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19/03/2018 Desobediências político-epistêmicas de movimentos indígenas no Brasil e na Bolívia como aprendizagens contra-hegemônicas

Revista Crítica de Ciências
Sociais
114 | 2017 :
Número semitemático
Dossier "Alice: aprendizagens globais"

Desobediências político-
epistêmicas de movimentos
indígenas no Brasil e na Bolívia
como aprendizagens contra-
*
hegemônicas
Political and Epistemological Disob edience of Indigenous Movements in Brazil and Bolivia as Counter-
Hegemonic Learning
Désob éissances politico-épistémiques de mouvements indigènes au Brésil et en Bolivie comme
apprentissages contre-hégémoniques

MAURÍCIO HIROAKI HASHIZUME
p. 187-206

Resumos
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Perduram por quase um século as contribuições teórico-políticas de Antonio Gram sci, em
especial no sentido das definições e das interpretações em torno da noção de hegem onia –
com binação de relações de poderes que se sustenta fundam entalm ente no consentim ento
de oprim idos perante opressores. Com base em reflexões sobre a obra gram sciana que
consideram a m atriz abissal fundada na coisificação de pov os
racializados/subalternizados, são problem atizados os potenciais enfrentam entos da
hegem onia capitalista – a qual se v ale tam bém da dom inação v ia coerção colonial, desde
a sua form ação histórica até à contem poraneidade. Daí os aportes de m ov im entos
indígenas no Brasil e na Bolív ia que, com seus atos de desobediências político-epistêm icas
em ev entos públicos ou posicionam entos políticos, podem ser entendidos com o
aprendizagens contra -hegem ônicas, em consonância com as epistem ologias do Sul.

The theoretical and political contributions from Antonio Gram sci last for nearly a
century , in particular his definitions and understanding of the broad notion of hegem ony
– the com bination of power relationships whose preferential locus is called civ il society
https://journals.openedition.org/rccs/6835 1/18

colonialism o. colonialism . que ele [Gramsci] tornou de uso corrente” (ibidem). Essa profunda operação colonial. seriam mais adequadas para cada contexto específico (tendo os Estados-nação como estrato priv ilegiado): as noções. in harm ony with the epistem ologies of the South. Boliv ia. D’où les apports de m ouv em ents indigènes au Brésil et en Boliv ie qui. capitalism .09 . capitalism o. Sur la base de réflexions partant de l’œuv re de Gram sci qui considèrent la matrice abyssale com m e ancrée dans la chosification de peuples racialisés/subalternisés. capitalism e.2 01 7 Aprov ado para publicação a 2 2 . Based on the reflections on Gram sci’s work which consider the abyssal matrix as anchored in the thingification of racialized/subordinate peoples. m ov im entos indígenas Keywords : Antonio Gram sci (1 89 1 -1 9 3 7 ). Brasil. 3 Inspirado na natureza dual – metade animal. Acrescentav a ainda que não hav ia nenhum conceito “tão liv re ou div ersamente inv ocado entre as forças de esquerda do que o de hegemonia. par leurs actes de désobéissance politico-épistém iques m enées dans des év ènem ents publics ou positionnem ents politiques. Brazil. which. power relations Mots-clés : Antonio Gram sci (1 89 1 -1 9 3 7 ). segundo as mesmas linhas de raciocínio. m ouv em ents indigènes. Bolív ia. has uny ieldingly taken adv antage of objectify ing colonial power of dom ination by coercion. indigenous m ov em ents. um quadro -resumo sobre a oposição das estruturas políticas do “Oriente” e do “Ocidente”. from its historical inception to the present day . en consonance av ec les épistém ologies du Sud. depuis sa form ation jusqu’à la contem poranéité. 1 embora não assumida inteiramente como tal. inspiradas em táticas e estratégias militares. acaba por se associar a determinadas estratégias com v istas à transformação social e ao enfrentamento do sistema capitalista que.openedition. peuv ent être perçus com m e apprentissages contre- hégém oniques.19/03/2018 Desobediências político-epistêmicas de movimentos indígenas no Brasil e na Bolívia como aprendizagens contra-hegemônicas and which is sustained fundam entally v ia the consent of the oppressed with respect to their oppressors.2 01 7 Texto integral Introdução 1 Ainda em meados da década de 197 0. Brésil. colonialism e. Hence the im pact achiev ed by the indigenous m ov em ents in Brazil and Boliv ia.org/rccs/6835 2/18 . Gramsci propõe a “dupla perspectiv a” de funcionamento das estruturas do poder da burguesia (em particular no “Ocidente”. Entradas no índice Palavras-chave : Antonio Gram sci (1 89 1 -1 9 3 7 ). segundo ele). counter-hegem ony . the potential av enues for confronting the capitalist hegem ony are problem aticized. Perry Anderson realçav a que “nenhum pensador marxista posterior ao período clássico é tão univ ersalmente respeitado no Ocidente como Antonio Gramsci” (Anderson. les v oies de confrontation à l’hégém onie capitaliste se problém atisent. Anderson apresenta. de “guerra de mov imento” (para o “Oriente”) e de “guerra de posição” (para o “Ocidente”). antes de adentrar propriamente na questão central da hegemonia. o qual serv e como uma sorte de princípio organizativ o para as reflexões gramscianas. contre-hégém onie. a partir da https://journals. 2 A partir de trechos dos famosos Cadernos do Cárcere de Gramsci. 1986 [197 6]: 7 ). contra -hegem onia. hégém onie qui puise aussi de la dom ination par la coercition coloniale. metade humano – do centauro de Maquiav el.1 0. felt in term s of the anti -hegem onic learning present in the public acts and m anifestations of political and epistem ological disobedience. en particulier dans le sens des définitions et des com préhensions tournant autour de la notion d’hégém onie – conjugaison de relations de pouv oir qui repose fondam entalem ent sur le consentem ent des opprim és env ers les oppresseurs. Il y a presque un siècle que perdurent les contributions théorico-politiques de Antonio Gram sci. relations de pouv oir Notas da redação Artigo recebido a 2 1 . Boliv ie.

6 Césaire rev ela que o “Ocidente” tal qual pensado por Gramsci passou a ter seus contornos desenhados muito antes de meados do século XIX .19/03/2018 Desobediências político-epistêmicas de movimentos indígenas no Brasil e na Bolívia como aprendizagens contra-hegemônicas consolidação do próprio Estado (sociedade política) e da sociedade civ il: de um lado a coerção/dominação (submissão pela força) e. aliás. A ideia do “contrato de trabalho entre pessoas liv res e iguais no plano jurídico”. como denunciaram intelectuais negros como Frantz Fanon6 e Aimé Césaire. principalmente a partir das inv asões e dos saques coloniais promov idos por empresas ibéricas do final do século XV . Daí que dominação e hegemonia. a própria forma política (Estado) se torna um instrumento de alienação no “Ocidente”. 1986 [197 6]: 27 ). As distinções intensam ente https://journals. propõe. Como sustenta Anderson. Como pontua o autor. 2002): colonização = coisificação. Foi o regime imperativ o de dominação nas colônias que alimentou e tornou possív el a hegemonia “civ ilizatória” experimentada nas sociedades centrais imperiais. portanto. É justamente a deliberada ignorância e o recorrente desprezo com relação a esse longo. 3 mas por razões inerentes e históricas de uma estrutura capitalista/colonial/patriarcal. 2 encontra no “Oriente” configurações distintas. não é consistente a suposição embutida nessa div isão inicial deduzida de Gramsci (cérebro e corpo). 7 uma equação que corrobora essa sociologia das ausências (na lógica de uma produção ativ a de não existências.org/rccs/6835 3/18 . No entendimento de Anderson. na esteira de Lenin. Este último. em resposta às fórmulas apresentadas pelos colonizadores. obliterando a possibilidade de outras formas de organização social que não a burguesa. incapacidade ou desinteresse das burguesias ou mesmo dos proletariados locais. que seria a marca do modo de produção capitalista e do Estado burguês no “Ocidente”. Aquilo que Marx caracterizou como “acumulação primitiv a” não foi apenas uma operação material limitada e finita (a qual teria se encerrado logo no seu início) que apenas dev e ser entendida como pontapé circunscrito de um posterior ciclo histórico de larga duração. na qual a classe operária poderia ter acesso ao Estado (por meio de eleições parlamentares no bojo da democracia representativ a. elas têm em com um o facto de pertencerem a este lado da linha e de se com binarem para tornar inv isív el a linha abissal na qual estão fundadas. ao se descolar das esferas de exploração econômica. Coisificação e matriz abissal 5 Gramsci. O marxismo ocidental se mostra extremamente dedicado a apreender e transformar aquilo que entende como a formação social mais av ançada do capitalismo e confere pouca atenção “aos países atrasados e as colônias”. como tentaram e ainda tentam prov ar inúmeras teses e estudos sobre o estigmatizado “Terceiro Mundo”. 4 Não deixa de ser curioso como a fixação no “Ocidente” encobre qualquer possív el enfoque na inter -relação fundadora e estrutural entre “Ocidente” e “Oriente”. Não por mera incompetência.openedition. de outro. Só não teriam os trabalhadores capacidade de tomar e de exercer efetiv amente o poder político por causa da primazia do consentimento burguês reinante (Anderson. por m ais radicais que sejam estas distinções [produzidas pelo pensam ento abissal m oderno] e por m ais dram áticas que possam ser as consequências de estar de um ou do outro dos lados destas distinções. que se autoatribui intrínseco potencial distributiv o). cujos alicerces podem ser encontrados no direito e na ciência que acompanham a modernidade ocidental hegemônica. conforme Santos. sejam complementares e articuladas – e não separadas e antagônicas. 4 dá pouca atenção à formação histórica do capitalismo em concomitância com o colonialismo. v iolento e multifacetado processo de colonização = coisificação que fomenta o chamado pensamento abissal (Santos. o consentimento/ a hegemonia (direção intelectual e moral). 5 É uma das marcas profundas e inerentes do próprio sistema. 2009 [2007 ]). como se nada do que se desse nas chamadas “periferias” do sistema pudesse ajudar a entender o sistema como um todo. historicamente.

Essa construção. complementa Santos (2009 [2007 ]: 26). econômico. a construção do sujeito rev olucionário que sustentará todo o processo” (Harnecker. em sua espinha dorsal. Dessa maneira. “compreende uma v asta gama de experiências desperdiçadas. 8 A centralidade do colonial ganha um sentido bem mais alargado e presente com as profícuas reflexões em torno da linha abissal. de saberes e de conhecimentos. Citada como referência por agentes políticos do alto escalão 1 1 de gov ernos desse mesmo “progressismo” latino -americano do século XXI . estabelece uma periodização historicista e alinhav a uma interpretação político -epistêmica concatenada que. generalizações e estigmatizações político -civ ilizacionais rev estidas de um controv erso pendor univ ersalizador. bem como sua inter -relação “equilibrada” com o Estado) de sua opressão coercitiv a direta e indireta no “Oriente” já prev iamente existente e na produção de nov os “Orientes”. tal como os seus autores” e. tem uma localização territorial que coincide com um território específico: a zona colonial.org/rccs/6835 4/18 . cultural e social acumulado pelo “Ocidente” (e toda a sua sociedade civ il “desenv olv ida/sólida”. tornadas inv isív eis. não raro a matriz abissal fragmentadora acaba por se fazer presente. (Des)Caminhos da (contra-)hegemonia 10 Mesmo em análises “progressistas” feitas com base em contextos latino - americanos. de territórios e de poderes “ativ amente produzidos como não -existentes. https://journals. Já não se trata mais da mera inexistência “do outro lado da linha”. mas de um mundo repleto de experiências e de modos de v ida. como alternativ as não -credív eis ao que existe” 8 (Santos. o enquadramento analítico gramsciano repete muitos outros anteriores. daí a necessidade de um instrumento político [grifos do autor]”. 2009 [2007 ]: 31). 2 009 [2 007 ]: 2 4 ) 7 O outro lado da linha.openedition. 9 Em colisão com essa afirmação mais recente das linhas abissais como “constitutiv as de relações e interações políticas e culturais que o Ocidente protagoniza no interior do sistema mundial” (Santos. continua a cientista política chilena. é “tão v erdadeira hoje como era no período colonial”. Opta. 2013: 113).19/03/2018 Desobediências político-epistêmicas de movimentos indígenas no Brasil e na Bolívia como aprendizagens contra-hegemônicas v isív eis que estruturam a realidade social deste lado da linha baseiam -se na inv isibilidade das distinções entre este e o outro lado da linha. historicamente. Esta realidade. tanto no que diz respeito às av aliações dos quadros de relações de poder de dominação e de hegemonia. por desv incular e desconectar (ou ao menos não v incular nem conectar decididamente) o poder político. (Santos. Harnecker (2013) desconecta capitalismo e colonialismo ao atribuir o surgimento e a expansão do capitalismo exclusiv amente a uma dinâmica de mercado regida por “leis econômicas” (busca do lucro e da ganância mediante a exploração do trabalho liv re assalariado). assim. isto é. 2002: 19). quanto nas recomendações para os possív eis caminhos para suplantá-las. 1 2 11 Atribui-se relev o a um ideal de “construção do socialismo” que requer a “realização de uma v erdadeira rev olução cultural que nos permita superar a cultura herdada. de pov os e de corpos. prossegue Santos (2009 [2007 ]: 31). abre -se margem para que o fenômeno singular e global de constituição do sistema-mundo capitalista-colonial e todos os seus possív eis desdobramentos sejam atrav essados por uma matriz abissal1 0 que (re)produz e naturaliza div isões (diga-se coisificações de sujeitos sociais ativ os e não inertes) arbitrárias e subalternizantes a partir de hierarquizações. coisifica a sociedade civ il (congelando -a em seu “estado de natureza”) no dito “Oriente” como “primitiv a/gelatinosa”. 9 Ao fazê -lo. estaria v inculada também a uma “aprendizagem do pov o em formas de autogov erno” e “tudo isso não pode ser alcançado de forma espontânea.

a recomendação de Harnecker é a de que o instrumento político atue como uma “instância orientadora e articuladora a serv iço dos mov imentos sociais”. essa tentativ a menospreza a matriz abissal do colonialismo. 1986). Estas últimas lidam permanentemente com uma guerra de movimento – na realidade. são elementos cruciais dessa barbárie continuada dirigida à parte substantiv a das populações racializadas e subalternizadas. 16 A resposta que a própria autora dá é que em grande medida isso se explica pela comunicação. o socialismo do século XXI ficaria. pois “uma parte importante da população não conhece nosso v erdadeiro projeto”. Por mais que se almeje promov er a unidade em torno de v alores como “a solidariedade. mais do que apenas “força política” (no âmbito do Estado).org/rccs/6835 5/18 . darem respostas e apresentarem alternativ as aos v etores de dominação (coerção) e de hegemonia (consentimento) que lhes são impostos. 13 Embora clame pelo respeito à “autonomia dos mov imentos sociais. se ampara em premissas democráticas (direitos civ is e políticos) e igualitárias (trabalho liv re) de cunho univ ersalista que. mas também da subjetiv idade. que supostamente tenta combater. 15 Ainda que o neoliberalismo agrav e o empobrecimento – não só do ponto de v ista econômico.19/03/2018 Desobediências político-epistêmicas de movimentos indígenas no Brasil e na Bolívia como aprendizagens contra-hegemônicas 12 Há aqui uma aposta num instrumento político dotado de uma determinada direção e com linhas preestabelecidas que seja capaz de construir “força social” (no bojo da sociedade civ il). concentrando -se naquilo que se pode chamar de estratégia de r-existência1 3 – para. por exemplo. de acordo com a autora. definem-se hierarquias de lutas. no cotidiano das relações sociais v iv idas por sujeitos subalternizados. Forças policiais e militares. como coloca Harnecker (2013: 109 -110). inexistem. à deriv a. Essa articulação se assemelha à proposição de frente única (v oltada a embates mais prolongados de uma guerra de posição pela hegemonia) de Gramsci e dependeria de configurações políticas. mas serv e a https://journals. o humanismo. rechaçando o afã do lucro e as leis de mercado como princípios orientadores e condutores da ativ idade humana” (ibidem). 18 Essa forma idealizada do Brasil imaginado como nação “ocidental” também percorre reflexões expressas na Mesa-redonda: a estratégia da revolução brasileira (Coutinho et al. sociais e culturais específicas. 14 O que esse tipo de proposta reproduz da matriz abissal é a desconsideração da extrema v iolência/coerção sistemática do colonialismo contida desde sempre no capitalismo. recusando manipulá-los”. Trata-se de ev ento bem mais antigo que a obra recente de Harnecker. que se esforce “para articular suas práticas num único projeto político” (ibidem). Atrav és da coisificação de colonizadas/os – impondo -lhes um roteiro preestabelecido de salto de sua condição prév ia alienada (classe em si) para um estado de ativ ismo social pleno posterior (classe para si) –. muitas v ezes. a defesa da natureza. Não por acaso se mostraram frágeis a sustentação e a disseminação de uma “nov a cultura de esquerda” no bojo de uma frente única. registrada em meados da década de 1980 e prov ocada também pelas já referidas considerações de Anderson sobre Gramsci. conseguem aterrorizar as pessoas acerca do futuro que lhes espera” (ibidem: 124). gerando v ulnerabilidades e discriminações – da grande maioria da população dos países latino -americanos.. uma v ez que “os meios opositores se encarregam de deformá- lo. Tal centralidade tem como ambição a capacidade de “erguer um projeto nacional que permita aglutinar todos os setores afetados pela crise e que sirv a de bússola [grifo do autor] a eles” (ibidem: 109). de alguma forma. 17 O paradoxo é bem mais grav e do que o fator comunicação: o esforço para se construir uma contra-hegemonia alternativ a que não prioriza o colonialismo acaba por retroalimentar a própria hegemonia capitalista. econômicas.openedition. Sem o “Norte” do instrumento político. A culpa também caberia aos próprios defensores do socialismo do século XXI . “que ponha acima o que une e deixa em segundo plano o que div ide” (ibidem). v igoram profundas opressões coloniais que dificultam imensamente a possibilidade de aglutinação dos v ulgos “perdedores e prejudicados” pelo sistema. de criar falsos alarmes e. mas também as/os próprias/os defensores muitas v ezes não o praticam (negando -o efetiv amente) no seu dia a dia. já que não só faltam inv estimentos em criativ idade e tempo na comunicação. o respeito às diferenças.

coincide com as orientações de Harnecker. Partido Comunista Brasileiro (PCB) – enfrentamento ao latifúndio e ao imperialismo – em nome de um empenho pela “ocidentalização”. Theotônio dos Santos. o que se perde nessa operação é justamente o colonialismo. como partidos e sindicatos) com segmentos liberais. Tampouco se resume a uma outra v ariedade de alienação relacionada à igualdade política https://journals. que modificassem progressiv amente a correlação de forças para a superação gradual do capitalismo. Coutinho reforçav a ainda. nesse intercâmbio de opiniões. ou seja. num acordo mais amplo de democratização modernizadora e modernizante (fortalecimento dos aparelhos de hegemonia. Theotônio dos Santos sinaliza ainda estar preso a uma das armadilhas do pensamento abissal que tende a circunscrev er a análise de fenômenos sociais às fronteiras nacionais ou até continentais.openedition. demonstra o quanto de miopia embaça as v isões para enfrentar a dominação e a hegemonia capitalistas-coloniais. revolução processual – do que pela guerra de movimento 1 4 típica de sociedades “orientais”. ou que o capitalismo brasileiro dev e merecer condenação ainda maior pela “sua incapacidade de resolv er os problemas que o capitalismo europeu (ou japonês) resolv eu historicamente”. Ao fazê -lo. legitimam uma interpretação abissal que autoriza injustiças coisificantes que. Para acompanhar. 21 Mesmo desconfiado do programa de “ocidentalização” para o Brasil de Coutinho e Weffort. Desobediências político-epistêmicas 22 A opinião de propositoras/es de agendas socialistas. a máquina de coisificar humanos e não humanos e de produzir desigualdades abissais. Ao afirmar que “o nosso [do Brasil] capitalismo gerou realidades que o capitalismo europeu não gerou”. a necessidade de superação de preceitos do antigo “partidão”. Em outras palav ras.19/03/2018 Desobediências político-epistêmicas de movimentos indígenas no Brasil e na Bolívia como aprendizagens contra-hegemônicas título da leitura de relev antes intelectuais sobre os caminhos para enfrentamento da hegemonia. A essa proposta deu o nome de reformismo revolucionário. apoiada quase que integralmente por Francisco Weffort. 1 5 manifestou na dita mesa-redonda discordância com relação a essa tendência lenta.org/rccs/6835 6/18 . gradual e liberalizante – com potenciais pretensamente socializantes. ele sugeria a consolidação de um “bloco de forças centrado no mundo do trabalho” v isando reformas que introduzissem “elementos do socialismo” na sociedade brasileira. 19 A posição de Coutinho. o teórico da dependência estabelece um corte que esconde a inter -relação entre os capitalismos e se esquece de que os lados positiv os de uns e negativ os de outros não são aleatórios. acreditav a que a transição socialista dev eria se dar mais no campo da guerra de posição – ou melhor. com uma sociedade civ il que v inha se tornando cada v ez mais complexa. adicionariam os pensadores da teoria da dependência). Carlos Nelson Coutinho sustentav a a av aliação de que o Brasil passara por um acentuado processo de “ocidentalização”. “Ocidentalização” essa que se daria com o fomento da sociedade civ il (perante o Estado). 20 Um dos expoentes dessa linha de pensamento. 1 6 Entre os pontos de div ergência. ambas miram a superação da hegemonia liberal-capitalista com receitas “contra-hegemônicas” que escondem a dominação colonial (do tipo “oriental”) que persiste nas sociedades latino - americanas. desde debates passados da década de 1980 até formulações recentes como o socialismo do século XXI . lev antando ressalv as aos fundamentos e às promessas associadas ao reformismo revolucionário. quanto o receituário da “ocidentalização” como melhor caminho para a consolidação de uma contra-hegemonia ao capitalismo. por seu turno. Definido esse quadro. este economista questiona tanto a caracterização do Brasil como sociedade “ocidental”. Destacado seguidor da obra gramsciana. tonificam os músculos do sistema capitalista- colonial de desenv olv imento (do subdesenv olv imento. Não se trata apenas da alienação das classes operárias que exercem a liberdade de v ender suas respectiv as forças de trabalho aos donos dos meios de produção (que extraem daí a mais-v alia).

O exaltado trabalho liv re firmado no “Ocidente” tem como contrapartida inexoráv el as inúmeras formas de escrav idão (e de imposição à força do trabalho) que compuseram e compõem a sua face colonial.openedition. hoje a cargo do Poder Executiv o. Para v iabilizar a organização de uma manifestação com https://journals. Um dos meios utilizados para encobrir essas coisificações das/os colonizadas/os foi a “raça” 1 7 – concepção social crucial que está na base da perpetuação da colonialidade do poder (Quijano. passando pelas assembleias no local dos acampamentos (Comunidade Sabiá) que precederam o ato. das instituições.org/rccs/6835 7/18 . além de conv ocar parcerias). com o julgamento da Ação Popular 338821 no âmbito do Supremo Tribunal Federal (STF) em 2009. e com trechos de entrev istas feitas com integrantes dos mesmos sobre o tema da inter -relação com as instituições estatais. nunca existiu sem dominação. 23 O colonialismo forma o alicerce para a montagem e a legitimação das justificativ as e das estruturas de Estados modernos v inculados a relações sociais dominadas e hegemonizadas pela burguesia. 25 O ato acompanhado no Brasil foi a ocupação coletiv a de um trecho. organizadas pelos mov imentos com os quais se estabeleceu diálogo. ritos e sím bolos que o tornam precisam ente um corpo v iv o. atuar e ser no mundo. Muito menos “Ocidente” sem “Oriente”. 23 em trâmite no Congresso brasileiro. ao próprio Parlamento. 2 01 4 [2 01 3 ]: 6 9 ) 24 A partir dos pontos de v ista indiv iduais e também de perspectiv as coletiv as de sujeitos políticos com as/os quais se estabeleceu interlocução durante as pesquisas de campo. Hegemonia.. 1 9 Essas perspectiv as serão apresentadas aqui de dois modos: na descrição e na subsequente análise de duas manifestações (uma em cada país) em que foi possív el estar presente. 26 A manifestação tinha como foco o repúdio de um amplo conjunto de organizações indígenas e indigenistas (como parte da Mobilização Nacional Indígena)22 à Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215/2000. tev e assegurada a demarcação em área contínua da Terra Indígena Raposa Serra do Sol (TIRSS). que é o ímpeto antidominação e contra-hegemônico de agentes formuladores e praticantes de epistemologias do Sul (Santos. am ortalhado e priv ado dos laços de sangue e de território. já na fronteira com a Venezuela – logo nas horas iniciais de 2 de outubro de 2013. (Mbem be.] o apelo à raça (distinto da atribuição de raça) é um a m aneira de fazer rev iv er o corpo im olado. com a interrupção da circulação de automóv eis. uma v ez que a ação se v oltav a muito mais a uma afirmação política de direitos. Chamou atenção o papel destacado de militantes e de lideranças femininas. que expuseram análises e alternativ as com base nas suas formas de se v er (e de v er os outros). Os processos materiais e simbólicos de acumulação passaram a garantir um ambiente cada v ez mais fav oráv el à posse e à manutenção das propriedades priv adas dos meios de produção pela classe burguesa. 25 mostrando elementos de interseccionalidade nas lutas. da Rodov ia BR-17 4 20 – que liga a cidade de Boa Vista (capital do Estado de Roraima) a Pacaraima. Há outras operações não contabilizadas (produzidas ativ amente como não existentes) para o funcionamento desse sistema.. Tratav a-se da primeira grande manifestação indígena desde a conquista histórica obtida pelo mov imento liderado pelo Conselho Indígena de Roraima (CIR) que. 1 8 foi possív el ter acesso a um aspecto -chav e. ficou patente a legitimidade acumulada pela parte organizadora. notória instância em que prev alecem interesses anti-indígenas. que pôs em marcha v asta estrutura própria. 2014).19/03/2018 Desobediências político-epistêmicas de movimentos indígenas no Brasil e na Bolívia como aprendizagens contra-hegemônicas ofertada pela democracia liberal-representativ a que esconde a div isão de classes. 1992). 26 Nenhuma das prescrições clássicas supracitadas – “mov imento para sociedade oriental” e “posição para sociedade ocidental” – fazia ali muito sentido. Como reforça outro autor: [. Eram perceptív eis a existência e a v alidação de conhecimentos e de ritos forjados nos enfrentamentos de longa data protagonizados pelo mov imento indígena de Roraima. Nem consentimento sem coerção. A proposição legislativ a tem como finalidade transferir a palav ra final sobre demarcações de territórios para usufruto dos pov os. 24 27 Desde a própria preparação (conduzida pelo CIR. portanto.

O pov o está trabalhando.openedition. A publicação e a defesa. aqui a com unidade está trabalhando. Ao não se restringir à questão de classe. então. contestando a coisificação (étnico -racial) que caracteriza e estrutura o capitalismo -colonialismo. 28 Frente ao sistema opressor. [Prioriza -se v ersões do] Gov ernador. as nossas m anifestações.. [. não muito distante da sede do município de Uiramutã (em Roraima) –.. ninguém quer. serv iriam fundamentalmente para “atrapalhar” processos classistas de transformações supostamente mais definitiv as tanto de mobilização. né? Agora esse negócio de rancho [destinação/doação de produtos alim entícios.. 30 atesta o fundamento colonial da coisificação [objetos de conhecimentos e de poderes] a posição de firmeza assumida pelos pov os indígenas de Roraima frente à tentativ a de imposição com fins de dominação coercitiv a e hegemonia consensual. indígenas de Roraima optaram. ninguém espera. um presidente. Agora se ele quiser fazer um projeto: ‘v ou m andar um trator para o Willim on [outra com unidade da região. Estav a diante de uma metáfora dos indígenas interrompendo a ofensiv a dos poderes político -econômicos dominantes (pela força) e hegemônicos (pela prev alência de suas opiniões na “sociedade civ il” e no “Estado”) contra os seus direitos. Pergunta – O que poderia ajudar mais hoje. [. se https://journals. tal como demonstram análises como as de Meiksins-Wood (2003 [1995]) e de Chibber (2013). Inclusiv e a minha própria presença (para além da pesquisa acadêmica em si) tinha o intuito de propiciar conteúdo jornalístico 28 que pudesse fazer rev erberar – perfurando assim “barreiras” impostas pela mídia regional ou pela imprensa comercial nacional29 – esse ato pelo cumprimento de garantias constitucionais.] Pergunta – Então o principal é essa falta de reconhecimento? Isso. parlam entares.. Respeitar os direitos dos pov os indígenas.] É isso que eu estou dizendo: a prioridade m esm o é defender a causa indígena. né? É um projeto m uito grande. Pergunta – Mas acha que isso vai acontecer algum dia? A gente espera. Aí o pessoal acredita... no que diz respeito à opinião pública]. por exem plo.org/rccs/6835 8/18 . o mov imento reforça a tarefa não menos relev ante de enfrentamento do sustentáculo colonial da matriz abissal por meio da qual a hegemonia se renov a. da roça. que é um centro ao qual a com unidade da Laje está v inculada] para ajudar na agricultura’. Pode ser que tenha um para defender. né? Por exem plo. Ninguém aceita porque nós não estam os passando fom e [. né? Um a parte m ais im portante que a gente v ê assim é a das publicações [na im prensa e tam bém na academ ia. como de alcance “univ ersais”. É isso que a gente quer. como apoio às comunidades? O que seria mais importante? Já que estam os em jogo. na Região das Serras da Raposa Serra do Sol. 29 Trecho de entrev ista com Amarildo Mota. assim . Mas o projeto grande que a gente quer que um gov ernador. Eu acho que é im portante... É um projetão para nós. liderado pelo mov imento indígena regional. Aí tem a publicação errada? Tem . Nós consideram os um projeto m uito grande para nós. com o cestas básicas. pelo caminho das desobediências político -epistêmicas que reforçam as suas condições como sujeitos..]. É um projeto que a gente agradece m uito se tiv er um gov ernador que apoie essa.19/03/2018 Desobediências político-epistêmicas de movimentos indígenas no Brasil e na Bolívia como aprendizagens contra-hegemônicas participação de mais de mil indígenas mobilizadas/os por mais de 12 horas (da 1h da madrugada do dia 2 até depois das 13h do mesmo dia). É dev er! É dev er ele apoiar nesse sentido. um parlam entar que apoie essa causa. o nosso trabalho. Eu im agino que um dia isso ainda pode acontecer. Assegurar o direito dos pov os indígenas. É um ouro para nós se as pessoas defenderem os nossos direitos.. deram-se trocas seguidas de turnos. Mas tem que publicar [lev ando em consideração] o nosso m ov im ento. [Todos] Estão acreditando. jov em liderança da comunidade da Laje – numa área de div isa com a República Cooperativ a da Guiana. Não se limitaram a atitudes secundárias que mais bem se enquadrariam na condição de “pautas identitárias” que. demonstrando o relev ante sentido de união 27 na r-existência – animada com músicas de protesto de composição própria e dança (parixara) – contra a crescente pressão de indiv íduos contrariados que cobrav am a liberação da estrada. um parlam entar apoie é o dos direitos dos pov os indígenas. por exem plo].

Nem um centav o dele nós precisam os. de todas as cinco subcentrais41 que fazem parte da TIOC42 de Raqay pampa. é isso. 34 os indígenas são tratados rotineiramente com altas cargas de discriminação e preconceito. o próprio gov erno central (alçado ao poder a partir de largas mobilizações da articulação indígena originária camponesa)35 insiste em discursos acusatórios no sentido da manipulação de segmentos indígenas mais críticos às políticas oficiais por parte de interesses geopolíticos internacionais imperialistas. pela imposição de uma pecha (incentiv ada por setores que detêm o poder político -econômico) de incapacidade e de indolência em termos de produção. mas também diretamente por comunárias/os que reserv aram https://journals. Esse grande encontro temático contou com a participação de mais de uma centena de membros. Não precisam os.19/03/2018 Desobediências político-epistêmicas de movimentos indígenas no Brasil e na Bolívia como aprendizagens contra-hegemônicas respeitarem . pontuais e de pequena escala de mineração como meios de produção. 31 No Brasil se dá.openedition. É dev er. as comunidades indígenas. planejar e executar]: “ah. Aí já não cabe a nós. homens e mulheres. na agricultura. 31 30 Um aspecto relev ante a ser destacado nesse sentido é que. de qualquer jeito. m as desde que tenha que m anter acordo com as com unidades. E esse pensamento dominante e hegemônico que prima pela coisificação da/o subalterna/o atua por v ieses distintos nos dois países. representantes do Ministério da Educação e da Secretaria de Educação do Departamento de Cochabamba foram conv idados para uma assembleia aberta40 com as comunidades. isto é. 37 33 A experiência presencial num ev ento sobre educação 38 do mov imento indígena permitiu um conjunto de leituras e interpretações adicionais sobre o enfrentamento da dominação e a interpelação da hegemonia a partir do ponto de v ista das comunidades indígenas Quéchuas locais. na saúde. 33 Como v endedores objetificados de sua própria força de trabalho e majoritariamente despreparados para a auto -organização em seus territórios. 36 Pelo outro lado dos setores mais críticos ao gov erno. 32 Na Bolív ia. o projeto aqui v ai ser de acordo com a com unidade. Nós não dependem os do gov ernador. ele pode. Para nós. 39 Na ocasião. Se ele quiser apoiar na educação. Se o gov ernador quer fazer um projeto.. 32 têm a sua condição de sujeitos deslegitimada. Por um lado. com a sua existência condicionada apenas ao posto de empregados reduzidos à mão de obra barata..org/rccs/6835 9/18 . Nós não aceitam os. 34 Pela tarde. v ou apoiar a agricultura” assim . que foram questionados e cobrados não só por lideranças e membros de entidades que compunham a mesa. As dependências do Centro de Formação Originária das Alturas (CEFOA) “Fermín Vallejos” no núcleo de maior concentração populacional do território de Raqay pampa. por sua v ez. Na parte da manhã. o debate foi direto com representantes das instâncias do gov erno. Ele tam bém não pode [pensar. tendo como pano de fundo o persistente bordão racista do desperdício de “muita terra para pouco índio”. mesmo usufruindo de terras e da criação de animais ou de ativ idades locais. segmentos e entidades indígenas ligadas ao Mov imento Ao Socialismo – Instrumento Político pela Soberania dos Pov os (MAS-IPSP) são tidos como massas de manobra do grupo instalado no poder desde 2006 – encabeçado pelo presidente (de trajetória como sindicalista cocalero) Ev o Morales e pelo v ice -presidente (ex - guerrilheiro e intelectual) Álv aro García Linera. tanto no contexto em que se deu a pesquisa no Brasil como no da Bolív ia. a coisificação de mov imentos indígenas trilha caminhos múltiplos e tortuosos. consultores ligados à ISA Bolív ia apresentaram um planejamento de ações e metas na área educacional – particularmente dedicado à reestruturação do CEFOA como base de apoio para formação de pessoal para o autogov erno 43 – formatado às diretrizes do Estatuto Autonômico e ao Plano de Gestão Territorial aprov ados coletiv amente no largo processo de construção e estabelecimento definitiv o da AIOC de Raqay pampa. Porque é dev er do gov ernador apoiar na educação. receberam o encontro organizado pela Central Regional Sindical Única de Camponeses Indígenas de Raqay pampa (CRSUCIR) como parte do esforço para a constituição da segunda autonomia indígena originária camponesa do país. em que se trataram v ários assuntos. entre outras formas.

Um camponês. também inclusiva.. Ano passado recebemos computadores todos os professores.org/rccs/6835 10/18 .48 como curam. Conhece. E quando vai chover. não sabe nem ler e nem escrever. o governo está dando mais preferência a todas as pessoas. tudo aquilo. De acordo com isso. 44 mas o tema da hegemonia político -ideológica capitalista-colonial – sempre na linha da coisificação pela matriz abissal – estev e no cerne da conv ocação da assembleia sobre a educação. Sobre política inclusiva. aprender e ensinar sobre toda a luta. Tudo isso: os jampiris.. Quando os animais vêm de um lado. Digamos. Para melhorar. os camponeses sabem quando vai chover. quais são os animais que existem. Os dois têm que ir de mãos https://journals. Existem muitos indicadores. Entrar na internet. Podemos. o que estão fazendo as formiguinhas. dá ideia do modo como o tema da educação – de reuniões menores a assembleias como a que se pôde acompanhar. se quer reconhecer e resgatar [os saberes “tradicionais”].openedition. socioprodutiva. Para que pesquisemos. Pergunta – Mas tamb ém é muito importante fazer uma comb inação de sab eres. a dominação v ia coerção/v iolência se reduziu substantiv amente no que se refere à população indígena de Raqay pampa (e da Bolív ia. 35 Em v ez de tentar enfrentar a hegemonia com mais “ocidentalização” e com estímulo à expansão e sofisticação da sociedade civ il no embate com o Estado ou de apostar a maior parte das fichas principalmente num instrumento político 45 que sirv a de bússola e se encarregue de formar militantes. agora. apenas mais um episódio na luta das comunidades pelo autogov erno. eu disse que a Lei 070 cita uma palavrinha: educação ‘revolucionária’. Se vai chegar uma chuva de granizo ou se vai chover forte. pois. trabalhando na terra. Aparentemente. Há tudo isso e a Lei 070 reconhece o seu valor. Pergunta – Com deficiência. falavas que os alunos querem sab er muito sob re computadores. E isso é para a vida. Educação para todos. formado ele próprio pelo CEFOA. novas tecnologias. não? Há muitas coisas. era uma educação copiada de outros países. Pergunta – E acreditas que seja possível fazer essa comb inação? Como se trab alha essa coisa de manter os sab eres tradicionais. Embora assumindo papéis em espaços formais e usando repertórios de participação social relativ amente ordinários da cidadania ocidental. Para os alunos pesquisarem. do trabalho. Por exemplo.47 os yatiris. do holístico.19/03/2018 Desobediências político-epistêmicas de movimentos indígenas no Brasil e na Bolívia como aprendizagens contra-hegemônicas o dia todo para discutir. de sua terra.. ao mesmo tempo em que tamb ém se ensina coisas mais “novas”? Antes. Como se faz essa comb inação de sab eres? Por exemplo. Podemos aprender muitas coisas. as questões da falta de apoio no atendimento das demandas e das condições precárias das escolas foram citadas v árias v ezes. A revolução tecnológica. As aves. Isso. educação especial para que pessoas que não enxergam. da questão metodológica. etc. como fazem tratamentos. [consiste numa] educação mais ligada à natureza. E. em geral). educação alternativa. eles já sabem o que vai acontecer. as/os comunárias/os de Raqay pampa escolheram um caminho próprio. as plantas. claro. principalmente desde as grandes mobilizações do início dos 1990. de certo modo optaram por desobedecer ao sistema. bem como a necessidade de que o currículo e o calendário diferenciados sejam respeitados. mas ele sabe. claro. Isso está ajudando e pode ajudar a voltar os saberes dos nossos avós. Com mais facilidade. passando por intensos protestos a negociações com os mais div ersos setores – tem muito mais profundidade como contra-hegemonia do que parece à primeira v ista. a história. está aí. por exemplo. Resgatando e valorizando saberes. quais são as plantas que existem. Este trecho da entrev ista com o professor indígena Miguel Caero. Pergunta – Que tipo de sab eres de Raqaypampa pensas que seja importante manter e ser ensinados a mais gente? Por exemplo. para viver com a natureza. Para mais uma etapa dessa revolução educativa. Por exemplo. Nas v árias manifestações.. estabelecendo do jeito deles parâmetros e negociações descoisificantes com as institucionalidades que trazem conteúdos e contornos imprev istos. buscar. a Lei 07046 está falando mais de cosmos. de outras dimensões. Vive da terra. Há educação formal.

Bibliografia Anderson. Faz lembrar até mais um dos casos do quadro analítico gramsciano inv ocado no início deste artigo em que a sociedade civ il do “Oriente” tenderia a assumir feições primitiv as e gelatinosas perante um Estado preponderante. há uma série de (im)posturas de desobediências político -epistêmicas que. juntos. É ev idente que se trata de esforços pontuais insuficientes para desestruturar lógicas e imposições político - epistêmicas v igentes há séculos. orig. com suas atitudes autônomas que não deixam de se contrapor à matriz abissal. Cobranças por educação de qualidade parecem algo corriqueiro. Não podemos aprender somente de um lado da sociedade: tanto da cidade como do campo. Não se limitam a pleitear benefícios apenas para si próprios conforme as circunstâncias. Perry (1 9 86 ). dão v ida. pois enquadradas e quase nada desestabilizadoras do status quo. orig. acabam sendo alv o de certas reprov ações tanto de dirigentes oficialistas como de grupos dissidentes. para as v eladas injustiças que estão associadas ao caráter profundamente colonial do sistema em v igor. que a partir desse entendimento não necessariamente socialista. com todas as dificuldades que as cercam (sejam elas v iolências com v istas à dominação direta ou artifícios v oltados ao consenso indireto v ia hegemonia). Postcolonial Theory and the Specter of Capital. não foram e não são capazes de fazer sucumbir por completo a todas e todos. “As antinom ias de Antonio Gram sci”. Crítica Marxista. a lampejos emergentes (Santos. ao primeiro olhar. podem até soar como desprov idas de quaisquer pretensões contra-hegemônicas. Povos indígenas no Brasil 1987/88/89/90. diferentemente do que pregam seus detratores. Mas os indígenas organizados em torno do CIR e as comunidades reunidas na CRSUCIR têm se dedicado com obstinação a confirmar os seus papéis de sujeitos de direitos diferenciados conquistados coletiv a e globalmente e. São Paulo: CEDI.: 1 9 7 6 ].org/rccs/6835 11/18 . apontam. às políticas sociais e até à manutenção de formas próprias de organização política). Césaire. Centro Ecum ênico de Docum entação e Inform ação (CEDI) (1 9 9 1 ). Chibber. de conotação paternalista/assistencialista. 7 -7 4 [ed. 2002) de “alternativ as das alternativ as”.: 1 9 55]. a manutenção inconteste do sistema capitalista-colonial. https://journals. de acordo com as tecnologias. esses mov imentos têm cumprido uma função ímpar: ao mesmo tempo em que conquistam direitos (seja aos territórios. 1 .19/03/2018 Desobediências político-epistêmicas de movimentos indígenas no Brasil e na Bolívia como aprendizagens contra-hegemônicas dadas. sem projeção para transformações sociais mais profundas.openedition. por mais poderosos que sejam. as comunidades de Raqay pampa estão lev ando adiante uma proposta de educação comunitária. se recusado a obedecer integralmente às ordens marcadas pela coisificação racializadora e subalternizante – v iolência tipicamente colonial não raro autorizada por socialistas deste e de outros séculos. Não por acaso. ao contestar de alguma maneira a coisificação (nas manifestações públicas e nas entrev istas. São Paulo: Editora Joruês. autoelaborada e de priorização endógena que carrega uma semente de conotação disruptiv a descolonial. London: Verso. em seus afãs por definir a conduta que as/aos camponesas/es indígenas dev eriam seguir segundo suas respectiv as opiniões e v isões de mundo. sinalizam a outras coletiv idades e indiv íduos que os intentos de dominação. Pelo contrário. Viv ek (2 01 3 ). dessa maneira. 38 Em termos de caminhos de contra-hegemonia. Aim é (1 9 7 8). Discurso sobre o colonialismo. há quem enxergue nelas até uma agenda limitada. Ocorre. associadas às suas múltiplas e encarnadas lutas.49 36 Nas respostas de Miguel Caero. nas quais se percebe a relev ância da autonomia). Lançando mão de div ersas estratégicas nas inter -relações mantidas em tempos e espaços heterogêneos por meio das epistemologias do Sul que não se prendem em reformismos (rev olucionários ou não). Lisboa: Liv raria Sá da Costa Editora [ed. 37 Guardadas as dev idas limitações e os alcances situados de cada uma das iniciativ as inv ocadas. ambas desafiam (mesmo que em grau localizado e parcial). porém.

2 – Os intelectuais. João. Aníbal (1 9 9 2 ). orig. Salv ador (2 01 3 ). Buenos Aires: Clacso. Peru I ndígena. Said.: 1 9 2 9 -1 9 3 5]. orig. Weffort. orig.19/03/2018 Desobediências político-epistêmicas de movimentos indígenas no Brasil e na Bolívia como aprendizagens contra-hegemônicas Coutinho.: 1 9 9 5]. 9 -3 2 . “Sociedade civ il e política de identidade”. Santos. Enrique (1 9 9 4 ). Justice against Epistemicide. Carlos Nelson. Rio de Janeiro: Civ . Crítica da razão negra. Jav eriana. Colección Sur Sur. Mbem be. “Colonialidad y m odernidad/racionalidad”. El encubrimiento del Outro: Hacia el origen del “ mito de la Modernidad” . Pablo (1 9 9 5). Tradução de Márcia Cam argo Cav alcanti.openedition. Frantz (1 9 6 8). González-Casanov a. Boav entura de Sousa (2 01 4 ).4 000/rccs. Revista Crítica de Ciências Sociais. Coim bra: Alm edina.Univ . coedição de Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira. Central. La invención del Tercer Mundo – Construcción y desconstrucción del desarrollo. in Boav entura de Sousa Santos. Grosfoguel. Jornalismo. “Para um a sociologia das ausências e um a sociologia das em ergências”. Rio de Janeiro: Civ ilização Brasileira.) (2 005). Santiago (orgs. orig. 3 – Maquiavel.) (2 01 2 ). Tradução de José Laurênio de Melo.: 2 007 ]. Tradução de Marta Lança. Buenos Aires: Clacso. orig. Santos. 1 3 1 -1 56 . 1 .: 2 005]. Edgardo (org. Bogotá: Siglo del Hom bre. Mignolo. Ram on. Cadernos do Cárcere.: 1 9 2 4 ]. IESCO . 3 7 -52 . Fanon. Maria Paula Meneses (orgs.org/rccs/6835 12/18 . Meiksins-Wood. The Postcolonial Gramsci. Rio de Janeiro: Civ ilização Brasileira [ed. Vol. Barcelona: El Viejo Topo. Un mundo a construir (nuevos caminos).: 1 9 9 2 ]. 2 3 -7 1 [ed. “Mesa -Redonda: As estratégias da rev olução brasileira”. 1 1 -2 9 . O princípio educativo. Epistemologies of the South. São Paulo: Expressão Popular [ed. Crítica Marxista. García Linera. O colonialismo global e a democracia.: 1 9 1 7 ]. operárias e populares na Bolívia. Epistemologias do Sul. Otras inapropiables – Feminismos desde las fronteras. Pontificia Univ .:1 9 9 5]. Boulder/London: Paradigm Publishers.) (2 007 ). DOI : 1 0. Quijano. La herida colonial y la opción decolonial. Democracia contra capitalismo: a renovação do materialismo histórico. Edição e tradução de Carlos Nelson Coutinho. São Paulo: Com panhia das Letras [ed. Boav entura de Sousa (2 009 ). “Diferentes diferencias y ciudadanías excludentes: una rev isión fem inista”. Carlos W. orig. Barcelona: Gedisa [ed. Bhattachary a. Madrid: Traficantes de Sueños. I mperialismo. La idea de América Latina. Notas sobre o Estado e a política. Machado. orig. (1 9 9 0). Ellen (2 003 ). in bell hooks et al. Lenin. New York: Routledge. Escobar. orig. Gram sci. Cadernos do Cárcere. Os condenados da terra. Brasileira [ed. 2 05 -2 2 6 [ed.). São Paulo: Boitem po [ed. https://journals. Boav entura de Sousa (2 002 ). De los saberes de la emancipación y de la dominación.: 1 9 2 9 -1 9 3 5]. Castro-Góm ez. Theotônio dos (1 9 86 ). Harnecker.). Vol. São Paulo: Sunderm ann [ed.7 53 Santos. Walter (2 007 ). Colonialidad del saber. A Teoria Geral do Direito e o Marxismo e Ensaios Escolhidos (1921 -1929). Gram sci. orig. El nacimiento del Estado Plurinacional de Bolivia – Etnografía de una Asamblea Constituyente. 1492. Álv aro (2 01 0). Sriv astav a. Antonio (1 9 9 9 a). Ev geni B.: 1 9 7 8]. “De saberes e de territórios: div ersidade e em ancipação a partir da experiência latino-am ericana”. São Paulo: Editora Joruês. Pachukanis.1 2 85 Santos. orig. Rio de Janeiro: Civ ilização Brasileira [ed. Baidik (orgs. Marta (2 01 3 ). DOI : 1 0. Arturo (2 007 ). 6 3 . coedição de Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira. Lander. orig. Francisco. Antonio (1 9 9 9 b). orig. Schalv ezon.: 2 009 ]. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. La Paz: Plural [ed. Porto-Gonçalv es. Neelam .: 2 01 3 ]. 2 3 7 -2 80. Eurocentrismo y ciencias sociales. orig.. 1 3 (2 9 ). Caracas: Fundación Editorial el perro y la rana [ed.: 1 9 6 1 ]. Lisboa: Antígona [ed. (2 008). in Ana Esther Ceceña (coord. São Paulo: Boitem po.4 000/rccs. Eskalera Karacola (2 004 ). estágio superior do capitalismo. Achille (2 01 4 ). Edição e tradução de Carlos Nelson Coutinho. (2 01 7 ). Inst. in Ellen Meiksins-Wood. La Paz: Clacso/Plural/IWGIA/Cejis. Tradução de Tom ás Rosa Bueno. Pensar. “Para além do pensam ento abissal: Das linhas globais a um a ecologia de saberes”. A potência plebeia: ação coletiva e identidades indígenas. Dussel. Vladim ir Ilitch (2 01 2 ). El giro decolonial – Reflexiones para una diversidade epistémica más allá del capitalismo global. Edward W.

que têm alcançado patam ares outros com produções e interv enções de pensadoras/es indígenas e negras/os. relacionada com um a “ideia de Am érica Latina” (Mignolo. os Am arelos. Notas * Este artigo foi desenv olv ido no âm bito do projeto de inv estigação “Alice: espelhos estranhos.ces. 1 4 0 -4 01 [ed.openedition. Said (1 9 9 0 [1 9 7 8]) trata de tem áticas correlatas e com plem entares a esse ponto. 1 0 A proposição da ideia de matriz abissal se pretende conjugada à noção de linha abissal.pt) no Centro de Estudos Sociais da Univ ersidade de Coim bra – Portugal. 2 Pachukanis (2 01 7 [1 9 2 4 ]) sustenta que o Direito e o Estado. paganismo = selvageria [destaque do autor]. por sua v ez. há um a crescente e v ariada produção que tem a v er com esse “encobrim ento do Outro” (Dussel. que tem com o finalidade realçar aquilo que está presente. 3 Para González-Casanov a (1 9 9 5: 9 ). Buenos Aires: Tinta Lim ón. Ainda que im portante em seu aspecto de crítica às estruturas institucionais estatais m odernas. a qual enfatiza lutas que v isam rom per com essa realidade socialm ente produzida com o abissal (Santos. se ancora em (e https://journals. “Extrativ ism o neodesenv olv im entista e m ov im entos sociais – Um giro ecoterritorial rum o a nov as alternativ as?”. Descolonizar o imaginário – Debates sobre pós -extrativismo e alternativas ao desenvolvimento. 8 Por m eio da sociologia das ausências. Césaire (1 9 7 8 [1 9 55]: 1 5) faz m enção. m as é produzido com o ausente. 1 9 9 4 [1 9 9 2 ]) que se plasm a na m uito difundida noção de colonialidade do poder (Quijano. No caso da Am érica Latina. os Negros”. O projeto recebe fundos do Conselho Europeu de Inv estigação. tendo a raça com o elem ento socialm ente hierarquizante) que perpassa todas as fases do capitalism o. Wallerstein. 7 Em Discurso sobre o colonialismo. orig. da form a com o foram forjados pela classe burguesa e tendo com o núcleo concentrador de riquezas a Europa ocidental. Maristella (2 01 6 ). ainda que de form a parcial. a linha abissal expressa m ais um sentido de consequência (tanto m aterial com o sim bólica). The Modern World-System I : Capitalist Agriculture and the Origins of the European World-Economy in the Sixteenth Century. 2 007 [1 9 9 5]). Metafórica.). 2 007 [2 005]) e de “inv enção do Terceiro Mundo” (Escobar. Im m anuel (1 9 7 4 ). Rosa Luxem burgo/Autonom ia Literária/Elefante Editora.19/03/2018 Desobediências político-epistêmicas de movimentos indígenas no Brasil e na Bolívia como aprendizagens contra-hegemônicas Sv am pa. 1 9 9 2 ). Ocorre que. com o sem pre foi recorrendo a subsídios raciais [ênfase do autor] para a executar”.: 2 01 1 ]. Eduardo (2 01 3 ). 2 007 ) e de giro ecoterritorial (Sv am pa. de que só se podiam deduzir abom ináv eis consequências colonialistas e racistas. m as a cisão “Oriente/Ocidente” tem inegáv el carga colonial. A coletânea organizada por Lander (2 005) e as noções de giro decolonial (Grosfoguel e Castro-Góm ez. coordenado por Boav entura de Sousa Santos (alice. com o depois v ieram a enfatizar autores com o Wallerstein (1 9 7 4 ) e Quijano (1 9 9 2 ). 2 002 ).º 2 6 9 807 . 1 Na introdução de coletânea que coloca em diálogo a obra de Gram sci com os estudos pós- coloniais. 4 Lenin (2 01 2 [1 9 1 7 ]) busca diferenciar aquilo que caracteriza com o fase Im perialista do capitalism o (exportação de capitais) das etapas anteriores m ais m ercantilistas e nacionalistas.uc. São Paulo: Fund. Vem acom panhada da sociologia das emergências.org/rccs/6835 13/18 . Sétim o Program a Quadro da União Europeia (FP/2 007 . 2 01 6 [2 01 1 ]) são desdobram entos dessas reflexões. buscando escapar de arm adilhas nacionalistas. form a -se já na “prim eira m odernidade” um a div isão internacional do trabalho (m ais especificam ente segundo Quijano. colocando-o com o “m ais progressista que a m aioria dos pensadores m arxistas e socialistas da sua geração”. a matriz. “o Terceiro Mundo é o m undo colonial renov ado”. in Gerhard Dilger. cujas v ítim as hav iam de ser os Índios. Sriv astav a e Bhattachary a (2 01 2 : 3 -7 ) cham am atenção para as reflexões do autor sobre o colonialism o e os im périos. 6 Fanon (1 9 6 8 [1 9 6 1 ]: 50) não deixa incólum e a conexão entre a riqueza e a abundância das m etrópoles com a exploração e o saque nas colônias. 9 Em algum a m edida. A referência à matriz rem ete ao m olde capitalista -colonial -patriarcal dos processos repetidos de coisificação de que trata Césaire. La mirada del jaguar – I ntroducción al perspectivismo amerindio (entrevistas). O italiano de fato teceu críticas sobre tem as com o a escrav idão. a outras “equações desonestas” que ele atribui ao “pedantism o cristão”: “cristianismo = civilização. New York: Academ ic Press. Jorge Pereira (orgs. Viv eiros de Castro. 5 Mbem be (2 01 4 [2 01 3 ]: 50) realça que “o capital não só nunca pôs term o à fase de acum ulação prim itiv a. tam bém Pachukanis parece não atentar ao fato de que essa cidadania liberal tem um am plo processo colonial de coisificação por trás de si. m ais precisam ente no Capítulo 1 . são produtos do capitalism o e se fundam entam na criação de um a cidadania liberal indiv idual que se caracterizaria pela com pra e v enda de m ão de obra de trabalhadores/as “liv res”. lições im prev istas”.2 01 3 ) / ERC Grant Agreem ent n.

de eferv escência e de ferv or”. na outra v ila cham ada Makunaim a).04 . o que se tem é R-Existência posto que não se reage. 2 1 A íntegra do acórdão do julgam ento da ação que pleiteav a a nulidade da Portaria 53 4 /2 005. por exem plo. 1 8 As pesquisas em píricas fazem parte de um a tese de doutorado no Program a de Pós- Colonialism os e Cidadania Global.org/rccs/6835 14/18 . a Articulação dos Pov os Indígenas do Sul (Arpinsul).19/03/2018 Desobediências político-epistêmicas de movimentos indígenas no Brasil e na Bolívia como aprendizagens contra-hegemônicas acaba m esm o por sugerir) um a lógica de causa que pode assum ir configurações div ersas nas distintas tem poralidades e territorialidades em questão. já a pesquisa na região de Cochabam ba. 1 1 Em palestra m inistrada em 2 5. o m inistro do gov erno do Estado Plurinacional da Bolív ia. do Ministério da Justiça (MJ). “m ais do que resistência. A matriz enfatiza ainda o senso de replicabilidade e de profusão em form as não necessariam ente uniform es de linha desenhadas e redesenhadas em v ariados contextos e condições geopolíticas. discorre Mbem be (2 01 4 [2 01 3 ]). citou Martha Harnecker e as reflexões de lav ra da intelectual chilena com o m arcos de análise para o socialism o do século XXI e para a rev olução dem ocrática e cultural que estaria em curso na Bolív ia.wordpress. 1 9 Não é foco deste artigo. e tem com o base em pírica diálogos estabelecidos nos territórios com organizações indígenas no Brasil e na Bolív ia. 1 4 No Brasil. v elada ou ocultada.2 005. 1 9 86 : 1 3 2 ). m as tam bém num lugar “de dilaceração. a partir de um dado m om ento. no Brasil. justificados. a Teoria Marxista da Dependência (TMD). stalinistas ou neo- stalinisistas (Coutinho et al. definido com bastante antecedência por um colegiado de lideranças indígenas. 1 2 Essa relação entre capitalism o e trabalho liv re é contestada por autores com o Mbem be (2 01 4 [2 01 3 ]). consiste não só num lugar de “v erdade das aparências”. Doutor em Econom ia da Pontifícia Univ ersidade Católica de São Paulo (PUC- SP). ao “perspectiv ism o am eríndio” (Viv eiros de Castro. da qual tam bém faziam parte Ruy Mauro Marini e Vânia Bam birra. na Bolív ia.2 01 7 com o parte do Pré-ALAS 2 01 7 Brasil – ev ento “prév io” ao congresso bianual da Associação Latino-Am ericana de Sociologia (ALAS). num ponto situado à beira da estrada que fica a cerca de 4 0 km de Pacaraim a.07 . v iolada. João Machado. Ainda que possa suscitar debates. integrado ao Projeto ALICE. no qual continua m ilitando. um dos “portais” da Terra Indígena Raposa Serra do Sol (TIRSS). de duas correntes políticas m arxistas no país: trotskistas ou trotskizantes. e certas form as de enclausuram ento.openedition. no Centro de Estudos Sociais (CES) da Univ ersidade de Coim bra (UC). m as. à época. O trabalho de cam po em Roraim a. 1 6 A relev ância de um a organização operária sólida forjada num program a com orientação anticapitalista bem definida. que algo pré-existe e é a partir dessa existência que se R-Existe” (Porto- Gonçalv es. tornadas aceitáv eis” (ibidem: 6 6 ). Rom peu com o partido em 1 9 9 4 e fundou o Partido Socialism o e Liberdade (PSOL). para além de possív eis alianças am pliadas num cam po dem ocrático-popular. a Articulação dos Pov os Indígenas do Sudeste (Arpin - Sudeste). foi a Com unidade Sabiá.. m as contribuições antropológicas relativ as a pov os na Am érica Latina ajudam a dar contornos. A raça está por detrás da aparência e sob aquilo de que nos apercebem os. que direcionam o foco à conexão do capitalism o com o colonialism o. Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinm e). a parte hum ana do Outro. sim . hom ologada pelo Presidente da República em 1 5. Carlos Rom ero. ou m esm o de condenação à m orte. em particular com o largo e com plexo sistem a de tráfico e de coisificação de m ilhões de pessoas negras escrav izadas.br/paginadorpub/paginador. o horizonte da revolução explosiva (guerra de movimento) com o cam inho ao socialism o se explica por conta da predom inância. a diferença e o abandono. às m argens do Rio Cotingo. 2 008: 4 7 ). na Univ ersidade de Brasília (UnB). a Grande Assem bleia do https://journals. 1 7 A raça. 2 0 O núcleo da m anifestação. 2 01 3 ). localizada no interior da Terra Indígena São Marcos. coordenado pelo Professor Boav entura de Sousa Santos.jsp?docTP= AC&docID= 6 3 01 3 3 . encontra -se acessív el em http://redir. da executiv a do diretório estadual do Partido dos Trabalhadores (PT). 2 2 Iniciativ a (acessív el em http://m obilizacaonacionalindigena. a Articulação dos Pov os Indígenas do Pantanal e Região (Arpipan). foi realçada pelo quarto participante da mesa-redonda. ele fazia parte. que é com posta da união de div ersas organizações regionais do país: a Articulação dos Pov os e Organizações Indígenas do Nordeste. 1 5 Integrante de um a linha político-ideológica m ais bem dem arcada. 1 3 Em se tratando de pov os originários da Am érica Latina/Aby a Yala. se deu entre o final de setem bro e o início de dezem bro de 2 01 3 . É tam bém constituída pelo próprio ato de atribuição – esse m eio pelo qual certas form as de infrav ida são produzidas e institucionalizadas. Foi um a ação estratégica que interditou a m esm a rodov ia em outro ponto (5 km m ais à frente.com ) da Articulação dos Pov os Indígenas do Brasil (APIB). “A v erdade do indiv íduo a quem é atribuída um a raça está sim ultaneam ente em outro lugar e nas aparências que lhes são atribuídas.stf. sim plesm ente a ação alheia. o senso de desobediência político - epistêmica dialoga com tais form ulações. já depois de um a das principais saídas que perm ite o acesso à Com unidade do Barro/Surum u. foi realizada entre janeiro e m arço de 2 01 4 .jus.

a noção de “um tipo de colonialism o contem porâneo” a partir “não da subordinação do processo de trabalho im ediato. 2 5 Um a das principais articuladoras da referida m anifestação. 3 4 No julgam ento no STF das 1 9 condicionantes associadas à dem arcação da TIRSS. Porém . ex -coordenador - geral do CIR. que representa a união de grav etos. o CIR foi capaz de extrapolar “barreiras” regionais e nacionais da m ídia hegem ônica com denúncias em nív el global. outra iniciativ a da bancada ruralista. Baixo Cotingo e Raposa) m ais de 1 00 com unidades. div ulgado. m as da subsunção geral [em sua m odalidade form al e real] dos processos de produção e de circulação social do capital com ercial”. foi Telm a Marques. que ao longo de anos se destacou pela prom oção de interesses contrários à defesa dos direitos indígenas. o m inistro Marco Aurélio Mello ev ocou conteúdo da rev ista sem anal Veja https://journals. de acordo com observ ação durante o ato. forças m ilitares e policiais foram env iadas em grande núm ero ao local. 2 7 Entre m uitos m om entos m arcantes de união entre os indígenas da TIRSS. antropólogas/os. 2 4 Além da PEC 2 1 5/2 000. Após nov as agressões. lideranças e inform antes consultados citaram v árias v ezes o caso ocorrido em 1 9 87 em torno da Aldeia Santa Cruz. a ação unida dos indígenas é lem brada com o m om ento-chav e para a auto- organização dos m esm os.gov . Encontra -se com facilidade nos discursos de m em bros da bancada parlam entar ruralista e da Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).pt/news/? page_id= 3 56 8). o qual foi criticado por div ersos segm entos da sociedade brasileira. em junho de 2 008. hav ia na Região das Serras (um a das quatro div isões da TIRSS adotadas pelo CIR. http://alice.br/2 01 3 /1 0/indios-de-roraim a-bloqueiam -rodov ia-contra-a- pec-2 1 5/. resultando em m ais episódios de v iolência e na prisão de 1 9 indígenas acusados pela retenção dos jagunços (CEDI. no âm bito do Projeto ALICE (CES/UC).org. então secretária do Mov im ento das Mulheres Indígenas do CIR. é sím bolo da resistência dos indígenas da TIRSS. Telm a foi tam bém um a das lideranças participantes do Colóquio Internacional Território. entre outras entidades de apoio aos direitos dos pov os indígenas. 2 3 A PEC 2 1 5/2 000 foi aprov ada em com issão especial form ada para análise da m atéria (m ais detalhes em http://www. a despeito de serem os agentes do agronegócio aqueles que m ais guardam v ínculo com o capital transnacional. pela Survival I nternational (http://www. 3 0 Em outubro de 2 01 3 . O feixe de v aras. três jagunços acabaram retidos por indígenas. os quais reagiram diante da ausência de prov idências quanto ao crim e. 2 6 Confirm ando trabalhos do cam po dos cham ados fem inism os pós-coloniais/descoloniais (v er prólogo elaborado coletiv am ente pelo centro social autogerido fem inista Eskalera Karacola. cf. 3 2 García Linera (2 01 0 [2 009 ]: 58 -6 2 ) chega a inv ocar.org/rccs/6835 15/18 . que já presum e certa hom ogeneização m ercantil das relações laborais e culturais. ainda antes do julgam ento.cam ara. Essa CPI acabou por aprov ar. integrantes de organizações indigenistas e m em bros do poder público). 2 9 No contexto dos conflitos pela garantia dos direitos territoriais da TIRSS. 2 004 ) que têm enfatizado as m últiplas com binações entre opressões (e m obilizações. em m arço de 2 01 7 . http://reporterbrasil. um relatório que pede o indiciam ento de 6 7 pessoas (entre indígenas. acaba por repetir a centralização da classe histórica nas relações de trabalho.org/news/3 3 89 ).org. organizado no final de junho de 2 01 4 . a associação das reiv indicações indígenas por territórios com a cobiça internacional das riquezas am azônicas.ces.br/2 01 3 /1 0/direitos-sao-m antidos-na-terra-indigena-raposa- serra-do-sol/).br/proposicoesWeb/fichadetram itacao? idProposicao= 1 4 56 2 ). Abel Lucena. 1 9 9 1 : 1 51 -1 58).19/03/2018 Desobediências político-epistêmicas de movimentos indígenas no Brasil e na Bolívia como aprendizagens contra-hegemônicas Pov o Guarani (Aty Guasu) e a Coordenação das Organizações Indígenas da Am azônia Brasileira (Coiab).surv iv alinternational. com o no caso do v ídeo com registro de tiros e bom bas a m ando do fazendeiro e político Paulo César Quartiero. na com unidade Willim on. m as ainda aguarda apreciação por parte do Plenário da Câm ara Federal. 3 3 Indígenas tam bém são frequentem ente acusados de serem m arionetes nas m ãos de ONG. ultrapassando 1 0 m il pessoas. 3 1 Entrev ista realizada em 1 9 de outubro de 2 01 3 . da etnia Taurepang. Na sequência. Mesm o com tanta repressão e com a sequência de ataques (físicos e m orais.openedition. nas proxim idades de Norm andia (Estado de Roraim a). em resposta) de classe. que im pediam a circulação a m ando do fazendeiro Newton Tav ares. de gênero e de raça. liderança histórica do m ov im ento indígena de Roraim a. 28 Matéria publicada no site Repórter Brasil: http://reporterbrasil. ocorrido em outubro de 2 01 3 (e registrado in loco em outra m atéria deste pesquisador. As inform ações foram dadas (em entrev ista) pelo então coordenador regional do CIR. ainda que parcialm ente. as outras são Surum u. foi a Com issão Parlam entar de Inquérito (CPI) da Funai e do Instituto Nacional de Colonização e Reform a Agrária (Incra). Um casal indígena fora v ítim a de grav es agressões por parte de jagunços arm ados da Fazenda Guanabara.uc. tam bém pela im prensa). O ev ento tam bém contou com a presença de Jacir de Souza. I nterculturalidade e Bem -Viver: as lutas dos povos indígenas no Brasil (para m ais inform ação cf. em presas e gov ernos estrangeiros.

pdf. Tais acusações tam bém se m ostraram extensiv as a centros de pesquisa. portanto. à época da decisão pela área contínua por parte do STF (2 009 ). que instalou um a prim eira e pequena planta de produção de bolachas (Tikita) a partir da produção local e orgânica de trigo e m ilho na com unidade de Salv ía. a autoridade tradicional eleita em pleito realizado em m aio do m esm o ano. As experiências de educação com unitária perm itiram . 4 1 As com unidades são div ididas em cinco subcentrais (Raqay pam pa. a form ação da CRSUCIR e do Distrito Maior Indígena. im passes e acordo final em torno da construção da síntese tripla ‘indígena originária cam ponesa’. v ia Pacto de Unidade: a articulação entre as cinco principais organizações que se uniram num a frente para a construção da Constituição Política de Estado (CPE) de 2 009 – Central Sindical Única de Trabalhadores Cam poneses da Bolív ia (CSUTCB).org/rccs/6835 16/18 . Confederação Nacional de Mulheres Cam ponesas Originárias e Indígenas da Bolív ia “Bartolina Sisa” (CNMCOIB-BS). Ver na íntegra em http://observ atorioparidaddem ocratica. m as foi a prim eira a se tornar autonôm ica sem antes ter sido um m unicípio.19/03/2018 Desobediências político-epistêmicas de movimentos indígenas no Brasil e na Bolívia como aprendizagens contra-hegemônicas que propalav a a ideia de que a retirada de não indígenas do território teria sido desv antajosa aos próprios indígenas.openedition. Molinero. que acaba por confluir com a ideia de instrumento político orientador das ações políticas (Harnecker.oep. sem sinais ortográficos de separação entre os term os. Tam bém o projeto audacioso da Organização Econôm ico-Com unitária (Oecom ) de Raqay pam pa. junto com outras cinco pessoas tam bém escolhidas pelas/os próprias/os com unárias/os para o Conselho de Gestão Territorial da AIOC de Raqay pam pa. obra lançada inicialm ente em 2 01 1 com suporte do Banco Nacional de Desenv olv im ento Econôm ico e Social (BNDES) e atribuída à em preiteira OAS (am bas do Brasil).7 8% dos v otos em referendo local (nov em bro de 2 01 6 ). aprov ado com 9 1 . 3 8 Num dos preâm bulos do Estatuto da Autonom ia Indígena Originária Cam ponesa (AIOC) de Raqay pam pa. Raqay pam pa se consolidou. pois fazia parte de Mizque. Foi o últim o passo form al para a conclusão de um projeto autonôm ico de m ais de 1 0 anos. associações e ONGs com atuação de m uitos anos no país – com o o Centro de Docum entação e de Inform ação Bolív ia (CEDIB). com fundos de cooperação internacional. “sem a m enor condição de sobrev iv ência”. com o segunda AIOC do país (a prim eira foi Charagua Iy am bae. que presta auxílio no processo de form ação e efetiv ação da AIOC de Raqay pam pa. com o um passo para a Subprefeitura. com a retirada de produtores rurais não indígenas da área. 3 9 No últim o dia 1 2 de agosto de 2 01 7 . que exigiu em penho e participação das com unidades num a sequência de consultas populares e div ersos trâm ites burocráticos (incluindo a edição de leis específicas). Confederação Nacional de Ay llus e Markas do Qullasuy u (Conam aq) e Confederação dos Pov os Indígenas da Bolív ia – Oriente. Schalv ezon (2 01 3 ) discorre detalhadam ente (no item 2 . 4 0 O ev ento contou com o apoio da organização não gov ernam ental Instituto Socio Am biental (ISA) Bolív ia. segundo o m odo de organização do sindicalism o agrário adotado pela CRSUCIR. Florencio Alarcón. José de Anchieta que. com particular dedicação aos tem as da educação e da organização produtiv a. 2 01 3 ). a Fundação Tierra e o Centro de Estudos para o Desenv olv im ento Laboral e Agrário (CEDLA). Mas a declaração que prov ocou m aior indignação entre os pov os da região foi a do gov ernador de Roraim a.1 : 9 3 -1 01 ) sobre as disputas. 4 3 sindicatos fazem parte da CRSUCIR. de García Linera e de outros m inistros do gov erno do MAS-IPSP que atribuem a postura crítica de grupos dissidentes – particularm ente de grupos do Conam aq e da Cidob que se rebelaram contra direções “oficialistas” – a interferências internacionais. Confederação Sindical de Com unidades Interculturais da Bolív ia (CSCIB). de acordo com o texto. 3 5 Em sua etnografia sobre a Assem bleia Constituinte (2 006 -2 007 ). https://journals. 2 01 0 [2 009 ]: 2 1 4 -2 2 1 ) e enfoques m ais atuais deste m esm o autor que se dedicam a defender um a sorte de papel transitório de “v anguarda” assum ido pelo Estado. A não aceitação de pov os indígenas locais ao projeto gov ernam ental de construção de um a rodov ia que atrav essa o Território Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure (TIPNIS). do pov o Guarani). dissera que a TIRSS se transform aria num “zoológico hum ano”. recebeu as credenciais. os quais estariam v iv endo num a “reserv a de m iséria”. Chaco e Am azônia (CIDOB). “constituir um projeto educativ o próprio com os Conselhos Com unais Educativ os com o instância de controle com unal sobre a gestão educativ a. Ao todo. Estim a -se que cerca de 1 0 m il pessoas v iv am no território. onde refletim os e nos preparam os para o exercício da gestão territorial indígena originária cam ponesa”. 3 6 Há um a coleção de falas e com unicados de Morales. conta com suporte da m esm a ONG.bo/files/uploads/estatuto_raqay pam pa. em torno ao qual forjam os o Conselho Regional Educativ o das Alturas (CREA) e o Centro de Form ação Originária das Alturas (CEFOA). têm um peso grande na intensificação desse discurso coisificante. 3 7 É possív el notar descontinuidades entre proposições ancoradas na “dim ensão m ulticiv ilizatória da com unidade política” (García Linera. que integra a Federação Sindical Única dos Trabalhadores Cam poneses de Cochabam ba (FSUTCC). Laguna. organização departam ental associada à Confederação Sindical Única dos Trabalhadores Cam poneses da Bolív ia (CSUTCB).org. é v inculada à educação. Santiago e Salv ía).

m unicípio ao qual o território indígena originário cam ponês pertencia antes da autonom ia confirm ada. cultura. estabelece m arcos para um a educação intercultural e plurilíngue. (cf. para a regulam entação das autonom ias.º de sua CPE 2 009 com o “Estado Unitário Social de Direito Plurinacional Com unitário” fundado na pluralidade e no pluralism o político. Referênc ia eletró nic a Maurício Hiroaki Hashizume.gob. Campus de Palmas Avenida NS 15.19/03/2018 Desobediências político-epistêmicas de movimentos indígenas no Brasil e na Bolívia como aprendizagens contra-hegemônicas 4 2 Raqay pam pa foi reconhecida com o Terra Com unitária de Origem (TCO) – m ódulo fundiário atualm ente renom eado com o Território Indígena Originário Cam ponês (TIOC) – em 2 005.org/rccs/6835 . contra a priv atização dos serv iços de abastecim ento do precioso recurso natural. A AIOC é definida (artigo 2 89 ) com o: “autogov erno das nações e pov os indígenas originários cam poneses. no ano de 2 000. o que assegurou a titulação coletiv a das terras. colocado online no dia 20 Dezembro 2017. políticas. 4 5 Até por fazer parte da CSUTCB. 4 4 Um dos m arcos para a reorganização e retom ada de ciclo de m obilizações de indígenas na Bolív ia foi a Prim eira Marcha Indígena “Pelo Território e Pela Dignidade”. algo m ais próxim o aos pajés. 114 | 2017. « Desobediências político-epistêmicas de movimentos indígenas no Brasil e na Bolívia como aprendizagens contra-hegemônicas ». línguas.6835 Autor/a Maurício Hiroaki Hashizume Universidade Federal do Tocantins (UFT). dotadas de dons espirituais. URL : http://journals. de proposta educacional a partir dos ayllus (as form as andinas de organização social. em consonância com a reiv indicação de outras organizações. em v ez de se contentar com as estruturas político-partidárias e burocrático-institucionais já existentes. cuja população com parte território. prom ulgou -se a Lei Marco 03 1 de Autonom ias e Descentralização (LMAD) “Andrés Ibañez”. 4 6 A Lei de Educação 07 0.org/rccs/6835 17/18 . criado a 19 Março 2018. os frutos da natureza e m anejam form as de preparação e aplicação da m edicina tradicional. sociais e econôm icas próprias”. política. na íntegra: http://www. em 1 9 9 0.php/pages/docum entos-norm ativ os-m inedu/2 3 3 - ley es/1 52 4 -ley -av elino-sinani-elizardo-perez). Para citar este artigo Referênc ia do do c um ento im pres s o Maurício Hiroaki Hashizume. sim bolizou outro im portante m om ento de m obilização social e autonom ia popular. econôm ica e cultural). por fim a CPE prom ulgada em 2 009 . o masista Melécio Garcia. em 2 003 . 4 8 Yatiris são. a Guerra da Água em Cochabam ba. ainda no início da década de 1 9 3 0. a CRSUCIR m antém um a relação “orgânica” com o MAS-IPSP. « Desobediências político-epistêmicas de movimentos indígenas no Brasil e na Bolívia como aprendizagens contra-hegemônicas ». Em 2 01 0.bo/index. Quadra 109 Norte. Outras m archas se seguiram e. tam bém por aproxim ação. pioneira na im plem entação. das terras baixas até La Paz. Sala 20. assim com o a Guerra do Gás. e organização ou instituições jurídicas.m inedu. 114 | 2017. de 2 01 0. na com unidade de Raqay pam pa. Brasil maurijor@gmail. por aproxim ação. Tanto que um a liderança im portante de Raqay pam pa. jurídico.openedition. Bloco Bala II. 187-206. DOI : 10. Revista Crítica de Ciências Sociais [Online]. que reflete em seus conteúdos as realidades dos pov os indígenas originários cam poneses da Bolív ia. história. econôm ico. Revista Crítica de Ciências Sociais. CEP 77001-090. cultural e linguístico. já tinha sido eleito e atuav a com o prefeito de Mizque. Plano Diretor Norte. curandeiros das com unidades.com Direitos de autor https://journals. e na Assem bleia Constituinte que elaborou. m as esse v ínculo não a im pediu de dar preferência pela AIOC. Ev o Morales. que conhecem em particular as erv as. 4 3 A Bolív ia se define no artigo 1 . 4 7 Jampiris são.openedition. 4 9 Entrev ista realizada em 1 9 de m arço de 2 01 4 .4000/rccs. Carrega o nom e dos educadores Av elino Siñani e Elizardo Pérez (fundadores da histórica Escola de Warisata. Palmas -TO. O ciclo de rev oltas e transform ações refluiu de algum a form a na eleição do prim eiro presidente indígena do país.

org/rccs/6835 18/18 .19/03/2018 Desobediências político-epistêmicas de movimentos indígenas no Brasil e na Bolívia como aprendizagens contra-hegemônicas https://journals.openedition.