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Régine Sirota

PRIMEIRO OS AMIGOS:
OS ANIVERSÁRIOS DA INFÂNCIA, DAR E RECEBER*

RÉGINE SIROTA**

“Um dia extraordinário”
Durante um dia inteiro,
é meu aniversário.
Tenho o direito de tudo fazer,
como no ano passado.
Comer sorvete de café
no café da manhã,
levar pães de passas
na escola para meus amigos,
pedir à professora para que toque
minha fita favorita
e ir deitar muito mais tarde
que nas outras noites,
depois de ter partilhado meu bolo
e aberto todos os meus presentes.
(CORINNE ALBAUT, Cantigas para meu aniversário, 1998)1

RESUMO: Desde a infância, os aniversários propiciam trabalhos de so-
cialização. Esse ritual, que costuma agrupar crianças da mesma faixa
etária, faz surgir uma obrigação de trocar presentes: dádivas e contra-
dádivas regem as seqüências da festa de aniversário. A abordagem
etnográfica permite apreender o papel que cada ator social (filhos, pais,
amigos) desempenha na construção social desse ritual. Os presentes es-
tão no cerne de um verdadeiro trabalho de negociações no qual se con-
frontam constantemente normas e valores.
Palavras-chave: Aniversário. Ritual. Dádiva. Contradádivas. Infância.
Socialização.

* © 1998. Uma outra versão deste texto já foi publicada em: Ethnologie française, Paris:
PUF
PUF,XXVIII, 1998, 4, Les cadeaux: à quel prix?
Tradução de Alain François, com revisão técnica de Ivany Pino.
** Professora da Universidade Paris V, Instituto Nacional de Pesquisa Pedagógica ( INRP ).
E-mail: sirota@inrp.fr

Educ. Soc., Campinas, vol. 26, n. 91, p. 535-562, Maio/Ago. 2005 535
Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>

Primeiro os amigos: os aniversários da infância, dar e receber

FRIENDS FIRST : CHILDHOOD BIRTHDAYS, GIVING AND RECEIVING

ABSTRACT: Ever since childhood birthday parties allow a pro-
cess of socialization. Such ritual, which usually gathers children
of a same age group, is an opportunity to exchange presents: gifts
and counter-gifts structure the sequences of birthday parties. An
ethnological approach thus enables to seize the contribution of
each social actor (children, parents, relatives, and friends) in the
social constructions of this ritual. Presents are the object of a real
negotiation implying a permanent confrontation of norms and
values through which a social link is built.
Key words: Birthday. Ritual. Gift. Counter-gift. Childhood. Socialization.

urante a infância, desejar um feliz aniversário marca-se essenci-
almente por um presente. Aqui, onde o aniversário é analisado
como um ritual de socialização, consideraremos os presentes
como objetos que participam dessa socialização em termos de celebra-
ção do indivíduo, de modelagem da identidade e de construção do vín-
culo social.2

Um imperativo categórico do aniversário, o presente
Por meio da trajetória do objeto que, segundo o esquema de Mauss
(1950), percorre as três obrigações dar-receber-devolver, indo da compra
à oferta até o agradecimento, a construção social do presente de aniversá-
rio permite apreender um certo número de princípios que regem o que
está em jogo num presente, nessa situação específica do processo de soci-
alização. Podem-se aqui recortar duas cenas: o momento da compra, o
momento da oferta. A primeira permite apreender os critérios de escolha
tais como se constroem na situação individual e entender como se confi-
gura o que está em jogo, situação complexa, na qual pais, filhos e socie-
dade comercial estão interagindo. Em compensação, as modalidades da
oferta, por um lado, e a análise do estoque de presentes recebidos por
uma criança, por outro, fazem surgir a resultante dessas negociações e os
modos de socialização que delas decorrem.
Pois a criança aprende a receber e a oferecer ao mesmo tempo: se
no círculo familiar, o presente recebido precede, durante alguns anos, a
oferenda de presentes, uma vez que a regra,3 rigorosamente desigualitária,
não comporta reciprocidade na pequena infância, em contrapartida, no

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disse Nicolas. característico da infância contem- porânea. Nicolas. Essa cena banal reúne os principais elementos da negociação en- volvida na compra de um presente para um aniversário “amigal”. tanto para as crianças como para os pais. você vai deixá-los constrangidos. Joachim quer que eu compre um dragão. isto é o tipo de presente que a família compra. n. não é muito espetacular. ele tem o quê. se ele não tem o resto do jogo. 535-562. portanto. Joachim (10 anos. mas pode servir de presente de aniversário.. aproximadamen- te) e Nicolas (5 anos): “Pronto. Maio/Ago. Então. vai o dragão”.) – “Não. vou chamar a mamãe para sa- ber o que ela acha”. É. entre 2 e 3 anos. espera. Trata-se de um aprendizado conjunto e pre- coce das regras de civilidade modernas. Ele liga: “Qual o orçamento? Sim... tanto os presentes de aniversário recebidos no primeiro como os tro- cados no segundo. numa tarde de sába- do: um pai com seus dois filhos... a oferta do pre- sente vem imediatamente.) – “Não. Soc. estou nos brinquedos da Fisher Price com as crianças. já há uns 15 anos.cedes. Um dragão. a aprendizagem da implementação do vínculo social por meio da dádiva. Nela está enunciada grande parte dos critérios de escolha do presente: iden- tidade de gênero.unicamp. Régine Sirota círculo de sociabilidade entre amigos. reflete a mudança de lugar da criança Cena flagrada numa loja de brinquedos. 91.. que vão logo ter de enfrentar esse novo ritual. (. 2005 537 Disponível em <http://www. 26.5 Escolher. (.br> . Pois ao ritual do aniversário familiar veio se somar. disse o pai. o qual se inicia muito cedo. vol. principalmente aos presentes tro- cados quando desse aniversário “amigal” que este artigo se interessará. estratégia de representação e de dis- Educ..4 festa de crianças reunindo o círculo social do “impetrante”. marcam ao mesmo tempo a constituição do círculo social e a construção de regras de civili- dade: em outras palavras. infinitamente mais freqüentes. As- sim. disse o pai. e um castelo não tem nada a ver. tá. eles não vão gostar. é caro demais. vamos à seção dos meninos. Campinas.. peso financeiro. o aniversário “amigal”. não tem graça. mas tem um carrinho ou um caminhão de bombeiros muito mais vistosos. p. uma negociação. quatro- cinco anos? Você acha que vai gostar? Ele vai ficar feliz?”. são os pais que dão isto”.

por exemplo. enunciação e aprendizado das regras de civilidade e instauração de uma hierarquia de valores. uns Batman e um livro contando a lenda dos Cavaleiros da Távola Redonda. combinou com seus amigos para receber o que dese- java: um Marsupilami* de pelúcia. o Marsupilami é anfíbio. Às vezes. 26. Soc. que um deles já tinha. pois ela costuma gerenciar essas compras – e o irmão mais velho. onívoro e fala de vez em quando. com 10 anos. vol. do T. ela passou a comprar os pre- sentes sempre com ele e a respeitar de fato suas escolhas. a um menino.cedes. embora isso contrarie todas as suas estratégias culturais. Tom (7 anos). o pai acabará decidindo em favor da primeira escolha de seu filho menor. pois em nada correspondia com o que ele queria oferecer. para ganhar tempo.Primeiro os amigos: os aniversários da infância. no pátio da escola. e os pais abdicam diante da argumentação da criança: “Foi o que o Pierre pediu”. É um mamífero que bota ovos. a qual. 2005 Disponível em <http://www. como vimos.: Personagem de história em quadrinho (HQ) criado por André Franquin. o qual. com batom de verdade. num espaço de negociação que deixa uma certa margem à autonomia da criança e nos permite perceber a mudança do lugar da criança na famí- lia. critério de idade. Campinas. enfrentou a situação seguinte: seu filho recusava-se terminan- temente a oferecer o jogo que ela escolhera. As mães também podem negociar ao confirmarem a presença de seu filho ou filha. Essa autonomia decorre quer de princípios educativos claramente afirmados pelos pais. uns Batman ou uns Power Ranger”. normas de crianças e normas de adultos entram em com- petição.unicamp. já tem experiências desse tipo de situação. comprava sozinha os presentes quando este era pequenino – isto é. são as normas do grupo de idade. a mãe – chamada para ajudar pelo celular. as concepções do grupo de pares das crianças predomi- nam: “A uma menina. que determinam a compra. coisa pela qual aquele dos pais que acompanha a criança costuma se desculpar: “Não pude fazer nada”. Segundo o jornal Spirou (que publicava suas histórias). quer de um certo “realismo”. n. impõe-se o que encarna a passagem para uma nova faixa etária: “Ela quer maquiagem de verdade. princípios culturais. Isso. Ou. nesse caso. até os 3 anos –. então. depois de consultar todos os membros da família.br> . Elas se informam a respeito dos gostos de quem * N. Desde então.. Nesse caso. p. 538 Educ. 91. geral- mente fortemente influenciadas pelos seriados e as campanhas de propa- ganda. não um negó- cio de criança”. Estas costumam resultar de negociações prévias entre pares. 535-562. Maio/Ago. dar e receber tinção. a gente dá uma Barbie. Com efeito. Portanto. Assim a mãe de Adrien.

nem muito espaçoso”. Em sentido inverso. Soc. presentinhos”. e ao aceitarem. Os princípios dos pais. sobretudo quando as crianças são muito pequenas. os pais têm apenas um domínio limi- tado. quando não contraditórios. o que permite avaliar o investimento financeiro potencial: “Ele está louco por um kit Catapulta e Trabucos”. No grupo de pares dos pais também ocorre avaliação e aprendizado das novas normas sociais dessa festa de aniversário: “No início. p. para pe- quenos amigos. que apenas seu filho ou sua filha conhece. Campinas.unicamp. o preço dos presentes comprados marca geralmente como um sociograma o grau de amizade que liga as crianças entre elas ou a proximidade das famílias.. não o(a) conhecem. ou pelo menos negociarem. É assim que se constitui uma das regras do aniversário: “Para grandes amigos. comprava presentinhos entre 20 e 30 F. presentões. são comprados por pais que nunca viram o(a) aniversariante. Portanto. a compra encontra-se no cerne de uma negociação com parâmetros complexos. Pois a autonomia da criança na constituição de sua rede social está em jogo. são: “agradar”. Essas mães conversam entre si quando têm uma certa inti- midade. algumas mães decidem moderar-se na escolha dos presentes e. que as crianças formulam precocemente. Educ. 91. não raro. costumam favorecer essa sociabilidade infantil por dois lados: ao consentirem com essa ampliação do círculo social. Mesmo podendo ha- ver negociação entre as crianças. Eles podem rapidamente se tornar difíceis de respeitar.br> . conseqüentemente. às vezes. e a compra do presente representa a primeira resposta a um convite oriundo de um cír- culo social sobre o qual. Régine Sirota convida. como também na negociação financeira. Maio/Ago. “ser bo- nito”.7 mas logo entendi que não era assim e passei a comprar ver- dadeiros presentes”. que refletem o estilo educativo da família. “ser uma surpresa”. vol. 6 nas Paris Pas Cher. Os critérios de compra do presente. De fato. Poucas mães deixam total liberdade de escolha aos filhos: elas costumam fixar limites financeiros que variam geralmente em função do grau de amizade entre as crianças. o(a) aniversariante nunca tem certeza de que o outro poderá comprar o objeto de seus desejos uma vez que essa negociação é dupla: entre as crianças e entre uma delas e aquele dos pais que vai comprar. Estes. Muitos presentes de aniver- sário. 535-562.cedes. n. no valor das compras. entretanto. ou passam então um crité- rio moral e prático preciso: “Não muito grande. 2005 539 Disponível em <http://www. pois. traduzem-se não somente no tipo de presente escolhido. já aos 3 anos de idade. 26. diante da freqüência inespe- rada dos convites. as normas culturais do presente.

o que pare- ce ser o “Sésamo” da participação ao aniversário. segundo 540 Educ. quer sejam guardados e abertos um após o outro mais tarde. O presente é aberto ime- diatamente. Entretanto. tanto em termos de gerações como de grupos de pares. no exemplo acima. na qual os presentes são exibidos. para adquirir definitivamente seu estatuto de presente e tomar o caminho da casa do(da) aniversariante. há sempre oferta e apreciação da oferta. quando este é pe- queno.8 O objeto selecionado será então cuidadosamente embrulhado. Em compensação. Aurélien. mas que ela desejava consolidar e significar a importância do vínculo entre as duas crianças. os pais e as crianças. correspondeu aos valores do grupo de crianças. como pelo conjunto dos amigos. dar e receber Com efeito. tal tipo de presente –.br> . oferece o presente que segura diante de si assim que a porta se abre. Se. Quer os pre- sentes sejam abertos à medida que os convidados chegam. na casa de Florence ou na de Justine os presentes são cuidadosamente guardados na chegada de cada convidado.cedes. avaliados tanto pelo donatário e seus pais. 2005 Disponível em <http://www. p. há também um aprendiza- do da negociação dos valores e das limitações entre a oferta comercial. a escolha cultural. Maio/Ago. para justificar um presente que lhe parece importante demais. na “co-construção” des- se ritual. Logo. as normas dos pais e as das crianças estão envolvidas. por sua vez. Oferecer e receber. como o resto dos convidados. não se pode raciocinar ape- nas em termos simbólicos. 91. Na casa de Kevin. Normas que devem ser aplicadas sutilmente: a mãe de Hélène. que “propõe” objetos de consumo suscetíveis de se tornarem presentes de aniversário ou que fo- ram até especialmente concebidos para tanto. durante uma fase de ex- posição mais ou menos bem ordenada. apreciados.unicamp. pois os presentes de aniversário apóiam-se em e são suscitados por uma dinâmica econômica. ao mesmo tempo. o valor financeiro do presente escolhido correspondia às normas de civilidade dos pais – para tal vínculo social. vol. quando da compra. tentou explicar discretamente que aquela máquina fotográfica estava em oferta. 535-562. ou a aprendizagem das regras de civilidade A cena da oferta reveste-se de duas formas principais. O protocolo é o fruto de uma soma de experiências desastradas. Soc. ge- ralmente na loja. n. 26. quando levou sua filha à festa.Primeiro os amigos: os aniversários da infância. Em virtude das limitações financeiras.. Campinas.

a fim de não deixar a situação se deteriorar.cedes. vol. perguntar quem o trouxe. “Este é demais”. 7 anos. às vezes. quando o presente não suscita o menor interesse do donatário. numa idade em que as regras de polidez ainda não foram integradas. Marcella. nas quais muitos presentes abertos imediatamente acabaram abandonados no chão e rapidamente quebrados. De fato. 10 anos. ou perto da mesa do bufê. ela abrirá sozinha o conjunto de presen- tes em meio ao gentil burburinho de seus amigos. quer de exprimir o prazer e a alegria. ao mesmo tempo em que impõem um ritual de polidez. Régine Sirota as mães. mais difi- Educ. quando o brinquedo não agrada. Às vezes. “Xiii! Já tenho um igual”. Isso justifica a necessidade e a regra do embrulho: o momento dos agradecimentos e da avaliação coletiva é um momento delicado de aprendizado das regras de polidez e de civilidade. Soc. abri-lo. quer se trate de reprimir ou dissimular sua decepção. que lindo”. dissimulam as decepções que. “Diga obrigado a Marianne”. independentemente do processo escolhido. num modo discreto ou fortemente instigante: “Ó. ou quando a criança já tem um igual. as mães. ocorre uma verdadeira explicação do texto da cena em jogo. por exemplo. Entretanto. Uma vez o círculo pronto. o risco de gafe é grande. A mãe de Justine espera até as últimas crianças chegarem e escolhe um momento estratégico no “andamento do aniversário”. o que permite justamente a elaboração das normas do grupo e sua interiorização. e comentam o interesse do pre- sente.br> . 535-562. Como os agradecimentos vêm durante ou logo após a cena da abertura. p. mostrá-lo a todos e agradecer de modo mais ou menos espontâneo. Campinas. exprimem-se muito diretamente: “Isto não é presente de aniversário”. geralmente bastante cedo. pois se trata de aprender a agradecer o ges- to da dádiva e não especificamente o objeto oferecido e. estão muito presen- tes. Pois há nisso uma apreciação pessoal e coletiva. antes dos jogos (embora às vezes fique para depois do espetáculo). Maio/Ago. pro- movida a mestre-de-cerimônias.unicamp. pois são sempre elas que oficiam naquele momento. chega um dos pontos altos do aniversário. elas ensinam incitando ao controle das emoções.. o qual costuma marcar a abertura das festividades. 91. 2 anos. Todos os presentes em seus embrulhos estão expostos no centro do círculo. Quanto à Rachel. Às vezes. diante de Justine. vai abrir os seus nos braços de sua mãe. 2005 541 Disponível em <http://www. Esta vai pegar cada um. a criança deve agradecer antes de abrir. Elas acres- centam exclamações quando julgam que faltam. 26. “Que ótima idéia”. Ela junta as crianças. quanto mais jovem a criança. os abri- rá sob o olhar muito vigilante da sua. Florence. manda-as se sentarem em círculo no carpete no meio da sala. n.

para acabar se concen- trando nos colegas da turma. pois é preciso paciência para não arrancar os pa- péis dos embrulhos de uma vez e abri-los corretamente. por outro. a celebração do indivíduo na dupla consagração de sua individualidade e de seu pertencimento ao grupo de pares. 2005 Disponível em <http://www. A personalização dos presentes depende muito do nível de proxi- midade e de intimidade. portanto. Uma vez que a escola primária e. Soc. pois por meio desse estoque se estabilizam e exprimem nor- mas e valores da infância contemporânea. Uma vez os pre- sentes abertos.br> . 26. às vezes. o troféu de aniversário é exibido. Se compararmos os estoques respectivos recebidos nas festas desses quase 50 aniversários. e a importância ou a personalização do presente significa o grau de proximidade. 535-562. quanto mais próximo o amigo.unicamp. No âmbito das negociações citadas anterior- mente. O número de convidados e. a instituição do círculo social. Ao círculo de família dos primeiros anos vêm acrescentar-se. “Ela sem- pre me oferece algo superbonito”. vão se suceder os amigos da creche. surgem alguns princípios de fabricação do troféu: por um lado. da mes- ma geração. p. de presentes gira em torno de dez (os pais costu- mam limitar a lista de convidados a esse número). a partir dos 3 anos. no decorrer da escolaridade. eles são juntados a distância. no salão. com os quais os pais constituíram relações de ajuda mútua e amizade. que se somam aos primos e filhos dos amigos dos pais. Em seguida. Tal como a exposição dos presentes de casamento. 91. ou ainda no quarto da criança. mais o presente levará em conta seus gostos. “Que presente mais sem graça”. o con- vite para o aniversário ratifica o pertencimento a essa rede. a análise da lista dos doadores permite acompanhar a evo- lução do círculo social infantil e os graus de proximidade. deixando transparecer um processo de socialização em plena constituição.. Assim. n. vol. dar e receber cilmente ela se conterá. Campinas. no sofá. as crianças decodificam isso com delicadeza: “Ele toma o maior cuidado com o que oferece”.cedes. ou a constituição da identidade Esse troféu representa um parque ou um estoque de presentes cuja análise permite apreender a resultante das múltiplas negociações que o precederam. os primeiros amigos. em segui- da. o colégio estruturam principalmente a rede de sociabilidade. De fato. Maio/Ago.Primeiro os amigos: os aniversários da infância. alguns presentes se 542 Educ. da escola maternal ou os vizinhos. O troféu do aniversário. numa mesa.

Soc. os piratas da Lego. 4-Rose. escola. perfume de 5-Guillaume. 1 livro: “Tirawa et le mangeur 1-Barbara.cedes. mini móveis de madeira Protheroë” e “Conan Lord” de S. Pédalgo. “L’affaire 12-Anna. pulseira de prata com pati. “Le secret des 9-Marion. n. Robin. mini quebra-cabeça os 101 1-Pierre. kit para colorir. 2-Émilie. Spooksville. 9-Adeline. de A. de nuages”. agenda. Robin. escola. pêssego. creche. madeira.Perrine. 6-Pauline. kit 3-Justine. jogos de sociedade de do clan des sept”. família de índios com ca- 6-Audrey. potes. mochila com pirulito 3-Olivier. escola. 5. 1 livro “Le grand récit de mère Pierre (6 anos) Paillette” (Revue Moi. creche. vol. escola. 9-Vincent. 1 livro: “Le livre du père cartas. 7-Salim. maternal. dálmatas. 535-562.br> . escola. p. escola. pijama. 2 livros de bolso: Série 4-Elise. Action Man grande.. escola. maternal. 10-Marine. 6-François. escola. 2-Manon. Pollypocket casadas. 2 HQ: Tintin “Les cigares du pharaon”. 2 livros: “La gavotte du 8-Diane. bolsinha. escola. Sarah. nho. escola. “Dessins magiques” “Super 8-Binta. Constance. aviões Micromachines. dormant”. Régine Sirota Troféus de aniversários Meninas Meninos Florence (7 anos) Vincent (5 anos) 1-Margot. Justine. “Les ta miniatura. noa. perfume. 2-Bastien. Julien (11 anos) 10-Clara. kit Magie Cool. 4-Benjamin. papel de 7-Salim. 6-Sébastien. vizinha. Batman cavaleiro. sept”. escola. pochoirs” + material para colorir. escola. escola. 2 HQ “Tom Tom” e “Nana”. 1-Manon. escola. escola. 26. atletismo. 1 livro “La belle au bois Billes”. Mathilde. 2-Adnen. 5-Johan. sabonetihas. escola. Constance (7 anos) 5-Rachel. escola. “Les Make Your Own Stickers. escola. jangada da Playmobil. escola. escola. caneta. de Hulpach. . “Le fantôme de l’océan”. de C. massinha + manual. Plke. escola. maison biscornue”. Morvan. 3 livros de bolso: “La 11-Clothilde. escola. Pingouins + cachimbo da paz e tomahawk. “Le violon 3-Marianne. Pollypocket Magie parade. creche. 1-Charles. je lis). 7-Margot. fantasia de xerife. escola. escola. 3-Benjamin. escola. 4-Olivier. 3 livros: “L’avion du clan des turma. Brussalo. escola. natação. flau. jogo de sociedade Salut les 8-Benjamin. vídeo “Le livre de la jungle”. escola. jogo: Créer son village. chevaux”.unicamp. Maio/Ago. Hellings. 6-Loïs. Barbie cintilante. 2-Nathan. Jeu des milles Bornes . kit para fazer velas. escola. escola. 11-Guillaume. Biker Mice.Christie. agenda com cadeado. 2005 543 Disponível em <http://www. Spirou et Fantasio: “L’horloger Barbara (11 anos) de la comete”. 91. escola. 2-Aurélien. escola. Action Man. foto da 4-Orane. 1-Arthur. de Enid Blyton. escola. número de Art. jogo Cluedo. baby sitter. 8-Diane. grande. 3-Sophie. vizinha. “Surprise au clan des sept”. da Playmobil. para construir. escola. escola. 5-Tomoé. 4-Jeanne. escola. disco: “La flûte: à la découverte kidnappeurs de l’espace”. maternal.. Campinas. escola. mille-pattes” de F. jogo Dessinez c’est gagné. escola. pistolas. 3-Marie. escola. creche. 2 livros de bolso: Educ. d’un instrument”. Noël” de C. 7-Clémence. semente e plantas.

amigo do irmão. e. “Désirs 7-Hadrien. 12-Paul. de R. fantôme. 13-Laëtitia. escola. Dahl. a origem do vínculo social (escola. chavei- ro ursinho. 7-Adèle maternal. de P. A mãe de uma delas atravessou Paris de lado a lado para encontrar o objeto desejado. escola.L. escola. 11-Marc. Tio Patinhas gigante + “Charlie et le grand ascenseur de verre”. vizinha. 2 livros de bolso: “Vallée nete de morango. Conan Doyle. “La terre de Yenn”. Este quadro dos troféus mostra o número de convidados. Hitchcock. escola. livro: “Agates et calots”. 2 CDs Spice Girls. kit espuma de banho. 8-Anna. 2 livros de bolso: “Les Aventures de Sherlock Holmes”. Thies.Primeiro os amigos: os aniversários da infância. pequeno perfume. escola. Marsden. “Alice de Barra”. caneta de madeira com estojo de madeira.unicamp. camisa Creeks. filho de amigos. Soc. espuma de banho.) e o tipo de presente oferecido. Coué . creche. pois aqui tudo convergiu: conhecimento íntimo dos gostos e individualização do presente (Bar- bara toca flauta). 10-Marc. em ordem. 2 esponjas. 8-Barbara. 535-562. sabo. Série Chair de l’impressionnisme”. distinguem nitidamente por sua especificidade e seu preço. “Les secrets de la boussole” “Aimer par cœur” Série Chair de poule : (coll.Julien. poule. escola. 2 livros de bolso: série L’instit: d’anticoloriage”. “leçons de piano et pièges mortels”. pequena dançarina de prata. 6-Anthony. de A. agradar (elas notaram o fascínio de Barbara) e estratégia cultural parental – em termos de distinção e de educação (a 544 Educ. 91. p. “Les secrets”). de R. Stine. 1 livro “L’abécédaire de dangereux”. 2005 Disponível em <http://www. Maio/Ago. escola. T-shirt preto da Nike. 1 livro de bolso: “Alice et le secret du parchemin” de C. espelho argentino. de J. 2 livros de bolso: Série cœur grenadine: “La fille sur le plongeoir” de J. 14. pois ela ficara fascinada por um violoncelo mi- niatura na casa de uma amiga. Campinas. dar e receber 5-E1 Mafoud. Quine. escola. Histoire à se cacher sous le lit”. surpreender (fizeram uma vaquinha discreta para jun- tar a soma necessária). Quin “Harguin. 10. nuit noire”. escola. 15-Aurélien. n. 19-Pierre. de Joffo. 18-Wassil. o nome da criança. natação etc.br> .. Hansum. bijuteria. 2 livros: “Le deuxième livre 9-Caroline. 16-Arthur. escola. 9-Romaïn. vol.L. Beach.Clément. 26. de J. Sterne. 2 livros de bolso “J’ai tant de choses à te dire”. de L. escola. de A. de R. As melho- res amigas da Barbara fizeram uma vaquinha para lhe oferecer uma flau- ta transversal miniatura. escola. pequeno 11 anos de papelão.cedes.

“Gosto de presentes que têm um sentido. Maio/Ago. que agradam mesmo. É o caso. quanto um presente para qualquer oportunidade: “É menina? Então vai uma Barbie”. são geralmente oferecidos por dois ou três. das bonecas Barbie.cedes. pois “adorei Um sac de billes que acabo de ler. a Bárbara. só se eu mesma escolhesse. mas o Clément não vai achar nada demais. vol. que pagou com parte de sua mesada. um livro é fácil de se comprar e tem um preço relativamente moderado. é que já passaram por todas as lojas.br> . e não bastasse. (Barbara) Pois. o número de livros oferecidos perto do fim do primário. só ganha livros”. pois algumas crianças ofereceram dois ou três livros. Do mes- mo modo. desdenhando os lindos livros clássicos em favor de uma literatu- ra infanto-juvenil recente. presentes fortemente estereotipados permitem realizar o rito so- cial num certo anonimato. e passa da história em quadrinhos ao livro de bolso. elas sentem saudades do tempo dos brinquedos. Em sentido oposto. quando completou 11 anos. Pode-se. às vezes. p. um livro pode ser um presente escolhido muito precisa- mente: assim Julien ofereceu Agates e calots. n. mas não deve ter apenas livros. um livro não é caro. é realmente um presente. que fa- zem parte das coleções de bolso. 2005 545 Disponível em <http://www. não reflete realmente uma propensão parti- cular para a leitura. que podem ser tanto o resultado de uma batalha ferrenha contra os pais. como se o presente devesse alcançar uma certa soma e um volume mínimos. Assim. 26. Qual o sentido desse presente? Primeiro. para sua primeira festa dançante. às vezes. e portanto uma escolha explícita da criança. 535-562. Se a Manon e a Constance me dão um livro. Esse deslocamento ocorre paralelamente à aprendizagem da leitura. Mas. Régine Sirota mãe em questão toca numa orquestra clássica amadora). 91. de Joffo. Soc. Os livros. 1993). em contrapartida. Nunca leio os livros. notar que esses livros. acho legal. o que permite moderar os gastos. em si. a partir de uma certa idade. a proporção de livros é extremamente surpreen- dente. Um livro. Educ.unicamp. Campinas. que poderia parecer contradizer as estatísticas fran- cesas sobre os jovens e a leitura (Singly. entretanto. Algumas crianças temem tais presentes e. constatando que. pelo seu conteúdo. para a Mathilde e a Elise. “Quando a gente sabe ler. depende dos gostos. não é difícil de encontrar”. com o ingresso na adolescência. e tenho certeza de que ela vai gostar”.. Julien recebeu 16 livros. com a influência das modas. no caso para os romances policiais especialmente destinados às crianças.

boa parte dos presentes é oferecida em função do sexo. 91. sobretudo em torno dos 5/7 anos. Desse lado. Os presentes de mate- rial escolar (estojos. ra- tificando sua seriedade na escola. cavaleiros e médicos da Playmobil ou da Lego. O que parece estar basicamente em jogo é a afirmação do pertencimento ao grupo de pares e de gênero. 20 anos depois. como Hércules ou Zeus. por este gosto masculino de sua filha. álbuns de fotos e carnets secrets (diários com cadeados). canetas. Maio/Ago. ocu- pam um lugar importante com seu exército de bólidos supersônicos. índios. como afirmou Simone de Beauvoir (1949) nas primeiras linhas de O segundo sexo. 1975). Tanto que neste ela parece quase caricatural. p. produ- tos de beleza e lindos adereços. Robocop. os cenários das Pollypocket e alguns Playmobil. durante este ritual que convoca o grupo para a celebração de um de seus pares. embora reflitam e estruturem muito fielmente os este- reótipos da identidade feminina: o charme. vol. os Power Ranger. “Obviamente. caubóis. 26. 546 Educ. o assunto é irritante. aos quais se acrescentam heróis da Antigui- dade reciclados pelos Estúdios Disney. Observamos apenas uma infração a esse código: Caroline. réguas) só aparecem em aniversários de moças.cedes. os presentes são um pouco mais variados. com jóias. de maneira exclusiva: do lado da “fabricação dos machos” (Falconnet & Lefaucheur. Biker Mice.. De fato. Action Man. Dragon Ball Z ou as Tartarugas Ninja. Esses “bonecos de ação” convivem com aventureiros mais clássicos como pi- ratas. pois repete. sobretudo para as mulheres. 1993). Campinas. deixa transparecer que os presentes são fortemente “sexuados”. n. Uma simples leitura do quadro dos troféus. reencontra- mos o pólo diametralmente oposto desses estereótipos. agendas. armas ou bases espaciais. como a carroça de noiva. 2005 Disponível em <http://www.br> .Primeiro os amigos: os aniversários da infância. caracte- rística que se atenua com o ingresso no colégio. como papel de cartas. ou então a introspecção e a clausura sobre si mesmas por meio de ferramentas de escrita domésticas co- muns9 (Albert. demonstra e reproduz de maneira totalmente estereotipada a construção da identidade. pediu uma a uma amiga. dar e receber A identidade de gênero parece um fator particularmente impor- tante na constituição do estoque. 1973). aflito.unicamp. como Batman. 535-562. e seu pai ficou se desculpando. apaixonada pelas Tartarugas Ninja. Do “lado das meninas” (Belloti. bolsas. mas não é novo”. confirmada pela análise dos quase 500 presentes ofereci- dos nesses quase 50 aniversários. as perso- nagens guerreiras dos seriados de televisão ou dos filmes de ciência/ ficção. o Homem Aranha. com a Barbie e seus acessórios. Soc. entretanto.

exatamente como o cavaleiro de Duby * N. n. 2005 547 Disponível em <http://www. eles chamam sobre si a bênção dos deuses e um novo afluxo de riqueza. Essa desigualdade mar- ca claramente a dinâmica de troca na qual se inscreve o aniversário: se o contrapresente há de ser assimétrico. para fazer aceitar a criança pela faixa etária que a acolhe (Zonabend. como se transmitem e difundem. Contudo. doadora ou donatária. devem ter um valor nitidamente in- ferior ao presente ou. pelo menos. como Tintim. assim parecer. 91. é porque apenas representa um con- trapresente “instantâneo”. quer ela seja. Marsupi- lami. os elementos identitá- rios por meio dessa construção do estoque de presentes que. tanto en- tre gerações como dentro de uma mesma geração. 1980).unicamp. Campinas. esse processo de socializa- ção opera independentemente da posição da criança. que também são quase obrigatórios. Pois. vol. Os contra- presentes lembram muito o arroz jogado ou os docinhos distribuídos no momento do batismo. Maio/Ago.* eles são muito mais freqüentes para as moças. Educ. os presentes que os convidados trazem não são os úni- cos objetos trocados quando do aniversário “amigal”. Reencontramos aqui a imagem antiga da generosidade que Starobinski (1994) lembrou: “Ao dispersar a riqueza. algumas histórias em quadrinhos. Fora desses arquétipos. além de CDs de bandas da moda e fitas de vídeo. e livros científicos são oferecidos indiscriminadamente dos dois la- dos. ano após ano. de tipo Quiz. aqui.: Mille bornes: Jogo com um baralho especial que representa uma espécie corrida de mil milhas. p. a distribuição de presentinhos que podem ser considerados contrapresentes faz parte de quase todo aniversário. Eles se atribuem o domínio de uma superabundância que vai gerar uma nova abundância”. acompanhado por balas ou doces. se- gundo o momento do ciclo.cedes. Régine Sirota Em compensação. assim como os kits de trabalhos manuais. 26. Soc. Por sinal. Boule et Bill. pela repetição desse ritual coletivo contribui à formação do espaço físico e mental da vida privada de cada criança.br> . como o Mille bornes ou o Mini-Bac. ferramentas de jardinagem e kits para fazer velas. Eles. Os contrapresentes ou a “generosidade dos pequenos” De aparição recente. 535-562.. essa prodigalidade de doces acom- panha o aniversário durante toda a tarde. Mini Bac: Jogo de perguntas e respostas. Vê-se claramente. do T. embora alguns jogos de sociedade sejam ofere- cidos dos dois lados.

Isso agrada. a gente gosta de ganhar. a dádiva não pode ser devolvida imediatamente. mas a gente já passou da idade de brincar de pescaria”. gostaria de levar uma lembrancinha. que vai se inscrever no círculo da troca. os contrapresentes são parcialmente destinados a compensar a frustração sentida pelas crianças diante do amontoamento de presentes recebidos pelo “aniversarioso”. quando a gente é maior. Ao troféu do “aniversarioso” corresponde então o ganho dos con- vidados. destinadas a atribuir o estatuto de contrapresentes a objetos concebidos como tais pelo comér- cio. é menos um presente. É sempre legal. ele tira sua força e a maior parte de seu poder ou. sua fama e a viva amizade que o cerca”.cedes. ele dá. será o presente cuja criança que acaba de oferecer um receberá quando. Legal mesmo é criar uma atividade para recebê-los. um negócio maior. motivo pelo qual o contrapresente. constituído pelo contrapresente. Tudo o que lhe chega. hoje em dia. (Justine) O verdadeiro contrapresente. aquele cujo aniversário se celebra “há de nada guar- dar em suas mãos. p. por sua vez.br> . dar e receber que Starobinski cita. igual para todo mundo.10 “O presentinho é um negócio que você pode guardar. obviamente. 26. 91. Por isso. O princípio da dívida mantém o círculo da troca. num embrulho bonito. pelo menos. Campinas. a gente sente menos prazer ao abri-los. 535-562. O jogo da dívida e da troca se completará apenas naquele momento. Quando a gente é pequena. para as crianças. De sua generosidade. O ganho Os contrapresentes têm suas próprias regras. Maio/Ago.Primeiro os amigos: os aniversários da infância. as balas e eventualmente os prêmios ganhos em brincadeiras. um negócio me- nor. 2005 Disponível em <http://www. Quando al- guém vai embora. elas estranharam o fato em alto e bom som. como quando a gente era pequena. ou seja. se não tem embrulho.unicamp. Do mesmo modo. descobri-los. pode conter tan- to um brinquedo como doces ou ser acompanhado por balas. n. vol. Soc. Entre- tanto.. vai fazer o seu aniversário. quando a gente vai a um aniversário em algum lugar e aquele que convidou ganhou um monte de presentes. mesmo se está quase sempre embrulhado como um presente. e nas raríssimas vezes em que não houve. recebê-los. ele praticamente virou uma obri- gação. geralmente comprados ou fabricados com este fim: 548 Educ.

essa bolsa contém geralmen- te não apenas o contrapresente. Às vezes. as mães prevêem ou improvisam um presente. pois ela encarna a festa de aniversário dos pequenininhos. – Os contrapresentes devem ser embrulhados como verdadeiros presentes.cedes. vol. ou decorado. 535-562. n. mas balas previstas para este fim e.unicamp. um simples saco para congelar. 2005 549 Disponível em <http://www. Soc. o embrulho é reduzido ao mínimo. no qual cada criança resgata um presente com uma vara geralmente “brico- lada” em casa. p. Embora o comércio proponha embrulhos especiais vendidos em pacotes de seis ou dez. a pescaria desaparece. os contrapresentes são obtidos por meio de jogos. – Os contrapresentes são o objeto de uma encenação. às vezes. deve receber um contrapresente. Do mesmo modo. pode ser um copinho cheio de balas. em papel com estrelas. Esse embrulho deve ter uma relação de coerência para atribuir a qualidade de contrapresente a conjuntos mais ou menos homogêneos de ob- jetos. 26. as crianças ficaram constrangidas diante do contrapresente. se uma irmãzinha ou um irmãozinho foi “convidado” na última hora. À medida que crescem. O contrapresente é então distribuído no final do aniversário. os prêmios ganhos quando das brincadeiras. um porta-lápis e uma caderneta bastante imponentes. Régine Sirota – Os contrapresentes devem ter um valor ou um volume inferio- res aos dos presentes. 91. Maio/Ago. o mais comum sendo o da pescaria. que já ganhou muitos presentes. de uma apresentação que pode revestir formas diferentes: quando as crianças são muito pequenas. Campinas. para um aniversário cujo tema é Guerra nas Estrelas. Então. Os irmãos e as irmãs dos convidados que têm idade adequada também recebem um. pois o conjunto representava um volume praticamente tão grande quanto aquele que elas mesmas haviam levado. quan- Educ. Toda criança que participa da festa tem direito a um contrapresente. ou em simples papel-jornal. na casa da Aurélia. in- clusive.. ou uma bolsa de plástico do co- mércio. pois a criança convidada deve ter como levar o conjun- to de ganhos eventuais que obteve. – Deve haver tantos contrapresentes quanto crianças presentes. Nesse caso. sobretudo quando as mães querem marcar sua distância dessa obrigação de prodigalidade. eles costumam ser “brico- lados” pelas mães. tam- bém recebe um. por exemplo. o aniversariante. em papel crepom.br> .

Mais tarde. às vezes. se uma tiver de ir embora mais cedo. de cada uma das crianças. muito populares na França. Cada criança está certa de rece- ber um. ou na do Vincent. às vezes. todas as crianças saíram com um títere.br> .Primeiro os amigos: os aniversários da infância. numa bandeja. Apronta- dos de antemão. 91.unicamp.* consideradas unissex. – Os contrapresentes oferecidos levam em conta a diferença dos sexos. a tal ponto que. 2005 Disponível em <http://www. os contrapresentes costumam ser apresentados numa cesta. – Os contrapresentes são geralmente acompanhados por balas. com a adolescência e o surgimento das festas dançantes. – Os contrapresentes devem satisfazer as crianças presentes. conhecidos ou supostos. em compensação. vol. quer pelo aniversariante ou por sua mãe. Maio/Ago.cedes. Em compensação. Por isso.: Literalmente. manda-o no dia seguinte. ibid. mas o objeto que faz às vezes de contrapresente também é acompanhado por uma pequena quantidade de do- ces destinados a serem degustados mais tarde. “brincadeiras/truques e pegadinhas”. uma bolsa de troca costuma ser improvisada. só há meninas: na casa da Marianne. trata-se de uma vasta gama de artigos. 1997). as crianças ingurgitam tantas balas quantas querem durante todo o aniversário. dar e receber do da saída. n. objeto de sorrisos constrangidos e nostálgicos dos maiores. à espera.). os contrapresentes foram ganhos numa pescaria: eram farces et attrapes. segundo a regra da glutonaria (Sirota. os contrapresentes eram nominativos. do T. 26. A tal ponto que.. exibi- da em cima de um móvel. mesma coisa na casa do Pierre. como promessa potencial. Campinas. diante da * N. a mãe anfitriã antecipa-se para lhe entregar um ou. e variavam em função do sexo e dos gostos. na casa do Tom. segun- do uma regra de felicidade da infância desabrochada (idem. quer na cozinha ou num canto da sala de estar. por iniciativa das crianças ou da mãe: as crianças vão trocando até ob- terem o objeto de seu desejo. As balas são mes- mo as moedas dos pequeninos. 535-562. todas ga- nharam anéis de meninas. numa fruteira. o tempo dos presentinhos desaparece. No aniversário de Manon. que vai de brinquedinhos até disfarces. Ou então eles surgem de modo espetacular no final. Soc. na idade do colégio ou no fim do primário. Não somente. com uma bolsa de piratas contendo moedas de ouro em chocolate. Às vezes. p. 550 Educ.

não é fácil renovar o estoque de presentes. 91. miniportas-moeda etc. pois. em hipótese al- guma.cedes. Às vezes. lápis-lupas. – A estratégia da fabricação: às vezes esses objetos são até fabricados especialmente em função do tema do aniversário. uma criança pode ir embora do aniversário chorando. um conjunto de braceletes brasileiros. coletados ou encontrados para este uso ao longo do ano. tra- ta-se de oferecer entre 5 e 20 presentes. Uma mãe. 535-562. sem dar sempre os mesmos”. segundo o orçamento ou a disponibilidade das mães: – A estratégia da pronta entrega: objetos do comércio vendidos praticamente como tais em lojas de brinquedos ou supermercados. As fontes de abas- tecimento diversificam-se. que envolve objetos comprados. Uma outra ainda trouxe uma série de pequenas cerâmicas de suas fé- rias na Tunísia. aviões miniatura. Soc. Campinas. certos contrapresentes são o resultado de um verdadeiro trabalho de busca de mães que procuram “pequenos objetos para renovar o gênero. minicaixinhas da Lego ou da Playmobil. na seção “aniversários” (baralhos de mistigri e sept familles. outra ainda compra garrafinhas que. não se trata mais apenas das seções especializadas dos super- mercados ou de lojas de brinquedos. sem sair de uma faixa de preços aceitáveis. quadrinhos para pintar. com os anos. 2005 551 Disponível em <http://www. outra. A fabricação dos contrapresentes ou a inventividade das mães Que objetos se tornam contrapresentes? A lista varia e resulta de diferentes estratégias que podem ser associadas. – A estratégia da coleta. n. outra ain- da. habituée do Marché aux Puces “encontrou” um estoque de velhos anéis. motivo pelo qual as mães hão de fazer mostra de uma certa engenhosidade. Não são muito caros e são ven- didos em pacotes. 26. miniaturas dos verdadeiros presentes são utilizadas como contrapresentes: miniPower Rangers. aparelhos de fazer bolhas de sa- bão. geleinha. embora de mes- mo valor comercial. massinha fluorescente. com um lindo embrulho. então. espelhinhos decorados. Como as crianças assistem a um número não desprezível de aniver- sários. agendas ou porta-moedas. – A estratégia dos “brechós de pacotilha”: mais rebuscados. as mães surgem com novos obje- tos para satisfazer o “irredutível ranzinza”. e um conjunto de colares para o aniversário de suas duas filhas. pois.).unicamp. de sua viagem familiar na América Latina. quadros de guerreiro índio com uma foto cola- Educ. ou algum tempo antes. p. lojas de presentes. kits de pinturas. trata-se. tor- nam-se presentes.. vol. espadas. Maio/Ago. pois são basicamente elas que se preocupam com o fornecimento de pequenos contrapresentes. bolsas de moedas de ouro em chocolate para um aniversário pirata. Monoprix. mas também das lojas de soldos. lápis com cabeças de animais ou conjuntos heteróclitos. falsos óculos. minipersonagens de Tintim. Régine Sirota decepção de algumas crianças. o que subentende uma distribuição coletiva. cordas de pular. pelas mães. geralmente.br> . carrinhos. Podem ser títeres. lunetas de pirata. principalmente de mães que não traba- lham fora e confeccionam: foguetes caseiros. chaveiros.

um tubo de papelão que explodiu depois de acender seu estopim. em razão do número de objetos que se deve prover.Primeiro os amigos: os aniversários da infância. não é o que menos aproveita da inversão das regras habi- tuais de acesso aos doces. n.unicamp.-J. Por que tanta engenhosidade e pesquisa para esses “objetos peque- nininhos”? Trata-se.br> . com uso interno e ex- terno.cedes. vol. sua mãe usou uma bomba. de princípio educativo. E em senti- do contrário. de racio- cínio estético. uns 100 contrapresen- tes são comprados por criança. o que. por aniversário. 2005 Disponível em <http://www. para uma mãe. oveiros nos quais está inscrito o nome de cada criança com caneta hidrográfica. reproduzindo a cena antiga comentada por Starobinski (1994). Rousseau. Portanto. livros ou cadernos de colorir. A cena da generosidade pode até existir literalmente: quando do aniversário da Marion. outras vezes. 91. e. 1969) que o aniversário representa. esses objetos são confeccionados durante o aniversário pelas próprias crianças durante atividades-oficinas (máscaras pintadas. em geral. Nisso se conjugam aspecto financeiro. pode significar com- prar 100. Soc. Se contarmos uns dez convidados. 200 ou 300 presentes durante sua “carreira” de mãe. Campinas. às vezes. encenação representativa da família. isto é. Às vezes. o que equivale a 552 Educ. o peso financeiro não é desprezível e as mães costumam afirmar que se dão um limite de 10 a 20 F por presente. lançando no ar muitas serpentinas. dar e receber da num suporte de papelão pintado. As mesmas coisas “mais baratas” que os presentes estão em jogo e vão se combinar na escolha desses contrapresentes.. uma centena de contrapresentes são recebidos nessas ocasiões. ou em Magie Plastik). para uma criança convidada a uma centena de aniversários. Todas as crianças se jogaram então no chão para apanhar o máximo que pudiam. broches de espu- ma. de princípio financeiro ou de prazer. durante uns dez aniversários até os 10 anos aproximadamente. fazer diferente. para um aniversário com tema de índio. e princípio de prazer. ou perso- nagens em massa de sal. a propósito do nono devaneio do caminhante solitário de J. 535-562. Maio/Ago. pois encontrar esses contrapresentes representa uma parte não desprezível dessa provação da “parentalização” (Winnicott. p. em média. – A estratégia do desvio é outra fonte de renovação e inspiração: objetos usuais desvia- dos em presentes tais como lápis ou canetas hidrográficas (do tipo “volta às aulas”) com- prados num Monoprix: “Pois estava cansada de oferecer porcarias”. uma vez que os objetos devem ser oferecidos e agradar às crianças. balas e brinquedinhos. 26. de estratégias de distinção: fazer melhor que os outros. O aniversariante também par- ticipa.

a média costuma se aproximar muito mais dos 30 F. Embora a dimensão da ameaça de destruição eventual.000 F. pode-se qualificar. dez presentes a 80 F dão 800 F. nele. é de 1. acabam “não resistindo” e escolhem objetos de um valor superior. 91. cada criança recebe uns dez presentes e uns dez contrapre- sentes. com somas que variam entre 40 e 150 F. Isso envolve um investimento monetário certo. cujo valor monetário médio é de 80 F.. não esteja presente. geralmente. ocorre em torno de oito vezes por criança. um gasto de 1. Esse círculo se estabeleceu e funciona a pleno vapor.unicamp. Multiplica- dos pelo número de pares. Por sinal. Campinas. Soc. se acrescentarmos os preços das balas e do embrulho dos contrapresentes. equivalentes a um gasto de 300 F. pois o que está mesmo em jogo. embora não necessariamente. para cada família. dez no nosso exemplo.100 F. essencialmente. Maio/Ago. Em média. n. por analo- gia.100 F em presentes multiplicado por oito. O que significa. um total equivalente a 800 F será gasto para participar do “potlatch”. Assim. p.800 F em presentes por criança para Educ. portanto. o modo de funcionamento deste círculo de troca infantil de “potlatch” da infância. O “potlatch” da infância Por meio dos presentes de aniversário desenha-se e instaura-se um verdadeiro sistema de troca que abarca um valor monetário elevado. entre os 4 e os 11 anos e. portanto. 535-562. uns dez presentes com valores provavelmente equivalentes. ela mesma será convidada por uns dez colegas. portanto. para cada par do círculo (esquema a seguir) durante um ano. é o lugar de cada um e seu pertencimento ao círculo. nesse nível financeiro. por sua vez. quando de um aniversário “amigal”. vol. Ou seja. portanto. 2005 553 Disponível em <http://www. A criança receberá então uns dez contrapre- sentes semelhantes àqueles que ela mesma ofereceu. a multiplicar pelo número de convidados. um investimento de 8. os mesmos e. chegamos ao seguinte resultado: um “potlatch” tem um funcionamento anual que gira em torno dos 11. Régine Sirota um orçamento de 100 a 400 F. Ela mesma oferece dez contrapresentes com um valor médio de 30 F. por meio do jogo do sobrelanço. uma criança rece- be uns dez presentes de seus convidados. durante a entrevista. Este conjun- to de presentes oferecidos vai se construir em torno de um valor médio geralmente idêntico e.br> . 26. Depois desse convite. A troca econômica. em média. glo- balmente. ou seja. ou seja. vai oferecer. e oferece uns dez presentes e uns dez contrapresentes para fazer parte do círculo. elas ex- plicam que. Contudo.cedes.

1950.000 F. Maio/Ago. Neste estágio da análise. 194 e ss. ocorrem com nenhuma ou relativamente pouca reci- procidade (principalmente com primos e primas da mesma faixa etária ou afilhados). 91.Primeiro os amigos: os aniversários da infância. Logo. que. e a instalação de um cenário especí- fico para a oportunidade. p. Ainda é preciso acrescentar a essa troca econômica os presentes familiares. durante esses oito anos. em parte diferente. madrinhas. ele pode apenas ocorrer uma vez por ano e em data fixa. uma vez que. n. para cada criança. algumas acrescentam outras despesas ligadas a aspectos osten- sivos tais como oferecerem espetáculos de mágicos ou de palhaços. avôs. A estrutura da troca em torno do “potlatch” dos presentes de aniversário. p. por meio da recepção mundana que enseja. 535-562. por sua vez. um bolo. Todavia. pelo menos. 2005 Disponível em <http://www. 26. vol. no percurso de sua órbita. Pois o aniversário “amigal” subentende o aniversário familiar que ocorre em outro momento segundo um protocolo em parte idêntico. por definição. isto é.br> . embora poucas tenham consciência da massa financeira total realmente em jogo. os dos pais. Como “é preciso tempo para executar toda contraprestação” (Mauss. dar e receber manter esse rito de sociabilidade. tios e tias. Soc. o rito precisa de um certo número de anos para se estabelecer. bebidas doces e balas. 554 Educ. podemos nos perguntar se o inves- timento financeiro nesse “potlatch” não é eliminatório para algumas famílias. mas que também inclui presentes cujos valores são nitida- mente superiores aos dos presentes oferecidos pelos amigos.).cedes. padrinhos. essa soma não resume o custo financeiro do aniversário. pois a realização do rito. Campinas.. requer outras despesas. Entretanto. o ciclo totaliza trocas econômicas de um valor de 88.11 Há tam- bém oferta de comida durante a festa de aniversário que sempre inclui.unicamp.

Do mesmo modo. Axel escreveu um poema em alexandrinos para o aniversário de Rachel: “Ele estava duro e tinha outro presente para comprar naquela semana. e a compra e a escolha do presen- te ocorrem no universo do grupo de pares. exceto no que diz respeito ao dinheiro. ela retoma com isso as prescrições dos manuais de civilidade contemporâneos. a não ser quando a mesada basta. vol. que está na terceira série do ensino médio. Régine Sirota Mais tarde. de que tinha preferência”.cedes.unicamp. no começo do ano. e que tirou para mudar a decoração de seu quarto” (Laetitia). Campinas. citado por Picard (1995). Se as contribuições de cada um são inferiores. que aconselha anotar na agenda. Sem saber. da constituição da identidade à celebração da identidade Aos poucos. Rachel recebeu um casaco de couro. 91. 26. Em contrapartida. p. por iniciativa de sua melhor amiga. tais como o de Nadine de Rotschild. para seus 16 anos. 2005 555 Disponível em <http://www. e costumam ser objetos simbólicos muito pre- zados pela faixa etária. o aspeto monetário não é essencial: “Ela lhe deu um cartaz de que gostara quando foi na casa dela. Seu orça- Educ. 535-562. esse rito evolui e assume formas diferentes para manter o vínculo social no grupo de pares e instaurar as normas da adolescência. a multiplicação dos aniversários a se festejar pode virar um problema. todos os amigos se juntaram para fazer uma vaquinha e ofe- recer-lhe um par para seus 13 anos. constam 44 aniversários (entre amigos e família). O lugar na rede social marca- se diferentemente. Da infância à adolescência. Laetitia sonhava com Doc Marten’s12 que seus pais não queriam lhe comprar.. o princípio de um presente coletivo permite jun- tar a soma necessária. a especificidade de cada uma das relações será significada por meio de um presente pessoal que vem se acrescentar ao co- letivo: “É uma oportunidade para comprar presentinhos engraçados: uma caneta vermelha que ela sempre pede emprestada. por exemplo um cartaz do seriado “Friends”. Nesse caso.br> . Soc. a qual pode ser elevada. Caso essa contribuição não acabe com os fundos disponíveis. Na adolescência. Assim. e é preciso então concordar quanto à escolha do presente. segundo um código muito preciso. os aniversários de que se deve lembrar. cada uma contribuindo com 50 F. Maio/Ago. da agenda escolar13 de Johanna. o aniver- sário vai deixando de depender dos pais. comprado num brechó por seis ami- gas. uma rosca com uma vela em cima”. Os presentes seguem a regra da sur- presa e da “desejabilidade”. e os presentes são ao mesmo tempo mais individualizados e construídos coletivamente. n. os jovens tornam-se parcialmente autônomos.

em seguida vem o segundo círculo. Por isso. mais ou menos. Pierre e Vincent. Rachel ficou muito nervosa. os que ela conhece pouco. cada etapa do preparo representando um pre- sente em si. dos colegas para os quais ela participa da vaquinha com 10 a 30 F. a quem ela deseja um feliz aniversário por telefone ou por uma palavra gentil de manhã. 535-562. Soc.Primeiro os amigos: os aniversários da infância. Maio/Ago. a gente estava em dez. com preços variando entre 100 e 300 F. Reciplocidade e difusão do ritual do aniversário a partir da rede social de Benjamin Gráfico de troca de presentes de aniversário em torno de Benjamin a partir dos troféus de Florence. ela organizou o aniversário do Benjamin. e eu lhe dei a fita que gravei” (Johanna). 26.: Rede de restaurantes que servem pratos de comida “não-convencional” acompanha- dos por fatias de pão grelhado no azeite (tartines). aproximadamente. p. na sala de aula.unicamp. a festa é organizada pelos amigos. os amigos a cujas casas ela é geralmente convidada ou aqueles para quem ela organiza o aniversário e oferece um presente que pode chegar a 150 F. no pri- meiro círculo. dar e receber mento nunca bastaria. do T.* e pagamos a parte dele. naquela idade. vol. listados no quadro às p. nenhum amigo parecia livre * N. 91.br> . A gente tirou um monte de fotos que lhe oferecemos num caderno. e fomos todos num Dame Tartine. Campinas. Assim. e finalmente. n. sur- presa. ou não o suficiente.cedes. 2005 Disponível em <http://www. 543-544 Cabe acrescentar que.. 556 Educ. seu melhor amigo: “Marcamos um encontro no McDonald’s e aí. com freqüência. ela distingue três círculos que hierar- quizam os graus de relações e intimidade que mantém: no último cír- culo.

Do mesmo modo.cedes. A ambigüidade da autonomia dos jovens surge claramente. para as crianças. a responsabilidade e a faxina que isto supõe. quer seja um bufê ou uma macarronada. quando a noite ainda é organizada e preparada pelos pais. há uma fabricação da representação de uma amizade ideal pelo ajuntamento e pela exposição do grupo de pares. trata-se de uma construção social que nunca é evidente. nas quais a gente botava um pouquinho daquela espécie de massa grossa”. Mas. Te- mos aqui a construção voluntária de um imaginário da infância desabro- chada. independentemente de elas serem pequenas ou grandes. a confecção de panquecas. junto às classes médias. pois estes são convida- dos a desaparecer prontamente assim que a festa começar.unicamp. com a negociação. no que concerne aos amigos. vol. “Cécile conside- rou que foi seu presente. pois haviam de preparar a noite discretamente. Maio/Ago. as outras embaralharam-se nas suas mentiras e pretextos. p. ficou uma massa grossa de brownie no fundo da forma que não tinha cozinhado. e também comprou a comida” (Aïdée). e se envolveu mais nisso. Soc. entre os quais alguns a percebem como uma verdadeira provação. e a gente só con- seguiu comer um pouco daquele chocolate fazendo panquecas. como os pais. foi na casa dela. 91. uma amiga sacrificou-se e marcou um encon- tro. por exemplo.. Teve velas. A festa de aniversário. metade caiu na meia-calça da mãe dele. Campinas.14 Portanto.br> . n. resultante em parte da vulgarização da psicanálise e dos trabalhos sobre a psicologia da criança. 2005 557 Disponível em <http://www. Ela precisou ver se o estúdio ia estar vazio. e acabaram solicitando a ajuda de seus pais para mantê-la ocupada naquela tarde. o que nem sempre corre sem percalços: “Cyril se encarregou de fazer o bolo. um presente em si Podemos nos limitar a uma análise simbólica ou financeira das tro- cas materiais? É claro que. Eles têm o sentimento de oferecer lembranças de infância que fabricam para seus próprios filhos (embora sejam muito lúcidos quanto a eventuais acertos de conta ou aos efeitos paliativos com relação a sua própria infância). ela perguntou a seus meio-irmãos. (Myriam) Os presentes materializam-se também pela compra de bebidas e de ingredientes. 26. ela tem valor de presente. mas não deu certo. só deu zica. garan- Educ. 535-562. Régine Sirota naquele sábado à noite. para quem a organiza. ou o empréstimo do local. os preparativos e a própria festa de aniversário têm valor de obrigação e até mesmo de naturalidade.

cedes.) Do mesmo modo. para esclarecer o conceito de reciprocidade. em diferentes etapas da vida. a situação do aniversário pode ser considerada um presente em si. durante esta. O exemplo claro é simpático e eloqüente. Estes atualizam. Campinas. afinal marginal. hoje em dia. mas se a dádiva se manifestasse apenas sob esses aspectos menores e margi- nais. com um peso financeiro certo. trata-se mesmo. no âmbito de uma economia de dádiva. Claude Lévi-Strauss descreve a prática da troca de garrafas de vinho em pequenos restaurantes do sul da França.unicamp. de criar dispositivos destinados a manter o vínculo social. mais especificamente. espe- táculos e jogos são freqüentemente propostos. das Spice Girls. considerarmos o con- junto do que se oferece como presente. n. 91.16 no teatro. como uma espécie de sobrevivência. p. eles não têm apenas valor de uso e valor de troca. Entretanto. por meio desses presentes. numa reunião de atletismo ou num show de um grupo de cantores de moda. Portanto. nem bem-sucedida de antemão. 20): Mauss parece ter tido dificuldades em reconhecer que a dádiva não existe apenas. dos presentes de aniversário ou de ano-novo. perceberemos muito rapidamente que a primeira definição que se limita à ordem do material não basta. Como bem lem- bram Godbout & Caillé (1992. Soc. Assim.Primeiro os amigos: os aniversários da infância. o que representa um esforço bastante pesado para certos pais que consideram toda essa organização um verdadeiro presente. O mesmo vale em caso de convites específicos15 para essa ocasião. por exemplo. ilustrada pelo exemplo. como num restaurante. vol. (. A análise apresentada aqui aborda apenas os presentes e não a própria organização da festa de aniversário. para os próprios atores. o modo de constituição de uma cultura da infância. pois. 535-562. Se. não haveria muito o que se preocupar com ela. Daí esse reino da surpresa ou da meia-surpresa que reencontramos mais tarde nos aniversários de adultos. tan- 558 Educ. Maio/Ago. mais especificamente no ritual do aniversário. pode-se ler a versão moderna de um modo clássico de fabricação do vínculo social e. O percurso do presente re- vela o trabalho de construção da identidade social ao longo do ciclo. 2005 Disponível em <http://www..br> . o conjunto da rede social. por meio do jogo dos presentes de aniversário.. exceto por nostalgia ou gosto pelos estudos folclóricos. Ora. dar e receber tida. p. mas também valor de vínculo. Essa longa descrição etnográfica do uso desses pequenos objetos que são os presentes de aniversário fez surgir o que está em jogo na rela- ção social que se constrói por meio das formas contemporâneas da dádi- va. num Aquaboulevard. 26. independentemente da materialidade e das formas as- sumidas..

1999. n.. a ser publicado em Sociétés et cultures enfantines. Les petits bonheurs. 145). 1994. Maio/Ago. Não se trata apenas de uma negociação no sentido de um estilo educativo refletindo a evolução das concepções educativas contemporâneas. referimo-nos aqui.cedes. 1998) e mais exatamente de uma pesquisa sobre o aniversário como ritual de socialização e encenação representativa da infância contemporânea. Resta uma pergunta: trata-se da criação ou da difusão de um ritual existindo principal- mente em certas classes sociais? De fato. por um lado. actes du colloque de la Société d’Ethnologie française. un exemple de manuel de civilité de l’enfance moderne”. pois o presente está no cerne de um verdadeiro trabalho de negociação no qual se confrontam incessantemente normas e valores. ver “L’anniversaire. Actes Sud. vol. Coll. Educ. A dinâmica da evolução das soci- abilidades infantis e das regras de civilidade apenas pode ser entendida aqui se restituirmos à criança seu lugar como ator social.br> . esse ritual parece provir da aristocracia inglesa (o que diários ingleses parecem comprovar. Este artigo se inscreve num programa de trabalho sobre a constituição de uma sociologia da infância (Sirota.unicamp. A parentalização constrói-se paralelamente à socialização da criança. 3. Lille. Ao utilizar o termo “regra”. Notas 1. os pre- sentes serão considerados aqui os analisadores deste processo. 26. Resta. Soc. 535-562. quer se trate das diversas instâncias de socialização ou da soci- edade comercial. 4. A abordagem etnográfica permite apreender o papel de cada ator social na construção desse ritual. à análise de T. 2. Sobre sua difusão. essa poesia se destina a “pôr diretamente o leitor na atmosfera de idéias e de fatos na qual vai se mover nossa demonstração” (1950. com seus anúncios de mágicos propondo seus ser- viços para festas de aniversário). Campinas. Recebido em dezembro de 2004 e aprovado em abril de 2005. uma publicação anterior a respeito desta pesquisa tendo enunciado um certo número de regras do aniversário (Sirota. entretanto. Presses du Septentrion. 2005 559 Disponível em <http://www. p. por outro. Caplow (1986) que ressalta as regras relativas aos presentes de Natal. O termo retoma a expressão de uma criança para denominar o aniversário que reúne os ami- gos. Por isso. apreender qual a parte da autonomia e a da dependência da criança nessa construção perante o conjunto dos atores em jogo. p. 91. à noção de regra de civilidade (Érasme. ou da avaliação do troféu. 1992) e. velho poema escandinavo que Mauss usou como epígrafe da introdução de seu Ensaio sobre a dádiva. Régine Sirota to no momento da escolha como no da oferta. 1997). Assim como as estrofes do “Ha-vamàl”. mas de uma posi- ção teórica que atribui um lugar na qualidade de ator à criança e permite revelar o trabalho social que lhe é próprio. Por meio das múltiplas interações da vida cotidiana instauram-se assim o ritual do aniversário e a “profissão” de criança.

dar e receber 5. Campinas. 2005 Disponível em <http://www. vol. Não trataremos aqui dos aniversários integralmente organizados em redes de restaurantes como McDonald’s. 560 Educ. Lejeune (1990) notava que. após o Natal. 14. 8. na adolescência. pois a moeda utilizada durante a pesquisa de campo na França era o franco (um franco era igual a aproximadamente R$ 0.-P.60). BEAUVOIR. p. 535-562. Quando do ingresso no colégio.Primeiro os amigos: os aniversários da infância. ou paliar condições de habitação que tornam difícil convidar os amigos. 6. É preciso ser muito cauteloso a respeito dos sistemas de interpretação das despesas ocasionadas pelos aniversários. que. o 13e arrondissement. 1996). 1996). por exemplo.unicamp. Referências bibliográficas ALBERT. hoje em dia. o que gera um grande descon- tentamento entre os professores. contestam fortemente esse desvio de função. esta é a segunda maior oportunidade de compras de brinquedos. estatisticamente. Le deuxième sexe. 75% da correspondência é feminina. 9. 7. é o investimento em tempo que marca o prêmio con- cedido à criança. Ela se torna o confidente dos jovens. Albert (1993) relatava que 80% das moças têm ou tiveram um diário. D. 11. no qual se pode ler a vida infanto-juvenil.. Maio/Ago. Desenvolvida num modo particular. A amostra inclui uns 50 aniversários. 1993. o que me permite entrar na vida privada em meio urbano pela via da observação. a agenda marca a autonomia da criança e simboliza a mudan- ça de categoria de idade. umas reportagens fotográficas ou vídeo sendo empregados como diário de campo. 1949. uma vez que me torno etnóloga de mi- nha própria tribo. In: FABRE. oportunidade não desperdiçada pela indústria comercial do brinquedo. 26. (Dir. S. 12. seguidos por entrevistas. Os preços mencionados são em francos franceses. pois a “terceirização” desse ritual põe muito mais coisas em jogo.cedes. A pes- quisa constrói-se na base da observação direta.). a hierarquia dos valores depende do es- tilo educativo das famílias: para algumas. para os pais. observo os aniversários aos quais meus próprios filhos são convidados. 56% têm papel de cartas.-P. Esta pesquisa foi desenvolvida a partir de uma “caça” etnográfica num bairro parisiense. que propõem uma prestação especial para essa ocasião. será o investimento financeiro. e o historiador P. principalmente organizados nas famílias de classe média. 10. 15. em cerca de cinco (Herpin. 16. Paris: Centre Georges Pompidou. POL. Segundo a expressão de uma criança. às vezes. Sapatos muito em voga entre os “teenagers”. 91. As pesquisas quantitativas de campo sobre sociabilidade realizadas pelo INSEE (equivalente fran- cês do IBGE) avaliam o número médio de amigos na turma. Les écritures ordinaires. Loja que vende artigos baratos.br> . que vê nela uma possibilidade de sair de um mercado sazonal demais para seu gosto e de assim aumentar suas vendas (Herpin & Verger. de. De fato. para outras. Parque aquático com várias atrações. Soc. 13. J. J. tanto em investimento de tempo como de dinheiro. n. Paris: Gallimard. pois um aniversário organizado fora pode sair muito menos caro. Les écritures domestiques. Em contrapartida.

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