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INTERVIR NA CIDADE

:
COMPLEXIDADE, VISÃO, RUMO

João Ferrão
Instituto de Ciências Sociais
Universidade de Lisboa

João.ferrao@ics.ul.pt

Publicado em: PORTAS, N.; DOMINGUES, Á. e CABRAL, J. (2003) Políticas Urbanas –
tendências, estratégias e oportunidades, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian

A cidade, sempre a cidade…

A história da humanidade coincide, em boa medida, com a história das cidades. É, por
isso, particularmente relevante verificar que, segundo estimativas disponíveis, 2001
constitui o primeiro ano em que mais de metade dos habitantes do nosso planeta
residem em cidades. A uma outra escala, não deixa de ser igualmente significativo
constatar que em 2002 foi criado o primeiro Ministério em Portugal que integra no seu
nome uma referência explícita às cidades: o Ministério das Cidades, Ordenamento do
Território e Ambiente.

As cidades estão, pois, na ordem do dia, ocupando as questões urbanas uma posição
cada vez mais central nas agendas políticas tanto internacionais como nacionais.

Sucede, porém, que este reconhecimento generalizado do papel estratégico das
cidades é acompanhado pelo sentimento, igualmente generalizado, da crescente
complexidade das realidades urbanas. Ou seja, parece existir uma correlação irónica e
teimosamente negativa entre o reforço da importância que atribuímos às cidades e a
nossa capacidade colectiva de as captar, entender, transformar. Na verdade, torna-se
cada vez mais difícil delimitar esse objecto a que chamamos cidade, tanto do ponto de
vista conceptual (o que é uma cidade?), como do ponto de vista geográfico (onde
começa e termina cada cidade?) ou das políticas públicas (o que são políticas
urbanas?).

É, pois, de um objecto em evolução intensa e sem contornos precisos que estamos a
falar. Como analisar, então, as cidades com o rigor exigido pelo papel crucial que
actualmente detêm? Não é, por certo, simplificando a realidade que captamos melhor a
sua complexidade. Muito menos será através da vã tentação de criar modelos que
reproduzam fielmente todos os seus aspectos. Apenas uma visão estratégica da cidade
permitirá identificar as relações de causalidade mais relevantes e, consequentemente,
definir as opções prioritárias para a sua gestão. É para este debate que nos propomos
contribuir.

A cidade, um objecto de contornos cada vez mais invisíveis

Há muito que o urbano extravasou o domínio das cidades. Nas sociedades ditas
urbanas, valores, atitudes e comportamentos durante muito tempo considerados como
próprios dos citadinos generalizaram-se de tal forma que deixou de ter sentido vincular,
exclusiva ou sequer principalmente, a sua ocorrência aos meios urbanos. Na realidade,

cada vez mais extensas. interstícios rurais. pois. O que é hoje uma cidade? Durante séculos. E essa condição tinha um rosto: uma paisagem própria. social e político. sem identidade. sem nome. O conceito de região metropolitana surge. bens. dificultando a identificação de traços específicos das cidades no contexto das sociedades de hoje. traços essenciais da condição urbana. construída implicitamente por pessoas e organizações que no seu quotidiano tecem uma densa trama de deslocações e contactos. como uma resposta à necessidade de captar melhor esta cidade geograficamente estilhaçada mas funcionalmente integrada. o de Milão próximo do da Tailândia. Trata-se de uma realidade sem delimitação clara. as cidades que se constituem como pólos privilegiados de acumulação de recursos estratégicos para o desenvolvimento e como nós de máxima conectividade no seio das redes de fluxos de pessoas. cartografável nas suas formas e limites. o peso económico das cidades tornou-se avassalador. subúrbios massificados ou de luxo. polinucleadas e fragmentadas. Ao longo das primeiras seis ou sete décadas do século XX a cidade morfológica. Diz-me como são as tuas cidades. Esta é uma observação que nunca foi tão verdadeira. O mapa da economia mundial coincide. É esta centralidade estratégica e operacional das cidades que explica o modo intenso como simultaneamente reflectem e condicionam as sociedades e as economias contemporâneas. palimpsestos complexos onde cascos históricos. que o PIB da aglomeração metropolitana de Tóquio seja duas vezes superior ao do México. funcional. e muito provavelmente será. pois. É verdade que as cidades se mantêm como os grandes focos de produção dessas referências. o teu país ou o teu continente. Mas a criação de áreas metropolitanas administrativas depressa se mostrou insuficiente para abarcar as novas realidades metropolitanas.o projecto moderno das sociedades ocidentais implicou a universalização da urbanidade enquanto sistema prevalecente de referências culturais e sociais. ainda maioritariamente em torno da velha cidade central mas muitas vezes de forma mais ou . Estima-se. cada vez mais. em tudo contrastava com o mundo rural envolvente. Simultaneamente. criadas para fazer face à crescente complexidade urbana. assim. foi dando lugar a áreas metropolitanas político-administrativas. por exemplo. Unidade interna e distinção constituíam. com o arquipélago formado pelas metrópoles e grandes cidades do planeta. cidades de média dimensão ou parques naturais se articulam entre si no quadro de dinâmicas urbanas de extensão geográfica muito diversificada. e eu dir-te-ei como é. capitais e ideias. o PIB de Paris idêntico ao do Brasil. A cidade que se vê foi. espaço esse que. Mas a clássica coincidência entre urbanização e urbanidade foi dando lugar a relações de co- evolução bem mais complexas. a sua delimitação geográfica não colocou problemas: a trilogia um território / uma população / uma circunscrição político- administrativa conferia a necessária unidade física a um espaço ao mesmo tempo morfológico. marcada pela contiguidade dos espaços construídos. o de Londres semelhante ao da Indonésia. E cujas implicações importa avaliar seriamente. dando lugar à cidade que se gere (ou tenta gerir…). E ao nível de cada um dos países são. mesmo quando não muralhado. uma vez mais. Hoje vivemos cada vez mais em cidades sem confins.

apercebendo-se dos contornos voláteis das cidades actuais.menos errática. A cidade real de hoje é. uma cidade não reconhecida. Figura 1: As várias Lisboas # # # # # # # # # # Cidade de Lisboa Aglomeração Morfológica Área Metropolitana Administrativa # Região Metropolitana Região Metropolitana Futura # Cidades de Média Dimensão 0 20 40 Km Limites Concelhios . envolvendo pólos residenciais e de emprego de menor dimensão dispersos pelo território metropolitano. e à área metropolitana. À cidade morfológica. adiciona-se agora a região metropolitana. pois. E o conceito de região metropolitana remete para uma comunidade imaginada por aqueles que. que se vê. procuram identificar novos espaços de regulação e de governabilidade urbana. a governar estrategicamente por uma multiplicidade de agentes de natureza muito diversa. porque morfológica e politicamente invisível. que se administra.

uma população com identidade própria. Como fazê-lo? Entender a cidade: dos ingredientes básicos aos grandes valores urbanos Há mil e uma maneiras de descrever as cidades. intervenções públicas com contornos sectoriais (ambiente. cada cidade? É este desfasamento entre as características da cidade real e as representações e categorias que sobre ela vamos produzindo que importa esclarecer. que sentido tem restringir a delimitação das cidades de hoje a perímetros urbanos ou a fronteiras administrativas. mesmo que generosamente definidos? E que sentido tem. transportes. que as cidades sejam entendidas a partir de três ingredientes básicos: os sítios. isto é. como diferenciar as políticas urbanas explícitas. Propõe-se. etc. das existências. invocar conceitos. economia.) mas com um impacte decisivo sobre o modo como as aglomerações urbanas evoluem? Intervir sobre um objecto tão decisivo e dificilmente delimitável como a cidade implica uma visão estratégica. especificamente formuladas para as cidades. a que não corresponde um território claramente delimitável. no entanto. em particular. as redes e o espírito cosmopolita. de forma a aumentar a nossa capacidade colectiva de a pensar estrategicamente. Das analogias do mais diverso tipo aos modelos econométricos ou às narrativas literárias e cinematográficas. a amputar dos elementos que lhe conferem vida e distinção. constituindo o corpo das aglomerações urbanas. Num contexto em que as aglomerações urbanas perderam o exclusivo da urbanidade. habitação. uma instância político-administrativa particular. Cosmopolitismo A cidade cognitiva ABERTURA DEMOCRACIA PAISAGEM Redes Sítios A cidade de fluxos A cidade de stocks Os sítios permitem-nos captar a cidade dos stocks. isto é. como o de região metropolitana. são múltiplos os caminhos que nos permitem entender melhor as cidades. os vários factores que historicamente definiram a cidade. e cada uma delas. cultura. neste caso.Face à descrição sumariamente apresentada nos parágrafos anteriores. do vasto conjunto de políticas urbanas implícitas. Dos bairros históricos e boulevards oitocentistas às . em geral. capaz de a olhar selectivamente sem. ao mesmo tempo. concentram uma proporção crescente dos recursos avançados da economia mundial e adoptam geografias com contornos fisicamente invisíveis.

as aglomerações urbanas proporcionam o enriquecimento permanente da cidadania democrática. então a abertura aos outros reflecte. Se a paisagem constitui um bom barómetro da saúde da cidade e a democracia um excelente revelador da sua vitalidade. Finalmente. Se a paisagem é o barómetro por excelência da saúde da cidade. constitui o terceiro grande valor urbano. isto é. a paisagem é o barómetro da saúde de uma cidade. reforçando-se reciprocamente. visibilidade. Finalmente. mobilidade e conectividade não apenas como factores imprescindíveis a um funcionamento eficiente da cidade. A democracia nasceu e diversificou-se nas cidades. são as redes que conferem movimento às cidades. simultaneamente. os sítios da cidade dão-lhe forma. competências. Atitudes. Mais do que uma realidade morfológica. ao mesmo tempo. e capacitar pessoas e organizações. As redes suportam a cidade dos fluxos. devem guiar a evolução das cidades. pois. distinção face às restantes aglomerações urbanas. Uma paisagem degradada. Falar de cidades é. por certo. Neste caso. fragmentada revela uma cidade doente. sem dúvida. em boa medida. Dos ecossistemas às infra-estruturas de saneamento ou transporte. que não soube gerir o seu passado recente e que. Por outro lado. . a cidade dos sítios e das redes.frentes ribeirinhas. tornando-as palcos dinâmicos de circulação e interacção. desordenada. a infra-estrutura que sustenta a cidade cosmopolita. Os valores democráticos e as suas práticas – democracia representativa. se confrontará no futuro com dificuldades acrescidas. é a conjugação da cidade das redes e da cidade cosmopolita que permite avaliar os aspectos de acessibilidade. dos espaços verdes aos condomínios fechados ou às zonas habitacionais degradadas. mas também como condições para partilhar informação e conhecimentos. E falar de gestão urbana significa perceber em que medida é possível e desejável intervir nesse sistema complexo de relações. normas e convenções sociais caracterizados por uma especial sensibilidade à diferença e à mudança contribuem para consolidar uma inteligência colectiva que apenas as cidades parecem conseguir alcançar. representando. a cidade que pensa. a democracia constitui. das cablagens às redes sociais. a abertura aos outros. A paisagem global traduz. participativa e deliberativa – encontram na articulação entre a cidade dos sítios e a cidade cosmopolita os palcos e os contextos mais propícios para o seu desenvolvimento. o potencial de criatividade e inovação que cada aglomeração urbana possui. paisagem global. proporcionando-lhe a alma que garante sentido interno e. paisagem. falar acerca do modo como os ingredientes e os valores acima referidos se articulam entre si. por isso. o melhor revelador da sua vitalidade. mas também às expectativas e ambições dos que aí vivem e trabalham. dando vida às aglomerações urbanas. como resposta às tensões e necessidades que as cidades impõem. conhecimentos. intui e sente. o espírito cosmopolita sustenta a cidade cognitiva. comportamentos. democracia e abertura constituem os três grandes valores que. à diferença e ao exterior. das praças centrais aos parques de escritórios. Da pequena proximidade quotidiana de bairro às instâncias metropolitanas.

na prática da administração pública e de diversos grupos profissionais (engenheiros. vista à luz do entendimento de cidade acima apresentado. se exceptuarmos as áreas geograficamente envolventes. sobretudo no quadro da primeira geração dos instrumentos de planeamento. a única maneira de. uma cultura de . acessibilidades. privilegia sistematicamente a cidade das redes e a cidade dos lugares. identificando as primeiras essencialmente com infra- estruturas físicas (saneamento. Em primeiro lugar. arquitectos e. Em terceiro lugar. de escritórios. tirando partido dos grandes valores urbanos. revela um entendimento redutor do papel das redes e dos sítios no funcionamento da cidade. industriais. Cumpriu. independentemente de todas as limitações estruturais que possa apresentar ou de todos os erros que acompanharam a sua concretização: introduzir. desvalorizando ou ignorando mesmo a componente de construção de uma cidade mais cosmopolita. uma missão relevante. de lazer. mais tarde. o nó central de qualquer visão estratégica sobre a cidade. Em quarto lugar. recorre essencialmente a instrumentos normativos de regulação das formas de uso e ocupação do solo. Gerir a cidade: para além da modernidade A gestão da cidade moderna (ou a gestão moderna da cidade?). Mas desempenhou um papel essencial. evidencia uma visão limitada. olhando-a como um sistema basicamente fechado ao exterior. geógrafos. paisagistas. por fim. de encontrar tradução em sistemas cruciais para a sua gestão. da cidade. etc.). De facto. revela quatro características particularmente deficitárias. etc. Cosmopolitismo A cidade cognitiva SISTEMA DE GOVERNANÇA SISTEMA FINANCIAMENTO Redes Sítios A cidade de fluxos A cidade de stocks A visão holística do funcionamento da cidade tem.) e os segundos com espaços monofuncionais (áreas residenciais. por isso. por isso. Constituem. Esta visão moderna da gestão urbana chegou tardiamente a Portugal. Em segundo lugar. Sobre eles não serão aqui apresentados comentários. quase paroquial. imprimir inteligência e sustentabilidade aos três ingredientes básicos da cidade é através da configuração de sistemas de governança e de financiamento adequados. pois. tanto urbano como municipal. sociólogos e outros). Mas sem eles qualquer intervenção urbana se revelará rapidamente espúria.

pois. ou até de entidades específicas.A produção de uma nova geração de programas. inovadoras e bem integradas em espaços mais vastos. abertura). traduzem esta nova atmosfera do planeamento típica do final do século XX. .A importância dos planos estratégicos. o debate político sobre a cidade – conforme amplamente verificado nas últimas eleições autárquicas. Ainda que de forma mitigada. A regeneração de áreas ribeirinhas ou frentes marítimas.O desenvolvimento de iniciativas. de projectos estratégicos de desenvolvimento muito variados mas partilhando algumas características essenciais (produção de espaços dedicados com elevada qualidade. De facto. . papel simbólico de edifícios transformados em ícones arquitectónicos. implantação geograficamente bem delimitada mas com forte capacidade estruturante sobre a malha urbana existente. não é democrática. estrutura de financiamento e gestão influenciada pelas development corporations que nos anos 80 começaram a generalizar-se em países como os EUA ou o Reino Unido. E uma cidade fragmentada ou estilhaçada. as implicações da substituição da concepção keynesiana de estado por uma visão mais schumpeteriana da acção pública não deixam de se fazer sentir em Portugal. que se traduzem por intervenções espacialmente delimitadas na malha urbana. configurando uma evolução que indicia a emergência de uma segunda geração de instrumentos de gestão urbana. por exemplo – seja ainda tão tributário de concepções e retóricas modernas. uma nova cidade de sítios que se pretende produzir. no início do século XXI. É. preocupações e intervenções típicas dos finais do século XX: . associada a um conceito onde a mobilidade e o cosmopolitismo ocupam uma centralidade inegável.). Também os programas Procom. ilustram bem as tendências acima referidas. esta nova cidade é composta por pedaços.A crescente incorporação das questões ambientais. os anos 90 representam uma viragem importante da gestão urbana em Portugal. mostram que outros caminhos estão já a ser desbravados. algumas. para recorrer a expressões que têm sido utilizadas por vários autores para descrever esta nova condição urbana. PER e Polis. áreas dedicadas não raro de apreciável qualidade.ordenamento e gestão do espaço urbano. De facto. Replicando tendências internacionais. mas não devidamente suportada nos três grandes valores urbanos (paisagem global. mesmo quando diversas iniciativas desenvolvidas em cidades portuguesas. para citar apenas três casos. emergem. não valoriza suficientemente os outros. aliás.A intervenção na cidade através de microcirurgia urbana. sociais e culturais. com tradução evidente nos modos de intervir nas aglomerações urbanas. a Expo ou o Taguspark. os condomínios fechados ou os parques de escritórios localizados juntos dos nós das auto-estradas. democracia. . mas sem que haja um sentido sistémico para o conjunto do espaço urbano. com enorme ressonância mediática. não produz paisagens globais. etc. orientadas para o marketing urbano. . O que já surpreende é que. ainda que de forma muito desigual. os centros comerciais e outlets das periferias. isto é. que devem preceder e enquadrar os planos de natureza mais normativa. .

que a visão torna fortes e relevantes. Praticando a reflexividade. Apostando na exemplaridade. modernas e pós-modernas. em particular. só o estabelecimento de uma visão – inevitavelmente discutível – permitirá definir rumos para as cidades. Cidades portuguesas: governar uma estratigrafia complexa No quadro dos países europeus mais desenvolvidos. . um novo patamar de intervenção na cidade. A nova cidade alargada e estilhaçada. coexiste com os problemas próprios de cidades que nunca foram realmente modernas. E feito em boa medida de pequenas iniciativas. desenvolvendo-se num país que nunca teve um verdadeiro estado providência e num mundo crescentemente condicionado pela concorrência inter-urbana. Necessita. olhando mais atentamente para as boas práticas existentes um pouco por todo o mundo. de forma incremental e sólida. Mas também. isto é. mais participado e responsabilizador. onde os sistemas de governabilidade e de financiamento se associem de forma responsável e transparente. Configurando. Portugal não precisa de mais cidades. pensando mais acerca de si próprio. arquipélago de lugares qualificados que emerge de um fundo urbano ou urbano-rural não raro em decadência ou em difícil reestruturação. Por isso o planeamento urbano terá de ser cada vez mais processual e estratégico. de mais cidade. como foi salientado. Portugal destaca-se pela intensidade com que convivem elementos típicos das sociedades tradicionais. e para cada cidade. mais guiado por valores. sim. ou seja. em geral. Face a esta complexidade.