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26/03/2018 Marcel Mauss

 
Marcel Mauss
Ensaios de Sociologia
or. ed. de Minuit, 1968.
ed.  Perspctiva, S. Paulo 1999
 
1. Sociologia (1901)*
 
 
Paul Fauconnet e Marcel Mauss
 
Palavra criada por Augusto Comte para designar a ciência das sociedades.
Ainda que a palavra seja formada por um radical latino e uma desinência grega e
por esta razão os puristas, por muito tempo, se tenham recusado reconhecê-la,
encontra-se hoje na posse do direito de cidadania em todas as línguas européias.
Procuraremos determinar sucessívamente o objeto da sociologia e o método que
ela emprega. A seguir indicaremos as principais divisões da ciência que se constitui
sob este nome.
Notar-se-á, sem dificuldade, que nos inspiramos diretamente nas idéias
expressas por Dttrkheim em suas diferentes obras. Se, além disso, as adotamos,
não é somente porque nos parecem justificadas por razões teóricas, mas também
porque nos parecem exprimir os princípios pelos quais as diversas ciências sociais,
no curso de seu desenvolvimento, tendem a tornar-se sempre mais conscientes.
 
1. OBJETO DA SOCIOLOGIA
 
Pelo fato de a sociologia ser de origem recente e por estar apenas saindo do
período filosófico, ainda acontece contestar-se-lhe a possibilidade. Todas as
tradições metafísicas que fazem do homem um ser à parte, fora da natureza, e
que vêem em seus atos fatos absolutamente diferentes dos fatos naturais,
resistem aos progressos do pensamento sociológico. Mas o sociólogo não precisa
justificar suas pesquisas por meio de uma argumentação filosófica. A ciência
 
* Artigo tirado da Grande Encyclopédic, vol. 30, Sociedade Anônima da Grande Enciclopédia, Paris. [Trad. bras,

feita a partir das Oeuvres, Paris, Les Editions de Minuit, 1968-69, v. III, pp. 139-177.]
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acidentais e locais determinadas por causas cósmicas, mas também
acontecimentos normais, regularmente repetidos, que interessam a todos os
membros do grupo sem exceção, podem estar totalmente privados do caráter de
fatos sociais. Por exemplo, todos os indivíduos, com exceção dos doentes,
desempenham suas funções orgânicas em condições sensivelmente idênticas; o
mesmo se passa com as funções psicológicas: os fenômenos de sensação, de
representação, de reação ou de inibição são os mesmos em todos os membros do
grupo e são submetidos todos às mesmas leis que a psicologia pesquisa. Mas
ninguém sonha em dispô-los na categoria dos fatos sociais apesar de sua
generalidade. E que não se referem de forma alguma à natureza do agrupamento,
mas derivam da natureza orgânica e psíquica do indivíduo. Por isso são os mesmos,
seja qual for o grupo ao qual o indivíduo pertence. Se o homem isolado fosse
concebível, poder-se-ia dizer que seriam o que são mesmo fora de toda sociedade.
Se, pois, os fatos de que são teatro as sociedades só se distinguissem entre si por
seu grau de generalidade, não haveria fatos dignos de serem considerados como
manifestações próprias da vida social e, por conseguinte, susceptíveis de
constituírem o objeto da sociologia.
No entanto, a existência de tais fenômenos é de tal evidência que pôde ser
assinalada por observadores que não pensavam na constituição de uma sociologia.
Observou-se com freqüência que uma multidão, uma assembléia não sentiam, não
pensavam e não agiam como teriam feito indivíduos isolados; observou-se,
outrossim, que os agrupamentos mais diversos, uma família, uma corporação, uma
nação possuíam um “espírito”, um caráter, hábitos como os indivíduos têm os seus.
Por conseguinte, em todos os casos sente-se perfeitamente que o grupo, a
multidão ou a sociedade têm verdadeiramente uma natureza própria, que ele
determina nos indivíduos certas maneiras de sentir, de pensar e de agir, e que
estes indivíduos não teriam nem as mesmas tendências nem os mesmos hábitos
nem os mesmos preconceitos se houvessem vivido no meio de outros grupos
humanos. Ora, esta conclusão pode ser generalizada. Entre as idéias que teria, os
atos que realizaria um indivíduo isolado, e as manifestações coletivas, há tal
abismo que estas ultimas devem ser referidas a uma natureza nova, a forças sui
generis: caso contrário, permaneceriam incompreensíveis.
 

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ver- se-iam condenados à ruína inevitável. das formas do casamento e das relações domésticas. de~ uma parte. explicar nem a complexidade. por conseguinte. tem um gênio particular. estas necessidades determinariam. lucro. podem. crédito. sabemos que o casamento não é apenas um acasalamento. implica uma certa maneira de perceber. mas ainda e sobretudo a maneira pela qual se impõem ao indivíduo. Por SOCIOLOGIA ENSAIOS DE SOCIOLOGIA conseguinte. divisão extrema do trabalho. a observação histórica nos ensina que os tipos de casamentos e de famílias foram e ainda são extremamente numerosos e variados. Pense-se no número considerável de noções. o salário.26/03/2018 Marcel Mauss Tomemos. o luxo. para explicá-las. e estes mesmos homens não inventaram os dogmas nem os ritos. Assim é que. nem a autoridade pela qual estas maneiras de pensar e de agir se impõem a todos os membros da Igreja. tão individual jamais existiu. que além disso lhe são inspirados pela Igreja. renda. o gosto pelo empreendimento. na maioria dos casos. se se quiser. os sentimentos religiosos muito generosos que se costuma atribuir ao homem e mesmo aos animais respeito ou temor a seres superiores. ou ainda. Às vezes é a própria lei que o obriga. do indivíduo humano. um processo complicado. o produto da cultura social. do produtor que quisesse consumir seus próprios produtos. orgânícas e psicológicas. a tradição lhos ensinou e eles velam sobretudo para preservá-los de toda alteração.   Poderia parecer que as relações matrimoniais e domésticas são necessariamente aquilo que são em virtude da natureza humana. de analisar e de coordenar. por si sós. recordar algumas propriedades muito gerais. conhece muito mal estes dogmas e estes ritos. um pequeno número de atos muito simples que constrastam. totalmente elaborada e que é obrigada a receber e a empregar assim. associação de capitais. que ela recebe. Por ser homem. por exemplo. Este está mais ou menos obrigado a se lhe conformar. com resistências de opinião muito vivas. Outras vezes é a força das coisas contra a qual o indivíduo se faz em pedaços se procurar insurgir-se contra elas: é o caso do comerciante que quisesse renunciar ao crédito.pt/~eje/mauss_ensaios_de_sociologia. o intercâmbio ou a moeda. ativa do indivíduo. e sua vida religiosa consiste essencial-mente numa participação longínqua nas crenças e nos atos de homens especialmente encarregados de conhecer as coisas sagradas e de entrar em contato com elas.   Da mesma forma. visto que não existem entre certos povos e variam infinitamente no interior de ~ma mesma sociedade. de acordo com as camadas da população. todos nós sabemos que as relações domésticas não são exclusivamente afetivas. da maneira mais pronunciada. etc. existem vínculos jurídicos que se constituíram sem nosso consentimento. uma língua cujo vocabulário e cuja sintaxe têm uma idade multissecular. Mesmo os sentimentos que parecem totalmente espontâneos. na realidade. é manifesto que nem um nem outro cria as formas que sua atividade necessariamente assume: nem um nem outro inventa o crédito. moeda. em geral. Tudo o que se pode atribuir a cada um deles é uma tendência geral a conseguir os alimentos necessários para proteger-se contra as intempéries. em nenhum grau.htm 2/15 . tão indeterminada. de instituições. tal língua não seria instrumento útil à expressão de seu pensamento. são. para serem satisfeitas. pois. cujas origens são desconhecidas. o industrial era obrigado a fabricar produtos de medida e qualidade determinadas. Mas. condená-la-ia ao isolamento e a uma espécie de morte intelectual. é que http://evunix. nem o sistema complexo das representações e das práticas que constituí uma religião. pelo uso e pelo estudo. de hábitos que supõem os mais simples atos de um comerciante ou de um operário que procura ganhar sua vida. às vezes extraordinária. — tormento do infinito — só poderiam gerar atos religiosos muito simples e indeterminados: cada homem. Em vão tentaria criar para seu uso uma língua original: além de não passar de uma imitação canhestra de algum outro idioma já existente. representaria a seu modo os seres superiores e manifestar-lhes-ia seus sentimentos como lhe parecesse conveniente fazê-lo. não há muito. numa palavra. existem antes dele como existirão depois dele. E evidente que nem as tendências orgânicas do homem a acasalar-se e a procriar. as práticas segundo as quais se desenvolve a vida afetiva. de outra parte. Ora. Ora. sob o império de suas emoções. são as formas principais de nosso pensamento que a coletividade nos impõe. ou o costume tão imperativo como a lei. uma religião tão simples. com as formas muito complexas nas quais o homem econômico encerra hoje sua conduta. que ainda agora está sujeito a todos os tipos de regulamentos. nem mesmo os sentimentos de ciúme sexual ou de ternura paterna que aliás se lhe emprestariam gratuitamente. as manifestações da vida econômica das sociedades modernas do Ocidente: produção industrial das mercadorias. Pois uma língua não é somente um sistema de palavras. pelo grupo religioso a que pertence. que podemos não conhecer. O fiel acredita em dogmas e age segundo ritos inteiramente complicados. nem sobretudo o caráter obrigatório dos costumes matrimoniais e domésticos. E não é somente a complexidade destas formas que dá testemunho de sua origem extra- individual. a parcimônia. como o amor pelo trabalho. E. salário. sem variações consideráveis. O simples fato de derrogar as regras e os usos tradicionais já se chocaria. que a lei e os usos impõem ao homem que esposa uma mulher atos determinados. sem nosso conhecimento. que ninguém pode recusar-se a receber como pagamento a moeda legal pelo seu valor legal. etc. pela língua. e que basta.   A linguagem é outro fato cujo caráter social aparece claramente: a criança aprende. ela nos revela a complicação. Os sentimentos individuais de nenhum fiel explicam. sabemos que entre nós e os pais. pelo ganho.uevora. intelectual. Desta forma. do tra- balhador que quisesse recriar por si só as regras de sua atividade econômica. comércio internacional. o lucro.

E sabido que as cifras que exprimem o número dos casamentos. densidade.htm 3/15 . e. os costumes. ao contrário. nos são de todo impostos a partir de fora. Estes hábitos coletivos e as ~~ansformaçõe5 pelas quais passam incessantemente: eis o objeto próprio da sociologia. mais ou menos inconscientes. sabe-se que o sistema do poder patriarca1 tem relação com o regime da cidade. não é por desvios abruptos e irregulares. Enfim. as máximas da moral.   Num grande número de casos.) a explicação dos fenômenos sociais que aí se produzem: mostram-se. Sua constância e sua regularidade são ao menos iguais àquelas dos fenômenos que. Por exemplo. uma multidão de regras jurídicas. e como exige que seus membros ajam. perdas e danos ou prisão.   Existem. São as usanças. Esta interdependência dos fenômenos seria inexplicável se estes fossem os produtos de vontades particulares e mais ou menos caprichosas. portanto não são estas causas que podem explicar a taxa do casamento ou do crime numa determinada sociedade. Entre estes hábitos distinguem-se diferentes espécies.   Além disso. é óbvio que exprimem este último. Desejar-se-ia ainda conhecer o sinal pelo qual se pode distingui-los. se diverte. mas se é determinado a agir por tendências que são comuns a todos os homens. E mister admitir a existência de certos estados sociais. nos meios comerciais. Mas não basta ter estabelecido sua existência por um certo número de exemplos e por considerações gerais. exprime-se por idéias ou atos que. pois. Não se compreenderia. os preceitos do ritual. modo de composição. etc. é claro que as causas que levam tal ou tal indivíduo ao casamento ou ao crime são totalmente particulares e acidentais. distintos daqueles que estudam as outras ciências que tratam do homem. como a forma do habitat condiciona a organização doméstica. o fenômeno é da mesma natureza. etc. ENSAIOS DE SOCIOLOGIA Outra prova pode ser tirada da observação das estatísticas. são eles que constituem a matéria da sociologia. das religiões. mas geralmente com lentidão e ordem. a sociedade lembra-lhes o caráter obrigatório de sua ordem infligindo-lhes uma sanção. em ambos os casos.. Trata-se. Ora. Outros continuam de forma não expressa e difusos. totalmente diferentes dos estados puramente individuais. a partir de agora é possível provar diretamente que estes hábitos coletivos são as manifestações da vida do grupo como grupo. o fenômeno é sempre o mesmo: o grupo protesta contra a violação das SOCIOLOGIA     http://evunix. Trata-se sempre de maneiras de agir ou de pensar. se . Toma-se consciência deles e são consignados em fórmulas escritas ou orais que exprimem como o grupo tem o costume de agir. tornou comum a idéia de que certas insti- tuições formam com certas outras um sistema. pois. Ora. religiosas e morais são rigorosamente obrigatórias. se eles são produtos de forças impessoais que dominam os próprios indivíduos. como a mortalidade. que condicionam a nupcialidade e a criminalidade. as ~odificaçõe5 profundas que a aglomeração urbana acarreta para uma civilização agrícola. os historiadores habituaram-se a mostrar as relações que vigoram entre as diferentes instituições de uma mesma época. dependem sobretudo de causas físicas.uevora. De modo geral. nem mesmo em que consistem exatamente. De acordo com o que acabamos de dizer. Gravadas no fundo do coração ou expressas por fórmulas legais. nem de confundi-los com os fenômenos que dependem de outras ciências. como a psicologia. a não isolar uma instituição do meio em que apareceu. por exemplo. em todo caso. simples notação de excentricidade. são notavelmente constantes ou que. em graus diversos e sob formas diversas. A história comparada do direito. Mas. dos suicídios. dos crimes numa sociedade. é-se cada vez mais levado a procurar nas propriedades de um meio social (volume.pt/~eje/mauss_ensaios_de_sociologia. de modo a não correr o risco nem de deixá-los escapar. sabe-se que existem vínculos entre o totemismO e a exogamia. entre uma e outra organização do clã. em virtude de sua própria organização. as formas precisas que assume sua atividade em cada momento da história dependem de condições totalmente diferentes que variam de uma sociedade para outra e mudam com o tempo no seio de uma mesma sociedade: é o conjunto dos hábitos coletivos. os artigos do dogma. por exemplo. A maior parte dos indivíduos obedecem-lhes.26/03/2018 Marcel Mauss ele come. a natureza social tem como característica precisamente o fato de ser adicionada à natureza individual. excomunhão ou morte. Sejam quais forem a natureza e a intensidade da sanção. Uns exigem a reflexão em conseqüência de sua própria importância. que a taxa de suicídio fosse uniformemente mais elevada nas sociedades protestantes do que nas sociedades católicas. o caráter obrigatório que marca as maneiras sociais de agir e de pensar é o melhor dos critérios que se possa desejar. de que as primeiras não podem transformar-se sem que as segundas também se transformem. as superstições populares que se observam sem saber que se está obri- gado a isto. entre uma e outra prática. pensa. no mundo comercial do que no mundo agrícola. etc. estas fórmulas imperativas são as regras do direito. censura. fenômenos propriamente sociais. se variam. explica-se. 1’-. de descobrir este sinal de exterioridade. espontaneamente obedecidas ou inspiradas por via da coerção. dos nascimentos. se as instituições dependem umas das outras e dependem todas da constituiçãO do grupo social.não se admitisse que uma tendência coletiva ao suicídio se manifesta nos meios protestantes. etc. consagradas pela tradição e que a sociedade impõe aos indivíduos. mesmo quando contribuímos para produzi-los. desprezo público. mesmo aqueles que as violam sabem que faltam a uma obrigação.

em princípio. embora menos imediatamente aparente. nem sanções definidas. elemento essencial do sentimento de obrigação. a totalidade das sociedades de que é membro. Se. uma vez que não é o seu autor. toda obrigação implica uma autoridade superior ao sujeito obrigado. pois. porque todos estes fenômenos são da mesma natureza e só diferem quanto ao grau. SÓ se poderia encontrar. prescritas. é o procedimento graças ao qual a criança é rapidamente socializada. além disso. mais ou menos completas. preestabelecidos. e que lhe inspira o respeito. se exclui a jntervençãO de seres sobrenaturais. como sociais e que. a derrogação não são. nem pensamento nem atividade próprios. a palavra. da mesma forma a ciência da sociedade é a ciência das instituições assim definidas. a coisa fixa. não sem razão. são. as operações econômicas. a própria vestimenta assumem freqüentemente um caráter religioso. a instituição é o passado. fora e acima do indivíduo. portanto. ela é incontestável porque cada indivíduo’ os encontra já formados e como que instituidos. quer especial. jurídicas e mesmo religiosa. Mas.htm 4/15 . nunca são e nem podem ser mais do que transformações mais cu menos rápidas. Com efeito. As revoluções jamais consistiram na brusca substituição integral de uma ordem estabelecida por uma ordem nova. E. Entendemos. de onde poderiam vir? Uma regra a qual o indivíduo se julga sujeito não pode ser obra deste indivíduo: pois. este protesto só pode ter um sentido: é que as maneiras de pensar e de agir que o grupo impõe são maneiras próprias de pensar e de agir. Seja ou não proibido ao indivíduo af astar-se deles. para que nossa definição abrace todo o definido. em suma. a religião formam uma parte notável da vida social. Mas as únicas sociedades sem instituições são agregados sociais ou bastante instáveis e efêmeros como as http://evunix. A educação é precisamente a operação pela qual o ser social é acrescentado em cada um de nós ao ser individual. por definição. Na maior parte dos casos. desde as variações cotidianas da moda até as grandes revoluções políticas e morais. dir-se-á. que é uma instituição se não um conjunto de atos ou de idéias que os indivíduos encontram diante de si e que mais ou menos se lhes impõe? Não há razão alguma para reservar exclusivamente. a instituição assim concebida não passa de uma abstração. é. modificações de instituições existentes. o indivíduo parece amplamente autônomo. já existem a partir do momento em que ele se consulta para saber como deve agir. Porque o direito. pois. derrogando-as. uma única fonte de obrigação: a sociedade ou.pt/~eje/mauss_ensaios_de_sociologia. A instituição é. melhor. por assim dizer. esta expressão às disposições sociais fundamentais. Na realidade. que não restrinjamos a sociologia ao estudo da instituição suposta imóvel. Mesmo nas sociedades inferiores quase não há manifestações coletivas que não se enquadrem numa destas categorias. que ele os recebe de fora.   Seria bom que um termo especial designasse estes fatos especiais e parece que a palavra instituições seria o mais apropriado. Se não tolera que sejam derrogadas. Por isso vemo-los por assim dizer. objetos da sociologia. O homem não tem aí. mudam sem cessar: as regras da ação não são nem compreendidas nem aplicadas da mesma forma a momentos sucessivos.uevora. um conjunto de fenômenos sociais facilmente reconhecíveis e que são de primeira importância. funcionam e se transformam em diferentes momentos que constituem os f enômenos propriamente sociais.   Aí está. são modelos de conduta que eles lhe propõem.   Efetivamente. e quão longe estava o indivíduo de poder agir livremente nestas matérias. não a coisa viva. basta que não nos atenhamos a uma fórmula estritamente estática.   Os únicos fatos que poderíamos considerar. que se faz esta penetração. Ora. diminui-se e destrói- se esta personalidade. Produzem-se novidades a cada instante nas sociedades. a moral. Assim é que cada geração recebe da geração mais velha os preceitos da moral. Mas todas estas mudanças são sempre. pois.26/03/2018 Marcel Mauss regras coletivas do pensamento e da ação. as regras da polidez usual. o ser moral ao ser animal. quer geral. por conseguinte. os preconceitos e as superstições como as constituições políticas ou as organizações jurídicas essenciais. mesmo quando as fórmulas que as exprimem permanecem literalmente as mesmas. num dado momento. por esta palavra tanto os usos e os modos. porquanto estas são as únicas que existem. tais como se formam. E. Portanto é mister procurar outro critério que permita distinguir estes hábitos cuja natureza especial não é menos incontestável. nas sociedades superíore5~ há um grande número de casos em que a pressão social não se faz sentir sob a forma expressa de obrigação: em matéria econômica. entretanto. na ordem social aquilo que é a função na ordem biológica: e assim como a ciência da vida é a ciência das funções vitais. Contudo não existe aí obrigação proclamada. é que vê nelas as ~~nifestaçõe5 de sua personalidade e que. como de ordinário se faz. Isto não significa que toda coerção esteja ausente: mostramos atrás os aspectos sob os quais ela se manifestava na ordem econômica e lingüística. se as regras do pensamento e da ação não tivessem uma origem social. São portanto as instituições vivas. por conseguinte obrigatório. As verdadeiras instituições vivem.   Mas. sua língua. Estas observações nos fornecem uma característica do fato social muito mais geral do que a precedente: são sociais todas as maneiras de agir e de pensar que o indivíduo encontra preestabelecidas e cuja transmissão geralmente se faz por meio da educação. dificilmente entrariam na definição das instituições. em graus diversos. Nada vem do nada: as instituições novas só podem ser feitas com as antigas. seus gostos fundamentais. isto é. da mesma forma como cada trabalhador recebe de seus predecessores as regras de sua técnica profissional. a inovação. é por intermédio da educação. penetrar nele a partir de fora. são aqueles que se produzem nas sociedades sem instituições.

mas somente sociedades em vias de formação. como explicar estas transformações. mas como hoje não é mais possível sustentar que a humanidade segue um caminho único e se desenvolve num único sentido. Spencer consagrou quase todo o primeiro volume de sua Sociologia ao estudo do homem primitivo físico. O futuro certamente substituirá estes critérios por outros menos defeituosos. Spencer e Tarde procedem desta forma. Por princípiO e por método ela negligencia. enquanto que as outras desaparecem antes de se constituírem definitivamente. se há um modo de explicação sociológico que não se confunda com algum outro. e este. Os fenômenos de que se trata não são propriamente sociais mas em vias de se tornarem sociais. privados de fundamento. como exemplo as instituições do casamento e da família. ou então em curso de formação. Se.htm 5/15 . varia muito de uma sociedade para outra. assinala as etapas que julga terem sido ne- cessárias para aproximar-se de tal objetivo. Não deve. Portanto. na natureza individual do hotno occonomicus. desde que se distinguiu o objeto próprio da sociologia. O que caracteriza a explicação filosófica é que ela supõe o homem. salvo talvez na aparência. e as instituições jurídicas são. visto que existem fatos propriamente sociais. encontramo-nos aqui nos lindes que separam o reino social dos remos inferiores. problemas precisos se colocam: como se formaram os diferentes sistemas matrimoniais e domésticos? E possível uni-los entre si. Ora. Não só deixa de lado. mais do que fazer descobertas sociológicas. Tarde vê nas leis da imitação os princípios supremos da sociologia: os fenômenos sociais são modos de ação geralmente úteis.     Da explicação sociológica   Assim a sociologia tem um objeto próprio. isto é. o homem toma consciência de si. construiu uma filosofia da história. de acordo com leis de evolução muito gerais. procuram na natureza do indivíduo as causas determinantes pelas quais tentam explicar os fatos sociais. só por isso. As relações sexuais estão sujeitas a regras muito complicadas: a organização familial. a realizar sua natureza social. a maior parte da realidade histórica. Da mesma forma. realidades sociais. de fato.   A insuficiência destas soluções aparece claramente desde que se reconheceu que existem fatos sociais. Com efeito. os teóricos do direito natural buscam os caracteres jurídicos e morais da natureza humana. todos estes sistemas encontram-se. em tal espécie de sociedades. pelas propriedades desta natureza primitiva é que explica as instituições sociais observadas entre os povos mais antigos ou mais selvagens. Basta ter mostrado que existem fatos que merecem ser designados desta forma e ter indicado alguns sinais pelos quais se podem reconhecer os mais importantes dentre eles. O primeiro modo de explicação que foi metodicamente aplicado a estes fatos éaquele que por muito tempo esteve em uso naquilo que se convencionou chamar a filosofia da história. Não           14          ENSAIOS DE SOCIOLOGIA          SOCIOLOGIA          15   procura explicar por que. resta-nos ver se satisfaz à segunda das condições que indicamos. instituições que em seguida se transformam no decurso da história. o pormenor para ater-se às linhas mais gerais. os fenômenos sociais são as mani- festações da vida dos grupos como grupos. a seus olhos. mas nao constituem seu objeto próprio. http://evunix. com a diferença que umas estão destinadas a ir até o fim de seu desenvolvimento. Encontra-se o mesmo procedimento de explicação em certas ciências especiais que são ou deveriam ser sociológicas. a humanidade em geral predisposta por sua natureza a um desenvolvimento determinado cuja orientação toda se procura descobrir por uma investigação sumária dos fatos históricos. Assim é que os economistas clássicos acham. em tal época de seu desenvolvimento. as relações econômicas deviam ser necessariamente tais e tais. depara com tal ou tal instituição: procura somente pesquisar em que direção tende a humanidade.uevora. Sob o pretexto de que a sociedade só éformada por indivíduos. quais são suas condições? De que modo as formações da organização familial afetam as organizações políticas e econômicas? De outro lado. apresentandose as primeiras como o produto da transformação das segundas? Se isto é possível. está estritamente ligada à organização política. Por exemplo. tentativas mais ou menos felizes para satisfazer os rigores desta natureza. pode-se dizer que umas e outras ainda não são sociedades propriamente ditas. Não há dúvida de que a sociologia não pode desinteressar-se deles. dis- tinguir formas posteriores e formas anteriores. mais uma vez. além disso. e os direitos positivos são realizações aproximativas do direito que ele traz em si. Além disso. pois. isto é. emo- cional e intelectual. os princípios de uma explicação su- ficiente de todos os fatos econômicos: como o homem procura sempre a maior vantagem a preço do menor esforço. à organização econômica que também apresentam diferenças características nas diversas sociedades. arbitrariamente. são demasiadamente complexos para que considerações relativas à natureza humana em geral possam explicá-los. Foi da filosofia da história que nasceu a sociologia: Comte éo sucessor imediato de Condorcet. aos poucos. Mas as explicações que ainda hoje se encontram em certas doutrinas sociológicas não diferem muito das precedentes.pt/~eje/mauss_ensaios_de_sociologia. E inútil demonstrar a insuficiência de tal explicação. muito estável numa mesma sociedade. a filosofia da história foi a forma de especulação sociológica imediatamente anterior à sociologia propriamente dita. pois. surpreender que não possam entrar exatamente nos quadros de alguma ciência.26/03/2018 Marcel Mauss multidões. pela análise precedente~ de forma alguma procuramos descobrir uma definição completa e definitiva de todos os fenômenos sociais. inventados por certos indivíduos e imitados por todos os outros. Tomemos. Se nisto consistem os fenômenos sociais que se trata de explicar.

é considerado como artificial e acidental. Deste ponto de vista. deveremos confessar que a maior parte da realidade social. como ele. pois. separados de todo meio definido. todas as instituições muito determinadas. Em terceiro lugar. na intimidade destes povos. Isto significa aniquilar. e contentar-se em pedir à filosofia e à psicologia algumas indicações muito gerais sobre os destinos do homem que vive em sociedade. quer os produtos da atividade individual dos legisladores. mas os isolam arbitrariamente e os apresentam fora do tempo e do espaço. entretanto. as propriedades essenciais da natureza humana são as mesmas em toda parte. mas aquelas de que vamos falar aparecem exclusivamente nos historiadores. O que existe é o direito de propriedade tal como é ou foi organizado. alcançar os lineamentos inteiramente gerais. Mas semelhantes explicações são. os próprios fatos sociais. tendência a posse exclusiva e ciumenta de uma só mulher. às servidões. amor maternal e paternal. os objetos próprios da ciência sociológica. de acordo com os tempos e os lugares. em cada época da história. constituem o direito de propriedade. com a multidão dos princípios que o determinam. seus caracteres próprios. não determinam entre os fenômenos nenhuma relação precisa de coexistência ou de sucessão.htm 6/15 .   A estas explicações que se caracterizam por sua extrema generalidade opõem-se aquelas que poderiam ser chamadas as explicações propriamente históricas: isto não significa que a história não tenha conhecido outras. com matizes e graus quase idênticos. com o objeto definido de uma ciência social. isto é. como funciona? A estas perguntas. permanece inexplicado e inexplicável. as únicas exphcaçoes que os his toriadores julgam possíveis só se aplicariam a uma sociedade determinada. que mudanças se produziram! Enfim. nisto. seria ainda necessário investigar por que este regime aparece em determinadas sociedades e não em outras. A sociologia assim entendida só pode. o feudalismo. em suma. Obrigado pelas próprias condições de seu trabalho a apegar-se exclusivamente a uma sociedade e a uma época determinadas. as instituições só podem ser consideradas combinações acidentais e locais que dependem de condições igualmente acidentais e locais. etc. seriam naturais e inteligíveis. e ela parece-lhe como que inseparável destas circunstâncias. não podem explicar estas instituições tão múltiplas. uma ~stituiçãO própria de nossas sociedades medievais. Mesmo que se considerasse como uma exphcaçao da mono-gamia a afirmação de que este regime matrimonial satisfaz melhor que outro os instintos humanos ou concilia melhor que outro a liberdade e a dignidade dos dois esposos. na França contemporânea ou em Roma antiga. é levado a desconfiar de toda comparação. Por conse- guinte. suspeitas do ponto de vista puramente filosófico: consistem simplesmente em atribuir ao homem os sentimentos que sua conduta manifesta. em um certo momento e não em outro do desenvolvimento de uma sociedade. O egoísmo que pode impelir o homem a apropriar-se das coisas úteis não é a fonte destas regras tão complicadas que. e. de incompetência. ao passo que são precisamente estes sentimentos que deveriam ser explicados. Quando estuda uma instituição. a própria ciência social. a não ser unindo-as a alguns elementos muito gerais da constituição orgânico-psíquica do indivíduo: instinto sexual. as tendências 17           16                ENSAIOS DE SOCIOLOGIA indeterminadas do homem não poderiam explicar formas tão precisas e tão completas sob as quais se apresentam sempre as realidades históricas. assumem a tarefa de concatenar acontecimentos http://evunix. os sentimentos de afeição filial são sensivelmente idênticos entre os primitivos e entre os civilizados.pt/~eje/mauss_ensaios_de_sociologia.uevora. Efetivamente.26/03/2018 Marcel Mauss tal regime domésfico. é propenso a acusar de incompreensão. os sociÓlogos que pedem unicamente à psicologia individual o princípio de suas explicações não podem fornecer respostas. todos os traços particulares que dão às instituições. etc. Unicamente os fenômenos que a natureza humana em geral determina. tudo aquilo que distingue as individualidades sociais. tão variadas. Procurando descobrir a mentalidade dos povos cuja história estuda. de toda SOCIOLOGIA     generalização. a família patriarcal será uma coisa essencialmente romana. E no entanto o direito de propriedade in abstracto não existe. etc. Ao passo que os filósofos e os psicólogos nos propunham teorias pretensamente válidas para toda a ~humanidade. como ininteligíveis. aquilo que os torna incomparáveis. Por exemplo. de saída. quer os resultados de invenções fortuitas. aquilo que lhes dá uma fisionomia própria em cada caso isolado. que diferença entre a organização primitiva da família e seu estado atual. são seus caracteres mais individuais que lhe despertam a atenção. aos móveis e aos imóveis. Não admitem que haja causas gerais atuantes em toda parte e cuja pesquisa pode ser utilmente empreendida. todo o pormenor das instituições. E somos assim levados a pôr fora da ciência. horror ao comércio sexual entre consangüíneos. todos aqueles que não viveram. numa palavra. uma vez constituído. vê-se. Além disso. quase inapreensíveis por força da indeterminação das instituições. o historiador tem naturalmente a tendência a ver nos fatos somente aquilo que bs distingue entre si. desta maneira. Como poderiam explicar as formas tão variadas que cada instituição assumiu sucessivamente? O amor paternal e maternal. aos traços de caracteres particulares desta sociedade e desta época. a explicar os fenômenos pelas virtudes ocultas das substâncias. dos homens poderosos que dirigem voluntariamente as sociedades para objetivos entrevistos por eles. sempre idênticos em seu fundo. Se adotarmos tais princípios. a chama pelo flogisto e a queda dos corpos por sua gravidade. familiar ao espírito. entre estes ex- tremos. aqueles devidos às circunstâncias particulares nas quais ela se constituiu ou modificou. considerada em certo momento preciso de sua evolução. à língua. o que se reduz. regras relativas à posse e ao usufruto.

dos direitos e dos costumes revelou a existência de instituições incontestavelmente idênticas entre os mais diferentes povos. as instituições de que se trata não são apenas práticas muito gerais que teriam sido. fora da ciência e da explicação. pois. Segue-se daí que a explicação histórica. Deve. é mister primeiramente opor os ensinamentos devidos ao método comparativo: desde logo a história comparada das religiões. não se trata apenas de mitos importantes como aquele do dilúvio. Por exemplo. só podem ser explicados por causas da mesma natureza que eles. uma visão geral e longínqua da realidade coletiva. com indicar causas muito gerais e muito remotas. é também incapaz de explicar um acontecimento particular. de organizações domésticas como a família maternal. próximas e imediatas. os historiadores só podem perceber as causas por uma intuição imediata. Por isso. Na realidade. acidentais e arbitrariamente concatenados. Procura encontrar entre os fatos não relações de simples sucessão. Por- tanto. Primeiramente não dá apenas como tarefa alcançar os fenômenos mais gerais da vida social. e no entanto é impossível considerá-las como fortuitas: instituições semelhantes não podem evidentemente ter em determinado agrupamentO selvagem causas locais e acidentais. pois.26/03/2018 Marcel Mauss particulares com acontecimentos particulares. existem também lendas muito complexas. mas ainda estas duas formas de partilha correspondem a tipos de família muito diferentes. como se poderia pretender. tornou-se inadmissível explicar os fenômenos comparáveis por causas particulares de uma sociedade e de uma época. todos os fatos que apresentam os caracteres indicados como sendo os do fato social podem e devem ser objetos de pesquisas. como fazem certos soeiólogos. Entre os fatos sociais não há lugar para distinções entre aqueles que são mais ou menos gerais. a bem dizer a sociologia assume SOCIOLOGIA     a tarefa de dar-lhes uma explicação satisfatória para a razão. se não mostra por que razoes existem instituições análogas nestas civilizações aparentes. Só estabelece relação entre fenômenos sociais. Pois é de forma totalmente arbitrária. ô espírito se recusa a considerar como fortuitas a regularidade e a semelhança. inventadas naturalmente por homens em circunstâncias idênficas. a priori. Assim mostrar-nos-á como as http://evunix.htm 7/15 . capazes de produzidos.   De outro lado. explicar fatos definidos por suas causas determinantes.uevora. O mais geral é tão natural quanto o mais particular. supõem nos fatos uma infinita diversidade assim como uma infinita contingência. e por conseguinte completamente irracional. e em determinada sociedade civilizada outras causas igualmente locais e acidentais. só oferece à inteligência fenômenos ininteligíveis porque são concebidos como singulares. Do mesmo modo.pt/~eje/mauss_ensaios_de_sociologia. Por conseguinte1 não se contenta. não somente não é um fato acidental que a partilha seja feita por estirpes ou por cabeças. tal como deve ser concebida se aceitarmos a definição que propusemos do fenômeno social. Com efeito. Desde que se constataram estas semelhanças. Quer mostrar como os fatos sociais se produziram e quais as forças de que resultam. e. é inconcebível que se possa assinalar como causa destas concordâncias a imitação de uma sociedade pelas outras. que ela possa negligenciar como despido de interesse científico. A partir do momento em que pretendem explicar um fato único por outro fato único. mas é uma análise mais profunda desta realidade e quanto possível completa. Não há fato.   Totalmente outra é a explicação propriamente sociológica. Mas estas relações de pura sucessão nada têm de necessário nem de inteligível. pretende às vezes explicar os fatos concatenando-os cronologicamente entre si. operação que escapa a toda regulamentação assim como a todo o controle. usos totalmente particulares1 práticas tão estranhas como as da incubação ou do levirato. os processos indutivos só são aplicáveis lá onde uma comparação é fácil. descrevendo detalhadamente as eircuns 1Y           18          ENSAIOS DE SOCIOLOGIA     tâncias nas quais se produziu um acontecimento histórico. o regime penitenciário de uma sociedade é extremamente interessante para quem quer estudar o estado da opinião referente à pena nesta sociedade. de modo algum metódica. Visto que os fatos sociais são específicos. superstições.   A este método estritamente histórico de explicação dos fatos sociais. Obriga-se ao estudo do pormenor com uma preocupação de exatidão tão grande como aquela do historiador. De outro lado.   E verdade que a história. ambos são igualmente explicáveis. mas relações inteligíveis. A sociologia assim entendida não é. a ordem sucessorial está em íntima relação com a constituição da família. em todo caso insuficientes e sem relação direta com os fatos. Existem fatos que o sociólogo não pode atualmente integrar num sistema. de práticas jurídicas como a vingança do sangue. de ritos como aquele do sacrifício. E desde já podem-se citar fatos que pareciam de mínima importância e que são no entanto sintomáticos de estados sociais essenciais que podem ajudar a compreender. incapaz de fazer compreender as semelhanças observadas. que os historiadores atribuem um acontecimento a outro acontecimento que denominam sua causa. a explicação sociológica procede partindo de um fenômeno social para outro. enquanto os historiadores descrevem os fatos sem explicá-los. por mais insig- nificante que seja. mas não há fatos que ele tenha o direito de pôr. a partir do momento em que não admitem que haja entre os fatos vínculos necessários e constantes.

no fundo. Toda sua força viva lhes vem dos sentimentos de que são objeto. o sentimento que tem de si mesmo ou de seus próprios interesses. A vida psíquica da sociedade é. efetivamente. se as mudanças da estrutura social agem sobre as ~nstituiçoe5. poder-se-ia dizer que a sociologia é uma psicologia. Da mesma forma. de coalescência. “simbolizam”) sua estrutura atual. as representações de que trata a primeira são de natureza totalmente diversa daquelas de que trata a segunda. as consciências de que é formada a sociedade estão aí combinadas sob formas novas de onde resultam as realidades novas. nas consciências. as sanciona. cada autor acaba por constituir sua própria sintaxe. representações coletivas que são distintas das representações individuais. Do mesmo modo.uevora. para compreendê-los. E o que se deduz daquilo que dissemos a propósito dos caracteres do fenômeno social. as sociedades só são constituídas de indivíduos e. Não somente as re- presentações coletivas são feitas de outros elementos que não as representações individuais. de distritos rurais a distritos industriais. todavia. tem sua moralidade individual. Mas estes fatos não são explicáveis se apelarmos. Às vezes são fatos de estrutura social que se concatenam entre si. etc. E mesmo esta impressão das coisas sociais é alterada pelo estado particular da consciência que as recebe. se são fortes e respeitadas. direta ou indiretamente. perceberá verdadeiras coalescências de fenômenos sociais: por exemplo. a noção tão difundida do sacrifício do Deus é explicada por uma espécie de fusão que se operou entre certos ritos sacrificais e certas noções míticas. De igual modo. Cada qual fala a seu modo sua língua materna. Só existe nas consciências individuais. Aceitaríamos esta fórmula.. como o culto dos antepassados se desenvolveu sobie o fundo dos ritos funerários. não significa que as concebemos como tipos de realidades autônomas capazes de ter por si mesmas uma eficácia misteriosa de um gênero particular. uma mudança na opinião: é porque os sentimentos coletivos de compaixão para com o criminoso entram em luta com os sentimentos coletivos que reclamam a pena que o regime penal se ameniza progressivamente~ Tudo se passa na esfera da opinião pública. aos movimentos de colonização. etc.   Mas como os fatos sociais se produzem assim uns aos outros? Quando dizemos que instrtuiçoes produzem instituições por via de desenvolvimento. cada um reza e adora de acordo com seus pendores. mas cada consciência não tem mais do que uma parcela deste social. de alucinação coletiva. Sem dúvida. Percebe-se facilmente alguns dos intermediários: do individual passa-se insensivelmente à sociedade. as representações coletivas só são devidas à maneira pela qual as consciências individuais podem agir e reagir umas sobre as outras no seio de um grupo constituido. mas com a condição expressa de acrescentar que esta psicologia éespeeificamente distinta da psicologia individual. Ou então é pela estrutura das so- ciedades de um tipo determinado que se explicam certas instituições determinadas. as representações coletivas exprimem sempre. Inversamente. o social torna-se individual. são explicáveis se partirmos dos fatos sociais. que haja entre elas uma solução de continuidade. é porque este complexo de idéias e de sentimentos que constitui a vida da família muda necessariamente à medida que a cidade                 20                ENSAIOS DE SOCIOLOGIA 21 SOCIOLOGIA se fecha. Neste sentido. quando referimos à forma dos grupos tal ou tal prática social. pode-se relacionar a formação das cidades aos movimentos migratórios mais ou menos vastos de aldeias a cidades. para empregar a língua filosófica. Tomemos.pt/~eje/mauss_ensaios_de_sociologia. em certo grau. exclusivamente para os fenômenos individuais. Para empregar a linguagem corrente.htm 8/15 . um caso preciso de religião individual. não significa que consideramos como possível que a repartição geográfíca dos indivíduos afete a vida social diretamente e sem intermediário. Não é menos verdade que se pode passar dos fatos de consciência individual às representações coletivas por uma série contínua de transições. poder-se-ia dizer que toda a força dos fatos sociais lhes advém da opinião. por exemplo. se cedem. por exemplo. por conseguinte. O fundo íntimo da vida social é um conjunto de representações. e porque elas modificam o estado das idéias e das tendências de que são objeto. de se modificar mutuamente e cujo conjunto forma um sistema definido. etc. Sem dúvida. a maneira pela qual reage diante de tal ou tal acontecimento. seu léxico preferido. E pode-se mesmo dizer que toda mudança nas instituições é. feita de matéria totalmente diversa daquela do indivíduo. ao estado das comunicações. pois. Aquilo que exprimem. As instituições só existem nas representações que a sociedade faz delas. mas ainda têm na realidade outro objeto. é porque estes sentimentos são vivazes. Os fatos sociais são. ao contrário. etc.26/03/2018 Marcel Mauss instituições se geram umas às outras. mas esta é propriamente aquilo que chamamos o sistema das representações coletivas. éo próprio estado da sociedade. de movimentos de multidões. E a opinião que dita as regras morais e que. Outras vezes. cada indivíduo faz sua moral.   Isto não significa. se a formação da cidade acentua fortemente o regime da família patriarca1. por exemplo quando seriamos os fatos de imitação epidêmica. causas porque são representações ou atuam sobre as representações. pois. Efetivamente. é porque perderam toda a autoridade junto às consciências. por exemplo. um estado de grupo social: traduzem (ou. para nossa demonstração. Enquanto os fatos de consciência do indivíduo exprimem sempre de maneira mais ou menos remota um estado do organismo. Da mesma forma. portanto. Mas estas açoes e estas reações produzem fenômenos psíquicos de um gênero novo que são capazes de evoluir por si mesmos. 1-Já. porque é evidente que fatos que possuem propriedades tão diferentes não podem ser da mesma espécie. por exemplo a disposição em cidades produz certas formas da propriedade do culto. o do http://evunix.

de evolução geral que dominaria o passado e predeterminaria o futuro. e as representações coletivas nas quais são dadas as instituições. não éexplicar uma transformação social qualquer. deram origem às idéias coletivas. como em toda ciência. da E. por exemplo a passagem do politeísmo ao monoteísmo. na realidade. o fascínio que exercem as grandes cidades é uma causa da emigração dos campônios. atribui uma função preponderante ao elemento psíquico da vida social. origem de boa parte de nosso sistema da propriedade. fazer ver que ela constitui um progresso. Mas este círculo. Em primeiro lugar. crenças e sentimentos coletivos.0 ou une uma representação coletiva a um fato de estrutura social como àsua causa. porque a questão é precisamente saber o que determinou a religião a tornar-se assim mais verdadeira ou mais moral. A causa de um fato social deve sempre ser procurada fora deste fato. ela independe de toda metafísica. 3? ou une fatos de estrutura social a representações coletivas que as determinaram: assim. não foi em conseqüência dos processos racionais de um pensamento que. as formas do grupo. Mas há mais: estes fenômenos provêm simplesmente do fato de que uma instituição socialista se refratou e desfigurou nas consciências particulares. não se trata de formular completa e definitivamente as regras do método sociológico.0 ou ela une uma representação coletiva a uma representação coletiva. 2. Explicar. aos poucos. (N. Vimos também que gêneros de relações existem entre os fenômenos sociais. a tornar-se aquilo que se tornou. Sem dúvida. como a ciência que pretendiam fundar. Assim. Isto significa que o sociólogo não tem como objeto encontrar não sabemos que lei de progresso.   Vê-se agora o que entendemos com a expressão representações coletivas e em que sentido podemos dizer que os fenômenos sociais podem ser fenômenos de consciência. Isto posto. cada cidadão tem seu genius. certas noções míticas dominaram os movimentos migratórios dos hebreus. pois. de outro lado.26/03/2018 Marcel Mauss totemismo individual. descobrir leis mais ou menos fragmentária5~ isto é.uevora. que é mais verdadeira ou mais moral. Não há uma lei única. é. de certo ponto de vista. Pois as representações coletivas não devem ser concebidas como se se desenvolvessem por si mesmas. retificaria espontaneamente seus erros primitivos. é porque cada indivíduo constituiu seu próprio totem à imagem do totem do clã. o direito penal mudaram. entre os quais não cabe se estabelecer uma primazia lógica ou cronológiea.   Portanto. vê-se na formação das cidades a causa da formação de um direito urbano. Nada é tão inútil como perguntar se foram as idéias que suscitaram as sociedades ou se foram as sociedades que. não implica nenhuma petição de princípios: é o das próprias coisas. assim. que é real. a censura de materialista que às vezes lhe foi assacada. Ele não se articula e não se organiza a nao ser a medida dos http://evunix. Se a família. ora como efeitos. encontram-se mesclados com todos os tipos de considerações filosóficas sobre a sociedade. sem ser por isso fenômenos da consciência individual. que tais explicações giram num círculo. estes fatos permanecem ainda sociais e constituem instituições: é um artigo de fé em certas tribos que cada indivíduo tem seu próprio totem. isto é. além de seu * totem de clã. Mas. dos fenômenos sociais. Recentemente. Trata-se de fenômenos inseparáveis. Mas.     2. Ademais. em Roma.pt/~eje/mauss_ensaios_de_sociologia. pelo que precede. a se aproximarem de um ideal de razão. os sentimentos da coletividade só mudam se os estados sociais de que dependem também mudaram. em sociologia. uma extrema generalidade. Há uma multidão de leis de inegável generalidade. materialista ou não. o Estado. As primeiras obras onde o método da sociologia foi estudado de maneira apropriada são as de Comte e de Stuart Mill. dos árabes do Islã. em grau algum. em virtude de uma espécie de dialética interna que as obrigaria a depurarem-se sempre mais. Se. em francês.htm 9/15 . no catolicismo cada fiel tem um santo como patrono. MIITODO DA SOCIOLOGIA   Os ensaios sobre o método da sociologia abundam na literatura sociológica. que existem duas grandes ordens de fenômenos sociais: os fatos de estrutura social. Porque um método só se distingue abstratamente da própria ciência. Pudemos entrever. mas o adjetivo é aqui empregado sem qualquer conotação ideológica. é verdade. Durkheim procurou definir mais exatamente a maneira pela qual a sociologia deve proceder no estudo dos fatos particulares. isto é. por exemplo a com   * Socialiste. uma vez formadas. se um se julga parente dos lagartos. ligar fatos definidos segundo ~elaçõe5 definidas. pode-se dizer que toda explicação sociológica entra num dos três quadros seguintes: 1. escapa aos defeitos da ideologia. cada guerreiro possui seu totem individual. ora como causas das representações coletivas. — Pode parecer. quando dissemos que ela ia de um fenômeno social a outro fenômeno social. Os fenômenos sociais não são mais automotores do que os outros fenômenos da natureza. Estamos agora em condições de precisar mais a fórmula que demos acima da explicação socíológica. Em primeiro lugar. etc. visto que as formas do grupo são aí representadas. na realidade. qualquer que seja sua importância~ as observações metodologicas destes dois filósofos ainda conservavam. da mesma forma.) Li SOCIOLOGIA ENSAIOS DE SOCIOLOGIA   posição penal à vingança privada. Em geral. a explicação sociológica assim entendida não merece. a maneira pela qual os elementos são aí dispostos. universal. ao passo que outro se sente associado aos corvos. As opiniões.

    Definição   Como toda ciência. por isso. toma suas provas às mais heterogêneas categorias. e.uevora. mas também as diferenças. clã. Além disso. Mas não são construídas a priori. de um assunto a outro. Outras vezes. o roubo. a definição supõe uma primeira visão geral dos fatos. mas pelos caracteres exteriores que apresenta. não é por nossa idéia mais ou menos lógica do sacrifício que devemos definir este rito.     Observação dos Jatos   Como vimos. uma espécie de observação provisória. no que se refere à teoria da família. de uma primeira visão rápida dos fatos. Todavia. Antes de tudo. só são reunidos aqueles que se sobrepõem exatamente. Reúne-se e designa- se nelas um conjunto de fatos cuja similaridade fundamental se prevê. evita-se uma falha que cometem ainda os melhores trabalhos de sociologia. antes de tudo. os únicos crimes são os atos atualmente tidos como tais: o homicídio. uma classificação usual. aqueles que não dependem de nossos sentimentos e de nossas opiniões pessoais. é-se levado a compreender na definição todas as formas verdadeiramente primitivas do crime. independente de nós. definições felizes podem nos pôr no caminho de importantes descobertas. Esta falha é a de haver reunido unicamente os fatos favoráveis à tese e em não ter pesquisado suficiente- mente os fatos contrários.pt/~eje/mauss_ensaios_de_sociologia.   Enfim. Propomo-n05 somente analisar um certo número de processos científicos já sancionados pelo uso. E preciso falar agora da observação metódica. uma pesquisa séria leva a reunir aquilo que o vulgo separa. em particular a violação das regras religiosas. nem por isso são menos mdtspensaveis. a definição torna-se um momento importante da pesquisa. todos os fatos sociais de uma mesma ordem se apresentam e se impõem ao observador. uns confundem o regime jurídico que a monogamia exige com a simples monogamia de fato. Agindo desta forma cometerá graves equívocos: assim. sem definiçoes e impossivel haver entendimento entre cientistas que discutem sem falar todos do mesmo assunto. Concebida deste modo. estas definições prévias constituem uma garantia científica de primeira ordem. Estes caracteres pelos quais se define o fenômeno social a estudar. etc. Estas definições são prévias. toda ciência se expõe a confusões e a erros. E que.           24          ENSAIOS DE SOCIOLOGIA 25 SOCIOLOGIA   Naturalmente. Não podem nem devem exprimir a essência dos fenômenos a estudar. Chamam- se caracteres objetivos os caracteres que tal ou tal fenômeno social tem em si mesmo. permitem a crítica e a discussão eficaz. com boas definições iniciais. Ademais. e fica-se na obrigação de explicar não apenas as concordâncias. Sem elas. no transcurso de um mesmo trabalho. na realidade muito diferentes. provisórias. não há suficiente preocupação com a integração de todos os fatos numa teoria. mas simplesmente designá-los clara e distintamente. Urna vez estabelecidas. Não se deve estabelecer sem exame. Por exemplo. Quando se define o crime como um ato atentatório aos direitos dos indivíduos. isto é. Na falta de definições. http://evunix. graças a elas. obrigam e ligam o sociólogo. por exemplo. na verdade. ou a distinguir aquilo que o vulgo confunde. Assim. por exemplo o de Frazer sobre o totemismo. como definição científica. para designar uma só e mesma coisa. Ora. Por isso. cujas qualidades comuns se distinguem. distinguem estas duas ordens de fatos. é preciso. nao correspondem menos aos caracteres essenciais que a análise discernirá. Boa parte dos debates levantados pela teoria da família e do casamento provêm da ausência de definições: assim.htm 10/15 . distinguiu cuidadosamente os ritos funerários e o culto dos antepassados. émister indicar e delimitar o campo da pesquisa a fim de saber de que se fala.26/03/2018 Marcel Mauss progressos desta ciência. e a explicação deve levar em consideração todos eles. são o resumo de um primeiro trabalho. a ciência das religiões reuniu num mesmo gênero os tabus de impureza e os de pureza. ainda que exteriores. do tabu. definições deste gênero são construídas. um sociólogo dará diferentes sentidos a um mesmo termo. aldeia. Elas iluminam todos os seus passos. Porque. Em geral. por mais exteriores que elas sejam. a noção de paganismo e mesmo aquela de feitieismo não correspondem a nada de real. mais perigosos em sociologia do que em qualquer outra ciência. como fato social e religioso. ao contrário. todo um conjunto de fatos bem designados se impõe ao estudo. porque todos são tabus. Afastam-se assim todas estas argumentações caprichosas em que o autor passa. ao contrário. Elas têm sobretudo como objeto substituir as noções do senso comum por uma primeira noção cien- tífica. Estas definições serão tanto mais exatas e mais positivas se nos esforçarmos mais por distinguir as coisas por seus caracteres objetivos. uns chamam monogamia aquilo que outros não designam com o mesmo nome. Quando o crime édefinido como um ato que provoca uma reação organizada da coletividade. outros. exterior a nós. desembaraçar-se dos preconceitos correntes. a seu bel- prazer. Muitas idéias ainda em uso em muitas ciências sociais não parecem baseadas nem na razão nem nos fatos e devem ser banidas de uma terminologia racional. muitos autores empregam indiferentemente os termos tribo. por exemplo. a sociologia deve começar o estudo de cada problema por uma definição.

recentes. Porque. O conhecimento das fontes. todo o quadro social que o cerca. de numerosas e boas histórias da organização econômica mesmo em nossos países. como toda observação científica. necessários processos especiais e rigorosos de observação. contêm graves erros. o método do trabalho permanecem idênticos. é mister ter o cuidado de reduzir a fatos comparáveis os dados de origens diversas de que se dispõe.. e sabe-se quão recentes são preocupações deste gênero nas ciências históricas. os historiadores tentam. Aliás. não é menos escrupulosa e cuidadosa em estabelecê-los exatamente. utilizaram-se. pode-se esperar que os progressos da história e da etnografia facilitarão sempre mais o trabalho. em alguns casos. Em primeiro lugar. de dar-lhes mensuraçoes aproximativas. daquela que estabelece cada um dos fatos enunciados. e os documentos históricos. Mas o espírito. os fatos profundos. por exemplo. A sociologia deve fazer mais do que descrever os fatos. muitos trabalhos de sociologia moral. no fundo. Com efeito. ainda que o sociólogo tenha as mesmas exigências críticas do historiador. expor cuidadosamente a maneira pela qual se chegou aos dados de que se lança mão. por assim dizer. Sem minuciosas precauções. uma crítica severa teriam permitido aos sociólogos dar uma base incontestável às suas teorias referentes às formas elementares da vida social. não é indispensável datar com exatidão o Ríg-Veda: a coisa é impossível e. grosso modo.uevora.   Em todo trabalho que se apóia em documentos estatísticos é importante. Compararam-se números que não têm de modo algum a mesma significação nas diversas estatísticas européias. as informações dos viajantes e dos etnógrafos. Toda observação científica refere-se a fenômenos metodicamente escolhidos e isolados dos outros. é impossível usar as informações estatísticas sobre o suicídio da Inglaterra. Mas a observação sociológica.26/03/2018 Marcel Mauss isto é. Detêm-se nos matizes particulares dos costumes. por sua negligência em empregá-los. das erenças http://evunix. a lei inglesa não distingue o homicídio por imprudência do homicídio voluntário. Os fenômenos sociais. que. Ademais. para usar a linguagem habitual. e. cada documento exige a mais severa crítica. métodos críticos. os fatos sociais são muito difíceis de serem captados e desenvedados através dos documentos. Mas. mais do que todos os outros. deve. um puro processo narrativo. Além disso. neste país. deve conduzir sua crítica segundo princípios diferentes. por conseguinte. e os diversos códigos não têm nem a mesma classificação nem a mesma nomenclatura. as estatísticas são baseadas nos códigos. no estado atual das diversas estatísticas judiciárias. Depois de terem feito sobretudo a biografia de grandes homens e de tiranos. em sociologia não existem fatos brutos passíveis. não podem ser estudados de uma vez em todos os seus detalhes. com freqüência o caráter dos fatos muda quando uma observação geral é substituída por uma análise cada vez mais precisa. Assim é que existem meios diferentes para analisar um rito religioso e para descrever a formação de uma cidade. constituí-los. de serem fotografados. pois. deve estabelecer a verdade das informações de que se serve. se abstrai os fatos. escasso valor explicativo. como em qualquer outra ciência. O emprego destes métodos varia naturalmente com os fatos variados que a soemlogia observa. fornecendo informações incontestáveis. São. o sociólogo não pesquisa exelusivamente o detalhe singular de cada fato. Efetivamente. só observa. Depois. numa palavra. como se poderia crer à primeira vista. quase todos modernos. seus concomitantes e seus conseqüentes. demográficas. para evitar os rigores da lei. oferecem mais garantias. Estes processos de crítica são de um emprego tanto mais necessário quanto os sociólogos foram censurados com freqüência. sem muito discernimento. os documentos oficiais. com efeito. a sociologia deve adotar. os processos da “crítica histórica”. abstraídos.   No que se refere aos documentos históricos ou etnológicos. Assim.htm 11/15 . são necessários. a observação estatística deve procurar ser a mais exata e a mais detalhada possível. econômicas. do suicídio em França. na ausência de monumentos certos. além disso. Enfim. assim. por exemplo. viciada em seu fundamento. Consideremos. São demasiado complexos para que não se proceda por abstrações e por divisões sucessivas das dificuldades. Estes mesmos documentos devem ser examinados em todos os seus detalhes. isto é. Não pode servir-se de fatos inventados e. agora. os fatos sociais. por distritos. onde há falta. contanto que se conheçam seus antecedentes. Ora. Por não haverem procedido desta maneira. E ainda mais delicado analisá- los. na medida do possível. a sociologia não faz aos fatos perguntas insolúveis e cuja solução só ofereça. etc. porque. assim um mapa. em vista de outro objetivo. A sociologia só pode espe SOCIOLOGIA     rar vantagens dos processos destas duas disciplinas. por exemplo. e só é possível classificar os métodos críticos de acordo com a natureza dos documentos aos quais se aplicam: existem os documentos estatísticos. ao mesmo tempo que bastante análogos. corre-se o risco de chegar a dados falsos: assim. por exemplo.pt/~eje/mauss_ensaios_de_sociologia. a maior parte dos suicídios são declarados sob o nome de morte em conseqüência de loucura. indispensável. em todas as suas relações. Primeiramente. em geral. indiferente. Não há necessidade de conhecer a data de um fato social. Os nume           26          ENSAIOS DE SOCIOLOGIA 27 rosos problemas levantados pela utilização destes documentos são bastante diferentes. e não sem razão. e é mister conhecer bem os princípios que presidiram sua confecção. visto que estuda os fatos num outro espírito. leva a observar fenômenos diferentes daqueles que aparecem num mapa por departamentos. a estatística é. sobretudo fazer biografia coletiva. A observação dos fatos sociais não é. de um ritual de orações para servir-se dele em sociologia. na realidade.

pois. reunir apenas fatos de clã e não reunir com eles informações etnográficas que na realidade se referem à tribo e ao grupo local. dispõem-se as diferentes http://evunix. se em numerosos casos é ainda indispensável para o sociólogo remontar às últimas fontes. a propósito do clã. existem em sociologia. ao menos conseguiu levantar uma classificação geral de grande número de fatos. crê-se geralmente que o estudo da religião védica é reservado unicamente aos sanscritistas. perde quase toda data. Atribui-se assim excessiva importância ao número das experiências. quando lançaram nova claridade sobre as formas primitivas da família. como não o faz qualquer outra ciência.uevora. Porque. como nos trabalhos da escola inglesa antropológica. No fundo. sempre deu bons resultados em matéria de fatos sociais. Assim. um fato bem estudado. exatamente como uma observação de médico. aliás mui raramente. pelo valor demonstrativo e pela comparabilidade dos fatos. IS mister. Tende a dar-lhes um sistema racional. fatos cruciais. havaiano. em sociologia. Aliás. IS necessário. entre outros Tylor e Steinmetz. um método estatístico. O pormenor e o âmbito de todos os fatos são infinitos. com freqüência confundidos com o clã. fatos sociais típicos para. Este não pôde. será conveniente. ao mesmo tempo. de certo modo. impessoais. teve de fazer um quadro geral dos fatos que conhecia referentes à origem das espécies.htm 12/15 . e é melhor ater-se a comparações elementares. isto é. Mas os resultados deste método estão longe de serem satisfatórios. explicando o sistema do parentesco e das classes exogâmicas em certas tribos australianas. Está por assim dizer colocado. por exemplo. uma experiência extraordinária de laboratório. Procura determinar suas relações de modo a torná-los inteligíveis. uma expressão suficientemente adequada do fato observado. o primeiro a propósito de casamento. Foi um fato deste gênero que Fison e Howitt encontraram. A sociologia exige observações seguras. Para ele. Morgan. a história pura jamais deixará de descrever. e deixa de pertencer a tal ou tal país. de inefável em cada civilização. e ninguém nunca poderá esgotá-los. em geral. As concordâncias e as diferenças entre os fatos constatados são aí expressas em números. por sua certeza. Mas. pôde formular a hi- pótese do clã por descendência materna. Em outras palavras. Em primeiro lugar. éimportante só aproximar fatos da mesma ordem. Algumas vezes. ao contrário. em seguida. chegaram mesmo SOCIOLOGIA     a propor e a empregar. como procedeu particularmente Darwin. aquilo que é característico.26/03/2018 Marcel Mauss de cada grupo. empregar todo um conjunto de processos metódicos especiais para estabelecer as relações que existem entre os fatos. mas aos historiadores que não souberam fazer sua verdadeira análise. O sociólogo. realizar verdadeiras experiências e criar espécies variadas. estudá-los. O fato social. de matizar. não atingimos diretamente. torna-se um elemento de ciência. Resta-nos falar dos processos pelos quais estas relações podem ser determinadas. Procuram aquilo que separa.. de uma civilização. de uma língua. Procede-se mais ou menos como os zoólogos. mas severas. salvo para uma única exceção. por força da observação científica. utilizáveis para quem quer que venha a estudar fatos da mesma ordem. em geral. uma observação sociológica feita com cuidado. não se pode suscitar. etc.   Quanto ao mais. resultados equivalentes aos de uma experimentação. o segundo a propósito da pena e do endocanibalismo. voluntariamente. como em toda ciência. pois. fatos tão típicos que basta analisá-los devidamente para descobrir logo certas relações insuspeitadas. Aqui a sociologia se encontra num estado de inferioridade com relação a outras ciências. Provavelmente é preferível renunciar a tais pretensões de exatidão. Para servir-se de um fato social determinado não é necessário o conhecimento integral de uma história. recorrer à comparação dos diversos fatos sociais de uma mesma categoria em diversas sociedades. e tendem a descrever aquilo que há. Da mesma forma. a falha não é devida aos fatos. a gente se esforça e é preciso esforçar-se por tornar a comparação sempre mais exata.           28          ENSAIOS DE SOCIOLOGIA 29 cientificamente descrito.     Sistematização dos Jatos   A sociologia não especula. Com efeito. pois se nomeiam fatos colhidos das sociedades mais diversas e mais heterogêneas. fatos que entram na definição estabelecida no começo do trabalho. a fim de procurar depreender sua essência. em sociologia. mas exato. encontramo-los por assim dizer inteiramente estabelecidos. e registrados em documentos de valor totalmente desigual. Demonstra-se pouco interesse pela qualidade destas experiências. tendo constatado a identidade do sistema familial iroquês. Em segundo lugar. pequeno ou grande. a tal ou tal época. Ao contrário. fidji. uma observação bem conduzida deve dar um resíduo definido. deste fato é suficiente para que possa e deva entrar no sistema que a sociologia quer edificar. de circunstanciar. A experimentação não é possível. é preciso alinhar os fatos assim reunidos em séries cuidadosamente constituídas. O conhecimento relativo. analisado em sua integridade.pt/~eje/mauss_ensaios_de_sociologia. uma comparação bem conduzida pode dar. sobre puras idéias e não se limita a registrar os fatos. fora do tempo e fora do espaço. aquilo que singulariza. pela simples observação. quando a comparação foi manejada por verdadeiros cientistas. Certos autores. procura encontrar nos fatos sociais aquilo que é geral e. na teoria da família. e foi da comparação metódica destes fatos que deduziu suas hipóteses. dos fatos acumulados. Mesmo quando não deixou resíduo teórico.

Naturalmente estas hipóteses não são forçosa-mente justas. históricos. até aqui. o ponto mais importante. pedir-se-ia ao teórico da família que tivesse feito o exame completo de todos os documentos etnográficos. A conhecimentos provisórios. retificar o método. correspondem hipóteses provisórIas. etc. por conseguinte. em nossa opinião. constituídas da mesma maneira. transformá-las. para tentar as teorias da digestão. destes aos romanos. As generalizações feitas. a definição inicial. em alguns casos. de vias de comunicação. de densidade social. Mas não é menos livre face às classificações existentes. mas cuidadosamente enumerados e precisados. Em terceiro lugar. abandonando-lhes aquilo que é seu objeto próprio e retém todos os fatos de ordem exclusivamente social. dispõem-se outras séries. visto que não propõem explicação alguma. deve fazer um inventário total de todos os fatos sociais. se a ciência requer exames dos fatos sempre mais completos. Devem-se temer tendências deste gênero em nossa ciência. só há lugar para discussões dialéticas ou enciclopédias eruditas. são verdadeiramente explicativas. pode-se contestar. mas nunca deixa de utilizá-las. e. http://evunix. Estamos longe desta poeira impalpável dos fatos ou destas fantasmagorias de idéias e de palavras que o público com freqüência aceita por sociologia. dependiam de ciências que não são “ciencias sociais”. de generalidade que é o da indução metódica e que talvez permita até. A timidez diante dos fatos é tão perigosa como a excessiva audácia. no próprio direito romano. Em terceiro lugar. vê-se o poder paterno crescer à medida que a cidade se fecha. em parte alguma exige um inventário total. a sociologia considera como seu um certo número de problemas que. Ter-se-ia a tentação de dizer que a sociologia.pt/~eje/mauss_ensaios_de_sociologia. também ele não tem necessidade de conhecer a fundo todos os fatos sociais de uma determinada categoria para elaborar a teoria. dizem o porquê e o como das coisas. os fatos invocados. retificá-las. elas têm este caráter de necessidade e.   3.uevora. Fora destas aproximações sempre mais cerradas dos fenômenos. Por exemplo. diante desta série. não é possível que os resultados aos quais o sociólogo chega sejam despidos de toda realidade. para a ciência. mas onde não há idéias precisas nem sistema racional nem estudo cerrado dos fatos. E é das relações que se percebem entre estas diversas espécies que se vêem desprenderem-se as hipóteses. para um problema bem definido. E. em todas as séries de animais. Em primeiro lugar. os sistemas propostos. seja uma ordem de complexidade crescente ou decrescente. seja uma ordem qualquer de variação. possuem sempre ao menos uma parcela de verdade: a ciência pode completá-las. com a ajuda de fatos bem observados. Tem-se a liberdade de modificar as teorias à medida em que novos fatos chegam a ser conhecidos ou à medida em que a ciência. e aí está. Ora. compostas de outros fatos sociais. as comparações estabelecidas. é preciso prever uma objeção. numa teoria da família patriarcal.   Aqui. Por exemplo. As hipóteses exprimem fatos. mas questões de sociologia. Por exemplo. esta debaixo da família romana. progressos possíveis. estas não são questões de geografia. relativos a esta questão. é possível ligar a evolução da família patriarcal à evolução da cidade: dos hebreus aos gregos. IS explicada por toda a evolução do sistema da responsabilidade. antes de se edificar. num verdadeiro trabalho de sociologia. de tal sorte que há aí. Assim. pode-se quase estabelecer como lei que as práticas rituais tendem a rarefazer-se e a espiritualizar-se no decurso do desenvolvimento das religiões universais. O sociólogo deve fazer o mesmo. Mas se não trazem este caráter de verdade absoluta. além disso. colocar-se-á a família hebraica debaixo da família grega. descobre novos aspectos nos fatos conhecidos. O biólogo não esperou observar todos os fatos de digestão. ambas sem verdadeira utilidade. tais hipóteses são eminentemente criticáveis e veríficaveis. valem momentaneamente para todos os fatos conhecidos e desconhecidos da mesma ordem que os fatos explicados. Assim é que a geografia tratava até hoje das questões de fronteira.   Em primeiro lugar. por conseguinte. a previsão. Primeiramente. Aí não se explica uma regra jurídica como aquela da responsabilidade civil pela clássica “vontade do legislador ou pelas “virtudes” gerais da natureza humana que teriam                   3(1                ENSAIOS DE SOCIOLOGIA 31 SOCIOLOGIA   racionalmente criado esta instituição. Pode repartir o trabalho de maneira diversa daquela posta em prática até aqui. DIVISÃO DA SOCIOLOGIA   A sociologia pretende ser uma ciência e ligar-se à tradição científica estabelecida. se o trabalho de indução foi feito com método. A hipótese torna-se um elemento de discussão precisa. as abdicações do empirismo tão funestas como as generalizações apressadas. Deve passar imediatamente à obra. Pode-se. estatísticos. criticar cada um dos pontos tratados. Em segundo lugar. Decompõe estas ciências. bom número daquelas que hoje nos parecem evidentes serão abandonadas um dia.26/03/2018 Marcel Mauss formas que apresentam segundo uma ordem determinada.     Caráter científico das hipóteses sociológicas   Chega-se assim a inventar hipóteses e a verificá-las. todos os dias mais exata. aliás impossível.htm 13/15 . trazem todas os caracteres de hipóteses científicas.

a aproximar-se progressivamente da sociologia. 1867. Sociétés animales (prefácio). Bau und Leben des sozialen Kórpers. de acordo com seus respectivos processos. e a introdução do método sociológico já mudou e mudará a maneira de estudar os fenômenos soclals. a sociologia apropria-se dos resultados já adquiridos pela antropologia criminal referentes a um certo número de fenômenos que são. são de origem empírica ou prática.. — Tarde. não são ciências. para falar com verdade. religiosa. Dynamic Sociobogy. mas de fenômenos referentes à natureza das sociedades. — Gumplowicz. a sociologia adota e faz suas as grandes divisões. uma sociologia tecnológica. ao passo que estes dois aspectos de um mesmo fato são ordinariamente estudados por diferentes cientistas. não segue servil-mente as classificações usuais que. em sua maioria. não distingue naturalmente entre as instituições das populações “selvagens” e aquelas das naeões “bárbaras” ou “civilizadas”. as artes. La science sociale contem poraine. Esta tem. a sociologia geral. estética. — Groppali. as técnicas. fazem estatística moral. 1890-95. 1900. econômica. —Durkheim. 1896. feitos todos estes estudos especiais.. ainda que numerosos resultados possam ser conservados. em A nnales de l’Inst. os fenômenos mais diversos. economia política. Descriptive Sociology. divide-se com muita facilidade em soeiologias especiais. Gemeinschaft and Gesellschaft. Da mesma forma. etc.uevora. morais e econômicos Em nossa opinião.pt/~eje/mauss_ensaios_de_sociologia. “Les sciences morale. op. De outra parte. O mesmo acontece com a etnografia. para estudar os grupos. — Fouitlée. — Lester Ward. Em contrapartida. — Small. com um método consciente. etc. franc. Assim. em Rente phílosophique. para falar com propriedade.       BIBLIOGRAFIA   19 Sobre a história da sociologia: Espinas. ambas consideradas como formando ciências à parte. demográfica. ano 1887. Estuda indiferentemente os fenômenos morais. — Bouglé. IS o caso da estatística e da etnografia. Sobretudo não estabelece entre os fatos estes compartimentos estanques que ordinaríamente existem entre as diversas ciências especiais. —De Greef. mesmo apropriando-se de seus resultados. e a sociologia deve dissociá-las. quando esta chega ao estado de verdadeira ciência. seria possível constituir uma última parte da sociologia. a sociologia transforma suas classificações. não deve haver aí estatísticos. de sociologie. indiferentemente. 1886-89. Por isso. tornam-se cada vez mais partes especiais de uma única ciência. econômica. 1887. 1894. por exemplo. pesquisar os fenômenos religiosos. The Study oÍ Sociology. Mas adotando esta repartição. 1873. Grundiss der Sociologie. Hoje. Social Statics. não fenômenos somáticos. A sociologia. em Revue bleue.   29 Sobre a sociologia em geral: Comte. entre as ciências às quais ordinariamel]te se dá o nome de “ciências sociais”. mas fenômenos sociais. 1885 — Tõnnies. Deste ponto de vista. fenômenos sociais. nos últimos anos. A estatística. Não têm mais do que uma unidade fictícia. franc. maio de 1900. uma parte especial da soeio!ogia que pode estudar os grupos.s en Allemagne”. Introduction á la sociologie. quando não fazem mais do que estudar. 1887. deve ser primeiro estudada à parte e constituir o objeto de urna sevie de pesquisas relativamente independentes. — Spencer. que todas as ciências sociais tenderam. mesmo ligando-se estreitamente às ciências que a precederam. cit. Faz entrar em suas definições os fatos mais elementares e os fatos                 32                ENSAIOS DE SOCIOLOGIA          SOCIOLOGIA          33   mais evoluídos. — Schàffle. ver-se-á obrigada a considerar tanto os fatos “etnográficos” como os fatos “históricos”. etc. La — philosophie d’Auguste Comte. 1895. religiosos. ao contrário. o número dos indivíduos que os compõem e as diversas maneiras pelas quais são dispostos no espaço: e a morfologia social. Logique sociale. das religiões. existem os fatos sociais que se passam nestes grupos: as instituições ou as representações coletivas. Transformisme social. econômicos. “La sociologie en France au XIXe siêcle”. Os fenômenos sociais dividem-se em duas grandes ordens. cada parte da sociologia não pode coincidir exatamente com as diversas ciências sociais existentes. Les sciences sociales en Allemagne. Estas constituem. algumas há que. etc. 1875-8 1. 1880. na realidade dependentes de diferentes partes da sociologia.htm 14/15 . De uma parte.26/03/2018 Marcel Mauss visto que não se trata de fenômenos cósmicos. Aquele que estuda a propriedade deve considerar este fenômeno sob seu duplo aspecto jurídico e econômico. muda profundamente o próprio espírito da pesquisa e pode conduzir a resultados novos. a estatística estuda. “La sociologie en Amerique”. Les bis de l’imitation. Depois. como vimos. que teria como finalidade pesquisar aquilo que constitui a unidade de todos os fenômenos sociais. num estudo da família ou da pena. Principles of Sociology. como única razão de sua existência. internat. An Jntroducaion mic http://evunix. que são todos da mesma maneira fatos sociais e que só diferem pelo modo como são observados. jurídicos. jurídica. etc. elas se transformam.. como por exemplo as da ciência do direito. 1900. existem os grupos e suas estruturas. já percebidas pelas diversas ciências comparadas das instituições de que pretende ser herdeira: ciências do direito. para estudar os fenômenos morais. — Espinas. etc. pois. Em segundo lugar. Por si mesmas. não é senão um método para observar fenômenos variados da vida social moderna. com freqüência. A única diferença é que. Lévy-Brühl. para compreendê-los. trad. Cada urna destas fimçoes. O sociólogo que estuda os fatos jurídicos e morais deve.. trad. Deste ponto de vista. Outlines of Sociobogy. as grandes funções da vida social. 1876 e seguintes. a tarefa de consagrar-se ao estudo dos fenômenos que se passam em nações ditas selvagens. 1898. 1897. há portanto uma sociologia religiosa. 1-lá. unia sociologia moral e jurídica. 1855. E. IS de notar. 1V-VI). etc. 1874 e seguintes. Cours de philosophie positive (vol. mas soeiólogos que. aliás.

1897. Principies of Sociobogy. — “Classification des types sociaux”.   http://evunix.V1.   49 Sobre o método da sociologia: Comte. 1898. — Giddings. American Journal of Sociobogy. — Stuart Mill. em Année sociobogiquc. Année sociobogique. — Entre as principais obras da escola organicista estão: No vicow. — Steinmetz. Outlines oJ Sociobogy. An Intraduction to 0w Study of Society. XVIII. 1900. etc. 1896. — Worms. 1898. I. Rivista Italiana di Sociologia.26/03/2018 Marcel Mauss Sociobogy. Studien zur crsten Entwicklung der Strafe. op.. Règles de la méthode sociobogique. “On a Method of Investigating the Development of Institutions etc. em Journal of the Anthropoborical Institute. La lutte entre les sociétés humaines. Evolution régressive en bio~ bogie et en sociobogie. 1898. — Demoor. 1894. — Small.htm 15/15 . — Tylor. Massart et Vandervelde. 1896. Logique.pt/~eje/mauss_ensaios_de_sociologia. Introduction aux étudcs historiques.uevora. 1897. —Massart et Vandervelde. cit. 1889. — Durkheim. 1896.   39 Os principais periódicos consagrados à sociologia propriamente dita são os seguintes: Rente internationale de sociobogie. Conscience et volonté soda/es. Parasitisme organique et parasitismc social.”. 1893. Organisme et société. Zeitschrijt fiir Sozialwissenschaít. — Langlois et Seignobos. 1893-95 (Introdução). Annales de l’lnstitut international de sociobogie.