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PATOLOGIA E EFEITOS PSICOSSOCIAIS

UFCD
DECORRENTES DA HOSPITALIZAÇÃO
3552
DA PESSOA IDOSA
Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

ÍNDICE

Introdução.....................................................................................................................4

Âmbito do manual.......................................................................................................4

Objetivos....................................................................................................................4

Conteúdos programáticos............................................................................................4

Carga horária..............................................................................................................6

1.Patologias da pessoa idosa...........................................................................................7

1.1.Patologia cardiovascular........................................................................................7

1.2.Patologia respiratória.............................................................................................8

1.3.Patologia hematológica e oncológica.....................................................................13

1.4.Patologia neurológica e sensorial..........................................................................15

1.5.Situações de emergência.....................................................................................19

1.5.1.Os acidentes.................................................................................................19

1.5.2. As intoxicações............................................................................................20

2.Equilíbrio biopsicossocial da pessoa idosa....................................................................22

2.1.A pessoa idosa portadora de doença crónica.........................................................22

2.1.1.Sinais e sintomas..........................................................................................22

2.1.2.Sinais de descompressão...............................................................................24

2.1.3.Agudização da doença...................................................................................24

3.Internamento da pessoa idosa em estado terminal......................................................26

3.1.Abordagem multidimensional...............................................................................26

3.2.Cuidados específicos............................................................................................28

4.Hospitalização - efeitos psicossociais...........................................................................30

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

4.1.A pessoa idosa e o hospital..................................................................................30

4.1.1.Meio hospitalar..............................................................................................30

4.1.2.“Colegas” de quarto.......................................................................................31

4.1.3.Técnicos e estruturas de apoio.......................................................................32

4.2.A hospitalização...................................................................................................33

4.2.1.Aspectos positivos/benefícios.........................................................................33

4.2.1.1.tratamento.................................................................................................33

4.2.1.2.ganhos em saúde.......................................................................................33

4.2.2.Aspectos negativos........................................................................................34

4.2.2.1.perda do quadro de referências...................................................................34

4.2.2.2.família.......................................................................................................35

4.2.2.3.aumento dos níveis de dependência............................................................36

5.Autonomia da pessoa idosa........................................................................................37

5.1.Minimizar os efeitos das hospitalizações na vida da pessoa idosa............................37

5.1.1.Nas atividades da vida...................................................................................37

5.1.1.1.Higiene e alimentação.................................................................................38

5.1.1.2.Sono..........................................................................................................39

5.1.1.3.Ocupação e conforto...................................................................................40

5.1.1.4.As visitas...................................................................................................41

5.1.2.A família da pessoa idosa...............................................................................42

5.1.3.Apoio............................................................................................................42

5.1.4.Informação...................................................................................................43

5.1.5.Preparação/ensino.........................................................................................44

5.2.O apoio extra-hospitalar.......................................................................................45

5.2.1.O recurso a outros recursos da sociedade.......................................................45

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

5.2.1.1.apoio domiciliário.......................................................................................45

5.2.1.2.Centro de dia.............................................................................................46

5.2.1.3.Lar............................................................................................................48

5.2.2.A alta médica e continuidade da prestação de cuidados...................................49

5.2.2.1.Consultas...................................................................................................49

5.2.2.2.Medicação..................................................................................................51

5.2.2.3.Exames/tratamentos...................................................................................52

Bibliografia...................................................................................................................55

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

Introdução

Âmbito do manual
O presente manual foi concebido como instrumento de apoio à unidade de formação de
curta duração nº 3552 – Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da
hospitalização da pessoa idosa, de acordo com o Catálogo Nacional de Qualificações.

Objetivos

 Identificar as patologias que conduzem à hospitalização da pessoa idosa.


 Detetar precocemente sinais de alteração ou equilíbrio bio-psicossocial da pessoa
idosa.
 Adquirir conhecimentos sobre a situação do doente terminal no hospital.
 Identificar consequências psicológicas e sociais da hospitalização da pessoa idosa.
 Promover a autonomia da pessoa idosa

Conteúdos programáticos
 Patologias da pessoa idosa
o Patologia cardiovascular
o Patologia respiratória
o Patologia hematológica e oncológica
o Patologia neurológica e sensorial
o Os acidentes
 Equilíbrio bio-psicossocial da pessoa idosa
o A pessoa idosa portadora de doença crónica
o - Sinais e sintomas
o - Sinais de descompressão
o - Agudização da doença
o Situações de emergência
o - Os acidentes

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

o - As intoxicações
 Internamento da pessoa idosa em estado terminal
o Abordagem multidimensional
o Cuidados específicos
 Hospitalização - efeitos psicossociais
o A pessoa idosa e o hospital
 - Meio hospitalar
 - “Colegas” de quarto
 - Técnicos e estruturas de apoio
o A hospitalização
 - Aspetos positivos/benefícios
 - Tratamento
 - Ganhos em saúde
o - Aspetos negativos
 - Perda do quadro de referências
 - Família
 - Aumento dos níveis de dependência
 Autonomia da pessoa idosa
o Minimizar os efeitos das hospitalizações na vida da pessoa idosa
 - Nas atividades da vida
 - Higiene e alimentação
 - Sono
 - Ocupação e conforto
o - As visitas
o - A família da pessoa idosa
 - Apoio
 - Informação
 - Preparação/ensino
o O apoio extra-hospitalar
 - O recurso a outros recursos da sociedade
 - Apoio domiciliário

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

 - Centro de dia
 - Lar
 - A alta médica e continuidade da prestação de cuidados
 - Consultas
 - Medicação
 - Exames/tratamentos

Carga horária

 25 horas

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

1.Patologias da pessoa idosa

1.1.Patologia cardiovascular

As doenças cardiovasculares são o conjunto de doenças que afetam o aparelho


cardiovascular, designadamente o coração e os vasos sanguíneos.

Existem alguns sintomas que podem constituir sinais de alerta, principalmente em pessoas
mais idosas:

Dificuldade em respirar
Pode ser o indício de uma doença coronária e não apenas a consequência da má forma
física, especialmente se surge quando se está em repouso ou se nos obriga a acordar
durante a noite;

Angina de peito
Quando, durante um esforço físico, se tem uma sensação de peso, aperto ou opressão por
detrás do esterno, que por vezes se estende até ao pescoço, ao braço esquerdo ou ao
dorso;

Enfarte do miocárdio

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

É uma das situações de urgência/emergência médica cardíaca. O sintoma mais


característico é a existência de dor prolongada no peito, surgindo muitas vezes em
repouso. Por vezes, é acompanhada de ansiedade, sudação, falta de força e vómitos.

Insuficiência cardíaca
Surge quando o coração é incapaz de, em repouso, bombear sangue em quantidade
suficiente através das artérias para os órgãos, ou, em esforço, não consegue aumentar a
quantidade adicional necessária. Os sintomas mais comuns são a fadiga e uma grande
debilidade, falta de ar em repouso, distensão do abdómen e pernas inchadas.

A prevenção é o melhor tratamento de qualquer doença:


 Alimentação equilibrada à base de legumes, vegetais, fruta e cereais;
 Exercício físico moderado e com regularidade;
 Não fumar;
 Controlo regular da tensão arterial, açúcar e gordura no sangue;
 A partir dos 40 anos deve haver realização de exames periódicos de saúde.

1.2.Patologia respiratória

As doenças respiratórias são as que afetam o trato e os órgãos do sistema respiratório.

À medida que envelhecemos:


 Os pulmões ficam menos elásticos diminuindo a Capacidade Vital.
 A atividade ciliar, que faz a limpeza das secreções, diminui de atividade
proporcionando a acumulação de secreções que favorecem as infeções respiratórias
e dificulta as trocas de gases.
 A musculatura do tórax perde a capacidade de eliminar secreções pela tosse, de
respirar profundamente expandindo os pulmões, e de expelir dióxido de carbono.

Estas alterações afetam especialmente os fumadores e pessoas que vivem em ambientes


com alto teor de poluentes e acabam possuir desconforto respiratório. Estas mudanças
facilitam e favorecem a instalação de doenças.

Sintomas

Tosse:

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

A tosse é uma defesa do organismo na tentativa de expelir secreções acumuladas nas vias
respiratórias.

Com o passar dos anos, pelos motivos já expostos, a tosse torna-se menos eficiente.

A presença de tosse persistente com duração de mais de 2 semanas deve ser alvo de
avaliação.

Causas mais comuns


 Tabagismo
 Bronquites
 Asma
 Pneumonias
 Refluxo Gastroesofágico
 Cancro de Pulmão, Metástases
 Tuberculose
 Efeitos Adversos de Medicamentos

Sibilos (Chiado):
Também conhecido como broncoespasmo é um sintoma relacionado com o som gerado
pela passagem do ar por estruturas tubulares (Brônquios).

Quando se vai expelir o ar e as passagens encontram-se contraídas e/ou semi-obstruídas


ocorre o sibilo.

Trata-se de um sintoma característico em portadores de bronquite crónica e asma.

Dispneia (Dificuldade para respirar, Falta de Ar):


A falta de ar sempre é um sintoma preocupante comum a várias doenças e condições,
muitas delas de extrema gravidade.

Costuma apresentar-se em pessoas que estando em repouso ou com pouca atividade


decidem, por exemplo, subir escadas.

Considera-se muito grave a presença de dispneia em repouso.

Alguns pacientes não se conseguem deitar completamente na cama. Dormem semi-


sentados para aliviar o desconforto desta grave condição.

Causas comuns
 Insuficiência Cardíaca Congestiva
 Embolia Pulmonar
 Pneumonias Graves

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

Nunca é demais enfatizar a gravidade deste sintoma. A presença de desconforto


respiratório em idosos deve ser considerada uma emergência médica.

Doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC)


DPOC é uma doença crónica que se caracteriza pela diminuição da capacidade respiratória.

Trata-se de um termo genérico comum a algumas doenças:


 Enfisema
 Asma
 Bronquite Crónica

Destas doenças destacam-se pela sua prevalência: a Bronquite Crónica e o Enfisema


pulmonar.

Todos os pacientes portadores de DPOC devem ser vacinados contra a gripe todos os anos
e uma vez contra a pneumonia.

Pneumonia
A pneumonia é uma das doenças que frequentemente leva pessoas idosas à morte.

Pacientes em instituições têm um risco 50 vezes maior de contrair infeções pulmonares


quando comparados com aqueles que vivem nos seus domicílios.

Vários fatores contribuem e facilitam esta terrível complicação.

Ao contrário do paciente adulto jovem, a pneumonia, especialmente naqueles mais idosos,


não se costuma apresentar de modo clássico, com febre alta, tosse produtiva, catarro
amarelado (purulento), dores nas costas e prostração.

Pode ocorrer de maneira absolutamente silenciosa, e às vezes apenas uma alteração no


padrão de comportamento nos leva a considerar esta possibilidade.

Tuberculose
Doença grave, transmitida pelo ar. Pode acometer todos os órgãos do corpo, em especial
nos pulmões.

Pessoas que vivem em instituições estão mais expostas ao risco de contrair a doença.

Acredita-se que 80% dessas pessoas tenham tido contacto com o agente etiológico antes
dos 30 anos de idade e agora, fragilizados e com o seu sistema imunológico comprometido,
a micobactéria silente acaba por encontrar a oportunidade para se reativar.

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

Certas condições aumentam o risco:


 Desnutrição
 Diabetes Mellitus
 Tabagismo
 Alcoolismo
 Neoplasias (Cancro)
 Doenças graves e debilitantes

Sintomas
 Na faixa etária geriátrica, os sintomas costumam ser vagos e inespecíficos:
 Fraqueza
 Emagrecimento
 Tosse

Algumas medidas são realmente eficazes na prevenção das infeções respiratórias.

O que fazer para prevenir?


 Estimular a tosse e hidratar convenientemente.
 Especialmente nos dias quentes, manter uma garrafa de líquidos para controlo a
respeito da quantidade efetivamente ingerida.
 As caminhadas e exercícios físicos contribuem para a mobilização das secreções
pulmonares.
 Pacientes que apresentam pneumonias de repetição ou outras condições que
representem risco, o médico assistente deverá indicar outros recursos como:
medicação específica de longa duração, vacinas, etc.
 O uso de aparelhos para inalação só deve ser indicado pelo médico.
 O paciente deve ser mantido em boas condições nutricionais, com uma dieta bem
balanceada ou com ajuda de suplementos alimentares se prescritas pelo médico.
Estas medidas, sem dúvida, previnem ou pelo menos diminuem o risco de infeções
pulmonares.

1.3.Patologia hematológica e oncológica

As doenças hematológicas também são chamadas de doenças do sangue. As mais comuns


são a anemia, leucemia e hemofilia.

Normalmente, são detetadas por sintomas clínicos como fraqueza, cansaço, infeções
frequentes e sangramentos anormais, e confirmadas em diagnósticos feitos por meio de

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

análises laboratoriais do sangue ou da medula óssea (aonde são formadas as células do


sangue).

Anemia
A anemia ocorre quando a quantidade de hemácias (glóbulos vermelhos que contêm
hemoglobina, uma proteína que transporta o oxigénio pelo corpo) no sangue se encontra
abaixo do nível normal.

A anemia ocorre quando a quantidade de hemácias (glóbulos vermelhos que contêm


hemoglobina, uma proteína que transporta o oxigénio pelo corpo) no sangue se encontra
abaixo do nível normal.

Causas

Nutricionais
 A falta de Ferro, vitamina B12 ou Ácido Fólico pode levar a quadros anémicos,
geralmente causados por dietas nutricionais deficientes em nutrientes derivados de
animais (carne, ovos e leite). O problema costuma atacar pessoas vegetarianas.
 Alcoolismo, gravidez e algumas doenças também podem levar à deficiência destes
nutrientes.

Hereditárias
 Doenças crónicas - Algumas doenças crónicas, como doenças dos rins e do
fígado, podem levar à anemia, principalmente em pessoas que necessitam de
hospitalização frequente.
 Falhas na medula óssea
 Uso de medicamentos

Leucemia
Esta doença atinge a medula óssea e os gânglios do corpo, podendo provocar anemia,
diminuição das plaquetas (causando sangramentos anormais) e, principalmente, alteração
dos leucócitos (glóbulos brancos que fazem a defesa do corpo contra as infeções).

Há dois tipos de leucemia mais frequentes: a linfóide aguda ou linfoblástica (mais comum
em crianças) e a leucemia mielóide aguda

Hemofilia
É a mais comum das doenças hemorrágicas hereditárias.

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

Causada pela deficiência dos fatores responsáveis pela ação coagulante do sangue, o que
torna o hemofílico sujeito a importantes hemorragias, mesmo por motivos simples, como
um corte ao se barbear ou extrações dentárias.

As cirurgias podem ser fatais para estas pessoas. A hemofilia afeta quase que
exclusivamente os homens.

Prevenção
 Fazer uma dieta alimentar equilibrada, com ingestão adequada de proteínas e
vitaminas.
 Fazer exames médicos de rotina, pelo menos uma vez por ano.
 Procurar o médico sempre que os seguintes sintomas aparecerem: fraqueza,
cansaço, sangramento anormal ou infeções frequentes.

1.4.Patologia neurológica e sensorial

Patologia neurológica

Doença de Alzheimer
A Doença de Alzheimer está, na maioria dos casos, relacionada com o envelhecimento.

O aumento do número de situações diagnosticadas é, por isso, uma consequência direta do


atual sucesso da Medicina em prolongar a vida.

A doença de Alzheimer é uma doença do cérebro, progressiva, irreversível e com causas e


tratamento ainda desconhecidos.

Começa por atingir a memória e, progressivamente, as outras funções mentais, acabando


por determinar a completa ausência de autonomia dos doentes.

Os doentes de Alzheimer tornam-se incapazes de realizar a mais pequena tarefa, deixam


de reconhecer os rostos familiares, ficam incontinentes e acabam, quase sempre,
acamados.

É uma doença muito relacionada com a idade, afetando as pessoas com mais de 50 anos.
A estimativa de vida para os pacientes situa-se entre os 2 e os 15 anos.

Sintomas

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

Ao princípio observam-se pequenos esquecimentos, perdas de memória, normalmente


aceites pelos familiares como parte do processo normal de envelhecimento, que se vão
agravando gradualmente.

Os pacientes tornam-se confusos e, por vezes, agressivos, passando a apresentar


alterações da personalidade, com distúrbios de conduta.

Acabam por não reconhecer os próprios familiares e até a si mesmos quando colocados
frente a um espelho.

À medida que a doença evolui, tornam-se cada vez mais dependentes de terceiros.

Iniciam-se as dificuldades de locomoção, a comunicação inviabiliza-se e passam a


necessitar de cuidados e supervisão integral, até mesmo para as atividades elementares do
quotidiano, como alimentação, higiene, vestuário, etc.

Doença de Parkinson
A doença de Parkinson é uma perturbação degenerativa e lentamente progressiva do
sistema nervoso que apresenta várias características particulares: tremor em repouso,
lentidão na iniciação de movimentos e rigidez muscular.

A doença de Parkinson afeta cerca de 1 % da população com mais de 65 anos e 0,4 % da


população com mais de 40 anos.

A doença de Parkinson inicia-se, frequentemente, de forma insidiosa e avança de forma


gradual. Em muitas pessoas inicia-se como um tremor da mão quando está em repouso. O
tremor é máximo em repouso, diminui com o movimento voluntário da mão e desaparece
durante o sono.

A dificuldade para iniciar o movimento é particularmente importante e a rigidez muscular


dificulta ainda mais a mobilidade. Quando o antebraço é fletido ou estendido por outra
pessoa, pode perceber-se a rigidez e uma espécie de rangido.

A rigidez e a imobilidade podem contribuir para produzir dores musculares e sensação de


cansaço. A combinação de todos estes sintomas causa muitas dificuldades. A deterioração
no controlo da musculatura das mãos provoca uma dificuldade crescente para as atividades
diárias, como abotoar os botões da camisa ou atar os atacadores.

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

As feições são menos expressivas devido à imobilidade dos músculos da cara responsáveis
pela expressão. Às vezes, esta falta de expressão confunde-se com uma depressão,
embora muitas pessoas com a doença de Parkinson se tornem efetivamente depressivas.

Com o tempo a cara adquire um olhar perdido, com a boca aberta e uma diminuição do
pestanejar.

É frequente que estas pessoas se babem ou se engasguem como consequência da rigidez


muscular na cara e na garganta, o que dificulta a deglutição.

Os doentes que sofrem de Parkinson costumam falar sussurrando com voz monótona e
podem gaguejar devido à dificuldade que têm para exprimir os seus pensamentos. A
maioria mantém uma inteligência normal, mas muitos desenvolvem demência.

Tratamento
Na abordagem terapêutica da doença de Parkinson pode utilizar-se uma ampla variedade
de medicamentos, mas nenhum destes cura a doença nem suprime a sua evolução. No
entanto, facilitam o movimento e durante anos estes doentes podem levar a cabo uma vida
funcionalmente ativa.

A prática diária do máximo de atividades físicas possíveis e o seguimento de um programa


regular de exercícios podem contribuir para que os afetados pela doença de Parkinson
mantenham a mobilidade.

A fisioterapia e as ajudas mecânicas (como as cadeiras de rodas) podem ser úteis para
restabelecer um grau suficiente de autonomia.

Uma dieta rica em fibras e uma ingestão adequada de alimentos contribuirão para
combater a obstipação que pode ocorrer devido à inatividade, à desidratação e ao uso de
alguns fármacos.
Neste sentido é útil acrescentar suplementos à dieta e tomar laxantes para manter a
regularidade da função intestinal.

Deve prestar-se uma atenção especial à dieta porque a rigidez muscular pode dificultar a
deglutição, e às vezes de forma grave, o que a longo prazo pode produzir desnutrição.

Patologia sensorial
Em função da idade, são detetadas diversas mudanças nas funções percetivas dos idosos.

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

Podemos destacar como consequência dessas alterações, uma deterioração progressiva no


desempenho motor especializado.

A visão, considerada por muitos como o órgão do sentido mais essencial, é prioritariamente
afetada.

A diminuição da capacidade auditiva é considerada por muitos estudiosos da área como um


importante motivo da exclusão social do idoso.

A maior dificuldade auditiva da pessoa idosa é na deteção de sons de alta frequência e no


aumento do tempo de reação aos sons.

O olfato também é afetado, ocorrendo uma queda gradual na capacidade de identificar


corretamente os odores.

O tato, responsável pela informação ao sistema nervoso da temperatura do ambiente


externo, sensações de dor e de toque, é sensivelmente diminuído.

1.5.Situações de emergência

1.5.1.Os acidentes

Os acidentes são responsáveis pelo aumento do grau de dependência das pessoas idosas.

Os problemas ligados ao envelhecimento, como a cegueira ou a diminuição da acuidade


visual, a surdez, os défices sensoriais, dificuldade em andar e manter o equilíbrio, tornam
as pessoas idosas mais vulneráveis às quedas e aos acidentes de toda a espécie.

Muitas das pessoas idosas, vivem em ambientes desadaptados às suas necessidades, por
exemplo: vivem em prédios antigos, com muitas escadas, por vezes sem iluminação;
moram nos arredores dos centros de comércio e não têm meios de transporte adequados;
vivem em casas grandes demais para apenas uma pessoa.

Os acidentes mais frequentes em casa são causados por:


 Pôr-se de pé em cima de um banco, escadote ou cadeira
 Andar sobre pavimentos molhados, húmidos ou encerados
 Pequenos tapetes, ou tapetes de quarto sem forro antiderrapante

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

 Mobiliário instável, gavetas abertas, peças de mobília ou outros obstáculos deixados


no seu caminho
 Má iluminação
 Escadas com degraus de tamanhos diferentes
 Fios elétricos ou de telefone deixados no chão
 Banheira ou chuveiro sem barras de apoio ou tapete antiderrapante

Medidas para prevenção das quedas no idoso

Intrínsecas
• Tratar causas subjacentes
• Otimizar o uso de medicamentos
• Programa de terapia física
• Programa de atividades físicas

Extrínsecas
• Reduzir os riscos ambientais (especialmente dentro do domicílio)
• Melhorar iluminação
• Resultam de uma complexa interação entre fatores intrínsecos e extrínsecos.

1.5.2. As intoxicações

Produtos químicos (lixívias)


As mais perigosas são as industriais ou as produzidas especificamente para a limpeza do
lar. A ingestão costuma acontecer por acidente ou por confusão.

Depois da referida ingestão, o efeito costuma ver-se logo, com uma sensação de mal-estar
e ardência interna.

Se se ingeriu alguma destas substâncias, não se deve provocar o vómito, porque


aumentará a lesão no trato esofágico ao sair de novo para o exterior. Recomenda-se que
se ingira gemas de ovo para contrariar o efeito corrosivo.

Se se ingeriu qualquer outro tipo de substância não corrosiva, recomenda-se que se


provoque o vómito.

A pessoa afetada deve ser enviada imediatamente para um centro médico.

Fármacos:
Os idosos costumam intoxicar-se devido a confusões.

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

O tratamento baseia-se em produzir o vómito a fim de eliminar o mais depressa possível os


fármacos.

Gases:
As intoxicações por gases quase sempre se devem ao gás butano, ou a gases gerados por
combustão. O gás butano é reconhecido facilmente pelo seu cheiro.

Quando se suspeitar de que um gás foi libertado, é fundamental desligar a eletricidade


para evitar qualquer chispa que gere a deflagração e ventilar bem a casa

O monóxido de carbono é originado na combustão habitual dos aquecedores a gás butano.


É um gás muito difícil de identificar, uma vez que, não tem cheiro.

A intoxicação costuma identificar-se com uma intoxicação por sintomatologia digestiva,


com náuseas e vómitos, e neurológica, com dores de cabeça e perda de conhecimento.

É necessário fazer imediatamente uma ventilação adequada da casa, evacuando-se o mais


depressa possível.

2.Equilíbrio biopsicossocial da pessoa idosa

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

2.1.A pessoa idosa portadora de doença crónica

2.1.1.Sinais e sintomas

Entende-se por doença crónica a enfermidade de curso prolongado, com evolução gradual
dos sintomas e com aspectos multidimensionais, potencialmente incapacitante, que afeta
as funções psicológicas, fisiológicas ou anatómicas

Para ser considerada doença crónica esta terá que apresentar uma ou mais das seguintes
particularidades: ser permanente; produzir incapacidade/deficiência residual; ser causada
por alterações patológicas irreversíveis; exigir uma formação especial do doente para a
reabilitação; exigir longos períodos de supervisão, observação ou cuidados.

As doenças crónicas mais prevalentes são:


 Diabetes;
 Obesidade;
 Cancro;
 Doenças respiratórias;
 Doenças cardiovasculares;
 Algumas infeções como a tuberculose

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

As doenças crónicas, enquanto doenças que se prolongam no tempo, produzem


incapacidades/deficiências residuais, implicam a necessidade de readaptação (física,
familiar, social, psicológica e espiritual) e condicionam as políticas de saúde, no que
respeita à adequação das respostas dos serviços face ao aumento do número de casos.

É frequente a coexistência de patologia crónica múltipla. Num doente crónico, coexistem,


em média, cerca de cinco condições crónicas, o que significa que cada doente crónico tem
necessidades especiais e requer atenção particularizada.

Cerca de 75 por cento das doenças cardiovasculares são atribuíveis a:


 Colesterol elevado;
 Tensão arterial elevada;
 Dieta pobre em frutas e vegetais;
 Sedentarismo;
 Tabagismo.

Na velhice o risco de hospitalização em situações agudas e crónicas aumenta, pois as


pessoas idosas tendem a apresentar multipatologias e níveis acentuados de dependência.
Aliás, constituem o grupo etário da população que mais utiliza os cuidados hospitalares.

2.1.2.Sinais de descompressão

O regime que o doente deve seguir pode apresentar-se complexo, sendo fundamental o
papel do profissional de saúde junto deste. Logo, a intervenção do profissional deve dirigir-
se para o controlo dos sintomas e manutenção da qualidade de vida do doente, mais do
que para a cura da doença em causa.

Para estes, a prioridade de topo são os cuidados e não a cura, pelo que, exigem,
essencialmente, continuidade de cuidados, independentemente do contexto (ou sector) de
prestação em que os doentes se encontrem.

O aparecimento de uma doença crónica implica, frequentemente, a modificação dos


hábitos de vida e também a necessidade de recorrer a métodos terapêuticos. Muitas vezes
a pessoa não é capaz de integrar estas mudanças no seu dia-a-dia, resultando daí riscos
para a sua saúde.

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

A incapacidade funcional encontra-se frequentemente associada a depressão nos idosos.


a depressão encontra-se associada a níveis mais reduzidos de qualidade de vida entre as
pessoas idosas.

Por permanecer sub-diagnosticada, a depressão sobrecarrega as famílias e instituições que


providenciam cuidados a pessoas idosas, é altamente destruidora da qualidade de vida e,
como tal, impõe uma grande carga social e económica para a sociedade.

2.1.3.Agudização da doença

Na fase de agudização da doença crónica, os idosos tem tendência a isolar-se


completamente, a tornarem-se exigentes, coléricos, etc.

As suas frustrações encontram muitas vezes eco na atitude de quem as trata e que, em
reação, não deseja senão uma coisa, isolá-los cada vez mais.

Neste contexto, o profissional deve:


 Dar ao idoso esperanças e não falsas esperanças;
 Encoraja-lo a manter um certo controlo;
 Ajudar a exprimir as suas emoções de desgosto;
 Ajudá-lo a encontrar um sentido para a sua vida e para a sua morte;
 Mostrar-se disponível e permitir ao idoso falar daquilo que vive;
 Estabelecer uma comunicação verdadeira e de ajuda;
 Estabelecer uma relação de empatia;
 Ajudar o idoso a conservar a autoestima;
 Dar provas de honestidade;
 Ajudar o idoso a manter as suas forças e a energia;
 Ficar junto do idoso, estar presente;
 Ajudar o idoso a manter o contacto com a realidade e a manter-se consciente o
mais tempo possível;
 Ajudar o idoso a satisfazer as suas necessidades sociais e reforçar os laços
familiares.

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

3.Internamento da pessoa idosa em estado terminal

3.1.Abordagem multidimensional

Os cuidados terminais, além da sua especificidade técnico-científica, devem integrar uma


componente sócio-afectiva especial que deve ser assegurada por todo o pessoal atendendo
ao respeito por esta fase da vida. O acompanhamento deve ser integral e, por isso
contemplar a dimensão espiritual.

Os doentes internados no final da vida ou que necessitem de cuidados paliativos, têm


direito a ser acompanhados, se assim o desejarem, pelos seus familiares e / ou pessoa da
sua escolha, assim como a condições ambientais condignas.

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

É urgente tomar medidas que permitam uma resposta coordenada, pronta e atempada dos
diversos níveis de prestação de cuidados, como garantia da eficácia do atendimento ao
utente.

Sendo impossível evitar a morte, é no entanto possível tornar a vida da pessoa que está a
morrer o mais agradável e significativa. O moribundo tem o direito de viver plenamente até
ao fim.

Direitos do moribundo:
1. Ser tratado até ao fim como um ser humano;
2. Conservar a esperança (num alivio, numa vida futura);
3. Ser tratado por pessoas competentes, capazes de manter a esperança;
4. Exprimir à sua maneira os sentimentos e as emoções quanto à morte;
5. Participar nas decisões quanto aos cuidados;
6. Receber cuidados médicos e de enfermagem quando necessários, mesmo
quando os objetivos de cura são modificados para objetivos de conforto;
7. Não morrer só;
8. Não sofrer;
9. Ter respostas francas às suas perguntas;
10. Não ser enganado;
11. Morrer em paz com dignidade;
12. Conservar a individualidade e não ser julgado por decisões e escolhas que
entrem em conflito com os valores ou crenças de outros;
13. Saber que após a morte o seu corpo será respeitado;
14. Receber os cuidados de pessoas sensíveis, competentes e capazes de ajudar,
que compreendem as suas necessidades e que o querem ajudar a ultrapassar esta
ultima fase da vida.

3.2.Cuidados específicos

A “medicina paliativa”, ou “cuidados paliativos”, é a forma civilizada de entender e atender


aos doentes terminais, oposta principalmente aos dois conceitos extremos aludidos:
obstinação terapêutica e eutanásia.

Esta é uma nova especialidade de cuidados médicos ao doente terminal, que contempla o
problema da morte do homem numa perspetiva profundamente humana, reconhecendo a

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

dignidade da pessoa no âmbito do grave sofrimento físico e psíquico que o fim da


existência humana muitas vezes comporta.

Nas Unidades de Cuidados Paliativos, que são áreas assistenciais, existentes física e
funcionalmente nos hospitais, proporciona-se uma atenção integral ao doente terminal.

Uma equipa de profissionais assiste estes doentes na fase final da sua enfermidade, com o
único objetivo de melhorar a qualidade da sua vida neste transe definitivo, atendendo às
necessidades físicas, psíquicas, sociais e espirituais do paciente e da sua família.

As necessidades físicas advêm das graves limitações corporais e sobretudo da dor,


especialmente em casos de cancro, já que este atinge 80% dos doentes terminais.

Com tratamento adequado pode-se chegar a controlar grande parte da dor. As


necessidades psicológicas são evidentes. O doente precisa de se sentir seguro, precisa de
confiar na equipa de profissionais que o trata, de ter a segurança de uma companhia que o
apoie e não o abandone. Necessita de amar e de ser amado.

A doença terminal causa em quem a padece e na sua família um intenso desgaste e não
poucos desajustes familiares. Frequentemente, toda a atenção dos membros da família
concentra-se no membro doente e, se a sobrevivência se prolonga, o desajuste pode ser
duradouro.

Os cuidados paliativos definem-se como uma resposta ativa aos problemas decorrentes da
doença prolongada, incurável e progressiva, na tentativa de prevenir o sofrimento que ela
gera e de proporcionar a máxima qualidade de vida possível a estes doentes e suas
famílias. São cuidados de saúde ativos, rigorosos, que combinam ciência e humanismo.

Os cuidados paliativos não são determinados pelo diagnóstico das doenças, mas pela
situação e pelas necessidades do doente. No entanto, doenças como o cancro, a sida e
doenças neurológicas graves e rapidamente progressivas implicam frequentemente a
necessidade de cuidados paliativos.

Os cuidados paliativos dirigem-se prioritariamente à fase final da vida, mas não se


destinam, apenas, aos doentes agónicos. Muitos doentes necessitam de ser acompanhados
durante semanas, meses ou, excecionalmente, antes da morte.

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

As unidades de cuidados paliativos podem prestar cuidados em regime de internamento ou


domiciliário e abrangem um leque variado de situações, idades e doenças.

Os cuidados paliativos proporcionam aos doentes que vão morrer a possibilidade de


receberem cuidados num ambiente apropriado, que promova a proteção da dignidade do
doente incurável na fase final da vida.

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

4.Hospitalização - efeitos psicossociais

4.1.A pessoa idosa e o hospital

4.1.1.Meio hospitalar

O hospital inclui uma grande variedade de unidades/serviços que apresentam


características muito diferentes, apesar de inter-relacionados, tornando-a uma organização
heterogénea e complexa.

O contacto dos utentes com o hospital, sobretudo quando em situação de internamento, é


uma experiência significativa acompanhada por um conjunto de sentimentos, quase
sempre marcantes, pois o hospital é um mundo à parte.

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

A hospitalização por sua vez, constitui quase sempre um trauma para o utente e sua
família, provocando com frequência desde a admissão, medos, angústias, fantasmas, que
cada indivíduo exprime de acordo com a sua personalidade.

Durante o internamento ocorrem procedimentos (simples e rotineiros para o profissional)


que promovem o sentimento de despersonalização no doente, em particular, pela
dificuldade em manter a privacidade e individualidade.

O seu tempo define-se pelas rotinas do contexto e a comunicação com o exterior é


limitada. Estes procedimentos podem ser vivenciados como ameaçadores, geradores de
ansiedade, trazendo desconforto, insegurança e stress.

O utente geralmente está apreensivo e, a atitude da equipa de saúde envolvida na


admissão pode fazê-lo sentir-se mais confortável. Uma recepção acolhedora, com
demonstração de verdadeiro interesse, fá-lo sentir-se como um indivíduo único com valor e
dignidade.

4.1.2.“Colegas” de quarto

O internamento condiciona a pessoa idosa uma readaptação na gestão do seu espaço


pessoal, enquanto espaço que reserva à sua volta para um comportamento social
adequado.

A alteração dos hábitos, e das rotinas usuais sobretudo nos idosos, como a necessidade de
cuidar da sua higiene sempre de manhã, a necessidade de partilhar um quarto com
pessoas que desconhece, ou até as manobras por vezes invasivas ao próprio corpo,
efetuadas por vagas sucessivas de estranhos, obriga a pessoa gradualmente a aprender a
adaptar-se a toda uma nova dinâmica diária.

No entanto, a existência de companheiros de quarto pode ter um efeito benéfico na


minimização da solidão do idoso. Neste sentido, as pessoas conscientes e capazes de
dialogar devem ser colocadas num quarto com pessoas com as mesmas capacidades

4.1.3.Técnicos e estruturas de apoio

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

O trabalho com pessoas dependentes encerra uma incontornável dimensão humana dado
que os profissionais são pessoas que trabalham com pessoas, cada qual com as suas
próprias expectativas, desejos, vontades, etc.

O exercício da prestação de trabalho, independentemente da profissão, exige que a mesma


seja efetuada de forma responsável e atenta, imbuída de um espírito de cooperação,
altruísmo, autonomia, competência e profissionalismo.

Em ambiente hospitalar, são causadores de stress, para além da própria doença, a falta de
informação (apesar de nem todos os utentes desejarem ser informados); a não obtenção
de respostas às questões; a separação da família, assim como dificuldades de comunicação
com os profissionais de saúde.

Profissionais e doentes não falam a mesma língua, não só sob o ponto de vista da
comunicação, como dos conceitos.

Os benefícios de uma boa comunicação entre os profissionais de saúde e o utente, no


estado de saúde deste último: na sua capacidade de adaptação aos tratamentos, e na sua
recuperação.

Neste sentido, fornecer informação aos doentes, envolvê-los, comunicar com eles, satisfaz
várias necessidades a diferentes níveis, tendo repercussões positivas para os utentes e
famílias, para as instituições de saúde e para a humanização dos cuidados:
 A nível médico-legal, permite o consentimento informado;
 A nível psicológico, ajuda a lidar com a doença, reduz os estados depressivos, o
stress e a ansiedade, preserva a dignidade e o respeito, promove o sentimento de
segurança, aumenta a adesão e o compromisso, a aceitação dos procedimentos
terapêuticos e a responsabilidade do utente/doente;
 A nível médico-institucional – reduz o número de dias de internamento, o número
de medicamentos ingeridos e facilita a recuperação do doente.

A vida privada do doente não pode ser objeto de intromissão, salvo em caso de
necessidade para efeitos de diagnóstico ou tratamento e tendo o doente expressado o seu
consentimento.

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

4.2.A hospitalização

4.2.1.Aspectos positivos/benefícios

4.2.1.1.tratamento

A hospitalização representa para as pessoas idosas um desafio que pode ser vivenciado de
diferentes formas, dependendo de fatores como a capacidade de adaptação, experiências
prévias e representações de saúde e doença.

Por exemplo, pessoas idosas com história anterior de internamento poderão encarar o
hospital com alguma naturalidade, recorrendo às experiências passadas para enfrentar os
problemas atuais.

Ocorre, também, o conformismo face à hospitalização, pois algumas pessoas idosas


vivenciam a hospitalização como algo que faz parte da vida.

4.2.1.2.ganhos em saúde

O espaço hospitalar não é apenas um espaço de sentimentos negativos. É também o


espaço em que se resolvem situações, que de outra forma agravavam a morbilidade e
mortalidade das pessoas.

Pode ser um espaço que transmita segurança, pois é onde se oferecem condições para
prevenir, tratar ou reabilitar o problema de saúde que preocupa as pessoas, prevenindo
complicações futuras.

4.2.2.Aspectos negativos

4.2.2.1.perda do quadro de referências

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

A admissão num hospital confronta o utente com um ambiente que lhe é estranho,
provocando na maioria dos idosos, uma alteração nas suas referências existenciais.

Em termos comportamentais, o indivíduo que se confronta com o internamento, passa a ter


de se reajustar a uma situação nova em que o seu papel passa a ser o de doente.
Paralelamente surgem alterações nos outros papéis sociais desempenhados.

A incerteza poderá surgir em resultado das dúvidas sobre o que espera a pessoa, não
apenas relativamente ao tipo de tratamentos e técnicas a que irá ser submetido, como ao
percurso da própria doença, que poderá levar a mais sofrimento ou até à morte.

O doente pode recear a lesão corporal, a invalidez ou ainda outro tipo de receios como:
medo de ser manipulado; medo de que não se ocupem dele; medo de ser mobilizado;
medo de exames diagnósticos dolorosos; medo das mãos inábeis ou muito bruscas; medo
de ficar diminuído; medo de ser humilhado; medo de ser inútil; medo da decadência; ou
medo do sofrimento.

No caso dos idosos, além destes medos, pode também existir com particular relevo, o
medo de ser abandonado, uma vez que frequentemente receiam mais o abandono do que
da morte em si.

4.2.2.2.família

No hospital, para além da perda de saúde e dos papéis, o doente tem outras perdas muito
significativas, como seja a separação do seu ambiente familiar ou a interrupção nas
atividades que lhe poderiam dar satisfação.

Quando existe necessidade de hospitalização do doente idoso, sobretudo de forma repetida


ou prolongada, pode assistir-se a uma perda do seu papel sociofamiliar, pela quebra de
funções habituais, de relações e pela diluição ou anulação dos papéis de responsabilidade.

Em situação de internamento hospitalar, o espaço físico em que ocorre o contacto entre os


familiares ou pessoas significativas e os idosos, passa a ser um espaço estranho e por
vezes hostil.

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

Tradicionalmente esse espaço/tempo de contacto tem ocorrido no período chamado a


visita.

As visitas, habitualmente ocorrem num único período diário, com um número controlado de
pessoas em simultâneo, num horário nem sempre adaptado às exigências quotidianas das
famílias.

Também não é de menosprezar a variedade de reações que os familiares dos doentes


podem ter perante uma situação de internamento e doença deste último – aceitação ou
rejeição, solidariedade ou pena, confiança ou apreensão, curiosidade ou aversão, estima ou
desprezo – e a influência que a perceção destes sentimentos pode ter na pessoa doente.

4.2.2.3.aumento dos níveis de dependência

As consequências físicas do internamento na pessoa idosa são diversas, podendo potenciar


e agravar alterações físicas associadas ao processo de envelhecimento, aumentando o nível
de dependência.

Evidencia-se aspectos como:


 A diminuição da água corporal torna o indivíduo mais vulnerável à desidratação e à
hipotensão;
 O internamento com permanência na cama e a administração de sedativos aumenta
o risco de síncope e de quedas;
 A oxigenação celular diminui, assim como a massa muscular;
 A imobilidade leva a uma perda de 5% de força muscular por dia, o que pode pôr
em risco, ao fim de pouco tempo, a capacidade de andar, aumentando o risco de
quedas;
 A redução da capacidade respiratória que acompanha o envelhecimento, quando
associada à imobilidade, leva a uma menor ventilação, podendo conduzir a
confusão mental, sonolência, dispneia e ao risco de pneumonia;
 No caso das mulheres a permanência na cama leva a uma aceleração da
desmineralização, com agravamento da osteoporose, e maior risco de fraturas;
 As características da pele alteram-se ficando mais fina e menos vascularizada; a
permanência na cama aumenta a sua fragilidade com maior risco de úlceras de
pressão.

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

Face aos sentimentos de impotência e insegurança, o doente assume um comportamento


de dependência de quem o cuida. Essa dependência dos outros para os gestos mais
familiares como: beber, comer, andar, lavar-se ou vestir-se vai acentuar o sentimento de
impotência e insegurança.

Esta dependência reforçada pelo ambiente hospitalar e pela doença geram um sentimento
de inferioridade. Este sentimento pode, por sua vez, reforçar o sentimento de dependência.

5.Autonomia da pessoa idosa

5.1.Minimizar os efeitos das hospitalizações na vida da pessoa idosa

5.1.1.Nas atividades da vida

A autonomia da pessoa idosa é vista como um processo suscetível de ser potenciado pela
presença de cuidados adequados, passando pela satisfação de um conjunto de

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

necessidades como a de expressar a sua individualidade, o de assumir o poder sobre si


próprio, o de participar nas decisões e o desejo de não separação daqueles que pertencem
a sua esfera emocional.

As instalações e equipamentos que o doente utiliza devem estar de acordo com a sua
vulnerabilidade e situação clínica. A fragilidade devida à situação clínica determina, para o
doente internado, necessidades específicas não só de diagnóstico e tratamento, mas
também de instalações e equipamentos.

As barreiras arquitetónicas deverão ser reduzidas ao mínimo: nos quartos ou enfermarias,


na disposição dos equipamentos, na sinalização interna, nas escadas, etc.

O doente internado deve ser informado sobre os diferentes serviços existentes no


estabelecimento, incluindo aqueles não diretamente relacionados com a prestação de
cuidados, como por exemplo - gabinete do utente, correio, banco, cafetaria, serviços
religiosos e voluntariado.

A sinalização interna deve ser suficientemente clara para que o doente possa deslocar-se
com facilidade dentro do hospital. As cores, o tipo e o tamanho das letras deverão ser
cuidadosamente estudados.

Os organogramas do serviço deverão estar afixados para que o doente e visitas conheçam
a organização e os seus responsáveis.

5.1.1.1.Higiene e alimentação

Muitos dos medos dos doentes hospitalizados advêm da ameaça que sentem à integridade
física e à alteração da sua imagem corporal. A imagem corporal é uma base da identidade,
por isso, toda a mudança na estrutura corporal é sentida como uma ameaça.

Essa ameaça pode ter por base, não apenas a doença, como também as ações e
comportamentos dos prestadores de cuidados. É difícil a certos doentes aceitar serem
tocados e observados por outras pessoas inclusive por profissionais de saúde.

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

O respeito pela intimidade do doente deve ser preservado durante os cuidados de higiene,
as consultas, as visitas médicas, o ensino, os tratamentos pré e pós operatórios,
radiografias, o transporte em maca e em todos os momentos do seu internamento.

Na prestação dos cuidados de higiene e imagem, cada doente tem de ser tratado com
respeito pelos seus direitos e deveres, pela sua identidade, hábitos e modos de vida e ser-
lhe assegurada privacidade, autonomia, dignidade e confidencialidade, sob pena de se
estar a violar os direitos dos indivíduos e, consequentemente, não se garantir a qualidade
dos serviços.

A terapêutica nutricional durante o período de internamento possivelmente melhora o


estado nutricional e também contribui para a melhoria da qualidade de vida e para a
redução dos custos hospitalares.

Portanto, é necessário identificar os pacientes de risco nutricional, pois, diagnósticos e


tratamentos precoces podem evitar, em muitos casos, longos períodos de internamento e
de complicações.

As refeições devem ser momentos de prazer e dadas com segurança ao idoso. A sua
entrega é um dos momentos privilegiados para lembrar o cliente de beber líquidos com
frequência ao longo do dia.

O responsável pelo processo deve definir as regras para o apoio na alimentação, segurança
e promoção da autonomia dos utentes.

5.1.1.2.Sono

O sono dos idosos é mais fragmentado e menos profundo. Não se pode afirmar que os
idosos precisem de dormir menos, mas têm menos capacidade de dormir de forma
contínua. O seu sono é mais frequentemente interrompido por despertares noturnos.

A mudança de estádio ou níveis de sono é muito frequente. Os idosos passam mais


facilmente de um estádio para outro, comparativamente às pessoas de outra idade.

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

Estudos realizados demonstram que as horas de sono no hospital diminuem em relação às


horas em domicílio. No hospital, o sono é mais superficial, períodos curtos e leves e os
idosos revelam mais dificuldade em adormecer.

Entre os fatores que mais influem esta realidade são:


 Sentir dores;
 Luminosidade excessiva;
 Barulho;
 Vontade de urinar frequente;
 Mau posicionamento na cama;
 Presença de uma ou mais pessoas estranhas (companheiros de quarto);
 Desconforto emocional.

Todos os incómodos devem ser reduzidos ao mínimo, nomeadamente, nas horas de


repouso ou de sono. A intensidade da luz deverá ser tida em consideração. O quarto não
deve estar demasiado frio, nem demasiado quente.

É recomendado que se tenha cuidado com as costas das pessoas acamadas. Não é
conveniente que a parte lombar seja sacrificada nem que os idosos se dobrem muito pois
esta postura pode ser bastante prejudicial.

Os profissionais de saúde devem ter especial atenção a estes fatores, na medida em que o
sono e repouso se revelam essências para a plena recuperação do idoso hospitalizado.

5.1.1.3.Ocupação e conforto

A ocupação dos períodos de solidão com atividades que propiciem prazer mostram-se uma
estratégia favorável para minimizar os efeitos negativos da hospitalização, particularmente
para os idosos, uma vez que ocupa o tempo ocioso, estimula a inter-relação com os seus
pares e profissionais da equipe de saúde, entre outros benefícios.

Durante o internamento, os idosos dispõem de tempo livre e este momento caracteriza-se


por permitir a criação. A criatividade, enquanto ocupação do tempo livre, remete ao
preenchimento destes períodos com atividades de lazer, visando transformar a
hospitalização num evento menos penoso.

Estas atividades poderão ser desenvolvidas por um terapeuta ocupacional.

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

Este profissional organiza e desenvolve programas particulares de tratamento, com vista à


readaptação física ou mental das pessoas incapacitadas, com o objetivo de obter o máximo
de funcionalidade e independência.

Com atividades manuais e trabalhos criadores, recupera capacidade funcional dos músculos
e movimentos das articulações, a coordenação dos movimentos e a resistência à fadiga.

Estudos indicam que se verifica uma significativa melhora funcional por meio da
estimulação psicomotora em idosos hospitalizados, momento em que a tendência é de
fragilidade e propício à dependência.

Todas as atividades diárias, de rotina ou ocupacionais, devem privilegiar o conforto do


utente. Deve ter-se especial atenção ao posicionamento e mobilidade.

Alguns idosos/doentes, incapazes de se movimentar sozinhos, dependem completamente


da/o técnica/o para mudar de posição.

Movimentos delicados e seguros da parte da/o técnica/o baseados em conhecimentos de


mecânica corporal, não só ajudam o idoso/doente a se movimentar mais facilmente, como
lhe proporcionam uma sensação de confiança na ajuda que recebe.

5.1.1.4.As visitas

O doente internado tem direito à visita dos seus familiares e amigos quando o desejar e os
horários o permitam, sempre que não exista contraindicação.

As instituições e os profissionais devem facilitar e mesmo incentivar o apoio afetivo que


podem dar “entes significativos” para o doente.

As situações familiares mais complicadas onde existem conflitos entre os diferentes


familiares e / ou amigos têm que ser ponderadas discreta e subtilmente pelos profissionais.

Os doentes que não têm visitas e se sentem isolados devem ter um maior apoio quer do
pessoal de saúde, quer do pessoal voluntário devidamente preparado e enquadrado.

5.1.2.A família da pessoa idosa

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

Para que a família possa desempenhar na totalidade a sua função de prestadora de


cuidados, os profissionais de saúde devem procurar compreender e avaliar as necessidades
sentidas pelos familiares e criar condições para que a família e o utente possam verbalizar
os seus sentimentos, receios e angústias.

Este é um tempo oportuno para o ensino do familiar cuidador, em especial se estiver


previsto o regresso a casa do utente.

As necessidades da família ou de pessoas significativas que prestam apoio e Assistência


nos cuidados, devem ser consideradas na preparação do regresso a casa.

5.1.3.Apoio

A fim de aumentar o bem-estar do cuidador, e de favorecer o seu melhor desempenho, o


enfermeiro deverá apoiar e vigiar o cuidador, assegurar cuidados durante o descanso,
informar, ensinar, orientar para rede de suporte social e de grupos de apoio, proporcionar
o envolvimento da família e o seu suporte, incluindo o suporte emocional, aconselhamento
e instilação de esperança, assim como apoio à tomada de decisão.

A ajuda tanto pode ser a prestação de serviços, tais como o auxílio na lida ou governo da
casa, suporte financeiro, gestão de outros serviços; como pode ser a prestação de cuidados
diretos, por ex. suporte emocional, apoio na toma de medicação, alimentação ou outros.

Na escolha do cuidador deve atender-se ao empenho do candidato em fazer tudo o que de


melhor se possa fazer ao doente, mas também à sua lucidez em ser capaz de avaliar as
suas capacidades e todas as suas outras obrigações ou responsabilidades:
a) O tempo que pode retirar ao emprego sem o perder ou o modo como gerir a
conciliação entre trabalho e prestação de cuidados;
b) Os cuidados que é capaz de prestar, tanto devido às suas próprias capacidades
físicas, de saúde e de relacionamento (questões de pudor ou outras), como dos
seus conhecimentos face à situação específica do doente;
c) Os limites impostos à sua disponibilidade devido à hierarquização global das suas
responsabilidades;
d) As modalidades e possibilidades de articulação entre cuidados formais e
informais.

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

5.1.4.Informação

A informação garantida ao próprio e seus familiares como preparação para o mais rápido
regresso a casa possível, tem significado neste contexto.

A intervenção dos assistentes sociais nos serviços de internamento, pela centralidade que
coloca na dimensão psicossocial do adoecer e do estar doente, visa a humanização e a
qualidade dos cuidados, a satisfação dos doentes e famílias, e ainda a rentabilização dos
recursos de saúde e sociais próprios de cada Unidade de Internamento.

O desempenho destes profissionais desenvolve-se tanto ao nível do apoio psicossocial ao


doente e família, como ao da articulação dos serviços, internos e externos ao hospital,
assegurando a ligação à rede de suporte ao doente e família:
 Suporte emocional face à identificação e interpretação do doente e/ou família de
perdas sofridas, facilitando a aceitação e capacitação para a superação das
mesmas;
 Apoio à integração do doente e/ou família nas unidades de internamento, prestando
informações, nomeadamente sobre direitos e deveres;
 Gestão de expectativas quanto ao tempo de internamento; aos benefícios
disponíveis; às condições de vida após o internamento tendo em vista a preparação
da alta: graus de autonomia física, mental, económico-financeira e socioprofissional
ou escolar;
 Apoio à adaptação à situação de doença e/ou dependência do doente,
disponibilizando informação sobre direitos sociais, tais como: subsídios na doença;
isenções; acompanhamentos; transportes; alimentação; serviços voluntários; vida
profissional/ escolar;
 Recolha de informação pertinente à preparação da alta e continuidade dos
cuidados, nomeadamente: nacionalidade e situação no País; língua, etnia, religião,
especificidades culturais, escolaridade, profissão, situação profissional, local de
residência, vizinhança, habitação, acesso à habitação, condições de habitabilidade,
núcleo familiar, conviventes com ou sem possibilidade de serem identificados como
familiar-cuidador.

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

5.1.5.Preparação/ensino

Devem ser proporcionados os conhecimentos e informações essenciais aos prestadores de


cuidados no domicílio, de preferência acompanhados de um documento escrito que o
doente poderá consultar em sua casa.

É desejável que, de acordo com a situação do doente e os condicionalismos do serviço, se


integre na equipa prestadora de cuidados, ainda durante o internamento, um familiar ou
pessoa da escolha do doente, que receberá a formação adequada para prestar os cuidados
básicos no domicílio.

5.2.O apoio extra-hospitalar

5.2.1.O recurso a outros recursos da sociedade

5.2.1.1.apoio domiciliário

Hoje, a população tem acesso a um amplo leque de informação, levando a que, em


algumas áreas, haja uma maior procura dos serviços como, por exemplo, o Apoio
Domiciliário.

Esta atividade tem sido igualmente potenciada por fatores que se prendem com o
envelhecimento da população, e o consequente aumento do número de indivíduos
portadores de doença crónica ou, ainda, com as altas hospitalares precoces.

O Apoio Domiciliário consiste na prestação de cuidados individualizados e personalizados a


indivíduos e famílias na sua própria residência. Tem como finalidade assegurar a satisfação
das suas necessidades e / ou as atividades da vida diária, por motivos de doença,
deficiência ou impedimentos de outra ordem.

O serviço de apoio domiciliário garante a prestação de cuidados de enfermagem e médicos,


de carácter preventivo, curativo e outros, bem como a prestação de apoio social
indispensável à satisfação das necessidades básicas.

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

Este tipo de serviço é praticado através de um conjunto de ações multidisciplinares,


flexíveis, abrangentes, acessíveis e articuladas, de apoio social e de saúde, a prestar no
domicílio.

No passado estas situações eram resolvidas através de uma rede informal, constituída por
familiares, e que tipicamente não era contabilizada.

Por alterações demográficas e culturais, esta rede informal tem vindo a reduzir-se, se não
mesmo a desaparecer. Em sua substituição emergiram organizações privadas, mas que
com frequência são claramente deficientes na sua capacidade de responder às
necessidades qualitativas e quantitativas.

A existência dos cuidados domiciliários reveste-se de grande importância, porque permite


aos indivíduos permanecerem em suas casas enquanto tal for possível, levando a uma
redução da sobrecarga hospitalar e promovendo, em simultâneo, a qualidade de vida do
indivíduo que necessita destes cuidados, mas, também, de familiares que assegurem esta
função.

Os cuidados domiciliários, uma das atividades básicas dos cuidados de saúde primários,
respondem a um direito de igualdade no acesso aos cuidados de saúde, direito este
contemplado pelo Sistema Nacional de Saúde. São cuidados caracterizados pela sua
intervenção integral, integrada e multidisciplinar.

5.2.1.2.Centro de dia

Os centros de dia aparecem em meados dos anos setenta, tendo como objetivo essencial a
criação de condições mais favoráveis à manutenção das pessoas idosas no seu domicílio.

O centro de dia aparece como uma estrutura de apoio social fornecendo diversos serviços
que dão respostas imediatas às carências socioeconómicas dos idosos. Favorecem as suas
relações interpessoais a fim de evitar o isolamento, e promovem atividades socioculturais e
recreativas diversificadas.

Os Centros de Dia como respostas sociais locais têm a sua área de influência
maioritariamente a nível da freguesia.

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

Simultaneamente, o Centro de Dia é uma resposta que possibilita às pessoas novos


relacionamentos e elos de ligação com o exterior, através do estabelecimento de contactos
com os colaboradores, voluntários, clientes e pessoas da comunidade, donde a qualidade
da intervenção dever ser uma exigência a ter em conta permanentemente na gestão desta
Resposta Social.

Para que haja um aproveitamento das sinergias que se desenvolvem no contexto do Centro
de Dia, tendo em consideração as pessoas, os colaboradores, a estrutura e o
funcionamento, torna-se necessário que resulte deste conjunto uma intervenção pautado
por critérios de qualidade, de que se destacam os seguintes:
 Garantir o exercício de cidadania e o acesso aos direitos humanos dos clientes, p.e.
autonomia, privacidade, participação, confidencialidade, individualidade, dignidade,
igualdade de oportunidades.
 Respeitar as diferenças de género, socioeconómicas, religiosas, culturais, sexuais
dos clientes e/ou pessoas próximas.
 Respeitar o projeto de vida definido por cada cliente, bem como os seus hábitos de
vida, interesses, necessidades e expectativas.
 Transmitir e garantir aos clientes um clima de segurança afetiva, física e psíquica
durante a sua permanência na Resposta Social.
 Estabelecer uma parceria e articulação estreita com o cliente e/ou pessoa(s)
próxima(s), a fim de recolherem a informação necessária sobre as necessidades,
expectativas, capacidades e competências; coresponsabilizá-los no desenvolvimento
de atividades/ ações no âmbito dos serviços prestados; participarem na gestão da
Resposta Social.
 Desenvolver os cuidados ao nível da qualidade das relações que o cliente vai
estabelecer com todos os intervenientes (colaboradores internos e externos,
voluntários, entre outros), para que os clientes possuam segurança e sentimento de
pertença, assim como se sintam valorizadas para aderir ao processo de cuidados.
 Compreender a individualidade e personalidade de cada cliente, para criar um
ambiente que facilite a interação, a criatividade e a resolução de problemas por
parte destes.

5.2.1.3.Lar

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

A política social de apoio aos idosos tem vindo a desenvolver medidas que visem a
permanência destes na sua residência, inseridos no seu meio social. No entanto esta
realidade nem sempre é possível, devido a falta de eficácia nos serviços de apoio,
originando a necessidade de recorrer a lares.

Nos dias de hoje a posição do idoso adquiriu autonomia e tratamento relativamente


diferenciado. Os idosos presentemente possuem estruturas sociais específicas criadas para
lhes prestar auxílio.

Os lares continuam a alojar idosos, principalmente os mais carenciados. O lar de idosos é


um estabelecimento onde são desenvolvidas:

“Atividades de apoio social a pessoas idosas através de alojamento coletivo, de utilização


temporária ou permanente, fornecimento de alimentação, cuidados de saúde, higiene e
conforto, fomentando o convívio e propiciando a animação social e a ocupação dos tempos
livres dos utentes” (Despacho Normativo nº 12/98, 25-2-1998, p.767-774).

Em relação aos aspectos jurídicos os lares podem ser lares oficiais, IPSS, e lares privados
com fins lucrativos. Existem diferenças na origem dos financiamentos nos vários tipos de
lares, sendo que os oficiais e os particulares de solidariedade social são financiados pelo
estado, contribuindo os idosos de acordo com as suas possibilidades / reformas.

Os lares particulares de Solidariedade Social têm vindo a aumentar. O Estado fornece apoio
financeiro e fiscaliza no sentido de garantir uma boa prestação dos serviços e uma correta
utilização dos apoios fornecidos, afastando-se simultaneamente da administração direta.

No que se refere aos lares privados, estes vêm praticando mensalidades livres e muitos
deles não se encontram devidamente legalizados.

5.2.2.A alta médica e continuidade da prestação de cuidados

A pessoa idosa na alta hospitalar poderá não se sentir completamente preparada para o
regresso a casa ou incapacitada para o autocuidado, sendo os membros da família o elo
fundamental na transição de cuidados hospitalares para casa.

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

Dada a importância da continuidade dos cuidados o doente tem direito a que o hospital em
conjunto com o centro de saúde assegurem, antes da alta hospitalar, a continuação dos
cuidados.

Assim, a avaliação da situação social e financeira do doente bem como a articulação com
os outros serviços de saúde, Segurança Social, Organizações Não Governamentais e
Instituições Privadas de Solidariedade Social, terão que ser realizados antes da alta.

A preparação cuidadosa da alta, deve iniciar-se o mais cedo possível e tendo em conta o
conhecimento da situação socioeconómica (nomeadamente a habitacional e familiar)
tomam-se as medidas em consonância, incluindo o encaminhamento social e administrativo
para a sua reintegração social.

O doente e os seus familiares têm direito a ser informados das razões da transferência do
doente de um nível técnico de cuidados para outro e a ser esclarecidos de que a
continuidade e a qualidade dos cuidados ficam, no entanto, garantidas.

5.2.2.1.Consultas

O utente e a família têm necessidades a nível físico, psíquico, social e espiritual que devem
ser avaliadas no momento da anamnese inicial e do exame físico geral e completo.

Em complemento da avaliação feita inicialmente, deverá ser efetuada e registada,


periodicamente, uma avaliação das necessidades dos utentes e das respetivas famílias,
para que se consigam estabelecer objetivos terapêuticos, bem como a monitorização e a
avaliação dos ganhos em saúde.

É de extrema importância a existência de um processo clínico individualizado, onde ficam


registadas as necessidades e o plano terapêutico.

Para a concretização de um bom processo clínico, é necessário ter em conta as seguintes


avaliações:
 Tempo, evolução e características básicas da doença;
 Localização, intensidade, frequência e irradiação de dor;
 Impacto físico e emocional da doença e tratamentos;
 Relacionamentos pessoais;
 Crenças e valores;
 Atitude perante a morte, disposições prévias;

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

 Recursos sociais e familiares;


 Necessidades da família/cuidadores informais;
 Informação;
 Modelo de adaptação.

Durante a consulta o médico deve fornecer informação sobre os fatores de risco,


reforçando comportamentos que melhorem a saúde e procurando modificar aqueles que
podem originar doenças.

Os principais fatores de risco que o médico deve avaliar e discutir com um paciente que
tem mais de 65 anos são:
 Polimedicação
 Abuso de álcool
 Tabagismo
 Hábitos alimentares
 Vida sedentária
 Fatores associados a quedas
 Ausência de suporte familiar e social

Algumas das doenças cujo rastreio e tratamento pode originar ganhos em saúde:
 Hipertensão arterial:
 Hipercolesterolémia:
 Cancro da mama (na mulher)
 Diminuição da visão e audição
 Cancro do cólon e reto
 Cancro da próstata

Nos exames de vigilância dos idosos, o médico deve ainda ter em atenção sinais indicativos
de deterioração das capacidades cognitivas e do comportamento, para aplicação de testes
de despiste precoce da demência ou para diagnóstico da depressão.

O médico deve estar disponível para discutir com o paciente todo o tipo de questões que
afetam a sua saúde ou bem-estar.

No idoso, as questões relacionadas com a sexualidade, a incontinência urinária, a alteração


dos hábitos de vida com a passagem à reforma e perda do cônjuge são problemas
importantes cuja abordagem pode ser feita nas consultas de vigilância.

5.2.2.2.Medicação

A administração de terapêutica é, essencialmente, um ato de enfermagem.

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

No entanto, a administração por via oral, via rectal, além da aplicação tópica (pomadas,
gotas nos olhos e ouvidos) pode ser uma tarefa da família da pessoa idosa ou das/os
técnicas/os de apoio á vida familiar, sob a orientação das/os enfermeiras/os e segundo a
prescrição médica.

A pessoa idosa deve ser estimulada a tomar conta da sua medicação. Só deve ser
substituído, quando as suas faculdades mentais começarem a diminuir, existindo o perigo
de engano.

O ensino à pessoa idosa, neste capítulo deve incidir em:


 Explicar à pessoa idosa para que servem os medicamentos que está a tomar (a sua
ação), duma forma simples e clara;
 Reforçar as instruções verbais com instruções escritas;
 Se a pessoa idosa for analfabeta, combinar com ela, qual a melhor forma de ser o
mais possível independente, no tomar da medicação;
 Sugerir á pessoa idosa que tenha as embalagens dos medicamentos sempre à vista,
para não se esquecer de os tomar;
 Em relação aos horários de tomar os medicamentos, se não houver contraindicação,
aconselhar a escolher uma hora que coincida com determinada atividade da vida
diária;
 Alertar a pessoa idosa para os riscos que pode correr se não cumprir os
ensinamentos feitos, muito especialmente, no que diz respeito às doses dos
medicamentos.

Não deve nunca experimentar medicamentos prescritos para outras pessoas.

5.2.2.3.Exames/tratamentos

Das intervenções que devem ser implementadas para assegurar uma adequada transição
do hospital para a comunidade, incluem-se:
 Uma ligação formal entre o hospital e a comunidade, que garanta a continuidade de
cuidados;

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

 Articulação com os cuidados de saúde primários, através da nota de alta, contato


telefónico prévio e envio da informação por fax ou por outra forma;
 Articulação com outras instituições, lares, cuidados domiciliários ou outros, dando
informações no sentido da continuidade de cuidados.

“O Projeto de Cuidados Continuados e Apoio Social” visa a criação de um modelo de


intervenção articulada (Saúde/Ação Social), com o envolvimento dos parceiros e o
aproveitamento e racionalização dos recursos existentes.

Tem como finalidade, garantir a qualidade de vida das pessoas em situação de


dependência e o reforço das capacidades e competências das famílias e comunidade para
gerir estas situações.

Esta atividade deve desenvolver-se de acordo com os seguintes princípios definidos


conjuntamente pelos Serviços de Saúde e Sociais:
 Prevenção da dependência;
 Promoção da autonomia;
 Reconhecimento da dignidade e dos direitos sociais das pessoas em situação de
dependência;
 Prioridade à permanência no meio habitual de vida;
 Coordenação das políticas de saúde e de ação social;
 Reforço das parcerias locais.

A Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, é constituída pelo conjunto de


instituições públicas ou privadas, que prestam cuidados continuados preferencialmente no
local de residência do utente, mas também em instalações próprias quando tal não for
possível.

Os serviços prestados tanto por entidades públicas (hospitais e centros de saúde) como
privadas (nomeadamente IPSS e Misericórdia), assentam em parcerias com a finalidade de
contribuir para a melhoria da qualidade dos serviços prestados e são compostas por
diversas entidades que participam em experiências piloto por todo o país, com um número
crescente de camas para os cuidados continuados.

A prestação de cuidados continuados é assim assegurada da seguinte forma:

Unidades de Internamento
 Unidades de Convalescença (internamento até 30 dias)
 Unidade de Média Duração e Reabilitação (internamento até 90 dias)

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

 Unidade de Longa Duração e Manutenção (internamento superior a 90 dias)


 Unidade de Cuidados Paliativos

Unidades de Ambulatório
 Unidades de Dia e de Promoção da Autonomia

Equipas Hospitalares
 Equipa de Gestão de Altas
 Equipa Intra-Hospitalar de Suporte em Cuidados Paliativos

Equipas Domiciliárias
 Equipas de Cuidados Continuados Integrados
 Equipas Comunitárias de Suporte em Cuidados Paliativos.

Está provado por estudos efetuados, que doentes informados recorrem menos após a alta
aos serviços de saúde, devendo o enfermeiro / equipa de enfermagem disponibilizar-se
para prestar todos e quaisquer esclarecimentos, quando necessário, também após a alta.

Após a alta hospitalar o enfermeiro / equipa de enfermagem ou pessoa referenciada para o


efeito, deverá favorecer satisfação de todas as dúvidas se o doente assim o solicitar, após
ter-lhe sido possibilitado o contacto telefónico, ou outra forma considerada.

Em última análise, cabe aos Serviços de Saúde a responsabilidade de promover a


acessibilidade e a qualidade na continuidade dos cuidados que prestam.

Bibliografia

AA VV., Manual da qualidade para a organização do atendimento dos utentes do serviço


social, Centro Hospitalar de Coimbra, 2002

AA VV. Carta de direitos do doente internado, Ed. Ministério da Saúde/ Direcção-Geral de


saúde

AA VV., Respostas sociais: nomenclaturas/ conceitos , Ministério do trabalho e da segurança


social, 2006

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Patologia e efeitos psicossociais decorrentes da hospitalização da pessoa idosa

Gonçalves, Deolinda, A preparação do regresso a casa da pessoa idosa hospitalizada ,


Dissertação de Mestrado em Comunicação em Saúde, Universidade Aberta, 2008

Webgrafia

 Ministério da saúde
http://www.min-saude.pt
 Segurança social
http://www.seg-social.pt

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