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TEXTO DE SOC 002. UNIDADE 1. O CONHECIMENTO.

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 1993. Capítulo
3. O Conhecimento. Pg 21-27.

CAPÍTULO 3
O QUE É CONHECIMENTO

Pedimos somente um pouco de ordem para nos proteger do caos. Nada é mais
doloroso, mais angustiante do que um pensamento que escapa a si mesmo,
idéias que fogem, que desaparecem apenas esboçadas, já corro idas pelo
esquecimento ou precipitadas em outras, que também não dominamos.

1. INTRODUÇÃO

A epígrafe deste capítulo se refere ao esforço constante que anima o homem a compreender. Diante do
caos que não significa vazio, mas desordem procuramos estabelecer semelhanças, diferenças,
contigüidades, sucessão no tempo, causalidades, que possibilitem "pôr ordem no caos". Mesmo porque
só assim será possível ao homem também agir sobre o mundo e tentar transforma - lo.

O conhecimento é o pensamento que resulta da relação que se estabelece entre o sujeito que conhece e
o objeto a ser conhecido. A apropriação intelectual do objeto supõe que haja regularidade nos
acontecimentos do mundo; caso contrário, a consciência cognoscente nunca poderia superar o caos. Por
exemplo, Kant diz: "Se o cinábrio [minério de mercúrio] fosse ora vermelho, ora preto, ora leve, ora
pesado (...), minha imaginação empírica nunca teria ocasião de receber no pensamento, com a
representação) da cor vermelha, o cinábrio pesado".

O conhecimento pode designar o ato de conhecer, enquanto relação que se estabelece entre a
consciência que conhece e o mundo conhecido. Mas o conhecimento também se refere ao produto, ao
resultado do conteúdo desse ato, ou seja, o saber adquirido e acumulado pelo homem. Na verdade,
ninguém inicia o ato de conhecer de uma forma virgem, pois esse ato é simultâneo à transmissão pela
educação dos conhecimentos acumulados em uma determinada cultura. No correr dos tempos, a razão
humana adquire formas diferentes, dependendo da maneira pela qual o homem entra em contato com o
mundo que o cerca. A razão é histórica e vai sendo tecida na trama da existência humana. Então, a
capacidade que o homem tem, em determinado momento, de discernir as diferenças e as semelhanças,
e de definir as propriedades dos objetos que o rodeiam, estabelece o tipo de racionalidade possível
naquela circunstância. (Deleuze e Guattari)

A apreensão que fazemos do mundo não é sempre tematizada, sendo inicialmente Pré-reflexiva. E isso
vale tanto para o homem das sociedades tribais e para a criança como para nós, no cotidiano da nossa
vida. Não é sempre que estamos refletindo sobre o mundo (ainda bem!), e a abordagem que dele fazemos
se encontra primeiro no nível da intuição, da experiência vivida. Se de início o homem precisa de crenças
e opiniões prontas (nas formas de mito ou do senso comum), a fim de apaziguar a aflição diante do caos
e adquirir segurança para agir, em outro momento) é preciso que ele seja capaz de "reintroduzir o caos",
criticando as verdades sedimentadas, abrindo fissuras e fendas no "já conhecido", de modo a alcançar
novas interpretações da realidade.

Todo conhecimento dado tende a esclerosar-se no hábito, nos clichês, no preconceito, na ideologia, na
rigidez das "escolas". Esse conhecimento precisa ser revitalizado pela construção de novas teorias (no
caso da filosofia e da ciência) e pelo despertar de novas sensibilidades (no caso da arte). Pelo esforço
resultante do questionamento, a razão elabora o trabalho de conceituação, que tende a se tornar cada
vez mais complexo, geral e abstrato. A ação do homem, inicialmente "colada" ao mundo, é lentamente
elucidada pela razão, que permite "viver em pensamento" a situação que ele pretende compreender e
transformar. Com isso não estamos dizendo que o pensar humano possa ficar separado do agir (já vimos
como essa relação é dialética), mas que o próprio pensamento torna – se objeto do pensamento: instala-
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se a fase de auto-reflexão e crítica do conhecimento anteriormente recebido. Os diversos modos de


conhecer, apenas indicados neste item, serão analisados em outros capítulos deste livro: o mito, o senso
comum, a ciência, a arte e a filosofia.

2. FORMAS DE CONHECER:

Intuição

Se perguntarmos "de que modo o sujeito que conhece pode apreender o real?", a resposta imediata que
nos vem á mente é que o homem conhece pela razão, pelo discurso. Mas nós apreendemos o real também
pela intuição, que é uma forma de conhecimento imediato, isto é, feito sem intermediários, um
pensamento presente ao espírito. Como a própria palavra indica (tueri em latim significa "ver"), intuição
é uma visão súbita. Enquanto o raciocínio é discursivo e se faz por meio da palavra, a intuição é inefável,
inexprimível: como poderíamos explicar em que consiste a sensação do vermelho'!

A intuição é importante por ser o ponto de partida do conhecimento, a possibilidade da invenção, da


descoberta, dos grandes "saltos" do saber humano. Partindo de uma divisão muito simplificada, a intuição
pode ser de vários tipos:
- intuição sensível - é o conhecimento imediato que nos é dado pelos órgãos dos sentidos: sentimos que
faz calor; vemos que a blusa é vermelha; ouvimos o som do violino.
- intuição inventiva - é a do sábio, do artista, do cientista, quando repentinamente descobrem uma nova
hipótese, um tema original. Também na vida diária, enfrentamos situações que exigem soluções criativas,
verdadeiras invenções súbitas. - intuição intelectual é a que se esforça por captar diretamente a essência
do objeto. Por exemplo, a descoberta de Descartes do cogito (eu pensante) enquanto primeira verdade
indubitável.

Conhecimento discursivo

Para compreender o mundo, para "organizar o caos", a razão supera as informações concretas e imediatas
que recebe, organizando-as em conceitos ou idéias gerais que, devidamente articulados, podem levar à
demonstração e a conclusões que se consideram verdadeiras. Diferentemente da intuição, a razão é por
excelência a faculdade de julgar.

Chamamos conhecimento discursivo ao conhecimento mediato, isto é, aquele que se dá por meio de
conceitos. É o pensamento que opera por etapas. por um encadeamento de idéias, juízos e raciocínios
que levam a determinada conclusão. Para tanto, a razão precisa realizar abstrações. Abstrair significa
"isolar", "separar de". Fazemos uma abstração quando isolamos, separamos um elemento de uma
representação, elemento este que não é dado separadamente na realidade (representação significa a
imagem, ou a idéia da "coisa" enquanto presente no espírito). Quando vemos um cinzeiro, temos
inicialmente a imagem dele, uma representação mental de natureza sensível e de certa forma concreta e
particular. porque se refere àquele cinzeiro especificamente (por exemplo, de forma hexagonal e de
cristal transparente). Quando abstraímos, isolamos essas características por serem secundárias. e
consideramos apenas o "ser cinzeiro". Resulta daí o conceito ou idéia de cinzeiro, que é a representação
intelectual de um objeto , imaterial e geral. Ou seja, a idéia de cinzeiro não se refere àquele cinzeiro
particular, mas a qualquer objeto que sirva para recolher cinzas. Da mesma forma, podemos abstrair do
cinzeiro a forma ou a cor, que de fato não existem fora da coisa real.

O matemático reduz as coisas que têm peso, dureza, cor, para só considerar a quantidade. Por exemplo,
quando dizemos 2, consideramos apenas o número, deixando de lado se são duas pessoas ou duas frutas.
A lei científica também é abstrata. Quando concluímos que o calor dilata os corpos, fazemos abstração
das características que distinguem cada corpo para considerar apenas os aspectos comuns àqueles
corpos, ou seja, o corpo em geral" enquanto submetido à ação do calor. Ora, quanto mais tornamos
abstrato um conceito, mais nos distanciamos da realidade concreta. Esse artifício da razão é importante
enquanto possibilidade de transcendência, para a superação do "aqui e agora" e construção de hipóteses
transformadoras do real.
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No entanto, toda vez que a razão se distancia demais do vivido, a teoria se petrifica e o conhecimento é
empobrecido. Na filosofia contemporânea, como veremos no Capítulo 10 (Teoria do conhecimento), a
crítica às formas esclerosadas do racionalismo exacerbado faz retomar o valor da intuição em pensadores
como Bergson, Dilthey. Husserl. Da mesma forma, permanecer no nível do vivido e da intuição impede o
distanciamento fecundo da razão que interpreta e critica. O verdadeiro conhecimento se faz, portanto,
pela ligação continua entre intuição e razão, entre o vivido e o teorizado, entre o concreto e o abstrato.

3. TEORIA DO CONHECIMENTO

A teoria do conhecimento é uma disciplina filosófica que investiga quais são os problemas decorrentes da
relação entre sujeito e objeto do conhecimento, bem como as condições do conhecimento verdadeiro.
Embora os filósofos da Antiguidade e da Idade Média tratassem de questões referentes ao conhecimento,
não se podedizer que a teoria do conhecimento existisse enquanto disciplina independente, pois essas
questões se achavam vinculadas aos textos de metafísica. Surge como disciplina autônoma apenas na
Idade Moderna, quando os filósofos se ocupam de forma sistemática com as questões sobre a origem,
essência e certeza do conhecimento humano, a partir de Descartes, Locke, Hume, e culminando com a
grande crítica da razão levada a efeito por Kant.

O esquema a seguir indica os principais problemas do conhecimento:


-quanto ao critério da verdade: o que permite reconhecer o verdadeiro? (Exemplo:
a evidência, a utilidade prática.)
-quanto à possibilidade do conhecimento: pode o sujeito apreender o objeto? (Exemplo: dogmatismo,
ceticismo.)
-quanto ao âmbito do conhecimento: abrange a totalidade do real, ou se restringe ao sujeito que
conhece? (Exemplo: realismo, idealismo.)
-quanto à origem do conhecimento: qual é a fonte do conhecimento? (Exemplo:
racionalismo, empirismo.)

A verdade

Todo conhecimento coloca o problema da verdade. Pois quando conhecemos, sempre nos perguntamos
se o enunciado corresponde ou não à realidade. Van Meegeren foi um pintor que falsificou obras de
Vermeer, como A moça de turbante. O museu de Washington, mesmo depois de descoberta a fraude,
comprou do governo holandês a maioria dos Van Meegeren, tal era a qualidade do seu trabalho: "Os
falsos Vermeer eram verdadeiros Van Moegeren".

Comecemos distinguindo verdade e realidade. Na linguagem cotidiana, freqüentemente os dois conceitos


são confundidos. Se nos referimos a um colar, a um quadro, a um dente, só podemos afirmar que são
reais e não verdadeiros ou falsos. Se dizemos que o colar ou o dente são falsos, devemos reconhecer que
o "falso" colar é uma verdade eira bijuteria e o dente um verdadeiro dente postiço. Isso porque a falsidade
ou veracidade não estão na coisa mesma, mas no juízo, e, portanto, no valor da nossa afirmação. Há
verdade ou não dependendo de como a coisa aparece para o sujeito que conhece. Por isso dizemos que
algo é verdadeiro quando é o que parece ser. Assim, ao beber o líquido escuro que me parecia café,
descubro que o "falso" café é uma verdadeira cevada. A verdade ou falsidade existe apenas no juízo "este
líquido é café", no qual se estabelece o vínculo entre sujeito e objeto, típico do processo do conhecimento.

Resta, portanto, saber o que é a verdade enquanto juízo a respeito da realidade. Para os escolásticos,
filósofos medievais, "a verdade é a adequação do nosso pensamento as coisas". O juízo seria verdadeiro
se a representação fosse cópia fiel do objeto representado. Essa definição sofreu posteriormente
inúmeras críticas, sobretudo quando, a partir da Idade Moderna, rompeu-se a crença de que a realidade
do mundo aí está para ser conhecida na sua transparência. Afinal, a questão é mais complexa: como julgar
a verdade da representação do real pelo pensamento? Ou seja, como saber se a definição mesma de
verdade é verdadeira? Além disso, a filosofia moderna vai questionar a possibilidade mesma de
conhecimento do real. Isso nos remete para a discussão a respeito do critério da verdade. Qual o sinal
que permite reconhecer a verdade e distingui-la do erro? Não pretendemos analisar passo a passo as
discordâncias dos autores a respeito do assunto, devido à complexidade e à necessidade de
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aprofundamento da questão. Algumas referências serão feitas nos capítulos que se seguem; por
enquanto, bastam-nos algumas pistas.

Para Descartes, o critério da verdade é a evidência. Evidente é toda idéia clara e distinta, que se impõe
imediatamente e por si só ao espírito. Trata-se de uma evidência resultante da intuição intelectual. Para
Nietzsche é verdadeiro tudo o que contribui para fomentar a vida da espécie e falso tudo o que é obstáculo
ao seu desenvolvimento. Para o pragmatismo (William James, Dewey, Peirce), a prática é o critério da
verdade. Nesse caso, a verdade de uma proposição se estabelece a partir de seus efeitos, dos resultados
práticos. Nos dois últimos casos (Nietzsche e pragmatismo), o critério da verdade deixa de ser um valor
racional e adquire um valor de existência, que pode ser sintetizado na frase de Saint-Exupery: "A verdade
para o homem é o que faz dele um homem. Há ainda os lógicos que buscam o critério da verdade na
coerência interna do argumento. Verdadeiro seria então o raciocínio que não encerra contradições e é
coerente com um sistema de princípios estabelecidos. Essa é a verdade típica da matemática. Afirmar que
por um ponto fora de uma reta só passa uma paralela a essa reta pode ser verdadeiro se admitirmos os
postulados de Euclides, mas falso se adotarmos os princípios da geometria não-euclidiana.

A verdade pode ainda ser entendida como resultado do consenso, enquanto conjunto de crenças aceitas
pelos indivíduos em um determinado tempo e lugar e que os ajuda a compreender o real e agir sobre ele.
É difícil e complexa a discussão a respeito dos critérios da verdade, mesmo porque são diferentes as
posturas que temos diante do real quando nos dispomos a compreendê-lo. Por exemplo, alguém poderá
dizer bem na linha dos positivistas que só a ciência nos dá o conhecimento verdadeiro, uma vez que os
critérios de verificabilidade (pelo menos das ciências da natureza, como a física) nos levam a conclusões
seguras, objetivas, aceitas pela comunidade dos cientistas e que, ainda por cima, como desenvolvimento
da tecnologia, resultam em eficácia no agir.

Por outro lado, não há como deixar de reconhecer que a ciência, sendo um conhecimento abstrato,
seleciona o que lhe interessa conhecer e reduz as infinitas possibilidades do real, excluindo o sujeito com
suas emoções e sentimentos. Nesse sentido, por que recusar um outro tipo de verdade, aquela intuída
pelo sentimento? E não se poderia falar na verdade que resulta da experiência artística, já que também a
arte é uma forma de conhecimento? Entre os dois extremos do conhecimento, das ciências da natureza
e do conhecimento pela arte, convém lembrar as dificuldades na busca da verdade das ciências humanas
(ver Capítulo 16-As ciências humanas) e das novas exigências para se estabelecer o estatuto
epistemológíco do conhecimento do homem pelo homem.

A possibilidade do conhecimento

Uma das discussões em torno do problema do conhecimento diz respeito à possibilidade ou não de o
espírito humano atingir a certeza. Distinguiremos inicialmente duas tendências principais: o ceticismo e o
dogmatismo.

Ceticismo

"Nada existe. Mesmo se existisse alguma coisa, não poderíamos conhecê-la; concedido que algo existe e
que o podemos conhecer, não o podemos comunicar aos outros." Essas três proposições, atribuídas a
Górgias (séc.IV a.C.). um dos representantes da sofística, exemplificam a postura conhecida como
ceticismo. Naquele mesmo século, outro grego chamado Pirro, acompanhando Alexandre Magno em suas
expedições , conheceu muitos povos com valores e crenças diferentes. Como geralmente fazem os
cétícos, deve ter confrontado a diversidade das convicções que animam os homens, bem como as
diferentes filosofias tão contraditórias, abstendo-se no final de aderir a qualquer certeza. Pelo menos
semelhante no gosto pelas viagens, o filósofo renascentista Montaigne retoma os temas do ceticismo.
Contrapõe-se às certezas da escolástica decadente e à intolerância de um período de lutas religiosas,
analisando nos Ensaios a influência de fatores pessoais, sociais e culturais.
na formação das opiniões. Skeptikós, em grego, significa "que observa", "que considera". O cético tanto
observa e tanto considera que conclui, nos casos mais radicais, pela impossibilidade do conhecimento; e
nas tendências moderadas suspensão provisória de qualquer juízo. Portanto, há gradações no ceticismo.
Os céticos moderados admitem uma forma relativa de conhecimento (relativismo), reconhecendo os
limites para a apreensão da verdade. Para outros moderados, mesmo que seja impossível encontrar a
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certeza, não se deve abandonar a busca. Mas para o ceticismo radical, como o pirronismo, se a certeza é
impossível, é melhor renunciar ao conhecimento, o que traz, como consequência prática, a indiferença
absoluta em relação a tudo. O ceticismo radical se contradiz ao se afirmar, pois concluir que "toda certeza
é impossível e a verdade é inacessível" não deixa de ser uma certeza, e tem valor de verdade.

Dogmatismo

Dogmatíkós, em grego, significa" que se funda em princípios ou relativo a uma doutrina. Dogmatismo é a
doutrina segundo a qual o homem pode atingir a certeza. Filosoficamente é a atitude que consiste em
admitir que a razão humana tem a possibilidade de conhecer a realidade, Do ponto de vista religioso,
chamamos dogma a uma verdade fundamental e indiscutível da doutrina. Na religião cristã, por exemplo,
há o dogma da Santíssima Trindade segundo o qual as três pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo) não são
três deuses, mas um. Deus é uno e trino. Não importa se a razão não consegue entender, já que é um
princípio aceito pela fé e o seu fundamento é a revelação divina. Quando transpomos a idéia de dogma
para o campo não-religioso, ela passa a designar as verdades não-questionadas e inquestionáveis. Só que,
nesse caso, não se estando mais no domínio da fé religiosa, o dogmatismo torna-se prejudicial. já que o
homem, de posse de uma verdade, fixa-se nela e abdica de continuar a busca,

O mundo muda, os acontecimentos se sucedem e o homem dogmático permanece petrificado nos


conhecimentos dados de uma vez por todas. Disse Nietzsche que "convicções são prisões". Refratário ao
diálogo, o homem dogmático teme o novo e não raro se torna intransigente e prepotente. Quando resolve
agir, o fanatismo é inevitável, e com ele, a justificação da violência. Também chamamos dogmáticos os
seguidores de "escolas" e tendências quando se recusam a discutir suas verdades, permanecendo
refratários às mudanças. Quando o dogmatismo atinge a política, assume um caráter ideológico que nega
o pluralismo e abre caminho para a imposição da doutrina oficial do Estado e do partido único, com todas
as infelizes decorrências, como censura e repressão. Em nome do dogma da raça ariana, Hitler cometeu
o genocídio dos judeus e ciganos nos campos de concentração. Além dos significados comuns do conceito
de dogmatismo, é preciso ressaltar outro, denunciado por Kant na Crítica da razão pura. Como se propôs
a fazer a avaliação das reais condições dos limites da razão para conhecer, Kant chama de dogmáticos
todos os filósofos anteriores, inclusive Descartes., por não terem colocado a questão da crítica do
conhecer como discussão primeira. Ou seja, aqueles filósofos "não acordaram do sono dogmático", no
sentido de ainda terem uma confiança não- questionada no poder da razão em conhecer.

O âmbito do conhecimento

Os filósofos gregos tinham uma concepção realista do conhecimento, pois para eles não era problemática
a existência do mundo. O mundo é considerado inteligível, isto é. tudo no mundo é compreensível pelo
pensamento. O conhecimento se faz pela formação de conceitos, que são verdadeiros enquanto
adequados à realidade existente.

Na Idade Moderna, a partir de Descartes, o realismo metafísico dos gregos é colocado em questão. Porque
a questão metafísica é antecipada pela questão epistemológica "como descobrir a verdade?". Ao
desenvolver o método para evitar o erro e chegar à verdade indubitável, Descartes encontra o cogito. A
pergunta "quem existe?", responde: "eu e meus pensamentos". E é desse ponto de partida que pensa
poder recuperar a existência de Deus e do mundo. Com isso, o idealismo se configura como o caminho
para a procura da verdade que acaba por restringir o conhecimento ao âmbito d o sujeito que conhece.

A origem das idéias

Como vimos, a teoria do conhecimento assume na Idade Moderna uma importância fundamental e
primeira. Uma das questões que surge é quanto à fonte das idéias: qual é a origem do pensamento? Duas
correntes principais se desenvolvem então: o racionalismo e o empirismo.

O racionalismo tem seu maior expoente em Descartes, segundo o qual a razão tem predomínio absoluto
como fundamento de todo conhecimento possível. Mas o inglês Locke, embora de formação cartesiana,
critica as idéias inatas e elabora o empirismo, teoria do conhecimento segundo a qual as idéias derivam
direta ou indiretamente da experiência sensível. No século XVIII Kant tentará superar com o criticismo
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essas duas posições antagônicas. Restringimo – nos aqui apenas a citar essas tendências porque terão
maior espaço no Capitulo 10.

Exercícios

1. Explique o processo do conhecimento usando os seguintes conceitos: sujeito, objeto, pensamento e


verdade.

2. Leia a citação de Deleuze e Guattari e relacione com o problema do conhecimento: "O pintor não pinta
sobre uma tela virgem, nem o escritor escreve sobre uma página branca. mas a página ou a tela estão já
de tal maneira cobertas de clichês preexistentes, preestabelecidos, que é preciso de início apagar, limpar,
laminar, mesmo estraçalhar para fazer passar uma corrente de ar. saída do caos, que nos traga a visão."

3. Identifique as frases seguintes, indicando se o conhecimento em questão resulta da razão ou da intuição


(nesse caso, quando possível, indique deque tipo):a) Isto é vermelho. b) É um conhecimento que progride
por idéias gerais e abstratas. c) Exige o uso de linguagem. d)É comunicável. e) Gosto deste gato. f) Exige
demonstração. g) Este lápis é menor do que aquele. h) É inexprimível. i) Assim que mergulhou na água,
Arquimedes descobriu subitamente o princípio do empuxo.j) É o conhecimento que se relaciona
imediatamente com os objetos.

4. Leia a citação a seguir e, a partir dela, distinga verdade e realidade: "Van Meegeren é um dos mais
ilustres falsários de toda a história da arte. Vários quadros desse pintor foram comprados pelos museus
holandeses e colocados entre autênticos Vermeer e Pieter de Hooch. Toda uma comissão formada por
especialistas altamente competentes concluíra pela autenticidade dessas obras, O escândalo teve um
final estranho: o Museu de Washington comprou do governo holandês a quase totalidade dos Van
Meegeren. Os falsos Vermeer eram verdadeiros Van Meegeren." (Huisman e Vergez)

5. Faça uma pesquisa para distinguir os diferentes estados de espírito em relação à verdade:
ignorância; erro; falsidade; opinião; dúvida; probabilidade; certeza; crença.

6. Faça uma dissertação sobre o tema: "A verdade é filha do tempo".

7. "O filósofo é critico, embora não seja cético. Não desespera da verdade, mas recusa todas as
certezas, considerando-as provisórias e sujeitas a serem relativizadas por novos argumentos."(Rouanet)
interprete a citação acima respondendo:
a) O que é um filósofo cético?
b) Quando seria dogmático?
c) Qual é a atitude do filósofo que recusa o ceticismo e o dogmatismo?