-
cessos anabólicos dos diversos órgãos e tecidos do corpo,
o que só é possível mantendo o tônus do sistema nervoso
involuntário, sobre o qual não temos controle direto, a
rede de filamentos e gânglios nervosos no peito e no ab-
dômen. Isto se consegue por meio indireto de massagear
o amassar os órgãos que o referido sistema nervoso enerva,
pela ação dos músculos abdominais sobre eles, e graças às
flexões e torções espinhais ( asanas) e aos exercícios res-
piratórios (pranayama).
Como meio de recuperação quando a saúde ficou mi-
nada por longa enfermidade, estes exercícios dão novo
vigor a todo o organismo com rapidez maior que qualquer
outra espécie de cultura física. N a realidade, por mais
fraco que esteja alguém, enquanto não sofrer qualquer
distúrbio orgânico, pode começar a praticar os asanas para
ir recuperando energias e peso, proporcional à sua altura,
elevando o tônus da estrutura neuromuscular e estimu-
lando o apetite. Para tal pessoa, o trabalho é apenas es-
colher uma série de asanas, graduando-os devidamente de
320 H A T H A - Y O GA

acordo com sua dificuldade, seu tempo de retenção c com


o número de vezes que devam se repetir em cada sessão,
A idade, sexo e raça não constituem obstáculo algum
para a prática dos exercícios de Yoga (V. G. Rele).
Vamos relacionar agora os exercícios que têm um
efeito mais particular sobre cada órgão ou sistema. Como
a ação dos exercícios é também geral sobre o resto do
corpo, seu efeito será o da regularização do funcionamen-
to do órgão em questão, seja qual for o tipo de distúrbio
funcional que o afete. Excetuam-se os exercícios que
atuam sobre a glândula tireóide, que por ser de ação defi-
nitivamente estimulante, devem ser diminuídos nos c a sos
de hipertireoidismo. Como a aplicação destes exercícios
à cura de enfermidades tem que ser feita exclusivamen-
te pelo médico, este verá, pela própria índole do exer-
cício, o efeito concreto que há de produzir em cada caso
particular.
Atuam especialmente sobre o aparelho digestivo:
Paschimottanasana, pasahastasana, halasana, Yoga-mu-
dra, bhujangasana, shalabhasana, dhanurasana, vakrasa-
va , matsyendrasana, uddiyana-bandha, nauli, mayurasanu,
Respiração abdominal e respiração completa.
Atuam especialmente sobre o sistema circulatório:
Respiração consciente e pranayama; sarvangasana, shir-
shasana, viparita-Karani, halasana, bhujangasana, shala-
bhasana, dhanurasana, uddiyana-bandha, nauli.
sobre o aparelho respiratório: Exercícios de respira-
ção consciente e pranayama, shalabhasana, matsyasana,
paschimottasana, padahastasana.
sobre as glândulas endócrinas: Tireóides: Sarvanga-
sana, viparita-karani, matsyasana, dhanurasana, pranaya-
ma (ujjayi, kapalabhati, bhastrika).
Hipófise e pineal: Shirshasana, viparita-karani, pada-
hastasana, pranayama (kapalabhati, bhastrika).
INTRODUÇÃO A TERAPÊUTICA IOGUE 321

Supra-renais: Mayurasana, dranurasana matsyendra-


tana.
Pâncreas: Mayurasana, paschimottanasana, halasa-
na, matsyendrasana.
Sexuais: Sarvangasana, viparita-karani, uddiyana-
bandha, nauli, paschimottanasana, padahastasana.
sobre os rins: Uddiyana-bandha, nauli, bhujangasa-
na, dhanurasana, vakrasana, matsyendrasana, mayrasa-
na, trikonasana, vriksasana.
Sistema nervoso vegetativo: Todos os plexos do tron-
co ficam estimulados simultaneamente de acordo com as
posições que aumentam a pressão intra-abdominal. Por
exemplo:
Plexo perineal: Sidhasana. — Plexo hipogástrico:
Yoga-mudra. — Plexo solar: Uddiyana, supta-vajrasana.
— Plexo cardíaco: Halasana. — Plexo faríngeo: Sarvan-
gasana.
As correntes dos gânglios simpáticos, da mesma for-
ma que os nervos espinhais, ficam estimulados pelos
exercícios, que exigem um a flexão ou torção da coluna
vertebral: Sarvangasana, paschimottanasana, halasana,
viparita-karani, bhujangasana, shalabhasana, dhanurasa-
na, padahastasana, vakrasana, vriksasana, matsyendrasa-
na, suptavajrasana, matsyasana.
Sistema nervoso central: Todos os asanas e os exer-
cícios de respiração consciente e pranayama, quando exe-
cutados com a devida lentidão e atenção.
Cérebro: Shirshasana, viparita-karani, padahastasana.
Exercícios de respiração completa e pranayama (kapala-
bhati, bhastrika e sukha purvak).
Aparelho locomotor: Como esta é a ação mais imedia-
tamente evidente dos asanas, e que têm algo em comum
com a ginástica ocidental, não é necessário assinalar qual-
quer exercício em particular.
1
C a p ít u l o X I

ORIENTE, OCIDENTE E ESPIRITUALIDADE

O R IE NTE veio a ser para muitos, sinônimo de espi-

O ritualidade e o Ocidente, sinônimo de materialismo.


Para outros, no entanto, Oriente não passa de um país
imenso que atravessou os séculos petrificado, sonhando
com hipotéticos mundos subjetivos, recusando enfrentar
abertamente os problemas imediatos e concretos do mundo
físico, econômico, político e social que, para o Ocidente,
constituem a máxima realidade. E para outros, finalmen-
te, a atitude do Oriente não suscita nenhum problema de
valor, já que ele é apenas a expressão de um modo de ser
digamos de um temperamento racial, que se caracteriza
por sua tendência contemplativa, passiva e introspectiva,
em contraste com o modo de ser ocidental, ativo, dinâ-
mico e empreendedor.
Diante de opiniões tão desiguais, cabe indagar: até
que ponto pode-se afirmar o valor real, intrínseco, da
atitude e da experiência do Oriente e que significado
pode ter ele para o Ocidente, com a finalidade de conse-
324 H ATHA - Y O GA

guir maior profundidade espiritual para os indivíduos


para a sociedade?
Embora a questão seja extraordinariamente complexa
e envolva numerosos problemas, encaráveis, por sua vez,
sob múltiplas perspectivas, há fatos que se impõem por si
mesmos a qualquer observador imparcial e que, sob o
ponto de vista da ciência da psicologia humana, apresen-
tam valor inapreciável, ao mesmo tempo em que abrem
novas e amplíssimas perspectivas à investigação.
Referimo-nos aos seguintes fatos, já apontados na
Introdução e n a Primeira s e ç ã o deste livro:
1. A comprovação, feita por via experimental, da
existência de numerosas zonas ou regiões dentro daquilo
que se costuma chamar de mundo interior, perfeitamente
precisas e delimitadas, cada qual com sua própria subs-
tância e suas próprias possibilidades de ação, que se cor
respondem com diversos estados de consciência, também
perfeitamente delimitados.
2. Que o acesso a tais regiões ou zonas interiores,
assim como a obtenção dos estados de consciência que se
correspondem com elas pode ser obtido mediante técni c as
perfeitamente estudadas e sistematizadas.
3. E que quando a mente humana adquire certo
domínio sobre qualquer dessas zonas interiores, além do
estado de consciência correspondente, parece ad qu irir u
capacidade de desenvolver-se com outras leis que não as
conhecidas pela ciência ocidental e que a capacitam p a ra:
a) Atuar sobre o próprio organismo e sobre o mun-
do físico externo com força e meios desconhecidos até
agora no Ocidente;
b) Obter um mundo de percepções de ordem com-
pletamente nova, que não está sujeito ao tempo e ao
espaço como o estão nossos sentidos normais e como
está, também, como conseqüência, o funcionamento da
nossa mente;
ORIENTE, OCIDENTE E... 325

c) O desenvolvimento sistemático das faculdades su-


periores ou espirituais do homem.
d) Alcançar, até um grau excepcional, o conheci-
mento imediato ou intuição de si próprio.
somente com o seu enunciado basta já para ver ou
vislumbrar as imensas possibilidades que encerra cada um
desses pontos no dia em que sejam realmente aceitos,
adquiridos e verificados pela ciência ocidental.
Com referência ao valor que isto possa representar
para nossa cultura, basta-nos dar uma simples olhadela
ao estilo de vida que impera em nossas populosas cida-
des, inclusive em seu aspecto positivo, ação, dinamismo,
Iniciativa, criação de novas empresas, fábricas gigan-
tescas, comércio, transformação ativa da Natureza, estu-
do e manejo dos mecanismos materiais do homem e da
Terra, conquista do átomo e do espaço... É realmente
ingente o trabalho que está realizando o Ocidente, para
conseguir o conhecimento preciso e o acabado controle do
inundo que o rodeia.
Mas, onde mais fraco está o edifício de nossa cultura
6 precisamente no conhecimento do interior do homem:
da mente e das forças e estados da alma. No conhecimen-
to e no domínio de si mesmo. É sobre isto que eminentes
personagens representativas da nossa sociedade têm cha-
mado a atenção pública repetidas vezes. É isto o que nossa
civilização está angustiosamente pedindo para salvar seu
equilíbrio, que eqüivale à salvação de sua sobrevivência.
E isto é, nem mais nem menos, o que o Oriente nos
pode oferecer. Não uma cultura, uma filosofia, uma reli-
gião, mas a ciência da vida interior, a ciência dos estados
internos, a ciência da alma.
O homem ocidental tomou plena consciência e alcan-
çou um controle notável sobre o aspecto material de si
mesmo e da Natureza. Mas falta-lhe descobrir seu mun-
do interior, falta-lhe aprender a sondar com sua mente,
326 H A T H A - Y OGA

diretamente e com pleno domínio, esses mundos interio-


res, tão mais vivos e mais frutíferos que o mundo exterior
que o rodeia fisicamente.
Dentro duma perspectiva horizontal, o homem possui
uma dimensão exterior e uma dimensão interior. Para
que o desenvolvimento de sua personalidade seja comple-
to, é preciso que sua consciência desperte totalmente e m
ambas as direções. Neste sentido, tanto é capital para
Oriente descobrir a dimensão exterior do homem, e este é
o trabalho iniciado nestes últimos anos, como para o Oci-
dente, descobrir a dimensão interior. É necessário que o
homem desenvolva por completo sua consciência, o que
somente será possível se se abrir em todas as direções
Assim, compreender o Oriente significa, para o homem do
Ocidente, acabar de compreender-se a si próprio.
E chegamos ao tema da espiritualidade. Num sentido
amplo, é evidente que a experiência do Oriente é eminen-
temente espiritual. É preciso, porém, ir com cuidado
Não confundir conceitos com o manejo de palavras que
possuem várias acepções. A atividade do Oriente é espi-
ritual no sentido de que se contrapõe à atividade eminen-
temente material do Ocidente. Seria mais adequado falar-
se tão-somente de atividade exterior e de atividade interior
do que utilizar palavras que têm um significado de valor
ético. No nosso entender, a espiritualidade, em seu sen-
tido estrito, é algo que está mais além de qualquer possí-
vel distinção topográfica, física ou psíquica.
Dissemos, anteriormente, que o homem possui duas
dimensões: uma exterior e outra interior. Deveremos,
agora, acrescentar que o homem tem, além daquelas, uma
dimensão transcendente, genuinamente espiritual. Ela
é a sede do princípio espiritual da alma, cujas sublimes
faculdades — amor, intelecto, vontade — têm em Deus
seu único e adequado objetivo. E é por isto que a espiri-
ORIENTE, OCIDENTE E... 327

tualidade não está no Oriente mais do que no Ocidente,


porque o espiritual não está situado em nenhum lugar,
embora possa expressar-se em qualquer lugar. A espiri-
tualidade genuína é algo que está além do mundo exterior
o do interior. O mundo espiritual autêntico encontra-se
precisamente onde termina o mundo psíquico. O espiri-
tual, o transcendente é o princípio de tudo quanto chama-
mos interior e exterior no homem. E onde termina o ho-
mem, principia Deus.
Esta noção, ao mesmo tempo imanente e transcenden-
te de Deus, não deve ser esquecida em nenhum momento,
para evitar erros e confusões. Não se chega a Deus atra-
vés de qualquer técnica. to d a a técnica possível, por ser
ação humana, mostra precisamente o limite do seu atuar
e do seu ser. Não se chega a Deus: recebe-se Deus.
Deus desce até o homem por um ato livre e sobera-
no do seu Amor e de sua Vontade, do mesmo modo que
um dia desceu à Terra e, precisamente, não o esqueça-
mos, num ponto médio entre Oriente e Ocidente, na
Palestina, de onde, com os braços abertos, convidou a
todos quantos quisessem ouvi-lo e compreendê-lo, tanto
do Oriente, como do Ocidente, a adorarem o Pai em espí-
rito e verdade. . .

C O N C L U S Ã O

Aqui damos por terminada esta sucinta exposição dos


princípios, técnicas e aplicações do Hatha-Yoga. Estamos
certos de que apenas roçamos algumas das imensas rique-
zas que a canteira do Yoga entesoura. Confiamos, entre-
tanto, em que, ainda que rápido e imperfeito, este trabalho
terá contribuído para assinalar novas perspectivas a todos
quantos procuram fazer um pouco de trabalho duradouro
dentro de si próprios, incitando-os a aprofundar-se um
pouco mais neste gênero de conhecimentos e técnicas.
328 HATHA-YO G A

Ao nos despedirmos, agora, de nossos leitores, quisé-


ramos poder gravar em sua mente, de maneira indelével,
estes quatro princípios, como resumo do livro, para te-los
sempre presentes em todas as suas atividades diárias.
1. Atenção sempre desperta.
2. Relaxamento adequado.
3. Posição correta.
4. Respiração livre.
Desejamos vivamente que todos os interessados no
trabalho interior sobre sua personalidade encontrem as
orientações adequadas e o estímulo suficiente para conver-
ter em realidade o que por hora é apenas aspiração.
Neste sentido e nos limitados meios de nossas possibi-
lidades, nossa porta permanece sempre aberta para todos.
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119. Royo Marin, O. P. A. — Teologia de la perfección cristíana.
BAC. Madrid, 1954.
120. Sertillanges, A. D. — Santo Tomás de Aquino, 2 vols. D E D E -
BEC. Buenos Aires, 1946.
121. Sertillanges, A. D. — Las grandes tesis de la filosofia tomista.
D ED EBEC. Buenos Aires, 1948.
122. Vezzani, V. — L e mysticisme dans le monde. Payot. Paris,
1955.
123. Willwoll, A . A lm a y espíritu. Razón y Fe. Madrid, 1946.
124. Zaehner, R. C. — Mysticism, Sacred and Profane. Oxford, Cla-
rendon Press. Londres, 1957.
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•I
COM CENSURA ECLESIÁSTICA

COMPOSTO E IMPRESSO NA TIPOGRAFIA CANÍSIO DA AÇÃO


SOCIAL - R. VERGUEIRO, 165 - FONE: 278-0304 - SÃO PAULO
O Prof. Jean-Pierre Bastion e Sra., e Prof.
Victor Binot, Membros fundadores da
Sociedade Brasileira de Estudos de Yoga,
posaram para ilustrar esta obra.
1. “Vajrasana”, ou postura diamantina .

2. Preparação para o " Siddhasana".


3. Preparação para o “Padmasana”.

4. “Virasana”, ou postura do herói.


5. “Padmasana ”, ou postura
do lótus.

6. O utra form a do “Padmasana”,


ou postura do lótus.
7. Outro m om en to da preparação para o “Padmasana”.

9. “Siddhasana”, ou postura perfeita, interpretação masculina.

10. “Siddhasana", com o “Gn ana-M udra".


8. “Siddhasana”, ou postura perfeita, interpretação feminina.
11. Preparação para o “Sarvangasana”.

12. “Sarvangasana”, ou postura


de todo o corpo.
13. “Sarvangasana”, ou postura de todo
o corpo.

14. Segunda variante ou form a fácil de “Paschimottanasana"


15. “Paschimottanasana”, ou postura de extensão posterior
Interpretação masculina .

16. “Paschimottanasana”, ou postura de extensão posterior.


Interpretação feminina.
17. “Bhujangasana ”, ou postura da cobra.

1
.“A rdha-Shalabhasana”,
8 ou meia postura do gafanhoto.
19. “Shalabhasana”, ou postura do gafanhoto .

20. “Dhanurasana”, ou postura do arco .


21. “M atsyasana ”, ou postura do peixe.

22 . “Padahastasana ”, o u postura da c
a
h
n
o
g
e
cegonha.
23. “Padahastasana”, ou postura
da cegonha, variação.

24. “Uddiyana-Bandha”, ou con-


tração abdom inal , de pé.
25 e 26. “Uddiyana-Bhanda”, ou contração
abdom inal em “Padmasana”.
27. Prim eiro tem po do “Shirshasana”.

28. Execução do “Shirshasana ”, iniciação.


29. T em p o interm ediário para a
execução do “Shirshasana”.

30. Ou tro tem po interm ediário na


execução do “Shirshasana".
31. “Shirshasana”, ou postura sobre
a cabeça. T em p o final.

32. Preparação para o " Ardha-


Matsyendrasana”.
33. “Ardha-Matsyendrasana", ou torção da
coluna vertebral , vista de frente.

34. “Ardha-Matsyendrasana”, ou torção da


coluna vertebral, vista pela retaguarda.
34 bis. “Matsyendrasana”, variação.

35. Preparação para o Yoga-


M u d ra ”, terceira variação.
36. “Y o g a -M u d ra ”, ou sím bolo do Yoga , variação inclinada.

37. “Halasana”, ou postura do arado.


38. “Halasana”, ou postura do arado, variação .

39. “Halasana”, ou postura do arado, 1.a variação .


40. “Halasana”, ou postura do arado , 2.a variação.

41. “Viparita-Karani”, ou postura pél-


vica, 1a variação .
42. “Viparita-Karani”, ou postura pélvica,
2.a variação.

43. “Suptavajrasana”, ou postura do sonho diamantino, uma


variação.
44. “Suptavajrasana”, ou postura do sonho diamantino.
Interpretação feminina.

45. “Suptavajrasana”, ou postura do sonho diamantino.


Interpretação masculina .
46. “Baddha-padmasana”, ou pos-
tura do lótus cerrada , vista de
frente.

47. “Baddha-padmasana”, vista


da retaguarda .
“Uttida Padmasana”, ou postura do
lótus elevada.

49. “Yogasana”, ou postura do Yoga.


50. “Utanakurmakasana”, ou postura da
tartaruga.

51. “Kakasana”, ou postura do corvo , variação.


COMPOSTO E IMPRESSO NA TIPOGRAFIA CANÍSIO DA AÇÃO
SOCIAL - R. VERGUEIRO, 165 - FONE: 278-0304 - SÃO PAULO
O Hatha-Yoga é uma ciência mile-
nar da Índia, com exercícios e técnicas
precisas que demonstram surpreendente
conhecimento das profundas forças e
mecanismos do ser humano.
Não se trata meramente de uma
ginástica no estilo ocidental. A seme-
lhança é apenas aparente, pois enquan-
to a ginástica do Ocidente consiste ape-
nas num treino sistemático do aparelho
locomotor, ainda que indiretamente exer-
ça uma ação benéfica sobre todo o or-
ganismo, o Hatha-Yoga, além de atuar
sobre o aparelho locomotor, age de
maneira direta sobre o sistema endócri-
no e estimula a conexão do sistema
nervoso central com o sistema nervoso
vegetativo produzindo uma ação profun-
da e geral sobre o organismo.
Mas, o Hatha-Yoga é mais. É uma
ciência e uma técnica que visam uma
educação integral do homem e um de-
senvolvimento de todas suas possibili-
dades naturais.
Além de desenvolver ao máximo
as potencialidades físicas, tenta conse-
guir uma perfeição física e psicológica
que sirva de base à construção de uma
perfeição psicomental, a uma consciên-
cia e concentração mais profundas, des-
pertando e ativando correntes nervosas
habitualmente inativas.
Seus resultados são surpreendentes
no campo da saúde, mesmo nos casos
em que a terapêutica parece inoperante.
E estabelece imediatamente a integra-
ção corpo-mente com a conseguinte di-
minuição dos problemas emocionais.
O Yoga não é uma religião, apesar
de nos ter chegado da Índia fortemente
impregnado de Hinduísmo. No entanto
sua prática vitaliza e dinamiza a vida
religiosa, qualquer que seja seu credo.
É o método mais completo, cientí-
fico e simples para a obtenção da per-
feição natural, na parte que depende da
mão do homem. E isto porque o Hatha-
-Yoga conduz a um notável grau de
conhecimento de si mesmo e ao domínio
magnífico da própria personalidade e
da vida instintiva.
No entanto, deve ser feita uma dis-
tinção clara entre os dois aspectos apre-
sentados pelo Hatha-Yoga. De um lado,
uma série de técnicas, de exercícios físi-
cos e psíquicos e os resultados fisiológi-
cos e psicológicos conseguidos com os
citados exercícios. É isto que constitui
o seu aspecto científico.
De outra parte, o aspecto especulati-
vo ou teórico pelo qual se tentam expli-
car ou interpretar os fatos e experiên-
cias. É nessas interpretações que existe
divergência entre a Filosofia Cristã e o
Hinduísmo, dificultada ainda mais pela
diferença de língua e tradição cultural.
Existem muitos livros sobre Hatha-
-Yoga excelentes sob o ponto de vista
de uma detalhada descrição do aspecto
físico dos exercícios. E outros, sob o
ângulo de erudição e das teorias filosó-
ficas. Blay descreve minuciosamente os
exercícios e discerne claramente as téc-
nicas de sua interpretação filosófica. Mas
é exclusivo dele a focalização das práti-
cas do Hatha-Yoga sob o ângulo da
psicologia ocidental e uma minuciosa
descrição das atitudes internas e dos
estados subjetivos pelos quais se atra-
vessa durante a prática dos exercícios.
N a opinião de Pierre Bastiou, o livro
de Blay provavelmente é o que de me-
lhor foi escrito até hoje sobre o Hatha-
-Yoga por um ocidental. Blay usa de
sua formação de psicólogo para apre-
sentar-nos o Hatha-Yoga na sua pleni-
tude de ciência, sem deformá-la em no-
me de nossa cultura.
Neste livro duas civilizações se
unem para completar-se, para enrique-
cer-se mutuamente numa causa comum:
o HOMEM.