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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS CRIMINAIS
MESTRADO EM CIÊNCIAS CRIMINAIS

Gustavo José Correia Vieira

EXTERMÍNIO CULTURAL COMO VIOLAÇÃO DE DIREITOS HUMANOS: O CONTEXTO
CRIMINAL DO ETNOCÍDIO E SEU DESENVOLVIMENTO NO CAMPO DO SABER
JURÍDICO-PENAL

Porto Alegre
2011

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS CRIMINAIS
MESTRADO EM CIÊNCIAS CRIMINAIS

Gustavo José Correia Vieira

EXTERMÍNIO CULTURAL COMO VIOLAÇÃO DE DIREITOS HUMANOS: O CONTEXTO
CRIMINAL DO ETNOCÍDIO E SEU DESENVOLVIMENTO NO CAMPO DO SABER
JURÍDICO-PENAL

Dissertação apresentada perante a Banca Exami-
nadora do Programa de Pós-Graduação em Ciên-
cias Criminais da Pontifícia Universidade Católi-
ca do Rio Grande do Sul como requisito parcial
para a obtenção do título de Mestre em Ciências
Criminais.

Orientador(a): Prof. Dr. José Carlos Moreira
da Silva Filho

Porto Alegre
2011

V658e Vieira, Gustavo José Correia
Extermínio cultural como violação de direitos humanos: o con-
texto criminal do etnocídio e seu desenvolvimento no campo do
saber jurídico-penal. / Gustavo José Correia Vieira. – Porto Ale-
gre, 2011.
225 f.
Dissertação (Mestrado em Ciências Criminais) – Faculdade de
Direito, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul -
PUCRS.
Orientação: Prof. Dr. José Carlos Moreira da Silva Filho.
1. Direito Humanos. 2. Etnocídio. 3. Identidade Cultural.
4. Direitos Humanos. I. Silva Filho, José Carlos Moreira da.
II. Título.
CDD 341.1511

Bibliotecária responsável
Cíntia Borges Greff - CRB 10/1437

GUSTAVO JOSÉ CORREIA VIEIRA

EXTERMÍNIO CULTURAL COMO VIOLAÇÃO DE DIREITOS HUMANOS: O
CONTEXTO CRIMINAL DO ETNOCÍDIO E SEU DESENVOLVIMENTO NO
CAMPO DO SABER JURÍDICO-PENAL

Dissertação apresentada perante a Banca Exami-
nadora do Programa de Pós-Graduação em Ciên-
cias Criminais da Pontifícia Universidade Católi-
ca do Rio Grande do Sul como requisito parcial
para a obtenção do título de Mestre em Ciências
Criminais.

Aprovado em: ____de__________________de________.

BANCA EXAMINADORA:

______________________________________________
Prof. Dr. José Carlos Moreira da Silva Filho

______________________________________________
Prof. Dr. Antônio Carlos Wolkmer

______________________________________________
Prof. Dr. Ricardo Timm de Souza

Porto Alegre
2011

pelo apoio e dedicação. À minha família e minha companheira. AGRADECIMENTOS A Deus. fonte de vida e sabedoria. . Ao professor José Carlos Moreira Filho. pela orientação e atenção.

que consiste en destruir no sólo a los vivos sino. para que. es parte integrante de lo que anima todo proyecto genocida. Genocídio y transmisión. su pasado. con ellos. faltos de apoyo terrestre. (Héléne Piralian. ni en la palabra ni en la me- moria colectiva”. México: Fondo de cultura economica. no puedan encontrar lugar. “Destruir las huellas. las inscripciones culturales de un grupo humano. sus cimientos terrestres. 1994) .

trata-se de buscar inserir em uma discussão jurídico-penal e sob a ótica dos direitos humanos como esta prática se materializa. forma de violência que possui carac- terísticas próprias. além de traçar uma análise das condições de vulnera- bilidade e de vítima em potencial. No decorrer deste estudo. características presentes na consecução do etnocídio. repro- dução e desenvolvimento da vida humana. bem como o que ela visa eliminar. RESUMO O estudo a seguir trata sobre o tema do etnocídio. são considerados como base determinados conceitos an- tropológicos para a compreensão deste fenômeno. memória e reconhecimento) como parâmetro de prevenção ao etnocídio. de comparação do etnocídio com outras formas de violação de direitos humanos. . Igualmente se consi- dera a sua relação com o colonialismo. Etnocídio. principalmente em torno da concepção de identidade cultural. Direito dos povos. Por fim. que se vincula com a corporalidade e é responsável pela produção. Palavras-chave: Direitos humanos. Identidade cultural. Em resumo. em um âmbito comunitário. o estudo ora proposto se desenvolve em um âmbito jurídico. resultando ao final uma abordagem sobre a importância do direito dos povos e seus elementos (ética.

Finally. Ethnocide. in comparison of ethnocide with other forms of human rights violation. resulting in an approach on the importance of the right of the people and its elements (ethics. Right of peoples. . Throughout this study. Cultural identity. In short. ABSTRACT The following study addresses about the ethnocide. a form of violence that has its own characteristics. on a community level. reproduction and development of human life. which is linked with corpo- reality and is responsible for production. Keywords: Human rights. mainly around the concept of cultural identity. and what it seeks to eliminate. but also traces an anal- ysis of the conditions of vulnerability and potential victim characteristics present in the achievement of ethnocide. the study proposed here is developed in a legal context. are considered as certain basic anthropological concepts to understand this phenomenon. memory and recognition) as a parameter for the prevention of ethnocide. it is seeking to enter into a discussion and legal-criminal from the standpoint of human rights how this practice is materialized. Also it considers it its relationship with colonialism.

................... 99 2........... 114 3..................................1 O colonialismo e o fenômeno do etnocídio .....................................................................2........................... SUMÁRIO INTRODUÇÃO ......2.3 1 Sobre a corporeidade ......................................... 163 3........... 189 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................1 Histórico e desenvolvimento ....2 Etnocídio e crimes contra a humanidade .........2 O ETNOCÍDIO NAS RAÍZES DA MODERNIDADE: O PROCESSO DE ENCONBRIMENTO DO OUTRO A PARTIR DA CONQUISTA DA AMÉRICA ..... 46 1...1 Genocídio e etnocídio.....................................................3.....2 Homogeneização: a produção da igualdade totalizadora . 157 3.....................................4 ÉTICA....3 CARACTERÍSTICAS PRINCIPAIS DO ETNOCÍDIO NO ÂMBITO JURÍDICO- PENAL............ 51 1..................................................................................1 Sobre a sociedade do risco: notas gerais.........................2 A relação entre corporeidade e identidade cultural .........................2....... 207 REFERÊNCIAS ........................................2 Notas sobre identidade cultural ................................ MEMÓRIA E RECONHECIMENTO ÀS VÍTIMAS COMO IMPERATIVO DE OBSERVÂNCIA AOS DIREITOS HUMANOS DOS POVOS ...........1 A condição de vulnerabilidade .......3 O reconhecimento como prática ético-jurídica .........1 Modernidade.................4.................2 COLONIALISMO E VIOLÊNCIA .. 65 2...1 Uma ética libertadora como princípio – produção........................................... 80 2.........................................2.. CRIMES CONTRA A HUMANIDADE E APARTHEID: PRINCIPAIS DISTINÇÕES........................................... colonialidade e a conquista da América ...... 14 1............... 145 3..........3..... 108 2............. 14 1.. 172 3.. reprodução e desenvolvimento da vida humana na sua dimensão corpóreo-cultural.............. GENOCÍDIO.............1 HISTÓRICO.......................................................................................1.... 180 3....................................1.... 150 3.....................................................................................................4............................................................................ 65 2....... 68 2.......................................................... DESENVOLVIMENTO E CARACTERÍSTICAS DO ETNOCÍDIO ................................................................................2............................................... 9 CAPÍTULO I – PERSPECTIVA HISTÓRICO-ANTROPOLÓGICA.........3 A IDENTIDADE CULTURAL E SUA VINCULAÇÃO COM A CORPOREIDADE HUMANA ................................................2 O processo de encobrimento do Outro .............................................2 Privação de direitos e destruição da vida humana: a violência como instrumento do etnocídio ................................................2....................1..1...........2 A condição de vítimas em potencial .................................................... 73 2....3 A CONDIÇÃO DE VULNERABILIDADE E DE VÍTIMAS EM POTENCIAL ...................................................................2 Características do etnocídio .. 51 1...................................................................................2 ETNOCÍDIO.....1................................... 111 CAPÍTULO III – PERSPECTIVA JURÍDICO-FILOSÓFICA ...........2................................ 133 3................................................. 135 3............................................. 14 1.............. 108 2..............1................................3 Etnocídio e apartheid ........................................................................... 35 1.......... 28 1........ 114 3........4....................................... 80 2.......... 55 CAPÍTULO II – PERSPECTIVA SOCIOLÓGICA...................................1 Notas sobre cultura ......2 Uma justiça anamnética como antídoto à repetição da barbárie ...................................................1 RISCO SOCIAL E HOMOGENEIZAÇÃO ..... 35 1..........3.............. 212 .................. 117 3...........................1 SOBRE CULTURA E IDENTIDADE CULTURAL................................. 114 3...............................................................................................................................................

Para esclarecer qual a relação entre o poder e a colonização e o inserirmos no enfoque do estudo ora proposto. Foucault leciona que a partir do momento em que se pretende se des- vincular da ideia dos esquemas econômicos de análise do poder. A sociedade na forma como está sendo estruturada foi uma resultante de uma série de práticas de relações de poder. c) A “decisão final” só pode vir da guerra. Para Foucault. faz-se necessário tecer algumas considerações sobre a ideia de relação de poder em Michel Foucault1. sejam eles provenientes do passado ou do tempo atual. o poder é exercido. dos indivíduos). historicamente preciso. Nesse sentido. ou seja. nos encontramos diante de 1 Nesse sentido. as lutas políticas. Segundo. na guerra e pela guerra. 2005. as relações de força. . de guerra. uma prova de força em que as ar- mas serão os juízes. 2 Ibidem. tudo isto deve ser interpretado como continuação da guerra. vide FOUCAULT. são compostas de práticas oriundas de relações de poder. e só existe em ato. São Paulo: Martins Fontes. a partir dos mecanismos de repressão. p. suas trans- formações. de enfrentamento. deve-se analisá-lo em termos de combate. b) Que no interior da paz civil. 21-25. estabelecidas principalmente pela colonização. através de uma guerra silenciosa e inserida nas desigualdades econômicas. dos instintos. Este exercício deve ser compreendido em dois aspectos: primeiro. Em defesa da sociedade. em uma relação de força. p. E este segundo aspecto – do poder como guerra continuada – significaria três coisas: a) Que as relações de poder têm como ponto de ancoragem uma relação de força esta- belecida em um dado momento. 9 INTRODUÇÃO O contexto social o qual a humanidade vivencia retrata que sua dinâmica. 21-25. Trata-se do estudo de Foucault sobre o problema da guerra. o poder co- mo guerra continuada por outros meios2. o fim do político seria a derradeira batalha. a fundação da sociedade civil e a temática da raça. o poder polí- tico reinsere perpetuamente essa relação de força. a batalha suspenderia o exercício do poder como guerra continuada. o mecanismo do poder é a repressão (seja da natureza. na linguagem. ou seja. e até mesmo nos corpos de uns e outros. se o poder é o emprego e a manifestação de uma relação de força. Michel. e com a imposição de visões de mundo que destruíram modos de vida distintos do imaginário e do objetivo dos conquistadores.

partindo destes funda- mentos sobre os sistemas de análise do poder. Foucault ressalta ainda que poderíamos contrapor dois grandes sistemas de análise do poder4: o primeiro. 26. Em defesa da sociedade. Em defesa da sociedade. E tais hipóteses seriam conciliáveis. étnicos. 2009. busca analisar o problema da guerra. na sua trajetória acadêmica. no interior desta “pseudopaz”. e em todo caso. Nesse sentido. que a questão da luta e submissão está no âmago da socieda- de. . Assim. op. mas também pelo seu aspecto positivo. segundo. Este tema passa a integrar um sistema de utilidade. Belo Horizonte: Autêntica Editora. mas também pela produção de efeitos positivos. um embate de forças no campo político. uma questão de administração. solapada pela guerra contínua. a repressão não seria suficiente para dar conta do funcionamento histórico do poder. Caso entendêssemos o poder somente no seu efeito negativo. o autor menciona que embora tenha trabalhado muito no campo do esquema da luta-repressão. 4 Ibidem. esta noção seria insuficiente para caracterizar os mecanismos e efeitos do poder naqueles cam- pos. pelo estímulo. produzindo um estímulo no indivíduo. no contexto sexual. a partir da concepção apresentada. 10 duas hipóteses: primeiro. não se limita a analisar o poder a partir da idéia de repressão. por exemplo. 24. em que existem exércitos que se enfrentam. É necessário analisar a taxa de natalidade. o fundamento da relação de poder como enfrentamento das forças. cit. Na história da sexualidade. no século XVIII há uma incitação contínua e crescente a se falar de reprodução. 5 Cabe destacar que Foucault. Nesse sentido. e a opressão seria um abuso do poder dentro do contrato estabelecido. conflito este que para Foucault seria um estado de guerra contínua.. Foucault. etc). pode ser identificado como o fundamento da sociedade civil. havendo uma oposição entre luta e submissão5. consi- derando que a repressão seria uma conseqüência política da guerra3. Edgardo. teríamos apenas uma concepção puramente jurídica do poder. Michel. p. 25. cit. Portanto. produ- zindo prazeres. discursos. No curso ministrado entre os anos de 1975 e 1976.. sob o ponto de vista jurídico. pela repressão. Michel. 384-386. Em que medida a guerra. a repressão seria o efeito desta relação de dominação e o emprego. op. Na aula de 7 de janeiro de 1976. Portanto. a temática da história da sexualidade. vide FOUCAULT. a um só tempo o princípio e o motor do poder político6. etc. o enfrentamento de forças. o segundo. de uma relação de força perpétua. em que persiste o conflito entre luta e submissão (podem-se referir como exemplificação as questões entre grupos políticos. proi- bitivo. guerra esta não enten- dida somente pelas formas convencionais. de forma positiva. Para Foucault. como parte do problema econômico e político da população. em que se entende o poder como um direito que se cede. maiores que o emprego da repressão. Foucault demonstra que o poder não pode ser apenas explicado pela repressão. induzindo saberes. 6 FOUCAULT. ou “dominação-repressão”. p. Vocabulário de Foucault. p. Nesse sentido. Ao contrário do pensamento religioso (a partir da Reforma). em que a carne é considerada raiz de todos os pecados. 3 Ibidem. em que o poder é visto como efeito de uma relação de dominação. trata-se de uma guerra por representação. 24. e CASTRO. denominado “contrato-opressão” (século XVIII). Isto significa. os nascimentos. p. denominado “guerra- repressão”. o poder não seria so- mente inserido no âmbito negativo. do poder psiquiátrico e da história do direito penal teriam mecanismos empregados muito diferentes da repressão. p. a luta. pela proibição (âmbito negativo). o mecanismo de poder como repressão. haveria uma espécie de controle-estímulo.

suas condições histórico-político-sociais. em julho de 1993. a partir desses fundamentos de Foucault. e que ainda repercute na atual sociedade globa- lizada: o domínio. Em síntese. o estudo ora apresentado surgiu a partir de sucessivos estudos anteriores. 11 Com efeito. Cabe salientar que a utilização do termo “saber jurídico-penal”. sendo divulgadas amplamente na mídia as condições do massacre e do povo indígena como um todo. a partir da guerra. Tratava-se do caso do massacre de Haximu. pode-se elaborar uma relação com a temática das relações de poder. deve-se destacar a metodologia utilizada nesta exposição. ou extermínio cultural). A arqueologia do saber. também denominado genocídio cultural. o estabelecimento de uma relação de dominação (ou de poder) através do controle e da destruição do corpo. sociais e filosóficas do tema. da repressão. que pode levar à extinção de uma etnia. da dominação e do enfrentamento de forças (estritamente vinculados ao colonialismo). São Paulo: Forense Universitária. objeto de estudo neste trabalho. se insere na ideia de saber compreendida por Foucault7. visando o extermínio de traços culturais responsáveis pela perpetuação de um grupo humano. p. continuou-se na realização de pesquisas com enfoque especial na questão relativa ao etnocídio. o qual ocorreu em uma condição de conflitos entre o povo Yanomami e exploradores do garimpo na região da fronteira com a Venezuela. A partir de tais investigações precedentes. Eis o tema central a ser analisado neste estudo. que o entende co- 7 FOUCAULT. A ideia de se realizar a abor- dagem sobre a questão do etnocídio como forma de violência e inserido na temática jurídico- penal iniciou-se com trabalhos pretéritos desenvolvidos sobre o tema do totalitarismo (em especial no contexto do III Reich) e crimes internacionais. o caso repercutiu de forma significativa no plano nacional e internacional. Neste trabalho foram estudadas as questões jurídicas. Partindo desses pressupostos. 199-208. em pesquisas realizadas junto ao Supremo Tribunal Federal. o enfoque proposto. Michel. exposto no título do trabalho proposto. portanto. devido às epidemias. da luta. políticas. tema principal a ser analisado. Na época. com a temática do et- nocídio (genocídio cultural. . Posteriormente. vem abordar uma prática que ocorreu em muitos episódios da História. culminando na morte de 12 (doze) indígenas integrantes da tribo. Ainda. realizados no Grupo de Pesquisa de Filosofia do Direito da FARGS (Faculdades Rio-Grandenses). 2005. E nesse campo se insere a questão relativa ao etnocídio. resultando neste estudo ora apresentado. antropológicas e seu tratamento jurídico-penal. consta- tou-se que em agosto de 2006 foi reconhecido oficialmente o primeiro caso de genocídio por aquele Tribunal.

pois se o Direito serve ao homem (e não o contrário). regulamentos institucionais. pesquisador e especialista da área jurídica. 21. adotamos o termo “saber jurídico-penal” (ou direito penal). etc. . mas também requer uma fundamentação antropológica básica. apesar de não se destinar necessariamente a lhe dar lugar. Zaffaroni8 também utiliza esta concepção. jurídico-acadêmicos. En busca de las penas perdidas – deslegitimación y dogmatica jurídico-penal. de toda uma prática discursiva técnica utilizada que se define. b) do espaço em que o sujeito pode tomar posição para falar dos objetos de que se ocupa em seu discurso (no caso. se definem. p. na situação de agente público. especi- almente sua conceituação. se aplica na sociedade e sofre muta- ções). dentro do qual está situado o nosso objeto de investigação. Nesse sentido. 1998. a planificação do exercício deste sistema penal deve pressupor uma antro- pologia filosófica básica. E sua coerência interna não se esgotaria apenas em uma não-contradição ou lógica. p. da ideia de crime e punição. 9 Ibidem. deci- sões políticas. o sistema penal poderia ser considerado legítimo. dos princípios de direito penal. O saber é uma prática discursiva especificada a partir dos seguintes elementos: a) o domínio dos dife- rentes objetos que irão adquirir ou não um status científico (no caso. jurista. Escla- recendo sua concepção a respeito da delimitação do significado de racionalidade. nos posicionamentos jurídicos doutrinários. o autor re- duz o conceito no seguinte sentido: para ser racional. nas narrativas. Somente a partir de uma operatividade racional. O estudo ora proposto tem como finalidade principal tratar sobre o etnocídio. dentro do tema da legitimidade do sistema penal. a partir dos estudos de Foucault e Zaffaroni. o saber jurídico-penal se formará a partir da observação da violência. c) do campo de coordenação e de su- bordinação dos enunciados em que os conceitos aparecem. Buenos Aires: Ediar. judiciais. o conjunto de conceitos de delito. Eugênio Raúl. se aplicam e se trans- formam (no caso. características e sua possível recepção no campo jurídico-penal. e que hoje é materializada na seara dos direitos humanos9. E a constru- ção teórica ou discursiva que buscaria explicar esta planificação seria o discurso-jurídico- penal (ou também chamado de “saber penal”. visa abordar como ele se constitui enquanto forma de violência e quais seriam suas características. de condutas proibi- das pelo corpo político-social. e indispensáveis à consti- tuição de uma ciência. etc). Para tanto. o saber penal deve ser coerente e verda- deiro. bem como mencionar um possível desenvolvimento deste 8 ZAFFARONI. Dentre outros aspectos. etc). 12 mo um conjunto de elementos formados por uma prática discursiva. 20. calcada no homem como pessoa. o saber está nas reflexões. o qual seria um modelo de exercício do poder planificado racionalmente. “ciência penal” ou “direito penal”).

Por fim. o outro. No terceiro e último capítulo. Para tanto. faz-se necessário buscar esclarecer de forma mais precisa o que significa cultura e no que consiste a identidade cultural. procura-se eluci- dar a relação do etnocídio com estes dois processos: o colonialismo geralmente empregado juntamente com o etnocídio. A seguir. ao final do segundo capítulo serão tratados dois aspectos geralmente presen- tes no etnocídio: a condição de vulnerabilidade e de vítimas em potencial. os crimes contra a humanidade e o apartheid. No primeiro capítulo. embora objeto de destaque neste primeiro capítulo. uma justiça anamnética como antídoto à repetição da barbárie e o reconhecimento como prática ético-jurídica. a partir de uma perspectiva histórico-antropológica. o desenvolvimento da con- cepção de etnocídio em sua acepção jurídica começa a tomar maior relevo. aspecto tendente de nossa socie- dade. com a abordagem sobre o colonialismo e a violência. serão abordados alguns elementos de uma possível fundamentação aos direi- tos dos povos em busca de uma prevenção ao etnocídio. Após estas abordagens iniciais. buscar-se-á tratar o tema relativo à identidade cultural e sua relação com a corporalidade humana. a tarefa será ilustrar o tema com um marco histórico de constituição do etnocídio: a conquista da América e a inser- ção do etnocídio nas raízes da modernidade. serão tratados os aspectos principais do etnocí- dio. em uma dimensão jurídico-filosófica. seguindo-se da análise de três bases de sustentação: uma ética libertadora como princípio. . a violência. 13 conceito no âmbito do saber jurídico-penal. Por seu significado. a conquista celebra a origem de um sistema civilizatório que denegou a existência das culturas indígenas. Por sua vez. no segundo capítulo aborda-se o marco de uma perspectiva sociológica. Inicialmente serão tratados aspectos relativos ao histórico e desenvolvimento do conceito. Posteriormente. Por fim. evidenciando o que o etnocídio viola concretamente. a atenção é voltada à cultura e à identidade cultural em sua pri- meira parte. eis que são pontos importantes que permeiam todo o trabalho. e se impôs prin- cipalmente pelo etnocídio. seguindo de breves comparações entre o etnocídio e três espécies de crimes internacionais: o genocídio. estreitamente rela- cionadas com a concepção de risco. o segundo em uma perspectiva sociológica e o terceiro. sempre presente nesta espécie de prática. o trabalho foi dividido em três capítu- los principais: o primeiro. destacando o processo de risco social e a homogeneização. Feitas estas considerações sobre a cultura e a identidade cultural. Para se tratar do fenômeno do etnocídio. estritamente no âmbito jurídico-penal.

Nesse sentido. expor sobre a cultura e a identidade cultu- ral como elementos da corporalidade humana significa situar materialmente a questão. 1975. O que é cultura. O termo “cultura” é amplamente utilizado a partir do sécu- lo XVIII para denominar. tradições 10 e capacidades inerentes à condição humana até a afirmação de identidades nacionais. a valores e normas existentes em determinados contextos históricos e sociais11. 12 SANTOS. Tal exposição auxiliará a entender o que o etnocídio enquanto forma de violência viola concretamente. Para tanto. p. 14 CAPÍTULO I – PERSPECTIVA HISTÓRICO-ANTROPOLÓGICA 1. 11 ALVES. sociedades e grupos humanos existentes12.1. da Universidade de São Paulo. 2-3. 1. José Luiz dos. Porto Alegre: Ed. Para eles. tudo aquilo que é feito pelo 10 Há autores que se reportam ao aspecto da tradição como elemento importante dentro da transmissão da cultu- ra. na antropologia não há um significado consensual a respeito do que se entenda por cultura. A cultura normalmente é entendida como uma expressão utilizada para representar desde um conjunto de valores. Armand. Refere-se ao enri- quecimento do espírito. Sociolo- gia da cultura. nações. incluindo-se nela o conhecimento. da constituição humana. Cultura – múltiplas leituras. vincu- lando-a à própria existência concreta do ser humano. faz-se necessário tratar sobre as origens e a constituição científica da cultura. p. 2010. p. a arte. 15. Ela diz respeito à humanidade como um todo e ao mesmo tempo a cada um dos po- vos. A cultura e a identidade cultural como parte.). de grupos e subgrupos. a linguagem. . a literatura e a religião. em uma acepção extremamente geral. para continuar a abordar este tema. 2006. Bauru: EDUSC.1 SOBRE CULTURA E IDENTIDADE CULTURAL Para compreender como o etnocídio se constitui como uma violação aos direitos hu- manos faz-se necessário a exposição de alguns aspectos conceituais históricos. pela tradição se transmitiria a cultura. 8. portanto.1 Notas sobre cultura De um modo geral. a cultura seria eminentemente tradicional. Paulo César (Org. São Paulo: Brasiliense. vide CUVILLIER. filosóficos e principalmente antropológicos. Contudo.

p. Verdades culturais – trate-se da arte elevada ou das tradições de um povo – são algumas vezes verdades sagradas. Paulo César (Org. por vezes neste aspecto. que se constitui como uma das bases deste estudo sobre o etnocídio. 24. 17 ALVES. pela via do latim cultus. São Paulo: UNESP. Etimologicamente. Nesse sentido. aos poucos. 23. 15 ALVES. cultura seria a educação para se adquirir a areté. op.). o cultivo espiritual do indivíduo. 2005. a educação e formação da persona- lidade. A idéia de cultu- ra. começam a aparecer algumas mudanças semânticas do termo. Em meados do século XVIII. p. pois implica uma certa maneira do indivíduo estar atento a “si mesmo” como condição de obter a perfeição moral19. Terry. o simbolismo seria o componente fundamental da cultura. Nos fins do século XVI. o termo “cultura” designa. cit. op. a qual deveria ser iniciada na infância. p. das ciências. o universo pelo qual a realidade propriamente humana se diferencia da sua base biológica14. p. assim como a própria idéia de cultura vem na Idade Moderna a colocar-se no lugar de um sen- tido desvanecente de divindade e transcendência. passar a se referir à ação de cultivar a terra. . paideia diz respeito ao esforço individual para se alcançar a virtude ou perfeição moral (areté). Nesse ponto. 19 Ibidem. 23. Para compreender melhor este termo. Mais precisamente. No entanto. ou seja. Esse termo refere-se à capacidade ou poder individual de traduzir em qualidades pessoais os co- nhecimentos e valores transmitidos pela sociedade. até o século XIII. há algumas linhas interpretativas na história do significado da palavra “cultura”. 24. A cultura. Para tanto. Também para a grande maioria dos es- tudiosos. cit. No mundo grego.. 22. com sentido já expandido. a cultura adquire uma dimensão subjetiva. um estado da terra culti- vada para.. p. vide EAGLETON. faz-se mister abordar brevemente estas grandes linhas interpretati- vas. 15 homem e que é transmitido de uma geração a outra13. herda o manto da autoridade religiosa. que significa o cuidado dispensado ao campo. o termo passa a designar o patrimônio universal dos conhe- cimentos e valores humanos17. ao gado. p. 24. dentro desta concepção semântica. além do produto intelectual de um povo entendiam-se a partir do termo paideia18. o seu significado é antigo15. O termo “cultura” alarga seu significado para se referir ao cultivo da língua.). Assim. o termo vem do latim colere16. 18 Ibidem. p. 11. ao cultivo agrícola. da arte. a serem protegidas e reverenciadas. Paulo César (Org. do termo religioso “culto”. 13 Ibidem. 16 Ressalte-se que o termo também possui outra conotação: colere advém. 14 Ibidem. estimulando no ser humano o desejo de se tornar um cidadão perfeito. Embora a palavra “cultura” como geralmente se entende tenha sido criação do século XVIII.

o “bárbaro” não possuiria cultura. 24 Ibidem. Nesta fase histórica. Ou seja.. p. cabe ao homem contemplar a perfeição das coisas criadas24. como condições para o aperfeiçoamento do indivíduo. denominado 20 Ibidem. Nesta concepção. Cultura como cultivo do espírito refere-se à ideia de que para alcançar a perfeição humana é necessário incorporar ao esforço individual um saber específico. por não ter o cultivo intelectual e tampouco o desejo de sair da ignorância. 28. 28. assim como um campo sem cultivo seria improduti- vo. A Idade Média não desenvolverá um conceito de cultura que ultrapasse de forma sig- nificativa a paideia greco-romana. Com efeito. existem elementos que se distinguem da concepção clássica: a) em primeiro lugar. houve uma maior acentuação das questões relacionadas à mística. p. A teologia co- meça a perder o status que até então mantinha. os romanos também desen- volveram uma outra concepção mais ampla de cultura: a cultus vitae. 21 Ibidem. 28. tais como a purificação. p. a aquisição do saber deixa de ser uma finali- dade em si mesma. Para Cícero. gerando um declínio do poder da Igreja. 22 Ibidem. a clivagem cultural estava na separação entre os clérigos e os laicos. a cultura animi seria o resultado da combinação da personalida- de de um indivíduo (desejar sair da ignorância) com a incorporação de um patrimônio tradici- onal do saber21. houve o surgimento do racionalismo e maior preocupação com a descoberta da nature- za. de busca de práticas e experiências. 16 A paideia como cultivo do espírito humano também chegou ao mundo romano20. p. para designar as formas originais de vida (usos e costumes) as quais distinguem uma sociedade da outra22. a cultura intelectual deixa de ser um fenômeno diretamente relacionado com questões de classe social ou de nobreza individual. a situação religiosa torna-se problemática. etc. e b) em segundo lugar. Assim. 23 Ibidem. por exemplo). . Para os romanos (e para Cícero. o homem é visto como algo pertencente a um todo. Entretanto. renúncia. mantém-se a ideia de espiritualidade. p. as nações começaram a se constituir. um “cuidado de si mesmo” como preço pelo qual o indivíduo paga para ter a acesso à graça divina23. ao mundo entendido como cosmos criado e ordenado por Deus. No entanto. por exemplo. 27. Já no final da Idade Média. o cume do cultivo espiritual (cultura animi) é dado pela aquisição da filosofia. Totalmente imerso neste uni- verso. também a alma sem educação não daria frutos. Ou seja. ao passar a ser monopólio da Igreja. tornando-se um meio para conhecer o sentido que Deus atribuía ao mundo e à existência humana. O Humanismo e o Renascimento terminaram por reviver o cultivo espiritual. 27.

Descartes levará a renúncia ao mundo a um plano altamente filosófico. A noção de “cultivo espiritual” é agora de ordem coletiva. quando afirma que a alucinação. 31. conclui que somente a existência da dúvida escaparia à falsidade (logo. Cabe lembrar que nos séculos XV e XVI desenvolve-se a concepção de individualismo. Nessa mesma época. 31. o Iluminismo coloca a tônica sobre a dimensão “objetiva” da cultura: as formas culturais enquanto um conjunto de artefatos e memória coletiva (tradição) codificada e acumulada no tempo. . Com isso. mas por uma interro- gação construída por uma hipótese e parcialmente confirmada pelo experimento27. o homem irá buscar um fim e um sentido em si mesmo. 30. 27 Ibidem. e a natureza passa a ser considerada como dotada de uma dinâmica própria. a cultura refere-se à idéia de progresso. padrões de comportamento. No século XVII. 28. 28 Ibidem. 26 Ibidem. Dispondo-se a pensar que tudo pode ser falso. p. Este século representará o triunfo dessa nova convic- ção que foi lentamente gestada nos séculos anteriores. A partir do Renascimento. Considerada como um fenômeno distintivo da espécie huma- na. 30. estabele- cendo um lugar distinto de tudo o mais. Nesse sentido. 29. o eu que pensa é algo verda- deiro)28. 29 Ibidem. p. servindo para designar o 25 Ibidem. um cuidar de si mesmo). p. Se antes o homem era concebido como um ser tragado pelo universo organizado por Deus. 30 Ibidem. Cultura passa a designar a soma de saberes acumulados e transmitidos pela humanidade30. a cultura passa a ser o termo que identifica a especificidade do mundo humano29. os sentidos e os erros fazem com que não seja mais possível se achar a menor segurança neste mundo. A palavra “cultura” não mais se refere à formação do “espírito” do indivíduo. p. mas ao conjunto objetivo de representações. o Iluminismo relega a um segundo plano a dimensão “subjetiva” da cultura até então hegemônica (cultivo espiritual do indivíduo. de educação – palavras-chave do pensamento iluminista. seja da humani- dade ou de uma dada sociedade. O cultivo à personalidade (exaltação do homem singular) era expresso na convicção do valor intrínseco da pessoa e na nobreza do mérito pessoal26. p. 17 pelos escritores italianos de coltura25. valores e normas enquanto patrimônio comum. de evolução. p. a relação do homem com o cosmos adquire novas bases existenciais que diferem daquelas legadas pela Idade Média. Já no século XVIII. o engano. o homem renascentista sente-se como um ser “aparte” deste mundo. o conhecimento não é mais dado pela contemplação.

. 31. em contraposição à “selvageria” ou barbárie dos povos “não civilizados”31. nossos modelos. Principalmente na concepção alemã. Ou seja. Mas a percepção iluminista de diferentes ordens culturais não eliminou a ideia de et- nocentrismo36. p. O que é etnocentrismo. a “cultura” diria respeito ao conjunto de sa- beres e práticas que constituem o patrimônio de um povo ou sociedade. Embo- ra as diferenças de significado não sejam claras. p. “cultura” e “civilização” seriam duas palavras que pertencem ao mesmo campo semântico. Daí as expressões como “cultura alemã” ou “cultura brasileira”. Assim. aliados podero- sos. Admitir a existência de uma variedade de culturas não significou afirmar que todas sejam do mesmo tipo. no plano afeti- vo. p. como sentimentos de estranheza. Everardo. nossas definições do que é a existência. São Paulo: Brasiliense. para designar o refinamento cultural dos costumes. 32 Ibidem. p. Para uma sociedade que tem poder de vida e morte sobre muitas outras. No plano intelectual pode ser visto como a dificuldade de pensarmos a diferença. com o desejo de riqueza. o etnocentrismo se conjuga com a lógica do progresso. p. Cabe destacar que o termo “cultura” não restringiu apenas à ideia de um patrimônio da humanidade. 33 Ibidem. no caso particular da nossa sociedade ocidental. Tal concepção estará na raiz dos conceitos de “na- ção”. 2006. com a crença num estilo de vida que exclui a diferença. Possui. e os demais grupos são pensados e sentidos pelos nossos valores. somente aqueles dotados de re- finamento institucional e comportamental possuiriam “civilidade”. hostilidade. refletindo as mesmas condições fundamentais. Nesse sentido. “nacionalismo” e “nacionalidade”35. o etnocentrismo é uma visão de mundo com a qual tomamos nosso próprio grupo como centro de tudo. a cultura adquiriu também uma noção par- ticularista para significar a consolidação de diferenças nacionais. 18 refinamento cultural dos costumes. vide ROCHA. instituições. A diferença é estabelecida na ideia de progresso: um processo de refinamento cultural dos costumes. Afinal. contrapondo-se à pretensa selvageria ou barbá- rie dos povos que não teriam tais refinamentos – os não civilizados32. O etnocentrismo está calcado em sentimentos fortes. 31. se todos os povos têm cultura. 32. p. 31. enquanto “civiliza- ção” expressaria a ideia de afinamento coletivo de comportamentos. Também é neste século que é criado o conceito de “civilidade” e “civilização”. como o reforço da identidade do “eu”. o crescimento do ideal 31 Ibidem. usos e cos- tumes da humanidade. civilização seria um movimento coletivo resultante do desenvolvimento da cultura34. 7-75. para os iluministas seria necessário reconhecer as diferen- ças entre as culturas de uma sociedade tribal e uma “civilizada”. 32. com ideologia da conquista. etc. 35 Ibidem. medo. 34 Ibidem. Como expõe Paulo César Alves33. 36 Em síntese.

Composta objetivamente pelas crenças. p. A ideia de progresso introduz de uma maneira peculiar uma periodização (hierarquia) entre as diversas culturas. a palavra “cultura” adquire uma di- mensão “descritiva”. op. p. tradições e costumes adquiri- dos pelo homem enquanto membro de uma sociedade. Lisboa: Presença. Igualmente esta hierarquização de ideia de progresso dizimou parte da população Kaingang em São Paulo. pelo desenvolvimento único e temporalmente ordenado de todos os povos. cit. Levi-Strauss enfatiza que a vida humana não se desenvolve sob o regime de uma uniforme monotonia.). O conceito científico de cultura foi formulado inicialmente pela teoria evolucionista. p. Ao examinar os mecanismos de evolução. 33. 24ª ed. . op. em homogeneida- de38.. b) dotado de causas e regularidades. 10. c) capaz de proporcionar a formulação de leis. que se diferencia da sua dimensão “prescritiva”. mas através de modos extraordinariamente diversificados de socieda- des e civilizações. estabelecendo os princípios norteadores do estudo 37 ALVES. op. 19 racionalista. pois se trataria de um fenômeno que é: a) natural do ser humano. 40 ALVES. a teoria evolucionista clássica desenvolveu uma concepção universa- lista da cultura. aliado ao etnocentrismo. Raça e história. o controle de forças irracionais e emotivas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. O modelo idealizado de progresso é reflexo da sociedade européia ou ocidental37. Nesse sentido. vide LARAIA. Paulo César (Org. de seu ecossistema e de seu contexto cultural) e transportados como escravos para uma terra estranha habitada por pessoas de costumes e línguas diferentes. 2010. Cultura – um conceito antropológico. enquanto as mais “civilizadas” se encontrariam em estágios posteriores. os teóricos dessa escola abordaram os fatos culturais sob uma ótica sistemática. Em síntese. a francesa ou a alemã39. princípios e técnicas acumulados no tempo. Nesse sentido também podemos mencionar o resultado desta ideia de progresso e homogeneização. cit. perdendo toda a motivação de permanecer vivos. que será desenvolvido a partir do século XIX40. 33. Assim. 33. p. O conceito científico de cultura nasce do pressuposto de que a cultura pode ser estuda- da de forma objetiva e sistemática. 39 ALVES. p. como a ideia de paideia ou de cultura animi41. aquela que se refere à cultura como um conjunto de valores que devem ser adquiridos pelos indivíduos ou coletividades. 2009. 38 Contrariamente a esta ideia de homogeneidade. 75-76. valores. Herdeira do Iluminismo. as mais “primitivas” estariam situadas em estágios iniciais.. p. a ideia de progresso concebida pelo Iluminismo pressupõe que a heterogeneidade cultural é convertida. Paulo César (Org. cujo exem- plo significativo seriam a sociedade inglesa. 10ª ed. 41 Ibidem. 34. a concepção iluminista fundamentou o conceito científico de cultura. Roque de Barros. isto é. quan- do teve seu território invadido pelos construtores da Estrada de Ferro Noroeste. Vide LÉVI-STRAUSS.). Os africanos foram removidos violentamente de seu continente (ou seja. Paulo César (Org. representações sociais.. Ao acentuar as formas culturais enquanto compostas por um conjunto coletivo de comportamentos. cit.). a qual é identificada pelos valores e estruturas das sociedades “civilizadas”. Claude.

Partindo do pressuposto de que toda a humanidade deveria passar pelos mesmos pro- cessos evolutivos. As teorias sistêmicas que colocavam a cultura como unidade relativamente autônoma perdem seu caráter hegemônico e passam agora a conviver com diferentes teorias que redimensionam a cultura como algo diretamente relacionado com a ação social46. mas inaugurou um conjunto de pressupostos teórico-metodológicos para os estudos sobre cultura. a teoria evolucionista clássica: a) reduziu a diversidade cultural a uma questão de estágios históricos de um mesmo caminho evolutivo. Pode-se denominar essa tendência analí- tica nas ciências sociais como sistêmica ou estrutural44. as realidades sociais são apreendidas como construções históricas e cotidia- nas dos atores individuais e coletivos. 45 Ibidem. 38. 36. A noção de historicidade pressuposta na teoria social contemporânea possui três im- portantes aspectos: a) lida com construções passadas (a ideia de que o mundo sociocultural se constrói a partir das condições diretamente dadas e herdadas do passado). As transformações de ordem cognitiva e institucional levam a reformulações nos estu- dos sobre cultura. tenderam a considerar as unidades sociais como sistemas possuidores de leis próprias e como realidades que perseguem as suas próprias finalidades. e c) identificava-se em cada socie- dade “sobrevivências” ou “relíquias” de crenças e costumes de estágios anteriores43. 40. O ponto fundamental a ser observado diz respeito ao fato de que as teorias sócio-antropológicas. b) partia do princípio de que haveria uma unidade psíquica de toda a espécie humana. . p. de uma maneira geral. p. Para esta teoria. Esta teo- ria não desfruta atualmente da mesma aceitação. Por isso. 35 44 Ibidem. relativamente autônomas das percepções individuais. quando as ciências sociais começaram a desenvolver. uma crescente preocupação em repensar os pressupostos teórico-metodológicos sobre os quais se assenta o seu entendimento científico do mundo45. são considerados por muitos historiadores como fundadores da etnologia científica. principalmente britânica42. p. p. 46 Ibidem. 34 43 Ibidem. 20 científico sobre esse fenômeno. b) essas construções são atualizadas nas práticas e nas interações da vida cotidiana dos atores (as formas sociais 42 Ibidem. fomentando um conjunto de teorias chamadas de perspectiva construtivista. A perspectiva sistêmica foi relativamente hegemônica até aproximadamente a década de 1970. desenvolvidas a partir do século XIX e até a segunda metade do século XX. p.

Mais do que uma simples ferramenta a serviço de um indivíduo. p. p. É fundamentalmente um mundo familiar sobre o qual atuamos e frente ao qual os nossos pontos de vista e os dos outros são. 48 Ibidem. uma característica fundamental da análise construtivista é a de que a cul- tura não se coloca como uma realidade já dada perante os indivíduos. 51 Ibidem. mas é constituída na relação com os agentes sociais. como o horizonte a partir do qual os atores sociais se engajam no mundo. na maioria das vezes. dotado de senso prático (inscrito no corpo e nos movimentos do corpo). Ao estabelecer íntimas ligações entre a cultura e o agir social. 44. 43. sobre o pensamento e a reflexão. De acordo com a perspectiva construtivista. Essa concepção conduz alguns autores a voltar a atenção ao corpo. 50 Ibidem. . 43. p. Trata-se de um sujeito encarnado. 49 Ibidem. a perspectiva construtivista reconhece a pri- oridade prática. Nesse sentido. o mundo que partilhamos com os outros não é uma realidade exter- na e impessoal que a ciência constitui. o corpo torna-se fundamento de nossa inserção prática no mundo. E ao privilegiar o estudo da ação. a partir de variadas concepções históricas e estruturais. o corpo é visto como condição e possibilidade para que as coisas se convertam em meios ou objetos para o sujeito50. Em resumo. da esfera do fazer e do agir. em sua forma 47 Ibidem. Um processo constante de formação humana51. intercambiáveis48. Como referido anteriormente. desta forma. p. Feitas estas considerações em termos de desenvolvimento do que se entende por cultu- ra. 42. c) constitui abertura de campos de possibilidades no futuro (a herança passada e o trabalho coti- diano sempre abrem perspectivas para o futuro)47. p. A perspectiva construtivista coloca em evidência o caráter ativo dos pro- cessos de constituição da realidade social e a dimensão interativa (ações) que lhe está na base. localizado em tempo e espa- ço concretos49. a cultura é o resultado de processos ati- vos de produção de comportamentos. reproduzidas e transformadas enquanto outras são inventadas). a perspectiva construti- vista recuperou a noção de agente ou sujeito social. 21 passadas são apropriadas. valores e princípios que os indivíduos desenvolvem nas suas relações com as condições materiais e sociais do mundo em que vivem. partindo do princípio de que há uma rela- ção originária entre consciência e mundo que só pode ser compreendida quando recuperamos a mediação do corpo. mostra-se importante lançar alguns aspectos pertinentes aos elementos da cultura. A cultura é interpretada. 42. Em outras palavras.

a origem de toda cultura é o núcleo criativo e afetivo da pessoa. mas vivido. os objetos que os homens produ- zem. etc54. cul- tura seria qualquer manifestação humana53. a disposição de uma rua ou de um campo. Ricardo Yepes. significa ter conhecimentos. 348. acolhida. seres humanos. ECHEVARRÍA. que não existia antes. os objetos artísticos. Trata-se de uma ação me- diante a qual o homem se ocupa de si mesmo. pelo contrário. Seria o lugar de encon- tro com a própria intimidade. Para Ricardo Yepes Stork e Javier Aranguren Echevarría52. ter atenção. Pela cultura. A expressão humana se serve sempre de uma matéria à qual acrescenta uma forma. violência. e que manifesta intenções. 2005. neste aspecto. O que define o homem como ser cultural é esta capacidade de revestir o material. de um significado que procede do mun- do interior e que ordena a obra humana à outra coisa diferente dela mesma. as casas. A primeira dimensão da cultura é a interiorização e enriquecimento de cada sujeito mediante a aprendizagem. e que leva consigo um significado que procede da inteligência. p. a literatura. Javier Aranguren. sendo constituída por todas aquelas ações mediante as quais a pessoa se manifesta. o espírito humano caracteriza-se por saber habitar dentro de si e criar um mundo interior que não é sonhado. Ricardo Stork e Javi- er Echevarría referem que o mundo em que habitamos está repleto de coisas que seriam inex- plicáveis sem a existência do homem. cari- nho ou. cuidado. O decisivo da manifestação humana é que mediante ela o homem dá forma às coisas e incrementa assim o mundo natural. porque se cultiva. Cultura. a mão é mais que um membro para segurar: ela expressa saudação. enriquecemos o mundo. O livro. 347. Frente à primazia da exterioridade. 22 originária a cultura indica a ação de cultivar. etc. retirada em um santuário interior. p. A cultura seria a expressão externa da interiorida- de. o concreto armado e as estruturas. Pela cultura também aparecem as obras humanas. uma sabedoria que cresce para dentro. fraternidade. os enfeites. Fundamentos de antropologia – um ideal de excelência humana. 53 Ibidem. mediante uma forma acrescida. aumentando o número de realidades. 348. Todas essas são formas acrescentadas às realidades naturais55. desejos. riqueza interi- or. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia. . projetos que acabarão saindo para o exterior. mundo íntimo. sem leitores. 348. dotamos as novas realidades de significado. seria um objeto sem finalidades. p. 55 Ibidem. p. realidade criadora da qual brotam idéias. as janelas. Em um sentido mais estrito. Nós. Um martelo. 54 Ibidem. 52 STORK. para depois sair de dentro. etc. as estradas. Aparecem os utensílios.

Desta forma. Além disso. o lugar onde se desenvolve nosso caráter mundano56. . Ou seja. 56 Ibidem. o gesto da amizade não é sempre o mesmo (beijar-se. Entretanto. O exemplo mais claro seria a linguagem. Se o homem é capaz de enriquecer o que estava pronto biologicamente. A este conjunto de objetos culturais os autores supracitados denominam de cultura em sentido objetivo. pois este a cria inspirando-se nas verdades. isso seria um sinal de que ele é capaz de superar a mera biolo- gia. Não seriam algo separado da natureza. 23 fazemos com que passe de Terra à habitát. a produtiva. ex. por- tanto. valores e fins que contempla a partir de seu mundo interior. pode-se dizer que a expressão do espírito humano é a própria cultura.). p. alguns riscos no papel) para abrir-se ao mundo dos significados (entender a mensagem à qual esses ruídos ou riscos se referem). Mas o homem seria mais que natureza. mas pode variar. 57 Ibidem. p. p. podem-se distinguir na cultura humana as dimensões expressiva e comu- nicativa. p. A cultura. para entender verdadeiramente a cultura. 350. Nascem como modificação de seres naturais (uma cadeira. a simbólica e a histórica. convencional. O cientista tem a tenta- ção de objetivar a criatividade humana em suas obras. 349. à casa. e se guardam junto dela (dentro de casa. p. compartilhar o sal). 59 Ibidem. antes de ser obra. quer dizer. é preciso não separá- la de seu autor. variável histórica58. até mes- mo transcendendo-a. dar as mãos. livre e modificável: se fixa o significado de uma palavra. Tratar-se-ia de vozes articuladas ou sinais escritos. A cultura. para os autores. para assim medi-la recolhendo leis ge- rais da sua análise. 58 Ibidem. Nesta etapa da exposição. que ocorrem sempre unidas. seria algo livre e. seu caráter de sinalizar implicaria na capacida- de de superar o seu caráter físico (um ruído. a forma dos objetos culturais remeteria a algo diferente dela mesma. 350. portanto. por exem- plo). A cultura em sentido objetivo. 349. O caráter simbólico das obras humanas seria algo convencional. mas uma continuação dela. é uma tarefa criadora59. seria uma continuação da natureza. dando especial ênfase às ações expressivas e comunicativas. e essa continuação indicaria que o homem é espírito. o natural: o caráter criador do ser humano na cultura seria uma razão importante para in- dicar que o homem não se circunscreve ao tempo biológico: ele o transcende57. que trazem um significado em si mesmos. em princípio.

Contudo. p. Para entendê-lo é útil perguntar-se quem os “escreveu”. A linguagem fala- da é talvez a ação expressiva e comunicativa mais importante na cultura65. 2) A linguagem falada expressaria o pensamento teórico e prático. Assim.. é comunicar-se. Em realidade. tendo claro que todas elas são cultura63: 1) Os gestos. e para isso nos ajuda compreender a pessoa que a ex- pressou. Dizer palavras é usar termos que têm um significado conhecido por outros. Mas se se permanecer apenas nisso. das boas-vindas. Saudar. p. aquelas nas quais a presença do espírito faz com que os bens e sentimentos que expressam sejam compartilháveis por outros. não se trataria disso: toda obra cultural carrega consigo uma verdade que se pode chegar a compreender62. às vezes o silêncio é mais expressivo do que a palavra: o homem é o único ser que faz do ca- lar um gesto característico64. que procura compreender o homem e interpretar suas obras “a partir do interior”. 24 Isso foi percebido pela escola hermenêutica. . 60 Ibidem. A hermenêutica converte-se assim em um método de compreensão e interpreta- ção de culturas e épocas distintas da nossa. 351. são a primeira forma de linguagem. 351. Ao interpretar a obra cultural. qual foi sua inspiração e que verdade pretendia ex- pressar ao fazê-lo61. 61 Ibidem. São as ações comuns por excelência. visto que as ações expressivas não costumam obedecer somente a um interesse útil. 64 Ibidem. 62 Ibidem. podemos tentar agrupá-las. p. A função expressiva da cultura destaca-se naquelas ações que têm em si mesmas um sentido e uma finalidade simultânea à sua realização. 351. p. mas expressão da verdade vista por uma subjetividade. 350. quando o homem lê um livro. que nasce da verdade expressada nelas. 351. ou con- templa uma catedral gótica. etc. o que faz é interpretar e compreender seu sentido. 63 Ibidem. 351. É importante destacar ainda que a cultura não é apenas expressão de uma subjetivida- de. trazendo à luz a inspiração e a imagem do mundo que as anima. p. te- mos de procurar a verdade expressada. visto que se pergunta pelo espírito que as fez nas- cer e procura interpretar seu sentido60. sorrir. a leitura das obras culturais se converte em pura erudição. 65 Ibidem. p. ou seja. mas parece predominar nelas uma beleza que se comunica.

a valentia. São gestos repetidos muitas vezes que outorgam segurança à vida humana. que não pode encarnar perfeitamente. Assim. levantar para cumpri- mentar uma pessoa. pois este é condição para a atenção: só quem cala pode atender. p. 358. temos as ações simbólicas. aludindo uma mão que o empunhe e a um objeto sobre o qual golpear. 358. Facilmente se convertem em ritos: o rito de uma comida de festa. são imagens com sen- tido71. p. 358. especialmente o conteúdo mais ideal. Função simbólica quer dizer. Um leão com a pata aberta é a imagem de um animal. 71 Ibidem. 351. que remete o produto humano a outra coisa68. 358. por exemplo. 68 Ibidem. 69 Ibidem. ou de uma cerimô- nia nupcial. Para entender melhor as ações simbólicas. ou remete-se a ela: um martelo está por si próprio. Em troca. p. 25 3) Os costumes. . não serve. sugere tam- bém a outra. diferente dele mesmo70. pelo fato fundamental de ser uma imagem que faz alu- são a um objeto ausente. uma bandeira. mas além disso simboliza o valor. Se o sinal não dá luzes verdes e vermelhas. Um símbolo é um objeto que. São imagens de algo. Os símbolos são algo mais do que si- nais. porque o comportamento do leão se parece com o do valente. p. é necessário compreender o que é um sím- bolo. As normas de cortesia são gestos rituais: desejar bom dia. de um sinal artificial (sinal de trânsito) e de um sinal lógico (sinal matemático). representam algo que não são eles mesmos. 70 Ibidem. em primeiro lugar. p. 67 Ibidem. acontece de modo emi- nente na linguagem. Um símbolo em sentido estrito. à parte de sua própria significação imediata. O ruído mata o calar67. esperar ou dirigir-se para um ser que nos atrai. função representativa e esta é algo próprio de toda realidade cultural. Os símbolos e as ações simbólicas são elemen- tos importantes dentro da compreensão da cultura. 4) Alguns gestos são autênticas ações receptivas porque implicam em cultivar a aten- ção para algo. a luz verde ou vermelha é uma indicação para agir de um determinado modo. vemos de algum modo a mão e o prego69. No martelo. p. As ações receptivas são a ma- neira de dirigir nossa atenção para o mundo. Costumam exigir silêncio. significam abrir-se para ele de uma determinada maneira. 351. Todo objeto e ação cultural têm uma fun- ção simbólica. 66 Ibidem. enquanto significa algo distinta de si mesma. Em um sinal de trânsito. 5) Por fim. se diferencia de uma indi- cação de um sinal natural (a fumaça é sinal de fogo). etc66. os sinais esgotam seu ser naquilo a que remetem.

75 STORK. ao futuro e ao passado. Marshall. . para relacionar-se com o au- sente. p. Disso poderíamos extrair uma conclusão: muitas ações expressivas de muitos objetos culturais são simbólicos porque plasmam materialmente essas referências que o homem faz a realidades ausentes. Ações simbólicas são aquelas nas quais a utilização de um objeto ou gesto simbólico vêm acompanhada pelo domínio ou recepção de algum bem. Remete a realidades dife- rentes a ele mesmo. A função simbólica corre a cargo da fantasia. O homem necessita dos símbolos. e sim um continuum que se estende ao infinito em ambas as direções. citado por Marshall Sahlins. 74 White. Em verdade. Por exemplo. o homem sente que a qualidade essencial de sua existência consiste em ocupar esse mundo de símbolos e idéias – ou.. op. Nesse mundo. cit. os quais pintavam o rosto para fazer guerra. como às vezes ele o chama. o mundo da mente ou do espírito. Ricardo Stork e Javier Echevarría mencionam os índios apaches. Temporalmente. imperfeita. O homem se serve dos símbolos para começar a conhecer e adornar-se de realidades que de momento não possui de todo. 73 Ibidem. Com palavras. Ele não seria feito apenas do presente. os autores definem o sím- bolo como a imagem de uma coisa. um mundo de idéias e filosofias. 107. o símbolo traz até nós uma rea- lidade ausente. superior ao símbolo. existem ações simbólicas ligadas ao uso de objetos que também o são. de maneira que começamos a possuir de algum modo o que é simbolizado. ou que nunca poderá possuir plenamente. Cultura e razão prática. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. não completamente determinado. mas representado por ele. que faz intuitivamente presente outra coisa distinta. e também dos sinais. ECHEVARRÍA. Assim. sugestiva. não constituiria uma sucessão de episódios desconexos. O símbolo é um recurso que o homem tem para fazer presentes realidades que pode ou não quer expressar de modo claro e distinto72. assevera que o homem difere do macaco e de todos os outros seres vivos por ser capaz de um comportamento simbólico. o homem cria um novo mundo. 26 E por tratar-se de um conhecimento mais imaginativo. querendo aparecer diante dos inimigos como seres terríveis. Como exemplo. mas de um passado e também de um futuro. p. da eternidade à eternidade. 359. para ampliar o raio da realidade possuída74. p. e desempenha na cultura um papel de primeira ordem73. de modo direto e imperfeito. a existência do homem é tão real quanto no mundo físico de seus sentidos. a entrega das chaves da cidade ao rei simboliza que se está 72 Ibidem. Assim. ao que não está em frente. O símbolo é uma das maneiras que o homem tem de materializar o espiritual e de superar a distância que o separa das realidades das quais quer apropriar-se75. e que por isso não são racionalizáveis. Javier Aranguren. Negá-lo seria negar que exista realidades que superem nossa capacidade de conhecer. vide SAHLINS. 2003. 359. A capacidade de usar símbolos deriva dessa singular capacidade de referir-se ao que não está presente. Nesse sentido. mas de uma maneira obscura. Esse mundo das idéias dá provas de uma continuidade e de uma permanência que o mundo externo dos sentidos jamais poderá ter. p. O símbolo é a porta de acesso ao mistério e ao misterioso. 359. Ricardo Yepes.

p. 77 GEERTZ. dentre outros casos76. que são conteúdos ou pólo teleológico das atitudes. 54. lei. geral- mente as ações simbólicas costumam realizar-se mediante as cerimônias. 81 DUSSEL. 78 Ibidem. que é o comportamento coerente e resul- tante de um reino de valores que determina certas atitudes81. p. servindo para a manutenção e desenvolvimento da vida humana em comunidade. 360. Dentre eles. p. passando pelo caráter simbólico. Sem a direção de padrões culturais – ou seja. Enrique. 1997. que são exercidos ou portados no comportamento cotidiano. Compreendido o desenvolvimento da cultura historicamente. Assim. a cultura denota a transmissão de uma cadeia de significados simbólicos. a cultura denota um padrão de significa- dos transmitido historicamente. moral e costume a seus descendentes através do aprendizado79. sistemas organizados de símbolos significantes – o comportamento do homem seria ingovernável. dentre outros fatores. Clifford Geertz preconiza que o comportamento humano é visto como ação sim- bólica77. Ainda. e sua experiência não teria praticamente qualquer forma. São Paulo: Paulinas. entendida. Clifford. 8. O homem se tornou homem quando ele foi capaz de transmitir conhecimento. não é apenas um ornamento da existência humana: é uma condição essencial para ela. temos os valores. temos os estilos de vida. 2008. a totalidade acumulada de tais padrões. moralidade – é mergulhar-se nos dilemas existenciais da vida78. um sistema de concepções herda- das expressas em formas simbólicas por meio das quais os homens comunicam. Rio de Janeiro: LTC. Com efeito. a principal base de sua especificidade. ideologia. A entrega dos anéis e as palavras que os noivos trocam significam e promessa mútua de entrega. O sinal da cruz e as palavras com que o sacerdote absolve o penitente simbolizam o perdão dos pecados. Oito ensaios sobre cultura latino-americana e libertação. incorporado em símbolos. 33-34. ciência. . 76 Ibidem. religião. lei. na visão de Geertz. pelas funções e pelas instituições sociais. Dentro deste contexto da cultura. crença. um simples caos de atos sem sentido e de ex- plosões emocionais. 80 Ibidem. 66. A interpretação das culturas. Desta forma. e olhar as dimensões simbólicas da ação social – arte. e expressam muitas vezes a entrega ou recepção de bens imateriais. p. pelas suas ações simbólicas. podemos concluir com outros aspectos importantes para se formular um possível conceito de cultura. 79 Ibidem. 21. 27 dando a ele o poder sobre a cidade. p. perpetuam e desenvolvem seu conhecimento e suas atividades em relação à vida80. p. A cultura.

pode-se incluir que este patrimônio simbólico também está presente na corporalidade humana. ou ainda um conjunto de atributos culturais inter- relacionados. razão pela qual a identidade não subsistiria.. Vozes. Manuel. p. 6ª ed. elas apenas assumem esta condição quando e se os atores sociais a interiorizam. podemos seguir a descrição que Enrique Dussel82 elabora sobre a definição de cultura83. Por sua vez. Darcy. 85 Ibidem. 82 Ibidem. nos gestos corporais. 1.o conjunto orgânico de comportamentos predeterminados por atitudes di- ante dos instrumentos de civilização. O processo civilizatório. p. antes devemos expor algumas considerações sobre o que vem a ser a identidade. 34. a identidade seria o processo de construção do significado com base num atributo cultural. 28 Após realizadas todas estas considerações.1. os quais prevalecem sobre outras formas de significado. nos artefatos e bens. 83 Nesse sentido. .. Para tanto. dentre outros aspectos. elemento de igual importância para expor como. materialmente. Contudo. por eles originadas. Petrópolis. 2003. estilos de vida que se manifestam em obras de cultura e que transformam o âmbito físico-animal em um mundo humano. Em uma tentativa de ampliar este conceito. p. 84 CASTELLS. o autor ressalta que as identidades constituem fontes de significado para os próprios atores. no âmago da constituição de uma identidade.2 Notas sobre identidade cultural Para Manuel Castells84. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. igualmente Darcy Ribeiro enfatiza a cultura como patrimônio simbólico dos modos padroniza- dos de pensar e de saber. 3. isto é. Esta seria . se constituem como elementos da corporalidade humana. Realizadas estas considerações sobre a cultura. 3. Embora as identidades também possam ser formadas a partir de instituições dominantes. que se manifestam. O poder da identidade. e construídas através de um processo de individualização. tanto a identidade como a cul- tura. a interioriza- ção de determinados valores e modos de vida devem ser internalizados pelo indivíduo. 1981. um mun- do cultural. p. nos rituais. vide RIBEIRO. 55. construindo o seu significado com base nessa interiorização85. Sobre a concepção simbólica de cultura. cujo conteúdo teleológico é constituído pelos valores e símbolos do grupo. passemos à exposição sobre a identi- dade cultural.

O centro essencial do eu era a identidade de uma pessoa. costuraria o sujeito à estrutura. mas este é formado e modificado num diálogo contínuo com os mundos culturais “exteriores” e as identidades que esses mundos oferecem88. O sujeito. b) a concepção de identidade do sujeito sociológico e c) a concepção de identidade do sujeito pós-moderno. De acordo com esta visão. argumenta-se que seriam exatamente essas coisas que agora estariam mu- dando. 89 Ibidem. p. No tocante à concepção de identidade do sujeito do Iluminismo. A identidade. tornando ambos reciprocamente mais unificados e predizíveis89. esta noção refletia a crescente complexidade do mundo moderno e a consciência de que este núcleo interior do sujeito não era autônomo e auto-suficiente. p. tornando-se “parte de nós”. p. as quais seriam: a) a identidade do sujeito do Iluminismo. cujo centro con- sistia num núcleo interior. que mediavam para o sujeito os valores. Hall destaca que este sujeito estava baseado num conceito de pessoa humana como um indivíduo totalmentre cen- trado. sentidos e símbolos – a cultura – dos mundos que ele habitava. 87 Ibidem. 2006. Trata-se de uma concepção individualista do sujeito e de sua identidade87. O sujeito ainda tem um nú- cleo ou essência interior que é o seu “eu real”. H. 10-13. que emergia pela primeira vez quando o sujeito nascia e com ele se desenvolvia. Entretanto. H. ao mesmo tempo que internalizamos seus significados e valores. preencheria o espaço entre o “interior” e o “exterior” – entre o mundo real e o mundo público. 10-13. nessa concepção sociológica. de acordo com os estudos de Stuart Hall 86. 88 Ibidem. 10-13. previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável. a identidade seria formada na interação entre o eu e a sociedade. A identidade cultural na pós-modernidade. que se tornou a concepção sociológica clássica da questão. mas era formado na relação com outras pessoas importantes para ele. G. pode-se ainda expor que existem basicamente três concep- ções distintas de identidade. então. dotado das capacidades de razão. p. . No que concerne ao conceito de identidade do sujeito sociológico. e estabilizaria tanto os sujeitos quanto os mundos culturais que eles habi- tam. Cooley e os interacionistas simbólicos seriam as figuras-chave na sociologia que elaboraram esta concepção interativa da identidade e do eu. unificado. O fato de que projetamos a “nós mesmos” nessas identidades culturais. contribuiria para alinhar nossos sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo social e cultural. estaria 86 HALL. Stuart. ainda que permanecendo essencialmente o mesmo – contínuo ou idêntico a ele – ao longo da existência do indivíduo. Rio de Janeiro: DPA. 29 Feitas estas considerações. de consciência e de ação. A identidade. 10-13. Mead e C.

e que se influenciam mutuamente. não ocasionaria uma dissolução ou colapso das identidades. mostra-se importante para se definir uma identidade. O próprio processo de identificação. dentre outras). formada e transformada continu- amente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. Para Hall. em que se abre as portas para o estudo das mais diversas culturas. pode-se seguir uma linha intermediária entre o sujeito sociológico e o sujeito denominado “pós-moderno”. composto não de uma única. 10-13. através do qual nos proje- tamos em nossas identidades culturais. e não biologicamente. conceitualizado como não tendo uma identidade fixa. com cada uma das quais poderíamos nos identificar92. em que o sujeito internaliza determinados valores e conceitos. identidades que não seriam unificadas ao redor de um “eu” coerente91. 30 se tornando fragmentado. A fragmentação. as quais compu- nham as paisagens sociais “lá fora” e que asseguravam nossa conformidade subjetiva com as “necessidades” objetivas da cultura. 91 Ibidem. a identidade plenamente unificada. mas de várias identidades. estariam entrando em colapso. A identidade provém de um processo de aprendizado. que seria a do sujeito pós-moderno. completa. variável e problemá- tico90. 90 Ibidem. 10-13. defendido pela corren- te sociológica. O sujeito as- sumiria identidades diferentes em diferentes momentos. Por sua vez. teria-se tornado mais provisório. religiosas. as identidades. na medida em que se produzem uma maior gama de identidades (se- jam étnicas. 92 Ibidem. vivendo de acor- do com eles. diante da sociedade globalizada. esse processo produziria a terceira concepção de identidade. mas uma abertura ao descobrimento da existência de muitas outras identidades que se apresentam em nossa coexis- tência humana. Com efeito. seríamos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis. . Ao invés disso. Seria definida historicamente. 10-13. como resultado de mudan- ças estruturais e institucionais. esse processo de interação entre os seres humanos ganha muito mais intensidade. Isto porque o elemento interativo. segura e coerente não seria possível. p. já que esta não se produz sem a interação com os demais seres humanos. A identidade tornar-se-ia uma “celebração móvel”. Correspondentemente. p. p. essencial ou per- manente. defendida pela corrente “pós- moderna”. algumas vezes contraditórias ou não resolvidas. Neste aspecto. à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicariam.

uma união numa unidade97. . aponta para o mes- mo. Contribuindo com este tema. A identidade é simplesmente aquilo que se é: “sou brasileiro”. As mudanças e transformações globais nas estruturas políticas e econômicas no mundo contem- porâneo colocam em relevo as questões de identidade e as lutas pela afirmação e manutenção das identidades nacionais e étnicas94. Petrópolis: Vozes. ipseidade esta que faz com que um ser seja ele próprio. p. A ipseidade coloca o caráter (conjunto das marcas distintivas que permitem identificar um indivíduo humano como o mesmo) em movimento. temos a identidade-ipse. Porém. 1. a diferença é aquilo que o outro é: 93 SILVA. a identidade: a ipseidade. em cada identidade incidirá uma relação “com”. A mesmidade indicaria o retorno do mesmo ao longo do tempo.). em que esta. a ipseidade necessita da estabilidade trazida pela mesmidade e de um constante diálogo com ela. não se projeta apenas nos outros homens. (Org. Por outro lado. v. 25. ou seja. 95 Ibidem. E como Heidegger leciona. Maria Cristina Cereser Pezzella. Cabe salientar que a relação mesmi- dade e ipseidade não se sustenta em uma exclusão de um ou outro. “sou negro”. Petrópolis: Vozes. A identidade as- sim concebida parece ser uma positividade (aquilo que sou). se configura num momento de alteridade. Identidade e diferença. mas sem que com isto seja anulada. e novas identidades estão sendo forjadas. em oposição à identidade. Martin. compreendida como uma etapa de estranhamento. também a diferença é concebida como uma entidade inde- pendente. p. Identidade e diferença – a perspectiva dos estudos culturais. A ipseidade. em sua obra “O si-mesmo como um outro”. a identidade só tem como referência a si própria: ela é autocontida e autosuficiente95. 94 Ibidem.). Pessoa humana e boa-fé objetiva: a alteridade que emerge da ipseidade. é cada vez mais presente a descoberta de novas identidades e referenciais de visão de mundo. In: José Carlos Moreira da Silva Filho. Tomaz Tadeu da. signifi- ca o mesmo96. uma dialética do si-mesmo e do diverso de si. reidentificando um indivíduo humano como o mesmo. no sentido de que os processos históricos que. Ou seja. muitas vezes por meio da luta e da contestação política 93. O idêntico (que constitui a identidade). 2008. pareceria ser fácil definir “identidade”. Em uma primeira aproximação. ou seja. Nesta linha de pensamento. Apenas. Para mais informa- ções. Para tanto. a estabilidade e durabilidade . mas inclusive à própria consciência e ao corpo próprio. Paul Ricoeur. (Org. p.. 96 Vale ressaltar que esta identidade geralmente está relacionada com a mesmidade. Rio de Janeiro: Lumen Juris. Subsiste uma crise de identidade. Nessa perspectiva. ou da mesmidade. instaura-se uma dialética entre estas duas formas de identidade. Outro aspecto importante a ser debatido em torno da temática da identidade é a sua relação com a diferença. 74. 1ª ed. 2006. não deve ser compreendida somente neste sentido. 291-323. que comporte tanto o movimento que vai do outro para o mesmo. de um lado. 31 Também podemos destacar que diante da velocidade da informação e do conhecimen- to. um fato autônomo. Assim. e não outro. Mitos e Rupturas no Direito Civil Contemporâneo. Ricoeur propõe. p. assim. uma característica independente. traz à tona outro elemento que demarca a interioridade. “sou homem”. que nos traz a figura do mesmo. 97 HEIDEGGER. José Carlos Moreira da. vide SILVA FILHO. neste caso. 39. p. em latim idem. por sua vez. quanto o que vai do mesmo para o outro. que aponta para a ipseidade. temos a identidade-idem. Identidade e diferença são elementos interdependentes. 2009. 39. apa- rentemente sustentavam a fixação de certas identidades estão entrando em colapso. mas de uma relação complementar. de diálo- go.

concebida como auto-referenciada. Por trás da afirmação “sou brasi- leiro”. a diferen- ça é. 102 Ibidem. 101 Ibidem. A identidade e a diferença são ativamente produ- zidas. dever-se-ia dizer: “não sou argentino”. “ ele é branco”. Dizer que são o resultado de atos de criação lingüística significa que não são elementos da natureza. p.). 76. 76. que ela não seria o que eu sou. 98 SILVA. Somos nós que as fabricamos. 99 Ibidem. Desta forma. de expressões negativas de identidade. numa ca- deia quase interminável100. (Org. as afirmações de identidade não fariam sentido. parece que estamos fazendo referência a uma identidade que se esgota em si mesma. tal como a identidade. A diferença. Elas não são criaturas do mundo natural ou de um mundo transcendental. Dizer “ela é chinesa” significa dizer que “não é brasileira”. p. como algo que remete a si própria. De certa forma. mas do cultu- ral e social. A iden- tidade e a diferença são criações sociais e culturais102. p. Identidade e diferença – a perspectiva dos estudos culturais. cit. no contexto de relações culturais e sociais. 75. 74. que não são essências. 76. A forma afirmativa como expressamos a identidade tende a esconder essa relação. que não são coisas que estejam simplesmente aí. a diferença depende da identidade. seria isso que ocorre com nossa identidade de “huma- nos”99. As afirmações sobre diferença tam- bém dependem de uma cadeia. portanto. no qual todas as pessoas partilhassem a mesma identidade. as afirmações sobre diferença só fazem sentido se compreendidas em sua relação com as afirmações sobre a identidade. “não sou chinês”. só fazemos esta afirmação porque existem outros seres humanos que não são brasileiros. nesta perspectiva. em geral oculta. .. identidade e diferença partilham uma outra caracte- rística: elas são o resultado de uma criação lingüística. Além de serem interdependentes. Da mesma forma que a identidade. isto é. 32 “ele é italiano”. seria simples compreender que identidade e diferença estão em relação de estreita dependência. “ela é mulher”. Assim como a identidade depende da diferença. e assim por diante. simplesmente existe98. inseparáveis101. de declarações negativas sobre (outras) iden- tidades. A afirmação “sou brasileiro” seria parte. Quando dizemos “sou brasileiro”. de diferenças. op. Entretanto. 100 Ibidem. Identidade e diferença são. em verdade. Tomaz Tadeu da. p. de uma extensa cadeia de nega- ções. Da mesma forma. p. Em um mundo imaginário totalmente homogê- neo.

então. examina diferentes concepções de identidade cultu- ral. Nesse sentido. além disso. O autor afirma que haveria duas formas diferentes de pensar a identidade cultural: a primeira reflete o fato de que uma comunidade busca recuperar a verdade sobre seu passado na unicidade de uma história e de uma cultura partilhadas que poderiam. ser representadas. 105 Ibidem. Petrópolis: Vozes. seja da antiga União Soviética. Identidade e diferença – a perspectiva dos estudos culturais. em uma forma cultural como o filme. 104 Ibidem. Nesse sentido. seja na Europa Oriental. nós a recons- truímos e que. 33 Feitas estas considerações sobre cultura. sempre. a autora expõe que Hall toma como seu ponto de partida a questão de quem e o que nós representamos quando falamos. 2009. a segunda concepção de identidade cultural é aquela que a vê como “uma questão tanto de tornar-se quanto de ser”. Ele sugere a fluidez da identidade: ao ver a identidade como uma questão de tor- nar-se. Kathryn. p. destaca que este. ou ainda na Escócia ou no País de Gales. mas não de uma identidade fixada na rigidez da oposição binária “nós/eles”. p. Ao afirmar uma determinada identidade. baseando-se. cabe trazer algumas considerações sobre a identidade cultural. por exemplo. em sua obra Identidade cultural e diáspora. buscam na validação do passado o conceito de “identidade cultural”. mas reconhecer que. Ele argumenta que o sujeito fala. reportando-se aos estudos de Stuart Hall. Esse passado seria parte de uma “co-munidade imaginada”. a partir de uma posição histórica e cultural específica. o passado sofre uma constante transformação105. 27. Kathryn Woodward103. . p. empiricamente. de qualquer forma. 28. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. os movimentos nacionalistas. podemos buscar legitimá-la por referência a um suposto e autêntico passado – possivelmente glorioso mas.). para reforçar e reafirmar a identidade. Hall argumenta em favor do reco- nhecimento da identidade. utilizando o exemplo das identidades da diáspora negra. na representação cinematográfica104. In SILVA. uma comunidade de sujei- tos que se apresentam como sendo “nós”. Tomaz Tadeu da. procurando analisar o processo pelo qual se busca autenticar uma determinada identidade por meio da descoberta de um passado supostamente comum. Isso não significaria negar que a identidade tenha um passado. identidade e diferença. um passado que parece real – que poderia validar a identidade que reivindicamos. 27. Ao expressar demandas pela identidade no presente. (Org. aqueles que reivindicam a identidade não se limitariam a ser posicionados pela identi- 103 WOODWARD. ao reivindicá-la.

In FUNARI. essa memória é ativada visando. portanto. 107 SILVA. as artes. uma reconstrução engajada no passado. o processo de início da modernidade como marco histó- rico de negação da diferença. as festas. Stella. Entre sentimentos e ressentimento: as incertezas de um direito das minorias. dar continuidade à cadeia simbólica que se reproduz e identifica a especificidade de um grupo humano. 28. Para tanto. a identidade cultural. A antiguidade romana e a descontração das identidades nacionais. p. herdadas de um suposto passado comum106. Identidades. Trata-se de um processo dinâmico. que se alimenta de várias fontes no tempo de no espaço. passar-se-á a expor um caso de exemplificação de um processo de extermínio e negação de uma cultura e de uma identidade cultural. A história do grupo no qual o indivíduo se insere o obriga a assimilar a herança que a simboliza. Charles E. qual seja. o controle do passado e. Ela caracteriza um sistema de representação de relações entre indivíduos e grupos. Disponível em: <http://www. inserindo- se nas estratégias de reivindicação por um completo direito ao reconhecimento. Definidos os aspectos principais sobre a cultura e a identidade cultural. Fapesp. discurso e poder: estudos de arqueologia contemporânea. entre outros109. 108 KOUBI.gov. A identidade cultural origina-se de um fenômeno coletivo108. a religião. Pedro Paulo A. Acesso em: 28 abr. tanto do presente quanto do futuro. JR. pode-se constatar que a identidade cultural está calcada em uma memó- ria coletiva de seu passado. porquanto é influenciado pelo sentimento de pertença a uma cultura. Gladson José da. a associar sua vivência pessoal à visão que o grupo de referência propõe. SCHIAVETTO. p. 539.). . A identidade cultural permite. como a língua. In BRES- CIANI. e que desempenha um papel fundamental na maneira como os grupos sociais apreendem o mundo presente e reconstroem sua identidade. Ela evidencia o sentimento de identidade de um grupo ou de um indivíduo. os esportes. Nesse sentido. Lúcia Maciel Barbosa de. 2005. Cam- pinas: Unicamp. Orser. Identidade cultural.esmpu. NAXARA. de construção continu- ada. Geneviève. 109 OLIVEIRA. bus- ca na memória também seu fundamento.php?page=Identidade%20cultural>. de alguma forma. pela memória. que envolve o compartilhamento de patrimônios comuns. Márcia. 94. como conjunto humano simbólico e mnemônico.br/dicionario/tiki-index. A memória figura como uma criação do passado. 2011. transmitir aos outros. 106 Ibidem. o trabalho. Solange Nunes de Oliveira (Org. 2001.. p. do presente107. que compreende seus valores e modos de vida que se busca perpe- tuar. 34 dade: eles seriam capazes de posicionar a si próprios e de reconstruir e transformar as identi- dades históricas. Memória e (res)sentimento – indagações sobre uma questão sensível. São Paulo: Annablume.

Foram necessários 150 anos para que o antigo paradigma111 do antigo mundo entrasse em crise e assim se dessem as condições de possibilidade históricas para que se formulasse explicitamente um novo paradigma.2 O ETNOCÍDIO NAS RAÍZES DA MODERNIDADE: O PROCESSO DE EN- CONBRIMENTO DO OUTRO A PARTIR DA CONQUISTA DA AMÉRICA Entender como o processo de encobrimento do conquistado ocorreu significa compre- ender melhor como o etnocídio atenta contra a especificidade cultural de um povo. pois é a partir deste momento que a ação de aniquilamento do Outro. buscando exterminar a cadeia simbólica de transmissão de crenças. Homens cuja pesquisa está baseada em paradigmas compartilhados estão comprometidos com as mesmas regras e padrões para a prática científica. o paradigma caracteriza-se por dois elementos essenciais: a) suas realizações atraem um núme- ro de partidários. en- tre o mundo antigo. 111 A ideia de paradigma é fundamental para o entendimento acerca da mutação das bases teóricas de uma ciên- cia.2.1 Modernidade. p. . do indígena. constituiu os primeiros passos para a constituição da modernidade. se produzem dois fatos que passam desapercebidos aos historiadores da filosofia (e de outras especialidades epistêmico-sociais)110. Vide KUHN. Uma vez que ali o estudante reúne-se a homens que aprenderam as bases de seu campo de estudo a partir dos mesmos modelos concretos. p. colonialidade e a conquista da América No que concerne especificamente sobre a modernidade e a conquista da América. Tomas. muitos dos quais bem mais especializados do que os indicados acima. sua prática subseqüente raramente irá provocar desa- cordo declarado sobre pontos fundamentais. é o que prepara basicamente o estudante para ser membro da comunidade científica determina- da na qual atuará mais tarde. Política de la liberación – história mundial y crítica. com metodologia científica e filosófica que se inspira na epistemologia do mundo islâ- 110 DUSSEL. secundária e periférica. mediante a imposição de uma cultura. afastando-os de outras formas de atividades científicas dissimilares e b) suas realizações são suficientemente abertas para deixar toda espécie de problemas para serem resolvidos pelo grupo redefinido de praticantes da ciência. 1998. O estudo dos paradigmas. A estrutura das revoluções científicas. que é a origem da modernidade européia. tradições e saberes que definem a identidade de um grupo humano. e o do- mínio sobre o “novo mundo”. Madrid: Trotta. 2007. A conquista da América abre um estágio sem precedentes na História. Esse comprometimento e o con- senso aparente que produz são pré-requisitos para a ciência normal. De 1492 a 1630. Enrique. 30-31. isto é. Isto significa que alguns exemplos aceitos na prática científica real proporcionam modelos dos quais brotam as tradições coerentes e es- pecíficas da pesquisa científica. São Paulo: Pers- pectiva. para a gênese e a continuação de uma tradição de pesquisa determinada. A modernidade não transitaria do renascimento italiano à revolução científica e filosó- fica do século XVII de maneira direta e sem mediações. 192. Para o autor. O termo paradigma também é relacionado com “ciência normal”. 35 1. 1. Trata-se de um caso específico que ilustra a prática do etnocídio. em que a Europa foi uma região isolada.

tanto a América Latina quanto a Espanha tiveram um papel fundamental na formação da Era Moderna. como o excluído.). . 36 mico. O século XVI já não é um momento da Idade Média. p. Enrique Dussel também chama a atenção para o fato de que. se foram criticando os pressupostos do antigo paradigma e se criaram as condições em que se começou a formular um novo paradigma112. filosófico e político) da nova Idade. Constantinopla. 193. para Dussel. 227-228. In WOLKMER. Da “invasão” da América aos sistemas penais de hoje: o discurso da “inferioridade” latino-americana. A explosão do imaginário que o descobrimento da América produziu na Europa é certamente o começo de uma nova Idade. havia sido tomado pelos turcos otomanos em 1453 e seu nome passou a ser Istambul. 3. 2006. 115 SILVA FILHO. antigo centro comercial europeu. É a modernidade nascente em sua primeira etapa. No entanto. porém desde uma problemática já moderna. ed. A descoberta do novo mundo possibilitou que a Europa saísse da imaturidade subjetiva da periferia do mundo muçulmano e se desenvolvesse até tornar-se o centro da história e o senhor do mundo. na ilha de Cuba. Antonio Carlos (Org. igualmente uma exterioridade constitutiva da nova compreensão do ser humano. 114 Ibidem. 113 Ibidem. cit. a de uma Europa que começa a sua abertura a um novo mundo que a reconecta com parte do antigo mundo. em 112 DUSSEL. latino-medieval e renascentista. A Europa se abriu a um imenso espaço exte- rior. contrariamente ao enten- dimento de Hegel ou Habermas. ocasião em que as rotas comerciais terrestres que levavam até as Ìndias estavam bloqueadas. Até o final do século XV. se necessitou de todo o século XVI para que fosse possível a formulação de um novo modelo (científico. Belo Horizonte: Del Rey.. Nesse sen- tido. entre o mundo antigo e a formulação acabada do paradigma do mundo moderno. op. capta o problema central político de toda a modernidade até o presente. 193. já moderno. Este século XVI é a chave e a ponte. Copérnico avança o heliocentrismo como “hipótese” em 1514 – data em que Bartolomé de las Casas. o Outro (o indígena e o escravo africano) será. o asiático. 193. Fundamentos de história do direito. Neste contexto. mas o primeiro século da moder- nidade. os portugueses levaram adiante seu esforço com a caravela. constituin- do o primeiro sistema-mundo113. p. que havia sido iniciado desde o descobrimento da América. o ne- gado114. na conquista do México115. p. restava descobrir uma rota marítima que contornasse a África e atingisse as Ìndias. Enrique. Como as cruzadas haviam fracassado. Política de la liberación – história mundial y crítica. o que os levou a chegar. estado que simbolicamente foi atingido com a figura de Cortez. p. José Carlos Moreira da. a Europa foi paulatinamente sendo isolada pelo mundo mu- çulmano.

Neste aspecto. por recusarem o “modo civilizado de vida” ou a “salvação”. enquanto os eu- ropeus eram considerados inocentes117. que simplesmente nega a identidade do “outro”. em seu estudo sobre o sistema penal. Tudo isto estaria simbolizado no “mito sacrificial”. 1991. seja através de uma postura assimilacionista. Em busca das penas perdidas. 228. sob o comando de Bartolomeu Dias. Para tanto. guardadas as suas devidas peculiaridades no contexto histórico de cada período. como parâmetro para o Mundo. Diante disso. segundo. 118 A expressão é originalmente empregada pelo jurista Eugênio Raúl Zaffaroni. antes. toda a violência derramada na América Latina eram em. por serem “seres inferio- res” e. além de inaugurar a Era Moderna. à costa africana. Efeti- vamente foi o início de um processo que até hoje produz reflexos em nossa região margi- nal118. o fundamento de todo o processo de colonização no Continente americano. relacio- nada com o exercício em larga escala de uma violência irracional nas colônias. 37 1488. no mercantilismo. não apenas física. Eugenio Raúl. Zaffaroni119 refere que há cinco séculos nosso território vem sendo subme- tido a um chamado processo de atualização histórica incorporativa. No entanto. verdade. p. p. Contribuindo com estes aspectos preliminares sobre a origem da modernidade e a con- quista da América. 118. mas em desmascarar a existência de uma outra face desse processo de modernização. seria possível reconhecer que 116 Ibidem. ou seja. um “sacrifício necessário”. Ini- cialmente. os ne- gros. tornando-se o centro do mundo e passando a impor seu “ser” a “outro”116. que é produto de duas revoluções sucessivas: a revolução mercantil (Século XVI) e a industrial (Século XVIII). E na atualidade. um “benefício” ou. foi somente a partir da experiência de Colombo que efetivamente a Europa apoderou-se de uma nova universali- dade. os indígenas ou mestiços eram duplamente culpados: primeiro. mas sobretudo cultural. houve a prática de um neocolonialismo que ainda perdura. 119 Ibidem. 227. a grande crítica de Dussel em relação à concepção de modernidade não estaria em negar aquilo que seria chamado de “núcleo libertário” ou “razão emancipatória”. A conquista da América. em torno da perda da legitimidade do sistema penal. . tendo a América do Norte se di- mensionado como o centro. a origem. e muitas das suas características ainda são presentes em nossa realidade da América Central e Latina. o termo se refere ao âmbito da Améri- ca Latina. na obra Em busca das penas perdidas. posteriormente. seja através da simples exclusão e eliminação. as potências européias realizaram a incorporação dos povos americanos à civilização mercantil na forma do colonialismo. Rio de Janeiro: Revan. constitui-se como a genea- logia. p. Em ZAFFARONI. 117 Ibidem.

as quais deram con- tinuidade ao empreendimento genocida e etnocida do colonialismo. a atual revolução tecnocientífica. Seriam os dois capítulos genocidas. p. dava-se em função do marco teórico teológico (ou seja. Com base nesta tripartição. naturalmente constituído para sua sobrevivência cultural e biológica. 38 nosso estágio atual é a revolução tecnocientífica. por uma inferioridade fundada pela razão de que os habitantes da América não possuiriam o mesmo grau de civilização. E a América Latina (como todo o povo que a constitui) seria definida pela ausência de capacidade política para protagonizar uma aceleração histórica122. franceses e holandeses. e no neocolonialismo. Rio de Janeiro: Revan. Esta inferioridade. e a escravidão através do transporte de africanos constituiriam as características evidentes do colonialismo. 121 ZAFFARONI. des- baratando suas organizações sociais e reduzindo os sobreviventes à condição de servidão e escravidão. que tem causado uma constante degradação ambiental. Nesse sentido. deste modo. a inferioridade dos povos da América pelo fato de não terem recebido a mensagem cristã). fato este que influi muitas vezes para a execração de minorias étnicas que dependem do ecossistema. 34-35. op. em tor- no do domínio tecnológico em determinadas áreas (como a informática. oriundos da incorpora- ção forçada. a revolução industrial e. A exigência de mão-de-obra extrativa determinou o tráfico escravista africano. eliminando a maior parte da população americana. Já a revolução tecnocientífica caracteriza-se pela luta. portanto. Em busca das penas perdidas. desencadearam guerras de destruição intermináveis e transportaram a população marginal européia para substituir a po- pulação desprezada como inferior. O poder colonialista. 122 Não é demais ressaltar dentro deste aspecto o processo ilimitado da expansão econômica. em que suas conseqüências são imprevisíveis. a ener- gia nuclear e robótica). Portanto. a tecnologia. 120 ZAFFARONI. 119. cit. a destruição das culturas pré-coloniais dos dois conti- nentes120. Eugenio Raúl. Zaffaroni refere que tanto o colonialismo como o neocolo- nialismo foram momentos distintos de genocídio e etnocídio. contudo. exerceu-se sob a forma de genocídio.. O inimigo no direito penal. p. praticada em razão de uma ideologia da inferioridade. entre os países centrais. 2007. . a destruição de culturas originárias e a morte dos habitantes eram fatos que impressionavam os próprios colonizadores. nosso processo histórico até então poderia se resumir nestas três etapas: a revolução mercantil. provocando. levado a cabo por comerciantes ingleses. no co- lonialismo. ou eram biologicamente inferiores121. que compravam prisioneiros e inimigos. o neocolonialismo destacou-se por implementar lutas que impuseram o poder de minorias locais em favor dos interesses de potências industriais. igualmente nefastos. por fim. De outro lado. Eugenio Raúl.

assim como a chamada guerra justa. estava autorizada a guerra e a escravidão125. 126 Ibidem. vender-vos-ei e disporei de vós segundo as ordens de Suas Altezas. como inferiores. para fins de fe- chamento destas notas preliminares no âmbito histórico.pdf>. Tomarei vossos bens e far-vos-ei todo o mal. 2003.ufsc. resistem a ele e o contradizem’. 125 O conteúdo do documento era este: ‘Se não o fizerdes. Lu- ciano. e muitas vezes os pró- prios conquistadores dispensavam tal procedimento por questão de simplificação 126. os indígenas apenas escutavam. terão de acatar as medidas. 124 CARVALHO. 59. Direito e barbárie na conquista da América indígena. que teria transmitido por sua vez ao Papa. não querem recebê-lo. . em caso de resistência. Citado por TODOROV. ou se demorardes maliciosamente para tomar uma decisão. São Paulo: Martins Fontes. garantindo-lhes a possibilidade de escolha: poderiam acatar a dominação de forma pacífica. o poder espiritual e o poder do homem conquistador são confundidos pela conotação de que Deus está ao lado dos europeus e os indígenas. e sujeitar-vos-ei ao jugo e à obediência de Suas Altezas. ao contrário. p. 213. sendo impelidos a suportar as conse- qüências de uma suposta desobediência decorrente de sua incompreensão da linguagem do Outro. Madrid: Mapfre.br/arquivos/direito%20e%20barb%E1rie. eis os processos pelos quais a América sofreu influência. La Idea de Justicia en la Conquista de América. Capturarei a vós. Curiosamente. Fernando de Aragão e Isabel de Castela124. Este instrumento era lido a toda comunidade indígena prestes a ser invadida.buscalegis. em caso de resistência dos indígenas. é necessário ressaltar que não se trata de uma mera substituição de um saber por outro decorrente de cada período histórico. convertendo-se à ideologia dos colonizadores ou. Lucas Borges de. Ademais. XVIII) e os projetos tecnocolonialistas da revolução tecnocientífica (Séc. como convém a vassalos que não obedecem a seu senhor. No caso específico da colonização da América. o Requerimiento informava ao povo sua condição de vassalos da Coroa. Jesus teria transferido a posse sobre o continente americano a São Pedro. p. p. vossas mulheres e filhos. 1992. Escravos. e reduzir-vos-ei à escravidão. XVI). 214. a acumulação das características de cada momento que integram os mecanismos de poder que se entrecruzam. que por fim teria retransmitido aos reis católicos. A Conquista da América – a questão do Outro. A justificativa do emprego de tal docu- mento (que era lido diante dos nativos) era que Jesus Cristo era considerado o Senhor supre- mo de todas as terras e o “chefe da linhagem humana”. 2011. vos garanto que. 39 O colonialismo da revolução mercantil (Séc. 123 Maiores detalhes sobre este instrumento jurídico do período da conquista constam na obra de PEREÑA. invadir-vos-ei poderosamente e far-vos-ei a guerra de todos os lados e de todos os modos que puder. Acesso em: 07 jun. todo o dano que puder. É um dos mais importan- tes documentos jurídicos que garantia a intervenção nas colônias. com a ajuda de Deus. mas da junção. Tzvetan. Enquanto os espanhóis falavam. o neocolonialismo da revolução industrial (Séc. estes textos eram lidos sem qualquer intérprete. Disponível em: <http://www. XX). em 1514 o jurista e conselheiro dos reis católicos Palácios Rúbios elabora o chamado Requerimiento123. No entanto.

Assim. mas sim enquan- to inferiores em sua natureza material e. por isso. Aníbal. irracionais e racionais.br/pdf/ea/v19n55/01. a destruição histórico-cultural e a produ- ção de identidades racializadas teve também entre suas vítimas os habitantes seqüestrados no local em que hoje chamamos África. 344. além da destruição de seu mundo histórico- cultural prévio. âmbitos e dimensões. 130 Ibidem. Disponível em: <http://www. para muitos. Disponível em: <http://cisoupr. Para Aníbal Quijano129. 2011. Acesso em: 04 mai. como escravos e em seguida racializados como “ne- gros”. materiais e subjetivas. da existência social cotidiana127. Esta colo- nialidade se fundamenta na imposição de uma classificação racial/étnica da população do mundo como pedra angular de dito padrão de poder. colonial e derrogatória: “índios”. Colonialidad del poder y classificación social. mas às próprias pessoas130. E o principal núcleo da colonialidade/modernidade eurocentrada foi uma concepção de humanidade segundo a qual a população do mundo se diferenciava em inferiores e superiores. a primeira categoria social da modernidade. 17. 342. Acesso em: 28 abr. porém não menos eficaz. e opera em cada um dos planos. 2011. durante quinhentos anos foi-lhe ensi- nado olhar-se com os olhos do dominador131. 128 Ibidem. Aníbal.pdf>. ficou associada não só à materialidade das rela- ções sociais. p. . De modo diferente.scielo.net/documents/jwsr-v6n2-quijano.pdf>. Dom Quixote e os moinhos de vento na América Latina. e emergiu como um modo de naturalização das novas relações de poder impostas aos sobreviventes deste mundo em destruição: a idéia de que os dominados são o que são. Tratava-se de um produto mental e social específico do processo de destruição de um mundo histórico e do estabelecimento de uma nova ordem. como em- blema de seu novo lugar no universo do poder. p. racial. foi imposta a esses povos a idéia de raça e uma identidade racial. Essa idéia de raça foi tão profunda e continuamente imposta nos séculos seguintes e sobre o conjunto da espécie que. p. não como vítimas de um conflito de poder. A vasta e plural história de identidades e memórias do mundo conquistado foi delibe- radamente destruída e sobre toda a população sobrevivente foi imposta uma única identidade. em primitivos e civilizados128. 131 Ibidem. a concepção de raça foi o primeiro sistema de dominação so- cial. decorrente de um padrão de poder denominado colonialidade. 40 Este processo de conquista irá dar origem a um sistema de dominação colonial medi- ante a idéia de raça. p. de um novo padrão de poder. p. 129 QUIJANO. Estes provinham também de complexas e sofisticadas experiências de poder e de civi- 127 QUIJANO. 17. no que a idéia de raça teve um papel central. 17. em sua capacidade de produção histórico- cultural. E ainda.

17. Porto Ale- gre: L&PM. da experiência prévia de sociedade. a “cor”. desde os romanos. vide CARVALHO. p. Bartolomé de. o trabalho indígena. talvez. bacongos. do universo. tratava-se de uma justificativa oficial para o implemento da escravidão. e em 1704 chegou a quatro vidas nas localidades onde as Leis Novas. 134 Ibidem. Os es- cravos negros não serão embutidos nessa idéia de raça senão muito mais tarde na América colonial. Nesta se produz e se estabelece a idéia de “branco”. 17. da experiência prévia das redes de relações primárias e societárias133. Os indígenas eram consi- derados livres. Até 1536. cit. qual seja. O Paraíso destruído. sobretudo desde as guerras civis entre os encomenderos136 e as forças da Coroa. 18. O indígena era encomendado – como escravo – e não pagava este tributo diretamente ao seu senhor (que era o rei). p. Aníbal. . 133 Ibidem. p. não foram adotadas. 136 Em síntese. Dom Quixote e os moinhos de vento na América Latina. op. iorubas. Nesse sentido. E embora a destruição daquelas mesmas sociedades tenha iniciado mais tarde e não tenha alcançado a amplitude e profundi- dade que alcançou na América. pelo prazo de duas vidas: a do encomendero e a do herdeiro imedi- ato. etc) 132. a partir de 1629. As vítimas originais e primordiais dessa relação e dessa idéia são os “índios”135. nestes moldes a encomenda não era algo que implicava em propriedade sobre os índios (que continuariam sendo vassalos livres) nem sobre suas terras. discriminada e explorada dentro da sociedade colonial britânico- 132 Ibidem.. p. em meados do século XVI137. muito provavelmente a experiência do deresenraizamen- to. essa relação entre ambas é tardia: vem do século XVIII e hoje testemunha a luta social. a idéia de raça é produzida para dar sentido às novas relações de poder entre indígenas e ibéricos. eram uma “cor” conhecida pelos europeus desde milhares de anos antes. cit. inclusive mais perversa e atroz do que para os sobreviventes das comunidades indígenas134. 41 lização (ashantis. 15. op. dominada. p. mas ao encomendero. obtido por produto de suas terras ou das propriedades dos encomendeiros. congos. sem que a idéia de raça estivesse em jogo. mate- rial e subjetiva em torno delas. 1984. o regime estendeu-se por três vidas.. 137 QUIJANO. Implicava apenas o usufruto de seu trabalho. Porém. zulus. p. 60.. da racialização e da escravidão pôde ser. Os “negros”. e deveriam pagar tributos. como eram chamados os futuros africanos. como signo emblemático de raça não será imposta sobre eles senão desde bem avançado o século XVIII e na área colonial britânico-americana. Mesmo que agora as idéias de “cor” e de “raça” sejam virtualmente intercambiáveis. desde o momento inicial da conquista. e LAS CASAS. a experiência e a violência da racialização e da escravidão implicaram em uma não menos radi- cal destruição da subjetividade prévia. Originariamente. 135 Ibidem. 18. os índios eram outorgados em encomendas junto com sua descendência. pessoa que usufruía deste benefício. como recompensa dos serviços prestados à Coroa. para esses povos o desenraizamento violento e traumático. Lucas Borges de. E segundo a idéia do colonizador. p. porque ali a principal população racializada e colonialmente integrada. sancionadas sob a pressão de Bartolomé de Las Casas. 18. isto é. mas vassalos do rei. Para Quijano. em termos individuais e de grupos específicos.

18. 18. a todo homem de raça inferior. o produto mental original e específico da conquista e colonização da América. p. racializado e segregado139. . eram os “negros”138. com uma nova nomenclatura: Europa. “negros”. nacionalidades e etnicida- des142. Mas a partir da imposição e legitimação da idéia de raça. a idéia de raça. como um setor colonizado. p. 18. superior a toda mulher. Dessa forma. Produzida na América. vertical e autoritário. p. por definição. 141 Ibidem. Ocidente. 142 Ibidem. Por uma parte. “negros”. após o maciço extermínio de sua população. A partir daí. durante a expansão do colonialismo europeu. Ásia. em primeiro lugar entre os sexos. De fato. 19. no mode- lo de ordem social. 18. “brancos” e “mestiços” serão acrescentados “amarelos”. 138 Ibidem. do qual os conquistadores ibéricos eram portadores. sociais e geoculturais serão produzidas sobre os mesmos fundamentos. Desse modo. p. Por outro lado. durante o século XIX. por definição. foi imposta ao conjunto da população mundial no mesmo curso da expansão do colonialismo europeu sobre o resto do mundo. toda mulher de raça superior tornou-se imediatamente superior. “índios”. Oceania. Como se sabe. E isso asso- ciou à produção de novas identidades históricas e geoculturais originárias do novo padrão de poder: “brancos”. Em torno da nova idéia de raça. 139 Ibidem. a colonialidade das relações entre sexos se reconfigurou em dependência da colonialidade das relações entre raças. a “ín- dios”. dentre outros. os “índios” dessa região não faziam parte dessa sociedade e não foram racializados e colonizados ali senão mais tarde. Assim. todo homem era. Extremo Oriente e suas respectivas culturas. e de outro modo. Por outra. Trata-se da primeira classificação glo- bal da história. novas identidades históricas. irá emergindo uma nova geografia do poder. África. foi imposta como o critério e o mecanismo social fundamental de classificação social básica e universal de todos os membros de nossa espécie141. o primeiro sistema de classificação social básica e universal dos indiví- duos da espécie fazia sua entrada na história humana. os Estados Unidos. “mestiços”140. Europa Ocidental. p. foram redefinindo-se e reconfigurando-se todas as formas e instâncias prévias de dominação. Oriente Próximo. os sobreviventes indígenas serão encurralados em “reservas” dentro do novo país independente. 42 americana. Orien- te. da destruição de suas soci- edades e da conquista de seus territórios. América. “oliváceos”. 140 Ibidem. patriarcal.

antes de tudo. a experiência continuamente reproduzida das novas relações e de seus pressupostos e sentidos. política e religioso-cultural dos cristãos da contra-reforma sobre os muçulmanos e judeus do sul da Ibéria e da Europa. são transmitidas pelo “sangue”144. da classificação racial. estarão daí em diante incluídos ou vinculados ao lugar de cada um na classificação racial145. assim como de suas instituições de controle e de conflito. uma autêntica reconstituição do universo da subjetividade. Tal “certificado” – além de ser testemunho da primeira “limpeza étnica” do período colonial/modernidade – pode ser considerado como o mais imediato antecedente da idéia de raça. Especificamente. com relação a cada indivíduo ou cada grupo. necessariamente. já que o lugar. Isso dá conta de que não se tratava de qualquer colonialismo. o controle do sexo. na transposi- ção do século XV ao XVI. foi produzido o construto mental de “raça”. Com efeito. emergia todo um novo sistema de dominação social. mas sim dependerá. ou seja. No entanto. não seria sequer imaginável fora da violência da domi- nação colonial. Desse modo. p. . de agora em diante não estará só associado a. “negros” e seus “mestiços”. 19. já que implicava a ideologia de que as idéias religiosas. 144 Ibidem. somente com a conquista e a colonização ibero-cristã das sociedades e populações da América. De fato. impli- cava. O colonialismo é uma experiência muito antiga. ou mais geralmente a cultura. das rela- ções intersubjetivas da população da espécie. os papéis e as condutas nas relações sociais. em cada um daqueles âmbitos de existência social. e as imagens. Para Aníbal Quijano. do novo mundo e do sistema-mundo que assim se configurava e se desenvolvia. 19. da esmagadora 143 Ibidem. a Coroa de Castela e de Aragão. E foi esse contexto que se produziu a idéia de “raça”143. mas de um muito particular e específico: ocorria no contexto da vitória militar. p. como dimensão fundamental do novo padrão de poder. 19. da subjetividade. já o núcleo do futuro Estado central da futura Espanha impunha aos mu- çulmanos e judeus da península ibérica a exigência de “um certificado de limpeza de sangue” para serem admitidos como “cristãos” e serem autorizados a habitar na pensínsula ou viajar à América. da autoridade e de seus respectivos recursos e produtos. 145 Ibidem. estereótipos e símbo- los. 43 A classificação racial. sem nada em co- mum com nada no universo material. p. ao mesmo tempo em que se conquistava e colonizava a América. visto que se fundava num produto mental nu. a colonialidade do poder implicava – e ainda implica – a invisibilidade sociológica dos não-europeus. “índios”.

extrañas a la vida civil y a las costumbres pacíficas. pues nosotros lo vemos establecido por la misma ley divina. 230. de manera que. Em conclusión: es justo. p. por su misma naturaleza. Nesse sentido. . Isto se relaciona com o fenômeno do etnocídio na medida em que este. Por esta razón o hombre manda a la mujer. Ramón. se les puede imponer por medio de las armas y esta guerra será justa así como lo declara el dere- cho natural. el adulto al niño. 148 ANGEL. a ideologia da inferioridade pode ser detectada. p. 2011. virtuosos y humanos dominen a todos los que no tienen estas virtudes. El lugar de la utopia. Y siempre será justo y confor- me al derecho natural que estas gentes estén sometidas al império de príncipes y de naciones más civilizadas y humanas. que los más poderosos y perfectos llevan a los más débiles e imperfectos. Acesso em: 28 abr. de identidade146. Y si rechazan este império..clacso. levando por conseqüência a uma inferioridade dos próprios seres humanos que preser- vam esta cultura. p. territórios. para sua consecução. pode-se afirmar que o projeto colonialista originário (além do neocolo- nialismo) marcou-se pela ideologia da inferioridade. Dispo- nível em: <http://bibliotecavirtual. identidade. 1992. a colonialidade do poder implicou a imposição de uma classificação social perversa sobre as populações de outras culturas do mundo. por exemplo. O etnocídio não se concretiza sem a aceitação da premissa de que os outros devem ser “civilizados”. 44 maioria da população da América e sobretudo da América Latina. incorporados ao projeto totalizante do colonizador. Aquéllos que aventajan a los otros por la prudencia y por la razón. evangelio y reino – memoria de un etnocidio. Oro. 146 Ibidem. 147 PAJUELO TEVES. parte da premissa de que a cultura dominada é infe- rior. Fabio Zuluaga. o indígena.doc>. aunque tengan fuerzas físicas para cumplir todas las tareas necesa- rias. 24. inteligentes. puesto que hay quienes por natu- raleza son señores de otros que por naturaleza son siervos. por el contrario. Aportes de Anibal Quijano sobre cultura y poder. Así son las naciones bárbaras e inhumanas. recursos.org. son. abandonen la barbárie y se conformem a una vida más humana y al culto de la virtud. son. de imaginário. Nesse sentido. etc147. los espíritus lentos. 23- 24. Dessa forma.ar/ar/libros/cultura/pajuelo. el padre al hijo: es decir. Ya que está escrito en el libro de los proverbios: ‘El necio servirá al sabio’. Esta misma situación se comprueba entre los hombres. de memória histórica. los señores. Y es justo y útil que sean siervos. por naturaleza. de conhecimento. Medellín: Prosaico. a partir de critérios raciais que terminaram regulando o acesso a trabalho.. trata-se de uma base supostamente “epistêmica” que fundamentava a prática do etnocídio. aun cuando no lo hagan por la fuerza físi- ca. o que justificava um processo de enco- brimento do Outro – no caso. com relação à produção de subjetividade. normal y conforme a la ley natural que los hombres probos. gracias a la virtud de estos úl- timos y a la prudência de sus leyes. siervos. los perezosos. nos dis- cursos de Ginés de Sepúlveda148: Es por ello que los leones son domados y sujetos al imperio del hombre. mesmo que para isso custe a própria vida ou integridade física do colonizado.

em realidade. a violência) que se exerce sobre o Ou- tro é. La Paz: Plural Editores. 151 DUSSEL. Em resumo. Porto Alegre: Livraria do Advogado. que se desenvolve ou se moderniza. bárbara. o mito da modernidade: em vitimar 149 SILVA FILHO. sendo sujeito culpável pela sua “imaturidade”. . continuou no conti- nente150. bons sentimentos e religiosidade. bom governo. um “bem” para o bárbaro que se civiliza. Referiu que para Aristóteles haveria três tipos de bárbaros: os que tinham comportamento e opiniões estranhas. afirmou que Sepúlveda não tinha compreendido o filósofo e a sua teoria da escravidão. se autodefine a própria cultura como superior. que era maior que a dos gregos de romanos. Somente o terceiro tipo de bárbaros eram es- cravos por natureza. Sepúlveda sustentava a inferioridade dos indígenas a partir do pensamento de Aristóteles sobre a condição dos escravos. importante referir a contribuição do debate de Valladolid sobre a questão da humanidade dos indígenas. 150 Ibidem. 70. de maneira que a dominação (a guerra. De qualquer forma. p. primi- tivos. 2008. Enrique. ao passo que a guerra justa. 1994. por outra parte. José Carlos Moreira da. viviam sem leis e se igualavam às feras. emancipação. se determina a outra cultura como inferior. In: José Luis Bolzan de Morais. 45 Com base nesta descrição. Este debate. como sua beleza. após uma breve interrupção. 1 ed. (Org. e todo o esforço de Las Casas foi demonstrar que os índios não se incluí- am entre estes. Sepúlveda alegava a natural inferioridade dos indí- genas diante da maior “racionalidade” com a qual os espenhóis se guiavam. e os que eram rudes. Lenio Luiz Streck. os que não tinham escrita. A Repersonalização do Direito Civil em uma sociedade de indiví- duos: o exemplo da questão indígena no Brasil. p. Assim se configura o que Enrique Dussel vai denominar de “mito da modernidade”151: por uma parte. 253-270. por seu turno. v. Las Casas defendeu a humanidade dos indígenas durante toda a sua vida. “utilidade”. ocorrido na cidade de Valladolid em 1550 entre Juan Ginés de Sepúlveda (supracitado) e Bartolomé de Las Casas inaugura o que se poderia denominar gênese de sustentação do que se chamaria hoje de direitos humanos. embora os juízes nunca te- nham manifestado seus pareceres. mas possuíam uma maneira decente de viver e capacidade para governar a si próprios. p.). Sistemas Sociais e Hermenêutica: programa de pós-graduação em Direito da UNISINOS: Mestrado e Doutorado: Anuário 2007. economia doméstica. para Dussel. Las Casas. Sua defesa dos indígenas destacava os relatos de aspectos dos costumes destes povos. Nisto consiste. 1492 – el encobrimiento del Otro – hacia el origen del “mito de la modernidad”. Também susten- tava a usurpação dos bens indígenas como resultado da guerra justa que se deveria mover con- tra eles em função de sua rudeza e inferioridade149. 260. mais “desenvolvida”. Cons- tituição. 4.

157 Ibidem. subsumido. 1. O ano de 1492 será o momento em que nasce a modernidade e um processo de encobrimento do não europeu152. p.2. . Por último. como instrumento. 158 Ibidem. uma colonização do modo como os indígenas viviam e reproduziam sua vida humana157. 37. colonizado. vio- lento. o que justifica o extermínio da cultura indígena. 47. 55. nisto se caracte- riza o etnocídio. alienado a incorporar-se à totalidade dominadora155. 154 Ibidem. 41. ca- racterística da conquista da América e marca do etnocídio indígena. colonizador. 40. 156 Ibidem. vencê-lo. subdesenvolvido) será interpretado como o sacrifício ou o custo necessário da modernização. sua 152 Ibidem. p. p. mas foi encoberto. o sofrimento do conquistado (colonizado. p. Nesta linha argumentativa. A colonização da vida cotidiana do índio foi o primeiro processo europeu de modernização. Por conquista espiritual Dussel define o domínio que os europeus exerceram sobre o imaginário do nativo. conquista- do antes pela violência das armas158. quando a Europa pode con- frontar-se com o Outro (o indígena) e controlá-lo. que inclui o Outro como “o mesmo”. Uma vez reconhecidos os territórios. 155 Ibidem. p. a modernidade nasce efetivamente em 1492. prático. e atri- buindo-se ao sujeito moderno plena inocência com respeito ao ato vitimário. mas como o mesmo a ser conquistado. violentá-lo. civilizado. p. modernizado. em um projeto totalizante. 46 o inocente (o Outro. O Outro. Aos indígenas são negados seus próprios direitos. em sua dis- tinção. Deve ser civilizado pelo ser europeu. A conquista é um processo militar. é negado como Outro e é obrigado. 50. este Outro não foi descoberto. oprimido156. e o conquistador será o primeiro homem moderno a impor sua individualidade violenta a outras pessoas154. se passava ao controle dos corpos. Os habitantes das novas terras não aparecem como Outros. uma espécie de domesticação. Dussel trata da questão relativa à conquista espiritual. das pessoas: era necessário pacificá-las. 8. porém encoberto em sua alteridade153. O colonizado é negado em sua dignidade: o índio como o “mesmo”. o indígena). quando pode definir- se como “ego” conquistador. p.2 O processo de encobrimento do Outro Para Dussel. 153 Ibidem. Desta forma. declarando-o causa culpável de sua própria vitimação.

58-59. se propunha aos índios a conversão à religião cristão-européia. 161 Ibidem. Todo o mundo imaginário indígena era considerado “demoníaco”. A práxis conquistadora resul- tava fundada em um desígnio divino. A conquista espiritual 159 Ibidem. 164 Ibidem. Com efeito. ou 1568. p. os conquistadores liam diante dos indígenas o “requerimiento” antes de travar a batalha. até o sul do império inca no Chile 164. Tra- ta-se de um processo de racionalização próprio da modernidade: elabora um mito de bondade (mito civilizador) com que se justifica a violência e se declara inocente o assassinato do Ou- tro159. 162 Ibidem. sendo a última justificação da ação da modernidade160. 57. 56. 57. 56. Desta maneira podia fechar-se o círculo e restar completamente incorporado o indígena ao novo sistema estabelecido: a modernidade mercantil-capitalista nascente161. já que estavam vencidos os exércitos indíge- nas na terra. pagão. 47 própria civilização. p. . neste texto. Depois de descoberto o espaço (como geo- grafia) e conquistado os corpos mediante a força. data do primeiro Concílio provincial em Lima. seu mundo e seus deuses em nome de um deus estrangeiro e de uma razão moderna que propiciou aos conquistadores a legitimidade para conquistar. seus deuses haviam sido vencidos no céu. para evitar assim a dor e a derrota162. Este processo durará aproximada- mente até 1551. depois da der- rota. 160 Ibidem. O imaginário indígena devia incorporar os deuses dos ven- cedores – o cerne do etnocídio. Fernando de Aragão solicitou ante o Papa Alexandre VI uma bula pela qual se concedia o domínio sobre as ilhas descobertas. o indígena não podia compreender a linguagem dos conquistadores. data da Junta Magna convocada por Felipe II. Deus era o fundamento da conquista. era necessário controlar o imaginário desde uma nova compreensão religiosa do mundo da vida. satânico e intrinsecamente perverso163. como já mencionado. p. no campo de batalha. Durante trinta ou quarenta anos se pregará a doutrina cristã nas regi- ões de civilização urbana de todo o continente (mais de 50% da população total). Um ano depois de 1492. O vencedor. p. não pensou em incorporar elemen- to algum dos vencidos. 57. por sua parte. desde o nor- te do império azteca no México. p. Desde seu mundo mítico. Obviamente. Esse mundo era interpretado como o negativo. p. e como tal deveria ser destruído. Como já relatado. A chegada dos doze primeiros missionários franciscanos ao México em 1524 deu iní- cio formal ao que Dussel chama de “conquista espiritual”. sua cultura. 163 Ibidem.

Marca-se alguma coisa a ferro e fogo para que isso permaneça na memória. as orações principais. o qual. p. o indígena deveria assimilar o impacto discursivo da ordem da transcendência através de uma dominação que se iniciava na memória”168. São Paulo: Escala. Em um “in- gresso forçado em um universo simbólico de todo estranho. O trabalho de doutrinamento sobre a memória era acompanhado de castigos ao corpo do colonizado. 2007. op. p. dentre outros167. 168 Ibidem. 61. de voltar a suas práticas ancestrais. 69. A violência não é só inscrita no seu corpo. Enrique. mas tão somente sua memorização169. Naturaleza y etnocidio: relaciones de saber e poder en la conquista de Améri- ca. Mónica Espinosa. inevitavelmente. Memorização da nova religião. Nietzsche assevera que talvez em toda a sua pré-história do homem não haja nada mais terrível nem mais inquietante que sua mnemotécnica. os mandamentos. socorrendo-se de médicos e tratamentos. 70. memorizados a cada dia165. p. moder- nidade e genocídio. 48 pressupunha o ensinamento da doutrina cristã. Friedrich. ao mesmo tempo em que se oferecia o espetáculo dos autos de fé e grandes celebrações religiosas católicas166. isso seria um dos princípios fundamentais mais antigos da psicologia do mundo170. Salve e confissão em geral. cit. deveria ser memorizado. 59. 68. se concretizava no plano material mediante a inclusão dos preceitos religiosos tanto na memória quando no corpo do colonizado. os artigos de fé. p. p. 166 LOZANO. em artigo desenvolvido sobre a relação entre colonialidade.. Advertia-se seriamente aos indígenas sobre os perigos da idolatria. 1492 – el encobrimiento del Otro – hacia el origen del “mito de la modernidad”. os pecados capitais. 167 DUSSEL. Bernardo Rengifo. com ênfase nos fenômenos da violência social e política. . Assim. Creio. oferece uma reflexão 165 Ibidem. Ave Maria. A instrução dos indígenas deveria incluir as orações do Pai Nosso. A genealogia da moral. 2007. enraizados no racismo e nas hierarquias epistêmicas da modernidade/colonialidade. 170 NIETZSCHE. p. A efetividade da memória não reclamava sequer uma compreensão superficial dos preceitos. a inscrição da nova religião. Bogotá: Tercer Mundo Editores. 69. os mandamentos e pre- ceitos. 169 Ibidem. mas guardada na sua memória. mediante a prática do etnocídio. Inclusive se estabeleciam castigos de açoites para os caciques que não obrigas- sem os demais a assistir o doutrinamento. castigo corporal em caso de negação desta conquista espiritual.

Neste trabalho desenvolvido. políti- 171 ESPINOSA. a opressão e a desmoralização173. a proibição de línguas. ao assassinato de crianças e mulheres e. . p. a denegação de direitos legais. p. 49 sobre o significado do genocídio como prática de violência e efeito de poder. Ademais. seguindo a descrição de Mónica Espinosa. a desumanização de determinados povos e a transmissão de valores genocidas. mediante a violência. 2011. A negação da memória é uma das formas extremas de violência simbólica. a exposição a enfermi- dades. além do que fora delimitado pela autora. destaca que este processo não só está na base do “mito da moder- nidade”. finalmente. a autora ressalta que o problema do genocídio está laten- te na representação mesma. há uma sobre- posição de uma memória por outra: a memória implementada pelo colonizador visa eliminar a memória coletiva das vítimas. na qual a relação entre modernidade e colonialidade jogam um papel central171. e é dinamizado por experiências históricas de hierarquização so- cial e exclusão. 274.edu/MonicaEspinosaArango/Papers/89243/Ese_indiscreto_asunto_de_la_violencia_m odernidad_colonialidad_y_genocidio_en_Colombia>. o deslocamento a marchas forçadas. a esterilização. O geno- cídio envolve diferentes estratégias físicas. estratégias culturais. uma violência que se justificou com base na suposta missão social da Europa. porque modela condutas e maneiras de ver a realidade e conceber a diferença 172. há uma relação íntima entre o logro da colonização. como a dila- pidação do patrimônio histórico. a invasão territorial e a escravidão. Acesso em: 04 mai. Disponível em: <http://uniandes. Mónica. fa- zendo referência a Dussel. No etnocídio. estratégias biológicas que incluem a sepa- ração de famílias. ao ato de eliminar a existência de um povo e silen- ciar sua interpretação do mundo. Pode-se afirmar. A autora. Esse indiscreto asunto de la violencia: modernidad. A dimensão simbólica da violência tem efeitos a longo pra- zo. a mutilação. A autora menciona a violência da conquista como o lado obscuro da modernidade. As vítimas são obrigadas a sair da ordem humana. e condenadas a viver em um lugar de não-memória e não-existência174. da cadeia de liderança e autoridade. 172 Ibidem. que esta negação da memória se constitui como a negação da memória da vítima. 274. a privação dos meios de vida. senão. 174 Ibidem.academia. É a fase da conquista espiritual. 274. mencio- nada por Dussel. 173 Ibidem. colonialidad y genocídio en Co- lombia. Isto é obtido mediante a supressão da cadeia simbólica de transmissão de suas genealogias. como o massacre. sobretudo. O conceito de genocídio cultural (ou etnocídio) não se refere simplesmente a assassinatos em massa. que encobre seu próprio ideal racista e eurocêntrico de superioridade racional. p.

Esta origem da modernidade marca significativamente a história. Suprimir a cadeia de transmissão dos valores sociais e espirituais – esta foi a face do etnocídio praticado na conquista da América. 275. p. pois é a primeira que se considera a si mesma como a única ver- dadeiramente humana177. . Nesse sentido. A modernidade ocidental. p. 176 Ibidem. 50 ca e moral. 177 CABEZAS LÓPEZ. para tanto. Disponível em: <http://www. do não euro- peu175. ou seja. a violência constitutiva da conquista. 2011. sendo que as opções se reduziam à capitulação entre assimilação ou aniquilação. marcada por uma violência que se tornou rotineira. A modernidade começa com a invenção e o descobrimento do Novo Mundo.pdf>. Com base nestas exposições. 1. Assim. A modernidade ocidental é uma au- têntica novidade na História. como a identidade cultural de um grupo humano se constitui como parte integrante de seu corpo e razão de sua existência.net/salt/activitats/planes/razisme. 275. após abordar sobre as questões relativas à cultura e identidade cultural para fins de esclarecimento sobre o que o etnocídio visa violar. procurou-se expor como um dos fatos mais marcantes da história mundial – a conquista da América – trouxe consigo a prática do etnocídio em seus fundamentos. 175 Ibidem. toda etnia. perpassando pelo exemplo prático-histórico de efetivação desta prática – a conquista da América e todo seu projeto de colonialidade – passar-se-á a tratar da identidade cultural como elemento da corporalidade humana. houve o encobrimento (ao invés do descobrimento) do Outro. Aces- so em: 28 abr. seria uma das faces ocultas de nossa modernidade176. em particular contra o indígena. tem tratado de apagar todo traço diferencial. e a transformação deste processo em uma conquista e colonização. Racismo y pensamiento moderno: el ejemplo de la invención de los cami- tas y de los subsaharianos. caracterizada por sua obsessão em consolidar à força sua visão de mundo como se fosse a única possível.bibgirona. demonstrando ainda como o etnocídio era aplicado enquanto forma de violência e de política. Os indígenas se viam em uma zona selvagem de poder. p. Joan Manuel.

). dos ritos. Ela utiliza o corpo e exprime-se de modo corporal. 181 Vide item 1. Nesse aspecto se insere a sua relação com a vida humana. p.1 deste capítulo. leciona que a corporeidade é um elemento chave para uma teologia da vida. Como exemplo. podemos estender a corporeidade como um elemento impor- tante para a construção de uma cultura. Franz Hinkelammert178. em seu trabalho sobre teologia. den- tre outros aspectos. 178 HINKELAMMERT. São Paulo: Paulinas. que se dá mediante a existência de uma cultura. 179 Ibidem. e é usa- do em virtude das suas propriedades materiais.3 1 Sobre a corporeidade Para Hinkelammert. 51 1. pode-se referir a religião. dos valo- res comunitários. 180 Ibidem. Existe assim. Trata-se do nexo corporal entre os homens e dos homens com a natureza. A identidade cultural é peça chave da corporeidade. As armas ideológicas da morte. São Paulo: Paulinas. É a reprodução da vida em comunidade. 9. Franz. O corpo é submetido ao jogo dos símbolos. mas recebe uma força puramente simbólica182. que age em função da produção. E isto ocorre. com a cultura. se vincula à realidade corporal humana. sobre a cultura como sistema simbólico. através das crenças.3 A IDENTIDADE CULTURAL E SUA VINCULAÇÃO COM A CORPOREI- DADE HUMANA Este tópico visa demonstrar como a identidade cultural. 1983. 337. ela busca conta- to com o transcendente através do corpo. 1. p. Aí está em jogo toda uma dimensão ética e espiritual do homem. 7. 7. p. reprodução e desenvolvimento da vida humana. 182 Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (Org. pois ela é o lia- me que vincula uma ligação material entre os homens. o intercâmbio dos homens com a natureza e com os outros homens180. mas da corpo- reidade do sujeito em comunidade. A vida real é a vida humana materi- al. Toda relação entre os homens tem necessariamente essa base corpórea e material. Ainda que a religião seja essencialmente um conjunto simbólico181. Corporeidade e Teologia. A comunidade tem sempre uma base e uma dimensão cor- poral. de uma identidade cultural. não se trata apenas da corporeidade do indivíduo. Com base neste raciocínio do autor. este sentimento de pertenci- mento. . 2005. p. onde suas relações sociais aparecem como relações materiais179. uma determinada coordenação do nexo corporal entre os homens.

de comidas e bebidas. o corpo está subordinado ao simbolismo e serve para criar símbolos religiosos184. dentre outros. e não material185. O desafio seria buscar entender como o corpo foi construído. vinculadas a uma determinada classe de condições de existência. necessidade de ali- mentação. bem como uma manifestação prática de experiência e da expressão do valor da própria posição social188. danças. Os preceitos e proibições relativas ao corpo não têm relação com o dinamismo bioló- gico normal. 67 . Na religião. contato físico. funcionamento do organismo (respiração. 67. p. digestão. Além do seu valor para pro- duzir efeitos materiais. estilizado. de certo modo. p. 186 Ibidem. privações de movimentos. o nascimento. podendo ser entendidas como habitus187. 184 Ibidem. 9. Ainda. mas as formas como essas necessidades e funções físicas são en- tendidas. São atividades que possuem um sentido simbólico. 11. buscar focalizar o corpo enquanto processo. Este habitus corporal designa disposições. O seu valor simbólico é tal que o corpo pode ser marcado por meio de jejuns. etc. O corpo serve para constituir símbolos183. Principalmente. gestos. doença. cresci- mento. 185 Ibidem. tratadas e praticadas contêm diversidades. A vida é uma experiência que se tem com e no corpo186. 187 Ibidem. por exemplo. mas pelo valor simbólico que lhe é atribuído. duradouras e transferí- veis. O corpo é chamado a expressar realidades que não são corporais. 67 188 Ibidem. o corpo não é movido de acordo com os dinamismos que produzem resultados materiais na vida diária. morte) leva a pensar o corpo como constante a inquestionável. O corpo fica. expressões verbais e corporais. nem sobre o desenvolvimento das forças corporais. p. 52 A oração não dá a vitória na guerra pela força material das palavras ou gestos. e conformam uma di- mensão fundamental de sentido e orientação social. pinturas. as religiões revestem o corpo de diversos atributos que lhe con- ferem um valor simbólico: roupas. longas cerimônias litúrgicas. Na religião. p. p. destacando-se como suas experi- 183 Ibidem. que atuam como fun- damento para produção e ordenamento de práticas e representações. ou seja. reprodução. maneiras de fazer. transformado em objeto simbólico. p. Nela. O corpo é chamado a expressar uma realidade mental. contato íntimo. o corpo humano fica carregado de sentidos simbólicos. representado e vivido. sono. 9. romarias.

133. p. 192 Ibidem. selecionando. alimentação. moral. aprendizagem. A experiência corporal 189 Ibidem. persistência). doença. 108. comportamento. portanto. dor. fora do corpo. saúde. Temos. Mesmo os processos dito espirituais são proces- sos a partir do corpo191. dotada de um sistema per- ceptivo. quais serão os inibidos. p. as quais o indivíduo acata195. Ambos coexistem de forma simultânea e separada. O ser huma- no é um corpo vivo. Com efeito. 53 ências foram constituídas por conhecimentos científicos. a fadiga do corpo. Ele é relação. ação. Não há nada. cognitivo. 193 Ibidem. pode-se perceber a construção do corpo como sustentáculo de princípios éticos (contenção. em qualquer tempo e lugar. 191 Ibidem. O corpo físico é a base de nossos sentidos. sobre os quais foram erguidos princípios estéticos (beleza. a materialidade do corpo não pode ser dissociada de um substrato sociocul- tural. 68. limpeza. ele fala a respeito do nosso estar no mundo. etc)190. moderação. ainda. 116. emoções. uma realidade bio-psico-energético-cultural. reação e decisão192. disciplina. p. à sua maneira. movimentos. vestuário. a junção e sobre- posição do mundo das representações ao da natureza e da materialidade. no corpo. Nesse ponto. trabalho. Sem abstrair fatos como nascimen- to. portanto. p. Para tanto. afetivo. dentre todos. 133. 190 Ibidem. 195 Ibidem. provavelmente permanecerão desconhecidos. crescimento. a reprodução são motivações biológicas às quais a cultura atribui uma significação especial e diferente194. não se pode isolar o corpo da cultura. saberes populares e tradicionais e pessoais. informacional e espiritual193. abstinência. p. A fome. em uma realidade dupla e dialética: ao mesmo tempo que é natural. . p. quais serão os exaltados e. pode-se dizer que as diferentes crenças e sentimentos que constituem o fundamento da vida social são aplicados ao corpo. inibirá ou exaltará esses impulsos. grupais. p. reprodução. quais serão os considerados sem importância e que. Assim. 194 Ibidem. elementos que compõem a vida e seu ordenamento social. valorativo. morte. e como foram subjetivados189. É a cultura que. sociais e culturais. o sono. Por isso não podemos apagar do corpo os comportamentos e as motivações orgânicas que se fazem presentes em todos os seres humanos. 67. o corpo também é simbó- lico. a cul- tura dita as normas em relação ao corpo. 123. então.

Com efeito. pelo simples fato de ser uma dimensão real e indispensável para a vida. para elucidar ainda mais esta afirmação. ou corporeidade. 197 Ibidem. na verdade. Já a corporeidade é mais abrangente. p. p. na sua perspectiva ontológica e também no horizonte de sua construção histórico-relacional. Corporeidade é. Por isso o modo como o percebemos ou como o tratamos torna-se fundamental para a compreensão e nomeação do ser197. 196 Ibidem. mutável e. vítima de muitos equívocos e de muitas distorções por parte das culturas. Realidade dimensio- nal que não pode ser negada. 181. tampouco superestimada. sua imanência no mundo e sua vocação à autotranscendência. a individualidade e a pertença a uma co- munidade humana. sua relacionalidade com os seres humanos e. Aquele aponta a realidade objetiva da nossa condição corpó- rea. faz-se necessário realçar a relação entre a identidade e a corporeidade. Ela abrange. 54 é sempre modificada segundo padrões culturalmente estabelecidos e relacionados em busca de afirmação de uma identidade grupal específica196. A identidade cul- tural será a ponte. tocável. sua propensão à relacionalidade e ao encontro198. Assim. No entanto. sua capaci- dade de revelar-se e de ocultar-se. p. corporeidade e identidade cultural estão estreitamente vinculados. por isso. realidade visível. uma estreita relação que passa pelo elemento da cultura. o reflexo visível e a realização do ser humano uno e indiviso. Refere-se ao “eu espiritual-corpóreo” que vive uma experiência única e irrepetível e indica a inteira subjetividade humana sob o aspecto de sua condição existencial corporal. pode-se constatar que a corporeidade envolve mais do que a individua- lidade corporal da pessoa. por conseguinte. Nesse sentido. o elemento da corporalidade humana que vincula esta corporalidade e que necessita do sentimento de pertencimento. 134. . talvez. 180. na configuração constitutiva de sua identidade pessoal. refere-se à totalidade da pessoa. Não se pode deixar de afirmar que todas as experiências pes- soais se realizam e se explicitam no corpo. a expressão. das sociedades e das religiões. portanto. é em função de sua condição corpórea que o ser humano assume sua vida segundo as peculiaridades que lhe são próprias: a historicidade. para o desenvolvimento da vida humana em comu- nidade. É uma noção mais ampla de corpo e. cabe mencionarmos que há uma distinção importante entre corpo e corporalidade. Por derradeiro. além disso. 198 Ibidem.

olfato. dentre outros) aprendemos a perceber e a sentir200.br/pub/revint/337_43. vivemos um contínuo processo de transformação propiciada pelas relações e experiências que nos é permitido viver ou que nos são selecionadas e oferecidas pela sociedade (em função da cultura. que é natural e cons- titutiva do ser humano. São Paulo. 2002. Uma abordagem psicossocial de corporeidade e identidade.3. p. Por meio da ação e da percepção multissensorial (visão. Acesso em: 09 jun. se apresenta uma exposição sobre a questão da corporeidade. a partir de relações recíprocas de determinação com a identidade. etc)203. 200 Ibidem. Helena Marieta Rath Kolyniak199 elabora um estudo em que procura mostrar a corpo- reidade sob a perspectiva de um processo de construção social e histórica do corpo humano.usjt. Helena M. Desde o momento do nascimento. Rath. religião. . Tese (Doutorado em Psicologia Social) – Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da PUCSP. 202 KOLYNIAK. Helena Marieta Rath. 203 KOLYNIAK. p.2 A relação entre corporeidade e identidade cultural A relação entre corporeidade e identidade cultural se constitui como preceito elemen- tar para demonstrar de que maneira o etnocídio rompe com esta relação. no processo contínuo de humanização. posição na família. inserida na história familiar e cultural. transformando desta forma nossa própria imagem e representação204. Contudo. 338. o humano vivo é corporeidade. 180f. Helena Marieta Rath. gustação. audição. p. com o qual podemos ou não nos identificar. Identidade e corporeidade: prolegômenos para uma abordagem psicossocial. é cultura encarnada202. tato.pdf>. 338. 2011. 55 1. a corporeidade poderia ser observada tanto na forma como em seu movimento. 338. cit. 2002. postura. Este processo consolida-se na imagem corporal que construímos de nós mesmos e que mostramos aos outros. Destaca a autora que nós nascemos como corpo. 339. é necessário demonstrar como ocorre esta vinculação entre identidade cultural e corporeidade. 204 Ibidem. Desta forma.. expressividade. no convívio social. ou seja. Inicialmente. classe social. p. o corpo vai-se conformando como corporeidade. Assim. Uma abordagem psicossocial de corporeidade e identidade. op. a constituição da identidade inserida no corpo. em especial. gênero. Para a autora. em torno do qual e com o qual é construída nossa histó- ria pessoal. Disponível em: <ftp://www. em seu padrão estético e. p. por meio da atividade e da consciência. 201 Ibidem. 199 KOLYNIAK. nos significados e valores a ela atribuídos201. Este processo vai se desenvolvendo ao longo de toda a nossa vida. em relação à imagem que nos é refletida pelo grupo social. 4.

pela ideologia desses grupos de pertença. do conhecimento. Assim. 208 Ibidem. sempre simbo- lizados na relação inter e intrasubjetiva. p. p. a apresentação dos sujeitos no contato. determi- nando assim a forma. do trabalho. p. ou intersubjetiva. um corpo marcado pela histó- ria205. mas também. 339. reconhecemos de alguma forma que somos radicalmente semelhantes e ao mesmo tempo completamente diferentes em relação a todo e qualquer outro ser humano207. Cada relação social. 339. 56 Nesse processo. 339. a linguagem. seria plausível a afirmação de que há uma distribuição ideológica não apenas do capital. 207 Ibidem. a autora assevera que para compreen- dermos a identidade enquanto processo histórico deve-se ter em vista dois processos que se dão dialeticamente entre a objetividade atribuída e a subjetividade apropriada. iguais ou semelhantes aos outros. Também o fazemos quando ocorre o processo de identificação com o outro. em mui- tos aspectos. Identificamo-nos com o corpo quando toma- mos consciência de nossa individualidade. quando deixamos de ser uma corporeidade. os gestos. 339. é chamado pela autora de personagem. Ao buscar articular identidade e corporeidade. inserida nos universos simbólicos por onde transita. de diferenciação que determinam e são determinadas pela auto- identificação. 206 Ibidem. ao deixarmos de nos confundir com o meio ou com o outro. numa relação construída na história vivida. E a construção simbólica. o outro e o meio. a identidade das 205 Ibidem. Todo este processo de transforma- ções. A autora ainda refere que se admitirmos que cada vida humana é uma história vivida por múltiplos personagens “encarnados” por um mesmo ator social. encarnada pelo sujeito. Este universo determina todo o ritual da relação. Se a corporeidade é história pessoal e cultura encarnadas. . conseqüentemente. daquilo que nos tornamos. num processo ao mesmo tempo de so- cialização e de individualização. ao percebermos que somos também. tendo por base a materia- lidade da corporeidade. no desempenho de um deter- minado papel social. E a corporeidade seria mais do que mera aparência ou embalagem do homem: seria a própria constituição e configuração material e simbólica de nosso ser no mundo206. pelo sentimento de pertencimento. para nos tornarmos apenas um corpo – porém. a auto-imagem e a imagem que os outros refletem determinam-se re- ciprocamente. terminaria apenas com a nossa morte. de aprendizagem. passando a perceber o limite entre o eu. pela identificação com outro. p. a cada momento. acontece num determinado universo simbólico208.

212 Ibidem. A autora considera que a identidade. ainda. pela qual o homem dá significado a seu corpo. maturação e envelhecimento orgânico. p. 340. as me- diações entre o singular e o universal211. 339. Ademais. em sua totalidade. tudo isso representa- ria um complexo de determinações que se constituem a partir dos personagens e. ao mesmo tempo em que somos únicos. e sim a articulação destes persona- gens209. etc. 210 Ibidem. iria ganhando concretude212. e outra psicossociocultural. caracterizaria a identidade de cada indivíduo com um processo histórico. 340. tanto objetiva como subjetivamente. p. Isso permitiria evitar o equívoco de supor que a identidade é direta- mente observável e redutível a seus momentos empíricos. a seu movimento213. movimen- to. empi- ricamente observáveis. a qual. assim. 211 Ibidem. p. iriam concretizando a identidade. sua visibilidade consistiria na corporeidade. Todo este processo teria duas faces indissociá- veis: uma natural. . p. 340. p. como se tornam subjetividade. A autora menciona ainda que a identidade como concretização da metamorfose huma- na pressuporia. na história pessoal. 340. o significado atribuído a cada uma delas. a corporeidade. expressividade. portanto. estes. permitiria a manifestação de um particular que concretiza. a sucessiva e/ou concomitante identificação com diferentes personagens e a articulação destes. é um processo de concretiza- ção que tem nos personagens seus momentos empíricos. em sua forma. Os personagens são. ao ocorrerem. na sua leitura. Como elas seriam organizadas e fariam sentido ao sujeito. o lugar que elas ocupam. permite que novos personagens vão se formando. 57 pessoas não seria um outro personagem representado. em movimento de diacronia e de sincronia. ser semelhante ao grupo ao qual pertencemos. as quais se evidenciam pelos processos de crescimento. man- 209 Ibidem. 213 Ibidem. A especificidade da metamorfose humana seria a dialética entre natureza e história: o sociocultural transformando a natureza. O processo de formação da identi- dade dos indivíduos corporalmente encarnados seria empiricamente perceptível pela maneira segundo a qual cada um articula e simboliza os múltiplos personagens que os constituem210. ao mesmo tempo. Nes- se sentido. Haveria como que uma alternância e também concomi- tância no encarnar os diferentes personagens. enquanto a natureza transforma o sociocultural. que implicaria limites determinados por condições genéticas e biológicas da própria espécie humana.

p. as cerimônias. Grande parte das atividades humanas seriam organizadas de acordo com esta forma de comunicação. p. como de desen- volvimento de certa habilidade de manuseio de instrumentos ou de manifestações de dança em certos rituais de festividade seria um resultado de nossas socializações com nossos grupos e lugares de vivência. 58 tendo entre si uma relação dialética de complementaridade e tensão. 340. podemos acreditar que cada indivíduo encarna em seu corpo. As práticas de corporeidade se constituiriam co- 214 Ibidem. ou seja. 38. p. que definem identidades. 340. A corporeidade humana se constitui na relação do sujeito com o seu mundo. que o corpo e o movimento humanos. Acionaríamos nestas situações aspectos memorialmente incorporados. conhecimentos ou memórias. 2011. Observa-se. Acesso em: 04 mai. A maneira de nos portarmos corporalmente diante de certas situações. Patrício Pereira Alves de. 215 Ibidem. ao longo do tempo. 216 SOUZA. Nesse sentido estão ligadas as práticas corporais.ufes. que se constituindo em nossa memória cognitiva nos liga como sujeitos pertencentes a um determinado contexto social e espaço-temporal217. Disponível em: <http://periodicos. por suas experi- ências sociais. Por outro lado. guardadas suas devidas especificidades de conceituação. por um lado. sociológica e fisiológica. Identidade cultural e corpo estão. formariam o conjunto das práticas corporais. os conceitos e significados do corpo e de suas manifestações seriam construções his- tóricas que teriam como substrato as características biológicas da espécie214. de construção e domina- ção. os gestos da cultura dos grupos sociais com os quais con- vive215. a conjunção de uma série de aspectos de nossas experiências sociais do mundo. desta forma. Assim. os valores estéticos atri- buídos. posturas e hábitos seriam. p. considerando assim os gestos corporais como um profícuo objeto de estudo para a compreensão das socie- dades. que se encarna nas experiências de qualquer indivíduo membro de uma determinada sociedade. 37. a autora refere que a antropologia social compreende que qualquer realização humana tem uma unidade psicológica. 217 Ibidem. convenções e técnicas do corpo. vinculados. dessa maneira. Patrício Pereira Alves de Souza216 ressalta que as práticas corporais seriam as atividades realizadas a partir do corpo que acabam por comunicar mensa- gens ou transmitir informações. Ensaiando a corporeidade: corpo e espaço como fundamentos da identi- dade. Nossas gestua- lidades. . portanto da reali- dade corpórea dos sujeitos com seu espaço. as práticas corporais representam e refletem as identidades culturais específicas.br/geografares/article/viewFile/149/75>.

Portar-se de uma ou outra maneira seria o que nos liga. de pertencimento a uma certa nação ou etnia. p. . 221 Ibidem. Construir uma prática corporal que marque uma diferença grupal envolveria necessariamente uma apropriação espacial e uma qualificação de espaços como pertencente a uma determinada coletividade219. 220 Ibidem. Dentro desta relação corporeidade-identidade-memória pode-se atribuir como exemplo o movimento quilombola. A reclamação dos quilombolas junto ao Estado é a re-apropriação 218 Ibidem. Este caráter relacional se funda por marcações simbólicas que dão caráter de distinção. Memória e identidade seriam mecanismos de ligação dos indiví- duos a uma coletividade221. Constituir-se-ia como um exemplo de processo identitário baseado na corpo- reidade. 40. p. 39. Outro fator importante diz respeito à memória social. conquistando resultados em termos de demarcação de território junto ao Estado. estaria configurada nesta relação. p. 219 Ibidem. As práticas corporais seriam o que de fato mar- ca a construção das identidades. na me- dida em que estas duas questões se aproximam enquanto tentativa de negociação e da recons- trução de si. o caráter relacional seria uma das marcas conceituais de práticas identitárias. a dimensão espacial. p. Dentro da questão relativa à identidade cultural e a corporeidade. que permite a existência de um nós. utilizar-se de certas práticas corporais ou circular por certos espaços diz sobre a pertença a determinado segmento social220. O processo de construção de um sentimento de identidade está diretamente relacionado às questões de memória social. 40. A reivindicação principal de grupos quilombolas é a demarcação de terras usurpadas de seu uso por processos de grilagem. Por conseguinte. a um referencial de masculinidade ou feminilidade. Trata-se de um grupo político organizado que tem emergido nas últimas décadas no Brasil. A alegação seria de que algumas terras que atualmente estão em posse de grandes latifundiários e empresas multinacionais na verdade seriam áreas expropriadas de grupos étnicos de origem negra. que foram invadidas por grupos de maior poderio jurídico e físico. o autor argumenta que tanto a identidade quanto a memória seriam pro- cessos de negociação que tem por intenção criar um sentimento de pertença de uma pessoa com outra ou com um grupo. 59 mo elementos instauradores de identidades218. Usar determinados adereços. Assim. 38. por exemplo.

Trata-se. a fim de demons- trar como a corporeidade se relaciona umbilicalmente com a identidade.ufsc. pois. Trata-se de uma idéia de que nessas sociedades o corpo é culturalmente construído e ocupa uma posição organizadora central. seguindo a orientação dessa autora. p. a demarcação de territórios que pelo seu uso social foram material e simbolicamente apropriados por estes grupos. 40. 26. 2011. que neste caso é o elemento demarcador da identidade. Corporalidade. buscar-se-á refletir sobre a relação da corporalidade com a ética e a identidade grupal. Laura Pérez. já começa na concepção e formação do feto. 41. filhos e irmãos plenos es- 222 Ibidem. dois grupos que vivem na região amazônica brasileira. Outros exemplos de políticas de identidade baseadas na corporeidade também são presentes nas lutas de grupos indígenas223. Desde a década de 70. 60 destas terras pelos grupos que primeiramente a lavraram e nelas construíram seus referenciais sócio-culturais de existência222. 223 Ibidem. A fabricação do corpo. Acesso em: 09 jun.br/index. os indígenas também se constituem como um exemplo na práxis da vincula- ção entre a identidade e a corporalidade. 225 Ibidem. muitos etnólogos têm ressaltado a importância. ética e identidade em dois grupos indígenas: os Yawanawa e os Yaminawa. 224 GIL. p. serão abordados aspectos relacionados à corporalidade. A concepção de corpo possui uma importância significa- tiva na definição e redefinição da identidade étnica e individual225. A reivindicação seria. Uma das implicações desta teoria é de que os pais. Para tanto. neste caso. Laura Pérez Gil menciona que a construção e o tratamento do corpo tem sido um tema fundamental de trabalhos significativos. entre- tanto. A seguir. .periodicos. entre grupos indígenas amazônicos. conforme a idéia de que o feto é o resultado da acumulação progressiva de sêmen na barriga da mãe. As manifestações quilombolas por demarcação de áreas e asse- guramento de direitos políticos se estabelecem a partir da corporeidade. ética e identidade em dois grupos pano. A base para a reclamação identitária. da constituição de uma identidade territorial. em que os elementos de pertença se estabelecem tanto por questões ligadas a questões corporais quanto a extensões espaciais.php/ilha/article/view/15240>. p. Disponível em: <http://www. p. basear-se-ia na questão consangüínea: é quilombola quem é negro ou descendente direto deste grupo. No caso dos Yawanawa e dos Yaminawa. 25. constituindo uma matriz de significados e objeto de significado soci- al224. podemos primeiramente explorar a concepção de corpo nessas culturas. No caso. para estas culturas. de muitas práticas que têm por objeto de atuação o corpo.

que significa “casca”. enquanto um conjunto de pessoas com as quais se reco- nhece uma relação de parentesco. mas também é a sede da sociabilidade do indivíduo. e articula a individualidade com a identidade grupal. definido pelo compartilhamento de substâncias corporais. yura. utilizar a idéia de corpo para se referir à coletividade não seria uma metáfora: expressaria o fato de que o corpo individual não acaba na fronteira imposta pela pele. animais ou yuxin (espíritos. 228 Ibidem. seja dentro ou fora do próprio grupo. A autora. yura significa “corpo”. almas). e por último. e em Yaminawa com o termo ka- ya228. 227 Ibidem. que se encontra entre os Yaminawa. 61 tão ligados para a toda a vida por laços de identidade corporal. durante a vida. o corpo de uma pessoa morta é designado em Yawanawa com a palavra shaka. Relacionado com este conceito existe outro denominado yura. p. pode denotar a palavra “corpo”227. 27. Para a autora. mas aludindo sempre a uma pessoa viva. a fim de ilustrar esta concepção de corpo apresentada por estes grupos indí- genas. p. faz alusão a um comentário de um Yaminawa. p. Assim. a palavra yura comporta três possíveis traduções: “pessoa”. enquanto condição de humanidade e que adquire significado se oposto a outro tipo de seres diferentes. 27. Tanto entre os Yaminawa quanto entre os Yawanawa. que significa “corpo”. 26. ao corpo enquanto ocupado e animado por componentes espirituais que conformam a pessoa. onde imi significa “sangue”. o ponto a partir do qual irradiam os elos de relação que o unem aos outros membros do grupo ao qual perten- ce. 27. Sinteticamente. 229 Ibidem. p. Desse aspecto do pensamento indígena derivaria o princípio de que tudo o que acontece com o corpo de uma pessoa tem repercussões nos corpos das outras que estão ligadas a ela. por exemplo. esta distinção apontaria para o fato de que o corpo. e portanto no corpo coletivo como um todo229. e que serve igualmente para se referir às relações de parentesco. se expressa em Yawanawa através do conceito imiki. Por sua vez. Laura Pérez Gil ressalta que as implicações desta acepção de yura adquirem maior relevância e significação se postas em relação com a terceira acepção. mas forma parte de um corpo supra-individual. Trata-se de uma interpretação sobre as 226 Ibidem. isto é. A idéia desse conjunto de parentes próximos. Ainda. . e ki seria um sufixo que indica que o afirmado pelo falante é verdadeiro226. o conceito de yura condensa o princípio do compartilhamento de substâncias cor- porais entre parentes próximos. é o locus de interação. “parente”.

28. 231 Ibidem. crescendo fracas. O compartilhar e a generosidade estão no âmago da sociabi- lidade Yawanawa e Yaminawa. 232 Ibidem. por exemplo. Isto teria como efeito o enfraquecimento geral do grupo: o debilitamento dos corpos traz como conseqüência o debilitamento do coletivo230. esse comentário diria respeito não somente à imbricação existente entre os indivíduos que compartilham uma identidade corporal que os engloba. e a troca contínua de outros elementos. Para a autora. es- sas mortes iam além da perda de seus entes queridos. lhe transmitindo os valores éticos e con- seguir que aquela desenvolva as capacidades que lhe permitam colocá-las em prática com 230 Ibidem. quando ainda andavam de forma nômade na floresta. p. . Um ancião indígena (Tomás) teria contado que na época anterior ao contato definitivo com os brancos. a razão do conflito teria sido a morte de vários Yaminawa. sendo essas afecções e capacidades determinadas culturalmente conforme um modelo de pessoa232. portanto. Nesse sentido. p. através de determinadas ações às quais é submetido. 62 conseqüências que derivaram da morte de várias pessoas de seu grupo como resultado de agressões xamânicas de outra tribo. a fabricação do corpo seria um processo que visa a socialização do indiví- duo. 28. De acordo com ele. não ser criadas e alimentadas adequadamente. 29. Para tanto. são utilizadas técnicas que possuem por objeto de atua- ção o corpo. mas o conflito estourou entre eles e os Yaminawa mataram vários Txitonawa. principalmente alimentos. o corpo é mode- lado em função de um determinado ideal relativo às qualidades e capacidades valorizadas culturalmente. Para educar uma criança. provocando nova separação. fundamental- mente mulheres cuja causa foi atribuída a ações de feitiçaria dos Txitonawa. de seu corpo. constitui- ria um processo essencial para o desenvolvimento corporal dos indivíduos e da sociabilidade em muitas sociedades indígenas. Com efeito. Nestas sociedades indígenas. para que se converta num adulto com plenas capacidades. Outro aspecto relacionado à teoria de construção do corpo nestas sociedades amazôni- cas seria a idéia de que. p. mas também à im- portância que tem um cuidado adequado da criança. a autora adverte que seria interessante não pensar o corpo não do ponto de vista fisiológico. mas como um conjunto de afecções ou modos de ser que constituem um habitus. os Txitonawa. o intercâmbio de substâncias corporais estaria na gênese da pessoa. pois tiveram como resultado o fato de muitas crianças terem ficado órfãs e. Para Tomás. e que um adulto deve possuir para desempenhar adequadamente as suas fun- ções. os Yaminawa se uniram durante um tempo aos Txitonawa. constituindo elemento central no conceito de pessoa231.

portanto. fazê-lo resisten- te. 63 sucesso. Esta preparação do corpo começa logo após o nas- cimento. 236 Ibidem. A importância da introdução de amargor no corpo durante a iniciação se expressa na ingestão de certas substâncias. por exemplo. 234 Ibidem. . já que é esse estado de sofrimento o que se considera mais adequado para maximizar a capacidade de aprendizado e memorização do conjunto de conhecimentos que o iniciando deve adquirir. p. o poder é incrementado por meio das picadas de vespas e formigas235. e através do seu acúmulo aumentar o poder da pessoa. p. para um corpo saudável 233. 33. tabaco ou pimenta não tem como única finalidade provocar estados alterados de cons- ciência. junto com a vigília continuada. além da alimentação. Outro exemplo característico de atuação sobre o corpo como meio de munir a pessoa de certas capacidades valorizadas socialmente e. na me- morização de um acervo considerável de conhecimentos. na superação de certas provas que envolvem dor e sofrimento. 33. os princípios que subjazem a eles são os mesmos. azedas. Um dos princípios fundamentais que regem a iniciação xamânica é o de introduzir substâncias consideradas amargas no corpo. e consequentemente de seu ser. mas considera-se que fortalecem o corpo. no sentido de endurecê-lo. Esses processos consistem fundamentalmente na ingestão de substâncias xamânicas. constituinte de uma identidade é a iniciação xamânica. Em outro contexto. p. As dietas têm também como finalidade. pôr o inician- do num estado de sofrimento físico. encontra-se igualmente a ideia de que a vigília melhora as capacidades de aprendizado: trata-se do costume praticado 233 Ibidem. O amargo é associado estreitamente ao poder xamânico. Há algumas diferenças nos processos de iniciação xamânica entre Yaminawa e Yawa- nawa. e sobretudo na dieta. Além da introdução destas substân- cias. Para alcançar o poder xamânico. contudo. A transformação corporal envolve a transformação global da pessoa. já que o costume de pintar o recém-nascido com jenipapo. principalmente rezas e mitos. e. e todos têm o objetivo de provocar algum tipo de mudança no corpo com vistas a aumentar o poder. que evita todo alimento doce e pres- creve que as comidas devem ser apimentadas. 235 Ibidem. tem essa finalidade. p. é necessário modelar e dar uma certa feição ao seu corpo. que tem um papel fundamental no processo de fortalecimen- to corporal. 34. A ingestão de aya- huasca. finalmente. amargas236. no cumprimento de uma dieta alimentar e uma abstinência sexual e social rigorosas234. o iniciando deve se submeter a certos processos que têm como resultado a transformação do corpo. 31.

a identidade é constituída na manipulação cor- poral. O que define a identidade é a corporalidade. suas práticas e sua relação com o mundo. picadas. 64 pelos Yawanawa de acordar as crianças e adolescentes de madrugada. A possibilidade de mudar através da transforma- ção do corpo remete à ideia de que a pessoa ameríndia é uma constituição processual e se constrói paulatinamente durante o ciclo vital e na interação com a alteridade240. A seguir. . Assim. p. 34. as que constitu- em fundamentalmente o seu poder238. portanto. alimentos amargos. portanto. etc) que a pessoa introduz no seu corpo. no decorrer deste estudo. 239 Ibidem. 34. A identidade. entre a individualidade e a coletividade. ayahuasca. 237 Ibidem. 238 Ibidem. que é um fator vital para a manutenção e transmissão de uma identidade cultural. buscaremos apresentar de que forma esta cadeia corporal de transmissão de uma cultura é rompida pelo fenômeno denominado etnocídio. e não deixá-los dormi- rem com o fim de educá-los. Assim. 35. o corpo constitui o ponto de articulação entre a ética e a identidade cultu- ral. e que dali em diante passam a formá-lo. a ligação estreita entre a mudança corporal e a transformação da identidade239. p. pelo endurecimento do corpo237. A corporali- dade é o fator importante para a transmissão da cadeia de valores e crenças sendo. que exprime através desta mesma corporalidade sua crença. Desta forma. buscou-se expor como a corporalidade se vincu- la com a identidade cultural. O objetivo fundamental do processo iniciatório consiste em desencadear a transformação corporal ligada à aquisição de poder. A partir de todas estas considerações. p. Tais práticas demonstram claramente a relação entre corporalidade e a construção da identidade. São as substâncias (tabaco. a disposição adequada para receber ensinamentos e aprendê-los é aquela que implica algum sofrimento: a aquisição de conhecimento passa ne- cessariamente por um aumento da resistência. 240 Ibidem. p. 42. como esta é constituída pelo corpo. não se faz presente sem o elemento corporal. identidade cultural e corporalidade traços indissociáveis.

19-20.) Os nômades. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. que é característica das sociedades modernas. Tal concepção é responsável pelo fenô- meno da globalização. em síntese. mas de outras comunidades humanas. vítimas da “defa- sagem cultural”. convertidos ao modo sedentário de vida. Nesse campo de análise. refe- rindo-se ao advento da Era Moderna. contra os povos e o estilo de vida nômades. entre outras coisas. p. para seguir o “padrão universal de desenvolvimento”. Zygmunt Bauman241. avançado. Em uma reflexão acerca deste processo de modernização. Modernidade Líquida. Zygmunt.1 RISCO SOCIAL E HOMOGENEIZAÇÃO Este tópico versa sobre a relação entre o risco social e a tendência de homogeneização. esclarece que . tão presente na realidade atual. pode-se referir que nossa sociedade atravessa uma escala ja- mais vista na História. que faziam pouco das preocupações territoriais dos legislado- res e ostensivamente desrespeitavam seus zelosos esforços em traçar fronteiras. e que ainda possui em seu bojo o pro- cesso modernizador. (. devido à possibilidade de destruição não somente da vida natural. racional.. e imper- doavelmente lentos ou morbidamente relutantes em subir nela... A “cronopolítica” moderna os situa não apenas como seres inferiores e primitivos. A idéia de modernidade. conjuntamente com os fatores econômicos. “subdesenvolvidos” e necessitados de profunda reforma e es- clarecimento. o ataque consci- ente e sistemático dos “assentados”. expande igualmente sua cultura e seu modo de vida como o único a ser seguido. . arrastando-se nos degraus mais baixos da escala evolutiva. mas também como atrasados e “aquém dos tempos”. Compreender o processo de modernização/expansão é mais uma das chaves para en- tender o conjunto de práticas que revestem a realidade presente. refere-se à idéia de novo. Há uma potencialidade de se gerar genocídios e etnocídios. 2001. devido à expansão mercantil e cultural que se torna homogeneizante. fo- ram colocados entre os principais vilões na guerra santa travada em nome do pro- gresso e da civilização. completamente alheios às preocupações territo- riais e de fronteiras do emergente Estado Moderno. 241 BAUMAN. 65 CAPÍTULO II – PERSPECTIVA SOCIOLÓGICA 2.o advento da era moderna significou. Nossa sociedade atravessa um espaço de expan- são que..

p. por parte deste homem.rtf>. perfaz-se em uma genealogia do processo colonial. retomando a noção de colonialidade do poder. que compreende a constituição do capitalismo moderno a par- tir do eurocentrismo e da noção de raça. Em segundo lugar. a reflexão da Aníbal Quijano defende a tese de que a atual globalização é resultante de um processo que se iniciou com a constitui- ção da América e do capitalismo colonial/moderno e eurocentrado. justificando-se em face da sua superioridade. corroboradas ainda pelas informações vertidas nos tópicos an- teriores. a idéia de raça na América foi uma forma de legitimar as relações de dominação impostas pela conquista. como vimos. incorporando-a ao seu sistema-mundo e ao seu padrão de poder. necessário tecer alguns aspectos basilares. em benefício do capitalismo do centro europeu (poden- 242 QUIJANO. já exposta no primeiro capí- tulo deste trabalho242. dentre outros aspectos. Aníbal. que disserta. Acesso em: 30 jan. 04. Rio de Janeiro: Guanabara. construção mental que ex- pressaria a dominação colonial que desde então permeia as dimensões do poder mundial. Mas para compreender todo este processo de modernização. sendo considerados “raças inferiores”. Disponível em: <http://bibliotecavirtual. eurocentrismo e América Latina. 1891. op. o eurocentrismo. De importância para este estudo. E no processo que levou a este resultado. A constituição da Europa e a expansão do colonialismo europeu até a América e outras regiões conduziram a uma interpretação eu- rocêntrica do mundo. de um ideal de saber. um novo padrão de poder mundial. este eixo de estudo. 244 QUIJANO. 243 Como exemplo característico deste pensamento. Um dos seus eixos fundamentais seria a idéia de raça243. mas conseguiu impor seu domínio colonial em todas as regiões do planeta. a partir de sua concepção de mundo. con- tribuindo ainda para este processo a sua racionalidade que lhe é específica. p. Colonialidade do poder. Em primeiro lugar. 2011. Para tanto. pode-se citar os trabalhos e Nina Rodrigues. que se constitui em um padrão de colonialidade do poder até hoje hegemônico. . sobre uma incapacidade orgânica por parte dos aborígenes de adaptação social.. a expansão de seus valores e o extermínio da cultura alheia. de um ideal de constituição da sociedade. tendo construído a idéia de raça como um fenômeno natural das rela- ções coloniais de dominação entre europeus e não-europeus244. com o capitalismo mundial que passa a emergir. os principais fatores contribuintes foram: a) a expro- priação das populações colonizadas. As implica- ções do processo expansionista e colonizador não trouxeram apenas o desejo de riqueza e prestígio: trouxeram ainda uma perspectiva. eurocentrismo e América Latina. Colonialidade do poder. a Europa não so- mente tinha controle do mercado mundial. As raças humanas e responsabilidade penal no Bra- sil.org.ar/ar/libros/lander/pt/Quijano. Vide RODRIGUES.clacso. veio à Amé- rica com o propósito de aniquilar tudo que não fosse identificado consigo mesmo. 34-35. verifica-se que o homem moderno. Aníbal. 66 Pelas descrições feitas. Nina. cit.

Os europeus imaginavam a realidade a partir deste sistema de pensamen- to. portanto. Sociedade do risco. O Processo Civilizador. incorporando-se e estabelecendo a imposição do processo civilizador250. 2010.. 250 Com relação ao processo civilizador. 23. durante a 245 Ibidem. 246 Pode-se entender o processo de modernização como o salto tecnológico de racionalização e transformação do trabalho e da organização. Ulrich. cit. Zygmunt. a partir do qual imperou o eurocentrismo248. em especial frente aos colonizados245. Aníbal. Norbert. Neste sentido. São Paulo: Ed. a quase totalidade da produção e do consumo humanos se tornam mediados pelo dinheiro e pelo mercado. Esta imposição adveio do processo de ascensão do capitalismo. e sua história como a mais avançada da espécie. desenvolveu-se o etnocentrismo e a classifi- cação racial universal. vide BECK. 2. Nesse sentido. Vol. o que os levou a pensarem-se como os modernos da humanidade. p. o mundo europeu ingressa na realidade latino- americana. englobando para além disto muito mais: a mudança dos caracteres sociais e das bio- grafias padrão. dos estilos e formas de vida. Colonialidade do poder. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. alcançando as partes mais remotas do planeta. os europeus eram considerados naturalmente superiores aos demais povos do mundo. Justifica-se isto pelo fato de que o atual padrão de poder mundial é o primeiro efeti- vamente propagado em escala global na história. 06. . No momento em que esta modernização passa a tomar efeitos planetários. das concepções de realidade e das normas cognitivas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. op. 249 BAUMAN. 13. que põe como regra geral nas relações sociais a exploração. p. vide ELIAS. Assim. Com base nestas perspectivas. 2008. p. a comercialização e a mo- netarização dos modos de subsistência dos seres humanos penetraram em muitos recantos do globo terrestre249. 248 Ibidem. e b) a imposição da cultura dos domina- dores em tudo que fosse útil para a reprodução da dominação. A partir destes procedimentos. não modernos. é também uma questão de conflito de interesses sociais. eurocentrismo e América Latina. a dominação e a degradação dos de- mais modos de vida em prol da expansão econômica. p. pode-se vincular esta reflexão com o processo de modernização246. Isto ocorreu pelo fato de que eles foram capazes de difundir e esta- belecer esta perspectiva histórica como algo hegemônico dentro do padrão mundial de po- der247. das estruturas de poder e controle. notadamente no campo da ati- vidade religiosa. Vidas desperdiçadas. Com base nos fundamentos expostos. pode-se atribuir um conceito de modernidade novo no atual sistema- mundo. A modernidade. 2005. produzindo mudanças em todas as relações sociais ao redor do globo. O homem moderno. p. 13. 67 do-se inserir principalmente a tomada de territórios). das formas políticas de opressão e participação. 34. 06. a mercantilização. 247 QUIJANO. com o tempo serão modernizados. No entanto. Os não- europeus.

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imposição da civilização aos “des-civilizados”, buscará expandir-se como se fosse o único, o
eternamente novo, imagem a qual todos deverão aceitar como padrão dominante e serem sub-
jugados, execrando culturas e modos de viver distintos. Como refere Bauman, “a existência é
moderna na medida em que é guiada pela premência de projetar o que de outra forma não
estaria lá: de projetar a si mesma”251.

Para tanto, seguiremos com alguns aspectos característicos da sociedade do risco, bem
como a produção da homogeneização como projeto desta sociedade expansiva.

2.1.1 Sobre a sociedade do risco: notas gerais

De fato, a mente moderna surge com a idéia de que o mundo pode ser transformado.
Esta modernidade refere-se à rejeição do mundo tal como ele tem sido até agora e à decisão
de transformá-lo. A forma de ser moderna possui uma mudança compulsiva, obsessiva: refu-
ta-se o que meramente é, para que seja dado lugar ao que poderia – ou deveria – ser posto em
substituição a este é. Trata-se de um mundo que possui o desejo e a determinação de constan-
temente se refazer, um permanente movimento. Diante disto, a escolha será modernizar-se ou
perecer252. Uma espécie de condução compulsiva e viciosa de projetos modernizadores, um
estado de perpétua emergência253 e de risco constante.

Outro fenômeno que é característico da modernidade, do processo de modernização: a
produção do refugo humano. Os seres humanos não reconhecidos como tais configuram-se
como o produto inevitável da modernização. É o efeito colateral da construção da ordem –
que define quais parcelas da população serão deslocadas, inaptas ou indesejáveis – e do pro-
gresso econômico, que não pode se concretizar sem degradar ou desvalorizar modos anterio-
res de vida254. Bauman ressalta que o modelo típico de pessoa excluída é o denominado homo
sacer de Giorgio Agamben255, uma categoria do antigo direito romano que era estabelecida
fora da condição de ser humano sem ser trazida para o meio da lei divina. A vida de um homo
sacer não possui valor, seja na perspectiva humana ou divina. Privada da lei humana e divina,

251
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Ambivalência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999, p. 15.
252
BAUMAN, Zygmunt. Vidas desperdiçadas, op. cit., p. 34.
253
Ibidem, p. 41.
254
Ibidem, p. 12.
255
Conforme os estudos de Agamben, o homo sacer era uma figura existente no direito romano, indivíduo que
poderia ser executado por qualquer pessoa; uma espécie de assassinato permitido. A impunidade de sua morte
era um dos elementos que caracterizavam o homo sacer. Vide AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer – o poder
soberano e a vida nua I. Belo Horizonte: UFMG, 2002, p. 79-81.

69

sua vida é inútil. Na versão atual, Bauman salienta que o homo sacer se constitui como a prin-
cipal categoria de refugo humano estabelecido no curso da produção de domínios sobera-
nos256.

Contudo, o que relaciona esta produção de excedentes humanos, de dejetos improduti-
vos, com a incorporação de outras etnias e o processo de modernização? A era moderna foi
caracterizada como o período de grandes migrações. O extermínio de povos indígenas foi uma
conseqüência da abertura de novos espaços para os excedentes populacionais da Europa, pre-
parando estes locais como depósitos do refugo humano produzido pelo progresso econômico.
Theodore Roosevelt, antigo presidente dos Estados Unidos, apresentava o extermínio dos po-
vos indígenas norte-americanos como um serviço altruísta, que era prestado em defesa da
civilização257. A expansão econômica, condição do processo de modernização, se espalhará
pelos locais mais remotos, exterminando todas as formas de vida remanescentes que, com
suas culturas originárias, não faziam parte da sociedade do capital.

Por fim, outro elemento que caracteriza esta modernização é a necessidade de assimi-
lação. Na forma literal, assimilar significa tornar semelhante a. Nos estudos biológicos do
século XVI significava a absorção e incorporação realizados por organismos vivos258. E este
processo se reforça com o Estado moderno, que busca eliminar organizações sociais distintas,
promovendo uma espécie de uniformidade259, de homogeneidade, método característico das
medidas expansionistas da época do Brasil colonial e neocolonial, por exemplo. Substituir o
estado natural das coisas por uma ordem artificialmente planejada: eis a função do programa
político do projeto civilizador260 (ou seja, como conduzir a população de determinada forma
na produção de um saber uno e na instauração de um poder totalizante).

Com base nestas exposições anteriores, pode-se dizer que as etnias que não se consti-
tuem como corpo produtivo, quando se integram totalmente no nosso sistema global pagam
com suas terras, com a perda de suas identidades culturais e muitas vezes com suas vidas. E o
que irá contribuir para isto será a modernização, com seu efeito mais atual: a globalização.
Esta se define como “a intensificação das relações sociais em escala mundial, que ligam lo-

256
BAUMAN, Zygmunt. Vidas desperdiçadas. op. cit., p. 44.
257
Ibidem, p. 51.
258
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Ambivalência. op. cit., p. 115.
259
Ibidem, p. 117.
260
Ibidem, p. 118-119.

70

calidades distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por eventos
ocorrendo a muitas milhas de distância e vice-versa”261.

A adaptação de todo o planeta ao mercado livre reconhece apenas como fundamento
moral os valores gerados pelas necessidades desta globalização262. Isto tem por efeito a devas-
tação de florestas e de modos de cultura originariamente mantidas há gerações, fomentando
um contínuo processo de inserção de etnias a serem expoliadas, proletarizadas e por fim ex-
cluídas pela mesma causa que as incorporou (a modernização). A América Latina vem so-
frendo ajustes estruturais mortais para pagar as dívidas contraídas por ocasião da construção
de grandes obras como Grande Carajás, do Polonoroeste, que submergiu mais de 30 mil indí-
genas da Amazônia. Obras muitas vezes sem estudo de viabilidade ambiental e até mesmo
ocultando a existência de povos originários na localidade vêm destruindo modos de vida mi-
lenares263, mediante a remoção local ou a inserção destas etnias diversas dentre os excluídos
urbanos, mortos-vivos da globalização.

Darcy Ribeiro, abordando sobre como ocorre o processo a que denomina de transfigu-
ração étnica, assevera que os índios Agavotokueng, por exemplo, que se encontram nas nas-
centes do rio Xingu, sofrem com o efeito da bolsa de Nova York ou a paz e guerra entre Esta-
dos longínquos. Isto ocorre devido à cotação internacional da borracha, da castanha e de al-
guns artigos florestais, fato este que faz avançar ou refluir ondas de seringais e castanheiros
que vão desalojando tribos vizinhas e lançando-as sobre as aldeias desse povo264.

O modelo globalizado caracteriza-se pelo seu ataque de forma oculta: não se sabe co-
mo, onde, quando ou a quem será dirigido o próximo ato que deverá remover os “empecilhos
humanos” ou o refugo humano que já se incorporou no sistema de proletarização, mas não
consegue sobreviver a esta continuação de modelo excludente. É a extensão totalizante a to-
dos os aspectos da vida265. E neste modelo globalizado, em que o processo de modernização é
constantemente circulante, a noção de risco é de suma importância266.

Niklas Luhmann refere que as antigas civilizações desenvolveram modos de dotar de
certeza a existência futura, mediante mecanismos culturais. Obviamente, em suas épocas não

261
GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo: UNESP, 1991, p. 69.
262
PERRAULT, Giles. O Livro Negro do Capitalismo. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 465.
263
Ibidem, p. 473.
264
RIBEIRO, Darcy. Os Índios e a Civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 295.
265
BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as conseqüências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999, p. 73.
266
Com relação à sociedade do risco, vide BECK, Ulrich. Sociedade do risco. São Paulo: Ed. 34, 2010.

71

existia a idéia de risco tal qual se conhece hoje267. Confiava-se majoritariamente na adivinha-
ção, embora esta não garantisse uma segurança plena a respeito dos acontecimentos vindou-
ros. Já no antigo comércio marítimo oriental existia a consciência do risco com os correspon-
dentes ordenamentos jurídicos. A viagem pelo mar e o comércio são casos em que o emprego
da palavra é freqüente. Os seguros marítimos seriam um primeiro exemplo da planificação do
controle do risco268.

O que subjaz a esta idéia é que há demasiadas razões para que algo possa mudar seu
curso, repentinamente, e que não se pode considerar em um cálculo racional. Esta máxima nos
conduz ao centro da controvérsia política atual sobre as conseqüências dos problemas tecno-
lógicos e ecológicos da sociedade moderna269.

O termo risco se refere a decisões nas quais se vincula o tempo, ainda que o futuro não
possa ser conhecido suficientemente. À noção de risco passa-se a se considerar um cálculo de
probabilidade, ou seja, diz respeito aos fundamentos das decisões seguras em relação a um
futuro sempre incerto. Com a ampliação das pretensões de saber, as antigas limitações cosmo-
lógicas, as essências e mistérios da natureza são substituídos por novas distinções, especifi-
camente da esfera do cálculo racional. Assim seria o que se entende por risco até nossos di-
as270. Desta forma, o passado perde seu poder de determinação sobre o presente. Entra em seu
lugar o futuro – ou seja, algo que ainda não existe – como a causa da vida e da ação no pre-
sente. Quando se fala de riscos, discutimos algo que não ocorre ainda, mas que pode surgir se
não for imediatamente alterada a direção do barco. Os riscos imaginários são o motor que faz
andar o tempo presente. Quanto mais ameaçadoras as sombras que pairam sobre o presente,
anunciando um futuro tenebroso, mais fortes serão os abalos, hoje abarcados pela dramaturgia
do risco271.

Ulrich beck ressalta que, para se compreender o advento da sociedade do risco, deve-
se entender a idéia de “modernização reflexiva”. Esta não diria respeito à reflexão, mas a uma
autoconfrontação: ao trânsito da época industrial para a época do risco se realiza anônima e
imperceptivelmente no curso da modernização autônoma conforme efeitos colaterais latentes.
Por “modernidade reflexiva” deve-se entender a autoconfrontação com os efeitos da socieda-

267
GIDDENS, Antony; BAUMAN, Zigmunt; LUHMANN, Nicklas; BECK, Ulrich; Las consecuencias perver-
sas de la modernidad – modernidad, contingencia y riesgo. Barcelona: Antropos, 1996, p. 130.
268
Ibidem, p. 132.
269
Ibidem, p. 134.
270
Ibidem, p. 135.
271
BECK, Ulrich. O que é globalização? São Paulo: Paz e Terra, 1999, p. 178.

p. 277 Ibidem. as ameaças provocadas ocupam um lugar predominante. com base nos estudos de Ulrich Beck. de caráter interclassista. 28. caracteriza a socie- dade do risco como um perigo externo. 199. que explicitam a contradição fundamental da sociedade. estes riscos não podem ser limitados geograficamente ou em função de grupos específicos. p. Nicklas. no centro da questão estão os riscos e efeitos da mo- dernização. que se precipitam sob a forma de ameaças à vida de plantas. . São Paulo: Cortez.. ao acúmulo de poder do “progresso” tecnológico-econômico é cada vez mais ofuscado pela produção de riscos. BAUMAN. contingencia y riesgo. op. 275 BECK. seguridade social. Ainda. portanto. São. Ainda. contêm uma tendência globalizante que tanto se estende à produ- ção e reprodução como atravessa fronteiras nacionais. Para Beck. e os impactos provenientes das situações de risco não escolhem grupos específicos: incidem sobre a existência humana. 273 Ibidem. cit. 278 SANTOS. Ulrich. a denominação “sociedade do risco” trata-se de dar uma forma conceitual a esta relação do reflexivo. de alcance global. Para Beck. p. A Globalização e as Ciências Sociais. Sociedade do risco. e com um novo tipo de dinâmica social e política275. 26.. que escapa à percepção humana. dentre outros). Ulrich. ao mesmo tempo que não modificam suas estruturas. 16. com a sociedade do risco os conflitos de distribuição de bens sociais (pos- tos de trabalho. com o desenvolvimento da sociedade industrial até nossos dias. Boaventura de Sousa. LUHMANN. contudo. Pelo contrário. 203. p. são sobrepostos pelos conflitos de distribuição dos “danos” coletivamente produzidos273. A sociedade do risco mostra-se como uma sociedade catastrófica277. Boaventura Souza Santos. op. Zigmunt. 2ª ed. sendo um produto de série do maquinário in- dustrial do progresso276. A forma conceitual da sociedade do risco designa desde um ponto de vista teórico-social e de diagnóstico cultural um estágio da modernidade em que. BECK. 203. fenômeno global. p. não refletem sobre seus efeitos e privilegiam uma política continuista desde o ponto de vista industrial274. efeitos que não podem ser mensurados e assimilados pelos parâmetros institucio- nalizados da sociedade industrial272. Poder-se-ia tomar como exemplo a questão da sustentabilidade ambiental. Para o autor. Las consecuencias perver- sas de la modernidad – modernidad. 274 Ibidem. 72 de do risco. em escala global278. p. cit. 276 Ibidem. pode-se dizer que as sociedades modernas passam a se confrontar com os fundamentos e limites de seu próprio modelo. p. 204. este risco não está restrito a este aspecto: também pode 272 GIDDENS. animais e seres hu- manos. Antony. 2002.

A noção de risco. 73 estar associado à desagregação de grupos sociais e práticas sociais. expropriação. Chittó. . mas execrar suas culturas e inseri-los nos mecanismos de po- der da razão governamental modernizante279 (nas camadas pobres das zonas colonizadas. Esta tendência à homogeneidade humana veio a pro- duzir o que se pode denominar de igualdade totalizadora. como evangelização. Eis mais um efeito do pro- cesso de modernização mediante a extensão do processo globalizante: o agravamento do risco social na contemporaneidade. primeiramente pela Europa e por último pelos Estados Unidos da América. A fundação da norma – para além da racionalidade histórica. transformando-os de incluídos a excluídos). desenvolveu-se verdadeiros impérios baseados em uma alteridade unilinear280. 281 Nesse sentido. inclusão em atividades de trabalho. esse sentimento de pertencer a um mesmo grupo. Focalizando o aspecto do risco social para estes povos. Para haver uma “consciência” de nação. denota-se a partir do fato de que estes grupos étnicos são constantemente ameaçados por este tipo de invasão modernizante global. Territorialidades no centro de Rondônia – Brasil. p. Sua condição diante desta conjuntura é de vulnerabilidade. neste aspecto. Porto Alegre: ediPUCRS. Tendo em vista que a modernização agora globalizada busca se instaurar sobre todas as relações. Acesso em: 04 mai. p. 280 TEIXEIRA. sendo negada às sociedades vítimas da expansão moderno- colonial seu direito de estar no mundo.org. 2. até mesmo escravo. como os povos indígenas. 84. sobre todos os seres humanos. princi- palmente constituído com a formação dos Estados-Nação. a uma mesma cultura nacional e tornar possível uma identificação nacional. 2. Disponível em: <http://bibliotecavirtual.2 Homogeneização: a produção da igualdade totalizadora Ao longo do processo homogeneizante posto em marcha. 2011. oriunda dos estudos de Ruth Gauer281. Esta concepção de risco social possui uma importância salutar.ar/ar/libros/becas/2008/deuda/serto. Ruth M. Luiz Sertório.pdf>. buscando não apenas rea- lizar expropriações constantes. Tal expressão. tanto cultu- ral quanto no que se refere à preservação de suas próprias vidas. 2009. pode-se inferir que devido a sua fragilidade frente ao processo modernizante.clacso. etc.1. estes povos deverão ser assimilados (incorporados) de qualquer maneira. alguns 279 Pode-se exemplificar a partir dos métodos de condução da população. um dos alvos certamente será a incorporação de etnias que mantêm estruturas sociais originárias. vide GAUER. retrata uma face obscura do projeto moderno de homogeneidade.

a fim de sustentar seus parâmetros de ordem. de nacionalidade. 4. p. A modernidade inventou e multiplicou seus “anormais”. os Estados-Nação não teriam se lançado à tarefa no escuro. os miseráveis. os estranhos. Ela criou instituições com a função precípua de normatizar e normalizar os elementos da cultura e criar. Joice Oliveira. uma identidade e uma consciência naci- onal. beleza. Com efeito. seu esforço tinha o poderoso apoio da imposição legal da língua oficial – forma de etnocídio – em currículos escolares e de um sistema legal unificado283. 285 Ibidem. p. fosse por meio da as- similação ou por meio da eliminação/exclusão284. essas narrativas possibilitaram a internalização da idéia de pertencimento nacional. Disponível em: <http://www. 74 dispositivos são acionados para representar a nação e produzir significados282. homogeneizando os traços constitutivos da identidade nacional. Para a autora. os cegos. Assim. pode-se tomar como princi- pais seres humanos afetados por este processo de homogeneização os grupos indígenas. 4. Nesse sentido. Identidade cultural e alteridade: problematizações necessárias. reproduzir e legitimar uma cultura. . Para tanto. dentro das fronteiras do Estado somente havia lugar para uma língua. Esta caracterização da sociedade pela purificação e limpeza é abordada por Ruth Gau- er em seus estudos com base nos trabalhos de Mary Douglas. limpar toda “sujei- ra social”285. os “ou- tros”. erradicar as diferenças e/ou os diferentes. conseqüentemente. 4. de um sistema de classificação e distinção cultu- ral e identitário que visava preservar e garantir a conformidade social com esses parâmetros. 2011. a fim de purificar. essas instituições se tornaram palco da produção. a língua. Acesso em: 28 abr.unisc. uma me- mória histórica e um sentimento patriótico.pdf>. Nesse sentido. uma cultura. p. os sindrômicos. os aleijados. para a construção das culturas nacionais e para a for- mação de uma consciência nacional. reprodução e con- trole da alteridade no contexto da modernidade. p. o projeto de construção do Estado- Nação necessitava. sobre pureza e perigo. os rebeldes. deficientes. 3. os sur- dos.br/spartacus/edicoes/012007/pacheco_joice_oliveira. 283 Ibidem. os homossexuais. a modernidade se serviu de uma lógica binária. afastar. Para construir uma forma unificada de identificação a partir das tantas diferenças exis- tentes no interior da “nação”. limpeza e progresso. a raça e a história enquanto narrativas homogeneizadoras foram essenciais para a constituição das identidades nacionais. portanto. 284 Ibidem. a ênfase no exame destas questões estaria vinculada à outra problemática: a questão da 282 PACHECO.

hospitais. do modo como sentamos à mesa até a mais cotidiana comunicação. o espaço privado. p. como se isso fosse possível288. Chittó. normal- mente associada ao belo. pas- sando-se a isolar casas. como medida de ex- ceção. igualmente no tratamento com seres humanos. mesmo as mais microscópicas. Neste aspecto. A estética. 84. a or- dem estaria vinculada à organização: todas as coisas em seus lugares e todos os lugares com suas coisas igualmente ordenadas e purificadas287. A obsessão pela limpeza seria configurada pela disciplina. nesse sentido. A limpeza dos espaços públicos foi e é realizada pelas instituições vinculadas à esfera da administração e das políticas públicas. Para a autora. 84. 287 Ibidem. a reflexão sobre a sujeira envolve pensar na relação entre a ordem e a desordem. E nada seria mais importan- te para essa obsessão do que a busca desesperada pelo modelo que retrate limpeza. a pureza e a ausência de qualquer perigo. cit. . deveriam estar bloqueados como forma de imunidade dos locais limpos. nomeadamente no século XX. Na modernidade essa prática continuou. Porém. 84. Esses locais.. ligou-se de tal modo à limpeza que a trans- formou em obsessão. A beleza estaria vinculada à aparência de limpeza do corpo. 289 Ibidem. Para a autora. da limpeza. higiene e sujeira estabeleci- am a ordem da casa. que deve estar livre de impurezas. Tudo que nos cerca deve estar imune à contaminação e à impureza. sendo apropriado pensá-la para a partir de então relacionar com a desor- dem e todo o tipo de discriminação286. buscando os ideais de ordem. Desde a anti- guidade o isolamento foi uma prática utilizada para evitar a contaminação. 288 Ibidem. 75 ordem. constituía-se na única forma de proteção289. 85. isto é. até mesmo quarteirões inteiros de cidades como forma de proteção dos espaços não contaminados. p. p. O exemplo históri- co de exclusão mais conhecido é o dos leprosos. o respeito com as conversões e a higiene se constitui em duas ferramen- 286 GAUER. p. Por sua vez. com ausência de resíduo. As técnicas disciplinares preocupam-se não apenas com a sujeira e a doença: elas trataram e tratam de organizar meios para disciplinar todas as formas de expressão e de comportamento. assim como a ordem do espaço público. op. O isolamento. mesmo os mais microscópicos. A civilização perseguiu freneticamente o controle e o domínio de toda e qualquer for- ma de perigo. passamos pensando o quanto seria importante a limpeza. vistos como perigosos. a sujeira seria um fato que nos repugna. Assim. nada mais eficaz do que a disciplina moderna para garantir a ordem. muito antes as questões de pureza. Ruth M.

mas todas as coisas que pu- dessem estar fora do lugar. do violento. Nesse sentido. assim como todas as formas mais diferenciadas de ditaduras na contemporaneidade. 85. e assim consideramos desagra- dáveis e as varremos vigorosamente. pois são perigos em potencial. A autora. reportando-se a Mary Douglas. Neste aspecto. A eliminação de ad- versários políticos – e podemos inserir neste campo outros grupos humanos. purificando a sociedade e assim 290 Ibidem. 292 Ibidem. A modernidade teria disciplinado não apenas os homens. tal como foi criado nos tempos mo- dernos. a compulsão pela ordem esteve (e ainda estaria) presente nas sociedades ocidentais. administrativos. a todos que podem se cons- tituir em perigo292. 86. Quando os estados passaram a estabe- lecer políticas públicas para cuidar do corpo da população. O mundo perfeito seria totalmente limpo e idêntico a si mesmo. 291 Ibidem. refere que o reconheci- mento de qualquer coisa fora do lugar constitui-se em ameaça. jurídicos. 86. A autora questiona quais seriam os procedimentos políticos. teria estruturado todas as ações sociais e políticas desde seu início com o objetivo de eliminar diferenças contaminadoras e. transparente e livre de contaminações. a corrupção. seja nos regimes totalitários. Ruth Gauer refere que se poderia afirmar que o modelo de igualdade. . esse desejo irresistível de ordem e de segurança. p. o niilismo e para a exploração de um número considerável de seres humanos291. a autora cita como exemplos históricos o nazismo. perigosas290. A autora salienta ainda que a violência depuradora sempre esteve mais presente nos ambientes onde a exceção se constitui a regra. p. o fascismo. dentre outros – é vista como uma forma de limpeza e atinge a opositores. étnicos. A modernidade teria cria- do essa compulsão. os perigosos. 76 tas eficazes de controle social. as quais comprovariam a utilização de práticas de saneamento dos sistemas políticos. bem como quais seriam os dispositivos que permitiram a busca da construção e manutenção de uma sociedade higienizada e imunizada. a sedução das crenças e demais impurezas. p. nos estados de exceção. portanto. seja nos regimes políticos das democracias libe- rais. de todos os modelos considera- dos perigosos para as convenções estabelecidas pela civilização. A representação sobre a limpeza e a pureza pretende eliminar a entrada do monstruoso. em resumo. os modernos teriam esqueci- do que não haveria imunidade para o egoísmo. do disforme. devem ser purificados ou eliminados. o comu- nismo. todos os que são identificados como potencialmente contaminadores. Contudo. Desta for- ma. A racionalida- de expressa pelas leis e convenções tinha como fim imunizar a sociedade contra a violência. Para ela.

Quanto maior a exceção. enfim. A lógica binária de exclusão foi a base para a construção 293 Ibidem. Por um lado. 86. maior seria a igualdade. com a tentativa de eliminação do estranho. Assim. o que pressuporia a exclusão do desigual (diferente) em nome da ordem. Com efeito. Para a autora. uma coletivização ao extremo. o anormal. perigo. Os perigos precisam ser eliminados. o tecido social precisou ser impermeabilizado a tal ponto que a sua proteção tornaria difícil pensar em rupturas que permitam a contaminação. a presença de qualquer grau de homogeneização e de exclusão daquele que não é homogêneo implicaria na configuração de uma totalidade295. Esse fato teria eli- minado o caráter carismático do vínculo social e aberto a possibilidade de eliminar os laços de solidariedade que uniam as comunidades e estruturavam a sociedade. 295 Ibidem. 77 “protegendo” e ordenando a vida pública e privada. constituída pelo direito. por paradoxal que possa parecer. A autora. Essa pretensão de controle social nada mais seria do que a submissão da ação pelo com- portamento: a ação enquanto possibilidade de criação e o comportamento pautado pela previ- sibilidade. abriu-se a possibilidade para a inclusão de alguns e a exclusão de outros293. impedindo que ele se torne um perigo ameaçador da homogeneidade. ou seja. Nesse campo. limpos. a ausência de laços de solidariedade implicaria na abertura da exclusão em nome da ordem igualitária totalizadora. . reportando-se a Dumont. depurados. seria evidente que a política da igualdade potencializa a violência de vá- rias formas: eliminando todo e qualquer outro. As práticas políticas adotadas na moderni- dade. por outro. a manutenção do modelo igualitário ganha espaço na mesma proporção em que os regimes totalitários e de exceção se aprofundam. que visava à eliminação das hierarquias medievais. em nome da igualdade. refere que o nacional socialismo teria revelado a essência da sociedade contemporânea. a autora refere que nesse caso a força política se sustentaria na medida em que se purifica. o diferente. tudo o que causa estranheza. Para a auto- ra. Para a autora. estavam pautadas pela prescrição de condições de controle dos comportamentos individuais e coleti- vos. estruturada na naturalização do indivíduo. 87. 294 Ibidem. o impuro. p. do desigual. Partindo da premissa de que a democracia tem por base uma igualdade. entre a pureza e o perigo. a emancipação gerou o individualismo arrebatado. o sujo. o nivelamento de todas as diferenças conduziu à pior das tiranias. 87. colocando distância entre a ordem e a desordem. p. p. que lembra sujeira e desordem. o do- ente. para que a totalidade se faça no conjunto da sociedade294. a perspectiva da previsibilidade estaria vinculada à lógica binária e dual típica do pensamento moderno.

entre outros. per- de. Sobre la racionalidad econômica eficiente y sacrificial. espécies animais e vegetais. o seu fim será a completa petrifi- cação. e evoca essa esfera onde o homem não po- de atuar nem mudar e na qual tem. Ao idealizar a perfeição de uma instituição como o mercado se produz um impacto também em outras formas de culturas e modos de vida. “raça”. 297 ARENDT. David Sánchez. Igualmente na atualidade. isto é. bem como a violência exercida sobre as outras culturas. Acesso em: 28 abr. Hannah. será punida. despertam silencioso ódio. principalmente com o advento dos Estados modernos. porque mostram com impertinente clareza aquelas esferas onde o homem não pode atuar e mudar à vontade. essas distinções e diferenciações naturais e onipresentes que. Sem dúvida. Se um negro numa comunidade branca é considerado nada mais do que um negro. la barbárie mercantil y la exclusión de los seres humanos concretos. chamada homem. O caráter entrópico e destrutor do sistema capitalista. Além da expansão interna a todas as faces da existência. ele passa a ser determinado exemplar de uma espécie animal. p. tem sido e é uma das constantes desde suas origens até nossos dias298. tão freqüentemente insis- tem na homogeneidade étnica é que esperam eliminar.pucrs. 2007. Coisa muito semelhante sucede aos que per- deram todas as suas qualidades políticas distintas e se tornaram seres humanos e nada mais. diversidades e riquezas humanas. 78 de termos como “classe”. por si mesmas. onde quer que a vida pública e sua lei da igualdade se im- ponham completamente. tanto quanto possível. impondo seu próprio horizonte de sentido como se fosse o único modo de ver. que serviam à identificação dos su- jeitos296 e impulsionaram o etnocídio. por haver esquecido que o homem é apenas o senhor. 296 Ibidem. p. 298 RUBIO. o capitalismo tem desenvolvido diferentes for- mas de colonialismo. Origens do totalitarismo. p. juntamente com seu direito à igualdade. os limites do artifício humano. São Paulo: Companhia das Letras. Nas palavras de Hannah Arendt297 A razão pela qual comunidades políticas altamente desenvolvidas. desconfiança e discriminação. com a dinâmica do capitalismo neoliberal e global em sua nova fase de desenvolvimento. por assim dizer. 109. uma definida tendência a destruir. e do condicionamento que opera sobre as formas de organização social. Disponível em: <http://revistaseletronicas.br/ojs/index. 2011. 88. culturais e naturais. aquela liberdade de ação especifica- mente humana: todas as suas ações são agora explicadas como conseqüências “ne- cessárias” de certas qualidades do “negro”. entender e atuar no mundo. O “estranho” é um símbolo assustador pelo fato da di- ferença em si. portanto. onde quer que uma civilização consiga eliminar ou reduzir ao mínimo o escuro pano de fundo das diferenças. “gênero”. como as antigas cidades-Estados ou os modernos Estados-nações.php/sistemapenaleviolencia/article/viewArticle/6635>. e não o criador do mundo. principalmente indígena. não lhe importa eliminar pluralidades. . da individualidade em si. 335. com a globalização e a expansão do mercado global a todos os modos de vida e subsistência.

a vida cotidiana. que exige a eliminação de pluralidades de espécies e de diferenças culturais. 109. posteriormente. trataremos de expor como esta forma de poder se materializa no fenômeno do colonialismo. se potencializa a agressão e fragmentação de sistemas sociais e culturais diversos para integrá-los em um sistema global considerado o único válido. que desde sua ótica são con- cebidos como impedimentos e obstáculos para a expansão do capital299. c) como violência social e cultural. onde apenas subsiste a esco- lha entre a conversão ao sistema cultural do agressor ou a retribuição pela eliminação física. do controle e da centralização. que é o cultivo do uniforme. 110. impondo um único modo de entender o mundo. A violência estabelecida neste processo de uniformidade e homogeneização impõe a criação de monopólios sobre a vida e recursos vivos. 299 Ibidem. Há uma aspiração a controlar tudo: a cultura. O etnocídio se constitui como um processo de limpeza étnica que visa eliminar as distinções culturais. 79 Nesse sentido. os mercados. O sonho de pureza se instala no processo etnocida que. de pureza total. subsiste uma característica da globalização contemporânea. p. A sociedade pas- sa a ser moldada totalmente à imagem e semelhança do seu criador/agressor. desagre- gando o tecido social plural e a capacidade de organização das comunidades locais e regio- nais300. 300 Ibidem. abordaremos a violência dentro do contexto do etnocídio. mediante o uso da força. produto de um projeto de igualdade totalizadora. as maté- rias primas. Nesse sentido se insere a lógica do etnocídio.. como ocorreu sobre os indígenas na conquista da América e ainda ocorre em outros locais do planeta. . assim. e se manifesta em múltiplos níveis. total. b) como violência ecológica contra as diversas espécies da natureza. impõe à violência sua crença e visão de mundo. visando a instauração de uma sociedade completamente homogênea. etc. intensificando o risco em gerar novos genocídios e etnocídios. religiosas e lingüísticas que configuram a di- versidade humana para implantar um sistema homogêneo. p. que pressupõe a homogeneidade e a destruição da diversidade tanto soci- al como da natureza. Assim. Está configurado neste sentimento de limpeza total. co- mo por exemplo: a) no nível político. A seguir.

pre- cisamente de quem é identificado pelo fato de ser alheio. as antigas palavras colo. colis. . de exploração da terra habitada. 2. constituem em seu amálgama a sig- 301 MUÑOZ-ARRACO. há também outra ideia: a de que algo ou alguém se introduz em um espaço que lhe é estranho. ou grupo de colonos enviados pelo Estado a certo lugar para habi- tá-lo ou cultivá-lo302. Daí ser colonus o sujeito que.1 O colonialismo e o fenômeno do etnocídio José Manuel Muñoz-Arraco301. 302 Ibidem. povo rural.es/handle/10016/1430>. Disponível em: <http://e- archivo. Para tanto. Estes dois elementos geralmente estão estreitamente ligados às práticas et- nocidas de destruição de culturas. habitava e cultivava em um determinado lugar. 315. seu sentido era “habitar” ou “cultivar”. a condição de “alheio”. em nome do proprietário. coloniae. colui. p. em ensaio sobre o colonialismo.uc3m. e daí também adveio o termo colonia. As duas idéias de exploração e de alheidade (estranho ao local). além desta idéia de cultivo. primeiramente trata- remos de apresentar alguns aspectos relativos ao colonialismo e sua relação com o etnocídio. colere. colonialismo e violência são aspectos por vezes inseparáveis na prática do etnocídio. para posteriormente tratar da violência que integra esta forma de violação aos direitos huma- nos. A alheidade indica o que é por essência diferente e estranho a respeito do lugar em que se coloca. 314. p. Para o autor. de 14 de diciembre de 1960. ou seja. e se traduz como um elemento essencial em uma reflexão sobre o sentido e significação geral da linguagem que aplicamos para estudar e descrever os fatos e idéias colo- niais303. 303 Ibidem. busca traçar alguns aspectos importantes no que diz respeito à essência conceitual deste fenômeno. 80 2. tiveram originariamente expressão entre os latinos. Acesso em: 04 mai. 2011. fundidas para tipificar a específica exploração realizada por parte de quem está dotado de “alheidade”. 315.2. religiões e línguas. p. Nesse sentido. José Manuel Pérez-Prendes. cultum. Sobre los colonialismos – consideraciones acerca de la “Declaración” de la ONU.2 COLONIALISMO E VIOLÊNCIA Colonialismo e violência são dois elementos-chave para se compreender como o etno- cídio é praticado. Contudo.

na realidade. 1-3. teríamos o neocolonialismo. em lugar de ser para o desenvolvimento das partes menos desenvolvidas do mundo. se converte em uma tripla corrente de exploração-alheidade-estatalismo. aumenta. Kwame. independente e tem todos os adornos exteriores da soberania interna- cional. E nesse sentido. Rio de Janeiro: Civilização Brasi- leira. p. 307 Ibidem. 323. p. Também é possível que o controle neocolonial seja exerci- do por um consórcio de interesses financeiros que não são especificamente identificáveis com qualquer Estado particular. seu sistema econômico (e portanto. Neocolonialismo – último estágio do capitalismo. Porém. como “colônia”. 81 nificação radical que se deriva de colo. a brecha en- tre as nações ricas e pobres do mundo. 1-3. etc304. O controle do Congo por grandes interesses financeiros internaci- onais seria um exemplo307. “colonial”. Para o autor. Porém. “descolonização”. quando se pratica desde as possibilidades que oferece uma forma política estatal. Os métodos e a forma de direção podem tomar vários aspectos: por exemplo. em especial com o neocolonialismo. O investimento. Um Estado nas garras do neocolonialismo não é senhor 304 Ibidem. o autor refere que a tríplice expressão exploração-alheidade-estatalismo integraria a essência básica do conceito. 305 Ibidem. em lugar de diminuir. há que ressaltar que o elemento estatal não se mostra necessariamente vincu- lado com as novas formas de colonialismo. Contudo. Para Kwame N´krumah306. 1967. o resultado do neocolonialismo é que o capital estrangeiro é utilizado para a exploração. p. p. mais comumente o controle é exercido através de meios econômicos ou monetários. o neocolonialismo apresentaria hoje o imperialismo em seu estágio final e tal- vez o mais perigoso. Sua essência seria de que o Estado que a ele está sujeito é. Esta dupla articulação. no caso extremo de tropas de uma potência imperialista guarnecerem o território de um Estado neoco- lonial e controlar o seu governo. . sob o neocolonialismo. exploração-alheidade. seu sistema político) é dirigi- do do exterior. 306 N´KRUMAH. que constitui o fenômeno ao qual o autor designa com a palavra colonialismo e em função sua há que entender os termos relacionados e complementários. e o colonialismo suporia uma série de relações de dependência e domina- ção305. teoricamente. 315. Nesse sentido. em lugar do colonialismo como principal instrumento do capitalismo.

. a exploração sistemática de um povo conquistado por outro. por exemplo. Para ele seria natural e necessário que a Índia passasse pelo processo colonizador britânico310. que estão decididos a incorporá-lo no seu pró- prio país. 11. 10. No caso do colonialismo britânico. como define Léopold Sédar Senghor. dentre outros. Na África especificamente. 309 Biblioteca Salvat de Grandes Temas. o colonialismo seria um pro- cesso de ocupação de um país por estrangeiros. isso teria os levado a não destruir os fundamentos das civilizações negro-africanas. por cada negro deportado. 1-3. por exemplo. como a história da África. Senghor afirma que os britânicos seriam mais sensíveis que os franceses às diferenças raciais. p. O colonialismo é a exploração de povos submetidos pelos seus conquistadores. árabes e europeus organizaram o comércio humano chamado “tráfico de negros”. colonialismo e etnocídio tiveram um papel muito vincula- do. isto é. Cerca de vinte milhões de negros foram deportados para terras americanas. 82 do seu próprio destino. Colonialismo e neocolonialismo. exis- tiu o colonialismo grego. No entanto. Calcula-se que este genocídio tenha provocado cem milhões de mortos. Rio de Janeiro: Salvat. p. O mal causado à África seria um dos mais terríveis já cometidos 311. Karl Marx. o problema seria mais complexo. 310 Ibidem. De qualquer sorte. a colonização teve aspectos muito negativos. De certa forma pode-se dizer que o colonialismo existiu sempre. 1979. Recorde-se. também temos de considerar que o colonialismo. ou simplesmente manter sua dominação indefinidamente. o autor menciona o fato de que as crianças indígenas das escolas das antigas colô- 308 Ibidem. o colonialismo romano. Em épocas passadas. p. Em qualquer época. Na afirmação de Senghor. uma das características principais da história da humanidade do século XVI até os anos 50 e 60 do século XX309. considerou o colonialismo como fazendo parte de um desenvolvimento linear: seria mais uma etapa das muitas que tinham de se percorrer para alcançar o objetivo de uma sociedade moderna. não é uma etapa histórica necessária. Desde o renascimento até meados do século XIX. por exemplo. Para Léopold Senghor. como o colonialismo pratica- do pelas nações européias. Seria esse fator que torna o neocolonialismo uma ameaça tão séria à paz mundial308. p. Como exemplo. dez foram mor- tos. pode-se analisar o em- prego do etnocídio conjuntamente com o colonialismo. 311 Ibidem. Traçando um paralelo entre o colonialismo britânico e o francês. do colonialismo exercido por Roma nas Gálias. 9. e dentro da África mais concretamente a dos povos africanos negros.

por via do etnocídio e outras medidas. englo- bava todas as doutrinas que pretendiam justificar o domínio da Europa sobre outros povos mais “atrasados”. Nós podemos lamentá-lo. O colonialismo é uma realidade que se impôs ao mundo no derradeiro terço do século XIX. porém não po- demos ocultar o fato de que se trata de uma alternativa e que esses índios devem mudar seu modo de vida ou ser exterminados” (Congressional Records. estes. significando a extraordinária expansão européia da segunda metade do século XIX nas suas diferentes manifestações: emigração. teve também uma repercussão muito específica nos Estados Unidos313. foi implementado na destruição do povo e da cultura indígena. Disponível em: <http://www.ar/revista-herramienta-n- 27/guatemala-la-persistencia-del-terror-estatal>.com. 28-29. Os argumentos do senador Pendleton e de seus colegas conduziram à elaboração do decreto de adjudicação geral de 1887. 3rd Session. em maior ou menor grau. o termo “colonialismo” não tinha até ao início do século XX um significado polêmico. 12. Cabe ressaltar que nos Estados Unidos. Robert. Guatemala: la persistencia del terror estatal. de 28 de maio de 1830). mas é também. vincula- do ao colonialismo. A partir de 1830 era objeto de discussão saber por quais meios e com que rapidez seria possível eliminar os indígenas. 1976. em todos os estados eu- ropeus. El etnocidio através de las Américas. Essa realidade significava a exploração econômica e dominação política dos países da Ásia e África por parte das potên- cias européias. 6. JAULIN. segue sendo hoje em dia um dos atos de entocídio mais graves perpetrados contra os indígenas pelo governo dos Estados Unidos. e muito especialmente. No entanto. 83 nias britânicas fizeram seus estudos utilizando a língua materna. A “Dawes Act”. A eliminação de povos indígenas e de sua cultura foram técnicas muito utilizadas durante o século XIX. volume II. o colonialismo. Nesse sentido. p. No colonialismo francês. e a língua inglesa. ao contrário. o termo “colonialismo” aparece numa situação histórica concreta. convencidos do valor universal da sua cultura. nossos sentimentos humanitários podem chocar com esta alternativa. 46th Congress. Um exemplo característico de etnocídio. foi enviado aos índios um ultimato expressado pelo então senador Pendleton de Ohio. p. o presidente Andrew Jackson firma o “decreto de deportação de índios” (Indian Removal Act. exportação de 312 Ibidem. ou devem morrer. 313 Ibidem. que havia declarado: “eles devem mudar seu modo de vida. Outra medida era encontrar um meio de justificar a tomada dos territórios sob o pretexto da assimilação mais rápida à sociedade branca. autóctone. 1881). durante a ditadura militar. p. Acesso em: 28 abr. senão igualmente uma organização tribal que compreendia um sistema de propriedade comum das terras. México: Siglo XXI Editores. Suas principais manifestações ocorreram na Inglaterra e na França. era o culminar do expansionismo europeu iniciado no século XV. Neste período. A aplica- ção sistemática do terror estatal nas aldeias camponesas perseguiu a destruição de centros cerimoniais de distin- tas etnias mayas. tanto em suas intenções como em suas conseqüências. Vide MENÉNDEZ.herramienta. p. Se o termo “colonização” desde a Antiguidade referia-se à ação empreendida por gru- pos humanos sobre um território afastado do seu lugar de origem. tentaram por todos os meios assimilá-los312. Luis. podemos desejar que seja de outra maneira. uma justificação. mas a ideologia que o sustentava esteve presente. de seus lugares sagrados e de seus símbolos culturais. . conhecido sob o nome de “Dawes Act”. Práticas similares ao etnocídio também foram utilizadas na Guatemala. O objetivo desta medida era mudar o modo de vida dos índios destruindo sua cultura tradicional cuja base não era somente a religião e uma linguagem próprios. Era necessá- rio civilizar os índios e assimilá-los. 2011. 19.

A expansão européia moderna deu vida a novos impérios formados pela metrópole e os territórios dela dependentes315. 314 Biblioteca Salvat de Grandes Temas. A noção de império é de origem romana e definia a suprema autoridade exercida por Roma sobre povos e territórios exteriores. e nem sequer a dominação política direta. especialmente a indústria. p. enquanto dominação coloni- alista. 19. 317 Ibidem. em benefício da metrópole316. O imperialismo contemporâneo surgiu precisamente na segunda metade do século XIX. hegemonia cultural. este impulsionou a procura de novos mercados para os produtos. O imperialismo contemporâneo não exige o emprego da força militar para a sua cons- tituição. alcançaram um alto nível de desenvolvimento. p. como o estágio supremo do capitalismo. Colonialismo e neocolonialismo. Nesse sentido. sem consciência nacional e sem meios técnicos adequados para resistir ao assal- to da Europa industrializada317. quer de seus recursos naturais quer do trabalho de seus habitantes. p. . sua essência é determinada pela exploração econômica do país submetido. quando as forças produtivas. Vladimir Lênin analisou os escritos de Marx sobre a acumulação de capital e denunciou o imperialismo. dema- siado débeis. em parte como conseqüência das considerações marxistas acerca do fenômeno colonial. Por outro lado. op. mas que se podem definir por algumas características essenci- ais318: 1) Dominação por parte de uma minoria estrangeira. 20. O colonialismo confunde-se com o imperialismo. 316 Ibidem. 21. p. exploração de terras e povos colonizados. pro- posta por Kwame N´krumah. dominação política. 84 capitais. 315 Ibidem. p. matérias- primas mais abundantes e baratas e um espaço econômico em que podiam frutificar os capi- tais excedentes. Tendo em conta as rivalidades existentes entre as grandes potências euro- péias. se bem que suas manifesta- ções sejam muito diversas. geral- mente subjugados mediante o emprego da força. etc314. consoante seus principais protagonistas. A dominação e exploração colonialista adotaram formas muito diversas. mostra-se sua vinculação com a idéia de neocolonialismo. estas vantagens apenas podiam encontrar-se em países longínquos e “atrasados”. 318 Ibidem. cit. 20.. 19. que exerce uma pretensa superio- ridade racial e cultural sobre uma maioria nativa materialmente inferior.

técnica avançada e ritmo de vida acelerado. as nações imperialistas reservam para si as transformações industriais altamente rentáveis e 2) luta pela hegemonia entre as grandes potências. Conjugando as expressões diplomáticas com as econômicas. p. relacionados ao nazismo e ao comunismo.). Rio de Janeiro: Ediouro. p. a maioria dos leitores não percebe o fato de que. na medida em que um Estado tenta controlar os destinos de outro para asse- gurar a exploração de seus recursos econômicos e a sua fidelidade diplomática. a satelização política apóia-se nos imperativos econômicos320. que pode-se definir como um fenômeno histórico caracterizado pelo domínio ou influência que as grandes potências exercem sobre os países descolonizados. Marc Ferro321. os Estados Unidos conseguiram criar uma verdadeira dependência colonial. a outra. a autora havia associado o imperialismo colonial. condicionada por uma economia agrária de subsistência e com um ritmo de vida lento. A “doutrina Monroe” (2 de dezembro de 1823) foi a expressão diplomática do domí- nio que as grandes companhias americanas vieram a exercer sobre os recursos econômicos daquele continente. o posterior reflete uma situação neocolonial ca- racterizada por dois traços essenciais: 1) manutenção dos países do Terceiro Mundo como fornecedores de matérias-primas. Entre estes regimes existiria 319 Ibidem. 22. Constitui uma manifestação nova de imperialismo. Marc (Org. principalmente na área do mar das Caraíbas319. 320 Ibidem. como conseqüência da liquidação dos impérios britânico e francês. as pres- sões econômicas ou a força militar são utilizadas para obter o alinhamento dos países em vias de desenvolvimento. tecendo considerações acerca do fenômeno do colonialismo e correla- cionando-o com o totalitarismo. quando não recorriam mesmo à intervenção armada. carecendo de técni- ca. 22. de econo- mia forte. Em um outro nível. As primeiras nações neocolonizadas surgiram na América Latina após a independência das colônias espa- nholas. através de diversas formas de organização política e administrativa. O neocolonialismo alcançou dimensões universais após a Segunda Guerra Mundial. 321 FERRO. 85 2) Contato entre duas civilizações muito diferentes: uma de religião cristã. intitulada Origens do totalitarismo. . Nesse campo o etnocídio geralmente se instaura. p. não cristã. temos o neocolonialismo (como já referido anteriormente). refere que na obra de Hannah Arendt. 3) A civilização européia avançada e tecnificada impõe-se em todos os aspectos à cul- tura autóctone. produtores de matérias-primas. 2004. O livro negro do colonialismo. ou os que se encontram colocados em zonas estratégicas. Se o mapa anterior à guer- ra era basicamente o dos impérios coloniais. 10.

na descrição de Marc Ferro. Ao passo que outros peregrinos mostravam-se fascinados pelos sucessos do fascismo ou do nazismo em nações que haviam reduzido o desemprego e empre- endido grandes obras. deveria ser incluído no programa a história da colonização. 86 um parentesco que é apontado pelo poeta antilhano Aimé Césaire. 325 Ibidem. o questionamento assumiu muitas faces. não seria a humi- lhação do homem em si. o fato de ter aplicado à Europa procedimentos colonialistas que até então somente abrangiam os árabes. Contudo. pode-se estudar o fenômeno do colonialismo tomando de empréstimo seus instrumentos ou observações à análise de outras experiências históricas. em nome da civilização. que data de 1540. ou mesmo o princípio em que ela se baseava. este “livro negro” teria precedido o “livro rosa”: a primeira relación de Las Casas. deveriam ser fixados os temas que obrigariam objetivamente a adotar o ponto de vista dos socialistas. havia duas vertentes de interpretação que se seguiam: uma que mostrava um “livro negro” (demonstrando as atrocidades cometidas) e um outro livro que. pouco a pouco. os cules da Índia e os negros da África322. p. p. por exemplo. 10. por exemplo. tais como os regimes totalitários. 324 Ibidem. ao mesmo tempo esses regimes eram objeto de críticas. 12. mas o crime contra o homem branco. a ideologia socia- lista não teria deixado de evocar os aspectos negativos da colonização. A argumentação era alimentada por aqueles que se beneficiavam da exploração das colônias324. um país encantado pelo qual os peregrinos manifestavam uma empolgação inabalável. para Césaire. p. era necessário “forçá-los a isso mediante programas bem definidos”. Conforme descreve Marc Ferro. Entre outras. haviam relatos de “retornados de Moscou” que faziam do “paraíso dos sovietes”. ou seja. p. Sobre a União Soviética. pelo menos no que concer- ne ao nazismo e ao colonialismo. conforme Lênin. E nesses últimos casos. O tema iria levá-los e expor seu ponto de vis- 322 Ibidem. como dizia Lênin ao histori- ador Pokrovski325. o que o ho- mem burguês do século XX não perdoaria a Hitler não seria o crime em si. . Todos estes regimes – tanto os totalitários como os colonialistas – foram simultaneamente objeto de um mesmo elo- gio. Para tanto. basea- das em fatos que demonstravam a violência existente323. Para o autor. Ferro destaca que no caso da colonização. O autor enfatiza que para que os professores de história o conhecessem bem e o difundissem. Nesses programas. Sua argumentação participava da substância do discurso marxista. 323 Ibidem. Porém. se mostrava como um “livro rosa”. 12. 10. o “colo- nismo” prevaleceu.

a literatura sobre o assunto iria obrigá-los a narrar as atrocidades dos capitalistas em geral. p. por uma mudança das mentalidades ligada aos dramas do século passado. 329 Ibidem. Assim. isto é. Para Ferro. em 1958326. a mudança de pers- pectiva quanto ao extermínio físico e cultural dos índios aconteceu. Tais violências eram conhecidas e. essa convicção teria permanecido. na realidade essa tomada de consciência quase não teria modificado a política de Washington 326 Ibidem. como nas Índias. 327 Ibidem. 13. após a Segunda Guerra Mundial. p. o que os franceses pensam do comportamento dos ingleses no mundo. Dentro deste tema. sua existência era negada: o governo poderia estar errado. o que os alemães pensam de uns e de outros. essa crença seria um mito. de Delmer Daves (1950). durante a revolta dos sipaios em 1857. 328 Ibidem. ela se alimentaria tanto da autocensura dos cidadãos quando da censura das autoridades. Para Ferro. nenhum dos filmes ou programas de televisão que “denunciariam” abusos cometidos nas colônias figuraria entre as cem produções de maior bilheteria ou de alto índice de audiência329. para Lênin. como Pizarro executou Atahualpa Yupanqui ou como Gallieni passava os malgaxes pelo fio da espada. ainda que certos excessos cometi- dos tenham sido de fato expurgados da memória comum327. oficiais ingleses colocavam hindus e muçulmanos na boca dos canhões. do Estado-nação e das “vitórias da civilização”. 87 ta “burguês”. uma parte da opinião das velhas nações européias inscreveu-se numa ideologia dos direitos humanos que apontava o conjunto dos crimes praticados em nome do Estado comunista ou nazista. na França. públicos. para o autor. à tomada de consciência sobre as violências cometidas em muitos lugares. p. essas sociedades ocidentais alegariam hoje que os do colonialismo lhes foram ocultados. o que os ingleses pensam dos franceses. 13. os manuais escolares dos dois primeiros terços do século XX relatavam com ardor a conquista da Argélia. com Flechas Ardentes. Do outro lado do Atlântico. filme pró-índio e anti-racista produzido antes dos crimes cometidos pela aviação americana durante a guerra do Vietnã e que iria perpetuar essa mudança. . por exemplo. p. Porém. O autor descreve que todos estes fatos eram conhecidos. se fosse verificado que denunciá-los tinha por objetivo questionar a “obra da França”. 12.. quanto à Argélia.. até hoje: por exemplo. mas o país teria sempre razão. Jacques Arnault publicaria o livro chamado Procès du colonialisme. neste novo milênio. desde a época de Toquevil- le328. Porém. Porém. Generosas na denúncia dos crimes de um e outro. Interiorizada. 12.

em primei- 330 Ibidem. 333 Ibidem. Para o autor. devolvendo-o a um passado extinto. o respectivo programa de seus dirigentes era mais que diferente: era inverso. 16. embora associando-os à luta contra o terrorismo. a “pacificação”. tais constatações exigiriam um reexame do papel dos principais atores da História. Saber-se-ia que. Do outro. o que dizer dos projetos da colonização e dos resultados de sua prática? De um lado. para delatar os atos que as autoridades militares negam ou negavam. p. cristianizar. reconheceram os fatos. acima dos exces- sos cometidos pelo nazismo e pelo comunismo. como se se tratasse de um capítulo da História sem relação com a repressão e o terrorismo das lutas pela libertação. p. p. o declínio da economia de subsistência. a colonização não se limitaria a esses excessos do colonialis- mo. na metrópole ou nas colônias. e durante a guerra da Argélia muitas vozes haviam se levantado.. militares de alto nível. 331 Ibidem. Impor-se-ia operar esse confronto.. enriquecer. nem por isso dever-se-ia negligenciar aquilo que os precedeu – as violências da conquista. Ferro questiona: como se pode “ousar” comparar o projeto racista dos nazistas com o da tradição socialista. no sucesso e na falência deles333. 16. o trabalho forçado. Por volta do ano 2000. civilizar. em razão da ação dos abo- rígenes e dos juristas. 88 em relação às reservas indígenas. Porém. para Ferro. Para Ferro. 13. No entanto. p. essencialmente pela polícia331. mesmo subvertida? Então.. Para o autor. como os generais Massú e Aussaresses. du- rante os anos de 1950332. seria mais recente ainda.. Tais fatos não eram mais desconhecidos do que outros. a essa observação se acrescentaria uma constatação: a de que no ultramar. às instâncias do Estado e aos colonizados. No entanto. a análise do colonialismo poderia referir-se à do totalitarismo: o exame da intenção dos seus promotores. a conscientização. 17. e até das divisões cronológicas que a tradição instituiu330. o desenvolvimento moderni- zado. sevícias eram praticadas contra os nacionalistas muito antes de a guerra explodir. não conviria esquecer-se de associar outros atores da História: os colonos e os lobbies que eles constituíam na metrópole. tratando-se dos departa- mentos da Argélia. Assim como não con- viria esquecer que a história do comunismo e do nazismo não foram apenas a da ideologia ou do funcionamento desses regimes e de sua política. o projeto do etnocídio. . em conseqüência dos depoimentos de argelinos vítimas de tor- tura. 332 Ibidem. mas igualmente a da participação mais ou menos ativa e consciente dos cidadãos na ação. Na Austrália. por outro de seus aspectos.

cinqüenta anos depois. e para quais beneficiários. .. Para tentar responder às exigências da situação do país. um afluxo de médi- cos indianos povoa os hospitais da metrópole. Aqui estariam dois exemplos desses resultados “perversos”334. não era seu objetivo. reservando suas atenções aos ingleses e aos indianos que estavam em contato com seus próprios agentes e colonos. o confis- co de bens de uma parte da população. a metrópole considerou necessário criar um corpo de médicos autóctones. 89 ro lugar. p. Semelhante fenômeno não teria equivalente em outros lugares. Para o autor. p. p. quantas barragens. Ferro examina as variáveis. A metrópole teria renunciado a cuidar de trezentos milhões de autóctones. Quantas escolas ou quantos hospitais. se reforçaram335. De tudo isso. Para Ferro.. 336 Ibidem. essa dupla lição atesta que pode haver grande distância entre as intenções de uma política e os resultados dela. as similari- dades e a herança337. o que só foi realizado pela metade.? Mas. p. a fim de protegê-los melhor: militares. formando emancipados que se tornaram emancipadores – o que. aos seus aspectos negros. verificar o que foi realizado com conhecimento de causa. dentre outros. 17. Além disso. dos efeitos do Welfare State336. o resultado. 334 Ibidem. 17. Nosso foco trabalha principalmente o aspecto das variáveis. segundo o projeto republicano. ela não permitiu que os humildes se elevassem. Outro exemplo que Ferro destaca é o relativo ao balanço médico da política inglesa na Índia. na verdade. ao balanço consciente dessa colonização. ao contrário. 337 Ibidem. Por primeiro. havia russos. muitos traços aproximam as práticas colonialistas daquelas dos regimes totalitários: os massacres. na medicina privada. a escola laica alimen- tou de idéias as elites. 17. substituindo os ingleses que se refugiaram. deve-se acrescentar o levantamento de situações e de balanços que não foram nem desejados nem esperados. Independentemente destas observações. agentes do fisco. 335 Ibidem. assim como estabelecer os balanços. ou não o foi em absoluto. a escola devia trabalhar para reduzir as desigualda- des: para o autor. nota-se que o antigo ministro das Relações Exteriores Chevarnadze foi eleito presidente da República da Geórgia independente e que. o racismo e a discriminação correspondente (acrescido a estes fatos o genocídio e o etnocídio). entre os primeiros líderes da revolta chechena. ao passo que. 17. desenvolvida. Marc Ferro descreve que o autor Fanny Colonna deixaria claro que. Ferro destaca que dez anos depois do desaparecimento do Império Soviético. estas. estariam os efeitos da política escolar da França na Argélia. No que tange às variáveis.

a figura que essa dominação assumiu. ou ex-administradores holandeses vendo-se chamados a governar uma das ilhas de Sonda. p. . essa instalação se concretiza no ultramar. em outros lugares. 19. de um mar que o isola da terra russa. no fim do século XIX. Para a mai- oria das potências ditas coloniais. com os ingle- ses e depois os americanos passando a exercer o papel econômico dos espanhóis há muito tempo eliminados. para Ferro. uma transferência de dominação. cinqüenta anos atrás. três décadas após a independência. um ministro Guy Mollet dirigindo a Argélia ao lado de Ben Bella. na Ásia Central. após a independência. essas hipóteses de história comprovariam a especificidade da colonização russa e soviética. p. sem que isso signifique que ela esteve isenta de colonialismo. os traços diferenciados dos países libertados constituiriam um conjunto de variáveis múltiplas340. tradicionalmente. quem poderia prever que. 18. Para o autor. esses países foram os pri- meiros a experimentar. eles teriam sido confrontados a um imperialismo multinacional. Costa do Marfim. etc. embora. com o risco de que este se alimente por toda parte dos mesmos ressentimentos. o termo “colonização” se aplicaria à ocu- pação de uma longínqua terra estrangeira. Mauritânia. 90 e seria difícil imaginar. sem mudança das fronteiras que ela havia instituído. não mais haveria franceses na Argélia e seriam poucos os ingleses na Índia. no caso da Espanha para o Rif. existiria uma pro- ximidade ou mesmo continuidade territorial. Para Ferro. uma rejeição unânime ao ex-Estado colonizador. os países re- cém-libertados foram presas sucessivas. o deserto do Turques- tão exerça o papel de uma separação. p. uma espécie de colonialismo sem colonos339. ou japoneses. 340 Ibidem. 339 Ibidem. as formas de coloni- zação. que permitiam uma fácil extensão territorial em dire- 338 Ibidem. Na América espanhola. quanto de guerras internas ligadas ou não aos efeitos da “descolonização” – Biafra. tanto de uma forma econômica de neocolonialismo. O autor ainda refere que. Esses países foram os primeiros a conhecer uma espécie de prefiguração desse neocolonialismo sem bandeira nem ocupação. Ou seja. Porém. menos de duzentos anos após a independência – uma indepen- dência que não emana dos indígenas. acompanhada da instalação de colonos. no da Rússia na Sibéria. o que estabelece a diferença em relação à extensão territorial por contigüidade. Ruanda. Chade. sendo a exceção a África negra. que ainda acolhe portu- gueses e franceses? O autor refere que na África negra. 19. À diferença das nações siberianas de pequenos efetivos. Elas fariam sobretudo aparecer. seus objetivos. com ou sem cooperação da metrópole. a Coréia338. Por toda parte. sobretudo. mas dos colonos espanhóis –. do Japão para Yeso-Hokkaido e.

1850. a História não seria programada343. os chechenos não teriam participado daquela negociação e jamais reconheceram essa vinculação). em 1774 (contudo. para defendê-las contra os cãs da Criméia. p. para “re- compensá-los” por sua atitude durante a guerra civil. 20. 91 ção ao leste. 20. p. hoje. Quanto à Chechênia. tanto étnica quanto religiosa. irreversível: isso. e que a anexação. seria ignorar que certas nações ou comunidades podem desaparecer para sempre. não se poderia negar que. É através deste imaginário que o colonizador busca ex- 341 Ibidem. à problemática do etnocídio): deve-se constatar que o imaginário é uma abertura que ajuda a compreender as reações de uma socie- dade à expansão e à colonização344. 1834. 21. foi reconhecida pelas potências mais tarde. 20. por conseqüência. se viesse a falecer na Espanha. p. 343 Ibidem. 344 Ibidem. os colonos avaliavam a legitimidade de sua presença com base na antiguidade de sua chegada: 1871. depois de 1917. Mais tarde. ao pedir em seu testamento de 1547 que. Hernán Cortés seria de fato o primeiro dos conquistadores a considerar que sua verdadeira pátria é a Améri- ca. na Argélia. expansão territorial e colonização com freqüência são sinônimos. etc. conside- radas critérios de legitimação. Nesse sentido. a pedido das populações locais. do mesmo modo como a criação e a denominação de “departamentos” puderam alimentar o mito da Argélia francesa342. Disso resultaria um obstáculo suplementar à conclusão do conflito mais recente. que se constitui como fator importante no que concerne ao colonialismo (e. Mas. . os bolcheviques incluíram os chechenos na Federação Russa – em vez de fazer daquele território uma república soviética. mais vasta. porque esses povos pertenciam igualmente a uma outra comunidade. a conquista dos países tártaro. Para Ferro. os russos assinala- vam que teria chegado ali no século XVI. seus restos mortais fossem reconduzidos à sua cidade de Cocoya. no tempo de Pedro o Grande. a antiguidade da presença consti- tuiria um dos pontos da argumentação. na Rússia. Para o autor. seja na Palestina ou no Sri Lanka. enquanto outras podem aparecer ou reaparecer. Tais práticas e modos de ver supõem que a História é unilinear. contudo. à semelhan- ça dos Estados da Ásia Central. Na Martinica haveria brancos e negros que crêem ser mais “franceses” do que os lorenos ou os saboianos. por terem sido súditos do rei antes destes últi- mos. 342 Ibidem. Ferro também destaca um primeiro dado. p. No México. ao passo que no Ocidente se faria uma cuidadosa diferença341. já em 1638. Outro aspecto do problema diria respeito à idade e antiguidade da instalação. turco e caucasiano foi difícil.

Tais considerações não seriam sem conseqüência. ela foi o sinal de sua audácia. Assim é que os russos seriam os únicos a considerar que a colonização constituiria “a essência mesma de sua história”. O ouro ajudará nisso no caso deste último. De igual modo. em parte. 21. projetando um sistema idealizado por ele. que faz parte da Federação da Rússia346. do fato de que a Inglaterra pôde perder a Índia. a passagem por trás do império otomano através da Índia e da Etiópia no caso primeiro. 348 Para mais detalhes. Do lado francês. . Para os portugueses. Na Inglaterra. p. não seriam um território negociável com o Japão. p. a preocupação de conversão não pára de animar os hispânicos347. O ouro. de conquistar Jerusalém. contornando o império otomano. Outra motivação para estas sociedades européias estaria no depauperamento de suas nobrezas. além da tomada de territórios. com exceção da Chechênia. a definição da República priorizou e diferenciou os departamentos em rela- ção às outras possessões imperiais. pode-se perguntar se a motivação primeira foi ouro ou Cristo. depois. estaria pre- sente a obsessão. Além disso. a identificação se fez primeiro com o domínio dos mares e. de preferência cidadãos franceses345. ao passo que as repúblicas da Ásia Central puderam adquirir sua independência sem dificuldade. no momento do imperialismo. Para os espanhóis. na medida em que. elas dariam conta. eliminando as visões de mundo dos colonizados. assim como eram diferentes as sociedades às quais coube conhecê-las. mas fez a guerra das Malvinas para defender os súdi- tos de sua majestade. de sua potência. com a presença de súditos britânicos por todo o mundo – mais do que com o controle dos seus territórios. Marc Ferro também apresenta um segundo dado: as condições de expansão variaram ao longo da História. no caso das especiarias e o acesso direto às suas zonas de produção. o que constituía o motor do etnocídio praticado na América indígena 348. A isso se acrescentou esta outra idéia. que trata sobre o etnocídio na conquista da América. 345 Ibidem. não sendo necessariamente as mesmas para cada Estado e para seus ato- res. 21. ligada a um messianismo critpojudaico. e o fim desta expansão significou o início de sua decadência. as Kurilas. 346 Ibidem. p. a expansão ultramarina teria sido a mani- festação de sua grandeza.2 do primeiro capítulo. 92 pandir sua visão de mundo. No caso de Espa- nha e Portugal. um ato de fé: a aspi- ração de todos os homens seria a de se tornar cidadãos. 21. tanto em Albuquerque quanto em Cristóvão Colombo. que na expansão buscam forma de regeneração. consideradas desde sempre como terra russa. Cristo. 347 Ibidem. vide o item 1.

Destruição da religião tibetana (destruição de templos e conversão forçada de povos à ideologia comunista) e imposição da “língua do proletariado”. porque comprovaria a continuidade das visões de seus dirigentes desde a época de Humphrey Gilbert. De um modo geral. mas insistiam que se entregasse seus espíritos. O livro negro do colonialismo. Pedro o 349 FERRO. tendo sido os ingleses. 23. a realizar esta tarefa. etc. 351 Ibidem. 22. Nesse sentido. militares. Gilbert define o duplo objetivo da expansão: bases navais para o comércio e terras para instalar colonos protestantes que não possuem nada. 350 Ibidem. até os tempos do imperialismo. os ingleses se julgavam necessariamente destinados. p. ao considerarem os indígenas como crianças. Essa dupla motivação reaparece. o genocídio e prin- cipalmente o etnocídio justificavam-se a partir destas premissas. eram levados por suas convicções a julgar que. em 1966. a produção de uma igualdade totalizadora. com a partida mais ou menos forçada de populações para a Sibé- ria349. ou seja. . 352 Cabe referir igualmente que políticas anti-religiosas e de extermínio cultural foram praticadas na China. Os glorificadores da expansão conseguiram fazer triunfar a idéia de que a expansão ultramarina era o objetivo final da política. op. No comunismo. 23. Segundo os refugiados. resistir-lhes era dar provas de selvageria351. nos séculos XIX e XX.). o caso da Inglaterra seria interessante. mais tarde. deve-se lembrar que. os chineses não se contentavam com a entrega de suas propriedades. deportando-os para “educá-los” e “instruí-los” na doutrina do comunismo. Marc (Org. medidas usadas para destruir a cultura do povo tibetano durante a Revolução Cultural. esse grande feito dos “povos superiores”350. prin- cipalmente com a Revolução Cultural de Mao-Tse-Tung. encarregando-se de “civilizar” o mundo. em primei- ro lugar. o regime soviético praticou uma ativa política anti-religiosa que visava tanto cristãos quanto judeus ou muçulmanos352. cit. a prática do etnocídio dentro do colonia- lismo. os primeiros a associar os benefícios do imperialismo ao triunfo da ci- vilização. o governo chinês havia arre- batado centenas de crianças de seus pais e parentes. uma única maneira de pensar e atuar. Dentre as práticas de etnocídio utilizadas. uma espécie de homogeneização. por este aspecto: a opinião pública é mobilizada pelos agentes da expansão – partido colonial. p. eles se civilizariam. “educando-os”. O governo chinês exercia forte propaganda contra o budismo e tentava conseguir pela coação que os tibetanos abandonassem sua religião. marinheiros.. na política ortodoxa do czar na época imperialista. p. bancos. Portanto. entre outros. 93 Enquanto a instalação de colonos russos na Sibéria é encorajada pelos czares para multiplicar o número de seus contribuintes. dentre outras formas de violência. A meta se constituía em um só partido. Ademais. em essência. tem-se outra figura negra do colonia- lismo: a implantação de culturas forçadas. visando destruir a língua nativa foram. No momento em que os avanços da ciência e o sucesso do darwinismo asseguravam aos mais dotados a tarefa de espalhar pelo mundo os “benefícios” do progresso. no século XVI. Relacionado a este aspecto. em que a época do imperialismo diferiria da expansão colonial dos sé- culos precedentes? Ferro destaca que não seria pelas atrocidades cometidas e sim. anteriormente.

SHAKYA. etc354. 1961. 5. biológicos ou fenotípicos.1. The dragon in the land of snows. Mas já em 1550. London: Penguin Compass. 2008. a ofensiva ortodoxa contra o islamismo havia recomeçado sob Alexandre II e Nicolau II (1881-1917)353. p.. Através das práticas discriminatórias. Esta se apóia por vezes numa concepção evolucionista do ilimitado progresso civilizatório trazido pelas raças mais evoluídas. empresa.org/nizkor/impu/lemkin1. op. Nas áreas anexadas pela Alemanha. Madrid: Nacio- nal.pdf>. à população local foi proibido o uso do idioma próprio nas escolas. Disponível em: <http://www. p. vide Comite Hindu del Congresso por la Libertad de la Cultura. as quais avaliam o grau de avanço das raças ditas inferiores e. menos ou mais assimiláveis. além de levar às áreas anexadas profes- sores alemães que estavam obrigados a ensinar conforme os princípios do nacional-socialismo. p. 355 Nesse sentido. Por decreto de 6 de agosto de 1940.derechos. no mesmo registro. Nesse sentido. Jean. p. p. Tsering. reais ou imagi- nários.uaemex. do primeiro capítulo. sua tese é da superioridade natural de alguns povos. A ideologia racista é um sistema de representações que se materializa em instituições. A proibição do idioma e a introdução forçada de uma doutrina também foi objeto de prática durante o nazis- mo. O ensinamento do idioma francês nas escolas foi proibido. Acesso em: 04 mai. . E a discriminação é uma das práti- cas que reflete mais claramente o imaginário racista. KHÉTSUN. 2000. Marc (Org. tal asserção se expressa de modo mais sectário. escola. em sua polêmica com o anticolonialista Las Casas. p. O racismo opera como um pilar ideológico dos processos de dominação na medida em que legitima o predomínio político de certo grupo etnoracial. 167-172. 295. por conseguinte. 293. O livro negro do colonialismo. Sepúlveda. Comité juridique dénquête sur la question du Tibet. em relações sociais e em uma organização peculiar do mundo material e simbólico. Acesso em: 04 mai. 23-41. 28. sobre a crueldade e os males que eles infligiam. insistia sobre os pecados dos índios. p. El império de Mao-Tse-Tung. 2011.). El Tibet y el nuevo imperialismo chino. vide item 1. na crença de que há raças Nesse sentido. 320-321. 2011.html>. a ideologia racista difunde-se em todas as insti- tuições sociais: casa. 69. 354 PARÍS POMBO. baseada em uma percepção ahistórica de suas culturas. sobre a necessidade de torná-los cristãos355. Tubten. MONSTERLEET. dois tipos de racismo intervieram: O primeiro se fundamenta numa asserção de desigualdade. Genocidio: un término y un concepto nuevos para referirse a la destrucción de naciones. Outras vezes. México: Libro Mex. 1955. Marc Ferro destaca que foram principalmente as atitudes racistas dos colonizadores que constituíram os traços estruturais do colonialismo para torná-lo odioso. Sua forma emblemática é representada pela ideologia colonial da III República. Memories of life in Lhasa under chinese rule. Disponível em: <http://redalyc. cit.2.mx/redalyc/pdf/267/26701714. Le Tibet et la République Populaire de Chine. Estudios sobre el racismo en América Latina. Consiste em um tratamento diferencial a certos setores sociais definidos por traços culturais. o alemão se converteu em único idioma de ensinamento em todas as escolas de Luxemburgo. Vide Equipo NIZKOR. polícia. 1960. Comission Internationale de Juristes. após um perí- odo de tolerância. New York: Columbia University Press. María Dolores. No caso do racis- mo. 353 FERRO. p. sobre o caráter atrasado de sua cultura. 94 Grande já mandara destruir 418 das 536 mesquitas do governo de Kazan e que.

Marc (Org. mas essa obsessão pode ter ranços biológicos e criminais. O ideal de civilização e o racismo (que produziam o genocídio e o etnocídio) andaram juntos no desenvolvimento do colonialismo. à medida que crescia a defasa- gem entre as sociedades. o inglês levava a superioridade de seu pensamento: o fardo do homem branco era civilizar o mundo359. p. a revolução industrial e os progressos técnicos do Ocidente. com a expansão colonial. em um século e meio. . “Acredito nesta raça. História das colonizações – das conquistas às independências – séculos XII a XX. no fundo.”. Aos outros povos. as atitudes racistas podem cruzar-se. Outra forma de racismo que contribuiu para o colonialismo. esse racismo de Estado se desenvolveu358. 357 Ibidem. de 1. ele entoava um hino imperialista à glória dos ingleses e cele- brava um povo cujos esforços superavam os de seus rivais franceses. sendo o cruzamento considerado. p. São Paulo: Companhia das Letras. como uma transgressão às leis da natureza356. Mas o racismo da diferença também se desenvolveu. 359 FERRO. 39. é a que consiste em estimar existirem diferenças de natureza ou de genealogia entre certos grupos humanos. Marc. não necessariamente biológico. Na prática. Reforçando a idéia de uma superioridade. “vanguarda da 356 FERRO. cit. 31.. p. em 1895. dizia Joseph Chamber- lain. 358 Ibidem. espanhóis e outros. 95 inaptas para o progresso: melhor deixá-las morrer. por sua vez. Enquanto o racismo da diferença. é relativamente disseminado e estável. a dos níveis de vida. Esta asserção de desigualdade evolucionis- ta impulsionou o colonialismo.5 para 1 a 5. “subalternos”. Paul Bairoch calculou que a defasagem entre os níveis de vida da Europa e os dos colonizados passou. diminuiu proporci- onalmente o número de ingleses que viviam com indianas e. 31. depois que foi crescendo ininterruptamente a defasagem técnica e militar entre a Europa e os outros conti- nentes. 30. op.2 para 1357. A principal obsessão que a aterroriza refere-se à mistura. p. O livro negro do colonialismo. 1996. especialmente pelos nazistas. por exemplo. os outros eram julgados como representantes de uma cultura inferior. não cessou de ampliar-se.. e cabia aos ingleses.). De fato. colonialismo e etnocídio não poderiam estar mais relacionados. Nesse campo. Para Marc Ferro. não especialmente ociden- tal.. Essa convicção e essa missão civilizadora significavam que. Com o tempo. o racismo universalista à ocidental não parou de ver agravarem-se seus efeitos nos séculos XIX e XX. assumindo até mesmo formas regulamentares: nas Índias. uma decisão de 1791 exclui a partir de então os mestiços do exercício de funções na East Indian Company.

o etnocí- 360 Ibidem. Não só aqueles países deviam assegurar aos europeus os direitos que definem a civilização – e que. os ingleses chamavam de “tribos crimi- nosas” grupos sociais inteiros. esta forma de repressão teria características de racismo. consi- derados “bandoleiros”. a fazer afirmações de outro teor. por exemplo. 363 Ibidem. mas a proteção desses direitos tornava-se a razão de ser. De sorte que eram definidos como “criminosos” homens e mulheres que não tinham rompido com os grupos sociais a que pertenciam. com a diferença de que. 362 Ibidem. e depois o Criminal Castes and Tribes Act. o que aproximava franceses. pelo menos em público. 96 raça branca. e de que este saber permitia às sociedades por eles subjugadas progredir. permite excluir grupos humanos inteiros. ingleses e outros coloniza- dores. de 1911. e a luta de classes constituiria a versão humana da luta de espécies analisada por Darwin. 39. entenda-se. 39. definidos como “ladrões hereditá- rios”363. passíveis. O Criminal Tribes Act. po- rém. “educá-los”. Cabe salientar ainda que no século XIX as idéias de Darwin exercem um verdadeiro fascínio. “formá-los”. ela surge como a terceira vertente dessa convicção cientificista. p. p. cujo desfecho é tanto a con- denação do sati (suicídio das viúvas) quanto o extermínio dos tugues e outros grupos. a civilização. como comprovaria a obra de Marx. O termo escolhido. 40. Se os franceses também achavam que os nativos eram umas crianças. civilizar-se361. Quanto à colonização. e dava-lhes consciência de pertencerem à Europa. portanto. como aponta Ferro. Assim. Assim. como os kuravares da região de Madras. um conceito cultural. mas as educa (aplicando-se. p. delinqüentes. marcam o impulso decisivo desse controle. O autor destaca que a história e o direito ocidental haviam codificado o que era a civi- lização. Todavia. legitimando uma intervenção cuja finalidade era substituir os costumes tradicionais e a jurisprudência vigente pela legislação colonial. na sua bondade. o homem branco não destrói as espécies inferiores. moral. nesse sentido. 361 Ibidem. na Índia. Os que não se conformavam com isso viravam criminosos. Para Ferro. p. . e sem dúvida os consideravam inferiores. 40. ainda que estas não estivessem necessariamente em consonância com seus atos360. era aquela convicção de que encar- navam a ciência e a técnica. garantiam-lhes a preeminência. e um sistema de valores tinham função econômica e política precisa. dos conquistadores362. suas convicções levavam-nos. de 1871. de punição. que confunde casta e tribo. na verdade.

Com efei- to. Nas outras colô- nias. sobre os recursos. de produzir perspectivas. símbolos. 41. Foi seguida pela imposição do uso dos próprios padrões de expressão 364 Ibidem. cujas palavras marcaram homens como os ingle- ses Alfred Milner. 40. através do etnocídio. homens que colocavam o instinto acima da razão e consideravam a necessidade de ação um dado essencial da vida. 42. . os conquistadores conseguiram que triunfasse a idéia de que a colonização era o objetivo último da política. o Império Britânico só foi o equivalente do Império Romano nos seus do- minions. demonstra-se a estreita vinculação entre colonialismo e etnocídio. o homem branco as extermina364. 366 Ibidem. sistemas de imagens. 41. p. os discípulos do historia- dor Ranke365. como Burke foi o primeiro a pressentir366. a menos que não sejam humanos. os defensores da razão e do progresso que. imagens. de outro. De fato. de produzir co- nhecimento. 365 Ibidem. sendo exemplar o caso da Irlanda. lado. a partir do momento em que os povos dominados não mais tiveram que seguir a mesma lei dos ven- cedores. idéias. ele representava um tipo de dominador que só podia sobreviver e prosperar destruindo os costumes e as instituições dos povos conquistados367. onde um inglês era tão cidadão quanto se morasse no Lancashire. modos de significação. Para Ferro. A força da convicção imperialista consistia em que esse movimento associava. e. como os aborígenes da Austrália. essa opressão exercida sobre os outros. A repressão recaiu sobre os modos de conhecer. uma predisposição para a tirania. acha-se no estágio mais alto da organização social. no processo de expansão colonialista. de um lado. nesse caso. padrões e instrumentos de expressão formalizada e objetivada. o colonialismo (e o imperialismo) instaurou uma sistemática repressão não só de específicas crenças. p. A primeira corrente. imagens. símbolos ou conhecimentos que não serviram para a dominação colonial global. intelectual ou visual. 367 Ibidem. na sua inteligibilidade também. na Alemanha. o dos britânicos. Na época do imperialismo. p. Com a diferença de que. ou seja. concebia o universo como um organismo animado por sua força moral e sua vontade. em matéria de história. 97 dio). O Império. p. portanto. Arnold Toynbee e lord Haldane e. dentro do Império. acreditavam na inelu- tabilidade do desenvolvimento das sociedades. um de seus principais defensores foi Spencer Wilkinson. praticada fora do Império. correu o risco de criar. na medida em que a aquele é alimentado deste. liderada na Inglaterra pelo neo-idealismo de Oxford.

1983. deixaram na sua ca- minhada para o “progresso”. o pôr-se de joelhos. Acesso em: 04 mai. 43. 2006. A destruição.scribd. o desespero. Eu. 98 dos dominantes. estão cavando com suas mãos o porto de Abijan. 10. Madrid: Akal. 369 SARTRE. Eu. de instituições minadas. Me refutam com fatos. Los condenados de la tierra. mas também como meios muito eficazes de controle social e cultural. Falo de milhões de homens desarraigados de seus deuses. Frantz. de sua terra. de seus costumes. . em seu conhecido Discur- so sobre o colonialismo. O oprimido. Nesse sentido. de terras confiscadas. p. Eu falo de milhões de homens a quem sabiamente lhes foi inculcado o me- do. Discurso sobre el colonialismo. de “realizações”. p. 371 FANON. 20. México: Fondo de cultura econômica. Colonialidade e Modernidade/Racionalidade. p. no momento em que escrevo. Aimé Césaire expõe como a violência colonial produziu etnocídio. o complexo de inferioridade. assim como de suas crenças e imagens referidas ao sobrenatural. Em defesa da revolução africana. In FANON. Falo daqueles que. estatísticas. Aimé. o qual expõe as contradições entre a idéia de progresso e os rastros de violência: Ouço a tempestade. o discurso de Césaire retrata toda a carga de violência que o colonia- lismo. p. desumanização e inferiorização do colonizado fo- ram aspectos característicos dos processos de colonialismo. Nesse aspecto. da dança. de enfermi- dades curadas. de magnificên- cias artísticas aniquiladas. 1980. de canais. de religiões assassinadas. A violência colonial não se propõe somente como finalidade manter uma atitude res- peitosa aos homens submetidos: trata de desumanizá-los. quando a expressão imediata deixou de ser constante e sistemática368. da sabedoria. as quais serviram não somente para impedir a produção cultural dos dominados. de culturas pisoteadas. 2. de extraordinárias possibilidades suprimidas. de níveis de vida por cima deles mesmos. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora.com/doc/36091067/Anibal-Quijano-Colonialidade-e-Modernidade-Racionalidade>. para substituir suas línguas. eu falo de milhares de homens sacrificados na construção da linha fér- rea Congo-Ocean. Frantz. para destruir sua cultura369. Jean-Paul. da vida. 2011. o servi- lismo370. quilômetros de estradas. o temor. Aníbal. de vias férreas. arremessa-se sobre a cultura imposta371. com o etnocídio (destruição de religiões. como se pôde verificar nesta ex- posição sobre o colonialismo e sua relação com o etnocídio. eu falo de sociedades vazias delas mesmas. Uma caminhada de destrui- 368 QUIJANO. dentre outros aspectos). com a energia e a tenacidade do náufrago. 370 CÉSAIRE. Disponível em: <http://pt. Me falam de progresso. Nada será economizado para liqui- dar suas tradições. de sua vida.

para melhor entendimento do fenômeno do etnocídio. a Organização Mundial de Saúde define a violência como o uso deliberado da força física ou de poder. buscando converter mediante a força o grupo conquistado. 374 ESPLUGUES. . Curitiba: Juruá. intrínseco ao fato social e não o resto de uma ordem bárbara em vias de extinção. Gabriel José Chittó (Org. Este fe- nômeno está inserido em todas as sociedades. p.es/daimon/article/view/95881>. contra a própria pessoa. por vezes. p. Acesso em: 28 abr. 372 Para mais informações sobre o emprego deste termo. José Sanmartín. vide a obra de Edgar Morin: MORIN. Alguns autores entendem a violência como qualquer conduta intencional que causa ou possa causar dano a outrem374. fazendo parte de qualquer civilização ou grupo humano.um. dominação e escravização de povos in- teiros. GAUER. A fenomenologia da violência. 13. contra outra pessoa. ela envolve também uma espécie de conquista espiritual. 373 GAUER. Disponível em: <http://revistas. 99 ção do colonizado.). Ruth Maria Chittó. mediante o emprego da violência. Em muitas ocasiões. 29. conquis- ta do imaginário do colonizado. Cultura e barbárie européias. 1. pode-se perceber que o etnocídio possui uma forte expressão que carrega a violência em seu âmago. p. pode-se dizer que o colonialismo traduz muito mais do que a simples conquista de territórios. Que es violencia? Uma aproximación al concepto y a la clasificación de la violencia. Ao longo de todo o trabalho desenvolvido até aqui. 2009. Contudo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 2008. a partir de uma idéia de nação monoétnica372. Por todas estas considerações apresentadas.2 Privação de direitos e destruição da vida humana: a violência como instrumento do etnocídio Pensar a violência como instrumento do etnocídio é essencial para entender como esta forma de violação de direitos humanos se constitui. objetivos semelhantes: a expansão do império e a expansão violenta de uma forma de enxergar o mundo. conforme leciona Ruth Gauer 373. Por sua vez. Colonialismo e etnocídio têm. Existem muitas definições sobre a violência. é necessário ressaltar algumas considerações sobre a violência.2. Edgar. 2011. 2. a ser expandida por todos os povos conquistados. Pode-se dizer que a violência é um elemento estrutural. que seja em grau de ameaça ou efetiva.

o seu caráter instrumental378. Qualquer relação ou processo que imponha danos a outros é considerado uma relação violenta377. New York: Plennum Press. Rosely Aparecida Stefanes. 2. p. Por fim. 2011. ou até mesmo na- quilo que ele mais ama (sua família.org. O que é violência? São Paulo: Brasiliense. amigos. Hannah. a violência pode ser definida como uma privação. p. da produção da indiferença pelos outros. Ou seja. Acesso em: 04 mai. E esta privação. ou até mesmo seu povo). impondo a ausência de qualquer sentimento de solidariedade. que pode ser definida como aquela encoberta. Para ele. não provém da ação violenta de um indivíduo sobre outro. Podemos ainda destacar. 2010. o grau de violên- cia estrutural ocorre quando se produzem mortes que são evitáveis de acordo com o grau de desenvolvimento alcançado por uma sociedade376. que se dá a partir de desigualdade social. social e psicológica de outra pessoa ou grupo. Disponível em: <http://www. 2004. 378 Hannah Arendt refere em sua obra sobre a violência: “A violência é por natureza instrumental. no que concerne à violência.br/manaus/arquivos/anais/salvador/rosely_aparecida_stefanes_pacheco. . 376 Ibidem. 100 um grupo ou comunidade. seus bens). ela é empregada para atingir um determinado objetivo (como o extermínio de grupos humanos inteiros ou de identidades culturais). 40-41. que em sua obra sobre Frantz Fanon e a psicologia da opressão dedica partes de seu trabalho sobre este tema. E aquilo que necessita de justifi- cação por outra coisa não pode ser a essência de nada”.740. p. processo ou condição em que um indivíduo ou um grupo viola a integridade física. Frantz Fanon and the psychology of oppression. danos psicológicos. do sofrimento.pdf>. cabe destacar a definição proposta por Hussein Abdilahi Bulhan. pode ocorrer de várias formas: a) a violência física. admi- 375 PACHECO. 3ª ed. transtornos ou privações375. por tratar-se de um tipo de violência de tipo sistêmico. ARENDT. seja naquilo que ele possui (seu corpo. 2.740. da dor. b) a violência instituci- onalizada. 379 ODALIA. como todos os meios. que atinge diretamente o homem. depende da orientação e justificação pelo fim que almeja. Hussein Abdilahi. p. a violência interpessoal e a comunitária. mas do resultado de um sistema social que oferece oportunidades desiguais a seus membros. 135. A partir dos apontamentos do autor Nilo Odalia379. mor- tes. De outra parte existe também a chamada violência estrutural. A classificação de violência utilizada no Informativo Mundial sobre a Violência e Sa- úde divide a violência em três grandes categorias: a violência dirigida contra a própria pessoa. 377 BULHAN. ela sempre depende da orientação e da justificação pelo fim que almeja. Nilo. A violência contra os povos indígenas: uma estrutura invisível que impõe a fronteira entre a vida e morte. Sobre a Violência. 2001. a violência é qualquer relação. Rio de Janeiro: Relume Dumará. e que cause ou tenha muitas possibilidades de causar lesões.conpedi.

Com base na concepção de Nilo Odalia. p. pela evangelização forçada). despojar. a violência nos impede não apenas ser o que gostaríamos de ser. empregando técnicas de privação dos indivíduos. 86. institucionalizada. 380 Ibidem. grupos sociais e políticos). convertê-las coletiva e forçadamente à ideologia do agressor ou colonizador (como se constata pela observância do processo de conquista da América. de nossos direitos como pessoas e como cidadãos. . na medida em que pode selecionar certos grupos vulneráveis para o extermínio de sua cultura e a imposição de outra. Todo ato de violência carrega em seu cerne isso. ou desumanização. e e) a violência revolucionária. justificando sua prática para o “bem” da sociedade e para o “progresso” (como visto anteriormente. Nesse aspecto. da reli- gião. c) a violência social. existe uma completa ausência de solidariedade. destituir. da cultura e em substituição a esta a cultura imposta. que ocorre em uma busca de modificação de um contexto sócio-político. d) a violência política (assassinato político. portanto. mediante a força). Física. ou até mesmo leis que visam violar determinados segmentos da sociedade. religião ou idéias políticas. pelo fato do etnocídio buscar. Podemos referir que os tipos mais presentes de violência que se apresentam no contex- to do etnocídio são a violência física. com base na adoção de procedimentos e leis que buscam legitimar a imposição de uma ideologia a ser adotada em toda a sociedade (leis de imposição de língua oficial. Institucionalizada. na consecução de um projeto totalizante. mediante a inscrição da dor no corpo das vítimas (assassinatos e agressão física). mas fundamentalmente de nos realizar como homens380. que atinge de forma seletiva certos segmentos da população (os mais vulneráveis) e que se apresenta como uma condição necessária para o futuro da sociedade – como a distinção entre pobres e ricos e a discriminação racial e a poluição ambiental. o etnocídio é exercido mediante uma técnica de privação: privação da língua. Seguindo a orientação do autor. 101 tindo que esta indiferença é uma relação natural. mediante a agressão. adicionar uma primeira característica da violência nos processos etnocidas: a privação. podemos. Social. devido ao fato de que as vítimas do etnocídio são alvo de um processo de inferiorização. O ato de violência nos despoja de alguma coisa. desapossar alguém de alguma coisa. de nossa vida. acerca do processo de colonialismo e imperialismo). uma indife- rença que justifica a imposição de uma ideologia a ser seguida por todos os membros do gru- po. de violência. Privar significa tirar. social e política. inva- são de um País sobre outro. E política. a serem seguidas por todos.

Com efeito. pois a imposição da cultura do agressor mediante a força não se caracteriza apenas como uma privação de direitos. 87. a violên- cia é inerente à preservação da ordem. 87. A tese desenvolvida pelo autor é de que a violência. toda crítica da violência se insere entre o direito e a ética. a correlação entre violência e alteridade hu- mana vincularia hermeneuticamente a violência com a ética. Castor Bartolomé. para a vítima. Seriam duas perspectivas diferentes: para a primeira a violência seria uma ruptura da ordem estabelecida. As conclusões sobre a legi- timidade ou ilegitimidade da violência dependeriam do ângulo de análise. reportando-se a Benjamim. p. São Leopoldo: Unisinos. a alteridade humana. mas não de violência. A gênese da violência seria correlativa à violação ética que produz e não a um mero ato de transgressão do direito. 383 Ibidem. de Walter Benjamim384. 384 Ibidem. Isso significa que a análise crítica da violência deve tentar superar a perspectiva jurídica da transgressão legal e posicionar-se no lugar da vítima que a sofre. um ato que não negue a alteridade humana não pode- 381 RUIZ. Este elemento também é presente nas práticas de etnocí- dio. A fim de analisar esta diferença e suas conseqüências. p. poder-se-ia falar em agressivi- dade. um ato somente poderia ser qualificado de violento segundo esta de- finição. Caso contrário. Ruiz desenvolve sua tese com base na obra Por uma crí- tica da violência. uma transgressão ética. Para Ru- iz. mas nega a reprodução da vida humana na sua dimensão cultural que caracteriza determinado grupo humano. 102 Outra característica fundamental da violência é a sua capacidade ou potencialidade de trazer a destruição da vida humana. 2009. e as relações morais só existem entre seres huma- nos. Um ato só pode ser violento se nega. p. entre justificar a sua legitimidade ou denunciá-la como intrinsecamente injusta. o desaparecimento da violência é uma condição elementar da sua sobrevivência382. aduz que a violência é correlativa à ética e afirma que só existe violência nas relações morais. 382 Ibidem. Para o autor. 88. Justiça e memória – para uma crítica ética da violência. esta tese traria conseqüências importantes para uma teoria da justiça383. Assim. . Castor Bartolomé Ruiz381 assevera que a violência deve ser compreendida na sua rela- ção com a ética e além do direito. Nosso propósito nesta etapa é desenvolver este segundo ponto característico da violência e do etnocídio como conseqüência. de alguma maneira. 87. é antes de um ato (i)legítimo do direito. conseqüentemente. p. a violência é uma violação ética. quando atinge a seres humanos. por negar a alteridade humana. já para a vítima. Para o direito. O autor.

ressalta que o estudo de Benjamim sobre a violência centra a sua análise crítica da violência social. esta indistinção o induziria. nos seres humanos. incluídos os seres humanos. o ser 385 Ibidem. Ruiz destaca que o autor não faz distinção entre os con- ceitos de agressividade e violência. A indistinção conceitual entre agressividade e violência induziria Lorenz a concluir que a moral cumpriria. dela necessitando para sobreviver. somente uma fenomenologia da vio- lência permite analisá-la criticamente para além do próprio direito. p. O autor. tecendo considerações sobre as aproximações fenomenológicas à naturaliza- ção da violência. Com efeito. 88. Porém. por um lado. em al- gumas formas. a agressividade é constitutiva da vida387. sobre a agressividade. na acepção de Ruiz. que abrangeria uma diversidade de estudos desde a antropologia biológica até a filosofia política. enquanto a violência se define como tal a partir da intencionalidade estratégica que a produz386. 88. p. levaria à destruição do grupo e a longo prazo à desaparição da espécie388. 89. pode ser considerada natural. 89. nas suas relações com o direito. 386 Ibidem. p. Este seria um debate clássico. o autor se reporta ao estudo do biólogo Konrad Lorenz. mas sim agressividade. E para evitar os excessos destrutivos da mesma. Neste trabalho. Assim. 103 rá ser considerado violência. pela sua pulsão mimética. foram criados rituais. de uma outra forma. seria inerente à espécie huma- na. Para evitar que a agressividade seja totalmente autodestrutiva. Na descrição feita pelo autor e reproduzida por Ruiz. Trata-se de um ponto crucial da tese de- senvolvida por Ruiz385. A fim de contrastar sua perspectiva filosófica. Através de ritos cada espécie conseguiria neutralizar o potencial devastador da agressividade que. 388 Ibidem. se serve de formas agressivas para conseguir sobreviver como indivíduo e espécie. Para este autor. 387 Ibidem. cada espécie viva. . A violência. a agressividade. Esta constatação o induziria a concluir que. entendida como agressividade compulsiva. p. o autor faz uma distinção conceitual entre agressividade e violência. o mesmo papel que os ritos de inibição dos ani- mais. a constatar que a agressividade seria uma pulsão natural existente em todas as espécies vivas com funções necessárias para a sobrevivência dos indivíduos e das espécies. Bartolomé Ruiz ressalta que considerar a violência como uma pulsão natural do com- portamento humano (e consequentemente das relações sociais) levaria a conclusões fatalistas sobre a sua presença na sociedade e no poder. deixando de lado qualquer tipo de fenomenologia da violência.

mas não questionou o pressuposto filosófico de que o estado de natureza humano seja necessariamente violento. Na descrição de Lorenz reproduzida por Ruiz. p. Com efeito. em que Hobbes defendeu que o estado de natureza humano seria um estado de guerra de todos contra todos. a tese de que a violência seria um componente da natureza humana indu- ziria à conclusão filosófica de que aquela é necessária para convivência. instituições que regulam a lógica natural da violência. p. Nesta visão biológica. nas duas hipóteses a violência seria um dado natural que a socieda- de deveria aceitar como elemento inerente ao poder. Ruiz aponta um erro conceitual e filosófico grave nas teorias filosóficas e antropológicas que identificam a agressividade com a violência. b) aceitá-la como pulsão natural inevitável. Ruiz destaca que este debate filosófico estaria instaurado desde os primórdios da mo- dernidade. não obstante deva ser controlada pelos códigos morais e jurídicos a fim de ser integrada nas relações sociais de modo produti- vo. 390 Ibidem. não haveria poder sem violência nem sociedade sem uso “legítimo” da mesma390. inclusive como fator determinante do funcionamento das instituições. às propostas de Hobbes. A naturalização da violência constrangiria a filosofia política a pensar a sociedade a partir de duas alternativas: a) deixar que a violência atue na sociedade como uma pulsão natural sem inibição alguma. Para o autor. o que levaria a uma mimese autodestrutiva. Porém. 89. a funcionalidade biológica ex- plicaria o surgimento da moral como código inibidor da violência. 104 humano teria criado a moral. com base neste pressuposto se criaram o Estado e o mercado. 89-90. Com base nestas explicações. p. para utilizar-se dela de modo adequado. em parte. Na descrição de Ruiz. Por conseqüência. as leis morais (não matarás). a moral teria um papel funcional explica- do pela necessidade de sobrevivência da espécie. Para Ruiz. o direito e outras formas de tradição social seriam recursos suplementares dos rituais que os seres humanos teriam encontrado para neutralizar a pulsão mimética da violên- cia389. 391 Ibidem. se instituiu o monopólio da violência no Estado e se deixou que no mercado vigorasse a lei natural da con- corrência de todos contra todos. Essa identificação (con)fundiria duas realidades distintas. O liberalismo econômico teria reagido. assimilando uma na outra como equiva- 389 Ibidem. o que beneficia os mais fortes391. o papel da sociedade seria discernir sobre qual é a violência legítima ou ilegítima. Nesse sentido. 90. . à semelhança dos rituais que as outras espécies criaram.

Para o autor. 392 Ibidem. A agressividade influ- enciaria a violência e manteria em comum a potência mimética. No que concerne à intencionalidade. p. esta traduz o ato violento na lógica dos meios e fins. o que a diferencia qualitativamente da pulsão agressiva. Reportando-se a Weber. Por outro lado. 91. a violência se definiria como um ato de significação intencional com o objetivo de negar. 90. o que a tornaria um ato exclusiva- mente humano394. no entanto a violência requer a significação intenci- onal da agressividade para atingir um objetivo definido. A agressividade é definida pelo autor como uma pulsão natural diversa e polimorfa. 394 Ibidem. . p. em maior ou menor grau. Ela transforma a agressividade em violência. A racionalidade instrumental produziria a violência como ato. no entanto. Ruiz destaca que os animais seriam agressivos. um ato humano que fere ou mata outro de forma acidental e sem inten- ção prévia de o fazer não poderia ser considerado um ato estritamente violento. 393 Ibidem. seria constitutiva de todo ser vivo. p. 90. a intencionalidade do sujeito elaboraria a violência como estratégia apropriada para um objetivo. A intenção significativa faria da agressividade um meio estratégico para um fim. Continuando a sua exposição. Esta requer. pois lhe falta- ria o componente da intencionalidade. pois não conseguem articular sua agressividade numa lógica intencional de meios e fins. contudo ambas não se identi- ficam395. a pulsão agressiva seria natural. que Benjamim analisa em sua crítica da violência. o autor assevera que a lógica de meios adequados para fins desejados seria o que caracteriza a racionalidade instrumental moderna. A pulsão agressiva seria inerente às diversas formas de vida (incluída a vida humana). total ou parcialmente. Ambas compartilhariam influências e incidências. já a violência seria social. a alteridade da vida humana. p. mas seriam diversas392. uma intencionalidade prévia. De igual forma. Esta operaria como meio estratégico para um fim almejado. 91. uma premedita- ção de meios e fins. Na definição de violência anteriormente exposta haveria dois elementos que a diferenciam claramente da agressividade: 1) a significação intencional e 2) a negação da alteridade humana393. mas não violentos. dentro do qual a violência deixa de ser uma mera pulsão natural para se transformar numa decisão deliberativa. 395 Ibidem. 105 lentes sem ponderar que a naturalidade de uma contrasta com a intencionalidade da outra. Para Ruiz.

As formas de agressividade contra as coisas. p. A significação intencional transformaria a agressivi- dade em violência. Só o ser humano teria o poder de signifi- car seus atos. no sentido estrito do termo. mas não seriam violentos porque agiriam por instinto a sem intencionalidade predeterminada. isso não quer dizer que não tenham implicações éticas pelo que afeta a outros seres humanos e pela sensibilidade humana a respeito dos outros seres vi- vos. p. É nesse senti- do que Benjamim destacaria que só há violência quando um ato incide sobre as relações mo- rais. a violência traria consigo sempre a destruição. 92. de acordo com Ruiz. Matar uma galinha. A agressividade estaria associada ao impulso de sobrevivência de todas as espécies. total ou parcialmente. quando bem canalizada. 91-92. só de forma metafórica poderiam ser denomi- nadas de violência. Quem nega. a alteri- dade de um ser humano cometeria violência e ultrajaria a ética396. porém. con- tra a natureza ou contra os outros seres vivos. Para o autor. Assim. A segunda conclusão importante que o autor extrai da distinção entre agressividade e violência seria que a agressividade é natural. conjuntamente com a intencionalidade. A agressividade teria inclusive muitas funções positivas. Somente o ato que nega o outro pode ser considerado violento. a pessoa que destrói um objeto pode- ria ser chamada de agressiva. um touro ou uma baleia poderia ser um ato de agressi- vidade cruel ou uma ação legítima para a sobrevivência de um ser humano. a negação total ou parcial da alteridade humana. é. Contudo. mas a violência não. 106 O segundo elemento constitutivo da violência. . da vida humana. Para Ruiz. mas a agressividade intencional só poderia ser caracterizada como vio- lência quando destrói total ou parcialmente a alteridade de outro ser humano. para o bem ou para o mal. a violência somente poderia ser cometida contra outro ser humano. Os animais seriam naturalmente agressivos. dependendo das circunstâncias. para o desenvolvimento da vida humana. mas não de violenta. a vida humana se torna um critério ético que julga a violência. total ou parcial. 397 Ibidem. Por isso a violência afetaria diretamente a justiça. as conseqüências políticas desta distinção fenomenológica entre a violência e a agressividade seriam importantes. A inten- cionalidade significativa seria condição necessária para que um ato agressivo (que pode ser instintivo ou pulsional) se transforme em violência. senão a justiça ética397. A correlação necessária da violência com a negação do outro ser humano transformaria toda violência numa afronta ética. mas não a justiça do direito. Haveria aspectos éticos na morte dos animais. Para Ruiz. Sem 396 Ibidem. porém a violência ética somente se cometeria contra o ser humano.

a ética nunca é um mero meio. visando um projeto totalizador. 101. segundo o fim estabelecido pela própria racionalidade. Esse fim primeiro de toda violência é a negação. pois carrega sempre um fim próprio e imediato. Para ela a violên- cia nunca é um mero meio em relação a um fim. A vítima seria o fim que a violência instrumentaliza para outros objetivos considerados prioritários400. Para a vítima que sofre a destruição total ou parcial de sua vida não há violência que possa justificar a barbárie. Se a violência se define como um ato intencional de destruição do outro. revela que esta forma de violência se 398 Ibidem. 101. Por isso todos os animais seriam agressi- vos. Nesse contexto podemos inserir a prática do etnocídio. A violência seria uma agressividade significada estrategicamente como um meio para a consecução de um fim (como aponta Hannah Arendt. total ou parcial. antes de ter uma relação com o direito. o olhar sobre a violência mudaria de foco e passaria a vigorar a perspectiva da vítima. . antes de mais nada ela atua com a finalidade imediata de destruir sua vida. Só o ser humano teria a capacidade hermenêutica de significar intencionalmente sua agressividade para a destruição do outro. se construiria sempre a partir de uma racionalidade instrumental que faz da vida do outro um instrumento útil na lógica de meio necessário para um fim almejado398. Contudo. desde a perspectiva das vítimas toda violência é ilegítima. A agressividade seria compulsiva e sua função seria preservar aspec- tos vitais da existência de cada indivíduo. Outro aspecto que Ruiz aponta em seu trabalho é que a violência tem um fim imedia- to: as vítimas. atinge a ética. ela contém uma finalidade própria que é sempre a destruição do outro. Do que se conclui que toda violência. previamente a qualquer utilização estratégica ou instrumental da mesma. Desde a perspectiva ética. A violência é utilizada sempre como um meio estratégico para atingir determinados fins. Ela significaria a agressão à vida do outro como tática intencional para uma finalidade preconcebida. da vida humana399. sobre o caráter instrumental da violência). p. p. 107 isso não seria violência. mas só o ser humano pode ser violento. embora possua elementos pulsionais da agressividade. ela. seriam as vítimas da violência que percebem em toda a sua plenitude esse fim imediato que elas sofrem como destruição de sua vida. 92. 400 Ibidem. para o autor. Desde esta perspectiva. é produzir vítimas. 399 Ibidem. O fim imediato inerente de toda violência. Assim. Sem essa finalidade um ato não poderia ser considerado violento. p. A utilização da violência como meio precípuo para a destruição da identidade cultural de um grupo humano (destruindo-o também fisicamente).

3. o que provoca igualmente a destruição física do grupo. em face de sua condição social.3. uma situação de impotência em que não se encontram alternativas para mudar seu destino. e que versam sobre a corporalidade humana.1 A condição de vulnerabilidade Sobre a condição de vulnerabilidade. 1.3. sujeto y política popular. de um modo geral.3 A CONDIÇÃO DE VULNERABILIDADE E DE VÍTIMAS EM POTENCIAL A condição de vulnerabilidade e de vítimas em potencial é outro aspecto social que gira em torno das práticas de etnocídio.pdf>. Disponível em: <www. 2. p.1 e 1. Germán. pois a destruição da cadeia simbólica de transmissão de crenças.3. Por sua vez. se consideramos que somos vulneráveis. para após tecer comentários a respeito da condição de vítimas em poten- cial e do risco de extinção física e cultural. a condição de vítimas em potencial aponta para o fato de que determinados grupos humanos vivem em uma espécie de estado de perigo permanente. Ela é uma característica do ser humano. Sua escolha de vida se resume em optar por integrar a cultura dominante do agressor ou perecer fisicamente. pode-se afirmar que a vulnerabilidade. Vulnerabilidad. Ambos os elementos caracterizadores da violência – intencionali- dade e destruição da vida humana – estão presentes nas práticas etnocidas. frágeis. terminamos reconhecendo que a vulnerabili- dade é uma característica de nossa condição humana. abordaremos alguns aspectos relativos à conceituação de grupos de condição de vulnerabilidade. indicamos ao leitor o item 1. .dei- cr. 402 GUTIÉRREZ. Uma vez existente a imposição da ideologia do agres- sor. corporalidad. 2011. mediante a privação de direitos e a destruição da vida humana. no seu aspecto cultural.2. valores e símbolos ocorre precisamente com a destruição dos seres humanos que transmitem esses valores para a preservação de sua vida humana. é condição de concretização do etnocídio. A seguir. 2. Isso significa também que somos seres 401 Sobre a questão relativa à corporalidade. 108 inscreve na destruição da vida humana na sua dimensão cultural. visto que este se constitui com um ser natural que se reconhece como corporal 401. A dimensão da dor é o que indica que somos vulneráveis. a vítima encontra-se em uma situação de vulnerabilidade frente a este. A violência inscrita na carne. que se resulta do risco social. todos do primeiro capí- tulo.3.org/uploaded/content/publicacione/1531536690. é parte constituinte da nossa condição humana. Como leciona Germán Gutiér- rez402. Acesso em: 28 abr.

podemos analisar o caso das vítimas do etnocídio – e também do genocídio – como seres humanos em condição de vulnerabilidade. que não é senão um modo de dizer corporalidade. 4. constituinte de cada um dos seres humanos. . dada a nossa vulnerabilidade. sagrado406. espiritual). p. 404 Ibidem. Este princípio de vulnerabilidade. 406 Ibidem. É um fundamento da sociabilidade e também um princípio necessário para a vida social407. pode-se referir que a vulnerabilidade faz parte de nossa condição humana. p. Ou seja. nos conduz de maneira necessária à reivindica- ção do direito de todos os seres humanos a viver. Um segundo sentido do termo “vulnerabilidade”. carinho. cuidado. a complementação entre nosso desejo de viver e nossa vulnerabilidade (em seu duplo sentido. e exigirmos o respeito a este direito como algo absoluto. 407 Ibidem. seguindo esta idéia. dizer vulnerabilidade com- porta sempre um sentido de debilidade e fragilidade que interpela o outro ser humano. que se impõe. 5. além da vulnerabi- lidade proveniente da sua condição de ser humano – como referimos nas linhas anteriores – a vítima do etnocídio comporta uma condição de vulnerabilidade especial. além de exprimir um sentido de abertura. A consciên- cia de nossa corporalidade nos conduz ao reconhecimento desta dupla dependência403. Logo. porém com um aspecto vulnerável que se constitui além de sua condição humana. que é corporal. As vítimas do etnocídio. enquanto grupo vulnerável. Alguém que nos acolhe o faz porque foi afetado por nossa fragilidade (ao mesmo tempo em que se reconhece como frágil também). mas que completa o primeiro. A experiência de dependência é uma experiên- cia originária. 3. p. 4. p. 405 Ibidem. mas também do mundo que nos rodeia. 109 necessitados de cuidado e ajuda por parte de outros seres humanos e da natureza. p. Para tanto. é que existe uma abertura ao outro. não somos seres completamente autônomos e independentes. 3. cultural. carregam dentro de si uma fragilidade e impotência frente ao agres- 403 Ibidem. pois sua cultura é ameaçada por outra mais poderosa materialmente. reproduzir e desenvolver sua vida em todos os aspectos (social. faz possível a constituição do sentido não só de nossa vida. Contudo. Este é o primeiro sentido do termo “vulnerabilidade”404. econômico. fragilidade e dependência). somos dependentes e necessitados de cuidado e ajuda. Dentro deste aspecto. Para tanto. Antes de tu- do. e que nos abre a um tipo de sensibilidade até o outro em geral. atenção e solidariedade a outros seres que desde seu sofrimento e vulnerabilidade nos interpelam405.

O genocídio (e o etnocídio) é um crime perpetrado contra vítimas impotentes por covardes que não correm nenhum perigo 410. na ocupação nazista ou na violência prati- cada contra monges no Tibet408. o Estado – ou o grupo dominante politicamente – busca eliminar o gru- po ou sua cultura com um mínimo de risco. El Estado criminal – los genocídios del siglo XX. é uma violência espiritual: busca aniquilar e exterminar as crenças e valores que são adotadas por uma coletividade.2. 110 sor/colonizador. p. Ives Ternon. . visando implementar a ideologia do agressor – como na conquista da América indígena. expõe co- mo se constitui a vulnerabilidade do grupo no caso do genocídio. 410 Ibidem. A vítima do genocídio – e também do etnocídio – é débil. Yves. O etnocídio. em que o grupo-vítima é impotente.1. mas da “devoração” do cordeiro pelo lobo. mas não suprimi-lo. podemos transpor seus fundamentos para o caso do etnocídio. Não se trata de uma guerra. está condenada a padecer sua fatalidade. não tem meios para mudar sua sorte. 408 Para mais informações. do capítulo 1 e os itens 2. que exclui as chances de se desviar de seu destino: a morte cultural (e por vezes física). 78. de reduzir mediante coerção ou violência assassina o número de um grupo minoritário cujo extermínio final é considerado como desejável e útil e cuja vulne- rabilidade é um dos principais fatores que contribui na decisão de um genocídio409. p. investido de uma autoridade formal e/ou podendo aceder ao conjunto de meios de que dispõe o poder. vida o item 1. A escolha resulta em converter-se às idéias do agressor ou perecer fisicamente. numa relação desigual. Aqui reside a condição de vulnerabilidade do grupo humano vítima do etnocídio. Seguindo sua orientação no que tange ao aspecto da vulnerabilidade. citando Dadrian.2. que o genocídio seria a tentativa lograda por um grupo dominante. 1995. A imposição da ideologia do colonizador ou agressor é feita de modo vertical.2 e 2. mais do que uma violência física. em sua obra El Estado criminal – los genocídios del siglo XX. Barcelona: Península. impossibilitado de resistir à violência. O má- ximo que pode fazer é resistir. prorrogar o prazo. 409 TERNON. O autor enfatiza. deste capítulo. 78. Nesse sentido.1.

1993. Robério Nunes dos Anjos. Minorias e grupos vulneráveis: uma proposta de distinção.2 A condição de vítimas em potencial No que tange à condição de vítimas em potencial. seria uma minoria. o quantitativo. p. Salvador: JusPodivm. In FILHO. em minorias étnicas. expondo considerações acerca dos aspectos carac- terizadores de uma minoria. devendo estar acompanhado de outros elementos. Direitos humanos – estudos em homenagem ao professor Fábio Konder Com- parato. . 405-430. 111 2. que seriam o elemento diferenciador. 2010. 412. No Pacto de Direitos Civis e Políticos de 1966. temos primeiramente o aspecto diferenciador. p. os elementos diferenciadores considerados para fins de proteção foram a etnia. nem todos os grupos quantitativamente inferiores devem ser necessa- riamente protegidos como minorias. Exige-se que este elemento esteja presente de forma estável. Como normalmente o elemento diferenciador qualifica a minoria. religiosas e lingüísticas413. Antônio Augusto Cançado. ele não pode ser considerado de forma isolada para caracterizar uma minoria sem a incidência de outros elementos de natureza objetiva e subjetiva. Direitos Humanos e Meio Ambiente: paralelo dos sistemas de pro- teção ambiental. p. Robério Nunes dos Anjos (Org. trata-se de um aspecto que está rela- cionado de certa forma com a existência de um grupo minoritário.3. Pode-se dizer que as vítimas potenciais411 se encontram em estado de perigo per- manente. de natureza subjeti- va: o da solidariedade. 59. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris Editor. portanto. refere que esta se configura pela existência das seguintes caracte- rísticas: os elementos objetivos. esta revela a concepção de que um grupo nume- ricamente majoritário em uma sociedade não pode ser considerado minoria. o da na- cionalidade e o de não-dominância. Iniciando pelos elementos objetivos.). Parte-se da pre- sunção. em cada membro do grupo. Também não pode ser o único a qualificar um grupo como minoria. que habita um determinado território. fala-se. 412 FILHO. e ainda teríamos um elemento outro. religião e língua. em virtude de suas próprias singularidades. No que tange à questão quantitativa. Robério Nunes dos Anjos Filho412. poderia se chegar ao extremo de ter que se admitir que cada ser humano. diante do risco social de extinção (é o caso de muitos grupos indígenas no Brasil). Dessa forma. Caso contrário. 413 Ibidem. assim. Deve-se atentar ainda para o fato de que maioria e mino- 411 TRINDADE. como aponta o autor. Contudo. de que grupos majoritários não precisam de proteção especial. de- vendo estar presente uma determinada característica que o distinga do restante da população.

sendo a primeira um processo de aproximação do qual resulta a perda do ele- mento diferenciador417. no máximo. hoje em dia a tendência é a de se reconhe- cer a existência de obrigações dos Estados para com os grupos minoritários que se encontrem dentro dos seus limites territoriais. tenham o desejo de integração. Estas. qualquer grupo que deseje manter suas peculiaridades será considera- do uma minoria. 112 ria em sentido puramente quantitativo são conceitos dinâmicos. Quanto ao elemento da nacionalidade. só podem ser entendidos como grupos minoritários aqueles que. dominante em termos políticos418. 412. independentemente das pessoas que os compõem serem seus nacionais ou cidadãos415. diante do risco de extinção física e cultural. todo grupo ven- cido em um processo eleitoral necessariamente deveria ser tido como minoria para fins de especial proteção416. 27 do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos entende que os Estados não podem negar os direitos ali referidos a quem não fosse seu nacional ou seu residente permanente. Assim. temos o elemento de solidariedade. 415 Ibidem. ou seja. conser- vando suas características diferenciadoras. ainda que seja. p. ao interpretar o art. fazendo com que um grupo antes minoritário possa passar a ser majoritário. cit. ainda que sejam numericamente pequenos não poderão ser considerados minorias para fins de especial proteção. os caracteres que os distinguem do restante das pessoas. Robério Nunes dos Anjos. em virtude de seu estado de perigo permanente. signifi- cando uma vontade coletiva dos membros do grupo de preservar o elemento diferenciador. gru- pos que exercem o poder político. p. 414. ao contrário da segunda. 416 Ibidem. do contrário. devemos retornar à abordagem da concepção de vítimas em potencial.. 413. . A discussão dá ensejo à distinção entre assimilação e integração. encontrando-se em situação de força e destaque na socieda- de. e vice-versa414. p. que podem variar no tempo. No que concerne ao elemento da não-dominância. devendo ser analisada conjuntamente com outros elementos. op. nos trabalhos empreendidos pela ONU. até porque esta não seria suficiente para caracterizar uma minoria. pois. Assim. De fato. 418 FILHO. p. 413. pois a assimi- lação significa tornar o grupo submetido igual ao modelo imposto. Finalmente. 417 Pode-se dizer que nos casos de etnocídio há uma perda total do caráter diferenciador do grupo. que possui caráter subjetivo. por exemplo. Feitas estas considerações sobre as características de um grupo minoritário. este exige que o grupo não esteja em uma situação de domínio do processo político no Estado em que se encontra. Também não pode ser o único a ser conside- rado. são caracterizados como 414 Ibidem. Caso contrário. o Co- mitê de Direitos Humanos.

. Com base nestes fun- damentos. Yves. in- capazes de participar no desenvolvimento econômico. p. vivem em zonas peri- féricas. p. No mundo globalizado. mais do que nunca. 6ª ed. são geralmente considerados irrecuperáveis. o risco social se intensifica. Foi assim como desapareceu a maior parte dos indígenas da América. 77. 420 LAFER. Quando uma cultura forte e uma cultura débil se encontram. O mesmo ocorreu com a destruição dos aborígenes da Austrália: foi o resultado da incompatibilidade entre os brancos produtores de lã e os aborígenes caçadores-coletores. e portanto à vontade e em casa no mundo. 182. na medida em que se admita o genocídio e o etnocídio como probabilidade futura420. cit. invariavelmente a débil desaparece. Os grupos indígenas. o risco de extinção física e cultural. Como aponta Yves Ternon419. O extermínio é po- tencializado. 419 TERNON. pode-se resumir como se traduz a condição de vulnerabilidade e de vítimas em potencial (produto da sociedade do risco. o que basta para justificar a sua elimi- nação. esses grupos não são mais que a parte residual de um imenso acontecimento que ocorreu nos séculos XVIII e XIX: o choque mortí- fero de culturas. o estado de perigo permanente. Celso. . e com ele a possibilidade de se ocasionar genocídio e etnocídio. para determinados gru- pos. no século XX. A reconstrução dos direitos humanos. op. em sua maioria. por exemplo. imperioso concluir que a condição de vulnerabilidade e de vítimas em potencial resultante do risco social são fatores que acompanham hoje. é dizer. pois a incompatibilidade entre as formas de sociedade e de economia é total. 113 grupos ameaçados. adaptado-se a descrição de Celso Lafer: nenhum povo da terra pode sentir-se razoavelmente seguro de sua existência. a realidade de muitos grupos humanos no planeta. 2006. Nesse sentido. O agravamento do risco social gera. São Paulo: Companhia das Letras. potencializadora da violência). Isolados do mundo exterior.

Helita Barreira. pois se nos voltarmos ao passado – e em especial às conquistas das Américas – consta- tar-se-á a sua prática como instrumento de formação do que hoje se entende por civilização. esta singela definição pode- ria causar dúvidas. In Revista de Direito Civil.1. . pois visa exterminar uma cultura mediante a violência ou ameaça de violência física contra um grupo humano. Pode-se afirmar que esta espécie de prática. Ano 16. 88. deve-se entender a origem e a definição desta prática lesiva.1 HISTÓRICO. imobiliário. 59. é por demais antiga. expondo o que de fato este fenômeno significa conceitualmente e como ele é entendido sob um aspecto filo- sófico e jurídico. que significa matar. nação). Poluição ambiental e genocídio de grupos indígenas. agrário e empresarial. e cídio. Para tanto. 114 CAPÍTULO III – PERSPECTIVA JURÍDICO-FILOSÓFICA 3.1 Histórico e desenvolvimento O etnocídio se configura como uma lesão grave que atenta contra os direitos dos seres humanos. que se distingue do geno- cídio. Alguns autores defendem que o termo etnocídio (ou genocídio cultural) deriva de etno. o etnocí- dio seria um atentado contra um povo ou uma nação421. que provém do grego ethnos (povo. buscando impor seu modelo de pensamento à toda uma coletivida- de. Com efeito. p. com enfoque principal na questão indigenista. exemplos de etnocídio. Contudo. Jan/Mar/1992. cabe traçarmos neste momento as características do etnocídio em uma perspectiva particular. 3. O principal estudioso desta definição foi o etnólogo francês Robert Jau- 421 CUSTÓDIO. n. O termo adveio dos estudos antropológicos e etnológicos. bem como as questões sociológicas sobre o risco social e a produ- ção de extinção física e cultural potencializada nesta espécie de sociedade. conjuntamente com o genocídio. DESENVOLVIMENTO E CARACTERÍSTICAS DO ETNOCÍDIO Expostas as considerações histórico-antropológicas no primeiro capítulo – no que con- cerne à identidade cultural como elemento componente da corporalidade e da condição huma- na. pois o genocídio igualmente é um ato contra a existência de um povo.

htm>. El aporte doctrinario de la antropologia crítica latinoamerica- na y sus premissas sócio/jurídicas.bibliotecavirtual.juridicas. Este movimento crítico composto por antropólogos mexicanos e latino-americanos.miguel-montenegro. mediante a imposição da cultura ocidental do colonizador. 1996.com/EthnocideWik. seja pelo 422 Vide JAULIN. José Emilio Rolando Ordoñez. 1973. p. sendo a cultura indígena algo em atraso. ou seja. 425 VÁSQUEZ.mx/sisjur/internac/pdf/10- 487s.clacso. el acto de des-civilización’424. p. Acesso em: 14 fev. Acesso em: 14 out. em 1993. 39. Buenos Aires: Tiempo Contemporaneo. lí- deres indígenas e missionários formaram o chamado Grupo Barbados. tais como: a) a dominação físi- ca. Disponível em: <http://www. que foi formulada na reunião de 1977. por exemplo. Disponível em: <http://www. 426 Ibidem. 02. México: Instituto de Investigaciones Jurídi- cas de la UNAM. 2011. Ladislao Landa. 115 lin. 423 MONTENEGRO. p. a destruição dos índios Bari. as quais estariam sendo complacentes com um discurso indigenista genocida e etnocida425. La cuestión étnico nacional e derechos humanos: el etnocidio – los problemas de la definición conceptual. 01. 2011. 427 CIFUENTES. muitos antropólogos passaram a denunciar as políticas indigenistas dos Estados e as atividades próprias da antropologia. p. José Emilio Rolando Ordoñez. Enquanto a Declaração de Barbados I buscou discutir os problemas provenientes das fricções interétnicas na América427. citado por CIFUENTES. Esta destruição formava-se a par- tir de múltiplos vetores: pelas ações da Igreja.ar>. 38. Robert Jaulin and Ethnocide. Disponível em: <http://www. Acesso em: 14 fev. e que deve ser su- perada. na Declaração de Barbados II. Na década de 60. e b) pela dominação cultural. foram descri- tas as formas de dominação dos povos indígenas na América.pdf>. na fronteira entre a Venezuela e a Colômbia422. 424 JAULIN.org. dos exércitos venezuelanos e colombianos. 28. Estas reuniões gera- ram recomendações aos Estados e demais setores da sociedade dos países da América Latina sobre o estado de marginalização e perigo de extinção de grupos indígenas no Continente426. o qual expôs em sua obra La Paix Blanche: introduction à l’ethnocide. além das companhias americanas de petróleo que passaram a se instalar no local onde vivia a tribo423. Miguel. . 2010. subdesenvolvida. Esta denominação do grupo adveio das primeiras reuniões que ocorreram na Ilha de Barbados nos anos de 1971 e 1977. bem como pela exploração da força de trabalho. La Paz Blanca – Introdución al etnocídio. o choque cultural destruidor do saber indígena. p. que se expressa pelo despojo de terras e dos recursos naturais. Pensamientos indígenas en nuestra América. tal espécie de dominação que não permite a expressão da cultura indígena.unam. Para o criador deste termo ‘etnocidio indica el acto de destrucción de una civili- zación. sendo que a terceira reunião ocorreu no Rio de Janeiro. Robert.

pactos y convênios de las Naciones Unidas y sus organismos especializados. é pertinente ressaltar que esta prática lesiva aos direitos humanos ainda não é recepcionada como crime de acordo com o Direito Penal Internacional. o fenômeno do etnocídio possui. No tocante à definição consagrada no documento El etnocidio significa que a uno grupo étnico. o que é envolvido em um contexto criminal. Acesso em: 14 fev.php>. porquanto este crime 428 Declaracíon de Barbados II. posto que não há refe- rência expressa em lei ou convenção internacional. 429 Declaración de San José. op. particularmente del derecho de los grupos étnicos al respecto de su identi- dad cultural. desarrollar y transmitir su própria cultura y su própria lengua.politicaspublicas. Também ressalta que há alguns anos vinha sendo denunciada em foros internacionais a problemática da perda da identidade cultural das populações indíge- nas da América Latina429. Contudo. 430 Ibidem. Disponível em: <http://www. 116 sistema educativo formal (que traduz a superioridade do branco). Acesso em: 14 fev. Cabe ressaltar que ele pode ser per- petrado ainda que os membros do grupo sobrevivam como indivíduos. O documento expõe que o etnocídio tratar-se-ia de um processo complexo. Nesse sentido. Disponível em: <http://www. pode-se dizer que embora não seja tratado formalmente como crime. Para esta conclusão se tomou como base o direito às diferenças e o princípio da autonomia dos grupos étnicos431. Esto implica una forma extrema de violación masiva de los derechos humanos. políticas e econômicas. La cuestión étnico nacional e derechos humanos: el etnocidio – Los problemas de la definición conceptual.nativeweb. 39. . ca- racterísticas próprias. 431 CIFUENTES. p.cl/iwgia/1982_1. cit. así como diversos organismos regionales intergubiernamentales y numerosas organizaciones no gubiernamentales. O etnocídio traduz uma repressão ou um extermínio dos traços culturais de um povo. Logo. 2011. José Emilio Rolando Ordoñez. 2011.. so- ciais. se le niega su derecho de disfrutar. 39. há referência expressa que o etnocídio – ou genocídio cultural – é um delito de direito internacional igual ao genocídio430. tal como lo establecen numerosas declaraciones. Ainda no texto da Declaração. que possui raízes históricas. colectiva o individualmente. celebrado na Costa Rica. p. não está tipificada como crime. ainda não há a previsão de um deli- to de etnocídio.pdf>. Trata-se de uma violação grave de bens jurídicos fundamentais que. mediante uma política de homogeneização pela violência. O documento que tratou expressamente sobre o termo foi a Declaração de San José. seja pelos meios de comuni- cação de massa428. todavia.org/papers/statements/state/barbados2. 25. p. enquanto forma de violência. sob os auspícios da UNESCO em dezembro de 1981.

Berkeley: University of California Press. p. 3. não necessariamente incluindo a destruição da vida do grupo. vide LUKUNKA. p. “sub-humana”. “demoníacas”. O Outro é despojado de sua identidade cultural. 117 implicará na desaparição da especificidade cultural de um povo432. identificadas. vide HINTON. E a partir deste pressuposto expõe distinções importantes entre estes atos. a saber: a) ele é parte integrante de um processo político de grupos que se arrogam o direito de selecionar certas camadas da estrutura social. Disponível em: <http://www. expulsas ou circunscritas. Estas estão destinadas a serem “elevadas” mediante a dominação e a assimilação (incorporação forçada)434. 2011. Glossario – Elementos conceptuales y vocabulário incluídos en los documentos. O que o etnocídio visa é impor a sua visão de mundo433. Arqueologia da Violência. 435 Além desta justificativa do etnocídio como uma ação para o “bem” de um determinado povo. Toward a generic definition of genocide. Otávio. 2. In ANDREOPOULOS. 436 O extermínio é o fenômeno sócio-político de eliminação de grupos. domina-se fisica. 41.iidh. 05. Em igual sentido. Alexander Laban. obrigando-os a transformarem-se no corpo produtivo do projeto civilizador435.org/document103. Os outros são “maus”. Israel W.html>. George J. p. desde que assumissem o suicídio cultural. 2004. Acesso em: 10 fev.2 Características do etnocídio No ano de 1974. o antropólogo e etnólogo francês Pierre Clastres publicou o texto chamado Do etnocídio437. Los pobladores del “desierto” – Genocidio. Genocide – conceptual and historical dimensions.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X1994000500015>. São Paulo: Cosac & Naify. Nesse sentido. 2011.pdf>. mediante a intenção de destruição dos traços culturais. Dispo- nível em: <http://www. Neste texto. 433 MOLINA. Dispo- nível em: <http://www. 2011. em um processo de extermínio436 da cultura de um grupo humano. julgando-se uma so- ciedade “selvagem”. ou “pesos mortos para a sociedade”.ed. Philadelphia: University of Pennsylvania Press. mas podem ser melhorados. Acesso em: 30 jan. pode-se dizer que ele possui algumas características. 437 CLASTRES. “inúteis”. Acesso em: 10 fev. p. vide CRUZ-NETO.org/scielo. mas não inclui o tipo de opressão assassina diretamente relacionada com a concepção genérica de genocídio. devendo ser eliminadas. psíquica e culturalmente as popu- lações de potenciais áreas de expansão projetada pelo homem moderno. Miguel Alberto. o que ocorreu durante o processo colonial e neocolonial no Brasil. Ethnocide. Disponível em: <http://alhim. p. Pierre. é de se conside- rar que esta prática poderia ser perpetrada para fins de dominação. ou seja. 1997. Por vezes. Extermínio: violentação e banalização da vida. 434 Ibidem.scielosp. uma espécie de infracultura. 2002. 231. etnocidio y etnogénesis en la Argentina. sustenta que as populações indígenas na América do Sul são simultaneamente vítimas do genocídio e do etnocídio. possuem atributos que importunam ou que se tornam insupor- táveis aos olhos dos aniquiladores. Nesse sentido.revues. Outro exemplo que caracteriza esta espécie de etnocídio institucionalizado é a Argentina. Barbra. p. em semelhante entendimento acerca do etnocídio como prática que se constitui como a des- truição da cultura de um povo. em que se oferecia um suposto direito à existência aos povos indígenas (ser cidadão argentino).org/Article?id_article=8>. 84-85. Annihilating difference: the anthropology of genocide. Cabe salientar que este autor defende a idéia de que o etnocídio se configuraria como um proces- so de proibição ou interferência no ciclo natural de reprodução e continuidade de uma cultura ou uma nação. b) as vítimas geralmente são aquelas que. Em suma. não envolve necessariamente o extermínio físico. vide BAR- TOLOMÉ. 432 Nesse sentido. As vítimas seleci- onadas são rejeitadas por serem “indignas”. Lucrecia. e CHARNY.1. Acesso em: 04 mai. 230-231. . c) ele constrói-se em torno de uma idéia de limpeza social.cr/comunidades/diversidades/docs/div_vocabulario/capiracismo05. 2011.massviolence.

p. Na descrição de Clastres. foi principalmente a partir de sua experiência americana que os etnólogos. 118 Clastres inicia sua exposição referindo que há alguns anos o termo etnocídio não exis- tia. e muito particularmente Robert Jaulin. Desde a conquista da América em 1492. 82. é primeiramente à realidade indígena da América do Sul que se refere esta idéia. não se poderia inaugu- rar uma reflexão séria sobre a idéia de etnocídio sem buscar preliminarmente determinar o que distingue este fenômeno da realidade de uma outra prática: o genocídio439. 440 Ibidem. Beneficiando-se de sua capacidade de responder a uma demanda. p. 83. se disporia de um terreno favorável à pesquisa da distinção entre geno- cídio e etnocídio. Para o autor. Todavia. de satisfazer uma neces- sidade de precisão terminológica. Contudo. 81. . já que as últimas populações indígenas do continente são simultaneamente vítimas desses dois tipos de criminalidade442. seria o genocídio dos indígenas americanos o que mais chamaria a atenção. A his- tória da expansão colonial no século XIX e a história da constituição de impérios coloniais pelas grandes potências européias estaria pontuada de massacres metódicos de populações autóctones. o autor questiona: poderia a difusão acelerada de uma palavra garantir a manutenção da coerência e do rigor desejáveis? Clastres refere que no espírito de seus inventores. para cair de certo modo em domínio público438. 441 Ibidem. Se o termo genocídio remete à idéia de “raça” e à vontade de extermínio de uma mino- ria racial. viram-se levados a formular o conceito de etnocídio. o termo etnocídio apontaria não para a destruição física dos homens (caso em que se 438 Ibidem. O delito juridicamente definido como genocídio teria sua raiz no racismo440. Aqui. 81. o conceito de genocídio. a etnologia. 82. p. Embora o genocídio anti-semita tenha sido o primeiro a ser julgado em nome da lei. seria a consideração no plano legal de um tipo de criminalidade até então desconhecido: o extermínio sistemático dos judeus europeus pelos nazistas alemães. 439 Ibidem. não teria sido o primeiro a ser praticado. No entanto. 442 Ibidem. desenvolvido após a Segunda Guerra Mundial. p. p. para Clastres. a palavra estava destinada a traduzir uma realidade que nenhum outro termo exprimia. pôs-se em funcionamento uma máquina de destruição dos índios441. a utilização da palavra teria ultrapassado seu lugar de ori- gem. por sua extensão continental. Para Clastres. pela amplitude da queda demográfica que provocou.

exterminando a vida do outro. cultura ou religião do conquistador. em contrapartida. 67. a animalidade são atributos do “outro”. mas a história está repleta de práticas genocidas. p. mas para a destruição de sua cultura443. mas sua cultura. necessário ressaltar que a violência física é presente no etnocídio. caso os indígenas não se convertessem à religião e ao modo de vida dos conquistadores. Maria Inês Pagliari- ni. mas este não é seu objetivo: seu fim é a assimilação forçada do grupo. abraçando a causa do outro. no modo de agir para desfazer a assimetria.1.. Genocida e etnocida diferem. o etnocídio se utiliza da destruição física ou assassinato para tanto. do capítulo 1 deste trabalho. certamente. op. Arqueologia da Violência. por sua vez. O etnocida. em que o povo é assassinado em seu corpo. por exemplo. Por isto Clastres refere que o genocí- dio atua no corpo (ou seja.pdf>. em que uma cultura. vida a nota 1. a fim de implantar a cultura do con- quistador. pois a destruição de uma cultura manifesta-se pela ameaça ou efetivação da destruição física do grupo.1.br/meel/arquivos/artigos/133. o aspecto central é a finalidade que guia o agente que pratica o etnocídio. 119 permaneceria na situação genocida).ufmt. de que as vítimas tenham sua vida. enquanto o etnocídio os mata em seu espírito444. mas pode-se ameaçar ou retirar a vida deste. a humanidade são sempre atributos do “nós”. a sua existência). No caso do etnocídio. Disponível em: <http://cpd1. língua ou religião é exterminada. O espírito genocida quer pura e simplesmente negá-la. não vindo mais a existir biologicamente (isto é. a irracionalidade. Neste aspecto. língua e religião são exterminadas. não se visa exterminar a vida do grupo por si só. E isto pressupõe a existência do grupo subjugado. sem vida). seria a destruição sistemática dos modos de vida e de pensamento de povos diferen- tes daqueles que empreendem essa destruição. O etnocídio teria em comum com o genocídio uma visão idêntica do Outro: o Outro seria a diferença. confiando que o outro possa ser convertido ao nós. Por isso se trata de uma con- quista geralmente espiritual. Em suma. de outro lado. o erro. Nesse sentido. O etnocídio. o mal. . Exterminam-se os outros porque eles são absolutamente maus. impondo. a civilidade. Na conquista da América. sobretudo. 2011. admitiria a relatividade deste mal na diferença: os outros são 443 Contudo. a cultura. Contrariamente do genocídio. Essas duas atitudes dis- tinguem-se quanto à natureza do tratamento reservado à diferença. Acesso em: 28 abr. Pierre. A noção de etnocídio: para pensar a questão do silenciamento das línguas indígenas no Brasil. 445 Nesse sentido. a racionalidade. mas sua cultura. constituindo sempre uma relação assimétrica: o bem. a barbárie. dando lugar ao saber do agressor). o genocídio assassinaria os povos em seu corpo. desde que a vítima aceite a ideologia. a incorporação forçada do saber do colonizador pelo colonizado. 444 CLASTRES. cit. a verdade. p. enquanto o etnocídio assassina em seu espírito (as vítimas podem sobreviver. 83. a má diferença445. a impureza. sua identidade cultural. O genocida elimina a má diferença. Vide COX. O etnocida. a ameaça de destruição física e escravização era constante. contudo. extirpa a vida do grupo. pode-se dizer que esta má diferença provém de uma relação nós/outro. elimina a má diferença. portanto. O exemplo que primeiro nos vem à memória é do nazismo. mas seria. quer dizer que o que se visa exterminar não é propriamente a vida do grupo humano. a pureza. Para tanto. a perfeição. a imperfeição. língua ou religião do agressor. pode-se referir que quando Clastres refere que o etnocídio assassina o grupo em seu espírito.

84. Mas se trataria de uma negação posi- tiva. o Ocidente seria etnocida porque seria etnocêntrico. No entanto. idênticos ao modelo que lhes é imposto. Portanto. em Raça e História. mas pode-se melhorá-los. 83. mas um simples animal. para se exercer. p. 446 CLASTRES. Arqueologia da Violência. op.. se possível. o racismo desse ato seria inclusive totalmente evacuado. Quanto ao segundo. Claude Lévi-Strauss ressaltava. cit. A partir disso percebe-se que não há autodenominação. 85. Pierre. 447 Ibidem. Clastres refere que o horizonte no qual se destacam o espírito e a prática etnocidas se- ria determinado por dois axiomas. ele afirmaria a superiori- dade absoluta da cultura ocidental. o reco- nhecimento de um mínimo de humanidade no Outro. p. obrigando-os a se transformar até que se tornem. porque se pensa e se quer a civilização. como os índios da Ilhas da América Central se perguntavam se os espa- nhóis recém-chegados eram deuses ou homens. 448 Ibidem. a descrição etnológica permite responder a isso. . uma questão se colocaria: nossa cultura deteria o monopólio do etnocentrismo? Para o autor. Na descrição de Clastres. e em particular com as “primitivas”. Clastres observa que se poderia opor o genocídio e o etnocídio como duas formas per- versas do pessimismo e do otimismo. enquanto os brancos se interrogavam sobre a natureza humana ou animal dos indígenas447. os Guayaki se referem a eles mesmos como Aché. esta somente poderia manter com as outras. já que ele implicaria. uma relação de negação. que significa os homens. p. Seria uma monótona repetição de uma antiqüíssima infâmia: ao falar precursoramente do etnocídio. O homicídio de um índio não seria um ato criminoso. no sentido de que ela quer suprimir o inferior enquanto inferior para lançá-lo ao nível do “superior”448. Na América do Sul. O primeiro proclamaria a hierarquia das culturas: haveria as que são inferiores e as que seriam superiores. Chama-se etnocentrismo a vocação de avaliar as diferenças pelo padrão da própria cultura. na medida em que as socie- dades se atribuem quase sempre a um único e mesmo nome: os Homens. os matadores de índios levariam ao ponto máximo a posição do Outro como diferença: o índio selvagem não seria um ser huma- no. Inicialmente. A negação etnocida do Outro conduziria a uma iden- tificação a si446. deveríamos considerar a maneira como as sociedades indígenas nomeiam a si próprias. Os índios Guarani nomeiam-se Ava. 120 maus.

historicamente determinada. 87. segue a ideia de que a prática etnocida não se articula necessariamente com a convicção et- nocêntrica. 451 Ibidem. se toda cultura é etnocêntrica. já que elas seriam precisamente sociedades sem Estado452. o segundo se comporia de sociedades com Estado. Nesse sentido. e os outros participariam da humanidade. Caso contrário. Inversamente. os Waika da Venezuela se proclamam Yanomami. na descrição do autor. Pertenceria à essência da cultura ser etnocêntrica. cada sociedade designa sistematicamente seus vizinhos por nomes desdenhosos449. No entanto. não se poderia pensar a vocação etnocida da sociedade ocidental sem articulá-la com essa particularidade de nosso próprio mundo. portanto. particularidade que seria inclu- sive critério clássico de distinção entre selvagens e civilizados. Para se constatar o que faz a civilização ocidental ser etnocida. O etnocentrismo apare- ceria como a coisa do mundo mais bem distribuída. Clastres questiona: não seria porque a civilização ocidental é etnocida no interior dela mesma que ela pode sê-la no exterior. como sociedade com Estado? Se fosse assim. Em outras palavras. p. Assim. o que não acontece. deve-se fazer uma interrogação sobre a natureza. serem etnocidas. na medida em que toda cultura se considera como a cultura por excelência. p. 121 as pessoas. 85. mas sempre como inferioridade segundo um eixo hierárquico450. p. imanente à própria cultura. contra as outras formações culturais? Para o autor. 450 Ibidem. ou seja. 87. a alteridade cultural nunca é apreendida como diferença positiva. de um projeto de redução do 449 Ibidem. toda cultura operaria uma divisão entre ela mesma. compreenderíamos por que as sociedades “primitivas” podem ser etnocêntricas sem. como cultura etnocida. seria a aplicação de um princípio de identificação. entre o mundo primitivo e o mundo ocidental: o primeiro reuniria o conjunto das sociedades sem Estado. . 452 Ibidem. Assim. conviria pensar o etnocentrismo como uma propriedade formal de toda formação cultural. mas em grau menor. É nisso que se deveria tentar refletir: poder-se-ia colocar legitimamente em perspectiva essas duas propriedades do Ocidente. a “Gente”. Assim. etnocêntrico: a afirmação da superioridade de sua existência cultural. que se afirmaria como re- presentação por excelência do humano. somente a ocidental seria etnocida. no entanto. 86. de nosso mundo cultural451. e deste ponto a cultura do Ocidente não se distinguiria das outras. toda cultura deveria ser etnocida. p. O discurso que as sociedades “primitivas” fazem delas mesmas seria. Clastres refere que o etnocídio é a supressão das diferenças culturais julgadas inferio- res e más.

Sua formação. o francês. 455 Como exemplo. descobrir-se-ia. o Diretó- rio de Marquês de Pombal teve suas medidas primeiro aplicadas no Pará e Maranhão. a coroa portuguesa abraçava predatoriamente as culturas e línguas dos povos indígenas com que interagiam em terras brasileiras. Maria Inês Pagliarini. uma cultura do francês. como ilustra- ção do espírito e do destino do Ocidente. o que era visto como uma ameaça à hegemonia da língua portuguesa. Nesse sentido. A cada desenvolvi- mento do poder central corresponderia a um desdobramento acrescido do mundo cultural. ele seria. Em outras palavras. enraizada num passado secular. o emprego de uma força centrípeta que tende a esmagar as forças centrífugas inversas. esse processo de integração passaria pela supressão das diferenças. op. Seria assim que. essas medidas foram estendidas a todo o Brasil. 454 Ibidem. . o todo do corpo social e mestre absoluto dos di- versos órgãos deste corpo. A prática de os colonizadores impingirem aos colonizados a sua própria língua sempre foi vista como emblema da conquista e do domínio dos primeiros sobre os segundos. a vocação de recusa do múltiplo. A política lingüística implantada por meio do Diretório de Pombal visava proibir as línguas locais. na aurora da nação francesa. o que significaria o Estado? Para Clastres. Para o autor. se constataria que a prática etnocida e a máquina estatal funcionariam da mesma maneira e produziriam os mesmos efeitos: sob as espécies da civilização ocidental ou do Estado. analisando a constituição da nação brasileira. Nesse nível. se revelariam sempre a vontade de redução da diferença e da alteridade. p. em 17 de agosto de 1758. o autor se desvencilha desta abordagem (que denomina de certo modo de estruturalista) para tratar o da diacronia. pode-se constatar a ação do etnocídio sobre as culturas e línguas locais. a força atuante do Um. Em um segundo momento. A nação pode-se dizer constituída. O Estado se quer e se se proclamaria como o centro da sociedade. por essência. Para Clastres. a cruzada dos albigenses abateu-se sobre o sul para abolir sua civilização. etc) falavam línguas locais diversas. Estima-se que dois terços da população no Estado de São Paulo (mamelucos. no núcleo mesmo da substância do Estado. 76-77. Instituído em 03 de maio de 1757. o sentido e o gosto do idêntico e do Um453. Clastres considera a cultura francesa como caso particular da cultura ocidental. A extirpação da here- 453 Ibidem. o Estado pode proclamar-se detentor exclusivo do poder. A cultura francesa seria uma cultura nacional. 88. portugueses. p. No ano seguinte. vide COX. o temor e o horror da dife- rença. primeiro sob a forma monárquica. 122 outro ao mesmo (o índio amazônico suprimido como outro e reduzido ao mesmo como cida- dão brasileiro). p. o etnocídio resultaria na dissolução do múltiplo no Um. A extensão da autoridade do Estado traduz-se no expansionismo da língua do Estado. Nesse sentido. a seguir sob a sua forma republicana. À guisa de consolidação de seu domínio. quando a França era apenas o reino dos francos. cit. 88. Inicialmente. mos- trar-se-ia estritamente coextensível à expansão e ao fortalecimento do aparelho de Estado. quando as pessoas sobre as quais se exerce a autoridade do Estado falam a mesma língua que ele454 455.. da história concreta. quando a política pombalina proibiu seu uso e obrigou o da língua portuguesa.

cit. o autor busca examinar o caso de um tipo de Estado diferente dos Esta- dos europeus. Para o autor. Os Incas haviam conseguido edificar nos Andes uma máquina de governo que causou a admiração dos espanhóis. e os habitantes do Lan- guedoc passaram a ser súditos leais do rei da França456. tratadas como dialetos de indivíduos atrasa- dos458. 88. tradi- ções políticas. Elas foram substituídas pela divisão abstrata em departamentos. op. como supressão das diferenças sócio-culturais. e portanto a facilitar em toda parte a pene- tração da autoridade estatal457. tanto pelo tamanho de sua extensão territorial quanto pela precisão e a minúcia das técnicas administrativas que permitiam ao imperador e a seus nume- rosos funcionários exercer um controle quase total e permanente sobre os habitantes do impé- 456 CLASTRES. pretexto e meio de expansão para a monarquia capetiana. Clastres refere que embora de forma breve. As províncias. p. conduziria logicamente a dizer que toda formação estatal seria etnoci- da459. traçando os limites quase definitivos da França. afirmar. aparece. p. p. foi irreversivelmente condenada. O autor afirma ainda que a Revolução de 1789. por exemplo. 89. homogênea do ponto de vista cultural: língua. a qual procede por uniformização da relação que mantém com os indivíduos: o Estado conheceria apenas cidadãos iguais peran- te a lei. como um caso puro de etnocídio: a cultura do Midi – religião. Com isso teria sucumbido o que subsistia de existência autônoma no mundo provincial e rural. p. Arqueologia da Violência. esta visão sobre a história do país seria su- ficiente para mostrar que o etnocídio. apoia- vam-se cada qual numa antiga realidade. 458 Ibidem. estaria inscrito na natureza e no funcionamento da máquina estatal. como unidades territoriais. para o autor.. Pierre. e o etnocídio consumado: línguas tradicionais. literatura. que transformou os habitantes da França em cidadãos graças à instituição da escola leiga. a partir do exemplo francês. ao permitir o triunfo do espírito cen- tralista dos jacobinos sobre as tendências federalistas dos girondinos. 457 Ibidem. etc. que o etnocídio pertence à essência unificadora do Estado. e posteriormente do serviço militar obrigatório. poesia. levou a seu termo o do- mínio político da administração parisiense. 123 sia cátara. 89. Uma última etapa desse movimento pelo qual as diferenças desaparecem uma após a outra diante do poder do Estado é com a metamorfose da III República. 89. A francização estava completa. . 459 Ibidem. foram eliminadas. Nesse sentido. própria a romper toda referência às particularidades locais.

Clastres questiona: essa análise deveria deter-se apenas aí. reprimidas de início. desse ponto de vista. todos os Estados se equivaleriam? Para o autor. o etnocídio seria o modo normal de existência do Estado. dentre outros) e os Estados civi- lizados (o mundo ocidental). mas de todo um conjunto de sociedades que são as socieda- des com Estado. p. como todo aparelho de Estado quando seu poder é questiona- do. por sua força: a prática etnocida – a abolição da diferença quando esta se torna oposição – cessaria a partir do momento em que a força do 460 Ibidem. percebe-se primeiro essa diferença no nível da ca- pacidade etnocida dos aparelhos estatais. mas sobretudo forçando-as a celebrar o culto dos conquistadores. os Incas sabiam utilizar a força quando necessário e sua organização reagia com a maior brutalidade. conjuntamente com o et- nocídio461. A reflexão do etnocídio passaria por uma análise do Estado462. tanto nos impérios bárbaros quanto nas sociedades civilizadas do Ocidente: toda organização estatal seria etnocida. p. que aniquilariam mais tarde física e culturalmente os indígenas. No entanto. 463 Ibidem. faraós. As freqüentes insurreições contra a autoridade de Cuzco. no sentido de ser característico não apenas de um vago “mundo branco” indeterminado. 90. Para o autor. grutas. Questiona-se ainda onde se situaria essa diferença que impede colocar no mesmo pla- no os Estados bárbaros (Incas. O aspecto etnocida dessa máquina estatal aparece em sua tendência a incaizar as popula- ções recentemente conquistadas: não apenas obrigando-as a pagar tributo aos novos senhores. . colinas. A violência etnocida. No primeiro caso. aquele marcado pela rede dos locais de culto (fontes. p. etc): para Clastres. em limitar-se à constatação de que o etnocídio é o Estado e que. essa capacidade seria limitada não pela fraqueza do Estado mas. como negação da diferença. eram a se- guir castigadas pela deportação em massa dos vencidos para regiões muito distantes de seu território natal. pertenceria à essência do Estado. 90. isto é. do próprio inca460. 90. o culto do Sol. 90. A pressão exercida pelos Incas sobre as tribos submetidas nunca atingiu a violência dos espanhóis. seria uma vez mais desconhecer a história concreta de nosso próprio mundo cultural463. 461 Ibidem. Haveria uma certa universalidade do etnocídio. despotismos orientais. Embora fos- sem hábeis diplomatas. 124 rio. ao contrário. 462 Ibidem. seria o desenraizamento e a desterritorialização. seria como recair no pecado de abstração que precisamente é re- provado pelo autor. p.

um espaço justamente ilimitado. os últimos índios livres sucumbem sob a pressão do cres- cimento econômico. se havia uma espécie de submissão de 464 Ibidem. Robert. ou o etnocídio ou o genocídio. em toda a América do Sul. 125 Estado não corre mais nenhum risco. 91. seria o capitalismo como sistema de produção para o qual nada seria impossível. No início do século XX. de uma produtividade levada ao seu nível máximo de intensidade465. cit. 467 JAULIN. a civilização ocidental se tornaria mais etnocida que qualquer outra so- ciedade por seu regime de produção econômica. petróleo. 466 Ibidem. No entanto. Outra questão que deve ser ressaltada é que. Este colonialismo é o caráter fundamental do etnocí- dio467. sociedades. Raças. Deve ocorrer a aliança ou o acordo com o agressor. Os Incas toleravam uma relativa autonomia das comuni- dades andinas quando estas reconheciam a autoridade política e religiosa do Imperador. O autor sustenta que no final do século XIX os índios do pampa argentino foram totalmente exterminados a fim de permitir a criação extensiva de ovelhas e vacas. nossa civilização busca converter todas as outras. tudo deve ser produtivo. op. Eis por que nenhum descanso podia ser dado às sociedades que abandonavam o mun- do à sua tranqüila improdutividade originária.. minérios raros. No contexto social. exceto não ser para si mesmo seu próprio fim (seja ele liberal. como absolutamente etnocida. p. 91. Seria exatamente por isso que ela pode conduzir ao genocídio e que se pode falar do mundo ocidental. p. de fuga permanente para adiante. Atual- mente. p. tudo deve ser utilizado. 263. indivíduos: tudo seria útil. seria também a mais formidável máquina de destruir. A sociedade industrial. centenas de milhares de índios amazônicos pereceram sob a ação dos exploradores de borracha. o desperdício representado pela não exploração econômica de imensos recursos. de Estado). privado. enquanto impossibilidade de permanecer no aquém de uma frontei- ra. a capacidade etnocida se mostra sem limites. A es- colha deixada a essas sociedades era um dilema: ou ceder à produção ou desaparecer. a mais formidável máquina de produzir. p. aos olhos do Oci- dente. 465 Ibidem. etc? Produzir ou morrer: esta seria a divisa do Ocidente466. o que fundou a riqueza do capitalismo argentino. ou planificado. nos Estados ocidentais. eis por que era intolerável. La Paz Blanca – introdución al etnocídio. ela é de- senfreada. 91. de fato. Em contrapartida. Afinal: que importância podem ter alguns milhares de selvagens impro- dutivos. comparada à riqueza em ouro. o autor questiona: o que a civilização ocidental contém que a torna mais etnocida que qualquer outra forma de sociedade464? Para Clastres. .

esta assimilação significa tornar semelhante a. Acesso em: 14 fev. levando. p. p. por outra cultura mais poderosa materialmente. Nesse sentido. 2011. p. Em suma. jul/dez. Disponível em: <http://www. identidade cultural e o caso yanomami. Renan Vega.com. 470 Como exemplo de práticas desta espécie de violação aos direitos humanos. em que os indígenas do Povo Oro-Win são retirados das aldeias e obrigados a se incorporar no sistema de vida dos invasores. Acesso em: 28 abr. Disponível em: <http://jmir3. Acesso em: 04 mai. Aculturação.no.cr/>. 8. E esta des- truição não está circunscrita somente na eliminação física de um indivíduo ou grupo. e VIEIRA.iidh. 71.com/2007/04/o-que-etnocdio. globalizada e etnocentrista470. 185.sapo. à sua extinção472. 469 Ibidem. ou o etnocídio propriamente dito. 2011. vide CANTOR. de certa forma. resultando na negação do Outro469. SACHS. sendo posteriormente conduzidos a barracões de seringais para serem mantidos em semi-escravidão. PRADO. quando esta conduz à destruição dos valores sociais e morais da sociedade dominada. Explotación petrolera y etnocidio en Catatumbo: Los Barí y la consesion Barco. p. 2011. que seria o contato direto e continuado entre duas culturas.blogspot. a busca da totalidade. Sua ca- racterística essencial é a aculturação pela violência. desde a chegada de Colombo à América). 1. Do genocídio e etnocídio: povo. 472 SILVA. Assim. 2. Etnocídio. p. dentre outros. Disponível em: <www.ed. p. na medida em que aumentava o grau de resistência era justificado o etnocídio. em troca de comida. crime contra etnias ou grupos étnicos. Outro episódio que retrata a prática do etnocídio são as violações de direitos humanos decorrentes da fricção interétnica no Estado de Rondônia. Antônio José Guimarães. Vide Etnocidio. 1. O etnocídio foi e é ainda frequentemente pratica- do pelas sociedades de tipos industrial. e b) a assimilação efetiva. depois. 471 O que é etnocídio. Disponível em: <http://karipuna. 2011. BRITO. 355-374. In Revista Jurídica da Universidade de Cuiabá. típico do modernismo político-cientificista468 (ainda que tenha sido praticada. 2011. 126 uma classe por outra – classe trabalhadora pela patronal no Século XIX – esta relação é subs- tituída eminentemente pela privação forçada de um grupo de suas características culturais. v. Disponível em: <http://www. com o objetivo de “pacificar” ou transformar as socie- dades ditas “primitivas” ou “atrasadas”. em última instância. ao seu desaparecimento471.com/articulos/rev07/n7_a12. Além do Genocídio: o Etnocídio do Povo Oro-Win e a fricção interétnica nas cabeceiras do Rio Pa- caás-Novos: um caso de violação de direitos humanos.pt/Ebook2/Aculturacao_Einaudi. AMARAL. 2010. Acesso em: 04 mai. de um ideal de progresso ou de uma fatalidade evolucionista. 2006. Com o pretexto de incorporar os índios Bari à “civilização” para que estes desfrutassem do “progresso”. 2. Rafael Clemente Oliveira. à sua desinte- gração e. de uma etnia ou grupo étnico. José Januário de Oliveira. São Paulo: Modelo. dois movimentos consecutivos: a) a aculturação. Cabe ressaltar que o etnocídio opera sob dois prismas. Acesso em: 04 nov. n.br>. p.espaciocritico. Estes são. Geral- 468 Ibidem.html>. Wilson Matos da. Gustavo José Correia. mediante a extensão de si mesmo. geralmente a pretexto da moralidade. Ignacy. 4. o etnocício se configura como a imposição violenta de um processo de aculturação – extermínio da cultura do grupo ameaçado – por outra mais poderosa. tem-se a exploração petroleira e a ação do Estado colombiano em Catatumbo.netlegis.pdf>. p. os indígenas foram submetidos a um contínuo processo de aculturação. implicando mudanças nos modelos culturais dos grupos que entram em contato. Nos estudos biológicos do século XVI significava a absorção e incor- poração realizados por organismos vivos. o etnocídio se configura como uma ação que promove ou tende a promover a destruição de uma etnia ou grupo étnico.htm>. 263. são elementos que circundam as relações na sociedade industrial. UNIC. . Para tanto. exemplos de práticas etnoci- das.

100.com>. de civilizações. Para Jaulin. seria novamente instalado: a destruição das culturas476. Tal processo etnocida faz com que o Terceiro Mundo apareça como o resultado da integração dentro desta ordem única do imenso universo de culturas diferentes em decomposição474. designar ao mesmo tempo os assassinatos coletivos perpetrados contra as raças ou etnias e suas culturas. Nesse campo os trabalhos de Jaulin se constituem como elementos importantes para se observar outras características do etnocídio. Para Jaulin. instituições sociais básicas. Acesso em: 04 mai. 1. da prática da religião. p. 475 Ibidem. O termo “etnocida” foi construído à semelhança do termo “genocida”. O autor qualifi- ca o etnocídio como ato de destruição de uma civilização.fr>. 913.persee. Tiers Monde et ethnodéveloppement. etc473. p. que evoca estas construções. Disponível em: <http://www. Em 1947 e 1948. 476 Ibidem. um ato de descivilização. p. 2011. 473 Vide STEIN. n. o assassinato. e qualifi- car os povos conquistadores que se tornam culpados475. então. Ethnocide. os termos genocida e etnocida foram construídos com base no modelo de homicida.bookrags. o horror ou a culpabilidade associada à liquidação do povo judeu ocultari- am os problemas da liquidação dos povos enquanto significativos de culturas. Jaulin se reporta aos estudos de Marcel Bataillon. 913-927. Analisou-se depois o genocídio cultural (já que o termo etnocida ainda não era empregado). 2011. Para este autor. essa ordem única se configura como uma ordem etnocida. vol. 25. palavra onde se identificam dois substantivos latinos: homicida (concre- to). 474 JAULIN. o qual foi construído à imagem de “homicida”. 914. 127 mente as ações etnocidas se configuram na privação do uso da língua. tendo em vista o “progresso”. Para tanto. Stuart. Cabe salientar ainda que o jogo de poderes tecnoburocráticos transformou em ordem universal totalitária a desestruturação das sociedades tradicionais pela economia de mercado. anne 1984. costumes. preservação de memórias e tradições. Acesso em: 04 mai. p. os espíritos estavam obcecados pela lembrança dos fornos crematórios. Robert. essa ordem midiatiza e atomiza o ser humano. 913. p. visando incorporar de forma violenta um grupo no projeto totalizador do agressor. 6 das Nações Unidas examinou a noção de genocídio e buscou-se elaborar uma carta de direitos humanos. e homicidum (abstrato). e poderiam. . Os problemas criados por esses fornos foram priorizados em relação àquele problema que. Ethnocide. o assassino. a Comissão n. Para Robert Jaulin. A comissão rejeitou a idéia de genocídio cultural sob o pretexto de que ela poderia atentar contra a noção de genocídio em sentido es- trito: o mundo acabava de sair da guerra. Disponível em: <http://www. In Tiers-Monde.

ou da destruição da autonomia política. O volume de pessoas. Etno designa um povo en- quanto cultura. 477 Ibidem. pois. um etno478? Para ele. Nenhum destes diversos domínios é a pedra angular do conjunto. pois. Por cultura aqui pode-se com- preender uma civilização. Somente a tota- lidade. mas não é a soma destes aspectos. etc. privi- legiar “momentaneamente” um ou outro desses domínios (econômico. esses domínios não estão separados uns dos outros. 128 correlativamente. a prevenção de novos genocídios não somente não aconteceu. A palavra deve ser entendida em seu sentido pleno. pois ela não é uma quanti- dade. No entanto. 914. p. Uma civilização se refere. etc). pois somente o seu “produto”. a um corpo cole- tivo considerado em sua totalidade. o autor questi- ona: o que seria. uma cultura encarnada em um povo. esta palavra teria origem grega e designaria um povo “específico”. e esse “volume”. p. p. 480 Ibidem. Para Jaulin. 914. Na ocasião. p. como aponta o autor. Para o autor. p. do grupo ao qual é associada uma cultura. assim como a destruição de uma civilização pode se dar a partir da destruição da organização do espaço. A história através da qual se instaura uma civilização pode. 479 Ibidem. era de fato et- nocida. Esse singular “messiânico e tecnicista” cor- respondia ao espírito de “armistício” sobre o qual as pessoas se lançavam a fim de esquecer os crimes nazistas e curar as feridas de Israel. um povo que detém uma propriedade. a sua totalidade faz sentido. religiosos. 915. Uma cultura não seria nem uma minoria nem uma maioria. Isso anunciava o início de processos de genocídio cultural. comparado a outros integram as informações relativas a essa cultura. a idéia de povo dizia respeito apenas ao pequeno núcleo político. Pretendia-se prevenir novos genocídios afastando os problemas relacionados ao genocídio cultural477. total479. à pessoa física. que é complexidade. ao agirem assim. Ela inclui os diversos aspectos (econômicos. como também que o destaque dado à única ofensa. a qual é sua cultura. 914. as pessoas se esqui- vavam do significado dessas feridas. etc481. ou ainda.. constitui a pedra angular480. mas não a definem. entre outros) desses corpos. 914. de espaços disponíveis. . religioso. dependendo do caso. 481 Ibidem. e a idéia de civilizações havia sido eclipsada ou estava de tal modo reduzida que não significava mais do que um singular hipotético a ser construído. políticos. uma qualidade. e sim uma qualidade. 478 Ibidem.

Essa ordem cotidiana da comunicação se opõe às diversas definições “totalitárias” da civilização. . O exemplo de tal universo é fornecido com a noção de desenvolvimento. O indivíduo somente existe dentro de um “qua- dro”. de consumo. a não-referência aos etnos ou povos dotados de cultura. Uma civilização seria uma dinâmica específica. A cultura seria o estado de na- tureza do ser humano. praças. 915. O “universo” do etnocida não é o dos povos dotados de cultura. a qual é diálogo. p. sendo a cultura um “todo”. reciproci- dade. pode ser suficiente agir sobre um de seus elos para modificá-la ou destruí-la em sua totalidade. os mitos da produção. de residência e de fruição – relações cujo conjunto e cuja complexidade constituem a relação de uma civilização no mundo485. Esse ser é um ser dentro do mundo. as quais estão submetidas à representação e à informação483. em um sentido muito amplo dessa pala- vra. o autor questiona: qual seria este universo etnocida? Nesse sentido. além disso. Esse “todo” seria uma estrutura e uma dinâmica. Esse estado remete a um universo plural. a acumulação de bens de consumo ou o desapa- recimento dos espaços sociais (ruas. 916. e não o desenvolvimento do desenvolvimento. ou as diferenças entre civilizações. Para Jaulin. é preciso frequentemente contar os procedimentos de modificações internas relacionadas aos seus modos de sobreviver e viver. Para o autor. dos “etnos”. 483 Ibidem. É eliminando primeiramente a liberdade de existência das civilizações. 916. p. 129 Na descrição de Jaulin. etc) representariam na verdade a quebra das rela- ções humanas – de produção. 485 Ibidem. a multiplicidade de civilizações. portanto. ordenada. essa partilha é “amorosa”. No entanto. para Jaulin. que qualificam a ordem e o universo etnocida484. e inicialmente. a civilização. Etnocida. O desenvol- vimento só pode significar o desenvolvimento de alguma coisa. ou seja. 484 Ibidem. p. não se referindo a nada. quando a comunidade humana sobre a qual ele é aplicado não é 482 Ibidem. partilha. que se refere a um ser cole- tivo. p. 915. de grandes possibilidades de “respostas” e/ou inven- ções. Suas manifesta- ções são essencialmente da ordem do cotidiano e da comunicação. é a palavra que designa a destruição dos etnos. o autor propõe cinco aspectos. de uma coletividade ordenada. Ele dispõe. que se priva qualquer homem de seu se- melhante. e de sua permanência482. 1) A não-referência a povos dotados de cultura pode ser expressa de diferentes manei- ras. Esquecê-lo implica negar esse quadro. ele é “ser o mundo”. portanto. O etnocida é. Para Jaulin.

etc. etc. Trata-se sempre de um paraíso. podendo consistir em práticas econômicas. e não o produto de uma relação positiva. p. 2) Um segundo procedimento próprio de um universo etnocida reside no direito que se atribuem determinados “sistemas” de reconhecer e/ou negar qualquer civilização. então. de um carro. pobre. etc. de afirmação cultural deles próprios. mesmo quando ela é a “caridade” de reconhecer. Geralmente estão associados a catecismos ou ideologias (teorias. De um modo geral. p. a cultura internacional do proletariado. o desenvolvimento é. O aspecto mais estranho desses sistemas seria o de que os grupos humanos a eles associados são essencialmente o produto da relação negativa que fun- damenta o direito de reconhecer e/ou negar qualquer outro. essa pessoa não apenas está desprovida de si mesma. a comunidade humana e a cultura que lhe são próprias são sempre transferências para depois. . colonizada. e não abrir as portas para ele. etc) de di- versos tipos e engendram poderes. explorada. são as re- compensas que os poderes que lhe representam visam assegurar488. a afirmação não seria senão suficiência. Aqui. caracterizado pela opulência material ou cultural: o progresso do capital. 917. o paraíso celeste etc. acha- tadores. evidentemente. quaisquer que sejam suas intenções. O par mestre-escravo é representativo de tal sistema. seria de ordem afirmativa e não negativa. sempre que alguém só se conhece em termos negativos como na condição de colonizado. mas também é definida independentemente de qualquer comunidade humana e de qualquer cultura. etc. rico. Possuem caracteres diferentes. mais particularmente das ideo- logias totalitárias que o expressam seria o caráter negativo da pessoa privilegiada. tal relação deve implicar a rejeição de um “universo-negação”. celeste ou terrestre. Na descrição de Jaulin. 488 Ibidem. étnica. p. Para o autor. Essa pessoa pode ser crucificada.. expri- mindo o mesmo conjunto487. mártir. tais sistemas são por definição totalitários. e ela só tem sentido em sua relação com o outro. ou ainda estão por serem feitas ou por produzir. Da mesma forma. 487 Ibidem. Entretanto. é porque as 486 Ibidem. O direito de reconhecer e o direito de negar são complementares. por definição etnocida486. 916. de um escravo. religiosas ou políticas. 916. 3) Uma terceira característica do universo etnocida e. A relação “civilizatória”. poder. 130 levada em consideração. desprovida – de uma geladeira. o seu objetivo é de se tornar colonizador. antes de tudo. Certamente. farsa. qualquer comunidade humana.

como quinta característica do universo etnocida. suas diversas fun- ções. A “fronteira” que os separa é. essa ruptura deve ser entendida no plural. uma relação de ordem contraditória. 491 Ibidem. 490 Ibidem. Cada um deles corresponde a um mundo complexo e baseado na complementaridade entre seus membros. “marcada” e da or- dem do contraditório. Jaulin ressalta que somente pode haver complementaridade entre os diversos indiví- duos e/ou domínios expressivos de um conjunto humano na compatibilidade. a separação dos diversos domínios constitutivos da existência. pois. pois estes não são totalitários. 917. Correlativamente. mesmo quando ”muralhas”. A não-complementaridade entre os indivíduos (atomização). asse- gurada. Para Jaulin. essa complementaridade. destruir489. E devem ser incluídas entre essas relações aquela mantida com o “cosmos”. em relação àquele que lhe antagoniza. Ele é re- gido em todos os níveis pela contradição491. portanto. os procedimentos de eli- 489 Ibidem. 492 Ibidem. por fuga e/ou conquista. e essa relação é isomorfa àquelas que ele mantém consigo mesmo492. todo universo totalitário não se contenta em afirmar. Para o autor. pois ela não acontece de uma vez por todas. 131 comunidades humanas mantinham relações mútuas positivas que elas foram hospitaleiras. a concorrência entre os diversos grupos. Um povo dotado de cultura mantém consigo mesmo relações cuja ordem é de compa- tibilidade. o conjunto da questão emana “naturalmente” e sem cessar de si mesmo. ainda que seja idên- tica. submeter. todo sistema totalitário mantém com o resto do universo uma relação fun- dada no contraditório e/ou na conquista. p. deve ser sempre assumida. ela se produz incessantemente. colonizar. p. não manipulado490. Os etnos não morrem de doenças ou contradições internas. p. evidentemente. uma civiliza- ção não é um simples objeto de consumo. 918. uma distância ou barreiras diversas estejam associa- das. Somente essa produção torna o homem um ser “livre”. . o resto do mundo. 5) Por fim. 918. p. Tal relação é característica do universo etnocida e não do universo dos etnos. Eles geralmente desaparecem de- vido a intervenções externas. Ao contrário. suas diversas partes. abriram suas portas e se deixaram invadir. dizer de um universo et- nocida que ele se baseia na contradição implica que ele seja marcado por rupturas e explosão e. 917. A vida não é um jogo fácil. Esse universo em “essência” contradiz aquele dos povos dotados de cultura. 4) Um quarto elemento do universo etnocida é que por definição este universo etnoci- da mantém uma relação negativa com os “etnos”. Na ausência de tal compatibilidade.

2011. O “imediatismo” dessas relações significa simples- mente que elas têm como finalidade.asp>. 918. Implica a morte do humano496. ou seja. as oposições “políticas” e/ou econômicas (direita-esquerda. Para Jaulin. as denúncias sistemáticas. a particular maneira de cada cultura de entender a relação entre o homem e o mundo. atenta contra o que é especifica- mente humano: a diversidade cultural. 496 ESPARZA. os pares de termos antagonistas (manual/intelectual.ar/articulos/2004/2004terc/educacion1/e106068- 4pl. p. etc). O etnocídio se inscreve nesta dinâmica homogeneiza- dora. 926. e essa é um universo plural. Tal natureza tem por nome cultura. pelos ritos. Não há cultura universal nem homem universal. 493 Ibidem. etc) estão entre as numerosas rupturas fundadas na con- tradição493. Provocando a morte da diversidade cultural. as visões negativas do passado em nome do futuro (selvagens-civilizados. leste-oeste. e a medida desse tamanho é consisten- te com a do corpo individual vivo. Nesse sentido. El etnocidio contra los pueblos: Mecánica y consecuencias del neo-colonialismo cultural. a “natureza” humana é esse ser no mundo cuja unidade perti- nente é um corpo coletivo. A cultura está configurada pelos costumes. proletário/burguês. Concluindo. p. Disponível em: <http://www. a única paz em direção a qual tais universos podem se voltar é seme- lhante àquela dos cemitérios. a concepção da sociedade. do conjunto constituído pelas relações “imediatas” que o corpo pode manter com os outros. a visão de mundo. como “ser”. a idéia do sagrado. 132 minação de determinadas partes por outras. Qualquer tentativa de homogeneizar as cul- turas pela violência. O mundo humano é essencialmente polifônico. 494 Ibidem. p. 2.com. 918. 495 Ibidem. no entanto. As culturas se constituem assim em meios pelos quais os homens criam seu entorno. . pode-se dizer que os homens se agrupam em comunidades de cultura. p.paginadigital. Acesso em: 28 abr. Há povos com culturas e homens. pois ela não é compatível com a vida494. corpo onde o cosmos se inscreve no indivíduo. Tal paz somente pode ser um engodo ou uma obrigação momentânea. etc). José Javier. é um fechamento “consentido”. de reduzi-las a um modelo universal. Esse corpo coletivo (e cósmico) tem tamanho limitado. a determinação de um universo comum. natureza/cultura. implica a lenta desaparição da especificida- de dos homens e dos povos. a existência desse corpo coletivo495. corpo onde o indi- víduo tem dimensão cósmica.

aos fatos come- tidos pelos “poderosos” para a defesa de sua situação de poder. 2008. O genocídio como crime internacional. Pode-se dizer que estas espécies de crimes. A parte geral do direito penal internacional. o terrorismo. que na sua descrição abrange comportamentos de acordo com o sistema e adequados à situação dentro de uma estrutura de organização. foco principal de análise. questionada pela criminologia. em sentido estri- to. e nem estes “poderosos” nem o “poder” (econômico) que defendem seriam. para que haja sua caracterização. dentre outras que são mencionadas no Estatuto de Roma não foram escolhidas para integrar o trabalho para não se estender nestas espécies de crime em demasia e não perder o foco principal. 499 AMBOS. a “criminalidade fortalecida pelo Estado”. se encontram dentro de um contexto que Kai Ambos499 denomina de macrocriminalidade. refere-se. via de regra. crimes de Estado. 500 Ibidem. Utiliza-se este termo. o genocídio. Para tanto. 1999. terrorismo de Estado ou criminalidade governamental. p. em geral. Segue-se esta denominação e distinção a partir dos estudos de Carlos Augusto Canêdo Gonçalves da Silva. criminalidade econômica. delitos como o desaparecimento forçado de pessoas. GENOCÍDIO. idênticos ao Estado ou ao poder estatal. faz-se necessária a inclusão do com- plemento “política”. Kai. p.2 ETNOCÍDIO. Belo Horizonte: Del Rey. abarcando o etnocídio. omissão ou até o fortalecimento estatal de comporta- mentos macrocriminais (que na ótica do autor é fundamental para a delimitação conceitual da macrocriminalidade). Estes macro- acontecimentos com relevância para a guerra e o direito internacional se diferenciam qualita- tivamente das conhecidas formas comuns e especiais (terrorismo. 497 Cabe referir que optamos por selecionar determinadas espécies de crimes contra a humanidade por motivos de melhor comparação com o etnocídio. 498 SILVA. a macrocriminalidade seria mais limitada que a “criminalidade dos pode- rosos”. Carlos Augusto Canêdo Gonçalves da. tolerância. ainda. 54. Para o autor. necessariamente. Para o autor. tráfico de entorpecentes. p. a macrocriminalidade política significaria. que é o estudo do etnocídio. já que esta última. CRIMES CONTRA A HUMANIDADE E APARTHEID: PRINCIPAIS DISTINÇÕES Neste tópico serão apresentadas algumas relações – e distinções – entre o etnocídio e cada espécie de crime contra a humanidade497. São Paulo: Revista dos Tribunais. “crime coletivo politicamente condicionado” ou. 54. 133 3. 159-166. etc) devido às condições políticas de exceção e ao papel ativo que desempenha o Estado500. A intervenção. a escravidão. aparelho de poder ou outro contexto de ação coletiva. que insere o genocídio e o apartheid enquanto espécies de crimes contra a humanidade498. o crime contra a humanidade (em sentido estrito) e o apartheid como espécies de crimes contra a humanidade em sentido lato. . Com efeito.

o cometimento de crimes internacionais não pode ser considerado como ato exclusivo de atores estatais. 59. p. p. de uma criminalidade orientada para den- tro. 504 Ibidem. a isso poder-se- ia replicar que não se trataria da liberdade do cidadão frente a qualquer fato penal. devendo. 55. Para o autor. a mais antiga e maior da América Latina. conduzir à respon- sabilidade jurídico-penal de atores não estatais. pois do contrário argumentar-se-ia em favor de uma situação pré- jurídica do direito do mais forte502. para se converter em um autor de crimes contra a humanidade. de não garantir a seus cidadãos a proteção fixada pelo direito constitucional e internacional correspondente. um poder político503. Contudo. 56. 134 trata-se de “criminalidade estatal interna”. 57. 503 Ibidem. jus- tamente. segundo uma compreensão moderna do direito penal internacional. tampouco uma absoluta proteção do cidadão exposto a essa criminalidade. Para Kai Ambos. Para o autor. pois nunca seria possível um completo controle da criminalidade não estatal e. Já em sentido amplo. pode-se dizer que crimes como o genocídio. De modo contrário. em relação a estes fatos. se configuraria como exemplo a organização guerri- lheira colombiana FARC. também. frente a fatos macrocriminais e. necessário acrescentar que as organizações não-estatais. de fato. a obrigação de proteção estatal deveria ser ilimitada. p. Para tanto. Portanto. se afirmaria que tal compreensão ampla da macrocriminalidade converteria quase todo Estado em “criminal”. devem exercitar. é de importância secundária se estas atividades podem ser atribuídas ao conceito tradicional de macrocrimina- lidade. Com efeito. senão. por isso. a existência fática de grupos não estatais que cometem crimes internacio- nais constituiria o argumento decisivo em favor de uma compreensão mais extensa do concei- to de macrocriminalidade. contra os próprios cidadãos501. 502 Ibidem. aos atores não estatais504. o conceito de macrocriminalidade política deve-se estender. nestes casos. ao menos por omissão. p. o conceito de macrocriminalidade política compreenderia os crimes internacionais realizados com atos não estatais. o crime contra a humanidade em sentido estrito e o apartheid (podendo-se inserir o etnocídio) geralmente estão envoltos em 501 Ibidem. Poder-se-ia argumentar que. o Estado territorialmente competente seria responsável. ou seja. caso cometesse crimes contra a humanidade e crimes de guerra. Nesse sentido. .

. Após todas as explanações nos capítulos anteriores. a fome em Biafra e o extermínio de indígenas nos Estados Unidos – este último de- senvolvido pela expansão capitalista. podendo ser perpetrados por grupos completamente distintos do poder do Estado e que não possuem poder político de fato. vide GALKIN. posteriormente. de Jerusalém por Tito. 1987. p. Passados os séculos. Exemplo de crime inter- nacional nesse sentido é o massacre dos Yanomami em 1993. Genocidio. 507 Para mais detalhes sobre os extermínios propagados na expansão capitalista norte-americana. mediante limpezas étnicas507 – são alguns dos vários exemplos de crimes de lesa humanidade perpetrados no âmago do processo civilizatório e modernizante. Feitas estas considerações sobre estes crimes internacionais e sua correlação geral com a macrocriminalidade política. o extermínio de judeus e ciganos na Alemanha nazista. Alexandr A. a guerra no Vietnã. 1986.C. os massacres completos nas guerras empreendidas por Gengis Khan. a morte de mi- lhares de ucranianos pelo regime stalinista. O genocídio armênio. O extermínio de povos. 135 um contexto de macrocriminalidade política. ex- 505 No entanto.. os genocídios em Ruanda. tem-se o genocídio. os massacres ainda subsistem. com os crimes contra a humanidade e. por exemplo. São Paulo: Modelo. Gustavo José Correia. as Cruzadas. São muitos os exemplos: a destruição de Cartago no ano 146 a. a guerra na Argélia. .2. identidade cultural e o caso yanomami. 2011. Para mais detalhes. com o apartheid. como o genocídio. Crimes contra a Humanidade. Pablo A.1 Genocídio e etnocídio Como primeira espécie de crime que geralmente está envolvido nesta macrocriminali- dade política. passaremos à abordagem da relação e comparação do etnocídio com o genocídio. Sabe-se que a antiguidade é marcada por conquistas e massacres de povos inteiros. com contornos distintos devido à progressão tecnológica e à continuidade dos conflitos. Os motivos sempre foram os mais va- riados: ódios nacionais. religiosos. fortalecida pelo Estado ou por um grupo que exerce o poder político de fato em um determinado território505. no ano de 72 d. a bomba de Hiroshima. Moscou: Progreso. O enfoque do presente estudo busca abordar o etnocídio e toda a sua conjuntura autô- noma enquanto forma de violência. portanto. vingança. cabe referir que determinados crimes internacionais. 34. 506 RAMELLA. Do genocídio e etnocídio: povo. desejo de dominação. Rio de Janeiro: Forense. políticos. não neces- sariamente são cometidos em um contexto de macrocriminalidade política.C. é um fenômeno antigo. dentre outros506. raciais. 3. prática de violência que perpassa toda a história da huma- nidade. vide a obra de VIEIRA. em que indígenas foram exterminados por grupos de garimpeiros na fronteira entre o Brasil e a Venezuela.

65. O fundador desta espécie de delito foi Rafael Lemkin. 54. cumpre nesta etapa do estudo proposto analisar e apresentar aspectos característicos do etno- cídio em comparação com cada espécie de crime internacional: no caso. p. Buenos Aires: Arayú. estirpe ou povo. da sua vida e realidade corporal. e posteriormente tratando no segundo capítulo sobre aspectos sociológicos relevantes para a compreensão do etnocídio. tratar-se-ia de um termo híbrido. São Paulo: 1955. país. . nação) e excidium (destruição. Crimes de Guerra e Crimes contra a Humanidade. Especificamente com relação ao genocídio. Francisco Laplaza advoga que o termo mais adequado seria o genticídio. se expressaria o sentido técnico da palavra. a palavra genocídio possui algumas divergências quanto ao seu sentido. Com isso. pois o objeto do delito seria a gens. Ade- mais. trata-se de uma forma de violência que não deixou de ser útil para as conquistas passadas e atuais. Para Nelson Hungria. bem como a ação. Já para Rafael Lemkin. Mas para continuar com esta abordagem em paralelo com o et- nocídio. família). empregando a linguagem latina. Luís Wanderley. 509 Ibidem. identificado por todos e cada um dos integrantes de determinado grupo. Francisco P. a partir do risco social. realizada em 1933 em Madrid. estão elencados o genocídio. quando se fala em gens humana. Na V Conferência Internacional para a Unificação do Direito Penal. ou também identificado como 508 LAPLAZA. a capaci- dade de dar a morte com o intuito de exterminar uma coletividade. ou seja. religiosas ou sociais como um delito de caráter universal. não obstante as importantes justificativas apresentadas por Laplaza. povo. o gênero humano509. jurista de origem polonesa. que derivaria de gens (raça. impor a cultura do vencedor. estirpe. Com relação ao presente estudo. escravizar e extermi- nar. esse autor já defendia a necessidade de se reprimir a destruição de coletividades raciais. que seriam o delito de barbárie. é necessário traçar um breve estudo do delito de genocídio na sua acepção jurídica. aplicável a todos os povos511. El Delito de Genocidio o Genticidio. ruína)508. os crimes contra a humanidade e o apartheid. nação ou tribo) e do sufixo latino cidio (matar)510. indicando grupo ou uma pluralidade de pessoas ligadas por pertencer a uma mesma raça. p. 510 TORRES. a palavra adviria de genus (raça. Muito antes do advento do Holocausto. ou seja. 136 pondo como a identidade cultural se constitui como elemento da corporalidade humana. 53. O crime de genocídio foi fator preponderante para ultrapassar fronteiras. povo. 511 Ibidem. tratar-se-ia de avocar os interesses fundamentais da humanidade que estão na repressão a este delito. 64. p. p. Lemkin apresentou um projeto de convenção para re- primir determinadas ações. que derivaria de genos (raça. Etimologicamente. 1954. assim como o etnocídio. adotar-se- á este último.

. cit. 514 LAPLAZA. União Sovié- tica. No processo inicial de normatização do genocídio. com o Holodomor (genocí- dio em massa de ucranianos sob a autoridade de Stálin). p. 50-52. o julgamento dos crimes cometidos pelos oficiais do III Reich ocorreu. Por outro lado. No ano de 1944. 137 atentado contra a vida. p. em execução ou em co- nexão com qualquer crime.. Estes eram acusados por crimes de guerra. liberdade e dignidade de uma pessoa pertencente a uma determinada coletividade. raciais. 54. em plena Segunda Guerra Mundial e pelos atos cometidos durante o nazismo. que seria a destruição de uma nação ou grupo étnico. p. pelo regime soviético. sendo este o primeiro esquema para a formulação do delito de genocídio514. Francisco P. crimes contra a paz e crimes contra a humanidade. Ademais. em que pese as grandes controvérsias sobre a constituição do Tribunal de Nuremberg (como o fato de ser um Tribunal de Exceção) no sentido de que se caracterizava mais como uma medida de vingança pelas potências vencedoras da guerra. Lemkin estuda sobre a ocupação da Europa pelos Países do Eixo. 55. deportação. Luís Wanderley. o acordo de Londres. mas simplesmente por pertencerem a um grupo513. foram executados ou condenados à prisão perpétua. ou até mesmo com os projetos colo- 512 Ibidem. cit. E com a denominação de delito de vandalismo identificou a destruição de obras culturais e artísticas em situações semelhantes512. exterminação. e outros atos inumanos cometidos contra qualquer agrupamento civil antes ou durante a guerra. De fato. 15. aborda sua concepção de genocídio. Yves. mas deve-se lembrar que as mesmas potências que presidiram o julgamento foram responsáveis por delitos graves praticados na colonização na América do Norte. ou perseguições por motivos políticos. Após. na sua maioria. e os acusados.. ressaltava que o campo do genocídio não seria levado a cabo contra indivíduos em razão de suas qualidades pessoais. op. 515 Carta de Londres citado por TORRES. O artigo 6º da Carta de Londres definia os delitos con- tra a humanidade como assassinatos. redução à escravatura. pode-se elencar dois antecedentes que marcaram os primeiros debates desta espécie de crime no âmbito jurídico: por primeiro. ou religiosos. integridade física. mediante um plano de ações com o fim de praticar tal desintegração. . Inglaterra e França. cit. 513 TERNON. op. não se trata de absolver os atos perpe- trados pelos oficiais nazistas. op. etc515. com a limpeza étnica de indígenas. estabelecido em 8 de agosto de 1945 pelos Estados Unidos. para julgar os oficiais nazistas. p.

cit. em que participaram os juristas Rafael Lemkin.br/revistaeletronica/artigos/O%20CRIME%20INTERNACIONAL%20DE%20GENOC %CDDIO%20Paula%20Campos. Os objetivos poderiam ser planejados visando a desintegração das instituições políticas e sociais. 517 LAPLAZA.com. de valores nacionais. Falava-se em grupos humanos. Pablo A. em 1946. 2. Disponível em: <http://www. 38. Nesta resolução ado- tou-se uma definição mais ampla do crime de genocídio. 21. La Convencion sobre Genocidio.Grandes Genocídios. li- 516 Nesse sentido. n. 2011. com o objetivo de ani- quilar os grupos enquanto tais. por motivos de nacionalidade. abarcando ainda a possibilidade de extermínio de grupos políticos e a concepção de ge- nocídio cultural. Para Lemkin. da religião. Este último conceito era caracterizado por atos que tivessem como objetivo destruir a língua. op.. Índia e Panamá518. p. op. o genocídio significaria um plano coordenado de diferentes ações visan- do a destruição das fundações essenciais da vida dos grupos nacionais. cit. 35. 1960. ao espírito dos estudos de Rafael Lemkin. A Polônia adotou. que era previsto no artigo I520. Em novembro de 1946. 112. Editora Escala. Esta última resolução era o projeto para a convenção sobre o genocídio. a qual trata especifica- mente dos grandes genocídios ocorridos. cit. adotando os princípios do direito de Nuremberg. Acesso em: 30 jan. nacionais. e após a reso- lução 96 (I). da língua. p. Francisco P. uma legislação penal que previa em seu texto os atentados à honra ou à inviolabilidade corporal de um grupo de pessoas ou de um indivíduo. Donnedieu de Vabres e Vespasiano Pella519. da cultura. elaborada pelo Conselho Econômico e Social. p. Nehemiah. Buenos Aires: Bibliográfica. ano I. no mesmo dia. 521 CAMPOS. Mas o projeto efetivo de normatização do delito de genocídio no âmbito internacional começa a ser debatido após a constituição da ONU (Organização das Nações Unidas). op. a questão do genocídio foi submetida à Assembléia Geral mediante um projeto de resolução apresentado por Cuba. Revista Leituras da História especial . Em seguida.cedin. Outro antecedente jurídico que marcou a inserção da concepção do genocídio no âm- bito jurídico foi uma legislação nacional.. O crime internacional de genocídio: uma análise da efetividade da Con- venção de 1948 no Direito Internacional. tais como raciais. religião ou raça517. proibir o uso da língua entre seus membros ou destruir locais característicos de uma cultura521. 2008. religião ou cultura dos grupos protegidos. vide as informações trazidas pela revista Leituras da História especial.. e da existência econômica de grupos nacionais. 519 TERNON. 520 ROBINSON. 138 nizadores de massacre e escravização de africanos pelas potências européias na invasão da África516. idiomáticos ou religio- sos. Yves. foi confirmada a resolução 95 (I). Paula Drumond Rangel. .pdf>. 518 RAMELLA. bem como a destruição da segurança pessoal. concluída em 11 de dezembro de 1946. 55 e 56. p. p.

p. verifica-se que o genocídio cultural (ou etnocí- dio) já era contemplado de certa forma como uma espécie de criminalidade voltada ao exter- mínio de uma cultura. com o emprego da raiz etimológica defendida por Lemkin528. contudo. principalmente devido à pressão soviética. cit. op. p. excluindo o genocídio cultural. em 9 de dezembro de 1948.1 deste capítulo. o que parecia demonstrar que os Estados haviam tomado consciência dos riscos que corriam ao outorgar à ONU o direito de responsabilizá-los por ações passadas. 526 CAMPOS. a destruição de uma cultura. a intervenção dos representantes dos Estados- Membros havia modificado o espírito da resolução 96 (I). 523 Vide item 3. religião ou língua. Desta forma. Rethinking cultural genocide under international law.carnegiecouncil. Yves. saúde e dignidade522. tanto os grupos políticos quanto o genocídio cultural restaram excluídos do projeto. cit. devido ao fato de que não podiam se eximir da obrigação de proteger os direitos humanos. cabe salientar que na época de formula- ção do conceito de genocídio. Reino Unido. Acesso em: 04 mai. Disponível em: <http://www. 139 berdade. No entanto. cit. 45. op. 524 TERNON. 527 TERNON. que veio a ser utili- zado somente no final da década de 60.org>. Nehemiah. não existindo ainda o termo etnocídio. ambos os termos – grupos políticos e o genocídio cultural – não foram re- cepcionados após a apreciação do projeto pela Comissão que integrava os Estados. pelo fato de que seria um conceito muito indefinido525. . 61. p.. op. op. França. Paula Drumond Rangel. 1. a Convenção para a prevenção e repressão ao crime de genocídio. 525 ROBINSON. pg. Nesse sentido. Contudo. como observa Yves Ternon. Como se percebe. 2011. além do Brasil526. 528 Ibidem. as limitações impostas pelos países durante a elaboração da convenção e sua inserção no ordenamento jurídico significa- ram um retrocesso às propostas previstas na resolução 96 (I).. 40. presentes ou futuras. se esforçaram em limitar o alcance do compromisso celebrado527.. David. o que oferecia a estes Estados a possibilidade de exterminar grupos humanos apenas definindo-os de forma diferen- te524. medi- ante a resolução 260 A (III). De fato. língua ou religião era denominada sob a forma de genocídio cultural. p. A proposta foi retirada por sugestão dos Estados Unidos. Quanto ao genocídio cultural. a ONU aprova. com os estudos de Robert Jaulin523. p. 39. Yves. 522 NERSESSIAN. 21.. este conceito também foi excluído. Os grupos políticos foram retirados. dentre outras justifi- cativas. Após todos os entraves e alterações de ordem política no texto. cit.

c) Submissão intencional do grupo a condições de existência que lhe ocasi- onem a destruição física total ou parcial. por ocasião da III Sessão da Assembléia Geral das Nações Unidas. no todo ou em parte. cometidos com a intenção de destruir. Francisco P. de 6 de maio de 1952. 1966. 256. racial ou religioso. portanto. para a sua compreensão faz-se neces- sária uma breve exposição do artigo 2º da Convenção para a Prevenção e Repressão ao Crime de Genocídio530. o genocídio visa destruir um vínculo de sangue ou de espírito mediante a destruição das pessoas que estão vinculadas532. .822. Disponível em: <http://www2. os fatos que ensejaram a normatização do delito de genocídio. O ato não é cometido com a inten- ção de eliminar um indivíduo em especial. Decreto nº 30.br/dai/genocidio. d) Medidas destinadas a impedir nascimentos no seio do grupo. concluída em Paris. Promulga a convenção para a prevenção e a repressão do crime de Genocídio. 532 LAPLAZA.. verifica-se que o delito se define pela intenção especial de destruir um grupo humano como tal. 531 LARIOS. p. sendo que principalmente a definição instituída pela Convenção serviu de base pelas legisla- ções nacionais. Pela leitura do dispositivo. 76. pela resolução 2. retomando ainda a concepção de crime de genocí- dio tal como definido pela Convenção de 1948529. muitos países estavam diante do problema da prescrição prevista nas suas legislações nacionais. sem que importe a identidade pessoal determinada. op. tal como: a) Assassinato de membros do grupo. social e étnico531. a 11 de dezembro de 1948. crimen contra la humanidad. abarca. 53-54. 530 BRASIL. Mexico: Ediciones Botas. p. e) Transferência forçada de menores do grupo para outro. a Assem- bléia Geral da ONU adotou a Convenção sobre a imprescritibilidade dos crimes de guerra e contra a humanidade. a existência de grupos humanos. 529 Ibidem. b) Dano à integridade física ou mental de membros do grupo. no todo ou em parte.htm>. Acesso em: 31 out. É. São estes.mre. p. E em 26 de novembro de 1968. 140 Em 1965. no artigo I. 2010. portanto. Eligio Sanchez. alínea b. Matar pessoas negras por serem negras. étnico. Diz o texto: Artigo 2º Na presente convenção.gov. caracterizados pela identidade de pensamento religioso. entende-se por genocídio qualquer dos seguintes atos. cit. No que concerne às características do genocídio. mas em razão de pertencer a um determinado gru- po humano. El genocidio. um grupo nacional.391 (XXIII). por exemplo.

como no caso de negação de alimentos e de prestação sanitária538. p. como realidade jurídica. Byron Seabra. seria possível concluir que houve a intenção genocida mediante um conjunto de atos praticados pelo acusado. 2003. p. é praticado mediante ações comissivas.htm>. uma das causas do genocídio da segunda grande guerra: a raça pura ariana). 33-34. unidades étnicas e idioma comum) como à histórica (tradição. 10. Re- ferência genética da homogeneidade grupal. e mesmo não importa a vinculação bio- somática. Kai. portanto.unam. Os gens. consciência nacional).) 533 GUIMARÃES. respectivamente. na intenção legislativa. Direito Penal. religião e lei) e mesmo à psicológica (aspiração comum. p. op.. Entretanto. raciais ou religiosos. Levando-se em conta os aspectos hereditários-somáticos do grupo. Étnico é a referência ao povo. visando exter- minar um grupo humano. In Repositório oficial da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal. cit. ao contrário da intenção de Estado. formadas de vários grupos tipo- lógicos humanos. p. 141 portanto. Hans. La Parte General del Derecho Penal Internacional. dento de um contexto geral de realização de atos dirigidos contra um grupo. Boletín Mexicano de Derecho Comparado. Eis os elementos objetivo e subjetivo537. Chegam mesmo os especialistas a dizerem que não existe uma raça. El crimen de genocidio en derecho internacional. No sentido de raça pura (aliás. como reali- dade sociológica. Nesse sentido. Por isso que o termo nacional tanto se dirige à formação natural (territórios. 534 Interessante ressaltar que o Tribunal Penal Internacional de Ruanda já se manifestou que diante da falta da confissão por parte do acusado. Genocídio. dois elementos básicos: a) a vítima deve pertencer a um grupo humano e b) a intenção do autor é direcionada no sentido de destruir um grupo humano enquanto tal. n. determinam a raça. 33. costume. mas todos com intenção de criar uma nacionalidade. Em geral. Montevideo: Fundación Konrad- Adenauer. poderia se deduzir a configuração do genocídio e a intenção de praticá-lo pela circunstância dos fatos. cit. p. ao mesmo tempo excluindo outros grupos. 18. é a pessoa pertencente a uma nação. Nesse sentido. 117-123.mx/publica/rev/boletin/cont/105/art/art6. Ou seja. já se parte para um conceito eminentemente biológico de raça. hoje. Disponível em: <http://www. 539 GUIMARÃES. 538 CAMPOS. Byron Seabra Guimarães539 refere que Nacional. São. 535 Ibidem. op. Byron Seabra. (. 10. São os casos das novas nações africanas. vide WELZEL. p. desde que presente a intenção de extermínio.. ou o fato de se escolher de maneira deliberada as vítimas. p. 537 AMBOS. por pertencer a um grupo em particular. Os grupos recepcionados na convenção são nacionais. Mas pode ser cometido por uma omissão. Campinas: Romana. 2010. Alonso Gomez Roble- do..juridicas.. mediante o exercício de uma atividade finalista específi- ca536. O conceito de raça é por demais discutido. ano V. 536 Em síntese. . o caráter da impessoalidade do sujeito passivo533 que guia o agente. Paula Drumond Rangel. étnicos. em uma região ou um país. vide VERDUZCO. não importa seja natural ou não do lugar.19. na conceituação bio-tipológica do grupo. Acesso em: 03 ago. diga-se. 79. julho a setembro de 1976. 2005. a teoria finalista da ação preconiza que a ação delituosa é praticada visando uma determinada finalidade pelo agente. Esta intenção534 é caracterizada pelo dolo especial – dolus especia- lis535 – que irá configurar o delito.

142

Contra o grupo religioso, ainda se pratica o genocídio. Não importando
mesmo se ateísta, monoteísta ou poli. Como indiferente, na religiosidade, os tipos
raciais e nacionais dos religiosos.

No que concerne aos grupos raciais e étnicos, teóricos defendem que os primeiros (ra-
ciais) são definidos por um conjunto de caracteres biológicos; ao passo que os segundos (étni-
cos) são configurados em torno de fatores culturais540.

Merece ser ressaltado ainda que, ao nosso entender, a proteção de grupos não deveria
estar restringida aos tipificados no texto da convenção. Grupos políticos e grupos sociais por
vezes podem ser alvo de um plano genocida. Ou seja, poderia ocorrer mediante a implemen-
tação de um assassinato coletivo de pessoas ligadas por uma opinião e concepção política541,
ou até mesmo identificadas por sua condição social. Veja-se, por exemplo, no tocante aos
grupos sociais, tanto os massacres do Carandiru – execução em massa de detentos – como da
Candelária – em que as vítimas eram menores de rua, fatos que poderiam ser enquadrados
perfeitamente no delito de genocídio542.

Ainda de acordo com o art. 2º, a intenção não precisa ser necessariamente a destruição
total de um grupo; também se configura como genocídio o ato praticado com a intenção de
destruir parcialmente determinado grupo humano. Basta que a ação seja desenvolvida visando
a destruição de um subgrupo dentro de uma raça, etnia, nacionalidade ou religião. Pode ser
praticado, portanto, contra um subgrupo, dentro de um país, região ou uma comunidade de-
terminada543. Existe também a possibilidade de se configurar o genocídio quando o agente
mata apenas um membro de determinado grupo, mas com a intenção de seguir repetindo os
atos sobre o grupo ou subgrupo escolhido (matar o resto do grupo, um por um)544.

No que tange ao sujeito ativo (o agente que pratica a ação), poderá ser um governante,
funcionário ou particular, a teor do art. 4º da Convenção. Existem também estudos críticos
acerca da falta de responsabilização das pessoas jurídicas, no sentido de que estas poderiam
contribuir de maneira significativa para a ocorrência de genocídios. Neste aspecto, no genocí-

540
PIPAON Y MENGS. Javier Saenz. Delincuencia Politica Internacional. Madrid: Instituto de Criminologia de
la Universidad Complutense de Madrid, 1973, p. 113.
541
Uma definição de genocídio, abarcando os grupos políticos, pode ser encontrada em GREEN, Penny; WARD,
Tony. State crime – governments, violence and corruption. London: Pluto Press, 2004, p. 166.
542
Nesse sentido: CINTRA JÚNIOR, Dyrceu Aguiar Dias. Judiciário, violência, genocídio. In Revista Trimes-
tral da FASE, Ano 22, n. 60, março de 1994, p. 49.
543
GIL, Alicia Gil. Los crímenes contra la humanidad y el genocidio en el Estatuto de la Corte penal internacio-
nal a la luz de los elementos de los crímenes. In O Direito Penal no estatuto de Roma: leituras sobre os funda-
mentos e a aplicabilidade do tribunal penal internacional. AMBOS, Kai e CARVALHO, Salo de (Org.). Rio de
Janeiro: Lúmen Júris, 2005, p. 252-253.
544
Ibidem, p. 254-255.

143

dio perpetrado na Alemanha do III Reich teve grande contribuição a empresa IBM, a qual
celebrou contrato diretamente com o Estado alemão em New York, para fabricar os cartões de
identificação de prisioneiros, o que teria facilitado e sistematizado o extermínio; outro exem-
plo de contribuição de pessoas jurídicas é a Radio-Television Libre des Mille Collines, a qual
teve papel significativo na incitação do genocídio em Ruanda545.

Os atos que configuram o genocídio estão elencados nas alíneas do art. 2º da Conven-
ção. As alíneas a a c tratam do genocídio físico (matanças de membros de um grupo, lesão
grave à integridade física ou mental e submissão do grupo a condições que possam levar sua
destruição física), enquanto as alíneas d e e versam sobre o genocídio biológico (impedimento
de nascimentos e transportação de crianças de um grupo para outro)546. Interessante mencio-
nar que o TPIR – Tribunal Penal Internacional para Ruanda – reconheceu que a violência se-
xual contra a mulher por meio de estupros sistemáticos pode configurar ato de genocídio, vis-
to que não seria necessário destruir o grupo; bastaria que o debilitasse de tal forma que o dei-
xasse incapaz de perpetuação ou à margem da sociedade, o que freqüentemente ocorria com
as mulheres estupradas na região547. Outro fator que merece destaque seria a possibilidade de
prática do genocídio de populações indígenas mediante a poluição ambiental, típica da época
contemporânea, o que pode impedir a sobrevivência de grupos humanos inteiros548.

Outras características do genocídio são549: a) trata-se de um crime, pois atenta contra
bens jurídicos fundamentais cuja violação é reprimida pela lei penal550; b) é um delito iuris
gentium, pois é reprimido pelo Direito Internacional, violando bens jurídicos da comunidade
humana universal, como a dignidade do homem (art. 1º da convenção); c) um crime propria-
mente internacional, porquanto pode ser julgado por um Tribunal Penal Internacional551; d) é
um delito comum, visto que não é considerado crime político para efeitos de extradição; e) é
um crime de intenção ou utilitário, de modo que há uma vontade específica por parte do agen-
545
CAMPOS, Paula Drumond Rangel, op. cit., p. 19-20.
546
VIEIRA, Manuel A. Derecho penal internacional y derecho internacional penal. Montevideo: Fundacion de
cultura universitaria, 1970, p. 309.
547
CAMPOS, Paula Drumond Rangel, op. cit., p. 35.
548
CUSTÓDIO, Helita Barreira. Poluição ambiental e genocídio de grupos indígenas. In Revista de Direito Ci-
vil, imobiliário, agrário e empresarial. Ano 16, n. 59, Jan-Mar. de 1992.
549
PIPAON Y MENGS, Javier Saenz, op. cit., p. 114-125.
550
Em entendimento diverso, esta característica é fundamentada na acepção de que os crimes seriam infrações de
direitos naturais, como a vida, a liberdade; os delitos violam direitos criados pelo contrato social, como a propri-
edade; e as contravenções infringem regras e disposições de polícia. Ibidem, p. 116.
551
Atualmente no Brasil está em vigor o Decreto nº 4.388/2002, o qual promulgou o Estatuto de Roma do Tri-
bunal Penal Internacional, constituído em 1998 para julgar os crimes de genocídio, crimes contra a humanidade,
crimes de guerra e crimes de agressão. O Brasil aderiu à jurisdição do ERTPI pela emenda constitucional 45/04,
a qual inseriu o § 4º ao art. 5º da Constituição Federal do Brasil. BRASIL. Decreto nº 4.388, de 25 de setembro
de 2002. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/2002/D4388.htm>. Acesso em: 31 out.
2010.

144

te – dolo especial, como abordado; f) pode ser um delito permanente, porque mediante a ma-
nifestação do agente, há a possibilidade de ser praticado ao decorrer do tempo, como no caso
das alíneas c e e do art. 2º da convenção e g) é um delito pluriofensivo, pois supõe um ataque
a uma pluralidade de bens jurídicos, notadamente direitos fundamentais da pessoa humana552.

São estas, portanto, as características do crime de genocídio.

Relacionando o genocídio com o etnocídio, pode-se dizer que o genocídio visa exter-
minar um grupo enquanto tal, visando exatamente aniquilar a existência física do grupo. Me-
didas de destruição física são utilizadas pelo agente com o fim precípuo de eliminar comple-
tamente o grupo de sua existência neste mundo. Com efeito, pode-se afirmar que o genocídio
atenta contra a existência do grupo.

Já o etnocídio admite a existência do grupo humano, com a condição de que este passe
a integrar o projeto ideológico do agressor, eliminando toda uma cultura anteriormente desen-
volvida. Caso a vítima se negue a seguir as idéias propagadas, pode sofrer as piores conse-
qüências em seu corpo. O seu corpo passa a ser objeto de inscrição de uma violência que deve
forçar a vítima a aderir à ideologia do agressor, a seu projeto totalizante. Medidas violentas
(até mesmo a morte) são utilizadas não necessariamente para banir o ser humano do mundo,
mas para fazer com que a vítima, pela violência, passe a crer ou aderir a uma campanha de
expansão da visão de mundo do agente. O etnocídio admite que o ser humano possa continuar
existindo, desde que se converta, mediante a força, às idéias que são propagadas pelo agressor
(seja colonizador, etc) e renuncie a seu sistema de visão de mundo (como ocorreu na conquis-
ta da América). Por isso, o etnocídio atenta contra a identidade cultural de um grupo humano,
e não contra a existência física do grupo, como no genocídio. O genocídio é uma conquista
meramente física, de eliminação do grupo do mundo; o etnocídio se constitui como uma con-
quista espiritual, no plano das idéias, mas com efeitos igualmente violentos.

552
Os bens jurídicos se apresentam de uma variada índole, desde os bens jurídicos diretamente pessoais da vida
humana e da integridade pessoal, física ou psicológica, até os bens jurídicos relacionados com a autodetermina-
ção sexual, passando pela proteção dos bens jurídicos da liberdade e da identidade cultural. Vide GOUVEIA,
Jorge Bacelar. Direito internacional penal – uma perspectiva dogmático-crítica. Coimbra: Almedina, 2008, p.
272.

145

3.2.2 Etnocídio e crimes contra a humanidade

Para expor no que consiste os crimes contra a humanidade, é necessário esclarecer o
que são os crimes internacionais. Em resumo, os crimes internacionais são as infrações às
normas internacionais vinculadas à responsabilidade penal individual, em contraposição à
responsabilidade do Estado, quando seus agentes atuam em seu nome553.

De acordo com Roberto Lima Santos554, os crimes internacionais comportariam as se-
guintes características: a) se constituem como violações às regras do costume internacional ou
tratados internacionais; b) são regras que objetivam proteger valores considerados importantes
por toda a comunidade internacional e que obrigam os Estados e indivíduos; c) subsiste um
interesse universal em reprimir tais crimes, e em certas condições os acusados podem ser pro-
cessados e punidos por qualquer Estado, sem que exista vínculo territorial ou nacional entre o
acusado ou a vítima e aquele determinado Estado (jurisdição universal). Sob estas caracterís-
ticas e com base nesta definição de crimes internacionais, pode-se incluir os crimes de guerra,
crimes contra a humanidade, genocídio, tortura, agressão e algumas formas extremas de terro-
rismo555.
No que tange particularmente aos crimes contra a humanidade, sua origem se remonta
à 1ª Guerra Mundial, em especial após o massacre dos armênios na Turquia. O denominado
Tratado de Sèvres, firmado entre a Turquia e as potências aliadas que venceram a 1ª Guerra,
veio a constituir a origem da responsabilidade internacional por crimes praticados por agentes
de um Estado contra minorias internas556.
No entanto, foi na 2ª Guerra Mundial e com o advento da política de extermínio de ju-
deus e outras comunidades na Alemanha nazista que se constituíram os primeiros processos
contra os agentes responsáveis por crimes contra a humanidade557. As perseguições efetuadas
na Alemanha contra seus próprios cidadãos não poderiam se enquadrar nos crimes de guerra,
visto que não havia precedente na história das guerras a expulsão, deportação e o extermínio
levados a cabo por um país contra os próprios nacionais. Assim, o conceito de crimes contra a

553
SANTOS, Roberto Lima. Crimes da ditadura militar – responsabilidade internacional do Estado brasileiro
por violação aos direitos humanos. Porto Alegre: Nuria Fabris, 2010, p. 101.
554
Ibidem, p. 102.
555
Ibidem, p. 102.
556
Ibidem, p. 103.
557
Ibidem, p. 103.

do Estatu- to do Tribunal de Nuremberg. em 1946. porquanto este nexo com uma guerra im- portava estritamente para os julgamentos levados a cabo pelo Tribunal de Nuremberg. Esse conceito de crimes contra a humanidade. os crimes contra a humanidade podem ser cometidos independentemente do tempo de guerra ou de paz. 562 Ibidem. 103. 103. Ressalte-se que este entendimento de atribuição de um caráter autônomo ao crime contra a humanidade veio a se consolidar principalmente após o caso “Prosecutor vs. 561 Ibidem. em 1950. Para tanto. 104. Assim. Com efeito. Tadic”. p. extermínio. aprovou um rol de sete princípios. criado pelo Acordo de Londres. raciais ou religiosos. por meio da Resolução 95 (I). dentre outros atos559. especi- almente para demarcar a temporalidade das condutas que seriam objeto de julgamento pelo Tribunal Militar. deportação e ou- tros atos inumanos praticados contra qualquer população civil. p. fo- ram qualificados como crimes contra a humanidade os atos cometidos contra a população civil. No entanto. . na atual formulação dos crimes contra a humanidade nenhum vínculo é requerido. p. entendido como assassinato. 558 Ibidem. o homicídio. a Comissão de Direito Internacional. p. sendo que no sexto princípio tratava-se do crime contra a humanidade. os fatos ocorridos após 1939561. após 1946 consolidou-se o sentido da não exigência de qual- quer nexo entre os crimes contra a humanidade e os crimes contra a paz ou crimes de guer- ra562. Em 1947. Enquanto em 1945 era exigido um nexo com conflito bélico. Neste momento. julgado pelo Tribunal da ONU para os crimes cometidos na Ex-Iugoslávia. a Assembléia Geral da ONU determinou que os preceitos de direito internacional utilizados pelo Tribunal de Nuremberg fossem consolidados em documento escrito. bem como a perseguição por motivos políticos. escravidão. 560 Ibidem. 105. A primeira construção do crime contra a humanidade ocorre no artigo 6 (c). 146 humanidade foi constituído para evitar que a perseguição a cidadãos nacionais não ficasse sem resposta558. p. quando tais atos ou perseguições fossem praticados em conexão com qualquer crime contra a paz ou crime de guerra560. de 1945. o extermínio e a deportação. quais sejam. 559 Ibidem. com o passar dos anos este vínculo do crime contra a humanidade com os crimes de guerra ou contra a paz foi se rompendo. formulado pelo Estatuto do Tribunal de Nuremberg foi confirmado na primeira sessão da Assembléia Geral da Organização das Na- ções Unidas. 104. no entendimento mais atual. a perseguição por motivos políticos.

p. nos Estatutos e nas decisões dos tribunais penais internacionais (como por exemplo. étnico. uma grave humilhação ou degrada- ção de seres humanos. Para que crimes como assassinato. . 110. 110. devem possuir os seguintes elementos: a) a prática de atos desumanos em sua natureza e caráter. 564 Ibidem. p. o conceito de crimes contra a humanidade teve uma evolução que se refletiu. 565 Ibidem. como pelas razões da gravidade e magnitude da conduta violadora. 566 Ibidem. lesão física. 147 De fato. englobam uma série de ações que possuem em comum as seguintes características: a) são ofensas particularmente repulsivas. no sentido de que constituem um sério ataque à dignidade humana. se tornem crimes contra a humanidade. nacional ou religioso. c) são atos proibidos e podem ser conseqüentemente punidos. a jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos entende que os crimes contra a humanidade. ou seja. no Estatuto do Tribunal Penal Internacional). E distintamente dos crimes de guerra. 110. os crimes contra a huma- nidade. p. eles não se limitam a casos em que existe a inten- ção de destruir um grupo racial. independentemente se tenham sido perpetrados em tempos de guerra ou de paz. sob a perspectiva do Direito Internacional. d) as vítimas do crime devem ser civis. e diferentemente do genocídio. escravidão. ou no caso de crimes cometidos du- rante um conflito armado. Por fim. pessoas que não tenham tomado parte nas hostilidades563. que pode se configurar tanto pelo resultado da conduta que afeta os interesses da segurança coletiva da comunidade internacional. os crimes contra a humanidade não necessitam de um elemento transnacional. entre outros. na sua natureza coletiva e massiva e a referência às populações civis é o que caracteriza sua massificação566. para sua caracterização. b) tais atos devem ser praticados 563 Ibidem. 111. podem ser cometidos dentro dos limites territoriais de um Estado. portanto. dentre outros. deve haver também um componente internacional. Deste modo. mas parte de uma polí- tica de governo ou de uma prática sistemática e freqüente de atrocidades que são toleradas ou incentivadas por um governante ou pela autoridade de fato. Os crimes contra a humanidade se diferenciam. que coloque em risco a paz e a segurança da humanidade564. b) não seriam eventos isolados ou esporádicos. p. A sua dimensão internacional é determinada pela falta de habilidade dos mecanismos estatais de controle para tratar da crimi- nalidade provocada pelo próprio Estado ou por seus líderes. uma vez que somente mecanis- mos internacionais poderiam administrar esse problema565.

o etnocídio e o apartheid também possam estar inseridos neste contexto. preenchem este elemento quer atos de governo. quer atos de uma organiza- ção ou grupo que tenha alcançado o poder governamental ou domine de fato uma parte do território569. de certa forma). Disponível em: <http://www. religiosos. Considerações acerca da Tipificação dos Crimes Internacionais Previstos no Estatuto de Roma. Sobre o bem jurídico-penal protegido nos crimes contra a humanidade. op. Susana Aires de. Neste 567 Cabe referir que o Tribunal Penal Internacional para Ruanda. 2011. o crime contra a humanidade implica na colocação em prática de uma política estatal (ou por uma organização que exerça o poder político de fato) de perseguição sistemática à população civil. . ainda que expressamente não formalizada. No que tange ao bem tutelado. no caso Prosecutor vs. Crimes do Estado e Justiça de Transição. 570 FILHO. 568 SANTOS. 2. 2011. 148 como parte de um ataque generalizado ou sistemático567. p. caracteriza- do a partir de critérios étnicos. levada a cabo coletivamente com considerável gravidade e dirigida contra uma multiplicidade de vítimas. Trata-se de um bem jurídico coletivo porque pertence à comu- nidade internacional. Nesse sentido. c) esse ataque é atribuído a uma po- lítica de Estado. Vide TRINDADE. entende-se que se trata da dignidade humana. Porto Alegre. 2.dhnet. In Sistema penal e violência – revista eletrônica da Faculdade de Direito.php/sistemapenaleviolencia/article/viewArticle/8276>. p. pode-se referir que os crimes contra a humanidade possuem uma espe- cial característica: o fato de se aproximar mais da concepção de macrocriminalidade política (embora o genocídio. e d) o ataque deve se voltar contra a população civil568. O conceito de siste- mático pode ser definido como meticulosamente organizado e seguindo um padrão regular baseado em uma política comum envolvendo recursos substanciais públicos ou privados. freqüente e em larga escala. Disponível em: <http://www. onde todos nos englobamos e de onde ninguém pode ser excluído. enquanto este implica no deliberado propósito de eliminação completa de um determinado grupo humano. elaborando uma breve comparação com o genocídio. Ainda. Assim. 25. expulsando grupos da comunidade política e atacando a base do que permite a própria existência da política: a pluralidade humana570. raciais e nacionais.pucrs.org/xvcongreso/pdf>. Akayesu considerou que o termo generalizado pode ser definido como uma ação em massa.org. Tais crimes são chama- dos de crimes contra a humanidade porque eles visam à completa eliminação de parcela ine- rente à diversidade humana.pdf#page=167>. Acesso em: 04 jul. julho/dezembro 2010. n.br/dados/revistas/ibdh/revista_do_ibdh_numero_4. José Carlos Moreira da Silva. Isto porque a característica essencial do crime contra a humanidade é a exis- tência de um poder político – uma política de Estado ou de uma organização que exerça o poder político de fato – que tolera ou participa nos atos violentos praticados contra a popula- ção civil. Acesso em: 06 jul.br/ojs/index.defensesociale. p. Disponível em: <http://revistaseletronicas. 12. 171. Roberto Lima. vol. 569 SOUSA. 2011. Otavio Augusto Drummond Cançado.. p. que as- sume um fundamento coletivo. 112. cit. Acesso em: 06 jul.

ela é incapaz de agir. despersonalizando-a. p. Cabe ressaltar primeiramente que o crime contra a humanidade configura-se como uma violência inédita que. 106. 2002. mas que se distingue completa- mente da mesma: ela opõe. de um lado. 109. 17. op. desapossada da confiança no mundo. nesse sentido. Trata-se de um massacre elevado ao nível da política. de fugir. cit. Este crime revela que pode haver eventos piores do que a morte: já não se visa a submissão. 149 sentido. Susana Aires de. mas a desumanização: o crime contra a humanidade representa tanto um crime real (o assassi- nato do outro) como a supressão simbólica. 574 Ibidem. perdendo todo o respeito. nasce da guerra. reificada. de uma agressão total e de uma passividade absoluta573. como não representam perigo algum para a concretização dos objetivos estratégicos almejados572. a dignidade humana na sua camada coletiva571. num quadro de um ataque sistemático a uma população. p. é desfigurada. 575 Ibidem. emprestando o seu valor à tutela de um bem-fim: a dignidade humana enquanto valor comum à humanidade. Esta desumanidade se constitui como uma indiferença definida como 571 SOUSA. 109. é tam- bém a humanidade que todos nós partilhamos que se aniquila. A víti- ma não exerce qualquer tipo de controle sobre sua sorte. mas ao mesmo tempo partilha essa experiência com milhares de outras pessoas574. inclusive aos seus próprios olhos. uma população civil inofensiva. como referimos. p. é a identidade da vítima. Para Susana Aires de Sousa. cabe agora tecer algu- mas considerações sobre a sua prática como violação à corporalidade humana. se defender. o crime contra a humanidade precede de um processo de desumanização da ví- tima. de outro. a total perda da consideração por outrem. Seria. toda a auto-estima: ela é animalizada575. todo o amor-próprio. 573 Ibidem. um combatente armado e. O crime contra a humanidade começa quando o exército ataca inocentes que não só não combatem. dentre outros) faz parte inte- grante deste autônomo bem que é a dignidade humana. Ainda. 105. Após abordar as características do crime contra a humanidade. Lisboa: Instituto Piaget. a Humanidade. O bem jurídico individual lesado (vida. . que faz o crime contra a humanidade. reduzindo-a a zero. desuma- nizando-a. pois. a vítima permanece só no mundo. p. Antoine. A vítima. ou seja. Crimes que não se podem punir nem perdoar. p. o valor individual que também se tutela por esta vertente serve como meio de proteção da própria humanidade. e do encontro de uma ação e de uma inação. no processo de desumanização. liberdade. em que esta vive a experiência de não pertencer a este mundo. 572 GARAPON. Ao violar-se uma vida autônoma. integridade física..

2. Mas este processo de desumanização está ancorado em um aspecto importante: a de- sumanização da vítima é relacionada com seu corpo. em que a vítima não é conside- rada como ser humano. Assim como no crime contra a humanidade. São Paulo: Companhia das Letras. Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal. 150 a ausência. Ou seja. A prática do apartheid foi conheci- 576 ARENDT. pela violência. foi quando o regime nazista declarou que o povo alemão não só não estava disposto a ter judeus na Alemanha. é levada a escolher entre a integração ao projeto colonialista de abandono de sua cultura. 3. pois no caso. Assim. como um ser não humano. o processo de desumanização por que passa a vítima do crime contra a huma- nidade é atingido mediante a inscrição desta violência no seu corpo. pela sua cultura. mas como uma coisa disponível a ser destruída. com sua dor. a exteriorização de um projeto violento. Através de seu corpo.3 Etnocídio e apartheid O apartheid é outra espécie de violação de direitos humanos que de certa forma pode ser comparada com o etnocídio – o que será visto adiante. 2006. a desumanização decorre da cultura considerada inferior e objeto de supressão total. ou ao perecimento. como a morte ou a destruição física. . o crime contra a humanidade – no sentido de “crime contra o status humano”. mas desejava fazer todo o povo judeu desaparecer da terra que pas- sou a existir o novo crime. ou contra a própria natureza da humanidade. O corpo é peça chave na efetivação do projeto violento de desumanização. a vítima sofre. É na corporalidade que os seres huma- nos manifestam seu contato com o mundo e com os outros. A vítima. a incapacidade de se colocar no lugar do outro. Conforme leciona Hannah Arendt576. para recuperar sua “humanidade”. Hannah. 291. e no caso dos crimes contra a hu- manidade. reli- gião ou língua. Assim como no crime contra a humanidade. p. a violação de seu corpo é o processo em que se concretiza a desumanização. mediante um processo de desumanização. A vítima é tratada. também. a reificação e desumanização do outro fazem parte integrante da prática etnocida. a desumanização por que passa a vítima atravessa obrigatoriamente seu corpo. A violação de sua integridade físico-psíquica (de sua corporalidade) está no cerne do processo de desumanização. no etnocídio a violência também é inscrita no corpo.

Disponível em: <http://dialnet.es/servlet/articulo?codigo=2649825>. livre movimento. Esta segregação foi estabelecida ou como resultado das circunstâncias históricas ao produzir-se o contato entre grupos raciais completamente diferentes e reforçada pelos prejuí- zos religiosos e raciais peculiares da época. Havia leis específicas que proibiam casamen- tos entre brancos e negros. Este sistema impôs o critério de que a maioria africana não estava qualificada para gozar de um tratamento igual ao da minoria de origem européia. não seria algo novo neste país. Contudo foi durante a administração britânica no território afri- cano que se generalizaram práticas equivalentes ao que viria ser o apartheid577. As- sim. Acesso em: 04 jul. 823. a população nativa foi marcada pelo apartheid como uma raça inferior. Derechos humanos y apartheid. c) de 1980 a 1989. Samuel Duran. No período anterior a 1948. mediante a lei de posse de terra. 577 BACHLER. país que viveu este sistema por mais de quarenta anos. Para iniciar a exposição. p. Em realidade. que reservou praticamen- te todo o poder político para a população branca. e não começou em 1948 quando o Partido Nacionalista passou a aplicar a doutrina do apartheid. restringiram os direitos dos africanos a possuir a terra. os indícios do que viria a ser o apartheid começam a sur- gir com a constituição britânica para a União Sul-Africana de 1910. De acordo com Samuel Duran Bachler. . as autoridades sul-africanas. 823. o problema racial na África do Sul. d) de 1989 até hoje. resultante da política de segregação.unirioja. o qual podemos dividir em: a) antes de 1948. p. sendo justificável ainda a privação dos direitos mais básicos. desde o princípio da colonização européia. dentre outras medidas de Estado. que favorecia a dominação política por parte da população branca. 2011. b) desde 1948 até 1980. em meados do século XVII. 151 da principalmente a partir dos acontecimentos ocorridos na África do Sul. além da violência e exploração laboral. etc) e eram constantemente mantidos sob exploração. Assim. faz-se necessário um breve esboço histórico. ou também mediante legislação originada em ves- tígios de conceitos políticos e sociais predominantes durante os períodos coloniais e semi- coloniais da história do país. o regime do apartheid. instaurado em 1948. e demarcaram áreas de ocupação se- gregadas578. 578 Ibidem. se ergueu com base nesta constituição. escolas separadas para negros e brancos. em que os africa- nos não podiam usufruir das necessidades básicas (como moradia. Este regime de segregação se caracterizava pela separação completa. Em 1913. a segregação existia entre negros e brancos.

estima-se que durante o primeiro meio século. 580 Ibidem. até que foram abolidas em 1981580. seu grupo étnico. toda pessoa negra era fotografada. desde sua edição em 1916. etc. as medidas de segregação se intensificaram. 582 Ibidem. p. o Partido Nacionalista venceu o Partido Único. p. a tribo a qual era vinculado. seu significado era o desenvolvimento separado de duas distintas raças. exceto quando os brancos requeressem seus serviços. As leis sobre passes exigiam que os mesmos fossem levados a todo momento581. data de nasci- mento e a classificação racial. se tomavam as digi- tais e se obrigava a solicitar um documento de identidade e uma livreta conhecida como livre- ta de passe. O número era parte de uma série de dados que indicavam o sexo. 824. Estas leis sobre a terra passaram a reservar 87% do território à população branca. Se estima que dezessete milhões de negros foram presos por violações a estas leis. Nas elei- ções gerais de 1948. Hendrick Verwoerd. p. que atribuiu aos sul- 579 Ibidem. afora estas medidas. divididos em reduções étnicas. Em 1916 se ditaram as leis sobre passes. 152 Uma lei de 1936 tornou mais graves estas restrições. Em 1959 se ditou uma lei de áreas de grupo. em 1923 se proibiu aos negros de viver nas cidades. 581 Ibidem. 824. Ao chegar à idade de 16 anos. A plataforma política do Partido Nacionalista nestas eleições foi o apartheid. a partir de 1948 a prática do apartheid levou à discriminação racial a extremos nunca antes vistos. As leis sobre passes constituíram uma fonte constante de sofrimentos para a população negra. No entanto. Com estas medidas. O documento de passe também continha dados sobre o distrito de residência habitual do solicitante. palavra que em afrikãans (dialeto holandês falado na África do Sul) significa separado ou separação. três milhões de negros foram desar- raigados e deportados a solo estranho para deixar lugar aos brancos579. p. 824. denominados territórios pátrios. passou a integrar o gabinete do Primeiro Ministro582. que abateram a população negra e foram sen- do cada vez mais estritas sob o regime do apartheid. e Daniel Malam se con- verteu em Primeiro Ministro. Em 1949 ditou-se uma lei que proibiu os matrimônios inter-raciais e as relações entre pessoas de distintas raças. 824. . No período de 1948 até 1980. Do seu ponto de vista político. conhecido como o “arquiteto do apartheid”. ao passo que aos negros foram concedidos os 13% restantes. Esta medida se configurou como um elemento corrosivo que destruiu a estrutura da sociedade e mostrou desprezo à população ne- gra. Ainda.

o bairro em que deveria residir e o cemitério onde seria enterrado585 586.pdf>. Assim. El poder se tiñe de blanco. que aparece como algo objetivo. a lei estabelecia que cada nascimento registrado deveria identificar a classificação por 583 Ibidem. como assinalado. p. e que condicio- nava o resto de sua existência. as pessoas que pertenciam a diferentes grupos raciais deveriam viver em áreas designadas para seu grupo em particular. Esta classificação inseria uma etiqueta nos indivíduos desde seu nascimento. o negro não deveria internalizar sua inferioridade senão com base na cor de sua pele. A classificação racial penetrava em todos os aspectos da socie- dade sul-africana e seu sistema jurídico: determinava a escola que uma pessoa poderia fre- qüentar. o governo sul-africano dividiu a população africana em oito unidades nacionais. e os não-brancos foram relegados aos povoados fora da área princi- pal. subordinando-se a um destino predeterminado no qual não seria considerado por boa parte da sociedade como totalmente humano. 584 Ibidem. As cidades propriamente ditas fica- ram reservadas para os brancos. Isto implicou na remoção de milhares de famílias583. O principal ato deste sistema foi o Ato de Re- gistro da População. Ainda quando não existia uma disposição que obrigasse ao registro do nascimento dos negros. índios e negros. a jogar com crianças de raça branca e a receber uma educação igualitária. tanto para a maioria negra como para a minoria branca.ides. .851 africanos desde as cinco áreas urbanas principais aos terri- tórios pátrios bantús. Este estigma. p. p. Sara. Vide PERRIG. Em 1970. a cada uma das quais se distribuiu uma parte dos 13% da superfície do país reservada para os não-brancos584. se havia expulsado de seus lugares 126. p. o governo transferiu 33. o homem negro se vê impe- dido desde pequeno a aceder a certos espaços da sociedade. O resultado da aplicação desta legislação foi a destruição das liberdades civis. Esta lei estabelecia que. De acordo com esta legislação. Durante 1970. foram quase totalmente de- signadas como brancas. 4. mestiços. 586 Isso demonstra como o apartheid buscava fazer com que o indivíduo interiorizasse desde cedo sua inferiori- dade. até 1984. As áreas urbanas. faz com que o grupo estigmatizador resulte absolvido de toda culpa. 153 africanos um lugar de residência em função de sua raça. Ainda quando a legislação sobre áreas de grupo estava em vigor desde 1950. antes de haver desenvolvido por completo sua personalidade. 824. O apartheid supõe que desde criança. de 1950. Una relación de establecidos y marginados en el caso del Apartheid. foi so- mente a partir da década de 1960 quando se começou a aplicar de forma massiva.000 famílias que residiam em bairros reservados para outro grupo racial. Disponível em: <http://www. 585 Ibidem. Este ato ainda estabe- leceu uma classificação racial sistemática das pessoas em brancos. A tarefa de manter esta forma opressiva de governo requeria uma classificação racial e uma regulamentação repressiva da população. Acesso em: 04 jul.ar/shared/practicasdeoficio/2009_nro4/artic12. se estimava que quatro milhões de africanos estavam destina- dos a ser finalmente transferidos. Para a conveniência de sua política. 2011. 825. dentro do território das reservas brancas (87% do território do país). 824.org.

vigentes desde 587 BACHLER. Em 1964. estava classificada de acordo com a raça. Já no período de 1989 até hoje. Em 5 de junho do mesmo ano foram abolidas as leis de posse da terra. sem julgamento. Em 1960. A base desta lei foi a lei de supressão ao comunismo de 1950. Durante a década de 1960 se levou a cabo um programa de leis de segurança nacional que restringiu extraordinariamente as liberdades da população. . 825. principalmente no início da década de 1980. Em 16 de maio de 1990. haviam demonstrado que o monopó- lio de poder que detinha a minoria branca já se mostrava insustentável. p. Entre 1960 e 1989 seis mil negros foram mortos pelas forças de segurança enquanto realizavam manifestações em favor de seus direitos588. Uma ampla série de disposições legislativas foi instaurada pela lei contra o terrorismo em 1967. em 1963.. já que de sua classi- ficação emanavam todos os direitos e privilégios. Esta classificação era fun- damentalmente importante para toda pessoa em toda a etapa de sua vida. que foi a legisla- ção usada para autorizar drásticos métodos de investigação. algumas práticas concernentes ao apartheid começam a ser extintas. op. a qualquer pessoa que executasse qualquer ato que ele especificava. 826. o governo anuncia a abolição imediata da segregação racial em 80% dos hospitais pú- blicos. os acontecimentos políticos na África do Sul na déca- da de 1980. 588 Ibidem. p. para permitir à polícia de segurança deter suspeitos sem submetê-los a processo. a República da África do Sul adota uma nova constituição que outorga direi- tos políticos limitados aos cidadãos mestiços e índios. Com o tempo. Ca- da pessoa. A chamada lei dos 90 dias foi agre- gada àquela. viva ou morta. cit. Em 1981. em que se deteve milha- res de africanos e outros oponentes ao regime do apartheid. somados à crescente oposição internacional. Samuel Duran. ou a falta deles587. que havia concentrado amplos poderes repressivos nas mãos do Ministro da Justiça. o governo sul-africano foi capaz de desenvolver um registro da população sobre uma base modernizada para uma discriminação racial rígida. No período de 1980 a 1989. Esta lei permitia ao Ministro proibir. 589 Ibidem. e mantê-los incomunicáveis por períodos sucessivos de 90 dias. em 1984. o governo declara ilegais todos os partidos negros do Congresso Nacional Africano e Congresso Panafricano. declarando estado de emergência. se derrogam as leis sobre passes. 154 raça dos pais e da criança. 825. Nelson Mandela e ou- tros líderes do Congresso Nacional Africano foram condenados à prisão perpétua por opor-se ao apartheid589. p.

591 Ibidem. Em 11 de fevereiro de 1990 Nelson Mandela é posto em liberdade. A grande maioria da população ban- tú deveria viver em reduções étnicas. as mulheres e as crianças eram enviados para perecer. política e econômica da população não-branca. p. desemprego. familiar. cor ou ideologia política. nenhum bantú podia andar livremente durante a noite nas zonas urbanas brancas. pode-se di- zer que ele foi inserido. interferir arbitrariamente na vida privada. em todos os aspectos da vida doméstica. os enfermos. a participar de eleições e a aceder a cargos públicos591. 830. a reunir-se e associar-se livremente. administrativas e policiais foram conjugadas para atentar contra o direito à vida e permitir tratamentos inumanos e detenções arbitrárias. aos 71 anos. etc592. Estas condições se repetiam por toda África do Sul como resultado direto da política de governo. Em suma. nenhum não branco poderia matricular-se na universida- de. 827. fora da vista da África do Sul branca. em maior ou menor grau. interferir na liberdade de movi- mento e residência. proibições a respeito do direito ao trabalho. sem antes obter autorização. enfermidade e sofrimentos. p. deste regime de separação total. em um país em que os brancos disfrutavam de um dos mais altos níveis de vida do mundo. que era constituída de 83% da população da África do Sul. uma pessoa não podia cruzar a fronteira de sua área para transferir-se a outra sem obter previamente autorização por escrito. Disposições legais. que atribuíam aos brancos 87% das terras do país. No tocante à prática efetiva do apartheid. a ad- quirir propriedades. estabelecer a ausência de julgamentos imparciais. 592 Ibidem. os não-brancos não podiam contrair matrimônio com membros do grupo étnico branco. a contrair matrimônio. vigente desde 1950. A vida diária era o que caracterizava o apartheid. elaborando um breve histórico do apartheid na África do Sul. Em 17 de junho do mesmo ano foi derrogado o Ato de Registro da População. 830. . discriminar por motivos de raça. Nos territórios pátrios havia pobreza. Os anciãos. p. após permanecer preso durante vinte e sete anos590. nenhum bantú que vivesse em uma redução poderia abandoná-la para buscar trabalho em uma cidade. ao passo que os jovens eram recrutados para trabalhar nas fábricas 590 Ibidem. podemos inse- rir todos estes fatos como os de mais destaque na história do regime. 155 1913 e 1936. nenhum bantú poderia ir a um restaurante ou passar a noite em um hotel que não fosse um dos poucos reservados para não brancos. social.

p. em 21 de dezembro de 1965. 2011. 2. em seu artigo I.org>. a Conven- ção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial. pois ambos se ba- seiam na crença da superioridade racial ou étnica. Correlacionando o apartheid com o fenômeno do etnocídio. membros de organizações e instituições. 843. p. p. In COLAÇO. ou pela integração forçada e violenta. Etnicidade. bem como na exclusão do outro. Durante os anos do apartheid. são crimes de violação aos princípios do direito internacional. entende-se por “discriminação” toda distinção. mas a fi- nalidade permanece a mesma: a degradação e a eliminação do outro. a Convenção.ed. Disponível em: <http://www. social. exclusão. op. classe ou origem nacional ou étnica que tenha por objeto ou como resultado anular ou cercear o reconhecimento. estabelece que o apartheid é um crime contra a humanidade e que os atos desumanos resultantes destas políticas e práticas. Sistematização. nas minas brancas. 8. 831. 598 BRITO. Vide Convenção Internacional sobre a Supressão e Punição do Crime de Apartheid. aprova mediante a resolução n. 597 Nesse sentido. Assim. conforme definido no artigo II da Convenção. 2008. seja pela segregação. alteridade e tolerância. Antônio José Guimarães. Acesso em: 04 jul. Samuel Duran. Florianópolis: Conceito.. quer por meio de regi- mes institucionais de isolamento e segregação. 596 BACHLER. Vide RODRÍGUEZ.iidh. análise e aplicação. econômica. Ainda. Esta Convenção dispõe em seu artigo III que a res- ponsabilidade internacional por crime de apartheid recairá sobre os indivíduos. prática constante no etnocídio598. Um detalhe importante da Convenção é que esta constitui o primeiro documento vinculante que qualifica diretamente o apartheid como crime internacional596 597. p. cor. no seu artigo I. cit. . cabe mencionar que o crime de apartheid se aproxima com o que constitui as práticas etnocidas.oas. Instrumentos internacionais sobre racismo no sistema das nações unidas e no sistema interamericano de proteção dos direitos humanos. houve significativas mudanças no âmbito das Nações Unidas para buscar solucionar o problema no território sul-africano. 2011. Os meios empregados pelo apartheid e pelo etnocídio podem ser diferentes. Era a realidade do desenvolvimento separa- do593. bem como representantes de Estado.). Victor. característica básica do apartheid. p. quer pela inclusão forçada do outro sem sua 593 Ibidem. limitação ou preferência fundada em raça. Ele- mentos de antropologia jurídica. 156 brancas. Dis- ponível em: <http://www. 47. que en- trou em vigor em 4 de janeiro de 1969594 595. em condições de igualdade.cr>. nas áreas brancas. Thais Luzia (Org. em 1973 a Assembléia Geral aprovou a Convenção Internacional sobre a Su- pressão e Punição do Crime de Apartheid. 846. Tanto os crimes de apartheid como o etnocídio buscam a eliminação do outro. dos direitos humanos e das liberdades fundamentais na esfera política. gozo ou exercício. cultural ou em qualquer outra esfera da vida pú- blica. 595 Para fins da Convenção.106 A (XX). 594 Ibidem. Acesso em: 04 jul. a Assembléia Geral. dentre outras políticas e práticas de segregação e discriminação racial.

Os membros da população se auto-identificam como tais e essa iden- tificação/identidade é oposta e reconhecida por outros. Não obstante seja conhecido no âmbito da etnologia. portanto. c) cujos 599 Ibidem. no et- nocídio prevalece um regime de integração total. deve-se partir de alguns conceitos etnológicos que poderão auxiliar na compreensão do etnocídio enquanto fenômeno jurídico. buscar-se-á elaborar um esboço – ainda que seja muito preliminar – com o objetivo de se apresentar uma construção do conceito jurídico de etnocídio. de um tipo de organização. Dentre eles estão a noção de identidade étnica. c) compõe um campo de comunicação e interação. 600 ALENCAR. Os crimes contra etnias e grupos étnicos: questões sobre o conceito de etnocídio. BENATTI. b) que reconhece uma origem comum. p. 210. 3. José Heder. p. d) tem um grupo de membros que se identifica e é identificado por outros como constituinte de uma ca- tegoria distinguível de outras categorias da mesma ordem. seja para a integração. contudo ambos compartilham a violência como elemento basilar de sua sustentação. etnia e grupo étnico.3 CARACTERÍSTICAS PRINCIPAIS DO ETNOCÍDIO NO ÂMBITO JURÍDICO- PENAL Neste ponto. em que subsiste a característica de auto-atribuição e atribuição por outros601. José Maria. Se no apartheid prevalece um sistema de separação total. Para tanto. 157 cultura. 209. Trata-se de uma identidade contrasti- va. 1993. b) compartilha de valores culturais fundamentais. cujos limites são demarcados pela auto- identificação e oposição. In Os Direitos Indígenas e a Constituição. a concepção de etnocídio ainda não possui con- tornos específicos no âmbito jurídico. p. Trata-se. pode-se denomi- nar grupo étnico como sendo uma população em que: a) se perpetua principalmente por meios biológicos. principalmente com os estudos de Robert Jaulin e Pi- erre Clastres (cujos autores já mencionamos). para se iniciar uma exposição acerca de um conceito jurídico. principalmente penal. tradição e língua599. seja para separação. 601 Ibidem. 47. Porto Alegre: Fabris. . Seguindo a exposição de José Maria Alencar e José Heder Benatti600. cujos atributos caracterizadores são: a) conglomerado social capaz de reproduzir-se biologicamente. postos em prática em formas culturais num todo explícito. Grupo étnico é um tipo organizacional.

que têm direito exclusivo e controle de um universo de elementos culturais que con- sideram próprios. p. 212. Dentro da etnia Yanomami subsistem outros grupos que possuem diferentes denominações. língua e outros elementos comuns604. 604 Ibidem. 158 membros se identificam entre si como parte de um nós distinto dos outros e d) que comparti- lham certos elementos e ações culturais. este seria uma das uni- dades étnicas constitutivas da etnia605. entre os quais tem especial relevância a língua602. Isso ocorre a partir da idéia de identidade étnica. cit. podemos identificar a diferença entre etnia e grupo étnico com base na organização os indíge- nas Yanomami. José Heder. Já no que concerne ao conceito de etnia. identidade coletiva. a consciência de pertencer a essa comunidade. etnia se constitui como uma ampliação. . Os indivíduos pertencem à mesma cultura e se reconhecem como tal. A existência de um grupo étnico pressupõe um momento prévio em seu processo histórico. p. O que o caracteriza é que mesmo tendo relações com outros grupos. um conjunto relativamente estável de indivíduos que man- têm uma continuidade histórica porque se reproduz biologicamente e seus membros estabele- cem entre si vínculos de identidade social distinta. constituindo uma ilha isolada. isto não quer dizer que o grupo étnico não se relacione com outros grupos ou com uma sociedade mais complexa. território. Porém. se constituindo como grupos dentro de uma etnia. 606 ALENCAR. no qual o grupo dispõe de autonomia cultural necessária para delimitar e estruturar o universo inicial de seus elementos culturais próprios. larga o bastante para abrigar no seu interior inclusive o próprio conceito de grupo étnico. que por sua vez define os li- mites do sistema social que constitui um grupo étnico606. uma mes- ma tradição cultural e histórica. 602 Ibidem. op. uma expansão do conceito de grupo étnico. Grupo étnico é. Segundo os autores. capazes de garantir para si mesmo a existência e a reprodução do grupo603. que se fundamenta na cooparticipação de uma cultura própria comum. 210. sobretudo. 211.. portanto. para abarcar uma totalidade onde estão presentes a auto-atribuição e a oposição. os autores esclarecem que esta seria o resul- tado de uma expansão do conceito de grupo étnico. tendo uma mesma religião e. p. A diferença entre um e outro estaria em uma relação de continência e conteúdo. 605 Nesse aspecto. a partir do que assumem como unidade política. etnia seria uma entidade caracterizada por uma língua. José Maria. 211. p. BENATTI. ele possui uma origem comum. Etnia seria larga o bastante para abarcar um grupo étnico. 603 Ibidem. ocupando um dado território. unidade e organização política.

redigiu em 1985 um informe sobre a questão da prevenção e sanção ao crime de genocídio. este seria a conduta delituosa da qual re- sulta a vitimização. 186. Quanto a um possível conceito jurídico-penal de etnocídio. p. 186. Ainda no relatório. Aproximación informativa y estudios analíticos sobre el genocídio armê- nio.. de acordo com a orienta- ção de José Maria Alencar e José Heder Benatti 610. das escolas. dos monumentos históricos. 2004. Buenos Aires: Centro de estudios e investigaciones Urartu. ainda que tenha sido proposta uma definição sobre o genocídio cultural. dos lugares de culto ou outras instituições e de objetos culturais do grupo ou a proibição de usá-los609.). este conceito foi expressado no informe – conhecido como Relatório Whitaker – que define o genocídio cultural como todo ato premeditado. dos museus. No Direito Penal Internacional. Juan Augusto (Org. O etnocídio é a ação que promove ou tende a promover a destruição ou o desaparecimento da identidade cultural de uma etnia ou de um grupo étnico607. BENATTI. a religião ou a cultura de um grupo nacional. Contudo. em- bora seja formalmente mencionado que ele se constitui como uma violação de direitos huma- nos igual ao genocídio. o etnocídio ainda não possui contornos definidos. . Ainda que nesta ocasião não foi incluído na Convenção sobre o Genocídio o conceito de genocídio cultural (ou etnocídio). p. p. Benjamim Whitaker. p. racial ou religioso por razão de origem nacional ou racial ou das crenças religiosas de seus membros608. José Maria. buscou-se incluir dentro do conceito de genocídio cultural os atos de: a) proibição de empregar o idioma do grupo nas relações cotidianas ou nas escolas ou a proibição de imprimir ou de difundir publicações redigidas no idioma do grupo e b) a destrui- ção das bibliotecas. em tese de doutorado defendida 607 Ibidem. poderia se constituir como um crime que consiste na destruição parcial ou total da identidade étnica e cultural que dão a cada grupo étnico ou etnia o seu caráter próprio. esta ainda não foi reconhecida no âmbito das Nações Unidas. José Heder. este se constitui como a imposição forçada de um processo de aculturação a uma cultura por outra mais poderosa. 609 Ibidem. cit. op. 159 Quanto a uma possível concepção de etnocídio. levando à sua desintegração e depois ao seu desaparecimento. cometido com a intenção de destruir o idioma. a destruição de uma etnia ou grupo étnico. 219. 610 ALENCAR. quando esta conduz à destruição dos valores sociais e morais tradicionais da sociedade dominada. Caso reconhecido. 608 ABADJIAN. Mario Leonardo Rustrian Dieguez. 214. que foi Relator Especial designado pela Subcomissão de Preven- ção de Discriminações e Proteção às Minorias.

políticas. A Assembléia Nacional do Equador. Na ocasião. na página: <http://www. os participantes da reunião que gerou a Declaração ressaltaram que o et- nocídio (ou genocídio cultural) seria um delito de Direito Internacional igual ao genocídio. mediante alteração no seu Código Penal 614. fazendo muitas refe- rências a isso. por exemplo.asambleanacional. Guatemala. 1998. 2011. 2011. difusão e à transmissão de todo este patrimônio. científicas e tecnológicas e.derechosindigenas. Acesso em: 28 abr. conhecimentos e conquistas acumuladas historicamente nas esferas culturais. Por sua vez. existem ainda algumas tentativas de implementação de um pos- sível crime de etnocídio. Dentre estas questões – que podem ser aqui explicitadas para ilustrar um possí- vel tratamento jurídico do etnocídio – destaca-se a menção feita pela Declaração de que cons- tituem parte essencial do patrimônio cultural dos povos indígenas sua filosofia de vida e suas experiências. Regulación legal del delito de etnocidio en la legislación penal guatemalteca y sus consecuencias jurídico-sociales en los últimos 30 años. Vide DÁVALOS. Acesso em: 25 mar. onde a UNESCO convocou diversos setores dos países da América Latina. 613 Nesse sentido. a Declaração teve por base de abordagem a problemática indígena na América Latina.vidadelacer. Pablo. jurídicas.org/?p=109>. No entanto. à utili- zação. 1998. mas envolve outros grupos que sofrem esta forma de violência – 611 RUSTRIAN DIÉGUEZ. Tesis (Doctorado en De- recho) – Facultad de Ciencias Juridicas e Sociales – Universidad de San Carlos de Guatemala. 160 em 1998 na Universidade San Carlos da Guatemala611. vide o item 3. Acesso em: 04 mai. Ecuador: Ley de etnocidio y genocidio: ¿una batalla perdida? Disponível em: <http://www. . Bartolomé. expõe que as primeiras manifestações de caráter internacional que tratam do etnocídio advém de 1981. anunciando a necessidade de medidas contra o etnocídio612. 2011. vide os artigos dos autores Bartolomé Clavero e Pablo Dávalos. Mario Leonardo. condenado pela Convenção das Nações Unidas. ocasião na qual se firmou a Declaração de San José. 616 Querétaro é um dos 31 Estados que junto ao Distrito Federal constituem as 32 entidades federativas de Méxi- co.gob.gov. o qual igualmente aborda sobre a Declaração de San José e sua definição de etnocício. o etnocídio não está adstrito à questão indígena. embora subsistam controvérsias sobre a definição dada aos projetos legislativos613. sociais. 615 Projeto de lei de tipificação do delito de etnocídio. 612 Nesse sentido. por isso. mediante a adição de tal previsão ao Código Penal deste Estado em matéria de direitos e cultura indígena. no México615. tem direito ao acesso. Disponível em: <http://clavero. que expõem algumas questões críticas a respeito da tipificação do etnocídio. como se pôde apresentar no decorrer do trabalho.ec>. 614 As referências sobre o assunto constam no site da Assembléia Nacional do Equador. Delito de Genocidio y Pueblos Indígenas en el Derecho Internacional. de 1948. buscou tipificar como crime a prática do etnocídio. no Estado-Província de Querétaro616. CLAVERO. 2011.legislaturaqro. 69f.org>. apresentou-se um projeto de lei de tipificação do etnocí- dio. Disponível em: <http://www.mx>.1 deste trabalho. Acesso em: 25 mar. No âmbito legislativo. Afora esta questão.

op. 30. BENATTI. por exemplo. reflete uma paulatina ampliação do conceito de patrimônio cultural que. Tal noção é referida nos seus artigos 23. fazer e viver. dentre outros (arts. e especificamente quanto à etnia. . os grupos e. particularmente indígenas. Sandra C. 220. cit. 161 como os monges tibetanos na China. é estendido a outros grupos humanos que passaram pela mesma experiência.. A preocupação com a questão cultural é tão significativa que poderia se cogitar da existência de uma consti- tuição cultural. Assim. 220. FUNARI. formulada em 2003. artefatos e lugares culturais que lhes são associados – que as comunidades. costumes. nos quais se incluem as formas de expressão. do pleno exercí- cio dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional. Outro mandamento constitucional que reconhece e se preocupa em dar proteção à singularidade dos 617 ALENCAR. O patrimônio cultural imaterial transmitido de geração em geração é conceituado a partir de uma perspectiva da alteridade. p. Aces- so em: 04 mai. 2011. 27- 46. aí compreendidas as tradições orais. Ainda. os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural. os mo- dos de criar. pelo Estado. 231 da Constituição).. em alguns ca- sos. Vide PELEGRINI. O que é patrimônio cultural imaterial. Aqui se configura a imaterialidade. passando pela Convenção das Medidas a Adotar para Proibir e Impedir a Importação. Por sua vez. Pode-se também destacar que a proteção do patrimônio imaterial passou a se consolidar com a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Imaterial. supervalorizando a cultura como elemento essencial da etnia. Assim. as artes e o saber tradicional. cit. p. objetos. 2008. embora seja mais conhecido dentro da questão indígena.unesco. Assim. 24. línguas e crenças como componentes da existência de minorias nacionais. expressões. op. de uma constituição econômica e de uma constituição social617. São Paulo: Brasiliense. 8. mas também as manifestações intangíveis. ser “tocada”. p. o patrimônio cultural brasileiro é constituído dos bens de natureza material e imaterial618. 215 (garantia. 215 e 216 da Constituição Federal)619. Exportação e Transferência da Propriedade Ilícita de Bens Culturais (1970). mas uma dança popular não pode. que passou a definir o patrimônio imaterial como as práticas. p. podemos tocar nos instrumentos musicais. 618 No que tange ao patrimônio imaterial. esta se caracteriza pela impossibilidade de ser tocada (mas não de ser percebida). abarcando a noção de identidade e memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. enquanto conjunto de representação. se entende como incluindo não somente as expressões materiais das diferen- tes culturas do mundo. José Heder. José Maria. há o reconhecimento explícito da organização social. IX. principalmente durante a Revolução Cultu- ral comunista. Pedro Paulo. o artigo 231. Disponível em: <http://www. José Maria. nas pessoas e nas roupas. a Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural (1972) e a Convenção sobre a Proteção do Patrimônio Cultural Subaquático (2001). e a instituição de normas para garantir a proteção dessas etnias (art. José Heder. VII. com a valorização e difusão das manifestações culturais). a evolu- ção que se produziu. há sólida base constitucional para uma possível tutela (penal e ex- trapenal) da identidade cultural. o etnocídio. ao lado de uma constituição política. III. desde que portadores de referência à identidade e à memória dos diferentes gru- pos formadores da sociedade brasileira. conhecimentos e técnicas – junto com os instrumentos. A Constituição de 1988 atribuiu significativa importância à cultura. A. BENATTI. No caso do Brasil. representações. desde a Convenção de Haia para a Proteção dos Bens Culturais (1954). cada vez mais frequentemente. 619 ALENCAR. até a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial (2003).org>. Relatório mundial da UNESCO sobre diversidade cultural.

e art. dentre outras alternativas. que podem auxiliar na prevenção ao etnocídio. § 4º. p. 221. bem como orientação para se formar diretrizes de prevenção e repressão ao etnocídio (tanto medidas de caráter penal como extrapenal). Contudo. bem como políticas públicas de proteção de idiomas em extinção. necessário salientar que medidas de índole criminal não são suficientes para a solução deste problema. seguir-se-á a abordagem final. Com efeito. buscando recepcionar. que os danos e ameaças ao pa- trimônio cultural serão punidos. 162 grupos étnicos brasileiros está contido nos artigos 231. seria adequado que a comunidade jurídica buscasse alternativas para se dar maior relevância a este tema. p. 216. como já descreveu a Declaração de San José. 621 Ibidem. Nesse sentido. bem como do bem objeto de estudo (a identidade cultural de comunidades humanas) subsistem fundamentos importantes para se buscar uma recepção do etnocídio como crime internacional. Também são necessárias medidas governamentais e internacionais de proteção ao patrimônio cultural. na década de oitenta. equiparando-o ao genocídio. políticas de reconhecimento de comunidades étnicas pela preservação da memória coletiva. São medidas de caráter extrapenal. Por fim. vinculados ao tema dos direitos dos povos (de terceira dimensão). que trata acerca da ética. afirmando no seu art. Trata-se de elementos que. cumpre ressaltar que a Constituição também visa a garantia e proteção do patrimônio cultural brasileiro. memó- ria e reconhecimento às vítimas como medida de observância aos direitos dos povos. As práticas etnocidas apontam que a violência que é cometida nesta prática segue o mesmo patamar do genocídio enquanto grau de brutalidade. 68. talvez. 220. Dentre esses danos pode-se incluir o etnocí- dio621. o etnocídio enquanto crime internacional equiparado ao genocídio. § 1º. da Constituição. Finalizado este ponto. pode-se afirmar que diante da relevância da matéria em questão. na forma da lei. do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias620. 620 Ibidem. . podem se constituir como base teórica para a busca de proteção de coletividades humanas.

623 DORNELLES. destaca-se a te- mática dos direitos dos povos. João Ricardo W. para a prevenção e repressão ao etno- cídio). 09. se os direitos humanos no plano histórico já foram entendidos 622 A seguir. Esta proposta não visa solucionar completamente a problemática do etnocídio – o que seria uma demasiada pretensão – mas se propõe apenas apontar determi- nados caminhos teóricos que podem servir como parâmetro para uma melhor garantia de so- brevivência de muitos grupos humanos sob ameaça de extinção física e cultural. 10. antes de qualquer coisa. 624 Ibidem. buscamos inserir o que con- sideramos três pilares para a sua observância: a) uma ética libertadora como princípio. 163 3. para outros. para alguns estes seriam aqueles inerentes à vida. p. MEMÓRIA E RECONHECIMENTO ÀS VÍTIMAS COMO IMPERA- TIVO DE OBSERVÂNCIA AOS DIREITOS HUMANOS DOS POVOS Nesta etapa do presente estudo. O que são direitos humanos. para posteriormente tecer breves considerações específicas sobre os direitos humanos dos povos. com base na teoria do reconhecimento de Axel Honneth. outros sustentam que é uma conquista social através da luta política623. . Todos estes três elementos compõem a estru- tura que pode dar sustentação a uma maior observância dos direitos dos povos. E nesse sentido. cabe expor primeiramente algumas considerações sobre os direitos humanos em si. consequentemente. apoi- ando-se nos estudos do filósofo Enrique Dussel. uns entendem que são direitos inerentes à natureza humana. São Paulo: Brasiliense. é pertinente esclarecer que os direitos humanos. Inicialmente. No que tange aos direitos humanos. finalizando a exposição concernente ao etnocídio. bem como sobre este termo que é empregado. Dentro do tema relativo aos direitos humanos dos povos. na visão de Reyes Mate – como aspecto importante na prevenção da repetição da barbárie e c) o processo de reconhecimento das vítimas como prática ético-jurídica. Ou seja. antes de se tratar pontualmente sobre cada um dos pilares para uma ob- servância dos direitos dos povos (e. à segurança individual. a fim de se buscar prevenir o etnocídio. Nesse sentido. 2007. direitos humanos significa valores superio- res que regem os homens. im- põe-se destacar alguns elementos que podem contribuir para nortear medidas que sejam capa- zes de prevenir esta espécie de violação de direitos humanos. aos bens. especialmente sobre os de terceira dimensão. b) uma valorização da memória – uma justiça anamnética. será feita uma melhor explanação da concepção dos direitos humanos. p. etc. vertente teórica dos direitos humanos que se qualifica como direito de terceira dimensão622. provêm historicamente de um conteúdo político624.4 ÉTICA.

pela qual se identificava direitos e valores supremos a partir de uma ordem transcendental. p.. 626 Ibidem. 14. p. Ela surge como uma crítica ao pensamento liberal. e en- 625 Ibidem. 164 de diferentes maneiras (provenientes da vontade divina. Com efeito. ou nascem pela força da sua natureza (os homens já nascem livres. através das tradições hindu. 16. Direitos à segurança e à liberdade existiriam independentemente da existência do Estado629. e não produto de uma força su- perior estatal. diversos princípios ser- viam como base dos sistemas de proteção marcados pelo humanismo ocidental judaico-cristão e greco-romano. com seus respectivos fundamentos: A primeira – concepção idealista – fundamentava os direitos do homem através de uma visão metafísica. 628 DORNELLES. 16. o que fundamenta a doutrina jurídica dos direitos humanos é a dignidade da pessoa humana627. Desta concepção vinha a idéia de que os direitos são inerentes ao homem. diferentes ordenamentos jurídicos da Antigüidade. é impossível concluir que exista ape- nas uma única fundamentação e concepção para os direitos humanos626. As origens mais antigas da fundamentação filosófica dos direitos fundamentais da pes- soa humana advêm dos primórdios da civilização. surgiram três principais concepções. 12. com o advento da Escola do Direito Natu- ral). ou na razão natu- ral humana (como ocorreu a partir do século XVII. cit. Cada direito humano existe quando está previs- to na lei630. Com o passar dos tempos. São noções de direitos ou valores fundamentais que se transformaram de acordo com o modo de organização social. como Deus ou a razão humana. chinesa e islâmica. Assim. 627 PERELMAN. A terceira concepção – crítico-materialista – desenvolveu-se no século XIX. p. por uma fundamentação histórico-estrutural. Com efeito. Chaïm. 630 Ibidem. A segunda concepção – a positivista – fundamentava os direitos essenciais ao homem desde que reconhecidos pelo Estado por uma ordem jurídica positiva. mediante o processo de legitimação e reco- nhecimento legislativo (reconhecimento pelo Poder Público). Mas de certa forma. emanados do poder do Estado. São Paulo: Martins Fontes. como as leis hebraicas. 2002. isso significa que cada uma dessas concepções representou distintos momentos na história do pensamento e das soci- edades humanas625. op. p. p. 16. direitos que já nascem com o indiví- duo. os direitos humanos seriam resultantes da força do Estado. iguais). 629 Ibidem. estabeleci- am princípios de proteção de valores humanos mediante uma hermenêutica religiosa628. Ética e Direito. dignos. ou um produto da luta de classes). 401. No mundo antigo. ou pelo humanismo oriental. manifestada na vontade divina (como no feudalismo). João Ricardo W. p. .

Já no século XVIII com Rousseau. A Eficácia dos Direitos Fundamentais. . p. Essa primeira dimensão é marcada eminentemente pelas reivindicações da burguesia. exigindo-se uma resistência. livre manifestação da vontade. João Ricardo W. que advém de um processo cumulativo de novas reivindi- cações. 633 Ibidem. 632 SARLET. p. liberdade de pensamento e expressão e mão-de-obra livre criavam a consolidação do modo de produção capitalista e do Estado Li- beral636. Contudo. Assim. Esta concep- ção surge principalmente a partir das obras filosóficas de Karl Marx631. A primeira dimensão é caracterizada pelos direitos individuais. p. ao nosso entender – e seguindo a doutrina de Ingo Sarlet632 – o termo “gerações” porventura po- de causar a impressão de que haveria uma substituição gradativa de uma geração por outra. 631 Ibidem. o que não seria conveniente em termos de direitos humanos e fundamentais. Assim. uma oposição perante o Estado. previstos nas declarações de direitos e nas Constituições dos séculos XVIII e XIX seriam uma expressão formal de um processo político-social e ideológi- co. liberdade de ir e vir. numa época em que houve o confronto direto da burguesia revolucionária com o regime absolutista. Com as idéias contra- tualistas do século XVII. 636 Ibidem. Ou seja. Ingo Wolfgang. Esta estrutura vincula os direitos humanos. Trata-se de direitos de cunho negativo. 8ª ed. dentro do processo de constituição do mercado livre. com base nestas diferentes concepções e fundamentações acerca dos direitos humanos é que se desenvolveram as chamadas “gerações” de direitos humanos. op. faz-se mais adequada a utilização do termo dimen- sões. seguindo a lição do autor.. mas também os direitos fundamentais de cunho constitucional633. 54. se desenvol- ve a concepção dos direitos individuais634. e que o princípio da igualdade era a condição essencial para o exercício da liberdade635. este filó- sofo defendia que a propriedade era a fonte da desigualdade humana. a livre inicia- tiva. 17. 19. 165 tende que os direitos do homem. Neste período revolucio- nário sobrevieram a Declaração da Virgínia de 1776 e a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão. p. Direitos como a liberdade. 2007. Porto Alegre: Livraria do Advogado. realizado pelas lutas sociais quando a burguesia ascendeu ao poder político. cit. 635 Ibidem. 634 DORNELLES. há em verdade uma complementaridade. de 1789. 21. p. 20. 55. p. especialmente de Hobbes com o Estado político e John Locke com a teoria da liberdade natural do ser humano e o direito fundamental à propriedade.

166 A segunda dimensão é definida pelos direitos coletivos. ampli- ação dos mercados. 25. p. A terceira dimensão dos direitos humanos é também chamada de direitos de solidari- edade ou direitos de fraternidade. Assim. que seriam enunciados de caráter individualista a todos os povos. direito à greve. moradia. ou direito dos povos. o desenvolvimento do modelo industrial e a concentração de trabalhadores em uma mesma unidade de produção. a Constituição da República de Weimar na Alemenha e a cria- ção da OIT em 1919. Os direitos dos povos são ao 637 Ibidem. principalmente de- senvolvido pelo pensamento de Karl Marx. Com a consolidação do Esta- do Liberal (e da burguesia. direito à organização sindical. através de uma ação efetiva do Estado – com a revolução mexica- na. Para tanto. p. bem como com o término da Segunda Guerra Mundial. bandeira da bata- lha contra o absolutismo monárquico. lucros e incorporação do maquinário moderno ao processo produtivo). etc. . econômicos e culturais. passa a emergir uma massa de pessoas pobres. expropriadas e insatisfeitas por não usufruir das conquistas alcançadas na luta pela “liberdade. 638 Ibidem. Dentre eles. as lutas operárias e populares marcaram a reivindicação por direitos soci- ais. sobrevieram o direito ao trabalho. fizeram com que surgisse uma nova classe social: o proletariado (classe operária urbano-industrial)637. Para tanto. o domínio da burguesia industrial e o Estado Liberal não-intervencionista propiciaram o desenvolvimento de uma crítica social pelas idéias socialistas dos setores mais populares. p. a qual deixa de ser revolucionária) e o modelo de desenvolvimento da economia nos primeiros setenta anos do século XIX (concentração de mão-de-obra. houve uma reflexão crítica sobre os direi- tos fundamentais proclamados pelas declarações anteriores. O surgimento da classe operária no século XIX e início do século XX. 639 Ibidem. direito a serviços públicos. direitos de dimensão positiva.. igualdade e fraternidade”. a revolução russa de 1917. direito à previdência social. frutos das críti- cas socialistas. ini- ciaram-se novas demandas em termos de direitos humanos. que eram submetidos a uma única disciplina imposta pela fábrica. Assim. São os direitos de ação positiva do ente estatal. 30. com o Estado como agente interventor639. Com os regimes totalitários da União Soviética e da Alemanha nazista. 23. principalmente com o texto “A questão judaica” de Marx (em 1844) questionava-se a existência de uma grande contradição entre os princípios consagrados nas declarações e a realidade vivida pela maioria do povo (especialmente as con- dições degradantes impostas aos trabalhadores europeus)638.

cit. p. e inclusive a própria humanidade644. após os genocídios destruidores de classes. trata-se de direitos em que seu titular não seria o homem individual. o povo. cit. direito ao ambiente. podendo ser inserida neste contexto o etnocídio). . embora a maioria não disponha de poder coercitivo. p. mas apenas de conteúdo moral646. No magistério de Antônio Carlos Wolkmer645. proteção às minorias. a nação. 9. Ingo Wolfgang. p. 167 mesmo tempo direitos individuais e direitos coletivos640. o grande impulso econômico com base no capital das multinacionais e o uso intensivo das fontes de energia e recursos naturais de todas as regiões do mundo levaram a um nível de desenvolvimento da produção que causou – e ainda hoje se estende – um grande quadro de destruição ambiental642. Os novos direitos no Brasil – natureza e perspec- tivas. a partir da qual poderia haver uma guerra em que não existiriam vencidos. à discriminação. mediante a constituição do bloco americano e de outro lado. portanto. Celso.. p. op. 39. LEITE. José Rubens Morato. cit. 641 Ibidem. Antônio Carlos. p. dos recursos naturais. a família. João Ricardo W. no século XX houve uma constante ameaça de extermínio de grupos hu- manos.. 35. Especialmente no período de 1945 até 1960. Estes direitos. Por fim. Para tanto. p. e até mesmo uma ameaça de destruição total da vida no planeta. 2003. direitos de proteção aos grupos humanos (repressão ao genocídio. foi necessária a criação de mecanismos que estabelecessem um limite à atuação dos Estados pelas leis internacionais. p. 644 LAFER. São Paulo: Saraiva. o soviético. mas diz respeito à proteção de categorias ou grupos de pessoas. Outro fator que também contribuiu para o advento da terceira dimensão de direitos foi o constante estado de medo que o mundo enfrentou com a Guerra Fria. O mundo presenciava. op. 33. Com todos estes fatores.. 645 WOLKMER. 643 SARLET. direitos eminentemente de titularidade coletiva ou difusa 643. uma outra ameaça: a atômica. 131. 646 DORNELLES. coletividades regionais ou étnicas. portanto. desprendem-se da figura do homem enquanto indivíduo passando à prote- ção de grupos humanos. 58. 640 Ibidem. outra questão que marca o advento dos direitos de terceira dimensão foi a no- va divisão do trabalho e a “Era das multinacionais”. de grupos étni- cos. 34. Visam proteger. op. o que ensejou a emergência de uma nova concepção acerca dos direitos humanos: Direito à paz. raças ou grupos culturais. mas uma catástrofe que atingiria toda a espécie humana641. 642 Ibidem.

em especial etnias distintas que se situam dentro do Estado de Direito con- temporâneo. p. Carlos Frederico Marés de. surge a emergência de se criar me- canismos de proteção dos grupos humanos. Luís Donisete Benzi. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. Na sua visão. independe da condição de se pertencer a um Estado-Nação650. 648 SOUZA FILHO. portanto. 650 Ao nosso parecer. estabelecendo uma reflexão intercultural649. A universalidade parcial dos direitos humanos. pois esta dimensão de direitos (complementada com as demais dimensões) propicia a proteção de grupos humanos. mas um direito universal de cada povo elaborar seus direitos humanos com a condição de não violar os direitos dos outros povos648. é pertinente ainda a abordagem crítica que Boaventura de Souza Santos traça sobre os direitos humanos. dentre outras: a) superar o debate entre universalismo x relativismo. do diá- logo entre elas. da natureza e da humanidade. VIDAL. Na proposta de uma política contra-hegemônica de direitos humanos. 647 Ibidem. portanto. o que permite atribuir uma proteção a determinados povos que se situam no âmago dos Estados Nacionais. exploração econômica e contra a miséria. São Paulo: Cortez. Leis internacionais de proteção ao meio ambiente. Boaventura parte das seguintes premissas. através da consciência da incompletude das culturas. com os novos problemas advindos do século XX (extermínio em massa de grupos humanos. a sócio-diversidade e os problemas que são comuns aos povos. 649 Nesse sentido. mas nem todas tratam em termos de direitos humanos. são ca- racterísticas do processo de universalização dos direitos humanos. tendo direitos universalmente reconhecidos647 . Não se trata. A proteção dos povos. deve haver um diálogo intercultural no que tange aos direitos humanos. a partir da igualdade e do reconhecimento da diferença. de uma absor- ção da concepção ocidental de direitos humanos. re- conhecendo a pluralidade. Povos indígenas e tolerância: construindo práticas de respeito e solidariedade. Lux. A gramática do tempo – para uma nova cultura política. Especialmente no tocante aos direitos dos povos. Mais detalhes em SANTOS. Ou seja.ainda que formalmen- te. O Direito dos Po- vos – direitos de terceira dimensão – é um elemento importante para situar nosso estudo. a condição de povo tem muito mais um valor antropológico e sociológico. 168 Hoje se desenvolve um processo de universalização da temática dos direitos humanos. 2001. lutas contra opressão. c) propor uma concepção multicultural de direitos humanos. não devem se constituir como uma política universal cultural hegemônica (do ocidente industrial. O ser humano passa a ocupar destaque na seara internacional. d) buscar compreender a luta pela igualdade e a luta pela diferença a fim de promover uma polí- tica emancipatória de direitos humanos. mas de se estabelecer uma convivência. b) identificar as preocupações entre as diferentes culturas. Todavia. p. 40. In GRUPIONI. que acompanha a política e a economia internacional. pois todas possuem uma concepção de dignidade humana. degrada- ção ambiental e o perigo de extinção da vida no planeta). esta universalidade deve ser parcial. 258-261. FISCHMANN. possuindo cultura e modo de vida distintos. p. Roseli. 2ª ed. São etnias que constituem uma identidade . pois não existem direitos hu- manos universais. embora estejam dentro deste mesmo Estado. ocasionando um imperialismo cultural). 2008. Este Direito restringe a soberania absoluta dos Estados de fazer o que quiser com os povos dentro de suas fronteiras. leis contra a discriminação racial e pela proteção dos povos. por exemplo. e estabelecer um diálogo intercultural sobre preocupações convergentes entre as diferentes sociedades. 445-447. Boaventura de Souza. como referido anteriormente. embora estas não tenham caráter cogente.

Gley Porto. Acesso em: 04 mai. religiosas e lin- guísticas têm o direito de desfrutar de sua própria cultura. Adriana Carneiro. celebrada na Costa Rica. São Paulo: Martins Fontes. ela prevê não apenas direitos civis e políticos. o que causou a mistura e coexistência de grupos huma- nos com culturas e memórias históricas diferentes651. p. Lima: Defensoria del Pueblo.br/dados/cursos/dh/br/pb/dhparaiba/5/minorias. Doctrina. principios y normas. além dos genocídios dos regimes totalitários e do etnocídio e genocídio provenientes das con- quistas histórico-coloniais e do expansionismo econômico e modernizador. p. no Quênia. estabelece que “As pessoas pertencentes a minorias nacionais.esmpu. Disponível em: http://www.dhnet. 2004. em ambientes privados ou públicos. item 1. 5ª ed. portadoras de identidade cultural distinta da sociedade majoritária. Manual del Derecho de los Pue- blos Indígenas. 2007. Nesse sentido. podem existir povos dentro deste Estado. São Paulo: Saraiva. tem-se a Declaração de San José (já referida). e que são detentoras de direitos coletivos especiais para a proteção de sua existência enquanto grupo humano. 32. Disponível em: <http://www. 169 Esta necessidade de proteção de povos que se encontram dentro do Estado advém das conquistas históricas e da imigração. que empresta ênfase nos direitos dos povos. que objetiva reconhecer aos grupos hu- cultural distinta. 2010. O Direito dos Povos. Smadar. Carta africana dos direitos humanos e dos povos. aprovada pela UNESCO em 1978. aprovada em 1981 em Nairóbi. Outro ponto de necessário destaque é que a Carta Africana adota uma perspectiva coletivista. Vide AGUIRRE. o art. Minorias Étnicas. mas engloba direitos econômicos. perseguição religiosa. negação da liberdade de expressão e de consciência. . com relação ao Direito dos Po- vos na proteção de grupos humanos específicos (por sua vulnerabilidade e condição de vítima em potencial. a Carta Africana dos Direitos Hu- manos e dos Direitos dos Povos. BARRETO.br/dicionario/>. p.org. Dentro deste campo do Direito dos Povos. opressão. 2º. visando afirmar que os povos também são titulares de direitos humanos no plano interno e internacional. 651 RAWLS. 1. ele surge visando coibir grandes males da história humana. de fazer uso de seu idioma próprio. Religiosas e Linguísticas652. a qual visa proteger a identida- de de um grupo humano dentro do território dos Estados. A Afirmação Histórica dos Direitos Humanos. Programa de comunidades nativas. que prevê expressamente sobre a prática do etnocídio e afirma ainda que se trataria de uma forma de violência equiva- lente ao genocídio. Nesse sentido. Ademais. como guerras. John. Fábio Konder. livremente e sem interferência de nenhuma for- ma de discriminação”. de professar e praticar sua própria religião. por exemplo). OLIVEIRA. temos como um ramo deste a questão ati- nente à proteção de etnias. tem-se a Declaração sobre os Direitos das Pessoas pertencentes a Minorias Nacionais ou Étnicas. Vide PIOVESAN. Flávia. a Declaração sobre Raça e Pre- conceito Racial. bem como assegurar o direito dos povos à existência (art. Acesso em: 22 jul. étnicas. sociais e culturais. 652 Aprovada pela Assembléia Geral da ONU de 18 de dezembro de 1992. através da Resolução 47/135. dentre os documentos que podem ser inseridos no contexto do direito dos povos. é necessário não se vincular a noção de povo com a existência de um Estado. 2ª ed. 5. p.gov. Isabela Lima de.html>. ANTEBI. Assim. 2011. 395. Francisco Ballón. 2001. No campo jurídico internacional. 20)653. Vide MONTEIRO. 653 COMPARATO. Linguísticas e Religiosas. sob os auspícios da UNESCO em dezembro de 1981.

Acesso em: 28 abr. o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos. Smadar. Ainda destaca que todo povo tem direito a que não se lhe imponha uma cultura estrangeira (art. conjuntamente com outros membros de seu gru- po. No que diz respeito à língua. 2011. 2011. de professar e praticar sua própria religião e usar sua própria língua”. Gley Porto. p. Acesso em: 28 abr. nesse campo.dhnet. No mesmo documento. 655 Refere o art. op. ANTEBI. Neste aspecto destacam-se a Declaração Universal dos Direitos dos Povos (conhecida como Carta de Argel). Ainda no texto da Declaração.dhnet. 27: “Nos Estados em que haja minorias étnicas. o direito ao uso da língua em âmbito privado e público e. 656 Declaração Universal dos Direitos dos Povos. cit. 2011.org. BARRETO.br/direitos/sip/onu/discrimina/dec78. p. 27655. 170 manos o direito à diferença654.. Disponí- vel em: <http://www. contribuindo assim para o enriquecimento da cultura da humanidade. 398.htm>. bem como o direito ao respeito por sua identidade nacional e cultural. 04. que no seu art. Nenhuma outra instância pode substituí-lo para defini-lo. Isabela Lima de. e a Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas. dentre outros. item 2 da Declaração. de 1966. Adriana Carneiro. em seu art. Minorias Étnicas. ao massacre. religiosas ou lingüísticas. No entanto. Também destaca que todo povo tem o direito de falar sua língua. sua própria vida cultural. 3º considera como direitos individuais o direito a ser reconhecido como membro de uma comunidade lingüística. o direito a manter e desenvolver a própria cultura. OLIVEIRA.org/pdf/port.. 2. Disponível em: <http://www. busca-se con- ceituar “povo” como qualquer coletividade humana que tenha referências comuns a uma cul- tura e de uma tradição histórica. as pessoas pertencen- tes a essas minorias não poderão ser privadas do direito de ter. que reafirma o direito à existência (semelhante à Carta Africana dos Direitos dos Povos). Vide MON- TEIRO. ainda que indiretamente656. mediante o ensino 654 COMPARATO. 15).br/direitos/sip/textos/direitos_povos. a diversidade das formas de vida e o direito à diferença não podem servir como pretexto aos preconceitos raciais e não podem legitimar práticas discriminatórias. aprovada em 13 de de- zembro de 2007 pela Assembléia Geral da ONU. Vide Declaração sobre raça e os preconceitos raciais.html>. Acesso em: 28 abr. 1.org.ciemen. à tortura. No tocante ao direito à identidade. por causa de sua identidade nacional ou cultural. op. como dispõe o art. Fábio Konder.PDF>. destaca-se o repúdio ao etnocídio. p. dentro da temática dos direitos dos povos. 657 Declaração Universal dos Direitos Coletivos dos Povos. tem-se a Declaração Universal dos Direitos Linguísticos. 3. à deportação à expulsão ou a condi- ções de vida que possam comprometer a identidade ou a integridade do povo ao qual perten- ce. desenvolvidas em um território geograficamente determinado ou em outros âmbitos657. tem-se a Declaração Universal dos Direitos Coleti- vos dos Povos. p. destaca-se que nenhuma pessoa pode ser submetida. de preservar e desenvol- ver sua cultura. cit. Nesse mesmo sentido. Disponível em: <http://www. subsistem ainda outros instrumentos que de certa forma fazem parte da valorização da cultura e dos grupos humanos. que afirma que todo povo tem o direito a identificar-se como tal. Lingüísticas e Religiosas. .

br/onu16-1. Disponível em: <http://unesdoc. o texto da Convenção estabelece princípios diretores. inseparável do respeito à dignidade humana. tem-se a Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural. Convenção sobre a proteção e promoção da diversidade das expressões culturais.org. 659 Declaração dos Princípios de Cooperação Cultural Internacional. são necessárias políticas governamentais de preservação de identidades (como manutenção de idiomas em extinção. 2. pode-se afirmar que sub- siste uma tendência à atenção à proteção da identidade cultural. Disponível em: <http://www. 660 UNESCO. Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural. 1.nepp- dh. 2011. Nesse campo. p. 2011.br/direitos/deconu/a_pdf/dec_universal_direitos_linguisticos. 2011. encerrando esta descrição dos instrumentos jurídicos de menção aos direitos dos povos (e. 1). que reafirma a diversidade cultural como patrimônio comum da humanidade.html>. que dentre outros objetivos inclui proteger e promover a diversidade das expressões culturais.dhnet. celebrada em 1966. p.org/images/0015/001502/150224por. dentre eles destacam-se o princí- pio do respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais e o princípio da igual dig- nidade e do respeito por todas as culturas661. Por derradeiro. Acesso em: 28 abr.ufrj. 661 UNESCO.pdf>. além de referir que todos os povos têm o direito e o dever de desenvolver as respectivas culturas659. os instrumentos internacionais citados expressam uma intenção de se efetivar os direitos humanos dos povos. Disponível em: <http://www. Também subsiste a Declaração dos Princípios da Cooperação Cultural Internacional. que por conseguinte visa pre- venir e reprimir a prática do etnocídio. por conseqüência.org/images/0012/001271/127160por. Acesso em: 28 abr. em particular os direitos das pessoas que pertencem a minorias e os povos autóctones660. Ainda. de prevenção e repressão ao etnocídio). Como já referido.unesco. 171 da própria língua e da própria cultura658. Por fim. devendo ser reconhecida e consolidada em benefício das gerações presentes e futuras (art. Ela implica o compromisso de respeitar os direitos humanos e as liberdades fundamentais. Acesso em: 29 abr. Ainda ressalta. dentre outros aspectos. que a afirma que todas as culturas fazem parte do patrimônio comum da humanidade. Acesso em: 09 jun. Disponível em: <http://unesdoc. a simples existência destes documentos não pode servir como único parâ- metro para a efetivação dos direitos humanos dos povos e a prevenção e repressão ao etnocí- dio. A partir de todos estes instrumentos internacionais relatados. preservação da memória histórica e medidas de 658 Declaração Universal dos Direitos Linguísticos. que a defesa da diversidade cultural é um imperativo ético. subsiste a Convenção sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais. especialmente visando a preservação de suas respectivas línguas e culturas. .unesco. No entanto. ratificado pelo Brasil por meio do Decreto Legislativo 485/2006. 2011.pdf>.pdf>.

todos aqueles que podem ter as condições de agir na esfera pública ou privada para garantir os direitos dos grupos humanos ameaçados pelo extermínio físico ou cultural. mas uma ética libertadora. . como preceitos de conduta que guiam as relações humanas.4. reprodução e desenvolvimen- to da vida humana na sua dimensão corpóreo-cultural Como um possível fundamento a auxiliar na observação e efetivação dos direitos dos povos. ou em termos de ação visando à proteção da existência de grupos humanos vulneráveis. ainda que brevemente. faz-se necessário expor primeiramente a questão relativa à ética. bem como a sua importância para se promover um juízo filosófico e ético-crítico por parte dos agentes sociais662. A prática filosófica.1 Uma ética libertadora como princípio – produção. mas entendendo a proteção da identidade cultural como um elemento centrado na ideia de preservação da vida humana em seus vários aspectos. 3. enfim. é uma alternativa para se buscar compreender a diversidade que é inerente à condição humana. mediante o exercício do juízo ético-crítico. seja pela falta de território. Tal reflexão nos auxilia a compreender a identidade cultural não a partir de um relativismo cultural. notadamente indígenas. ou seja. como no caso do Brasil). A filoso- fia. A filosofia e a ética da libertação também são fatores importantes para se conseguir uma projeção ético-crítica com o intuito de se compreender a realidade existente e a possibili- dade de se buscar transformá-la pela via informativo-teórica. A seguir. portanto. trataremos dos três pilares que consideramos importantes em se tratando de direito dos povos. falta de assistência à saúde ou violência ocorrente em localidades próximas a deter- minadas etnias (comunidades indígenas no Brasil. bem como sua identidade cultural. para posteriormente explanar sobre a possibilidade de sua contribuição à primazia ao direito à existência e à identidade cultural. sobre a origem e a concepção da filosofia da libertação. Este grupo de filósofos críticos seguia uma linha de 662 Entendemos por agentes sociais os diversos atores que desenvolvem atividades na relação direta ou indireta com os direitos humanos e direito dos povos. a pluralidade. é necessário tratar. por exemplo). iniciando nossa abordagem pela ética na acepção dusseliana. principalmente histórico-corpóreo-cultural. entendida como prática libertadora na proteção aos grupos humanos e etnias diversas. A filosofia da libertação surge ao final da década de sessenta e início da década de setenta na Argentina. Não uma ética no sentido geral da palavra. na acepção de Enrique Dussel. Destarte. quando um grupo de filósofos proclamou a opção por se voltar à condi- ção dos pobres desde o âmbito filosófico. 172 proteção e preservação de grupos humanos.

Assim. dentre ou- tros. Filosofía. David Sánchez. A idéia de libertação é o elemento basilar do pensamento latino-americano que originou este movimento. Dussel é muito conhecido pelos seus estudos a partir da filosofia da libertação na atualidade. 663 RUBIO. os personagens que interpretam a realidade latino-americana desde a descrição de todos os elementos discriminadores e opressores do ser humano666. A temática dos filósofos criadores da filosofia da libertação também assentava suas bases teóricas na diversidade humana como um expoente universal. Bilbao: Desclée de Brouwer 1999. p. 666 Ibidem. p. 29. o filósofo deveria ser um intérprete crítico e considerar a figura do pobre e oprimido. Além disto. Enquanto Zea é considerado precursor desta idéia (com um estudo centrado na temática da identidade nacional e cultural dos países latino-americanos). 664 Ibidem. Em sínte- se. 30. opondo a uma cultura de dominação européia uma cultura de libertação latino-americana – passou-se a desenvolver uma filosofia da história que abordava sobre o tratamento desigual do Ocidente frente à Amé- rica Latina. b) para fazer isto. Principalmente pelos trabalhos do filósofo mexicano Leopoldo Zea – que inclusive foi um dos primeiros estudiosos a tematizar a questão da libertação. entre outros. e era preciso de- senvolver um estudo que trabalhasse esta realidade e que se tomasse consciência de sua exis- tência. são Leopoldo Zea e Enrique Dussel. ética da alteridade. A essência autêntica do latino-americano emergia nesta sua condição como marginalizado664. p. Os expoentes da filosofia da libertação. 665 Ibidem. dentre outros estudiosos. p. 31. 173 pensamento que se caracterizava a partir dos seguintes elementos663: a) consideravam que a filosofia desenvolvida até então não tratava da realidade latino-americana. o grupo de estudiosos argentinos voltou-se à necessidade de desmascarar e superar o discurso filosófico convencional. 47. . São. e que desenvolve muitos temas comuns entre seus membros. era preciso romper com o sistema de dependência e com o compo- nente filosófico que o representava e o legitimava. é um movimento filosófico contemporâneo. que surgiu na América Latina no início da década de setenta na Argentina. Derecho y Liberación en América Latina. é um dos movimentos filosóficos mais interessantes e de maior originalidade665. humanismo e identidade cultural. principalmente relativos à pobreza. fato sobre o qual aquele deveria pensar. Para David Sánchez Rubio. através do qual o Ocidente influenciava significativamente: o discurso da modernidade.

de suas circunstâncias669. David Sánchez. Tanto na proposta de Leopoldo Zea quanto na de Augusto Salazar. detectando os riscos desta dialética de dominação que estavam em seu próprio ser oprimido e dependente. destaca-se a obra intitulada “La filosofia americana como filoso- fia sin más”. bem como orientar no âmbito teórico e prático para alcançar esta libertação. orientando-a até a libertação mediante o reconhecimento do ser humano como sujeito de direitos668. A única forma para o oprimido tomar consciência da opressão era descobrir a relação de dominação. 670 Vide BONDY. 1989. p. publicada em 1969. 48. p. que afirmava a necessidade de uma filosofia da libertação que ajudasse a superar o subdesenvolvimento e a dominação da América Latina. Seria. 32. p. objetivando contribuir para a libertação dos dominados e voltar-se contra a fundamentação teórica do poder opressor entre os homens. foi um elemento importante para a compreensão da realidade e para responder à necessidade de afirmar a iden- tidade cultural de cada povo e a condição humana de seus membros. p.. encarando a realidade para buscar métodos que discutissem sobre os problemas que se apresentavam ao ser humano na sua luta pela existência672. La filosofia americana como filosofia sin más. op. Ibidem. 32. vide ZEA. 669 Nesse sentido. p. descrevendo que a América Latina estava fora da história. p. a filosofia seria vista como um instrumento de libertação. . Nesse sentido. Augusto Salazar. 46. cit. partindo do pressuposto de que a filosofia é o resultado do enfrentamento do homem e sua circunstância. As primeiras idéias sobre a filosofia da libertação partem do pressuposto de que o filósofo deveria despertar a consciência na sociedade para atuar em cada pessoa que a integra. 44. 33. partindo da condição real do povo latino-americano. 672 Ibidem. México: Editorial Siglo XXI. 1988. 673 Ibidem. com o escopo de contribuir para criar a consciência da situação histórica da América Latina. que buscava dar início ao questionamento sobre a possibili- dade de uma filosofia latino-americana. 667 Rubio refere que uma das obras que marcam a gênese da filosofia da libertação com Leopoldo Zea é a sua obra América en la historia. 671 RUBIO. Outro autor que contribuiu para o nascimento da filosofia da libertação foi Augusto Salazar Bondy670. 174 A filosofia da libertação do mexicano Leopoldo Zea667. Existe una filosofia de nuestra América? México: Siglo XXI. de 1957. uma filoso- fia que convertesse a consciência de nossa condição deprimida como povo em uma reflexão capaz de desencadear e promover a superação desta condição671. A tarefa da filosofia latino-americana seria buscar superar o discurso teórico do processo de modernização. Era uma filosofia também prática. 668 Ibidem. em suma. para transformar esta relação673. Leopoldo.

o dominado. o índio. da cultura popular marginalizada. 675 DUSSEL. ocorre com o olhar sobre o pobre. social e econômica dos seres 674 Vide a biografia de Enrique Dussel em <http://www. cit. Uma filosofia volta- da à realidade do Terceiro Mundo. no plano religioso (imposição de uma religião em detrimento da crença do colonizado). das raças não-brancas. 73. portanto. Tem consciência expressa de sua perifericidade e exclusão. etc).. . Enfrenta conscientemente as filosofias euro- péias. com o começo da modernidade que criou o eixo centro-periferia (1492). em especial aqueles que se encontram em situação de marginalização e pobreza. ou norte-americanas (tanto pós-moderna como moderna. Esta prática filosófica terá como fundamento o princípio material universal de produção. 2010.675 A partir de uma ética da alteridade. E nesta linha. relata que a experiência originária da filosofia da liberta- ção consiste em descobrir o elemento de dominação: no plano mundial. Dussel apresenta uma nova etapa da filosofia da libertação no século XXI. Nos dias atuais. reprodução e desenvolvimento da vida humana676. O fator exclusão é o ponto de partida da filosofia da libertação (exclusão das culturas dominadas. uma reflexão crítica e ética sobre a condição política. David Sánchez. dos excluídos) com pretensão de mundiali- dade. 676 RUBIO. 175 Enrique Dussel.enriquedussel. a partir da exterioridade do pobre. por sua vez. popular)...org/Home_cas. Dussel refere que A filosofia da libertação é um contradiscurso. frente à cultura periférica. no plano nacional (elite e massas). advoga-se que a realidade dependente dos excluídos exige uma filosofia totalmente voltada à defesa dos seres humanos. o negro. Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão. procedimental ou comunitarista.html>. Acesso em: 28 out. Petrópolis: Vozes. Nesse sentido. da comunidade filosófica latino-americana. a criança no processo de manipulação ideológica. fatores que se lançam num discurso filosófico crítico e que são assuntos importantes na abordagem da filosofia da libertação. Enrique. 2007. etc). e também no nível racial (discriminação das raças não-brancas). a mulher como objeto. o torturado. é uma filosofia crítica que nasce na periferia (e a partir das vítimas. p. da destruição ecológica da terra. no plano pedagógico (imposição da cultura imperial. elitária. p. o oprimido. Para isto. em especial a latino-americana674. da mulher. Esta experiência originária da filosofia da libertação. etc. no plano erótico (submissão da mulher pelo homem). destruído em sua corporalidade em muitos aspectos. op. 115. mas ao mesmo tempo tem pretensão de mundialidade. a filosofia da libertação (com os estudos de Enrique Dussel) está em nova etapa.

como a africana. A filosofia da libertação é importante para compreendermos a posição do ser humano – e da vida em si inclusive – frente ao sistema-mundo. a qual vivenciamos. ou seja. denominadas vítimas. para quem? São as maiorias populares marginalizadas e oprimidas. a asiática. é possível buscar entender a necessidade do reconhecimento dos direitos dos po- vos. 118. As reflexões da filosofia da libertação (não só voltando-se à América Latina. a possibilidade de cada pessoa humana – ou grupo humano – ser reconhecido como sujeito de direitos e de dignidade humana. 176 humanos oprimidos em todos os aspectos. O contexto local. 160-162. este será o princípio da libertação677. e também à existência de grupos humanos que possuem modo de vida próprio e suas tradições. inserir neste contexto das vítimas as minorias étnicas (em especial comunidades indígenas). que são muitas vezes incorporadas de maneira forçada às maiorias marginalizadas. A prática filosófica libertadora permite contribuir para o direito dos povos. Partindo de todas as considerações anteriores. principalmente na luta pela existência e pela identidade cultural. grupos humanos e suas diversas etnias. 679 O que não quer dizer que ao nosso entender também não possa ser explorada a partir da realidade em outras localidades. mas no âmbito mundial) retratam que a subjugação de povos ao processo modernizador globalizado se constitui como uma ameaça à reprodução da vida humana em si. 678 Ibidem. o que leva à exclusão (e muitas vezes ao extermínio). etc. ao nosso parecer. para quê? A libertação no contexto dos direitos humanos visa (do ponto de vista jurídico) estar vinculada ao conteúdo fundamental de todos os direitos humanos: o direi- to de ter a possibilidade de exercer direitos. dentre outras ações violentas. No tocante à questão da libertação contextualizada na sua relação com os direitos hu- manos – e também com o direito dos povos – é pertinente esclarecer a sua contribuição neste campo a partir de três perguntas: desde onde? para quem? e para quê?678 Desde onde? É necessário responder esta questão para referir que devemos nos situar na realidade latino-americana679. Os gru- pos humanos e povos (numa acepção mais ampla) devem ter reconhecidos os direitos à exis- tência e à identidade cultural. em nossa opinião. p. além de poder realizar ações que possam contribuir com a pre- servação destes direitos essenciais. p. ultrapassa as fronteiras. Terceiro. 677 Ibidem. olhando o ser humano que está fora do sistema- mundo e da sociedade que o exclui. . principalmente pelo fato de não estarem incluídos no sistema-mundo dominante. Pode-se também. pois a realidade dos processos populares e sociais é corrente em diversos segmentos territoriais do planeta. Em segundo lugar.

ações. e que pode atuar nas normas. nem para épocas de conflito ou revolução. op.”. Seu marco teórico é a globalização e a exclusão. p. 11. corresponde à “vida do ser humano em seu nível físico-biológico. a pretensa modernização na globaliza- ção formal do capital. a contaminação ecológica da Terra e a destruição massiva de povos e culturas exigem esta reflexão ética683. 632. raciais. p. A espantosa miséria que aniquila a maioria da humanidade no final do século XX. . que auxilie a pensar criti- camente685. É uma ética da vida cotidiana. cit. a exclusão material das vítimas deste processo. 682 Ibidem. Para isso. Vide DUSSEL. políticos. por outro lado. além de contribuir para uma prática filosófica que se empenhe na busca do reco- nhecimento dos direitos dos seres humanos enquanto membros de um povo. Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão. É uma ética cotidia- na. Um problema de vida ou mor- te. afirma-se a dignidade negada da vítima hu- mana. pode-se propor uma reflexão ético-crítica que auxilia na compreensão da realidade. 684 Ibidem. 177 A partir dos estudos da filosofia da libertação. portanto. 15. p. 13. ético-estético e até mesmo místico-espiritual. de uma etnia. no final do século XX surgem novos movimentos e ações sociais. não busca ser uma filosofia crítica para minorias. A partir dela. para a ética da libertação. 681 Ibidem. paradoxalmente. Estas palavras indicam o duplo mo- vimento em que está a Periferia Mundial: de um lado. 685 Ibidem. Com base no exercício ético-crítico. A partir da vítima. 683 Ibidem. Enrique. A ética da libertação ajuda a compreender este processo contraditório. Nesse 680 Vida humana. p. Uma ética que se fundamenta a partir do reconhecimento das vítimas. é um aspecto importante para se compreender a necessidade de se reconhecer o direito à existência aos grupos humanos – e também da maioria excluída do sistema global. na acepção de Dussel. que questiona os efeitos negativos (as vítimas) dos modelos vigentes682. que afirme a vida humana 680 ante o assassinato coletivo para o qual a humanidade se encaminha. A ética da libertação. da violência que envolve muitos grupos ameaçados. a favor das imensas maiorias da humanidade excluídas da globalização684. 15. Enrique Dussel refere que estamos diante de um sistema-mundo que está se globali- zando e excluindo.. histórico cultural. 17. ecológicos e étnicos. oprimida ou excluída. as vítimas do sistema-mundo. a maioria da humanidade.. p. a verdade começa a ser descoberta. permitindo pensar filosofica- mente o sistema-mundo que vivemos. sempre num âmbito comunitário. e afirmar uma ética da vida. a emergência de uma ética da libertação.. A ética da libertação de Enrique Dussel nos ajuda a pensar filosófico-racionalmente esta situação real da maioria da humanidade681. mi- croestruturas. p.

p. c) o momento da factibilidade. 690 Ibidem. são expostas resumidamente a estrutura de fundamentação da ética da libertação de Dussel. é importante reconhecer as vítimas como sujeitos éticos. Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão. A tomada de consciência desta negatividade é elementar para a ética da libertação. José Carlos Moreira da Silva. Enrique. a partir de uma práxis de libertação factível. seja escravo. “a existência da vítima é sempre refutação material ou ‘falsificação’ da verdade do sistema que a origina”690 691. Filosofia jurídica da alteridade – por uma aproximação entre o pluralismo jurídico e a filosofia da libertação latino-americana. Cláudia.. se antes se partia da afirmação da vida. de abertura ao Outro. realizável. A “verdade” do sis- tema-mundo é negada a partir da “impossibilidade de viver das vítimas”. de face-a-face. intersubjetiva). E diante da negação da vida na realidade. e f) o último momento. 306. como seres humanos que não podem reproduzir ou desenvolver sua vida. situa-se numa categoria de encontro deste Outro em uma relação de proximidade. ao se verificar que existem situações que impossibilitam o desenvolvimento da vida. na lição de Dus- sel689. Para Dussel. sendo esta fonte de todos os direitos. 687 Ibidem. que Dussel toma por destaque justamente a temática da alteridade. constata a exclusão vivida por esta687. criança de rua abandonada. Assim. 2006. Para Dussel. Destarte. o da nova factibilidade. Curitiba: Juruá. Precisamos reconhecer a alteridade da vítima688. imigrante estrangeiro refugiado. em relação ao sistema vigente. A contribuição teórica de Franz Hinkelammert ao projeto ético de . em que não basta que algo seja verdadeiro e válido: deve ser também factível. possibilitando a participação das vítimas. Os outros três momentos possuem uma conotação crítica. 689 DUSSEL. o Outro é o pobre. novidade em relação ao mesmo. Nele. parte-se da afirmação da vida. reproduzida e desenvolvida em todos os atos. e que são afetados por alguma situação de morte686. p. povos indígenas e outros sob ameaça de extermínio físico e cultural. Dussel pretende apontar o povo. É nessa experiência primeira que se encontra o ponto de partida para a ética de Dussel. aquele que pensa sobre o sistema e seus fun- damentos descobre a dignidade dos sujeitos e a impossibilidade de reprodução da vida da ví- tima. que transforme a realidade para a superação das negatividades. a respeito deste tema. Quando fala-se no Outro oprimido. b) o momento formal (a necessária decisão coletiva. 303. em que se cogita a possibilidade ou não de frentes de libertação. será sempre aquele que é oprimido. KROL. que foram excluídas da participação na dis- cussão. gerações futuras que sofrerão em sua corporalidade a destrui- ção ecológica. deve-se criticar o sistema vigente. Nesse sentido. uma coletividade. Para mais informações. cit. vide HO- NÓRIO. para que seja bom. Nas palavras de Dussel. vide FILHO. Este é o momento máximo de proximidade. p. como quinto elemen- to temos: d) a crítica material. 686 Ibidem. Em síntese. Heloísa da Silva. com conteúdo que explicite as vítimas e possibilite a transformação. nestes três últimos elementos parte-se de uma negação da vida. da dor da sua corporalidade. 48. alienado. p. em que o Outro significa criação. Uma ética crítica é aquela que parte da negação da vida humana e que se expressa no sofrimento das vítimas. 688 Cabe ressaltar. isto é a origem de toda a crítica ética possível. ou seja. em que observam seis etapas. 691 Um trabalho que esboça uma síntese da estrutura da ética da libertação de Dussel é o artigo intitulado “A contribuição teórica de Franz Hinkelammert ao projeto ético de libertação formulado por Dussel”. a ideia de alteridade. 178 sentido. explorado asiático. excluído. mais do que referir-se a indivíduos. em que o procedimento discursivo intersubjetivo deve ser pensado a partir da validade anti-hegemônica. Por isso deve ser produzida. operário. 375. e) a crítica formal. ou seis momentos necessários: a) o primeiro material (a vida humana como modo de realidade do sujeito ético). o Outro. 303. tendo em vista a realidade das vítimas. partindo da razão ético-crítica. op. p.

p. para quem possui implica- ções fundamentais no sentido de uma ética de conteúdo ou material. mediaciones y el “bien” como sintesis (de la “etica del discurso” a la “etica de la liberación”. 179 No âmbito da ética da libertação. 62-64. Ética da libertação em Enrique Dussel. Principios. O ser humano. Enrique. é a vida concreta de cada ser humano. Para Dussel. Ademais. com liberdade e responsabilidade. cultural. Enrique. c) O do desenvolvimento dessa vida “humana” no quadro das instituições ou culturas reprodutivo-históricas da humanidade. citado por OLIVEIRA. que propiciarão tra- zer à tona uma reflexão a partir da ética da libertação. Para tanto. ela é exposta em três momentos693: a) O da produção da vida humana.). as culturas populares e indígenas sufocadas. funções lingüísticas. Essa autocons- ciência lhe permite à vida de cada vivente viver-se: o elo organismo-vivente se constitui como um eu-corpóreo. etc). 692 DUSSEL. 1998. onde o real se atualiza como verdade prá- tica. é um ser vivente linguístico. material e contendo as funções superiores da mente (consciência. autoconsciência. autoconsciente ou autoreflexivo e por isso autorreferente: é o único vivente que recebe a vida – a cargo de ou sob sua responsabilidade. a vida humana é o conteúdo da ética de Dussel. são situações-limite como a discriminação de etnias. a vida humana é o modo-de-realidade do ser humano e preceito elementar de sua ética. que não é um anjo nem uma pedra. Ano V. 110. A vida humana. a situação de não-direito na maioria dos Estados da Periferia (diga-se América Latina e África. Acesso em: 28 abr.php/cejur/article/view/16758>. nos níveis vegetativo ou físico. In Princípios – Revista de Filosofia – UFRN. Rio de Janeiro: Lumen Júris. Antonio Carlos (Org. portanto. p.c3sl. In WOLKMER. Disponível em: <http://ojs. Trata-se do critério material universal da ética por excelência. e nem sequer um primata su- perior. Rosa Maria Rodrigues de.ufpr. 2011. 693 DUSSEL.br/ojs2/index. por exemplo). etc) como processo inicial que é continuado no tempo pelas instituições na “reprodução” (histórico. valorati- vas. n. A mera evolução ou crescimento deixou lugar para o libertação formulado por Dussel. É o âmbito da razão reprodutiva. desde uma comu- nidade de vida com outros seres humanos e em meio da realidade como natureza. como modo de realidade. 6. b) O da reprodução da vida humana nas instituições e nos valores culturais: vida hu- mana nos sistemas de eticidade históricos motivados pelas pulsões reprodutivas. que se reflete como um si-mesmo-corporal em um mundo. descoberta como mediação para a vida humana692. p. 2004. constituindo-as desde um horizonte ontológico. . Direitos humanos e filosofia jurídica na América Latina. a partir de onde se encara a realida- de. É o âmbito da razão prático- material. 14-15.

2 Uma justiça anamnética como antídoto à repetição da barbárie Além de uma ética libertadora como elemento de construção. Estes pontos são relevantes para se trazer à tona a idéia de que a reprodu- ção da vida humana igualmente ocorre sob um enfoque corpóreo-cultural. Com base nesta acepção de Dussel. . histórico cultural. Este é o primeiro passo para uma observância aos direitos humanos dos povos e. É o âmbito da razão ético-crítica. em síntese. para a ética da libertação. pode-se afirmar que a produção. sempre num âmbito comunitário. porém. Na acepção de Dussel. Além disso. sempre em comunidade. Ela se torna o fundamento basilar de uma justiça voltada para os aconteci- mentos passados. ético- estético e até mesmo místico-espiritual. reprodução e de- senvolvimento da vida humana possui uma dimensão também histórico cultural e até mesmo místico-espiritual. 180 desenvolvimento histórico. uma ética libertadora como princípio faz-se necessária. para uma prevenção ao etnocídio. situa-se o que podemos denominar de uma justiça anamnética. em especial aqueles que geraram um trauma coletivo. o que com base na reflexão de Dussel nos conduz à concepção de que aquela. a identidade cultural possui uma estreita vinculação com a corporalidade humana.4. Este elemento é basilar para inserirmos a questão referente a uma possível contribuição da ética da libertação para a preservação da identidade cultural e como fundamento para o direito dos povos – afora as justificativas anteriores apresentadas. Como foi ressaltado no primeiro capítulo deste trabalho. pois a cultura é parte integrante e sustentadora da reprodução da vida humana. observando-se a vida humana na sua acepção corpóreo-cultural. por conseguinte. na ética crítica. em face da violência exercida. 3. Para tanto. é parte integrante da re- produção da vida humana. na perspec- tiva de Reyes Mate. a vida humana. a pura reprodução de um sis- tema de eticidade que impede seu desenvolvimento exigirá um processo transformador ou crítico libertador. por seu conteúdo corporal. como já enfatizamos. Esta justiça se caracteriza. de fundamentação de um direito dos povos. corresponde à vida do ser humano em seu nível físico-biológico. pelo papel central e importante que a memória possui.

12. na base de uma filosofia da memória. Johann Babtist. 695 Ibidem. e nos dados pessoais. . Barcelona: Antropos. se estabeleceriam as angústias e inquietudes da humanidade – o geral no particular695. como um problema de justiça. reportando-se a Marcuse (filósofo alemão). 696 Ibidem. Por una cultura de la memoria. seria uma maneira de libertar- se dos fatos presentes. esta memória de liberdade é primariamente memória do sofrimento (memoria passionis)696. apontando no sentido de que a constituição do ser (ou do ser humano) depende do Outro. O idealismo levaria ao totalitarismo porque quan- do reduzimos o conhecimento das coisas à apreensão de um único elemento. se converte em orientação para a ação relacionada com a liberdade. Isto significa que a memória do passado pode permitir apresentar-se ideias perigosas e a sociedade estabelecida pareceria temer os conteú- dos subversivos da recordação. mostra-se importante fazer referência de que se trata de uma memória do sofrimento. que chamamos essência. 181 Johann Baptist Metz – teólogo cristão o qual Reyes Mate adota como uma de suas bases – possui uma visão voltada para a memória. p. Metz. que como me- mória do sofrimento. Reyes Mate. p. nesta determinação. Recordar. 1999. expondo suas considerações sobre os fundamen- tos de uma filosofia da memória. Na oportunidade. faz uma crítica à vertente idealista da filosofia. e em particular a memória do sofrimento. Outro fator importante é abarcar a memória igualmente como uma questão de justiça. assim. rompendo o todo-poderoso poder dos fatos presentes. refere que se trata de uma síntese filosófica sobre a impor- tância da memória para a filosofia como um todo e para a justiça em particular. com base na descrição anterior. A fim de fundamentar esta premissa. Mas em sua intenção prática. advertindo que a memória da história do sofrimento do mundo se converte em meio da reali- zação da razão e da liberdade694. com relação às suas conseqüências práticas (morais e políticas). Trata-se de uma referência a Levi- nás. leciona que a reposição da memória como meio de libertação seria uma das mais nobres tarefas do pensamento. A recordação evocaria na memória as restrições passadas como esperança passada. o que estamos fazendo é reduzir a riqueza da realidade a um único elemento que 694 METZ. Portanto. 10. 11. na visão de Marcuse. Metz des- taca que o conceito de memória compreende o devir prático da razão como liberdade. que aparecem de novo na recordação pessoal. Sobre a relação entre memória e liberdade. a memória se constitui como uma memória da liberdade. o autor discorre acerca da ética como filosofia primeira. Primeiramen- te. p.

o proletariado. 182 definimos como essencial. p. portanto. com independência do tempo transcorrido e da capacidade que tenha- mos de reparar o dano causado700. a raça. Outro ponto importante de seu pensamento é no sentido de que se costuma predominar a ideia de que a realidade é o que está aí. p. 19. do negativo. Isto afeta. p. à luz do ser. A injustiça cometida siga vigente. Por exemplo. 699 Ibidem. o oculto ou ocultado. ou seja. experiências fundamentais do homem têm sido abarcadas pela religião. do conflito698. o sangue. em não dá-la por prescrita sem que não seja saldada. o que restou frustrado. a ética e a ontologia se unem. é o Outro. ela faz parte deste objeto. Há que estabelecer a hipótese de uma memória que não esqueça se queremos chegar a uma teoria da justiça. como a imprescribitilidade da injustiça feita aos mortos. a justiça só pode ser uma resposta à injustiça como resposta inacabável e inacabada a algo exterior a nós699. p. O essencial pode ser a substância. Em Reyes Mate. também forma parte da realidade o que não é. cifras absolutas e excludentes697. por conseqüência. quando tratamos de uma teoria. 19-20. Justi- ça e memória – para uma crítica ética da violência. obrigando sempre a recompor o equilíbrio anterior. São Leopoldo: Editora Unisinos. o conhecimento. Reyes. Castor Bartolomé (Org. Seu pensamento. que se re- mete a Walter Benjamim. nos equivocamos se pensamos que somos nós os sujeitos da teoria. pois o negativo.). chave do seu projeto filosófico. E quando introduzi- mos o tempo estamos falando de memória. a justiça e sua crítica possuem uma potente raiz religiosa. advoga um giro ético. No entanto. 700 Ibidem. que em sua primeira tese estabelece uma revisão da crítica ilustrada e marxista da religião. Pensar o tempo histórico e a memória implica o aparecimento. o elemento tempo é fundamental. o homem. o que se faz presente. do esquecido. Como exemplo. Não somos nós. A resposta filosófica à injustiça irreparável causada às vítimas é mantê-la viva na memória da humanidade. . Na invisibilização do oculto. Sobre os fundamentos de uma filosofia da memória. 2009. In RUIZ. 13-18. Assim. O que se está dizendo a partir disso é que não há injustiça sem memória da injustiça. 698 Ibidem. O que está aí é um momento da histó- ria. o ausente. A dimensão ética aparece em um gesto ontológico de desvelar a realidade. tomam a iniciativa e colocam o conhecimento em uma posição de máxima fragilida- de. não podemos dar uma resposta à justiça convencional se não temos presente a significação da injustiça passada. 697 MATE. 21-22. como a da justiça.

Esse é o passado moral e politicamente criativo. A razão de ser da memória é tomarmos cargo das injustiças passadas. Vale mencionar que a memória digna desse nome é a memória de um passado ausente. . Por segundo. mostra-se possível buscar uma justiça que leve em conta o tempo e a memória como categorias que guiam o pensamento filosófico. Enquanto minha. o vínculo original da consciência com o passado parece residir na memó- ria. um modelo de possessão privada. Não se pode transferir as lembranças de um para a memória de outro. cabe destacar que esta está vinculada a uma memória individual e a uma memória coletiva. a recordação das in- justiças passadas passa a fundamentar nosso projeto de futuro. a memória é. tendo em conta Auschwitz. p. para todas as experiências vivenciadas pelo sujeito703. 702 RICOEUR. podemos des- tacar três traços que costumam ser evidenciados em favor do caráter eminentemente privado da memória. Aqui aparece o conceito de responsabilidade histórica que se volta para trás e não só para adiante. 703 Ibidem. o esquecimento. a memória individual seria a tradição do olhar interior. Por isso não há que perder de vista a formulação do novo imperativo categórico de Adorno. 106. O conceito de memória também remete ao fato de que não fizemos diretamente as injustiças. também há um passado venci- do. Somente em segundo lu- gar cabe falar de recordar para que a barbárie não se repita. Assim. vinculada a uma justiça anamnética. citado por Reyes Mate: repensar a verdade. Campinas: Unicamp. ao passo que a memória coletiva se configuraria a partir do olhar exterior. 107. ausente do presente. que considerada como fator fun- damental a memória. p. Porém. 34-36. a política e a moral. Nesse aspecto. para que a barbárie não se repita701. na descrição de Ricoeur. mas se recorda para fazer atual a injustiça passada e para marcar um sentido ao futuro. Foi elucidado por Aristóteles e posteriormente por Santo Agostinho que a memória é pas- 701 Ibidem. mas herdamos estes aconteci- mentos. da tradição do olhar interior. Cabe ressaltar que elas não se opõem num mesmo plano. Há um passado que é presente. 2007. No entanto. Sob a perspectiva da memória individual. mas em universos de discursos que se tornaram alheios um ao outro702. Paul. Na descrição de Paul Ricoeur. A memória. p. Por primeiro. a história. 183 A partir desta perspectiva. esse passado não se celebra. a memória parece ser radicalmente singular: minhas lembranças não são as de outrem. a memória passa a se constituir como um antídoto à repetição da barbárie. ainda que seja sob a forma modesta de proclamar a vigência da injustiça. que é o dos vencedores. ou seja.

eventualmente separados por abismos. segundo a flecha do tempo da mudança. 108. p. A segunda operação da memória: ao se tratar das noções. 705 Ibidem. que se podem chamar de aprendidas e doravante sabidas707. 108. No trabalho de Agostinho. sem que nada. as lembranças distribuem-se e se organizam em ní- veis de sentido. É principalmente na narrati- va que se articulam as lembranças no plural e a memória no singular. . É na memória que Deus é primeiramente buscado706. em terceiro lugar. orientação em mão dupla. e esse passado seria o de minhas impressões. através do presente vivo705. imediatamente numa dimensão de altura. encontro também a mim mesmo. 704 Ibidem. 109. de trás para a frente. em princípio. proíba prosseguir esse movimento sem solução de continuidade. a busca de Deus se dá. de remontar no tempo. de outro. Para Ricoeur. é sobre a maravilha da recordação que o exame se concentra: a recordação do nosso jeito de tudo o que evocamos em nossa memória atestaria que é interiormente que realizamos esses atos. 184 sado. servirá de base para a diferenciação dos lapsos de tempo à qual a história procede na base do tempo cronológico704. a memória continua sendo a capacidade de percorrer. Santo Agostinho descreve a relação entre a memória (e também o tempo). citado por Ricoeur. p. De fato. nos livros X e XI das Confissões. essa identidade cujas dificuldades e armadilhas enfrentamos acima. no pátio imenso do palácio de nossa memória. p. com efeito. de verticalidade. esse passado seria o meu pas- sado. Na sua fundamentação. mas também do futuro para o passado. não são apenas as imagens das coisas que voltam ao espírito. 110. 706 Ibidem. a diferenciação e a con- tinuidade. a memória seria duas vezes admirável: primeiro em razão de sua amplitu- de. por esse viés. mas os próprios inteligíveis. por sua vez. Finalmente. Seria por este traço que a memória garante a continuidade temporal da pessoa e. mas se estendem às noções intelectuais. Essa continui- dade me permitiria remontar sem ruptura do presente vivido até os acontecimentos mais lon- gínquos de minha infância. segun- do um movimento inverso de trânsito de expectativa à lembrança. é à memória que está vinculado o sentido da orientação na passagem do tempo. As “coisas” recolhidas na memória não se limitariam às imagens das impressões sensíveis que a memória arranca à dispersão para reuni-las. com o sentimento de que as coisas se passa- ram numa outra época. 707 Ibidem. lembro-me de mim. Assim. A memória das “coisas” e a memória de mim mesmo coincidem: aí. Na perspectiva da memória individual. De um lado. do passado para o futuro. em arquipélagos. retrocedemos à nossa infância. é essa alteridade que. à meditação sobre a memória. p.

110. Elas permitem afirmar que na realidade. Para Halbwachs. p. especi- almente aqueles marcados por medidas de violência extrema. precisa-se dos outros. as lembranças co- muns. Sua tese central é de que para se lembrar. p. é essencialmente o caminho da recorda- ção e do reconhecimento. que esse ponto de vista muda segundo o lugar que nele ocupo e que. p. para se tornar uma dimensão inerente o trabalho de recordação. Assim. do papel do testemunho dos outros na recordação da lembrança passa-se gradativamente aos papéis das lembranças que temos enquanto membros de um grupo710. e na base do ensino recebido dos outros. O espírito seria também a própria memória708. a noção de âmbito social deixa de ser uma noção simplesmente objetiva. cabe ressaltar que embora a memória coletiva extraia sua força e duração do fato de que um conjunto de homens lhe serve de suporte. A partir dos estudos de Maurice Halbwachs. Com base nestas descrições. as primeiras lembranças encontradas nesse caminho são as lembranças compartilhadas. Pode-se dizer que cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva. pode-se dizer que a relação memória individual-memória coletiva sempre estará presente quando se trata de recordar os sofrimentos passados. deve-se a este autor a ideia que consiste em atribuir à memória diretamente a uma enti- dade coletiva que ele chama de grupo ou sociedade. o testemunho não é considerado enquanto proferido por alguém para ser colhido por outro. quando e onde o fiz e da impressão que tive ao fazê-lo. 709 Ibidem. em sua obra A Memória Cole- tiva. não seria de admirar que o apelo ao testemunho dos outros constitua o tema de abertura. 185 do que fiz. E a esse respeito. Ricoeur igualmente ressalta o que ele denomina como o olhar exterior: a memória coletiva. 130. mas enquanto rece- bido por mim de outro a título de informação sobre o passado. sobrevêm todos os acontecimentos que marcaram as vítimas. nunca estamos sozinhos. por sua vez. p. 131. grande seria o po- der da memória ao ponto de nos lembrarmos até de ter nos lembrado. esse lugar muda segundo as relações que mantenho com outros meios711. É a partir de uma análise sutil da experiência de pertencer a um grupo. que a memória individual toma posse de si mesma709. 710 Ibidem. seja in- 708 Ibidem. que nos deparamos com a memória dos outros. Assim. Desta forma. esses dois fenômenos mnemônicos maiores de nossa tipologia da lembrança. . 711 Ibidem. Nesse contexto. Sendo esta estratégia escolhida. Através da dor passada e da sua partilha com os outros. Contudo. são indivíduos que se lembram en- quanto membros do grupo. 133. Por fim.

convicções ou convenções forja- das ao longo dos séculos712. p. princi- palmente pelo fato de que as vítimas destas espécies de violações de direitos humanos carre- gam consigo as experiências trumáticas vivenciadas. Contudo. o que define a justiça anamnética é entender a justiça como respos- ta à experiência da injustiça. No caso do etnocídio (e principalmente do genocídio). 712 MATE. Em segundo lugar. Para Reyes Mate. Para tanto. Os julga- mentos de Nuremberg – não obstante suas críticas – se inserem dentro desta temática. 2003. pode-se inserir igualmente outra questão: o que significa uma justiça que leve em conta o passado? Em primeiro lugar. ao genocídio ocorrido. .). 106. é a remissão dos fatos. p. esta estreita relação de com- plementaridade entre memória individual e coletiva é ainda mais presente e arraigada. estas medidas – o julgamento de Nuremberg e a votação da lei francesa – significam um passo considerável na história moral do direito. In MARDONES. 713 Ibidem. As- sim como na natureza. em que ocorrem atentados que supõem um dano irreversível – que pode significar o desaparecimento de uma espécie animal ou vegetal. 714 Ibidem. seja coletivamente. provenientes da mesma fonte: os sobreviventes da violência. estamos ante uma nova sensi- bilidade a respeito da responsabilidade atual por crimes passados que vem crescendo713. em que consis- te a experiência da injustiça? A resposta. Em 1964. La etica ante las víctimas. Tratadas estas primeiras linhas de uma valorização da memória como fator importante quando queremos abordar o tema da justiça. que fundamenta toda a teoria da justiça. MATE. O sofrimento resume a história mais secreta de cada qual e é a chave do que realmente somos714. o Parlamento francês votou uma lei que declarava a imprescritibilidade dos crimes contra a humanidade. logicamente. significaria responder a uma sensibilidade moral nova. a escuta dos gritos que causa o sofrimento humano. Neste julgamento se formulou o que ficou conhecido como “crimes contra a humanidade”. Reyes (Org. Nos casos de violência massiva – principalmente ditaduras e totalitarismos – memória individual e memória coletiva estão estreitamente ligadas. Barcelona: Antropos. sob a ótica de Reyes Mate.. guar- dando em seus arquivos os eventos traumáticos sofridos. Reyes. 108. há cri- mes que atentam contra a humanidade. referindo-se. p. En torno a una justicia anamnética. Memória individual e coletiva habitam como irmãs. José M. 106. o mesmo ocorre com a humanidade: há atentados que põem em perigo qualidades. 186 dividualmente. mutilando-a em alguns de seus momentos vitais.

unisinos. nada impede que o assassino ande solto. que conduz à superação de um conflito. Im- plica a salvação da vítima. a universa- lidade consiste na restituição. Em um primeiro nível. tudo está permitido. Disponível em: <http://www. também dos mortos e fracassados. no reconhecimento do direito de todos e cada um dos homens. Para os vencedores a suspensão dos direitos. a memória não é um adereço senão a referência fundamental. não é o um adorno. Márcia. a justiça anamnética pertence ao descobrimento de que há duas visões da realidade: a dos vencedores e a dos vencidos. Portanto. tudo o que o estado de exceção leva é uma medida excepcional. pois o que está em jogo não é somente o reconhecimento do direito à felicidade das vítimas. como processo aberto de salvação de histórias es- quecidas ou como resposta incessante a demandas de direitos insatisfeitos717. valorizando o passado violento vivido pelas vítimas. então não podemos frustrar as vítimas. o tratamento do homem como vida nua. A memória como antídoto à repetição da barbárie. os direitos que uma vez foram negados ou pisoteados. 2010. portanto. Este modelo de justiça visa uma universalidade. para a justiça anamnética. 187 Terceiro. a memória equivale então à exigência de justiça e o esquecimento é a sanção da injustiça. 113. Nesse sentido. ou seja. oferecendo-lhes uma justiça retórica.ihuonline. Para os oprimidos. Esta teoria da justiça se mostra como um constante resgate de vidas frustradas. 716 Ibidem. Os oprimidos sempre têm vivido desta maneira. vigentes. dessa felici- dade que tiveram tantos seres humanos e da qual as vítimas foram privadas. senão um ato de justiça. Se esquecemos a injustiça ou se damos por prescrita. a qual refere que a tradição dos oprimidos nos ensina que o estado de exceção é a regra. No entanto. p. p. 117-118. Para a justiça anamnética. E o papel da memória neste processo é devolver-nos o olhar do oprimido. suspendidos seus direitos. Manter viva a memória 715 Ibidem. a recordação mantém vivos. injustamente718. p. 718 Ibidem. se a memória é um ato de justiça. há que construir um conceito de história em torno desta experiência de injustiça permanente715. Nesse sentido. Em segundo lugar. mediante a atualidade de sua recordação. Esta é uma forma de universalidade que é objeto da justiça anamnética. 108. o crime passado. o que caracteriza a teoria anamnética da justiça é o lugar central que a me- mória possui719. senão muito mais: a exigência de felicidade. então tudo é possível. 717 Ibidem. a memória tem por tarefa evitar a repetição da catástrofe. advém a tese oitava de Walter Benjamim. 719 Vide JUNGES. e que a his- tória se repita. Se esquecemos o passado. p. Acesso em: 14 jul. A memória. . Terceiro.br>. ou seja. transitória. e à recuperação do perdido716. justamente esta excepcionalidade é a regra. 115.

O relato passa a ser um acontecimento”. Justicia de las victimas – terrorismo. 2005. . é o que permite romper a lógica dominante e ver os ventos da catástrofe que surgiram com o progresso. In: RUIZ. a do desenvolvimento econômico ou a da razão científica. pois este recompõe a realidade esquecida e negada. universal e abstrato e dar lugar ao olhar da vítima. antes de tudo. seja ela a da soberania nacional. a uma justiça voltada à memória. Memórias de Auschwitz: atualidade e política. A reconstrutiva tem por objeto a recons- trução da justiça das vítimas através da substituição dos vínculos entre justiça e castigo. por exemplo. 264. 722 MATE. como são o esquecimento e a injustiça722. Barcelona: Antropos. não para destruí-los ou reciclá-los. como negação de algo próprio e inalienável que pede justiça. há que considerar a mor- te física e a morte hermenêutica. Reyes Mate aduz ainda que o interesse atual pelas vítimas resultaria da confluência entre a cultura reconstrutiva e a cultura da memória. p. O ouvinte passa a ser cúmplice da testemunha. o depreciável e insignifi- cante passa a ganhar importância e significação. Fazer justiça signi- fica dar voz aos emudecidos pela marcha amnésica do progresso. Vale mencionar as seguintes considerações do autor: “Recuperar a memória não significa apenas reforçar a garantia de que as ditaduras e os totalitarismos nunca mais ocorrerão. p. 25-26. por sua vez. a memória enfrenta o assassinato hermenêutico. re- belando-se contra as ruínas do esquecimento. 2009. Isto ex- plica que justiça e memória são sinônimos. É nesse estado de vigília onde se produz o relâmpago da recordação do passado que ilumina todo o presente.). Justiça e memória: por uma crítica ética da violência. José Carlos Moreira da. reconciliación. 188 na perspectiva das vítimas é contribuir com a realização da Justiça. pois este nunca é desinteressado e distante. Reyes. É mais do que isso. Significa fazer justiça àquelas vítimas que caíram ao longo do caminho. Ela se converte em uma potência maior.121-157. A cultura da memória. Castor Bartolomé (org. Assim. significa resistir à destruição do diverso e do plural sob a desculpa da unidade. para descobrir possibilidades latentes que podem ser ativadas. A recordação das vítimas é capaz de questionar a vitória eterna dos 720 SILVA FILHO. São Leopoldo: UNISINOS. Quanto falamos de um crime. é dizer. pois quem mata empenha-se em privar de sentido. São Leopoldo: Nova Harmonia. de tirar a importância desta morte. Quem lê o passado com os olhos da memória se assemelha a um recolhedor que recolhe pedaços. Reyes. senão para ler neles o que pode ser e o que restou frustrado. graças à memória. 721 MATE. significa renunciar ao frio e distante ponto de observação neutro. Nesse aspecto. pelo vínculo da justiça e reparação às vítimas. 2008. daí o fato de recordar supõe salvar o sentido da morte ao explicar o dano inferido ao outro como uma injustiça. restaurando a humanidade em quem lhe dá ouvidos. pela memória. p. O anjo da história e a memória das vítimas: o caso da ditadura mili- tar no Brasil. José Carlos Moreira Fi- lho720 leciona inclusive que a dignidade humana passa. museus e narrativas de testemunhas sobreviventes como resistência à hegemonia da história dos vencedores721. memória. A cultura da memória estaria muito presente nos filmes.

Reyes. dentro da qual as ins- tituições estariam inseridas. de Axel Honneth. Com efeito. Jürgen Habermas. 726 Ibidem. Introdução à teoria do reconhecimento de Axel Honneth. 2006. Paul. é capaz de exorcizar os germes letais do presente sempre dispostos a repetir a história e é capaz de neutralizar a parte assassina que todos levamos dentro de si723. p. Emil Albert. a manter o que é monstruoso como inesgotável pela explicação. Honneth sustenta a tese de que a teoria habermasiana da sociedade precisaria ser criticada do ponto de vista do horizonte de dimensão de intesubjetividade social. a fim de se buscar não repeti-los e garantir um legado de reconhe- cimento das violências sofridas. 725 SAAVEDRA. vol. 2011. 1. janeiro-abril de 2008. 1991. p. Graças à me- mória e às narrativas que preservam essa memória. Acesso em: 05 jun. Este elemento se caracteriza pela busca de uma não instrumentalida- de do ser humano. p. Em um segundo momento. 1. os autores referem que Honneth pro- cura desenvolver sua própria versão da teoria crítica.4. 3. 724 RICOEUR.pdf>. 1. 240-241. Axel Honneth é considerado o atual representante da tradição filosófica da Escola de Frankfurt725. n. A fim de fundamentar o reconhecimento como prática ético-jurídica e de base para os direitos humanos dos povos. p. a tarefa da memória consiste em preservar a dimensão escandalosa do acontecimento. Em um primeiro momento. 213. Honneth procura mostrar as insuficiências da versão da teoria crítica desenvolvida por Jürgen Habermas. aliando-se a pensadores como Max Horkheimer. preservando a lembrança dos acontecimentos passados. Giovani Saavedra e Emil Sobottka referem que sua teoria foi desen- volvida em dois momentos distintos726. visando preservar sua humanidade e sua dignidade.3 O reconhecimento como prática ético-jurídica Um terceiro possível fundamento para uma observância aos direitos humanos dos po- vos é o reconhecimento. In Civitas – Revista de Ciências Sociais. Barcelona: Antropos. Eis mais um elemento que pode contribuir para uma maior efetivação dos direitos hu- manos dos povos: uma justiça que tome a cargo a memória. A hermenêutica bíblica. Adorno. . Theodor W. a unicidade do horrível é preservada de um nivelamento pela explicação724. São Paulo: Loyola. Giovani Agostini.mx/pdf/742/74211531002.uaemex. expomos estas considerações com base na teoria do reconhecimento. SOBOTTKA. Para os auto- res. 8. Disponível em: <http://redalyc. estabelecendo que a primeira versão da teoria habermasiana da sociedade poderia ser melhor desenvolvida com base no conceito he- 723 MATE. 189 vencedores. dentre outros. La razón de los vencidos.

Na acepção de Hegel. Para tanto. Tomar. faz-se necessário traçar alguns elementos constitutivos da ideia de reconhecimento na acepção hegeliana. E é na consciência de si que ele se eleva à condição de sujeito. eleger esta ou aquela solução filosófica para ajudar a resolver a pró- pria não implica renunciar a esta forma de originalidade que a Europa nos tem ensinado 728. as suas ideias fundadas em termos de liberdade e reconhecimento podem contribuir para uma fundamentação dos direitos dos povos. dotado de uma consci- ência de si. p. 190 geliano de luta por reconhecimento727. pela mesma forma. 730 Ibidem. O homem. 29. ainda que as soluções que ofereçam não seja necessariamente as mes- mas. assevera que o traço característico do ser humano é o pensar. 729 SALGADO. p. Para tanto. Um homem enquanto individuali- dade. Pelo pensar o homem se diferencia substancialmente de todos os outros seres. particular. selecionar. 245. o qual. cit. . Joaquim Carlos Salgado729. dos problemas de uma certa realidade. emanadas de uma certa circunstância. pelo reconhecimento do outro. Leopoldo. sujeito irrepetível. Joaquim Carlos. “a consciência-de-si só alcança sua satisfação em uma outra consciência- 727 Ibidem.. é sujeito. antes de se abordar a teoria do reconheci- mento proposta por Honneth. p. Não obstante a filosofia de Hegel seja conhecida por seu viés eurocêntrico e linear. individualidade para si. A idéia de justiça em Hegel. é capaz de se conhecer como indivíduo. uma teoria crítica da sociedade deveria estar voltada em interpretá-la a partir da categoria “reconhecimento”. 1996. 247. Cabe ressaltar que embora possa haver certa contradição entre as propostas teóricas anteriores (partindo de Dussel e Reyes Mate) e a filosofia de Hegel – já que autores como Dussel elaboram sua filosofia a partir de uma crítica principalmente ao modelo hegeliano – a proposta nesta breve exposição é agregar a teoria de reconhecimento como fator importante em termos de direitos dos povos. diferentemente do animal. São Paulo: Loyola. tecendo considerações a respeito da temática relativa ao reconhecimento. que o reconhece 730. 1. podem de alguma forma servir à solução dos problemas de outra realidade e dar luzes sobre a mesma. 728 ZEA. Esse sujeito que somente pode ser ele mesmo. esse sujeito que sabe que só pode ser ele mesmo. Pode-se dizer que a ideia de reconhecimento proposta por Honneth possui uma pro- funda influência da filosofia de Hegel. Nesse sentido. tendo consciência das peculiaridades da filosofia hegeliana. p. sujeito irrepetível como em si e para si. buscamos agregar a teoria do reconhecimento como base de um direito dos povos. sobretudo considerando que as filosofias realizadas. op.

mas concretamente nas relações que os homens travam entre si no curso da história. mas como uma explicitação radical de toda relação de dominação entre seres livres. 732 Ibidem. vale dizer. Na obra Fenomenologia do Espírito. quer dizer. Georg Wilhelm Friedrich. para tanto. 735 Ibidem. op. Para ele. A afirmação dessa liberdade ou o seu reconhecimento. Fenomenologia do espírito. não só apenas por um processo abstrato do conhecer. é explicitação radical da realidade revela- da na ideia de liberdade734. Joaquim Carlos. portanto. 3ª ed. é o que mostra o discurso da Fenomenologia na matéria da história735. 142. p. narrada pelo filósofo). Esta ideia de liberdade é ao mesmo tempo o vírus deletério das estruturas de domina- ção e o germe vital da plena reconciliação do Espírito consigo mesmo numa organização polí- tica de liberdade. individualizados. Pelo reco- nhecimento como indivíduo revela-se a socialidade do homem. “a consciência-de-si é em si e para si quando e por que é em si e para si para uma Outra. o processo de formação do homem livre tem o seu momento de maior significação na luta pelo reconhecimento. 247. sujeitos. mas livres. esta dialética da relação senhor-escravo não deve ser vista como algo restrito a um período históri- co. 2005. p. Contudo. cit. ele sabe ser único ao mesmo tempo que igual. Hegel acompa- nhará os passos do indivíduo livre na história para a construção de uma nova ordem social: a sociedade racional do indivíduo livre. somente como consciência de si para outra consciência de si. 191 de-si”731. Nessa dialética do ser único e ao mesmo tempo igual está a possi- bilidade de uma sociedade de seres iguais. 141. só é como algo reconhecido”732. p. depois como liberdade de todos na unidade da substância e do sujeito. Nesse sentido. cujo saber é a demonstração da necessidade histórico-dialética do reconhecimento universal. p. ainda na descrição do filósofo alemão. Com efeito. risco decorrente do próprio fato da liberdade. pelo reconhecimento733. p. 734 Ibidem. . na medida em que é eu e objeto ao mesmo tem- po. 249. ela é Espírito cuja dialética começa pela cisão da luta de morte e da desigualdade do se- 731 HEGEL. 733 SALGADO. Hegel irá descrever o processo de formação do homem livre. a descrição de Hegel sobre o processo do reconhecimento (em correlação com a dialética do senhor e do escravo. no reconhecimento. Em síntese. pela afirmação da liberdade da individualidade do homem na relação com o outro. pre- cisamente na figura da relação de trabalho travada entre o senhor e o escravo. São Paulo: Vozes. 250.. E para sê-lo como tal é necessário o reconhecimento do outro. é como individualidade que o homem se conhece e pretende ser. primeiro como liber- dade do sujeito.

O processo de reco- nhecimento é exatamente essa conquista da igualdade das consciências de si. 27. 27. os quais por sua vez seriam ligados a processos históricos de aprendizagem. Na obra citada. op. temos a degradação como forma de desrespeito739.php/TeoriaeCultura/article/viewFile/1107/911>. pode-se dizer que os primeiros passos de seu construto teórico remetem à categoria de depen- dência absoluta. consideradas como fonte de conflitos sociais. Giovani Agostini. sendo que cada forma de reconheci- mento corresponde à respectiva forma de desrespeito. Giovani Agostini. comprovar de forma dialé- tica a importância e a necessidade das relações de reconhecimento738. Luta por re- conhecimento. Elaborando uma explicitação da estrutura da teoria do reconhecimento de Honneth. Esta categoria corresponde à primeira fase do desenvolvimento 736 Ibidem. na forma de reconhecimento do direito.editoraufjf. Reificação versus reconhecimento – sobre a dimensão antropológica da teoria de Axel Honneth. 739 Aprofundaremos a análise das experiências de desrespeito posteriormente. 27. à forma de reconhecimento da solidariedade. em segundo lugar. em que o objetivo principal seria a ampliação horizontal das relações de reconhecimento740. Honneth diferencia três esferas de reconhecimento e três formas de desrespeito. conhecendo-se como livre. p. se conhece no outro.br/revista/index. p. em um primeiro momento. por fim. a partir das chamadas “experiências de desrespeito”. Acesso em: 07 jun. o autor desenvolve o que se denomina de conceito negativo do reconhecimento. Por negativo significa dizer que Honneth não pretende definir o que significa reconhecimento. Cabe destacar que estas formas de reconhecimento e seu respectivo desrespeito seriam. Na forma de reconhecimento do amor. cabe salientar que em sua obra. 738 Ibidem. temos a privação de direitos como desrespeito e. Honneth apresenta pela primeira vez sua teoria de forma sistemática 737. temos a violação como desrespeito. ou se vê também no outro (num duplo conhecimento). por que igual736. em que o eu se conhece em primeiro lugar nele mesmo e. 740 SAAVEDRA. Disponível em: <http://www. até o advento do nós ou do momento em que a consciência é um eu e um nós. p.com. isoladamente. cit. Esse momento luminoso só será realizado quando a consciên- cia de si reconhecer a outra consciência de si como tal. mas pretende. cisão decorrente do fato de reivindicar a consciência de si. Em resumo. p. a absoluta universalidade e reconhecimento. de Winnicot. como para si. 253. ou seja. No tocante à linha adotada por Honneth. conheça a outra como também livre e para si. 192 nhor e do escravo. . como igual. 737 SAAVEDRA.. seriam estas as linhas gerais da concepção de reconhecimento em Hegel. Reificação versus reconhecimento – sobre a dimensão antropológica da teoria de Axel Honneth. como para si. 2011.

ou seja. Emil Albert.. op. 745 HONNETH. op. Esta autora constata que os fenômenos de expressão agressiva da criança nesta fase acontecem em uma forma de luta. a mãe precisa aprender a aceitar o processo de amadure- cimento que o bebê está passando. a criança sai do estágio de dependência absoluta e passa para o estágio de “de- pendência relativa”. este estado de dependência absoluta vai se dissolvendo. a carência e a de- pendência total da criança. Por outro lado. bem como o direcionamento completo da atenção da mãe para a satisfação das necessidades do bebê fazem com que entre eles não exista nenhuma espécie de individualidade. cit. Luta por reconhecimento. p. com o retorno gradativo às tarefas diárias. 10. 2003.. p. Luta por reconhecimento. op. Introdução à teoria do reconhecimento de Axel Honneth. 744 Ibidem. a partir desta experiência de reconhecimento recí- proco. Ela sai do estado de “absoluta dependência” porque a própria dependência em relação à mãe entra em seu campo de visão. 10. Axel. 743 Ibidem. propositadamente. 10. p. 747 HONNETH. de modo que ela agora aprende a referir seus impulsos pessoais. p. SOBOTTKA. São Paulo: Ed. de dependência recíproca. a certos aspectos da assistência materna745. 742 Ibidem. uma vida em comum estreitamente ligada. 193 infantil. 10. os dois começam a vivenciar também uma experiência de amor recíproco sem regredir 741 SAAVEDRA. p. op. Assim. SOBOTTKA.. Giovani Agostini. Assim. 167. p. Emil Albert. Axel. SOBOTTKA. mas como objeto com direito próprio746. Introdução à teoria do reconhecimento de Axel Honneth.. Introdução à teoria do reconhecimento de Axel Honneth. a mãe não está mais em condições de satisfazer as carências da criança imediatamente743. Emil Albert. em que a criança reconhece a mãe não mais como parte de seu mundo. 746 SAAVEDRA. Giovani Agostini. cit. 748 SAAVEDRA. . Esta situação estimula na criança o desenvolvimento de capacidades que a tornam capaz de se diferenciar do seu ambiente744. p. Aos poucos. a criança precisa se acostumar com a ausência da mãe. que ajuda a criança a reconhecer a mãe como um ser independente com reivin- dicações próprias748. 10. e ambos se sintam como unidade742. O primeiro mecanismo é interpretado por Honneth a partir dos estudos de Jessica Benjamin. p. Nesse sentido. 168. cit. por um processo de ampliação da independência de ambos. Com média de 6 anos de idade. na qual a mãe e o bebê se encontram em estado de relação simbiótica741. Giovani Agostini. 34. A criança pequena é capaz de resolver esta tarefa de reconhecimento na medida em que seu ambiente social lhe permite a aplicação de dois mecanismos psíquicos que servem em comum à elaboração afetiva da nova experiência: o primeiro mecanismo é tratado por Win- nicot como “destruição” e o segundo é tratado como “fenômenos transicionais”747. porquanto com a volta às atividades diárias. 10. cit.

um sujeito somente conseguiria obter reconhecimento jurídico quando ele é reconhecido como membro da comunidade e apenas em função de sua posição ocupante nesta sociedade753. o que corresponderia também a uma mudança estrutural nas relações de reconhe- cimento: não seria mais permitido atribuir exceções e privilégios às pessoas em função de seu status. 754 Ibidem. com base nesta constatação. 11. Quando a criança experimenta a confiança no cuidado paciencioso e duradouro da mãe. em sociedades desse tipo. . Ou seja. devendo o direito ser geral e suficiente para levar em consideração todos os interesses de todos os parti- cipantes da comunidade. o sistema jurídico deve combater estes privilégios e exceções. 11. 749 Ibidem. 11. O nível do reconhecimento do amor seria o núcleo fundamental de toda moralidade. Assim. Contudo. no entanto. ela passa a estar em condições de desenvolver uma relação positiva consigo mesma750. Com efeito. Honneth denomina esta nova capacidade da criança de autoconfiança. a argumentação desenvolvida por Honneth consiste em apresentar o surgimento do direito moderno em uma perspectiva histórica. 194 ao estado simbiótico. Na esfera de reconhecimento do direito. ela estará em condições de desenvolver a sua personali- dade. o que possibilita encontrar uma nova forma de reconhecimento. a análise do direito desen- volvido por Honneth explicita uma nova forma de reconhecimento jurídico que surge com a modernidade754. este tipo de reconhecimento seria responsável não somente pelo desenvolvimento do auto-respeito. Honneth esboça os princípios fundamentais do primeiro nível de reconhecimento: o amor. 753 Ibidem. p. com base nos estudos de Winnicot. 10. 750 Ibidem. ao contrário. p. a criança somente estará em condições de desenvolver o se- gundo mecanismo se ela tiver desenvolvido com o primeiro uma experiência elementar de confiança na dedicação da mãe749. p. p. 11. Na transição para a modernidade. há uma espécie de mudança estrutural na base da sociedade. mas também pela base de autonomia necessária para a participação na vida pública752. p. 751 Ibidem. 11. inclusive esta capacidade de autoconfiança seria a base das relações sociais entre adul- tos751. com esta capacidade. p. 752 Ibidem. Giovani Saavedra e Emil Sobottka referem que o autor pretende demonstrar que o tipo de reconhecimento das sociedades tradi- cionais seria aquele estabelecido na idéia de status. Com efeito.

12. a esfera do reconhecimento jurídico criaria as condições que permitem ao sujeito desenvolver auto-respeito758. Hon- neth sustenta que as três esferas dos direitos fundamentais. ou seja. são o fundamento da forma de reconhecimento do direito. 757 Ibidem. p. a fim de decidir racionalmente sobre questões morais755. p. no caso da valoração social são postas em destaque as propriedades que tornam o indi- víduo diferente dos demais. Para o direito. 12. . influenciado pelos estudos de T. Para ele. 12. sob a qual permanentemente novas condições para a participação na formação públi- ca vem à tona. a pergunta será: como a propriedade constitutiva das pessoas de direito deve ser definida? No caso do juízo de valor a questão é: como se pode desenvolver um sistema de valor que está em condições de medir o valor das propriedades características de cada pessoa760. 759 Ibidem. p. 12. 758 Ibidem. diferentemente do caso da forma de reconhecimento do direito. Com base nestes aspectos. o autor desenvolve seu segundo nível de reconhecimento a partir da tradição dos direitos fundamentais liberais e do direito subjetivo. 756 Ibidem. Marshall. 12. a luta por reconhecimento é vista como uma pressão. reco- nhecer-se reciprocamente como pessoas jurídicas significaria hoje muito mais do que no iní- cio do desenvolvimento do direito: a forma de reconhecimento do direito contemplaria não só as capacidades abstratas de orientação moral. os sujeitos de direito necessitam estar em condições de autonomia. Por conseqüência. vem mostrar que a his- tória do direito moderno deve ser reconstruída como um processo direcionado à ampliação dos direitos fundamentais756. que proteja a chance de participação na formação pública da vontade e que garanta um mínimo de bens materiais para a sobrevivência 757. Na esfera de reconhecimento da solidariedade ou comunidade de valores. 12. ou seja. H. 195 Para Honneth. p. as propriedades de sua singularidade759. os atores sociais somente conseguem desenvolver a consciência de que eles são pessoas de direito no momento em que surge historicamente uma forma de proteção jurí- dica contra a invasão da esfera da liberdade. p. p. com suas respectivas diferenças históricas. desenvolve- se o que Giovani Saavedra e Emil Sobottka consideram um tipo normativo ao qual correspon- dem as diversas formas práticas de auto-relação valorativa. em que são postas em relevo as propriedades gerais do ser hu- mano. 760 Ibidem. 755 Ibidem. O autor. mas também as capacidades concretas necessá- rias para a existência digna. Nesse sentido.

p. p. então. 13. vinculativa e in- tersubjetiva761. com o processo de in- dividualização das formas de reconhecimento surge nesta esfera de reconhecimento a possibi- lidade de um tipo específico de auto-relação: a autoestima. p. 762 Ibidem. O autor parte do princípio de que uma pessoa desenvolve a capacidade de sentir-se valo- rizada somente quando as suas capacidades individuais não são mais avaliadas de forma cole- tivista. Honneth analisa a transição da sociedade de tipo tradicional para a moderna como uma espécie de mudança estrutural desta terceira esfera do reconhecimento: assim que a tradição hierárquica de valoração social. 196 Nesse sentido. 13. na qual se desenvolve permanentemente uma luta por reconhecimento764: os diversos grupos sociais necessitam desenvolver sua capacidade de influenciar a vida pública a fim de que sua concepção de vida boa encontre reconhecimento social e passe. de um lado. Como no caso das relações jurídicas. 765 Ibidem. como referem Giovani Saavedra e Emil Sobottka. vai sendo dissolvida. a fazer parte do sistema de referência moral que constitui a autocompreensão cultural e moral da comunidade em que estão inseridos765. p. 14. 763 Ibidem. Simetria 761 Ibidem. p. Porém. A solidariedade na sociedade mo- derna está vinculada à condição de relações sociais simétricas de estima entre indivíduos au- tônomos e à possibilidade de os indivíduos desenvolverem a sua auto-realização. porque nesta nova forma de organização social há. Honneth procura mostrar que com a transição da sociedade tradicional para a sociedade moderna surge um tipo de individualização que não pode ser negado. 764 Ibidem. . uma busca individual por diversas formas de auto-realização e. 13. A ter- ceira esfera do reconhecimento deveria ser vista como um meio social a partir do qual as pro- priedades diferenciais dos seres humanos venham à tona de forma genérica. as formas individuais de desempenho começam a ser reconheci- das. um permanente processo de luta. Disso resulta que uma abertura do horizonte valorativo de uma sociedade às variadas formas de auto-realização pessoal somente se dá com a transição para a modernidade762. Além disso. progressiva- mente. Essa espécie de tensão social que oscila en- tre a ampliação de um pluralismo valorativo que permita o desenvolvimento da concepção individual de vida boa e a definição de um pano de fundo moral que sirva de ponto de refe- rência para a avaliação social da moralidade faz da sociedade moderna uma espécie de arena. 13. a busca de um sistema de avaliação social763. em função dessa mudança estrutural existe no centro da vida moderna uma permanente tensão. de ou- tro.

br/edipucrs/Crimin. violação e constrangimento. provocaria um grau de humilhação que interferiria destrutivamente na autorrelação prática de um ser humano. esclarecido por Hegel e Mead. cit. p. 768 HONNETH. b) privação de direitos e exclusão e c) degradação. em que são tiradas violentamente de um ser humano todas as possibilidades de livre disposi- ção sobre seu corpo. Porto Alegre: Edipucrs. capaz de desmo- ronar a identidade da pessoa inteira769. identificada com o conceito de “desrespeito”: visto que a auto- imagem normativa de cada ser humano depende da possibilidade de um resseguro constante no outro. Honneth adverte que estas formas de desrespeito – ou de reconhecimento recusado. Axel. visa-se àquele aspecto de um comportamento lesivo pelo qual as pessoas são feridas numa compreen- são positiva de si mesmas. valorização social ou prin- cípio do êxito). as quais seriam as fontes de con- flito social767: a) maus tratos. o autor distingue três formas de desrespeito. Luta por reconhecimento. Criminologia do reconhecimento: linhas fundamentais de um novo paradig- ma criminológico. 2010. à medida que Honneth desenvolve as três esferas do re- conhecimento (amor. pois a particularidade dos modos de lesão física. . 215. direito ou igualdade jurídica e solidariedade. 769 Ibidem. Seria a partir do entrelaçamento interno de indivi- dualização e reconhecimento. Acesso em: 07 jun.). 14.pucrs.II.Jurid. empreendida con- tra a sua vontade e com qualquer intenção que seja.pdf>. com mais profundida- de do que outras formas de desrespeito. A razão disso seria que toda tentativa de se apoderar do corpo de uma pessoa. Como referido anteriormente. co- 766 Ibidem. 213. Especificamente com relação à primeira forma de desrespeito – maus-tratos. Giovani Agostini. p. que resulta a vulnerabilidade particular dos seres humanos. além disso.. Também acres- centa a existência de um nexo indissolúvel entre a incolumidade e a integridade dos seres hu- manos e o assentimento por parte do outro. 98. vai de par com a experiência de desrespeito o perigo de uma lesão. como refere o autor – designam um comportamento que não representa uma injustiça só por- que ele estorva os sujeitos em sua liberdade de ação ou lhes inflige danos. Criminologia e sistemas jurídico-penais contemporâ- neos II. representando a espécie mais elementar de rebaixamento pessoal 770. que elas adquiriram de maneira intersubjetiva768.eSist. 213-214. p. violação ou constrangimento.PenaisContemp. p. In GAUER. Ruth Maria Chittó (Org. 197 aqui significaria que os atores sociais adquirem a possibilidade de vivenciarem o reconheci- mento de suas capacidades numa sociedade não-coletivista766. Honneth assevera que se trata de um tipo de desrespeito que toca a ca- mada da integridade corporal de uma pessoa: seriam aquelas formas de maus-tratos práticos. op. 767 SAAVEDRA. Disponível em: <http://www. p. 770 Ibidem. 2011.

216. Para tanto. 775 Ibidem. 216. . a particularidade nas formas de desrespeito. p. p. com efeitos dura- douros. chegando à perda do senso de realidade771. o autor entende como aquelas pretensões individuais com cuja satisfação social uma pessoa pode contar de maneira legítima. daí a conseqüência ser também. a forma mais elementar de autorrelação prática: a confiança em si mesmo773. 198 mo ocorre na tortura ou na violação. a privação de direitos. inscrita nas experiências de maus-tratos corpo- rais que destroem a autoconfiança elementar de uma pessoa774. participa em pé de igualdade de sua ordem institucional. p. 216. Por “direitos”. trata-se de uma experiência de desres- peito infligida a um sujeito pelo fato de ele permanecer estruturalmente excluído da posse de determinados direitos no interior de uma sociedade775. 772 Ibidem. 215. 776 Ibidem. p. então estaria implicitamente associada a isso a afirmação de que não lhe é concedida imputa- bilidade moral na mesma medida que aos outros membros da sociedade776. 215. na capacidade de coordenação autô- noma do próprio corpo. com efeito. p. para o indivíduo. 215. que se estenderia até as camadas corporais do relacionamento prático com outros sujeitos772. já que ela. não é constituída pela dor puramente corporal. 773 Ibidem. p. moralmente em pé de igualdade. o que seria aqui subtraído da pessoa pelo desrespeito em termos de reconhecimento seria o respeito natural por aquela disposição autônoma sobre o próprio corpo que. a integração bem-sucedida das qualidades corporais e psíquicas do comportamento é depois como que arrebentada de fora. 774 Ibidem. aprendida através do amor. a denegação de pretensões jurídicas socialmente vigentes significaria ser lesado na 771 Ibidem. como membro de igual valor em uma coletividade. se agora lhe são denegados certos direitos dessa espécie. mas por sua ligação com o sentimento de estar sujeito à vontade de um outro. foi adquirida primeiramente na socialização mediante a experiência da dedicação emotiva. por seu turno. Na segunda forma de desrespeito – ou experiências de rebaixamento que afetam seu autorrespeito moral. portanto. de acordo com Honneth. Os maus-tratos físicos de um sujeito representariam um tipo de desrespeito que fere duradouramente a confiança. qual seja. destruindo assim. não representaria somente a limitação violenta da autonomia pessoal. uma perda de confiança em si e no mundo. Esta primeira forma de desrespeito está. Por isso. sem proteção. mas também sua associação com o sentimento de não possuir o status de um parceiro da interação com igual valor. como as existentes na privação de direitos ou na exclusão social.

A “honra”. nesse sentido. Ademais. uma perda da au- toestima social. de depreciação de modos de vida individuais ou coletivos. 778 Ibidem. lesaria uma pessoa nas possibilidades de seu autorrespei- to778. em verdade seria somente com essas formas. ou seja. tem-se a degradação. ou seja. considerando-as de menor valor ou deficientes. iria de par com a experiência da privação de direitos uma perda de auto-respeito. Esse se- gundo tipo de desrespeito. de desrespeito. o que aqui seria sub- traído da pessoa pelo desrespeito em termos de reconhecimento seria o assentimento social a 777 Ibidem. Honneth destaca que este tipo de rebaixamento se refere negativamente ao valor social de indivíduos ou gru- pos. p. mas também pelo alcance material dos direitos institucionalmente garantidos. a degradação valorativa de determinados padrões de autorrealização teria pa- ra seus portadores a conseqüência de eles não poderem se referir à condução de sua vida co- mo a algo a que caberia um significado positivo no interior de uma coletividade. de certo modo valorativas. 780 Ibidem. . Por fim. 217. por isso. 217. como terceira forma de desrespeito. Honneth adverte que essa forma de desrespeito representaria uma grandeza historicamente variável. iria de par com a experiência de uma tal desvalorização social. teria de ser adquirida a custo em processos de interação socializadora777. ela tiraria dos sujeitos atingidos toda a possi- bilidade de atribuir um valor social às suas próprias capacidades780. p. 779 Ibidem. 217. por seu turno. uma perda da capacidade de se referir a si mesmo como parceiro em pé de igualdade na interação com todos os próximos. a “dignidade” ou “status” de uma pessoa referir-se-ia à medida de estima social que é concedida à sua maneira de autorrealização no horizonte da tradição cultural. que se alcançaria a forma de com- portamento que se designaria hoje em termos como “ofensa” e “degradação”779. 217. se agora essa hierarquia de valores se constitui de modo que ela degrada algumas formas de vida ou modos de crença. 199 expectativa intersubjetiva de ser reconhecido como sujeito capaz de formar juízo moral. uma perda de possibilidade de se entender a si próprio como um ser estimado por suas propriedades e capacidades características. para o indivíduo. o que se subtrai aqui da pessoa pelo desrespeito em termos de reconhecimento seria o respeito cognitivo de uma imputabilidade moral que. para tanto. portanto. p. visto que o conteúdo semântico do que é considerado como uma pes- soa moralmente imputável tem se alterado com o desenvolvimento das relações jurídicas. por isso. p. Para tanto. Contudo. a experiência da privação de direitos se mediria não somente pelo grau de universaliza- ção.

como a da privação de direitos. como pessoa individual. 218. e no caso da degradação cultural de uma forma de vida. 782 Ibidem. p. em vez de proprieda- des coletivas. 784 Ibidem. os seres humanos seriam ameaçados em sua identidade da mesma maneira que o são em sua vida física com o sofrimento de doen- ças784. num processo de modificações históricas782. Nos casos de tortura e violação. No entanto. corresponderia a “morte psíquica”. para Honneth. 785 Ibidem. 219. daí essa experiência de desrespeito estar inserida também. 200 uma forma de autorrealização que ela encontrou arduamente com o encorajamento baseado em solidariedades de grupos781. pela privação de direitos e pela degradação. p. pois toda reação emocional negativa que vai de par com a experiência de um desrespeito de pretensões de reconhecimento conteria novamente em si a possibilidade de que a injustiça 781 Ibidem. isto é. um sujeito somente poderia se referir a essas espécies de degradação cultural a si mesmo. p. Honneth sustenta que pelo fato de os sujeitos humanos não poderem reagir de modo emocionalmente neutro às ofensas sociais. 218. Também a experiência de desrespeito estaria sempre acompanhada de sentimentos afetivos que em princípio podem revelar ao indivíduo que determinadas formas de reconhe- cimento lhe são socialmente denegadas785. p. 220. p. na me- dida em que se referem de forma valorativa às capacidades individuais. 783 Ibidem. nos casos de privação de direitos e de exclusão social. Honneth expressa que cor- responderia às diversas formas de desrespeito pela integridade psíquica do ser humano o mesmo papel negativo que as enfermidades orgânicas assumem no corpo humano: com a ex- periência do rebaixamento e da humilhação social. . representadas pelos maus-tratos físicos. Por fim. Honneth descreve que seria típico destes três grupos de experiências de desrespeito o fato de suas conseqüências individuais serem sempre descritas com metáforas que se referem a estados de abatimento do corpo humano. 218. corresponderia a “morte social”. corresponderia a ca- tegoria de “vexação”783. os padrões normativos do reconhecimento recíproco teriam uma certa possibilidade de realização no interior do mundo da vida social em geral. Com base nestas alusões metafóricas à dor física e à morte. na medida em que os padrões insti- tucionalmente ancorados de estima social se individualizariam historicamente.

br/ethic@/Art%206%20Rurion. 789 Ibidem. intitulada Reificação: um estudo de teoria do reconheci- mento.ufsc. violação e constrangimento). p. em sua acepção originária. 1. tanto os processos nega- tivos do trabalho diagnosticados a partir da Revolução Industrial como as experiências histó- ricas que marcaram a República de Weimar. Acesso em: 06 jun. sobretudo as concernentes ao desemprego cres- cente e de crises econômicas787. que a rela- ção dos sujeitos com seu mundo circundante não comportaria mais uma dimensão de trabalho artesanal.pdf>. Esta reatualização consiste na possibilidade de abarcar uma série de experiências que não estariam limitadas àquelas patologias da sociedade industrial anteriormente diagnosticadas790. 788 Ibidem. “Reificação e a consciência do proletariado” influenciou a recepção marxista da teoria weberiana da racionalização como expressão da reificação social. 787 MELO. 232. A seguir. trataremos do processo de reificação com base no pensamento de Honneth. 790 Ibidem. O conceito de reificação expressa. p. o autor procura fazer uma reatualização do conceito de reificação. tratare- mos a respeito da vinculação entre reificação e etnocídio como um sistema de violência rela- cionado às formas de desrespeito. Com base nestas experiências. 232. mas seria claramente substituída por uma atitude de disposição meramente instru- mental e indiferente cuja conduta calculadora característica atingiria as próprias experiências mais íntimas dos sujeitos e suas condições de autorrealização788. Posteriormente. Theodor Adorno e Jürgen Habermas789. Rúrion. caracterizar esse con- ceito por meio de uma junção de temas retirados de autores como Karl Marx e Max Weber. Hon- neth adverte que a reificação não se trataria de uma instrumentalização das pessoas. especialmente a primeira (maus-tratos. cujo conteúdo. está vinculado às formas de desrespeito expostas por este autor. . 224. 2011. 201 infligida ao sujeito se revele em termos cognitivos e se torne o motivo da resistência políti- ca786. Reificação e reconhecimento: um estudo a partir da teoria crítica da sociedade de Axel Honneth. Disponível em: <http://www. procurou-se mostrar que as relações sociais estariam cada vez mais submetidas a uma finalidade calculadora. Na obra de Axel Honneth. p. Georg Lukács foi o pensador que conseguiu. 232. incluindo expoen- tes da tradição de pensamento da teoria crítica. como se verá. A obra de Lukács. já que 786 Ibidem. p. Por sua vez. em sua obra História e consciência de classe de 1923. p. dentre os quais Max Horkheimer.cfh. em artigo publicado com o título Observações sobre a reificação.

nós não estaríamos em condições de dotá-lo com valores morais que contro- 791 HONNETH. Honneth enfatiza que aquilo que se realiza. deveremos entender por “reificação” um atentado contra pressupostos necessários de nosso mundo socialmente vivido. 72. postura na qual podemos reconhecer nele o outro de nós mesmos. Honneth formula a tese de que na relação do ser humano com seu mundo. op.. p. Núm. op. p. O autor entende que este modo existencial deve ser compreendido como uma forma mais fundamental do reconhecimento recíproco dos seres humanos como seres dignos de respeito e igual tratamento jurídico (dimensão antropo- lógica do reconhecimento). 70. 795 SAAVEDRA. 1.. 71. com sua ajuda. Para tanto. Giovani Agostini. Observações sobre a reificação. realizar os propósitos de outrem791. p. Honneth adverte que os casos puros de reificação ocorreriam apenas quando algo que em si não tem características de objeto é percebido ou tratado como um objeto792. de tal modo que a reificação seria uma violação contra esta ordem de precedência794. p. o autor esclarece que se quiser- mos nos ater ao significado literal. Criminologia do reconhecimento: linhas fundamentais de um novo para- digma criminológico. 202 esta instrumentalização significaria tomar outras pessoas como meio para fins puramente in- dividuais. Diferentemente da “instrumentalização”. . Essa primazia do modo do reconhecer caracteriza o que Honneth chama de modo existencial do reconhecimento.php/civitas/article/view/4322>.br/ojs/index. Nós só poderíamos assumir a perspectiva do outro depois que previamente reconhecermos no outro uma intencionalidade que nos é familiar. Axel. O fenômeno da reificação pode ser compreendido como uma for- ma de esquecimento do reconhecimento795. 95. as habilidades especificamente humanas destas pessoas são utilizadas para. a reificação pressuporia que nós nem perce- bamos mais nas outras pessoas as suas características que as tornam propriamente exemplares do gênero humano: tratar alguém como uma “coisa” significaria justamente tomá-la como “algo” despido de quaisquer características ou habilidades humanas. 70. seria o fato de assumirmos perante o outro uma postura que alcança até a afetividade. In Civitas – Revista de Ciências Sociais. que perfaz o seu caráter especial. 794 Ibidem. cit. Disponível em: <http://revistaseletronicas. o reconhe- cer sempre antecede o conhecer. 8. 793 Ibidem. Axel.pucrs. nesse ponto surgiria a intima- ção conceitual para fixar as condições sob as quais um relacionamento entre sujeitos humanos pode valer como adequado sócio-ontologicamente793. Observações sobre a reificação. o próximo796. geralmente neste caso. janeiro-abril de 2008. 792 Ibidem. 71. ou seja. cit. Acesso em: 05 jun. sem a experiência de que o outro indivíduo seja um próxi- mo/semelhante. 796 HONNETH. 2011. vol. p. p.

como causa social da reificação799. 203 lam ou restringem o nosso agir. . 798 Ibidem. sujeitos podem “esquecer” ou aprender a negar posteriormente aquela forma elementar de reconhecimento que em geral eles manifestam a toda pessoa se eles participam continuamente numa forma de práxis altamente unilateral. em que se autonomizam a tal ponto (perseguição de um único objetivo) que pode se levar à eliminação de todas as referências ao mundo que lhe haviam antecedido. antes de podermos aprender a orientar-nos por normas de reconhecimento que nos intimam a determi- nadas formas de consideração ou de benevolência797. no caso. Nesse sentido. No caso da reificação. Se este reconhecimento prévio não se realizar. A conclusão do autor expõe uma tentativa de uma etiologia social da reificação: nesse caso. No caso. uma simples coisa798. Honneth reporta-se à Lukács. 800 Ibidem. Outro aspecto importante na exposição de Honneth sobre a reificação reside no fato de que o maior desafio para a tentativa de reabilitar a categoria de reificação consistiria na difi- culdade de explicar a condição de possibilidade desta supressão do reconhecimento elemen- tar. primeiramente precisaria ser consumado esse reconhe- cimento elementar. do esquecimento do reconhecimento. se não tomamos mais parte existencialmente no outro. Honneth busca exemplificar com os atos de guerra. coisificados. p. que torna necessária a abstração das características “qualitativas” de pessoas hu- manas800. para afirmar que o processo de reificação concebe uma determinada forma de práxis contínua. precisaríamos tomar parte do outro existencialmente. ou seja. a finalidade da destruição do ad- versário se autonimiza a tal ponto. 75. p. mulheres) gradativamente se perde toda atenção para suas características humanas. 799 Ibidem. todos os membros dos grupos que presuntivamente são atribuídos ao inimigo são consi- derados apenas como objetos inanimados. 75. 73. nós concedemos a ele pré-predicativamente uma auto- relação que partilharia com a nossa própria característica de estar voltada emocionalmente para a realização dos objetivos pessoais. p. de acordo com Honneth é anulado aquele reconhecimento ele- mentar que geralmente faz com que nós experimentemos cada pessoa existencialmente como o outro de nós mesmos. 75. assim. que mesmo na percepção de pessoas não participantes (cri- anças. exercida rotineiramente. p. face aos quais a morte ou a violação 797 Ibidem. no final. então nós o tratamos repentinamente apenas como um objeto inanimado. No caso.

No entanto. Elaborando uma relação com o processo de reificação. Honneth adverte que nem toda forma de práxis na qual a observação de pes- soas tornou-se o único objetivo (autonomização) leva necessariamente a sua reificação. e que estaria interessado em informações sobre onde possam surgir perigos ou empecilhos para seu objetivo da destruição militar do adversário. pois a observação pode estar a serviço da percepção das características especificamente humanas. nesse caso. 77. 76. 77. Neste último caso. não seria a consecução de uma práxis em si. mas sim de reificação. p. p. 204 seriam justificadas sem dificuldade801. o soldado que observa um campo inimigo. a 801 Ibidem. 78. . 803 Ibidem. 802 Ibidem. 804 Ibidem. p. Primeiramente. por outro lado. a autonomização do objetivo da ob- servação poderia levar a um esquecimento daquele reconhecimento elementar que original- mente havia sido concedido a toda pessoa802. Para tanto. mas sim a sua rotinização e habitualização que poderiam levar a “esquecer” no final todo o reconhecimento original e a tratar o outro real- mente apenas como um simples objeto. parte de um processo de desumanização da vítima. o autor cita o caso de um psicólogo de desenvolvimento que observa o com- portamento de um bebê e coleta dados empíricos para ampliar nosso conhecimento sobre a maturação de determinadas habilidades que se tornam acessíveis tão somente na postura pri- mária do reconhecimento. seria necessária uma rotina naturalizada. Honneth enfatiza novamente que no caso da reificação. a tal ponto que não se poderia falar simplesmente de indiferença ou ódio emocional. o objetivo de simplesmente obter dados para o afastamento do pe- rigo poderia levar a que qualidades pessoais inicialmente percebidas no adversário possam posteriormente ser novamente “esquecidas”. 77. Neste caso. pareceria ter sido apagado qualquer traço de ressonância existencial. cuja execução bem-sucedida exige uma desconsideração de todas as características humanas do próximo803. Como exemplo. O autor sugere que a autonomização de todas aquelas práticas poderia levar a uma reificação intersubjetiva. p. mas perde-se efetivamente a percepção de que ele seja um ser com características huma- nas805. o outro não é apenas imaginado como um simples obje- to. pode-se dizer que o etnocídio. Contudo. igualmente ao genocídio. para o autor. pois apenas este tipo de habitualização possuiria a força para neutralizar posteriormente a pos- tura antes assumida de reconhecimento804. Conjuntamente com este aspecto. p. 805 Ibidem.

Isso acontece porque nos reconhecemos mutuamente como iguais. por exemplo. Medidas como esta foram características. não pertenceria ao comportamento normal dos seres humanos. 97. é levada a escolher entre a integração ao um projeto colonialista de abandono de sua cultura. ou ao perecimento. como a morte ou a destruição física. em ambos os casos subsiste o processo de reificação: no genocídio.. Reconhecimento do outro como um ser 806 SAAVEDRA. Como abordado anteriormente. a desu- manização decorre da simples existência da vítima. Para tanto. desde que se submeta e se integre ao seu projeto totalizador (etnocídio). em que os indígenas eram levados a se converter à religião do colonizador ou sofrerem violência física. A capacidade de sofrer com o sofrimento alheio é uma capacidade humana normal. p. o processo de reificação é presente. aprender a ver-se no outro se constitui como parte do ser humano806. igualmente como um ser dotado de liberdade e necessidades para sua vida. tornando-se submissas a seu projeto totali- zante. Porém. mas como algo que não merece existir (no caso do genocídio) ou que pode existir. faz-se ne- cessário abordar sobre a importância do reconhecimento como prática ética de preservação da diversidade humana. No caso do processo de reificação e do etnocídio. visto que restabelece esta relação intersubjetiva. como no genocí- dio. o processo de reconhecimento se traduz em uma relação de confiança. no etnocídio as vítimas podem ser poupadas da morte e destruição caso optem pela conversão às idéias propagadas pelo agressor. onde os seres humanos são privados de sua existên- cia no mundo. como um ser não humano. no caso do etnocídio. pois no caso a desumanização decorre da cultura considerada inferior e objeto de supressão total. sendo necessário o extermínio desta cultura (pela violência aos seres humanos) para a expansão de uma forma única. para recuperar sua “humanidade”. portanto. a desumanização decorre pelo fato da coletividade ter uma cultura específica. como seme- lhante. a não ver mais o seu semelhante como humano. Giovani Agostini. 205 vítima é tratada. em que o ser humano reconhece-se no outro. A vítima. Infligir dor em corpo alheio. também. considerada inferior. Criminologia do reconhecimento: linhas fundamentais de um novo para- digma criminológico. pela sua cultura. base da socialidade. cit. é necessário que o agressor aprenda a não se ver mais no outro. portanto. . no etnocídio. op. Diante de toda a exposição sobre a relação entre o etnocídio e a reificação. Contudo. o reconhecimento combate o fundamento do etnocídio. no reconhecimento do outro como ser humano. No caso. contrariamente ao genocídio. da conquista da América.

Estas são. as possíveis propostas de fundamento para uma observân- cia dos direitos humanos dos povos: uma ética libertadora como princípio. mas se mostram como um possível caminho para uma prevenção e repressão ao etnocídio. Com base na relação de reconhecimento. visando garantir a produção. em sua corporalidade. medidas de preservação do idioma e valoriza- ção da cultura do grupo. manifestamos nossa unidade. para que os eventos violentos do passado não se repitam na história. reprodução e desenvolvimento da vida humana (especialmente na sua dimensão corpóreo-cultural). em linhas gerais. podem se constituir como exemplos de medidas voltadas ao reconhecimento. visando a manutenção da sua existência. em detrimento de uma possível reificação do mesmo. uma justiça anamnética que possa valorizar a memória das vítimas (indi- vidual e coletiva). 206 humano: este é o objetivo e princípio de reprodução da vida e de preservação da diversidade que é inerente à condição humana. e o reconhecimento como prática ético-jurídica. Nela. estas propostas não visam limitar e esgotar a questão. enquanto seres huma- nos. Por certo. . valorizando o ser humano.

Na terceira fase do primeiro capítulo. uma vez que a abordagem da cultura e da identidade cultural foram fatores preponderantes para se iniciar o trabalho. considerando a identidade vinculada à corporali- . destacando o processo de encobrimento do Outro a partir da conquista da América. Nesse sentido. Para tanto. que liga os seres humanos entre si em torno de uma visão de mundo particular. Para tanto. qual seja. Após abordar estes pontos. sendo-lhe negada totalmente sua cosmovisão e inclusive seu caráter humano. buscou-se fundamentar um possível tratamento jurídico-penal e criminológico do tema. o marco da conquista da América inaugura uma etapa sem precedentes na História. Neste ponto. pois marca uma conquista mate- rial vinculada a uma conquista espiritual. 207 CONSIDERAÇÕES FINAIS Este breve estudo marca uma iniciativa de se abordar uma temática pouco explorada nos estudos jurídicos. colhendo dados e bases teóricas principalmente da antropologia e et- nologia. ainda mais nos segmentos jurídico-penais e criminológicos: o etnocídio. As notas sobre cultura foram realizadas visando introduzir o leitor ao tema. buscou-se destacar a identidade cultural (e principalmente a idéia de identidade) dentro de um enfoque informativo para situar a importância da identidade na formação de uma cultura. desenvolveu-se uma explanação sobre o etnocídio nas raí- zes da modernidade. nada mais conveniente do que iniciar a exposição neste breve estudo com aspectos relativos à cultura e identidade cultural (temas iniciais expostos no primeiro capítu- lo). a prática do etnocídio. Com efeito. pela sua carga de violência que pretendia converter os indígenas à religião do colonizador. o Outro (o indígena) passou por um processo de encobrimento. Este acontecimento histórico foi o que efetivamente marcou talvez o maior etnocí- dio já ocorrido na História. Este ponto do primeiro capítulo também refere que na conquista da América. que ainda hoje se mostram como as áreas mais ricas em informações sobre esta for- ma de violência. Neste trabalho desenvolvido. pôde-se destacar que a identidade cultural possui uma matriz concreta. Este foi o primeiro passo para se buscar fundamentar e delinear o que o etnocídio concre- tamente visa eliminar: a identidade cultural de um grupo humano. corporal. buscamos elucidar e situar a identidade cultural e sua ligação com a corporalidade humana. O primeiro capítulo é marcado por uma perspectiva histórico-antropológica.

Produção de uma sociedade totalmente homogênea. o objetivo principal foi elucidar dois estados em que geralmente a vítima do etnocídio se encontra: em condição de vulnerabilidade e de vítima em potencial. é condição sine qua non para a instauração do etnocídio. definiu-se inicialmente a relação entre o risco social e a homogeneização (ou a produção da igualdade totalizadora). o ponto referente ao colonialismo buscou tratar como este fenômeno geralmente está atrelado ao etnocídio. pôde-se esclarecer melhor como o etnocídio opera: no corpo das vítimas. mas também para converter os indí- genas ao saber do colonizador. visando o ob- jetivo de um projeto totalizador. podemos destacar como a conquista da America veio não somente para extrair as riquezas no novo continente. A violência. Com efeito. na sua perspectiva sociológica. o propósito foi de situar justamente o instrumento de todas as práticas etnocidas: a violência. O colonialismo traduz que um povo. a relação corporal constitui a identidade de um grupo. portanto. por exemplo – é um fator de relevância ao se falar de risco social. para conquistar outro. a prática do etnocídio não se efetiva sem a inscrição da violência no corpo do indivíduo. Identidade e corporalidade. não apenas atua visando explorar outro economicamente ou tomar um território: o colonialismo pode operar também visando agir nos corpos das vítimas. 208 dade. Pois como já ressaltamos. Nos dois últimos pontos do segundo capítulo. em que se praticava o genocídio e o etnocídio sob justificava da missão civilizadora das nações européias a todos os cantos do planeta. Este foi o propósito da primeira parte do segundo capítulo. portanto. buscando a sua conversão ao sistema de mundo do colonizador (ou agressor). convertendo-as no modelo de ideal de ser humano proje- tado pelo colonizador. vinculados. predominan- te no século XIX. prin- cipalmente a integridade física. pretendeu-se nesta parte do estudo proposto delinear algumas con- siderações acerca de dois fatores que são muito presentes no etnocídio: o colonialismo e a violência. Da mesma forma se destaca a concepção de raça. de negação da diferença que reproduz a vida humana de um grupo. Esta opera princi- palmente negando a vida humana e privando a vítima de seus direitos mais elementares. A vulnerabilidade resulta do fato de que o grupo humano vitimado não tem condições de alterar o destino de extermínio ao qual é submetido frente ao agressor. são elementos ligados. Já na segunda parte do segundo capítulo. Nesse sentido. já a condição de vítima em potencial resulta do fato de que determinados grupos humanos – . esclarecidos alguns pontos essenciais sobre o risco e a homogeneização. que pode eliminar diversas outras comunidades humanas – destaque-se os indígenas. O segundo capítulo. que caracteri- zam um grupo humano específico. Na parte relativa à privação de direitos e negação da vida humana.

aliando-se a este fato o elemento risco. para tanto. 209 geralmente minorias – são mais propensas a ser alvo do etnocídio. se diante deste crime temos um projeto violento de separação total de grupos humanos. Contudo. deve-se atentar também para a possibilidade de utilização de medidas extrapenais. Também se destaca que. Por sua vez. no terceiro e último ponto do terceiro capítulo tratou-se de buscar funda- mentar uma possível prevenção ao etnocídio vinculando-o à observância dos direitos humanos dos povos. além da possibilidade de recepção do etnocídio enquanto crime internacional equiparado ao genocídio. direitos considerados de terceira dimensão. por sua dimensão jurídico-filosófica. destacando principalmente a concepção proveniente da Declaração de San José. mediante a violência. Por último. desta- . para sua efetivação. ou seja. a compa- ração entre o etnocídio e os crimes contra a humanidade foi elaborado com o propósito de evidenciar que tanto neste como naquele. o genocídio. por vezes se efetivando igualmente a partir de uma prática desumanizadora (desumanização do ser humano e de sua cultura). um paralelo entre ambos os crimes foi algo a ser destacado no estudo. uma vez que o etnocídio surge justamente a partir da idéia já concebida sobre o genocídio. Após esta explana- ção. O terceiro ponto do terceiro capítulo pretendeu fundamentar-se em torno de aspectos mais jurídicos. os crimes contra a humanidade e o apartheid. O capítulo terceiro. propôs-se a determinar inici- almente o histórico e o desenvolvimento do conceito de etnocídio. no etnocídio temos um projeto de integração total. políticas de reconhecimento que favoreçam a ma- nutenção da identidade dos grupos humanos ameaçados (como preservação do idioma. na qual se definiu expressamente o etno- cídio. o destaque realizado entre o etnocídio e o apartheid foi proposto com o intuito de ilustrar como o etnocídio se efetiva como uma prática que é jus- tamente o inverso do apartheid. sempre presente nestes casos. A comparação com o primeiro (o genocídio) foi de profunda importância. da cultura. equiparado-o inclusive ao genocídio enquanto forma de violência. o tópico seguinte se propôs a delinear uma comparação entre o etnocídio e determinados tipos de crimes internacionais. A vulnerabilidade e a potencialidade de se tornar vítima podem marcar um grupo humano. a sua prática se inscreve no corpo da vítima. quais sejam. com o propósito de controle e conversão da população alvo desta espécie de prática. privados dos direitos humanos mais elementares. etc). destacando-se a legislação internacional – principalmente a partir de determi- nadas declarações e convenções – e uma provável fundamentação para o etnocídio no campo jurídico. território. tendo em vista suas condi- ções de fragilidade dentro de determinado território. Por sua vez. passando este a ser alvo da prática do etno- cídio.

constata-se que esta ética possui uma funda- mental importância quando se quer buscar uma proteção de grupos humanos em se tratando de direitos dos povos. Com efeito. buscamos expor o que caracteriza o etnocídio. em sua dimensão corpóreo-cultural. que valorize a me- mória do passado violento vivido das vítimas. como ele atua enquanto forma de violência e o que ele visa eliminar. Cabe ressaltar que a preservação de uma identidade cultural deve ocorrer a partir deste critério. Neste caso. que seja voltado ao respeito e à defesa da existência física e cultural dos grupos huma- nos em condição de vulnerabilidade. ou seja. o terceiro pilar para os direitos dos povos seria um projeto de reconhe- cimento. bem como aqueles que se abstêm de informar são responsáveis . a partir do juízo ético-crítico. pode-se concluir que o etnocídio. no sentido de se preservar a dignidade dos grupos humanos vitimados ou ameaçados pelo etnocídio. embora não explorado profundamente no âmbito jurídico. reprodução e desenvolvimento da vida humana em âmbito comunitário. que estas formas extremas de violação de direitos humanos não voltem a ocor- rer. preservar a memória das experiên- cias de genocídio (e etnocídio) podem auxiliar no sentido de que a barbárie vivenciada não se repita. responsável pela reprodução de sua vida. A ética da libertação auxilia a fundamentar os preceitos dos direitos dos povos. Por derradeiro. e no caso do etnocídio. trata-se de uma preservação da vida humana em seu âmbito coletivo. preservando- se da hipótese de um relativismo cultural. E nesse âmbito. e dotado de seu direito à existência e à sua cultura. pode ser objeto de maior estudo. a informação é essencial. Uma prática de cunho ético e jurídico. destacamos uma justiça anamnética. constituir um saber jurídico liberta- dor. proporcionando o reconhecimento do Outro como ser humano. não instrumentalizado. De igual importância em termos de fundamentação para os direitos dos povos a fim de uma prevenção ao etnocídio. porquanto a ética da libertação de Dussel propõe como preceito basilar a produção. na prevenção e repressão ao etnocídio: uma ética libertadora. Aqueles que não se preocupam em saber. temos a certeza de que cabe ao agente social. na medida em que destaca esta busca de preservação da vida. uma justiça que valo- rize a memória e o reconhecimento como prática ético-jurídica. Portanto. com base em todas estas considerações sobre o etnocídio. No campo relativo à ética da libertação. No decorrer deste trabalho. ou seja. 210 camos três pilares que poderiam auxiliar em uma maior fundamentação dos direitos humanos dos povos.

para entender o hoje. a existência dos seres humanos. entendemos que conhecer o passado – e vinculando-o à idéia de memó- ria. e de que modo fomos constituídos. buscando as origens. Memoria. Uma projeção para o futuro que parte da nossa reflexão e ação.pdf>. como exposto – é buscar os fundamentos da história da conquista. que necessita ser combatido. Derecho y Liberación. Garantir a vida. projetá-lo como tarefa. p. Disponível em: <http://www. Na medida em que formamos propostas para mudar o presente. notadamente grupos diversos. este estudo. 211 diante de sua sociedade. . te- mos o objetivo de construir um futuro. a função da informação é uma função social muito significa- tiva807. ainda que limitado. Tzvetan. p. foi abarcado a partir de três pilares que ligam o tempo: o passado.com.cienciared. Acesso em: 24 set. 16. Segundo. op. ou seja. as causas. em suma. o presente. Héctor Hugo. Enfrentar o presente é pensar o sistema-mundo no qual estamos contidos e apresentar propostas para transformar este presente. 807 TODOROV. cit. Sem eles não seria possível a concretiza- ção do trabalho. 265. se propôs e se conclui nesta seguinte ideia: conhecer o passado como necessidade. o futuro. presente.ar/ra/usr/3/561/n7_v5pp11_20. Por fim. Para tanto. 808 BOLESO. o presente e o futuro. 2010. o presente estudo. Por primeiro. O conhecer o passado e questi- oná-lo foi um elemento fundamental. enfrentar o presente como responsabi- lidade e projetar o futuro como tarefa808. a formação do que hoje entendemos por América. Os problemas que hoje se enfrenta com a constante ameaça de extermínio de grupos humanos é algo real. À guisa de conclusão.

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