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Para Teresa

trabalho e lei O emaranhado colonial da posse da terra Reforma agrária nacional. Restringindo o acesso à propriedade fundiária Propriedade.Sumário Lista de imagens e tabelas Prefácio PARTE UM — RUPTURAS 1. Nações in/divisíveis Formulações comparativas A indivisibilidade francesa A restrição americana A inclusão brasileira 3. Limitando a cidadania política Os surpreendentemente abrangentes direitos coloniais Restrições com a Independência Um grande passo de volta à oligarquia A urbanização e a equiparação de direitos 4. escravidão e trabalho livre de imigrantes A Lei de Terras de 1850 A lei e o mercado de terras se tornam cúmplices de fraude . A cidadania estranhada Reputação pública e cidadania no cotidiano Cidadanias específicas Tratando o desigual desigualmente A história como argumento sobre o presente PARTE DOIS — DESIGUALDADES 2. personalidade e legitimidade civil Terra.

desigualdade e instabilidade como normas 5. Os perigosos espaços da cidadania Incivilidades cotidianas In/justiça A fala dos comandos e a fala dos direitos Cidadanias insurgentes e democracias disjuntivas Notas Bibliografia . Legalizando o ilegal A periferia ilegal Um caso de grilagem no Jardim das Camélias Histórias de origens dúbias As alegações federais de propriedade: sesmarias e índios As alegações de propriedade de Ackel: posse e direitos dos invasores As alegações de propriedade da Adis e do estado de São Paulo O mau governo da lei 7. Segregando a cidade Centro e periferia Expulsando trabalhadores e administrando a sociedade Autoconstruindo as periferias Direitos sociais para o trabalho urbano Uma cidadania diferenciada PARTE TRÊS — INSURGÊNCIAS 6. Cidadãos urbanos A nova participação cívica A mobilização do Lar Nacional Reinventando a esfera pública Novos alicerces dos direitos Direitos como privilégio Direitos de contribuidor Direitos por escrito PARTE QUATRO — DISJUNES 8. Ilegalidade.

4. Jardim das Camélias. 2000 5.5.7. Propriedade domiciliar: domicílios classificados por posse dos ocupantes. Lar Nacional.Lista de imagens e tabelas FIGURAS 1. Anúncio de casa própria. a região metropolitana 5.2. eleitorado e votantes. Seis distribuições da desigualdade urbana por subprefeituras. Direito de voto: população. Distritos do município de São Paulo. nas populações rurais e nas urbanas.2. mais ou menos do mesmo ponto de vista da gura 1.1. 1969 5.2. 1990. 1996 1. 1973 1. região metropolitana de São Paulo. Vendendo a casa dos sonhos. Protesto no Lar Nacional (2003). c.) e avenida São João (à dir. município de São Paulo. Jardim das Camélias sendo autoconstruído na periferia da zona leste de São Paulo. Renda média de chefes de família em salários mínimos. casa de José Raimundo: modelo original de casa geminada. Brasil. 1872-2000 5. Brasil. os mais claros.6.1. 2006 1.3.3.1. 2000 5. região metropolitana de São Paulo. da segunda e da terceira gerações se organizam contra despejo MAPAS 3. 1. Lar Nacional.1.) 1. municipalidade de São Paulo. Brasil. 1821-2002 3. Lar Nacional. Crescimento populacional: municipalidade e região metropolitana de São Paulo. casa de Antonio ao lado: idêntico tipo de casa transformada por autoconstrução.3. 2000-2 TABELAS 3. c. 1969 5. 8. c. com adição apenas de portão e garagem.4. Lar Nacional no começo.1. Os contornos mais fortes delineiam o município de São Paulo. 1905-77. folheto de vendas. População urbana. 1872-2000 5. 1950-60 e 1990-2000 5. folheto de vendas. Crescimento populacional por distrito. 1980 1.1.2. Moradores fundadores. 1996 5.3 Perspectiva do bairro proposto.2 depois de outros dez anos de autoconstrução e urbanização. vista do viaduto do Chá (à esq. modernizado e gentri cado. 1969. Lar Nacional 33 anos depois. Resultado do primeiro turno da votação de 2002 nas eleições presidenciais por distritos eleitorais em São Paulo 5. folheto de vendas. Centro de São Paulo sendo desenvolvido. Lar Nacional. 1955. Lar Nacional. Taxa de analfabetismo total. 1872-1999 3. municipalidade de São Paulo.5. Expansão da área urbanizada.2. c.1. 1920-2000 .

PARTE TRÊS INSURGÊNCIAS .

em primeiro lugar. na Bahia onde eu morava. o direito. não resoluções. para se enricar e ferrar com os outros. tinha uns fazendeiros. líder comunitário no Jardim das Camélias As periferias urbanas de São Paulo se desenvolveram. a lei”? Para os inimigos a lei. Mas mais era direito. assim como a maior parte do Brasil. tudo. Das muitas consequências desse mau governo da lei. Nesse contexto. muitos lá têm até através de usucapião mesmo. eu conheço lá tipo Antônio Carlos Magalhães. que conseguiu ganhar ação de usucapião. É. É. dominantes e dominadas — buscam seus interesses. Por isso é um instrumento de desordem calculada por meio da qual práticas ilegais produzem as leis e soluções extralegais são introduzidas clandestinamente no processo judicial. que tudo que tem de riqueza hoje. a lei costuma produzir complexidades processuais e substantivas insolúveis. porque estabelece os termos pelos quais as transgressões serão seguramente legalizadas. apresentar um relato etnográ co de um extraordinário con ito por terras. mostrar como esse con ito sintetiza a luta dos moradores pela inclusão na cidade legal e os mobiliza para criar organizações de base que dão forma e substância a uma nova cidadania. estudar. A primeira coisa que eles faziam com os lhos era mandar os lhos para as capitais. e essas imposições políticas inevitavelmente legalizam usurpações de um tipo ou de outro. Meus objetivos são. e sumia. quando eu vim para São Paulo — isso faz trinta e poucos anos —. ser professor. complicação. ser professora. isso quando não mandava alguém — o jagunço. examinar . essa irresolução jurídico-burocrática sempre dá início a soluções extrajudiciais. que lá no Norte. existe uma que representa mais que uma perversão oportunista: para o subalterno nas periferias. Legalizando o ilegal O que significa esta frase: “Para os amigos.6. em terceiro. porque lá na Bahia. e outros. Nessa situação paradoxal. de acordo com a norma articulada por Zé: como uma arena de con itos por terra na qual as distinções entre ocupação legal ou ilegal são temporárias e as relações entre elas. em segundo. a própria lei é uma forma de manipulação. perigosamente instáveis. esse tipo de coisa. artifícios e violência pela qual todas as partes — públicas e privadas. Zé. por exemplo. eu me lembro muito bem. para estudar direito. Dessa forma. para os inimigos. através do direito. lá e tal — dar sumiço no cara. legalizar o ilegal é a forma pela qual eles se tornam cidadãos urbanos por meio da apropriação do solo mesmo da cidade. a legislação fundiária promove con itos. E os coitadinhos lá da roça. foi através de conseguir fazendas. Este capítulo investiga um caso de fraude fundiária no assentamento do Jardim das Camélias como forma de análise desses processos de (i)legalização.

trabalho e lei que já apresentamos. os pobres urbanos aprenderam. embora as fraudes atuais em torno da terra repitam esses velhos padrões. Essas inovações geram novas oportunidades para distribuir recursos de forma mais igualitária e fomentar o exercício da cidadania democrática. moradores e os trapaceiros estudam essas genealogias para embasar seus argumentos presentes na autoridade da história. que aprendem a usar a lei para legitimar suas reivindicações de terra e que por isso competem em arenas legais das quais têm sido excluídos. Entretanto. Isso não é necessário. meu argumento é que. para as classes trabalhadoras das periferias autoconstruídas. Uma das opções é dizer que a necessidade presente sobrepuja os precedentes. Neste capítulo. como usar suas complicações para obter vantagens legais e extralegais. ou seja. Como veremos. mas em benefício próprio. logo descobri que ninguém poderia entender a disputa em questão sem retroceder no tempo. Essas extraordinárias mudanças derivam de duas condições contrastantes. Em vez de subverter a cidadania. e muitas propositalmente falsas. Se a busca pelas origens tem como objetivo descobrir precedentes que justi quem uma série de . fazem isso com uma diferença inesperada. que nesse caso começa em 1580. Assim. Nesse sentido. Mesmo assim. Por outro lado. O caso mostra que a terra nesse bairro periférico tem estado em litígio há não menos que quatrocentos anos. No próximo capítulo. como em tempos passados. por exemplo. Por um lado. que ativistas da Igreja Católica e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra assumiram nas disputas de terra no Brasil. embora a lei cotidiana permaneça uma carga a ser enfrentada. eles perpetuam o mau governo da lei.a relação entre a lei e a sociedade que ele revela. no entanto. advogados. Assim. Em seu âmago legal existe a busca de um título. disputas pela terra são explicitamente batalhas sobre o signi cado da história. uma posição. os litigantes costumam adotar uma estratégia fundamentada na história: usam a lei para fornecer origens históricas verossímeis a suas alegações. Como opõem interpretações sobre a origem dos direitos. de políticas fundiárias destinadas a ancorar e disciplinar certo tipo de força de trabalho e de ilegalidades que precipitam a ocupação e a legalização de reivindicações de posse. Eles operam sob um pressuposto básico dos direitos de propriedade em muitas sociedades de que os precedentes históricos conferem legitimidade. a ilegalidade residencial gera uma insurgência de direitos políticos e civis entre os pobres urbanos. Essa demonstração estabelece que as periferias urbanas devem sua formação a uma reiteração contemporânea de antigas relações de terra. essas mobilizações políticas e legais ajudaram a gerar uma nova Constituição e medidas relacionadas que se aplicam diretamente às suas experiências residenciais nas periferias. Os próprios litigantes. vou me deter nessa consequência. a investigação também revela que. uma busca por origens que justi quem ou desmontem alegações. mas também por um novo tipo de participação na lei e uma nova cidadania participativa que exigem inclusão total. a maioria acaba sendo bastante ambígua. juízes. Vou desenterrar a história desse caso fundiário por razões estratégicas. a moradia ilegal instaura a oportunidade de legitimar a propriedade da terra não só por meio da legalização das reivindicações. me concentrarei nesse resultado. sobretudo através de lutas pela propriedade de suas casas.

Mas. em geral com base em noções do que é certo. De acordo com essa visão. a compreensão de que múltiplos interesses informam sua aplicação e sua elaboração evita a suposição de que a lei é justa (ou democrática) sem a investigação das formas pelas quais um específico estado de direito se liga a um regime de cidadania. seus estudos focam a lei como um sistema de poder. e sua incapacidade para fazer isso é o resultado de fatores alheios à sua natureza. Esses estudos con rmam a observação de Foucault (2007: 230) de que “a existência de uma proibição legal cria em torno dela um campo de práticas ilegais”. assim como a crítica de Marx às injustiças da lei. clareza e resolução. Estudantes de direito aprendem que a lei formal se fundamenta na lógica cientí ca dos valores legais transcendentes e liberais. O estado de direito tem tanto a ver com essas produções como com objetivos de probidade. justo e bom. embora seja previsível que a lei gere caos. pois a rmam que. Vou estabelecer essa cção legal para desmascarar não só o apelo à história nesses casos como também o que permanece sendo o princípio central na formação jurídica acadêmica brasileira no tocante à ideia da lei e de sua explicação por função. Ademais. que o fundamento social da lei como instituição é o seu papel na manutenção da coesão social. No entanto. Nader (1965: 21) escreve: “A maior parte da inclusão dessas funções extralegais na literatura antropológica tem sido anedótica. quase sempre corrompidos pelos interesses do mundo real. a corrupção e a política. reforçando a conformidade às normas e estabelecendo clareza nas relações. em uma observação astuta que continua válida até hoje. a antropologia subsequente rejeita essa visão essencialista e funcionalista da lei. mas também que a ilegalidade e a injustiça produzem a lei. ou seja. com frequência isso se faz por propósitos estratégicos que pouco têm a ver com a justiça. tomando os múltiplos interesses que a mobilizam. Assim. A formação jurídica em geral atribui as incapacidades das instituições legais à lacuna que Shirley eleva a um conceito analítico. mas no Brasil alcançou proporções quase surrealistas”. a lei precisa promover esses ideais. . Essas visões das leis são funcionalistas. abusos da lei e não parte da própria lei”. Com certeza. 1 É claro que antropólogos de diversas vertentes teóricas têm descrito esses chamados aspectos extrínsecos dos sistemas legais. minha pesquisa das origens tem também algum intento corrosivo. [Elas] não pretendem ilustrar a lei. e sim são exemplos do que deveria ser incluído em qualquer verdadeiro estudo etnográfico da lei”. gostaria de enfatizar não apenas que a lei produz ilegalidade e injustiça. a nal de contas. Foucault e estudos legais críticos. Schapera (1955: xxv) justi ca por que ele exclui os “muitos subterfúgios empregados para contornar a lei” de seu manual da lei dos Tswana ao a rmar que os próprios nativos poderiam se ressentir da “inclusão do que são. numa discussão acerca da lei brasileira.2 In uenciada por Marx. tanto a lei como o con ito canalizado favorecem a coesão.3 No caso em questão. Assim. a lei serve à ordem essencialmente ao resolver con itos. Esse funcionalismo caracteriza também a antropologia clássica do direito. caso contrário seu arbítrio comprometerá a possibilidade da justiça. Em vez disso.reivindicações para subverter outras. sua incoerência na prática e sua racionalidade como um tipo de discurso. Shirley (1987: 89) atribui suas disfunções a uma “lacuna entre o direito formal e o aplicado [que] é real em todos os países. quando a lei processa um con ito. como a incompetência.

em vez de resolvê-las? Meu argumento ressalta a intenção e a norma. seja ocupando terras nas periferias. Assim. assim. as periferias urbanas de São Paulo e de outras cidades brasileiras normalmente se desenvolvem por meio de dois processos no que se refere à lei: um de ocupação ilegal. que provoca con itos e. a legislação fundiária brasileira perpetua a dominação. obrigados a repensar a lei se o litígio for sobretudo uma forma de perpetuar e obscurecer disputas. mas principalmente da força de um conjunto de intenções a respeito de sua elaboração e aplicação diferentes das que têm por objetivo a justiça e uma resolução justa. a legalização de suas precárias reivindicações. ilegal. essa estratégia se tornou onipresente. acentua a desigualdade e promove a instabilidade de forma regular e previsível. como supõe o funcionalismo. em última análise. que a aperfeiçoaram como forma de surrupiar patrimônio real e que resultou em grandes ganhos. Aplicada dessa maneira. porém produtiva. sejam desejáveis. Não duvido de que possam existir na lei modelos utópicos nem de que. nem a lei nem os con itos têm chance de resolver problemas na rede mais ampla das relações sociais. concomitante. encontramos posses legais de terras que são na origem usurpações legalizadas. No que se segue. portanto. mas sim de que as distopias da lei sejam externas à sua elaboração. a moradia ilegal é uma forma comum e. de fato. Mas depois de quatro séculos de uso. De modo signi cativo. legitima a usurpação. do modelo explanatório. Vale a pena repetir que essa relação instável. O caso do con ito de terra que analiso apresenta um papel historicamente especí co da lei. Assim. que as abre aos assentamentos. tanto nas famílias brasileiras mais ricas quanto nas mais pobres. e outro. Por isso.4 Seja comprando. a maioria das pessoas parece entender esse . Estaremos. A PERIFERIA ILEGAL O assentamento das periferias urbanas perpetua a grande agência histórica da ocupação de terras no Brasil: é a ilegalidade que a torna possível. portanto. de legalização do ilegal. operacionalizada através de con itos. depois de longa e árdua batalha. de tudo aquilo que é disruptivo. porque o desenvolvimento do centro é sobretudo legal e o da periferia. Ao contrário. pois a legislação fundiária no Brasil produz tanta confusão em seus próprios termos que podemos descon ar não apenas de incompetência e corrupção. de uma forma ou de outra. ainda que muito lentamente. a torna produtiva. e em especial nas décadas recentes. con ável de as classes trabalhadoras urbanas terem acesso à terra e à moradia e transformarem suas posses em propriedades. transformando-o em mau governo. entre o ilegal e o legal se cristalizou primeiro no começo da colonização como uma estratégia das elites agricultoras. A própria ilegalidade dos lotes residenciais nas periferias torna a terra acessível aos que não podem pagar os altos preços de compra ou de aluguel das residências legais. minha principal preocupação é com as consequências teóricas e sociológicas da eliminação. essa ilegalidade residencial acaba provocando um confronto com as autoridades legais em que os moradores em geral conseguem. Esses processos submergem quaisquer ideais de justiça que o sistema legal brasileiro apregoe. O primeiro sustenta um padrão de segregação do centro à periferia. O segundo erode esse padrão.

são enganados. Eles pagam pelos lotes residenciais achando que suas prestações vão comprar a dignidade e o respeito de ter um imóvel. e seu desenvolvimento era em grande parte não regulamentado. os residentes “não querem morar de graça”. Como Paulo avaliou na reunião da associação de moradores.paradoxo central da ocupação da terra. A situação legal de uma propriedade depende inicialmente de como ela foi zoneada. Os que invadem ou tomam posse do terreno não têm direitos legais a ele. Em 1915. Na verdade. a maioria dos moradores das periferias não é de invasores. Não estou sugerindo que os moradores justi quem a posse como um passo para a legalização. pois criou uma dicotomia persistente entre uma zona central de nida por um perímetro urbano e o restante. a despeito de se comprar ou invadir um lote residencial. os terrenos não eram considerados urbanos. em geral percebem que sua atitude foi prejudicada pelas formas ilegais pelas quais os incorporadores vendem os terrenos — desde a pura e simples fraude até o não cumprimento no fornecimento dos serviços urbanos básicos exigidos por lei. depois dos anos 1940. embora a lei tenda a reconhecer que eles são donos de suas construções e permita sua realocação se os residentes forem despejados. É por uma questão de orgulho e de autoestima que eles pagaram por seus terrenos. Os que compram os lotes. suburbana e rural. Quando os pobres começaram a se mudar para as periferias. não conseguem uma escritura e sofrem muito em consequência disso. a Lei Municipal 1874 primeiro dividiu São Paulo em quatro zonas: central. Em termos objetivos. o zoneamento municipal criou . Essa categorização inicial contribuiu de maneira signi cativa para o desenvolvimento ilegal das regiões mais afastadas da cidade. Eles rejeitam de modo categórico qualquer sugestão de terem procurado intencionalmente uma transação de terra ilegal. O fato de terem feito isso está na base de suas exigências de direitos integrais à propriedade. além das desvantagens morais da ocupação de terras como primeiro passo deliberado para a propriedade. Assim. as duas opções sempre levam a alguma forma de moradia ilegal ou irregular. A maioria das regulamentações de planejamento e construção se aplicava apenas à região central. urbana. o estatuto jurídico da ocupação do terreno é muito mais complicado. argumentam que. permanece o fato de que as classes trabalhadoras normalmente só ganham acesso à terra porque ela é ilegalmente ocupada. e portanto têm alguma reivindicação legal de posse. Embora alguns posseiros e suas organizações tenham entendido que legalizar o ilegal é uma boa aposta de longo prazo e tenham aprendido a manipular essa lição da história tão bem quanto os ricos que sempre o zeram. eles são ameaçados de invasão pelos que alegam ser donos da terra e são então ameaçados de despejo. Embora a distinção de quem pagou pela casa e quem não pagou — entre o autoconstrutor e o favelado — seja clara para os moradores. existem razões econômicas: a legalização de posses de terras leva tempo demais para atender seu objetivo de deixar um legado para os lhos. minhas entrevistas mostram que mesmo os que conseguem articular a aposta na legalização cam moralmente indignados diante da possibilidade de serem considerados invasores. desenvolvida e vendida. Uma legislação posterior estabeleceu as exigências para o desenvolvimento em cada uma delas. O problema é que. Vítimas de vendas irregulares. porém. Além disso.

exige um título legalmente registrado. Todas as transações referentes à propriedade devem ser assim registradas para que os relevantes direitos legais sejam obtidos. regulamentada e legal. para facilitar o desenvolvimento dos trajetos de carro e de ônibus até as regiões mais distantes. A legislação especi cava. Por lei. políticos) para criar exceções. que estipulam os procedimentos para registrar o loteamento e alienar o terreno. Quando as periferias foram ocupadas. como vimos antes. incorporou muitas ruas particulares que não atendiam às exigências do zoneamento rural e eram. as pessoas compram lotes de quatro tipos de loteamentos. que estabelece as formalidades que constituem o sistema de registros públicos privado. Porém. por meio do qual uma propriedade é adquirida “mediante o registro do título translativo no Registro de Imóveis”. Todas elas exigem favores executivos (isto é. portanto. que era urbana. clandestino e fraudulento. Nesse processo. De acordo com a de nição dos códigos regulatórios. A plena propriedade de um terreno urbano. que. de um lote num loteamento legalmente registrado. e o crescimento nas periferias. abrindo essas ruas particulares na orla do perímetro urbano em expansão. tinha de ter certas dimensões e infraestrutura mínimas. 6 Seu imenso poder burocrático lhe é conferido pelo Código Civil.5 Quando a terra é absorvida pelo perímetro urbano. que em geral coexistem no mesmo bairro: legal. ilegais de acordo com as regulamentações. Essas exigências foram por sua vez fundamentadas no modo burocrático de aquisição de terras estabelecido pelo Código Civil Brasileiro (de 1916 e rea rmadas no de 2002: artigo 1245). tratamento especial e anistias. Ao contrário. Qualquer coisa menos que isso põe em risco a propriedade. por exemplo. Os incorporadores usaram essa possibilidade para disponibilizar novas terras para vendas lucrativas. Essas transcrições são reguladas pela Lei de Registros Públicos (6015/1973). Códigos municipais e federais regulamentam os loteamentos dos terrenos urbanos (sobretudo a Lei Federal 6799/1979). entre as quais tamanho mínimo do lote. que estabelece que transações imobiliárias não transferem propriedade ou direitos relacionados a não ser a partir da data em que são transcritos em livros legalizados de registro: ou seja. Mas essas ações em geral não equipavam os loteamentos de infraestrutura urbana. . sua situação legal depende de como está loteada. para uma rua ser legal dentro do perímetro urbano. conexões para serviços e espaços abertos para circulação do tráfego e serviços comunitários. esse perímetro urbano se expandiu de forma progressiva por meio de nova legislação e anistias que zonearam novamente os terrenos. uma nova legislação criou novas camadas de ilegalidade. labiríntico e venal dos cartórios brasileiros. parcelas dos terrenos urbanos só podem ser incorporadas quando estiverem subdivididas em lotes. que estabelecem exigências físicas. que não era. Assim. como diz o ditado. alienada. irregular. uma lei de 1913 contornou essas exigências ao permitir a criação de “ruas particulares” nas zonas rural e suburbana às quais não se aplicariam os códigos urbanos. o que signi ca essencialmente se por meio de venda ou posse. e de como foi adquirida. “os que não registram não são donos”. deixavam os moradores em circunstâncias legais e materiais precárias que tornavam improvável a obtenção de um título legal. portanto.uma dicotomia entre o desenvolvimento na região central. uma escritura. assim como regulamentações burocráticas.

mas de alguma forma viola as exigências para o parcelamento da terra. Em 1981. é aquele vendido por um grileiro.2% e 1.O tipo mais raro dos quatro. Em dois dos bairros mais ricos. respectivamente. um loteamento legal. era de 1. sob uma diferente administração. O contraste entre esse centro legal e as periferias não poderia ser maior. a diferença entre as duas era de menos de 5%. É di cílimo saber o quanto São Paulo é ilegalmente ocupada e construída. propõem que em 2003 havia cerca de . a discrepância entre as duas medidas sugere a extensão das construções ilegais. estimou que a porcentagem de ocupação ilegal de terras era de 9% da área total (Rolnik. onde os mais ricos vivem principalmente em prédios de apartamentos. embora o próprio terreno possa ser propriedade legítima de seu incorporador. Um loteamento fraudulento. e até mesmo registrado. devemos portanto considerá-las com ceticismo. uma pesquisa histórica em títulos de terras demonstra que a prova usada para alegar propriedade legal é contestável e não con ável. Uma das estimativas mais sugestivas para construção residencial calcula a diferença entre o número de domicílios levantado pelo censo nacional e o número registrado no Cadastro Territorial e Predial de Conservação e Limpeza ( TPCL). Esses números indicam que a construção no centro da cidade é quase toda legal. Um loteamento clandestino é aquele que não está lavrado no registro de bens imobiliários. Como as estimativas disponíveis não levam em conta uma investigação histórica caso a caso (uma impossibilidade). o Departamento de Planejamento Municipal calculou que São Paulo tinha 3567 loteamentos ilegais. Em Guaianazes. Um loteamento irregular é — ou melhor. um loteamento ilegal é classi cado de acordo com sua infração mais grave. Embora as tipologias possam ser claras. responsável pela regularização das habitações. Ou seja. pois a complexidade histórica é muito maior. Caldeira (2000: 236-7) calculou que nas periferias mais pobres de 1991 — um agregado de 28 distritos — a discrepância entre as construções residenciais legais e ilegais era de 164%. com base em documentos fraudulentos. a diferença era de 433%. uma proporção de mais de quatro para uma! As estimativas da quantidade de terras ocupadas sem um título seguro são ainda mais duvidosas. ou grilado.2 milhão de lotes residenciais e correspondendo a aproximadamente 21% da área total da municipalidade.d. Cálculos da Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano do Município de São Paulo (Sehab).6 unidade residencial não registrada e presumivelmente ilegal para cada unidade registrada. Cerqueira César e Jardim América. como demonstra Caldeira (2000: 235) para o censo de 1991. o mesmo departamento.9%. o loteamento grilado enfrenta problemas adicionais porque foi incorporado. Assim. Kowarick e Somekh s. enquanto os três tipos ilegais violam as leis de planejamento. havia 1. o distrito que teve também o mais alto crescimento populacional da cidade entre 1980 e 1991. que nge ter um título legal da terra usando de um vasto repertório de fraudes. Em 1990. por exemplo. Embora em geral combine aspectos de diversos tipos. Caldeira constatou que nos distritos centrais.: 94-5). Enquanto o censo conta todas as unidades residenciais. parece ser — de propriedade legítima e registrado por seu incorporador. preenche todas as exigências físicas e burocráticas. compreendendo mais de 1. Assim. o registro o cial de construções urbanas da municipalidade. o TPCL registra apenas as que são supostamente legais.

embora apenas 16% tivessem declarado possuir uma escritura de nitiva de seus lotes. A moradia ilegal não é só uma incerteza estatística. Caldeira (1984: 70) descobriu que. Quando e se a nal entendem seus apuros legais. muitos mais pudessem não ter chamado a atenção e muitos outros tivessem de ser reclassi cados como ilegais se seus títulos fossem investigados em minúcias. é improvável que em apenas uma década tantos casos de ilegalidade possam ter sido resolvidos para reduzir à metade a área ilegalmente ocupada. regulamenta a transação imobiliária não quitada com um contrato promissório que estabelece os termos de pagamento e obriga o vendedor a transferir o título depois da quitação. só posso atestar com absoluta convicção que é um número alto. como as formas americanas do depósito em juízo (escrow) e do seguro de escritura (title ensurance). mesmo que as autoridades saibam dos 3 mil loteamentos ilegais na São Paulo contemporânea. mesmo que muitas de suas consequências sejam brutalmente precisas. A di culdade é que incorporadores de diversos tipos. comprovantes de impostos. enquanto alguns funcionários dizem que “é possível a rmar que entre 60% e 70% dos moradores do Município encontram-se hoje em uma situação que contraria os modelos de apropriação e organização do espaço contidos nas normas jurídicas vigentes” (Rolnik. Disseram-me muitas vezes que “deve ter alguns problemas por aqui. as pessoas não conseguem obter um registro legalizado até que corrijam a infração. os moradores em geral percebem que seu investimento está em risco. Contudo. levantamentos do terreno e protocolos para registro preliminar — baseados em fraudes ou irregularidades ainda encobertas. A lei brasileira não prevê instrumentos de garantia por terceiros credenciados da legitimidade do título. especialmente grileiros. Assim. recibos de vendas. Kowarick e Somekh s. 57% tinham quitado os pagamentos. abrigando 3 milhões de moradores e ocupando 20% das terras da municipalidade (Resolo 2003: 25). entre as famílias que haviam comprado terrenos no Jardim das Camélias.d. Mas mesmo essas declarações não podem ser aceitas sem contestação. a serem usados antes da transferência de dinheiro para o vendedor do imóvel. porque eles só podem pedir uma escritura quando terminam todos os pagamentos pela propriedade. adquiridas com tanto sacrifício.3 mil loteamentos ilegais. pois muitos moradores simplesmente se recusam a admitir que suas propriedades. Talvez seja o caso de considerar que a extensão de habitações ilegais tenha permanecido relativamente inalterada desde 1981. Em 1979. Mas talvez seja mais provável que. mas está tudo em ordem com o meu lote”. e me mostraram documentos para provar isso.: 90). não estão seguras. Quando compram um lote num loteamento ilegal. pode demorar décadas até mesmo para se descobrir um problema. costumam apresentar aos compradores resmas de registros de transações de boa-fé — por exemplo. uma formalidade burocrática que auxilia muitos golpistas. e que outros a rmem que o número está mais próximo de 30%. Ora. Os moradores podem até obter . que suas reivindicações estão emaranhadas em desventuras burocráticas e que suas famílias estão ameaçadas de despejo. É também improvável que esse número dobrasse outra vez na década seguinte. É também uma experiência vivida de complexa ambiguidade. sobretudo uma vez que a taxa anual de crescimento populacional de São Paulo declinou nesses anos. Em vez disso.

Inspirando-se nas intrincadas formalidades da própria legislação imobiliária urbana e de sua burocracia de assinaturas. e nenhuma dessas situações é inconcebível. sem uma exaustiva pesquisa de títulos de cada um dos lotes. O caso a seguir ilustra esse estratagema. isso se Z (que pode ter representado outros compradores) não for cúmplice da fraude ou se as alegações do casal de velhos não forem elas mesmas ilegítimas. os ocupantes vão acabar cando com o terreno — se conseguirem mobilizar-se e demandar que o governo legalize sua usurpação devido a “interesses sociais”. como . Esse registro a rma que a terra pertencia a um casal nascido na década de 1860. que atesta que um certo X se apresentou como portador de uma procuração do casal para vender o terreno a Y — a propósito. Esse cartório baseou sua transcrição no registro de transferência da propriedade naquele mesmo mês no 17o Cartório de Registro de Imóveis de São Paulo. Em todos os casos. Como resultado. que saíram de cena com um monte de dinheiro. por exemplo. sem contar o pessoal humilde suscetível à intimidação por documentos que parecem o ciais. em São Paulo. um status judicial crucial nas lutas dos pobres em disputas de terra. pois podem ser usados para estabelecer a boa-fé da vítima da fraude.documentos de quitação com base nesses registros. documentos legalmente inscritos num registro cartorial podem ser baseados em documentos falsos ou irregulares em outro. de acordo com certidões de óbito registradas no 19o Cartório de Registro Civil de São Paulo. Imagino que os tribunais vão levar muitas décadas para concluir que Z e a propriedade do casal foram fraudadas por X e Y. um advogado. sabendo não só que as pessoas são ingênuas e que as informações de que elas dispõem sobre as propriedades não são con áveis. Y vendeu o terreno para Z. Há muito tempo. dadas as complicações legais envolvendo qualquer uma dessas possibilidades. Em 1987. Esse subterfúgio exempli ca o que continua a ser a estratégia fundamental de golpistas de terras de todos os naipes. selos. aposto que. Tentam todas as fachadas legais e burocráticas possíveis para cobrir suas operações com um manto de legalidade. vamos descobrir a fraude original: o 17o Cartório de Imóveis baseou seu registro num título transcrito em 1986 no cartório de uma pequena cidade no estado do Paraná. não estabelecem um título legítimo e privam os compradores de seu sentimento de posse. mas também que uma pesquisa normal do título provavelmente não revelará nenhuma fraude. e que naquele ano era proprietário da terra por procuração de Y. pois. Os grileiros se apoiam nessa di culdade. Se escavarmos mais fundo. agora adaptados às circunstâncias da urbanização de massas: o uso de complicações como meios para a fraude. carimbos e cópias notariais. Mesmo assim. perto de São Paulo. em geral é extremamente difícil determinar a situação legal de um terreno comprado nas periferias. ou a distribuição das condições de propriedade em um bairro. eles forjam seus golpes dentro das próprias leis que infringem. O problema é que em 1986 o casal já estava morto havia muitas décadas. Esses títulos comprometidos ou contratos promissórios não são inteiramente inválidos. casado em 1890 em Santos e que morava em 1986 em Guarulhos. que registrou a venda no 7o Cartório de Notas de São Paulo. que em última análise são irregulares e estão sujeitos à contestação por outros supostos proprietários. foi ocupada uma área de 30 hectares ao longo de uma das margens do rio Tietê. na periferia nordeste da cidade. às vezes tão bem tramado que enganam advogados e juízes.

são versões contemporâneas de antigas práticas que inspiraram incontáveis operações fundiárias ilegais. Em 1969. Assembleia Constituinte de São Paulo 1935: 228). como é chamado pelos moradores. existe uma perversa e bem conhecida correlação entre fazer a lei e infringir a lei. “A política de terras de S. apareceu no ainda esparsamente ocupado Jardim das Camélias. Em vez disso. Inevitavelmente. Usando sua empresa imobiliária. como lembrou um deputado da Assembleia Constituinte estadual de São Paulo de 1935 aos colegas. A. mas que não conseguiram obter seus títulos legais porque os lotes foram vendidos de forma fraudulenta. durante debate sobre uma emenda para dar títulos legítimos aos que reivindicavam terras sem que pagassem os impostos estaduais sobre propriedade.permitido pela nova Constituição federal. um homem chamado Rafael Garzouzi. Paulo”. vou analisar um exemplo de fraude fundiária no Jardim das Camélias. cercou onze lotes de seis por vinte metros e começou a vendê-los. revalidar os grilos passados” (Henrique Bayma. Primeiro vou resumir a cronologia da disputa pela terra desde que os moradores se enredaram. não categóricas e temporárias. queixou-se ele. Mesmo que um intrépido pesquisador sobreviva à caça aos papéis nesses casos. Apresentava um contrato promissório que comprometia os compradores com prestações mensais por períodos de dois a dez anos e que . montou um escritório no local. em geral é difícil determinar quem é dono do quê debaixo dessas camadas de complicações. Por isso. essas disputas costumam ser impossíveis de decidir no tribunal. Para os compradores ele mostrava um plano para desenvolver todo o bairro e certi cados para a área que haviam sido registrados no cartório competente. essas intervenções legalizam a usurpação. contudo. e depois analisar as várias alegações de propriedade cujas contradições tornam o caso judicialmente insolúvel e cujas complicações se estendem. UM CASO DE GRILAGEM NO JARDIM DAS CAMELIAS Para entender a vitalidade dessa política fundiária e sua importância para a formação das periferias. sempre para evitar os grilos futuros. retrocedendo até o século XVI. ele abriu algumas ruas de terra. “foi. Além do mais. ou “o Turco” ou “o Libanês”. como acordos e anistias periódicas. O caso envolve 207 famílias que adquiriram lotes entre 1969 e 1972. e portanto insinuam práticas ilegais e extralegais na conduta da lei.. Talvez pelo simples fato de constatar a norma. a Adis Administração de Bens S. nas quais as instituições executivas e legislativas do governo intervêm para declarar que o sistema judicial capitulou e anulam um conjunto de reivindicações de propriedade em favor de outro. essa observação não teve efeito nas deliberações da Assembleia. Assim. à espera de provas mais conclusivas porém inexistentes sobre os méritos das partes litigantes. mostrando assim que as diferenças entre legal e ilegal nessa área de grandes consequências sociais são conceitualmente frágeis. Desnecessário dizer que essa irresolução serve aos interesses dos golpistas. pois esses casos geralmente são resolvidos por meio de onerosas manobras políticas e extrajudiciais. cam circulando para sempre pelo sistema burocrático. É um exemplo do tipo de grilagem e do consequente caos legal que atormentam milhões de moradores das periferias de São Paulo. como no próximo exemplo.

sem efeito. em resposta à contestação de Ackel. construíam novas cercas de acordo com os diferentes tamanhos e localizações dos lotes. em 1972.7 Os moradores reagiram de várias maneiras. desde 1890. alegando que o espólio de Ackel tinha na verdade usurpado esses direitos ao incorporar o plano de loteamento de 1924 e vender cerca de setenta lotes desde então. a Adis e seus sócios lançaram uma campanha de intimidação: contrataram capangas que demoliam construções. a rmando que possuía os direitos legítimos de propriedade desses lotes desde 1958. pois um desses advogados. O plano de 1924 foi assim completamente des gurado por múltiplas camadas de incorporações contraditórias e um sempre crescente número de terceiros com alegações de propriedade. A Adis manipulou com maestria a burocracia judicial de forma que os processos de uma e outra parte circulassem pelo sistema legal durante muitos anos.garantia que a Adis forneceria os recibos e uma quitação depois do pagamento nal. além de ruas irregulares — e tudo isso facilitava a venda do mesmo lote mais de uma vez. A Adis contra-atacou. de uma enorme porção de terra que incluía os lotes. Além disso. o comprador poderia registrar sua aquisição e transferir a titularidade do imóvel para o seu nome. Mas a empresa usou esse tempo para lotear o resto do bairro e vender outros 233 lotes. irmão de José Miguel. Antônio Benedito Margarido. em 1972 cerca de oitenta pessoas organizaram uma Associação de Amigos do Bairro para defender seus interesses coletivamente. na . Vendeu ainda duas grandes áreas para sócios. Alguns foram enganados por vendedores ambulantes de documentos que batiam de porta em porta a rmando representar as incorporadoras ou até mesmo a prefeitura. e de seus predecessores. contudo. desfigurava um plano já aprovado em 1924 para a mesma área em nome de José Miguel Ackel. A área agora tinha quatro nomes distintos e planos de loteamentos com lotes em diferentes localizações e de dimensões abaixo do padrão. Finalmente. Muitos contrataram advogados que apareceram no bairro oferecendo seus serviços e que desapareciam assim que recebiam os adiantamentos por seus honorários. O plano não só violava as leis municipais de planejamento como também. Com esses documentos em mãos. foi que. Esse relacionamento acabou sendo duradouro. A Adis exigiu compensações. derrubavam cercas. acreditando que seus lotes eram legais. descon adas de ilegalidades de todos os lados. parte dos quais rebatizou de Vila Tyrol. o espólio de Nadime Miguel Ackel. seu plano de arruamento e loteamento não tinha sido aprovado pelas autoridades competentes — nem poderia ser. que as lotearam para vender como Jardim Ocidental e Jardim Eliane. e dessa forma negavam acesso aos que não tinham comprado dos seus patrões. Outros ignoraram a situação. No início dos anos 1970. Entre as muitas coisas que a Adis não contou aos clientes. Elas buscaram o aconselhamento de um grupo de advogados liados à Universidade de São Paulo. continua dedicado ao caso desde então. embora as assinaturas do contrato fossem reconhecidas em tabelionato. o estado de São Paulo interveio alegando que. abriu processo contra a Adis para retomar os onze lotes que alegava serem seus. à Igreja Católica e a partidos políticos de esquerda e que eram conhecidos por seus trabalhos com outras organizações de base. o mais grave. Quando se iniciou a disputa jurídica.

e a conta bancária em juízo também parece ter desaparecido em algum ralo da burocracia governamental. Quanto mais casos Margarido vencia. os depósitos bancários reapareçam como prêmio aos sobreviventes. Até hoje. até a resolução da disputa pela propriedade. contudo. não. Talvez quando — se acontecer — a disputa jurídica for resolvida. que os moradores estavam depositando os pagamentos em juízo regularmente na conta do estado. caso a caso. era o dono da terra e ordenou o sequestro judicial dos onze lotes. o dinheiro desapareceu. em 1988 para um grupo de moradores de 59 casas na Ocupação Pirandello. Como o edital de sequestro não a impedia explicitamente. nenhum outro advogado representando os moradores tinha conseguido vencer os grileiros. Eles não haviam seguido a estratégia legal da associação e descon aram do presidente e do advogado. ao qual a Adis respondeu com outro processo e o estado. não ouvi falar de nenhum morador que tenha interrompido seus pagamentos. Porém. monitorada pelo tribunal. a Adis reagiu entregando aos moradores avisos de despejo para intimidá-los a quitar seus pagamentos acumulados. Ele me disse pessoalmente que por princípio se recusava a negociar com “criminosos” — referindo-se aos grileiros — e a manipular “detalhes técnicos” legais em favor de seus clientes porque essas tecnicalidades sempre tinham respaldado os governos . que não poderiam vender seus lotes de forma legal e que nem o loteamento nem qualquer de suas construções poderiam ser regularizados. conseguia estabelecer um acordo extrajudicial em que seus clientes. Durante esse período. até a nal desaparecer do bairro. quando outro grileiro moveu uma ação de despejo contra eles. Finalmente. que era liado ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O advogado demonstrou. Além disso. pagavam para cancelar os procedimentos de despejo. nem da regularização do loteamento”.8 A ação do estado signi cava que a Adis receberia poucos pagamentos. O despejo havia acontecido. mas não o problema da escritura [individual]. não importa a quem tenham feito os pagamentos. em pânico. a disputa continua pendente. Na melhor das hipóteses. com uma ordem de sequestro para todo o loteamento em 1975.verdade. contudo. por exemplo. essa estratégia complicou as atividades da Adis no Jardim das Camélias até o ponto de desativação. Aliás. A Adis evitou a ação judicial o quanto pôde. como me disse um morador. e o tribunal anulou os procedimentos de despejo. O espólio de Ackel abriu novo processo em 1973 contra a Adis e o estado para retomar todos os 207 lotes que reivindicava. Antes de Margarido. todos os que conheço pessoalmente quitaram suas dívidas na conta em juízo. seus clientes foram despejados. a associação do bairro e seu advogado aprenderam como usar o sistema legal para evitar o despejo. Essa irresolução judicial signi cava que os moradores tinham que completar os pagamentos sem receber nenhuma prova de propriedade. Esse grupo preferiu ser representado por um advogado do Partido dos Trabalhadores ( PT). “essa [estratégia legal] resolveu o problema de não ser despejado. na pior. embora eu tenha sido informado de que alguns preferiram continuar pagando à Adis. mais moradores passavam a depositar seus pagamentos em juízo. porque estavam “negociando” abertamente com a Adis. Esse edital ordenou que os moradores fizessem todos os pagamentos restantes numa conta de poupança no banco estadual. Mesmo assim.

Como resultado dessas estratégias legais combinadas. sim. ele desa ava a Adis a provar a propriedade em de nitivo e demonstrou que isso não poderia ser feito em nenhum caso. Margarido forçou a Adis a pedir adiamentos ou a retirar as ações legais. depois de gastar uma considerável quantia em taxas judiciais. Em contraste. Com os cavalarianos se preparando para avançar. depositando em juízo até ele provar ser o proprietário legítimo do loteamento. em cada audiência. No nal. Esse fracasso comprometeu publicamente o argumento de propriedade da Adis. Ele alegava ser um político. Numa reunião em uma das casas. convenceu seus clientes a conter o medo até o dia do julgamento. até a resolução da disputa. Além disso. essas dezesseis famílias não foram despejadas. Como resultado dessa estratégia legal. mas sim eram compradores de boa-fé que estavam efetuando todos os pagamentos. Margarido apresentou a estratégia da associação a essas dezesseis famílias. que ordenou que a empresa pagasse por um novo levantamento e pela regularização do plano. Fui testemunha do desenvolvimento dessa nova abordagem legal entre os moradores durante o processo de despejo contra a Ocupação Pirandello. mas não pôde ser registrado em nome da Adis. que consistia em “fazer um contrato com o grileiro e assim deixar de ser um invasor e. a associação aprendeu como desarmar seus inimigos por meio de confrontos legais e como elaborar um dossiê de documentos o ciais para provar suas reivindicações. alguns anos antes a associação havia denunciado o des guramento feito pela Adis do plano de loteamento de 1924 ao departamento de registros da prefeitura. enquanto seu advogado dava uma entrevista sobre injustiça à TV Globo. depois começar a pagar e depois parar de pagar. ele não sabia muito sobre as táticas e técnicas da legislação fundiária. não como posseiros. Em seguida o presidente reapresentou o plano “em palavras simples”. o que ele não podia fazer. Como a associação esperava. o novo plano foi regularizado. Além disso. a Adis perdeu ou abandonou todos os casos. enquanto as outras foram.burgueses e humilhado os pobres. Muitos sentavam-se aos prantos nas calçadas. Identi cou cada um com as medidas e localizações exatas para propósitos tributários e atribuiu a cada um deles um número de cadastro de imposto individual — um importante reconhecimento dos direitos e deveres dos moradores como proprietários. eles concordaram em sair e receberam permissão para retirar seus pertences. Então. em meio às suas coisas molhadas e destruídas. Margarido. Os outros se recusaram e continuaram com o advogado do PT/MST. Essa é a estratégia da associação com seu advogado”. o advogado da associação. não um técnico. um comprador. Eles foram despejados num dia de chuva num confronto tenso com uma unidade da cavalaria da Polícia Militar. Famílias de dezesseis dos 75 lotes concordaram em ser representadas por Margarido e seguir a orientação jurídica da associação. até onde consegui saber ao questioná-lo. argumentou que os moradores não tinham desonrado seus contratos nem invadido os lotes. seus participantes ainda não . como requisitado pelo tribunal. Como previsto. De qualquer forma. Não surpreende que seus clientes tenham perdido a causa no tribunal. Além disso. ao pagarem os impostos devidos pelo imóvel. No nal dos anos 1980. a regularização desmembrou cada lote da área maior reivindicada por Ackel e pela Adis.

alienação e subordinação dos pobres em relação à lei. no entanto. Em 1983. 9 Apesar de a vitória não ter sido de nitiva. o caso de nhou n o STF por falta de provas. Com essa abordagem. mas pelas circunstâncias. recursos e. os pobres são vencidos nos confrontos diretos com especuladores e barões da terra. provavelmente. pois só por estes podem ser compreendidos. a Adis e o espólio de Nadime Miguel Ackel assinaram um acordo para extinguir seus processos um contra o outro — embora isso não tivesse efeito nos que também envolviam o estado. Com o passar dos anos. uma relação que pode ser identi cada como um oportunismo estratégico. e de seu advogado para chegar a um novo entendimento da lei e de sua burocracia como recurso estratégico a ser explorado em favor dos pobres. essa inovação redistribui para as classes baixas uma estratégia legal aperfeiçoada pelas elites no período colonial. Essa postura aceita as explorações do sistema legal feitas pela burocracia e pelas classes superiores como corrupções externas daquilo que consideram em si a corpori cação de princípios de justiça a serem venerados. eles superaram a visão essencialista que há muito caracteriza a relação de deferência. de coragem para decidir qual entre a infinidade de reivindicações tinha mais fundamento. o sucesso da associação até agora constitui uma nova relação com a lei por parte de sua vítima tradicional. por considerar a lei um recurso regido não por princípios xos. que por sua vez concedeu um número equivalente a Ackel em outras áreas do Jardim das Camélias. o caso foi ao Supremo Tribunal Federal ( STF). Com efeito. legalizassem ou de qualquer forma regularizassem as terras em disputa. discriminando os vários interesses de propriedade públicos e privados na área. Ackel concedeu os 207 lotes em disputa para a Adis. José Nogueira de Souza. A associação deveu o sucesso desse caso à habilidade de seu presidente. O governo federal também alegou ser proprietário das terras. mas não estavam mais sob o risco de serem despejados. as principais partes no con ito optaram por estratégias extrajudiciais. de procedimentos estabelecidos que devem ser seguidos à risca. Como resultado. ou mesmo — em movimentos revolucionários ou milenaristas — de ideologias políticas a serem rejeitadas por completo. A intervenção do governo federal completou o imbróglio legal da disputa no Jardim das Camélias. Líderes da comunidade consideraram que o acordo não passou de um pacto entre ladrões para estabelecer uma frente unida contra a . negando assim de fato a maior parte da história legal do con ito nos últimos séculos. mesmo quando juridicamente representados. Para prosseguir. primeiro deveria haver uma avaliação de cada reivindicação. e de conhecimentos complexos e axiomas morais que são competência dos letrados. Em 1975. que considerava patrimônio federal. e se recusou a reconhecer a validade de qualquer transação ou procedimento judicial em relação à área da qual fora excluído. o único tribunal com poder de julgar um con ito entre os governos federal e estadual. Contraria a norma de que. Essa habilidade com as regras do jogo fundiário foi uma conquista pioneira de protagonistas de classe baixa numa disputa por terras. A intervenção federal obstruiu e confundiu todas as ações judiciais tomadas até então para esclarecer a propriedade: suspendeu as demarcações e os processos legais em andamento e impediu que a cidade e o estado expropriassem.tinham os títulos de seus lotes.

Por que cada uma das partes aceitou esse acordo extrajudicial. A associação recolheu assinaturas pedindo uma audiência com o governador Franco Montoro. Durante a reunião. expropriaria as terras em disputa e a concederia aos moradores. se tornou praticamente insolúvel dada a sua complexidade procedimental. A questão era: pagar a quem? A essa altura. e os moradores queriam determinar um proprietário claro a quem pudessem efetuar os pagamentos em troca do recebimento do título legal. Em 1986. Marco Aurélio Ribeiro. Os moradores se sentiram exultantes pelo fato de sua mobilização ter produzido efeito nos altos escalões do governo. com a ocasional participação de líderes do bairro. que pressionaram o governador a aceitar a solução amigável que as partes locais haviam assinado como forma de resolver os con itos de terra no Jardim das Camélias. como primeiro governador eleito democraticamente depois do governo militar. prometessem não mais processar membros da associação no futuro. bem conhecido na zona leste por seu trabalho em assuntos locais e que também empregava o advogado da associação. ele deveria sentir-se obrigado a se reunir com os moradores e ouvir suas preocupações. Esse acordo exigia que tanto o governo estadual como o federal renunciassem a seus interesses nas propriedades. Argumentou que. abandonada por tantos anos à ganância dos ‘grileiros’. nenhum morador falou. que “a já caótica situação jurídica da área. em seu gabinete. os moradores também se mobilizaram politicamente para atuar além dos limites do bairro. chamado solução “amigável” para a disputa? A Adis e Ackel queriam ter o máximo possível de reconhecimento de suas reivindicações de posse. Embora tenha negado o pedido. O caso foi apresentado pelo advogado e pelo deputado. ou. na verdade a sua moralidade exigia um pagamento para distingui-los dos posseiros. se lembra de “ter lotado três ou quatro ônibus com moradores” para se encontrar com Franco Montoro no “palácio do governador”. A petição foi entregue ao governador através da mediação de um deputado estadual. a comissão concluiu. Eles estavam querendo pagar. José Nogueira. Por sua vez. que eles “ocuparam com pessoas humildes”. se não. Margarido. Mesmo assim.atividade cada vez maior de posseiros no bairro. a comissão propôs uma resolução “através de atos político-administrativos” com base em um decreto presidencial que abjurasse dos interesses do governo federal em favor do estado de São Paulo. como o do Jardim das Camélias. nas palavras do procurador-geral. o presidente da associação. o governador instruiu o procurador-geral a formar uma comissão para analisar o problema de disputas de terra semelhantes em toda a periferia leste da cidade. concordassem que os que tivessem quitado os pagamentos em juízo haviam cumprido seus contratos e aceitassem inúmeros outros pontos que asseguravam a tranquilidade dos moradores. contudo. um ano depois a Sociedade de Amigos do Bairro assinou um acordo com ambos. Os termos do acordo de 1983 seriam aceitos se.10 Embora dois governadores de estado tenham assinado acordos para formar uma comissão mista . em contrapartida. o estado renunciaria em favor de acordos amigáveis. A comissão dos procuradores do estado se reuniu regularmente durante os anos seguintes. eles suspendessem os processos de despejo. onde possível. Diante da impossibilidade de uma solução judicial. caracterizada pela simples habilitação de enorme número de réus originários e de seus sucessores”.

os moradores resmungam sobre falta de vontade política e corrupção.11 A disfunção previsível e constante da lei em casos como os que examino indica um modo mais sistêmico de irresolução. HISTÓRIAS DE ORIGENS DÚBIAS O sistema legal brasileiro apresenta um modo ad hoc de irresolução em que pessoas de todos os tipos. menos provável que se chegue a um acordo. como admitiu o procurador geral do Estado. ir aos tribunais contra os que não conseguem manipular o processo judicial é uma oportunidade de mostrar seu domínio. A ambiguidade legal. ademais. Como construção legal.estadual e federal para tratar dos detalhes dessa proposta. Enquanto isso. em toda a cidade de São Paulo. e na verdade em todo o Brasil. e costuma fazê-lo em conflitos importantes. A associação do bairro continua buscando “acordos amigáveis” entre novos grileiros e novos moradores na área e desenvolvendo outras estratégias. Dessa forma. claro. ainda que não a maioria. em geral apresentando a lei como uma ciência em que a ambiguidade. e confuso em seus próprios termos para atribuir essas características apenas à corrupção. Apesar de a irresolução legal com certeza promover a corrupção. ou seja. sob a cobertura da lei. Sugere que o sistema legal incorpora habilmente intenções de perpetuar irresoluções judiciais através de complicações legais. Preferem engendrar manobras legais para manter os con itos abertos e burocraticamente amarrados até conseguir garantir uma solução extrajudicial e política. Há. a opacidade. quanto mais importante a disputa. em especial envolvendo a terra. O uso legal da lei também cria “complexidade procedimental praticamente insolúvel”. a instabilidade e coisas do gênero apareçam somente como corrupções. nenhuma ação foi tomada em nenhum nível de governo. Quando indagados a respeito. As classes dominantes usam a lei para adiar tanto quanto possível decisões judiciais nas quais elas tenham de se submeter às incertezas da justiça. e até existem resoluções judiciais. Como vimos. as transações fraudulentas de terra mantêm-se inabaláveis sob a cobertura da complexidade processual. No entanto. algumas intencionalmente criminosas. outros tipos de governo no Brasil. no entanto. . mas não parecem muito surpresos depois de vinte anos de confusão. o sistema é inoperante e contraditório demais. sugiro ainda que ela tem uma consequência mais profunda para a sociedade brasileira: é também um meio de governo que sistematicamente produz a irresolução para uma sociedade na qual a irresolução é um meio de governo. não são apenas a imperícia ou a prática desonesta do direito que geram essa complicação. pois signi ca que esgotaram suas redes de poder e favorecimentos para encontrar soluções. o uso legal da lei legaliza a usurpação. a indecisão. que vamos examinar nos próximos capítulos. Para essas elites. não precisa implicar incerteza administrativa. a lei facilita fraudes e estratagemas. Por essa mesma razão. No entanto. buscam obter vantagens por meio do uso proposital de táticas e poderes da lei para in uenciar uma burocracia facilmente manipulável. à incompetência ou à manipulação individual — embora a formação jurídica faça exatamente isso. ir aos tribunais para um julgamento pode ser um ato de desespero.

mas não no sentido funcionalista. mas também para levar o con ito a uma arena legal como forma de mantê-lo sem resolução porém contido. depois da Independência. as terras indígenas remanescentes das propriedades privadas. as pessoas invocam as complicações da lei não só para propósitos fraudulentos. portanto.12 Para mostrar a força contemporânea da irresolução e da usurpação na lei. Defende que o governo nacional reteve essa propriedade porque tem arrendado essas terras para não índios desde o século XVII através de numerosas intervenções executivas e legislativas. Alguns avaliam que os estados adquiriram direitos reais às terras dos índios em 1891 que não podem ser invalidados por constituições subsequentes. De qualquer forma. vou desemaranhar a teia de reivindicações de propriedades imobiliárias no Jardim das Camélias. Encontrei dois argumentos que comprovam essa reivindicação. controlando-o dessa maneira até ser encontrada a vontade política para sua solução. rea rmaram essa incorporação. com exceção da primeira. a irresolução jurídico-burocrática pode ser politicamente funcional. estabelecidos por concessão real de terras em 1580 e o cialmente extintos em 1850. uma decisão revertida na Constituição de 1934. Não estão mudando as regras do jogo. como exigido. Um deles defende que a Lei de Terras de 1850 e sua subsequente legislação incorporaram as aldeias indígenas criadas pelas sesmarias ao patrimônio nacional. mas usando- as para contestar a exclusividade de seus jogadores estratégicos. A primeira — a Constituição republicana de 1891 — situou as terras indígenas sob o patrimônio de cada um dos estados. mas alega que as terras em questão nunca estiveram nessa categoria. Outros mantêm que. apesar de ter interesses de propriedade. para consolidá-las. Essa história nos leva mais uma vez às fundações coloniais do Brasil e revela até que ponto tanto a ocupação territorial quanto a legislação fundiária se desenvolveram a partir da necessidade de legalizar direitos usurpados — no início para aumentar as fortunas dos colonizadores brasileiros contra as do governo português e. Todas as constituições federais. Ao rastrearmos os argumentos dos litigantes até o passado. o governo federal não tem direitos sobre elas. o ponto . pois nunca discriminou. O segundo argumento do governo federal aceita que pela primeira Constituição os estados adquiriram direitos em 1891 para antigos aldeamentos indígenas declarados abandonados e vagos. ou terra devoluta. O fato de os moradores do Jardim das Camélias e seus advogados terem aprendido a orquestrar esse processo para evitar decisões e acionar soluções extrajudiciais signi ca nada menos do que o fato de eles estarem rede nindo a arena legal. descobrimos que nesse caso o chamado grileiro não é a única parte a usar a lei para construir origens históricas e que será difícil realmente determinar quais origens são as menos dúbias. Diversos contra-argumentos têm sido levantados em oposição a essas reivindicações. Ao perpetuar o con ito.13 As alegações federais de propriedade: sesmarias e índios O governo federal alega ser dono das terras do Jardim das Camélias porque elas se encontram dentro dos limites dos antigos aldeamentos indígenas de São Miguel e Guarulhos. Assim.

quando a Câmara Municipal conseguiu se autorizar a distribuir terras dentro da reserva para os colonizadores. a aldeia logo foi transformada por missionários jesuítas num aldeamento-modelo proposto nas Regras de Governo. Apesar dessa contradição. como era chamado o procedimento. Primeiro houve as invasões abertas da terra. “desde que estes não fossem prejudicados” (citado em Bomtempi 1970: 64). isto é. no começo do século XVI. como os funcionários as descreviam.14 Os jesuítas não pretendiam apenas separar os convertidos e as terras necessários para ensinar-lhes os modos da civilização por meio da agricultura. os índios perderam tanto a liberdade como suas terras. Não surpreende que essas apropriações tenham ocorrido sob a cobertura da lei. estavam assim juridicamente regularizadas as concessões irregulares e eram criadas mais algumas. conferiam aos bene ciados o direito de usufruto da terra que era tanto alienável quanto hereditário. chamados aforamentos. Como já nos aprofundamos nessa “trama invencível” no capítulo 4 para desenterrar as regras básicas para usurpação que estabelecia. Em 1679. produzem mais leis. de forma que a concessão protegesse os índios da escravidão e suas terras da invasão de colonizadores próximos à vila de São Paulo em expansão. Em 1580. para tratar de descompassos entre a lei no papel e a lei na prática. um juiz de apelação veio a São Paulo “em diligência de correição”. Depois. usurpou também as terras indígenas por meio da legalização de atos ilegais. Primeiro o governo local se arrogou o controle sobre suas questões seculares e depois criou ambiguidades legais e complicações processuais relacionadas a responsabilidades do trabalho coletivo que permitiam sua escravização de fato. ele apenas reescreveu a segunda para caber na primeira ao reconhecer o cialmente o que a Câmara já havia usurpado. transformando-a numa reserva o cial de índios cristianizados. e elas oferecem uma lição de como a ambiguidade e a complicação legal servem a práticas ilegais e como essas práticas. regularizando assim suas posses ao convertê-las em arrendamentos e transformando sua condição de meros invasores de terras públicas na de arrendatários juridicamente reconhecidos. e como deram início a um mercado . Esse impasse deriva diretamente do legado do caos legal que o Brasil pós-colonial herdou do sistema português de concessão das terras reais. por sua vez.importante é que todas essas posições apresentam aspectos juridicamente plausíveis que nem mesmo o STF parece capaz de resolver. Mesmo assim. caram sem solução por meio século. 15 Motivado pela mistura usual de ouro. Ele ainda ordenou à Câmara que obrigasse todos os invasores da reserva a pagar um imposto anual. Como eram muito mais fáceis de conseguir do que concessões reais. Esses arrendamentos. resta especificar o caso de São Miguel. Essas “irregularidades”. os jesuítas obtiveram para a aldeia uma sesmaria de mais ou menos 26 mil hectares. cobiça e expansão. Também esperavam receber patrocínio legal da Coroa. até 1660. Estabelecida por nativos guaianás por volta de 1560. o governo concedeu de forma legal sesmarias aos colonizadores que ilegalmente incluíam as terras indígenas. A escravização desses índios cristianizados foi uma caricatura legal. a sua autoridade sobre o aldeamento dos índios e o direito de distribuir suas terras sem restrições. Considerando o problema das terras. um dos quais era o aldeamento dos índios de São Miguel e Guarulhos.

o único meio de obter terras. Assim. registros de impostos. De tempos em tempos. As alegações de propriedade de Ackel: posse e direitos dos invasores A origem das reivindicações da família Ackel no Jardim das Camélias pode ser rastreada até o período de confusão ainda maior iniciado com a abolição das sesmarias. a Coroa abandonou o caso. automaticamente se transformaram todas as aquisições subsequentes em atos de usurpação.privado de direitos sobre a terra. o faz com base em séculos de usurpação através da legalização de atos ilegais. Como qualquer grileiro esperto. A usurpação de terras do assentamento dos índios de São Miguel e Guarulhos é um desses casos. Como foi estabelecido na análise do capítulo 4 sobre a contradição aparente da lei no que se refere à posse ilegal e à usucapião. a Câmara trouxe seu dossiê de documentos reunidos (títulos de sesmarias. Quando a Coroa a nal invalidou a determinação da Câmara sobre a reserva em 1733 e ordenou que a terra fosse devolvida aos nativos. baseada na incorporação de assentamentos indígenas ao patrimônio nacional. que. coloniais e reais para suas políticas fundiárias. Essa possibilidade de transformar posses em propriedades é há muito a principal causa da violência e da usurpação fundiárias endêmicas nas terras no Brasil. a Coroa tomava nota dessas evidentes contradições. Em algum momento entre 1822 e 1850. tendo determinado que a apropriação das terras indígenas era irrevogável porque havia poucos índios restantes para recuperá-las. eles capacitaram a Câmara a dispor de forma rápida e legal das terras indígenas remanescentes — todas supostamente invioláveis pelo ainda válido título de sesmaria. até a Lei de Terras de 1850. conseguiu travar o litígio até 1745. Durante toda uma geração. Mas sempre deferia a resolução em favor de medidas temporárias que indiretamente reconheciam a validade dos arrendamentos. Uma sondagem dessa história demonstra. por meio de complicações processuais. assim como a principal motivação para os grileiros desenvolverem seus repertórios de enganações. A essa altura. aforamentos e assim por diante) para respaldar sua posição e. em 1822. não se conseguiu chegar a nenhum acordo legal para substituir a alienação de terras públicas. a Câmara alegou que durante mais de um século havia acumulado apoio legal de inúmeras administrações regionais. quando o governo usa essa reivindicação para barrar as lutas dos moradores do Jardim das Camélias para obter títulos legais para seus lotes residenciais. como vimos. a genealogia das reivindicações do governo federal da propriedade de enormes áreas nas periferias contemporâneas de São Paulo tem de fato uma história antiga. o problema fundamental é que todas as constituições federais e códigos civis do Brasil criaram condições nas quais os posseiros podem adquirir direitos de propriedade legítimos das posses que ocupem continuamente e usem de modo produtivo. contudo. O efeito foi atravancar a ocupação com mais uma camada de caos: tornando ilegal a posse. os pais de Gabriela Fernandes estabeleceram uma . como sua declaração de 1703 de que apenas seu representante tinha autoridade para recolher os aluguéis. levantamentos de terra.

quando examinamos essa genealogia de propriedades. Traça sua linhagem até 1890. a última reivindicação que consideramos expõe uma fraude. Durante esse incipiente período de crescimento. em relação às quais a noção da verdade jurídica se dissipa e a possibilidade de resolução só aparece nas imposições da política conjuntural. não posso dizer que a compreendo totalmente ou que a descrição a seguir está isenta de distorções ou de erros.16 . proclamação ou até mesmo aquisição — em propriedade. todos certi cados por documentos registrados que por sua vez se referem a documentos anteriores para conferir legitimidade à sua reivindicação. no entanto. sem empregos ou transporte conveniente para outros locais. ao longo de todo esse tempo. com a instalação de serviços de ônibus e trens e algumas pequenas fábricas. os principais argumentos da Adis são genealógicos: ela justi ca sua reivindicação apresentando uma árvore genealógica supostamente legítima. Em 1924. O empreendimento foi um fracasso. pois é a distorção que no caso estrutura o uso da lei. Foi só no nal dos anos 1930 que essa situação começou a mudar. Mas. uma venda transcrita no 7 o Cartório de Registro de Imóveis de São Paulo em 1935. Se a história de Ackel ressalta a importância do costume nessa estratégia. Nadime Miguel. através de sete gerações de direitos de propriedade. Está claro. Gabriela recebeu um lote de 243 hectares como dote. desenvolveu um plano para dividir a terra em cerca de mil lotes. Assim como outros litigantes. e seus quatro lhos a herdaram em partes iguais. é preciso reconhecer. ainda que não totalmente falsas. ainda que discordantes e falhos. uma grande distinção. Quando se casou com Felisbino Santana. a propriedade de Ackel no Jardim das Camélias se origina da venda de terras indígenas usurpadas e da legitimação de reivindicações de posse. As alegações de propriedade da Adis e do estado de São Paulo As origens da reivindicação da Adis no Jardim das Camélias também levam em consideração a do estado de São Paulo. Sem dúvida atraiu poucos compradores porque na época São Miguel Paulista era um subúrbio distante e sem ligação com São Paulo. a reivindicação de Ackel não difere das dos outros litigantes porque revela uma estratégia da lei que todos partilham em suas origens: o uso de uma mistura de costume. Assim. em 1886. torna-se evidente que a Adis e seus predecessores vêm criando origens ilícitas. Sua história mostra que. Ackel comprou a parte desse sócio. Suas manipulações legais foram projetadas para criar relatos múltiplos e plausíveis. a despeito de seus títulos e registros. Pelo fato de sua complexidade parecer interminável. Um ano depois. Elas estão no centro de um dos mais conhecidos e complexos casos fundiários na história do Brasil. José Miguel vendeu 207 de seus lotes ao irmão. essa terra havia sido registrada na paróquia local e legalizada nos termos da Lei de Terras de 1850.grande posse dentro do assentamento indígena. registrou o loteamento aprovado como Jardim das Camélias e pôs os lotes à venda.73 hectares para José Miguel Ackel e um sócio. que não existe uma versão que não seja distorcida. um dos lhos vendeu seu lote de 60. o que constitui. arrendamento. Quando ela morreu. fraude e complicação legal para transformar a mera posse da terra — por invasão.

o Banco Evolucionista hipotecou seu título pendente para outro banco. Embora o novo detentor do título também tenha falido. e depois como colonizadores livres em suas próprias terras. O estado de São Paulo também interveio. pagado e. Medina transferiu sua concessão. que ele não poderia revender aos imigrantes. Por essa razão. para o Banco Evolucionista. a intenção não era apenas estabelecer meios legais para regulamentar títulos de terra e evitar novas invasões de território público. mas sua decisão em 1928 pareceu complicar mais do que resolver a disputa: a Corte con rmou a validade dos direitos rescisórios do Banco Evolucionista à metade das terras adquiridas sob a concessão original de 1890. contudo. A região sul dessa enorme concessão incluía São Miguel Paulista e na verdade tudo o que hoje é a zona leste da cidade. a transação estava sujeita a todas as condições da concessão original.17 Um ano depois. o banco não conseguiu colonizar as áreas no prazo estipulado e perdeu o contrato. por sua vez. Também determinou que o estado de São Paulo havia adquirido direitos sobre a outra . O contrato com Medina dependia de várias condições. Nesse caso. adquirido os direitos referentes a essa porção. pagar um preço xo por essas terras. vendeu o título para a companhia imobiliária Predial. quando o governo imperial promulgou a Lei de Terras de 1850. comprou esse título num leilão público por ocasião da liquidação do banco. em cada colônia. Honold. Mas calculou essa área como sendo de 12500 hectares e não de 25 mil hectares. outros credores do Banco Evolucionista abriram processo para receber parcelas de seus bens. porque o outorgado só tinha medido. conforme a Constituição de 1891. em 1917. divididas em partes iguais em cada lado do rio Tietê. contudo. Nesse ínterim. era o estado e não o banco defunto o dono das terras vacantes em questão. mas não discriminou as terras devolutas das que não o eram. o Banco de Crédito Real do Brasil. que ele havia fundado — um dos muitos bancos de desenvolvimento precários a que as novas políticas fundiárias deram origem. portanto. em 1900. fazer o levantamento da área às suas próprias custas para discriminar as terras sem dono daquelas já adquiridas por outros e sobre as quais ele não tinha direito. No entanto. de início como trabalhadores livres para substituir os escravos nas fazendas. construir um centro com farmácia. Já vimos que. O caso foi ao Supremo Tribunal. alegando que. em 1909 seu presidente. Pretendia também usar a política fundiária para trazer imigrantes europeus ao Brasil. escola e manufaturas para processar a produção agrícola. a leste de São Paulo. o governo republicano deu ao banco um título de 25 mil hectares em 1892. discriminado. Embora esse ato tenha estabelecido os direitos de propriedade do banco. O não cumprimento de qualquer dessas condições invalidaria o contrato. pela qual ofereceu um pagamento. Eugênio Honold. Para essa nalidade. Seis meses depois de ter recebido o contrato. e completar o levantamento da terra e a aquisição em um ano e terminar o assentamento e a construção da primeira colônia em dois anos. Mas conseguiu realizar o levantamento da região sul. o governo republicano provisório doou 50 mil hectares de terras supostamente devolutas para o engenheiro Ricardo Medina. Ele teria de fundar uma colônia agrícola com quinhentas famílias em cada lado do rio Tietê. o bene ciado caria com a metade das terras cedidas segundo os termos do contrato e a outra metade seria restituída ao governo. com todas essas condições. hospital. que executou a hipoteca quando ele mesmo faliu.

que transferiu a venda para a Adis quando se tornou seu único acionista. A Corte designou o estado e não o governo federal como a parte com direito à reversão. Parece que a única solução para essa mixórdia legal especí ca é regularizar. mas todas fundamentalmente comprometidas por sua natureza condicional. porque tais sentenças. na época em que o banco rompeu o contrato. adulteração de marcos de limites. o Supremo admitia que. encontrei dezesseis tipos diferentes de fraude. o reconhecimento da Corte do título do banco. durante cem anos uma in nidade de bancos. Como essa tarefa é praticamente impossível. Dessa forma. As complexidades do título mantêm sua força ao impedir que os tribunais resolvam a disputa de qualquer pessoa individual sem resolver o pacote todo. A comissão de procuradores do estado que se reuniu para examinar o problema em 1986 chegara exatamente a essa conclusão. em 1968.18 Essa decisão teve dois efeitos principais. isto é. argumentando que. Jafet fez a venda para Garzouzi em 1966. os tribunais nunca decidiram pelo cancelamento do título. Algumas são ostensivas. Assim. terras não reivindicadas ou de propriedade ambígua. não podem constituir caso julgado oponível na espécie”. proferidas outras sobre ações possessórias e em relação a terceiros. Os negociantes desses itens de fetiche têm con ado em duas coisas para perpetuar suas transações: suas complicações acumuladas e a fraude. em 1958. as provisões da Constituição haviam concedido as terras sem donos aos estados. Primeiro. para Nagib Jafet. recomendando nada menos que um decreto presidencial para resolver as disputas de terra no Jardim das Camélias. (Citado em Pereira 1932: 113) Em outras palavras. o título foi envolvido. eivadas umas de uma incompetência manifesta. Outras são sutis.metade com base no mesmo contrato. sempre de forma ambígua e às vezes fraudulenta. uma cláusula do contrato a rmava que o vendedor “não responde pela evicção de direito”. Como as terras nunca foram discriminadas e existiam muitos sucessores. quando a Predial fez a venda. permitiu que seus sucessores continuassem a usar os títulos em transações bancárias e de negócios. as decisões judiciais a respeito da propriedade podem ser suspeitas. corrupção de funcionários e destruição de documentos de registro. . sujeitos às mesmas exigências originais de separar as terras com dono das terras sem dono. um ex-presidente da Adis. como falsi cação de documentos. É signi cativo a esse respeito que a decisão do Supremo em 1928 tenha lamentado a existência de decisões da justiça local paulista e da justiça federal reconhecendo o domínio pleno e de nitivo do Banco Evolucionista sobre as terras em questão. No mesmo espírito. por intervenção extrajudicial. embora reduzido à metade em termos ideais. mesmo quando disputas por terra chegam aos tribunais. deu uma origem legal aos interesses de propriedades do estado de São Paulo em lugares como o Jardim das Camélias. Segundo. em toda a periferia leste da cidade. cada hectare contido no título de forma que ele perca força por não ter objeto. o Supremo reconheceu que o banco e o estado tinham direito a 12500 hectares ideais cada um. Ao investigar a perpetuação do título do Banco Evolucionista. em inúmeras transações. fazendo que as oportunidades para a grilagem se multipliquem. empresas do ramo imobiliário e terceiros têm usado esse título para fechar incontáveis transações de propriedades — algumas envolvendo o próprio título e muitas apenas pedaços de terra. Assim.

o grileiro obtém documentos que lhe dão o direito a terras vagas ou idealmente de nidas. O problema é que a hipoteca só podia se referir aos direitos condicionais aos hectares ideais. não a direitos plenos a terras especí cas — um detalhe que do meu ponto de vista também condena as alegações de propriedade tanto federais como estaduais. Cada litigante no con ito usou a lei para criar uma versão dessa história que desse a suas reivindicações uma origem plausível. O MAU GOVERNO DA LEI Depois de quatrocentos anos de assentamento. imperiais e federais. não existem direitos plenos porque ele nunca diferenciou as terras indígenas residuais das terras de outros tipos de propriedade. essas hipotecas alquímicas. Como os documentos agora são parte de um procedimento judicial. uma coisa é certa: ninguém tem um título incontestável de terras no Jardim das Camélias — nem. a tal carta incluía um levantamento que definia uma área de 21600 hectares. Nos documentos da Adis e de seus predecessores. embora o governo federal possa ter adquirido interesses dominiais na área. o Banco de Crédito Real alegou ter adquirido imóveis descritos numa “carta de adjudicação” extrajudicial. Quando executou a hipoteca do Banco Evolucionista. Como a execução requer um inventário de bens. literalmente cções legais. a partir da qual a negociação é resolvida juridicamente. o sócio contrata um agrimensor para produzir uma descrição da propriedade hipotecada impossível de veri car devido a sutis omissões técnicas. Um grileiro. mas que foram por eles de nidas a partir de uma rede de operações perfeitamente legais. a despeito das muitas reivindicações em contrário. essas cartas de acordo e esses levantamentos aparecem muitas vezes nas origens de suas reivindicações. que faz o papel de ocupante ilegal. Essa transformação mágica de ideal em real e de condicional em pleno é um exemplo de um tipo de golpe de hipoteca muito popular entre golpistas bem relacionados. usa documentos falsi cados relativos a um pedaço de terra como forma de abrir um processo para retomar a posse contra um cúmplice. Parece inegável que. Ele hipoteca essas terras a um sócio como garantia para um empréstimo que propositalmente não paga. por exemplo. legalizou sua usurpação. Assim. De uma forma ou de outra. Talvez a fraude mais notável tenha ocorrido bem no começo. Essas origens são invenções da lei. na verdade. os grileiros têm pouca di culdade em obter a escritura de terras que podem nem sequer existir. Esse levantamento vai compor uma carta de acordo privado ou de leilão para a liquidação da dívida. de enormes áreas do Brasil. O governo central primeiro criou um santuário legalmente inviolável para os índios de São Miguel e depois. Como resultado. No entanto. em várias encarnações de governos coloniais. Resultam disso tudo muitas ações no Tribunal e uma série de precedentes que constituem uma espécie de jurisprudência. a qual o grileiro apresentará mais tarde para respaldar suas alegações de propriedade. simplesmente não existe um dono indiscutível de quem os moradores possam receber uma escritura incontestável de qualquer dos 207 lotes cuja história disputada rastreei.estratagemas de longo prazo que usam a lei para estabelecer precedentes a favor do grileiro. o . Este último se defende de maneira pouco convincente e é expulso da terra.

e eram reconhecidas como legítimas com base em direitos consuetudinários caso fossem ocupadas de forma produtiva. Ao contrário. em uma dessas satisfatórias reviravoltas da história. um meio de obter autonomia para a colônia. a irresolução legal é um meio de governo . estes foram adquiridos de forma espúria. De fato. No entanto. Ironicamente. qual reivindicação tem mais mérito legal? Uma resposta de nitiva parece impossível. sempre que adquirem”. esse modo de resistência foi também de hegemonia local: a complicação legal conferia aos con itos fundiários a vantagem extralegal da elite agricultora. soluções extralegais são incorporadas ao processo judicial e a lei é con rmada como canal estratégico de desordem. o estudo da história tem mostrado que a usurpação é um dos principais impulsos da ocupação territorial brasileira e que a própria legislação fundiária se desenvolveu em grande medida da estratégia de legalizar usurpações por meio de manobras extrajudiciais. as posses de terras ajudaram o acesso de colonizadores pobres à terra. Nesta questão da prova. Era. e não estão registrados. a lei parece clara. portanto. quando adquirem ou alienam [terras]. como agora. e a ilegalidade. Na época. Nessas circunstâncias. como argumenta Pereira (1932: 121). não pode provar a propriedade em termos de sua própria Lei de Registros Públicos. o direito fundiário se tornou uma arena de contestação do governo português. mas só porque foram fraudadas de forma mais habilidosa e ambiciosa. Tanto assim que eles exigem a escritura. Assim. não só por conta da importância da ilegalidade em cada reivindicação como pela instável relação entre o legal e ilegal. que a complicou ao ponto de sua inativação. os estados e os municípios. já que também criaram a con ança em sua legalização. citando a famosa opinião de Azevedo Marques: “A União. uma condição comum de organização social em todos os níveis da sociedade brasileira. Durante séculos. a necessidade universal de transformar posses ilegais e usufrutuárias em propriedades imobiliárias desenvolveu a grande arte da complicação legal. A partir disso. registros públicos e decisões judiciais. a burocracia e o próprio registro histórico. Durante o período colonial. assim. Nesse sentido. A situação do estado de São Paulo e do Banco Evolucionista é semelhante: seus interesses continuam atados às condições não preenchidas do contrato de Medina de 1890.governo não tem um título registrado publicamente das terras que supostamente adquiriu e. Nesse processo sacramentado pelo tempo. Não há lei alguma que os dispense. a lei tem pouco a ver com a noção de uma regulamentação neutra ou justa. assegura uma norma diferente: a manutenção do privilégio entre os que possuem poderes extralegais para manipular a política. também permitiu em proporção ainda maior que golpistas (muitos da elite da sociedade) dissimulassem suas fraudes numa rede de transações legítimas. Embora as reivindicações da família Ackel e da Adis sejam resguardadas por títulos e registros. práticas ilegais produzem leis. estão subordinados ao direito comum. as irresoluções orquestradas pela própria lei incentivaram as posses. Então. a reivindicação da Adis tem mais reconhecimento o cial em registros de impostos. a apropriação ilegal se tornou uma forma básica de aquisição. Embora essa mistura de costume e lei tenha ajudado os humildes. que podia tornar legal o ilegal. Os títulos se originam da venda de terras indígenas usurpadas e da legalização de posses de invasores.

eficaz, ainda que perverso.
Como vimos repetidamente, esse mau governo da lei tem força tremenda na história do Brasil.
De modo paradoxal, transformou a legalização do ilegal e a obstrução nas funções básicas da
própria lei. Não há dúvida de que esses atributos caracterizam a prática do direito no Brasil. Re ro-
me aqui sobretudo, mas não exclusivamente, ao direito civil e ao administrativo brasileiros. Mas as
aplicaria de forma mais genérica à construção da lei brasileira como um sistema de legislação
regulatória de normatização de comportamento. O sistema legal é tão tortuoso que “fazer com que
as coisas aconteçam” de acordo com a letra da lei se transforma num sofrimento burocrático. Já
apresentei muitas provas de que essa obstrução é uma função do projeto e não uma falha ou
corrupção do sistema legal e sua burocracia. Por um lado, é um recurso empregado para paralisar
con itos até que uma solução extrajudicial possa ser encontrada, rechear a usurpação com camadas
de complicações para mantê-la lucrativa para os usurpadores até que sua utilidade se gaste ou que
ela se torne um fato consumado, para humilhar adversários com menos poder de manipulação do
sistema, forçando-os a se submeter à lei, e subjugar cidadãos. Quando desejam esses objetivos, os
brasileiros aplicam a letra da lei — “para os inimigos, a lei”, como ensina a máxima; e para manter a
potência desse recurso, produzem uma quantidade extraordinária de leis e de litígios.19
Por outro lado, exatamente pelo fato de o uso da lei gerar complicações e atrasos, todos sabem
que é muito mais e ciente fazer alguma coisa extralegal ou ilegal e apostar na legalização disso mais
tarde do que tentar cumprir todos os requisitos legais e burocráticos desde o início. Nesse contexto
cultural, as pessoas só obedecem voluntariamente à lei quando lhes é conveniente. Por isso o senso
comum considera os que seguem a letra da lei “para amigos” como ingênuos, tolos ou impotentes. 20
Como resultado desses valores e dessas práticas, manobras em torno da letra da lei se tornaram
aceitas como forma normal de fazer negócio para conseguir tanto transações excepcionais como
cotidianas. Essas manobras em geral são romantizadas como “jeitinhos”, uma destreza em conseguir
que as coisas aconteçam forçando, deturpando, criando atalhos e circundando os requisitos
burocráticos do processo legal. Enquanto as pequenas transgressões mal são notadas, porque
mantêm em movimento as transações da vida cotidiana, as grandes esperam a legalização que
resulta do uso de patronato e de poder político para garantir anistia executiva ou legislação
justi cativa. Ademais, cada selo, carimbo ou assinatura nessa cultura legal de obstrução e
transgressão, cada requerimento que estabeleça mais uma camada de burocracia legal, cria uma
nova oportunidade não só de descon ança, mas de fraude e usurpação — instituindo, por sua vez,
outro exemplo de mau governo da lei, com um novo ciclo de legalização do ilegal.
Essas componentes do mau governo da lei — ilegalidade normativa, emaranhados burocráticos,
estratagemas legais, a lei para os inimigos, soluções extrajudiciais e segura legalização de práticas
legais — têm sido instrumentais na transformação das áreas rurais de São Paulo em periferias
urbanas. Possibilitaram que especuladores transformassem áreas desoladas em um eldorado de
lucros, exatamente porque as condições ilegais dos loteamentos realizados tornaram a terra acessível
aos brasileiros pobres, viabilizando o sonho da casa própria que vendiam, e mantiveram

produtivamente voláteis os mercados de terra que criaram. No entanto, esse mau governo da lei
gerou um resultado inesperado. A propriedade residencial disciplinou as classes trabalhadoras,
como supunham os ideólogos da industrialização, mas, em vez de produzir os trabalhadores dóceis
e higiênicos que imaginaram, a propriedade residencial os politizou: as mesmas condições precárias,
legais e materiais, que tornaram possíveis as periferias autoconstruídas, estimularam seus
construtores a organizar associações de bairro como forma de superar essas desvantagens.
O Jardim das Camélias é um exemplo típico disso. Para as classes mais baixas, organizações de
base fomentaram novos tipos de participação na lei, concentrando-se nas suas experiências difíceis
na vida urbana das periferias. Para a maioria das pessoas, o cerne dessas di culdades envolvia a
segurança de seus lares e a luta para obter um título legal para seus lotes. Como veremos no
próximo capítulo, uma série de questões acerca do bairro e da cidade se expandiu para além desse
cerne doméstico e se tornou a substância de demandas sem precedentes pelos direitos de cidadania.
Mas foi a partir desse cerne que se desenvolveu uma mudança de importância fundamental e
generalizada: nos últimos trinta anos, essas lutas produziram um grande aumento, entre os pobres
urbanos, da expectativa de que, como cidadãos, eles não só têm direitos legais como seus problemas
podem ser equacionados em termos dos direitos e da dignidade da cidadania democrática mais que
por outros meios, como o patronato, o favor ou a revolução.
Essa expansão mudou o escopo do sistema legal. No curso de uma geração, brasileiros pobres se
tornaram estrategistas legais cada vez com mais frequência e e cácia. Um caso em questão é uma
audiência num tribunal em 1989, na qual Ezequiel, um dos pioneiros do Jardim das Camélias,
contestou uma ação de posse para despejá-lo de seu lote residencial. Eu assisti a toda a audiência.
Ezequiel foi chamado para testemunhar sobre a história de sua residência no bairro, e o advogado
da Associação dos Moradores apresentou provas de que ele não era um posseiro, mas sim um
legítimo comprador do seu lote. Pedreiro de pro ssão e pai de família, Ezequiel era um dos
fundadores da associação e frequentava regularmente as reuniões de domingo. Mas eu nunca o
ouvi fazer perguntas ou comentários durante as discussões coletivas sobre os con itos pelas
propriedades, e jamais tinha conversado com ele sobre seus desenvolvimentos legais. Depois da
audiência, perguntei a Ezequiel o que tinha acontecido. Eu queria saber o quanto ele havia
entendido daquilo que se passara nos cerca de quinze minutos anteriores, envolvendo quase
somente o juiz, o promotor e o advogado da associação, além do advogado da parte litigante, numa
linguagem difícil de captar para pessoas sem formação jurídica. Além disso, ninguém — nem o
advogado de Ezequiel — tinha “traduzido” os procedimentos ou explicado o resultado. Ezequiel
olhou para mim com grande seriedade ao responder minha pergunta: “Bem, parece que foi bom. A
lei é linda, não é, porque chama a verdade. Ela funciona para nós. Eu con o no doutor Margarido
[seu advogado]. Tudo vai dar certo porque nós temos direitos e queremos o que é direito”.
Ficou claro para mim que Ezequiel não tinha entendido muito, a não ser que o resultado não era
uma tragédia — provavelmente porque seu grupo de apoio (advogado, o presidente da associação e
eu) ainda estava de bom humor depois da audiência. Quando z essa pergunta à mulher dele, ela

me apresentou um sorriso puro para expressar que concordava com a resposta do marido. Mas o
que me impressionou foi a apropriação dos direitos civis por Ezequiel, ou seja, sua convicção de que
tinha poderes subjetivos que se originavam do fato de ter direitos objetivos na lei, de que esses
poderes triunfariam, e de que a relação entre o direito subjetivo e o objetivo era “linda”, não
porque “funcionava”, mas porque era moralmente “direito”.
Mais tarde, enquanto tomávamos um café, o presidente da associação me explicou a audiência
com mais detalhes. Vinte e cinco anos antes, Zé Nogueira tinha chegado a São Paulo vindo do
Nordeste aos treze anos de idade, com a educação formal que teria por toda vida: três anos de
ensino fundamental. Mas, como era inteligente, disciplinado e dedicado, fora promovido numa
indústria têxtil, passando de trabalhador infantil a chefe de seção. Tornara-se também perito nos
con itos de terra no Jardim das Camélias. Acompanhou toda a documentação e seu
desenvolvimento e havia reunido um grande arquivo de registros históricos. Na verdade, ele tinha
aprendido tanto que agora era pago como assessor do advogado da associação, responsável pela
pesquisa da situação física e legal de lotes residenciais em casos de con itos de propriedades em seu
bairro e em muitos outros. Zé explicou que o juiz havia questionado Ezequiel para con rmar sua
moradia de longo prazo e atitude de boa-fé como comprador do lote residencial; que o advogado
requisitara um investigador designado pelo tribunal para avaliar o lote e pesquisar todas as
reivindicações de posse referentes a ele (isto é, as de Ezequiel, do governo federal, do estado de São
Paulo, da Adis e de outro “incorporador” no bairro) com o objetivo de estabelecer um título
de nitivo; que os custos do perito seriam pagos pelo estado e não por seu cliente; e que o juiz tinha
concordado com esses requisitos como procedimento-padrão em tais casos sem estabelecer
nenhuma determinação dos méritos desse caso em particular. Como resultado, Zé concluiu com
prazer que o juiz tinha mandado o caso “para o espaço”, onde continuaria por um longo tempo,
pois o investigador não conseguiria estabelecer um título de nitivo e porque a inevitável apelação
do estado e da União mandaria tudo para “Brasília” — ou seja, para o espaço sideral do Supremo
Tribunal na capital, “onde seria perdido em pilhas e mais pilhas de casos que cam juntando poeira
nos corredores da Justiça”.
As novas apropriações estratégicas da lei que Ezequiel e Zé expressam nesse caso ao mesmo
tempo solapam e perpetuam o clássico mau governo da lei. Fica claro que os moradores das
periferias aprenderam a usar as complicações da legislação de modo a amarrar con itos de terra
para sua própria vantagem. Por meio de suas associações e seus líderes, muitos desses novos
participantes do jogo legal já conseguiram derrotar os incorporadores vigaristas e o governo em seu
próprio jogo, usando a lei para não serem vítimas. Porém, ao aprender a gerar irresoluções legais,
eles perpetuam a premissa do jogo de que a irresolução permite que aqueles que têm mais poder
transformem o ilegal em legal através de meios extrajudiciais, um poder que até agora lhes falta.
Assim, eles evitaram o despejo, mas não legalizaram suas posses.
É razoável pensar que o sistema legal poderia, a nal, mudar sob o peso desse tipo de
engajamento: um tal aumento nesse tipo de participação poderia tornar as soluções extrajudiciais

Essa transformação está gerando um estado de direito diferente. No entanto. que examinaremos a seguir. e o mau governo da lei que elas mantêm terminaria. outra mudança na relação dos pobres com a terra — expressa no sentido híbrido dos direitos e da dignidade do cidadão e na mistura da compreensão moral à compreensão textual do direito. . Mas esse resultado só parece possível com o tipo de paralisia completa que o atual sistema consegue evitar ao permitir que as pessoas utilizem a irresolução e a ilegalidade para angariar benefícios de várias espécies. manifestados por Ezequiel — também se enraizou nas periferias urbanas.para con itos legais incômodas ou radicais demais para bene ciar qualquer das partes.

com o zoneamento do local e o número do imposto. O tribunal ordenou a emissão de um novo título em nome do morador. julgado e executado de forma favorável. Como me contou um dos moradores: Naquela época foi uma guerra. porém. Cidadãos urbanos Em 1972. espalharam seus papéis e expulsaram- no do bairro. A lei não existia. um o cial municipal (“um scal do Departamento de Finanças”) queria o cancelamento porque as medidas registradas no título não batiam com as do arquivo do Departamento de Engenharia. A lei deles [dos grileiros] era a força. Foi o primeiro caso de retorno dos recônditos do sistema de justiça. no entanto. Ele voltou com a polícia. De acordo com requerimento feito pelo advogado da associação. ordenando uma ação de despejo. os moradores tinham passado mais de dez anos requerendo essa validação ao tribunal. Trinta e um anos depois. Agora. que prendeu vários agressores. assassinado ao sair de uma das casas do bairro. outro o cial de justiça veio ao Lar Nacional para anular o documento de posse da casa de um morador por conta de uma discrepância nas medições. guerra total [entre nós e os grileiros]. Um tribunal havia emitido recentemente esse título como concessão de propriedade em virtude de usucapião. Organizados por sua associação de bairro. Você não achava os seus direitos. os moradores do bairro formaram uma associação para lutar contra o despejo e contrataram um dos advogados que apareceram de repente no Jardim das Camélias oferecendo seus serviços jurídicos. Pouco depois. Uma multidão se reuniu nas ruas quando a notícia se espalhou. os homens o atacaram. Muitos mais foram presos. Os moradores sabiam por quê: os incorporadores da área tinham superposto tantos planos de loteamento ao longo dos anos em seus esforços para usurpar terras e enganar compradores que nenhum correspondia às construções de fato. a violência… A gente não tinha conhecimento nenhum. Quando essa multidão encontrou o funcionário que entregava suas noti cações de casa em casa. o advogado foi baleado. Eles o derrubaram. naquela época. Os moradores zeram uma passeata até a delegacia para exigir que eles fossem libertos.7. um o cial de justiça de São Paulo foi ao Jardim das Camélias para noti car os moradores de que uma ação de reintegração de posse fora emitida contra eles. Foi a primeira indicação que os moradores tiveram de que seus contratos eram fraudulentos e suas propriedades estavam em risco. Nós não sabíamos nada sobre direitos. o tribunal havia designado um avaliador o cial para cada caso de usucapião a m de criar um . Só sabíamos bater no oficial de justiça. a gente era leigo realmente na questão. Nas semanas seguintes. aí quando começou.

e o faz enfatizando os con itos de terra no Lar Nacional. Como resultado. admitindo que sua alegação de fato não tinha “mérito”. Essa experiência também gerou uma nova cidadania urbana entre os moradores. o segundo forneceu uma nova compreensão da fundamentação desses direitos e de sua dignidade como portadores de direitos. Dessa forma. segundo seu argumento. ou seja.1 O que aconteceu com os moradores das periferias urbanas nessas três décadas que converteu sua violência num diálogo jurídico e transformou sua reação em pró-ação? Suas lutas para legitimar suas residências próprias. baseada em três processos centrais. Aguiar enfrentou o o cial usando a linguagem jurídica. Quando o scal a rmou que “a casa do morador estava errada. já estávamos esperando que isso [esse tipo de contestação] fosse acontecer cedo ou mais tarde”. O primeiro criou uma nova esfera pública alternativa de participação. Elas demandaram participação total na cidade legal. um diretor executivo da Sociedade dos Amigos do Bairro ( SAB). tinha acompanhado esses casos através daquele sistema bizantino de justiça por mais de uma década e todos os casos legais de con itos no bairro por mais de três décadas. e o terceiro transformou a relação entre o Estado e o cidadão. as difíceis condições de moradia ilegal motivaram as pessoas a estabelecer novas articulações da cidadania. explicou minuciosamente ao funcionário o que ele encontraria se quisesse encarar toda aquela encrenca. Nem ele nem nenhum outro scal do Tesouro voltaram para retomar a questão. para refutar acusações de invasão e para validar sua posição de construtores da cidade produziram um envolvimento sem precedentes com a lei que tornou seus líderes con antes o su ciente para enfrentar o ciais de justiça com argumentos legais. homologado pelo juiz. desa ando-o a apresentar um documento melhor do que o título e a documentação homologados pelo tribunal.planejamento preciso para o local. . Por isso a associação havia emitido uma ordem para todos os moradores: “Não entre em polêmica e não discuta com qualquer o cial que aparecer na sua porta. através da qual eles exigiram suas necessidades em termos de direitos — direitos de cidadãos que contemplavam suas práticas urbanas e constituíam uma agenda de cidadania. Depois. Elucidou o propósito e as consequências da usucapião e apresentou documentos dos arquivos da sociedade mostrando que as primeiras plantas tinham sido canceladas por ordem do tribunal e substituídas pelo novo título. Aguiar. nós sabemos que não porque nós estamos com o [novo] título dele. ele me disse: “Nós aqui da Sociedade. mande vir para cá [a Sociedade]”. e o que a lei estipulava. encontrar exatamente o que os tribunais haviam decidido nesse caso e para que efeitos. Além disso. todos preparados. Armado com esse conhecimento. desa ou o funcionário a “procurar a justiça”. reverteriam a decisão do juiz. mais do que outros fatores. e o juiz só homologou através do perito que é o olho da justiça”. que se imporia a todos os outros planos e de niria as reais condições de ocupação originais para cada título finalmente emitido. porque. seus lares construídos e seus bairros. que. gerando novos arcabouços legais. Este capítulo analisa tais processos. ele rechaçou as alegações do funcionário de que as medições estavam erradas pelo fato de os moradores terem ocupado lotes alheios. Depois de mais ou menos uma hora dessa conversa em termos jurídicos. instituições participativas e práticas de tomada de decisão. o o cial foi embora.

uma inclusão que se fundava na apropriação do próprio solo da cidade através da autoconstrução. entre as eleições de 1970 e 1978. repressão e violência. Porém.2 Além disso. o regime militar controlou todas as instituições e expressões de cidadania estabelecidas. o voto obrigatório não signi ca que a população da cidade participou ativamente do sistema eleitoral ou que teve seus interesses representados por ele. ao trazer as condições urbanas dos pobres sob o cálculo de direitos de cidadão. 34% da população municipal votou nas eleições legislativas de 1970. Primeiro. No nal da década de 1960. porque os que tinham direitos não podiam votar para cargos executivos e só podiam escolher entre dois partidos. Devo ressaltar que a concepção mais antiga de cidadania diferenciada ainda está vigente e é muito importante. vigilância. a repressão da ditadura chegava à sua intensidade máxima. A soma desses esforços criou uma nova fonte de direitos de cidadania: a experiência da classe trabalhadora de sofrer a cidade e de construir a cidade. A inclusão que reivindica abrange a invenção de uma nova sociedade. precisamos mapear as condições existentes da cidadania da classe trabalhadora em que se desenvolveu essa alternativa. comparados com 24% em termos nacionais. um número cada vez maior de residentes urbanos ganhou direitos políticos e passou a votar. esse aumento foi causado em grande medida pela intensa urbanização no período de 1950 a 1980 e a consequente redução do analfabetismo entre as populações urbanas. quando inúmeros bairros periféricos como o Jardim das Camélias e o Lar Nacional estavam sendo criados. Segundo. Em São Paulo. esses partidos reservaram sua atividade política . Em resumo. porque a maioria continuou sem cidadania política. houve um aumento de 83% do nível de participação nos votos dos moradores dos distritos mais pobres da cidade (área VIII) (de 9% para 16% do total de votos). Em relação à cidadania política. Usando de censura. Essa restrição tornou a escolha e a independência no debate político quase impossíveis. os militares subjugaram todos os espaços de cidadania que conseguiram identificar e invadir. Como resultado. que negava aos cidadãos uma participação independente tanto em organizações políticas como civis. onde esses processos correlatos estavam entre os mais acelerados. No entanto. Embora emaranhada com o passado. Mantinha o sistema de cidadania diferenciada em uma esfera pública brutalizada. ainda assim essa nova cidadania é uma evolução sem precedentes da democracia no Brasil. Produziu novos tipos de cidadãos e criou alternativas às relações clientelistas de dependência. enquanto os bairros mais ricos (área I) viram sua participação declinar em 20% (de 11% para 9%). A NOVA PARTICIPAÇÃO CÍVICA Para acompanhar a emergência de uma nova cidadania urbana nas periferias de São Paulo na década de 1970. e eliminou formas organizadas de oposição que não as autorizadas. Além do mais. Como mostrou o capítulo 3. não apenas a perpetuação da antiga. um que apoiava o regime militar (Arena) e outro de oposição consentida (MDB). tanto o tamanho do eleitorado como o número de votantes aumentou de forma signi cativa nos anos de regime militar no Brasil. as mobilizações das periferias deram início a uma nova concepção.

ca evidente que. já discutido anteriormente). Ele estimulou os . Embora os moradores de todas as áreas protestassem invalidando seus votos. dos bairros centrais mais ricos para os periféricos mais pobres. da Igreja Católica.popular sobretudo para épocas de eleição.4 Tal qual outras associações de elite fundadas nesse período (como o Idort. sob a tutela de Jânio Quadros. os que moravam nas periferias mais pobres o faziam em maior número. Muitos pressionaram o governo militar a manter princípios de liberdade e justiça. a grande maioria da classe trabalhadora paulistana não encontrou nem uma participação mais signi cativa. normalmente através do patrocínio de líderes e partidos políticos. Sua origem pode ser traçada até uma organização fundada por pro ssionais liberais paulistanos e elites empresariais em 1934. Além disso. muitos reagiram a essa cidadania política manipulada se recusando a legitimá-la: embora fossem obrigados a votar. vários grupos de direitos humanos. tentando atrair eleitores de formas tipicamente clientelistas. As exceções eram dois tipos de organizações de bairros. nem uma representação e caz na esfera de cidadania política estabelecida. ou seja. embora nunca tantas pessoas tenham conquistado direitos políticos como no início dos anos 1970. empobrecidos. governador (1954) e presidente (1960). Quase todas se transformaram em organizações clientelistas. como observa Lamounier (1980: 72-3). invalidavam seus votos em protesto. o número de votos em branco ou nulos dos eleitores municipais chegou a quase 34% para candidatos ao Senado e 40% para a Câmara. que prometiam benefícios em troca de votos. e as Sociedades de Amigos de Bairro (SABs). Estas últimas se desenvolveram em três fases. essa organização se ocupava da condução e da administração do rápido crescimento industrial de São Paulo. Assim. Importantes instituições civis — como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). inspirou a criação de organizações semelhantes nos bairros das crescentes periferias. a porcentagem de votos inválidos aumentou progressivamente da área I para a área VIII. sem estudo e sem títulos para suas casas os alienou da lei. Os trabalhadores pobres foram também barrados do acesso à cidadania social e civil nos anos em que foram pioneiros nas periferias urbanas. dedicavam-se muito menos ao planejamento urbano e à engenharia social de longo prazo do que à exigência de melhorias urgentes nos serviços locais das autoridades municipais.3 Entre os paulistanos com direitos políticos. Quadros foi muito bem-sucedido na mobilização de apoio popular ao denunciar as miseráveis condições de vida nas periferias. deputado populista (1950). No entanto. a Sociedade dos Amigos da Cidade. as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). na propriedade e na educação. mas a participação da classe trabalhadora nesses grupos era mínima. prefeito (1953). Essas organizações de melhorias em bairros tiveram uma expansão considerável pelas periferias de São Paulo nos anos 1950. Nas eleições de 1970. minou o acesso a seus direitos e subverteu o desenvolvimento de uma cidadania civil nos lugares tradicionais de suas realizações na lei. Durante as duas décadas seguintes. Sua condição de moradores ilegais. a Associação Brasileira de Imprensa (ABI). comitês para anistia e movimentos estudantis — continuaram a existir de forma clandestina ou sob estrita vigilância.

perderam o direito à greve e sofreram frequentes intervenções do governo para a destituição de líderes eleitos. as SABs funcionavam explicitamente como posto de troca de votos por benefícios nanciados por fundos públicos. Em 1970. Mesmo sob essas duras condições. conforme essas organizações da classe trabalhadora perderam suas liberdades básicas. Tornaram-se inócuas como espaços de cidadania. remotos. Essa substituição perpetuou o clientelismo das SABs. mas sob condições autoritárias de tomadas de decisão e representação que alienaram muitos moradores das SABs existentes e desestimularam sua fundação em novos bairros. que renovou sua missão evangélica dirigindo-se ao público desses espaços. em contraste com a alienação da urna de votação. Quando tomaram o poder. Em termos de cidadania social. o Estado continuou a oferecer aos trabalhadores urbanos a ilusão de participação de massa por meio de direitos trabalhistas enquanto restringiam o acesso real aos poucos que exerciam pro ssões o cialmente reconhecidas com carteira assinada e liação sindical. a única instituição interessada nessa possibilidade era a Igreja Católica. que conseguiram grandes vitórias. havia oitocentas dessas SABs clientelistas registradas na região metropolitana de São Paulo. con nando-os aos vínculos locais. do ponto de vista da autoridade central. Contudo. As autoridades militares e seus representantes controlavam tanto sindicatos como fábricas. A evisceração dos domínios públicos estabelecidos de cidadania criou. Um estudo (Camargo e outros. que descrevo na próxima seção. grupos de oposição dentro das fábricas e de sindicatos pro ssionais continuaram a existir e a protestar. perderam também a participação ativa dos trabalhadores. providenciando uma articulação organizada mas totalmente clientelista entre as periferias pobres e o aparato governamental. Foi. 88% das quais fundadas a partir de 1955. participava de sindicatos pro ssionais. obstruir a centralização de con itos e mobilizações e contaminar as relações públicas com o medo e a descon ança. tendia a isolar as pessoas em suas casas. uma versão da Consolidação das Leis de Trabalho de 1943) e com uma constante supervisão e aplicação de vários graus de coerção. civil e social da cidadania era assim o de drenar o interesse popular da esfera pública militarizada. 1976: 105) estimou que. das sedes dos sindicatos e das fábricas que a . contudo. onde morava a maioria da classe trabalhadora. Nessa segunda fase de desenvolvimento. a do desenvolvimento de uma esfera de independência exatamente nesses espaços interiores e. Sindicatos foram excluídos dos processos decisórios de reajustes salariais. uma possibilidade paradoxal. os militares impuseram um modelo uniforme de organização nas SABs e substituíram o partido que as patrocinava. fraturar organizações civis. O efeito da repressão do Estado nos aspectos político. forçando obediência à estrutura organizacional que impunham (em essência. Para consolidar sua base eleitoral. da SAB clientelista. De fato. autonomia e e ciência para realizar suas exigências. Quadros e seus partidários transformaram muitos desses comitês em SABs. Marca uma mudança básica em sua natureza. Como consequência. famílias e bairros. A terceira fase do desenvolvimento das SABs começou nesses novos loteamentos das crescentes periferias nos anos 1970.bairros da classe trabalhadora com a formação de centenas de comitês eleitorais. apenas 5% da população das periferias. portanto. em 1970.

Pedro Nunes e Jd. Exempli ca as mudanças apresentadas pelos chamados novos movimentos sociais e pelas organizações das periferias na construção de uma cidadania urbana. Seu primeiro presidente foi um quadro da Arena que cortejava os políticos da cidade e apoiava os militares. fundada cinco anos depois da SAB. que é estadual também. Hoje. Esses membros . luminárias públicas. quando nós fundamos a Sociedade dos Amigos das Camélias. pelo núcleo local do Partido dos Trabalhadores ( PT) e por um grupo de moradoras. não existia nada disso. Essas diferenças indicam que não foi apenas um caminho que levou à construção de uma nova forma de participação cívica.vida doméstica nos bairros que brotavam nas periferias distantes se tornou o foco do compromisso da classe trabalhadora. hoje é o Parque que já existe nome. nem creche. que foi presidente da SAB. temos dois grupos escolares estaduais. me descreveu as realizações dessas atividades. ele organizou a SAB segundo as normas do governo e estabeleceu uma estrutura de comando hierárquica. redes de água em todas as ruas. rede de esgoto em todas as ruas. das Camélias. que surgiram os novos espaços de participação cívica e avaliação coletiva. Esperamos. não existia pavimentação nas ruas.6 Quase todas de início se desenvolveram fora da organização da SAB. O ponto-chave é que a SAB só começou a fazer parte desses movimentos depois que a CEB subverteu o modelo de organização clientelista e autoritário da SAB ao eleger seus próprios membros como presidente e diretores em 1981. dos partidos e das sanções de empregadores. agindo sem muita consulta aos seus membros. que nós zemos aqui no bairro. temos a creche municipal. as SABs desses bairros se desenvolveram de formas distintas. mas não da SAB. Tudo isso. Cada uma delas resultou de uma mobilização de moradores: Há trinta anos. E além disso nós temos uma igreja católica. que não existia. a maioria participava ativamente da CEB. Temos aí a maioria das ruas tudo pavimentada. luz para todas as casas. Daí para cá que começamos a lutar para ter esse desenvolvimento que temos nesta gleba hoje. o con ito de terras. temos o Posto de Saúde estadual. porém. Arco Íris —. que saía fogo lá para queimar o lixo. com asfalto. quando moradores dos dois bairros descobriram que estavam sendo ameaçados de despejo. O desenvolvimento de SABs no Lar Nacional e no Jardim das Camélias ilustra essa emergência. que é uma escola infantil municipal. em junho de 1972. mas sim vários que se juntaram para produzir uma grande fundação para a insurgência de uma nova cidadania. A SAB tinha um único foco. Mas a SAB do Jardim das Camélias se desenvolveu de acordo com o modelo clientelista patrocinado por várias SABs já estabelecidas no distrito de São Miguel Paulista. tudo direitinho. Lá onde era o lixão. e sua principal atividade era defender os moradores contra ações de despejo. é mais uma luta que nós vamos fazer. quando eu vim morar aqui em 1970. Em 1980. novas formas de atividades associativas e “reivindicatórias” proliferaram no Jardim das Camélias. para ter aí um lazer para os bairros vizinhos — Jd. De várias maneiras. e temos o CADI. temos um EMEI.7 Entre os dois últimos.5 As duas SABs que tenho acompanhado foram fundadas em 1972. para além do Estado imediato. Foi lá. Essas mobilizações por melhorias no bairro foram organizadas pela Comunidade Eclesial de Base (CEB) da igreja católica local. porém. organizados ao redor da vida social da casa. Um proeminente morador do bairro. que chama Centro de Acompanhamento e Desenvolvimento Infantil. chama Parque Primavera. se bene ciar daquele aterro sanitário que era antigamente um lixão. não existia escola estadual.

mesmo enquanto o principal objetivo continuava sendo os con itos fundiários. argumentavam que as necessidades sociais dos pobres superavam outras justi cativas por mais recursos. Uma mudança crucial ocorreu nos movimentos e organizações sociais urbanos quando os moradores começaram a entender suas necessidades sociais como direitos de cidadãos e a gerar argumentos apoiados nesses direitos para justi car suas exigências. Muitas in uências contribuíram para essa mudança. da Igreja Católica. com ações diretas e não clientelistas. da Sociedade de Bairro. A essa altura. mas só a partir do estabelecimento de relações clientelistas no velho estilo que só compensavam de forma irregular.8 Nos anos 1980. inadequada. não con ável. Funcionava com os políticos. nos documentos e em reuniões de grupo no Jardim das Camélias e em outros bairros. nessa década surgiram diferenças entre eles quanto à justi cativa das exigências. a SAB reconstituída colaborava com a CEB na organização e na mobilização do bairro. isso só ocorria em épocas de eleição. mas também inventando novos direitos que surgiam de suas lutas políticas e legais especí cas sobre práticas reais — na verdade. quanto mais os moradores aprendiam sobre os con itos de terra. mas a saliência dos direitos nessas lutas e a natureza de sua conceituação e argumentação. Como se lembra o primeiro presidente d a SAB renovada: “[Essas melhorias] são fruto de luta dos moradores do bairro. para tornar possível aos moradores considerar que suas necessidades seriam mais bem atendidas não só alegando direitos existentes. porém. Conseguiu envolver muitos moradores na abrangente campanha de movimentos reivindicatórios descritos anteriormente. Essa SAB inspirada pela CEB continuou sendo a articuladora das organizações e lutas do bairro mesmo depois que o grupo de mulheres se desfez e a própria CEB deixou de ser uma força mobilizadora. e. quando funcionava. a gente estava junto”. Meu interesse não é tanto investigar a história desses processos. Embora esses grupos tenham se unido. Seguindo a Teologia da Libertação. Além disso. Ela podia ter fornecido um apoio moral aos moradores para ações iniciais. A CEB e os que ela inspirava justi cavam as exigências dos movimentos sociais com base nas necessidades. e evitaram endossar candidatos a cargos públicos. ao considerar esses novos direitos como objetivo dessas lutas. em meados dos anos 1980. Especialmente pronunciada na SAB era uma diferença fundamental entre argumentos apoiados nas necessidades ou nos direitos — uma diferença que se tornou evidente para mim nas entrevistas. Nunca produziriam o respeito e os direitos reconhecidos universalmente de proprietários.9 Os argumentos baseados nos direitos motivavam os moradores das periferias não só porque forneciam uma estratégia com a qual lutar contra as grandes desigualdades e de ciências que .implementaram o modelo de deliberação coletiva da CEB. mas cou claro que sua rejeição nos tribunais e nos órgãos públicos era custosa. mas sim os manteriam dependentes dos favores de outros como meros posseiros. inclusive as dos direitos e precedentes legais. A gente sempre vê os movimentos junto na Igreja Católica com os Movimentos do Bairro… Toda luta que existia no bairro. mais se tornava óbvio que essas relações jamais resultariam em seus títulos. essa justi cativa apoiada nas necessidades perdeu força tanto nas SABs como nas CEBs.

depois da chegada de o ciais de justiça para executar uma ação de reintegração de posse de uma enorme porção de terra que incluía o bairro. Continua emaranhada com as justi cativas da necessidade. Mais importante ainda é que os argumentos por direitos dos movimentos sociais urbanos transcenderam uma referência especí ca à lei e passaram a signi car uma mudança na subjetividade. Os discursos de revolução armada também fazem isso. Essa mudança na subjetividade do cidadão não foi nem linear nem isenta de contradições. O restante deste capítulo vai estudar essas articulações. Os moradores caram chocados. Dito de forma diferente. de quem eles tinham comprado seus lotes de boa-fé. os argumentos baseados em direitos constituíram seus proponentes como portadores do direito a direitos e tão merecedores dessa distinção quanto qualquer outra classe de cidadãos. A mobilização do Lar Nacional Os moradores do Lar Nacional fundaram sua SAB em 1972 — legalmente registrada como Sociedade Amigos do Parque Novolar —. as leis trabalhistas de Vargas deram às classes trabalhadoras urbanas uma noção de dignidade através dos direitos. da distribuição de privilégios a categorias especí cas de cidadãos a uma distribuição do direito a direitos a todos os cidadãos. era mencionado? Como poderiam estar sendo despejados sem ao menos serem informados da ação do processo pelas partes? Mesmo assim. Esses argumentos tinham apelo porque ofereciam uma estratégia de contrapor (não favorecer) a ilegalidade e a marginalização por meio de demonstrações de competência (“conhecer seus direitos”) e negar a humilhação através da dignidade da participação na esfera pública como portadores de direitos. tem uma aura bem-aceita de legitimidade e poder sociais. das relações clientelistas e da racionalidade do tratamento especial. ainda que restringissem sua realização. a cidadãos que passaram a ter direitos a despeito de outros atributos. Nessa performance. uma cidadania participativa fundamentada no direito a direitos. de simples súditos que historicamente tinham seus direitos negados. por um dos litigantes. a lei.. os o ciais de justiça noti caram os moradores de que os tribunais haviam decidido pela retomada. os argumentos por direitos fazem isso exatamente porque seu meio. Ou seja. nesse caso. Os argumentos envolvendo o “direito à cidade” dos movimentos sociais urbanos corpori caram as lutas dos moradores por esse reconhecimento de serem cidadãos portadores do direito a direitos. a articulação era como uma performance que muda o status dos atores. em várias modalidades.enfrentavam em sua vida na cidade. Em parte. eles produziram uma transformação na compreensão da própria cidadania brasileira de grandes consequências sociais. Como seu loteamento poderia ser parte de uma disputa legal entre duas partes de que eles nunca tinham ouvido falar e que a rmavam ser os legítimos proprietários de seus terrenos? Como poderiam estar sujeitos a um processo legal sobre o qual nada sabiam e no qual nem mesmo o nome da incorporadora Lar Nacional Ltda. Ademais. a quem o Estado e suas elites não reconheciam como cidadãos nacionais com direitos intrínsecos. embora ao longo da história a lei seja uma forma de humilhar os pobres. dos terrenos . Mas as mobilizações das periferias articularam.

Apesar disso.. “e eu queria estar perto. Humberto Reis Costa. disse aos moradores que eles não seriam despejados se recomprassem seus lotes. Seus membros contribuíam mensalmente para manter as atividades da SAB e pagar pela sede. Quando a participação na SAB aumentou. contratando o ciais de justiça corruptos para atuar fora do horário de trabalho e despejar moradores com quem já tinha feito acordos. Mas Reis Costa instalou uma patrulha de policiais militares de folga para aumentar o peso de sua oferta. contudo. aguardando providências dos exequentes quanto a isso”. sumindo com os registros originais das aquisições dos moradores. Depois desse incidente.que incluíam seus lotes. e ameaçavam quaisquer opositores com violência. A CEB organizava suas reuniões e suas missas na nova sede da SAB. ao encontrar um bairro com casas habitáveis chamado Lar Nacional. enquanto membros da SAB ajudavam a . forçando os moradores a se deslocarem a outro escritório para realizarem seus pagamentos. e que essa decisão signi cava o despejo de quaisquer ocupantes não autorizados.10 Os o ciais de justiça. motivados por interesses próprios e coletivos. disse-me um dos membros. desapareceu sem deixar vestígios. eles foram estimulados a fazer isso por uma CEB de um loteamento próximo. para saber dos meus negócios. Reis Costa simulou diversos despejos para aterrorizá-los ainda mais.11 Nesse ínterim. e que ainda não tinham ocupado. A maioria dos moradores continuou pagando suas prestações à Lar Nacional Ltda. Como nenhuma igreja fora construída no bairro. “certi camos mais que deixamos de proceder à evacuação das referidas casas […]. por temerem que a empresa pudesse despejá-los caso não honrassem seus compromissos. então a gente tinha que estar sempre ali. nas palavras dos o ciais. e depois de alguns anos a comprou. e muitos de seus membros — inclusive a maioria dos diretores eleitos — juntaram-se a esta última. também caram surpresos. os moradores organizaram uma SAB. Essas patrulhas impediam que pessoas se mudassem para casas que haviam comprado da empresa Lar Nacional Ltda. Inicialmente. à qual não eram liados.12 Logo depois dos primeiros confrontos com Reis Costa. até incluir todas as 210 famílias do Lar Nacional. De acordo com moradores que entrevistei. sempre participando [da Sociedade]. a única oportunidade era essa. “Nós contribuíamos porque era uma coisa para a gente”. a SAB e a CEB partilharam membros. desde sua criação. Por iniciativa própria. Foi sua primeira organização. pois o mandado judicial não fazia menção a “casas e benfeitorias existente na gleba diligenciada”. a instituição alugou uma casa no bairro. a empresa logo abandonou seu posto avançado no bairro.”13 Assim. o vencedor do processo. como apontaram em seu relatório. interesses e ações. e os ajudou a fazer as duas coisas. a nova SAB realizou reuniões com a CEB. essa CEB foi organizada por uma freira de outro bairro e mantinha reuniões num barraco improvisado. A violência eclodiu durante o despejo da família de um homem que. a Lar Nacional Ltda. tinha “ido para o outro lado”. a CEB aconselhou os moradores a organizar uma SAB e contratar um advogado. sem que ninguém soubesse. Os moradores caram indignados com essa proposta e se recusaram. Eu nunca tinha tido uma casa. líderes. os líderes da resistência passaram a ser ameaçados de forma regular e às vezes eram agredidos pela patrulha. À diferença do Jardim das Camélias. Por isso. no entanto. Mais ou menos dezoito meses depois.

A SAB já havia contratado e demitido diversos advogados. para divulgar essa ação e usar isso a m de intimidar os ocupantes a pagar pela terra. desvendar a emaranhada história . Assim como no Jardim das Camélias. encerrando o relacionamento próximo. assim como para o con ito no Jardim das Camélias. Durante anos. planos de loteamentos. as que envolviam con itos de terra continuaram sendo prioritárias. Alguns se tornaram assistentes de Margarido e. Quase todos recusaram.15 Igualmente importante foi ter criado um excepcional envolvimento dos membros da SAB com os procedimentos da lei. como quando Reis Costa usou sua vitória de 1972 num tribunal de segunda instância para aterrorizar moradores com inúmeras ações de reintegração de posse e despejo (ver nota 10). Reis Costa fazia petições nos tribunais locais para a retomada de vários lotes. insistindo que já tinham pagado para a Lar Nacional Ltda. adquiriram formação jurídica e uma linguagem para enfrentar instituições cívicas e políticas. antes de consultar o Centro Acadêmico Onze de Agosto da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Mesmo assim. registros de levantamentos e assim por diante. tudo para desacreditar a alegação de Reis Costa. alegando ter sido enganada por todos. até ocorrer uma cisão no início dos anos 1980. eles conduziram extensas pesquisas em arquivos de departamentos municipais. Durante os anos 1970. Segundo membros da SAB. enquanto a SAB continuou suas ações de bairro. nenhum despejo poderia ser executado até que o Supremo Tribunal julgasse o caso. Juridicamente. “para repartir e levar o pessoal”. a CEB recolheu-se em preocupações religiosas mais explícitas. Finalmente. O centro acadêmico designou o estudante de direito Antônio Benedito Margarido para o caso. embora eu não tenha conseguido estabelecer uma causa principal. ou seja: convencendo os tribunais a rejeitar o processo em bases formais ou a forçar Reis Costa a retirar o processo por não conseguir provar os méritos de sua reivindicação de propriedade. a CEB fazia o mesmo. Embora não tenha conseguido os títulos dos moradores. Margarido acabou vencendo todos os confrontos legais contra Reis Costa. e voltando-se para a SAB em busca de defesa legal. Esse reforço mútuo durou cerca de uma década. o interesse das pessoas pelo porto seguro da Igreja diminuiu. a estratégia evitou os despejos. três fatores contribuíram para a ruptura. elas eram praticamente seu único foco.14 Entre as mobilizações da SAB. Seus membros se dissociaram. como a democracia se tornou uma exigência nacional e a ditadura ampliou as liberdades políticas. em 1976. a CEB cou com inveja de seus sucessos e começou a programar eventos ao mesmo tempo. tribunais e cartórios a respeito de títulos de terras. as justi cativas apoiadas nos direitos se tornaram predominantes na lógica dos protestos da SAB. com efeito. com eles. Segundo. utilizando a mesma estratégia legal inovadora que usou contra os grileiros do Jardim das Camélias. Primeiro. discutida no capítulo anterior. desalojando os argumentos baseados nas necessidades e.pagar pela construção da igreja da CEB com contribuições mensais. a autoridade moral da CEB. mapas regionais. Quando a SAB mobilizava moradores para uma ação reivindicatória. Essa associação de estudantes de direito estava cando conhecida nas periferias por sua adesão às CEBs e a grupos de direitos humanos para a realização de trabalho jurídico e ciente em favor dos moradores. Desde então ele continua sendo o principal advogado das duas SABs.

eu não conseguia nem distinguir um tribunal de outro. que eles iam fazer acho que tese. Não sabia nada disso. que era membro da Sociedade e na época era um dos diretores. Servia café no Fórum. Aguiar. como foi. Uma das líderes e pesquisadora mais ativa. Eles também montaram seus próprios arquivos com documentos relevantes na SAB. Ele trabalhava no Fórum Central. Primário praticamente. Ele me ensinava. com o sr. Criaram ainda uma pré-escola.’ Então. . Até o Toninho [Antônio Margarido. Ele era muito inteligente. a qual incluía leite pela manhã. recreacionais e reivindicatórias. Para os jovens. ele a nal as recebeu. Sexta Vara é assim. Francisco e o sr. E isso daqui? É a Terceira Vara Cível. Então fui aprendendo as coisas depois que eu entrei na Sociedade. ‘Toninho. O trabalho jurídico que realizaram foi aprender. elas organizaram bailes e abriram um clube desportivo. Franco Montoro. festas comemorativas e uma chopada anual. almoço e às vezes um programa de vacinação. comandada por Silvestre como presidente. ouvir diretamente seus membros e conhecer a situação em primeira mão. Arlete Silvestre. como não foi. Também levaram funcionários ao Lar Nacional para participar de reuniões na SAB. eu fui dar aula na Faculdade. Aonde ir para arquivar esse tipo de documento ou falar com tal pessoa? Então eu fui aprendendo com ele. advogado da Sociedade] falou que queria que a gente fosse falar na Faculdade de Direito [da Universidade de São Paulo]. datilogra a e costura. Primário só. as mulheres organizaram cursos de alfabetização. uma equipe de três mulheres cou com os cargos mais altos. Essas mulheres transformaram a SAB. Silvestre se apresentou: “Olha. Não tinha nada. Sob sua liderança. Sexta Vara. exigiam que os funcionários reconhecessem sua urgência e argumentavam que era direito deles investigar o caso. em uma entidade que organizava atividades educacionais. a SAB se tornou um centro de vida social no bairro. Também expandiu consideravelmente o escopo de ações reivindicatórias para melhorias no bairro. Em 1982. Eu falei. Mas ele sabia. prefeito. Para obter acesso a essas instituições.dos títulos no bairro e comprovar suas próprias reivindicações como compradores de boa-fé. O movimento inicial foi dirigido ao alto: elas procuraram o governador do estado. ocorreu uma importante mudança de liderança na SAB: numa eleição. depois de muita insistência. bailes. Eu era uma dona de casa com um lho bebê. Eu nunca entrei numa faculdade! ‘Você vai falar exatamente o que se passou aqui. de uma associação centrada quase exclusivamente nos problemas fundiários. Em muitas ocasiões eles se reuniam com promotores para comunicar os resultados de suas pesquisas e contestar erros de registro. informar e argumentar. deputados e vereadores) e burocratas. me contou como aprendeu sobre os tribunais: Para dizer a verdade. sabia muita coisa. aquele senhor de cor. Para a educação de adultos. assim. o sr. Arrecadar recursos para essa pré-escola foi a primeira campanha reivindicatória das mulheres em nível municipal. não sabia nem o que signi cava Quinta Vara. zeram lobby diretamente com líderes políticos (governador. O que é essa sigla? É Suplente Federal. Eu só tenho diploma de oitava série agora. Receberam ajuda do estado para o primeiro e investiram em equipamentos para os dois últimos. Mas eu fui aprender. eu sou Arlete Silvestre. Fui eu. Quando. Foram vê-lo no Palácio do Governo para presenteá-lo com um cartão de Natal da associação do bairro. Francisco. Instituía cursos de capacitação e patrocinava eventos com recreações organizadas para pessoas cujo cotidiano variava pouco entre o trabalho e a casa. Para o lazer e para arrecadar fundos para os projetos da SAB. onde mulheres que trabalhavam podiam deixar os lhos por meio período. fiquei como Presidente da Sociedade e sou dona de casa. Apresentavam seu dilema. o que eu vou falar?’. negócio de terra e tudo. elas organizaram bingos.

inclusive material para revestir o quintal da SAB. é um direto nosso de ter uma água que você bebe e não vai fazer mal. os moradores tiveram de pagar dos seus bolsos pelo asfalto das ruas. Eu falei: “Eu quero uma audiência com o senhor”. passar pelos assessores”. os moradores sempre insistiam em que queriam pagar individualmente pelos serviços. “Tá. mas querem despejar a gente. Além disso. almoço . que Silvestre descreveu como “meio abrutalhado” e “difícil de chegar nele. desde que não fosse muito caro. “se plantavam” no seu caminho e solicitavam um encontro.16 A entrega costuma implicar a ocupação do gabinete de alguém e a recusa a sair até ser ouvido. Estou lutando pelas necessidades das crianças do bairro. carimbada e registrada). A única exceção foi não ter resolvido o conflito de terras e conseguido o título definitivo de seus lotes residenciais para os moradores. ela respondeu com um argumento baseado em direitos: A gente falava: “Sim. “tudo o que a gente falava. Silvestre recorda que ele falou: “Mas a senhora é teimosa. redes de esgoto. Ele falou: “Dá licença”. O que o senhor acha?’ ‘Então nós temos que procurar’”. Através de Covas. Como explicou uma das líderes. assim. Mário Covas. acho que tem que pedir. E falei tudo sobre nossos direitos como cidadãos honestos”. Ele falou: ‘Tenho’. Eles não falam que eu tenho direito de reivindicar as coisas como cidadã? Uma vez que você paga os imposto. dados de pesquisas e novos argumentos para sua luta pelos terrenos.e estou reivindicando a minha casa. O processo de estratégias de mobilização que testemunhei exige sempre decisões para deliberação inicial pelos diretores e depois apresentação à assembleia de moradores para aprovação pelo voto.” “Eu preciso falar com o senhor. iluminação nas ruas. melhores serviços de ônibus e uma clínica de saúde. Com esse tipo de confronto direto. Eu falei: “Eu preciso falar com o senhor”. se necessário. Para um encontro com o prefeito. Suas campanhas incluíam água potável encanada.” “Eu falei assim: ‘O senhor tem uma casa?’. pavimentação de ruas. paga tudo direitinho. O alvo seguinte foi o prefeito. a gente falava que a gente assumia. Silvestre lembra: Eu me plantei ali e quei.” Aí ele gritou: “O que você quer? Eu preciso inaugurar isso daqui”. elas tiveram acesso aos funcionários e a registros de muitos departamentos municipais e. a SAB mobilizou moradores — em especial mulheres — para abordar funcionários públicos em instituições da prefeitura e exigir melhorias no bairro. um ou dois ônibus. Elas saíram com uma carta pedindo ao administrador regional que providenciasse os recursos para a pré-escola. por ligações individuais de água e esgoto. Porque eu acho que como cidadã eu tenho direito. De fato. É um direito nosso de ter luz nas ruas à noite”. a SAB emprega uma caravana de ônibus. para se reunir com um chefe do Departamento de Águas e Esgotos. Eu falei: ‘Eu também tenho. se eles parcelavam”. Quando perguntei a Arlete Silvestre como a SAB justi cava suas demandas por serviços urbanos. A estratégia típica da SAB para uma mobilização é escrever uma solicitação o cial (devidamente assinada. Muitas vezes foram bem-sucedidas. dá licença. a recursos para o bairro. Então elas resolveram adotar uma “estratégia de guerrilha” quando tinham algum assunto urgente: elas o seguiam nos eventos públicos. Na primeira audiência com Covas. E o que é notável: todos os objetivos foram alcançados. anexá-la a uma petição com as assinaturas dos moradores do bairro e organizar uma caravana de moradores para entregar a petição diretamente à mais alta autoridade relevante.

É comum o caso de moradores das periferias terem vivenciado diversas desmobilizações e remobilizações em seus bairros nas últimas quatro décadas. então nós tínhamos que correr o tempo todo. recrutando membros e líderes (ainda que os mais velhos se retirassem. principalmente por razões de saúde. como veremos mais tarde. a frequência continuou estável. Como também reconhecem os antigos moradores. os con itos de terra não resolvidos se tornaram quase a única preocupação. a SAB enfatizava os direitos dos moradores como cidadãos incondicionais. no segundo domingo de cada mês. Embora alguns lhos dos pioneiros tenham se tornado membros regulares e alguns tenham assumido papéis de liderança. . que permanece o foco principal dos encontros de domingo. em geral entre cinquenta e setenta pessoas. A grande exceção é a posse de nitiva dos terrenos. que continuou desenvolvendo novas atividades.para a equipe médica da clínica de saúde (para mantê-los visitando aquela localidade distante) e um extra exigido pelos empregados de cada provedor de serviço. e os homens voltaram a ocupar os cargos mais altos. eles vão se desinteressando das outras coisas”) e conclamando mobilizações em torno de diversos temas. faz mais sentido entender seu campo de participação política como uma mobilização não contínua que é institucionalizada: organizações baseadas na moradia criaram uma esfera de cidadania local que envolve diretamente os cidadãos na administração de suas atividades coletivas e os mobiliza quando necessário. No entanto. porque quase todos os objetivos das mobilizações da SAB foram alcançados — “conseguimos muito”. o que às vezes acontecia. Por isso. Em troca desses pagamentos. agora não temos tanta necessidade”. a capacidade de remobilização indica a força dessas associações cívicas. Por isso. a desmobilização de que os pioneiros do Lar Nacional se queixam pode ser menos signi cativa do que imaginam. ao articular e justi car suas exigências. a SAB do Lar Nacional contrasta com a do Jardim das Camélias. o bairro mais uma vez se mobilizou de forma decisiva. “como os homens trabalhavam. Silvestre observou que. Quando as mais proeminentes deixaram os cargos. porque “cada vez que eles vão conseguindo alguma coisa. muitos moradores da primeira geração se queixam da falta de interesse dos mais jovens. nas diversas reuniões regulares da SAB a que compareci na última década. Assim. Mais uma vez. em vez de enfatizar que os movimentos sociais urbanos têm declinado pelo fato de se desmobilizarem regularmente. As mulheres dominaram a liderança da SAB nos anos 1980. Além disso. Nessa decadência. cidadãos contribuintes e cidadãos consumidores — uma fundação mista de direitos que analisarei em breve. Para começar. quando o con ito por terras explodiu com potência renovada na primeira década do século XXI e um despejo de massa se tornou iminente. a SAB exigia o direito de inspecionar os trabalhos públicos. “antes não existia nada. cobrar responsabilidades dos fornecedores e convocar a imprensa para publicar quaisquer negligências percebidas. a maioria das atividades que as mulheres haviam inaugurado terminou. A participação em eventos e reuniões da SAB também declinou na década de 1990. eles chegava à noite e não tinham aquela vontade de estar participando [das atividades da SAB]”.

nas quais os moradores reivindicavam recursos como uma questão de direitos à cidade. é necessário analisar o fundamento das reivindicações por benefícios por um lado e. No entanto. as próprias condições urbanas de segregação e desigualdade nas periferias tornaram possível esse processo: a localização remota permitiu certa liberdade. liberdade de escolha. as classes trabalhadoras das periferias investiram em formas novas e reinventadas de organização — CEBs. camaradagem ou bajulação — não eram barganhadas com assessores políticos como troca explícita de apoio por benefícios. por outro. Como já a rmei. para inventar novos modos de associação. dignidade). sindicatos e SABs. A esfera de participação cívica que as organizações de bairro criaram estabeleceu essa alternativa. permitiu que os membros percebessem que suas necessidades podiam ser satisfeitas sem dar algo em troca (seus votos. mas sim . Para distinguir as circunstâncias de cidadania daquelas de clientelismo. novas SABs e outros grupos e mobilizações de bairro — nas quais o critério de incorporação é a residência. essas reivindicações não costumavam ser feitas com base em clientelismo. exigiu que os políticos competissem pelo apoio. Essas exigências não foram afuniladas pelas instituições estabelecidas de partidos políticos. uma nova esfera de associações surgiu nas periferias. A questão não é se as pessoas aceitam uma pilha de tijolos de um candidato aspirante (quem não aceitaria?) ou se votam nesses candidatos que fazem a doação (uma escolha racional de interesse). em contraste com o universo restrito da cidadania social getulista e com a repressiva esfera pública da ditadura militar. que não era garantido nem quando eles faziam as doações. O fato de esta última continuar a existir no Brasil (assim como nos Estados Unidos) não quer dizer que a cidadania brasileira não tenha mudado ou que essa mudança não tenha alterado a forma como o clientelismo funciona.Reinventando a esfera pública Essa esfera pública de participação é nova e insurgente por diversas razões. que cava fora do ambiente de trabalho e fora das vistas. essa certeza não nos leva a esperar que o clientelismo e o particularismo tenham desaparecido ou que vá desaparecer. As duas são incontestáveis. ao mesmo tempo que a ilegalidade motivou os moradores a exigir inclusão com base na propriedade. Ao contrário. sem a necessidade de um toma lá dá cá por apoio. como se interesses (sem mencionar o fornecimento de recursos governamentais) pudessem ser apolíticos. e a agenda essencial é a articulação de reivindicações por recursos. a sua provisão. Não substituiu totalmente outras formas de troca entre o Estado e a sociedade. Em termos objetivos. Desenvolveu-se em grande medida fora dos domínios estabelecidos da cidadania disponíveis às classes trabalhadoras. na infraestrutura e nos serviços da cidade legal. Em termos subjetivos.17 A questão a considerar é se existem alternativas para controlar e restringir trocas diretas e forçadas de recursos por apoio político. mas introduziu uma alternativa expansiva. Com efeito. Em vez disso. Nem parece útil multiplicar categorias analíticas de clientelismo como forma de medir se os interesses são mais ou menos “esvaziados de seu conteúdo político”. Esses argumentos apoiados no direito aos direitos estruturaram uma esfera cívica categoricamente diferente daquela baseada nos tratamentos especiais a partir dos direitos trabalhistas da formulação de Vargas ou do clientelismo da política de patronato.

O novo coro cívico dos moradores. Mas seu embasamento na participação e nos direitos é inteiramente diferente daquele que caracteriza a lógica do favor entre patronos e clientes. que são bem informados e competentes para tomar decisões a respeito desses interesses. não dos planos do Estado. as duas coexistem e se enfrentam no mesmo espaço social da cidade. enfatiza o consenso e pressupõe indivíduos conscientes. esse processo de deliberação é direto. Essa concepção pressupunha que as massas brasileiras eram silenciosas e formadas em grande parte por cidadãos ignorantes. Caldeira 1988).reivindicando algo sem precedentes para as classes mais baixas: a participação nas novas associações cívicas dos bairros permitiu que os moradores exigissem o reconhecimento. Ressalto que essa nova cidadania participativa não substituiu a antiga formulação. a esfera pública da cidadania insurgente implica um projeto particular de justiça social e fomenta uma imaginação democrática especí ca. Na formulação insurgente. Elas desenvolveram projetos de assistência mútua e de autoajuda para melhorar condições de vida que o Estado não supria. Ao contrário. em termos de direitos. incapazes de tomar decisões competentes por conta própria e que precisavam ser conduzidos à modernidade por uma elite esclarecida e seus planos de desenvolvimento. suas atividades reivindicatórias. do governo e da lei que produzem as condições da vida urbana. Tal demanda por direitos iguais não apenas embasa reivindicações especí cas de acesso a recursos e instituições em favor dos seus membros. Nesse sentido. surgiu uma sociedade de associações e cidadãos muito mais autônoma. e não na diferenciação. em que a cidadania é um meio para distribuir desigualdades e diferenças. Consideram essa experiência organizada a base de um exercício de cidadania por meio do qual podem participar e ser responsáveis por instituições da sociedade. de seu valor. da parte do Estado. Iniciada de maneira pioneira nas organizações das CEBs e do PT e desenvolvida nas associações e mobilizações de bairro. os moradores das periferias imaginam que seus interesses derivam de sua própria experiência. como cidadãos que se tornaram partes interessadas da cidade como construtores urbanos. proprietários. contribuintes e consumidores. formulou novas estratégias de mobilização. de baixo para cima e consultivo. da SAB e do PT. mas também tem como objetivo a produção de acesso. igualdade e dignidade universais. administração e mobilização dos cidadãos envolve também um diferente processo de decisão. Essa equiparação estabelece ao mesmo tempo um reconhecimento e uma imposição de igualdade incongruente com diferenças individuais e luta para nivelá-las como modo de criar um sentido local de comunidade e solidariedade (Durham 1984. e que suas próprias organizações podem articulá-las. Essa nova forma de participação. evita desacordos. associativas e educacionais enfrentaram a ausência e a negligência do Estado como provedor de serviços essenciais para o bem-estar dos cidadãos. com frequência liderado pelas mulheres mais articuladas. Nesse confronto. . Dessa forma. centrada na equiparação. Essa demanda não implica nenhum tipo de toma lá dá cá. que desa ou a concepção de sociedade brasileira que o governo modernizante e desenvolvimentista de Vargas e os subsequentes governantes patrocinaram. Baseia-se numa demanda pela equiparação de direitos que domina as atividades locais da CEB. Vamos examinar as fundações de cada uma delas na formação dessa esfera pública.

A violação dos direitos humanos pela Polícia Militar uniu organizações de bairros e organizações religiosas numa ampla campanha para divulgar informações sobre direitos. criar arquivos de dados e publicações relevantes. eles estabeleceram contatos interbairros com moradores que haviam se tornado competentes num problema especí co e com associações que queriam partilhar táticas e pesquisas. De fato. Patrocinava teatro de rua. Finalmente. para “defender os direitos do povo” e “mobilizar os cidadãos para exercerem seus direitos”. para o estado e para a organização nacional nos anos 1980. alguns dos quais se tornaram também nacionais. Essas alianças se desenvolveram sobretudo em torno de três temas: condições urbanas. Isto é. promover cursos de conscientização dos direitos e fornecer serviços jurídicos. Como consequência. o Movimento Nacional de Luta pela Reforma Urbana e a Confederação Nacional das Associações de Moradores. como a essência da própria cidadania. organizações locais preocupadas com habitação. Essas organizações translocais fortaleceram de maneira considerável o desenvolvimento de uma esfera cívica autônoma de cidadania. elas cresceram a partir de problemas conjunturais para se transformar em questões temáticas. em resumo. civis. Em meados dos anos 1970. essas organizações desenvolveram uma abrangente compreensão dos direitos humanos como realização tanto individual como coletiva das necessidades básicas sociais. em 1979. denunciar suas transgressões. grupos de jovens. Com esse olhar retrospectivo sobre a história. reunindo milhões de assinaturas por várias iniciativas nesse trajeto. Centros para a defesa dos direitos humanos surgiram nas periferias e promoveram conferências pela cidade. O Primeiro Encontro Nacional do Movimento do Custo de Vida. Promoveram os direitos humanos. petições de porta em porta. além de desbravar novas relações verticais entre o Estado e o cidadão. Esses novos métodos de participação cívica contribuíram de forma signi cativa para o desenvolvimento de uma nova compreensão. infraestrutura. podemos ver que o novo vínculo horizontal entre . de que necessidades socioeconômicas fundamentais poderiam ser repensadas em termos dos direitos humanos dos cidadãos. problemas especí cos que incitaram os bairros começaram a mobilizar confederações de organizações locais à medida que os moradores das periferias perceberam que a maior parte deles enfrentava problemas semelhantes. De modo geral. custo de vida e direitos humanos. comissões de fábrica e produções musicais. a linguagem dos direitos humanos se tornou um idioma geral da cidadania durante esse período. Embora sua prioridade fosse a violência policial. con itos fundiários. Esse movimento foi pioneiro em novas estratégias de mobilização. entre os pobres urbanos. no que foi chamado de nova pedagogia da cidadania. reuniu mais de duzentos representantes da cidade e de confederações estaduais. as associações de bairro criaram novos tipos de confederações horizontais de cidadãos por toda a cidade e mais além. incluindo a União dos Movimentos de Moradia. serviços e administração se confederaram em diversos movimentos em toda a cidade. econômicas e culturais.18 Protestos contra os aumentos no custo de vida e a insu ciência do salário mínimo se expandiram dos bairros para a cidade. além de fóruns de discussão e debates.

desde que subscrita por 30 000 (trinta mil) ou mais eleitores brasileiros. Seu objetivo era assegurar a encarnação de suas experiências — seus con itos. pela imaginação democrática da Assembleia Constituinte (1986-8) eleita pelo voto popular direto. Sua campanha mais signi cativa transformou o papel “do povo” em sua elaboração: eles insistiram em ter participação direta no esboço da Constituição. representando milhares de grupos em todo o Brasil que tinham debatido. Em muitos casos. eles lutaram para que as regras internas da casa garantissem que essas emendas populares fossem devidamente consideradas. Dessas organizações plenárias. organizações de cidadãos submeteram um total de 122 emendas populares que se quali cavam nesses termos. em lista organizada por. O terceiro desenvolveu essa agenda de dois modos que transformaram de maneira fundamental os trabalhos internos da Assembleia e seu projeto constitucional. O primeiro aspecto era educar a população quanto ao processo constitucional e os poderes por meio de debates públicos (seminários. Eles lutaram não só para tornar a Constituição formalmente democrática. necessidades.cidadãos organizados os preparou para participar de forma maciça e sem precedentes na elaboração da Constituição de 1988. Combinações de 288 diferentes organizações plenárias patrocinaram essas iniciativas. em essência. Essa mobilização transformou os cidadãos insurgentes das periferias em protagonistas-chave numa luta nacional pela natureza da nova carta para a sociedade brasileira. elaborados por todo o Brasil por milhares de grupos de cidadãos dos mais variados tipos e níveis de associação. O aspecto mais notável nessa insurgência da cidadania de massas foi seu sucesso na con guração da Constituição. lançaram um abaixo-assinado para assegurar o maior número de assinaturas possível. Organizações de cidadãos mobilizados geraram as chamadas propostas de emendas como principal instrumento de participação popular na elaboração da Constituição. comitês. Além disso. que se responsabilizarão pela idoneidade das assinaturas. quando a Assembleia se reuniu.19 A articulação dessa vox populi tinha quatro aspectos fundamentais. que permitia a apresentação de propostas de emenda ao Projeto de Constituição. O momento decisivo aconteceu quando a Assembleia aprovou o artigo 24 de seu regimento interno. Para substanciar cada iniciativa. O segundo teve como foco a eleição à Assembleia de candidatos comprometidos com a inclusão de uma agenda de iniciativas populares em suas deliberações. articulado e validado cada petição. Durante a convenção. Por m. cerca de 14% eram de . fóruns e sessões plenárias) e publicações. direitos e perspectivas como classes trabalhadoras urbanas modernas do Brasil — como fonte básica de direitos substantivos e de justiça social. 3 (três) entidades associativas. no mínimo. resultou da convergência de movimentos de cidadãos e de organizações não governamentais que forneciam assistência legal. legalmente constituídas. Ao lado de seus compatriotas do campo. sua batalha foi. com a participação de advogados alternativos que conformaram os problemas sociais especí cos apresentados pelos movimentos em iniciativas legais. Nesse processo. os movimentos se educaram na construção estratégica da lei. organizações populares de cidadãos monitoraram o progresso da Assembleia e zeram pressão pela aprovação das emendas por elas patrocinadas.

ambas centrais para o desenvolvimento da cidadania urbana.20 Grupos de cidadãos que patrocinavam emendas lotaram as galerias do Congresso nos dois anos da convenção. sem dúvida. São. vou enfatizar que a esfera da participação cívica insurgente iniciada nos bairros empobrecidos autoconstruídos das periferias. São inovações na justiça social. Algumas tinham mais de 700 mil. Além disso. a ditadura foi forçada a reconhecer o que já havia acontecido. ordenam a realização de debate público para o planejamento urbano e criam conselhos consultivos de cidadãos em questões de bem-estar socioeconômico. inovações na democracia participativa. na ilegalidade e na desigualdade. O artigo 29 da Constituição. sinal de que todos os setores da sociedade brasileira se bene ciaram das novas formas de participação que as mobilizações populares alcançaram. inclusive as de posse de terra. Elas também levaram à criação de uma carta constitucional que ao mesmo tempo assume e estabelece que as massas do Brasil. As 122 propostas foram apoiadas por mais de 12 milhões de assinaturas. cinco por cento do eleitorado” (art. Não só práticas locais de cidadãos pobres urbanos se tornaram fontes do direito constitucional. Aqui. uma proporção enorme se considerarmos as extensas exigências formais para documentar cada assinatura e todas as despesas não subsidiadas envolvidas. da cidade ou de bairros. instrui os municípios a adotar leis orgânicas que atendam “os princípios estabelecidos nesta Constituição. Quando abriu as válvulas . Muitas dessas iniciativas diziam respeito a formas de garantir a participação da sociedade organizada na administração das atividades do governo e dos cidadãos. pelo menos. produzindo um formidável grupo de pressão. na Constituição do respectivo Estado e os seguintes preceitos”: entre outros. Como resultado. “cooperação das associações representativas no planejamento municipal” e “iniciativa popular de projetos de lei de interesse especí co do Município. eles viram a substância de muitas de suas propostas incorporadas em artigos do esboço inicial da Constituição feito pela Assembleia e rati cadas em sua versão nal. através de manifestação de. quando a ditadura se “descomprimiu” no nal dos anos 1970.12 e 13). A corrente de mudanças foi do local para o nacional.associações de empregadores. muitas municipalidades aprovaram constituições que requerem que os cidadãos participem do desenvolvimento de orçamentos anuais. saúde e direitos da criança. essa reorganização da sociedade aconteceu fora dos espaços limitados que o governo nacional dos ditadores militares havia imposto. 22 Ao contrário. no próximo capítulo. por exemplo. não foi na verdade essa “abertura” controlada que permitiu à sociedade se reorganizar democraticamente — embora historiadores e cientistas políticos em geral adotem os termos da própria descrição que o regime faz de sua “liberalização”. Essas assinaturas representavam cerca de 12% do eleitorado. tenham se tornado um corpo de cidadãos participativo e organizado. Outras emendas populares que se transformaram em princípios constitucionais e leis estatutárias se referem às condições dos pobres urbanos. gerou uma transformação nacional da cidadania. Embora poucas de suas emendas tenham sido aprovadas na íntegra. Assim. “silenciosas e retrógradas” apenas quarenta anos antes. 29.21 Discuto algumas dessas iniciativas em planejamento e propriedade.

olha. depois de transcrever inúmeras entrevistas feitas em ambos os bairros. Uma mulher do Lar Nacional me disse: Muitas vezes é bonito você ler. aquele lá conseguiu através da lei tal. Também criaram um novo . uma parte é que nem a gente estava falando. membro da SAB. Mas. percebi que essa mudança de termos é coerente: quando os moradores falam sobre a Constituição. olha. ainda percebi um fenômeno léxico chocante em minhas entrevistas. eu não sei se aquilo que está escrito. eles geralmente usam a palavra “Constituinte”. será que isso é conto de fadas mesmo? É verdade? Você não sabe. NOVOS ALICERCES DOS DIREITOS Por que você acha que tem direitos? Bom. a emergência de novos públicos participativos em bairros como o Jardim das Camélias e o Lar Nacional não apenas expandiram a cidadania substantiva para novas bases sociais. referem-se ao texto da carta nacional pelo nome da agência que a produziu. graças a Deus. eu tenho esse direito. desenvolveram-se às margens das suposições estabelecidas de governança: referiam-se aos novos espaços coletivos e pessoais da vida diária dos pobres nas periferias urbanas. Se você pegar a Constituinte para ler — eu li várias partes —. Você pode ter suas coisas.de pressão para descomprimir. Assim. Mas eu tenho que correr atrás dos meus direitos. Essa cidadania participativa marcou de forma tão forte o desenvolvimento de uma imaginação democrática entre os moradores das periferias que. Nesse sentido. estabeleceram o dever de fornecimento de serviços da parte do Estado. com a minha família. porque se eu não for correr atrás dos meus direitos. Não roubo de ninguém. Mas hoje eu penso o seguinte: eu tenho direitos porque a Constituinte [a Constituição] me dá esses direitos. consideravam mulheres e crianças tanto quanto aos homens. Mas você tem que correr atrás. descobriu que a sociedade já tinha passado a novas práticas de cidadania local. eles não vão cair do céu. Do céu cai chuva. como trabalhadores com carteira assinada. se você não correr atrás. Se eu não utilizei. Eu sou uma pessoa honesta. a maior inovação histórica desses direitos é que eles iniciam uma reconceituação: seus defensores começaram a concebê-los como atributos da cidadania em geral e não de categorias especi camente diferenciadas de cidadãos. Pago meus impostos. Essa iteração da agência — a agência deles — de ne para mim o espírito da cidadania insurgente. Mas. Primeiro pensei que esse uso de “Constituinte” fosse um erro idiossincrático de sintaxe. Sem dúvida. trabalhador da indústria têxtil aposentado As esferas públicas de cidadania surgidas nas periferias do Brasil forçaram o Estado a responder às suas novas condições urbanas reconhecendo novos tipos e fontes de direitos dos cidadãos. Sou trabalhador. como é que você vai fazer os seus direitos? Morador do Jardim das Camélias desde 1970. quase dez anos depois da Assembleia Constituinte. Faço as minhas obrigações em casa. que logo se materializaram em novas formas de participação nacional. você olha assim e fala: nossa. Esses direitos dizem respeito a questões de escopo e substância que as leis e instituições existentes no Estado costumavam negligenciar. se ela funciona mesmo… Mas eu já tenho conhecimento de falar. Você pode morar aqui cinquenta anos. Isto é.

embora abrangente. com resultados distintos. a base do sistema de cidadania diferenciada. porém. eles invocavam de forma sistemática um amálgama de três concepções. exclui alguns moradores. como sugere a a rmação acima. o sentido de direitos como tratamento especial se refere. Eles falam sobre direitos como privilégios de categorias morais e sociais especí cas (ou seja. Mas. cria condições para a realização de uma cidadania mais igualitária. ou direitos por escrito. O conceito de direitos das partes interessadas ou de contribuidor propaga de forma ambígua os dois sistemas de cidadania. com exceção dos direitos trabalhistas. O terceiro surge depois da Assembleia Constituinte e continua misturado com os outros dois em discussão. Enquanto isso perdurar. em última análise. essa concepção enfrenta um conceito insurgente de direitos gerais fundamentados em textos. Nessas três formulações. Falam de procurar seus direitos ou “correr atrás deles”. Isso não quer dizer que as pessoas nunca se referiam às constituições e às leis anteriores. Direitos como privilégio Para a maioria dos moradores das periferias de hoje. era para reclamar que. indicada nas estratégias empregadas pelos moradores em seus con itos de terra e habitação. aquelas cartas não se aplicavam a eles. Quando perguntei aos moradores dos bairros por que achavam que tinham direitos e baseados em quê. tende a promover uma cidadania de “autoconstrução” universal. direitos de contribuidor e direitos por escrito. Contudo. como derivações de seus interesses na cidade (“Eu pago meus impostos”). Em outras palavras. do nal dos anos 1960 até 1988. ao tipo de direitos trabalhistas e de bem-estar social . e como escritos na Constituição (“A Constituinte me dá direitos”). e portanto tem um tipo de agência igualitária ausente do paradigma diferenciado. como enfatiza a autodeterminação e as realizações dos cidadãos-contribuidores. O segundo aparece junto com as primeiras discussões de direitos referentes às mobilizações dos bairros até a nova Constituição. Além disso. as pessoas usam o mesmo conceito para descrever a realização de seus direitos. fazer isso em geral signi ca algo diferente em cada caso. de formas variadas. Nas periferias contemporâneas. essas três conceituações de direitos permanecem vitais e misturadas no desenvolvimento da cidadania. A concepção dos direitos como privilégio de certos tipos de cidadãos tem sido. porque. portanto. essa tipologia tem uma organização temporal. apresentam um híbrido de direitos como tratamento especial. Essa concepção propõe que os cidadãos tenham um valor incondicional em termos de direitos. Nas periferias pós-Constituição. Mas. esses fundamentos dos direitos continuam sendo uma mistura de formulações novas e antigas.entendimento e novas práticas de direitos. a cidadania permanece sobretudo como forma de distribuir e legitimar a desigualdade. tanto individual como coletivamente. Porém. quando alguns ocasionalmente o faziam. “Eu sou um trabalhador honesto”). O primeiro tipo se apresenta praticamente como o fundamento excludente dos direitos em reminiscências históricas dos períodos anteriores aos assentamentos nas periferias (1930-40) e durante sua primeira fase (1940-70). que não depende de suas posições sociais ou morais e.

O cidadão era o chique. Na pesquisa de campo de Caldeira. como se fosse um lixo. Para eles. Eu vi isso e vivi isso também. essa cidadania do tratamento especial tem uma ênfase diferente: eles a descrevem como uma distribuição da desigualdade e da injustiça. ainda que com signi cados adicionais. todo mundo fala em direitos. muito bom de grana. seu sentido de cidadania no período anterior e inicial das periferias se resume a uma identi cação nacional vivenciada através de eventos e símbolos públicos (a língua portuguesa. os três modos que Caldeira analisou persistem. Hoje. Um morador mais velho do Lar Nacional esclarece esse aspecto ao se referir aos pais (mais ou menos no período de 1930-70): O cidadão era um cara.inicialmente estabelecidos na legislação social de Vargas. que têm direitos. mas tem pouco signi cado como reconhecimento e distribuição de direitos. Ele era o dono do comércio. peão. Tanto no singular como no plural. O paradigma de cidadania que esse homem descreve produz o paradoxo que ele denuncia: os brasileiros podem considerar alguns brasileiros como “cidadãos”. como Caldeira descreveu originalmente. O trabalhador era um peão. Peão. os moradores ainda tendem a se referir sobretudo aos direitos socioeconômicos quando falam em ter direitos no plural. com mais frequência. falam sobre o sistema de cidadania de Vargas como uma distribuição de direitos aos trabalhadores. a bandeira. O trabalhador aposentado articula essa relação na declaração de abertura . o futebol. e que como resultado participaram integralmente nos sindicatos trabalhistas. peão toda vida. signi ca a condição de ter direitos. aposentadoria e férias. A palavra “direito” aparece tanto no singular como no plural. Isso não existia. Eles tratavam como um marginal. ninguém tratava como cidadão. Mas a base desses direitos não mais deriva — ou pelo menos não apenas — do sistema de leis trabalhistas de Vargas. cumpriu todos os seus deveres. É verdade. No singular. Para os demais. Com certeza eles discutem benefícios especí cos. Na minha pesquisa de campo. apenas os poucos moradores que tinham de fato empregos com registro em carteira em pro ssões legalizadas — ou. Esse modo continua a se referir a uma condição moral de retidão. quando ia a algum lugar e precisava de algum direito. denota um direito especí co (direito de). cujos pais tinham —. e outros brasileiros como “marginais”. na época dos meus pais. Em seu estudo do Jardim das Camélias do nal dos anos 1970. Mas ele cumpriu suas obrigações. ou seja. o dono de uma rma… O trabalhador não era cidadão não. era o rico. em geral um direito civil ou político. o Carnaval. Meu pai veio para São Paulo como um simples agricultor e morreu como um servente de obra. No entanto. os moradores da época e os atuais costumam pensar que ter direitos depende de uma terceira modalidade de direito. a eles são negados esses direitos. mas em geral não usam a categoria “direitos” para articulá-los. a de “ser direito” ou “andar direito”. que não os têm — uma distinção que só faz sentido no sistema de cidadania diferenciada. No entanto. por razões que nada têm a ver com sua cidadania nacional. que trata alguns brasileiros como se não fossem cidadãos porque. Caldeira (1984: 224-35) notou que os poucos moradores que usavam a categoria “direito” o faziam em três modalidades. E. como salário mínimo. o próprio Vargas e assim por diante). A injustiça me deixava com muita raiva. a forma no plural sempre se referia aos direitos trabalhistas e de seguridade social de Vargas. como o direito ao voto ou à greve. No plural.

é importante notar que.23 No entanto. signi ca ter de provar às autoridades apropriadas que você possui o status certo e merece os direitos correspondentes a ele. Aqueles que têm direitos de cidadão os merecem porque são moralmente bons e socialmente corretos nesses termos reconhecidos de maneira pública. criou um duradouro constructo de marginalidade e exclusão sociais em relação ao desemprego e ao trabalho informal. Assim. portanto. os que não conseguem ser moralmente direitos — criminosos. Por extensão. As leis estabelecem as duas condições. ter ou não ter direitos não é só uma determinação da lei. as pessoas precisam descobrir que direitos elas têm. para se quali car. Esses dois pensamentos negativos permitem que brasileiros pressuponham que outros brasileiros carecem de direitos em relação a si mesmos e que portanto não têm deveres em relação a eles. desviantes (por certo uma categoria que pode ser expandida) — merecem não ter direitos. e ser direito é uma questão de alcançar certos status. A Constituição de 1937. provedor da família e pessoa honesta. No entanto. Da mesma forma. os que precisam usá-los “têm de correr atrás de seus direitos”. as exclusões de cidadania diferenciada em geral parecem resultar menos de causas políticas e jurídicas que de fracassos pessoais. o que normalmente requeria a ajuda de alguém instruído. o acesso ao direito nessa conceituação como tratamento especial depende de duas condições. Essa despolitização perpetua a legitimidade de direitos de cidadania excludentes ao culpar o excluído por não tê-los. não era fácil obter essa informação. se de uma forma ou de outra os consideram marginais. Para a maioria da classe trabalhadora. o Estado só confere esses direitos às pessoas direitas. Antes de analisar melhor essa contradição. o requerente tem de mostrar às autoridades que fornecem os benefícios dos direitos que é “pessoa honesta” com “ cha limpa”.desta seção: ter direitos depende de ser direito. Em primeiro lugar. a lógica dessa cidadania do tratamento especial também produz o julgamento a priori de que os que não têm direitos — os pobres. os componentes que Caldeira identi cou permanecem fundamentais para a negociação da cidadania sempre que o tratamento especial é predominante. Por um lado. Meu trabalho de campo mostra que esse “procurar seus direitos” tem desenvolvido novos signi cados e novas práticas desde então. o requerente precisa “pagar pelos direitos”. não algum tipo de marginal. por exemplo. pelo fato de esses direitos só poderem ser adquiridos pelos cidadãos direitos. em geral um “patrão bom”. Caldeira (1984: 233-4) considerou que essa prova constava de três componentes no primeiro período das periferias. se tiverem sido alfabetizados ou registrados numa pro ssão). Em terceiro lugar. invasores. os direitos legais podem estar disponíveis a todos os trabalhadores (como propôs o populismo de Vargas). em essência os de ser bom trabalhador. Há 25 anos. um funcionário do sindicato ou um trabalhador mais antigo. as pessoas pensam que têm direitos porque mantêm status reconhecidos e legalizados pelo Estado. Na teoria. No contexto da cidadania de direitos especiais. mas só podem ser adquiridos e realizados pelos que os merecem em termos de atributos pessoais especí cos (ou seja. a frase onipresente “procurar seus direitos” signi ca não apenas conhecer quais direitos se ligam a um status especí co. Acima de tudo. Por outro. Em segundo lugar. como “cumprir obrigações” e “contribuir para a . por exemplo — devem ter fracassado moralmente.

Em geral deve ser requerida através da intervenção pessoal de alguém em condições de reconhecer a idoneidade e os justos méritos do requerente. Mas essa prova não é só uma questão de ter o recibo certo. o pobre costuma ver a frase “vá procurar os seus direitos” jogada em seu rosto como uma ameaça desdenhosa quando acusam os outros de violação ou negligência dos seus direitos. Em consequência. força-os a encontrar a pessoa certa para interceder a seu favor. Isto é. provar o próprio valor para encontrar os próprios direitos é sempre frustrante e por vezes impossível para eles. aceite o que aconteceu ou tente uma resolução extralegal. isso confere poder ao requerente. Esse poder de arbitragem converte direitos em privilégios. A personalização dos direitos signi ca que seu exercício depende do arbítrio. Por sua vez. Em termos hohfeldianos. Um quarto e obrigatório componente é que. o aprovador agora tem o poder de decidir quando se aplicam os direitos e ainda assim nenhum dever de torná-los disponíveis. no contexto da cidadania diferenciada. sobretudo. Ademais. Ele não assume responsabilidade pelo poder legal do requerente. Sempre os põe na defensiva. não do dever. o requerente exerce seu direito apenas como um favor da pessoa que o garante. porque a aplicação da lei no Brasil raramente é segura ou rotineira. Um direito cria um dever quando torna alguém vulnerável aos poderes legais de um requerente. Quando isso ocorre. pagar tem um signi cado menos econômico do que moral. Nesse contexto. Nesse sentido. e por isso ganhou imunidade. o requerente está vulnerável para o exercício desse poder. Por isso os recibos comprovam que uma pessoa não é um marginal e que deve ter o direito em questão. pagar é a principal forma de estabelecer que o requerente tem valor pessoal. normalmente um burocrata. o status e o comportamento corretos do requerente devem ser reconhecidos pelo provedor. juízos e mediação pessoais. A necessidade desse pedido pessoal exacerba a batalha dos pobres para correr atrás de seus direitos. Por isso não surpreende que ser “tratado como lixo” seja uma razão ouvida com frequência para explicar por que as pessoas desistem de perseguir seus direitos. Quando dependem de intervenção. essas relações se tornam legalmente subvertidas. ouvi com frequência o argumento de que “as pessoas têm direitos porque pagou por eles”. torna incerta sua dignidade e seu respeito e faz com que reconheçam sua inferioridade. embora a papelada seja essencial. funcionário público ou empregador. Por isso ele sofre de uma incapacidade que só pode ser superada por uma intercessão pessoal. no sentido de que se torna um privilégio obter o que por lei é um direito. pois supõe-se que apenas pessoas honestas e trabalhadores registrados podem pagar. Isso é necessário. Esse reconhecimento pessoal é exigido não só pelo fato de os direitos de tratamento especial sempre dependerem da identi cação de subconjuntos de status dentro do status geral do cidadão. Assim. Num sistema de direitos de cidadania assim baseado na imunidade de alguns e na incapacidade de outros. por isso. os direitos se tornam relações de privilégio que atuam sem a obrigatoriedade do dever para . de alguém em posição de poder para reconhecer o mérito pessoal do requerente e garantir seu acesso ao direito. nem tente.aposentadoria e o sistema de previdência”. para ser agraciado com um direito. desprovido do direito de determinar sua direção. A mensagem é clara: a busca pelos direitos será em vão.

com aqueles que não têm o poder de impor suas reivindicações. você vê se uma pessoa da periferia é presa. envolve o pobre num exercício perverso de cidadania que os que desfrutam de imunidade e privilégios contornam: não só perpetua. Entendiam que. uma dona de casa que trabalha fora. queria dizer que um tratamento desigual é uma forma de compensar desigualdades preexistentes. vai lavar roupa. Lá dentro [na prisão]. como os advogados a quem perguntei. ainda que resultasse na legalização de mais privilégios. Observei essa contradição em muitos outros moradores. Mas para muitos. esse morador assume uma posição contraditória. como um princípio social geral. que nem cou para o outro. vai . desigualdades preexistentes. e dissessem se concordavam ou não com ela. A “procura dos direitos”. pedi aos moradores que me explicassem a máxima de Rui Barbosa. por homens e mulheres. Porque se você for analisar. Nessa troca. vai fazer janta. se não recompensar. uma cidadania de tratamento especial cria relações de imunidade e vulnerabilidade que envolvem privilégios e falta de poder na mediação dos direitos. Quando eu chego em casa do meu serviço. que tendiam a se confundir com seu jogo de palavras semelhantes. Um dos moradores comentou que “você vê que o rico é tratado desigual da pessoa que é pobre juridicamente. mas também legitima a distribuição da desigualdade por fazer com que trabalhadores individuais defendam um tratamento especial para si próprios e a desquali cação de outros como forma de con rmar seus méritos especí cos e obter a duras penas reconhecimento. se alguém vai deixar uma televisão para ele lá. A frase desconcertou algumas pessoas. induz o pobre a aceitar a legitimidade da distribuição de cidadania de tratamento desigual como forma justa de compensar. Os privilegiados vivenciam a cidadania como um poder que os liberta das reivindicações de outros. Essas relações de privilégio e desprivilégio simbolizam a formulação dominante da cidadania brasileira. O que que a mulher faz? A mulher chega. ela trabalha dobrado. co ali sentado e tal. esse banqueiro que foi preso”.24 Faz com que aprovem as desigualdades compensatórias do privilégio que se obtêm pela legalização de mais privilégios. Ainda assim. sua superioridade). Dessa forma. Em minhas entrevistas nos bairros. que nem ficou lá. e sob quais circunstâncias. respeito e recompensas. vai limpar a casa. especialmente entre os pobres. deixando-os livres de deveres legais e isentos de responsabilidade legal. Outros captaram uma implicação que nenhum dos advogados notou: eles observaram que sua lógica compensatória também legitima os direitos das elites a tratamento especial. assim. Os desprivilegiados não têm direitos e são vulneráveis ao poder de outros. assisto uma televisão. a experiência vivenciada da cidadania diferenciada transforma os pobres em defensores da máxima de Rui Barbosa em relação à justiça. ela também justi cava um tratamento desigual para as medidas preexistentes de desigualdade da elite (isto é. ele usa essa lógica para justi car o direito a um tratamento especial para compensar as desigualdades na sua própria classe. expressa da mesma forma. Dessa forma. em relação aos direitos especiais das mulheres de se aposentar cinco anos antes dos homens: Acho justo. ou vou no boteco tomar uma cervejinha. vai arrumar a cozinha. eu vou fazer o quê? Tomo banho. Depois de condenar tal esquema da justiça por perpetuar os privilégios da elite.

Esses pioneiros de uma cidadania urbana insurgente e participativa continuam assim a perpetuar elementos-chave do regime de cidadania diferenciada que os discrimina e ao qual se opõem de várias formas. Essa coexistência cria uma fundação misturada e às vezes instável para o desenvolvimento da cidadania. os direitos de contribuidor constituem um grupo diferente. não”. também legitimam a reprodução de mais desigualdades e privilégios por todo o sistema social. a conceituação de direitos que permanece amarrada a um tratamento especial enfrenta dois novos entendimentos dos direitos do cidadão nas periferias. Quando discutimos as muitas desigualdades sociais existentes no Brasil. “mesmo que os criminosos sejam cidadãos. ninguém tinha problemas em legalizar novas desigualdades na forma de direitos de tratamento especial como forma de retificar desigualdades existentes. A maioria dos moradores tem opiniões igualmente confusas ou contraditórias a respeito de vários tipos de direitos. Como quase todos os homens e mulheres que discutiram esse assunto comigo. preto. A primeira a surgir está relacionada com o que chamo de direitos de contribuidor ou da parte interessada. e que. japonês. é igual”. Ao fazer isso. não importa que seja branco. sem falar de seu próprio comportamento. Então por isso que eu acho que deveria ser até mais tempo [do que cinco anos] para aposentar antes do que o homem. ainda existe muita discriminação no trabalho da mulher. 26 Em geral. bons trabalhadores e contribuintes têm que ter direitos” e que “os criminosos. para mim até um bandido é um cidadão”. e car submetidas a custódia. Em vez disso. se você for analisar a questão. Está aqui no Brasil. Ela trabalha dobrado. e em outra dizem que “nós se consideramos cidadão porque [somos] pessoas honestas”. Estes surgiram quando os moradores desenvolveram as novas esferas participativas de cidadania. todos concordavam ainda que “pessoas honestas. Uma vez que os direitos pelos quais os trabalhadores “pagaram” sob o antigo regime eram sobretudo direitos trabalhistas. passar. Direitos de contribuidor No entanto. A gente sente muito.25 Muitos argumentaram que analfabetos não deveriam ter direitos políticos porque não têm independência e não saberiam como votar. muitas os afetando diretamente. como: “A Constituinte fala que todos são iguais. Em geral eles aceitam o princípio de que as desigualdades sociais existentes justi cam mais tratamento desigual como forma de compensação. como forma de mudar essa discriminação. esse morador não pensa em mudar as relações sociais de gênero e trabalho. Os mesmos moradores que dizem numa frase que “hoje. licença-maternidade. aposentadoria antecipada e trabalhos impróprios). deixando intocadas as causas da desigualdade. os vagabundos e os invasores. Porém muitos aceitam uma ação a rmativa para negros na educação. Eles dão alguma versão da igualdade universal constitucional. foros especiais para a Polícia Militar e tanto compensações como restrições especiais para mulheres (ou seja. que as crianças deveriam ter direitos especiais mas que as realmente problemáticas poderiam perdê-los. quer manter as leis discriminatórias através da permissão de um privilégio compensatório legal que recompense as mulheres por seu trabalho extra. de nova substância e . eles não merecem direitos”.

Em sua maior parte. eles os veem com desprezo. “Mas eu tenho que pagar”. Poucas vezes ouvi proprietários do Jardim das Camélias dizerem que os moradores das ocupações de lá têm direito à cidade. Contudo. O capítulo 5 mostrou que a porcentagem de casas próprias nas periferias é bastante alta. Para a maioria. como nem todos os brasileiros partilham esse status. Outra pioneira recordou que. à administração da cidade via pagamento de impostos e à economia da cidade através do consumo. a propriedade exclui posseiros e locatários. Embora sejam em pequeno número entre os moradores da maior parte das periferias (cerca de 10% na média). Ademais. isso motiva tanto suas reivindicações quanto seus deveres em relação à cidade. como aproveitadores. Como uma das pioneiras a rmou a respeito de seu lote: “Estou lutando por aquilo que é de meu direito. Eles compreendem os “direitos à cidade” que foram fundamentais na mobilização de novas práticas de cidadania nas periferias — direitos a serviços públicos. São direitos de partes interessadas porque os moradores fundamentam sua legitimidade na apropriação da cidade através desses meios. no que diz respeito à propriedade fundiária. Eu os chamo de direitos de contribuidor porque os moradores os apresentam como reivindicações legítimas com base em suas contribuições à própria cidade — à sua construção através das casas e dos bairros que ergueram. suas identidades como pagadores de impostos e consumidores também se desenvolvem em torno de pré-requisitos da propriedade. construções e serviços residenciais. Então não está assim. Por isso a identidade de proprietário da casa predomina nos bairros das periferias. Os direitos de contribuidor/parte interessada são. ela declarou a alguns . observamos que a distinção entre os proprietários e os outros é crucial tanto para a economia moral quanto política da residência. a maior parte dos moradores ressalta seu status como compradores de terra de boa-fé exatamente porque seus títulos sob litígio os ameaçam com o estigma da invasão. embora isso esteja começando a mudar como resultado de novas medidas constitucionais. durante a violência dos despejos no início dos anos 1970. A divisão entre dono e posseiro é especialmente antagônica. Porém. eles também perpetuam de forma ambígua alguns elementos de cidadania como tratamento especial. infraestrutura e moradia que se referem à vida urbana como condições de habitação da cidade. portanto. Para a maior parte das pessoas.signi cado ético. e porque muito de seu consumo consiste na aquisição de suas casas. Todo mundo tentou comprar aqui [e por isso] tem um respaldo pelo menos em lei”. ela entrou na la com outros moradores para pagar suas prestações. de pagador de impostos e de consumidor de massa. Alguns acham que nós somos invasores. como se fosse invasor. Tampouco ouvi muitos moradores posseiros da Vila Joia se referirem aos serviços urbanos como direitos seus. variando entre 70% e 90%. Mas nós não somos invasores. invadiu e cou. No Lar Nacional. chegou a 87% das 185 casas que pesquisei. baseados em três identidades sem precedentes para a maioria da classe trabalhadora: as de proprietário de imóvel. pois eles pagam taxas e impostos por seus lotes. Essas identidades se encaixam numa agência de autodeterminação muito diferente da embutida nos direitos trabalhistas supridos pelo Estado. conforme mensurações diversas. A identidade fundamental organizadora do pacote de direitos de contribuidor é a de proprietário de imóvel.

esse documento propicia uma base sólida para exigir o reconhecimento público de sua posição como partes interessadas da cidade.” Exatamente pelo fato de seus títulos estarem sob suspeita. a maior parte dos moradores paga uma série de impostos e taxas como consumidores. De todas as taxas que os moradores pagam. Além disso. Mesmo que não resolva de fato seus problemas de títulos. Para eles. os moradores querem pagar as taxas de moradia como prova de sua propriedade. a água está alta. incluindo o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços e o Imposto sobre Produtos Industrializados (ICMS e IPI). o pagamento de impostos e o consumo como provas de seus interesses na cidade. Esse sentimento de ter interesses no município não se limita a donos de lotes nas periferias. os moradores costumam ver a casa própria. você vai reclamar. Devido a práticas fraudulentas de incorporadores que superpõem os planos. o IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano). Em consequência. Desse modo. em parte por não estarem pagando o IPTU. ainda que sem dúvida a identidade de acionista seja mais forte entre os proprietários de imóveis. qualquer coisa que você compra que dá errado. eu comprei. E outros ainda pagam imposto de renda. os moradores tinham de pagar taxas especiais pela instalação de serviços e de infraestrutura. e um vigarista imobiliário de plantão tentava despejá-los. uma das batalhas jurídicas mais signi cativas travadas pelos moradores era a de receber uma conta anual exata por seus lotes individuais. todos esses requisitos foram registrados de forma errada e contestados em praticamente todos os lotes nos dois bairros pesquisados por mim. “A casa é minha. Durante muitos anos. Todos requerem uma complexa batalha jurídica e burocrática para serem reti cados. com suas medidas exatas. Esse imposto depende do registro de cada lote nos arquivos municipais. os lotes não foram individual ou corretamente desmembrados das parcelas maiores de terra durante décadas. as pessoas achavam que não deveriam reclamar das coisas. Ninguém fica sem reclamar. e as contas de impostos anuais eram imprecisas e in adas de forma grosseira. constroem seu entorno e contribuem com fundos para o seu governo. eles não conseguiram fazer isso. todo esse tipo de coisa. Essa convicção não só rea rma suas exigências por direitos à cidade. Também dá aos moradores o sentido de serem cidadãos da cidade. Você compra uma coisa e está quebrada. número de identi cação e valor de avaliação. o pessoal reclama hoje. Os posseiros também são proprietários de suas casas. a maioria exibe essas contas como uma medalha de honra atestando o reconhecimento legal de seus direitos de propriedade. Um morador de uma área ocupada na Vila Joia (que conseguiu obter a maior parte dos serviços urbanos em 1985) assim definiu a sua percepção sobre os direitos do consumidor: No tempo da ditadura. é uma declaração de que são donos da terra da cidade. você vai reclamar. contudo. a principal se refere à taxa de propriedade. Embora eu tenha ouvido alguns moradores resmungarem que a regulamentação signi cava pagar impostos.capangas que tentavam desorganizar a fila. você vai lá reclamar. para . os moradores não podiam pagá-los. Mesmo que fossem entregues. nome do proprietário. a conta da luz vem alta. Tudo. muitas das quais são bem equipadas e mobiliadas. Como resultado desse emaranhado de problemas. você vai reclamar. títulos e vendas dos lotes. Hoje. dispondo apenas de notas promissórias sobre as quais fundamentar seus direitos de posse e sua distinção dos posseiros. Além disso.

emprego e família que organizaram as periferias se tornam menos disponíveis. sem depender do toma lá dá cá de favores ou deferências. como explicou o ex-presidente da SAB no Jardim das Camélias: Tem lugar que você ainda chega hoje. O raciocínio é direto. se os projetos includentes de longo prazo de casa própria. Assim. nas realizações e na independência conseguidas. Essa autoconstrução da moradia. o munícipe merece respeito não por ser um honesto trabalhador ou trabalhadora ou provedor da família. é não sei o quê.muitos a primeira compreensão substantiva de sua cidadania e da agência dessa cidadania. Mas estas últimas se tornam inteligíveis e poderosas em seu signi cado sobretudo como expressões da grande narrativa social dos assentamentos nas periferias. Quem que paga o funcionário da Prefeitura. Eles persistem. é evidente que os que se veem como construtores das periferias conseguem direitos e respeito porque. de onde que vem o dinheiro? Vem arrecadado do povo. Mais adiante teremos de examinar até que ponto essa agência continua a envolver as gerações seguintes. Essa mudança de atitude resulta da convicção de que os cidadãos urbanos conquistaram seus direitos e respeito construindo a cidade e pagando suas contas. “Se ele paga os seus impostos. o pessoal atende a gente. Sua agência é individual porque se refere a realizações individuais. em contraste com a cidadania diferenciada. você vai na Prefeitura. você é um munícipe. parece que a gente é um lixo. Tudo é dinheiro do povo. Tudo a gente. ele é um cidadão e deve ser respeitado aonde quer que ele vá” é uma a rmação que ouvi com frequência em várias versões. aqui nas repartições públicas. . Nós é que paga IPTU. Não é certo. esta envolve a maioria dos residentes por se referir à própria construção das periferias e porque tanto proprietários como posseiros avaliam suas vidas tendo como referência esse desenvolvimento. eles também exigem seus direitos com base na autodeterminação. Os direitos de contribuidor promovem assim uma cidadania baseada numa agência inteiramente diferente da dos direitos trabalhistas patrocinados pelo Estado da cidadania diferenciada. ICMS. cada um reiterando uma parcela de um drama coletivo de segregação e insurgência. a agência da cidadania urbana é autoconstruída. Não surpreende que o sentimento de ser um cidadão urbano esteja diretamente ligado às exigências dos moradores de que os funcionários públicos os respeitem. e Imposto de Renda. embora nem todos nas periferias possam reivindicar essa agência autoconstruída da mesma maneira. Então se é dinheiro do povo. no conceito de direitos do cidadão como parte interessada na cidade. No entanto. Não é preciso provar nenhum atributo moral pessoal para um funcionário ou ter isso reconhecido pelo Estado para “encontrar seus direitos”. é IPI. Assim. eles se transformam em munícipes generalizados (ainda que não universais). Por exemplo. Você é um contribuinte da Prefeitura… Porque queira ou não queira ele [o funcionário] está sendo pago com o nosso dinheiro. de si mesmo e do cidadão nas periferias é ao mesmo tempo individual e coletiva. Os cidadãos urbanos encontram seus direitos ao exigi-los. como munícipes. Enquanto uma é fundamentalmente determinada pelos outros. Assim. igualitários (ainda que não iguais) e coletivos (sem serem despersonalizados). quem está pagando para ele é o povo. Então nada mais certo de que eles atender o povo bem. Assim como substituem Constituição por Constituinte para enfatizar sua nova agência de cidadania.

o Poupatempo. […] Antigamente muito era fora da lei. A lei está escrita. Antigamente você falava: eu tenho direito. Como explicou um morador. Eu tenho direito perante a lei jurídica. tem que saber os seus direitos na Constituinte. As pessoas têm acesso a eles de três maneiras. Para os moradores. Você podia fazer o que quisesse. cognoscíveis exatamente por estarem escritos para que todos vejam. claros. Tem dúvida. daquele bem. Você tem que chegar lá e ler o que signi ca. posso fazer aquilo. esses cidadãos urbanos inverteram o argumento do verdadeiro interesse que os liberais dos séculos XIX e XX usaram para excluir os pobres do Brasil dos direitos de cidadãos. você consegue esse retorno”. o direito assim. eu posso fazer isso. Em vez disso. Hoje está em lei tudo aquilo que eu posso fazer. tem lá. mas não estava comprovado em lei na Constituição. Essa referência à Constituição e aos códigos legais derivados garante a segunda nova compreensão dos direitos que surgem nas periferias. que aquilo eu posso estar usufruindo. a Constituinte. Hoje você tem um livro [a Constituição] que você pode ir lá ver. eu posso estar usufruindo desse bem. acessíveis e. fazem essa consulta on-line. ouvi gente se referindo ao que “diz na Constituinte”. e fazê-los funcionar para os cidadãos ao simpli car a burocracia legal. apresentando-o em termos um pouco diferentes para justificar seus direitos à cidadania plena. A Constituinte fala mais direito. Não tinha ninguém para estar cobrando aquilo. Morador pioneiro do Jardim das Camélias Em algumas ocasiões. Elas os leem em edições baratas da Constituição de 1988. olha. vi pessoas em reuniões do bairro tirando da bolsa ou do bolso de trás da calça uma edição concisa da Constituição Cidadã para argumentar. hoje. Eu posso ali pesquisar na lei. pagadores de impostos e consumidores.como construtores da cidade. os moradores frequentam tribunais de pequenas causas. Com mais frequência. impressas em papel-jornal e disponíveis em qualquer banca de jornal. procura uma pessoa que sabe. usam esse mesmo argumento. Por isso. mais do cidadão mesmo. […] É o conhecimento da Constituição que dá esse direito para você lutar pelos seus direitos. cujo objetivo é democratizar o acesso e a informação sobre direitos como uma questão de política pública. o Procon e diversos departamentos da administração pública que agora são mais numerosos e acessíveis nas periferias. Olha. Muitos utilizam também novas instituições governamentais associadas a inovações na Constituição. a lei do País. não era claro. essas instituições constituem “uma fonte aonde você vai e consegue um retorno porque você dá entrada. como a mulher que fez a primeira declaração acima. não era escrito. Moradora de segunda geração do Lar Nacional Eu acho que por mais analfabeto que seja a pessoa. Alguns. Não sabe. acima de tudo. Não é pouca ironia histórica . que se baseia no conhecimento do texto. Direitos por escrito Antes d e 1988. os direitos fundamentados no texto são evidentes.

Quando perguntei por que ele não tinha ido direto à loja. Os moradores sentem-se particularmente orgulhosos de seus conhecimentos do texto legal quando lidam com o governo. o estilo . como eu estou falando com você. Combinado com o sentimento de serem partes interessadas na cidade. 27 Sem dúvida. não tão distantes do positivismo da “Ordem e Progresso” que veneravam alguns dos construtores da nação do século XIX. comprou um forno de micro-ondas. O acesso ao conhecimento da letra da lei propiciou às classes populares uma con ança sem precedentes em suas lutas para conquistar direitos e respeito de cidadãos. o qual apresentou defeito. Muitas vezes fui com eles a tribunais para audiências sobre seus con itos pela terra.que essa con ança nos direitos por escrito tenha transformado as classes populares de São Paulo em entusiasmados positivistas. eles já percebem que eu sei das coisas e que não adianta querer me enganar”. você está à procura de uma coisa. A. de procurar os seus direitos. por exemplo. hoje o acesso à informação é praticamente imediato. Hoje tem mais informação. Quando discutíamos o evento depois. que eu começo a falar com eles.: Hoje ela luta mais. Se têm um problema. Um dos moradores. Por exemplo. ele respondeu que eles não assumiriam nenhuma responsabilidade até entenderem que ele conhecia os seus direitos. você procurava e ninguém interessava. A pedra angular desse novo fundamento dos direitos é o acesso ao conhecimento. O seguinte diálogo entre três moradores do Lar Nacional ilustra essa superação: M. excepcionalmente bem articulado no uso da linguagem jurídica. Os atendentes lhe deram uma cópia do código e também explicaram quais aspectos se aplicavam. Vai estudar para ver se existe realmente.: É que antigamente a pessoa tinha medo. explicou que “quando eu vou nesses departamentos aí. eles costumavam mostrar medo. procuram o texto legal que estabelece seus direitos. P. Hoje você pode até estudar. Sabe que existe aquilo que vai proteger ele e é por isso que exatamente ele vai procurar o direito. Essa sensação de segurança no conhecimento não signi ca que os moradores não tremam perante a lei. Ele procurou o escritório local do Procon para saber de seus direitos de acordo com o Código de Defesa do Consumidor (1992).: Tinha pouco acesso às informações. M. Então o pessoal sabe que existe os direitos dele e ele já não tem aquele receio que ele tinha antigamente. Outro morador. Você vai. Quando a nal apresentou seu caso ao vendedor. tinha vergonha. hoje não. com sucesso. esse acesso fornece uma forma efetiva de desa ar a cultura de deferência que dominava as práticas de cidadania diferenciada. É comum nas periferias contemporâneas ouvir as pessoas falarem sobre a lei em termos de textos pesquisados. Se no passado era quase impossível para um pobre conhecer seus direitos sem a intervenção de um superior.: Hoje a pessoa já é bem mais esclarecida. procura e tem a resposta.: Hoje a gente acha resposta daquilo que a gente tem vontade de saber. ele tinha nas mãos uma cópia do código. um direito. A. […] Hoje a pessoa tem até mais segurança pelo próprio conhecimento. Há pouco tempo atrás.

mas também para si próprios. moradores costumam dar exemplos de seus verdadeiros con itos como proprietários de imóveis e como consumidores. em particular com o direito geral à justiça como o direito civil essencial aos direitos. Mas essas questões de propriedade e posse também iniciaram uma preocupação mais abrangente com os direitos civis. O ponto importante.inquisitorial dos procedimentos dos tribunais brasileiros impõe deferência. que eu existia mesmo. não dá para conhecer a justiça”. detectáveis e estão escritos no texto. Você só vai saber quando você é reconhecido. Porque enquanto você não for chamado lá. que. essa comensurabilidade depende de sua noção de que seus status como cidadãos têm um valor absoluto. que eles não querem a lei apenas “para os inimigos”. demonstráveis. os moradores em geral saem entusiasmados por “terem sido chamados ali na frente do juiz”. Além disso. de consumo. Mas. Esses moradores veteranos de muitas batalhas sabem que conhecer seus direitos não garante a justiça. quando você vai lá. Ao contrário. tangíveis. . com vimos. suas ilustrações incluem exemplos de con itos interpessoais e infrações privadas envolvendo uma brecha no direito legal e na responsabilidade em condutas interpessoais. pessoais. essa importantíssima mudança depende de os cidadãos conceberem sua cidadania como meio de estabelecer uma base comum e parâmetros iguais entre si. humanos e ecológicos. Com menos frequência. Hoje. Eles têm certeza desse resultado porque os direitos que procuram são acessíveis. eu fui chamado. você acha que você é um joão-ninguém. os direitos se tornam universalmente igualitários. embora sintam medo. Em discussões sobre o que signi ca buscar seus direitos. Por sua vez. é que. inclusive direitos de propriedade. amigos e concidadãos. Essas mudanças indicam que os moradores estão começando a incluir mais de suas vidas sociais e relações pessoais “sob a lei”. Nessa avaliação. Em grande parte. O mesmo homem que me disse que estava “bambo” expressou essa alegria quando disse também: Foi ali [na audiência] que eu achei que eu estava existindo na coisa [o con ito]. eles não apenas dizem enfaticamente que “uma pessoa tem o direito de procurar por seus direitos”. estão entre os aspectos mais problemáticos da cidadania brasileira. “se você procurar hoje. você não existe. igual e incondicional em direitos. você sempre acha”. como um diretor da SAB do Lar Nacional observou: “Sem conhecer as leis. O acesso ao texto da lei e o sentido de poder que isso traz têm mudado fundamentalmente o signi cado de “procurar seus direitos” para os cidadãos da classe trabalhadora. a justiça que procuram não é apenas de direitos sociais e de leis trabalhistas. então está bom. com que todos concordam. como uma disputa entre vizinhos por causa de um muro ou entre familiares por questões de insultos (o que o direito americano chama de torts). então eu sou lembrado aqui. para suas famílias. Há muito a indicar que o profundo envolvimento das classes populares urbanas com a Constituição de 1988 e seus direitos por escrito está criando condições para esse tipo de avaliação. Entre as mudanças mais signi cativas nesse âmbito está uma maior atenção aos direitos civis. Poxa vida. mais que diferenciados. Os direitos por escrito agora se referem a outros tipos. não baseado no valor de mercado individual ou em qualquer outro status. ressoando com precisão a noção de justiça de Hannah Arendt (1958). Mas os encontros não parecem produzir um sentimento de impotência.

você tem que ser tratado bem. Ainda assim. até aqui mesmo em São Miguel. Você ia num hospital. No entanto. É insurgente porque a reivindicação ao direito aos direitos de cidadão não é pequena. como argumentei antes. Eu acho o seguinte: como a Constituinte claramente fala que os direitos são iguais. assunto vital nas preocupações populares. não quer saber se você paga INPS. como ilustra um morador mais antigo do Jardim das Camélias: Eu me lembro muito bem quando o INPS [Instituto Nacional de Previdência Social] era na parte trabalhista [dos direitos]. . O poder de ambos se combina na Constituição para transformar a lei num recurso para os cidadãos. você tem que ser tratado bem. o entendimento popular da Constituição como carta pela igualdade universal é também evidente. mas ao mesmo tempo defendem que vários tipos de desigualdade social justi cam a legalização de tratamentos desiguais.Embora a Constituição contenha muitos dispositivos para tratamento especial. Essa ambiguidade é especialmente visível em discussões sobre direitos aos serviços de saúde. você tinha que levar a carteira para provar que você pagava o INPS para você ser atendido. pois os moradores as veem como produto tanto do novo Estado democrático como das mobilizações dos cidadãos. É o cidadão anônimo. mesmo que tenha de abrir a cotoveladas o seu caminho no sistema existente. combinados à nova participação cívica. ou se você não paga imposto. entendeu. As equiparações promovidas pelos direitos por escrito nesses casos parecem combinar as agências dos direitos como tratamento especial e dos direitos de contribuidor. uma situação que quase não tem utilidade no regime de cidadania diferenciada. o novo fundamento dos direitos no texto da Constituição enfrenta o antigo regime ao introduzir o anonimato como condição e a igualdade como resultado das práticas de cidadania. eu acho que independentemente de você ser contribuinte ou não ser contribuinte. Entre as classes populares. a despeito das diferenças. Você vai lá e é atendido. Mas. a maioria dos moradores a considera uma carta que estabelece direitos iguais. não importa. Embora os direitos de contribuidor sejam também igualitários para a maioria. ela já pressupõe a totalidade dos direitos possíveis. Hoje você vai no pronto-socorro aí para ser atendido. não era atendido. nesse aspecto da cidadania. o desenvolvimento da cidadania nas periferias permanece contraditório: os moradores apoiam a igualdade anônima dos cidadãos. Daí o reconhecimento desses cidadãos como partícipes dos direitos aos direitos criar uma oportunidade radical para refazer a cidadania brasileira na direção de uma sociedade democrática. Não importa se você nunca pagou. portanto. em última análise distinguem os não contribuidores. A igualdade da inclusão que esse crescimento exige é insurgente. ou se você não paga. Surge assim um novo agente na cidadania brasileira. Se fala que é igual. é igual. Não tinha. esses novos entendimentos dos direitos sustentam o crescimento de medidas signi cativas de cidadania igualitária. Se você paga.

PARTE QUATRO DISJUNÇÕES .

Se. como penso. ou predeterminando antídotos inspirados em idealizações de certas democracias do Atlântico Norte. Em vez das glórias que lhe foram antecipadas. nem a convergência nem o descarte constituem explicações adequadas. Essa coincidência é o paradoxo perverso da democratização do Brasil. a teoria democrática . racismo e doença. criando um acesso sem precedentes aos seus recursos. tem sido pioneira em inovações que a situam na vanguarda do desenvolvimento democrático do mundo. exatamente quando a democracia se enraizou. mau governo da lei. abuso policial. desrespeitando as intenções democráticas. 1 No entanto. Os perigosos espaços da cidadania A democracia brasileira avançou de forma signi cativa nas últimas duas décadas. Sua mera sugestão choca muitos proponentes da democracia na América Latina e em outros lugares como um novo imperialismo do Atlântico Norte. Esses novos estranhamentos produzem o abandono do espaço público. tal convergência de modelos parece tão pouco teoricamente convincente quanto empiricamente improvável. uma democracia às vezes capaz e outras vezes tragicamente incapaz de proteger o corpo de seus cidadãos e de produzir uma sociedade justa. Além disso. ao mesmo tempo que uma geração de cidadãos insurgentes democratizou o espaço urbano. um clima de medo e incivilidade passou a permear os encontros públicos. as instituições da Justiça — em especial os tribunais e a polícia — se tornaram ainda mais desacreditadas com a democratização. novos tipos de violência. Apesar das mobilizações legais que deram forma à Constituição de 1988 e continuam a desenvolver seus princípios participativos.8. muitos brasileiros sentem-se menos seguros sob a democracia política que alcançaram. explicar a relação dessas contradições com o processo de democratização em si continua sendo difícil. Erodem uma esfera pública inegavelmente ampliada pela nova participação popular na formulação da lei. Na verdade. Uma vez que a extraordinária democratização global dos últimos quarenta anos aconteceu esmagadoramente fora dessa região. injustiça. No entanto. corrupção e impunidade aumentaram dramaticamente. a criminalização dos pobres e o apoio à violência policial. seus corpos mais ameaçados pela violência cotidiana do que pela repressão da ditadura. na forma de violência. os brasileiros vivenciam uma cidadania democrática que parece ao mesmo tempo se erodir com sua expansão. Como resultado. Pesquisadores já estudaram os efeitos de muitas dessas contradições na sociedade brasileira. Essas condições debilitam a democracia. privatização. a forti cação das residências. em sociedades de culturas muito diferentes. segregação. A di culdade é evitar descartá-las como externalidades.

Suas organizações se espalham para os bairros mais pobres. que “as urnas os absolverão [os petistas acusados de corrupção]”. a violência urbana foi invadida pelo terror do crime organizado. mais de 20% do Congresso e de muitos outros políticos em todos os níveis do governo já foram implicados — 112 senadores e deputados federais (60% pertencente à coalizão do PT) e centenas de prefeitos só no esquema das ambulâncias. 25 dos 38 réus envolvidos no mensalão. também fornecem serviços sociais que o Estado negligencia. Em muitas regiões do mundo. só conseguiu revogar os direitos políticos de quatro deles. e o restante continua apostando no mesmo destino. Cada um parece pior do que o anterior. 3 Até o momento. não só na América Latina. em 2012. supostos membros de gangues e inocentes foram mortos. é especialmente a convivência de políticas democráticas com a violência e a injustiça sistemáticas contra os cidadãos que revela essas limitações de método e de teoria. todos eles se estendem pelo sistema político inteiro. Mesmo assim. cartéis criminosos. mas também para governar. exigiram justiça e mataram rivais. Essas . bancos. As vitórias de Lula e do PT em todos os níveis governamentais nas eleições de 2002 pareceram um retumbante triunfo da política democrática e de uma cidadania insurgente de justiça social. guardas. Com efeito. durante as quais denunciaram as condições infernais do sistema prisional. é um processo especialmente amargo. O presidente Lula se declara absolutamente ignorante de qualquer corrupção em sua administração. depois de apenas três anos. sua própria reeleição estava assegurada. apesar das evidências. cada um revela redes de políticos usando a corrupção não só para car ricos. Outros já foram inocentados por votações secretas no Congresso. Três importantes ministros foram forçados a renunciar. esse emaranhado se tornou um problema refratário nas democracias emergentes em todo o mundo. Apesar de o Supremo Tribunal Federal ter condenado. o Primeiro Comando da Capital (PCC) paralisou São Paulo diversas vezes. assim como os diretores executivos do PT de São Paulo. Desde maio de 2006. sua administração e seu partido foram cercados por escândalos de corrupção de magnitude sem precedentes. pois se encontrava bem à frente nas pesquisas. atacando delegacias de polícia. Mais dois renunciaram. muitos executados sumariamente. Quase duzentos policiais. nenhum dos condenados começou a cumprir pena e muitos estão recorrendo. 2 Na democracia brasileira. desafiador. o que. onde. organizaram grandes rebeliões em prisões. Na verdade. ele não conseguiu resistir ao apelo do populismo quando afirmou. um aumento de violações da cidadania civil na forma de violência urbana. Entre essas condições. ônibus e prisões. ao mesmo tempo que dirigem o trá co de drogas. de corrupção e de descrédito do Judiciário parece acompanhar uma democracia política cada vez mais ampla.4 Ao mesmo tempo que o sistema político da democracia no Brasil parece falido e tanto o povo como o Judiciário se mostram insensíveis à interminável e impune corrupção. Primeiro no Rio e depois em São Paulo. edifícios do governo. faz com que pareça cúmplice ou incompetente. Embora o Congresso tenha aberto procedimento de impeachment contra mais de 75 membros. Mas. enquanto a maioria concorreu despreocupadamente à reeleição em 2006. pode-se pensar.deve ser repensada em termos das novas condições que caracterizam a atual insurgência mundial de cidadanias democráticas. ou comandos.

assim como os meios para contestá-las. Novas desigualdades. resulta que as contradições da cidadania são internas e não incidentais ou externas à teoria da democracia. No processo. elas demonstram uma característica fundamental da democratização: as igualdades da cidadania democrática sempre produzem novas desigualdades.5 Para sua enorme frustração. Não há dúvida de que a cidadania insurgente rompe fórmulas estabelecidas de governo. Enraizadas porém apodrecidas. erode práticas entrincheiradas de dominação e deferência que conferem ao cotidiano a impressão de ordem e segurança.6 Se assim é. Ao mesmo tempo. essas desestabilizações produzem fortes reações. Contudo. vulnerabilidades e desestabilizações. a injustiça judicial e os manifestos de organizações criminosas. No momento. e esses exemplos corpori cam um confronto entre o insurgente e o diferenciado que cria espaços inerentemente instáveis e perigosos da cidadania no Brasil contemporâneo. esses grupos são postos em confronto um com o outro na arena da cidadania. no respeito aos direitos dos presos e no desenvolvimento de políticas de segurança que não a truculência. nem a democracia nem sua contraparte prevalecem no Brasil. Alguns tentam rea rmar antigos regimes de ordem enquanto outros amaldiçoam sua persistência. essa falta de legitimidade mostra aos brasileiros que a democracia política não gera necessariamente um estado de direito democrático. na proteção de cidadãos. inclusive o crime organizado. essas contracon gurações não evitaram a consolidação de medidas signi cativas de democracia e de inovações democráticas. de concepções de direito e de hierarquias de lugares e privilégios sociais. estruturam seus interesses. e surpreendentemente sobrevivem uma à outra.insurreições revelam grandes fracassos do Estado e de seu sistema de justiça na aplicação da lei. a igualdade da cidadania se torna a fundação sobre a qual uma nova desigualdade é construída e contestada. Os dois desonram a democratização. faço uma análise de três contradições da cidadania civil a m de entender esse emaranhado. Também deve ser o caso de essas contradições e disjunções signi cativas serem inevitáveis no desenvolvimento de todas as democracias. Não conseguiu superar a violência e a impunidade que laceram todos os grupos sociais. Assim. injustiças e discriminações surgem ao lado . À medida que os cidadãos perseguem seus interesses. Acima de tudo. os direitos iguais dos cidadãos de se associarem geram organizações de capacidades e poderes desiguais. Por isso. o problema a investigar são as especificidades de suas contradições em relação à sua expansão. Os três exemplos que vou analisar são as incivilidades cotidianas. elas continuam emaranhadas. Neste capítulo. De formas distintas. agora tornada mais evidente porque confrontada. A democratização no Brasil está em um ponto crítico. E os brasileiros já perceberam a ironia de tanto o Congresso como os comandos sustentarem o crime organizado. não evitaram a legitimação da cidadania democrática em seu sentido mais amplo e sua adoção como a linguagem na qual os mais diversos setores da sociedade. e que sem justiça democrática a democracia se desgasta. contudo. Dessa forma. Minha escolha se explica porque as antigas formulações de cidadania diferenciada persistem. Os dois usam a mesma linguagem de direitos. se não podemos considerar anormal o desenvolvimento democrático do Brasil por ser disjuntivo. estabelecidas ou emergentes.

Porém. Pre ro mostrar que a democratização provoca alguns tipos de con ito social.7 INCIVILIDADES COTIDIANAS Vou voltar às performances da cidadania em encontros públicos cotidianos com que este livro começou. Romper as suposições quanto aos paradigmas da cidadania não é uma abstração. A democratização não é responsável por toda a desestabilização e violência no Brasil contemporâneo. ela indica a consolidação de uma linguagem comum de uma medida democrática que não tem precedente histórico — uma nova comensurabilidade que confronta a esfera pública mais antiga de cidadania. inclusive a violência. pois tem efeitos individuadores que se impregnam sob a pele das pessoas. Apresentados dessa forma. Não deixa de ser razoável propor. baseada em valores muito diferentes. especí cos às desestabilizações que inevitavelmente traz para os regimes sociais e espaciais entrincheirados. Devo ressaltar que existem muitas causas para o aumento da violência e da injustiça e que meu objetivo não é apresentar uma explicação global ou completa. Nem estou sugerindo que a principal razão para o Brasil ter se tornado mais democrático e violento tenha sido um choque entre elites entrincheiradas e cidadãos insurgentes. tenho demonstrado uma estrutura profunda de intimidade entre o legal e o ilegal na sociedade brasileira. que a conjunção atual reitera essa relação em novos termos. nos termos que se tornaram a atual linguagem da legitimação pública: a cidadania democrática. pois outros importantes processos de mudança social — como a urbanização e o neoliberalismo — também são agentes desestabilizadores. Cada um desses processos traz seus próprios tipos de ruptura. a incivilidade pode ser tão fundada em princípios quanto a civilidade. por enquanto. Com certeza essa conjunção de opostos é perversa.de novos meios de combatê-las. seu desenvolvimento raramente é dicotômico. Se civilidade é um código de comportamento associado à participação na vida pública de um paradigma especí co de cidadania. da política e indica as vantagens da visão antropológica que considera as condições vividas e contingentes de cidadania — ainda que confusas e disjuntivas — como uma maneira de entender melhor as formas contemporâneas do processo democrático. mas considerar sua mistura complexa e incendiária. mesmo que paradigmas de cidadania possam ser contrários. Mas. o legítimo e o criminoso. Mostra ainda as limitações da teoria democrática fundada em concepções estreitas. suas in/civilidades . o justo e o injusto. e meu objetivo não é reduzir a análise a qualquer um deles. ao longo deste livro. São muitos os fatores que favorecem o processo. num encontro de cidadanias antagônicas. meus exemplos mostram que os espaços híbridos de cidadania democrática no Brasil produzem uma esfera de mudança social na qual o legal e o ilegal. portanto. a civilidade de um aparece ao outro como incivilidade. Assim como diferentes formulações de cidadania em geral se emaranham. ou seja. podemos dizer que a incivilidade ofende seus princípios e rompe suas práticas. e o civil e o incivil reivindicam o mesmo fundamento moral dos direitos de cidadania por meio de práticas sociais contraditórias. e todos se emaranham uns com os outros. embora totalizantes. Além disso. Assim. No entanto. Essa condição pode até exaurir a democracia brasileira.

Quando a cidadania insurgente atropela a cidadania diferenciada. No contexto das las de banco. o jogo de classi cação de raças). não samba — que expressam novas polarizações de classe. sua civilidade acentua a inclusão.também podem se misturar. elas resultaram em mais acidentes envolvendo veículos e pedestres do que em qualquer outro lugar do planeta. agência e oportunidade imediatos. observei que os encontros entre anônimos em las de banco exprimem cálculos expressivos sobre as distribuições relativas de poder e igualdade que põem em relação o status de cidadão e o signi cado de outras identidades sociais (de classe. Se formos acreditar nas campanhas de segurança no trânsito dos anos recentes. e pouco supervisionados. a ambiguidade e a heterogeneidade como idiomas de relação social. Mesmo assim. embora as normas na direção sejam supostamente disciplinadas por regras. Infelizmente. a insurgente e sua nova civilidade triunfaram — embora tenha sido expressa com alguma contradição (“Você só manda na sua cozinha e na sua mulher”). raça. Na argumentação anterior. transformando as identidades várias daqueles que esperavam na la numa identidade equivalente. Descrevi uma como entrincheirada e a outra como insurgente. na clausura de seu espaço privado. dominados pela estética da velocidade. de raça e de direitos. ainda que continuem sendo a norma pressuposta para muitos daqueles antes privilegiados. essas formulações dominantes de inclusão se desgastam. Cada vez mais exauridas. a incivilidade parece necessária como idioma público de profunda mudança democrática. Os carros concedem aos motoristas poder. a acomodação.9 Atrás da direção. Assim. idade e assim por diante). gênero. recursos em geral utilizados no Brasil sob condições de anonimato. instituições culturais (como o Carnaval) e convenções sociais (entre elas. Esse resultado costuma ser bem diferente na interface dos espaços privados ou privatizados. compondo as contradições da cidadania contemporânea no Brasil.8 Como vimos repetidas vezes. Vista dessa perspectiva. Um exemplo é o trânsito. os cálculos de agência e de poder levaram regularmente à negação de . O entrincheirado tentava a rmar essas categorias como norma nas relações públicas. por exemplo). motoristas fazem performances públicas com base em suposições privadas a respeito dos encontros públicos. essas performances são perigosíssimas. A segunda exigia direitos iguais no espaço público e para ele. Essa igualdade de direitos negava o valor de outras categorias sociais como forma de determinar privilégio. expressos numa variedade de ideologias nacionalistas (“democracia racial”. O exemplo que analisei apresentava um confronto entre um homem branco de classe mais alta (“Eu autorizo”) e uma mulher negra de classe mais baixa (“Isso é um espaço público e eu tenho meus direitos”) que envolveu duas cidadanias e suas civilidades. e as desigualdades que recobrem se tornam intoleráveis. a formulação da cidadania diferenciada no Brasil enfatiza ideologias de inclusão universal que na verdade mascaram — no sentido de tornar menos reconhecível — sua maciça distribuição desigual de direitos e recursos. Nesse contexto. elas são substituídas nas relações do dia a dia por incivilidades jogadas na cara e estéticas agressivas — rap e funk. os hábitos do regime entrincheirado da cidadania perderam a e cácia na determinação do desfecho de encontros nesse tipo de espaço público.

Na minha experiência. de preferência. lavanderia. Essa divisão é uma norma da vida social. Igualmente comuns.11 Esse princípio de separação de classes e funções ca claro no planejamento da zona de serviços dos edifícios. que trabalham e às vezes moram na área de serviço. Com exceção de um cômodo com múltiplos propósitos. as interações não se dão entre anônimos. O princípio organizador dos dois componentes é uma separação controlada para garantir o mínimo de contato informal entre as classes do patrão e da . além de prestadores de serviços (instaladores. Nesse caso. espaço de trabalho e quarto(s) e banheiro para a(s) doméstica(s) que morar(em) na casa. em termos que devem ser previsíveis e controlados por essa razão. Na verdade. que tem dois componentes: um sistema de circulação para o edifício e uma área de serviço para cada apartamento. para todos menos as famílias mais pobres. tanto nos saguões de entrada como nos elevadores.direitos e à recusa de deveres e. são os encontros em espaços de circulação em prédios de apartamentos. Esse drama cotidiano surge pelo fato de a organização habitual do espaço doméstico. a copa. a tentativas de imposição de privilégios que pressupõem a impunidade e frequentemente provocam tragédias. ao contrário. trabalhadores de construção. os moradores de apartamentos tendem a esperar que esses encontros sigam as convenções de privilégio e deferência características das relações entre patrão e empregado — sempre. pois até mesmo famílias modestas de classe média empregam o trabalho barato das classes mais baixas para limpar. mas com novas práticas espaciais. os apartamentos no Brasil são divididos em três zonas funcionais independentes: a social. Com base na organização da casa de classe média. que ocupam as áreas íntimas e sociais do apartamento. cada vez mais esses empregados esperam ser tratados. as convenções dos edifícios exigem que corredores isolem uma área da outra. porteiros. Esse planejamento re ete a divisão entre os patrões. O paradigma da cidadania diferenciada prevalece. e os empregados. com um agradável e ambíguo domínio do jogo de cena que camu a os duros fatos dos baixos salários e das longas jornadas de trabalho. agora desa adas. ao menos como cidadãos iguais nos espaços públicos do prédio. mas sim entre pessoas que se conhecem numa variedade de relações de emprego ou de serviço. fervilham essas relações. Em edifícios de classe média. essa intensa socialização doméstica e urbana estabelece a referência das relações interpessoais a partir da qual eles fazem generalizações a respeito das complexidades raciais e de classe da sociedade brasileira. babás e motoristas). porém mais ambíguos. 10 No entanto. a íntima e a das áreas de serviço. se não (ainda) com melhores salários e condições de trabalho. Para muitos da elite. nas quais os moradores dos apartamentos (proprietários ou locatários) estão em permanente troca com trabalhadores domésticos (faxineiras. cozinheiras. que produzem ao mesmo tempo novas proximidades e novas incivilidades nas relações sociais. da cidadania diferenciada. as três zonas são mantidas separadas. mantenedores. Eles propiciam à classe média uma experiência da diversidade da sociedade brasileira em casa. Esta consiste de cozinha. seguranças e faxineiros). corpori car as segregações. cozinhar e cuidar das crianças. entregadores e atendentes) e da equipe do edifício (zeladores. Eles rompem as expectativas de deferência não com um confronto verbal direito.

enquanto os empregados circulam pelo edifício e cumprem suas funções. é desconfortável porque eles sabem exatamente o que estão fazendo: transgredindo os códigos sociais dominantes de lugar e privilégio . Assim. Correspondendo a cada elevador. onde o corredor de serviço é eliminado para poupar espaço. como a ordem social que mantém.empregada. embora seja hoje contestada por lei. voltar de exercícios ou se estiverem “sujos”. mas devem subir e descer separadamente — tradição que ainda acontece. até onde sei exclusiva da arquitetura brasileira nas Américas. a arquitetura designa o lugar de cada um e reforça diariamente relações sociais de privilégio e deferência. a patroa e a empregada podem ter de esperar o elevador juntas. a maioria das empregadas domésticas usa o elevador social.12 Essa necessidade de separação gera a convenção. Eles começam na rua com duas entradas. quando saem a serviço. olhando uns para os outros de forma oblíqua pelos espelhos. no meu prédio o elevador social ca mais lotado. mas também durante o dia. transportar pacotes. como as elites sempre têm feito nos tipos “aceitáveis” de misturas corpóreas entre classes e raças no Carnaval. essa organização de lugar social e sua diferenciação foram rompidas. Existe agora uma placa dentro do elevador social que anuncia com letras em negrito a lei que proíbe qualquer discriminação no “acesso aos elevadores deste edifício”. claro. não escritas) de circulação em todos os prédios de apartamentos perpetua assim um regime difundido de diferenciação social. de acordo com regras de etiqueta: eles devem usar a rota de serviço ao sair com o cachorro. Alguns puxam conversa com a classe serviçal. Dessa forma. essa proximidade é inquietante por ser uma legalidade imposta. Para os patrões. com exceção dos mais pobres. Enquanto a classe serviçal não pode usar a entrada e o elevador nobres. de preferência em lados diferentes do prédio. Mas os “olás” não desfazem o mal-estar da maioria diante da nova proximidade desses corpos diferentes no espaço cotidiano. A presença desses normas assimétricas (e. uma social (às vezes chamada de “nobre”) e uma de serviço. Em vista disso. os “nobres” podem usar os dois. de que todos os edifícios de apartamento. o apartamento deve ter entradas separadas para as duas classes de moradores: uma porta social na frente e uma porta de serviço no corredor correspondente. Em prédios mais modestos para classe média. Para os empregados. cada uma leva ao seu próprio elevador. com a exceção da copa. com patrões e empregadas em pé lado a lado. A utilização dessa circulação em duas pistas deveria ser assimétrica e hierárquica. A desigualdade persiste de maneira palpável nas relações sociais do Brasil não só pelo fato de os privilegiados insistirem em manter seus direitos de tratamento especial. no meu prédio de apartamentos de classe média em São Paulo. Alguns patrões são favoráveis a essa norma. devem ter dois sistemas de circulação independentes. É uma proximidade que não podem controlar ou escolher vivenciar. não só ao chegar e ir embora. a necessidade social de manter dois sistemas de circulação produz uma situação sobrecarregada de sentido: os dois elevadores e as duas portas do apartamentos cam lado a lado. Essa lei de 1996 exige a placa em todos os elevadores sociais. Persiste também porque continua a estruturar os hábitos corporificados e as práticas espaciais do cotidiano. Acima de tudo. Hoje. Nos últimos anos. no sexo e na criação de lhos.

o que é importante. Por isso votaram por eliminar o sistema dual de circulação. Isso fazia com que primeiro ele os admitisse e depois os questionasse na guarita. É certo que alguns aplaudem a ruptura da discriminação espacial no prédio. mesmo que só alguns a rmem especi camente que seus direitos à propriedade privada foram violados. a sete metros de distância. Mas. A essa altura. Mas todos os outros empregados ou prestadores de serviços tinham de usar a nova entrada de serviço. para muitos moradores a subversão do código de lugar e privilégio dos edifícios parece re etir uma ruptura mais ampla nas relações sociais da própria cidade. sua opinião de que todo o sistema social de distanciamento e distinção “foi lançado aos cães”. só para fechá-la outra vez depois de queixas quanto à de falta de segurança. com um sistema de portas duplas para criar um “curral de contenção” para maior segurança. muitos sentem de forma geral que seu status e a qualidade de vida que dele depende decaíram.com suas táticas espaciais. No entanto. Avaliações da segurança do prédio feitas há alguns anos levaram a maioria dos moradores a decidir em assembleia que ter duas entradas na rua. Aqui. tornava o imóvel vulnerável a assaltos. Contudo. e percorrer todo o trajeto até a parte de trás do prédio para chegar ao caminho original de circulação de serviço. termos que . igualdade e hierarquia é que. eles sempre dividiram seu espaço residencial com os serviçais. De vez em quando. que já haviam abandonado a antiga entrada de serviço. No entanto. percebi que alguns patrões agora adotam transgressões semelhantes: eles tomam o elevador social com seus cachorros — para registrar. e o estão fazendo. é claro que muitos simplesmente cortam caminho pelas áreas sociais do prédio para chegar ao elevador de serviço. com uma subjacente ameaça de sanções legais. O que mudou é que agora têm de fazer isso em termos que não podem ditar. As empregadas domésticas. muitos se sentem socialmente agredidos. Eles resmungam sobre a “confusão” de pessoas circulando pelo espaço. Muitos no prédio agora vivem com medo da rua com seus elementos de crime e de violência. sem dúvida. fechando a entrada de serviço. a porta de serviço foi fechada e todos tinham de usar a entrada social. O procedimento foi considerado inseguro. do “aspecto decadente”. Como uma espécie de contrapartida. tentaram manter as separações com duas portas no portão de segurança que foi instalado na frente do prédio. o síndico do edifício reabre a nova porta de serviço para tentar manter alguma separação. O resultado dessas deliberações a itas relacionadas à segurança. separação. uma de cada lado do prédio. De início. logo cou claro que o porteiro não podia supervisionar adequadamente os que queriam entrar por lá por causa da distância. Por isso. da “perda de valor” e até do “mau cheiro” do elevador social. a partir da qual o porteiro dirige todo o trânsito. embora os moradores agora possam ter uma sensação maior de segurança física com a entrada de serviço fechada. os moradores estabeleceram a regra de que todos os fornecedores de serviços vindos de fora tinham de andar da entrada social até a garagem. Do outro lado era posicionado um portão para a entrada de carros e uma única porta de serviço ao lado. A entrada social foi colocada ao lado de uma pequena guarita. Essa nova confusão aumenta ainda mais na rua. continuaram a usar a entrada social.

Em 1933. muitas elites veem essa nova proximidade como uma intrusão — aliás. Do ponto de vista da democratização.13 Nesses exemplos. da infraestrutura ao consumo. eles expressam uma dissonância entre o fato e o sentimento. roupas parecidas com as que eles usam. Não há dúvida de que os pobres forçaram as elites a reconhecê-los como cidadãos com direitos substanciais na formação do futuro da cidade e do país. como uma a rmação imediata e agressiva das periferias bem na cara deles. A maioria desses casos mapeia os sinais familiares dos ressentimentos cotidianos pelas igualdades de direitos. A outra está relacionada com a erosão do tipo de distinção de status simbólica e cotidiana que foi composta exatamente para ser mostrada em público e que as elites estão acostumadas a usar para con rmar seu conceito de lugar social. os cidadãos insurgentes do Brasil penetraram os espaços urbanos e até mesmo os espaços pessoais que as elites usavam para exercer seu domínio com segurança total. de conhecimento e de agência que a expansão da cidadania democrática urbana vem produzindo. Essas elites comandaram o desenvolvimento do Brasil moderno de forma absoluta. Como era previsível. 57% — ou seja. O desenvolvimento desse ciclo da elite assumiu diversas formas de privatização e abandono em São Paulo. reclamam das pichações em spray por todas as paredes como uma des guração de seu bairro feita por “delinquentes da periferia” — na verdade. pois afrontam suas crescentes igualdades e agências. as elites recuaram no tipo de contato pessoal cotidiano que tornou seu estilo de dominação famoso por sua . essas respostas parecem novas incivilidades. essa transformação não se dá somente nas urnas. Meus vizinhos registram essas duas preocupações com exemplos em diferentes escalas: eles têm medo de serem assaltados “por marginais da periferia”. Para os que estavam acostumados a mandar. Outros exemplos parecem caricaturas de queixas sociais: alguns cam ofendidos porque suas empregadas domésticas chegam para trabalhar carregando bolsas de grife falsi cadas e vestindo jeans da moda e camisas adornadas com personagens da Disney. Além disso. 91% dos adultos — tinham direito ao voto no Brasil na primeira eleição para presidente depois da ditadura militar (tabela 3.7% dos brasileiros tinham cidadania política. Como histórias de deslocamento.1). Ambos desarranjam os pressupostos espaciais. Mas isso representa uma percepção maior de que os membros das classes mais baixas agora têm acesso não apenas ao saber de consumo quali cado que torna essas coisas valiosas para as elites. Percebi dois componentes principais do sentido de deslocamento dessa elite. uma violação —. Apenas 55 anos depois.14 A irritação pelo fato de esses pequenos símbolos de distinção terem sido usurpados parece insigni cante. cam aborrecidos com a mistura das áreas de serviço e social. os novos fatos da cidadania mudaram o mundo social de forma inimaginável no curso de uma só geração. e sua resposta é criar novos tipos de distanciamento. apenas 3. o foco é a proximidade imposta que os faz sentir-se apartados do espaço público da cidade e ainda por cima aprisionados em suas casas por suas próprias medidas de segurança. Motivadas pelo medo e pela descon ança. mas também às próprias coisas.estabelecem novos tipos de proximidade e distância. Um tem a ver com a incapacidade de manter uma ordem espacial de privilégio em relação à ordem social que emerge nas periferias. Da administração à moradia.

elas construíram ilhas muradas de riqueza cercadas por novos assentamentos de favelas. Dessa forma. Por outro lado. protegidas por seguranças particulares e vigilância de alta tecnologia. como descreve Caldeira (2000: 254-5). controlar e excluir aqueles que acabaram de forçar seu reconhecimento como cidadãos. que criam novas segregações do espaço urbano. acesso democrático e interiorização elitista — se tornaram ubíquos em São Paulo e explícitos na experiência urbana habitual. as famílias de classe média não frequentam os parques e as praças de seus bairros.congenialidade e ambiguidade. preferindo espaços em clubes. por exemplo) analisam. por exemplo) como os enclaves forti cados (também modernistas) encontrados na maioria das grandes cidades. Em meu estudo sobre Brasília (1989: 310-4). Diferentes classes sociais vivem mais próximas umas das outras em algumas áreas [isto é. que se opõem aos direitos humanos e apoiam a violência policial. esses enclaves são de grande signi cado público por justapor “as mais chocantes paisagens de coexistência de pobreza e riqueza” na cidade. ao mesmo tempo que a cidade constrói um metrô e ciente. Por um lado. Essas fortalezas são hoje em dia tanto centros inteiros de cidades (o protótipo modernista do Plano Piloto de Brasília. as construções tanto lá quanto em toda parte estão cobertas de equipamentos de segurança. Nessas paisagens . a cidade parece simultaneamente renovada e decadente.15 No ponto extremo da privatização se encontram os novos enclaves residenciais forti cados nos quais algumas elites se isolaram. Com base em suas pesquisas em diversos enclaves. os enclaves forti cados […] constituem o cerne de uma nova maneira de organizar a segregação. Em vez disso. Mesmo com o governo local investindo em novas instalações culturais (museus. Esse modo de pensar culmina em criminalizações racistas das classes mais baixas. Ao mesmo tempo. centros comerciais e residências particulares. elas se resguardam em clausuras residenciais e comerciais. desenvolvem um conjunto de novas barreiras físicas e sociais. que Caldeira (2000) e outros (Fix 2001. ela conclui que: No contexto de crescente medo do crime e de preocupação com a decadência social. grande parte das classes médias trocam o transporte público por veículos individuais em que cada vez mais se escondem atrás de vidros escuros e carrocerias à prova de balas. os moradores não mostram tolerância em relação a pessoas de diferentes grupos sociais […]. Assim. Embora os avanços da cidadania insurgente sejam visíveis por toda a cidade. concluo que. Essas estratégias de afastamento produzem uma paisagem urbana desestabilizada. a discriminação social e a reestruturação econômica em São Paulo. que por conta disso acabam se deteriorando. a criação de enclaves de elite não deixa de ser e caz para certos tipos de regime político e ordem social. embora não haja uma correlação simples entre política e formato urbano. Esses contrastes — entre investimento público e privatização da rotina. mas são mantidas separadas por barreiras físicas e sistemas de identi cação e controle. por exemplo. Ao expandir áreas da periferia metropolitana. Em vez disso. eles adotam técnicas cada vez mais so sticadas de distanciamento e divisão social. o mesmo acontece com as rejeições interiorizantes e privatizantes a eles. renovação e decadência. Ademais. parques e teatros. por exemplo). Embora relativamente poucos em número. elas mostram um desdém explícito. uma vez que funciona para estigmatizar. enclaves e favelas]. […] [Esse] processo de ostensiva separação social cristalizado nas últimas décadas pode ser visto como uma reação à ampliação [do próprio] processo de democratização. que os bairros na periferia exibem muitas melhorias em infraestrutura e em recursos sociais.

Por isso. porém não examinadas entre as estratégias arquitetônicas do modernismo e suas intenções políticas (ambas autoritárias e igualitárias) para revigorar a sociedade urbana. comércio e recreação que exigem privilégios previamente estabelecidos. baseada na igualdade de direitos do cidadão. entendem claramente seus poderes de segregação. Mas continua vivaz. Trata-se de uma ordem urbana que interioriza alguns e que remove ou mantém outros sob vigilância. suas separações sociais parecem predominantemente rígidas e inegociáveis. Em São Paulo. O Plano Piloto é excepcional porque. Esses deslocamentos não apenas segregam o espaço como também alteram a natureza do público que o utiliza: as elites do Plano Piloto de Brasília e os enclaves murados de São Paulo não mais se veem como partícipes de uma vida social pública urbana ao ar livre. está livre do tipo de espaço público e de multidões urbanas que exigem mediações das diferenças sociais. não poderá ser revertido. Como resultado. com todos os seus desprazeres. livres da ilusão igualitária.urbanas. frequentemente grosseiro e por vezes violento. Nos espaços vazios de Brasília. que pode ser quase inteiramente evitada nos espaços vazios de Brasília. Em São Paulo. enquanto as classes populares se veem marginalizadas. desafios. a desconfiança e as desavenças entre pessoas com diferentes concepções de direitos e privilégios forjam as incivilidades que se tornaram rotina na vida diária paulistana. pode ser possível evitar essa percepção. Esse atrito gera outra expressão de antagonismo às mudanças da cidadania democrática. que. é também uma admissão pública de que as ordens dominantes de cidadania que antes administravam com boas maneiras os encontros de diferenças estão ruindo sob o desa o de novos termos. não tem lugar nos lugares modernistas. O resultado é que a sociabilidade heterogênea da vida pública no espaço aberto quase desaparece: ele é esvaziado e sua multidão. esses resultados são intencionais. trabalho. Mas essa incivilidade. mais . que frequentam os espaços restritos de residência. as múltiplas camadas e o acúmulo das formas urbanas de São Paulo forçam a maioria a se misturar. É a voz aguda da resistência de alguns e a insistência de muitos de que um novo tipo de proximidade social. pelo menos não de início. não pode ser evitada nos de São Paulo. As elites e seus arquitetos usam a forma e o planejamento modernistas porque. Os enclaves forti cados de São Paulo são fragmentos de Brasília. Em Brasília. estão numa cidade que é muito mais complexa. esses resultados não foram intencionais. Derivaram de contradições fundamentais. na escala de uma cidade inteira. insultos. As contaminações cotidianas da diferença ocorrem de forma inescapável. A sociedade brasileira. Os confrontos. No entanto. além do trabalho. o público urbano de São Paulo em geral é tenso. Embora as elites tentem se distanciar o máximo possível nas duas cidades. separada em dois espaços públicos: um interior para as elites. as incivilidades da vida diária lembram seus moradores de que não é. com inevitáveis multidões nas calçadas e ruas congestionadas com toda espécie de vida urbana. se não criminalizadas. o projeto modernista segrega as populações das cidades ao eliminar formas urbanas e arquitetônicas características das ruas como um espaço público de livre acesso e ao dividir a vida urbana em zonas distintas e homogêneas. e um ao ar livre para o trabalhador pobre.

Mas sua nostalgia não percebe um ponto crucial: apesar dos novos modos e da intensidade atuais. os problemas atuais de São Paulo são em geral avaliados em termos de uma saudade de como a cidade era “antes”. De conversas do dia a dia a opiniões em programas de entrevistas. étnicas e raciais tinham pouca expressão organizada porque eram subsumidas nas identi cações comuns do trabalho e do progresso que uniam todos os paulistanos sob o estandarte de que “São Paulo não pode parar”.sutil que os muros e a interiorização. raça e de diferenças econômicas um verniz de acomodação cúmplice. corrupção. no qual suas diversidades sociais. alienações do sistema legal e condições de ilegalidade expuseram muitos brasileiros regularmente à repressão. essas visões nostálgicas sugerindo o contrário ignoram duas condições que tornaram possível a “paz das ruas” como idioma público de interação. abuso policial. Em geral formuladas por críticos da democracia. porém de uma desigualdade gigantesca na distribuição de direitos e recursos entre eles. Não é só a antiga elite social que se recorda de como era passear pelo centro da cidade. da saúde pública abismal e de todas as reduções das oportunidades de vida que a pobreza traz. além da violência estrutural da subnutrição. Essas comparações permitem que os críticos apresentem a violência e a injustiça contemporâneas como algo sem precedentes. governador do estado de São Paulo e futuro presidente. como vimos. à violência e à injustiça. essas características brutais da sociedade brasileira na verdade têm sido disfarçadas há séculos por um arsenal de ideologias bem conhecidas de inclusão que as elites brasileiras têm usado para criar projetos nacionais: o nacionalismo da mistura racial. transgressões e privatizações da justiça e da segurança (basta pensar no coronelismo). o regime de cidadania diferenciada sempre acomodou altos níveis de violência pública e privada. Com efeito. um sentido de intimidade que obscurece porém mantém desigualdades fundamentais: re ro-me a ambiguidades sedutoras . mas ainda assim signi cativa: a nostalgia. descrédito judicial. que garantia que todo mundo conhecesse seu lugar e respondia com severidade a ameaças de desordem. o planejamento desenvolvimentista e modernista e a formulação da própria cidadania diferenciada — tudo isso usado. 16 Nessas evocações nostálgicas. Essas ideologias de inclusão são ainda complementadas por convenções culturais de sedução que conferem às relações pessoais de gênero. a violência sempre foi endêmica na constituição da sociedade brasileira. existe pouca violência para tumultuar os prazeres da mistura de públicos e a industriosidade da sociedade heterogênea das ruas. essa paz era mantida por um regime de cidadania discriminatório e repressivo. para produzir identi cações com o Estado-nação que são universalmente includentes na incorporação de cidadãos à nação. con rmou durante sua campanha em 1920 numa observação famosa atribuída a ele: “A questão social é um caso de polícia”. Em primeiro lugar. a violência e a repressão sistêmicas dessa cidadania nunca foram postas em dúvida — exatamente como Washington Luís. o populismo baseado no trabalho urbano. Em segundo lugar. as persistentes negações de direitos. impunidade. Na verdade. a modernização patrocinada pelo Estado. Muitos críticos da cidade contemporânea evocam imagens de um antigo espaço urbano em que os diferentes habitantes de São Paulo “se davam tão bem”. Como tenho mostrado neste livro. ir a teatros e até andar de ônibus.

Por isso. ginga. o de que essas ideologias e convenções de inclusão só recentemente se tornaram menos convincentes. Por isso. Nessa esfera. mas todo o projeto democrático. A violência policial e a cumplicidade do Judiciário no Brasil são pilares de um sistema de justiça que apoiou com rmeza o regime de cidadania diferenciada em sua propagação da desigualdade. quando cidadãos percebem que falta aos tribunais o comprometimento com o seu direito à justiça. e vice-versa. embora as desigualdades da distribuição perdurem. o engajamento dos tribunais nesse projeto é decisivo para a democratização do Brasil. os tribunais têm a principal responsabilidade de garantir o direito à justiça. Sendo o direito a todos os outros direitos e ao sentido de justiça que legitima a própria lei. Já sugeri que as profundas mudanças democráticas corpori cadas nesse processo produzem necessariamente incivilidade como idioma público de resistência e insistência. mas os pactos políticos e culturais que as mantinham estão desgastados. Em cada uma dessas instâncias está em questão o direito a uma justiça que garanta a realização de todos os direitos. Esse sistema inclui os tribunais. Essa deslegitimação não subverte apenas os direitos civis. Ainda que já esperada. a justiça é o direito civil crucial. do Carnaval e da capoeira — todas elas celebradas na cultura brasileira. Os inegáveis exageros de violência. Em outras palavras.produzidas através de artifícios de jeitinho. a polícia e as prisões. à . Esse esfolamento de uma pele social transforma cidade e sociedade. formalista e surpreendentemente ine caz. Produz crueza. Assim como as instituições mais associadas ao seu exercício. jogo de cintura e mineirice. um sistema de justiça e ciente deve levar em conta o problema de que nem sempre o que é estritamente legal é justo. Essa exaustão expõe cada vez mais os fatos inegáveis da desigualdade “para brasileiro ver”. antes.17 Meu argumento é. universalizadas nas instituições do samba. os advogados. indignação e exagero. Esse imperativo molda todo o sistema judiciário e é o cadinho do tipo de lei sem o qual não existe democracia. mas que não é meu propósito descrever aqui. Esse direito determina se os cidadãos têm acesso a seus direitos em casos de litígio e se o acesso implica um tratamento justo e não só a aplicação da lei. O problema histórico do Judiciário brasileiro é que todas as constituições têm dispositivos mais ou menos adequados para o devido processo formal e para os direitos civis fundamentais à vida. o sistema judiciário como um todo ca desacreditado. o sistema judiciário constitui o elemento que de ne a esfera civil da democracia. como acontece hoje? Haverá algum freio e caz sem um sistema de justiça digno de crédito? IN/JUSTIÇA A polícia tem um colaborador próximo na manutenção da sociedade que Washington Luís retrata: um Judiciário persistentemente remoto. desacreditadas pela insurgência da cidadania democrática e suas novas agências. de injustiça e de corrupção no atual período de democracia política podem assim ser considerados nos seguintes termos: as desigualdades grosseiras continuam. malandragem. a questão é: o que impede essa incivilidade de chegar a extremos. malícia. seus efeitos obscurecedores perderam a e cácia. O problema da sociedade brasileira contemporânea é que.

Em vez disso. Sentem que os juízes têm poderes extraordinários. parece arbitrário e ensimesmado. das detenções ilegais. mas jamais obrigará os patrões. como já vimos. na prática. E. Como eu e outros já discutimos muito essa questão (1999. protegida por formalidades burocráticas impenetráveis e privilégios corporativos. nas constituições francesas e americana. Para usar um exemplo cotidiano. as pessoas não menosprezam o sistema legal para realizar seus interesses. No entanto. das confissões sob coerção e das mortes causadas pela polícia. os brasileiros não podem ter como certo que as instituições do Estado assegurem seus direitos. quando age. uma negligência evidente no caso das disputas de terra no Jardim das Camélias. o presidente do Judiciário do estado de São Paulo declarou que só os tribunais de apelação tinham 550 mil casos à espera de julgamento!19 O efeito dessa ine cácia judicial é duplicado. Essa combinação de atributos produz os piores resultados possíveis: na maior parte dos casos. Assim. isso quando chegam a considerá-los — como ilustram os fracassos na contestação da censura governamental. Ao contrário. Por um lado. mais preocupado com as formalidades da lei do que com a justiça. O que tem faltado de forma patente na tradição judicial brasileira é a noção de que os tribunais protegem os direitos dos cidadãos de maneira geral. não podem con ar nos tribunais para a solução do problema. Se estes últimos quiserem arcar com os incômodos legais e a guerra de classes resultante. todo mundo sabe que esses casos nunca serão concluídos num tribunal. traz exigências igualmente sem precedentes . Por outro. saltando de um adiamento técnico a outro. isso se chegarem à consideração de um juiz. No entanto. Em vez de propiciar uma rigorosa proteção judicial à vida e à liberdade contra infrações pelo Estado. só preciso fazer algumas observações para estabelecer os pontos- chave. As falhas do Judiciário a esse respeito são lendárias. circularão eternamente pelo sistema judicial. Esse novo uso. de maneiras que vão muito além da tradicional estratégia de manipular formalismos legais para neutralizar resoluções judiciais. A questão não é só que os cidadãos brasileiros não costumem usar os tribunais para proteger direitos civis não econômicos. incapaz de impor a lei e proteger direitos. mas são independentes demais porque só respondem à própria corporação.liberdade e à propriedade — dispositivos diretamente inspirados. Quando tomou posse em 2005. que vêm se arrastando sem decisão pelos tribunais há quarenta anos. quando seus direitos são violados. a insurgência da cidadania democrática resultou num uso da lei sem precedentes. os tribunais tendem a aceitar a privação desses direitos. as empregadas domésticas podem encontrar com facilidade advogados que abram processo contra condomínios que tentem negar seu acesso ao elevador social. porém. eles vão impor a discriminação sem temer penalidades judiciais. e somente certos tipos de propriedade. os tribunais têm protegido de forma constante apenas a propriedade. o estatuto estampado nos elevadores sociais pode encorajar os serviçais.18 Essa irresolução também incita os desonestos. e o direito à justiça em especial. É também o fato de os tribunais brasileiros não estimularem tal uso por não terem uma tradição de defendê-los. Quando comentam sobre o Judiciário. Mesmo assim. os moradores das periferias invariavelmente o descrevem como uma instituição remota e não con ável. o Judiciário é visto como uma instituição “sem força”. por exemplo).

ainda assim as CPIs conseguiram gerar bastante cobertura da mídia e apoio do público para suas investigações do crime organizado. Várias investigações provaram sem margem de dúvida que. O resultado é que a democratização intensi cou suas incapacidades. resulta de todo esse esforço para provocar ação judicial e reforçar os direitos dos cidadãos? Na maior parte dos casos. Mesmo assim. apenas 26 foram a julgamento e quinze resultaram em condenações. organizações de direitos humanos e outras. buscar provas e emitir mandados. no entanto. o do comandante. Até agora. inclusive homicídio. Mesmo assim. várias delas tendo se concentrado. pressionadas por exigências populares por responsabilidade e armadas com uma nova autoridade constitucional. escritórios de ouvidores foram instalados para monitorar outras áreas da administração pública. A conclusão. O evento emblemático de violência policial nos anos 1990 foi o massacre de 111 presos na Casa de Detenção de São Paulo. as vítimas foram executadas de forma sumária depois de terem se rendido. devemos perguntar. inclusive. muitos estados instituíram ouvidores judiciais para escutar reclamações de cidadãos contra as polícias civil e militar. que não teve maiores consequências: em 2001 ele foi condenado pelo tribunal do júri a uma pena de 632 anos. a educação e o sistema prisional. mas vivia em liberdade e. se algum desses condenados cumpriu pena. Com base nos dispositivos da Constituição Cidadã. cerca de metade das reclamações foram descartadas e metade encaminhada para as unidades da polícia em questão para que fossem tomadas as medidas necessárias. Em consequência disso. em seus primeiros três anos de funcionamento. assassinato. por exemplo. O mesmo acontece com a polícia. o estado de São Paulo conta com 129 dessas ouvidorias. Desses casos. impunidade. na corrupção dentro do Congresso e do Judiciário. houve apenas um julgamento. incluindo acusações de tortura. extorsão e abuso de autoridade. Não se sabe.20 Mas o que. depois de uma década. Vamos examinar os homicídios. o ouvidor de São Paulo recebeu o surpreendente número de 30319 reclamações (e 119 elogios) de indivíduos. Além disso. A Human Rights Watch (1991) relatou que 1681 trabalhadores rurais foram mortos no Brasil entre 1965 e 1990. Embora os tribunais tenham invalidado alguns desses mandados. no próprio aparato policial. cujas linhas telefônicas são intensa e permanentemente solicitadas. As provas de que a maioria das violações civis e criminais continua impune são abundantes. Da mesma forma. Além do mais. conseguiu ser absolvido com um recurso ao Órgão Especial do Tribunal de Justiça de São Paulo.ao sistema de justiça. o coronel . além do mais. um promotor civil prestou queixa contra o comandante da operação. é clara: pistoleiros de aluguel matam com quase total impunidade. e um promotor militar fez o mesmo contra 120 policiais por diversos crimes. isto é. multiplicou seus abusos e amplificou o problema da impunidade. embora os presos tivessem se revoltado. A maioria deles estava instalada dentro de departamentos de segurança pública. legislaturas federais e estaduais instituíram muitas comissões parlamentares de inquérito (CPIs) durante a última década. dotadas de amplos poderes de intimar testemunhas. baseadas em audiências públicas segundo o modelo judicial. entre as quais a saúde. Depois de uma revisão interna. o coronel Ubiratan Guimarães. os crimes mais bem documentados. mesmo acusado. cinco anos depois. em 1992.

9%) foram de fato investigadas e trinta (1. Por isso. uma reforma judicial abrangente continua praticamente na estaca zero. Nicolau dos Santos Neto (o “Lalau”). a carreira institucional garante imobilidade. Isso não signi ca julgamento ou prisão — os dados a respeito não estão disponíveis. através de penalidades administrativas (rebaixamento e advertência. Em relação aos ouvidores da polícia. acabou assumindo e foi reeleito em 2002 com mais de 56155 votos. Das 3806 reclamações de cidadãos acatadas em 1998 em São Paulo para investigações. Signi cam também que o Judiciário tem sido lento no enfrentamento das transformações da sociedade contemporânea. os cidadãos mantêm a expectativa generalizada da impunidade ou do abuso por parte do sistema judicial. e é .Ubiratan candidatou-se à Assembleia Estadual em 1996. seus fracassos em alcançar uma justiça efetiva significam que a maioria dos brasileiros o evita ao reivindicar seus direitos. Destas. a CPI do Judiciário só conseguiu mandar um juiz para a prisão. nenhum executivo dos bancos chegou a ir a julgamento.21 A inescapável conclusão para os brasileiros é a de que reina a impunidade. As de ciências do sistema judicial criam a inabalável crença de que os cidadãos não podem fazer cumprir seus direitos. quase uma década depois. Seus fracassos têm aleijado a democracia política do Brasil pelo estabelecimento de um estado de direito não democrático. O cargo do juiz foi projetado para ser inexpugnável à in uência externa: o cargo é preenchido por concurso público ou nomeação. Embora investigações de uma CPI sobre crimes bancários tenham levado o governo a fechar diversos bancos particulares na última década por enriquecimento ilícito e outras violações. Do ponto de vista do Judiciário. promoções automáticas e salário irredutível. talvez por serem poucos os casos. esse isolamento foi um projeto institucional. Depois de descobrir uma corrupção estupenda. ressaltando seu papel na repressão da rebelião e usando o número 14111 em sua candidatura. por exemplo) ou de acusações formais. somente 134 (6. Embora as CPIs tenham chamado a atenção nacional com seus dramas jurídicos. o resultado é quase sempre o mesmo: tudo “acaba em pizza”. um ano após a sentença condenatória e durante o trâmite do recurso. Foi eleito como suplente. De todas as instâncias do governo. Os outros 120 policiais acusados nunca foram a julgamento e a maioria continua trabalhando na Polícia Militar. não por eleição popular. de que essa incapacitação legal encoraja a criminalidade e de que os tribunais não conseguem arbitrar as relações sociais de forma a impor sanções aos poderosos e aos agentes do Estado. muito menos a ser preso.5%) resultaram em punição. mas cumpria sua condenação em prisão domiciliar desde 2007 em sua mansão no bairro de elite do Morumbi. 1942 destinavam-se à polícia civil. o cargo torna-se vitalício após dois anos no posto. Ele foi condenado a 26 anos de prisão em 2006. preferindo voltar- se para instituições executivas e legislativas. Além disso. e as disputas são esquecidas. o Judiciário continua sendo a mais resistente ao vendaval das mudanças democráticas. Será que devemos nos surpreender pelo fato de muitos cidadãos apoiarem a violência policial ou forças de segurança particular como uma aposta mais certa por justiça? Se a maioria dos brasileiros considera o Judiciário ine ciente na proteção de seus direitos e distanciado de suas necessidades sociais. os resultados não são menos impressionantes. Só em março de 2013 a prisão domiciliar foi cassada.

como forma de usar a lei para manipular e complicar con itos em favor de soluções extrajudiciais. esperando que outros o abordem com problemas a serem resolvidos. que a jurisprudência brasileira justi ca como uma “ciência da lei” (derivada dos pensamentos jurídicos romano. a relação dos juízes com a mudança social.). No entanto. Como não podem ser ativistas de nenhuma espécie. e exige apenas a lógica da coerência legal para justi car as decisões. com a interpretação de que o Judiciário não pode agir sem uma provocação formal. Esses princípios pregam que “a inércia é. tem de ser nula. seu escopo de jurisdição é limitado a aplicar leis aos casos que têm em mãos. Tanto em revisões constitucionais . napoleônico e alemão). Eles estão apenas decidindo que um estatuto não pode ser aplicado numa situação especí ca de “caso concreto”. pode ser entendida de várias maneiras. a autonomia e a estabilidade do cargo estão diretamente associadas a princípios de equilíbrio e imparcialidade estabelecidos no cerne da jurisprudência brasileira. Ao que tudo indica.imediato para os cargos em tribunais superiores. Assim. podem considerar inconstitucional um ato legislativo. um modelo de revisão difusa adotado em 1891 a partir da Constituição dos Estados Unidos. No entanto. os juízes não podem interpretar casos a partir de decisões prévias ou do contexto histórico e social. Tribunais em quaisquer níveis de jurisdição. o juiz “deve conservar […] uma atitude estática” (ibid. Por essas razões. como juiz. então. outro tribunal pode decidir um caso semelhante apoiado em sua própria análise. embora estas permaneçam não declaradas. Uma vez que suas decisões não têm efeito vinculante. os juízes poderiam divulgar que estão interessados em receber certos tipos de casos ou a considerar os casos à mão sob a luz de suas circunstâncias sociais incorporadas. A rejeição ao precedente judicial como fonte do direito — e portanto da doutrina do stare decisis — signi ca que casos semelhantes muitas vezes recebem diferentes julgamentos. Sua decisão só afeta o caso especí co. o espaço interpretativo dos juízes se encolhe até desaparecer: por um lado. Além disso. o princípio da inércia e seu pressuposto de imparcialidade não estão isentos de suposições acerca da relação entre o direito e a sociedade. Essa ideia é sintetizada para todos os estudantes de direito na máxima romana de que nemo iudex sine actore (não há juiz sem autor). por exemplo. isto é: de imparcialidade” (Calamandrei. a nal de contas. O que acontece é que os juízes estão atados por uma tradição de formalismo legal. garantia de equilíbrio. mas que se desenvolveu. Esse legalismo apresenta consequências signi cativas na relação do Judiciário com a sociedade: ele reconhece apenas o Estado e suas codi cações como fontes legítimas do direito — rejeitando o precedente judicial vinculativo —. Pode-se interpretar o princípio como se referindo a ações provocadas por agentes alheios ao tribunal. seu escopo de provocação está restrito a procedimentos do tribunal. citado em Silva 1992: 506). o que impede os juízes brasileiros de serem ativistas ou construtivistas não é uma noção de agência que. por outro. como argumentei. Estimulados dessa forma. Como a lei em questão continua válida. para o juiz. o tribunal só pode fazer isso no contexto de adjudicação de um con ito concreto no qual o ato seja aplicável. os juízes não podem ser acusados de produzir uma lei quando determinam que um ato viola a Constituição. para ser equilibrado. O que se ensina é que.

22 Como a mobilização popular pela democracia afetou esse Judiciário? A nova Constituição cristaliza três processos que contestam o modo como ele considera a justiça e se relaciona com a sociedade: a legitimação de novas fontes do direito. nas quais os juízes têm poderes individuais extraordinários praticamente incontestáveis. Pode-se concluir com acerto que a Assembleia conseguiu responder a mobilizações de base porque sabia muito bem que grande parte das exigências socialmente progressistas que incorporou na Constituição teria pouco efeito sem a improvável aprovação de uma legislação complementar. pela confusão de legislação de princípio com legislação ordinária e pelo excesso de detalhes em seus 250 artigos e inúmeros parágrafos. esse modelo idiossincrático cria para cada juiz uma independência quase total e elimina con itos potenciais de doutrina e disputas entre instâncias do governo. que garantem a maior parte dos benefícios imagináveis. como vou mostrar adiante. Assim. Não são autoexecutivas e exigem uma legislação complementar para entrar em vigor. emprego e casamento — estavam em tamanha contradição com a legislação existente que exigiam uma reformulação por meio de novos direitos e princípios constitucionais. porque impunham normas rejeitadas pela maioria dos brasileiros e desconsideravam práticas sociais contemporâneas. Vou me concentrar nos dois primeiros. se arrastam por falta de leis e políticas executáveis. Os críticos têm condenado a nova Constituição por sua imobilizante dependência de regulamentação. Do ponto de vista do Judiciário. Contudo. em especial no Código Civil (1916) e no Comercial (1850). Como descrito no último capítulo.como em decisões em todos os domínios do direito. 23 Todos forçam o Judiciário a enfrentar a contradição e portanto contestam sua complacência. os dispositivos da Constituição para novos direitos sociais. Fizeram com que a Assembleia reconhecesse que muitas leis existentes eram intoleravelmente desatualizadas. Muitas dessas inovações constitucionais criam mais problemas do que resolvem. casos idênticos podem e com frequência são decididos de forma diferente por diferentes juízes. 25 Dessa forma. a Constituição reconheceu novas fontes do direito nas práticas sociais dos cidadãos. a Assembleia admitiu que as experiências sociais dos cidadãos — em especial de brasileiros de classe baixa com moradia. Com essas inovações. isso cria um Judiciário cujas decisões parecem imprevisíveis e arbitrárias.24 Em 1990. Poucas foram aprovadas desde então. o então ministro da Justiça estimou que a Constituição exigia a aprovação de 285 leis ordinárias e 41 leis complementares para implementar totalmente seus dispositivos (citado em Rosenn 1990: 778). mobilizações de base de cidadãos conseguiram pressionar a Assembleia Constituinte a aceitar novas fontes do direito embutidas em sua própria experiência social. . propriedade. incertos. para os cidadãos. inovações do princípio constitucional e um movimento de crítica legal alternativa. pela inclusão de direitos sociais irrealizáveis. interesses entrincheirados no Congresso conseguiram frustrar a ousadia da Constituição por meio de uma inação calculada. legislação que o Congresso “hesita” em aprovar. e sempre com di culdade. a maioria de suas inovações tem pouco impacto porque só existe como princípio. embora o processo seja lento e os resultados. Ao acatar essas emendas populares. Em particular.

LXXI) concede aos tribunais para implementarem direitos sempre que a ausência de uma regulamentação torne seu exercício impraticável. a Constituição Cidadã costuma ser comparada com um exercício temporário ou transitório. Sem dúvida. Além disso. exatamente por serem transformadores. ao exigir tantas rede nições. a Constituição (artigo 103) expandiu de maneira considerável o número e os tipos de partes habilitadas a exigir um controle abstrato de constitucionalidade — ou seja. 26 Acho que falta um ponto crucial nessa avaliação. mesmo diante de petições frequentes. ela tem o potencial de gerar uma confusão signi cativa num sistema legal que precisa ser chacoalhado em seu cerne. Mas os que o descartam parecem não entender o poder paradoxal da própria confusão. Agora.28 Mas essa nova autoridade judicial é muito problemática. o de ter se originado e se envolvido em extraordinárias reivindicações populares por democracia. não é uma revisão da Constituição que a torna um agente de transformação. Em relação ao Supremo Tribunal. foram expressos na Carta. O poder da Constituição Cidadã é. Esse dispositivo radical pode parecer uma solução para a inação do Congresso. apenas o procurador geral. acima de tudo. mas. Sem dúvida. Com efeito. Ademais. que. Fica claro neste e em muitos outros casos que as inovações da Constituição exigem muitas experimentações e reformulações. Penso que a nova Constituição é um poderoso agente de mudança precisamente porque. Sob as Constituições anteriores. Desde então. as ambiguidades. as contradições e os novos recursos da Constituição incitam a abertura de litígios — . quase qualquer grupo de interesse organizado pode transformar uma questão de direitos — por razões de “ação ou omissão” — em um con ito constitucional no mais alto nível do Judiciário. estava habilitado a fazê-lo. os tribunais se mantenham relutantes em admitir esses recursos. tem se tornado cada vez mais difícil para o Supremo Tribunal permanecer indiferente a controvérsias políticas em questões de política econômica. Mesmo assim. esse contexto gera ao mesmo tempo con ito social e confusão. representando o Executivo. em especial para o Judiciário. Não surpreende que. no contexto das grandes mobilizações pela democracia. mais uma conciliação de forças políticas em con ito do que uma Carta funcional. a começar pelo infame Plano Collor I. pede aos juízes que pesem questões de extraordinário impacto político e econômico. na verdade. por exemplo. Por essas razões. 27 É o caso da in nidade de petições recebida pelo Supremo Tribunal tratando da constitucionalidade da política econômica e da legislação relativa. uma revisão da constitucionalidade de uma lei ou política que não exija um litígio especí co num caso concreto em que se aplique. Não lhes dá o poder de obrigar a formular legislação nem de alocar fundos para efetivar as ordens judiciais. Examinemos os poderes de mandado de injunção que a Constituição (artigo 5. fornece inúmeros novos recursos e procedimentos e às vezes provê a legislação complementar de verdadeiras inovações para fazer justamente isso. apenas permite que os tribunais informem à parte delinquente que ela deve iniciar medidas corretivas para assegurar os direitos do requerente em trinta dias. de 1990. dada a enorme lacuna de legislação. a inação do Congresso e a confusão constitucional levaram a um resultado imprevisto: conferiram poder ao Judiciário em detrimento do Congresso.

e cria mecanismos para reti car alguns dos padrões mais evidentes de ilegalidade. a maioria dos residentes urbanos. aos movimentos de base e de juristas e advogados militantes oportunidades sem precedentes para combater a complacência judicial. politizam os tribunais ao pressioná-los a expandir seus horizontes para além das fontes tradicionais da lei para justi car deliberações. o estatuto estrutura suas diretrizes do ponto de vista dos pobres. O artigo 182 estabelece que o objetivo das políticas urbanas é “ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes”. Como resultado. Gostaria agora de focar esse turbilhão nos problemas de terra e moradia ilegal que têm sido fundamentais para a insurgência de novos movimentos de cidadania nas periferias urbanas. Esses dois artigos se tornaram o fundamento para uma série de atos legislados. desigualdade e degradação na produção do espaço urbano. Além disso. o Estatuto da Cidade ganhou forma de lei federal. A primeira é por de nir a função social da cidade e da propriedade urbana em termos de um conjunto de diretrizes de natureza substantiva. por ao menos quatro razões. o Movimento Nacional pela Reforma Urbana) e várias administrações locais (sobretudo do PT). Tais considerações necessariamente provocam uma erosão no monopólio do Legislativo de fazer leis. Para realizar esse objetivo. É um fato notável na história da legislação e nas políticas urbanas não apenas no Brasil. Durante mais de uma década o Congresso Nacional discutiu a regulamentação exigida para de nir com mais precisão o conceito de função social e os mecanismos para sua implementação. A segunda é que. a inação do Congresso expôs ao ataque o Judiciário. cujo desenvolvimento é obrigatório para todas as cidades com mais de 20 mil habitantes. o método e o escopo dos critérios judiciais.montanhas deles —. e essa possibilidade oferece. a igualdade social como um objetivo fundamental do planejamento urbano e transforma o . Assim. mas também em todo o mundo. parcelamentos compulsórios e taxação progressiva. não só aumentando a autoridade do Judiciário como oráculo da lei. a partir desse fundamento. Permite que os moradores de pequenos loteamentos residenciais urbanos (250 metros quadrados ou menos) obtenham um título de propriedade original se puderem provar cinco anos de moradia constante sem uma oposição legítima. Finalmente. regulamentações e iniciativas de planejamento que transformaram a política urbana do Brasil num instrumento de justiça social de considerável abrangência e inovação. mas também o forçando a repensar a teoria. em 2001. estabelece que “a propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano diretor”. forçando-o a considerar as novas contradições e rede nições da lei. Uma das emendas populares por eles apresentadas à Assembleia gerou a seção de política urbana da Constituição. o Judiciário ca exposto à sociedade e à crise. o artigo determina que os governos locais possam promover a função social das terras urbanas por meio de expropriações. dessa forma. Estabelece. O artigo 183 cria a usucapião urbana como forma de resolver o apuro das moradias ilegais que atinge a tantos brasileiros pobres. Ao mesmo tempo. Essa legislação incorpora conceitos desenvolvidos pelos movimentos de cidadãos urbanos (por exemplo.

Fui autorizado pelo tribunal competente de São Paulo — o de Registros Públicos — a observar a adjudicação de casos de usucapião urbana. Conduziu também o drama social da moradia ilegal nas periferias para os tribunais. assistir a audiências e acompanhar debates entre juízes. a expropriação é um processo ativado pelos gabinetes executivos do governo e depende de sua vontade política e de suas condições econômicas. O artigo 183 entrou em vigor em 1990. Durante seis meses. Em comparação. segui os casos de moradores que eu conhecia nos dois bairros. Como uma inovação da democracia impulsionada pelos cidadãos. Antônio Margarido. a expropriação por razões de função social converte a terra privada em pública mediante indenização. preparados pelo advogado das duas SABs. divididos em períodos de três meses em anos consecutivos. Para os moradores do Jardim Nacional. mas sim como uma série de instrumentos legais inovadores que permitem às administrações locais realizar e fazer cumprir a função social da propriedade urbana.29 Entre essas inovações democráticas da política urbana. injusto e insuportavelmente lento. Fiquei decepcionado com os resultados. invenção jurídica e mobilização popular abriram espaço na lei. Ao mesmo tempo. o artigo 183 de fato propiciou a moradores da classe baixa oportunidades sem precedentes para acessar os tribunais e se valer do direito civil. A terceira razão é que o estatuto requer que os planos diretores e as políticas locais sejam desenvolvidos e implementados com uma ativa colaboração popular. compareci regularmente ao tribunal. O número de moradores que requereram direitos de propriedade com base no artigo 183 aumentou gradualmente de um punhado no início para cerca de 150 no Jardim das Camélias e setenta no Lar Nacional em 2005. não aconteceu muita coisa. Esse processo de transformar a posse de terra sem poderes legais de propriedade em posse legal com direitos de propriedade é inteiramente uma questão judicial de litígio entre partes privadas (individuais ou coletivas). A quarta é que o estatuto não é estruturado como um plano total (como no paradigma de Brasília). segundo condições que pareciam absurdas e arbitrárias. Assim. a usucapião urbana (artigo 183) afeta diretamente o Judiciário. complicado. não foi nada menos que aterrorizante. que teve a generosidade de me permitir examinar casos. As terras públicas continuam inelegíveis. status e poder .planejamento num instrumento para justiça e igualdade social. a Primeira e a Segunda Varas. Os casos se arrastavam de uma ou outra forma. como jamais acontecera. de jurisdições. É uma importante indicação das maneiras pelas quais a democratização ncou raízes na sociedade brasileira e de como as experiências de base de administração local. Nos primeiros dez anos. embora 44 moradores do Jardim das Camélias e quatro do Lar Nacional tenham agora recebido títulos de nitivos fundamentados na usucapião urbana. Dessa forma. as SABs do Jardim das Camélias e do Lar Nacional começaram a experimentá-lo como estratégia para resolver suas disputas de terra. todos vivenciaram um processo judicial caprichoso. O tribunal de Registros Públicos tem duas instâncias em São Paulo. No entanto. Não há dúvida de que o Estatuto da Cidade é resultado dos movimentos de cidadania insurgente iniciados nos anos 1970. fui capaz de avaliar a judicialização dessas disputas de terra nas duas pontas. Nesse ano.

Quando perguntei sobre essa tática para outro juiz da vara. como já vimos. foram esses os únicos casos “de sucesso” no bairro. reivindicando propriedade com base. esses direitos invalidavam as petições. Cada uma dispõe de três juízes e um cartório a liado. a maioria dos moradores na verdade não conseguiu quase nada. nos direitos de reversão das terras localizadas nos antigos aldeamentos indígenas de São Paulo. Seria uma questão de circunstância. o período estatutário para intervenções federais nos casos havia expirado. eliminar o excesso de burocracia e minimizar as exigências técnicas. onde permaneciam sem solução. os juízes rotineiramente noti cavam o governo federal sobre cada caso. Os moradores afetados tiveram de esperar mais um ano e começar tudo de novo. Quando a nal voltaram ao trabalho. ocorreram diferenças importantes entre os dois tribunais e dentro de cada um. alguns casos não noti cados escaparam do radar da União e outros não. Contudo. Em vez disso. por exemplo. Um juiz exigiu declarações de renda e de bens por escrito. A União protestou. A da Segunda não fez isso. Por razões que para mim permanecem obscuras. Os advogados apelavam. Em consequência. Seja como for. um juiz parou de noti car os promotores federais. Esses apelos iam ao Supremo Tribunal. A pesquisa envolvida era espantosa. Dois de seus substitutos consideraram que o período de cinco anos de elegibilidade não era retroativo. ele emitiu dois títulos originais em nome dos moradores e deu ordem para que fossem registrados. Os casos são distribuídos aleatoriamente entre os juízes. A Primeira Vara encontrou formas de aperfeiçoar o processo. depois de dois casos do Jardim das Camélias terem recebido julgamento favorável na vara local. Por um bom tempo. Ainda assim. com certa satisfação maldosa. ele deu de ombros: “Não sei. porque duvidava que o governo conseguisse provar a propriedade. e a Segunda. Em 1992. Cada um tem a sua interpretação”. com assinatura reconhecida em cartório nos casos em que o requerente demandava uma renúncia de despesas legais — procedimento difícil para os que não sabem escrever muito bem. por exemplo. exigindo que a União provasse sua propriedade. os funcionários da burocracia judicial federal entraram em greve. a equipe da Primeira tentou simpli car procedimentos judiciais. mas que deveria ser contado a partir da Constituição de 1988. que os advogados apresentassem um histórico de vinte anos dos registros judiciais de cada nome associado a uma petição para determinar se o lote em questão havia sido invadido. houve raras surpresas que mantiveram a esperança dos moradores. rejeitaram as petições que lhes foram atribuídas como inelegíveis. Mesmo que suas petições sobrevivessem a essa e a outras barbaridades processuais e fossem declaradas de boa-fé e aptas do ponto de vista burocrático.idênticos. que prepara os documentos de cada caso. de personalidade ou de biogra a individual? A Segunda Vara exigiu. adjudicando as petições como se o governo federal não tivesse nenhum interesse. Como exigido por lei. A União intervinha então na maioria deles. Ele me disse que queria “ver o que acontece se a União apelar”. de complicá-lo. três dos juízes foram transferidos. Em 1992. não muito depois disso. o . eu vejo isso de forma diferente. mas o juiz que presidia o caso ignorou o pedido. em grande parte porque muitos requerentes eram homônimos. Se mantidos. No nal das contas. Em outra ocasião.

Embora se aplique apenas a terras dentro dos antigos assentamentos indígenas de São Miguel e Guarulhos. Comemorações pipocaram nos bairros. Como o Supremo Tribunal Federal não julgou o mérito de nenhum desses casos. Antônio Margarido e eu apresentamos um relatório ao ministro da Justiça. os juízes do Tribunal de Justiça determinaram por unanimidade que a empresa Lar Nacional. em 2003. a Súmula no 4 tem efeitos futuros e retroativos. para retomar sua trajetória normal. a ação de reintegração de posse de 1966-72 também retornou à sua jurisdição original. foi o que de fato aconteceu.juiz em questão abandonou o cargo e foi trabalhar para o setor privado. a Sexta Vara Cível. Como não havia outros con itos signi cativos a resolver com relação aos lotes residenciais. Além disso. Os casos começaram a voltar às suas origens. quatro resultaram em títulos de usucapião definitivos. Assim. pois poucos haviam saído do tribunal local para serem enviados a Brasília em apelação. apontando o absurdo dessa situação na zona leste de São Paulo. quando os casos de usucapião começaram a voltar para os tribunais de Registros Públicos. Aliviadas dessa carga. Foro Central de São Paulo. Para o Lar Nacional. onde. Reis Costa alegou em cada caso que a decisão de 1972 lhe tinha garantido a posse de nitiva e a retomada dos direitos aos lotes. mas também todos os outros em que a União alegava propriedade sob os mesmos argumentos. Examinamos os aspectos legais. foram contestadas pelo governo federal e enviadas a Brasília. Seu protesto mandou os casos ao Tribunal de Justiça de São Paulo. partes interessadas na ação original de reintegração de posse. Sem dúvida apoiado em inúmeras avaliações semelhantes. já há muito extintas. isso signi cava a execução da sentença original sem considerar o intervalo de trinta anos. só um punhado deles tinha sido julgado ali. Reis Costa não havia conquistado direitos sobre esses lotes. Para os moradores do Jardim das Camélias. Em todos os casos à exceção de um. O que ninguém havia previsto era que a celebrada Súmula no 4 livraria das pendências em Brasília não só os casos de usucapião. Até 2000. as petições voltaram para as varas. em terras que foram outrora aldeias indígenas. criou uma complicação a mais para sua adjudicação. Quando a ação a nal aterrissou em 2003 na mesa da juíza . prevendo que casos com julgamento favorável nos níveis locais porém parados na instância federal em Brasília logo voltariam para a sentença final e a concessão dos títulos. o processo de reintegração de posse da terra que incluía o Lar Nacional. no entanto. essas poucas petições a nal foram mandadas de volta e. Assim. os juízes locais concediam títulos de nitivos à medida que os casos passavam por suas mesas. Quando a União saiu do caminho. e portanto os moradores que haviam comprado lotes da companhia. embora de forma lenta e imprevisível. Em 1996. Logo se tornou evidente que a intervenção federal seria um obstáculo intransponível à aplicação do artigo 183 para milhões de brasileiros pobres que moravam nas periferias de muitas cidades. de fato. julgadas favoravelmente. poucos casos voltaram. devolvendo-os por motivos de ordem técnica. o procurador geral fez exatamente isso em 2000. apresentado em 1966 e vencido em 1972 por Humberto Reis Costa. não eram. argumentamos que o Judiciário não poderia resolvê-los e recomendamos que a União emitisse uma ordem executiva abrindo mão dos interesses federais nesses casos de usucapião. 30 Ou seja. históricos e sociais do problema.

os moradores] pretendem perpetuar as discussões travadas em torno do loteamento Parque Lar Nacional. aos herdeiros do espólio de Humberto Reis Costa]” e que havia desacreditado a Justiça brasileira. Mas o que. apoiada em três estratégias. portanto. usando “manobras judiciais” de vários tipos ao longo dos anos (usucapião e outras ações defensivas. situação que não pode ser tolerada […] [e que] gera enorme instabilidade no mundo jurídico”. A maioria dos moradores achava que a juíza distrital era corrupta. todos os 210 lotes — menos os quatro que já haviam recebido títulos por conta da usucapião urbana. Descrença.66. a juíza se apoiou na decisão de uma câmara (a Quinta Câmara Cível) do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. estavam sujeitos a seu julgamento. Mas a juíza não apenas “devolveu” todos os outros terrenos para os herdeiros de Reis Costa: numa última volta do parafuso. a juíza determinou o despejo de um bairro inteiro. Majoritariamente. Ela argumentou que o atraso entre o julgamento e a execução tinha “acarretado inúmeros prejuízos aos embargados [ou seja. ela acusou os moradores de desconsiderarem de modo intencional o “Poder Judiciário”. perguntaram os moradores. Os moradores juraram morrer defendendo suas casas. ele relatou que uma das advogadas tinha dito que achava que os . Com base nesse único caso. chocada pelo fato de os vencedores terem esperado 37 anos para receber seus legados devidos. Margarido parecia ter chegado a um beco sem saída legal. que havia determinado. Advogados do espólio de Reis Costa anunciaram que apenas o pagamento dos lotes e das casas evitaria o despejo. Depois de 35 anos de construção do Lar Nacional. Esses a juíza excluiu. Para ela. Depois de algumas semanas. Na primeira reunião. Ao determinar a execução do “mandado de evacuando”. O advogado Margarido deu início a ações legais para impedir o despejo. como a rma sua ordem de execução (despacho proferido em 29 de julho de 2003. eles não tinham outra explicação. “a reintegração de posse apenas não ocorreu em virtude de óbice judicial”. que os moradores do Lar Nacional eram partes interessadas na ação de reintegração de posse e. lutando contra a polícia. as endereçadas a Tribunal do 6 o Distrito Civil foram negadas ou ignoradas pela juíza. agonia e pânico tomaram conta do bairro.901520-9/001).Gabriela Fragoso Calasso Costa. em um único caso. A SAB designou um morador para ngir negociações com o espólio “para conhecer o inimigo”. porém. Em uma semana a SAB os mobilizou numa resistência organizada. da Sexta Vara Cível. os moradores tinham seis semanas para sair ou seriam despejados à força. havia de diferente naqueles quatro lotes? Nada. Essas manobras só “demonstra[vam] que os embargantes [isto é. Com uma penada. As que foram submetidas aos tribunais superiores num esforço para contornar a juíza distrital foram rejeitadas como “prematuras”. pois não tinham esgotado todas as possibilidades na corte mais baixa. por exemplo) para “impedir a execução do mandado de evacuando”. de forma infinita. Seu despacho declarava que os moradores eram “invasores” a quem faltava “boa-fé” em suas aquisições e que não tinham direitos aos lotes em litígio. ela cou. as outras câmaras do tribunal haviam entendido que os moradores não foram parte. ela também concedeu as casas. processo número 000. a não ser uma escolha aleatória no processo judicial de usucapião.

a prefeitura depois venderia os . Organizamos também uma manifestação de massa uma semana antes do despejo. Protesto no Lar Nacional (2003). A segunda estratégia política foi invocar o artigo 182 e o Estatuto da Cidade para convencer a prefeita a expropriar a terra por razões de “interesse social” e então devolvê-la aos moradores. a jurisdição do caso seria transferida para outro tribunal. da segunda e da terceira gerações se organizam contra despejo. Depois de consultas a vereadores do PT. 24 de agosto de 2003. (Foto de James Holston. uma vez que a prefeitura tivesse feito um depósito pela terra. Figura 8. ódio de classe e preços incrivelmente altos. O Estado de S. a SAB apresentou o caso ao secretário de Habitação da cidade e pediu que conseguisse que a prefeita emitisse a chamada Declaração de Interesse Social (DIS) para a expropriação. o drama recebeu extensa cobertura da mídia. e este pagamento o reconheceria de uma vez por todas como legítimo proprietário. inclusive importantes editoriais que apresentavam o caso como emblemático do “problema da Justiça no Brasil” (“Despejo de um bairro”. A3). representantes do estado e a seus advogados. Moradores fundadores.moradores tinham de pagar porque todos eram “invasores” que haviam “morado de graça por todos aqueles anos”. Paulo. os moradores cobriram as fachadas das suas casas com plástico preto e marcharam pela rua principal em protesto ( gura 8.1).) A estratégia política da SAB teve duas vertentes. Para o evento.1. A missão exploratória revelou ignorância. a prefeitura teria dois anos para indenizar o espólio de Reis Costa. com a ajuda do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo. da Câmara Municipal e da Assembleia Estadual. A apenas doze dias do despejo. o secretário concordou em tentar e esboçou uma sequência de eventos: a declaração de intenções da prefeitura de expropriar suspenderia o despejo. Enviamos comunicados a rádios. Eu organizei uma ataque na mídia. televisões e jornais e conseguimos que repórteres desses veículos fossem ao local. Durante essas seis semanas. com porta-vozes (a maioria a liada ao PT) do gabinete da prefeita. em 27 de agosto.

As autoridades que se manifestaram em agosto pareciam abandonar o bairro. Devido à sobreposição de títulos na área. grifo do autor). um assessor jurídico da prefeitura chegou e disse à multidão que a prefeita Marta Suplicy assinaria o decreto. alegando falta de fundos. Embora fosse melhor negócio receber o pagamento da prefeitura que sofrer todo o caos e os custos do despejo. dois homens começaram a se agredir sicamente. para desapropriação”. qualquer compra de Reis Costa continuava sendo arriscada. a prefeitura anunciou uma mudança de curso. Na reunião seguinte da SAB. contudo. Além do mais. o advogado Margarido os aconselhou a continuar. Mas sentiam que a expropriação faria da prefeitura a única e de nitiva proprietária. o que levou quase todos às ruas para carregar cartazes e ouvir políticos fazendo discursos vibrantes. para serem desapropriados judicialmente ou adquiridos mediante acordo. Os ânimos se agitaram por já terem investido tanto numa estratégia sem saída e depois ainda terem de investir mais ainda. embora não garantisse nada. Eclodiu um pandemônio de desacordos. todos os casos de usucapião pendentes seriam extintos. Poucas horas antes da meia-noite. Mas o que o assessor não disse foi que. o espólio adiou sua resposta até a tarde anterior ao dia D. Em um momento de clímax. de quem eles poderiam comprar os lotes com segurança. Mesmo assim. A prefeitura tentaria obter empréstimos baratos de bancos privados. parecia que os casos prosseguiriam normalmente. embora intitulado “Declara[ção] de interesse social. Os moradores se sentiram desmoralizados. Muitos gritaram e choraram. Assim que a terra se tornasse pública por expropriação. Não estava claro se eles continuariam a pagar por esta última ou não. A DIS foi emitida cerca de seis semanas depois.terrenos de volta aos moradores “por um preço justo” e com termos favoráveis. por razões técnicas. Ainda por cima. Nada funcionou. as várias facções trabalharam juntas para organizar a manifestação. a juíza cancelou sua ordem. O que os moradores não perceberam em seu entusiasmo foi que. O bairro estava salvo. Os moradores se sentiram traídos. 9 de outubro de 2003. Eles organizaram um comitê no intuito de voltar a mobilizar políticos para pressionar a prefeita a restabelecer a expropriação. A prefeitura os estava obrigando a fazer o tipo de acordo com um suposto proprietário a que eles haviam resistido por trinta anos. a prefeitura pediria um preço justo. não oferecia nenhuma forma de proteção legal. eles responderam que aquilo não estava certo. Não haveria desapropriação. só uma facilitação da negociação direta entre os moradores e o espólio de Reis Costa para a compra dos lotes. Quando perguntei aos moradores o que achavam de pagar por seus lotes outra vez. Até então. que . A questão era se o juiz aceitaria a intenção da prefeitura de cuidar do caso. De repente. “Tem tanta gente em São Paulo que invadiu e depois se deu bem conseguindo os direitos de propriedade. o dissenso e a desconfiança proliferaram na semana seguinte. situados no Distrito de Sapopemba [no Lar Nacional]” (Decreto n o 43937. Ainda que a ordem tenha sido afinal restabelecida. o decreto não poderia ser preparado antes da data do despejo. Em fevereiro. E nós. os imóveis de propriedade particular. A prefeita apresentou um pedido formal ao tribunal e ao espólio de Reis Costa. o documento na verdade propunha dois cursos de ação: “Ficam declarados de interesse social. Mas a contradição entre expropriação e usucapião ainda os inquietava.

Em vista disso. mas o juiz já havia enviado a ordem à polícia militar. O primeiro se tornara ainda mais absurdo desde a ordem de despejo: a Primeira Vara está negando todas as petições que lhe foram designadas aleatoriamente enquanto a Segunda aprova todas! Ao mesmo tempo. quatro dos moradores em melhor situação aceitaram verbalmente a última oferta do espólio: o terror de um iminente despejo estava fazendo efeito. Isso é justo?” A Secretaria de Habitação fez pressão para que os moradores negociassem com o espólio. ainda que um contradissesse o outro. a grande maioria não tinha dinheiro para pagar o que o espólio exigia. Não há escolha. Seriam seguidos o processo judicial de usucapião urbana e o processo de negociação. Desde então. em adiar o despejo até depois do Natal. essa estratégia opera pela complicação e pela protelação. as negociações vêm se arrastando dos dois lados — em especial depois que o PT perdeu a prefeitura (a maioria dos moradores do Lar Nacional votou contra) e todos os departamentos trocaram seu pessoal em 2005. No entanto. Em novembro de 2004. o o cial de justiça encarregado da execução concordou. parte do Lar Nacional que obtivera regularização legal em 1986. em off. Sob intensa pressão. aquilo não tinha validade sem a publicação. ela apresentou um “contudo”: “Contudo. Reconhecendo seu erro. O bairro se mobilizou. Dessa vez. o espólio precisaria apresentar provas da posse definitiva. Margarido soube que o tribunal tinha mais uma vez ordenado o despejo. a SAB garantia ao espólio que os moradores estavam prontos a negociar assim que recebessem títulos de nitivos que provassem sua propriedade. A essa altura. contudo. Depois de declarar que “é certo que a reintegração de posse se impõe”. o juiz suspendeu a ordem. A SAB resolveu enviar Margarido para argumentar com o juiz. que “reconheceu os erros” e rescindiu a ordem. de modo errôneo. No entanto. de forma a . De acordo com eles. Margarido tinha demonstrado que a ordem incluía. De sua parte. Em julho. não quero saber das velhinhas. Em termos técnicos. Mais uma vez o terror assolou o bairro. A maior parte seria despejada. ao longo destas quatro décadas houve sentenças favoráveis a inúmeras pessoas para que elas se mantenham na posse dos lotes que ocupam”. Numa reunião da SAB. Como que em resposta. o juiz não só não excluiu os terrenos com o título nal de usucapião como também deixou de publicar o edital no Diário O cial. o espólio periodicamente submete uma petição para restabelecer o despejo. Vocês pagam ou vão para a rua. ela deu ao espólio cinco dias para apresentar os nomes de todos contra os quais o despejo não poderia ser executado. eles renunciaram ao acordo. O problema é de vocês”. De fato. Misteriosamente. não. Em seguida a SAB articulou três condições para a recompra: a venda só se referiria aos terrenos e não às casas. A SAB desenvolveu uma nova estratégia: “Deixar todas as portas abertas”. Embora os dois lados se reúnam de vez em quando para discutir os termos.pagamos? Nós. um novo juiz da vara aceitou o pedido. às quais o espólio deveria reconhecer que não tinha nenhum direito. não foi republicada. os quatro foram acusados de traição e quase apanharam. e o preço da compra deveria ser justo. Mas seu despacho (de 9 de setembro de 2005) parecia conter uma diferença. o representante do espólio foi brutal: “Não interessa quem não tem dinheiro. Os moradores descon aram de corrupção. mais uma juíza nova na Sexta Vara Cível reemitiu a ordem de despejo.

pretendendo representar suas próprias organizações e intenções. Hoje. mais adeptos de fazer justiça e não apenas impor leis? Será que sugerem que os tribunais estão abrindo espaço para interpretações sociais e não só cientí cas no exercício dos critérios judiciais? Talvez um pouco.32 Regularmente. na extorsão e em outras ações criminosas. A essa altura. mais a nado com as histórias de injustiça que estruturam as relações sociais. com assassinato de policiais. Esses “comandos” criminosos se originaram no início dos anos 1990 como coletivos dentro de prisões estaduais do Rio de Janeiro e de São Paulo. que foram repetidas vezes desapontados e abandonados pelo governo. que sofreram a arbitrariedade de incontáveis manobras e idiossincrasias judiciais. tornando o Judiciário mais aberto às reivindicações da sociedade por accountability. não posso explorar nenhuma das possibilidades porque o espólio nunca apresentou seu levantamento. esses cartéis criminosos lançam de surpresa ataques muito bem coordenados contra entidades governamentais que eles a rmam cometerem crimes contra prisioneiros. Encravados também em alguns dos bairros periféricos mais pobres. dos direitos e da justiça por notórias organizações de criminosos. A FALA DOS COMANDOS E A FALA DOS DIREITOS O terror judicial frequentemente imposto aos cidadãos brasileiros torna o caso seguinte de emaranhamento da democracia e de seus contrários apenas um pouco menos surpreendente.poder seguir adiante com os outros. Mas podem também indicar uma atualização no repertório do terror judicial que os moradores vivenciaram por muitas décadas. tanto dentro como fora das prisões. presumivelmente para estimulá-la a agir. eles comandam grandes transações no trá co de drogas. eles se formaram em grande medida para defender os direitos dos prisioneiros dos terrivelmente abusivos sistemas prisionais. e a ordem de despejo parece ter expirado mais uma vez. que esse terror vai retornar. Eles se consideram em guerra contra o aparato de segurança do Estado. compradores da classe trabalhadora de boa-fé que foram enganados sem terem cometido nenhum erro. Deu também prazo de 48 horas para a prefeitura rever o caso. eles dominam certa parcela de território urbano com um regime que distribui tanto execuções sumárias como fraldas. Re ro-me ao uso da linguagem da cidadania democrática. Serão tais estipulações provas de que os tribunais (ou essa juíza em particular) desenvolveram uma nova sensibilidade ao histórico social desse con ito e de sua relação com a lei? Será que elas indicam uma tentativa de aplicar a lei de forma a considerar as mudanças das condições sociais. mesclando terror com serviço público.31 Esse uso oferece uma estranha prova de legitimidade generalizada do discurso democrático na sociedade brasileira. funcionários de presídios e . “é certo […] contudo”. medicamentos e empregos. De início. porém. Para eterno constrangimento das autoridades. Essa defesa era essencial para o recrutamento e a organização de seus membros. leite. Nessa combinação. e seus alvos são em especial pessoas e propriedades do sistema judicial. não são muito diferentes do próprio Estado. Para os moradores do Lar Nacional. essas atividades são coordenadas de dentro das prisões por meio de uma rede clandestina de telefones celulares.

Já em seu primeiro artigo.34 O que podemos entender desses apelos aos direitos. só queremos os nossos direitos e não vamos abrir mão pois o comércio tem que permanecer com as portas fechadas até a meia-noite de terça-feira (25/2/2003). O Regime Disciplinar Diferenciado agride o primado da ressocialização do sentenciado vigente na consciência mundial desde o ilusionismo [sic] e pedra angular do sistema penitenciário. Em agosto de 2006. o PCC raptou um repórter e um assistente da TV Globo. não estamos de brincadeira. quem está brincando é a política com esse total abuso de poder e com essa roubalheira [. É coerente com a perspectiva de eliminação e inabilitação dos setores sociais redundantes [ou seja. o PCC também já atacou o transporte público. com observância apenas do primeiro. en m. A introdução do Regime Disciplinar Diferenciado [RDD] pela Lei 10.juízes. […] que se faça justiça em cima da injustiça que é o sistema carcerário. em contradição à Constituição Federal. Torturam e mutilam. decapitam. Queremos um sistema carcerário com condições humanas. . sem trabalho. Não estamos pedindo nada mais do que está dentro da lei. sem assistência médica. mostra-se ilegal. desumano. e com patrocínio de “megarrebeliões” nas prisões. Assim. a LEP [Lei de Execuções Penais]. Em São Paulo. Eles não apenas matam. em 24 de fevereiro de 2003. sem assistência jurídica. Às vezes os comandos fazem pronunciamentos públicos. dos prisioneiros] […] conferindo à pena de prisão o nítido caráter de castigo cruel. um ataque à cidade ou uma operação policial. no qual sofremos inúmeras humilhações e espancamentos. Queremos que a lei seja cumprida na sua totalidade. sua trajetória e as transformações sociais que induz? Deveríamos considerá-las indicativas de algo a respeito dessas questões? Ou deveríamos considerá-las com ceticismo. venho pelo único meio encontrado por nós para transmitir um comunicado para a sociedade e os governantes. não um sistema falido. o PCC. Concluía da seguinte forma: ENTÃO BASTA. […] O Estado Democrático de Direito tem a obrigação e o dever de dar o mínimo de condições de sobrevivência para os sentenciados. sem escola. como nada mais do que tentativas descaradas de dissimulação e zombaria? Confesso que não tenho resposta segura a essas perguntas. Justi cam o crime e o terror com a racionalidade da cidadania. essa fala dos comandos toma a forma de declarações de direitos. em geral durante uma rebelião em uma prisão. A violência que exercem contra renegados e membros de comandos rivais é excepcionalmente brutal.] que o judiciário passe a esvaziar as prisões e agir dentro da lei antes que seja tarde. sem nada. evisceram e queimam — embora o PCC seja também conhecido por oferecer aos condenados a escolha de um “kit suicídio”. Só libertou os dois ilesos depois que a Globo transmitiu um videoclipe em que um homem encapuzado lia um manifesto protestando contra os abusos do Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) de confinamento solitário: Como integrante do Primeiro Comando da Capital. o Comando Vermelho emitiu uma declaração à cidade do Rio de Janeiro impondo o fechamento do comércio em nome da justiça. e aquele que ousar abrir as portas será punido de uma forma ou de outra [.792/2003 […] inverte a lógica da execução penal. à justiça e ao estado democrático de direito pelo crime organizado? O que eles sugerem sobre a democracia brasileira. queimando ônibus vazios em campanhas de violência que paralisaram várias vezes a cidade em 2006. Curiosamente. traça como objetivo […] [que] qualquer modalidade de cumprimento de pena em que não haja constância dos dois objetivos legais.] não adianta. castigo e a reintegração social. Se as leis foram feitas para serem cumpridas porque este abuso?33 Os comandos com frequência justi cam seus maciços atos de violência pública como a única maneira de chamar atenção para os agrantes maus-tratos aos prisioneiros.

mesmo nas perversas fronteiras mais distantes da sociedade brasileira — nos comandos e nos esquadrões da morte da polícia —. Será que devemos nos surpreender que agora as duas partes partilhem a legitimação da fala dos direitos? O paradigma da cidadania diferenciada perdura porque os lugares históricos de sua produção — o mau governo da lei. Daí o emaranhado do diferenciado e do insurgente ter efeitos contraditórios. Além disso. Porém. Mas. a ilegalidade como norma de residência. Se não zesse isso. Esse deslizamento entre o legal e o ilegal é um desenvolvimento profundamente paradoxal para a democracia política. a restrição da cidadania política e da educação. Meu mapeamento mostra que. a violência do Estado. embora estas sejam um fator importante. e as entrevistas são evidentemente pouco con áveis. embora o respeito aos direitos dos presos possa eliminar uma importante motivação para a adesão a eles nas prisões. situando-o em relação ao paradigma histórico da cidadania brasileira que a democratização desestabiliza. Exatamente devido à persistência das antigas fórmulas de cidadania diferenciada. não haveria consequências. Assim.ao menos não com respeito às visões mais profundas dos membros dessas organizações criminosas. O que posso fazer de mais produtivo é analisar essa fala dos comandos através de uma triangulação. só posso discutir o discurso público. a experiência de sua autoconstrução ativou erupções de uma cidadania insurgente exatamente nos pontos de apoio da diferenciação. embora as formas e funções da cidadania diferenciada tenham produzido as periferias urbanas. Ele corrói a coerência de categorias normalizadas de dominação que davam à vida cotidiana seu sentido de ordem e segurança. não poderíamos esperar que essa cidadania urbana insurgente fosse estável em sua expansão. ganharam direitos à cidade. Mas uma das consequências é provocar reações violentas que solapam as novas práticas e instituições . criaram novas esferas de participação e de compreensão de seus direitos e transformaram a lei numa vantagem. criminosos e polícia usam uma linguagem semelhante de cidadania democrática insurgente como padrão de avaliação para explicar sua violência assassina. uma simbiose fundamental para a perpetuação da cidadania diferenciada. e avaliar essa desestabilização no que se refere à violência. Também mostrei que essa história assombra o presente de duas maneiras. Meu objetivo nesse mapeamento não é apresentar uma história desses cartéis criminosos nem atribuir seu crescimento apenas às injustiças da cidadania diferenciada. quando os moradores adquiriram direitos políticos. como tenho mostrado neste livro. novas incivilidades e injustiças surgem com a democratização. pois é quase impossível realizar uma pesquisa etnográ ca organizada dentro desses comandos. Tampouco penso que a abordagem desses problemas vá encerrar a criminalidade e a violência desses comandos. Essa experiência da cidade subverteu o antigo regime de cidadania mesmo quando o perpetuou em novas formas de segregação espacial e social. tornaram-se proprietários de imóveis e consumidores modernos. o servilismo e assim por diante — continuaram poderosos sob todos os tipos de regime político. as produções do legal e do ilegal há muito vêm sendo processos recíprocos no Brasil. Ela tanto perpetua o passado como fornece oportunidades para sua desestabilização. Também ela apresenta lacunas por onde desmorona.

essa ira é a voz de suas respostas às desestabilizações do presente. menos de 13% resultaram em alguma investigação policial. Mas. A violência policial surge como recurso para restabelecer essa ordem. existem outros fatores e tipos de desestabilização. Veremos que todas se referem aos direitos democráticos e ao estado de direito e. subverte a ordem social que eles aceitavam tacitamente. Ressalte-se que a polícia cometeu cerca de 10% dos homicídios na região metropolitana de São Paulo nos últimos quinze anos. só um terço comunicou o fato à polícia. a democracia traz seus próprios tipos de violência. Emblemáticos dessa instável mistura de novas e antigas formulações de cidadania não são apenas os altos níveis de violência cotidiana. injustiça e impunidade satura a experiência contemporânea com uma difusa sensação não só de perversidade e instabilidade como de indignação. o que inclui a violência criminosa e policial. violência. mas também a sensação combinada de violação. tanto dos criminosos como da polícia. novas privatizações da segurança e apoio popular a medidas violentas de controle social. Elas não geram esses atributos sozinhas. a criminalização dos pobres. feitas em reação às suas percepções do presente. e. algumas com o objetivo de restaurar os velhos paradigmas da ordem. as taxas de homicídio na maior parte de suas regiões metropolitanas estavam entre as mais altas do mundo. em meados dos anos 1990. até um ponto em que. e por isso é corresponsável pelos altos níveis de violência. em meados dos anos 1980. que. Durante a transição para a democracia eleitoral. 50% dos moradores da cidade de São Paulo e 35% da população do estado haviam sido agredidos. a violência criminosa aparece como consequência de seu esboroamento. para substanciar esse argumento. além disso. Do 1. Entre as vítimas. que todas as ressignificam para justificar a violência. A combinação de democracia. Tanto já foi escrito sobre essa violência que só preciso observar que a criminalidade violenta vem aumentando no Brasil de forma contínua desde o início da década de 1980. 80% conheciam uma vítima de crime violento. para a polícia.2 milhão de crimes registrados na polícia entre janeiro e junho de 2006. a incivilidade em encontros públicos. impunidade e indignação que provocam. na medida em que esse embate entre cidadanias provoca uma mudança democrática. a indignação diante da impunidade. Só que o fazem de formas opostas e talvez com finalidades opostas em jogo. para os criminosos. que irrompem onde ela desestabiliza formulações mais antigas de ordem e repressão. Essas reações são articuladas em torno dos lugares históricos da diferenciação entre os cidadãos e moldam de forma distinta as condições que caracterizam esse período contraditório da democratização do Brasil.35 Em 2006. 84% desses crimes ocorreram em espaços públicos da cidade. Para os principais agentes da violência cotidiana — a polícia e as quadrilhas —.democráticas. Vamos examinar as diversas declarações públicas da polícia e dos comandos. grandes con itos de propriedade. Os dois tipos de violência aparecem como reação ao seu desfecho percebido. O descrédito da polícia entre os cidadãos é tão evidente quanto o dos tribunais. o movimento pelos direitos humanos que havia originado a anistia para presos políticos mudou o foco para defender os . expõe os clamorosos fracassos dessa mesma ordem.

direitos humanos de presos comuns. O movimento denunciava com vigor o abuso policial e
expunha a degradação das prisões brasileiras, condenando, em outras palavras, o regime histórico
de cidadania que era o cotidiano normal para a polícia. Como muitos já analisaram — ninguém de
forma tão lúcida quanto Caldeira (2000) —, a reação da polícia contra as campanhas pelos direitos
humanos foi imediata e violenta. A seguir, tem-se uma passagem do Manifesto da Associação dos
Delegados de Polícia do Estado de São Paulo, dirigida à população da cidade em 4 de outubro de
1985 e distribuída entre as unidades da polícia. Os chefes zeram essa declaração num momento
crucial da democratização. Ela foi divulgada no auge da campanha das primeiras eleições diretas
para prefeito desde a ditadura, e durante um período em que o primeiro governador eleito, Franco
Montoro (1983-7), tentava reduzir o uso de força letal pela polícia. Como era previsível, os
delegados atacaram essa iniciativa, criticando o projeto de direitos humanos e aqueles que o
apoiavam:
Os tempos atuais são de intranquilidade para você e de total garantia para os que matam, roubam, estupram. A sua família é
destroçada e o seu patrimônio, conseguido à custa de muito sacrifício, é tranquilamente subtraído. E por que isto acontece? A
resposta você sabe. Acreditando em promessas, escolhemos o governador errado, o partido errado, o PMDB. Quantos crimes
ocorreram no seu bairro e quantos criminosos foram por eles responsabilizados? Esta resposta você também sabe. Eles, os
bandidos, são protegidos pelos tais “direitos humanos”, coisa que o governo acha que você, cidadão honesto e trabalhador, não
merece.

Em sua argumentação, a polícia invoca os direitos humanos de acordo com o paradigma histórico
da cidadania diferenciada, na qual direitos e justiça são privilégio de certas categorias, em essência
privilégios dos que têm o poder e os recursos para manipular o sistema legal. De acordo com essa
lógica, direitos humanos para criminosos não são mais do que “privilégios de bandidos” — como
define a expressão popularizada nesse período e que Caldeira (2000: 340-6) analisa. Se a justiça e os
direitos são privilégios e se a maioria dos cidadãos brasileiros não tem acesso a eles, claro que é um
ultraje propiciá-los aos criminosos. Em termos da minha análise de cidadania, portanto, os
delegados de polícia usam a ordem diferenciada da cidadania para solapar a cidadania insurgente.
Para eles, a “solução” não é condenar essa ordem exigindo que os direitos humanos estejam
disponíveis para todos os brasileiros como atributos absolutos de sua cidadania. Em vez disso, usam
a ordem histórica para condenar a democracia e seus direitos humanos por incitar a violência
criminal e para justi car a violenta repressão de civis suspeitos de crimes — que se agravou
progressivamente, nesse período, de pouco mais de quinhentos assassinatos em 1989 para 1470 em
1992.
Essa mesma lógica ca clara nas políticas dos governadores de estado, sob cujo comando
funciona a polícia militar. Assim, quando o número de mortes pela polícia começou a subir de
forma considerável em São Paulo depois de 1989, como resultado dessas políticas, o secretário
estadual de Segurança Pública, Luís Antonio Fleury Filho, declarou: “O fato de este ano terem
ocorrido mais mortes causadas pela PM signi ca que ela está mais atuante. Quanto mais polícia nas
ruas, mais chances existem de um confronto entre marginais e policiais […]. No meu ponto de

vista, o que a população quer é que a polícia chegue junto”.36
Tanto os delegados de polícia como os governadores invocam o fundamento moral dos direitos e
a dignidade dos cidadãos como forma perversa de negá-los. Consideram-nos como algo
indisponível à maioria, de modo a justificar sua constante negação. Como não está disponível para a
maioria, não deveria estar disponível para os criminosos. Mas quem são os criminosos? Antes de
serem condenados, são suspeitos. Como a polícia costuma ver os pobres como suspeitos de algum
crime, a maioria é suspeita e não deve ter direitos humanos por uma questão de segurança. Essa
lógica da segurança, portanto, incita a cidadania a solapar a democracia, para desarticular sua
linguagem de valores insurgentes e de medidas comuns. Se aceitarmos os inúmeros casos de
acusações de abuso policial e corrupção em todo o Brasil como provas, documentadas desde o início
da democratização por organizações de direitos humanos e cidadãos brasileiros, esses esforços para
representar a violência policial como forma de tirar a sociedade do caos e limitar as reformas da
polícia e das prisões foram bem-sucedidos.37
No entanto, a polícia não cou inteiramente imune à democracia. Uma década depois do citado
manifesto dos delegados, a Polícia Militar do Estado de São Paulo se sentiu obrigada a mudar sua
imagem pública. Adotando novas iniciativas, como um policiamento comunitário, a PM tentou
reverter sua reputação como instituição que, com regularidade, abusava dos cidadãos. Em 2001,
desenvolveu uma nova página na internet que apresentava a instituição e as ações da polícia em
termos de cidadania democrática:
A Constituição de 1988 trouxe um novo conceito que se fortaleceu na nossa sociedade: cidadania. As pessoas caram mais
conscientes de seus direitos, mais exigentes em relação às Instituições, e isso foi um convite aos que desejam servir bem a revisar
suas posturas. A questão não era só de expandir os serviços, mas também de atitude […]. Com a nova ordem estabelecida, algo
mais era necessário do que apenas nos colocarmos na posição dos clientes e imaginar novos produtos […]. Foi um convite para
uma mudança cultural […]. Era necessário mudar de um modelo burocrático […] para um novo modelo, o gerencial, que foi
introduzido na Polícia Militar do Estado de São Paulo através de um Programa de Melhoria de Qualidade. Seu objetivo é se
aproximar mais da população via a melhoria dos serviços prestados à população.38

Nessa declaração, a polícia anunciou um novo modelo de operação e de identidade institucional
regido pelas regras constitucionais de uma cidadania democrática insurgente. O trecho indica a
legitimidade que essa cidadania adquiriu. Além disso, o modelo apresenta os cidadãos como
clientes exigentes e a segurança pública como produto oferecido pela polícia. Sua lógica
organizacional mistura assim as racionalidades legal e mercadológica, uni cadas por uma noção
gerencial — uma embalagem que indica que a polícia militar também seguiu o movimento
neoliberal de democratização global dos anos 1990.
Mas, se a polícia militar mudou seu discurso e até mesmo aspectos de sua organização, o mesmo
não se pode dizer de suas práticas repressivas. Apesar dos esforços para reformar a polícia
uni cando algumas de suas operações, instituindo uma ouvidoria, criando o policiamento
comunitário e exigindo que os o ciais recebessem treinamento em direitos humanos, a polícia de
São Paulo continua matando civis em números muito altos por todo o estado: 807 no ano de 2000 e

703 em 2001. Como revelam as investigações conduzidas pelo ouvidor da polícia, a maioria dos que
foram mortos não tinha antecedentes criminais (Cunha 2000). O fato de essas violações
continuarem apesar das boas intenções para controlá-las indica a resistência desses limites à
democratização do Brasil. Sugere ainda outra perversidade: como deixam claro minhas entrevistas
com brasileiros de todas as classes sociais, e como analisou Caldeira (2000, 2002), as mortes pela
polícia costumam corresponder às expectativas de cidadãos frustrados com a ine cácia do sistema
judiciário, que não acreditam na possibilidade de segurança numa sociedade com imensas
desigualdades. Nesse contexto, muitos cidadãos veem as mortes pela polícia como uma realização
de seu direito à segurança.
Gostaria de voltar a outro indicador do limite com o qual comecei, com as declarações públicas
de grupos criminosos baseados nas prisões, que combinam as racionalidades do crime, da justiça e
da revolução. A despeito de sua brutalidade, mesmo esses cartéis criminosos não conseguem agir
sem a linguagem da cidadania democrática insurgente. Eles falam em justiça, direitos e estado de
direito da mesma forma que os relatórios de direitos humanos, apresentando-se como vítimas de
desigualdades sociais, abusos e violência entrincheirados, dos quais eles, cidadãos brasileiros, são
vítimas de seu próprio sistema histórico de cidadania nacional. Quando indagado em uma
audiência no Congresso no 2001 se era o líder do PCC, Marcola respondeu: “Sou uma pessoa que
luta pelos seus direitos. Li o Código Penal e a Lei de Execuções Penais e sei que sou violentado em
todos os meus direitos. […] Então, doutor, cadê o Estado? […] Nesse contexto, o que é a sociedade
para mim? […] O PCC se revolta contra a hipocrisia” (citado em Caros Amigos 10 (111) 2006: 26) .
O estatuto do PCC (1993) — pois esses comandos têm estatutos de fundação — junta esse discurso
por direitos ao da revolução e do crime e termina com um grito de batalha: “Em coligação com o
Comando Vermelho — CV e PCC iremos revolucionar o país dentro das prisões e nosso braço
armado será o ‘Terror dos Poderosos’ opressores e tiranos que usam o Anexo de Taubaté e o Bangu
1 do Rio de Janeiro como instrumento de vingança da sociedade […]. Liberdade, Justiça e Paz!!!”.39
A declaração do CV para a cidade do Rio de Janeiro que mencionei no início, e reproduzo a
seguir exatamente como publicada, usa um explícito discurso de direitos, cidadania e estado de
direito para apresentar suas exigências. Depois de denunciar “o terror [que o governo] vem
praticando nas comunidades carentes”, afirma:

Então já está na hora de reagir com rmeza e determinação e mostrar a essa política nojenta e opressora que merecemos ser
tratados com respeito, dignidade, e igualdade, porque se isso não vier a acontecer, não mais deixaremos e causar o caos nesta
cidade, pois é um absurdo tudo isso continuar acontecendo e sempre ficar impune.
Também o judiciário vem fazendo o que bem entende de seu poder […] porque com total abuso de poder está violando todas as
leis contituídas e legais e até mesmo os Advogados são alvos da hipocrisia e do abuso, e nada podem fazer, então se alguém tem
que dar um basta nesta violência este alguém terá que sermos nós porque o povo não tem como lutar pelos seus direitos, mas
sabe claramente quem está lhe roubando e massacrando e isso é o que importa, pois já foi o tempo que bandido eram das favelas e
estavam atrais das grades de uma prisão, pois, hoje em dia, que se encontra morando numa favela ou está atrais das grades de
uma prisão são nada mais nada menos que pessoas humildes e pobres, e nosso presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o país só
conta com o senhor para sair dessa lama pois será que existe violência maior que roubarem os cofres públicos e matar o povo a
mingau, sem o salário mínimo decente, sem hospitais, sem trabalho e sem comida, será que esta violência dará certo para acabar

coma violência, pois violência gera violência, será que entre os presos deste país existe um que tenha cometido um crime mais
hediondo do que matar uma nação de fome e na miséria.
Então BASTA só queremos os nossos direitos […]. Se as leis foram feitas para serem cumpridas porque este abuso?

Não é minha intenção romantizar essas declarações. Elas foram feitas por criminosos cujas vidas
se afundam na insanidade pessoal de uma violência especialmente cruel e aterrorizante. E foram
feitas, além disso, para justi car essa violência. Ainda que esses comandos mereçam créditos pela
introdução de alguma proteção dentro das prisões — em especial reduzindo os estupros — e da
educação dos presos quanto aos seus direitos, esse domínio é feito com base em outros tipos de
violência dentro e fora das prisões. Ademais, apesar de suas exigências por um estado de direito
democrático, não há nada de democrático em suas organizações paramilitares, que “não admite
rivalidades internas, disputa do poder na liderança do Comando” (artigo 12). Sob esse aspecto,
pode-se argumentar que elas são como muitos outros grupos da sociedade civil. Mas sua ordenação
draconiana obriga também que os membros em liberdade façam contribuições mensais sob pena de
“morte sem perdão” (artigo 7). Se os comandos começaram com a ira dos revolucionários, hoje se
dedicam também ao grande negócio do narcotrá co e da extorsão fora das prisões. Em outras
palavras, continuam sendo violentos grupos criminosos.
Mesmo assim, sua linguagem é surpreendente, não só pelo uso da fala dos direitos como pelo
contraste com o manifesto dos delegados de polícia, que também são indivíduos violentos
justi cando a violência. O manifesto da polícia nega a legitimidade democrática como estrutura de
referência da cidadania. Solapa a nova democracia do Brasil ao advogar práticas violentas e ilegais.
Para os delegados, a lei continua sendo, como sempre foi, “para os inimigos”. Em contraste, os
comandos disparam sua indignação contra os abusos históricos desse mau governo da lei e a
apresentam nos termos da nova democracia e do seu projeto de justiça social. Essa indignação é a
dos brasileiros pobres contra a qualidade indigna da cidadania brasileira. Se, no passado, os
oprimidos encontraram expressão em movimentos religiosos milenaristas, hoje eles têm uma voz
secular que se expressa na fala dos direitos.
O mais notável nessas falas do crime e dos direitos é que, mesmo nesse extremo perverso da
sociedade, a cidadania democrática insurgente se tornou a linguagem comum e o discurso moral
para justi car o ilegal assim como o legal. Essa nova comensurabilidade se refere à cidade e à nação
como uma esfera pública na qual todos os cidadãos têm direito a uma participação justa. As
reivindicações dos pobres por direitos — inclusive as dos comandos — no que diz respeito a essa
substância pública constituem sua compreensão de um novo projeto democrático de cidadania.
Além disso, essa nova fala dos direitos que os pobres articulam sugere que a lei, que os vem
oprimindo há séculos, se tornou algo íntimo de seu sentido de pertencer ao público, algo que as
pessoas querem para si mesmas, não mais “para os inimigos”, mas para os cidadãos. Só podemos
concluir que essa mudança na cultura da lei promete ser fundamental para o desenvolvimento da
democracia brasileira.
A perversidade dessa democracia continua a ser a de ainda não ter concretizado uma justiça

social signi cativa e um estado de direito igualitário. Contudo, o Brasil nunca teve nenhum dos
dois sob qualquer regime. É tarde demais para os membros dos comandos evitarem um destino
terrível. Mas ao menos eles nos dizem, mesmo que não consigam nos mostrar, que os brasileiros
zeram da justiça social e do estado de direito as aspirações centrais de sua democracia, e que os
cidadãos brasileiros, mesmo nos extremos, descobriram nesse projeto de cidadania um campo
comum.

CIDADANIAS INSURGENTES E DEMOCRACIAS DISJUNTIVAS

As democracias que não conseguem proteger o próprio corpo do cidadão ou produzir uma
cidade justa são, hoje, muito mais numerosas do que as que conseguem fazê-lo, ainda que a
promessa dessas realizações constitua boa parte do apelo democrático. Para entender o que está em
jogo nesse problema, alguns (eu inclusive) trabalharam o argumento de Bobbio (1989: 155-6) de
que a democracia contemporânea se desenvolve “acima de tudo por meio de [sua] extensão para
além da política para outras esferas”. Com isso, ele ressalta “a transferência de democracia de uma
esfera política (em que o indivíduo é considerado cidadão) para a esfera social (em que o indivíduo
é considerado multifacetado)”. Em um in uente ensaio, O’Donnell (1992: 49) escreve que a
consolidação democrática requer “a extensão de relações democráticas semelhantes em outras
esferas [não só a política] da vida social”; e, em outro (1993: 134), ele argumenta que “mesmo uma
de nição política da democracia (tal como recomendada pela maioria dos autores contemporâneos,
a qual adoto aqui) não deveria deixar de levantar a questão da extensão em que a cidadania é
realmente exercida em um dado país”. Ainda que essa questão não seja de nitiva para ele, é
“politicamente relevante”, porque “a inefetividade do estado-enquanto-lei” produz “cidadania de
‘baixa intensidade’” e “áreas marrons” em novas democracias, nas quais os direitos do cidadão são
sistematicamente violados, e porque essas condições de cidadania têm consequências terríveis para
a democracia.
Só discordo da limitação desse tipo de avaliação “à teoria política da democracia política” (1993:
134) e a democracias emergentes. Produzidas na ciência política e nas relações internacionais, a
maior parte das avaliações da democracia contemporânea não reconhece a centralidade de algo
mais que cidadania política e as liberdades civis a ela vinculadas. Em vez disso, a maioria se
concentra na transformação de sistemas políticos — na mudança do regime, competição eleitoral e
suas precondições — e nas operações de governo que são marcos da democracia do Atlântico
Norte. Essas considerações são por certo fundamentais. Estabelecem que uma maioria de países
(63%) se tornou agora democrática no sentido de que são democracias eleitorais e têm vivido esse
processo, no nal do século XX, num ritmo nunca antes experimentado. 40 No entanto, esse tipo de
foco político não consegue explicar de maneira adequada, se é que consegue, o tipo de disjunções
da cidadania que analisei no Brasil e que prevalecem entre a maior parte das democracias
emergentes — ou seja, a coincidência da política democrática com a violência disseminadas e a
injustiça contra os cidadãos. Essa disjunção se tornou uma condição tão global da democratização

de experiência e instituição e de performance e roteiro constitui o que considero um exame antropológico. contudo.contemporânea quanto as eleições livres. Portanto. atores e roteiros. socioeconômicos. Além disso. O que elas sugerem é que. e a segunda é que os processos e as práticas que de nem a cidadania são inerentemente disjuntivos — não cumulativos. sua aposta em estar sempre inacabada. o cânone na teoria social ocidental constituiu a política como uma esfera de interesse que exclui o domínio dos assuntos domésticos. O que está em jogo então nas disjunções da democracia contemporânea é justamente a concepção da política. heterogêneos e corrosivos. Nessa visão. a realização da cidadania democrática continua ine caz. Será que essa abrangência torna a democracia inatingível? Como totalidade. as histórias dessas democracias exigem uma revisão de muitas suposições sobre a democratização que se tornaram padronizadas. a democracia política não é su ciente para garantir a cidadania civil e social e para produzir um estado democrático de direito. e a própria democracia política perde legitimidade como forma de governo. sem dúvida. Por isso. lineares ou distribuídos de maneira homogênea entre os cidadãos. legais e culturais da cidadania é tão essencial para o conceito de democracia moderna como sua extensão para a esfera política. no qual o acesso à infraestrutura (como eletricidade e rede de esgoto) e à segurança pessoal é tão importante na análise de uma democracia quanto o direito de voto. Como nos lembra Agamben (2002: 9-20). Aristóteles distingue o domínio da . que vai além da esfera política. ressalto que a extensão da democracia para os aspectos civis. preferi enfatizar duas perspectivas: a primeira é que a realização da cidadania é a questão central. argumentando. Demonstram ao mesmo tempo a insu ciência da política democrática para realizar a cidadania democrática e as limitações da teoria democrática baseada apenas na política eleitoral para a compreensão do problema. Desde que a Política de Aristóteles estabeleceu a distinção. abandonar a ideia de democracia como projeto totalizante. elas indicam as inadequações da teoria democrática amparada na história e na cultura do Atlântico Norte para entender o alcance e a prática de uma democracia global. mas sempre uma mistura de elementos progressivos e regressivos. da democracia. a democracia está necessariamente ligada a uma concepção mais ampla de cidadania. como essa nova democratização está maciçamente fora do Atlântico Norte. Sem esses dois elementos. Esses processos problemáticos signi cam que a realização da democracia para a maioria dos cidadãos exige mudanças sociais e culturais que não se encaixam na limitada compreensão clássica da política. não a colateral. desequilibrados. que aquilo que é produtivo numa democracia é a sua condição de incompletude e de contradição. Pelas mesmas razões.41 Mais do que uma política especí ca ou um cenário montado com instituições. ao contrário. e sua avaliação está vinculada às complexidades das realizações da cidadania em contextos históricos especí cos. embora necessária. Tenho proposto. o problema das concepções políticas estreitas da democracia é que não conseguem analisar as próprias contradições que caracterizam os processos democráticos contemporâneos em todo o mundo e que solapam democracias políticas existentes de fato. Essa complexidade de história e etnogra a.

crianças. Mas o que distingue muitas cidadanias modernas — como este livro mostrou para o caso brasileiro — é exatamente esta intenção: elas apresentam uma política de diferenças legalizadas para reduzir a vida da grande maioria de seus cidadãos a uma desigualdade e uma miséria persistentes. e igualmente obrigados pelas leis que formulam conforme administram a cidade. cujos assuntos e membros são governados de forma hierárquica por uma autoridade paternal. Se é possível a rmar que a cidadania clássica também politizava a “mera vida” cotidiana ao con ná-la ao domínio do lar e a seu chefe. Qualquer um que tenha jantado com as elites e depois pisado nas favelas de suas cidades ou em suas fazendas entende a profunda e cácia dessa politização da vida cotidiana. pessoais. A política constitui o domínio da cidade ou da cidade-Estado como uma associação de cidadãos formada por homens livres adultos. Essas diferenciações estabelecem o conjunto básico de oposições que caracteriza os dois domínios nos quais se divide a vida social no mundo clássico. domésticos. Claro que já houve um coro de críticas atacando essas dicotomias. à reprodução e às necessidades pessoais da vida diária — e por isso impede a participação das pessoas identi cadas com ele: mulheres. essas oposições do pensamento clássico informam as conceituações dicotômicas pelas quais a política tem sido con gurada desde então. Estudiosas feministas (Okin 1992. sexuais e biológicos como uma mudança decisiva no desenvolvimento da modernidade. seu riso e sua música sem dúvida é uma mostra da resiliência humana. das leituras táticas de Certeau (1984) das práticas da vida cotidiana da cidade e da reconceituação de Foucault (1978. inclusive a de Marx (2010: 42) quanto ao projeto de emancipação política ancorado na “cisão do homem em público e privado”. ela não o fazia para assegurar a sujeição e a servidão dos cidadãos. Mas é também uma estratégia de dominação.política. laborais. 1991) da política como biopolítica. a educação e a tranquilidade entre os residentes da pólis. Estado e família. na qual questões de poder de soberania giram cada vez mais em torno da administração da vida biológica das populações. serviçais. estado de direito e ausência de lei. Ainda que equivocado. De uma forma ou de outra. como “o viver segundo o bem” do doméstico. Pateman 1989. que se refere ao “simples viver”. a contestação feminista de que “o pessoal é político” e sua recusa em considerar que as mulheres. do oikos. mas sempre permitindo certas vitalidades. à família. Essas e outras críticas marcam a politização do oikos e seus assuntos privados. não são “como os homens”. iguais na condição de membros. Como estratégia . o pai de família. O doméstico é o domínio da administração da casa. reduzindo suas vidas ao mero mínimo. cotidianos. trabalhadores. A pólis atua sobre o oikos con nando-o à custódia do chefe da casa. a política não exclui esse domínio doméstico por simples omissão. a pólis. que reduz as condições de vida ao mínimo. na condição de cidadãs. jurídico- constitucional e biológico e assim por diante. político e pessoal. entre público e privado. rua e casa. transformando as ordens clássicas do social nas modernas. por exemplo) há muito observaram que esse domínio jurídico-político é de nido em oposição ao domínio doméstico e familiar — à residência. como sua única autoridade. Contudo. O fato de esses cidadãos reduzidos manterem sua dignidade pessoal. Aristóteles considera sua organização um meio “natural” de fomentar a prosperidade.

Na verdade. propriedade. reduzindo sua existência a “meras vidas”. com todas as consequências que observei para a sua cidadania. A ilegalidade não é só uma condição difundida de vida residencial que muitos cidadãos são obrigados a sofrer. Em 1972. que as elites brasileiras consolidaram ao longo do século XIX como resposta à formação da nação brasileira e ao m da escravidão. Do mesmo modo. o público e o privado. demonstrei que a ilegalidade tem sido indispensável tanto para sua formulação como para seu exercício. Seus líderes são os “meramente cidadãos” do regime entrincheirado: mulheres. na zona da vida doméstica. é provável que a base para essas novas cidadanias seja a cidade autoconstruída. Essas condições são uma perpetração e não uma omissão de um tipo especí co de cidadania. incitam os pobres urbanos a exigir uma vida de cidadão. que a usam para constituir um poder legítimo. favelados. semianalfabetos e. encanamento. não é na fábrica ou nas salas de sindicatos ou nas urnas de votação que eles articulam essa exigência com mais força e originalidade. É também uma técnica política dominada pelas elites. suas demandas por uma nova formulação de cidadania são concebidas em termos de moradia. sobre essa fundação. a constituem como uma pólis com uma diferente ordem de cidadania. É uma insurgência que começa com a luta pelo direito a uma vida cotidiana na cidade merecedora da dignidade de cidadão. Longe de manter distantes o legal e o ilegal. excluída da propriedade legal. se este estudo demonstra como uma cidadania insurgente pode irromper nas próprias fundações do entrincheirado. trabalhadores braçais. como a que estudei em São Paulo. Mas. nesses tempos de urbanização global. não apenas constroem uma grande e nova cidade como. uma cidadania desde o início universalmente includente na a liação e maciçamente desigual na distribuição. Esses são os cidadãos que. no processo de construir seus espaços residenciais. segurança e outros aspectos da vida cotidiana. contudo. aqueles cujas famílias têm posses precárias de suas casas e que mal conseguem assegurar um lote residencial numa região distante dos centros de elite. mostra também que o insurgente inevitavelmente se atola no passado que herda . acima de tudo. o justo e o injusto. e o político e o doméstico. alienada da lei e por ela vitimada. Muitas cidades no hemisfério Sul do planeta vivenciam hoje movimentos semelhantes de cidadania insurgente. As mesmas forças que de fato fragmentaram e dominaram os pobres rurais. Entre seus aspectos-chave. creches. e incorporada ao mercado de trabalho como serviçais. na qual atos ilegais têm em vista uma legalização con ável e previsível. os mesmos fatores que produziram esse regime entrincheirado mobilizam uma insurgência de cidadãos. Sob o signo da cidade. No entanto. sem acesso à educação. forçada a condições de habitação segregadas e frequentemente ilegais. É no domínio do oikos. tomando forma nas remotas periferias urbanas em torno da autoconstrução de residências. a maioria dos cidadãos estava sendo sistematicamente privada de direitos políticos. e portanto para a constituição da própria comunidade política do Brasil. quando os moradores do Jardim das Camélias bateram no o cial de justiça. esse regime de cidadania se baseia na administração de suas interseções.de dominação. o emprego dessas cidadanias diferenciadas tanto priva a maioria dos cidadãos de seu bem-estar físico quanto diminui sua posição como cidadãos.

Faz do presente etnográ co em que as cidadanias insurgentes e suas novas democracias devem fincar raízes para que floresçam um terreno instável. porém vital.assim como o enfrenta. Esse emaranhado ao mesmo tempo corrói o antigo regime e perverte o novo. .

Discuto algumas dessas estratégias de governo mais adiante. Baseio meu uso das ideias de poder e de responsabilidade no esquema correlativo de relações sociolegais de Hohfeld (1978). camponeses. em geral por meio de massacres. Um dos mais conhecidos é a destruição feita pela polícia e pelos militares. a legislação permitiu a rápida deportação de imigrantes “indesejáveis” (isto é. e “Aos ricos. em vez de esbanjar termos denotativos. A primeira a rma que a lei objetiva é a regra à qual os indivíduos devem se conformar. se tornou a mais influente. É normal que estratégias legais desenvolvidas para os mesmos fins se mostrem igualmente eficazes. a rmando que onde houver um direito deve haver uma reti cação. eles articularam uma justi cativa teórica precoce para sua con ança na “experiência”. quando confrontados por disputas graves. Argumentou que esse slogan demonstrava que Lula era incompetente para exercer a Presidência. Embora historiadores sociais como E. pre ro especi car a conceituação dos poucos que uso. um membro da alta elite nordestina. Da mesma forma. P. de quase todos os movimentos sociorreligiosos urbanos e rurais do século XIX e início do século XX (Canudos e Contestado. tudo: aos inimigos. com conceitos como classe e ideologia). Na eleição de 1989. 4.Paulo. De forma geral. supõem que elas sejam. ompson. e diz-se que Vargas teria se apropriado da frase. Desde então. 12 de maio de 2010. menos enviesadas pela teoria como evidências da vida e dos con itos sociais (em comparação. e o direito subjetivo é o poder de um indivíduo que deriva da regra. por causa do aumento do poder aquisitivo da “classe C”. A mão de ferro da oligarquia aprendeu cedo a governar na República usando as luvas do constitucionalismo liberal. Assim como em outras nações de imigrantes. Discordo de DaMatta em diversas questões-chave. A segunda usa a noção de reti cação. 8. Gostaria de especi car o meu uso do termo “elites”. 5. Quando é atribuída a alguém. que está “no meio” entre as classes A e E e que agora compreende mais de 50% da população (Folha de S. os governos locais e federal têm suspendido direitos constitucionais com regularidade. discuto os pedestres e o tráfego de automóveis como questões relacionadas à cidadania. por exemplo). essa denotação é em geral especí ca a ponto de tornar uma comparação impossível exceto em estudos de pouca abrangência. ridicularizou o slogan de Lula. Para uma comparação útil das tradições do direito civil e do direito consuetudinário. subalternos. A origem dessa máxima é discutível. o status de elite no Brasil é muito menos . perto do final da Velha República. por exemplo. costuma ser a Getúlio Vargas. Por isso. muito foi escrito sobre os problemas de se considerar a experiência como prova da história. A interpretação de Roberto DaMatta (1979). Os exemplos históricos são abundantes. no contexto de sua análise do papel da lei na constituição da sociedade brasileira. Tanto a tradição do direito civil (descendente da lei romana e dominante na Europa e na América Latina) como a do direito consuetudinário (anglo-americana) reconhecem essas relações de formas um tanto diferentes. 2. para desbaratar movimentos trabalhistas.Notas 1. Considero muito útil a crítica de Scott (1992) a esse respeito. Collor. voltaram-se a elas para estudar a vida e a lógica social dos que não produzem documentos escritos diretamente — povos tribais. A CIDADANIA ESTRANHADA 1. ou diz-se que ele a popularizou. 6. No último capítulo. os pobres e assim por diante. Por exemplo. o favor da lei. como argumento na discussão adiante sobre a lei e na nota 10. Assim. No entanto. pois o mais alto posto exigia qualidades especiais e não apenas as dos brasileiros comuns. Todos os termos sociológicos que descrevem grupos de pessoas sofrem de imprecisão quando comparados a especi cações históricas exatas. que envolve concessão de poder. Eric Hobsbawm e Eugene Weber se valessem da antropologia. Mas às vezes é atribuída ao presidente Artur Bernardes (1922-6). o rigor da lei”. que obviamente não eram qualificados para o trabalho. Se tanto a antropologia como a história consideram a prática e a experiência como modalidades básicas de investigação. 7. líderes trabalhistas) e transformou em crime a propagação de certas ideias. o ministro da Fazenda Guido Mantega a rmou que “quase já se pode a rmar” que o Brasil é um país de classe média. 3. o rigor implacável da lei”. além disso. Certamente é um uso inovador de “quase”. considerando-se que os restantes mais de 49% dos brasileiros pertencem às classes D e E. ver Merryman (1985). aos pobres. ver omas (1963) e ompson (1963). por exemplo. Em uma declaração amplamente divulgada. por exemplo). Muitos dizem que é amplamente usada no Brasil para ser atribuída a alguém em particular. Variações incluem “Aos amigos.

11. Na verdade. Ver meus ensaios em Holston (1999) quanto ao argumento de que as cidades contemporâneas são lugares notáveis do surgimento de novas formas de cidadania que desestabilizam a forma do pertencimento nacional. nem os contratualistas nem os revolucionários franceses que eles in uenciaram pretendiam que a alegação de nascimento livre fosse um fato ou uma verdade histórica. 10. 9. as elites brasileiras têm sido muito bem-sucedidas ao prolongar seus poderes absorvendo recém-chegados bem-sucedidos. as elites estabeleceram o sistema de cidadania diferenciada para bene ciar a si mesmas com direitos exercidos como privilégios. ele explica o desenvolvimento da cidadania britânica como uma sequência de três estágios que se expandem progressivamente e de forma cumulativa do civil para o político e o socioeconômico ao longo de três séculos. a progressão temporal e a substância da cidadania variam substancialmente com o contexto histórico e nacional. Embora me sinta em débito com Marshall pela indicação do caminho para a expansão da análise da cidadania para além da institucionalização política. aos direitos a padrões mínimos de bem-estar econômico. ele trata o ilegal como uma aberração. Como veremos no capítulo 5. de raça. Hoje ca mais evidente do que quando ele escreveu que grupos baseados em identidades marcadas por diferenças e no pertencimento cultural reivindicam também direitos. vejo o desenvolvimento da cidadania e da democracia sempre como algo disjuntivo. Os que criaram e ocuparam essas categorias privilegiadas em geral são os endinheirados.uma questão de ascendência e de suas tradições que de riqueza. No caso especial do Brasil. O termo “social” se referiria. enquanto eu o considero como fator central. Na maioria das democracias emergentes. Marshall sempre tratou a cidadania como nacional. Segundo. as elites governantes estabeleceram o alfabetismo como exigência da cidadania política numa sociedade formada em sua maioria por analfabetos. algo externo à construção e ao funcionamento da lei. em geral não é. tudo indica termos uma situação onde o indivíduo é que é a noção moderna. Terceiro. Ambas se expandem e se desgastam. privilégio e prestígio. progridem e regridem de formas complexas. Assim. Meu ensaio de 2001 também defende que uma das consequências signi cativas da globalização da democracia em áreas urbanas é o desenvolvimento de novas cidadanias urbanas entre cidadãos marginalizados em democracias emergentes e de residentes não cidadãos em democracias estabelecidas. não concordo com sua perspectiva histórica em pelo menos cinco pontos. os direitos políticos e socioeconômicos se desenvolvem bem antes dos direitos civis. A difusão. a “(in)operância da lei” é uma concepção errônea da lei em seu papel específico no Brasil e em outros países da América Latina. também faz sentido falar de elites por extensão dentro de outros grupos — como trabalhadores de elite — exatamente para se referir aos que ascendem a categorias privilegiadas de direito. O’Donnell e Pinheiro (1999). uma hipótese necessária e . Dessa forma as elites perpetuam a vitalidade das classes altas. Vejo as duas como coincidentes no desenvolvimento da cidadania e da lei desde o início do Estado-nação brasileiro. 14. Primeiro. Como já argumentei em outro trabalho (Holston e Appadurai 1999). a despeito de suas origens nacionais e. Contudo. Por exemplo. como enraizada na unidade do Estado-nação. Enquanto tal. como no da Grã- Bretanha. Por “civil” ele se refere aos direitos e às instituições (os tribunais. Como já foi observado. 12. não vejo a sequência histórica em três estágios que Marshall situa como a norma do desenvolvimento. superimposta a um poderoso sistema de relações pessoais”. garantidos pelo Estado. sua análise as dicotomiza: “devendo a pesquisa sociológica localizar os contextos onde o indivíduo e a pessoa são requeridos. e que as reivindicações desses grupos contestam a teoria liberal de uma cidadania neutralizadora das diferenças. como argumento aqui. Meu argumento é que o sistema legal (assim como outros sistemas de relações públicas e privadas) dissolve um no outro o tempo todo. e aos direitos à cultura e à história partilhadas (o que ele chama de “herança social”). inclusive na do Brasil. e de qualquer forma não em sequências distintas ou lineares. Era antes uma reivindicação teórica. Sua história é a história de uma expansão homogênea. ainda que limitando de modo estrito sua realização. Embora DaMatta (1979: 178-9) a rme que no Brasil “temos as duas noções [do indivíduo e da pessoa] operando de modo simultâneo”. DaMatta argumenta que “a oposição indivíduo/pessoa é sempre mantida [em formações sociais como a brasileira] […] e a pessoa é mais importante que o indivíduo […] [e como resultado] continuamos […] com todas as di culdades para a criação das associações voluntárias que são a base da ‘sociedade civil’”. tanto como eleitor quanto como membro de um corpo eleito. embora possa ser uma descrição precisa em alguns casos. os advogados e a polícia) necessários para a liberdade e a justiça. as elites são portanto as que se bene ciam de categorias historicamente privilegiadas com relação à distribuição de direitos. quando chega a discutir isso. Governantes populistas generalizaram a retórica dessa absorção. Marshall analisa o exercício dos direitos coletivos exclusivamente em termos de classes sociais. Em seu estudo clássico de 1950. Em relação ao meu tema. 13. Ao contrário. Quarto. Marshall (1977) entende que cada um desses elementos consiste em direitos especí cos e nas instituições mais relacionadas a seu exercício. essa suposição é equivocada em alguns casos e cada vez menos convincente em muitos outros. por sua vez. Na minha análise. de forma signi cativa. Ademais. Re ro-me a Méndez. Por m. o regime historicamente dominante de cidadania diferenciada se modernizou na primeira metade do século XX exatamente ao absorver um pequeno número de brasileiros das classes trabalhadoras entre as novas massas urbanas em suas práticas e privilégios. mesmo quando mudam as fontes de riqueza e prestígio. a cidade continua crucial para o surgimento de novas formas de cidadania. O autor de niu o componente político da cidadania como constituído desses direitos e das instituições necessárias à participação no exercício do poder político. o aspecto da sua progressão temporal em geral difere da sequência proposta por Marshall para a Grã-Bretanha e precisa ser avaliado em cada caso. Ao menos como termo implicando um argumento.

às relações intersubjetivas autodisciplinadoras e assim por diante. Um perito no sistema prisional que consultei achava que a data do estatuto original conferindo a forma atual desse artigo era de mais ou menos 1970. de forma que “a igualdade será a mesma. é relevante a observação de que a cláusula de isonomia da Constituição dos Estados Unidos não proíbe a legalização de distinções e classificações baseadas em diferenças entre os cidadãos. em caso de ser preso. aponto aqui ao menos quatro dimensões de desenvolvimento histórico do liberalismo. e que limitam os poderes deste último. 16. à dicotomia público/privado. da proteção dos membros de classes mais altas da inevitável desforra daqueles das mais baixas. bem como as referências citadas na nota precedente. 21. mas não podiam ser forçadas a fazê-lo. mas com uma diferente agenda de cidadania. Nessa desigualdade social. o liberalismo se torna sinônimo do capitalismo e de uma teoria econômica baseada nas prioridades de um mercado autorregulador. Esse teste pergunta. em que Aristóteles (1962: 118) argumenta que uma distribuição justa aloca a parte certa à pessoa certa. (1) O liberalismo apareceu como crítica à fundação divina ou naturalizada da sociedade política. os Estados-nações imperial e republicano no Brasil podem ser considerados liberais. (2) Surgiu também como proposta para uma organização especí ca do social. 19. mas não democráticos. em cela separada dos demais presos (e em geral mais bem equipada). Embora eu tenha veri cado que esse não era o caso. O surgimento da democracia moderna depende e está emaranhado em vários desses desenvolvimentos. A versão de Barbosa (1999: 26) no discurso a estudantes de direito em 1921 (publicado como Oração aos Moços) enfatiza essa noção de partes alocadas em um regime de desigualdade proporcional: “A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais. que exige que qualquer empresa com mais de cinquenta funcionários funcione em francês e quer tornar ilegais os sinais comerciais que não incluam o idioma. Ver Benhabib 2002. corpori cada de forma mais abrangente na noção de autorregulação e articulada numa variedade de conceitos de efeito revolucionário no que se referia ao desenvolvimento da sociedade civil como esfera de relações sociais não reguladas pelo Estado. Ver em especial o livro 5 de Ética a Nicômaco. Com efeito. à prioridade do justo sobre o bem. como Kettner 1978. como a língua ou práticas religiosas. é que se acha a verdadeira lei da igualdade”. Exemplos atuais incluem cidadãs muçulmanas francesas que exigem o direito de usar o véu nas escolas públicas. fundamentalistas americanos que querem que as escolas públicas ensinem o “design inteligente” como ciência. Ong 2003. regido por uma “mão invisível” sem a necessidade de intervenção estatal. na medida em que se desigualam. 17. e a maioria francófona no Quebec. A mim parece vital. Pateman 1989. Kymlicka 1995. Postero 2007. 1973]. Quando perguntei às elites sobre esse assunto. São Paulo: Abril Cultural. Taylor 1992. Minow 1990. tanto para as pessoas quanto para as coisas. se a prática serve a algum objetivo de interesse social que não pode ser alcançado de outra forma e se foi talhado de forma a evitar uma discriminação generalizada. como heterossexualidade e reivindicações indígenas por terras. O artigo 295 do atual Código de Processo Penal mantém.uma forma radical de legitimar uma nova ordem política. A questão que os americanos debatem está antes nas formas em que as distinções podem ser legalizadas. Brubaker 1992. Existem hoje inúmeros e importantes trabalhos que historicizam o desenvolvimento dessas cidadanias. que a legalização da diferença permaneça . ou seja. (3) O liberalismo oferece uma concepção do indivíduo como centro de direitos. porque a relação (a razão no sentido matemático) que existe entre estas últimas — as coisas a partilhar — é a mesma que existe entre as pessoas. A extensão na qual o conceito norte-americano de igualdade entre os cidadãos permite a diferenciação é tema de tamanho dissenso que os tribunais criaram uma jurisprudência de “exame estrito da matéria” (“ strict scrutiny”) para determinar se a legalização de uma prática discriminatória (como a ação a rmativa para veteranos e minorias) é constitucional. do eu de que o indivíduo é dono numa relação de proprietário e de direitos naturais que pertencem ao indivíduo a despeito do Estado. se as pessoas não são iguais não receberão partes iguais” [extraído da edição brasileira Ética a Nicômaco. para a qualidade democrática da justiça. de maneira geral obtive justi cativas semelhantes: pessoas de alto nível cultural deveriam poder escolher quando e onde se misturar com os de nível mais baixo (durante o Carnaval. Esse problema gera con itos intermináveis. Galeotti 1993. a equiparação de direitos e a aplicação uniforme da lei se desenvolveram a partir de conflitos em torno da regulamentação de diferenças e de igualdades sociais. Eles mostram de que modo conceitos como a igualdade como equivalência (equality as sameness). Até 1985. Ver Hale 2002. em especial no con namento de uma prisão. Essa ênfase na autorregulação também informa as outras duas dimensões do desenvolvimento histórico do liberalismo. esse direito era costumário na medida em que não era necessário explicitar o óbvio”. Recolhi várias explicações para esse fato. Shklar 1991. como crítica ao poder político como extensão de hierarquias supostamente naturais entre homens e mulheres ou entre reis e súditos. 15. Para manter democracia e liberalismo separados nesta discussão. por exemplo). (4) Por m. todas as constituições brasileiras desde a fundação da República estipulavam que cidadãos analfabetos não podiam se registrar para votar e que apenas eleitores registrados podiam votar. até a sincera incredulidade quanto à necessidade da pergunta. que iam de privilégios senhoriais a problemas de contaminação. a brasileiros que concluíram curso superior. por exemplo. o perito acrescentou que “antes. 18. o direito a prisão especial. até antes da condenação de nitiva. ou ainda concepções do que é certo ou errado. Smith 1997. Para a discussão comparativa do próximo capítulo. 20. Minha citação das constituições francesas aqui e no próximo capítulo recorre à compilação de Anderson (1908). Essas diferenças podem ser traços culturais. proporcionada à desigualdade natural. Nesse sentido. a neutralidade processual.

Outro incidente que permaneceu importante para a Independência do Brasil foi o encontro e a correspondência entre José Joaquim da Maia. a Coroa portuguesa tornou ilegais a importação. estudante brasileiro da universidade francesa de Montpellier. passaram esses textos de mão em mão e os recitavam de cor. consta que líderes do movimento de Independência no Brasil de 1789. contudo. Amálgama de ideias de Locke e de Rousseau sobre o contrato social. Para uma discussão sobre a literatura estrangeira lida pelos brasileiros no período da Independência. substituindo um princípio pétreo por um preconceito especí co. 2. o “objetivo” da cidadania política se tornou a preservação desses direitos privados. mas o homem como bourgeois é assumido como o homem propriamente dito e verdadeiro”. Sua crítica a esse deslocamento é bifurcada. Mas o Estado preferiu reverter a história transformando esses cidadãos de novo em escravos a apoiar essa contradição do princípio revolucionário da indivisibilidade da cidadania. Costa 1977: 23-6 e 53-77 para mais informações sobre os envolvimentos de brasileiros com as revoluções e subsequentes desdobramentos nacionais. cuja inviolabilidade é garantida pela cidadania política. Para a cidadania brasileira. É exatamente essa divisão conceitual do Estado-nação em um Estado político de cidadãos abstratos e uma sociedade civil de indivíduos privados que Marx ataca em seu famoso ensaio “Sobre a questão judaica”. o citoyen é declarado como serviçal do homme egoísta. que escreveu o esboço inicial da Declaração dos direitos do homem e do cidadão. 5. Ver também Landes 1988. da emancipação política de modo geral. A religião se torna o assunto privado dos indivíduos. Primeiro. “egoístas” e isolantes por natureza. Foi assim que deputados das Antilhas invocaram a igualdade universal da Declaração dos direitos do homem e do cidadão para defender a revogação das restrições ao comércio colonial. como explicava um relato da época (citado em Gutwirth 1993: 23). grifos do original). Na verdade. e omas Jefferson. A Abolição só foi conseguida em 1848. Em uma importante questão. 3. Marx observa que a revolução alcançou uma emancipação política da religião deslocando-a da lei pública do Estado para os direitos privados da sociedade civil. essa “emancipação política de fato representa um grande progresso. por exemplo.como questão aberta. a chamada Incon dência Mineira. E continuaram pagando até a década de 1860. Tiradentes. em que analisa o projeto de emancipação judaica durante a Revolução Francesa para revelar as limitações. Segundo. ele conclui que “a cidadania. em sua visão. não são mais do que direitos de interesse próprio. Minha discussão da cidadania no Código Civil de 1804 e a posterior expansão do jus soli se baseia em Brubaker 1992: 85-113. 8. Os notórios exemplos da discriminação por dívidas dos judeus e do status desigual das mulheres em questões de propriedade e herança foram eliminados em meados do século. de Gouges foi guilhotinada por seu “delírio […] por ter se esquecido das virtudes próprias de seu sexo”. . Dois anos depois. [mas] não chega a ser a forma de nitiva da emancipação humana em geral” (2010: 50. Ver Luz 1977. 9. NAÇÕES IN/DIVISÍVEIS 1. “a verdadeira liberdade do homem civilizado não foi feita para os negros das colônias francesas” (411). Depois da Abolição. em parte sob a acusação de ele ter traduzido uma edição francesa da Constituição americana. contudo. 2. Mas se negaram terminantemente a aplicar esses mesmos direitos aos seus escravos negros (Schama 1989: 498). é rebaixada pelos emancipadores à condição de mero meio para a conservação desses assim chamados direito humanos e que. os judeus tiveram de restaurar suas organizações comunitárias como comissões especiais para cobrar impostos destinados a liquidar seus débitos pré-revolucionários. Tanto em Portugal como em suas colônias. o governo central reservou aos judeus franceses um impedimento especí co: recusou-se a assumir as dívidas comunitárias judaicas quando nacionalizou os dé cits de todas as outras corporações dissolvidas em 1793. 7. se não as contradições. 6. […] por m. Como resultado. mesmo quando ligado a “passivo” seu uso nega o “sujeito” ao definir uma relação uniforme e não gradativa com o Estado. ver o estudo de Burns do conteúdo de duas bibliotecas no Brasil. a Coroa baseou o julgamento e a execução de um deles. Mesmo assim. os direitos privados da sociedade civil. em especial em termos de igualdade perante a lei. então representante junto ao governo francês. os chamados direitos do homem. ainda que profundamente problemática. nos escritos revolucionários de Abbe (Emmanuel-Joseph) Sieyès. Essa contextualização é articulada. como a rma o artigo 2 da Declaração. acusada de inúmeros crimes contra a Revolução. 41. Como argumentou um dos administradores. 10. a comunidade política. e potencialmente disponível para propósitos especí cos. […] não o homem co mo citoyen. embora contenciosa o bastante para exigir reexames contínuos. esses trabalhos também in uenciaram bastante a Constituição de 1791. portanto. 4. Para Marx. Embora cidadãos passivos estivessem mais para sujets que para citoyens no sentido de Rousseau. Assim. a administração colonial tentou governar impondo novas exclusões e responsabilidades substantivas a cidadãos ex-escravos (Dubois 2004). a posse e a reprodução de qualquer material impresso associado às revoluções francesa e americana. quando baseada na “cisão do homem em público e privado”. a legalização da diferença na distribuição de direitos tem sido uma norma fundamentalmente não problemática. Ver a excelente argumentação de Brubaker (1992: 89-91) sobre a presunção de vínculo e sua limitação do princípio de ascendência no desenvolvimento da Revolução Francesa.

o desenvolvimento das restrições ao sufrágio masculino para cidadãos foi semelhante de maneira geral: primeiro uma quali cação a partir de bens de raiz. Estrangeiros também tinham direito ao voto em seis estados em 1860. Havia duas pequenas exceções que também permanecem atuais. por exemplo). acima de tudo ao autogoverno republicano. 14. todas tinham quali cações de propriedade — imobiliária ou mobiliária — para o sufrágio antes da Guerra da Independência. 16. 23. Em geral a cidadania era negada também aos “mestiços” nascidos livres por conta da “regra de uma gota”. Assim. ainda que mais radical porque não condicionado pela ascendência: o simples fato de nascer nos Estados Unidos (ou sob sua jurisdição) era prova su ciente e a melhor garantia de que uma pessoa havia recebido uma criação americana. 12. retinham seus bens “sob custódia” e “protegiam-nos de seus próprios apetites” (negando-lhes bebidas alcoólicas. a Suprema Corte declarou inconstitucionais as leis federais de proibição de álcool ao concluir que os índios se tornavam cidadãos plenos logo após aceitarem as terras loteadas e não depois do prazo de garantia de 25 anos. Ademais. forçando homens brancos pobres a lutar para obter o direito ao voto como uma distinção de suas cidadanias. Porter (1918) e Williamson (1960: 223- 41). A cidadania jus soli era negada somente no caso de lhos . a lei da naturalização incluiu uma “Lista de raças” que especificava os que eram considerados brancos para propósitos de admissão. 20. suprimiam sua liberdade religiosa. na Questão de Heff (1905). a principal exigência para a naturalização é a residência durante um número estabelecido de anos. Minha discussão sobre esse con ito deriva principalmente de Kettner (1978: 287-333). o Congresso respondeu rapidamente com o Burke Act (1906). Ver Porter 1918: 91-111 e Williamson 1960. regulavam seu comércio. Assim. quatro das colônias tinham também abandonado o pagamento de impostos e. Em 1872. a aplicação desse direito de nascença para estabelecer tanto as cidadanias locais quanto as nacionais e a noção de até que ponto uma condicionava a outra. os cidadãos brancos do sexo masculino gozavam do sufrágio universal sem quali cações. Contudo. 22. A primeira Lei de Naturalização de 1790 limitava a admissão a “homens brancos livres”. educação e religião. Nice (1916). dirigiam-nos a atividades econômicas (principalmente agricultura e pecuária). Souza de niu aquilo como “um discurso inçado de ideias francesas. Nesse ínterim. o importante deputado liberal Francisco Belisário Soares de Souza (1979: 127) criticou o discurso de outro parlamentar defendendo o sufrágio universal para os cidadãos brasileiros. residência. por exemplo. Ver a argumentação de Joan Scott (1996) a respeito dessa data surpreendentemente tardia para o sufrágio feminino. 13. ao nal da Guerra Civil. Assim. além de raça. seus fundamentos legais e a legislação de loteamento. em alguns estados no primeiro quartel do século XIX e em quase todos até a metade do século. Os estados alegavam soberania em questões de sufrágio. embora nenhum permitisse o mesmo a negros ou índios. e por m uma substituição em pagamentos de imposto ao estado ou ao condado por ambos os tipos de propriedade. e. eram temas de intensos debates e confusão. nem “a população negra da África [nem] os aborígines de pele vermelha da América” poderiam ser aceitos ainda “na parceria política” (citado em Kettner 1978: 316). Ver Cohen 1982: 78-134 para uma discussão da remoção do Oeste. que mesmo que negros nascidos livres pudessem ser cidadãos. Depois da Independência. A Suprema Corte da Pensilvânia decidiu em 1853. por exemplo). ele havia sido revogado em todas menos em três — ainda que taxas de votação tenham mais tarde sido introduzidas em alguns estados. 19. depois uma alternativa em bens móveis. impostos. por exemplo. que ludibriou Heff suspendendo a cidadania de concessionários até que o período de garantia expirasse para índios considerados “incompetentes”. guardiões federais administravam a educação dos índios. Porter 1918: 148. Meu relato dos debates a respeito dessas exclusões deve muito ao estudo de Kettner (1978) — extraordinário em argumentos e detalhes — do desenvolvimento da cidadania americana desde as origens inglesas até a Guerra Civil. a não ser residência e maioridade. em U. 17. Por exemplo. que designa pessoas com qualquer “sangue ruim” como integralmente pertencentes à categoria racial rejeitada. Em 1899. nenhum novo estado entrava na União se tivesse algum tipo de quali cação por propriedade imobiliária ou por pagamento de impostos. No entanto. O ideal do sufrágio universal igual continua a incomodar a sociedade francesa.S. v. a história de suas quali cações é complexa. Essa socialização permanece sendo a qualificação fundamental para a cidadania. 18. 15. em 1826. o sufrágio para contribuintes era quase um direito universal para os brancos. grande irrisão nas vésperas das tremendas catástrofes que nesse mesmo país iam submergi-los [os franceses] por tantos anos”. Sua substituição em 1802 restringiu o acesso a “pessoas brancas livres” e estabeleceu diretrizes federais para imigração que continuaram vigentes até 1952. pois os estados aprovaram ou rejeitaram restrições de propriedade imobiliária ou mobiliária. 11. participado de sua cultura e portanto se tornado ligada a seus valores. depois de 1817. Como resultado. O raciocínio subjacente ao princípio do direito de nascença era semelhante ao jus soli na França. uma Suprema Corte diferente derrubou Heff ao decidir que a cidadania indígena afinal não era incompatível com a tutela. Como quase todos os homens adultos estavam sujeitos a essa taxação. Das treze colônias originais. os casos de destaque se referiam à extensão da categoria de brancura aos supostamente não brancos. 21. até a aprovação da Décima Quarta Emenda. dessas que imaginam o mundo inteiro imerso em trevas até a revolução de 89 e que nele jamais raiaria a liberdade sem a enfática declaração dos direitos do homem. embora hoje o con ito seja de certa forma diferente: as pessoas agora debatem o direito ao voto dos estrangeiros não nativos que residem no país em condições legais (trabalhadores convidados e ex-colonos.

Quando indagados sobre “o que faz do Brasil. é algo que não penetrou nunca nos processos da administração portuguesa” (2011: 328). de todo assimiladas pela raça branca e “puri cadas”. 31. desonestidade mesmo em todos eles. Especialmente útil para o estudo das políticas raciais e sociais no Brasil no período entre 1870 e 1940 são os textos de Skidmore (1990 e 1993 [1974]). 28. Um famoso exemplo dessa rede nição cultural de raça aconteceu quando o grande romancista Machado de Assis morreu. Gomes (2000: 40) aponta as duas únicas exceções: a Coroa portuguesa considerou necessário assinar tratados de paz em 1691 e em 1791 com dois grupos indígenas. Para outros países latino-americanos. O político abolicionista Joaquim Nabuco cou tão escandalizado que lhe escreveu para protestar que “O Machado para mim era um branco e creio que por tal se tomava. em meio às montanhas da legislação colonial a respeito dos índios. A recente introdução do Mês da História Negra no currículo de escolas públicas para corrigir esse problema demonstra sua enormidade. 29. Ver Wade 1993 para a Colômbia. mesmo se nunca estabelecesse residência no Brasil (artigo 6). 33. […] O imperador declarou livres a todos os súditos índios: os brancos ainda os caçam para escravizá-los. Manuela Carneiro da Cunha). e a jus sanguinis se tornou incondicional apenas no caso do lho de pai brasileiro que tivesse nascido num país estrangeiro enquanto aquele lá estivesse “em serviço do Império”. . o o cial naval inglês Henry Lister Maw fez uma descrição precisa de um aspecto desse mau governo da lei num relato de suas explorações no norte do Brasil: “nas partes da Província do Pará a força faz o direito. 26. Embora aprovadas. nenhum. porém. Quando a imigração […] aumentar. Em seu obituário. Assim. isto em nada afetava a sua perfeita caracterização caucásica” (citado em Skidmore 1990: 30). Sistema que não é ditado por um espírito superior de ordem e método. eles em geral acrescentam um pouco de zombaria consigo ao descrever essa combinação como uma mistura daquelas que se supõem ser as piores características de cada uma dessas raças. Quando o imperador Pedro I dissolveu a Assembleia poucos meses depois. 25. brasileiros de todas as classes em geral apresentam alguma versão da narrativa das três raças: eles avaliam que a cultura e a história do Brasil se desenvolveram a partir da interseção das “raças” africana. muito mais do que a justiça. um exemplo é o “branco da terra”. Os colombianos e venezuelanos se aproximaram do Brasil na pregação de mistura de raças durante o século XIX. ver também Schwarcz 1993. Nos Estados Unidos. mas re exo da atividade de descon ança generalizada que o governo central assume com relação a todos seus agentes. Tendo a acreditar na primeira. mais cedo ou mais tarde. por meio de seu sucesso individual. Essa expressão designa pessoas de ascendência miscigenada que se tornaram. 32. embora não antes disso. 27. Onde então se acha o poder? Aonde a autoridade absoluta?” (1829: 434). formam a administração prática da lei.nascidos no Brasil de um pai estrangeiro que aqui residisse “por serviço de sua Nação”. 24. incapacidade. Nenhum dos tratados evitou o futuro extermínio desses grupos e a absorção de suas terras por rancheiros. scalização opressiva das atividades funcionais. com presunção muito mal disfarçada de desleixo. acelerar o processo de seleção” (citado em Skidmore 1990: 12). A con ança com outorga de autonomia. e muito mais absoluto do que d. em 1889. Ver Skidmore 1993 [1974] e Schwarcz 1993 para estudos a respeito da in uência das teorias raciais europeias e brasileiras sobre a produção científica e cultural no Brasil entre 1870 e 1930. em 1908. 30. A importância dessa inclusividade para o desenvolvimento de um entendimento brasileiro da identidade nacional não pode ser subestimada. Alguns anos depois da Independência. Caio Prado fala com perspicácia sobre essa combinação de obsessão e descon ança: “Todas estas limitações da autoridade do governador são consequência do sistema geral da administração portuguesa: restrições de poderes. Brasil”. ainda que traços fenotípicos de outros destinos raciais permaneçam evidentes. Discute-se se o Estado colonial brasileiro considerava os índios vassalos ou nações contra as quais era possível se fazer “guerras justas” (comunicação pessoal. existam referências ocasionais de nindo-os como “nações”. estreito controle. Ver Cope 1994 para uma análise da mistura de raças no México colonial e Knight 1990 para a situação pós-colonial. a prova comparativa do verdadeiro tratamento é inequívoca: o governo federal dos Estados Unidos concluiu cerca de 389 tratados com nações indígenas antes de se converter a uma política de assimilação. contrabalançadas embora por uma responsabilidade efetiva. ver ensaios em Graham 1990. mas o branco isolado é ele próprio um imperador. a Constituição Imperial promulgada no ano seguinte não continha nenhuma menção aos índios. e o poder e o interesse. Como nos asseguram os etnólogos […] a mistura de raças é facilitada pela prevalência do ‘elemento superior’ aqui. muitos americanos brancos excluem negros e índios de papéis fundamentais na história americana. pela inevitável mistura. ela vai eliminar a raça negra daqui. quando houvesse sangue estranho. Pedro no Rio de Janeiro. as propostas de Bonifácio não foram incorporadas ao esboço da Constituição feito pela Assembleia. indígena e europeia (normalmente os asiáticos cam de fora). José Veríssimo referiu-se a ele como “mulato”. embora reconheça que. O imperador pode promulgar leis. Os brasileiros não precisam dessas lições. Por isso mesmo. e que nenhuma grande civilização pode ser construída com povos miscigenados. às vésperas da República. Contudo. e o presidente [da província] ordens. Entre as muitas categorias ambíguas de brancura no Brasil. no final do século XIX. o Estado colonial brasileiro concluiu dois e. irá. social e culturalmente brancas. Na minha experiência. o destacado crítico José Veríssimo escreveu no Jornal do Commercio: “Estou convencido […] de que a civilização ocidental só pode ser o trabalho da raça branca. como Estado independente.

4. Desse total. tendo sido dados em sesmarias anteriormente. posso ler a Carta de 1808 como a expressão de outro fundamento lógico. Até onde posso determinar. músicos ou artesãos. 5. Laxe (ibid. de acordo com o Provimento de 8 de maio de 1705. A Carta usa uma linguagem de restauração ao patrimônio da Coroa — “que no território novamente resgatado das incursões dos índios botocudos. por exemplo. A Lei de 27 de outubro de 1831 estabeleceu a autoridade dos Juízes de Órfãos nessas questões. citado em Cunha 1992: 253-4. ou ainda outros quaisquer. barbeiros. os detalhes técnicos do argumento jurídico eram menos importantes do que a conclusão óbvia: mesmo se os índios tivessem esses direitos primordiais. 3. o status legal dos escravos como coisas não deve ser levado a signi car que fossem incapazes de ações autônomas. Ofício Provincial de 25 de fevereiro de 1858. 37. ver Chalhoub 2011. isto é. que as Ordenações Filipinas (Livro 1. judeus e outros que pertenciam à classe dos peões”. em sesmarias. seções 2 e 3.) observa ainda que. o reconhecimento [do Estado] da primazia do direito dos índios sobre suas terras” e cita a Carta Régia de 1808 como prova. É relevante um comentário sobre a exclusão de “criados de servir”. Em seu estudo clássico de debates . Faoro (1975: 184) repete o erro do primeiro ao atribuir a origem do método de quali cação do caderno ao Alvará de 12 de novembro de 1611. O título 67 das Ordenações Filipinas estipulava essas instruções eleitorais (em Jobim e Costa Porto 1996: 12-3). Com a legislação de 1808. No nal. Por que outra razão seria utilizada uma linguagem de restauração? A despeito da leitura que se faça. representaria os 2323286 brasileiros livres. portanto. Ver Neves e Machado (1999: 66-84) para um debate sobre esse movimento constitucional em Portugal e seus efeitos no Brasil. estes se extinguiram quando os índios com esse direito deixaram de existir. Como o senhor podia reter o filho da escrava sob seus serviços até os 21 anos de idade. Os escravos mineiros. e Berbel 1999 para uma discussão mais ampla da participação do Brasil nas Assembleias Constitucionais portuguesas. não foram demarcados. Título 88) definiam para essas cortes. 3. Karasch 1987 e Mattoso 1986. que conseguem extrair posições contraditórias da prosa densa da lei da Coroa. aplicando as provisões do século XVI. no qual reúne extensas passagens da lei e do processo eleitoral. Embora sinalizasse que sem uma reprodução doméstica a escravidão aos poucos desapareceria do Brasil. que em 1871 conferiu a liberdade a todos os lhos nascidos subsequentemente de mulheres escravas. a lei resultou numa nova forma de escravidão por não regular as condições sob as quais esses “escravos livres” viviam e trabalhavam. 3). cujos direitos os índios haviam usurpado com ocupações não autorizadas. Por essa razão. 2. Uma delas foi a Lei do Ventre Livre. Não há dúvida de que isso privava um grande número de cidadãos do Brasil imperial da participação política. acabou se mostrando perversa e ineficaz. meros retransmissores passivos dos valores de seus proprietários. Mas vejo isso e a legislação relacionada como algo aberto a uma maior ambiguidade de intenção e interpretação — uma visão adotada pelos muitos juristas brasileiros que argumentaram em posições opostas. Na verdade. não consegui localizar tal cláusula para con rmá-la como fundamento legislativo para essas exclusões. todos com conhecimento e brilho. considereis como devolutos todos os terrenos que. Cunha (1992: 15) argumenta que “existe. “não eram quali cados os mecânicos operários. Cunha (1992: 20) cita diversos exemplos em que o governo federal na verdade seguiu essa provisão ao conceder a propriedade de terras em aldeias indígenas extintas. 34. a Coroa está reivindicando suas terras. Os encarregados de organizar as eleições usaram a população estimada de 1808 para determinar que um total de 72 deputados. empregados domésticos ou serviçais. 40. Sobre cartas de alforria. o fundamento legislativo desse método parece ser a Regra de 10 de maio de 1640. ao longo de séculos. distribuídos proporcionalmente entre as províncias. esse alvará não menciona nenhum “caderno”. 67 deputados foram de fato eleitos (Costa Porto 2002: 23). claramente expresso. Ainda se contestava se o Estado brasileiro (colonial ou imperial) reconhecia que os índios tinham direitos primordiais de propriedade além da ocupação de suas terras por “dádiva de Deus”. As constituições e a legislação eleitoral brasileiras discutidas aqui são encontradas em duas valiosas compilações: Jobim e Costa Porto 1996 e Campanhole e Campanhole 2000. Também útil é o estudo de Costa Porto (2002) das eleições brasileiras. contudo. nem cultivados até a presente época” — exatamente porque a Coroa reivindicava título legal a todo o território por conta da “descoberta” de Cabral em 1500 e havia distribuído esse território por concessão sob esse argumento depois de 1532 em capitanias e. questões de direitos de terras dos índios e o status jurídico das terras indígenas têm sido desde um joguete nas mãos dos juristas brasileiros. como reproduzida em Jobim e Costa Porto (1996). degredados. Copiando uma nota de rodapé de Laxe ([1868] 1962: 19 n. em geral viviam longe de seus mestres e podiam manter uma pequena parte de seus rendimentos para seus próprios propósitos. 38. Sem dúvida Bonifácio pensava assim. posteriormente. 41. 39. 35. A opinião do próprio Chalhoub (2011: 44-56) é igualmente importante: sob o risco de reproduzir uma “teoria do escravo- coisa”. Embora tenha procurado na Biblioteca Jurídica da Universidade de São Paulo. 36. Seu estudo de con itos e casos de tribunais envolvendo escravos no Rio do século XIX demonstra que os escravos exerciam uma complexidade de agências conflitantes e muito particular. LIMITANDO A CIDADANIA POLÍTICA 1. A legislação indigenista do século XIX que discuto pode ser encontrada na útil compilação organizada por Cunha (1992).

seção 5. . Também no sentido de restringir fraudes eleitorais. Meu argumento é o de que. definindo-o como “o instrumento cego e doce de todos os despotismos” (1979: 129). É também emblemático da rme tradição entre os escritores brasileiros de se concentrar mais na análise da doutrina do que na análise empírica. no Brasil. proibia o voto por procuração e eliminava a cédula assinada. cinco foram unanimemente constituídas por um partido. inclusive a distribuição de cargos e o uso de fraude eleitoral. Macpherson (1962: 282-3) argumenta que o termo “serviçal” se referia a todas as pessoas que trabalhassem por salário a serviço de outra — como aconteceu em debates em torno do sufrágio por toda a Europa até o nal do século XIX. nos dois lados do Atlântico. De qualquer forma. A nalidade de cada mudança no sistema era a mesma: assegurar a representação de partidos minoritários na Assembleia Nacional de forma que o partido escolhido pelo imperador para compor um gabinete e organizar as eleições não tivesse todos os assentos. durante o século XIX. com efeito. Além do mais. foram implementados cinco sistemas eleitorais diferentes. 10. Esses assalariados eram em grande medida excluídos do direito de voto porque se supunha que a dependência econômica aos seus empregadores comprometeria sua capacidade de assumir decisões políticas responsáveis. quando foi criado um sistema de justiça eleitoral com tribunais estaduais e federais para assumir a responsabilidade pelo registro de votantes e pelas eleições. Ele apregoava uma reforma eleitoral que impusesse quali cações como alfabetismo e taxa de votação como forma de identi car os votantes mais aptos. Além disso. o número de eleitores alocados em cada paróquia se igualava ao número de “fogos” ali encontrados. ademais. Eram indicados diretamente pelo imperador e usavam todos os seus poderes para favorecer o sucesso de seu partido. o relatório ministerial de 1870 usado por Souza distingue os dois nos registros. citado em Costa Porto (2002: 115).sobre o direito de voto na Inglaterra do século XVII. Assim. contudo. a maioria dos assalariados tampouco seria quali cada. o artigo 5 proíbe outras religiões de quaisquer expressões públicas de seu local de culto. 11. Os primeiros incluem Costa (1985: 23) e Nelson Werneck Sodré. O estudo demonstra um conhecimento detalhado tanto dos sistemas políticos e eventos nessas regiões como de seus principais lósofos políticos. e uma delas teve um único deputado oposicionista (Nicolau 2002: 25-6). quando era deputado na Assembleia Nacional. não houve eleições. É difícil obter estatísticas eleitorais precisas e sistemáticas anteriores a 1932. os segundos. a maioria dos quais não recebia salários. 6. Entre 1937 e 1945. Por essa razão. Antes de 1932. termos como “criado” eram usados de forma bem mais ambígua na América Latina. Ademais. o imperador escolhia o partido político para formar um gabinete e esse partido organizava as eleições. ele argumentava de forma apaixonada contra o sufrágio universal como um direito natural. Carvalho (2001 e 1988). que tinham desse modo os seus direitos políticos negados. O propósito do sistema eleitoral durante o Império não era escolher um governo. a soma resulta no número total de cidadãos ativos. e assim por diante. 7. exigências específicas de rendimentos vieram para substituir ambiguidades de classificações sociais na concessão de direitos políticos. 8. com o padre da paróquia sentado ao lado direito do presidente da junta eleitoral. só depois de 1945 o sistema de justiça eleitoral organizou dados eleitorais con áveis. Desse modo. Ainda assim.1 anteriores a 1945 devem ser vistas como uma aproximação. especi cada na lei eleitoral: as assembleias de votantes se baseavam na residência paroquial. seu estudo é por certo o melhor escrito por um contemporâneo acerca do sistema eleitoral. Embora os “eleitores” fossem também “votantes”. pelo mesmo votante ou por outro a seu pedido” (artigo 7). as eleições serviam para garantir apoio parlamentar para o gabinete e para o partido no poder. e o artigo 95 nega a seus membros o direito político de ser eleito representante. como citado acima. as eleições eram realizadas dentro da igreja da paróquia. embora a categoria incluísse muitos cidadãos (além dos escravos). Mesmo assim. Em vez disso. cuja lista era a xada nas portas das igrejas. Souza publicou seu estudo sobre o sistema eleitoral do Império em 1872. Embora tenha fracassado como prevenção à fraude. esta última medida tornou mais fácil a votação de analfabetos qualificados. Nicolau (2002: 11) sugere que a legislação eleitoral entre 1824 e 1842 limitou a votação de analfabetos porque a cédula de voto tinha de ser assinada. Costa Porto (2002) e Faoro (1975). essa responsabilidade era descentralizada e sujeita a tanta corrupção que muita informação eleitoral foi perdida. e não ofenda a moral pública”. a Igreja Católica Romana exerceu in uência forte e direta sobre a cidadania política. depois da missa. No entanto. “criado de servir” era restrito a empregados domésticos. uma vez que respeite a do Estado [de nida no artigo 5 como católica apostólica romana]. Assim. Nos períodos colonial e imperial. invocando-os como forma de analisar os problemas do Brasil. Durante o Império. A Constituição imperial oferecia um simulacro de liberdade religiosa. No entanto. mal registrada ou adulterada de forma irrecuperável. é um excelente exemplo do grande interesse mantido pelas elites brasileiras em relação aos acontecimentos da Europa e da América do Norte. o que signi ca que contém poucas mas ainda assim preciosas descrições de eleições e eleitorados brasileiros especí cos. no artigo 179. Como liberal. o decreto 157 de 4 de maio de 1842 exigia uma lista prévia de votantes quali cados. pelo menos em termos de poderes executivos. cláusulas especí cas permitiam que analfabetos votassem com a ajuda de um encarregado da junta eleitoral. Assim como na maior parte das categorias sociais. 9. a reforma eleitoral de 1o de outubro de 1828 reiterava que a cédula tinha de ser “assinada no verso. Essas práticas só se encerraram em caráter o cial com os sentimentos relativamente anticlericais da Lei Saraiva em 1881 e com a Constituição da República em 1891. das dezesseis legislaturas eleitas durante o Segundo Reinado (1840-89). que “ninguém pode ser perseguido por motivo de religião. O capítulo que garantia os direitos civis e políticos dos cidadãos brasileiros a rma. uma prática em efeito desde as primeiras eleições no Brasil. Os presidentes das províncias tinham um papel fundamental nessa organização. as estatísticas eleitorais da tabela 3.

1984: 235-46) estudou a votação no Jardim das Camélias. por exemplo. A emenda constitucional 25. Modificou o artigo 147 da Constituição de 1967 (em sua versão alterada de 1969). certificados de rendimento e impostos pagos e um registro comercial atestando os investimentos de capital. em 1893. depois revogado. Os dados relevantes não fazem parte do arquivo do Tribunal Superior Eleitoral.7%). No entanto. e homens que recebiam assistência pública ou estivessem falidos em geral não tinham cidadania política. Não encontrei a etimologia do signi cado eleitoral da palavra “fósforo”. Venezuela (1946). Pode ser também que o significado tenha uma referência mais icônica. esquematizar. Na Espanha. 15. o sufrágio quase universal para homens foi implantado em 1912. Entre outros aspectos. Executivo e Judiciário. A palavra “cabalista” vem de “cabalar”. e em 1890 instituído em de nitivo. deriva do nome da loso a judaica. Ele colheu amostragens de registros eleitorais entre os anos 1870 e 1875 em várias paróquias na cidade do Rio de Janeiro. aprovada em 1985. ou seja. Em países que mantinham exigências de alfabetização. Como seu cognato em inglês. Chile (1970). 16. penetra” como um dos signi cados de “fósforo”. O sufrágio universal masculino surgiu. A antropóloga Teresa Caldeira (1980: 81-115. e a Bélgica. Entre os documentos necessários para provar o rendimento anual estavam. 14.4% da população adulta do sexo masculino. abolindo restrições anteriores aos analfabetos. “cabal”. na Alemanha e na Prússia em 1849. ao requerer legislação posterior para determinar “a forma pela qual possam os analfabetos alistar-se eleitores e exercer o direito de voto”. O direito de voto dos analfabetos teve uma longa tradição durante o Império português. o artigo seguinte contém o que provavelmente é a frase mais notória da Constituição: “A pessoa do imperador é inviolável e sagrada: ele não está sujeito a responsabilidade alguma”. O dicionário Novo Aurélio menciona “intruso. A Áustria universalizou o sufrágio masculino em 1872. 19. 12. para que incessantemente vele sobre a manutenção da Independência. Como resultado. as duas práticas foram tornadas voluntárias para os analfabetos. O espírito da irresponsabilidade e dos estratagemas legais talvez tenha começado nas próprias instâncias superiores da política brasileira. 21. equilíbrio. nas longínquas colônias. além dos poderes Legislativo. como a chama de um fósforo. no início da “abertura” do regime militar. de mulheres livres (30%) e de menores de 25 anos de idade (27%) da população total. O estudo de Mircea Buescu é um dos poucos que tentam desagregar votantes da população total (citado em Costa Porto 2002: 115-6). Continuando a tradição de constituições brasileiras anteriores. em que o dublê eleitoral surja com uma identidade específica apenas por um breve instante antes de desaparecer. o tamanho do eleitorado permanece um mistério. a Constituição imperial é notável por ter criado “o Poder Moderador”. com o poder imperial. Bolívia (1952). quando subtraiu o número de escravos (18. muitos homens que se quali cavam por suas realizações ou por nascença como “homens- bons” — a base tradicional da representação estamental portuguesa — eram analfabetos. e seu primeiro representante. Em entrevistas com moradores. em 1978. 13. depois de mais de vinte anos de governo militar. um contrato especi cando o valor do aluguel e pelo menos um ano de recibos. Mas registrou também que moradores que haviam ganhado direito ao voto no período posterior a 1945 tinham uma forte noção de . atribuído à fala popular no estado de São Paulo. como chefe supremo da nação. Gostaria de agradecer à Biblioteca do Tribunal e ao Gabinete do Presidente da República pelo auxílio nessa pesquisa. Na Itália. descobriu que esses 6743 votantes registrados correspondiam a 20. que não foi concluído até 1940. A explicação mais simples de por que os analfabetos adquiriram direitos políticos talvez seja que. acabou com a privação do direito de voto aos cidadãos analfabetos. 1867 e 1884 expandiram o sufrágio para homens adultos de forma progressiva até se tornar universal em 1918. para locatários. e harmonia dos mais poderes públicos” (artigo 98). Colômbia (1936). Mas o preconceito contra o recurso a auxílio público perdurou em toda a Europa. As Leis da Reforma Inglesa de 1832. documentou muito bem a sensação geral de ressentimento e ceticismo em relação à política sob a repressão e o reduzido valor que atribuíam a seu voto. Os suecos estenderam esse direito de forma signi cativa para os homens em 1866 e o universalizaram tanto para homens como para mulheres em 1918. na qual Júlio Prestes derrotou Getúlio Vargas mas nunca assumiu o cargo. a cabala. No entanto. para proprietários de terras. por exemplo. Aprofundando a de nição desse Poder Moderador. muitos dados demográ cos do início dos anos 1930 não se encontram disponíveis. para os que recebiam rendimentos por serviços pro ssionais ou comerciais. Em Portugal. cujos registros começam em 1932. que sofreu de graves de ciências de mão de obra tanto em casa quanto no exterior. tornou obrigatórios tanto o registro como a votação para cidadãos de dezoito a setenta anos. 17. que se baseia em interpretações esotéricas das Escrituras hebraicas. a Constituição Cidadã instituiu o “sufrágio universal” (artigo 14). Peru (1980) e Brasil (1985). É “delegado [esse quarto poder] privativamente ao imperador. embora nem eu nem os paulistas que interpelei tenhamos ouvido a palavra usada nesse sentido. Embora eu tenha conseguido calcular o número de votantes na eleição presidencial de 1930. conspirar. um título registrado legalmente com o preço de compra anotado e uma avaliação o cial da propriedade. embora na Alemanha só tenha se tornado efetivo em 1866 e na Prússia fosse um direito proporcionalmente repartido entre três classes. 18. A Revolução de 1930 suspendeu o censo nacional programado para aquele ano. Dos 135896 residentes que estudou. a lei de reforma eleitoral de 1918 universalizou o sufrágio masculino. somente 6743 eram registrados como votantes. foi instituído pela primeira vez em 1868. 20. intrigar. As mulheres inglesas obtiveram o direito de votar dez anos depois. a revogação dessa prática ocorreu na seguinte ordem: Uruguai (1918). no que pode ser considerado uma validação parcial da desquali cação anterior. um bairro na periferia da zona leste de São Paulo. 5% do total e 6% da população livre. Quando se restabeleceu a democracia no Brasil em 1988.

22. Por isso. Assim argumenta Hegel na Filoso a do direito. Embora considere que o vínculo entre a propriedade privada e o desenvolvimento ético de uma pessoa seja “bastante obscuro”. Lula obteve 48% dos votos e Serra. a igualdade do sufrágio obrigatório é de fato aplicada. Não somente foram mais generalizadas. e que essa noção estruturava suas opiniões quanto ao regime militar. realizado cerca de um mês depois. Claro que elas poderiam ter me dito o que achavam que eu queria ouvir. a propriedade é […] a forma pela qual eu dou à minha vontade uma personi cação (1967: §46A [não incluso na ed. foi ainda mais alto: 41% em 1994 e 20% em 1998. 1.]). 4. Waldron argumenta que os hegelianos “estabelecem uma relação entre o respeito à propriedade e o respeito às pessoas” e também sonda “importantes relações entre a existência da propriedade privada e elementos como a autoa rmação individual. além de multas para os que não votam ou se registram. como vontade livre. 3. 2. Acredito que as pessoas con avam em mim porque na época eu já era bem conhecido no bairro.si mesmos como cidadãos políticos. foi que nos vinte distritos em que Lula venceu.7 mil reais. os despossuídos”. De qualquer forma. Os cidadãos brasileiros precisam apresentar comprovante de que votaram. vivia a maioria dos eleitores (56%). que é apenas na posse de propriedades que “eu. um eleitor que não pagar a multa ou não se justi car legalmente não pode obter passaporte ou carteira de identidade. pela primeira vez real” (1997: §45). A chave para a vitória. o que pode ter estabelecido um padrão mundial por sua simplicidade e eficiência. concorrer a empregos ou ter promoções no serviço público e fazer empréstimos em instituições públicas. o público tem o dever de participar do processo político de legitimação ou reformulação. em especial com respeito às implicações de ausência de . Um Estado democrático tem também o direito de ter seu governo legitimado ou reformado dessa maneira. Parece que essas últimas eleições despertaram o compromisso do eleitor de uma forma não alcançada pelas duas anteriores. minhas entrevistas sobre aquele período no mesmo bairro confirmaram esses sentimentos. Em vez disso. nas eleições presidenciais de 2002 esse número caiu para 10% no primeiro turno e para 6% no segundo. O voto opcional não era o principal fator de exclusão. para um total de 21. pagar uma multa. Sou a favor do primeiro por várias razões. mas teve papel importante. Nas eleições para o Congresso. o número aumentou para 19% em ambas. a estabilidade da vontade e o estabelecimento de um senso apropriado de prudência e responsabilidade” (47). seção 27. Num país de desigualdades tão vastas e sistêmicas. que o sistema político se mostrou mais excludente (tabela 3.1). pois governar sem legitimidade eleitoral é antidemocrático. Embora alguns autores discordem dos aspectos da análise de Macpherson do “individualismo possessivo”. Ele diferencia as abordagens hegeliana e lockiana da propriedade. os resultados da eleição sugerem fortemente que eles de fato votaram na candidata do PT. Nos distritos de Serra era de 2. De fato. “a base lógica da propriedade deve ser encontrada não na satisfação das necessidades mas sim na substituição da personalidade” (1967: §41A [não incluso na ed. me torno objetivo para mim mesmo na posse e. 46%. Overton (An Arrow against All Tyrants. derivando disso direitos civis e políticos. 26. no entanto. 197-221) para as duas teorias do direito de propriedade. Discute-se bastante hoje em dia se o voto deve permanecer obrigatório ou se tornar opcional. há pouca dúvida quanto à centralidade do direito de propriedade no desenvolvimento da cidadania moderna. Como tal. O capítulo 7 analisa essa participação popular no esboço da Constituição. bras. entre 1881 e 1932. Segundo tratado. Ver Waldron (1988: 343-89) para uma discussão sobre a justi cativa da propriedade privada como direito da personalidade em Hegel. o reconhecimento mútuo. o voto obrigatório com sufrágio universal é uma das poucas instâncias da equiparação de direitos e deveres entre todos os cidadãos instituídas com rigor. 1646) havia estabelecido o preceito de ser o proprietário de si mesmo um pouco antes de Locke. o sentimento de senhorio de si produzido pela propriedade não é um dado natural. 24. A margem da vitória anterior de Lula quase desapareceu porque Serra manteve sua força no eleitorado dos distritos centrais e venceu em outros nove distritos no norte e no leste. o que é em si uma raridade no Brasil e. com todos os cargos federais e estaduais na disputa (exceto prefeitos e vereadores).]). se o Estado tem o direito. “a existência que esta vontade [de que algo deva ser meu] assim adquire implica a possibilidade da sua manifestação a outrem [o reconhecimento por outros]” (1997: §51). “a eleição foi decidida pelos que tinham menos. portanto. 23. Pode-se adotar o argumento teórico de que numa democracia o Estado não só tem o dever de se apresentar à legitimação pública através de eleições. um importante exemplo do aperfeiçoamento do estado democrático de direito e do combate à impunidade que o assola: a reforma eleitoral de 1965 estabeleceu que. Nas duas eleições presidenciais seguintes. foi justamente quando o voto era opcional. por isso. embora eu considere que desenvolvi um bom ouvido etnográ co que não me deixa ser enganado. O registro histórico também é revelador. o rendimento médio mensal de um chefe de família em 2000 era de 900 reais. No segundo turno da eleição. Para Hegel. Nesses distritos periféricos. Locke. Como o Seade (2004c: 48) concluiu depois de analisar esses dados. Por isso. Na tradição inglesa. ou se justificar. O problema dos votos nulos ou em branco é complexo demais para ser discutido aqui. RESTRINGINDO O ACESSO PROPRIEDADE FUNDIRIA. como também foram a primeira a empregar urnas eletrônicas em todas as disputas. Ver Macpherson (1962: 137-42. bras. todos nas mais distantes periferias. Além disso. 25. em 1994 e 1998. Entretanto. Iniciadas uma década depois.

em alguns lugares e sob algumas condições. 1711. reconhece Locke. a Coroa decretou legislação em 1702. um arrendatário tem o usufruto mas não a propriedade. um ladrão. 1770 e 1795 ordenando que os sesmeiros no Brasil medissem e registrassem suas terras até determinada data. Considera a posse um poder factual que deve ser exercido de forma ativa. Durante o século XVIII. “Uma vez que todas as terras estejam ocupadas. mas também que. mas a causa da posse nem sempre é a propriedade. alienação e indenização. 9. por exemplo. Em Locke. Na minha visão. Eles pertencem “à casa pobre” e por isso perdem seus direitos de cidadãos. 7. a Coroa continuou a garantir novas sesmarias nas áreas já ocupadas.” 5. da autorrealização. em geral usavam disparos de echas como unidade de medida.7 mil brasileiros estudaram em Coimbra. O fato de a Coroa ter ou não dispensado as terras indígenas dessa reivindicação a um título original é uma questão complexa. fundamentada no direito romano e nas teorias dos juristas alemães Ihering e Savigny. para seu próprio sustento. do reconhecimento mútuo. Como mostrou o capítulo 2. em especial da terra e da casa própria. não em grau: os que não têm propriedade são. lucro. 13. e a de Silva (1996) para a metade do século XIX. Ver Bomtempi (1970: 52) para outros exemplos. tem a posse mas não a propriedade dos bens roubados.propriedade. 12. por exemplo. outras anulavam a retroatividade. ao longo do século XVIII. Meu colega e professor de direito José Reinaldo de Lima Lopes. um indivíduo pode desenvolver essas características de outras formas. a abordagem de Hegel é distributiva: “Se o argumento funciona. 11. “ocupadas” ou “devolutas” eram extraordinariamente complicadas e contestadas. levantamentos prévios de terras em 1753. Assim. nas palavras de Hegel. do respeito como cidadão e assim por diante. 1755. ‘todos devem ter propriedade’” (4). Ver nota 43. O tempo todo. Sou cético quanto a isso — pelo menos quando a história é compreendida mais como processo do que como série de pontos descontínuos no tempo —. considera a propriedade um poder jurídico ou uma carga de direitos que incluem uso. 6. a Coroa fez isso até poder considerá-las “vazias”. credor do evolucionismo ético e social de Herbert Spencer. cada lei tornou ilegal um novo conjunto de propriedades. mas não outras. ele estabelece. Costa (1985: 28) observa que. Ver também Holston 1991a para um estudo da autoconstrução como estética usada pelos construtores de casas para expressar ao mesmo tempo suas realizações no mundo e suas intenções íntimas. embora Locke enfatize a igualdade natural de direitos. 10. não só que a propriedade privada é moralmente legítima. As primeiras concessões de terras. uma representação que eles caracterizam com termos como “personalidade”. e assim por diante. Estou convencido da posição de Macpherson (1962: 231) de que. Como em todas as questões relacionadas à terra. O princípio de que não existem lacunas nas leis está sacramentado no atual Código Civil em sua introdução. dos que têm propriedade. como discuto no restante deste capítulo. Como resultado. por exemplo. assim como muitos de sua geração. Cunha (1992) sugere que a Coroa reconhecia os direitos senhoriais originários dos índios à própria terra. o indivíduo sem nenhuma posse de coisas perde aquela plena condição de propriedade de sua própria pessoa que era a base de sua igualdade de direitos naturais. Ao contrário. e limitações de tamanho em 1795. sob pena de perder suas concessões. Em termos de sua aquisição. A propriedade inclui a posse como seu efeito. 4. no Brasil inclusive. As descrições mais úteis que encontrei dessa confusão legal foram a de Lima (1988) para o período colonial. me recorda que. posse signi ca posse física por vários meios. Beviláqua também era. por exemplo. 8. pois a Coroa não tinha dúvidas quanto ao seu “direito de conquista” e expulsou os índios dessas terras de uma forma ou de outra sem perdão. sob a notável e abrangente in uência do liberalismo. mas nenhum costuma ser mais sistemático que a propriedade. Existe alguma discordância quanto a essa consequência na teoria de Locke. porém. A lei civil brasileira tem enfatizado historicamente essa diferença. sem oposição. Algumas outras realizações. o atual Código Civil (artigo 489) classi ca como justa a posse . cerca de 1. algumas regulamentações eram retroativas. as próprias de nições de terra como “vazias”. Em todos os casos. da Universidade de São Paulo. Em relação à terra. dependentes. que não precisam ser exercidos para continuar válidos. na maior parte do mundo moderno. é um fato histórico e cultural que. parece haver indícios de apoio de ambos os lados ao argumento. Nenhuma concessão de terra e nenhuma lei fundiária foram uniformes em suas exigências. e são incapazes de alterar suas próprias contingências. […] Dito de outro modo. a maioria dos sesmeiros ignorou a ordem. muitos Estados e sociedades estruturam suas noções de desenvolvimento social e do tipo de pessoa mais bem quali cado para a cidadania em termos da aquisição e conservação da propriedade. artigo 4. Algumas concessões especi cavam limites de tempo (eles próprios determinados irregularmente) para vários propósitos. Em termos gerais. Não acredito que a propriedade fundiária seja absoluta ou unicamente necessária para o desenvolvimento do senhorio de si. Por isso. Ademais. sem declarar ilegal nenhuma das concessões existentes. a legislação requeria a aprovação das concessões pela câmara municipal em 1713. a propriedade pode ser considerada necessária no sentido de não ter havido substitutos igualmente valorizados. incluindo a ocupação e o cultivo. ele também argumenta que a igualdade inicial de direitos naturais não pode sobreviver à diferenciação da terra. distinguindo-se da propriedade. o direito fundamental de não ser sujeito à jurisdição de outrem é tão desigual entre proprietários e não proprietários que difere em espécie. direitos ou relações poderiam ter constituído oportunidades para esse entendimento. a sociedade não tem obrigação de subsidiar aqueles sem propriedades de terra ou de coisas. “como bom brasileiro positivista”. No entanto. na medida em que as pessoas sempre têm em si mesmas um direito de propriedade. outras não.

que. assim. Ao contrário. que dedicou o último capítulo de O capital a derrubar suas teorias sobre “a manufatura de trabalhadores assalariados nas colônias”. 21. Ver a análise desse fracasso em Costa (1985: 94-124). Descobriu que o capital não é uma coisa. publicou um minucioso estudo em 1867 sobre as políticas fundiárias e de imigração dos Estados Unidos. as colônias. de subsistência. A. a propriedade de dinheiro. 36% como sesmarias. é de esperar que o imigrado pobre alugue o seu trabalho efetivamente por algum tempo. Ver capítulo 3. esse esquema criou 67 colônias e obteve algum sucesso em trazer nova mão de obra para as plantações de café de São Paulo. citado em Lima 1988: 84). Dean faz a interessante observação de que a abolição da primogenitura na década de 1830 pode também ter estimulado a expansão das reivindicações de terra. na república americana. Hirschman (1977) descreve o desenvolvimento desse éthos na origem da Europa moderna. uma das mais populosas. mas uma relação social entre pessoas. Ao mesmo tempo que advogava uma reforma agrária radical. clandestina ou precária”. se lhe falta o complemento o trabalhador assalariado. e injusta em caso contrário. Como a profusão em datas de terras tem. por exemplo. cujos argumentos apaixonados só tiveram efeito bem mais tarde no século. Duas dessas propostas vieram de Carlos Augusto Taunay e do senador Nicolau Vergueiro. mas a verdade. Em 1845. O relato mais detalhado da in uência das teorias de Wake eld no Brasil é de Smith (1990). entre posses adquiridas em boa ou em má-fé.“que não for violenta. 16. Ver também Dean (1971: 613-4). antes de obter meios de se fazer proprietário” (Bernardo de Vasconcellos e José Cesario de Miranda Ribeiro. sem nenhum recurso além de seu trabalho e. Parte da reforma jurídica do marquês de Pombal. relatou que 44% de suas terras eram reivindicadas como posses. Lima (1988: 83-5) e Silva (1996: 99-105). Taunay observou em 1834 que projetos de colonização europeia não conseguiram resolver o problema trabalhista nas fazendas porque os imigrantes com algum recurso compravam seus próprios escravos. 23. e Shklar (1991). efetivada através de coisas” (884-5). Marx (1968: 890) não apenas ridicularizou os motivos de Wake eld: “Que horror! O bravo capitalista importou da Europa com seu bom dinheiro seu próprio concorrente em carne e osso! É o m”. de máquinas e de outros meios de produção não transformam um homem em capitalista. Aumentando-se. Vergueiro fundou uma companhia privada para promover um novo tipo de colonização que alocava imigrantes em fazendas como meeiros. Nos vinte anos seguintes. A proposta do Conselho expressa claramente a in uência de Wake eld: “Um dos benefícios da providência que a Seção tem a honra de propor a Vossa Majestade Imperial é tornar mais custosa a aquisição de terras […]. O objetivo do plano de Vergueiro era reter imigrantes no serviço nas fazendas pelo maior tempo possível. sem poderem recorrer a um mercado de trabalho livre. e idade de mais de cem anos (citado em Lima 1988: 54). Por isso recomendou a importação de imigrantes livres como “mão de obra nua”. Famílias pobres europeias assinavam contratos que as obrigavam a trabalhar nas plantações até pagar os custos subsidiados de suas passagens e manutenção. Funcionava como um sistema de servidão por dívidas. o valor das terras e di cultando-se consequentemente a sua aquisição. Ele foi notoriamente criticado por Marx. ver Miranda (1928: 68-71) e França (1977: 518-21). ambas discutidas em Silva (1996: 105-7). Ver Nascimento (1986). C. Era opinião unânime que a prática de se apossar e ocupar terras para cultivo estava de acordo com os critérios de racionalidade e tempo. […] De início. 19. Faz ainda outra distinção. acima de tudo. ele reescreveu as leis eleitorais (instrução no 57 de 1822) para negar direitos políticos a quase todos os trabalhadores assalariados. a Lei da Boa Razão de 1769 de nia direitos consuetudinários pelos seguintes requisitos: “de ser conforme as boas razões […] que constituem o espírito das minhas [do rei] leis” sem contradições dessas leis. o presidente da província de Minas Gerais. que se expandiam. Esses direitos não devem ser confundidos com a lei consuetudinária que se desenvolvia na África na mesma época como uma categoria residual de práticas legais indígenas não assumidas pelos governos coloniais (ver Moore 1989). Carvalho (1981: 40). e 20% permaneciam não distribuídas (citado em Dean 1971: 610). Ele também desmantelou os argumentos de Wake eld e transformou o restante para seus próprios propósitos: “Grande mérito de E. Mais uma vez Bonifácio se mostra socialmente progressista e politicamente conservador. 15. 20. sem lhes garantir terras grátis. quando proprietários de terra organizavam expedições para obter posses para cada um de seus filhos. 18. para Portugal e suas colônias o próprio costume era de nido na legislação. G. mais que outras causas. A pequena propriedade como política de desenvolvimento nacional atraiu inúmeros advogados entusiasmados. mas as posições se dividiam quanto à sua contradição da regra de que a terra no Brasil só podia ser adquirida por meio da concessão de sesmarias. baseada em critérios subjetivos. sobre as relações capitalistas na mãe-pátria. 14. Tavares Bastos. contribuído para a di culdade que hoje se sente de obter trabalhadores livres é seu parecer que de agora em diante sejam as terras vendidas sem exceção alguma. Minha discussão da lei de 1842 e da subsequente Lei de Terras de 1850 deriva de minha leitura dos debates originais nos anais . 22. Wake eld se tornou conhecido nas décadas de 1830 e 1840 e foi citado no trabalho de John Stuart Mills como uma autoridade em colonização. as inúmeras restrições e contradições formuladas no sistema para atingir seu objetivo provocaram seu colapso. o outro homem que é forçado a vender-se a si mesmo voluntariamente. No início da década de 1840. que discuto neste capítulo. descobriu Wake eld. Em última análise. 17. Levenhagen (1982) e Viana (1985) sobre essas distinções. Sobre a Lei da Boa Razão. Wake eld é ter descoberto não algo novo sobre as colônias. nas colônias.

perderam as áreas não produtivas de suas concessões e todos os direitos de propriedade das produtivas. O texto integral da Lei de Terras de 1850 que uso está incluído como apêndice em Pereira (1932). Depois de terem se assentado em terras doadas pela Coroa. 31. Posses produtivas podiam ser legalizadas a despeito do tamanho. não consiste na quantia da venda. 2: 347) cita — sem atribuir autoria — um “relatório o cial” de 1850 que recomenda os pequenos proprietários “como a mais poderosa forma de fomentar a imigração”. argumenta um deputado de Minas Gerais. 32. 33. acreditavam que seu dinheiro beneficiaria mais a produção no Vale do Paraíba. Além disso. v. das franquezas locais. 3 mil no seguinte e para apenas setecentos em 1852 (Graham 1968: 164). os colonos tinham de usar a terra de forma produtiva durante cinco anos e pagar uma taxa de 26 dólares. apoiaram a medida porque eram os que mais precisavam de novos trabalhadores. na província de Santa Catarina. se mais recentes. A lei reconheceu que as invasões de terras da Coroa (posses) podiam ser validadas sem restrição ao tamanho se ocupadas e cultivadas antes de 1822 e. No entanto. As que não atendiam — quase todas — precisavam de uma revalidação e estavam sujeitas a multas caso não fosse feita em seis meses e a con sco em seis anos. cumpre repeti-lo. a lei eliminava a taxação anual da terra proposta no projeto de lei anterior. Ademais. Dean (1971: 618) cita uma reveladora passagem nos debates parlamentares da revivida lei de reforma de 1850. foram recompensados com a adição de terras contíguas da Coroa. Por m. Para serem consideradas válidas. Tavares Bastos argumentou que “o máximo proveito do Estado. 59). tendo concluído que seria menos dispendioso. somente em limites estritos de área. incompatível com o tráfico de africanos”.25 dólar (cerca de 2500 mil-réis) por acre de terra nacional. o número caiu para 23 mil no ano seguinte. dependendo da qualidade e da localização. “Os Estados Unidos devem ser tomados como modelo nessa questão”.da Câmara dos Deputados do Brasil (1843 e 1850) e sua descrição em Dean (1971). 26. “pretender que por si só o sistema de venda das terras nacionais bastasse para atrair aos Estados Unidos os emigrantes do velho mundo seria uma apreciação incompleta e inexata sem se computar a in uência das liberdades individuais.” 29. De fato. 30. as sesmarias existentes tinham de atender plenamente os termos de suas concessões. Em seu trabalho de 1867 sobre imigração no Brasil. Handelmann (1982: 349) ilustra a desvantagem comparativa da imigração brasileira narrando as atribulações dos colonizadores alemães em São Pedro de Alcântara. as terras não cultivadas seriam taxadas. Lima (1988) e Silva (1996: 95-9. Tavares Bastos (1939: 83-4) comparou o preço por acre em diversos países. A lei produziu muitas novas e importantes conciliações com os proprietários. por exemplo. portanto. Para se quali car. Tavares Bastos (1939: 78) cita um estudo francês do caso americano. 25. embora revertida depois. Em outras palavras. o Parlamento havia aprovado em 1830 uma lei que proibia gastos federais em colonização estrangeira. cujo surto de prosperidade e civilização certamente maravilhou os nossos legisladores”. Os registros indicam que o número de escravos africanos importados ao Brasil caiu muito em poucos anos antes de cessar de todo: de cerca de 54 mil em 1849. sim. incluindo levantamento e registro legais. Os cafeicultores do rico Vale do Paraíba. pois precisavam menos de novos trabalhadores e. Os fazendeiros das decadentes regiões de produção de açúcar do Nordeste e os que plantavam café nas regiões fronteiriças de São Paulo e Minas Gerais se opuseram. Tavares Bastos (1939: 63-7) argumentou em 1867 que a imigração espontânea “não é absolutamente incompatível com a escravidão […] era. sempre é útil. do ensino popular.141-65). no Rio de Janeiro. 28. Talvez no mais signi cativo apaziguamento da ansiedade dos posseiros. a lei fazia clara distinção entre propriedade e posse. para grande decepção dos que queriam usar a reforma agrária para nanciar a imigração. Tal é o modelo que adotaram os estadistas do Brasil pela excelente lei de 18 de setembro de 1850 [Lei de Terras]”. até o limite máximo da maior sesmaria outorgada originalmente na área. Averiguou que na época os Estados Unidos haviam xado um preço de 1. Handelmann (1982. proibia novas concessões de sesmarias — exceto ao longo das fronteiras do Brasil e para reservas indígenas — e se negava a validar novas posses. Usando dados populacionais do censo de 1860. No entanto. a lei permitia que os que não atendessem às exigências da legalização continuassem “de posse” das terras usadas de forma produtiva. “A introdução de trabalhadores livres no [Brasil]. 27. foram forçados a comprá-las de particulares locais. mesmo que não venham temporariamente escravizados [uma referência ao modelo wake eldiano de 1842]. Em relação ao levantamento nacional de terras e à venda de terras públicas. o historiador jurídico Lima (1988: 67) observa que a Lei de 1850 “nada mais é do que um decalque das leis da terra adotadas nos Estados Unidos. o que desejamos é que nossas terras tenham valor. e todas essas molas que constituem o mecanismo da democracia moderna” (1939: 84-5. . que haja alguém para cultivá-las. enquanto no Brasil um acre custava entre 413 réis e 1653 mil-réis. e que nossos proprietários tenham rendimentos […] o que desejamos são terras cultivadas e aumento da produção. 24. da descentralização. As sesmarias estavam aptas a ser validadas mesmo se contassem com um cultivo incipiente e não atendessem a nenhum outro termo de sua concessão original. menos violento e menos inseguro do que apelar ao governo central pela proteção legal de suas concessões. A Lei de Terras de 1850 estabeleceu um preço mínimo de meio real e um preço máximo de dois réis por braça quadrada de terra pública. Além disso. num exemplo pertinente de formulação comparativa de um Estado-nação: “‘A lei americana das terras públicas tornou-se em essência uma lei europeia de emigração’. porém reconhecia que a posse produtiva sem título gerava direitos limitados de ocupação. mas no aumento da produção e da riqueza pela apropriação e exploração das suas terras”.

Contudo.2 mil por ano. democratas do Sul contra novos republicanos. O destino das terras devolutas permaneceu nesse estado de contradição até a Constituição de 1988 (artigo 188) incluí-lo — com ambiguidades diferentes. Enquanto a usucapião (tanto nos Estados Unidos como no Brasil) resulta num título de propriedade completo. nos quais a propriedade da terra é livre de obrigações para qualquer um investido de direitos superiores. o governo americano vendeu quase 147 milhões de acres de terras nacionais entre 1787 e 1858. Relatos do período são repletos de exemplos desse tipo de violência por causa da terra. criando burocracias federais entre 1906 e 1911 para patrocinar novas colonizações e proteger assentamentos indígenas existentes. cerca de 12. Esse artigo foi reproduzido literalmente na Constituição de 1937 (artigo 148). a Constituição de 1934 contrariou esse decreto ao não excluir as terras públicas do seu artigo 125. o governo brasileiro tinha conseguido vender meros 210600 acres. Ambas chegaram ao auge na década de 1890. Essas diferenciações não existem na lei brasileira. seu título válido é tão difícil de encontrar como um grilo que a gente escuta. O uso do termo “grilagem” e de outros assemelhados para indicar fraude fundiária tem etimologia duvidosa.6 milhões por ano. não podiam ser alienados ou usados como garantia. 41. 39. Em comparação. essas limitações financeiras e esses conflitos políticos na prática anularam as iniciativas federais. A emenda de 1964 manteve esse parágrafo e aumentou o máximo para cem. aos mercados de commodities modernos. 37. Ademais. que permite a usucapião de até dez hectares de terras usadas de forma produtiva para brasileiros sem outra propriedade. cerca de 2. os vigaristas os guardam em uma gaveta com grilos. concepções sobre a terra e o trabalho no desenvolvimento nacional. 34. A primeira é uma analogia: embora o requerente vigarista apresente montanhas de documentos para substanciar sua reivindicação a um pedaço de terra. de terras públicas para os governos de estados. Embora seja de uso absolutamente contemporâneo. assim como no Brasil. Ambas se referem aos hábitos do grilo e ao desenvolvimento do mercado imobiliário depois de 1850. e também da servidão prescritiva. pela Constituição republicana de 1891. O direito consuetudinário americano diferencia a posse adversa (correspondente à usucapião) da servidão. A Constituição de 1946 acrescentou um parágrafo que legitima explicitamente a posse de terras devolutas de até 25 hectares. apenas 120500 rumaram ao Brasil no período de 1855 a 1862 (cerca de 15 mil por ano). mas não em menor número — no princípio de que “a destinação das terras públicas e devolutas será compatibilizada com a política agrícola e com o plano nacional de reforma agrária”. 35. Porto (1965) e Pereira (1932). . Porém. por exemplo. nativistas do movimento Know-Nothing contra advogados da imigração. um decreto interpretou que o Código Civil de 1916 (artigo 67) determinava que as terras devolutas eram inelegíveis para usucapião. as repetidas concessões de terras de grandes dimensões do governo para interesses corporativos (madeira e estradas de ferro. quando a taxa de crescimento alcançou extraordinário patamar de 14% ao ano devido ao in uxo de imigrantes estrangeiros.7 mil dólares. ouvi duas possibilidades. É uma história bem contada em Robbins (1976: 92-298) sobre as alianças regionais e ideológicas em constante mudança no assentamento do Oeste americano. Outras discussões incluem Carvalho (1981). Os títulos de nitivos de propriedade da terra pública. Citado em Lima (1988: 76). 40. toda servidão é criada por acordo expresso ou implícito entre os proprietários da terra para que um dos donos faça uso da terra do outro. A discussão de Silva (1996) da implementação da Lei de Terras de 1850 é especialmente útil. opondo os interesses das fazendas do Sul aos das indústrias do Leste. A segunda é técnica: para fazer um documento parecer velho e autêntico. a maioria dos brasileiros que indaguei a respeito não oferecem sugestões. com alterações na Constituição de 1946 (artigo 156) e na emenda constitucional no 10 de 1964 (artigo 6). embora seu controle da terra em aldeias indígenas “extintas” fosse vigorosamente contestado pelos estados. Embora os lotes fossem chamados de “homesteads” (em inglês no original) e fossem hereditários. A posse adversa ou usucapião é hostil. Fausto 1984: 10). Ela também traça as consequências da transferência. O Homestead Act encerrou décadas de debates entre grupos que disputavam. como analisa Robbins.6 milhões de pessoas imigraram para os Estados Unidos entre 1850 e 1857 (cerca de 377500 por ano). entre 1859 e 1865. Ver Silva 1996. De acordo com a pesquisa de Tavares Bastos (1939: 86-7). isso reafirmava sua administração dessas terras. Algumas vezes. Essa migração para a cidade é claramente indicada pelo número de moradores estrangeiros na cidade de São Paulo e pela taxa de crescimento anual de sua população total. por exemplo) e para propriedades individuais minaram seu princípio de terra para os sem-terra.Imigrantes estrangeiros precisavam declarar sua intenção de se naturalizar. só foram outorgados a colonos que pagaram todos os custos à vista. solo livre e trabalho livre” como a melhor forma de consolidar a democracia americana. A renda total com as vendas chegou a 185 milhões de dólares. Consta que seus excrementos amarelam o papel. a servidão só cria direito a certo uso da terra e não tem efeito no título subjacente. O ato foi um triunfo para os que promoviam “terra livre. 36. 38. Em 1931. Essas complicações técnicas. A propriedade en têutica é associada aos serviços feudais e a alodial. Enquanto mais de 2. contudo. A legislação que autorizava essas iniciativas reproduziu muitos problemas da Lei de Terras de 1850. 80% (118 milhões) entre 1833 e 1858. Como documenta Silva (1996: 295-300). Lima (1988: 91-112) cobre debates durante a década de 1930. A presença deles na cidade chegou ao máximo de 55% da população em 1893 (Seade 2004: 9. 42. especuladores de terra contra pequenos fazendeiros independentes. embora eu não tenha testado esse método. com uma renda total de 85. O governo federal manteve sua autoridade sobre as terras públicas nos territórios federais (como o Acre) e em reservas indígenas.

Ainda assim. Teresa Caldeira me levou ao Jardim das Camélias em 1987. 44. falsi ca o el da balança de emis. A região metropolitana de São Paulo (MESP) compreende 39 municipalidades numa área de 8051 quilômetros quadrados e contava com 17. e sua existência distinguia com nitidez o urbano do rural por boa parte da história do Brasil. . a terra e as águas. Esses distritos são: Alto de Pinheiros. e o asfaltamento continua sendo um dos principais objetivos da mobilização das comunidades. A essa altura do texto. Santo Amaro. “herético” e “sodomita”). muito embora o censo nacional as empregue para classificar e analisar populações urbanas e rurais. por extensão pejorativa. Ver Silva (1996: 233-6). embora Langenbuch (1971) fale de periferia e de “periurbano”. artigo 586). que. obrigatório para as urbanas) e. porém. é meramente exterminador: varre e limpa a floresta tropical da sua sevandijaria americana”. Morumbi. a intervalos regulares de algumas décadas. Bonduki e Rolnik (1979). dependendo de seu valor. muitos bairros das periferias de São Paulo ainda contam com áreas não pavimentadas. povoados. a questão passou por decretos e estatutos adicionais. como resultado. Guaianazes.8 milhões de habitantes em 2000 (mapa 5. mas estradas e caminhos. Diversos estudos ignoram as concepções jurídicas e políticas do espaço e da sociedade no Brasil. sua população era de 10. o mameluco. Campo Belo. 6. um maior controle sobre a propriedade privada da terra. Cidade Tiradentes. Seplan (1979). Por exemplo.4). falsi ca juízes e cartórios. rural e arredores. 3. mais cruel e positivo. cujos moradores o haviam convidado para aconselhá-los em aspectos legais e organizacionais de seus conflitos de terras. o Registro não teve efeito algum. Capão Redondo. Uma lei municipal de 1915 dividiu São Paulo em zonas central. Em deferência aos interesses dos proprietários rurais. Contudo. Vila Andrade e Vila Mariana (IBGE 2000) (mapa 5. Ela havia conduzido um intensivo trabalho de campo no bairro entre 1978 e 1982. esse sentido de que o Estado era dono das terras devolutas por “aquisição original” se entronizou na Consolidação das Leis Civis (1867. O termo “bugreiro” vem de “bugre”. dez anos depois. Itaim Bibi. criado pelo governo federal provisório da nova república. Cinco. tornou o registro voluntário para as propriedades rurais (embora. Depois veio o Código Civil de 1916. vendem-nos os grileiros à legião de colonos que os seguem como urubus pelo cheiro da carniça. 2. 5. A legislação estadual e federal (1973-5) criou as regiões metropolitanas para propósitos de planejamento. Estive pela primeira vez no Lar Nacional alguns anos depois com o presidente da associação de bairro do Jardim das Camélias. Tanto os governos estaduais quanto o governo central tentaram exercer. Pinheiros. Deriva do francês bougre. o sinal mais signi cativo daquela vida eram ruas pavimentadas. se refere a um indivíduo que não é respeitado ou respeitável e que pode ser usado como xingamento (do latim Bulgarus. 4. Contudo. Esses vinte distritos mais pobres são: Anhanguera. suburbana e rural (ver capítulo 6). Mas vence. urbana. Consolação. Vianna (1933: 114) compara o bugreiro contemporâneo com seu predecessor. de modo similar às convoluções legais a respeito das terras devolutas. o autor da Consolidação. estranhamente. 5. 43. A municipalidade de São Paulo (MSP) compreende 96 distritos numa área de 1509 quilômetros quadrados. falsi ca rios e montanhas. 7. que serviu de base para sua pioneira etnogra a de 1984. “búlgaro” e. Exemplos incluem Camargo e outros (1976). 45. 46. que serviu como Código Civil até 1916. Grajaú. e o signi cado central de “urbanizado” se expandiu para incluir infraestruturas adicionais. selos. legislando novas regras para a transcrição. falsi ca o céu. Esse segundo sentido foi também complicado pelo problema das terras indígenas “tornadas vazias” pelas conquistas e pelas aldeias indígenas “extintas” por conta da suposta falta de índios identi cáveis. Segundo esse mesmo levantamento. Embora houvesse desacordo (ver nota 7). Divididas as glebas em lotes. Vianna (1933: 115) cita outra passagem de Monteiro Lobato: “[O grileiro] opera as maiores falcatruas. Historicamente. a or do café branqueia a zona e a incorpora ao patrimônio da riqueza nacional”. aldeias. o mestiço que séculos antes percorria o interior em busca de escravos índios e de ouro: “O mameluco antigo assalta para escravizar. “terras devolutas têm adquirido o Estado por título originário. A tentativa seguinte foi o Registro Torrens. o de hoje. a pavimentação para transportes modernos mudou essa distribuição física e lexical. de acordo com La Grande Larousse. falsi ca rmas. Sua principal municipalidade é a de São Paulo. SEGREGANDO A CIDADE 1. Brasilândia. fazendas e roças) não tinham ruas. que turvou ainda mais o problema da documentação da propriedade imobiliária ao instituir a validade tanto dos contratos privados como de títulos públicos para transações imobiliárias.1).1). de acordo com o censo de 2000 (mapa 5. Comunidades rurais (isto é. de 1890. ele usa principalmente subúrbios. na metade da década o termo “periferia” e o conceito de urbanização periférica se tornaram onipresentes nos mais importantes estudos acadêmicos e governamentais. Jardim Paulista. Ainda que contestado. falsi ca árvores e marcos. a visão dominante determinou que essas terras fossem devolvidas à Coroa como proprietária do território do Brasil. Moema. Perdizes. Apenas assentamentos classi cados como urbanos (cidades e vilas) tinham ruas. que se tem chamado direito de conquista” (citado em Lima 1988: 91). o registro e a emissão uniformes de títulos. Depois disso. Como argumentou Teixeira de Freitas. Importantes estudos de ciências sociais continuaram a usar as zonas suburbana e rural nos anos 1970 para descrever o desenvolvimento de São Paulo. falsi ca Deus e o Diabo. papéis. Kowarick (1980) e Caldeira (1984). que é também a capital do estado.4 milhões de habitantes. designação genérica e pejorativa do índio selvagem.

O Idort também tinha sua própria publicação. Para um estudo muito bem ilustrado do plano. remodelando praças e removendo “serviços” como a prostituição. alargando ruas. Por essa razão. dos males e vícios que degeneram as classes pobres. enquanto 334 toaletes acomodavam o mesmo número de famílias ricas. Existe um consenso universal entre historiadores urbanos de que os padrões condensado e disperso são os que melhor descrevem. abrigando 548 pessoas. e a Fundação da Casa Popular. Grupo de Arquitetura e Planejamento 1985. A primeira reforma urbana intensa ocorreu sob o prefeito Antônio Prado (1899-1911). em 55% dos domicílios sem banheiros faltavam também banheiras para tomar banho. não há dúvidas de que boa parte da legislação designada para “ajudar os pobres”. com o cortiço. incentivos trabalhistas. os institutos de bem-estar social produziram um total de apenas 124024 unidades. ainda entre nós. treinamento pro ssional. Nas áreas pobres. 96% dos 285 mil imigrantes ao estado de São Paulo eram brasileiros. que é a fonte de imperfeição. transferindo mercados. três. Duas citações de artigos do Idort demonstram o teor do ataque: “A maioria da população das grandes cidades vive em condições que degradam a dignidade humana e causam um dano físico e moral irreparável. que apresentou muitos artigos sobre habitação (em especial nos números 125-36) e sobre outras forças-tarefas que tinha organizado. Perus. Os dois resultaram em vários trabalhos.Iguatemi. 17. Embora seja difícil provar essa a rmação. Elas enfatizavam a necessidade do fordismo na produção. entre os últimos. e “Precisamos acabar. Lajeado. Itaim Paulista. Jardim Helena. No Bixiga. é o abrigo do pobre. apenas sete (Pierson 1942: 206. os cem domicílios abrigavam 447 pessoas em 43 construções. Pedreira. Ver Azevedo e Andrade 1982. riqueza nacional e tranquilidade social. Agradeço a Ronaldo Rômulo Machado de Almeida e a Maria Teresa de Morais Pinto Furtado por seu auxílio na pesquisa dessas instituições e de suas publicações. antropólogo americano dos quadros da Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo. são os centros das epidemias e das enfermidades contagiosas” (Penteado 1943: 21). Também sugere que sua intenção era reduzir o custo da indústria na ampliação da força de trabalho (já que o aluguel era um item usado no cálculo dos salários) e assim aumentar a taxa de acumulação e lucro do capital privado. 15. Canindé e Moóca). Camargo e outros (1978: 54-5) relatam que. Jaraguá. 80% dos empréstimos garantidos pelo Banco Nacional de Habitação (BNH) foram para requerentes de classe média e alta. salários mais altos e outras formas de incrementar o bem- estar e a produtividade da força de trabalho como forma de expansão industrial. a motivação da decretação e da renovação da Lei do Inquilinato é um enigma. uma família em cada. 13. A porcentagem de proprietários também variava drasticamente. 16. em meados dos anos 1970. Os títulos e as citações aqui e a seguir provêm das duas fontes relacionadas na nota 11. O plano não surgiu do zero. São Rafael. Além das referências citadas. Nos bairros ricos. ver Toledo (1996). 190 tinham água quente. Sapopemba. entre 1935 e 1939. Uma edição especial da revista (Idort 1942) publicou 37 textos e palestras da Jornada. As estatísticas de mortalidade e de morbidade demonstram o perigo biológico dos atuais bairros anti-higiênicos do proletariado” (Oliveira 1943: 17). muitos dos quais foram publicados na Revista do Arquivo Municipal. 9. Os principais eventos foram o Primeiro Congresso de Habitação (Instituto de Engenharia. deslocando pessoas e atividades do centro para as suas bordas. 16964 durante esses anos. 223 e tabelas 16-7). Bonduki (1998. 14. Além do apelo populista de um suposto controle dos aluguéis. Nas áreas ricas. Ver Langenbuch (1971) para as primeiras especulações imobiliárias nas zonas afastadas de São Paulo e Stiel (1984) para a história do transporte na região. muitas delas em guaritas externas. 19. que equilibrem a produção em grande escala. Parelheiros. Os cortiços são os criadores dos maus elementos para a sociedade. Em todo o Brasil. Vila Curuçá e Vila Jacuí (mapa 5. e que no entanto. para sempre. a Revista de Organização Cientí ca. 1994: 100-1. 8. o gerenciamento moderno do trabalho. Entre os primeiros. Bonduki 1998. Ele descobriu ainda que os cem lares ricos tinham um total de 226 salas de banho. Pierson contou um total de 48 toaletes. quis desencorajar investimentos em imóveis para aluguel. 10. o ambiente intoxicador e corrompido. . inclusive uma sobre a “organização cientí ca do trabalho” e outra sobre “a organização cientí ca da administração municipal”. Jardim Ângela. minha discussão aqui se beneficiou de Caldeira 2000 e Rolnik 1997. Morse (1970: 302) observa que. 1931) e a Jornada de Habitação Econômica (Idort 1941). Marsilac. o crescimento de São Paulo do nal do século XIX até pelo menos os anos 1990. Em vista de suas consequências obviamente deletérias para a habitação de baixa renda. que atendiam a cem famílias pobres. Como de niu um economista do Idort: “O mundo precisa de consumidores. Em termos de instalações sanitárias. os cem domicílios eram distribuídos entre cem casas. Ele pesquisou cem domicílios em três bairros ricos (Higienópolis. 18. em sucessão. Administrações subsequentes continuaram esse tipo de reconstrução. 11. os residentes eram donos de 86 das cem residências pesquisadas. Jardim América e Pacaembu) e cem em três bairros pobres (Bixiga. Cada domicílio abrigava uma única família. 12. As brutais diferenças de moradia nesse período foram descritas em um inventário de duzentos domicílios conduzido em 1942 por Donald Pierson. 1994: 102-3) argumenta que o Estado queria estimular investimentos de capital na indústria.1). O ideal social da incorporação do proletário à sociedade moderna confundiu-se assim com o do surgimento econômico da massa das populações” (Dodsworth 1942: 5). nos pobres. enquanto os cem lares pobres tinham doze.

um dos distritos mais pobres. por atacado. Nos distritos mais longínquos. Para evitar perda total. embora muitos a rmem que os empregadores se bene ciaram com o desenvolvimento da autoconstrução como uma “solução” para a moradia dos trabalhadores. Jardim Paulista. entre 1967 e 1972. 31. porque sua existência ca oculta atrás da fachada de outros tipos de habitação. Nas periferias. um direito . censos demográficos de 2000. Não existia um componente de cidadania de nido legalmente em termos socioeconômicos. de 30% a 33% da população em 2004 tinha menos de quinze anos de idade. esse segmento era de 25% a 29%. No Lar Nacional. calculo que um bom pagador teria saldado a dívida em sete anos. 27. no que então eram as periferias distantes. que concentram muitos dos bairros mais ricos. considero bastante úteis os artigos encontrados em Kowarick (1994) e a tese de doutorado não publicada de Paoli (s. e de –2% no Bom Retiro. possibilitaram que os regimes ao mesmo tempo fortalecessem sua legitimidade popular alegando serem defensores dos trabalhadores e consolidassem sua base econômica beneficiando os industriais. 26. os anúncios a rmavam em negrito que o “preço xo” de 23500 cruzeiros novos não seria reajustado. 33. Como resultado. Mas. É difícil calcular esse lucro. Nos primeiros. tanto nos distritos centrais como nos periféricos. os incorporadores obtinham lucros vendendo o terreno de novo. cobrando taxas de transferência para um novo comprador ou ganhando juros sobre os pagamentos. variava entre 12% e 14%. o incorporador expulsava o comprador. 1991 e 1980). São Paulo. ver Holston 1991a. contudo. Se esses custos fossem mais baixos ou se não houvesse acordo. Era de 73% nos distritos da zona oeste. essa distribuição continua irrefutável mesmo depois de sessenta anos de desenvolvimento periférico. exploração e acumulação de capital se encontra em Oliveira (1972). Mesmo assim. na fronteira leste. Em uma. a porcentagem de casas próprias era de 69% na Vila Jacuí em 2000 (16% de residências alugadas). Ver mapa 5. A Vila Maria registrou 14% na década. sem especificar as regras dessa determinação. Assim. em si mesmas. a estimativa varia muito. Uma exceção era o direito à educação básica para todos os brasileiros. O censo calculava em 24168 o número de domicílios “em cômodos” — o que indica uma residência num cortiço — em 1991 e 42246 em 2000. No anel periférico seguinte e ainda mais distante. um aumento de 75%.promovida por Vargas e pelas sucessivas administrações. concorda-se que o número de cortiços cresceu drasticamente em número entre 1991 e 2000. as letras miúdas no contrato incluíam a informação de que o preço poderia ser reajustado “apenas pelos custos. Em relação à habitação e aos aluguéis. todos os bairros do centro histórico e as primeiras periferias industriais perderam população ou caram estagnados entre 1940 e 1950. No auge das vendas no Lar Nacional. Uma in uente análise da relação entre autoconstrução. mais ainda que a residência em favelas.d. em 1974. o crescente centro de elite ganhou população. Sobre essa estética da autoconstrução. Se assim fosse. o salário mínimo foi reajustado seis vezes por lei nacional para acompanhar a inflação. Na Cidade Tiradentes. 23. Nos períodos colonial e imperial. o incorporador chegava a um acordo para que o comprador endividado saldasse o débito com novos prazos e pagando juros. 24. Ao mesmo tempo. Segundo a Seade (2004c). Pelo contrário. 30. 70% em 1991 (20% alugadas) e 52% em 1980. estipulado na Constituição imperial — que era. Sempla 1992). Pinheiros e Jardim América tiveram taxas de crescimento anuais de 6%. em regiões escassamente povoadas que se transformaram em bairros densamente autoconstruídos nas décadas seguintes. Mesmo nos limites do município. A residência em cortiços também se expandiu. dos materiais de construção (quando houver)”. não eram necessariamente desvantajosas. 32.20. Este último dado é de São Miguel Paulista. 22.). que na época incluía boa parte da Vila Jacuí. Muito foi escrito sobre a organização e a resistência da classe trabalhadora durante essas décadas. o dobro da capacidade máxima oficial. 29. Estimo que quando a companhia desapareceu. No entanto. 25. por exemplo. foi de –2% no Brás e de –1% na Moóca. Sem dúvida um bom lucro para os quinhentos lotes que havia incorporado. De acordo com o censo de 1950 (IBGE 1950-2000. Moradores dos dois bairros me contaram que duas opções eram comuns. era de 86%. o comprador tentava vender sua parte no lote a alguém que assumisse os pagamentos. 28. que então incluía Sapopemba ( IBGE 1950-2000. o crescimento foi bem alto: 14% em Guaianazes e 12% em São Miguel Paulista. IBGE 2000: v. Em Sapopemba era de 73% em 2000 (16% alugadas). 12%. o crescimento foi espetacular. 70% em 1991 (22% alugadas) e de 60% em 1980. e a Vila Prudente.3. a assistência social era provida de forma privada por vários tipos de associações. instituições de caridade e irmandades religiosas. Nos distritos do meu trabalho de campo. Este último dado é de Vila Prudente. 21. Nos distritos centrais. A média de casas próprias em 2000 era de 58% em distritos da zona central — 69% no rico Jardim Paulista — e de 71% nos bairros das periferias do leste e do sul. 20. Os incorporadores preferiam essa opção porque os custos de realojamento eram signi cativos.9. teve consequências contraditórias que. Em ambos os casos. tabela 3. Ocorria com frequência que compradores não conseguissem fazer seus pagamentos. a taxa de crescimento populacional anual foi de –1% na Sé e na Santa I gênia.3. a imobiliária Lar Nacional tinha recebido cerca de 17 mil cruzeiros novos (em valores de 1969) para cada lote de 125 metros quadrados. Camargo e outros (1976: 36) observam que em 1970 a lotação média por ônibus no horário de pico em São Paulo era de 130 passageiros. Mas é muito difícil medi-los.

Fischer (1999) faz a importante observação de que muitos tipos de documentos legais se tornaram primeiro indicadores de “cidadãos merecedores” entre a população urbana do Brasil durante a era Vargas. ou seja. e sob a cobertura da lei. da cultura nacional popular. 34. A outra metade (424852) subsistia “em condições de inatividade ou em atividades mal de nidas”. em especial em meados dos anos 1930 e durante a Segunda Guerra Mundial. nocivos ao trabalho e ao capital e incompatíveis com os superiores interesses da produção nacional”. a Regulamentação do Trabalho Feminino e Infantil (1932). Keck (1989) e outros nesse aspecto. mas nega a existência de uma política representativa”. intelectuais. O Partido Comunista do Brasil [atual Partido Comunista Brasileiro] criou uma frente nacional em 1935 — a Aliança Nacional Libertadora — envolvendo bairros e células ocupacionais que propunham um novo tipo de participação popular em temas urbanos (habitação. Weinstein (1996) examina a educação vocacional e cultural dos trabalhadores nos anos 1940. . os decretos que criaram as convenções coletivas de trabalho e as Comissões Mistas e Juntas de Conciliação e Julgamento (1932). 39.: 287-8) faz um impressionante relato dessa violência. censura e espetáculo na era Vargas. “O trabalho é um dever social. o novo Estado “reconheceu os direitos de participação social e política apenas como um problema legal e administrativo. esse item foi eliminado da Constituição republicana. McCann (2004: 19-40). Assim formulada. jornais foram censurados e fechados. os decretos que limitavam a jornada de trabalho a oito horas no Congresso e na indústria (1932). Ver Dias (1962: cap. além do trabalho. técnico e manual tem direito à proteção e solicitude especiais do Estado” (artigo 136). Weinstein (1996) e Wolfe (1993).d. Paoli (s. O trabalho intelectual.5 milhão de pessoas tinham empregos na agricultura. documentam muitas formas de resistência patrocinadas por sindicatos independentes e outras organizações. a questão social sob a égide do Estado incorpora as reivindicações da classe trabalhadora. onde não passa de 3% da população trabalhadora (mapa 5. Dois de meus absurdos favoritos são a lei que permitia que os empregadores especi cassem o que constituía uma “justa causa” para demissão ou perda de benefícios e a que determinava que trabalhadores envolvidos em alguma reclamação trabalhista fossem suspensos do trabalho sem pagamento durante todo o período do julgamento. Sob essas condições. Devo observar que um dos aspectos desse período que não estou discutindo. mais afastados e mais populosos das periferias. Além da carteira de trabalho. No entanto. Cerca de 1. Paoli (s.). não se materializou uma formulação alternativa de cidadania. Além das fontes comuns. As mais importantes leis trabalhistas incluem a Lei dos Dois Terços (1930). colhi informações na tese de doutorado não publicada de Maria Célia Paoli (s. São muitos os estudos sobre o período de Vargas e sua reformulação do Estado e da sociedade. Mas essa história do trabalhismo não é o meu foco. Ver também Duarte 1999. incluíam cédulas de identidade. Os números verdadeiros provavelmente eram bem menores. no máximo 18% da força de trabalho do estado poderia ter tido acesso aos direitos trabalhistas pelas suas categorias pro ssionais.: 237-310) documenta em detalhe esses abusos da lei. As leis trabalhistas dos regimes de Vargas foram primeiro decretadas e. não fazia menção a quaisquer direitos sociais.: 118). em geral. originou-se em parte do legado das estruturas trabalhistas de Vargas. 41. assim como 71% dos espanhóis. a Lei de Sindicalização (1931 e 1934). o Partido Comunista criou também Comitês Democráticos e Populares nas periferias para fornecer uma nova base para a organização dos trabalhadores. Paoli (s. 40. O censo de 1940 indica o tamanho dessa divisão no estado de São Paulo.d. através dela. Como escreve Paoli (s. 73% dos imigrantes italianos foram para São Paulo. e incorpora o debate parlamentar. a ascensão do PT como movimento trabalhista décadas depois. mas elimina qualquer conotação de luta ou conquistas: incorpora as exigências dos empregadores para cercear as ações dos trabalhadores. legisladas muitos anos depois. e a Constituição de 1934.). 36. no entanto. Entre os 853339 moradores economicamente ativos em ocupações não agrícolas. certidões de nascimento e casamento e contratos de aluguel. mais ou menos metade tinha empregos na indústria. Os trabalhadores também não tinham acesso a um contrato legal caso exercessem uma pro ssão regulamentada. ainda que por certo fossem maiores na cidade de São Paulo.d. Dessa forma. Concordo com French (1992). O regime de Vargas reprimiu com brutalidade essas ações populares e partidárias sempre que pôde. De qualquer forma. e marcou presença nas periferias que se desenvolviam. mas seus empregadores se recusassem a classi cá-los como tais. 42. as pensões e as garantias em caso de acidente de trabalho (1934). mas retira seu poder privado de disciplinar a força de trabalho. de acordo com o liberalismo ortodoxo das elites políticas. 35% dos portugueses e 59% das demais nacionalidades (Vilela e Suzigan 1973: 268). o ciais das Forças Armadas e soldados foram presos e torturados. por exemplo. a legalidade e a cidadania ao trabalho: “A greve e o ‘lock-out’ são declarados recursos antissociais. essa porcentagem despenca nos distritos mais pobres. 37. mostrando como sindicatos foram esmagados e tiveram seus registros con scados. saneamento e transporte).sem substância. 35. que instituiu repouso semanal e férias remuneradas. aprisionados. que. Ver Garcia (1982) para propaganda.5d). 3) para uma discussão dessas reivindicações. Em 2002. O artigo 139 atava ainda mais fortemente a moralidade. centenas de estrangeiros “indesejáveis” (líderes sindicais na maioria) foram expulsos do país. argumenta que a programação de rádio imposta por Vargas era ineficaz na moldagem da música popular e. e parlamentares.d.d. trabalhadores militantes. Entre 1888 e 1920. os decretos que regularam as aposentadorias. cerca de 60% dos paulistanos economicamente ativos trabalhavam com contratos no setor formal com carteiras assinadas. 38. Em meados dos anos 1940.

Defendo um ponto um tanto diferente: longe de ser incoerente. a chamada lei costumeira é uma invenção do colonialismo (Cohn 1989 e Moore 1989). Cada um conta com funcionários especializados que registram transações dentro de sua esfera de autoridade em livros legalizados e que autenticam cópias dessas transcrições para uso em outros locais. de escreventes de tribunais e de registros públicos e se refere também aos locais onde esses serviços são realizados e arquivados. também. Ver Rolnik (1997) para uma discussão dessa legislação. em especial Roberto DaMatta. Ver Silva 1967 e França 1977 para as diferenças terminológicas. Batalha 1984: 13-26 para uma análise histórica do sistema de registros públicos. 3. Os cartórios pertencem e são operados por um tabelião que tem concessão vitalícia do governo. Radcliffe-Brown 1933). DaMatta apresenta essa ambiguidade como aquilo . por exemplo. Eles não queriam ser acusados de invasão. que parcelava a terra em lotes de dez por quarenta metros. 4. Inclui os escritórios de notários. Ela é consequência. Ver em especial o clássico estudo de DaMatta de 1979. corporações. na arrumação da desordem social (Llewellyn e Hoebel 1941). e com nalidades estratégicas. o sistema legal brasileiro estabelece as complicações técnicas e o seu caos de forma brilhante. ver Holston 1989: 257-99. Ensaios em Starr e Collier (1989). alguns de seis por 24 metros e outros de seis por vinte metros. Como observado no capítulo anterior. e Batalha 1984: 455-66 e Rodrigues 1987: 400-9 especificamente para estudos sobre o registro de imóveis. 8. 10. Esses lotes menores atravessavam tanto ruas existentes quanto algumas planejadas. O governo pareceu ignorar essas incorporações. incluindo aqueles destinados a indivíduos particulares. venham argumentando há muito tempo sobre a importância da ambiguidade na vida social brasileira. propriedades imobiliárias. A diligência com que os moradores continuaram a fazer os pagamentos durante esse período confuso não se deveu apenas à recomendação de seu advogado de garantir o status de compradores de boa-fé perante os tribunais. Exemplos semelhantes dessa espécie de entendimento funcional da lei aparecem no espectro teórico e regional da antropologia clássica. Ver Nader 1965: 18-21 para amostras de uma etnografia mais antiga. procurador geral do estado de São Paulo. em que ele argumenta. 2. Embora ressalte relevância da ambiguidade. que nas sociedades primitivas a lei serve para proteger privilégios. O termo “cartório” se refere genericamente a todos os tipos de escritório judicial que registram e documentam transações com o propósito de lhes atribuir autenticidade e fé pública. e tornando portanto a regularização impossível. embora as “instituições jurídicas [em que não existem tribunais] […] na verdade forneçam as regras pelas quais as lutas [políticas] são conduzidas […] a lei pode assim mesmo ser considerada uma coerente e arraigada série de regras aplicadas de forma imparcial”. Uma exceção é o texto provocativo porém negligenciado de Leach (1963). Todos os atos e acordos devem ser registrados para ter signi cado legal — daí a noção de uma ordem social feita de selos. LEGALIZANDO O ILEGAL 1. como ênfase na manutenção do controle social através do costume (Malinowski 1926.6. Merry (1990) revela o quanto a linguagem e os procedimentos legais alienam a “consciência legal” quando transformam problemas sociais em jurisprudência. diretor da Secretaria do Patrimônio Federal. Uma exceção é o estudo de Caldeira (2000: 138-57) da ambivalência legal em torno da violência policial. títulos e documentos. lacres e carimbos. superpondo-se uns aos outros e anulando qualquer correspondência entre o plano de 1924 e a ocupação real. O termo pode ter sido usado de forma mais restrita para diferenciar o complexo sistema de registros públicos. 5. Embora alguns antropólogos brasileiros. no esclarecimento de disputas (Gulliver 1963) e no encorajamento à conciliação e à ambiguidade moderadora (Nader 1963). e o discurso legal pode introduzir hierarquia em relações presumidamente igualitárias (Greenhouse 1989. em última análise. passando por cima do plano de 1924. Mesmo num estudo pioneiro da “lei como politicamente ativa”. Desnecessário dizer que os moradores se recusaram a pagar impostos sobre quatrocentos metros quadrados quando tinham apenas 120 ou 144 metros quadrados. da importância que esses trabalhadores conferem à distinção moral e social da propriedade de um imóvel. 9. com pouco mais que frustrações e divisões. 11. uma condição que Coutin (2000) encontra também na lei de imigração dos Estados Unidos. Um problema importante é que cada incorporador subdividiu a terra em lotes de diferentes tamanhos. ver também Santos 1988). pois continuou a avaliar os impostos das propriedades com base em lotes de dez por quarenta. As exceções importantes na relação em geral alienada das classes trabalhadoras com a lei são as leis e os tribunais trabalhistas instituídos por Vargas. 6. na produção da coesão social por meio de con itos (Gluckman 1956). Para um relato etnográ co dos sentidos da moradia ilegal nas periferias de Brasília e de seus ciclos de usurpação e legalização. muitos desses estudos enfatizam que a lei não só é disruptiva como é incoerente na prática. existem poucas pesquisas sobre a sistemática irresolução em outras áreas do Direito. essa institucionalização dos direitos trabalhistas absorveu trabalhadores sem autonomia ou igualdade e os deixou. em agosto de 1986. 7. Em resumo. contudo. a antropologia do direito subverteu suas próprias origens. Além disso. as disputas podem ser usadas para promover harmonia como uma estratégia política especí ca (Nader 1989). Telex enviado por Feres Sabino. a Leonel João Carvalho de Castro. Meu próprio trabalho (1989 e 1991) ressalta a ilegalidade como fonte do direito. tanto contra os funcionalistas partidários como contra os funcionalistas opositores de Malinowski. Arquivos do autor. a legislação é uma arena de lutas entre facções (Vincent 1989). sugerem que sistemas legais criam con ito. Barnes (1961: 193) conclui que.

20. Dois exemplos chamaram minha atenção recentemente. 19.que fracassa em alcançar seja um. esses vizinhos logo sugeriram duas formas para conseguir a aprovação em curto tempo: subornar autoridades locais ou contratar posseiros para ocupar o terreno. O homem inocente apelou da multa. contudo. A decisão do Supremo Tribunal está transcrita em Pereira (1932: 110-5). a competência para coibi-la era da justiça secular”. “capitão da capitania de São Vicente”. Ele me confessou que a agência fez com que se sentisse tolo por não ter oferecido dinheiro no início e que ele. A suposta genealogia da a rmação da Adis se tornou folclórica no Jardim das Camélias por causa de uma carta aberta que a empresa fez circular entre os moradores em junho de 1972. juízes. 13. Sou muito grato a Antônio Benedito Margarido por partilhar comigo seu arquivo desses documentos e por me ajudar a entendê-los. a câmara municipal conseguiu em 1612 que o desembargador proibisse as autoridades religiosas “de proceder contra os moradores que vendiam índios forros porque. por exemplo. o cidadão honesto. sendo atribuíveis a atores especí cos. 16. pessoal/interpessoal. Em capítulos anteriores. Ao atribuir intenções. apresentava uma história detalhada e com uma fachada de legalidade de seus direitos de propriedade e depois lamentava estar sendo lesada por grileiros que atuavam na área. eles seguiram todos os requisitos legais e ambientais para que seu projeto de incorporação fosse aprovado. objetivos e motivos à lei. 14. Para fazer nova apelação. público/privado e hierárquico/igualitário. A Coroa baixou. Querendo “fazer a coisa certa”. depois de perdida a concessão por não constituir a primeira colônia. Assim. Um homem que conheço no Jardim das Camélias recebeu pelo correio uma multa de trânsito por excesso de velocidade. seja outro polo das nítidas dicotomias estruturais que organizam sua análise das relações sociais. seus planos permanecem no papel. Mas a fotogra a mostrava claramente que o veículo infrator não era dele: tratava-se de um carro diferente. agora teria de pagar mais ainda. 18. funcionalista ou conspiratória. de padrões agregados de comportamento. Porém. uma agência facilitadora de trâmites com a burocracia governamental sugeriu que. submetendo uma fotogra a da traseira do seu carro ao Departamento de Trânsito para comparação. arquivos de tribunais. acordos reconhecidos em cartório e relatórios técnicos. Alertava os moradores quanto aos “falsos títulos que os autênticos ‘grileiros’ exibem [e que] não passam de misti cação para acobertar uma aventura temerária de usurpação”. explicitamente envolvidos com a regulação das relações sociais e com as pessoas que as usam. construir alguns barracos e destruir su ciente vegetação para desquali car o terreno como proteção ambiental. nas prateleiras de uma variedade de gabinetes governamentais. delineando entre as duas a seguinte distinção: a primeira responde pelo comportamento ao se concentrar em suas consequências pretendidas. incluindo legisladores. Essa medida nada mais fez que estabelecer a autoridade da Justiça de não fazer nada — a não ser talvez se admirar com a magia da linguagem jurídica (citado em Bomtempi 1970: 46. litigantes. observei que a volumosa produção de lei se tornou uma estratégia de governo nos tempos coloniais nos dois lados do Atlântico. Pereira é da opinião de que nem Medina nem o banco tinham direito à metade das terras. Essa regulação é. ainda que fosse criminosa tal prática. Argumenta que. e creio que em nenhum outro país […] aparece tanta demanda como entre nós”. Um relato do contrato de Medina e de alguns dos subsequentes con itos legais em torno dele pode ser encontrado em Pereira (1932: 105-26). Mais de quinze anos depois. advogados. Sem dúvida involuntariamente cômica. com um pequeno “pagamento” propriamente aplicado. a segunda explica ações individuais derivando-as das consequências efetivas. . A carta de concessão original foi escrita em 12 de outubro de 1580 por Jeronymo Leitão. não estou invocando uma entidade supraindividual ou um tema histórico coletivo como “lei”. em geral com mais paixão do que precisão. Por isso enfatizo a explicação intencional e não funcionalista. como Bomtempi 1970. como casa/rua. o problema seria resolvido. no auge da violência pela terra. Quando interpelados. 12. Seu protesto foi negado sem explicação. registros. supostamente bené cas ou autorreguladas. registrada por uma câmera oculta. parecendo-lhes que servindo aos moradores podem car cativos nem se poderão servir deles por mais tempo do que dois meses”. uma lei contraditória em 1596 sobre a liberdade de índios convertidos na qual declarava que “nem terão gentios. O segundo exemplo envolve um grupo de dezoito amigos de classe média que comprou uma porção de terra numa área de proteção ambiental perto de São Paulo para construir casas de m de semana. e registrada na Câmara Municipal de São Paulo em 26 de agosto de 1622. O crítico social pernambucano Miguel do Sacramento Lopes Gama (1837: 1) notou a popularidade dessa estratégia no auge do Império: “O espírito rixoso e demandista [pela abertura de processos] parece ser uma das paixões dominantes do nosso Brasil. as intenções de que falo não estão pairando no ar nem ocultas. sem desconsiderar aquelas não pretendidas. 15. com placa diferente. Foram também expressos pelos envolvidos. e recomendava que veri cassem as “origens” de seus “direitos legítimos” nos cartórios pertinentes. De minha parte. os termos de rescisão não mais se aplicavam. bem como cópia do seu certi cado de propriedade. Re ro-me a textos. por não se enganarem. em grande parte fundada numa consideração de intenções. por todos os lados de sua propriedade brotaram condomínios residenciais. Consultei também os arquivos da Associação de Bairro do Jardim das Camélias e estudos históricos locais. Enquanto isso. além disso. Minha concepção da lei aqui não é rei cada. Quando os jesuítas protestaram contra a agrante compra e venda desses índios. considero a ambiguidade e a irresolução como aspectos produtivos das relações sociais. Os argumentos que analiso são apresentados em vários documentos legais como títulos. grileiros e criminosos. procedimentos. práticas e instituições especí cos. ele primeiro teria de pagar a multa. 17. 48).

densidade populacional. para uma variedade de atividades coletivas e politizadas que se desenvolveram dentro de um discurso religioso. investigaria a in uência de certas correntes globais sobre intelectuais brasileiros de esquerda com afiliações populares. As CEBs forneceram um espaço social alternativo. ver Singer e Brant (1980). Em seu auge. sob a proteção da Igreja. a linguagem jurídica entre eles é publicizada. e sobre intelectuais da oposição à ditadura de forma geral. Moisés e outros (1981). O fato de só os membros mais ativos das organizações de bairro demostrarem competência no uso da linguagem jurídica está além da questão dos meus argumentos sobre a nova cidadania. Cardoso (1983) e. 3. muitas CEBs de São Paulo se identi caram abertamente com o PT. No entanto. Assim. uma subdivisão da municipalidade em oito “áreas homogêneas”. no início da década de 1980. Não conheço nenhuma história completa das fontes intelectuais que respondem pelo triunfo dos discursos baseados em direitos no Brasil. Além disso. cursos educacionais. que por sua vez se tornou conhecido como o “partido das CEBs”.Um morador do Lar Nacional me explicou esse senso comum numa conversa sobre a obediência à lei: “Se você anda na linha. em inglês. ele faz tudo certinho. em particular os do PT. Sem dúvida essa história examinaria o surgimento global do discurso dos direitos nos anos 1970 como componente central da democratização e. Para traduzir o termo “reivindicar”. em Clubes de Mães. Ver também Alvarez 1993. da promoção internacionalmente patrocinada dos direitos humanos dirigida a países como o Brasil sob a ditadura. 9. distribuição e bem-estar social. É . ver Oxhorn (1999) e Escobar e Alvarez (1992). enquanto grupo. Os dados eleitorais de São Paulo foram extraídos da detalhada análise de Lamounier (1980) das eleições municipais de 1970. a maioria encaminha esses problemas aos que sabem fazer isso — ou seja. Minha ênfase aqui é na cidadania urbana e na mobilização nos bairros. desenvolvida pelo Departamento de Economia e Planejamento do estado para facilitar comparações (Seplan 1977). mortalidade infantil e uso residencial dos imóveis. Essas outras variáveis são instalações sanitárias. alguém vai dizer ‘olha. seus líderes comunitários e advogados — em vez de expressar suas frustrações de forma violenta. Cardoso (1980) sobre os partidos políticos durante esse período. CIDADÃOS URBANOS 1. ver Camargo. aquisições coletivas e mobilizações pelas causas de bairros. Essa correlação com o rendimento familiar gera um total de oito “áreas homogêneas”. Alguém vai bater o carro no dele em alta velocidade porque ele parou no sinal vermelho”. Meus argumentos são extraídos principalmente de Singer (1980). 8. Moisés (1978). Essa subdivisão toma a renda familiar média como critério básico de classi cação. e em particular das tabelas 4. Para um resumo e estudos de casos da América Latina. 1974 e 1978. Conheci as histórias das SABs e de outras atividades coletivas no Lar Nacional e no Jardim das Camélias a partir de entrevistas com participantes e de documentos originais que possuíam. havia cerca de 80 mil CEBs em todo o Brasil. Informações adicionais e con rmatórias sobre o Jardim das Camélias vêm de Caldeira 1984 (que de forma sucinta localiza a SAB no contexto maior do distrito) e 1990 (que discute o alcance das atividades dos bairros e em especial a participação das mulheres). evitavam uma identi cação partidária explícita. Em geral. Um estudo mais abrangente se encontra em Azevedo 1987. sobre os quais existe uma extensa e bem conhecida literatura. um pouco mais tarde. assim como muitos outros nos anos 1980. O grau de politização da religião que desenvolveram foi uma fonte de con itos para a Igreja Católica. água potável encanada. grupos de discussão. Ver F. R. Ver Heller (1976) para a teoria da necessidade em Marx — e a economia política socialista e ação revolucionária a ela vinculadas —. Sobre movimentos sociais em São Paulo. não vai conseguir nada na vida’. 4. recorri. Embora não costume entender o complexo raciocínio jurídico envolvido e não seja capaz de produzi-lo. Organizações afro-brasileiras em São Paulo — inclusive fraternidades negras do século XIX — também têm mobilizado seus membros de forma sistemática para lutar por melhorias urbanas (ver Andrews 1991). As CEBs começaram a criar raízes nas cidades brasileiras no início dos anos 1970. 6. generalizada e se torna conhecimento público. Para um estudo panorâmico sobre as CEBs. Diversas fontes discutem o desenvolvimento das SABs até os anos 1970. usado constantemente pelos novos movimentos da classe trabalhadora para se referir a demandas baseadas no reconhecimento de direitos. que ela apresenta em termos de con itos entre as necessidades do capital e do mercado e as necessidades sociais do povo (da “humanidade socialmente desenvolvida”) na determinação de questões de produção. ao neologismo “revindicatory”. 5. 2. 19 e 20. Lideranças e arquivos comunitários constituem um recurso coletivo que os moradores. 7. na versão original do livro. depois de clérigos in uentes terem pregado a criação de organizações eclesiásticas locais que se dedicassem às necessidades dos pobres das periferias urbanas. em que a área I tem as melhores condições socioeconômicas e a área VIII é a pior da cidade. e que não tem equivalente em inglês no uso comum. constroem e utilizam individual e coletivamente quando necessário. 7. Muniz e Pierucci 1980. Kowarick (1994). Um trabalho partidário importante no debate sobre a politização das CEBs como uma “Igreja dos oprimidos” pode ser encontrado em Frei Betto 1981. Esse estudo usa. crescimento populacional. correlacionada a outras seis variáveis para estabelecer conjuntos de distritos que têm mais semelhanças entre si. não nos novos movimentos sociais em si. empregassem exegeses bíblicas para analisar seus problemas sociais e se tornassem o fundamento de um novo “catolicismo do povo” no Brasil.

1968b) sobre “o direito à cidade” e “a vida cotidiana” como arenas para a luta política. Essas ideias conquistaram a imaginação de planejadores. Humberto Reis Costa e João Boaventura Fernandes Pereira. que contra-atacou. e. ver Dagnino 1988.. De qualquer forma. Entre os primeiros. vinte não são. eu ressaltaria a importância dos argumentos liberais clássicos em defesa do estado de direito e do respeito aos direitos à propriedade e à cidadania política. o Lar Nacional é um bairro misto de classe trabalhadora típico das periferias de São Paulo. No levantamento de 121 casas feito em 2004. embora a esquerda no Brasil normalmente descon asse dos “direitos burgueses” e tivesse pouco a dizer sobre os fundamentos dos direitos no pensamento marxista. A reivindicação de Reis Costa se apoia na “divisão amigável” de uma parcela gigantesca. Essa despolitização esfriou as relações entre as CEBs e as SABs em São Paulo. 1983) sobre a “questão urbana e os movimentos sociais” e o de David Harvey (1973) sobre “a justiça social e a cidade”. a União e o estado de São Paulo intervieram. Sant’ana vendeu em 1972 uma parcela da terra a Pérola de Sá Franco. Para defender seus . Fernandes Pereira abriu um processo contra Reis Costa. 11. Em vez disso. não é improvável. e portanto devendo ser excluída do julgamento. Finalmente. A primeira registrou sua aquisição da terra de José omaz de Sant’ana em 1967 no 9 o Cartório de Registro de Imóveis. que parece datar da década de 1880 e inclui a área do Lar Nacional. Num levantamento de 121 casas (todas ocupadas pelos proprietários) feito em 2004 na principal área da disputa de propriedade. antes de Reis Costa poder completar a execução. cerca de 221 mil metros quadrados. Assim. no 3o Cartório. Quase todas as casas no Lar Nacional têm várias pessoas que contribuem com a renda familiar. inscrito nos arquivos da arquidiocese de 1889. o de Manuel Castels (1972. Especi ca os nomes de 193 ocupantes e observa que dez eram locatários — supõe-se que outros 183 fossem proprietários.importante o impacto do trabalho de Antonio Gramsci na legitimação da democracia sobre a revolução no Brasil e na insistência de que a democracia deve transformar a sociedade e a cultura e não apenas o sistema político. O tribunal aceitou esse argumento. embora as duas transcrições tenham sido registradas no mesmo cartório. encontrei os seguintes níveis de participação na SAB e de representação legal entre os chefes de família: 96 são membros da entidade. que a rmava ter adquirido os direitos de herança àquelas terras dois anos antes e que também era um dos gerentes (e talvez sócio) da Lar Nacional Ltda. Para uma discussão sobre “a virada gramsciana”. Ademais. Os dois reivindicavam a posse legítima porque a terra estava numa aldeia indígena extinta disputada por ambas as partes. esse relatório é um documento judicial contendo uma lista das 210 casas encontradas pelos funcionários. 15. Em termos econômicos. advogados e cientistas sociais. os participantes incluíam onze não membros. que parece se sobrepor à que vendeu ao Lar Nacional Ltda. a decisão deixou o bairro sujeito à ação de reintegração de posse de Reis Costa.. o que não surpreende. O relatório lista as outras dezessete casas como desocupadas. registrada no 11o Cartório em 1952. Essa transação se baseou na aquisição de Sant’ana. 47% ganhavam três ou menos e 5% ganhavam mais de oito. 77% recebiam cinco salários mínimos ou menos. recusou-se a fazer o mesmo para o bairro chamado Lar Nacional. e cinco não se incluem nas categorias por uma ou outra razão. decidiu que a reivindicação de propriedade da empresa a essa área de 96478 metros quadrados era questionável. Embora o primeiro tenha vencido na Sexta Vara Cível. o caso foi ao Supremo Tribunal de Brasília. que também acomodaram a ampla coalizão contra a ditadura e ajudaram a legitimar os direitos como a moeda corrente de um projeto nacional de democratização. Ver Della Cava (1989) para uma discussão a respeito. como um apanhado geral. esse acordo amigável logo levanta suspeitas minhas por ser uma estratégia comum dos grileiros. 12. Datado de 16 de outubro de 1972 (arquivos do autor). Em 1966. em 1966. a parte de Reis Costa no negócio incluía a propriedade de André de Jesus. o fraco desempenho do PT nas eleições de 1982 e os sucessivos con itos locais quanto à natureza da missão evangelizadora. arquitetos. que promoveram os movimentos sociais urbanos e acabaram se tornando líderes de ONGs e de governos locais. 10% eram trabalhadores não registrados e 14% viviam de bicos. 36% estavam legalmente registrados em suas atividades econômicas. 10. um tribunal de segunda instância reverteu a decisão em 1972 e concedeu a posse ao segundo. ainda que o número em cada uma delas dificilmente permaneça estável por muito tempo. diversos fatores se combinaram para despolitizar as CEBs de forma geral. ademais. Inicialmente a Lar Nacional Ltda. Quatro partes reivindicavam a propriedade de grandes porções de terra na região que incluía a subdivisão do Lar Nacional: Lar Nacional Ltda. Pérola de Sá Franco. No início dos anos 1980. 107 (88%) a rmam participar de reuniões da SAB. Estes incluem a promoção da ortodoxia religiosa pelo Vaticano e sua reprovação da “Igreja do Povo” e da Teologia da Libertação no Brasil. comprada de Benedito José de Assis. 14. Em relação à renda. Fernandes Pereira comprou a mesma propriedade — de André de Jesus — de Fausto Rodrigues Tavares. dada a natureza das camadas de fraudes envolvidas. encontrei o seguinte perfil entre seus chefes de família: 51% estavam envolvidos em algum tipo de atividade econômica e 49% não estavam. ter direitos legítimos de propriedade. o con ito pela terra no Lar Nacional parece ter as seguintes origens: alguns aspectos dessa genealogia permanecem inescrutáveis. onde se arrastou sem nenhuma decisão pelos trinta anos seguintes. Argumentou ser uma terceira parte na disputa. Ainda assim. Mais importante para a “guinada para os direitos” nos movimentos sociais urbanos foi a in uência do trabalho de Henri Lefebvre (1968a. Como resultado. Como o fundamento da propriedade dessa divisão não aparece no registro. Com base em meus estudos de registros de tribunais. registrada em 1926. Embora não tenha determinado quais reivindicações dessa terra não eram duvidosas. Este último detinha o registro mais antigo que pude encontrar. mas só garantiu parte da petição: apesar de ter excluído outras áreas reivindicadas pela empresa. Do total. 13. 32% eram trabalhadores autônomos. reagiu à ação de posse entre Fernandes Pereira e Reis Costa preenchendo uma petição para excluir da ação as suas terras na área. Contudo.

.interesses de propriedade. Pode ser. ver Abers 1998 e Santos 1998. Na verdade. Ainda assim me parece difícil conceber uma política de cidadania. pois considerava o problema como uma questão coletiva e achava que assim se bene ciaria dos esforços legais dos outros. Ver também o próximo capítulo. quase a metade deu como razão a impossibilidade de pagar as despesas legais. como ele argumenta. Ver Fraser 1990 sobre a vitalidade democrática de públicos múltiplos. O que se dizia proprietário legal era o único morador entre os 116 que respondeu ter de fato comprado de Reis Costa. é razoável dividir a diferença e considerar que 12 milhões de assinaturas representam 12% do eleitorado. as pessoas justi cavam a ação a rmativa argumentando que “se não tivesse uma cota. Contudo. ralas. menos ainda livre do clientelismo. 6% por locatários. Os demais tinham comprado da incorporadora Lar Nacional (81) ou dos que haviam comprado da empresa (34). 2% tinham uso comercial e as restantes 5% não forneceram informações. Em seu trabalho a respeito de esquadrões da morte e assassinatos de crianças de rua. que em seu caso de uma favela no Rio de Janeiro a recusa do clientelismo da associação do bairro só tenha produzido outra forma de clientelismo disfarçada de cidadania democrática. 87% eram ocupadas pelos proprietários. 27. o advogado da SAB. na medida em que as práticas de cidadania envolvem direitos e os direitos envolvem poder. Duas organizações plenárias foram em grande parte responsáveis pela coordenação nacional de iniciativas populares para a Constituição: o Movimento Nacional pela Participação Popular na Constituinte. 91 haviam contratado Margarido. se eu fosse um bandido eu acho que eu ia car tranquilo. ambos iniciados em São Paulo no mesmo período. 17. Quanto a novas formas de associação e de participação democrática. Eu imaginava. Ensaios em Stepan 1989 apresentam uma boa amostra. Mas me senti ali com medo também. lançado no Rio de Janeiro no começo de 1985. A representatividade das 12265854 assinaturas pode ser vista de duas formas. as duas coisas estão sempre emaranhadas a complexas relações de troca. É verdade. 94 (78%) haviam contratado um advogado e dezoito não o zeram — eu não dispunha de informação sobre os nove restantes. converte sistematicamente direitos em privilégios e deveres em favores. ver Avritzer 2002 (para uma análise comparativa na América Latina) e 2004 (para ensaios sobre São Paulo). A segunda resulta em 4 milhões de signatários. A gente não queria conversar com secretário. As regras estabeleciam que cada eleitor poderia assinar um máximo de três emendas populares. Para dizer a verdade. Ver capítulo 1 para uma discussão. Ver discussão no capítulo 5. Robert Gay (2006: 207-l2) propõe “trocas densas. A primeira hipótese resulta em 12 milhões de cidadãos signatários. 25. ou 18% do eleitorado. explicou-me o ex-presidente. os negros jamais entrariam na universidade”. Concordo com Gay em que a democratização no Brasil criou formas políticas híbridas e que “as de nições de manuais de clientelismo tendem a ser simplistas e furadas” (197). você ca constrangido ali. Na próxima seção vou mostrar que a cidadania diferenciada do Brasil. 26. Eu só posso de nir um deles como “caronista”. 24. 20. Para uma discussão do orçamento participativo. porque a gente já tinha sofrido tantas coisas assim que eles engavetavam. Quando o cara é honesto ele fica com medo. ou 6%. restrição que suscita duas interpretações: ou cada assinatura representa um cidadão eleitor. mas que sua cidadania insurgente reage a essa conversão. 23. Ver Caldeira 2000 para uma análise da rejeição aos direitos humanos para criminosos e o apoio à violência policial. e o Plenário Pró-Participação Popular na Constituinte. 21. dois disseram não saber da disputa e dois alegaram estar muito confusos. como disse um dos moradores. Normalmente. que se resume a uma “clientelização da democracia” (212). “A gente ia lá. Minha discussão deriva dessa fonte e da participação das SABs do Jardim das Camélias e do Lar Nacional. se o critério é que “obras públicas sejam esvaziadas de seu conteúdo político” (211). Dos 94 proprietários residentes legalmente representados. Um a rmava possuir um título legal. você ca todo bambo. com seus direitos de tratamento especial. Então a gente acaba ficando esperto. Bonduki 1992. ou algum outro. De todas as 185 casas pesquisadas quanto ao status da posse no Lar Nacional. porque o mal eu já z… Mas como você é um cidadão honesto. e para novas iniciativas democráticas no planejamento urbano. Como as petições usaram os dois métodos de coleta de assinaturas. Caldeira e Houston 2005. dois membros da SAB do Lar Nacional que se identi cavam fortemente como negros eram contra qualquer forma da medida. As mobilizações da SAB sempre insistiam em falar com funcionários mais graduados. 19. quer falar com a pessoa mesmo”. ou cada eleitor assinava o máximo de três propostas. Scheper-Hughes (2006) discute as mobilizações contra essa violência daqueles inspirados pelos novos direitos constitucionais e pela legislação de proteção às crianças. porque eu nunca enfrentei um Tribunal. disfarçadas e negadas” para aprimorar o conceito de clientelismo. Como explicou um dos moradores do Jardim das Camélias: “Eu me senti como cidadão. 16. 18. 22. ver Silva 1990. dois não tinham nenhuma documentação de seus lotes. A máxima de Barbosa é: “Justiça consiste em tratar igualmente o igual e desigualmente o desigual na medida de sua desigualdade”. Sobre movimentos de moradia e de administração urbana. Dos dezoito que disseram não ter advogado. Não havia nenhum caso de posse. A história dessa participação popular na Assembleia é relatada em Michiles e outros (1989). queria conversar com a pessoa direto.

Paoli 1982. De início. de partidos como sua única fonte de embasamento político. Fix 2001. 2. em especial as babás. Esse tipo de con ito entre cidadãos ca especialmente claro em democracias (em geral rotuladas como liberais) em que o Estado está comprometido com uma Constituição que confere aos cidadãos direitos formalmente iguais. Todas as residências de classe média têm . O leitor poderá imaginar que a porcentagem de moradores de classe média e alta de São Paulo com empregados domésticos que dormem em casa deve ser pequena e estar encolhendo. tanto é urgente quanto é difícil. produzindo tais condições. e o esquema de comissões da “má a dos sanguessugas”. 9. a reação do PT às acusações de corrupção foi negar tudo e acusar “a elite” de tentativa de golpe. É mais fácil comprar depois que eles são eleitos”. Caros Amigos 10 (111). Para entender esses processos. O Estado de S. ele respondeu: “Não. Ver também O’Donnell (1988) para uma reveladora discussão sobre o tráfego de carros e a privatização do espaço público em São Paulo. 7. Parte do trabalho sobre tais tópicos inclui Adorno 1995. civilidade e violência. nem a quaisquer dicotomias que normalmente derivam da divisão Estado/não Estado. Telles 2004. durante um inquérito no Congresso. OS PERIGOSOS ESPAÇOS DA CIDADANIA 1. Emprego o termo “civil” para especi car o aspecto dos direitos. Holston e Caldeira 1998. entre sociedade política e sociedade civil. Pinheiro 1983: Scheper-Hughes 1992. 3. Assim. Devo lembrar ao leitor que. Holston 1991b. Vejo essa visão alinhada à proposta de Rabinow (2005: 41) para uma antropologia que “invente formas de observar e analisar como vários logoi estão sendo atualmente reunidos em formas contingentes”. a cidadania civil relaciona sociedade e Estado de forma ambígua. serviços de correio. práticas. 6. no qual deputados federais e senadores adicionaram emendas ao orçamento da União autorizando a compra de ambulâncias superfaturadas para quase quinhentas prefeituras. Balibar (2001: 15) nos lembra a utilidade do termo “civilidade” para se referir a condições nas quais “a política como participação coletiva nos assuntos públicos é possível”. Zaluar 1985. quando digo civil. Mas a cidadania insurgente não depende do PT nem. mas está muito menos comprometido em prover-lhes meios iguais para concretizar esses direitos. Emprego o termo para me referir ao emaranhado de cidadanias no momento em que a igualdade é uma ameaça real. alguns com pagamentos ilegais remetidos a contas bancárias no exterior. por exemplo. entre público e privado. que certamente afetarão sua legitimidade como partido político. O trabalho doméstico continua generalizado nessas residências e as empregadas continuam dormindo nas casas. as desigualdades de classe convertem as igualdades formais da cidadania em diferenças substantivas. Ver Goldstein (2003) para um estudo etnográ co da “estética da dominação” entre empregadores de classe média e empregados domésticos de classe baixa no Rio de Janeiro. Houve também revelações de abuso de poder (um dos quais derrubou o todo-poderoso ministro da Fazenda) e de corrupções vulgares (um militante do PT foi apanhado no aeroporto com rolos de dinheiro não declarado do partido en ado nas cuecas). contudo. Arantes 2000. Grandes propinas envolvendo jogo. os pobres desorganizados em democracias liberais são normalmente cidadãos formais sem muita cidadania substantiva. Trato do desenvolvimento dessa organização tripartite de espaço doméstico e sociedade em outro trabalho (1989: 174-82). Paixão 1988. os seguintes escândalos atingiram muitos no governo. 8. Caldeira 2000. à medida que os que têm recursos sociais e econômicos para tirar proveito de seus direitos formais superam os que não os têm. A6. Em seu trabalho sobre cidadania. em especial políticos do PT e aliados de outros partidos. Paulo. não dicotômica: diferencia a sociedade do sistema político ao defender a primeira de abusos deste último. 5. não me re ro às clássicas distinções liberais entre Estado e não Estado. Quando foi perguntado ao então líder do PCC. 2004. também integra os dois ao utilizar o poder do Estado para enfrentar relações de desigualdade e de dominação dentro da própria sociedade e moldar as pessoas em certos tipos de cidadãos. propaganda eleitoral e programas de merenda escolar. os éis ao partido começaram a justi car a corrupção como algo natural à política — um jogo sujo que as elites sempre jogaram muito bem — e/ou aceitável como prática do PT porque — como “o povo” sabe — os fins eram “nobres”. As duas suposições seriam falsas. uma abordagem antropológica problematiza a cidadania ao expandir seu estudo para além de concepções estreitas e totalizantes da política. Tem sua própria vitalidade e fadiga. Ver Bendix (1977: 122-6) para mais detalhes a respeito. na verdade. Justificativas populistas ou expedientes eram abundantes na mídia impressa. quando os que a exigem ameaçam as desigualdades existentes e os que são privilegiados por ela se sentem ameaçados. se o PCC nanciava a eleição de representantes.8. Mas tudo isso cou em segundo plano em comparação com duas corrupções sistemáticas no Congresso: o pagamento de “mensalões” aparentemente feitos pelo PT com fundos públicos a integrantes da coalizão no Congresso para assegurar seus votos. 2006: 28. Uso o termo “incivilidade” para de nir a a rmação não violenta mas ainda assim acintosa dos discriminados que. 22 de agosto de 2006. Dessa forma. 12. Marco Willians Herbas Camacho (vulgo Marcola). instituições e valores de cidadania que diz respeito tanto à liberdade e à segurança individuais quanto à justiça como meios para se alcançar todos os outros direitos. 10. Chevigny 1995. e como resultado as dependências de empregadas de seus apartamentos seriam agora usadas principalmente como depósitos. Como resultado. Discuto de forma mais abrangente a esfera do tráfego e sua relação com o planejamento urbano e a cidadania em outro trabalho (1989). 4. no entanto. Quando a má a das ambulâncias foi exposta. 11. A possível exaustão da democracia que prenuncio não deve ser confundida com as atuais corrupções do PT. durante a semana de 21 de agosto. Em 2005-6.

com dinheiro público. Para identidades de consumidores de classe média em São Paulo. multas e juros. ele nos deve — aos demais que precisam pagar pelo seu uso do prédio — mais do que o valor do apartamento. Eles transcendem seus bairros de origem escrevendo seus nomes nas paredes da cidade inteira. ver Meyer e Montes (1985) sobre jeitinho.8% para crimes de morte. tal doutrina ao mesmo tempo permite que os juízes “façam direito” em resposta a novas questões legais e sociais. 13. 7 de dezembro de 2005. Como era de esperar. O prédio abriu um processo em conjunto há oito anos. Mesmo assim a CPI descobriu inúmeros casos de corrupção tão colossal que conquistou um reconhecimento público que nem o Judiciário poderia negar. Em 1997. Também relacionado à privatização que considero aqui é o tipo de privatização em geral associado ao neoliberalismo. O Estado de S. serviços públicos e sociais de propriedade e administração estatais. e os refreia no uso de seus poderes para fazê-lo. Em relação a crimes urbanos em geral. embora a maioria dos paulistanos a considere uma prova da deterioração do espaço urbano e de seu público. supõe-se que esse número seja baixo. foi de apenas 73. muitos juízes se recusaram a testemunhar ou a cooperar. num roteiro repetitivo e verticalizado que a maior parte dos moradores condena como feio. Com taxas acumuladas. ininteligível e criminoso. 15. 17. 23. muito mais. uma condenação não signi ca necessariamente pena de prisão. de todos os incidentes registrados pela polícia civil em 1993 (389178). 18. mas ele não parece preocupado. uma determinação de inconstitucionalidade tem efeitos erga omnes: invalida a lei ou o ato administrativo em questão e estabelece um precedente. e implica a contratação. 14. Invariavelmente. em especial as superfícies que parecem menos acessíveis. Dessa forma. a não ser que haja razões evidentes de reversão e de estabelecimento de um novo precedente. Uma regra comumente usada pelos advogados é que um litígio no Brasil leva em média quinze anos para transitar pelos tribunais. O movimento do direito alternativo se contrapõe ao positivismo jurídico dominante no Brasil. o que é mais raro ainda para policiais e para réus da classe média. com as duas coisas estimulando as pessoas a recorrer à segurança particular e às fortificações para lidar com seus temores do crime e da violência.dependências de serviço com pequenos quartos para domésticas. Ver ensaios em Vigliara e Macedo Júnior (1999) e em Sadek (2000). Dessa forma. os pichadores são jovens das periferias. Ver Paoli e Duarte (2004) para a expressão problemática da diversidade e Meyer (1991) para a ideologia do progresso em São Paulo. contestando seu foco no . contratar empresas privadas para oferecer serviços sociais que o Estado costumava prover (de merendas escolares a prisões). Para tais convenções de ambiguidade e subterfúgio. Ele envolve uma nova lógica de gestão e planejamento sociais que substitui projetos de modernização patrocinados pelo Estado. ver O’Dougherty 2002. Disputas de terra em geral requerem. Essas dependências não são projetadas como armários. Suas transgressões marcam toda a paisagem urbana. os pichadores contestam a privatização motivada pela segurança de São Paulo e criam um novo visual público na cidade que a rma a presença das periferias e suas desigualdades. desfazer alguns direitos sociais da legislação trabalhista corporativista. As pichações se tornaram onipresentes em São Paulo nos últimos anos. Apesar de eu não dispor de dados sobre o número de con itos que de fato chegam a julgamento. 20. O Ministério Público também se transformou em uma instituição de promotoria encarregada de defender o interesse público. e DaMatta (1979) sobre o Carnaval e a malandragem. 19. Esse tipo de privatização desmonta a noção de que o Estado é o produtor direto da esfera pública por meio da indústria. Condiciona as privatizações da cidade descritas aqui cortando fundos públicos para governos municipais e exigindo que os cidadãos utilizem investimentos privados para o desenvolvimento urbano. Yudice (1994) sobre samba. Além disso. Durante a última década. sob a doutrina de stare decisis. pois raramente são informatizadas ou integradas. um precedente pode envolver uma nova questão jurídica ou uma interpretação de um estatuto existente. os brasileiros nunca deixam de reconhecê-las e de reconhecer a ordem socioeconômica da distância íntima que elas simbolizam no coração da residência.4% resultaram nos procedimentos de investigação policial necessários para uma ação judicial. só 20. Um dos proprietários do meu prédio cou quase dez anos sem pagar o condomínio. Mesmo que algumas sejam usadas como depósito. No sistema legal de controle de constitucionalidade difuso dos Estados Unidos. de ONGs para desenvolver políticas que as agências do governo costumavam elaborar. Essa manifestação acintosa é seu objetivo.4% (Seade. como nos meus casos. No direito consuetudinário. 22. foi convocada uma CPI federal para investigar a ocorrência de corrupção no Judiciário com o objetivo nal de promover uma reforma abrangente nos tribunais. É um pro ssional na manipulação do sistema de justiça: é advogado e tem sua própria firma para assessorá-lo. embora para o trá co de drogas tenha chegado a 94. esse precedente servirá como padrão para decidir futuros casos a ele vinculados ou que dele se distingam. Em 1993. Discuto esse processo em Caldeira e Holston (2005). Devo acrescentar que existem muitos juízes e promotores dedicados que lutam bravamente contra privilégios corporativos entrincheirados e jurisprudências legalistas para tornar o sistema judicial mais justo. Invadem todos os tipos de espaço. A esse respeito. Tudo isso continua muito atual. essa proporção variou entre 17% e 21%. Nos dois casos. Mas é difícil ser preciso quanto a estatísticas judiciais. Paulo. dados não publicados). de forma que os cidadãos não podem deixar de vê-las. além de interferir no caso em questão. As informações sobre o ouvidor da polícia de São Paulo vêm de Cunha (2000). 16. a privatização signi ca várias coisas: vender empresas do Estado (inclusive de serviços básicos) para interesses privados e cortar subsídios estatais para a produção nacional. 21. que também se enraizou no Brasil com a democratização política.

Teresa Caldeira e eu desenvolvemos juntos a análise da violência e do uso perverso de discursos democráticos de direitos que se segue. que são incorporadas a práticas sociais tradicionalmente excluídas das considerações legais formais. ou resultados. Em geral praticados em comunidades à margem do Estado. 32. e o Instituto Pólis. 31. que os mesmos instrumentos da lei são usados para gerar novas formas de equalização e de segregação espaciais. Alguns trechos repetem quase literalmente partes do relatório sobre o RDD emitido em 2003 pelo Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária do Ministério da Justiça. 33. Nós mostramos que. do Rio. tem por m assegurar a todos existência digna. como era previsível. 35. As mais signi cativas são as leis que criam um novo Ministério Público (1993). Przeworski (1991: 84) chama isso de temporizing [contemporização]. Juristas a liados têm criado organizações importantes de assistência legal. da Universidade de São Paulo. fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa. conforme definido em lei”.Estado como única fonte do direito e sua visão das normas legais como autorreguladoras. o movimento argumenta que. de transient [transitório]. 25. confere aos trabalhadores urbanos e rurais o direito de “participação nos lucros [de seus empregadores]. elas incluem o Centro de Estudos Direito e Sociedade. como exemplos. parágrafo XI. Folha de S. por exemplo. Três volumes editados muito úteis são Falcão (1984). e o CV (Comando Vermelho). o CRBC (Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade) e o TCC (Terceiro Comando da Capital). “redução das desigualdades regionais e sociais” e a “busca do pleno emprego”. Ainda que o Supremo Tribunal conserve poderes de uma revisão ao mesmo tempo difusa e abstrata. alcançava a extraordinária taxa de 247 por 100 mil habitantes em 2002 (ver mapa 5. Ver Caldeira e Hoslton (2005) para uma análise do Estatuto da Cidade que não cabe neste espaço. Itens subsequentes de nem princípios como “defesa do consumidor”. e. Dessa forma. esses con itos resultam em novas normas de comportamento consensual. a taxa de homicídios estava em torno de 65 por 100 mil habitantes ao ano. 10. Depois da transmissão de TV. a não ser de forma voluntária. 26. Ver nota 1 para uma amostra da pesquisa. Este e outros manifestos que discuto foram publicados nos principais jornais brasileiros (como O Estado de S. especialmente nos estados do Sul e em Brasília. Ver cap. o Estatuto também permite que poderosas corporações e interesses imobiliários adotem essas mesmas inovações para competir com os pobres organizados na proposição de iniciativas urbanas. para fazer justiça. O direito alternativo vem se desenvolvendo ao longo das últimas duas ou três décadas em algumas faculdades de direito. 28. Rejeita a posição doutrinária de que só existe uma lei uni cada. 27. Este último enunciado torna inconstitucionais as políticas de reajuste? O preceito de existência digna invalida o salário mínimo atual? Muitos juristas acreditam que sim. por exemplo. suas inovações na democratização do desenvolvimento urbano também produziram contradições. e Rosenn (1990). o direito alternativo propõe uma relação dinâmica entre a lei e a sociedade. Nós mostramos. 24. O problema é que só o Judiciário pode resolver esses con itos. Os comandos mais importantes são o PCC (Primeiro Comando da Capital). O trabalho mais útil sobre a história e a organização do PCC que encontrei foi uma coletânea de artigos e entrevistas publicadas numa edição extra da revista mensal Caros Amigos (28 de maio de 2006). 7. a Constituição tornou esse trabalho de alguma forma mais administrável ao limitar sua jurisdição como o tribunal da última apelação para casos que levantem questões constitucionais. os tribunais acabarão sendo forçados a intervir nessas questões de política pública e a adotar interpretações da lei com base na ética e não apenas no mérito técnico. Assim. a lei deve ser fundamentada e interpretada tendo-se em conta as relações sociais contemporâneas como fonte vital de direitos. a do Estado. Sousa (1990) e Arruda (1991). Trabalhos que inspiraram o movimento incluem Santos (1977) e Lyra Filho (1982). Como esse artigo nunca foi regulamentado. o manifesto foi publicado nos jornais (14 de agosto de 2006). inspirado por estudos legais críticos internacionais. O resultado é contraditório. Ver Caldeira (2006) para sua interpretação dessas questões. pelo pluralismo legal e pelos movimentos sociais urbanos. na qual a lei do Estado é continuamente reformulada de acordo com a mudança social. “defesa do meio ambiente”. participação na gestão da empresa. tanto promovem quanto solapam a expansão da cidadania democrática. e. Os artigos 170 a 192 de nem uma ordem econômica que as políticas governamentais parecem com frequência contradizer. enfatiza que as normas legais não podem jamais ser dissociadas do con ito social e que novos tipos de reivindicações de direitos estão sempre se processando a partir de con itos coletivos. Em São Paulo. o artigo 170 estabelece: “A ordem econômica.5a)! Para uma discussão sobre a violência policial e seu apoio pela opinião e pelas políticas . O artigo 7. Durante esse período em São Paulo. excepcionalmente. dessa forma. ver mais adiante neste capítulo). de São Paulo. outros incluem a Seta Satânica. entre homens jovens com idades entre quinze e 24 anos. um novo Código Civil (2002-3) e a reforma da previdência social (2003-5). Ver também Faria (1991). que essa lei não tem falhas nem contradições e que os juízes devem aplicar leis sem tentar acomodar as circunstâncias sociais. Paulo. Corpori cando novos direitos sociais. conforme os ditames da justiça social”. 7 e cap. 30. Entre os comentários em inglês.Paulo e Jornal do Brasil) e podem ser consultados em seus arquivos on-line. n. desvinculada da remuneração. Mas. Ao mesmo tempo que requer participação do cidadão. o direito não é aplicável. o Estatuto da Cidade (2001. 34. A não ser que esses dispositivos sejam eliminados da Constituição. 29. Em vez disso. Em São Paulo.

asp>.sp. com um ganho líquido de 68 Estados democráticos. Disponível em: <www.públicas. mostrando uma fusão de cartéis criminosos. Durante esse período. 27 (Chevigny 1995: 46. toda rebeldia. 39. sou crítico dessa abordagem eleitoral. 28 de maio de 2006. “Qualidade na Polícia Militar do Estado de São Paulo”. Em 2000. publicados em O Estado de S. representações plausíveis de ordem social e da lei num mundo onde o Estado é incapaz de assegurar uma coisa ou outra. calculo que o número de democracias eleitorais mais que dobrou no último quarto de século. política anticapitalista. capitalista e corrupto […] sistema criou o Partido [o PCC]. através do crime. Em 1995. Mas subiu outra vez para mais de quinhentos em 2000. Misael Aparecido da Silva. no amanhã bem próximo. 28 de novembro de 1989. irão com todo ódio. cerca de 76 países deixaram de ser não democráticos para se tornarem sistemas políticos democráticos. Se foram necessários duzentos anos de mudança política desde a Era das Revoluções para gerar cinquenta Estados democráticos até 1970. Como discuti mais detalhadamente em outro trabalho (Hoston 2006). Juntamente com o estatuto. tornou-se leitura obrigatória para a iniciação na organização. Reproduzido em Caros Amigos. mas de encenação do crime e do castigo pela polícia. transformar seus sonhos em realidade. Para discussões mais aprofundadas sobre as limitações de se aplicar modelos de democracia do Atlântico Norte ao Sul pós- colonial. 37. o número triplicou. A nossa revolução […] começou no sistema penitenciário e o objetivo é maior. IRA. citado em Cavallaro 1997: 10). Em 1972. Paulo (28 de agosto de 2006. Polícia Militar do Estado de São Paulo. Paulo. seus membros ingressem e permaneçam no grupo enquanto criminosos. Edição Extra. O manifesto combina as racionalidades do crime e da revolução sob a bandeira da justiça. ações terroristas e partidos revolucionários encontrada em organizações subversivas no mundo todo — por exemplo. Depois de intensa pressão internacional. Os Comaroff (2004) descrevem um espetáculo diferente porém similar de reordenamento na África do Sul pós-colonial: não exatamente de violência policial. Essas pessoas não têm que ser tratadas civilizadamente.br/qtotal/evolucao. quando a polícia militar matou 1301 civis. como reconhece o PCC. em dados que a Freedom House (1978-2001) tem reunido desde 1972 em pesquisas anuais em todo o mundo sobre direitos políticos e liberdades civis. Fleury foi eleito governador em seguida (1991-5). 41. Folha de S. o governador fez o seguinte pronunciamento: “Esses criminosos violentos se transformaram em animais […]. Nesse mesmo ano. Farc e grupos jihadistas —. embora. Nunca foi provado que os mortos eram traficantes de drogas. Contudo. 38. Eles têm que ser tratados como animais” (11 de maio de 1995. uso esses dados para entender tanto a importância das eleições como suas limitações na avaliação da democracia. de uma vida digna. não somos criminosos por opção e sim somos subversivos e idealistas” (Caros Amigos. Se excluirmos países com uma população de menos de 1 milhão de habitantes. desumanizando explicitamente os cidadãos como suspeitos de crimes. Caldeira 2000 e 2002. ver Caldeira e Holston 1999 e. O governador do Rio de Janeiro. visando estabelecer. Comaroff e Comaroff 1997 para o Sul da África. Marcello Alencar. incluindo 111 na Casa de Detenção. e logo ficou estabelecido que algumas das vítimas não eram de forma alguma criminosos. Com base. C3). ver Holston e Caldeira 1998 para o Brasil. em que o rico cresce e sobrevive massacrando a classe mais carente. não tiverem oportunidade de uma alfabetização. o número subiu para 120 democracias em 192 Estados. 40. ANC. escreveu um manifesto (o “Partido do Crime”) articulando a identidade do comando. As crianças de hoje […] que se humilham por uma esmola. os donos do mundo e a justiça desigual. Enquanto crianças morrerem de fome. revolucionar o sistema governamental. o número de mortos caiu para 183 em 1996. Eles são animais. Panteras Negras. foram necessários apenas mais vinte anos para gerar outros cinquenta. O ano mais letal da ação policial na região metropolitana de São Paulo foi o de 1992. O manifesto a rma: “O covarde. Essas pesquisas indicam que a democracia política se rmou em solos muito variados desde meados dos anos 1970. O Partido é parte de um sonho de luta. por exemplo. em especial. Nossa meta é atingir os poderosos. e permanece nesse nível. hoje somos fortes onde o inimigo é fraco. havia 52 democracias eleitorais. C1. 36.polmil. acabar com este regime capitalista. também “falou grosso”. . A1. 28 de maio de 2006. a violência só se tornará maior. 67). 12). equivalentes a 33% dos 160 Estados-nação soberanos do mundo. É por isso que os encontros com eles não podem ser de uma forma civilizada. pois o oprimido de hoje será o opressor de amanhã. Organizações internacionais de defesa usam critérios padronizados de pesquisa de procedimentos eleitorais e liberdade política para chegar ao número de democracias eleitorais no mundo. O que não se ganha com palavras se ganhará através da violência e uma arma em punho.gov. dormirem na rua. PCC. Não podem ser vistos de outra forma. a polícia de Los Angeles matou 23 e a de Nova York. Os dados para 2006 são do Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística). um dos fundadores do PCC. ou restabelecer. ou 63% do total. 5. Luiz Antonio Fleury Filho. Alguns dias depois de a polícia ter matado treze suspeitos de trá co de drogas na favela de Nova Brasília.

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onde também estudou loso a e arquitetura. Completou seu doutorado em antropologia em 1986. a Companhia das Letras publicou A cidade modernista: Uma crítica de Brasília e sua utopia (1993). CORTESIA DO AUTOR JAMES HOLSTON nasceu em Nova York. . Atualmente é professor de antropologia na Universidade da Califórnia em Berkeley. na Universidade Yale. Dele.

blogdacompanhia.br www.companhiadasletras. Título original Insurgent Citizenship: Disjunctions of Democracy and Modernity in Brazil Capa warrakloureiro Foto de capa Lalo de Almeida Preparação Leny Cordeiro Revisão Luciana Baraldi Luciana Helena Gomide Todos os direitos desta edição reservados à EDITORA SCHWARCZ S. 702.com.A.Copyright do texto © 2013 by James Holston Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. cj.com. 32 04532-002 — São Paulo — SP Telefone: (11) 3707-3500 Fax: (11) 3707-3501 www. que entrou em vigor no Brasil em 2009. Rua Bandeira Paulista.br .