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O SISTEMA DE PROJEÇÃO UTM

CAPÍTULO 05

1 INTRODUÇÃO

O orbe terrestre possui sua superfície irregular, denominada


topográfica, e, para superar esta dificuldade frente ao alcance dos objetivos da Ciência
Geodésica, a Terra é idealisticamente representada por um modelo geométrico-
matemático denominado de Elipsóide de Revolução, cuja caracterização métrica de
seus parâmetros tem ocorrido ao longo do tempo, por diversos geodesistas. Sendo a
Terra um sólido tridimensional e, mesmo representada por outro sólido – quer seja o
Esferóide, quer seja o Elipsóide, como representá-la em mapas se são planos
bidimensionais? A solução deste problema cartográfico passa por três etapas:

• Adoção de uma superfície de referência que seja desenvolvível no plano, sobre a


qual os pontos deverão ser projetados;
• Definir uma relação matemática que permita transformar a superfície de referência
numa superfície plana;
• Estabelecer um sistema de coordenadas no plano e definir uma escala adequada
para que a superfície mapeada possa ser representada nas dimensões do papel
utilizado para a execução do desenho.

2 O SISTEMA DE PROJEÇÃO DE MERCATOR

O sistema de projeção denominado de Mercator teve início com o


holandês Gerhard Kremer que o idealizou em 1569. Outros geodesistas passaram a
estudar o sistema criado, chegando-se ao atual Sistema de Projeção UTM,
modificado da idéia original de seu criador.
Embora não sendo considerado um sistema de projeção geométrica,
pois não se podem definir os percursos dos raios projetantes porque possui apenas
solução puramente analítica, o sistema teve sua utilização recomendada pela União
Geodésica e Geofísica Internacional, na sua IX Assembléia, realizada em 1951.
O Sistema UTM – Universal Tranversa de Mercator foi usado em larga
escala, pela primeira vez, pelo Instituto de Cartografia do Exército Americano,
durante a segunda Guerra Mundial. Sua principal vantagem é que se consegue
representar grandes áreas da superfície terrestre sobre um plano, com poucas
deformações.
A projeção de Mercator foi concebida originalmente como uma
superfície cilíndrica envolvendo a superfície de referência, de modo que o cilindro
contivesse o eixo dos pólos da superfície envolvida e que tangenciasse a mesma nos
pontos extremos da linha do Equador.
A projeção de Mercator tornou-se transversa ao eixo polar quando se
fez uma rotação do eixo original do cilindro, de modo que o mesmo coincidisse com o
plano que possui o Equador e que tangenciasse os pólos da superfície de referência.
Disto resulta a sua denominação de transversa – Figura 1.

Figura 1: Superfície de projeção cilíndrica transversa e tangente

2 CARACTERÍSTICAS DO SISTEMA UTM


2.1 Aspectos conceituais

A projeção de Mercator é muito utilizada na sua forma modificada: em


vez de tangenciar a superfície de referência, o cilindro passa a ser secante.
O Sistema de Projeção UTM faz uso da projeção cilíndrica conforme
que preserva as formas geométricas em detrimento das dimensões. Visualiza-se o
sistema como um cilindro que secciona a superfície de referência, orientando-se o
cilindro de maneira que seu eixo seja contido pelo plano do Equador, conforme ilustra
a Figura 2, dada a seguir:

Meridiano central

Eixo do cilindro

Figura 2: Superfície de projeção cilíndrica transversa e secante

Observa-se que o cilindro secante tem um diâmetro menor que o da


superfície de referência, em decorrência ficam determinadas as duas linhas de
interseção (secância) entre o cilindro e a superfície de referência. A área da projeção
compreende apenas uma parcela da superfície de referência, a qual recebe a
denominação de fuso ou zona. Cada fuso é representado seu pelo número ou pela
longitude do seu meridiano central (MC). As análises conjuntas das Figuras 3 e 4
ilustram a o exposto. Para representar as demais áreas situadas sobre a superfície de
referência, o cilindro secante rotaciona em torno do eixo polar.

MERIDIANO CENTRAL
MC
80º N

EQUADOR
0º 0º

80º S

Figura 3: Limites das latitudes e forma geométrica dos meridianos e paralelos

MC = -171º MC = -177 MC = 177º MC = 171º

-174º Fuso 1 180º Fuso 60 174º


Fuso 2 Fuso 59
-168º 168º

3º 3º 3º 3º 3º 3º 3º 3º
sentido da sentido da
contagem dos fusos contagem dos fusos

MERIDIANOS CENTRAIS

Figura 4: Vista superior da Terra - divisão em Fusos e Meridianos Centrais

2.2 Características principais


As principais características do Sistema UTM são:

• Amplitudes dos fusos: 6º coincidentes com os fusos da Carta Internacional ao


Milionésimo - CIM.
• Latitude da origem : 0º no Plano do Equador;
• Longitude da origem: corresponde a longitude do meridiano central (MC) do
fuso;
• Falso Norte (translação Norte) : 10.000.000 m para o Hemisfério Sul;
• Falso Este (translação Este) : 500.000 m
• Fator de escala no meridiano central (Ko) : 0,9996;
• Numeração das zonas: divisão da superfície de referência em sessenta (60) zonas
(fusos), numeradas de 1 a 60, a partir do Antimeridiano de Greenwich no sentido
para Leste. Tem-se, portanto:

Zona 1 : limites entre 180º W a 174º W


Zona 30 : limites de 6ºW a 0ºW
Zona 60 : limites de 174º E a 180º E

A Figura 4 ilustra a divisão em fusos e o sentido da contagem dos


mesmos.

• Limites das latitudes: 80º N e 80º Sul, conforme se visualiza na Figura 3.


• A linha do Equador e a linha do meridiano central (MC) de cada fuso são
representadas por linhas retas e ortogonais na projeção plana. Os demais
meridianos são representados por linhas côncavas em relação ao meridiano central
e os paralelos são representados por linhas côncavas em relação ao pólo mais
próximo, conforme representado na Figura 3.
• O espaçamento entre os meridianos aumenta à medida que eles se afastam do
meridiano central (MC). Para manter a proporcionalidade da projeção conforme, a
escala na direção Norte-Sul também é distorcida resultando na existência de uma
escala diferente para cada ponto situado sobre o mesmo lado do meridiano.

3 DETERMINAÇÃO DO MERIDIANO CENTRAL DO SISTEMA UTM

O meridiano central (MC) é determinado considerando-se que a sua


variação ocorre de 6º em 6º. O primeiro meridiano central possui longitude igual a
177º W (-177º), para o Fuso 1, enquanto que o último, no lado Oeste (W) possui
longitude igual a 3º W (-3º), para o Fuso 30. Os meridianos centrais possuem,
portanto, valores iguais a - 3º, - 9º, - 15º, - 21º, - 51º,... e assim sucessivamente. Para o
lado Leste (E), os meridianos centrais apresentam a mesma série angular, apenas
precedido do sinal positivo e valores crescentes no sentido Leste.
A Figura 5 e a Tabela 1 caracterizam o exposto. A Figura 5 mostra a
localização do Brasil numa faixa de fusos compreendida entre os limites 18 e 25,
correspondendo os meridianos centrais entre os valores de – 75º (75ºW) e – 33º
(33ºW).
Figura 5: Brasil dividido em fusos (Fontes: DSG, 1959)

TABELA 1: Faixa de fusos onde está localizado


o território brasileiro

As relações entre meridianos e fusos são ser estabelecidas mediante as


seguintes expressões:
No do Fuso = (183º - MC)
6

OBS.: o valor angular o meridiano central deve ser em módulo.

MC = (6xFuso – 183º)

• Exemplificando numericamente

O valor do Meridiano Central (MC) para o Fuso 22 vale:

Do exposto,

MC = 6xFuso - 183º ∴ MC = 6 x 22 - 183º ∴

MC = 132º - 183º = - 51º ∴

MC = 51º W

4 COEFICIENTE DE DEFORMAÇÃO LINEAR

Como se pode notar na Figura 5, a quadrícula do sistema não tem


lados paralelos, o que, conseqüentemente, provocará distorções. Com a intenção de
reduzir os efeitos da deformação linear, o sistema propõe um coeficiente de redução
ao longo do meridiano central do fuso com valor K0 = 0,9996, ou seja:

K0 = 1 – 1 /2500 = 0,9996

Sendo o cilindro transverso e secante ao fuso sobre dois meridianos,


“paralelos” ao meridiano central do fuso, tem-se 180 km para cada lado,
aproximadamente, as linhas de secância ao longo das quais a deformação é nula (k =
1). Verifique e analise as Figuras 6 e 7, apresentadas adiante.
Pode-se observar que nos extremos do fuso, ocorre uma deformação da
ordem de 1/1000, perfeitamente aceitável nas dimensões cartográficas.
KO = 0,9996 Meridiano Central (MC)

K=1 K = 1 PLANO SECANTE

K = 1,001 K = 1,001

1º 37´ 1º 37´
1º 23´ 1º 23´
AMPLITUDE DE 6º

AMPLIAÇÃO REDUÇÃO REDUÇÃO AMPLIAÇÃO

Figura 6: Faixa de variação do coeficiente de deformação

K = 1,001 K=1 Mc K=1 K = 1,001


80 ºN

180 Km 180 Km

1º 37´ 1º 37´

AMPLITUDE DE 6º
80 ºS

Figura 7: Faixa de deformação linear de redução,


com cerca de 180 km de largura em
relação ao meridiano central (MC)

4.1 Fator de escala

Alguns autores denominam o coeficiente de deformação como Fator


de escala. A distância plana é obtida multiplicando-se distância elipsoidal,
determinada sobre o elipsóide de referência, pelo fator de escala K, ou seja:
.

dUTM = Kxd ELIP


À medida que nos afastamos do meridiano central, na projeção
U.T.M., as deformações crescem. Para evitar que as transformações tornem-se
exageradas nas bordas dos fusos, adotou-se, para os pontos situados no meridiano
central, o fator K = 0,9996. A partir do MC o fator de escala cresce para o oeste e
para o leste, até atingir o valor K = 1,000, nas linhas de secância; daí em diante
continua a crescer até o valor K = 1,001 nas bordas do fuso. Além dessas bordas
limites do fuso continua a crescer mais ainda.
O valor de K é um valor pontual, variando de acordo com sua posição
na superfície plana, podendo ser calculado pela seguinte expressão:

K = Ko
1/2
[ 1 - cos2(φm)xsen2(λm - λMC)]

onde: KO : coeficiente de deformação linear no meridiano central = 0,9996


λMC : longitude do meridiano central do fuso
λm : longitude média dos valores relativos aos pontos considerados (λ1 , λ2)
φm : latitude média dos valores relativos aos pontos considerados (φ1 , φ2)

4.2 Constantes aditivas

Objetivando evitar pares coordenados com valores negativos, o sistema


estabelece acréscimos das constantes 10.000 km para o Equador (ordenadas) e 500
km para o Leste (abscissas). Deste modo, conforme ilustra a Figura 8, um ponto P
sobre o plano UTM, considerado a Oeste do meridiano central (MC) e ao Sul do
Equador, terá suas coordenadas sempre positivas.

MERIDIANO CENTRAL DO FUSO

EQUADOR

N’
°
10 000.000 m E’

500.000 m

Figura 8: Constantes aditivas do Sistema UTM

O ponto P possui as seguintes coordenadas plano-retangulares:


P : E (m) = 500.000,00 + E’
N (m) = 10.000.000,00 + N’

Onde, E’ e N’ entram com os sinais do quadrante correspondente.

Neste sistema de projeção desenvolvido no plano UTM, ao se definir


em cada fuso o seu próprio sistema de coordenadas plano-retangulares (N,E),
apresenta-se o inconveniente de não se poder relacionar diretamente pontos entre
fusos distintos. Para minimizar esse inconveniente, considera-se uma zona de
superposição de, aproximadamente, 83 km de largura, equivalendo a mais ou menos
30´ de arco de paralelo.
Por outro lado, fórmulas matemáticas foram estabelecidas para se
relacionar as coordenadas UTM de um ponto, em um fuso, com as de outro ponto em
outro fuso adjacente.Verificar a Figura 9.
O sistema UTM identifica as coordenadas, respectivamente com as
letras “N” e “E” visando associar seus valores às coordenadas para o Norte e para o
Leste.
´

Mc Mc

SUPERPOSIÇÃO EQUADOR

Figura 9: Dois fusos contíguos

5 CONVERGÊNCIA MERIDIANA

Os ângulos meridianos no elipsóide são referidos ao Norte Geográfico


(NG) também denominado de Norte Verdadeiro (NV), cuja representação no sistema
plano UTM é dada por uma linha curva côncava em relação ao meridiano central. As
quadrículas UTM, por sua vez, formam um sistema de coordenadas plano-retangular
com a direção dos valores ordenados (Y) orientada na direção Norte-Sul das
quadrículas (NQ). As duas linhas formam, portanto, um ângulo variável para cada
ponto. Denomina-se, então, de convergência meridiana a este ângulo. A Figura 10
ilustra este aspecto.

NQ NV NV NQ

c MC c
c = convergencia meridiana
• P
A •
_ +

Equador
NQ NV
NQ

NV + _ c
c
•B
D•

Figura 10: Convergência meridiana

O ângulo entre a direção do NV (referência) e o norte da Quadrícula


NQ, em um ponto nesta projeção, depende da distância do meridiano central ao
ponto e da latitude do ponto. Vide Figura 10.
A convergência meridiana, no Hemisfério Sul, é positiva para os
pontos situados a Oeste do meridiano central e negativa, para os pontos situados a
Leste do MC. O inverso acontece no Hemisfério Norte.
Um cálculo aproximado do valor da convergência meridiana pode ser
obtido pela seguinte fórmula:

C = Δλ sen(ϕ)
sendo:
C = Convergência Meridiana
Δλ = Diferença de longitude entre o ponto dado e a longitude do
meridiano central (Mc) ∴ Δλ = |λ - MC| (módulo)
ϕ = latitude do ponto dado.

• Exemplificando numericamente:

O valor da convergência meridiana para o ponto localizado na posição


geodésica de coordenadas:
ϕ = - 21º46´12,232 “
λ = - 43º21´51,371” (Sul)
MC = - 45º

Resposta: Δλ = |- 43º21´51,371” – (-45º | = 1º38´08,629” ∴


C = 1º38´08,629”xsen(-21º46´12,232”) = - 0º36´23,899”

No estudo da convergência meridiana devem-se elaborar cálculos tanto


para o Elipsóide SAD 69 quanto para o elipsóide WGS-84.
Vale destacar que o ângulo formado entre a direção do meridiano
geográfico (NV/NG) e o meridiano magnético (NM) é denominado de declinação
magnética. Em razão deste aspecto pode-se estabelecer a seguinte combinação:

NM NQ NG
Convergência meridiana

Declinação magnética

Figura 11: As três direções referenciais

6 QUADRÍCULA UTM

Em obediência às normas elaboradas por Organismos e Associações


Internacionais, o Brasil, assim como outros países, adotaram o sistema de quadrículas
UTM para cobrir a superfície do elipsóide compreendida entre os paralelos 80º N e
80º S (160º intervalo de latitude). No sistema de quadrículas UTM, cada um dos 60
fusos de amplitude meridiana iguais a 6º se divide entre os paralelos 80º N e 80º S
em 20 bandas ou zonas, cada qual com amplitude de 8º. Como são 60 fusos no sentido
Leste/Oeste, ter-se-á a formação de 1200 zonas, cada uma com 6º de longitude por 8º
de latitude, constituindo-se na quadrícula básica da Q.U.T.M.
A cada uma dessas zonas se designa por uma letra maiúscula, de C até
X, a partir do paralelo - 80ºS na direção Norte. As letras A, B, I, O, Y e Z não
serão utilizadas.
A combinação de letras como os números dos fusos, permite que
cada zona fique assim determinada sem duplicidade.
A cidade de Salvador -Bahia, por exemplo, encontra-se na zona
24 L ver a Figura 12). Esta zona encontra-se compreendida pelos meridianos de
longitudes - 36º e - 42º e paralelos de latitudes - 8º e - 16º. Veja Figura 12,
apresentada a seguir:
HN HS

Figura 12: Designação das zonas no sistema QUTM

6.1 Síntese dos principais elementos e especificações do Sistema UTM


• Limites

Propõe o Sistema UTM que a superfície de projeção seja limitada por


meridianos múltiplos de 6º, coincidentes com os fusos da Carta Internacional ao
Milionésimo - CIM, no sentido Leste-Oeste.
No sentido dos pólos, a partir do Plano do Equador, deve ser limitada
na latitude de 80º para o Norte e na latitude 80º para o Sul, coerentemente com o
sistema de projeção conforme de Gauss, que lhe dá apoio.

• Coeficiente de deformação

Com a intenção de reduzir mais ainda os efeitos das deformações


lineares, o Sistema UTM propõe coeficientes de redução/ampliação lineares,
conforme discriminados a seguir:

o No centro do fuso: K = 0,996 (ao longo do MC)


o A 180 km, para à esquerda ou à direita do MC ( ±1º37’): K = 1,000
o Nos limites Oeste/Leste do fuso: K = 1,001

• Eixos cartesianos

Com a adoção dos fusos coincidentes com os da Carta Internacional ao


Milionésimo, a origem do sistema dos eixos coincide com o cruzamento do meridiano
central de cada fuso com a Linha do Equador.

• Constantes aditivas

Para se evitar valores negativos para as coordenadas plano-retangulares


UTM, o sistema propõe o acréscimo das seguintes constantes:

o 10.000 km para o Equador


o 500 km para o meridiano central (MC)

Desta forma, conforme ilustra a Figura 8, o ponto P considerado a


Oeste do meridiano central e ao Sul do Equador (sinais negativos) terá suas
coordenadas sempre positivas.
O Sistema UTM propõe as letras N e E precedendo os valores das
ordenadas e abscissas, respectivamente, em vez de Y e X, visando com isto associar
aos seus valores a idéia de coordenadas positivas para o Norte (N) e para o Leste (E).
Por exemplo, para um ponto P qualquer:

EP = 323.300,200 m
NP = 7.394.477,895 m

Numa primeira análise sobre os valores das coordenadas, pode-se


afirmar que:
o O ponto P está localizado no Hemisfério Sul, porque o valor de N é menor que a
constante aditiva equatorial igual a 10.000.000,00 m;

o O ponto P está localizado a Oeste do Meridiano Central, porque o valor de E é


menor que a constante aditiva igual a 500.000,00 m.

6.2 Mapa no plano UTM