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maginem um restaurante gastronômico concei- ção da escola obrigatória, o nivel eleva-se nos pa-
tuado cujos clientes exigissem ser informados ises desenvolvidos. Hoje, nenhum jovem é jogado
a cada instante do andamento da preparação na vida ativa aos 12 anos. Nunca na história o sis-
I do prato que pediram. Com isso, metade do tema educativo fez tantos esforços para instruir a
tempo de trabalho dos cozinheiros consistiria em todos, tanto por preocupação democrática quanto
informar os clientes em detrimento da qualidade por cálculo: no mundo pós-industrial, a ignorân-
da cozinha... cia já não compensa. Porém, a maioria dos pais
Absurdo? Sim. Mas é desse jeito que funciona vive a escolaridade de seu filho como uma longa
a escola. Uma instituição que gasta mais tempo marcha, incerta, pontuada de provações e peri-
dizendo o que os alunos sabem do que fazendo- gos. Sem dúvida, porque aprender a ler, escrever
os avançar. Pior, uma instituição que se habitou a e contar já não é suficiente, porque o sonho dos
só saber dos alunos aquilo que é preci- pais de classe média é que seus filhos
so dizer aos seus pais. Como uma tenham ensino superior e êxito so-
medicina cujo principal obje- cial - e define-se o fracasso em
tivo seria produzir boletins função dessa ambição.
de saúde. Na medida em que vi-
vem a escolaridade dos fi-
Como chegamos a
isso? Dando ao sistema o desafioé fazer lhos sob a ameaça de um
educativo um poder de
seleção e, portanto, co-
da avaliação fracasso, de uma exclu-
são ou simplesmente de
mo se acredita, com ou um verdadeiro que sejam relegados às
sem razão, de decisão carrei ras de nivel médio
sobre a vida das crian- instrumento de sem futuro, é normal
ças e dos adolescentes. que os pais preocupem-
Quando os pais confiam
pilotagem das se com o que se passana
seusfilhos a um centro de
lazer, a um clube esporti-
aprendizagens sala de aula, esmiúcem os
boletins escolares, perscru-
vo, a uma colônia de férias, tem os indices precursores de
eles querem ter notícias, ou um fracasso. O apego às notas,
seja, saber "se está tudo bem". além da familiaridade com esse
Eles não têm a sensação de que o fu- sistema, tem a ver antes de tudo com
turo de seus filhos está em jogo ali a cada dia, ao o sentimento de que são indicadores claros e pre-
passoque a escola os preocupa porque ela detém cisos das chances de êxito escolar: se as notas são
as chaves do futuro. Ela transforma muitos pais boas, é porque "as coisas vão bem", mas mesmo
em angustiados aplicadores da Bolsa que não ti- assim é preciso manter-se atento; se elas baixam,
ram os olhos da tela na qual é fixado o curso de há contatos com os professores, vigilância mais es-
suas ações. trita das saidas, das diversões, dos deveres, chan- olt'I
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De nada adianta dizer-lhes "Acalmem-se, te- tagem com a mesada ou outras formas de pressão.
nhamconfiança,vai dar tudo certo" - ao menos Se as notas ficam muito tempo abaixo da média, x
enquanto a seleção e a exclusão mantiverem-se é o conjunto de atitudes drásticas: repreensões, oz
firmes no sistema educativo. Paradoxalmente, castigos, aula particular, psicólogo, transferência .:(
essaangústia é acentuada quando, desde a cria- de escola...

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. Quem conhece o modo de fabricação das no-
tas escolares sabe que elas não dizem grande coi-
sa sobre o nível real de conhecimentos de
um aluno, uma vez que elas o situam
em relação à sua classe. O mesmo
cálculos centesimais. Ao contrário do que pare-
ce, ela é mais precisa, menos falaciosa do que
os números. Se os pais a compreendem e
a aceitam, a supressão das notas é
uma boa medida. Se não é o caso,
aluno terá boas notas em uma por que fazer disso um cavalo
classe fraca e notas medío- A escola de batalha? Ainda mais que
cres em uma classe forte. este é um combate geral-
Quanto à confiabilidade e
infelizmente mente perdido de ante-
à validade dessas "medi- inverteu a ordem mão, quando o cláss1co
das", a docimologia mos- amálgama notas-sabe-
trou já há muitas décadas das coisas. Ela res- nível-exi gênci as-au-
os seus limites, inclusive toridade e a má-fé dos
para as provas do ENEM.
avalia antes de lobbies antipedagógicos
Pouco importa: a manu-
tenção ou o retorno das
tudo para vêm reforçar as angús-
tias dos pais.
notas parece ser o único informar .
O desafio, então, é fa-
antídoto para a angústia dos zer da avaliação um verda-
pais, a qual é habilmente ali- os palS deiro instrumento de pilota-
mentada pelos antipedagogos e gem das aprendizagens. Fazer
outros conservadores que deploram com que, ao longo das décadas,
a queda do nível e fazem da notação os professores estejam cada vez mais
cifrada a garantia da qualidade. bem-armados para compreender os obstáculos e
Deve-se lutar para substituir as notas por as resistências às aprendizagens, para aval1ar de
apreciações qualitativas detalhadas e complexas? maneira mais precisa tanto as aquis1ções quanto
De que adiantaria, se os pais, no final das contas, as maneiras de aprender. Não conseguir 1ssoseria
querem simplesmente saber se as coisas vão bem a verdade1ra derrota da democrat1zação dos sa-
ou não? Os médicos pedem aos pacientes que si- beres escolares.
tuem a dor em uma escala de 1 a 10, e O debate sobre as notas só faz mas-
essa indicação sumária desempe- carar essaquestão de fundo: os pro-
nha perfeitamente seu papel. fessores são capazes de regular
Substituí-la por uma descrição de forma cada vez mais pers-
clínica do sofrimento não picaz as aprendizagens de
interessa quando a única seus alunos? De não apenas
coisa que se quer decidir reconhecer que eles se
é se há possibilidade ou distanciam da trajetória
não de intervir. Em pe- ideal, mas compreender
dagogia, uma descrição por que e saber o que fa-
mais clínica, qualitativa, zer para reaprox1má-los?
com relação a objetivos, Temo que se deva dar a
níveis de domínio, linhas essa questão uma respos-
de progressão, só tem sen- ta pessim1sta. Não se trata
tido para destinatários que aqui de saber construir uma
o
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querem saber mais. Esse não prova, de descontar pontos
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é o desejo da maioria dos pais, ou erros para estabelecer um
x que não têm meios de interpretar quadro comparativo e depois co-
o locar as notas. Trata-se de circunscre-
z tais informações.
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Naturalmente, uma avaliação mais qua- ver as aquis1ções e o trajeto de um aluno
o litativa proscreve as médias, os coeficientes, os particular e de descobrir por que ele é incapaz
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de compreender um texto simples, de avaliar a aquisições, em medir o trajeto percorrido, em iden-
ordem de grandeza ou a verossimilhança de um tificar os obstáculos e as resistências, em promover
resultado matemático, de ordenar as palavras ou regulações. Proporcionar o projeto e os meios de
de pontuar corretamente suas redações. um "ensino estratégico" (Tardif, 1992) deveria
O conhecimento do programa e a arte de fa- ser uma prioridade da formação inicial e continu-
zer a lição não bastam. Um professor não pode ada. A guerra das notas impede que se enfrente
avaliar de maneira formativa se não souber com esse problema. Ela mascara os verdadeiros desa-
bastante precisão em que consistem os funcio- fios. Faz perder tempo e energia em detrimento
namentos intelectuais a serem desenvolvidos nos da luta contra o fracasso escolar.
alunos, sua gênese e suas condições. Que o pro-
fessor julgue um texto incoerente, um raciocinio
simplista ou um cálculo errado, isso não permite
ipso facto compreender os modos de produção
em jogo e menos ainda modificá-los com
discernimento.
ASTOLFI, J.-P. L'erreur, un outil pour en-
Formação didática precisa
seigner. Paris: ESF,1997.
nas disciplinas ensinadas, co- PERRENOUD, Ph.. Pédagogie diffé-
nhecimento profundo das te- renciée: des intentions à I'action.
orias do desenvolvimento e Paris: ESF,1997.
_' L'évaluation des éleves: de
da aprendizagem, domí-
Ia fabrication de I'excellence à
nio dos instrumentos de
Ia régulation des apprentissa-
observação e de diálogo ges. Bruxelles: De Boeck, 1998.
metacognitivo são ne- _' Lescyclesd'apprentissage:
cessários para fazer do une autre organisation du tra-
erro uma "ferramenta vail pour combattre I'échec
scolaire. Sainte-Foy: Presses
para ensinar" (Astolfi, de l'Université du Québec,
1997). Mas de que adian- 2002.
ta identificar e compreen- TARDIF, J. Pour un enseignement

der os obstáculos? De que stratégique. Montréal: Editions


Logiques, 1992.
adianta conceber estratégias
se não se pode agir? A observa-
ção formadora só terá sentido se
estiver integrada a uma pedagogia di-
ferenciada (Perrenoud, 1997, 1998, 2002).
Fora da escola, avalia-se essencialmente para
Philippe Perrenoud é professor na Faculdade
pilotar a ação. Há de fato situações em que um
de Psicologia e de Ciências da Educação
profissional comunica essa avaliação aos seus su- da Universidade de Genebra.
periores, colegas ou usuários com a preocupação
da transparência, para cumprir fins de controle
ou ainda para mobilizar outros atores na resolu-
ção de problemas. A escola infelizmente inverteu
a ordem das coisas. Ela avalia antes de tudo para
informar os pais. Assim, muitos professores satis- o
In
fazem-se com o que poderão colocar no boletim o
PERRENOUD, P. Avaliação: da exceleência Z
ou traduzir em notas. Isso leva a crer que, se à regulação das aprendizagens - entre
todos os alunos fossem órfãos, a escola poderia duas lógicas. Porto Alegre: Artmed, 1999. x
deixar de avaliar! O
_' e cols. A escola de A a Z: 26 manei- Z
ras de repensar a educação. Porto Alegre: <C
Para mim, a competência docente consiste an- Artmed, 2005. o
tes de tudo em saberfazer um balanço analítico das i=

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