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I N T R O D U Ç Ã O À PS I C O L O G I A – T E X T O 8

CONSCIÊNCIA
( a p a r t i r d e r e l a t o s d e o u t r o s a u t o r e s e E . A s e r i n s k y) , c f . t e x t o d e
Hock, R.R.)

O estudo da consciência, geralmente referida como "estados de


consciência", é de grande interesse para os psicólogos, porque ela
se relaciona com a qualidade de sua interação psicológica com o
seu ambiente. Pense por um momento sobre como seus estados de
consciência mudam à medida que você focaliza seu dia, a sua noite,
a sua semana, o seu ano, e a sua vida. Você se concentra, divaga,
dorme, sonha, pode ter sido hipnotizado em alguma ocasião, pode
ter usado drogas psicoativas (mesmo cafeina e nicotina contam!).
Estas condições são todas estados de alterados consciência, que
produzem várias mudanças em seu comportamento.
Na área de pesquisa sobre a consciência, alguns dos estudos
mais inflluentes e interessantes abordaram o sono, os sonhos e a
hipnose. Afinal, dormir e sonhar são coisas que todos nós fazemos,
e praticamente qualquer pessoa é fascinada pela hipnose, por uma
razão ou por outra. Assim, o primeiro estudo incluído nesta seção
contém dois artigos que mudaram a Psicologia, porque eles 1)
descobriram o sono REM, e 2) revelaram a relação entre o sono
REM e o sonho. A segunda discussão focaliza um estudo realizado
por um dos líderes na pesquisa com sonho, que sugere que podemos
ser capazes de controlar o conteúdo de nossos sonhos. O terceiro é
um estudo que vem adquirindo cada vez maior influência, e que vê
o processo de sonhar como uma ocorrência puramente fisiológica e
aleatória. E o quarto discute uma série de estudos recentes que
argumentam contra a crença amplamente divulgada de que a
hipnose é um estado único e poderoso. Este último estudo fornece
evidências que demonstram que pessoas hipnotizadas não são
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diferentes de pessoas acordadas: apenas estão um pouco mais


motivadas.

DORMIR, SEM DÚVIDA SONHAR....

A s e r i n s k y, E . , & K l e i t m a n , N . ( 1 9 5 3 ) . R e g u l a r l y o c c u r r i n g p e r i o d s
o f e ye m o b i l i t y a n d c o n c o m i t a n t p h e n o m e n a d u r i n g s l e e p .
Science, 118, 273-274.
Dement, W. (1960). The effect of dream deprivation. Science, 131,
1705-1707.

Como você pode ver, este capítulo é diferente dos outros, no


sentido de que discute dois artigos. Is t o s e d e v e a o f a t o d e q u e o
primeiro estudo descobriu um fenômeno básico sobre o sono e o
sonho, o que tornou possível o segundo estudo. O foco principal
deste capítulo é o trabalho de William Dement sobre privação de
sonho, mas para preparar você, as descobertas de Aserinsky devem
ser abordadas primeiro.
Em 1952 Eugene A s e r i n s k y, então um aluno de pós-
graduação, estava estudando o sono. Parte de sua pesquisa envolvia
observar crianças dormindo. Ele notou que, à medida que as
crianças dormiam, havia ocorrências periódicas de movimentos
ativos dos olhos. Durante o resto da noite, havia apenas
movimentos ocasionais de virar lentamente os olhos. Ele teorizou
que estes períodos de movimento ativo dos olhos poderiam estar
associados com o sonho. As crianças, porém, não eram capazes de
dizer a ele se tinham sonhado ou não. Assim, para testar essa idéia,
ele expandiu sua pesquisa, incluindo adultos no estudo.
Aserinsky e seu co-autor, Nathaniel Kleitman, empregaram
20 adultos normais como sujeitos. Equipamentos de medida com
sensores eletrônicos foram conectados por eletrodos aos músculos
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ao redor dos olhos desses sujeitos. Os terminais dos eletrodos se


estendiam até uma sala próxima de onde estavam os sujeitos, onde
seu sono podia ser monitorado. Os sujeitos eram então deixados
sozinhos para dormir (cada sujeito participou mais do que uma
noite). Durante a noite, eles eram acordados e "interrogados", tanto
durante os períodos de movimento ativo do olhos, como quando
pouco ou nenhum movimento era observado. A idéia era acordar os
sujeitos e perguntar-lhes se haviam estado sonhando e se eles
podiam lembrar o conteúdo do sonho. Os resultados foram bastante
reveladores.
Para todos os sujeitos, tomados em conjunto, houve um total
de 27 episódios de acordar durante períodos de sono acompanhados
por movimentos rápidos dos olhos. Desses, 20 relataram sonhos
visuais detalhados. Os outros sete relataram "a sensação de ter
sonhado", mas não podiam lembrar do conteúdo em detalhes.
Durante períodos sem movimentos dos olhos, houve 23 episódios de
interrupção do sono, sendo que em 19 dos quais os sujeitos não
relataram qualquer sonho e quatro sentiam vagamente que podiam
ter sonhado, mas não eram capazes de descrever os sonhos. Em
algumas ocasiões os sujeitos foram deixados dormindo a noite toda,
sem interrupcção. Verificou-se que eles experienciaram entre três e
quatro períodos de atividade ocular durante uma média de sete
horas de sono.
Embora não tivesse parecido tão surpreendente na época,
Aserinsky havia descoberto o que agora é muito familiar para a
maioria de nós: o sono REM (movimento rápido dos olhos, em
inglês rapid eye movement), ou o sono dos sonhos. Sua descoberta
deu origem a uma enorme quantidade de pesquisas sobre o sono e o
sonho , que continuam a se expandir até hoje. Ao longo dos anos, à
medida que os métodos de pesquisa e os equipamentos de registro
fisiológico se tornaram mais sofisticados, temos sido capazes de
refinar as descobertas de Aserinsky e de desvendar muitos dos
mistérios do sono.
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Sabemos, por exemplo, que depois que você dorme, seu sono
transcorre em quatro estágios, começando com o sono mais leve
(Estágio 1) e progredindo de maneira previsível para estágios mais
e mais profundos. Então, depois de atingir o estágio mais profundo
(Estágio 4), você começa a fazer o caminho inverso, ao longo dos
quatro estágios; seu sono se torna mais e mais leve. À medida que
você se aproxima novamente do Estágio 1, você entra em um tipo de
sono muito diferente chamado sono REM. É durante o sono REM
que você sonha a maioria de seus sonhos. Entretanto,
contrariamente à crença popular, tem sido cientificamente
demonstrado que você não se movimenta muito durante o sono
REM. Seu corpo é imobilizado por mensagens eletroquímicas de
seu cérebro, que efetivamente paralisam seus músculos. Este é um
mecanismo de sobrevivência que impede que você execute as ações
dos seus sonhos, correndo o risco de se machucar ou de fazer coisas
piores!
Depois de um curto período em sono REM, você prossegue
novamente através dos quatro estágios de sono chamados "NÃO -
REM" ou sono sem movimentos rápidos dos olhos (NREM, para
encurtar). Durante a noite você oscila entre REM e NREM por volta
de cinco ou seis vezes (seu primeiro período de REM começa
aproximadamente 90 minutos depois que você adormece), com
NREM se tornando mais curto e REM se tornando mais longo
(fazendo assim, com que você sonhe mais ao amanhecer). E, é bom
saber, todo mundo sonha. Embora haja uma pequena porcentagem
de indivíduos que nunca se lembram de seus sonhos, a pesquisa tem
determinado que todos nós sonhamos.
Todo esse conhecimento derivou da descoberta do REM por
A s e r i n s k y, n o i n í c i o d o s a n o s 5 0 . E um dos pesquisadores de
renome que seguiu Aserinsky e nos forneceu uma riqueza de
informações sobre o dormir e o sonhar é William Dement. Na
é p o c a d a d e s c o b e r t a d e A s e r i n s k y, D e m e n t e s t a v a i n t e r e s s a d o e m
estudar a função básica e o significado do sonhar.
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PR O PO S I Ç Õ E S T E Ó R I C A S

O que impressionou Dement, como mais significativo, foi a


descoberta de que o sonho ocorre toda noite, com todas as pessoas.
Como Dement afirma em seu artigo, "Uma vez que parece não haver
exceção para a ocorrência noturna de uma quantidade substancial de
sonhos em cada pessoa que dorme, pode-se perguntar se essa
quantidade de sonhos é ou não, de algum modo, uma parte vital e
necessária de nossa existência" (p.1705). Is t o o l e v o u a f o r m u l a r
algumas questões óbvias: "Seria possível para seres humanos
continuarem a funcionar normalmente se sua vida de sonhos fosse
completa ou parcialmente suprimida? O sonho deveria ser
considerado necessário em um sentido psicológico, em um sentido
fisiológico ou em ambos?" (p.1705).
Dement decidiu tentar responder a estas questões estudando
sujeitos que tinham, de algum modo, sido privados da oportunidade
de sonhar. No início ele tentou empregar drogas depressoras para
impedir o sonho, mas as drogas produziam efeitos muito grandes
sobre os padrões de sono dos sujeitos, o que não permitia
resultados válidos. Então ele decidiu pelo método "um tanto
drástico" de acordar os sujeitos cada vez que eles entravam no sono
REM durante a noite.

MÉTODO

Este artigo foi um relato sobre os oito primeiros sujeitos de um


projeto de pesquisa sobre sono e sonho. Os sujeitos eram todos
homens, com idade variando entre 23 e 32 anos. Cada participante
chegava ao laboratório por volta de seu horário habitual de dormir.
Pequenos eletrodos eram afixados ao seu couro cabeludo e perto de
seus olhos, para registrar os padrões de ondas cerebrais e os
movimentos dos olhos. C o m o n o e s t u d o a n t e r i o r d e A s e r i n s k y, o s
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fios aos quais os eletrodos estavam presos passavam para um sala


adjacente, de modo que o sujeito pudesse dormir em paz, em uma
sala quieta e escura.
O procedimento para o estudo foi o seguinte. Durante várias
n o i t e s , o s s u j e i t o s p o d i a m d o r m i r n o r m a l m e n t e a n o i t e i n t e i r a . Is t o
foi feito para estabelecer uma linha de base para a quantidade
habitual de sonhos para cada sujeito e para seu padrão geral de
sono.
Uma vez que esta informação tivesse sido obtida, o próximo
passo consitia em privar o sujeito do sono REM ou sono do sonho.
Ao longo de várias noites consecutivas (o número de noites de
privação variou de três a sete para os vários sujeitos), o
experimentador acordava o sujeito toda vez que a informação dos
eletrodos indicasse que ele tinha começado a sonhar. O sujeito era
solicitado a se sentar na cama e demonstrar que estava
completamente acordado, por vários minutos, antes que pudesse
voltar a dormir.
Um ponto importante mencionado por Dement é que ele
solicitou aos sujeitos que não dormissem em qualquer outra hora,
durante o estudo do sonho. Is t o f o i f e i t o p o r q u e s e o s s u j e i t o s
dormissem ou cochilassem, eles poderiam sonhar e isto
contaminaria os resultados do estudo.
Depois das noites de privação os sujeitos entraram na "fase
de recuperação" do experimento. Durante estas noites (que
variaram de uma a seis) os sujeitos dormiam a noite toda, sem
serem perturbados. Seus períodos de sonho continuaram a ser
monitorados eletronicamente, e a quantidade de sonhos foi
registrada, da mesma maneira que nas fases precedentes.
A seguir, os sujeitos tiveram várias noites livres (o que lhes
agradou muito, sem dúvida!). Então, seis deles retornaram ao
laboratório para outra série de noites com interrupções do sono.
Estas interrupções "duplicaram exatamente as noites de privação de
sonho em número de noites e no número de interrupções por noite.
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A única diferença era que o sujeito era acordado nos intervalos


entre os períodos de movimento dos olhos (sonho). Sempre que um
período de sonho começava, o sujeito podia continuar a dormir sem
interrupção, e era acordado somente depois que o sonho tivesse
terminado espontaneamente" (p.1706). Por fim, os sujeitos tiveram
novamente o mesmo número de noites de recuperação que tiveram
depois da fase de privação de sonho. Esta fase foi denominada
"recuperação controle", e foi incluída para eliminar a possibilidade
de que quaisquer efeitos da privação de sonho não fossem devidos
simplesmente ao acordar muitas vezes durante a noite, quer o
sujeito estivesse sonhando ou não.
Um aspecto que deve ser salientado, é que essas descobertas
foram publicadas enquanto o estudo ainda se encontrava em seus
estágios iniciais. A razão para esta publicação prematura foram os
resultados claramente significativos e surpreendentes que estavam
sendo obtidos e que levaram à consideração de que a comunidade
científica deveria ser imediatamente notificada.

RESULTADOS

Durante as noites de linha de base, quando os sujeitos


podiam dormir sem interrupção, a quantidade média de sono por
noite era de 6 horas e 50 minutos. A quantidade média de tempo
que os sujeitos consumiram sonhando foi de 80 minutos, ou 19,5
por cento, como refletido na Tabela 1(coluna 1). Dement
descobriu, nestes resultados das noites iniciais, que a quantidade de
tempo gasto sonhando era surpreendemente semelhante de sujeito
para sujeito. De fato, a quantidade de variação entre os sonhadores
foi de apenas mais ou menos 7 minutos!
Mas a questão crucial desse estudo era examinar os efeitos de
ser privado de sonhar ou ser privado do sono REM. A primeira
descoberta sobre esta questão foi o número de interrupções
necessárias para impedir o sono REM durante as noites de privação
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do sonho. Como você pode ver na Tabela 1 (coluna 3a), na


primeira noite o experimentador teve que acordar os sujeitos entre
sete e 22 vezes, para bloquear o sono REM. Porém, à medida que o
estudo prosseguia, os sujeitos tinham que ser acordados mais e mais
frequentemente, para que fossem impedidos de sonhar. Na última
noite de privação o número de despertamentos forçados variou entre
13 e 30 (coluna 3b). Na média, houve duas vezes mais tentativas de
sonhar ao final das noites de privação.
O resultado seguinte, e talvez o mais revelador, foi o
aumento no tempo de sonho depois que os sujeitos foram impedidos
de sonhar por várias noites. Os números na coluna 4 da Tabela 1
refletem a primeira noite de recuperação. O tempo médio total de
sonho nesta noite foi 112 minutos, ou 26,6 por cento (comparado
com os 80 minutos e 19,5 por cento durante as noites de linha de
base, na coluna 1). Dement assinalou que dois sujeitos não
mostraram aumento significativo no sono REM (Sujeitos 3 e 7). Se
eles forem excluídos dos cálculos, o tempo médio total de sonho é
1 2 7 m i n u t o s , o u 2 9 p o r c e n t o . Is t o s i g n i f i c a u m a u m e n t o d e 5 0 p o r
cento em relação à média para as noites de linha de base.
Foi observad, ainda, que a maioria dos sujeitos continuou a
mostrar um elevado tempo de sonho (comparado com a quantidade
da linha de base) por cinco noites consecutivas.
"Espere um momento!", você está pensando. Pode ser que
este aumento no sonhar nada tenha a ver com a privação do sono
REM. Pode ser que isto tenha ocorrido apenas porque os sujeitos
foram acordados tão frequentemente. Bem, você se lembra que
Dement se preparou para sua observação astuta. Seis dos sujeitos
voltaram depois de vários dias de descanso e repetiram exatamente
o procedimento, exceto que agora eles eram acordados entre os
períodos de REM (o mesmo número de vezes). Este procedimento
não produziu aumento significativo na quantidade de sonho. O
tempo médio gasto sonhando depois das interrupções controle foi de
88 minutos, ou 20,1 por cento do total de tempo adormecido
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(coluna 5). Quando comparado aos 80 minutos, ou 19,5 por cento


na coluna 1, não se encontra diferença significativa.

DISCUSSÃO

Dement concluiu provisoriamente, a partir dessas descobertas,


que nós precisamos sonhar. Quando não podemos sonhar, parece
que há um certo tipo de pressão para sonhar, que aumenta ao longo
d e s u c e s s i v a s n o i t e s d e p r i v a ç ã o . Is t o f i c o u e v i d e n t e n o s d a d o s q u e
mostram o aumento no número de tentativas de sonhar depois da
privação (coluna 3a vs.coluna 3b) e no aumento significativo no
tempo de sonho (coluna 4 vs.coluna 1). Ele notou também que este
aumento continua ao longo de várias noites, de modo que parece
recuperar, em quantidade, o montante de sonho perdido. Embora
Dement não tenha empregado a frase na época, este importante
resultado passou a ser conhecido como o "efeito bumerangue do
REM".
Vários pontos e descobertas interessantes ainda foram
incluídos neste breve e surpreendente artigo. Se você voltar à
tabela por um momento, verá que dois sujeitos , como mencionado
antes, não mostraram aumento significativo no REM (Sujeitos 3 e
7). É sempre importante, em pesquisa que envolve um número
relativamente pequeno de sujeitos, tentar explicar estas exceções.
Dement verificou que o pequeno aumento para o Sujeito 7 não era
difícil de explicar. "Sua falha em mostrar um aumento na primeira
noite de recuperação se deveu, muito provavelmente, ao fato de que
ele tinha ingerido vários drinques em uma festa, antes de vir para o
laboratório, de modo que o aumento esperado no tempo de sonho foi
diminuído pelo efeito depressor do álcool" (p.1706).
O Sujeito 3, no entanto, foi mais difícil de reconciliar.
Embora ele tenha mostrado o maior aumento no número de
interrupções durante a privação (de sete para 30), ele não mostrou
qualquer efeito bumerangue em nenhuma das cinco noites de
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recuperação. Dement reconheceu que este sujeito representava uma


exceção em suas descobertas e teorizou que talvez ele tivesse um
padrão de sono incomumente estável, que era resistente a mudança.
Finalmente, os oito sujeitos foram monitorados quanto a
quaisquer mudanças comportamentais que pudessem experienciar
devido à perda do sono REM. Todos os sujeitos desenvolveram
pequenos sintomas de ansiedade, irritabilidade ou dificuldade de
concentração durante o período de interrupção do REM. Um sujeito
(número 8) desistiu de participar depois de apenas três noites de
privação "com uma enxurrada de desculpas constrangidas",
obviamente porque estava sentindo uma ansiedade excessiva. Dois
outros sujeitos (6 e 7) insistiram em parar depois de quatro noites
de privação, por causa da ansiedade, mas continuaram com a fase de
recuperação do experimento. Cinco dos sujeitos relataram um claro
aumento no apetite durante a privação, e três deles ganharam de 1,8
a 3,0 quilos. Nenhum desses sintomas comportamentais apareceu
durante o período de interrupções controle.

S I G N I FI C A D O D A S D E S C O B E R T A S
E PE S Q U I S A S U B S E Q U E N T E

Agora, mais de 30 anos depois desta pesquisa preliminar de


Dement, sabemos bastante sobre o dormir e o sonhar. Parte desse
conhecimento foi brevemente discutido no início desse capítulo.
Sabemos que a maior parte do que Dement relatou em seu artigo de
1960 tem resistido ao teste do tempo. Todos sonhamos e se, de
alguma forma, somos impedidos de sonhar uma noite, sonhamos
mais na noite seguinte. Parece haver, mesmo, alguma coisa básica
em nossa necessidade de sonhar. De fato, o efeito "bumerangue"
do REM pode ser visto em muitos animais.
Uma das descobertas acidentais de Dement, que ele relatou
apenas como um episódio secundário, agora tem grande
importância. Uma maneira pela qual as pessoas podem ser privadas
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do sono REM, é por meio do uso de álcool ou de outras drogas,


como as anfetaminas e os barbitúricos. Embora essas drogas
aumentem nossa tendência a dormir, elas suprimem o sono REM e
nos fazem permanecer nos estágios mais profundos do sono NREM
durante a maior parte da noite. É por esta razão que muitas
pessoas são incapazes de quebrar o hábito de tomar soníferos ou
álcool para dormir. Assim que param, o efeito bumerangue do REM
é tão intenso e perturbador, que elas ficam com medo de dormir e
retornam ao uso da droga para evitar o sonho. Um exemplo ainda
mais extremo desse problema é o que ocorre com alcoólatras que
podem ter sido privados do sono REM por muitos anos. Quando
param de beber, os primeiros efeitos acumulados do REM podem ser
tão fortes, que ocorrem mesmo quando eles estão acordados. Esta
pode ser uma explicação para o fenômeno conhecido como delirium
tremens, ou "D.T.", que geralmente envolve alucinações terríveis e
amedrontadoras (Greenberg & Perlman, 1967).
Dement deu continuidade aos seus achados preliminares,
interessado nos efeitos comportamentais da privação de sono. Em
seu último trabalho ele privou sujeitos do sono REM por períodos
de tempo muito mais longos e não encontrou qualquer evidência de
mudanças prejudiciais. Ele concluiu que "Uma década de pesquisa
falhou em provar que efeitos danosos substanciais resultem mesmo
de prolongada privação seletiva do REM" (Dement, 1974).
Finalmente, a pesquisa que teve origem no trabalho inicial
de Dement, relatado aqui, sugere que há uma maior síntese de
proteínas no cérebro durante o sono REM do que durante o sono
NREM. Acredita-se que essas mudanças químicas podem
representar o processo de integração de informação nova nas
estruturas de memória do cérebro e podem mesmo ser a base
orgânica para novos desenvolvimentos na personalidade (Rossi,
1973).

A PL I C A Ç Õ E S R E C E N T E S
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Em geral, é aceito que Aserinsky descobriu o sono REM.


Consequentemente, a maior parte da pesquisa a respeito de dormir,
sonhar ou de desordens do sono se deve a esta questão básica
descoberta por ele. Exemplos da variedade de estudos recentes que
citam o artigo de Aserinsky incluem uma comparação inter-cultural
do dormir (Balodhi, 1993), e uma investigação sobre hipnose com
trabalhadores diurnos e trabalhadores noturnos (Wallace, 1993).
O trabalho de Dement, é claro, também tem sido
extremamente influente em uma ampla gama de áreas de estudo
relacionadas aos padrões de sono. Pode-se ver isso em artigos
relativamente recentes sobre privação de sono e padrões de EEG
( B r u n n e r , D i j k , & B o r b e r l y, 1 9 9 3 ) , e s o b r e d e s o r d e n s e s p e c í f i c a s d o
sono, tais como insônia, hipersonia e estados dissociados
(Culebras, 1992).
Referências

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B r u n n e r , D . , D i j k , D . , & B o r b e r l y, A . ( 1 9 9 2 ) R e p e a t e d p a r t i a l s l e e p
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Culebras, A. (1992) Update on disorders of sleep and the sleep-wake cycle.


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Dement, W.C. (1974). Some must watch while some must sleep. San
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Greenberg, R., & Perlman, C. (1967). Delirium tremens and


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13

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