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Solange Menezes da Silva Demeterco

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO

2.ª edição
2009
© 2003-2009 – IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autoriza-
ção por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais.

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

D449s
2.ed.

Demeterco, Solange Menezes da Silva.


Sociologia da educação / Solange Menezes da Silva Demeterco. - 2.ed. - Curitiba, PR :
IESDE Brasil, 2009.
352 p.

Inclui bibliografia
ISBN 978-85-387-0265-8

1. Sociologia educacional. I. Inteligência Educacional e Sistemas de Ensino.


II. Título.

09-1973 CDD: 306.43


CDU: 316.74:37

Capa: IESDE Brasil S.A.


Imagem da capa: Jupiter images / DPI images

Todos os direitos reservados.

IESDE Brasil S.A.


Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200
Batel – Curitiba – PR
0800 708 88 88 – www.iesde.com.br
Solange Menezes da Silva Demeterco

Doutora e Mestre em História do Brasil pela UFPR. Especialista em Currículo e


Prática (Tutoria a Distância) pela PUC-Rio. Graduada em Ciências Sociais pela
UFPR.
Sumário
A sociologia e a educação ..................................................... 13
O que é sociologia? .................................................................................................................. 14
A sociologia da educação e alguns conceitos básicos................................................. 19
A socialização e seus agentes ............................................................................................... 20

A sociologia da educação...................................................... 33
Os primeiros grandes sociólogos:
a educação como tema e objeto de estudo .................................................................... 34
As teorias sociológicas e a educação ................................................................................. 43

A sociologia da educação no Brasil.................................... 51


Formação da sociedade brasileira:
economia agrário-exportadora e economia industrial ............................................... 52
A sociologia continua seu caminho: dos anos 1970 aos dias atuais....................... 55

Educação e família ................................................................... 63


As transformações da família ................................................................................................ 64
Educação e família no Brasil .................................................................................................. 70

Concepções de infância e juventude ................................ 81


O sentimento de infância – o trabalho de Ariès ............................................................. 82
O surgimento das escolas e as visões da infância ......................................................... 85
A escola como instituição social.......................................... 99
A escola como organização..................................................................................................103
Algumas possibilidades.........................................................................................................105

A escola e o controle social..................................................113


Padrões sociais de comportamento..................................................................................116

A escola e o desvio social.....................................................133


Comportamentos desviantes..............................................................................................135
Conformidade versus conformismo...................................................................................137

A mudança social....................................................................151
Fatores que desencadeiam a mudança............................................................................154
A ação pedagógica e a mudança social...........................................................................157

A estratificação social............................................................169
Formas de estratificação social............................................................................................173
A educação e a estratificação social..................................................................................177

A mobilidade social................................................................189
Tipos de mobilidade social...................................................................................................190
Educação como fator de mobilidade social....................................................................193

Educação e movimentos sociais........................................203


As formas de luta e ação coletiva.......................................................................................206
Alguns tipos de movimentos sociais e educação.........................................................210
A educação e o Estado..........................................................223
O conceito de Estado e suas funções................................................................................226
Estado e educação no Brasil.................................................................................................228

Educação e desenvolvimento.............................................241
As desigualdades sociais e o subdesenvolvimento.....................................................245
Origens históricas do subdesenvolvimento...................................................................247
As desigualdades sociais e o papel transformador da educação...........................248

Educação e cotidiano no Brasil...........................................259


O difícil cotidiano dos “menos iguais”...............................................................................263

Problemas da educação no Brasil......................................275


O fracasso escolar: uma tentativa de explicação..........................................................279

A profissão de professor.......................................................293
A questão da formação profissional..................................................................................295
O ofício de professor e seu papel na sociedade............................................................298

Perspectivas da educação no Brasil..................................311


A questão da diversidade cultural – o multiculturalismo..........................................315
A democratização da educação..........................................................................................317

Gabarito......................................................................................329

Referências.................................................................................343

Anotações..................................................................................349
Apresentação

O que você espera dessa disciplina? Quais são suas expectativas em relação à so-
ciologia? No que a sociologia se aproxima da educação? Essas e outras perguntas
nos acompanharão a partir daqui.
Mas, antes disso, seria interessante esclarecer algumas questões que nortearão
nosso trabalho. Inicialmente, deve-se destacar que o que se apresenta aqui é uma
síntese dos temas mais relevantes da sociologia enquanto Ciência Social, preocu-
pada em tentar explicar a vida social e as questões relacionadas à vida do homem
em sociedade, em seus múltiplos aspectos. Não se pretendeu elaborar um manual
e muito menos um compêndio que pretendesse dar conta de todos os temas e/
ou conceitos relacionados a essa ciência. Optou-se por privilegiar alguns tópicos
que são considerados básicos e depois relacioná-los com a questão da educação.
A sociologia da educação tem como objetivo pesquisar e analisar a educação em
seus aspectos sociológicos, isto é, os fenômenos sociológicos.
O objetivo maior é procurar conhecer e analisar a inter-relação entre o homem, a
sociedade e a educação, à luz de diferentes teorias sociológicas, bem como das
práticas pedagógicas ratificadoras e/ou transformadoras dos contextos cultural,
social, político, econômico e ecológico.
A proposta é despertá-lo para discussões futuras a partir do embasamento teórico
que essa ciência oferece e, sempre que possível, trazer o debate para a realidade
educacional brasileira. Para tanto, sugere-se alguns textos de apoio, bem como
atividades para autoavaliação. Indicações de leituras complementares e filmes
acompanharão o texto-base, e são importantes para aprofundar algum assunto/
tema que se considere relevante.
Vale lembrar também que nada substitui a leitura dos próprios mestres, no caso
aqui, os “fundadores” da sociologia e da sociologia da educação. Portanto, não de-
sanime em buscar na própria fonte as respostas às suas inquietações. Vá em frente!
A disciplina pretende desenvolver módulos que possibilitem a compreensão
da constituição da realidade social e sua relação com a educação, por meio do
estudo de aspectos dos processos sociais presentes na produção e configuração
do sistema educacional. Assim, o livro está estruturado em 18 unidades, em que
se propõe uma discussão sobre a relação entre a sociologia e a educação, apresen-
tando as contribuições dos autores clássicos e sua percepção acerca das questões
relacionadas à educação (A Sociologia da Educação) e contextualizando a ciência
no Brasil (A Sociologia da Educação no Brasil).
A partir daí, tem-se a discussão de alguns temas/conceitos fundamentais para
a reflexão aqui proposta. Na unidade intitulada educação e família apresenta-se
uma síntese das transformações pelas quais passou a família ao longo do tempo
e sua importância quando se discute educação. Para tanto, também se faz ne-
cessário observar como o sentimento de infância surge e se modifica a partir do
que se tem, inclusive o surgimento dos colégios e novas visões da infância e da
juventude (concepções de infância e juventude).
A discussão sobre a escola à luz de alguns conceitos sociológicos compõe as
próximas unidades: a escola como instituição social, a escola e o controle social e a
escola e o desvio social. Em seguida, são abordados outros conceitos também im-
portantes para a sociologia da educação: a mudança social, a estratificação social,
a mobilidade social, educação e movimentos sociais e a educação e o Estado.
Finalmente, são apresentados alguns temas mais amplos que dizem respeito à rea-
lidade do país (educação e desenvolvimento, educação e cotidiano no Brasil e pro-
blemas da educação no Brasil), da escola e do professor (a profissão de professor),
além de chamar a atenção para questões que exigem muita reflexão por parte do
docente, no sentido de avaliar sua prática pedagógica (perspectivas da educação
no Brasil).
Vale ressaltar, enfim, que vivemos um momento privilegiado na história, uma vez
que a presença da sociologia no currículo está intimamente ligada à democratiza-
ção do acesso ao conhecimento científico, com vistas ao incremento da discussão
consciente, racional e bem fundamentada do educador na realidade social.
Bom trabalho!

Solange Menezes da Silva Demeterco


A sociologia da educação no Brasil

Desde o início dessa trajetória, vem se procurando enfatizar que a edu-


cação em nenhum momento está descolada do contexto social no qual se
insere e do qual é produto. Assim, vale lembrar que não há como pensar
os problemas educacionais sem considerar as conexões existentes entre
sistema escolar e as demais instâncias da realidade social.

A trajetória da sociologia no Brasil, como não poderia deixar de ser,


está relacionada com o contexto histórico-social do país, intercalando mo-
mentos de livre expressão com outros de forte repressão, chegando até
mesmo ao banimento das instituições educacionais.

Não se pode deixar de pensar que, diante desse quadro, a sociologia


brasileira tenha adquirido um caráter particular, marcado pela busca de
explicações/análises/soluções que respondessem às demandas geradas
pela sociedade capitalista brasileira, tão distinta em sua essência de outros
países também capitalistas. Lembre-se de que uma das características do
capitalismo é o aprofundamento da divisão social do trabalho e a luta de
classes.

Por mais que a produção dos bens materiais e do próprio conhecimen-


to sejam coletivos, nessas sociedades esses bens tendem a ser distribuídos
de maneira desigual, reforçando, também, as diferenças entre os homens
e cristalizando relações de poder pautadas na submissão, na exploração
e na exclusão.

Segundo Kruppa (1994, p. 29),


[...] uma das contradições da sociedade capitalista está na existência simultânea da
concentração de saber e das técnicas que permitiriam democratizá-lo, mas que não
são usadas com essa finalidade. Na sociedade capitalista, quem detém o poder detém
as condições de determinados saberes, que permitem controlar a sociedade. Assim,
na sociedade capitalista, não só saber é poder, como poder e, geralmente, condição
de saber.

De acordo com a autora e com alguns teóricos, em especial aqueles


ligados às teorias críticas da sociologia, o papel dessa ciência seria então
pensar sobre tudo isso.
Sociologia da Educação

Mas a mesma autora chama a atenção para o fato de que, além da divisão
social do trabalho, é preciso “que a organização da produção e da sociedade esteja
montada de forma a prevalecer uma hierarquia entre quem tem conhecimento e
poder e quem não tem” (p. 28). Essa questão é de fundamental importância para
se começar a pensar a sociologia da educação no Brasil – país marcado pela de-
sigualdade em vários níveis e de vários tipos, inclusive de oportunidades – onde
a opção histórica feita pelo Estado tem sido pelas camadas da sociedade mais
favorecidas economicamente, refletindo-se esse modelo de sociedade também
na escola e no processo educativo.

Formação da sociedade brasileira:


economia agrário-exportadora
e economia industrial
No Brasil, os problemas educacionais tornaram-se objeto de estudo recente-
mente, a partir do enfoque sociológico. E isso ocorre exatamente em função das
demandas geradas por essas desigualdades históricas, que se mantêm ao longo
do tempo, desde a colonização, passando pelas marcas deixadas pelo escravis-
mo, por uma vida política marcada pela falta de participação da maioria dos pro-
cessos decisórios, por um período ditatorial e por um lento e gradual processo
de abertura e amadurecimento político. Mas a presença da sociologia nas esco-
las é um pouco mais antiga, remonta ao início do século XX, quando a disciplina
começou a ser ministrada no Ensino Médio e em algumas faculdades. Esse pro-
cesso de institucionalização da sociologia, e inclusive da sociologia da educação,
insere-se no contexto da época, na medida em que o Positivismo dominava a
cena intelectual do momento. Sendo assim, partindo das teorias clássicas da ci-
ência social, também no Brasil se começou a tentar investigar os problemas sob
a ótica científica, com um corpo conceitual e uma metodologia específica. Pedro
Demo (1987, p. 158) chama a atenção para a necessidade que a sociologia no
Brasil teria de poder tratar dos nossos principais problemas, preferencialmente
vinculada à prática, contemplando o tema da desigualdade social e discutindo a
questão da dependência, do imperialismo, dos obstáculos ao desenvolvimento,
sempre considerando que nós mesmos somos os atores desta sociedade e que
é preciso “desmascarar” as desigualdades.

No contexto do Positivismo, a educação era vista como um instrumento para


formar uma nova mentalidade, voltada mais para as ciências ditas positivas, isto é,

52
A sociologia da educação no Brasil

mais objetivas. A elite que surgia de outros segmentos da sociedade brasileira e que
tinha acesso à educação tentava assim manter seus privilégios. O contexto histórico
do final do século XVIII, especialmente após a Proclamação da República e primeiras
décadas do século XX, é marcado pelo colapso do modelo agroexportador, por uma
crescente urbanização, pela industrialização e por uma certa “desordem” social.

Tal como aconteceu na Europa, as mudanças decorrentes da consolidação


do capitalismo também deixam suas marcas na vida social e na mentalidade da
população brasileira. Especialmente com a emergência de novas classes sociais
ligadas às novas atividades econômicas, ao lado da insatisfação com o modelo
de educação que se tinha no país na década de 1920 e a instabilidade política
que marca a década de 1930, formava-se o cenário ideal para o desenvolvimen-
to da sociologia no país.
Domínio público.

Acervo SEMUC.
MHIJB-SP.

Na busca por soluções para os problemas que apareciam nessa nova ordem,
a sociologia passa a fazer parte do currículo do Ensino Médio e Superior. Um
pouco mais tarde, é introduzida também nos cursos de formação de professores.
Várias reformas de ensino acontecem em pouco mais de 10 anos (entre 1925 e
1935). É por meio das faculdades de Pedagogia, após 1930, que passa a fazer
parte do currículo regular, como foi o caso da Faculdade de Educação da Univer-
sidade do Distrito Federal (1937), por Anísio Teixeira. Os cursos de Magistério e
Ensino Médio também ensinam a disciplina nesse momento, o que não se cons-
titui exatamente numa novidade, visto que a sociologia ainda associada à moral
já era ministrada em alguns cursos secundários, por volta de 1890. É preciso des-
tacar que nesse momento, e por algum tempo ainda, a educação não era o foco
dos estudos sociológicos.

53
Sociologia da Educação

Somente após 1932, o ensino de sociologia é incentivado como forma de pre-


parar as novas gerações para o país que surgia após tantas e tão intensas mudanças
econômicas, sociais e políticas, e a educação passa, assim, a ter um fim específico. Os
problemas brasileiros pedem soluções urgentes para restabelecer a “ordem”. Aliás,
a própria educação passa a ser vista como um problema social e um fator de mu-
dança. Era preciso propor reformas que ajustassem a educação à nova ordem social.
Mas é fundamental entendermos que, nesse momento, educadores e pensadores
sociais – os cientistas sociais – se distanciam muito, uma vez que, para estes, a edu-
cação não desperta interesse, enquanto objeto de pesquisa. Isso só aconteceria mais
tarde, depois de alguns trabalhos sem muito embasamento teórico e com grandes
deficiências em termos metodológicos. Apesar de tudo, no final da década de 1940,
a sociologia se institucionalizava como um campo específico de conhecimento.

Nos anos 1950-1960, no auge do processo de industrialização baseado na subs-


tituição de importações1, do avanço do nacionalismo e do populismo, formam-se
os primeiros sociólogos. Seu objetivo, nesse momento, é analisar os problemas
brasileiros de forma mais independente em termos teóricos, isto é, produzir uma
sociologia “abrasileirada”, mais de acordo com as necessidades do país. Nessa con-
juntura, a educação é vista como agente de transformação social e as escolas são
analisadas de acordo com suas especificidades e diferenciações regionais. Isso se
explica por toda uma política governamental que se volta para as diferenças regio-
nais, particularmente entre o Sudeste rico e industrializado e o Nordeste arcaico
e atrasado. Surgem iniciativas tais como a criação das superintendências regio-
nais (Sudan, Sudene etc.). É estabelecida uma relação entre educação e desenvol-
vimento, enquanto os aspectos sociológicos da educação como, por exemplo, o
estudo da escola enquanto instituição social, são pouco trabalhados. Age-se como
se a educação, a escola e todos os atores envolvidos no processo educativo esti-
vessem fora da realidade social como um todo. Como consequência, tem-se uma
dispersão dos temas de pesquisa e pouco aprofundamento nos problemas edu-
cacionais propriamente ditos. O analfabetismo é um dos temas que adquire maior
visibilidade, até por conta das funções que eram atribuídas à educação. Mas há
mais descrição do que análise e interpretação dos problemas.

Será na Universidade de São Paulo (USP) que, nos anos 1960, alguns cientis-
tas sociais começarão a efetivamente se interessar pelo tema educação, muitos
norteados pelo funcionalismo2, constituindo centros de estudos com o objetivo

1
Modelo de industrialização adotado pelo Brasil, caracterizado pela produção interna de itens que faziam parte da pauta de importações do país,
por conta das dificuldades externas para importá-los, de acordo também com a ideia de desenvolvimento que norteava as políticas econômicas
da época – o desenvolvimentismo.
2
Doutrina que concebe a sociedade como um sistema que deve estar em harmonia para “funcionar bem” e onde os conflitos são apenas uma etapa de
uma preparação para uma ordem cada vez maior. Busca relacionar um sistema normativo e a situação que seria definida por esse conjunto de restrições
estáveis e coerentes aos olhos daqueles que não desejam que alguma coisa mude na ordem social. É vista como uma teoria conservadora.

54
A sociologia da educação no Brasil

de analisar as relações de poder, particularmente aquelas entre a educação e a


estrutura social.

Mesmo não seguindo mais adiante, nesse momento a sociologia (e também


a sociologia da educação) procura pensar o real, com o objetivo de encontrar
maneiras de modificá-lo quando necessário, sempre partindo da ideia de dimi-
nuir as diferenças e as injustiças sociais. Trata-se de fornecer bases teóricas para
a ação, inclusive educacional. Ao lado disso, tem-se um grande movimento em
defesa da escola pública, vista como o caminho para a democratização do acesso
à educação e meio de transformação social.

A sociologia continua seu caminho:


dos anos 1970 aos dias atuais
Infelizmente, o caráter econômico ainda iria direcionar boa parte dos estudos
nessa área, de acordo com o modelo desenvolvimentista da época, que priori-
zava o desenvolvimento econômico sobre o social. Especialmente após o Golpe
Militar de 1964, quando muitos cursos são fechados, a disciplina é suspensa nas
escolas e universidades e muitos pesquisadores e professores são afastados do
trabalho, alguns até do país, por se oporem ao regime político.

Em razão da repressão imposta pela Ditadura Militar, a década de 1970 é mar-


cada por estudos quantitativos sobre administração escolar e pouco se fala de
temas “incômodos” como evasão, reprovação ou rendimento escolar. Mesmo
assim, aparecem críticas ao modelo econômico e político da época, bem como
uma contestação da própria política educacional dos militares, eminentemente
voltados para a formação de técnicos e não de pessoas com espírito crítico.

Diante do quadro social e político desse momento, há um certo pessimismo


em relação ao papel transformador da educação, em sua capacidade de promo-
ver mudanças sociais efetivas. Apesar de se ter durante a década de 1970 um
bom número de trabalhos em educação, não há estudos na área de sociologia
da educação; discutem-se teorias da aprendizagem, teorias do currículo, progra-
mas, a atividade docente, entre outros temas.

O desenvolvimento de reflexões de caráter marxista estabelece relações entre


algumas variáveis que antes eram consideradas, isoladamente, pouco acrescen-
tando em termos teóricos. É o caso das condições socioeconômicas do aluno e
seu rendimento escolar: ao estabelecer essa correlação, tem-se o que se chama
de explicação sociológica para os fenômenos da evasão e/ou da repetência, por
55
Sociologia da Educação

exemplo. Observa-se uma mudança em termos de percepção do processo educa-


tivo, que é visto como conjunto de relações externas (interdependência, por exem-
plo) e relações internas (o sistema educacional é um todo composto de partes que
têm relação entre si) (FERREIRA, 1993, p. 26-27).

A preocupação com a democratização do ensino, como já se disse, torna-se


o foco dos educadores e sociólogos, que agora são muito mais críticos, denun-
ciando o quanto o sistema educacional estava a serviço do poder político. É aqui
que teóricos como Bourdieu e Althusser, entre outros, divulgam suas teo-rias,
chamadas de teorias do conflito. Voltando ao exemplo dado acima, nesse mo-
mento, a reprovação e a evasão que a ela se seguia passam a ser vistas como
exclusão, problemas que exigem solução enquanto fenômenos sociais ligados
ao subdesenvolvimento brasileiro.

Com a abertura política, como ficou conhecido o período de transição que


marcou o fim da Ditadura Militar no Brasil e que ficou marcado, entre outras coisas,
pela promulgação de uma nova Constituição e pelo restabelecimento da ordem
democrática (ainda que muito devagar), consolidam-se os estudos marxistas e os
questionamentos sobre o caráter ideológico do material didático, por exemplo.
Entretanto, não se estuda a dinâmica interna da escola, nem os movimentos edu-
cacionais. O que se tem são trabalhos ainda muito marcados pelos levantamentos
estatísticos, sem muita reflexão teórica ou proposições práticas, a partir dos dados
coletados. Outras ciências viriam colaborar com a sociologia da educação, forne-
cendo-lhe subsídios em termos metodológicos, indicando procedimentos de pes-
quisa mais adequados aos temas que os pesquisadores se propunham a trabalhar.

Com tudo isso, o que se pode notar é que ainda permanece uma certa distân-
cia entre os educadores e os sociólogos, tendo, inclusive, nos anos 1990, aumen-
tado o desinteresse pela sociologia da educação, apesar do esforço de muitos e
do fato de que a maioria dos problemas com os quais o Brasil se debatia há mais
de 30 anos permanecem. Apesar do inegável avanço e melhoria dos indicadores
sociais do país, amplamente divulgados pelo governo, ainda vivemos uma situa-
ção de profundas desigualdades sociais, decorrentes da absurda concentração
de renda e da falta de um projeto real de Reforma Agrária.

Apesar das dificuldades, a sociologia e a sociologia da educação estão conso-


lidadas no país, em centros de ensino e pesquisa, publicações especializadas e
com vários trabalhos que alcançaram o reconhecimento internacional. Os profis-
sionais da área trabalham no sentido de pensar a realidade brasileira e fornecer
subsídios para a implementação de políticas públicas voltadas para o atendi-
mento das necessidades das populações mais carentes, mas, sobretudo, para
propor temas para debate nacional.
56
A sociologia da educação no Brasil

Texto complementar

A formação do pensamento sociológico no Brasil


(COSTA, 2009)

No Brasil, o processo de formação, organização e sistematização do pen-


samento sociológico obedeceu às condições de desenvolvimento do capita-
lismo e à dinâmica própria de inserção do país na ordem capitalista mundial.
Refletindo, portanto, a situação colonial, a herança da cultura jesuítica e o
lento processo de formação do Estado nacional.

No período colonial, a cultura religiosa foi utilizada como um importante


instrumento de colonização, uma vez que a Ordem dos Jesuítas, com sua fi-
losofia universalista e escolástica, durante três séculos exerceu o monopólio
sobre a educação, o pensamento culto e a produção artística (que no país
à época se desenvolveram), introduzindo paralelamente um sistema misto
de exploração do trabalho indígena que, combinado com o ensino religio-
so, agiu de modo a aniquilar gradativamente a cultura nativa. Esse processo
submeteu as populações escravas e ajudou a distinguir drasticamente as ca-
madas cultas daquelas que realizavam o trabalho braçal. De forma que se
pode afirmar que a cultura do Brasil colonial mantém e ostenta, ao longo de
sua vigência, um caráter ilustrado, de distinção social e dominação.

No século XVIII, ocorre o surgimento e a influência das classes interme-


diárias. O desenvolvimento da mineração promove importantes transfor-
mações sociais, alterando a sociedade colonial, que até então se dividia em
donos de terra e administradores de um lado e escravos de outro. Surgem
ocupações novas: comerciantes, artífices, criadores de animais, funcionários
da administração que controlavam a extração de minérios e sua exportação,
e outras. A população livre passa a ser mais numerosa que a escrava. Essa
camada intermediária livre e sem propriedades, torna-se consumidora da
erudição e cultura europeia, tentando distinguir-se tanto do escravo incul-
to como da elite colonial conservadora, contando, para tanto, com o ensino
praticado pelas ordens religiosas estabelecidas em Minas Gerais, à época. No
campo das artes plásticas, passam a ser notadas manifestações nacionais,
por meio de um barroco original e uma música de técnica surpreendente; já
em relação ao campo científico, a produção mostra-se ainda muito pequena,

57
Sociologia da Educação

predominando, por sua vez, ainda o saber erudito, voltado para os estudos
jurídicos.

No que tange ao século XIX, com a transferência da corte joanina para


o Brasil em 1808, é introduzida na colônia a cultura portuguesa da época,
resultante das influências do humanismo neoclassista francês e da produ-
ção cultural da Universidade de Coimbra. São fatos importantes a criação
da Academia de Belas Artes, a fundação da imprensa, o lançamento do
primeiro jornal, a organização da primeira biblioteca nacional e dos pri-
meiros cursos superiores, que em parte rompem com a cultura escolástica
e literária anterior. Nesse período, também se introduziu o instrumental
prático destinado à formação e viabilização do aparelho administrativo do
Império. Porém, ainda que voltada mais à praticidade, a cultura nacional
continuava sendo alienada, ditada pelas formas europeias, objetivando or-
ganizar o saber descritivo e funcional, bem como garantir o domínio do
poder imperial.

Os movimentos intelectuais e literários, até meados do século XIX, apesar


de tratarem de questões políticas e sociais, a terra e a nação surgiram apenas
como objeto, como tema, nunca como pensamento crítico desenvolvido a
partir das condições próprias da nação. Ou seja, a forma, assim como a lin-
guagem, eram estrangeiras; só o motivo era nacional. Essa dicotomia entre
a realidade vivida e o conhecimento produzido e consumido pela elite não
só mantinha a prevalência do caráter ostentatório de uma cultura de elite,
como caracterizava uma nova forma de alienação, responsável pelo tardio
desenvolvimento da ciência no Brasil.

Somente após 1870, sob pressão do que ocorria na Europa, significativas


mudanças irrompem na sociedade brasileira, mudanças essas que, fundidas
a ciclos econômicos decadentes, provocaram a emergência do pensamento
crítico, que passa a ser apresentado de forma incisiva tanto na criação literá-
ria quanto na crítica social.

É de grande importância para o desenvolvimento do pensamento socioló-


gico brasileiro o desenvolvimento do capitalismo no país. O desenvolvimento
das atividades comerciais e de exportação do início do século, com a forma-
ção da burguesia nacional, revolucionaram o modo de pensar da intelectu-

58
A sociologia da educação no Brasil

alidade e da sociedade brasileira como um todo. Essa revolução decorre da


necessidade da nova classe de um saber mais pragmático, menos vinculado a
uma estrutura social herdada da colonização. A partir de então, verifica-se uma
tentativa de ruptura com a herança cultural do passado: procura-se combater
o analfabetismo, homogeneizar os valores e o discurso, criar um sentimento
de patriotismo que levasse a mudanças reais na estrutura social, repudiando
todo traço de colonialismo, de atraso e importação cultural.

Mas, apesar de podermos reconhecer que desde o final do século XIX já


se verifica no Brasil uma espécie de pensamento sociológico, desenvolvida
por Euclides da Cunha, dentre outros, a sociologia entendida como atividade
autônoma, voltada para o conhecimento sistemático e metódico da socie-
dade, só irrompe na década de 1930 do século passado, época em que o
mundo liberal entrou em crise profunda e as relações econômicas interna-
cionais mostraram suas contradições mais agudas. Assim, é no momento de
crise que a crítica se desenvolve, sistematizando-se de maneira científica na
sociologia.

(Disponível em: <http://pt.shvoong.com/humanities/398358-orma%C3%A7%C3%A3o-


pensamento-sociol%C3%B3gico-brasil/>. Acesso em: nov. 2008. Adaptado.)

Dicas de estudo
Central do Brasil, de Walter Salles Jr.

Procure retirar do filme alguns elementos que demonstram o quanto o acesso


à educação é desigual no país. Avalie o peso do analfabetismo para boa parte da
população, que se vê excluída e privada de seus direitos fundamentais.

Sugestões de leitura
PAIXÃO, Lea Pinheiro. Sociologia da Educação: pesquisa e realidade brasi-
leira. Rio de Janeiro: Vozes.

59
Sociologia da Educação

Atividades
1. A partir do que aprendeu, qual a importância que você atribui à sociologia
da educação no Brasil?

60
A sociologia da educação no Brasil

2. Como profissional da educação, como você analisa questões como reprova-


ção e evasão escolar? Avalie a realidade da sua escola e procure estabelecer
as causas desses problemas.

61