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Título:

AS CONSEQUÊNCIAS ECONÔMICAS DA INSENSATEZ

Objetivo do trabalho:

Elucidar a Diretoria acerca dos efeitos da Resolução n.º 1401 do CFM, sob o
prisma da Teoria Econômica.

Circulação:

- Dr. Fernando Humberto Pólo

- Dr. Marcelo Noce Rocha

Obs.: Poderá ser distribuído a Diretores e Gerentes, caso haja recomendação


para tal, por parte da Diretoria.

Gerência de Controladoria
Unidade de Controles Financeiros
Equipe de Custos e Orçamentos

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AS CONSEQUÊNCIAS ECONÔMICAS DA INSENSATEZ

Resolução recente do Conselho Federal de Sem contar as regulamentações excessivas e


Medicina (n.o 1401), sob pretexto de inúteis, ou a fixação de alíquotas abusivas de
"disciplinar o mercado de serviços de saúde", impostos sobre produtos, poderíamos nos
tenta obrigar as empresas do setor a cobrir referir aos congelamentos de preços de 1986
todo tipo de patologia (o que inclui moléstias (Plano Cruzado), 1987 (Plano Brésser) e 1990
infecto-contagiosas como a AIDS, doenças (Plano Collor) como capazes de evidenciar
congênitas e crônicas). A mesma resolução com clareza o que acontece quando os agentes
pretende permitir ao usuário livre escolha de econômicos são forçados a atuar fora dos
médico e de hospital, e extinguir os prazos de limites de lucratividade tidos como aceitáveis.
carência dos planos de saúde. Não tem efeito Via de regra param de operar ou passam a
de lei, mas pode servir de subsídio em trabalhar na clandestinidade. Se vislumbrarem
decisões judiciais contribuindo para dar alteração (dentro de prazo razoável) das
ganho de causa a clientes que se julguem condições do ambiente em que operam,
prejudicados por limitações contratuais. aguardarão até lá. Do contrário, fecharão as
Constitui forma extraordinária de intervenção portas definitivamente. Tanto num caso como
no mercado, o que torna oportuna uma no outro, a economia se ressentirá da redução
reflexão sobre as implicações econômicas de da oferta desses bens e serviços. Ao impedir
medidas dessa natureza, no que diz respeito à um agente eficiente de competir com outro
estrutura e ao funcionamento dos mercados. menos eficiente, o sistema como um todo
acaba incorrendo em perdas que não devem
Nunca foram estranhas aos brasileiros
ser desconsideradas.
manobras de intervenção do Estado na
economia. (Dessa vez, no entanto, o Brasil O cálculo econômico racional é o principal
inova: não é o Estado que interfere, mas sim fundamento da economia de mercado, ao
uma entidade de classe. Vamos supor, para permitir que os agentes econômicos
fins de análise, que a disposição fosse direcionem seus esforços na busca de
sancionada pelo Estado e avaliar suas eficiência. Ter capacidade e liberdade para
implicações). Os expedientes de intervenção, efetuar esse cálculo e, em função dele, decidir
por vezes explícitos e por outras camuflados, o que produzir e o que vender foi determinante
por vezes sutis e por vezes violentos, na evolução dos mercados e é o que estabelece
costumam trazer consequências cuja natureza as condições hoje para que se desenvolvam.
é invariavelmente a mesma: produzem Supõe-se que o empresário só permanecerá no
distorções alocativas (isto é, de Economia mercado se julgar que possui meios para
canalizar recursos produtivos) e perdas para o atender os desejos do consumidor com
sistema como um todo, sempre superiores às equilíbrio econômico (isto é, cobrando preços
vantagens que eventualmente possam oferecer que não estejam abaixo dos custos praticados).
a grupos específicos.

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A liberdade econômica não é um luxo, e sim clientes que apóiam a determinação do CFM,
uma condição necessária para que os se Estão dispostos a passar a pagar mais
mercados funcionem com eficiência. O bom (estima-se em pelo menos 50%), pelos serviços
funcionamento dos mercados pressupõe que passariam a receber. É ilusória a idéia de
justamente inexistência de coerção ou que pelo mesmo custo (isto é, pagando o
compulsão. O papel do Estado em relação ao mesmo preço) o consumidor possa
processo reside em criar e manter ambiente de repentinamente ver aumentadas de forma
segurança no qual a economia de mercado expressiva as vantagens oferecidas por
tenha como funcionar. determinado produto. Isso só é possível em
segmentos monopolizados da economia, nos
Nas sociedades modernas, costuma-se dizer
quais o consumidor já esteja pagando um
que o consumidor é soberano. Isso significa
sobrepreço pelos produtos e serviços.
liberdade de escolha entre produtos (porque
alguns se adequam, e outros não, às Por outro lado, não é regra dos mercados em
necessidades de cada indivíduo) e existência funcionamento que um consumidor pague em
de produtos diferenciados. Imagine uma troca de bens que só interessam a outro. Ao
economia em que as montadoras tivessem de exigir a adição de vantagens no serviço, e
produzir todos os automóveis com uma única padronização desse mesmo serviço, a
cor, ou na qual as padarias fossem obrigadas a autoridade está obrigando certos
fazer somente pão dietético; embora possa consumidores a subsidiar aqueles outros que
haver algum mérito nas intenções, tais efetivamente se aproveitam daquelas
situações são absurdas. Cabe ao poder público vantagens. Isso é particularmente visível nos
e às autoridades constituídas zelar para que os casos em que despesas são compartilhadas,
consumidores sejam devidamente informados como ocorre nos condomínios ou
e esclarecidos sobre os produtos que estão a indiretamente na prestação de serviços
comprar. Restringir essa liberdade, dando médicos ou de seguros.
determinada conformação compulsória ao
É pueril o argumento de que seres humanos
bem ou serviço fornecido, é ir contra a
não são como automóveis, os quais se pode
economia de mercado. Nos mercados em
segurar somente contra alguns riscos
funcionamento, o que compele empresas a se
específicos. O objeto da discussão é a venda de
esforçar para os clientes não é a coerção por
serviços; estes devem ter abrangência que
parte dos detentores de poder de polícia, e sim
interessa ao usuário, nem mais nem menos. E
o interesse individual legítimo, recompensado
devem ser compatíveis com o grau dos riscos
pela preferência dada pelo consumidor.
assumidos, dado que são serviços
Uma das bases do sistema de mercado está em contingenciais.
que as pessoas possam usufruir daquilo pelo
O argumento usado de que "se procurou o
que pagaram. Assim as alegações de que
relevar o aspecto ético, sem se preocupar com
"pessoas pagam seguro-saúde a vida inteira e
a questão da viabilidade econômica" reflete a
se vêem desassistidas quando necessitam"
falta de responsabilidade daquele que
carece de base lógica: não há sentido em
formulou a regra inexequível; antever as
reclamar por não receber aquilo pelo que não
consequências das próprias atitudes é o
se pagou. Torna-se inevitável indagar, aos
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mínimo que se pode esperar de uma o substituirá por outro benefício, que
autoridade, ou de quem se julgue revestido de proporcione vantagem superior ao custo.
poder para regulamentar as atividades dos
Em certos casos a inviabilização da atividade
agentes econômicos.
econômica se dá pelo simples fato de que as
A alegação de que os consumidores não novas regras formuladas pela autoridade não
sabem qual é o grau de abrangência de seus são exequíveis. A extinção de carência
planos de saúde pressupõe que estes sejam prevista na resolução do CFM para os planos
incapazes ou que não lhe seja permitido ler os de saúde significa, na prática, que ninguém
contratos que assinam. Devemos supor, no mais pensaria em pagar uma cirurgia ou
entanto que ao falar de usuários ou de internação hospitalar para tratamento: seria
prestadores de serviços médicos, estamos nos mais fácil e barato o agir de má-fé, ou seja,
referindo a pessoas adultas capazes de contratar um plano de saúde e se servir dele
compreender contratos formulados de acordo por dois meses, abandonando-o em seguida.
com as leis vigentes no país. Contratos Por outro lado, ao estabelecer livre escolha de
existem para garantir direitos e deveres entre médicos e hospitais, a resolução cria em tese a
duas partes; eles têm de ser respeitados por possibilidade de que milhares de conveniados,
que constituem ato juridicamente perfeito. Se o mesmo tempo, queiram ser operados por
não há vício na sua formulação, as obrigações um mesmo médico numa mesma instituição; e
devidas e direitos deles provenientes não os demais especialistas? Ficariam sem
podem ser revogados por ninguém. Para que trabalhar? Coisas assim elevariam em tese os
possamos conceber uma economia em custos de atendimento a níveis absurdos, se é
funcionamento, devemos supor a existência que podem ser feitas. Para funcionar com
de condições institucionais minimamente eficiência, os mercados não podem prescindir
estáveis, sob as quais pelo menos os contratos dos princípios mais elementares de lógica.
em andamento possam ser respeitados.
No caso sob exame, é de se esperar que o
Outro erro de medidas regulatórias costuma sistema acabe dividindo os serviços oferecidos
ser o de tratar igualmente consumidores cuja em dois tipos principais: planos completos
natureza (note bem: não estamos nos versus planos de cobertura parcial. Os preços
referindo às suas preferências) é diversa. Por serão diferenciados e, como costuma ocorrer
exemplo: boa parte do faturamento das nas sociedades civilizadas, contratos deixarão
prestadoras de serviços médicos advém de claro e explícito em cada caso o que as partes
clientes-empresas (empregadores de usuários) estarão contratando entre si.
eu não pessoas físicas. Ao obrigar empresas de
É fácil, para os manipuladores de opinião,
serviços médicos a elevar seus custos e seus
vender a idéia de que os prestadores de
preços, a autoridade apenas faz por
serviços médicos são empresas
inviabilizar negócio entre cliente e fornecedor
inescrupulosas. Enquanto as autoridades
de serviços. Do ponto de vista do empregador,
enxergarem agentes econômicos como bons
conceder o benefício é uma decisão racional; a
ou maus, dificilmente virão a propiciar
partir do instante em que deixa de ser
condições justas e imparciais para a legítima
compensador oferecer um plano de saúde, ele
defesa de seus interesses. As leis justas, e não
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as paternalistas, é que costumam conferir forma, teriam condições de subsistir. No caso
maior ganho para o sistema econômico como específico de resoluções que forçam a
um todo. aumento de custos, mercado dará a palavra
final recusando-se comportar preços por
Em suma, a despeito das boas intenções que
demais elevados.
tragam em seu bojo, medidas
intervencionistas simplesmente não são
funcionais; acabam prejudicando justamente O aprendizado do respeito ao mercado como
aqueles que pretendiam beneficiar; fazem instituição é difícil, porque costuma se dar por
meio de erros. Embora não possa evitá-los, e já
surgir dificuldades que o mercado saberia
que não é capaz de dar a assistência que
resolver se tivesse liberdade para tanto; geram
deveria, o Estado pode ao menos impedir que
distorções alocativas porque tornam o custo dessas lições recaia por inteiro sobre
artificialmente vantajoso canalizar recursos quem não é responsável pelos erros; pode
para atividades ou regiões que normalmente também evitar que por falta de bom senso o
não os receberiam; pior que tudo, alteram as custo desses erros venha a ser maior que o
condições competitivas das empresas, necessário. A vontade dos agentes
regulamentadores é menos poderosa do que
possibilitando a sobrevivência de companhias
se pensa. Ela se subordina às leis da lógica, às
sem condições para tal, ao mesmo tempo em da Economia e às da razão.
que inviabilizam negócios que, de outra

Novembro/1993
Conseq.doc