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SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Ricardo de Almeida Rocha
SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

©2010, 2017 Ricardo de Almeida Rocha

ricardrbrsp@gmail.com

Copyright by Ricardo Rocha

Texto protegido pela Lei de Propriedade Intelectual

No. 9.610 de 19 de fevereiro de 1998

Versão para eBook
O solitude! If I must with thee dwell

John Keats

Sinopse

uma bela jovem é a única suspeita de uma série de assassinatos mas há algum problema

com a investigação pois ela mesma tinha sido a primeira vitima. e os assassinatos continuam e tudo

ainda aponta para ela. mas ela está morta

Prefacio

E pouco mais que um conto, talvez uma novela mas a ideia da leitura de uma sentada nao se

aplica aqui. Tampouco o efeito que deve perdurar apos a leitura. Porque nao esta na leitura. Nem a vida

nem a morte. O espaco-tempo em que acontece o mais importante é o limbo. O mais importante,

portanto, nao acontece em palavras. É o amor. Nao poderia portanto acontecer nesse mundo nem no

outro. Precisa inventar um mundo proprio.

O assédio sexual e o estupro enquanto tema estao na moda. Como qualquer coisa nessas

condicoes, adquire profetas lamentaveis. Se tivesse que lancar este livro hoje, adiaria para quando essa

atmosfera passar. É um assunto por demais cruel.

esumo.
Em ordem cronologica a historia contaria como na escola primaria David e Gisele embora colegas nao se conhecem. Ela é
uma aluna cultuada por professores e invejada pelas colegas e adorada pelos meninos. Ama muito tudo isso. Ele nao passa
de um pobre coitado nem odiado nem desprezado porque ignorado por todos. E nem porque a ama é igual aos outros. Ele
a ama. Nao pretende mais do que estar perto dela e saber do seus habitos e onde mora mas longe de ser um stalker quer so
estar perto dela sem que isso lhe cause o incomodo de sua presença.
No dia do aniversario de quinze anos numa festinha em casa a que ele nao foi naturalmente convidado, ela vai dormir
exultante com tudo, os elogios, os presentes, e acorda com o tio no quarto marcando o fim da infancia e nao para uma
juventude saudavel. A partir dai ela entende o que antes aceitava como uma parte desagradavel do ser menina. Os casos se
sucedem se superando uns aos outros em horror.
E um dia ela conhece David no onibus. Descem juntos, conversam e ele conta que estudaram juntos no primario. Como
assim? Ele conta. Trabalham agora em empresas proximas. Ela esquece o horror e tem uma atitude ambigua em relacao à
paixao fisica e aos arroubos de seu amado. Quer e nao quer. Ele nao quer mais porque imagina o que ela passou e acha
que nao confia nele como devia ao nao lhe contar.
Enfim dormem juntos. É a conquista do paraiso. Mas ela decide nao pernoitar e num acidente domestico banal que
poderia ser evitado se ele tivesse alguem para ajuda-lo. Entra em coma. Ela se desespera sobretudo porque perdera o amor
do irmao, que se juntara aos assediadores. E abandona os cuidados e correndo no parque num horario perigoso e atacada e
estuprada e morta pelo vizinho. Estamos no meio do livro.. .
Os fragmentos nao cronologicos e o rigor dos eventos cronologicos mantem seu casamento harmonioso mas a primeira
pessoa eh abandonada na novela porque nao cabe a visao onipotente da pessoa que tende a esquecer tudo que nao diz
respeito ao ego e agora nada mais lhe diz respeito. E naturalmente a questao do suspense ficaria comprometida.
Um livro de horror se a palavra nao for entendida num sentido sobrenatural. Um livro de amor se sim

Na janela junto à ponte ela se debruça absorta. A correntinha reluz em seu pescoço.

Voltara pela trilha do parque ereta como se nada tivesse acontecido. Havia nas árvores aves

como essa, canto de um mundo que a abandonou. Ouve o barulho do mar exatamente como

em sua caminhada matinal. Em cores fortes e reflexos passam os automóveis. Inquieta respira

fundo. Afasta-se da paisagem com um impulso no parapeito e num último relance deixa o sol

filtrado entrar na sala, líquido sobre os móveis.

Enquanto procurava entender onde estava ao acordar suando frio no meio da noite

cruzara os braços sobre o peito e levara as mãos em cruz ao calor do ventre. Recordou-se

menina. Seu primeiro amor foi uma coleguinha de classe. Um dia saiu de casa e esteve diante

da portaria de seu prédio por quase uma hora. Um dia foi magra sem indício de atrativos em

vestidinhos que ela masculinizava. Uma menina obediente e bondosa. Merecia um corpo

despercebível em que habitar. Jamais usaria maquiagem. Jamais iria beber ou mentir.

Cultivará todo propósito virtuoso.

Estava sempre ajeitando o biquíni sem que seus pais entendessem a razão e em casa

ficava horas olhando o nada. No enterro do avô o tempo todo chorava e dizia "Vou sentir tanto
a sua falta! Vou sentir tanto a sua falta!" Mas ama agora a integridade de um homem e tudo

que lhe diz respeito incluindo a indócil virilidade que ele está longe de imaginar tenha tal

efeito apaziguador. Livrara-se do passado e enfim seria feliz não fosse a humilhação renovada

e outra perda da inocência. Em que medida era culpada e como conviver com essa culpa?

Como conviver com esse ódio?

Gisele Drabska. Uma jovem simpática que todos achavam belíssima. Que vantagem se

a beleza só traz sofrimento? Um dia morrerá e nada ficará além de seu caráter. Dos objetos

pessoais impregnando de saudade a pessoa amada. Os poemas na maior angústia.

Apesar da longa ducha parece que ainda dorme mas já é dia. Sobre a cabeceira o

relógio acusa seu atraso. Na penteadeira o perfume que recebeu no Dia dos Namorados. Veja

no espelho o quanto você é bela, dama triste de olhar perdido na sacada da firma. As colegas a

imaginam realizada com os homens que quer. E amaldiçoam, amaldiçoam sempre, às vezes

com gracejos e outras simples maledicência.

Sobre a cômoda antiga as bonecas de porcelana numa cena perfeita de reflexão acerca

da infância que chegou a ser tão boa durante algum tempo. Uma colina ao longe cuja neblina

jamais se dissipa. Com uma última ajeitada no cabelo desdenha de tempo ou contratempo.

Deu uma olhada ao sair percebeu que há orvalho nas folhas da árvore em frente, a

única do quarteirão. A grama do condomínio está dourada. Até que horas durará esse brilho?

No rosto pálido a resposta: não mais que alguns minutos, o tempo da alegria de alguém.

O vermelho vivo passa e na distância marcada pelo motor se mistura o som do

telefone. Não achava que ele fosse capaz de ligar. – Vamos terminar num lugar discreto o que

a gente começou na trilha?

Gisele continua caminhando. Nem por doença falta ao trabalho e não costuma se

atrasar.
Num dia chuvoso de uma semana chuvosa por volta do mês de maio quando começava

a esfriar e as chuvas eram contínuas e não mais pancadas como no verão, na cidade meio

adormecida por uma sequência de dias enforcados entre feriados e finais de semana típicos de

países subdesenvolvidos onde no mais puro sentido bíblico o trabalho eh sinonimo de castigo,

David Choi pegou o caderno e uma caneta e intuiu que, escritas, as suas determinações de ano

novo tão atrasadas afinal se cumpririan -- uma renda confiável e uma casa confortável e a

consumação de sua história de amor -- seus contínuos rogos em oracao. Anoitecia do jeito

dissimulado com que descem as noites de dias chuvosos e ainda mais sutilmente por conta do

não funcionamento de algumas lojas e das ruas esvaziadas e de alguns cenarios do anoitecer

de dias normais como o transito parado e os ônibus cheios e de personagens como os

estudantes noturnos apressados e a massa operária como um único ser. Ele não gostava de

escrever nem mesmo esse tipo de anotação e várias vezes esteve para deixar de lado o

caderno mas insistiu porque achou que talvez as coisas não estivessem acontecendo

justamente por isso, por falta de persistência. Coisa terrível de incapacitante o medo ou a

timidez ou seja lá o que for dentro bem fundo da alma qual uma voz emudecida desde os

primórdios das adolescências ou mais atrás as infâncias que desconhecem seu papel de

condutora de reminiscências adoráveis. Arvores de sonhos esquecidos tão logo se acorda

passam uma após a outra. Pedras vivas de dor. Devaneio. Dispersão. Nunca o olhar esperado

do discernimento que é paz. E sim o sexo. Reconhecido em tudo menos no amor que nunca

em nada se reconhece. Esse desejo de todas que jamais é o desejo dela, inadequação ao lindo

mundo dos normais, Esse que não existe em noites chuvosas e tampouco na manhã cinza que

espreita. Passos pouco anteriores aos seus na areia fomenta ao lado da construção mas podia

ser igual com sol pois ajudantes neste país jamais se lembram de fechar a água das

mangueiras. E todavia uma flor inesperada causa da primavera registada no muro baixo
querendo se exibir. E sim o sexo. As ruas não tão vazias que não passe uma deusa miúda e

um anjo feminino como todos. Ele não precisará ouvi-la para saber quanto é vulgar. Mas

ignora o que sabe inclusive o amor, se eh mesmo amor, pela eterna colega de classe.

Todas as cidades se parecem sob a chuva. Todas as festas ao ar livre se parecem. Todo flerte

tem olhares semelhantes e todo recato esconde alguma coisa. Junte tudo isso e eis aquele dia

depois da aula. Gisele e Davi saíram em direções opostas mas não demorou e logo ele estava

atrás dela. Atrás de uma árvore na verdade, o olhar cravado nas costas da menina. Desde

aquela hora a tempestade se anunciava. Trovões silenciosos no horizonte do entardecer.

Primeiro a chuva fina quando davam os últimos retoques nas barraquinhas. Por muito pouco

a previsão do tempo não acertrou ao tranquilizar os organizadores de que se chovesse seria

só depois que o pessoal estivesse em casa. Por minutos. Ela escapou por menos que isso. O

aguaceiro desabou assim que entrou no prédio. Ele não teve tanta sorte. Até porque do prédio

até a sua casa ainda teve de caminhar mais de uma hora debaixo d'água.

Se tivesse deixado o cabelo crescer seriam cachos marrons e angelicais. Mas gostava

assim curto, era mais ele mesmo; embora isso seja uma questao de que nunca se livro e de

resto acha que jamais se livrarah. Seus labios bem desenhados Gisele achou de primeira que

foram feitos para dizer as mais delicadas e platonicas palavras de amor.
David não usava o celular mas atendeu o pedido de Gisele e levava consigo para um

caso de emergência. Conheceram-se no ônibus. Não tinha certeza de onde saltar. Gisele sabia?

- Ah! - respondeu ela. -Também desço nesse ponto.

Gisele se angustiava com a possibilidade de uma ligação. Como ela também não

costuma receber chamadas quem poderá ser agora? De quem é esse número no visor? Alô?

Um caminhão passou no exato momento. Terá de perguntar novamente. Não teve tempo.

A seqüência é conhecida. Foi levado para a clinica tal. Está em coma. Um pranto

desesperado. Camadas de desespero sobre camadas de pranto. Ali ela morreu e continuou

morrendo pelos meses seguintes enquanto as esperanças de que ele pudesse despertar eram

retiradas como bebês a fórceps não para a vida, natimortos.

Um dia ela foi visita-lo no hospital. Foi visita-lo e viu como nada se parecia com as imagens

que lhe ocorriam quando pensava nele no leito do hospital. O branco das paredes era cinza. As

enfermeiras falavam alto sobre qualquer assunto. O olhar delas era gelado. E o rosto de David

estava sereno e não se importava com o lugar ou os circunscidantes. Não se importava com

Gisele. Mesmo que não estivesse em coma não se importaria. Estou apenas dando um tempo.

Você dramatiza tudo por demais. Sem dúvida caso ela tivesse aberto seu coração teria sido um

golpe fatal no seu amor e por extensão em sua esperança.

Outrora era uma festa. Seu coração exultava por tudo e por nada. Até a primeira vez.

Ao menos não era mais uma criança. Então conheceu David e todas as coisas passaram a

existir em glória como se houvessem alma.
A madrugada de sábado ronda a janela em celebrações embriagadas. Acordou consigo

mesma ao despertar em nada pensar sobre a noite passada. Esqueceria o monstro. Tinha essa

sorte de não morarem na mesma casa. É a miséria de tantas sobrinhas e enteadas e filhas.

Saltou temerário e a bicicleta caiu com um estrondo imperceptível para a felicidade. Então

tinha passado na oficina, que bom, disse o vizinho de David. “Que animação! Vejo que as noticias

são boas”.

- As melhores, meu amigo. Deu tudo certo.

Estava suado mas nem pensava num banho. Não sabia lidar com tanta euforia. A luz das

ruas estava cheia de perolas. Havia chovido e emanava o cheiro característico do asfalto. Definiria

toda aquela atmosfera como um prenúncio de iminente outono.

- Arranjei emprego e reencontrei o amor de minha vida – disse David com a ênfase de uma

resposta embora pergunta alguma tivesse sido feita.

O outro olhava espantado. David estava quase normal. Um rapaz decente. Não seria

possível desejar mais de um amigo. Afinal então a timidez tinha a ver apenas com o medo do

desemprego. Agora pelo jeito terá restabelecida a autoconfiança.

- Mais que isso, meu amigo. Porque a subsistência sem amor não faz sentido.

E o vizinho escutou atento sobre Gisele e admitiu que era mesmo uma história incrível.
Um dia ela acordou triste e sua tristeza parecia nascer da rua em que morava. Andou

pelo lado esquerdo de quem vai no sentido da praia e depois trocou de calçada mas a

percepção persistiu. Tudo cintilava — seu predio e a clínica de olhos, a loja de ferragens e o

posto de gasolina - imerso em uma beleza invulgar, perigosa, por onde os banhistas chegam à

areia e depois ao mar. Desde sempre era arrastada por aquele caminho como se fosse a

extensão do apartamento de portas abertas e do prédio sem grades pontiagudas ou muros ou

porteiro. Continuou caminhando depois de breve parada diante do cartaz do filme. Os olhos

vermelhos. Vestia o jeans de sempre um número maior que o seu e conseguirá afinal um

óculos sem grau. Abaixou-se para ver melhor o botão da flor mas logo endireitiu-se e

continuou a caminhar e seu primeiro pensamento depois que atravessou a última transversal

antes do parque foi com o desconcertante olhar que trocar(a) com o irmão quando se

encontraram antes do amanhecer na porta do banheiro. Estava tão apertada que nem ligou

muito na hora mas depois que tornou a deitar ficou pensando e pensando e não parou mais de

pensar ateh que decidiu sair e continuar andando e andando e até nadando de repente desde

que tão cedo não parasse.
Na manhãzinha a neblina acrescida de chuva. As ruas vazias estão mortas. O espelho

sorriu em cambraia branca com renda e bordado. Uma jovem forte que só mas estava um

pouco cansada.

Mal saíra do prédio notou-o no ponto. Que rapaz simpático e que porte... Parado sob a

chuva parecia familiar. Ela pensava nele sem perceber que tambem tinha entrado ate ele lhe

dirigir a palavra. O que é isso, Gisele?

Uma noite horrorosa. As olheiras sujam o redor dolorido de seus olhos. Ainda dizem

que isso lhe dá um charme especial. Uma mulher gorda passou pisou em seu pé arfando e

batendo o joelho em sua coxa. Gisele meneava a cabeça rindo achando que era antes caso de

chorar.

Toda luz estava acesa. As lâmpadas de teto e o dia. E havia a lua estranha e teimosa

entre nuvens visível entre bategas. Chegara independente do tio a primavera. A saia de sarja

sairia índiga em seus suaves quadris. Os seios pequenos apontavam para a idade completada

no dia anterior. Embora discreto ele não pôde deixar de perceber.

Ele lutava contra limitações fisicas. Perdera a família e não tinha amigos. Mas

conseguiu um emprego de pesquisador. Seus relatorios estavam mais para poesia e o chefe

arrumou para que ele lecionasse. O professor que o amigo do reitor precisava. Na

universidade as coisas podem ser refinadas e isso a concorrencia entre as empresas nao

permite. De quebra haveria um aceso mais fácil a verbas e a divulgação de congressos. No final

das comtas foi melhor para todos. A saúde melhorou; não tinha mais tempo de sentir-se

sozinho.
O coração parece que vai explodir ao descerem do ônibus. Um capricho do destino

com a delicadeza da garoa permanece na segurança do prédio. -Trabalho aqui - disse ela.

Quem dera eu pudesse também.

Atendeu a ligação lembrando. Pressentimento confirmado, chorou muito; chorou tudo.

De novo sozinha. Para sempre. Não. Antes sozinha. Mas não: com o vizinho e o tio e o médico e

o homem no metrô e os assaltantes. Todos à solta a seu redor. E David uma falsa companhia -

uma falsa existência ligada às máquinas.

Como era infeliz!

Abandonou-a depois do pai e do irmão também o seu amor, partindo para esse limbo.
A morte não existe para o homem. A moça do monitor atende o pedido e tira mais uma

peça. Com essa conseguiria de primeira. Os amigos de bar não partilham suas fantasias.

Sequer sao ligados nessa coisa de internet. A vida não existe para ele se isso não for vida.

O barulho incomoda. Grita com os vizinhos. “Parem com isso, palhaços!” Não escutam.

Não estão em casa. Vejamos o que digo para que tire o resto, pensa com a mão direita.

- Aposto que você se depila toda.

Ela mostra que não e não deu para segurar. Depois do gozo não há nada. Ela gosta de

se exibir e agora se exibe para ninguém. No contato com a água fria o pequeno menor.

Ele se vira assustado para o lado do ruído. Não sabe se está vendo o que está vendo.

Tenta lembrar tudo o que comeu no almoco e a aparencia da maconha da noite anterior. Ou

pode estar sonhando. Do chuveiro o que se vê é um homem prostrado. Um menino. Quem

entrasse naquele momento não veria a luminosidade de uma perna feminina à luz do

basculante. Na pele lisa e luzente um reflexo desfigurado do homem caído. Ele balbucia. Pelo

ângulo não se poderia ver além da perna mas da perna se deduz uma jovem magnífica. O

menino no chão vê a mãe tão bonita e escuta o pai dizendo vou embora e que não aguenta

mais a mulher - Vou embora - diz - desse inferno.

Está se justificando?

Pede humildemente perdão. Nao pretendia. - Ando estressado por causa do trabalho,

você não imagina o que é a rotina de um executivo. Perdoe-me por favor - pede. Estava cheio

de dívidas e não conseguia se concentrar. Estava quase falido e jamais teve amor. Encontrá-la

no parque foi um refrigério. - Reconheço que não foi uma maneira bonita de demonstrar o

meu amor mas é a verdade.
Não vai dar uma desculpa para a mulher na tela? A moça no banheiro não se mexe e

não fala. Nem poderia estar ali. Então do que se trata? Ela está a ponto de chorar? Sim. Os

olhos estão marejados.

- Perdoe—me toda crueldade que fiz ao longo de minha vida.

- Dói demais. É consciência demais.

- Fale, moça. Me faça compreender o que está acontecendo.

Não é remorso. É outra coisa.

Os lábios que recebiam as lágrimas se movimentam. Ameaçam um sorriso apavorante.

Nao sao palavras inteligíveis as desses lábios mas ele as entende com a mesma clareza com

que sente o pé descalço que em seu peito se apoia.

Havia no olhar uma sentença. Desista de sua vida ou a dor crescerá eternamente. O

chuveiro pinga e a torneira da pia está aberta; gotas na janela do banheiro —tudo chora o

pranto ao qual a visão renunciou. O homem admite o que sua razão rejeita. Está a ponto de

desistir da vida.

Não há dúvida, é dela esse joelho. Como não seria? foi o que primeiro lhe chamou a

atenção. Mas não provém dela a dor desse estranho priapismo. Uma vida inteira que não pode

mais justificar.

A dor crescia pelas coxas e irradiava seca para o ventre e a secura ignorava os gritos

apoiada pela mão que tapou a boca.

Aí chegou alguém. Aí ele fugiu. Agora ninguem tampa a minha boca, pensa. Mas eu não

posso gritar. Enquanto ela descreve os detalhes ele simplesmente não suporta mais.

É o fim. Precisa ser.
Ao ouvir as batidas na porta Gisele saiu da frente do espelho.

- Venha tomar café, minha filha. A mesa está posta.

A senhora Ewe tinha feito omelete de queijo com trigo.

- Vem logo, meu amor.

Quando descer será com garbo apesar das sombras na escada e ainda que estivesse

escuro na janela da sala pois abandonara os terrores noturnos e esquecera o ruído das

correntes. As síndromes tragadas pelo abismo.

Se fizera mulher ao longo de boas escolas e alimentação balanceada, roupas quentes e

tratamento de canal. A beleza abre portas. A garotinha cresceu e não tinha mais medo. Mas

alguma coisa se perdera no caminho.

Havia filas barulhentas no pátio batido pela chuva e a excitação das crianças se media

pela algazarra. Um garoto muito nervoso estava bem ao lado de Gisele. Deve ter a minha idade,

pensou ela. No máximo uns treze anos. A fila começou a andar bem devagar como se fosse uma

coisa viva exalando um cheiro escuro de tempo.

Ela piedosamente ouvia o silêncio de David por experiência própria.

A sorte era o irmão e os amigos e amigas do irmão ou também estaria ali sozinha e

temerosa.

Moreno como ela. Covinhas no sorriso triste. Estavam se molhando. Atrapalhadamente

ele cobriu a cabeça com o capuz do blusão e em seguida foram chamados a salas distintas. Não

veria seu rosto outra vez até ele fazer a pergunta no ônibus. E esqueceria. Não havia qualquer

razão para lembrar.
Gisele era responsável pelo jornalzinho da escola. As matérias traziam entrevistas com

professores e informações sobre a diretoria e eventos, lista dos melhores alunos, dos

melhores atletas, os que se destacavam em atividades extracurriculares. Aí ela reinava

absoluta. Escrevia peças de teatro e poesias, as mais belas. Menina linda e sensível. Todos

tinham olhos para Gisele Drabska.

O menino moreno também fazia um jornalzinho em casa, sobre os campeonatos de

futebol de botão que disputava sozinho.

Na noite de um dia chuvoso, primeiro do ano letivo, festejavam o aniversário de Gisele.

O pai, o senhor Pierce Drabska, é um homem bom, um juiz. Íntegro e religioso. Adora os filhos

e especialmente Gisele, embora nunca vá admitir e diga que gosta dos dois irmãos por igual. A

senhora Ewe Drabska é mulher do lar, simples e feliz na medida em que a filha dava mostras

claras que em pouco tempo conseguirá o que a mãe sonhou a vida inteira sem conseguir:

realização profissional; independência; a admiração de todos. O irmão é um chamego só e os

primos estão presentes também. Descendiam sem dúvida de valorosa estirpe. Homens

inteligentes e fortes; mulheres sensíveis e bonitas.

Gisele em tudo a todos excedia.

Adorou o que ganhou. Um perfume dado pelo tio a deixou louca de vontade de que

chegasse logo o dia seguinte na escola. Constrangeu-se um pouco com o corpete de rendas

presenteado pela tia Natacha com um sorriso maroto. Mas amou mesmo as sandálias de couro

entrelaçado que recebeu dos pais; e, embora costumasse baixar as músicas que gostava da

internet, sentiu um prazer diferente quando o irmão lhe deu o CD, de músicas soul.
Enquanto ela abria os presentes alguém comentou na sala o quanto ela seria uma

moça alta. Diante do espelho alguns anos depois a menina que recém perdera o pai é ainda

relativamente baixa embora esbelta e empertigada. A mãe comenta durante o café o quanto o

terninho creme lhe caiu bem. Era um dia frio, fora dos padrões para a época do ano.

Ela pede que a mãe lhe passe um pedaço de quindim. Como consegue que fique com

esse gosto?

É por causa da gelatina sem sabor.

O primeiro dia de trabalho e seu pai e seu irmão não estão ali para se orgulhar dela. O

tio escapou do acidente. Passou a noite apenas porque precisava sair cedo e a casa da irmã era

próxima do lugar aonde ia. Transbordando em lágrimas silenciosas Gisele abraçou a senhora

Ewe por trás da cadeira. —Querida —diz a mãe. —Minha menininha...
Os que viviam naquele prédio do bairro nobre estavam protegidos por muros e

porteiros e supõe-se tenham todos os desejos satisfeitos. Havia vultos na janela do segundo

andar na noite azul arejada pelos ventos do camburi. O rosto do homem grisalho se volta para

a mulher ao lado mas deixa de dizer o que pensou. “Sigamos nosso caminho. O que temos a

ver com isso?” Difícil imaginar porém que exista para o casal um caminho comum a seguir

exceto salvaguardas que perderão mais cedo ou mais tarde o sentido.

O homem assassinado é conhecido do policial responsável pela investigação.

Por que assassinado? Não há indício alguém tenha estado com ele. Não arma ou

vestígio além dessa expressão aterrorizada. Nada aponta para um crime. Mais e mais pessoas

se aglomeram sem o casal entre elas.

Pertiert passou a noite com uma garota nesse bar onde costumam ser rigorosos com a

questão da identidade e não permitir a entrada de menores. Há essa construção ao lado.

Ninguém pensa que existe no fundo um quarto com alguma serventia.

Não toque o corpo, diz o policial ao porteiro. O homem exigia o inverso de sua

companhia. Não dá para ter certeza mas parece não ter mais de quatorze anos, a idade da

sobrinha quando descobriu que ele não era digno de tanta admiração.

Vem cá, diz um policial ao outro. Segunda-feira passada houve morte parecida.

Cadáver muito parecido. Igualmente apavorado e próximo ainda em vida da região das

sombras. Que eu não precise ver um terceiro desses.

Olhe.

A tela do notebook mostra à luz do basculante a posição derradeira do vizinho de

Gisele Drabska com clareza digital que não dá todavia verdadeira noção da luminosidade real.
Quem é, como foi, por quê? —com rapidez se deslocam as hipóteses entre o avanço tecnológico

e a lerdeza humana.

Onde fica esse prédio? As coisas ficarão complicadas para essa moça.

O vento lá fora geme e remexe coisas que deveriam ser apagadas para sempre.
Gisele se sentia bem com elogios. Esse agora inesperado a entusiasmou além do que

costumava se permitir. Sua beleza e inteligência de pouco valiam mas agora é exaltada a

possível glória literária —glória de homens do mesmo modo e qual sua utilidade? O brilho da

noite lembra o brilho dos sonhos e seu tio está entre as raríssimas pessoas em quem acredita.

Olhando-o aceitou o dom como uma dádiva e não um fardo e foi se deitar com nova

perspectiva para o dia seguinte. O Sr. Pertiert no quarto era mais um. Não há exceções. Como

viver num mundo assim?

A cruel decepção com o tio deixa de ser um choque. Revive num desejo forte de

conseguir um bom trabalho e o mais depressa possível se tornar independente. Ainda que

exista no mundo um homem bom não irá pôr em risco o relacionamento com dependência. De

novo sozinha Gisele enche o peito e se põe ereta e entra no prédio em que construirá uma

carreira de sucesso. Aí que o delegado pessoalmente pergunta se ela veio trabalhar e, pela

resposta, forma dentro de si a convicção.

Tem a sua suspeita.
Foi uma vez há séculos mas ela se lembra. Fazia frio como poucas vezes sentira.

Amanheceu e havia geado. Ela olhava súbito caleidoscópio as folhas ao som de flauta. Um

símbolo da paz esverdeado. Anos sessenta. Teria David feito isso, e quando e como? —posto

algum pó alucinógeno na xícara de seu café?

O tronco da árvore entrelaçado ocupa toda a superfície da xícara. Não evitará —

desejará —o abrigo de uma casa e ele terá consumado seu plano. Amanhecer de pedra e cores

transformadas minuto a minuto, efeitos de um programa de edição de imagens (filtros e

canais e agora a aplicação de um outro amanhecer sobre o primeiro numa camada de desejo

de morrer sobre a original camada do desejo de ser feliz). Pintura digital da dor que ah sim

pode ser bela. Naquela noite escreveu seu primeiro poema relevante. A primeira vez sem que

pudesse dizer abuso. Se David não aparecesse, provável ela acordasse um dia achando que o

rapaz que depois do cinema a convidou para o apartamento tinha sido seu primeiro

namorado.
Se não voltar a si rápido vai passar do ponto. Devaneio sobre devaneio e está muito

longe agora. A última parada antes do lugar em que deve descer. O vento ondula a gola.

Esfriaria o rosto se ele estivesse ali. Abstraindo-se ou meditando, não percebe o olhar de

Gisele enquanto passam as lojas da zona comercial e mais além uma fumaça que bem pode ser

da empresa procurada, cujo projeto sustentável tem decerto muitas falhas. Pegajosa e

desagradável. Há algum tempo em seu trabalho ela mantém as ligações comerciais entre as

empresas.

Quando deu por si percebeu onde estava e tocou a campainha do ônibus. Ela olha sem

ver. Pensa no pai. Ele dizia que a beleza e a inteligência não a deixassem se enganar. É quase

como perdê-las. Ela então sorria mas não lhe dava atenção. Era coisa de seu zelo.

Junte a coragem às virtudes. Junte a coragem em qualquer situação. Assim respondeu

tranquila à pergunta de David e seguiu olhando de cima. As luzes do teto do ônibus são como

cílios do carinho de papai. Ainda caminharam por um pequeno trecho do calçamento juntos

antes de deixarem para mais tarde o futuro.
Sentados à mesa do jantar sozinhos enquanto a senhora Drabska repousava após uma

crise o pai pergunta o que Gisele tem. Não é bom para a saúde guardar as coisas.

Não é bom, claro que não, ela bem sabe e admite enfim falar. Pai, diz. Começa, do

princípio. Não terá coragem de falar do tio. Conta sobre o médico sem os detalhes mais

humilhantes. Bem que o senhor Drabska tinha reservas quando diziam “um profissional

competente” e “um homem maravilhoso” e louvavam seu interesse pelas pacientes.

As palavras de Gisele ainda procuram um caminho quando ela sente não deveria ter

falado. Olha de soslaio para o pai. Podia matá-lo de desgosto. O senhor não deve se torturar

assim. Não vale a pena sofrer por causa dele.

O pai pensa que se não vale a pena sofrer com tal motivo então qualquer sofrimento é

escusado. Minha filha, um dia eu disse para sua mãe: o que não vale a pena é colocar uma

criança no mundo.

O sol estava alto e o dia quente quando o carro do senhor Drabska saiu da garagem

gemendo a cada manobra. Ele perdera a hora. Nunca acontecia. Só conseguiu adormecer pela

manhã – tampouco era comum. O senhor Pertiert a seu lado ao contrário parece ter passado

uma noite ótima. Na verdade ainda dorme. Só passou da cama para o banco do carona.

Nesse exato momento Gisele despertou num sobressalto. Correu até a janela e viu por

uma fração de segundo o carro do pai fazendo a curva e pegando a avenida.
Por que não se conheceram antes? Por que o acidente aconteceu? A concupiscência e

crueldade dos homens. De nada servirá a luz do amanhecer. E a beleza dessa manhã para que

serve? E pensar o quanto gostava de morar perto do parque. Correr e caminhar pelas trilhas

antes e depois do trabalho.

- O que a senhora quer dizer?

A senhora Ewe Drabska a partir de certo momento não escutava mais o policial.

Olhou-o com olhos grandes e vazios.

– Minha filha é suspeita desses crimes?

– Lamento, senhora, mas ela é a única suspeita.

– Não pode ser, meu bom homem - disse a mulher. Louva a sua diligência mas

simplesmente não pode ser.

– Se quer prender minha filha, por que não a prende? —pergunta meneando a cabeça.

A mãe a abraça com desespero e seu beijo não entende que ela vai apenas dar uma

corridinha antes do trabalho. Alguma coisa aconteceu durante a noite. O que terá sido, se

pergunta, embora saiba a resposta. Laços sanguíneos agravam o mal do mundo. Em família

tudo o que é apenas parece.

Então o delegado sentiu um horror vago que poderia se passar por tristeza ou saudade

ou loucura. Vê sua primeira esposa, a falecida, o que é isso? Rápido demais. A mãe de novo

diante dele em meio à escuridão em pleno dia.
A mulher não mostra desagrado com a ideia de uma filha criminosa. Fez-se silêncio e

ele pressentiu contra toda a lógica que indicava Gisele a assassina (por envenenamento

decerto), que não. Ela é inocente.

Tem de ser inocente porque já estava morta.
Houve uma mudança essencial. Ele via o céu e o vento e as arvores e a chuva com

novos olhos. Houve uma autêntica transformação exterior porque ele mudara e amar é

transformar o mundo. Depara com essa gente nervosa se angustiando por nada e gostaria de

dizer “A vida é bonita; é para ser vivida em paz”. Quem diria. David, o ansioso tendente à

depressão. Medroso e triste. Cujas doenças se retroalimentavam.

Chegará o tempo quando se desesperará de novo. O coração aos pulos entre vozes

anunciadoras. Foi assim. Há tantos meses. Tudo mudara.

Ele era outro. Outro administrará a notícia.

Caminham pela rua como se não houvesse ao redor tudo o que há. Pessoas passando e

carros e um avião aqui e ali um trovão distante. Um cão em alguma casa e as batidas na

construção. Os trilhos do trem e a possibilidade de um trem. Ambulantes. O sol e os raios

invernais do sol e a vizinhança bucólica dessa rua central. Ainda duas pessoas distintas?

Passam e ninguém dá por eles. Serão apagadas as luzes acesas mal percebidas de fora. O olhar

de Gisele. Seus movimentos de cabeça. Contida todavia está determinada.

Na sexta-feira tem festa na casa do assistente de Abdul. O convite ele fez certo de que

não será aceito. Olhava se o outro ia. Nao ficará triste caso não mas gostava que sim. Poderia

ganhar sua confiança e expor sua ideia. Uma ideia que o persegue há meses.

Na quinta a noite trovejou muito e depois ventou querendo arrancar as janelas. Tudo

de acordo com o que esperava. Calma. Onde você está tem todo o tempo do mundo. Onde você

está, aliás? Deixa eu te dizer. O David um dia acorda, nao tenho dúvida. Estive lá ontem e não
tenho dúvida. Daí ficará decepcionado contigo. A vida ficará vazia e sem sentido. Hoje os olhos

dele fizeram um tipo de movimento involuntário que me deu certeza que seja onde for que vc

está eh bem além do que ele pode ir. Cheiro de gás na casa. A esposa dissera. - Frederico, fica

na cozinha quando o bolo estiver assando. Ele está na cozinha embora esteja tão longe.

Contra a luz exterior vista de dentro o homem na mercearia os via. O ar seco de origem

polar ganha força no sudeste e afasta as nuvens de chuva trazendo de volta o canto dos

telhados. Estava começando a última parte da tarde; aproximava-se o crepúsculo. O dia

amanhecera com névoa mas no final da manhã o sol já havia reaparecido e dominava esse

resto de dia. A temperatura subiu e não havia previsão de chuva. Ele estava com o poema que

escreveu para ela na escola. Carregava-o desde sempre. Entregou-lhe.

– Como assim "na escola"?

- Você não se lembra de mim naquela fila sob a chuva para entrar nas salas de aula.

Espanto e regozijo. Agora está estão ali. Uma moça alta como a compleição da

menininha indicava. Pálida e saudável como ele a imaginara. Em nenhum momento pensou se

era bonita ou atraente exceto um ou outro dia solitário e mais saudável. São muitos agora.

Existe algo em Gisele que não tenha sobrevivido ao reencontro? Como se o tempo não tivesse

passado. Entretanto passara e do menino insignificante nasceu o homem que daria sentido à
sua vida. Eterno herói se entregando. O mundo renasce porque ela é como é; porque ele, que

não existia, está ali.

Lado a lado se afastam de si mesmos tão perplexos quanto não o esperassem. Nas

crianças que foram e nos círculos de perguntas infantis. Extremidades se tocam, papéis de

diferentes finalidades guardados por muitos anos em uma mesma gaveta. Ele a esperava

desde sempre; ela não mais esperava por ninguém.

Param numa banca. Ele compra uma barra de chocolate e tira o invólucro e oferece o

primeiro pedaço. Ela morde e mastigando articula as palavras. Leva a mão ao ombro dele sem

perceber. É aqui que devo entrar, diz, mas está pensando o quanto seria bom se fosse também

o lugar que ele procurava.
Bem cedo os peritos começaram a procura de indícios. Os médicos depois diriam se foi

morte natural. Mesmo se nada indicasse um crime todos tinham uma sensação estranha ao

olhar o cadáver. Vultos para lá e para cá. Falam entre si a cada poeira descoberta. Estava se

divertindo antes de acontecer. Vale a pena localizar essa mulher? Nos laboratórios haviam

também madrugado. Pincéis e líquidos. Fitas e ácidos. Uma ou outra ferramenta. A lanterna e

o microscópio. Isso é nojento. A internet é um espelho do mundo: um espelho que aumenta

mas ainda um espelho. Ninguém imaginava que o perito tão jovem pudesse conhecer

Baudelaire.

Quem? - disse o jovem.

O lugar foi preparado por um cafetão. Podiam ir atrás dele mas em nada ajudaria na

investigação; nada serviria para explicar o horror nas feições dos mortos.

Não parece coisa humana. O sexo virtual e a pedofilia tampouco parecem. Há um

monstro inumano dentro de cada um. A gente desconhece porque prefere desconhecer. Talvez

pelo anseio de liberdade porque quanto mais sórdida cada transgressão mais se aproxima de

uma idéia que nos aproxima dos deuses. Um dos homens se vira para a perita que falava. Você

parece ver em tudo aval para suas estranhas teorias. Mas no fundo ele pensava de modo

parecido. O pior não é descobrir pessoas anormais mas sentir afinidade entre nós e elas.

David Choi estava com 28 anos quando tudo aconteceu. De repente acordou e ali

estava ela a seu lado. A face morna avermelhada da manhã dourada. Ela é tão bonita. Ele

precisa ir, está atrasado. Foi tão difícil conseguir trabalho, voltar a ter uma renda. Ela sabe.
Ficou um tempão desempregada também. Mas veja, estou aqui, viva, conversando com um

homem de manhã deitada em uma cama, querendo ficar mais. Então se vê que as pessoas

podem superar qualquer coisa. Mas para ele embora tão belo era um momento absolutamente

normal e por um momento ele dúvida que tanta normalidade seja saudavel. Porque ela

levantou e mal olhou para ele. Foi ao banheiro e demorou mais do que o normal é saiu

dizendo que ia fazer o café sem olhar para ele. Nao saberia dizer a cor de seus olhos aa luz da

manhan, se ele perguntasse. Todavia ia dizer com conviccao a cor das paredes e a textura da

mesa da cozinha e o que exatamente se via enquadrado pela janela da copa. Talvez soubesse

que a vizinha estava de jeans e camiseta e quem sabe tivesse daí deduzido que ela tomava

conta de crianças em uma creche.

Os peritos são sombras na manhã. Esse aqui parece ter passado uma noite difícil,

talvez insone. Talvez o cansaço do sexo ou ambos. O assoalho estala com as idas e vindas num

estranho refrão. Se a prova pericial é ciência e a ciência é irrefutável, o que faremos com a

expressão desses rostos? a ausência de digitais? esse inquérito de sombras? Nenhuma

materialidade, tampouco testemunhas; nenhum vestígio ou agente que suporte a existência de

um crime. Nenhum vento que dobre árvores nem água das nuvens carregadas. Rostos

revestidos de pavor mais do que de pele. Nem autor nem material nem indício qualquer e

assim nenhuma evidência. Todavia não é possível ignorar esses corpos retorcidos, não

importa o que diga a autópsia. Assim o investigador se antecipa, descobre a relação entre os

mortos que se confirma quando a mãe da suspeita chora à possibilidade do irmão ter abusado

da sobrinha. E todavia não há nada. Por que não desiste? Ela morreu sim. No mesmo dia em

que foi atacada no parque. Morreu por causa do ataque, ao tentar se defender. Morreu porque
ele fugiu. Que sonhos são esses de que forjou a própria morte para se livrar? Seguirá ele na

caça de um fantasma?

Se precisa de um corpo e a cremação está documentada, o que terá? Mas é um

profissional competente, racional. O que temos? Dois corpos; uma jovem assediada pelos dois;

uma mulher determinada, conforme os testemunhos no trabalho. De inteligência incomum. E

agora o resultado da autópsia: ataque do coração nos dois casos.

Sim, e o que comeram?

Está muito próximo da aposentadoria. Jamais houve um desafio assim. Será o fecho de

ouro de sua carreira. Não se deixará ludibriar por uma mulher, inteligente que seja, ainda que

seus motivos sejam justos.
Uma tarde ensolarada e fresca. Não é incomum que o azul após um longo período de

dias chuvosos seja assim intenso antes que o crespusculo embranqueça tudo e da isonomia

noturna das cores. Naquela tarde não havia nuvens e não era portanto possivel entender a

logica do vento exceto talvez pela voluta sonora da eritrina. Os canticos da igreja às seis horas

ressoam em pleno dia por causa do horario de verao e produzem uma melancolia imovel ou

antes tão lenta quanto o arco solar desde uma regiao específica além dos montes. Era a fase da

vida em que mais se sonha mas em Gisele havia uma atividade cerebral máxima para uma

atividade motora mínima nao oníricas mas o céu efetivamente era de um azul intenso nas

janelas dos condominios em volta do parque e o fremito das folhas nas arvores que

margeavam a pista de corrida era quase imperceptível.

Os pardais estao agitados de uma bauinia para outra piando alto e pulando na terra

proxima ao corpo para em seguida baterem de novo as asas para longe. Os caes

acompanhando a caminhada de seus donos não perceberam ainda a diferenca entre uma

mulher se bronzeando junto ao lago e outra estirada mais ou menos na mesma posição no

gramado ao lado da pista quando faz a curva na quadra de tenis. La em cima na calçada

alguém parece ter visto algo estranho. Diminuiu a velocidade da passada e olhou para a

pessoa a seu lado mas o que disse nao teve qualquer consequencia e seguiram caminho, na

passada de antes.

Num dos predios a direita o toque padrao de um celular se mistura ao movimento do

transito mas a mulher demora a acordar. Abre os olhos por fim e com a mao direita espalmada

na testa se levanta do sofa e segue na direção do som. É jovem e morena. Usa uma camiseta

verde sobre o sutian vermelho cujas alcas estao à mostra. É muito bonita mas nao muito

vaidosa a julgar pela simplicidade da roupa e ausencia de maquiagem numa tarde de sexta.

Demora para encontrar o telefone na bolsa marrom e logo apos atender tem de dizer para
esperarem pois o alarme do forno substituira o ringtone. Sim é um céu azul maravilhoso. Por

um instante parou e se perguntou o que mesmo era céu. Nao precisará se apressar. A torta

estava pronta no dia anterior. Na verdade sobrou menos da metade, todos na casa adoram.

Estah entao sonhando um desses sonhos em que a gente antecipa o dia seguinte. Mas os

ladrilhos da cozinha e as colheres e o pegador e os copos pendurados e a voz do interlocutor e

as plantas na varanda que da para o ceu azul -- tudo eh tão nitido, nao parece um sonho.
Desde que conheceu Gisele, Eduard não consegue mais dormir depois que acorda, bem

antes do amanhecer. Agora desiste e se levanta. Chega à janela. Que mulher extraordinária.

Realmente obstinada, obsessiva, para não dizer um pouco louca. Olha a rua. Orvalho nos cabos

elétricos e nas folhas. O fio de água correndo ao longo da calçada. E o que talvez sejam os

passos de uma mulher que vai apanhar o ônibus para o trabalho no ponto da esquina.

Uma vez ficaram conversando um bom tempo na cozinha da empresa. Ela até se

mostrou acessível. Ele chegou uma ou duas vezes a insinuar seu interesse. Pelo menos pensou

que sim. Que havia sido claro o suficiente. Não sei o que aconteceu contigo mas você não pode

viver a vida toda nessa concha.

E por que não poderia? É a concha que a protege de pessoas como ele: sinceramente

interessado, íntegro, realizado na profissão, com os mesmos interesses no trabalho e fora dele

- cinema, literatura, teatro.

Mas não. Esses não são os reais interesses dela mas cortina de fumaça. O que eu

realmente quero é encontrar alguém que cuide de mim e seja o oposto do que sou. Porque se

aceitasse uma pessoa como ele, tão parecida com ela mesma, deixaria de descobrir coisas. Um

amante tem esse dom de fazer com que ao amarmos o que está fora de nós se revele o que vai

dentro. Não é o caso de Eduard. Seria como se apaixonar por si mesma.

Em determinado momento nesse dia ela resvalou em sua mão. Olhou dentro de seus

olhos. Todos os homens são iguais. Egoístas e irresponsáveis. Não se entregam. Foi o mais

próximo que eles chegaram um do outro. Depois ela se encostou na parede, calada. Pensativa.

Ou só queria fazer tipo? Ele ameaçou se aproximar uma ou duas vezes e ela esperou.
Subitamente entretanto retornou para a planilha aberta na tela de seu terminal. Inspirou

respeito mas não amor. Sequer um desejo remoto. Não havia esperança e também ela

regressou à sua mesa de trabalho.

Ninguém estava aqui no momento em que ele morreu, disse o perito ao delegado. Não

há dúvida quanto a isso. Por que o senhor simplesmente não aceita? O legista determinou:

simples síncope. Nada indica o contrário. Substância suspeita alguma ingerida. A dor no rosto

dele infelizmente não há método que explique. Que razão para continuarmos? —perguntou o

jovem, condescendente. Todos concordam que é apenas uma coincidência ambos terem

abusado da moça. Se pensarmos bem, foi feita justiça. Justiça divina. Vamos tomar um café e

depois eu levo o senhor em casa. Têm sido dias difíceis.

Estava deitado sobre os lençóis trocados. Recusara o chamado da mulher para jantar.

Abdul, abdul —ela insiste sem que ele ouça. É possível que não esteja morta. Que tenha forjado

a documentação e subornado os envolvidos. Cinzas não deixam rastros. Levantou-se de um

salto. É claro! Tudo de que precisa: um pretexto para seguir adiante. Descobrirá a intrincada

verdade. Sua investigação terá sucesso. Será um marco. Abdul, Abdul. Você é um gênio.
A luz permeia a água do mar em que ele na parte rasa descansa flutuando no marulho

rompido de quando em quando por um motor distante. Transportado para o primeiro dia na

sala de aula. A chuva em bátegas na vidraça. Lágrimas por não ter se aproximado mais da

moça. Não irá reencontrá-la exceto se a esperar quando ela estiver saindo do trabalho.

Todos estavam convocados para a reunião. O pessoal da Instituto de Perícias não

podia acreditar. Menos ainda os investigadores subordinados. A irritação se misturou à

maledicência. Portas batem pesadamente e cadeiras são jogadas contra as mesas. O delegado

na sala nada ouve. As pessoas ainda entram. Abdul está em outro mundo.

Um devoto da sorte permaneceu durante todo o dia perante os alunos. O diretor está

satisfeito e disposto a mantê-lo na vaga aberta pela viagem de intercâmbio do outro professor.

Carros chiam na chuva. A lembrança do dia anterior se confunde com a tensão de falar em

público.

O professor mais charmoso segundo as duas moças na primeira fileira de carteiras.

Uma irá ao hospital. Menina bonita e jovial disposta a sacrificar alguns anos para estar ali

quando ele acordasse. Ele sonha. Ali está ela extasiada. Ele veio. Quem é? —perguntam as

colegas. Silenciosa em sua direção. Num pensamento que não se deixou registrar, boiando nas

marolas, cogitou ter apenas feito uma troca – a repulsa à vida por uma idolatria. Parece uma

deusa vindo em sua direção. Esse sal não é do mar. Está chorando de felicidade.
Entra em casa que adquire novos contornos e cores. Lancharam juntos no caminho de

volta. Deixou-a em casa. Sorriu encabulado quando ela deu a correntinha. Tons sombrios de

azul transformam-se no branco no teto e no creme das paredes. Entra e senta na sala. O sofá

não parece o mesmo. Repara o pó na estante. Chaves na mesa de centro. Gisele havia sorrido

quando chegavam os hambúrgueres. Quando for, dissera, me convida. Colocou o calção de

banho e a camiseta. Era muito cedo e a quietude tornava possível a voz dos pombos. Quando

se reencontrassem no sábado, a chamaria.

Fim da aula de música. Os cabelos de Gisele cresceram desde o verão. Está atrasada

para o médico e não teve tempo de encontrar a mãe para irem juntas. Mordisca os lábios. Se

não mais a encontram na noite como reclamam os amigos é por isso, responde. Porque vive

sem tempo. Na verdade prefere estudar. Logo terá um bom emprego e eles o que ganham com

tanta madrugada insone jogando conversa e libido fora? Quem dera quando lembrar desse dia

tivesse ido a um barzinho ou uma festa ridícula ou qualquer coisa que a fizesse perder a hora.

Então? O que você está sentindo? – perguntou o doutor muito sério pensando que a

mãe está na sala ao lado acertando detalhes com a secretária. A mãe estava doente, disse

Gisele numa confidência de que se arrependerá para sempre. Ao chegar em casa depois de

atravessar as ruas perigosamente entre imprecações, ela ainda está desalinhada e seus olhos

marejados e o ar lhe falta.
Evitou a cozinha e o beijo. Não contou à mãe, conforme prometeu que faria, sobre a

audição com o mestre italiano. E quanto à consulta, o que vai dizer? Que foi tudo bem,

naturalmente. Precisará ser convincente. A senhora Drabska é esperta apesar dos vácuos.

Gisele vai direto para o quarto e tira o violoncelo da caixa. O som se propaga

melancólico pela casa e todos sabem que ela não gosta de ser interrompida quando treina.

Que música tão triste. Melhor deixar a menina em paz. Amanhã a gente pergunta. Você

pergunta, eu não estarei aqui.

Vozes através da porta do consultório. A secretária sai levando alguns prontuários.

Uma menina também espera o elevador. Sorri e diz que vai chover. Naquele dia no quarto de

Gisele os quadros deslocavam luzes. O médico se prepara para sair. Não se sente bem. Apóia o

queixo com a mão esquerda e desvia o olhar antes perdido para o quadro na parede. Se

pergunta o que está vendo mas prefere que a resposta não se manifeste.

Quando a polícia chegou o doutor estava caído de um jeito como se por horas

houvesse se contorcido. Meu Deus, murmura o delegado; e escuta lágrimas abafadas por um

violoncelo.
Ao saber, Eduard foi até a sala de Gisele. Ali ele a viu pela primeira vez, quando se

apaixonou. Olharam-se e sentiram algum conforto. Ele disse que lamentava de coração o que

aconteceu com David. Ela acreditou. Ele disse que imagina o que ela está sentindo. Ela se

pergunta se é possível mas não duvidou. Saíram. Ele a acompanhou até o shopping onde ela

precisava fazer uma compra para o seu setor. Cai a noite.

Em silêncio sobem a escada rolante e antes de entrarem na loja param numa

lanchonete. Dão depois umas voltas até encontrarem o lugar que vendia a peça mais barata.

Em dado momento ela sorriu. Ele não chega a tanto para corresponder. Apressam o passo ao

atravessarem a rua para apanhar o metrô pois começava a chover.

Veja: a avenida não parece mais serena depois da chuva? As luzes molhadas são mais

bonitas. Pode ser a umidade do ar. Os níveis andam baixos, tudo se ressente. As luzem úmidas

refletem o alívio. Ela aceitou a companhia e não evitou a idéia de consolo. Seu

comportamento contradiz o que pensava quanto a natureza dos homens, do que apenas David

deveria ser a exceção. Está tão cansada que apenas aceita. Nada além disso.

Na saída do elevador uma sala-de-estar. Um sofá verde acompanha a curvatura da

mesa de centro onde se destacam flores naturais. Depois da lei anti-fumo, o cinzeiro ficou não

se sabe bem a razão. Ela demorou a encontrar o prédio. Parece ideal para as necessidades da

mãe. Eduard é discreto ao observar. O corredor amplo e longo. Os passos ecoam e só então

percebe que ela está de salto. Foi uma noite muito agradável no meio de tantas em que ela não

sabia como seguir vivendo. Sua voz ressoa grave e nítida, doce e sinuosa. Então pararam.

Eduard sente inveja do rapaz feioso preso em uma cama de hospital. A felicidade não é feita

dessas coisas. E ela sente inveja da moça com quem um dia Eduard casará. Passa a mão no
rosto dele quando termina de abrir a porta. Eduard sorriu e tomou a mão que o acarinhava.

Fechou os olhos. Um momento desses bem podia durar eternamente.

Os odores que envolvem esse tipo de ocasião. De homem e mulher. De tapete e

paredes. Do mogno da porta. Evocam origem ou recomeço e decisões, compreensão. As chaves

não param de tilintar nas mãos dela. No morno elevador há uma luz ancestral. Eduard não

viverá outro momento assim. Gisele se manterá encostada do lado de dentro após o suspiro.

Eduard a tempos não tocava num cigarro. Procurou pelas gavetas. Pegou-o e acendeu na

cozinha. As luzes da cidade além da varanda lembravam algum tipo de brinquedo iluminado.
Um violino se faz escutar por toda a rua. Corta a alma. Ela podia ter dito. Estudei

música aqui. Por que a vergonha? Como se tivesse culpa. No carro que engole a avenida, a voz

de David é um murmúrio. Como se soubesse. Do perfume, do cheiro de álcool e cigarro. Do

bater do coração adolescente mais e mais forte à medida que os cheiros se misturavam. O

motorista do táxi ri de uma piada no rádio. A risada do tio durante a noite na festa

conversando com o pai dela. Todavia o silêncio é absoluto, sentença dum quarto eterno.

Hoje ele se atreverá, pensou a senhora Drabska.

O ronco do marido é pesado, também bebeu demais. Haverá uma tragédia. A dor de

mãe dada à luz. Da qual a mulher chegou a achar que estava livre. Uma nota longa e bela

desafina no final. Estudei música aqui. Quase diz. Mas teria sido apenas para trazer outras

nuances da dor. Então se cala e David respeita seu silêncio. Teria preferido que ela lhe

confiasse a dor. Podia ser até num aperto mais forte das mãos dadas sobre o banco do táxi.

Não um prazer em carregar a dor sozinha. A vergonha tem um quê de auto-piedade. O

que sente é uma vergonha pura, pujante, um sentimento de vingança por ter nascido. Estão no

parque. Os pássaros cantam. Pombos rodeiam a árvore. Não há sinal de gente por ali. O sol de

inverno concede tonalidades inesperadas ao vermelho das flores. Não, ela não tem culpa

sequer de continuar mantendo o tio entre eles num lugar desses em plena paz com David, a

cada dia mais companheiro. Não tem culpa da dor no estômago ou das sombras no espelho do

quarto —algumas vindas do vulto contra a lua e outras de lugar algum: sombras simplesmente,

quase pétreas apesar dos movimentos. Ou da pele muito lisa. Ou da exuberante juventude .
Anoitece e começam o caminho de volta. O esforço de David é tanto e tão autêntico que

ela praticamente riu junto à floração do ipê. Primavera! Dedos afundam em seus cabelos

lavados. Um beijo e a fuga para o presente restaurado. Um abraço acolhe tudo e então

seguem. Meu Deus. Há tão pouco tempo. E agora estou aqui, feliz. Uma gota desce em sua

testa.

Que caminho é esse? Ouvia a música como uma cega. Discretamente ergueu a mão

direita regendo. O rapaz atendia uma senhora. Ela tinha ido comprar um violão para o neto.–

Queria um com braço de cedro, ele diz que vibra menos – disse. Os cabelos de Gisele

esvoaçam. Os dois estão refletidos na vitrine da loja. Ela parou para ver o violino. Não

conseguia se decidir.

– Por que não entramos e você vê de perto e perguntamos o preço?

O aniversário dela será na semana seguinte mas ele não sabe que ela detesta

aniversário e presentes. A vendedora se aproxima e ela diz que só estão olhando e ele

pergunta onde ficam os equalizadores. Se pergunta o que seria sem a música? O que seria da

música sem David.
Puxou a saia e interpôs a bolsa ao sentir o contato. Parecia que estivera treinando.

Afastou-se o que deu no vagão cheio. Não há como ensaiar para tal eventualidade porque a

gente não sabe emocionalmente como reagirá. Era como tivesse entrado numa desconhecida

região de sombras. Pediu a Deus em oração e quase acreditou que ele atendia sempre o rogo

dos justos seja por serem justos ou impertinentes. Mas ao contrário. A persistência do mal

prevalecia. O homem a cada movimento perde algum pudor ou receio que porventura tivesse.

Ela o empurrou com força insuficiente e em torno estavam prontos não a socorrer mas acusar.

Por que essa roupa provocante? Por que essa cara de santa? Por que esses quadris perfeitos?

Outro brado e som algum.

O trem está gritando. Ruge. Geme e se contorce na lenta agonia. Dir-se-ia sim que ela

estava para morrer e o homem também e aquele era o último desejo de um condenado. Quis

lembrar se sua mãe algum dia lhe advertira a respeito porque era também belíssima na

juventude. Os pensamentos não terminam nem se expressam no rosto exangue. Não

conseguiria fazer nada. De tanto resistir acabou cedendo pela catatonia que nasce de um

transtorno factício. Custou até mesmo o passo para a plataforma, como se a voz mind the gap

alertasse para a largura dum abismo.

Não sentirei pena de mim mesma, pensou. Me vingarei. Mas era apenas uma espécie de

consolo, uma promessa que não pretendia cumprir. E como encontrar o rosto visto num

relance se tudo o que quer é jamais revê-lo?

Azáfama na plataforma. A multidão se derrama. O gargalo da escada rolante em fila

indiana a detém. Ninguém a verá chorar. Ainda que seus sonhos de mundo estejam

desabando, ninguém a verá chorar.
Chovia na primeira noite apos o acidente de David. Que tipo de destino determina esse

tipo de coisa? Ele a amava desde crianças. Ela o conheceu enfim e o amou. Mas as pessoas ao

redor não mudam e o tempo muito lentamente. O tempo. De um jeito ou de outro nunca

habitaram o mesmo. Pode ser um dos outros nomes do destino. Nao sorte. Jamais. A única

predestinação a que as pessoas estão sujeitas é a liberdade. Ela estava deitada sozinha, quase

uma viúva, na mesma cama em que ontem estiveram e que em alguns anos ele estará deitado

sozinho, filho também. Se dependesse da mãe, teria dado certo. Da professora primária talvez.

De resto, os algozes e os bullingters, o chefe que não quis contrata-lo para não ter namorados

na equipe, o irmão, o tempo e o destino e a vida e a morte e a doe.nça, como as vozes

individuais de uma mesma chuva, nesse torrencial pranto de gotas, gritavam que não.

Havia criado um mundo para si mesmo mas é a mulher real a seu lado quem soa como

um fio de sonho. Namoram há tanto tempo e ela não o conhece. – Por que você está assim? —

insistiu. – Aconteceu alguma coisa?

Encontraram-se na lanchonete há minutos. Ela mexe o milk-shake que brande com

dedos nervosos. Iluminação baixa em lâmpadas discretas. Pessoas que entram e saem. Vozes,

tantas. Serão humanas? – Preciso ir ao banheiro.

Poucos antes do fim do expediente, decidira ir ao encontro de metrô, obediente não

sabia a que.

É um vício. –O que devo fazer, doutor?

– Tome cuidado, rapaz - diz o psiquiatra ao puxar a receita. -Se cuide.
Não pode acreditar que esse seja seu mundo. Não pode acreditar que seja um

criminoso. Elas parecem aceitar. Parecem gostar até. Sobe no vagão. Se aproxima. A janela

mostra o letreiro do mais longo intervalo entre estações.

Por que esta e não aquela nunca fica claro. Quem sabe um dia ao se achegar entabule

uma conversa. Que chuva! Ou: É um absurdo esses trens apertados. Ao olhar o livro nas mãos

da estranha a certa altura perguntará se gosta também do anterior. Ela responderá que não e

ele dirá que é muito bom. Não chegou a ser adaptado para o cinema. Dirá: Os filmes costumam

ser inferiores. Nesse caso - responderá ela- a qualidade corresponde. Então terão um assunto

. Tão mais natural. Por que prefere essa aproximação fortuita e sem depois?

O banheiro da lanchonete amplo e iluminado. A luz de árida espessura. Uma solidez

altiva semelhante à da noite passada em casa lá pelas nove. Uma atmosfera da qual sentiu um

medo que pensara ser coisa do passado. Luz com personalidade iluminando a solidão de seu

quartinho de pensão. Tanta cultura. Tanto estudo. Não deveria a essa altura da vida morar

num lugar decente e não neste pardieiro? Contemplou a luz implacável. Olhou o passado nas

paredes sujas, mas não era passado. As sombras aquietadas ao desligar a tv mas continuava

assistindo algum outro programa sem apresentadores ou atores ou reporteres algum outro

programa em uma faixa de frequencia que só ele captava. outro programa continuava. Doía.

Doía terrivelmente. Súbita porem como veio sua culpa se dissipou. Agora de novo. Por que no

banheiro de um bar? Seu vício o repugna mas não tem tempo de se arrepender e pensar em

mudar.

Um rapaz que passa vê a moça pelo vidro da lanchonete. Ela ainda mexia o canudinho

em meio às vozes e luzes e só agora sente o peso do copo de papel, agora, quando o rapaz se

aproximava. O reflexo dos dois está no vidro quando ele a cumprimenta efusivo e sem perder
tempo fala que ela está sumida e que sentiu saudades, parece enfim decidido e tão direto que

ela pede. - Evandre, por favor, vá agora. Meu namorado está no banheiro e é muito ciumento.

No banheiro se contorce e o horror ilumina tudo e pelos amplos espelhos se espalha.

Pensando bem, ele está demorando e a namorada pede a Evandre que vá ao banheiro

e o chame. Estão atrasados para o cinema. - Seu pedido é uma ordem - diz o sorridente rapaz à

namorada do outro. - Trarei então seu amado. Mas quando vocês terminarem lembre-se de

que sempre te amarei.

Como ele é bobo. Como é bobo. Será que ela não precisaria exatamente de um bobo?

Rir assim em vez de um relacionamento atribulado.

Ela ainda treme. A polícia chegou e ninguém pode sair. Então depõe. Conta sobre o

encontro marcado e o cinema. Ele chegou em seguida, não se atrasou tanto como de costume.

Meu Deus... O que é isso? se perguntarão mais tarde quando Evandre postar aquele vídeo. Era

uma gente acostumada com coisas bizarras mas se aterrorizaram. A namorada assistiu da casa

do amigo. - Não tem vergonha de publicar isso?

Mais calma pergunta depois o que Evandre acha que aconteceu. O tremor está

passando.

- Sei lá. As pessoas passam mal e morrem. Não tinham bebido demais ou fumado

alguma coisa?

- Você está parecendo o policial.

- Mas o policial não te ama.
Mesmo em meio a tudo ele sorri. Estavam tão juntos e unidos pelo acontecimento que

logo se acariciavam e ali mesmo diante da tela negra que ocultava o horror do namorado ao

morrer ela se entrega. Afinal todo mundo passa mal e todos morreremos.

Atravessa a ponte lentamente. Apareceu na paisagem levado pelo desejo igual a

qualquer um. Se sair desse quadro deixará que atrás de si ao piscar do semáforo dois carros

em sentido contrário se encontrem num cruzamento. O ar gelado em sua face. As cores da

cidade e o sol no horizonte dentro dele. Diluído em seu olhar o amanhecer foge da terra. O

calçamento avança conforme seus pensamentos. Os passos ecoarão até o alto da escada.

Sente-se sereno como um fantasma que caminha. O inquilino do andar de baixo perguntou se

ele tem um pouco de açúcar. "Acho que sim". A mão abriu a porta que rangeu em seus gonzos.

Eis aqui, diz para si mesmo. O pote de açúcar. Um dia como qualquer dia. Lá e acolá é

sempre aqui. No fundo da sala enquanto o vizinho saia a janela estava se abrindo e os duendes

que geraram esse David Choi voam por sobre os telhados. A manhã respira nas cortinas. Um

zíper. A descarga. Ela disse que me ama. Estamos juntos há quase um ano e só hoje ela disse

que me ama. Essa franqueza, se pode chamar assim, fez brotar um sentimento de dever. Quase

de missão.
Quando se despediram no dia anterior Gisele olhou para David entre apaziguada e

temerosa. A que horas nos encontraremos amanhã? Não fazia sentido ser fulminada assim

como se tivesse recebido uma má notícia justo agora que conseguira. Conseguiram. Na sala

azul abrigada dos demônios ininterruptos os espasmos são os últimos suspiros.

– Você me ama?

– Você sabe.

– Eu sei. Mas tenho medo.

- Eu também.

Era um dia frio e os pardais inquietos pousavam na janela e voavam de novo. Havia no

ar um cheiro de crisântemo misturado ao do bolo que ela fizera. As crianças da creche corriam

no pátio e as tias procuravam alguma réstia de sol para sentarem na mureta em torno dos

brinquedos.

- Você quer ter filhos?

- Não é um pouco cedo para falar sobre isso?

- Eu não.

- Não quer ter filhos?

- Não.

A luz da tarde que iluminava os enfeites na mesa de centro é a mesma no quarto. De

manhãzinha como se fosse de tarde. Ele seca a boca com a manga da camisa. Algo está errado.

Sentem no mesmo átimo. O gozo sobre eles. Há tanto esperado. Eu devia ter dormido lá. Por
que mesmo não dormiu? Seus olhos estariam olhando para ela. Se o passado às vezes volta, o

futuro jamais chega. O que poderia ter sido não foi e agora é tarde. Na sirene da ambulância o

grito da última queixa.
Alô? Escuta. O vizinho fala. Vi quando você saiu. Vamos terminar em algum lugar mais

discreto o que começamos na trilha?

O que começaram? O tom de voz não deixava a dúvida em que a mãe prefere ficar.

Quem era? Silêncio. A senhora Drabska sempre dizia para que Gisele levasse o telefone

quando fosse correr no parque. Descansaria seu coração quando a filha demorasse, como

agora.

Alô? Desligou. Agora os temores são certeza. Mas ela sempre pede que a mãe não se

preocupe assim. É sofrer por antecipação. Esperará a confirmação para sofrer.

Sente que a filha está ali agora e portanto não está em qualquer outro lugar. Ela estava

bem. Sua vida se tornara um sofrimento insuportável mas agora estava bem. Menina cheia de

fibra terá levado isso consigo para o lugar onde esteja.

– Eu até entendo, Gisele. Está ouvindo? Eu até entendo. Mas não sei se é certo. Seu

espírito não terá sossego, minha filha – gostaria de dizer e talvez esteja dizendo agora quando

o delegado está saindo. – Filha, deixe-os. Entre na sua paz.

O senhor Drabska deixou para a mulher o belo apartamento na região da estação

central do metrô. Agora que também Gisele partiu, para que precisa tanto espaço e de que

servirá essa linda vista?

– Você não pode consolar nossa menina? Não estão no mesmo hades? Um dia você

disse que não valia a pena colocar uma criança neste mundo; mas assim eu não teria o consolo

da saudade.
A sala é escura e fria mesmo de dia. Noite eterna como Gisele chamava.

Um sintoma misericordioso esquecer. A senhora Drabska põe o celular sobre a mesa

de passar ao entrar no quartinho de empregada. Talvez seja hora de chamar Eduviges de

volta. de volta. Estão com a mesma idade. Como se fosse a coisa mais certa do mundo que ela

estivesse morta. A notícia chegará a qualquer momento. A mulher está preparada. Sentirá

saudades. - Muitas saudades, filhinha querida.
Havia flores exuberantes. Coloridas e tenras, viçosas. Entraram com Gisele no

cemitério e a acompanham até o túmulo do pai. Acolheram a luz ao dia enquanto pássaros

esvoaçavam do prédio principal onde está a capela e a sala onde o corpo foi velado. Branco

funéreo em que ela continua a vê-lo. Em cada rachadura da fachada um segredo a respeito do

homem ou de sua filha como se a estivesse mais na morte e nos mortos.

As poucas pessoas ao redor guardavam entre si essa afinidade de estarem vivas. Ela

subiu dos joelhos e se apoiou e levantou e retornou às passagens estreitas. Escutou os

pássaros e os murmúrios.

- Oh minha linda, eu sinto tanto.

- Sabemos o quanto voce o amava.

- Agora voce eh que. vai ter de cuidar da casa, de sua mae.

- Como a senhora disse que se chama?

- De onde o comhece?

- E o tio, como vai? Ainda corre riscos?

Quando se aproximou de sua rua cerca de meia hora depois, a luz dourava seu perfil.

Parecerá uma orla em seu vestido quando entrar no prédio numa linha reta até o elevador.

Falta o ar. Encosta no metal sob a câmera de segurança. As vozes dos moradores se cruzam

rascantes em seu cerebro. Toda essa gente.
Calma. Você não vai conseguir viver sob tanta tensão. Ela sentou-se na cama e a

envolveu o cheiro de lencois limpos que é um dos cheiros da felicidade. Tirou os sapatos e

suspirou e tornou a levantar. Chegou à janela. Você me deixava ansiosa. Eu queria que logo

chegasse o dia. As manhãs quando nos encontrávamos. O cheiro de café passando e o som dos

sabias. Mas como estavam cantando mais cedo por causa do insone caos urbano, quando me

acordavam eu ainda ficava um tempo cismando com minha dor e quase sempre esquecia as

bênçãos de ter te conhecido, alias me esquecia tudo do dia anterior , os projetos motivadores, e

comecar o seguinte a partir de esquecimentos era extenuante. Estava pior que mamãe. Calma.

Vai dar tudo certo. So precisa confiar. Nao devia depender sequer do afeto de David.

David levantou suando cerca de meia-noite e teve certeza. - Amor - disse. Sua boca

tinha ainda o gosto azedo do longo e morbido sono. Lembrava de muitas nuvens correndo

baixas como anjos caidos expulsos do ceu mas nao de todo; como um rebanho de cordeiros

elevado a alturas nem tao sublimes assim. De minuto em minuto mais retornado ao mundo

dos vivos sem emocoes esperadas constatava os movimentos dos pes como dedos nervosos e

um alongamento involuntario das panturrilhas. A expressao insondavel, as regioes dos

sentidos exauridos. A pesada obrigacao de retirar de sua mente a pedra enorme do

desencanto.
Deixa que a aragem traga a preciosa lembrança. Gisele e ele na adolescência.

Brincando. O primo Joaquim junto. Procuram-na. A irmã, a prima Maria, contou que preferia

os lugares escuros. A mãe os olha pela janela. A tia. Pensativa. Crianças tão doces... Hadrien

imaginou onde ela poderia estar. Ninguém a conhece melhor do que ele. Um lugar escuro e

descalça sonhando. Atrás da casa. Dentro do pequeno túnel abandonado. Ai a encontrará. Sua

luminosa irmã.

- Gisele! Não adianta! sei que você está aí.

Ela não saiu e Hadrien avançou ao seu encontro.

-Alguém está chamando.

- Hadrien!

A mulher aparece requebrando. Não é mulher para ele. Belíssima. Aas vezes mostra

sensibilidade e alguma inteligência mas jamais será como Gisele; é só uma potranca de voz

esganiçada.

Por quanto tempo estiveram ali no túnel não sabe dizer e tanto tempo depois, depois

do assalto, a lembrança perderá a doçura. Ele terá de fugir, o que mais lhe restava? Se não

pode olhar nos olhos da irmã, melhor jamais tornar a vê-la.

A própria mulher, Vanda, inutilmente insistiu para que fossem visita-la, preocupada.

Deveria ir vê-la. Irmãos são para sempre.

- Eu a amava tanto - chorava Hadrien no quarto. Jamais tornará a amar assim.

Ele passava as fotos na sala após o jantar. Uma de Joaquim e outra de Maria e uma

outra de todos juntos, os quatro. Seus primos também nunca mais os viu. Olhou Vanda como
se visse um fantasma cujas palavras são ininteligíveis e pensou como sobreviverá o resto da

vida sob aquele segredo. imaginou o que estará expressando seu olhar. que não expresse mais

do que ele pode permitir. Não pôde renunciar ao prazer da primeira noite e agora não quer

abandonar as comodidades que juntos construíram.

- Maria foi fazer intercâmbio na Europa e nunca mais voltou. Joaquim da última vez

tentava um concurso público convicto de que uma vida estável possibilita outros sonhos ao

acabar com a preocupação da subsistência.

- E a tia?

Ficou por lá mesmo cuidando da comida e das roupas do senhor Pertiert mesmo quando o

câncer a consumia. Passou a maior parte da vida varrendo e encerando e lavando pratos

naquela casa que a janela se debruçava sobre a sina que lhe coube, sem reclamar, antes

glorificando a Deus, e nunca lhe ocorreu que era infeliz porque nunca pensou a respeito.

- Ela é que era feliz - disse Hadrien.

Porque o que Gisele tinha de forte em seu caráter, tinha de fraco no físico. Sequer

gritou, pensando na mãe no quarto. Calou nos dias seguintes. Mas o olhar depois era

implacável. O que poderia ele fazer senão fugir desses olhos?
Alguns dias depois de ter ido à casa de Gisele e falado com a senhora Drabska, o

delegado Abdul encontrou um antigo colega a quem muito respeitava e perguntou o que ele

achava de tudo aquilo. Tem suas opiniões e algumas intuições porém vão de encontro umas às

outras.

- Você sabe, Artur, não sou um homem místico; mas estou começando a crer que existe

alguma conotação sobrenatural. O outro quis então saber detalhes e o delegado contou.

- Gisele é —ou era (quase admite) —uma moça muito bonita, realmente atraente. Olhe

- ao mostrar a foto disse a si mesmo que não fazia justiça. Lembrou-se de repente que o colega

teve um caso extraconjugal com uma moça dessa idade. Enfim. Havia começado e paciência

continuou.

Tudo indicava que ela se vingou do vizinho que a havia assediado no parque da praia

na manhã de 29 de setembro de 2010. Aa noite ele foi assassinado em seu apartamento. Mas

isso não pode ser porque ela morreu antes, nesse mesmo dia.

Abdul chegou a pensar que ela simulara sua própria morte para se livrar pois o

porteiro de seu prédio disse que ela saíra à hora de sempre para trabalhar. Mas no escritório

constatou que ela faltara —o que aliás testemunharam jamais tinha acontecido antes.
Artur a essa altura começa a se interessar e dar uma atenção cuidadosa à narrativa do

delegado. É um homem de sessenta e dois anos e poucos amigos e hábitos rigorosos.

Aposentou-se tão logo pôde. Não suportava como as leis terminavam por livrar sempre os

culpados. A literatura deveria servir para que de algum modo fizesse a justiça. Se tivesse

talento teria se dedicado completamente.

Abdul continuou. O que chamou a atenção dos policias e do pessoal da perícia e de

todos o que chegaram a ter contato visual com o cadáver foi a aparência aterrorizada e

atterrorizante. Fantasmas acorrentados ao inferno. Testemunho unânime. Gaguejar e tremor e

olhos esbagaçados. Artur abre mais os olhos sem ousar o esboço de uma tese. Quem sabe o

enredo de seu romance. Algo pelo que valha a pena viver os últimos anos de uma vida inócua.

O que virá agora?

- Não um só cadáver.

- Como assim?

- Soubemos, meu amigo, de um caso semelhante - Artur tentava imaginar. Um homem

rogando aos montes. Isso em vez de clemência. Não parece coisa humana.

Esse outro morto, imagine, era tio da suspeita.

Não acabou. - Falta falar de um rapaz que enfrentou a suspeita do delegado, um tal Eduard .

Ele garantiu com consistecia a inocência da moça chamada Gisele. Ah, e a mãe dela, cuja

doença não a impediu de desafiar a autoridade em sua casa. E falta falar de outras vítimas.

Não sei —diz —o quanto é válido usar esse termo. O médico que ela consultava. E um outro

homem encontrado no banheiro de uma lanchonete. Tinha também algo em comum com a

rotina dessa moça. Costumavam pegar o mesmo metrô no mesmo horário.

Assim aqui estão os delegados, um aposentado e outro quase em meio a uma tal sorte

de fatos e espectros enquanto o garçom lhes traz mais duas xícaras de café.
Como se não bastasse tudo isso, há uma história trágica que não envolve diretamente a

moça, mas seu namorado, o que quase a envolve, tal a ligação dos dois, conforme Abdul pôde

apurar.

- O que aconteceu com ele?

- Sofreu uma queda numa circunstância corriqueira. Parece que ia trocar a lâmpada de

seu quarto e teve uma tontura. Não morreu mas é quase como se tivesse morrido. Está ligado

a aparelhos, inconsciente. Os médicos acreditam que é remotíssima a possibilidade de um dia

acordar.

E tinha mais, se Abdul quisesse se ater a detalhes. Do acidente que matou o pai, o tio se

salvou para sofrer a morte macabra.

Respirou pausadamente. Os braços ao longo do corpo medem o silêncio. Ergue-os

numa súplica. Não é nada mais que um corpo. O maxilar se contraiu e o olhar se alongou

humilde e vitorioso. Vai dar tudo certo, disse baixinho. Tudo passa.

- É você? - disse a voz.

Artur intuíra saídas para o labirinto. A literatura poderia suprir o que faltasse. Não

pode dizer isso ao amigo. Não é o que ele espera ou pediu. Beberam juntos um gole de café e

Abdul apanhou o cigarro a que voltara após o caso. Olham-se. Suspiram.

- Ao contrário de você, Abdul, sou um homem místico.

Um calendário na parede. Faz um mês que o vizinho da moça morreu. Desde então

toda segunda-feira
- O quê? Alguém morre assim.

Artur emergiu de seu mundo imaginado . Então, o que ele achava?

- Pode ser que existam mais pontos em comum entre esses mortos e a partir deles

tenhamos um caso, mesmo que, como tudo indica, a moça realmente esteja morta.
A sala envolta em uma névoa de umidificador. Tem de viver dentro dessa saudade

sombria para sempre do mesmo modo como se acostumou a duas ou tres horas de sono por

noite. Deu outro passo e tocou o sofá com os dedos, de leve, quase uma carícia. Os quadros da

parede e os livros na estante e as flores naturais serenamente se apresentam e comunicam

eternidade. No vidro da janela feito espelho a bela jovem severa a questiona.

Acompanhou o Sr. Pierce até o fim. Ouviu o diagnóstico sobre a senhora Ewe dos

mesmos doutores que primeiro apresentaram as condolências. Depois de tanto sofrimento

poderá esperar algum descanso para a mãe? O médico reconizou sua esperança. As agulhas de

tricô e o agasalho inacabado produzem fragmentos de uma infância que talvez nem tenha

existido. Enfim. Já não faz diferença. A vida e a imaginação tão próximas não raro se misturam.

Esse caderno agora aberto ela usou para seu primeiro diário; nessa mesa de estudos,

quantas lições o irmão lhe ensinou

. As cortinas que com o passar do tempo amarelaram remexem dentro dela meandros

do tempo e do destino. Em alguma outra época teve semelhante medo? Pode escutar aqui a

voz de Joaquim; ali Maria por causa de uma piada boba gargalhou. Venham jantar, diz tia

Francisca. Cheiros fortes açodam a fome limpa e nítida de adolescência nas cores do verão
que passava depressa na inconsciência do futuro para o qual ela supostamente deveria estar

preparada com alguns anos de lar e escola mas não é assim, ela lembra e pensa, não é assim.

Todos felizes e ela chora. Compreende que não pode ficar ali por muito tempo. Desvia. Entra

no quarto. Você precisa dormir, minha filha.

O suor esfria todo o corpo. Olha ao redor e assustada percebe de fato ter dormido. Não

foi um sonho. A morte do pai no acidente, a doença da mãe, a sala percorrida e no quarto dela

o beijo de boa-noite. Está bem. Então descanse também, mamãezinha. Há tanto respeito e

admiração em sua voz que ninguém imaginaria uma dificuldade perene entre elas. Ninguém

notaria uma mudança quase de raça em Gisele com o passar dos anos.

Sem dar por si está de novo na sala junto ao aquário onde antes ficava a escrivaninha

do pai e aqui a poltrona em que a senhora Ewe costurava. Não pode ficar fugindo todo o

tempo do passado. Ou talvez possa caso venda o apartamento e compre outro. É isso. Amanhã

mesmo irá procurar o corretor. Há de fato alguma coisa que a incomoda nessas lembranças,

embora nada do que tenha realmente acontecido. Uma intuição. À mesa, Hadrien diz que há

verbos que admitem várias regências. Hoje eu sei, pensa Gisele. E como sei. Talvez um dia

venha a compreender. Gostaria de saber também onde está o irmão e reencontrá-lo. Olhar de

novo dentro dos seus olhos.

A senhora Ewe Drabska ainda dorme. Gisele lembra vagamente do que sonhou. Me

procuraram hoje cedo? —pergunta pelo interfone. O elevador passa pelo andar, levando seu

coração. O sino está tocando como se espalhasse um segredo guardado durante séculos,
durante vidas —de crianças inocentes que, forjadas pelas sombras, crescem e se transformam,

se tornam duras, obstinadas e acalentam o desejo de vingança onde antes havia apenas

tristeza conformada.
Por volta do meio-dia, com o cunhado adormecido no banco do carona, o senhor

Pierce abriu o porta-luvas e apanhou alguma coisa na mão direita. Chega a esbarrar e Pertiert

resmunga alguma coisa que o pai de Gisele não teria gostado nem um pouco de ouvir. Ele

pensa no quanto um homem precisa se adaptar à família da esposa e no que pode acontecer

caso não o faça e não lhe pareceu que isso fosse ou sequer aparentasse uma virtude. Um

baque seguido de pequenas batidas. Preciso consertar esse porta-luvas. Dirige com a

displicência de quem conhece bem a estrada e também por isso mal a olha, optando pela

contemplação do objeto entre os dedos. Um céu limpo de inverno. Grandes pastos passam ao

lado. No instante assim fugidio não parece caber a grandeza de uma tragédia.

Valeu a pena, é claro. Ele nem acreditou a princípio que Ewe pudesse mesmo gostar

dele. Mas é verdade, ela sente saudades, como disse na primeira vez que se separaram por

mais tempo. Como era linda. Não parece irmã desse traste. O tempo não retirou dela a beleza

nobre que Gisele herdou. Como a amava, o que será que ela tem, essas dores, esses

esquecimentos. Apenas senil ou será mais? Precisa faze-la aceitar se consultar com um

médico, ele até compreende a ojeriza que ela tem de médico, mas simplesmente precisa.

Pierce lembra com detalhes da primeira vez que ela usou esse broche. Essa voz maviosa vem

do corredor do prédio em que ela morava, quando saíram pela vez. Quando a beijou naquele

dia, a testa dela estava úmida.

Logo cedo tivera um dissabor na universidade e ao longo do dia as coisas apenas

contribuíram para piorar o seu humor, porém assim que ela abriu a porta soube que jamais na
vida seria de novo sozinho e para sempre teria com quem partilhar alegrias e tristezas. Entrou

mas não se demorou. Em seguida estavam se despedindo dos pais dela. Prometeu trazê-la

antes da meia-noite como convinha a uma moça de família e por muito pouco não quebra a

palavra porque quinze minutos antes disso estavam ainda se vestindo no hotel.

Gisele se parece muito com ela. Olhou no espelho como a perguntar se também com

ele se parecia. Como a amava! Não seria capaz de colocar esse sentimento em palavras. Flui

dentro dele como um rio. O sol ilumina mais que aquece e o cavalo está calmo agora embora já

não seja possível discerni-lo na paisagem que voa. O carro devora a estrada mas seu condutor

está realmente longe dali —como pode pensar esse tipo de coisas após a confissão da filha na

noite anterior? —e só retorna quando do estrondo. Pertiert acorda assustado em meio às

ferragens enfumaçadas.
Quando em seu caminhar as luzes encontram o espelho da parede, surgem a mesinha,

a xícara, o abajur e uma ponta do sofá. Há agora o barulho de um chuveiro e um choro

convulso. Os ladrilhos estão suando. Aconteceu de novo e dessa vez ultrapassou em violência

todas as vezes anteriores. Houve uma violência real, na verdade. As batidas na porta do

banheiro são da mãe, que não pode desconfiar, mas Gisele agora acha que não suportará o

silêncio e terminará por se lançar a seus braços.

Tem o rosto inclinado e as mãos sobre os olhos como a tentar impedir as imagens. Não

passou por ruas ermas em horário perigoso. Simplesmente cortou caminho por um beco de

poucos metros na hora do almoço. Ainda assim, talvez não tenha sido prudente. Uma colega

comentou alguma coisa sobre um homem chegando com atitude suspeita, mas Gisele não

costumava se deter na conversa das colegas. Agora, fragmentado e inútil, sobe da memória o

que ela então contava.

Sente a aproximação pelas costas e pelos lados. Acima, céus sombrios e prédio em

prédios recortado. Um frio cortante na garganta, uma voz trêmula. Passe o dinheiro e o

celular. Cores fortes se formam em sua face, mas não teme a faca ou a morte. Misericórdia não

espera nem quer. Hienas em torno de um cadáver. Os dedos machucam, as mãos sufocam.

Como resistir? Como vomitar? Como não envelhecer mais mil vidas em outros poucos

minutos? A lâmina teria sido menos dolorosa.

O tempo que passou não saberá. Caminha resfolegando. Precisa chegar em casa, é tudo

que precisa. Que caminho a deixou nessa relva não saberá. Se esses jardins um dia a excitaram
em deslumbramentos de infância, distorcidos, agora e em qualquer tempo futuro serão

sempre flores da ignomínia. Juventude sentenciada. Ruína. A porta que se abre a introduz num

outro mundo em meio aos móveis escolhidos para aconchego.

O quarto de Hadrien, seu melhor, único amigo, cresce em conformidade com o próprio

desespero. O que foi, Gisele? Um feixe luminoso descansava no tapete com motivos egípcios,

Nut sobressaindo no baixo-relevo. Meu Deus, o que houve, minha irmã? Olham-se e ressurgem

um para o outro em novos papéis. Como poderia ela imaginar? Não poderia. A mãe internada

há dois dias. Correntes estranhas e portas que seguidamente batem sem que haja vento.

Quase meia-noite de segunda-feira. Gisele faz grande esforço para levantar o fardo da

cama, pois era isso que seu corpo se havia tornado. Acabara de desabafar com o irmão e

convulsa adormeceu. Ele está ao lado e a contempla calado. Parece meditar sobre os horrores

que ela contou: assim ela o vê ao despertar. Mas aqui mudam algumas coisas. Hadrien a olha

de um jeito estranho, olhar típico de quem bebeu. O que vê? É esse o seu irmão? Ele diz algo.

Sim, é ele. Mudaram algumas coisas. O declínio da nobreza de um amor fraterno. Uma

realidade inesperada. O que você está fazendo, Hadrien? Ele apenas a velava.

Não assim.

Eu te amo, ele diz, como se fosse algo normal de se dizer.

Ela fecha de novo os olhos e afunda na espuma.
A cabeça do gatinho se vira pra lá e pra cá como se alguém passeasse pela sala, alguém

cujos passos uma pessoa não teria ouvido, e todavia aumentam mais e mais. Muito frio. Que

tipo de primavera é essa? As bolinhas de vidro pelo chão caem e correm pelas frestas do

assoalho, como quando Gisele brincava com ele. Ninguém irá arrolar um gato como

testemunha. Ali está ela, sua dona e amiga, debruçada na janela. Por que tão triste? E por que

solidão? ele não estava com ela, como sempre?

Não se trata de solidão. Só lembrou do poema que começa assim. Mas terá de habitar

noutra parte dali para frente. Nem mesmo o gato escuta o mar: até para uma audição

privilegiada como a dele, estava longe demais. Quando o cérebro deixa de funcionar, o que

exatamente deixa de existir? Não o significado do tempo e as relações entre as pessoas. O anjo

e a jumenta de Balaão. Saul angustiado faz com que Samuel se inquiete e apareça. O que

exatamente sou nesse sonho? O que sabia ainda sei, pensa ela, e nem todas as pessoas haviam

desaparecido, não ainda, não antes que se permitisse adormecer até o Juízo.

Que não seja um imenso obscuro caos. Que os assuntos pendentes se resolvam. Então

ela mergulhou na fulgência terrível que se abria. Sweet, o gato, tornou a olhar e ela não estava

mais ali. Um túnel. Um longo túnel e uma queda lenta. Ou é uma subida? O filme da vida de

Gisele não estava passando. Não consegue ver nada ou porque está muito escuro ou porque a

demasiada luz a tudo ofuscou? Esse olhar infantil não se impressiona com a própria
perplexidade. Vê que algo está soando, como um sino, no lugar que acabara de deixar. Não

precisará mais levantar da cama de manhã.

Está sonhando, dormindo ainda portanto? O relógio. O espelho. Quem é essa que saiu

para trabalhar? Sweet mia. Se espreguiça e desloca. A senhora Drabska entra e atende o

celular. Passa-lhe pela mente, com detalhes, toda a vida de sua filha.
Sentam-se no sofá da pequena sala. É um ambiente abafado, insalubre. Falam sem

parar. O mais velho pergunta ao menor se apanhou a encomenda conforme sua ordem. O

menor diz que sim, entre risos, contando que tivera de bater na mulher porque não queria

colaborar. O terceiro, um moreno, confirma a história enquanto acende o baseado. Diz que,

olha, acho que a gente deve agora se concentrar nas joalherias, mas aí, responde um quarto, o

gordinho, a possibilidade de tirar uma casquinha das funcionárias é quase nula. O mais velho

concorda mas considera que moças como aquela Gisele é como um bônus, para compensar o

lucro menor dos assaltos a transeuntes. “Aquela Gisela”? Como ele sabia o nome dela? O mais

velho meneia a cabeça. Gisele, idiota; Gisele, não Gisela. Como senão pelos documentos na

bolsa?

Não se passou muito tempo antes que o espelho do corredor começasse a refletir

aquilo. Aphonsus, mais velho e chefe da quadrilha, demorou para acusar o impacto da visão.

Lidava assim com tudo. Esperava até que pudesse ter reação adequada, que não

comprometesse sua fama. Mas quando Kitaro, o mais novo, perguntou baixinho quem era

aquela mulher, já não era possível fingir que não havia ali nada estranho. Começaram então a

falar uns com os outros. A princípio sobre a estranha na casa; depois sobre sua estranheza; e

finalmente sobre a semelhança com Gisela. Dessa vez Aphonsus não corrige o assecla.

Há meses Aphonsus deixou de ter os sintomas da abstinência, então é bom que os

outros também estejam vendo o rosto pálido de fulgurante beleza, as feições vívidas e livres,

leves como as de um algoz. Discernem um eternal brilho nos olhos vazios acima dos

vermelhíssimos e carnudos indecifráveis mundos que sorriam. Há um cheiro enjoativo na sala
qual incenso de flores apodrecidas. Todos podem sentir. Todos —malvados, estavam

preparados para a consciência do mal?

Que bom todos ali juntos na perversidade e no arrependimento. Não é uma benção

essa sensação? Ela quer que degustem isso até a última gota. Não irá privar-lhes de nenhum

desses prazeres do remorso. Ter-lhes-ia dito quando do assalto que no fundo eram bons

rapazes. Que os perdoava do pequeno deslize. Coisa da carne por que todos os homens uma

vez ou outra passam. Todos olham paralisados. Hipóteses as mais loucas se desenham. Em

Kitaro hipótese alguma. Apenas a contempla, como a uma flor. Como a uma deusa. Talvez

revele o verdadeiro motivo de estar ali. Quem sabe seja ele. Ele que demorou a participar; que

chegou a dizer que não deveriam.

O que essa visão enfim pretende, se uma visão possa algo pretender, está em que parte

do processo? em seu final ou no começo? passará ou se cristalizará pela eternidade? Firme e

lentamente, a brancura se move. Derrama-se e se transforma. Está nas paredes, nos móveis,

no céu acinzentado na fresta entre os prédios na janela. Está em tudo, é tudo, fora e dentro

deles —dentro principalmente — dor de um parto inimaginável: dor que tudo resume e nada

permite além dela mesma. Dentro de cada um, por quê? Por isso e por aquilo e também por

essa outra razão. Agora podem morrer em paz. A paz possível aos abomináveis, fornicadores e

idólatras.

Eduard pára ante a porta branca enquanto passam pensamentos desconexos. Se David

é mesmo o homem de sorte a quem inveja, está na hora de saber —se faz algum sentido invejar

alguém que esteve morto por tanto tempo mas enfim, contra toda expectativa, reviveu.
Todavia, Gisele está morta. A encantadora namorada não existe quando ele acorda. Sabe que

um ano foi o tempo durante o qual dormiu. Não tem mais vinte e cinco anos e fez aniversário

numa cama inclinada em que um depósito de urina está acoplado. Então, no espaço limpo das

reflexões, ao som do sino falso da capela, Eduard percebe seu engano.

Insistente sinal atmosfera o quarto quando entra. Desconhecidos descobrem

afinidades e se respeitam. É hora. De escutarem um ao outro. Então David fala com a espreita

da lágrima anexada ao sinal. As noites são longas. De recolher um fragmento de sonho que a

manhã dirá falso; de reviver a conquista que o despertar reverterá em fracasso. Eduard agora

pode entender. Como se conheceram? Foi num ônibus, diz David. Eu ia para o primeiro dia de

trabalho. Saltamos juntos. Ápice de sua vida.

Nunca soube de nada das coisas que ela passara?

David imagina o que se passa dentro da amada certas noites. Aquele suspiro junto à

cabeceira. A mão que subitamente o afastou. O braço se movimenta e toma de novo

consciência dos tubos e mangueiras ou seja lá o que seja ligando-o ainda à morte. Tosse.

Respira com dificuldade. O sinal leva tudo à tela que tudo devolve em gráficos móveis junto a

estatísticas azuis. Não há por que segurar essa lágrima, David.

Um instante volátil percebe quão enganoso é o coração, conhecimento trazido pela dor

e pela ausência diluído. Com isso, Eduard quer dizer o quanto está arrependido e o que

pudesse faria pelo novo amigo. Obrigado, diz David. Mas o que ele poderia? Talvez estivesse

viva se ele soubesse. Tomariam alguns cuidados.

Está certo de que foi isso? que foi assim?

Sim, David. Ah, permita-me que apresente a você o delegado Artur.

David leva o ar pelo dedo aprisionado e aspira uma nova esperança em meio à

repetição agora calmante do sinal. Seu coração está mais calmo ao que parece. Nesse outro ser
vê a jovem mulher pálida não mais como um fantasma. Quase palpável embora ainda

inexplicável. Gisele, violenta e súbita alegria próxima da loucura —e o que não seria loucura

num despertar após um ano do mais negro e absoluto silêncio?
Quando a luz aflita entrou pela janela e banhou o assoalho, ela estava deitada. Os olhos

abertos. Agora porém o espelho diante da cama já não guarda sua imagem. Levantara, abrira

as cortinas. O amanhecer envolve o quarto. Espáduas nuas, floridas, tocam o tecido. Visão

completa do jardim. Diga-me em que está pensando, dissera uma vez David. Pensa nele. Sua

esperança de que desperte algum dia, desgastada, está morrendo. O vidro devolve o olhar que

questiona os cruéis caprichos do destino.

Gelada na alma. Senta-se e na penteadeira passa a se maquiar. De que adianta chorar?

saberem que chorou? O rosto enquadrado chora ainda. As lágrimas se multiplicam quanto

mais são reprimidas. Está correndo agora pela rua vazia. Os olhos borrados. Relembra. Amor,

fica tranqüila. Você tem o direito de guardar o segredo que quiser. Intimidade permite vida

própria. Ela olhou David com ternura agradecida mas sabia que não poderia mais guardar

para si aquelas coisas. Isso foi no dia anterior ao acidente. Agora não tem mais com quem

falar. A manhã brilhante concede a seu corpo um frescor que ela não sente. Não quer mais

viver embora não seja capaz de tentar contra a vida. Continua correndo e o mar aparece

diáfano como se tivesse luz própria. Os pombos na areia ainda podem ser ouvidos. Chega a

pensar quem sabe as coisas se ajeitem. Parou defronte à praia. Um dia assim não pode

conviver com o mal, pensa. O céu e o mar garantem isso. Passa a recordar.

Ela tenta adivinhar as horas pela posição da lua. Os olhos de David, fundos, a

contemplam. O pior horário do trânsito já passou. Ela pede a ele que se sente. Pede que ele se

sente. O movimento das folhas das árvores à janela é suave, quase inexiste. Quadro magnífico,
ele pensa. Sombras no rosto e no vestido, luz que se derrama pelo quarto. Um leve tremor nas

mãos dele. Tremor que as frustradas tentativas anteriores só aumentaram. Subitamente ele

levanta e se aproxima.

Um dia tinha de acontecer. Foi como se algo se rompesse. Por uma desconhecida

natureza que nele dormia entre biliosa e irascível sem contudo ter nada de uma coisa ou de

outra (a virtude desconhece extremos), David abraçou-a de modo inequívoco. Sua ternura não

deveria ser confundida com pusilanimidade. Se ela quisesse, podia lhe contar o que se passava

nos momentos íntimos. Por que se tornava tão arredia no melhor momento. Como não

contava, deu-se o direito de se impor.

Nada falaram enquanto durou. Dedos tomam o partido de Gisele. Pétreo e passivo.

Uma réstia brilhante e ela soube que era outono porque embora fizesse frio sentia-se

aconchegada e havia muita umidade. Sinuoso silêncio. Então, se devia estar decepcionada com

David, que se impusera como todos, seu sorriso todavia denuncia que está feliz e que não, ele

não era como todos. Era único, murmurou ao pisar o mar. A ramaria próxima dança verde e

suavemente.
Uma sombra na parede. A luz amarela em torno se agitou como a aura de alguém à

beira de um ataque. Quando a esposa entrou, ele estava deitado mas agora, zurzido, parece

que vai se levantar. Quem sabe precise sofrer assim. Escuta a irmã em meio aos sons no

assoalho do apartamento acima, no teto. Sente-se desgraçado. Gisele! Acorda em desespero.

Sua mulher pergunta O que foi? Hadrien não consegue falar. Olham um ao outro enquanto a

sombra desliza para os lados da janela.

Os rins estão matando. Pontadas dolorosas. Por que tem medo? Precisa encontrar

explicações. Devia ter aceitado a sugestão e ido ao médico. Não continuar a comer morango.

Mas é tão gostoso. E crianças comem. A dor desce pelo corpo. Ela o está tocando. Está me

tocando e dizendo que me ama. Quer mais. Mas por Deus, Hadrien, do que você está falando?

Ela quem? Uma mulher tocando assim, como se fosse um homem? A esposa pensava que ele

tinha se curado. Qual o quê. De novo aqueles sonhos. Você está me assustando. Pare com isso.

E pensar que era o homem mais bonito que ela jamais vira. Hoje acabado. Ou algo pior.

Que música é essa? É dolorosa demais. Mundo de horrores em cada acorde. Eu sei que

não fui o que você esperava num tempo em que esperava tanto e tanto precisava. Tão

gostoso? Hadrien nada tem em comum com as crianças senão a maldade intrínseca. Sem vara

de correção. Poderá sobreviver a isso? Não quer, na verdade. Sua sentença. O caminho de seus

pecados. A perversidade é o castigo do perverso.

Sombras da noite sem pressa. Mulheres à janela do trem para o inferno. Trovões.

Uivos. Inconfundível palidez da raça degenerada. Esse rosto verdoengo tem a ver com
insônias, depressão ou outra mulher? Quando Hadrien chegou perto dela, tremia toda sobre

um majestoso calafrio e quase via o que, acorrentado pelo medo, ele via. Ele não tem medo de

morrer. Seria banal, um castigo desejado. Diante da esposa, vê a irmã. Quem dera

constatassem que foi mesmo outro sonho, outro pesadelo e apenas isso. Tudo bem. Sei da

minha maldade. Diga agora. O que posso fazer?

Deve haver alguma coisa, uma salvação, e ele a reconheceria de imediato. Seu coração

contrito suplica. Saber o sortilégio com que afastará as dores. Tomam um e outro lado e o alto

da cabeça. Ele a ama, Gisele. Jura que sim. Nas trevas que o envolveram e tudo ao redor. Mil

vezes repetirá que a ama. Não o fizesse sofrer assim. Não se nivele comigo. Você sempre foi

um anjo. Então pensou que deveria procurá-la e pedir-lhe perdão. Pessoalmente. Embora não

tenha certeza de ser capaz de olhar nos olhos da irmã outra vez.

Vanda percebe que ele está nu. Pensando bem, nem tão acabado assim. Passaram

momentos inesquecíveis. Então ela tem certeza de que ele precisa mesmo entrar em contato

com a irmã e acabar com isso. Acontece nas melhores famílias. Quem não tem um esqueleto

no armário? Amor, por favor, volte pra mim. Ele quer. Palavra de honra. Então pede que ela o

ajude. A quem está pedindo? Esse não é o olhar de Vanda. Você pode ler meus pensamentos.

Vanda meneia a cabeça e pensa que não, ele está louco. Nada mais há a fazer.
Um homem renascido. No rosto perplexo de infância a customização das últimas luzes

do dia. Ahn? Customização, repete ele para a enfermeira. A forma como algo passa a existir

segundo determinada forma de cada pessoa. Quando ela se afasta, pergunta a si mesmo se sua

idéia não é loucura e não, é antes a afirmação do bom-senso e da vida, conclui. Seus passos

soam no silêncio do hospital. O corredor vazio termina no balcão de atendimento. A mocinha,

com os olhos marejados, sorri para ele. Adeus, David, venha nos visitar de vez em quando.

Pensa que ele bem poderia pedir o endereço e ela passaria a criar essa expectativa, de que um

dia ele apareça lá em casa. Seu rosto pálido lembra o de Gisele, mas —imagina David —a partir

de hoje todos os rostos de mulher lembrarão o rosto dela.

O mundo... A neblina submerge as construções. O sol renovado dá às ruas

desconhecidas um quê alegre de descoberta. Antes que se permitisse habituar, estaria longe,

junto dela nesses lugares além. O coração bate pesado. Desculpe-me, senhor, diz ao esbarrar

no idoso. Me desculpe. Meio que rindo, diz para si que está distraído demais. Talvez isso não

seja bom. Meu Deus, me guia, preciso ir. Está bem, talvez não precise, talvez seja mesmo

loucura, mas vou enlouquecer se não tentar.

Quando ele se vira, pensando que caminho seguir, os raios de um sol inclinado criam o

efeito de um flash onisciente. As portas abertas de um galpão. Um suspiro. Um amigo. Boa

pessoa. Tem uma agência de viagem. Ainda que não entenda para que David quer saber aonde

o cunhado foi e uma passagem para esse lugar, há de lhe conceder esse favor. Todos estão
espantados e comovidos com o despertar de um coma longo assim, é inacreditável. Antes

conversam sobre os diversos negócios de Sebastian, é preciso hoje em dia, sabe-se lá quando a

moeda sobe ou desce e as viagens se tornam privilégio. Farei isso apenas por você mesmo,

lembre-se, porque definitivamente não acredito nessa tua loucura, meu amigo.

Discernindo a auréola de um outro rosto de Gisele na secretária do amigo, David

espera que não seja loucura. Quem pode afirmar que os mortos caminhem por aí? Ninguém

tampouco afirmaria que não. Ah Gisele. Se pode me ver e escutar, também pode me guiar. Não

foi quando acordou: agora sim está prestes a realmente renascer.

Um lugar inesperado, maravilhoso. Antes do sol surge a casinha envolta na névoa.

David sente na umidade do ar a inelutável verdade. E agora? Agora os vizinhos absortos em

suas lidas matinais, nas plantações e nas casas, subitamente arrastados pelo som do sino. Para

Hadrien, o som é uma outra concepção de sua irmã. Ela está aqui, pensa. Sei que está. Sim. Ela

está ali. David pode sentir.

O que significa? Deve se deixar entregue à sensação que transcende o corpo? Estará

preparado? O desejo mais terrível se realiza. Seja como for, é tarde para recuar. É tarde

também para Hadrien. Nem arrependimento é mais possível. Então os dois homens, num

mesmo instante, no interior da casa e no alto da encosta, sentiram a presença, a perfeição de

cada um.

Outra badalada. Hadrien abre a porta e sai na neblina. David, ereto e inspirando pelo

nariz. Vê de longe a figura de ombros largos a quem uma vez Gisele se referiu como único
amigo “antes de você”. Com essa mesma voz. Com essas mesmas feições agora etéreas. Como

conhaque que flamba a carne em uma frigideira. Lembrança cuja vida não passará. Como um

trem se aproxima do final do túnel. Ali está. Luz. Dia. O que se repetirá até o final dos tempos.

Certeza do que se não vê. Gisele? Hadrien está gritando. Gisele! Então David entende e

sussurra.

Gisele... Não...

Ao se aproximar ela aproxima mundos. Destruirá o equilíbrio que é o próprio tempo e

os espaços? Em algum lugar o futuro existe. Ele está em pé e respira fundo mas não é daí que a

vê. Em que difere esse arrabalde da realidade cujo formato se dissolve no desejo? Ainda uma

mulher? Ele o homem. Queixo firme, narinas pulsantes. Conhecimento da vida primária. Está

num sonho esse corpo que acaricia? Por que precisaria da morte ou da vida entre terras? Ela é

em demasia. É em demasia para conjecturar. Êxtase que dissolve a dor. E passa. E passa.

Voltando. Ele é o arrepio que o percorre. As veias que se dilatam. Um relâmpago corta o céu.

Peremptório ensinamento da intuição, o sol surge e atravessa a névoa. Chega ao rosto

e ao peito de David e a profundeza trêmula e quente de Gisele se alastra em seu peito. Hadrien

não sente mais, como se a vida tivesse se retirado, justamente por isso, porque a vida que

vivera nos últimos meses era morte, era Gisele, lembra-se de Vanda e volta para dentro de

casa. Abre a porta do quarto e mergulha na cama, aconchegando-se no regaço da mulher.
Treva primordial. Vazio desejável, silencioso, musical. Noturno e diurno.

Transformação de tudo. O nada. Exausto. Jamais tal solidão e todavia ela está ali. Na grama a

seus pés. No raio em seu peito. No silêncio de vibrações do sino que se calou. Todas as coisas

enfim se acalmaram após o êxtase. Ela está ali, ainda está ali, solícita. Ele ouve a história da

jovem morta que se recusava a partir. Lampejos do ano passado, do período em que dormia.

Ela promete partir mas habitará ali para sempre —não na morte, na solidão ou na vingança.

Habitarei para sempre, diz ela, em sua vida.

Não conseguia respirar. A morte e isso? Nada de túnel e luz. A blusa está pesada de

lama. Agora se lembra da noite anterior. David. Achou que algo aconteceria com ele. Que piada

o destino. Não consegue se mover. Os passos de pessoas na pista. Conversam sobre a chuva de

ontem. Parece que deu na previsão que hoje será ainda pior. Como alguém pode gostar de

verão? É um casal. O homem diz à mulher que podiam ter só invernos. Como? Ora, passando

seis meses aqui e seis mas Europa. Podem se dar a esse luxo agora. Bendita tecnologia.

Passaram. Ela não consegue se mover ou falar. A calça aberta, encharcada de sangue e lama.

Os patinhos. Não os verá mais. As estrelas. Orion... Parece que giram... Parece que desceram

ou ter A sido ela que subiu.
Agora entende. Silêncios que na madrugada fazem o papel de um relógio. Ali está

estava, absorta, junto à mãe sozinha e preocupada. Não a pode consolar? Pode tudo nessa

repentina dimensão. Como esse infame tem coragem de ligar e sugerir que ela aquiesceu?

deixar a senhora Drabska ainda mais atormentada? Se pode se ver refletida nos olhos de

David agora depois de tanto tempo, se nesse olhar sua eternidade se manifesta enfim, não há

lugar para a mágoa que deteriora a fonte cristalina.

David, tão próximo e tão distante. Que respiração irregular, pobre querido. Procura

um lugar para deslocar dali o terror. O medo é por causa dela, não por si mesmo. Acreditou-os

integrados pela morte mas o leito desse rio serve apenas àqueles a quem é inexorável.

Afluentes incertos ali não desembocam. Não saberão do hades. Caos medonho imerso em

construções assombradas. Não quer mais isso. Se tem de habitar aqui por todo o sempre, que

seja descanso. Visão com o fim único de apaziguar, depois o sono. Depois a paz. Faculdades

aperfeiçoadas pela redenção. Um canto agora. Você. O vínculo que me liga à terra.

Termina assim. Numa galeria na cidadezinha próxima do campo onde Hadrien vivia. O

rosto translúcido, o olhar transcendente. Nalguma loja próxima da barbearia. Burburinhos

sempre encheram David de inquietude. O pequeno anel na correntinha. Passando pela trilha

do parque escuta os pássaros e o mar. O caminho. Em certo momento uma curva aguda

seguida de íngreme subida. É plano agora. Infinitamente sereno. O homem que vem em

sentido contrário, curioso ou compassivo, recebe dela a certeza de que está tudo bem, não se

preocupe, obrigado. Tem certeza? É que o homem também sabia tudo sobre aparências. Ela

confirmou. Tudo bem. E seguiu. Debruçada vê a senhora Drabska atender o celular. Pobre

mãe. Mas acredite, ela está bem, diz David na cabine telefônica. Desejaria decerto que a
senhora também estivesse. Algumas pessoas, quanto pior o mundo que as rodeia, melhores se

tornam. Ainda mais, murmura a senhora Drabska ao desligar o telefone, depois de

experimentar um renascimento como esse rapaz. Ainda mais quando, morto, torna a viver. Ela

imagina que esse é o segredo de David. E o convida. Se meu filho não vai mesmo voltar. Seria

maravilhoso, uma honra. Decerto uma forma de se confortarem da perda de Gisele.

Combinado, diz ele. Repete mais alto, pois a mulher está perdendo a audição.

O avião está descendo. David fecha o livro e olha pela janela. O alto da cabeça dele.

Respira fundo. Há um casaco marrom na guarda da cadeira ao lado da cama. Não se lembra

desse casaco e todavia estremece à lembrança. Mais além, do outro lado do quarto, após

ricochetearem no teto, estendem-se sombras velozes sobre os móveis. Ele praticamente as vê

nas páginas do livro cuja leitura abandonou. Senhores passageiros. O trem de aterrissagem

toca a pista. Resvala, desliza agora. David reconhecerá cheiros de mar, o rosto amado no

espelho e objetos pessoais. Alguns que Gisele guardara no dia anterior à sua morte. O gatinho

se encosta em todos, ronronando.

Irei pelo aterro. Carros velozes irrelevantes ante as sombras e reflexos. Por contraste

será feliz. Verei o sol sobre as águas da baía. Mede o futuro em eternidades. Distingue à

margem da pista o ritmo do outono e as avencas no parapeito. Será o bastante, essa memória.

Amanhã visitará o prédio do antigo trabalho. Se der tempo na noite de quarta o senhor Abdul.

Talvez no final de semana reencontre Eduard. Este mundo.

Aproxima-se da escada do avião. Sorri para a aeromoça. De noite sonhará com esse

momento na cama de Gisele. A escada, o sonho. Olá, senhora, como vai? Olá, meu filho. Entre.

A casa é sua.
O corpo na cama deitou ao quarto a paz do alivio de uma dor intensa. O sorriso é de

novo o Deus de sua infantil consagração.

FIM

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