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A PESCA DO CAMARÃO-SETE-BARBAS Xiphopenaeus kroyeri,

HELLER (1862) E SUA FAUNA ACOMPANHANTE NO LITORAL DO


ESTADO DE SÃO PAULO.

ROBERTO DA GRAÇA LOPES

Orientador : FRANCISCO MANOEL


DE SOUZA BRAGA

Tese apresentada ao Instituto de


Biociências do Campus de Rio Claro,
Universidade Estadual Paulista, como
parte dos requisitos para obtenção do
título de Doutor em Ciências Biológicas
(Área de Zoologia).

RIO CLARO
Estado de São Paulo - Brasil
janeiro de 1996
i

Dedico este trabalho à minha família, suporte


diário para a complementação desta tarefa.
ii

AGRADECIMENTOS

Considero o item Agradecimentos de extrema importância para a


complementação deste trabalho. Para muitos pode ser meramente formal
agradecer. Para mim, além de ser o espaço próprio para expressar o
reconhecimento por toda a contribuição recebida para a conclusão das diversas
etapas envolvidas no doutoramento, também é o espaço para olhar
retrospectivamente, tanto através da memória racional quanto da memória
emotiva, e estabelecer a quem mais devo as condições que me levaram até onde
estou. Cada um é em grande parte construção de seu meio e deveria agradecer
àqueles que, consciente ou inconscientemente, o fizeram melhor.

Então, o que sou começou com meus pais, a quem agradeço o meu
primeiro nicho, meus mais marcantes exemplos, meus caminhos e
oportunidades até me formar na universidade. Realmente o filhote de Homem
muitas vezes demora a se desgarrar. E quando se desgarra, via de regra, se
agarra a alguém e desdobra a sua família. Hoje tenho muito a agradecer à
minha. Obrigado Roseane, minha mulher, pela inteligência, pela incomensurável
paciência, por suprir papéis tradicionalmente meus durante o tempo em que
estive concentrado na redação deste documento, por estar presente. Obrigado
a meus filhos Roberta, Raphael e Rachel pelo carinho diário e por dividirem o
seu pai com o computador por tanto tempo.

Adiante, tenho que parar obrigatóriamente no curso primário. E as


boas lembranças me levam a duas professoras com um imponderável talento
para ensinar, para interessar, para fazer crianças gostarem de aprender.
Agradeço à minha especial professora do primeiro ano D. Claudina Barbosa
Medina, com quem conquistei um dos mais básicos instrumentos para a minha
profissão: a capacidade de ler. E agradeço à minha excelente professora do
quarto ano D. Hilda Rodrigues Roland, que permitia aos primeiros que
acertassem os “problemas de aritmética” que a ajudassem a corrigir os dos
iii

colegas. Para mim isso foi um dos mais eficientes estímulos ao aprendizado e à
responsabilidade, e me deu muita autoconfiança.

Minha memória me leva a uma visita ao laboratório de patologia da


Faculdade de Odontologia da USP onde, há mais ou menos 30 anos, o
professor que me atendeu falou com tal entusiasmo sobre pesquisa que
certamente deve ter lançado a primeira semente de interesse para que eu
também me dedicasse à pesquisa. Talvez também tenha começado aí o impulso
para tratar com atenção às crianças e jovens que me procuram com suas
perguntas. Por isso, agradeço ao Dr. José Barbosa. Até hoje guardo um
conjunto de lâmina e lamínula que ganhei nessa visita.

Nos meus anos na faculdade de Medicina Veterinária tive a felicidade


de cultivar a amizade do professor de microbiologia Dr. Ernst Gerson Cohn, um
dinamarquês possuidor de invejáveis dotes intelectuais e vasta cultura com
quem aprendi muito. Dentre os vários assuntos que brotavam de sua cabeça e
de sua biblioteca, ambas em diversas línguas, eu gostava de conversar sobre
os bons e maus meandros da arte de fazer ciência. Com ele seguramente
consolidou-se o meu interesse pelo ensino e a pesquisa. Sou profundamente
grato ao Professor Cohn (como eu o chamava). Paradoxalmente, fui convidado
por ele para ser professor no seu departamento e não pude aceitar. Acho que
nesse momento a vida me pregou uma de suas peças. Infelizmente, hoje
percebo, foi irreversível.

A meu amigo João de Sousa Nunes, economista de cabeça


privilegiada, companheiro de jornada há quase trinta anos, agradeço pelas
idéias, pelas críticas (que transcendem o âmbito desta tese), pelo apoio e
orientação em muitos momentos. Do armário que compartilhou comigo na
Universidade até o computador que usei para preparar este documento, e ainda
pela impressão deste trabalho, devo lhe agradecer. O tempo o fez meu irmão.

Durante a vida, e a vida profissional não é exceção, alguns se tornam


mais próximos, mais presentes e compartilham de mais momentos (bons e
maus). Ë o caso do Pesquisador Científico Aboré Puzzi, meu amigo Aboré, a
quem devo grande parte dos dados empíricos tomados para esta tese. Mas a
quem devo mais. Apesar de às vezes me deixar de “cabelo em pé”, foi uma das
pessoas mais dedicadas a uma amizade que eu já conheci. Alguém para quem
iv

certas pessoas valem mais até do que sua segurança e imagem pessoais. Pela
imensa ajuda nesta tese e pela dedicação como amigo, sou imensamente grato
ao Dr. Aboré, meu caro Aboré.

Ao jornalista e museólogo Antônio Carlos Simões, além da revisão


ortográfica e redacional desta tese, devo a partilha de sonhos e realizações em
oito anos de trabalho conjunto no Museu de Pesca. Terreno fértil onde a
comunidade foi criteriosamente atendida, principalmente através de seus jovens
e crianças. Um terreno onde em conjunto desenvolveram-se dotes de
criatividade, lealdade e altruísmo, sobretudo da parte do Simões que se dedicou
ao Museu e à nossa amizade de forma desinteressada e efetiva, inclusive no
período em que ocupei a Diretoria de Divisão. Pela revisão e pela dedicação eu
lhe agradeço, grande Simões.

Sou também muitíssimo grato ao Dr. Edison Pereira dos Santos,


outra pessoa especial que a vida colocou em minha estrada, pela orientação
que tem me oferecido desde que passou a trabalhar com o corpo técnico do
Instituto de Pesca. Sabedoria para lidar com pessoas e objetividade para lidar
com as coisas da ciência são qualidades que tenho procurado desenvolver
convivendo com o Dr. Edison. O seu nível intelectual e cultural me obriga a um
esforço diário para tentar acompanhá-lo. E se isso é exaustivo por um lado, por
outro me “puxa para cima” e tende a me fazer crescer muito a médio prazo. Nas
discussões que tivemos durante a elaboração desta tese aprendi mais que em
muitos anos de solitárias tentativas e muitas leituras.

Agradeço a meu orientador Dr. Francisco Manoel de Souza Braga,


inicialmente por ter sido uma das pessoas que acreditaram e viabilizaram um
convênio entre o Instituto de Biociências de Rio Claro, pertencente à UNESP, e
o Instituto de Pesca. Um convênio que abriu possibilidades concretas de
trabalhos conjuntos e de aprimoramento profissional. Depois eu lhe agradeço
pela enorme paciência para manter a sua orientação a um pós-graduando que
teve que se dedicar, por quase cinco anos, à Diretoria da Divisão de Pesca
Marítima (do Instituto de Pesca), interrompendo sua dedicação ao Pós. E, por
fim, eu lhe agradeço pela amizade, pela competência na orientação, e pela
v

liberdade que me foi dada na condução de certas abordagens. Espero que o


futuro permita que trabalhemos juntos muitas outras vezes.

Obrigado ainda ao PqC Acácio Ribeiro Gomes Tomás, com o qual


partilhei incontáveis horas no pier de desembarque da Cooperativa Mista de
Pesca Nipo-Brasileira identificando e medindo peixes, além de interessantes
discussões, principalmente sobre fauna acompanhante da pesca camaroeira.
Devo-lhe ainda a identificação dos cefalópodes (atualmente uma das
especialidades desse pesquisador) integrantes dessa fauna e citados na tese.

Agradeço à direção da minha Instituição (Dra. Heloísa, Patrícia) por


viabilizar a minha participação no curso de pós-graduação, e a todos os
funcionários (Carmen, Leonor, Gizelda, Arlindo, Marisa, Marco Amaral) e
pesquisadores (Fábio, Gláucio, Tutui, Evandro, Naoyo, Amorim) que
contribuíram para a sua efetivação seja através de seu apoio direto, seja através
de seus pensamentos positivos desejando-me sucesso. Deus os abençoe.

Preciso agradecer a uma considerável quantidade de estagiários que,


no decorrer dos anos, desenvolveram seus estágios tendo por base os
trabalhos de campo realizados para esta tese, sobretudo sob a orientação do
PqC Aboré. Estendo, de coração, esse agradecimento a todos ao citar
nominalmente os estagiários Karen Torok Bastos de Figueiredo e Airton dos
Santos Bartolotto.

Obrigado ainda aos associados e à Diretoria da Cooperativa Mista de


Pesca Nipo-Brasileira pela simpatia e cooperação ao receberem o corpo de
pesquisa em suas instalações e franquearem amostras, informações e as “notas
de desembarque”. Esse agradecimento se estende aos pescadores da Praia de
Perequê, que por anos a fio também cederam informações e amostras. Espero
que em algum dado momento este trabalho reverta efetivamente em seu
benefício.
ÍNDICE

Página

INTRODUÇÃO ........................................................................................ 1

A espécie .......................................................................................... 2

A pesca ............................................................................................. 6

Medidas de proteção ......................................................................... 8

A fauna acompanhante ...................................................................... 9

MATERIAL E MÉTODOS ........................................................................ 11

RESULTADOS E DISCUSSÃO ............................................................... 18

Relativos ao camarão-sete-barbas (Xiphopenaeus kroyeri) 18

...............

Relativos à fauna acompanhante ....................................................... 45

1) a nível da frota de pequeno porte 45

..........................................

2) a nível da frota industrial ....................................................... 66

CONCLUSÕES ....................................................................................... 82

RESUMO ................................................................................................. 86

SUMMARY .............................................................................................. 89

LITERATURA CITADA ............................................................................ 91


1

A PESCA DO CAMARÃO-SETE-BARBAS Xiphopenaeus kroyeri, Heller (1862) E


SUA FAUNA ACOMPANHANTE NO LITORAL DO ESTADO DE SÃO PAULO.

Roberto da Graça Lopes

1. INTRODUÇÃO

A pesca de qualquer espécie é biomassa que se extrai da Natureza. O


que se espera é que o produtor não explore inadequadamente os estoques, e
não ultrapasse a capacidade de recuperação populacional das espécies que
garante a continuidade da explotação. E para não ultrapassar essa capacidade,
é necessário monitorar permanentemente a produção e o esforço de pesca, para
ajustar esse esforço aos limites sustentáveis de extração, além de tentar
distribuir as capturas sobre diversos recursos.

No entanto, não é nada simples quantificar os limites sustentáveis de


extração para cada uma das várias espécies sob explotação. Sempre
estimativamente, isso só pode ser feito com o desenvolvimento de modelos
2

matemáticos que relacionem adequadamente parâmetros ligados à captura, ao


ciclo de vida e à dinâmica populacional das espécies.

O camarão-sete-barbas (Xiphopenaeus kroyeri) é uma das principais


espécies-alvo das capturas no Estado de São Paulo, apresentando relevância
econômica e social. Paralelamente, sua produção tem flutuado bastante no
decorrer dos anos, instabilizando o setor da sociedade que se apóia na sua
explotação. Tais circunstâncias, aliadas à riqueza biológica das áreas de pesca
desse crustáceo, o indicaram como objeto de estudo. Portanto, esta tese visa
ampliar o conhecimento sobre a pesca e o ciclo de vida do camarão-sete-barbas,
além de contribuir para a caracterização de sua fauna acompanhante.

A espécie

Xiphopenaeus kroyeri (FIGURA 1), espécie de crustáceo pertencente à


família Peneidae, é o mais
abundante camarão sob
explotação no litoral pau-
lista, ainda que, circuns-
tancialmente, partilhe sua
área de pesca com pelo
menos uma dezena de ou-
tras espécies de camarão
(SEVERINO-RODRIGUES
FIGURA 1 : Xiphopenaeus kroyeri et alii, 1985).

Para BORGES VIEIRA (1948), camarão-sete-barbas é uma denominação


imprópria, pois o quarto e quinto pares de pernas ambulacrais (apêndices
excepcionalmente alongados que originaram o vocábulo) mais as duas antenas
somam seis “barbas”. Os pescadores franceses utilizam a denominação “six-
barbs”, que resultou na corruptela “sea-bob”, nome dado à espécie no litoral
norte-americano.

Segundo TREMEL (1968), Xiphopenaeus kroyeri distribui-se desde o


litoral da Carolina do Norte (E.U.A.) até o centro do litoral de Santa Catarina
(Brasil). Ainda se desconhece porque a espécie não é encontrada mais para o
3

sul, verificando-se o limite de distribuição na barra norte da ilha de Santa


Catarina.

Animal bentônico, habita a região nerítica desde o interior de baías


(ainda que, fato não explicado, aparentemente não em todas as baías que
existem dentro de um trecho de litoral onde a espécie é abundante) até águas
com profundidade em torno de 30 metros, isóbata que raramente ultrapassa
(IWAI, 1972; HOLTHUIS, 1959, 1980), não ocorrendo em estuários. O seu ciclo
de vida transcorre integralmente no mesmo tipo de ambiente, isto é, não há uma
distinção acentuada entre os ambientes de vida de juvenis e adultos, como a que
ocorre com outras espécies da mesma família. Para Penaeus brasiliensis e
Penaeus paulensis (ambos denominados camarão-rosa e capturados
simultaneamente) e Penaeus schmitti (camarão-branco), os adultos habitam mar
aberto, enquanto os juvenis, até certo estágio de desenvolvimento, estuários e
lagoas costeiras. A não dependência de ambientes costeiros, hoje extremamente
ameaçados em seu equilíbrio interior, pode conferir uma proteção adicional a X.
kroyeri.

Outros fatores de proteção são: a) o crescimento rápido, pois segundo


DURA (1985), o tempo que os peneídeos precisam para superar a fase larval
varia de 8 a 34 dias, dependendo da espécie; b) o tipo de reprodução dos
camarões que, ainda segundo DURA (1985) “lhes permite assegurar a
continuidade das espécies, apesar da forte pressão a que estão submetidos pela
pesca e seus predadores”. A autora se refere à existência de espermatecas, que
permite a contribuição do macho à reprodução independentemente da fase de
maturação gonadal das fêmeas, assegurando que nenhuma fêmea deixará de
ser fertilizada no decorrer do tempo em que matura os ovários. Além disso, esse
sistema assegura a fertilização dos ovócitos antes que sejam liberados na água.

Por outro lado, em termos de seu desenvolvimento ontogênico, o sete-


barbas, como as demais espécies da família Peneidae, apresenta duas
fragilidades: a) “são considerados como um grupo evolutivamente primitivo, já
que uma de suas características é a presença durante o ciclo de vida de um
estágio larval sensível, livre natante, denominado náuplio” (DURA, 1985). Nessa
fase, o indivíduo ainda se nutre de suas próprias reservas; b) a post-larva, nos
sub-estádios finais da fase, passa a ter uma forte tendência para nadar próximo
4

ao fundo, a se apoiar e a se enterrar no substrato mole, ficando vulnerável ao


revolvimento do fundo pelas redes de arrasto.

Xiphopenaeus kroyeri é uma espécie relativamente bem estudada em


termos biológicos. Já em 1948, BORGES VIEIRA publicou um trabalho
abordando principalmente a reprodução da espécie, informando que machos
com mais de 13 mm de comprimento de carapaça (em torno de 70 mm de
comprimento total) estão aptos à reprodução, e que todas as fêmeas com mais
de 20 mm de comprimento de carapaça (95 mm de comprimento total) já foram
encontradas com espermatóforos, com o acasalamento ocorrendo em períodos
indeterminados, não havendo qualquer relação com o estágio de maturação
gonadal das fêmeas ou com a proximidade da postura. O autor constatou que os
maiores percentuais de fêmeas em avançada maturação ovocitária ocorrem nos
meses de novembro, dezembro e janeiro, conjecturando que “a postura do
camarão-sete-barbas deve ocorrer contemporaneamente ou, pelo menos, em um
período muito imediato”. Para BORGES VIEIRA, a ausência de animais
“desovados” indicava que a postura realizava-se em área mais profunda, não
atingida pela pesca muito costeira realizada na época.

Na década de 60, principalmente porque nessa época passou a ser mais


intensamente explorado como recurso pesqueiro, o sete-barbas foi objeto de
uma série de artigos científicos. NEIVA & WISE (1963) fizeram alguns aportes à
sua biologia e pesca na baía de Santos, e estimaram a curva de crescimento da
espécie. Seu crescimento é rápido, com duração média de vida em torno de 18
meses.

Segundo NEIVA (1967), a espécie apresenta maior atividade durante o


período diurno. Tem um amplo período de desova, sendo o verão e o outono as
épocas preferenciais. Portanto, o autor introduz a idéia de dois picos de desova,
sendo que o de verão confirmaria o observado por BORGES VIEIRA (1948).

TREMEL (1968), amostrando em Santa Catarina, observou um


predomínio de fêmeas durante todo o ano, chegando em alguns meses a
ultrapassar 70% do total. O autor informa que a maturidade para as fêmeas se
inicia entre 60 e 70 mm de comprimento total. O maior percentual de exemplares
imaturos ocorreu entre os meses de abril e agosto, atingindo de 88 a 99,2%.
Foram encontrados camarões em maturação durante todo o ano, com
5

concentração em junho-julho. Animais maduros (que são os que interessam sob


o ponto de vista de distribuição temporal reprodutiva em estudos de pesca)
ocorreram preferencialmente em duas épocas: uma em fevereiro-março e outra,
em maior quantidade, de outubro a dezembro.

Um relatório de trabalhos de campo elaborado em 1969 por técnicos da


SUDEPE no litoral do Rio de Janeiro, concluiu que o principal período de desova
do sete-barbas estendia-se de janeiro a março, assinalando também nas
amostras um predomínio de fêmeas.

A existência de maior número de fêmeas nas amostras, tanto no litoral do


Rio de Janeiro como no de Santa Catarina, pode estar associada ao crescimento
diferenciado dos dois sexos. É que crescendo mais rápido, as fêmeas tornam-se
vulneráveis antes à pesca, predominando nos menores comprimentos; e
crescendo mais, predominam nos maiores comprimentos. A amostragem de
TREMEL (1968) apresenta maior desequilíbrio nas classes extremas de
comprimento.

SANTOS, NEIVA & SCHAEFFER (1969), através de amostras obtidas


entre 1961 e 1966, estudaram a dinâmica da população de X. kroyeri na baía de
Santos (SP) e estimaram a taxa de recrutamento, a mortalidade natural e a
mortalidade total. Além disso, àquela época os autores concluíram que existem
dois picos reprodutivos, situando-se o intervalo de tempo entre eles em
aproximadamente meio ano.

SANTOS, NEIVA & VALENTINI (1971) estimaram a curva de mortalidade


para a população de X. kroyeri na baía de Santos, e SANTOS et alii (1973)
determinaram a curva de rendimento para a espécie, ainda para a mesma Baía.

SEVERINO-RODRIGUES et alii (1992), estudando amostras obtidas do


produto das capturas da pesca artesanal, entre 1979 e 1980, em águas até os 10
metros de profundidade, constataram um sex-ratio de 1:1 e uma maior freqüência
de ocorrência de indivíduos ainda imaturos, estando as fêmeas maduras e as
desovadas parcamente representadas nas amostras. Isso levou os autores à
conclusão que há uma migração para águas mais profundas para a desova,
apresentando assim a espécie uma estratificação em sua área de distribuição
perpendicularmente à costa. Uma conclusão que, nesse particular, coincide com
o observado por BORGES VIEIRA (1948).
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A pesca

Realizada através de rede de arrasto-de-fundo (FIGURA 2), a pesca


dirigida a camarões caracteriza-se por um produto de captura extremamente
heterogêneo, em decorrência da baixa seletividade do aparelho empregado.
Alternativamente, principalmente em países asiáticos, em razão do maior
tamanho e valor individual dos exemplares, pescam-se outras espécies de
camarão com o uso de armadilhas. No entanto, para a pesca do camarão-sete-
barbas, espécie cujos indivíduos são pequenos, não há até o momento aparelho
substitutivo que apresente pelo menos eficiência de captura aproximada à da
rede de arrasto.

FIGURA 2 : Rede de arrasto-de-fundo em operação.

As embarcações que dirigem seu esforço de pesca à espécie podem ser


separadas em duas frotas distintas:

1) a de pequeno porte, que opera com canoas, botes, bateiras e até pequenas
baleeiras, medindo entre 6 e 11 metros de comprimento e com menos de duas
toneladas de arqueação bruta. Via de regra, atuam de 4 a 10 metros de
profundidade. As unidades dessa frota saem para pescar ao amanhecer,
prolongando a faina de pesca por 4 a 8 horas, na dependência tanto do sucesso
produtivo dos lances como do tamanho das embarcações, pois a limitação de
espaço impõe restrições à conservação da produção, uma vez que a maior parte
dessa frota não dispõe nem mesmo de local para a guarda de gelo picado, tendo
que manter o produto das pescarias à temperatura ambiente. Normalmente, a
produção é comercializada durante ou imediatamente após os desembarques. E

2) a denominada frota industrial, constituída por embarcações medindo entre


10 e 16 metros de comprimento, que pescam, via de regra, entre 14 e 30 metros
7

de profundidade. Para as unidades desta frota, os cruzeiros (viagens) de pesca


duram de 4 a 12 dias, sendo a duração influenciada pelas condições climáticas,
características das embarcações, rendimento da pescaria, etc. Embora não haja
uma separação rígida de áreas de atuação em função do tamanho das
embarcações, com sobreposição dessas áreas para os diferentes tamanhos de
barcos, existe uma tendência dos maiores atuarem a maiores profundidades,
uma tendência perceptível na análise da produção por categoria de tamanho de
embarcação.

Dados do IBAMA (1993) circunscrevem a frota que atua sobre o


camarão-sete-barbas no litoral paulista em 2100 embarcações, 60% delas
operando com motores de 60 a 100 Hp e 40% com motores entre 100 e 350 Hp.
Essa potência de motor bastante variável entre as embarcações raramente é
bem planejada (principalmente entre os barcos menores), não estando bem
relacionada com o tamanho da rede empregada. Isto porque há uma relação
precisa entre o tamanho e desenho da rede e a velocidade do barco: rápido
demais, a rede levanta do fundo; mais lento do que o necessário, ela não se
arma. Entre esses casos extremos em que não haveria captura, existem as
gradações intermediárias de prejuízo à eficiência. Na primeira situação, a
alternativa é diminuir a velocidade do barco, desperdiçando potência do motor,
situação que afeta negativamente o custo operacional da pescaria. Na segunda
situação, estão os barcos com cascos superdimensionados em relação aos
motores, que têm que arrastar redes proporcionalmente pequenas para
compensar o seu tamanho excessivo. O que também afeta negativamente o
custo operacional.

O camarão-sete-barbas apresenta grande relevância econômica,


sustentando um expressivo segmento do setor pesqueiro no litoral sudeste-sul
brasileiro, com uma produção desembarcada no Estado de São Paulo superior,
em 1994, a 2 780 t, segundo dados da Seção de Controle da Produção
Pesqueira do Instituto de Pesca.

A TABELA 1, composta com números constantes do relatório da IX


Reunião do Grupo Permanente de Estudos de Camarões (IBAMA, 1993), mostra
a progressão ocorrida no crescimento da produção a nível nacional.
8

TABELA 1: Produção controlada, em toneladas, de camarão-sete-barbas nos litorais


Sudeste e Sul do Brasil, de 1965 a 1990.

ano produção ano produção ano produção ano produção

1965 1395 1972 10941 1979 14833 1986 9818

1966 2689 1973 13954 1980 14586 1987 11415

1967 3898 1974 10920 1981 15580 1988 9045

1968 4817 1975 9911 1982 13489 1989 10311

1969 6879 1976 10320 1983 11069 1990 5965

1970 8812 1977 13505 1984 11865

1971 8530 1978 14774 1985 11860

Medidas de proteção

O Anuário de Pesca Marítima do Estado de São Paulo, citado por


BORGES VIEIRA (1948), registra para o Estado capturas de apenas 169 t em
1944 e 232 t em 1945. Historicamente, é interessante assinalar que apesar
dessa extração mínima comparativamente à de hoje, já em 1948 B.VIEIRA
preocupava-se com a preservação do estoque de X. kroyeri, e citava uma
eventual proteção ao recurso pela suspensão da pesca: ...“defendendo-se os
indivíduos em preparação para a procriação e protegendo-se o desenvolvimento
de novos rebentos”. E o autor discorreu ainda mais extensamente sobre a
regulamentação dessa pescaria, afirmando: ...“é óbvio que a adoção de tais
medidas destina-se menos a garantir a sobrevivência da espécie, do que a
sustentar um rítmo econômico do movimento da produção que deverá
desenvolver-se anualmente em níveis mínimos de rendimento... Qualquer
9

alteração do rendimento deverá ser analisada em função da intensidade de


captura representada pelo número, tripulação, potência, aparelhamento e
duração do trabalho das embarcações empregadas.” Ou seja, a atenção deve
voltar-se para o esforço de pesca empregado. B. VIEIRA diz ainda que: “...é
evidente que uma indagação dessa natureza exige um serviço de estatística
suficientemente organizado...”.

“Admitindo que se fizesse necessária qualquer intervenção para


assegurar níveis mais lucrativos na exploração da pesca, parece-nos que o
plano de regulamentação deveria ser baseado mais nas circunstâncias em que a
população se renova, pela freqüência de indivíduos novos, do que propriamente
na maior concentração de reprodutores válidos, que são simples representantes
potenciais dessa capacidade de renovação... parece-nos lógico que os planos
de defesa deverão ser dirigidos para aspectos da realidade mais crítica, isto é,
para o grande conjunto de novos indivíduos que venceram as peripécias da vida
larval e destinam-se a preencher, com uma margem naturalmente pródiga, os
claros sofridos pela população adulta”(BORGES VIEIRA, 1948). Em seu artigo, o
autor fez afirmações básicas para qualquer gerenciamento pesqueiro, referindo-
se a esforço de pesca, rendimento econômico, proteção aos jovens e estatística
pesqueira.

A fauna acompanhante

Recebe essa denominação todo indivíduo ou conjunto de indivíduos, de


qualquer tamanho ou espécie, capturado(s) junto(s) com a espécie-alvo de uma
pescaria, sem que isso implique obrigatoriamente em qualquer relação biológica
entre eles. É um conceito da ciência pesqueira e não da biologia.

A fauna acompanhante caracteriza-se por uma elevada diversidade e,


via de regra, por uma grande quantidade de biomassa comparativamente à
espécie-alvo da captura. Devido à regularidade e intensidade com que ocorre,
torna-se característica marcante da pesca com rede de arrasto, ainda que não
seja exclusividade das artes de pesca que utilizam esse tipo de rede. A pesca da
sardinha, praticada com rede de cerco, ou a pesca de peixes através de espinhel
de anzóis, por exemplo, também produzem faunas acompanhantes
características, que resultam da similaridade de hábitos de vida e partilha do
mesmo ambiente de pesca pelas diferentes espécies.
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A fauna acompanhante pode ser subdividida em duas porções: a) a que


é desembarcada, composta por indivíduos de espécies de valor comercial e em
tamanhos comercializáveis; b) a que é rejeitada, constituída por indivíduos de
espécies sem valor econômico ou por exemplares pequenos, mesmo que de
espécies valiosas.

Muitos autores, a nível mundial, têm estudado a fauna acompanhante de


várias artes de pesca, ainda que principalmente a da pesca de arrasto em razão
da quantidade em que ocorre. Pode-se citar os trabalhos de : CHAVEZ &
ARVIZO (1972); HAIMOVICI & MACIEIRA (1981); HAIMOVICI & HABIAGA
(1982); TREVIÑO (1982); SAILA (1983); ALVAREZ & BERNAL (1983);
SEVERINO-RODRIGUES et alii (1985); MARTINEZ (1986); COELHO et alii
(1986); PAIVA-FILHO & SCHMIEGELOW (1986); GORDON (1991); RUFFINO &
CASTELLO (1992), a maioria dos quais referente à fauna acompanhante da
pesca com arrasto de fundo, principalmente a camaroeira.

Os artigos publicados caracterizam bem essa fauna sob o aspecto


qualitativo, e quantitativamente apenas dentro da própria amostragem em termos
de abundância relativa nas amostras. Observa-se que é extremamente difícil,
senão impossível, obter estimativas confiáveis do total capturado pelas diversas
frotas, por duas razões:

1) as áreas de pesca apresentam uma dinâmica imprevisível, responsável por


grande variabilidade no produto de cada lance, tanto nas espécies capturadas,
como na participação percentual (em número ou em peso) de cada uma delas no
produto das pescarias;

2) captura-se grande quantidade de animais não aproveitáveis


comercialmente, triados durante a faina de pesca e descartados já mortos ao
mar, constituíndo-se no rejeitado das pescarias, que escapa ao controle
estatístico da pesca realizado sobre a produção desembarcada nos terminais
pesqueiros.

A pesca camaroeira dirigida ao sete-barbas no litoral paulista e águas


adjacentes, tanto a de pequeno porte como a industrial, produzem grande
quantidade de fauna acompanhante, merecendo o assunto uma análise
particular na presente tese.
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2. MATERIAL E MÉTODOS

Os dados empíricos relativos à frota industrial foram obtidos junto à


Cooperativa Mista de Pesca Nipo-Brasileira, parte deles através dos registros de
desembarque referentes ao período de 1988 a 1991. Tais registros (emitidos no
próprio pier de descarga e que assinalam os pesos exatos das várias espécies
que compõem o produto das capturas) são utilizados pelos cooperados para
receberem da Cooperativa (que centraliza a comercialização) o valor monetário
correspondente à produção desembarcada, sendo também independentes do
sistema de fiscalização governamental para fins de fisco ou controle sanitário e,
portanto, confiáveis. Desses registros obteve-se o peso de camarão e de outras
espécies por barco e por viagem. Outras informações como áreas de pesca,
duração de lances, duração de viagens, profundidade de operação,
características de barcos, etc. foram obtidas em entrevistas com os mestres e/ou
proprietários das embarcações que, via de regra, acompanham de perto os
desembarques.

A anotação de dados restringiu-se às embarcações que operaram nos


limites do litoral paulista, o que ocorreu para a quase totalidade da frota
estudada, que atuou entre a ilha de Montão de Trigo (ao largo do Município de
São Sebastião) e a Juréia (ao sul do Estado).

Esses dados permitiram as análises relativas tanto ao próprio camarão-


sete-barbas quanto à fauna acompanhante da pescaria desse crustáceo,
utilizando-se as informações de produção de camarão e o respectivo esforço, por
barco, divididos nas categorias: grande e pequeno. Relativamente à fauna
12

acompanhante utilizaram-se nas análises as informações de produção do ano de


1988, onde não houve defeso, dispondo-se então dos dados de todos os meses.

A distribuição temporal reprodutiva foi obtida trabalhando-se dados


constantes em SEVERINO-RODRIGUES (1992). As curvas de crescimento (em
comprimento e em peso) utilizadas foram extraídas de NEIVA & WISE (1963). As
informações de produção (Y) e esforço (f) ano a ano estavam disponíveis em
VALENTINI et alii (1991).

As análises baseiam-se em SANTOS (1978, 1992, 1995 e 1996 - no


prelo) e são relativas à Eficiência do Esforço e ao Rendimento. Embora seja
possível entender as análises consultando essa literatura, mostra-se a seguir
algo dos conceitos envolvidos:

*Análise de Eficiência (SANTOS, 1995)

Eficiência do Esforço (Ef*) é a razão entre a produção por unidade de


esforço de uma embarcação (i) e a produção por unidade de esforço de uma
embarcação padrão, ambas operando a um mesmo tempo. Na ausência dessa
embarcação padrão, pode-se utilizar a média de produção de um conjunto de
embarcações, separadas por categoria (grandes e pequenas, por exemplo), pois
o tamanho das embarcações condiciona a eficiência do esforço. Portanto:

E *f i = Y *f i / Y *f

Se a embarcação (i) e a embarcação padrão estiverem operando na


mesma área de pesca, ou seja, atuando sobre a mesma densidade populacional
do recurso, então a Eficiência do Esforço é também o Poder de Pesca da
embarcação ( E*f = P*p ).

Para um único lance, de igual duração, da embarcação (i) e da embarca-


ção padrão, a Eficiência do Esforço é igual à Eficiência da Captura (E*f = E*c).

Deve-se salientar que conhecer a eficiência do esforço é importante para


o cálculo do esforço de pesca total exercido sobre um estoque, uma vez que
diferentes frotas atuam sobre um mesmo recurso e que a unidade escolhida para
13

quantificar o esforço (horas de arrasto, no caso do camarão) pode não


representar o mesmo de um barco para outro.

*Análise de Rendimento (SANTOS, 1995)

Para que a população de um determinado recurso sob explotação atinja


ano a ano um patamar equilibrado de produção total denominado produção
sustentável (YS), as condições ambientais de sustentação do ciclo de vida da
espécie precisam permanecer estáveis, e o esforço total (fT) de pesca aplicado
sobre ela precisa ser constante por no mínimo tantos anos quantas forem as
coôrtes - classes etárias - coexistentes (ncc = número de coôrtes coexistentes)
na população.

É nessa condição de equilíbrio que, através de desenvolvimento


matemático, SANTOS (1995) chegou à função de rendimento sustentável [Ys(f)]:

qf
YS ( f ) HE W ( t E )
M qf

K ( t t0 ) T hN R
W (t ) Wf 1 e RN R* N R e

sendo que para populações policoôrticas:

1
tE # M qf
tm

M qf ª * M (t r t R ) q f (t r t )º
m »
1 e R e
H ln«« »
E ( M q f )(t t ) M qf
he r m « 1 e »¼
¬

Trata-se de uma função constituída por outras funções e vários


parâmetros:

YS(f) = Y f[WL(I, T), Lt (Lf, K, to ), t" , tr , M, RN(tR, R*, h), tm , tM , q]

com, normalmente: tr - 1 < tR < ou = tm < ou = tr

onde são funções:


14

W L = relação peso/comprimento;

Lt = função de crescimento orgânico em comprimento;

RN = função de densidade de recrutamento;

e são parâmetros:

1) de desenvolvimento orgânico: I = fator de condição, T # 3; Lf =

comprimento assintótico; K = coeficiente de velocidade de crescimento; to =

parâmetro relacionado com comprimento (Lo) ao nascer (BERTALANFFY 1938 e

1957);

2) da dinâmica da população: t" = longevidade (idade individual máxima na


população); tr = idade de primeira reprodução; M = coeficiente de mortalidade

natural; tR = idade de recrutamento; R* = taxa máxima de recrutamento; h =


parâmetro de homeostase;

3) de captura: tm = idade mínima de captura; tM = idade máxima de captura e q

= coeficiente de capturabilidade.

Essa função de rendimento sustentável (f, YS) é expressa por uma curva
de rendimento sustentável, que parte da origem (0,0) e cresce até um ponto de
máximo (que define fMY = esforço maximizante da produção e YMS = produção máxima sustentável ),
diminuindo a seguir segundo duas possibilidades (teóricas) de gerenciamento
pesqueiro, até:

lim YS YLS
1) f of , para: tm t tr (Defeso Reprodutivo), ou seja: quando a idade

mínima de captura (tm) for maior ou igual à idade de primeira reprodução (tr), o
esforço pode tender ao infinito que a população e, conseqüentemente, a
produção não serão ameaçadas. Não há, neste caso, esforço crítico
populacional (fCP), o esforço que destrói a população; ou

2) (fCY,0), para: tm < tr, com Ys(fCY) = 0 e fCP = fCY , ou seja: quando a idade
mínima de captura é menor que a idade de primeira reprodução, é possível um
esforço crítico para a produção (fCY), que se atingido levará a produção a zero
pela destruição da população, devendo-se então controlar o esforço para
estabilizar a produção em níveis viáveis.
15

Modificando-se o tamanho das malhas das redes e/ou o local de captura,


é possível modificar a idade mínima de captura (tm) e também tM = idade máxima de

, resultando que YS depende de f, tm e tM, ou para tM =


captura
t" = longevidade (idade individual
, YS depende apenas de f e tm.
máxima na população)

Na prática, o esforço de pesca não é constante, impedindo que se


observe empiricamente uma produção sustentável. Em razão disso, para se
ajustar a curva de rendimento sustentável na presença de dados de Y e f
“insustentáveis”, corrige-se os dados transformando-os em ”aproximadamente”
sustentáveis, através de GULLAND (1969):

n
¦ fi
tM tm
Ys Yf f f i1 n
n 2
OU:

na presença de estimativas para alguns parâmetros, estimam-se os demais por


tentativas iterativas, minimizando a variância dos pontos empíricos sobre a
curva.

Este segundo método foi o adotado na tese, uma vez que para o
camarão-sete-barbas n é <2 e, por outro lado, contou-se com a facilidade do
programa CAJUS ( Curva + AJUStamento ) para microcomputador, desenvolvido
pelo Dr. Edison Pereira dos Santos, capaz de realizar as estimativas por
tentativas iterativas.

Quanto aos dados empíricos relativos à fauna acompanhante, eles


dividem-se em dois grupos: os da pesca de pequeno porte (também
denominada artesanal) e os da pesca industrial.

As 44 amostras e as informações ligadas à pesca de pequeno porte


foram obtidas junto à comunidade de pescadores da praia do Perequê (município
de Guarujá), entre 1987 e 1988 , segundo a rotina: na praia: a) selecionava-se
um desembarque em que o pescador não houvesse triado o produto do último
lance, isto é, não tivesse ainda separado o produto comercializável do que seria
rejeitado; b) coletava-se todo o material rejeitado e mais o lixo também presente
na rede, para avaliação em laboratório; c) da porção comercializável, obtinha-se
16

o peso estimado do camarão e, quando haviam peixes, o comprimento individual


e o peso agrupado dos exemplares de cada espécie) ; d) anotavam-se os dados
de pesca (nome da embarcação, dia, hora, profundidade, tempo e local do
arrasto). No laboratório: a) separavam-se os vários grupos zoológicos e o lixo;
b) identificavam-se as espécies que constituíam a rejeição; c) pesava-se cada
grupo e/ou espécie para determinar a sua participação percentual no produto
dos arrastos; d) mediam-se os exemplares de peixes.

As amostras e informações de fauna acompanhante relativas à frota


industrial (ou comercial) também foram obtidas junto à Cooperativa Mista de
Pesca Nipo-Brasileira. Apesar de se trabalhar há bastante tempo com a frota
industrial que captura o sete-barbas, para a identificação taxonômica da fauna
acompanhante as análises se restringiram ao período compreendido entre
agosto de 1990 e setembro de 1991. Nesse período, 30 embarcações foram
amostradas, analisando-se um total de 12 650 exemplares de peixes, parte no
próprio “pier” de desembarque e parte em laboratório.

Há uma rotina de descarga que define as categorias de pescado


existentes no registro do desembarque, ou seja: o produto armazenado em gelo
no porão da embarcação é transferido (em cestos), para um tanque, com água
clorada a 5%, para descontaminação. Nesse tanque, o gelo flutua, separando-se
do pescado que afunda e é recolhido por uma esteira circulante que o leva para
fora do tanque, passando na própria esteira a uma área de triagem. A primeira
parcela a ser pesada e encaminhada é o camarão, mais caro e delicado. A
seguir, descarregam-se as outras categorias de pescado, ou seja, a fauna
acompanhante comercializável (ou aproveitável). Na esteira, separam-se
manualmente os exemplares de espécies de interesse econômico, com bom
tamanho para comercialização. Esses exemplares de peixes, outros crustáceos e
moluscos são separados por espécie ou grupo de espécies e assim
comercializados em caixas de 20 quilos, classificados por vezes em pequeno,
médio e grande (por exemplo: corvina média, pescada grande, etc.). Na presente
tese, tais espécies são denominadas em conjunto de “espécies isoladas”. Por
outro lado, os exemplares de bom tamanho de espécies menos valorizadas ou os
exemplares pequenos de espécies valiosas não são retirados da esteira rolante,
17

caindo ao final em caixas, também num total de 20 quilos por caixa, constituindo
uma outra categoria de desembarque denominada “mistura”.

Para trabalho no “pier”, separava-se uma caixa de cada espécie “isolada”,


identificando-se os exemplares (várias vezes encontravam-se espécies
diferentes sob uma mesma denominação, por serem morfologicamente muito
semelhantes), medindo-se ao acaso entre 10 e 20 deles (dependendo do
tamanho dos exemplares), pois muito provavelmente esse número já incluía
tanto o maior quanto o menor comprimento existente na caixa. Para isso,
realizaram-se testes em que mediram-se todos os exemplares de várias caixas,
de diferentes espécies, retirando-os ao acaso. Dentre os 10 ou 20 primeiros
comprimentos obtidos, via de regra, registravam-se o menor e o maior peixe
presentes na caixa.

Da categoria “mistura”, transportava-se uma caixa para o laboratório,


onde os indivíduos eram separados por espécie e medidos.

A porção da ictiofauna acompanhante que é rejeitada não foi


completamente amostrada a nível da frota comercial que captura o camarão-
sete-barbas. Isto porque não se conseguiu, por limitação de espaço nas
embarcações, realizar nenhuma viagem para a coleta de amostras da rejeição
durante a faina de pesca, quando a quase totalidade dos indivíduos rejeitados
são jogados mortos ao mar pelos pescadores. Tentou-se embarcar camburões
com formol para que os próprios pescadores enchessem com amostras dos
peixes rejeitados. No entanto, esse método não foi viável porque os pescadores
não puderam obedecer os critérios de parcelamento e aleatoriedade solicitados
e, via de regra, enchiam os camburões com peixes de um único arrasto ou
selecionavam os “bonitos e diferentes”. As amostras de rejeitado conseguidas
por esse método não foram consideradas. Além disso, eram freqüentes as
reclamações de alguns tripulantes em relação ao formol, que receavam a
contaminação do produto comercializável. Obteve-se dessa categoria apenas os
exemplares coletados na esteira de desembarque misturados ao camarão. No
entanto, esse material ainda oferece uma visão qualitativa da ictiofauna
rejeitada, bem como os tamanhos em que os indivíduos já estão disponíveis e
vulneráveis ao aparelho de captura.
18

A classificação taxonômica dos exemplares da fauna acompanhante foi


realizada com base em FIGUEIREDO (1977), FIGUEIREDO & MENEZES (1978
e 1980), FAO (1978), MENEZES & FIGUEIREDO (1980 e 1985).
19

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Relativos ao camarão-sete-barbas (Xiphopenaeus kroyeri)

As FIGURAS 3 e 4 mostram a produção individual por unidade de


esforço (Y/f) de barcos da frota dirigida à captura do camarão-sete-barbas no
decorrer dos meses, por categoria (grandes e pequenos). As lacunas de dados
existentes em março e abril devem-se ao defeso anual imposto à pesca de
camarão como um todo. Observa-se pelas Figuras que ocorrem dois picos de
produção : um em maio e outro em outubro.

Pela Y/f que a maioria dos barcos pequenos alcança, sempre bem menor
do que a dos barcos grandes, percebe-se a limitação de seu poder de pesca.

Através das FIGURAS 5 e 6, que mostram a eficiência do esforço para


barcos grandes e pequenos (ou seja, a Y/f de cada barco dividida pela Y/f média
mensal dos barcos de sua categoria), nota-se que os barcos grandes
apresentaram, nos meses iniciais do ano, grande homogeneidade na eficiência,
com valores próximos de 1. Já os barcos pequenos não mostraram essa
homogeneidade, com grande dispersão em todos os meses.
20

FIGURA 3: Produção mensal (Y) por unidade de esforço (f), de barcos grandes, em 1988,
1989, 1990 e 1991.
21

FIGURA 4: Produção mensal (Y) por unidade de esforço (f), de barcos pequenos, em
1988, 1989, 1990 e 1991.
22

FIGURA 5: Eficiência do esforço (E*f) em relação à média mensal, para barcos grandes,
em 1988, 1989, 1990 e 1991.
23

FIGURA 6: Eficiência do esforço (E = E*f) em relação à média mensal, para barcos


pequenos, em 1988, 1989, 1990 e 1991.
24

Os fatores que influenciam na homogeneidade da eficiência do esforço


são as diferenças de capacidade operacional das embarcações (na qual se
incluem a experiência dos mestres e as características físicas dos barcos), e
diferentes áreas de pesca. Ou seja:

a) os barcos pequenos apresentam muito mais diferenças físicas entre si,


incluíndo potência de motor, do que os grandes. Por uma seleção econômica, os
mestres mais experientes, via de regra, operam os barcos maiores;

b) as áreas de pesca em que operam os barcos pequenos são mais


numerosas, resultando em maior probabilidade de atuar sobre diferentes
densidades do recurso. Os barcos grandes se utilizam de áreas mais ou menos
constantes.

Para a definição da homogeneidade da eficiência do esforço outro


aspecto deve ser considerado: se as embarcações estão sempre acima, ou
sempre abaixo, ou ora acima e ora abaixo da média de “seu grupo”. Apenas
neste último caso pode-se considerar um conjunto de embarcações como
homogêneo, pois as variações de produção serão devidas ao acaso e a
diferentes áreas de captura (que se alternam no tempo). Embarcações sempre
acima da média se destacam, e devem ser observadas em detalhes visando a
identificar os elementos que lhes dão supremacia, como forma de definir as
condições mais adequadas que deveriam existir para toda a frota. Por outro lado,
barcos sempre abaixo da média têm problemas a nível de autonomia e/ou poder
de pesca.

Do total analisado separaram-se os cinco barcos grandes e os cinco


barcos pequenos que apareceram o maior número de vezes nos registros de
desembarque para, respectivamente, elaborar as FIGURAS 7 e 8, nas quais se
evidencia a flutuação na eficiência do esforço nos vários meses ao longo de
1988.
25

FIGURA 7: Variabilidade da eficiência do esforço (E =E*f) de cinco barcos grandes


separados da frota industrial analisada, durante 1988.

FIGURAS 8: Variabilidade da eficiência do esforço (E=E*f) de cinco pequenos separados


da frota industrial analisada, durante 1988.

Observa-se que os barcos grandes alternaram freqüentemente de


posição, mostrando que a eficiência do esforço estava sendo influenciada pelo
acaso, não havendo fatores determinantes que fixassem diferenças. Já para os
barcos pequenos existem fatores determinantes de diferenças, pois pode-se
diferenciar três níveis, com dois barcos alternando-se com eficiência acima da
26

média; um barco mediano, ainda que grande parte do ano abaixo da média; e
dois barcos permanentemente abaixo da média.

A FIGURA 9 reúne, para efeito comparativo, as Y/f de barcos grandes e


pequenos e inclui as curvas formadas pelas médias, evidenciando através delas
que os barcos grandes são cerca de quatro vezes mais eficientes que os
pequenos.

FIGURA 9: Produção (Y) por unidade de esforço (f) por barco e a média de produção por
categoria de embarcações, mês a mês durante 1988.

A diferença na eficiência média do esforço observada na FIGURA 9 para


os barcos que atuam sobre o camarão-sete-barbas deve ser estimada o melhor
possível, pois é extremamente relevante na determinação do esforço total anual:

KC
*
f ¦ E f i fi
i 1

onde: E*f = eficiência do esforço e Kc = número de capturas.

A existência de diferentes níveis de eficiência entre os barcos pequenos,


aponta para a necessidade de subdividir a frota em outras categorias, ajustando
a informação de eficiência do esforço. Neste particular, uma caracterização
detalhada da frota e um posterior acompanhamento de suas transformações são
27

absolutamente necessários ao gerenciamento do esforço total de pesca a que os


recursos estão submetidos.

Por outro lado, conhecer a eficiência relativa do esforço adquire


relevância quando indica quais embarcações devem ser objeto de pesquisas
específicas, visando à determinação dos fatores de supremacia ou deficiência.
Isto com o objetivo de melhorar o rendimento econômico da frota como um todo.
Nesse particular, o Instituto de Pesca está desenvolvendo um projeto de
pesquisa com o objetivo de caracterizar a frota dirigida à captura do camarão-
sete-barbas.

Atualmente, nos relatórios publicados pelo IBAMA relacionados à pesca


de camarão não há nenhuma referência de que o esforço total de pesca anual
considerado esteja corrigido levando-se em conta diferenças na eficiência do
esforço dos barcos.

Os dados empíricos amostram uma única população, uma vez que


procedem de uma mesma área, o litoral paulista, onde parece não existirem
barreiras geográficas que justifiquem acreditar em mais de uma população.

As FIGURAS 3 e 4 mostram picos de produção por unidade de esforço


em duas épocas do ano. Um nítido em maio e outro que se insinua em outubro.
Sendo Y/f aproximadamente um índice de abundância, isto é, proporcional ao
tamanho ou densidade da população (SANTOS, no prelo), esses picos podem
representar duas situações:

1) incorporação de nova biomassa à população remanescente: um


recrutamento;

2) um fenômeno que disponibilize para a pesca uma maior parcela da


população: migração, concentração para acasalamento ou desova, contração
das áreas de dispersão em razão de fatores ambientais.

Para uma definição em relação aos dois picos observados, é preciso


considerar que:

a) pela FIGURA 10 observa-se que o pico de fêmeas “prontas para desovar”


estende-se por um período compreendido entre setembro e fevereiro, com
“pontos máximos” entre setembro e dezembro.
28

b) outros autores citam os seguintes períodos de concentração de indivíduos


maduros: BORGES VIEIRA (1948) novembro a janeiro; NEIVA & WISE (1961)
novembro/ dezembro e março/abril; TREMEL (1968) outubro a dezembro e
fevereiro/março;

c) esse período de concentração de fêmeas maduras coincide com o período


em que há bem maior dispersão na eficiência do esforço para os barcos grandes
(FIGURA 5);

d) BORGES VIEIRA (1948) assinalou que fêmeas relativamente pequenas já


se encontravam com espermatóforos em áreas rasas, Porém, enquanto uma
fêmea passa de “em maturação” para “madura” ela também cresce, sendo que
a(s) ecdise(s) pela(s) qual(is) tem que passar resulta em perda dos
espermatóforos. Então, a possível necessidade de uma nova cópula pré-desova
não pode ser descartada. Esse comportamento de cópula com fêmeas não
maduras que ainda deverão crescer, aparentemente um “desperdício”, indica
somente que X. kroyeri é pouco especializado, devendo ter um encadeamento
comportamental simples. Ou seja, neste caso, uma vez apto à reprodução o
macho coloca espermatóforos em todas as fêmeas que puder, estejam elas em
maturação ou maduras.

e) com base na necessidade de nova cópula pré-desova, seria viável pensar


que no período de concentração de fêmeas maduras exista um pico de machos
maduros. E esse pico ocorre em outubro, como se pode observar na FIGURA 10.

f) são características dos dois picos de Y/f, observados nas FIGURAS 3 e 4:

- o de maio é bem mais acentuado do que o de outubro, resultado de capturas


sobre áreas de pesca com maior densidade de camarão-sete-barbas, sendo que,
pela grande homogeneidade na eficiência do esforço, a alta densidade de
biomassa está bem distribuída nas áreas de pesca;

- o de outubro é acompanhado de grande dispersão na eficiência do esforço


(FIGURA 5), provavelmente resultado da concentração de parcelas da
população formando agrupamentos nas áreas de pesca. Com base na hipótese
de que os indivíduos dependam de uma nova cópula para a complementação de
seu ciclo reprodutivo, a formação de agrupamentos populacionais para esse fim
acomoda-se à situação de dispersão na eficiência do esforço, pois a localização
29

desses agrupamentos não é previsível, com o acaso assumindo papel importante


na produção por unidade de esforço.

FIGURA 10: Participação relativa mensal de fêmeas maduras ( III ) no total de fêmeas III +
IV (desovadas). E participação relativa mensal de machos maduros (PL) no total de
machos (PD + PL), segundo dados de SEVERINO-RODRIGUES (1992).

Portanto, as análises precedentes indicam que o pico de maio deve-se


ao recrutamento; e que o pico de Y/f de outubro deve-se a prováveis
concentrações de parcelas da população para cópula e desova.

Em razão da variabilidade gênica intrínseca à população, a tendência de


qualquer pico seria diluir-se, distribuindo a reprodução no decorrer do ano. Isso
só não acontece porque o pico reprodutivo se liga à necessidade de o ambiente
apresentar condições mínimas favoráveis, o que geralmente acontece a
intervalos de tempo. E se houver pico reprodutivo também haverá pico de
recrutamento.

Dentro do período de concentração reprodutiva (setembro a fevereiro),


pode-se teoricamente centralizar em outubro o ponto de postura máxima porque
a maior quantidade relativa de machos maduros ocorreu nesse mês, e imagina-
se aqui uma cópula exatamente precedente à desova, e que talvez até a
estimule (um gatilho fisiológico). Sobrepondo-se a curva de crescimento orgânico
30

de Xiphopenaeus kroyeri, obtida por NEIVA & WISE (1963), ao gráfico de


produção por unidade de esforço (Y/f) no decorrer do ano, estabelecendo seu
ponto de partida em outubro, obtém-se a FIGURA 11.

FIGURA 11: Produção mensal por unidade de esforço por barco (grande), em 1988, com
sobreposição da curva de crescimento obtida por NEIVA & WISE (1963).

Observa-se pela FIGURA 11 que nos meses em que há aumento de Y/f


(de maio a julho), os indivíduos devem estar com comprimentos (a nível de
moda) entre 9,0 e 10,5 cm, sendo que acima de 9,0 cm todo o contingente
populacional, segundo SEVERINO-RODRIGUES (1992), já está apto à
reprodução. Reprodução esta que, com pico em outubro, envolverá indivíduos
com comprimento em torno de 12,0 cm. Certamente entre 9,0 e 12,0 cm ocorre
pelo menos uma ecdise, confirmando a necessidade de uma nova cópula antes
da desova. Por outro lado, a FIGURA 5 mostra que em agosto inicia-se o período
do ano caracterizado pela dispersão na eficiência do esforço. Também em
agosto, segundo a FIGURA 11, os indivíduos têm mais de 11,0 cm estando a
menos de 1,0 cm do provável tamanho de desova, uma possível razão para os
exemplares permanecerem agrupados.

Apenas a formação de agrupamentos populacionais seria suficiente para


explicar a dispersão da eficiência do esforço. Mesmo assim, ainda é válida a
hipótese de que no período que se inicia em agosto os agrupamentos com
31

indivíduos prestes a reproduzir movimentam-se seguidamente, buscando as


condições fisiológicas e ambientais favoráveis à desova.

Se o início do ciclo de vida for no mês de outubro, a idade mínima de


captura (tm) é 0,67 ano (no pico de recrutamento em maio). A idade de primeira
reprodução será no próximo outubro: tr = 1 ano. E, devido ao pequeno tamanho
das malhas das redes, que lhes confere uma baixa seletividade, a idade de
recrutamento coincide com a idade mínima de captura: tR = tm.

Xiphopenaeus kroyeri realiza todo o seu ciclo em “mar aberto”, ou então


em ambientes costeiros com influência de águas salinas, ocorrendo em baías e
nunca em estuários, diferentemente do que acontece com as espécies dos
outros gêneros que constituem a família Peneidae.

Essa circunstância deve ter contribuído para diminuir, ou mesmo


eliminar, a competição do sete-barbas com essas outras espécies. Pelo menos a
nível do camarão-rosa (Penaeus paulensis e Penaeus brasiliensis), a
sobreposição de áreas de ocorrência perpendicularmente à costa pode se dar
apenas no período em que a parcela de jovens da população, o camarão-
rosinha, migra para mar aberto para recrutamento aos cardumes de adultos.
Mesmo nesse período, pode não haver competição entre as espécies, pois é
desconhecido se o camarão-rosinha se alimenta enquanto passa pela área mais
rasa da plataforma ou se rapidamente segue rotas migratórias para águas mais
profundas ao sair dos ambientes específicos que habitam até juvenis.

Para o litoral paulista, SEVERINO-RODRIGUES et alii (1985) apontam


uma ausência de mistura entre o sete-barbas e o rosinha em águas rasas (áreas
de captura de barcos de pequeno porte). É possível também que esse litoral não
possua mais nenhuma rota migratória do rosa, caso suas larvas não sobrevivam
nos ambientes costeiros. No estuário de Santos, um dos dois grandes ambientes
costeiros do Estado de São Paulo, não há ocorrência (ou ela é mínima) de
camarão-rosa, desconhecendo-se até que ponto a degradação desse ambiente
tem responsabilidade nessa ausência. SOARES (comunicação pessoal) informa
que também na região lagunar-estuarina de Cananéia a predominância é do
camarão-branco. Certamente a não dependência de ambientes costeiros, o ciclo
de vida curto e a grande capacidade reprodutiva dariam vantagens ao camarão-
32

sete-barbas em qualquer competição interespecífica. Vantagens úteis também


para a espécie fazer frente à grande mortalidade imposta pela pesca.

Também nesse particular da pesca, seria útil entender como se processa


o ciclo de vida de X. kroyeri perpendicularmente à costa. NEIVA & WISE (1963)
dizem que se podem encontrar simultaneamente na mesma área, e nas
diferentes épocas do ano, indivíduos nas várias etapas de crescimento e
desenvolvimento gonadal. TREMEL (1968) confirma a existência de indivíduos
nos diferentes estágios de maturação dentro da área de pesca (capturas até os
15 metros) e durante todo o ano. Por outro lado, BORGES VIEIRA (1948), com
base na constatação do pequeno número de fêmeas maduras, propõe que a
reprodução da espécie ocorre em águas mais profundas do que aquelas de onde
provieram suas amostras. Os dados de SEVERINO-RODRIGUES et alii (1992)
confirmam esta afirmação.

Idéias aparentemente opostas no que diz respeito à estratificação


populacional. Provavelmente, nas amostras dos dois primeiros autores houve
mistura de capturas de várias profundidades (pelo menos até os 15 metros),
enquanto as amostras dos dois últimos provieram de águas mais rasas.
Evidentemente, para se entender o padrão de distribuição espacial da população
do sete-barbas deve-se buscar apenas as tendências, pois amostras misturadas
impedem a proposição de um modelo comportamental definitivo para a espécie.
Seria bem mais simples se estivessem disponíveis amostras coletadas isóbata a
isóbata, através de arrastos experimentais.

Partindo-se do ponto de vista que Xiphopenaeus kroyeri não seja uma


espécie de comportamento muito complexo, pode-se imaginar o modelo mais
simples de distribuição espacial da espécie perpendicularmente ao continente:
os ovos e larvas são trazidos pelas correntes superficiais em direção à costa,
espalhando-se pela região nerítica rasa; as pós-larvas e os jovens iniciam sua
vida bentônica em águas de pouca profundidade e daí em diante passam a se
afastar paulatinamente para águas mais profundas com o crescimento, numa
reação ao fator pressão, que de alguma forma se ligaria ao ciclo de crescimento
dos indivíduos. Esse “espalhamento ordenado” da população é extremamente
favorável por diminuir a competição intraespecífica, sobretudo em relação aos
33

indivíduos nascidos fora do pico reprodutivo, considerando-se existir reprodução


o ano inteiro para a espécie.

A FIGURA 12 é uma representação gráfica do ciclo acima, através da


qual se pode estimar a que profundidade aproximadamente os indivíduos
estariam a certo comprimento. Foi elaborada com base :

a) na curva de crescimento existente para a espécie, limitada aos primeiros 12


meses;

b) na definição do ponto inicial do ciclo entre 0 e 1 metro de profundidade,


supondo-se que os indivíduos não tenham tempo para passar à vida planctônica
antes de serem conduzidos pelo movimento das águas até à costa;

c) na utilização do comprimento modal dos indivíduos capturados (6 cm) e da


profundidade média de pesca (7 metros = capturas entre 4 e 10 metros de
profundidade), registrados em SEVERINO-RODRIGUES (1992), para fixar um
segundo ponto que permitiu o ajuste de posição da curva; e com base ainda no
seguinte raciocínio:

d) como o recrutamento para a pesca a nível dos barcos grandes,


representado pela maior produção por unidade de esforço, pode ser observado
sempre em maio e junho (FIGURA 3), isso significa que o deslocamento do
contingente populacional de Xiphopenaeus kroyeri para águas mais profundas
vincula-se ao tempo, ou seja, à idade dos indivíduos. Portanto, idade e
profundidade se tornam proporcionais, viabilizando a utilização da curva de
crescimento, onde a idade foi substituída no eixo da abcissa pela profundidade.
34

FIGURA 12: Relação entre o comprimento modal (L) e a profundidade (P) através da
curva de crescimento (NEIVA & WISE, 1963), sendo Lr o comprimento de primeira
reprodução.

Sempre tendo em vista que qualquer comprimento citado refere-se ao


possível comprimento modal do contingente populacional, pela FIGURA 12
pode-se inferir que ao redor dos 20 metros de profundidade encontram-se
indivíduos acima dos 11,0 cm, sendo esses os valores de profundidade e
comprimento em torno dos quais eles tornam-se efetivamente adultos (maduros)
e deve ocorrer a desova.

Um ciclo relacionado à profundidade geraria uma dependência da


dimensão da plataforma adjacente. Isso atuaria como um filtro, ou seja, não
permitiria o refluxo da população e “fixaria” a parte do contingente populacional
com tamanho adequado à isóbata. Na falta de espaço esse sistema pode
concentrar o contingente populacional até o limite tolerável pela espécie,
reduzindo-o a seguir (competição intraespecífica). Região com plataforma
continental larga, com área suficiente e tipo de fundo adequado a cada isóbata,
e que permita uma alocação “correta” das parcelas da população deve sustentar
maiores contingentes e, conseqüentemente, registrar maior produção total de
sete-barbas. Tal dependência das dimensões de espaços isobatimétricos
poderia explicar porque a espécie não ocorre além do centro do litoral
catarinense, ou no litoral norte do Rio de Janeiro. Nessas áreas a plataforma é
estreita, sendo incompatível com as necessidades do contingente populacional
da espécie quanto à distribuição espacial.

Apenas como exercício teórico, esse “filtro batimétrico” torna possível


uma outra explicação para os aumentos de Y/f observados, caso só ocorressem
para os barcos grandes (a FIGURA 4 descarta essa possibilidade) : ao passar de
uma isóbata com área mais larga para uma de área menor, o contingente
populacional se agrupa e antes que a dinâmica própria da espécie adeqüe
novamente a densidade populacional, seja por mortalidade ou por novo
deslocamento, torna-se possível o aumento da produção por unidade de esforço
pesqueiro. Uma nova dispersão e não uma alta mortalidade total (a por pesca
aumenta bastante) explicaria a queda de Y/f em julho/agosto e o potencial para a
sua retomada no terceiro quadrimestre do ano. Segundo esta hipótese de
35

movimentação para a população do sete-barbas no litoral paulista, o contingente


populacional da espécie passaria por um verdadeiro “gargalo” ambiental.

Por outro lado, ainda que certamente haja um aporte de ovos e/ou larvas
de áreas contíguas, uma vez que o gênero se mantém monoespecífico em sua
larga faixa de distribuição interamericana, é provável que a “colonização” da
área próxima à costa por ovos e larvas resulte em sua maior parte de postura
feita aproximadamente no mar aberto em frente, “regionalizando” o contigente
populacional. Torna-se necessário entender como o sistema de correntes atua
trazendo os ovos e larvas para a área rasa a partir de uma postura feita, supõe-
se, em torno da isóbata de 20 metros. Infelizmente, os trabalhos de oceanografia
física consultados e as cartas náuticas que abrangem o litoral Sudeste não
oferecem um suficiente nível de detalhes para comprovar ou entender alguns
pontos, tornando-se necessárias pesquisas oceanográficas específicas (físicas e
biológicas). Correntometria e batimetria minuciosas, além de um mapeamento da
temperatura e do tipo de fundo na área de ocorrência de Xiphopenaeus kroyeri
desde águas bem rasas ajudariam a compreender o padrão de distribuição
espacial da espécie, pois o tipo de sedimento parece ser determinante para a
existência massiva do recurso.

Pela estratificação em relação à profundidade (FIGURA 12) e o


comprimento (7,5 cm) a partir do qual os indivíduos são em maior percentual
considerados comercializáveis do que rejeitados pelos próprios pescadores
(conforme registra SEVERINO-RODRIGUES et alii, 1992), pode-se concluir que
as profundidades mais indicadas para a realização de operações de pesca estão
além dos 10 metros, onde estima-se que a maioria dos exemplares já atingiu no
mínimo esse comprimento.

Em razão do tempo de vida atualmente considerado para o sete-barbas,


uma simultaneidade de coortes no produto das capturas ocorre por pouco tempo,
estendendo-se idealmente de outubro a abril, e na prática, para a pesca, por
apenas quatro meses, de janeiro a abril. No entanto, com base na curva de
crescimento em peso (NEIVA & WISE, 1963), mostrada na FIGURA 13, e na
relação peso-comprimento para X. kroyeri (SEVERINO-RODRIGUES et alii,
1992), pode-se estabelecer que:
36

- em janeiro os indivíduos têm um peso estimado de menos de uma grama,


correspondendo a pouco mais de 5,0 cm de comprimento total;

- em fevereiro, pouco mais de uma grama e ainda na classe dos 5,0 cm;

- em março, pouco mais de duas gramas com as fêmeas na classe dos 6,0 cm
e os machos na classe dos 7,0 cm;

- em abril, os indivíduos têm peso estimado em três gramas e estão na classe


dos 8,0 cm.

Por outro lado, SEVERINO-RODRIGUES et alii (1992) informam que


mesmo na pesca de pequeno porte camarões até a classe dos 6,0 cm são
rejeitados para a comercialização. Então, estas informações indicam que a
simultaneidade de coortes em janeiro e fevereiro representa mortalidade para a
população do sete-barbas, mas não resulta em vantagem alguma para a pesca,
a não ser que os produtores passem a aproveitar também os exemplares
capturados entre 5,0 e 6,0 cm. Apenas nos meses de março e abril é que os
animais passam a integrar efetivamente a produção comercializável.

FIGURA 13: Produção mensal por unidade de esforço por barco, em 1988. E sobreposição
da curva de crescimento em peso (W).

Porém, é nos meses de março e abril que o IBAMA decreta os defesos


para os camarões, atingindo também o sete-barbas. Um defeso que age
37

antagonicamente em termos de produção de biomassa na dependência da


coorte considerada:

- para a coorte mais nova ao se evitar a captura aumenta-se a produção de


biomassa possível de ser pescada decorrente do crescimento dos indivíduos
durante o defeso;

- para a coorte mais antiga, de animais maiores e no fim do ciclo, e que


provavelmente não contribuirão mais com a reprodução, o defeso leva a um
desperdício de biomassa decorrente da provável morte natural dos indivíduos no
transcorrer do defeso.

Portanto, se esse defeso da forma como é praticado não protege a


população, se os indivíduos da nova coorte já possuem tamanho comercial em
março e abril, e se há perda de exemplares grandes por morte natural, o defeso
no período que vem sendo imposto é prejudicial à pesca do camarão-sete-
barbas.

A pesca a nível do ciclo natural de uma espécie sob explotação nada


mais é do que um predador adicional, sendo que um estado de produção
sustentável indica que os mecanismos de homeostase populacional ( ou seja, os
mecanismos que regulam o tamanho da população) adequaram a espécie tanto
aos confrontos interespecíficos e flutuações ambientais, quanto à mortalidade
imposta pela atividade pesqueira.

O esforço de pesca dirigido ao camarão-sete-barbas, por exemplo,


assume o papel de um grande predador, exigindo da espécie a utilização de
seus recursos adaptativos para reequilibrar o contingente populacional sob
explotação. Toda a biomassa de X. kroyeri extraída pelas capturas dá uma idéia
do "potencial de reserva" da espécie. Portanto, a pesca do sete-barbas (e a de
qualquer outro recurso) é viável apenas em razão dos mecanismos
homeostáticos que a espécie desenvolveu, uma vez que, como atividade
humana, é recente e não integrante das forças seletivas que atuaram no
decorrer da história natural do crustáceo.

Então, se a pesca é um grande predador adicional do biossistema, com


potencial para superar os mecanismos homeostáticos desenvolvidos pelas
38

espécies através do aumento incessante do esforço de pesca, que mecanismo


regulador impõe limites à pesca?

O rendimento é o fator que limita o esforço de pesca, pois SANTOS (no


prelo), mostra que entre a produção (biomassa predada) e o esforço de pesca
(população de predadores) há uma relação denominada "curva de rendimento",
com um ponto máximo de produção sustentável que corresponde a um certo
esforço de pesca (relacionado ao número de barcos ou número de horas de
pesca). Além desse ponto não adianta aumentar o esforço que a produção cai.

As FIGURAS 14 e 15 apresentam curvas de rendimento (original e


transformada, respectivamente) para a pesca de Xiphopenaeus kroyeri no litoral
do Estado de São Paulo, que puderam ser obtidas porque:

a) os dados (f, Y), originais ou transformados, não precisaram ser corrigidos


pois, com base em GULLAND (1969),

tM tm
quando n <2o f fi ;
2

b) segundo NEIVA & WISE (1963), mudando as unidades e calculando os


valores médios para machos e fêmeas, tem-se os valores dos parâmetros: I =
0,001 (cm, g); T = 3,34; Lf = 15,5 cm ; K = 1,12;

c) atribuíram-se aos parâmetros desconhecidos (M, R*,h e q) valores


diferentes até o ajustamento aos pontos empíricos (método das tentativas
iterativas) minimizando a variância sobre a curva, através da utilização do
“software” CAJUS, resultando:
39

FIGURA 14: Curva obtida através de pontos empíricos de produção e esforço totais
anuais, ajustada por parâmetros, estabelecendo a produção máxima sustentável (YMS), o
esforço de pesca que maximiza a produção (fMY) e o esforço crítico populacional (fCP).

FIGURA 15: Curva de Y/f por f, evidenciando o sequenciamento do esforço de pesca de


1972 a 1987, e com a demarcação dos valores para YMS, fMY e fCP.

Na operação de ajustamento da curva constante da FIGURA 14 chega-


se aos parâmetros que ainda não estavam estimados para o camarão-sete-
barbas:
40

M (coeficiente de mortalidade natural) = 0.60

R* (taxa máxima de recrutamento) = 4,0

h (parâmetro de homeostase) = 0,00065

q (coeficiente de capturabilidade) = 0,0030 (para unidade de esforço = 1000


horas de arrasto)

Além disso, pode-se estimar a produção máxima sustentável (Yms), a


nível do litoral paulista, em 6986 toneladas; o esforço que viabilizaria essa
produção (fmy) em 354 000 horas de arrasto; e como não existe nada que
impeça a captura dos indivíduos até a idade de primeira reprodução, então
existe um esforço crítico populacional (fCP), calculado em 1 200 000 horas de
arrasto. Os dados empíricos trabalhados até 1987 mostram que o esforço de
pesca até agora não atingiu nem a metade do esforço crítico populacional (fCP).
No entanto, isso não siginifica que ainda se possa continuar aumentando o
esforço, pois a produção claramente já está em declínio.

De posse dessas informações, um próximo passo importante seria


estudar detalhadamente toda a frota dedicada à captura do sete-barbas, visando
a estabelecer para cada embarcação e/ou categoria de embarcação a chamada
Eficiência Temporal (E*T) ou Esforço Relativo (f*), que é a razão entre o
esforço total anual aplicado pela embarcação e o que poderia ser aplicado (fLT =
esforço limite temporal), limitado apenas pelas condições ambientais. Essa
razão mede a eficiência em relação ao tempo utilizado em operações de pesca,
pois gasta-se bastante tempo com manutenção, embarque/desembarque, etc.
Segundo SANTOS (no prelo):

Uma informação que possibilitará a comparação de desempenho entre


embarcações nesse particular, a partir do que se buscará entender e aplicar os
procedimentos dos barcos mais eficientes. Por outro lado, a estimativa de f* para
as várias embarcações ou categorias de embarcações (da frota de pequeno
porte à frota industrial) permitirá conhecer o esforço máximo que cada
41

embarcação (ou categoria de embarcações) poderá somar ao esforço total anual


máximo possível de ser aplicado sobre o camarão-sete-barbas. Pois, quanto
mais perfeitamente estimado esse “máximo esforço total anual possível”,
maior segurança se terá para definir providências práticas que o ajustem ao
esforço que maximiza a produção, conhecido pela curva de rendimento.

Ao se concluir pela necessidade de reduzir o esforço de pesca que está


excessivo, quantos e quais barcos seria conveniente retirar de operação?
Tecnicamente para a redução do esforço deve-se manter em operação os barcos
mais eficientes em todos os aspectos e reduzir o número de barcos em
operação. A eficiência do esforço (Ef*) e o esforço relativo (f*) podem definir as
melhores embarcações, enquanto que a diferença entre o esforço que maximiza
a produção e o esforço total máximo anual possível definiria quantas
embarcações precisariam ser retiradas de operação.

Pela FIGURA 15 pode-se observar o seqüenciamento do esforço de


pesca de 1972 a 1987 e a flutuação do rendimento das capturas em função da
quantidade de esforço. Sobre a curva ajustada encontra-se a projeção do
rendimento máximo (médio) sustentável, ou seja, em torno de 19,7 kg/h com o
esforço de pesca estabilizado em 354 000 horas de arrasto.

Teoricamente, o esforço deve reagir à queda na produção, diminuindo; e


a produção deve reagir à diminuição do esforço, aumentando. SANTOS (no
prelo) mostra que uma vez instabilizada pela pesca, uma população (vista
através da produção) só tornará a se estabilizar se o esforço de captura se
mantiver constante por, no mínimo, um número de anos igual ao número de
coortes que participam da reprodução. Enquanto o reequilíbrio não é atingido,
mesmo com esforço constante haverá uma imprevisível oscilação na produção.
Para Xiphopenaeus kroyeri, em razão de a espécie apresentar apenas uma
coorte participando da reprodução, pode-se esperar uma rápida reação da
população (vista através da produção), ano a ano, mesmo frente a esforço
variável.

Embora a FIGURA 16 mostre a influência recíproca entre produção (Y) e


esforço (f) na pesca do sete-barbas, evidencia também que a oscilação dessa
influência foge ao esperado, parecendo que o esforço não reage tão
sensivelmente à queda na produção como deveria, havendo um período de
42

latência maior do que um ano entre essa queda e o declínio no esforço. Porém,
se as curvas aparentemente não confirmam a influência recíproca como
esperado, é porque incorporam situações que podem ser explicadas.

FIGURA 16: Influência recíproca entre produção (Y) e esforço (f), no período
compreendido entre 1972 e 1987.

Quando o esforço influencia a produção do ano seguinte, trata-se de


uma resposta de ordem biológica. Quando a produção influencia o esforço, trata-
se de uma resposta de ordem econômica. A FIGURA 16 torna evidente que a
pesca do camarão-sete-barbas, como a de qualquer outro recurso explotado no
Brasil, reage mais ao componente econômico da atividade. Quando o esperado
seria que o esforço diminuísse após um ano de queda na produção, a Figura
mostra que, pelo contrário, sempre se insistiu no esforço. Isto porque, a nível do
setor produtivo, o fator psicológico decorrente da "esperança que a fase ruím
seja superada" gera essa “inércia” no incremento do esforço, que perpetua, às
custas das próprias reservas do setor, o investimento em operações de captura
de menor produtividade. Argumenta-se ainda que o investimento nos meios de
produção (barcos, equipamentos e fábricas de processamento) e a mão-de-obra
alocada na atividade não permitem uma desaceleração brusca no esforço de
pesca. Mas isso não justifica um aumento desse esforço.

Assim, nota-se pela FIGURA 16 que um aumento na produção (ano de 73)


levou a um aumento no esforço em 1974, com uma queda de produção nesse
ano que deveria desestimular o esforço. Mas, ao invés disso, o esforço tornou a
43

aumentar em 75, ampliando a queda na produção. Nessa faixa do gráfico já


aparece a insistência no esforço que decorreu do fator “esperança ...”. O que se
observa para os anos de 76 e 77 foi extremamente atípico, pois a produção não
deveria tornar a crescer após uma seqüência de anos de esforço ascendente.
Uma possível explicação para isso seria a expansão das áreas de pesca, uma
vez que nessa época a distribuição espacial das capturas do sete-barbas ainda
não havia atingido a amplitude da década seguinte.

Estranhamente, o esforço diminuiu em 78 e 79, fato determinado


possivelmente pelo preço de mercado para o camarão-sete-barbas, que
desestimularia a captura. Mesmo assim, nesses anos a produção aumentou,
talvez porque em novas áreas de pesca os indivíduos fossem maiores e
estivessem agrupados em certas situações, resultando em maior Y/f. A produção
de 1979 estimulou o esforço de 1980 (supõe-se que já sanados os problemas de
mercado) que ainda resultou em um discreto aumento na produção deste ano.
Que por sua vez estimulou o esforço em 81, que resultou em um salto produtivo
final, antes do período de acentuado declínio na produção. Uma produção bem
mais elevada que a estimada como máxima sustentável para a espécie, e obtida
com um esforço pouco superior ao estimado como maximizante da produção.

O comportamento da pesca do sete-barbas de 1976 a 1981 foi o de uma


população ainda em início de explotação. Por outro lado, talvez a queda na
produção ocorresse antes se o esforço não tivesse diminuído em 78 e 79. Além
disso, capturas como as de 80 e 81 devem ter sido suportadas por excepcionais
condições ambientais favoráveis à reprodução e ao recrutamento.

Ainda segundo a FIGURA 16, em 1982 iniciou-se um período de queda


acentuada da produção, trazendo-a para níveis cada vez mais baixos até um
mínimo em 1986 (para o período considerado na análise). Mesmo com o início
da queda em 82, o esforço de pesca só começou a ser desestimulado em 1985,
repetindo-se no intervalo o fenômeno psicológico caracterizado pela “esperança
que a fase ruim seja superada”. Tal defasagem no desestímulo do esforço em
relação à produção decorre da falta tanto de conhecimentos técnicos bem
definidos, como de visão empresarial. Em 1987, a população parece finalmente
reagir ao acentuado declínio do esforço.
44

A FIGURA 17 apresenta a relação entre a produção máxima sustentável


(Yms), o esforço que maximiza a produção (fmy) e a idade, mostrando que se os
indivíduos fossem capturados com 1 ano, Yms aumentaria em torno de 500 t,
pouco mais em comparação com Yms calculada com tm = 0,67 ano, o tamanho
mínimo de captura para os barcos grandes. Em compensação, seria necessário
um fmy da ordem de 800 000 horas de arrasto, contra as 354 000 horas previstas
como fmy calculado na condição de tm = 0,67 ano. Seria anti-econômico sob o
aspecto do investimento em esforço de pesca, e também porque manteria a frota
fora da pesca camaroeira por seis meses ao ano, pois os indivíduos estariam
disponíveis à pesca apenas de novembro a abril, para a frota de barcos grandes.

FIGURA 17: Relação entre a produção máxima sustentável (YMS), o esforço que maximiza
a produção (fMY) e a idade mínima de captura.

Porém, seria apenas permitindo que os indivíduos se reproduzissem pelo


menos uma vez (espécies com várias coortes na população) que a curva de
rendimento não apresentaria esforço crítico, e estaria portanto assegurada a
proteção da população. Pela FIGURA 18, observa-se uma assíntota na curva de
rendimento com tm = 1, idade que no caso do camarão-sete-barbas é também tr,
indicando que o esforço poderia crescer ao infinito que não haveria ponto crítico.
45

FIGURA 18: Curva de rendimento estimada considerando-se a idade mínima de captura


(tm) igual a um ano, evidenciando a não ocorrência de esforço crítico populacional (fCP).

Portanto, só existem duas formas de proteger o recurso pesqueiro: a) a


adequação do esforço de pesca; b) a idade mínima de captura ser maior ou igual
à idade de primeira reprodução.

A FIGURA 19 mostra curvas teóricas de rendimento sustentável


desenvolvidas por SANTOS (no prelo). Dentre elas a curva de rendimento
econômico que estabelece algo importantíssimo: o esforço que maximiza o lucro
(que não foi calculado para o sete-barbas por não se dispor ainda das
informações empíricas necessárias) é menor que o esforço que maximiza a
produção, sendo que o esforço crítico econômico também é bem anterior ao
esforço crítico populacional. Esta circunstância é uma verdadeira proteção à
espécie, ainda que não seja uma proteção ao recurso, pois quando se atinge o
esforço crítico econômico, a espécie deixa de existir como recurso pesqueiro
(“extinção econômica”).
46

FIGURA 19: Curvas teóricas de rendimento sustentável

(f = esforço de pesca total anual, f CP = esforço crítico populacional (destrói a população se: f CP <

f LT e tm < tr ), f CY = esforço crítico para a produção, f C$ = esforço crítico econômico, f MY =

esforço que maximiza Y, f M$ = esforço que maximiza O$, f LT = esforço limite temporal (máximo

permitido pelas condições naturais), tm = idade mínima de captura, tr = idade média de primeira

reprodução, YLS = produção limite sustentável, YMS = produção máxima sustentável, YS =

rendimento sustentável em produção, O$ = rendimento econômico sustentável e OM$ = rendimento

econômico máximo sustentável).

Nesse particular do esforço crítico econômico caberia a discussão do


subsídio, tão insistentemente solicitado pelo setor pesqueiro ao governo.
Subsídio é uma forma prejudicial de expansão do lucro, pois ao reduzir
artificialmente o custo de produção viabiliza o esforço de pesca sobre recursos
em declínio, quando o lado econômico da atividade deveria desestimular esse
esforço.

Uma vez que eliminar o esforço crítico populacional permitindo que os


indivíduos atinjam a idade de primeira reprodução é técnica e economicamente
inviável; e que existe um esforço que maximiza o lucro anterior ao esforço que
maximiza a produção, só há um objetivo a perseguir no gerenciamento
pesqueiro: equacionar o esforço de pesca imposto à população do camarão-
sete-barbas no litoral paulista a nível de maximização do lucro, protegendo
simultaneamente a espécie e a atividade pesqueira.
47
48

Relativos à fauna acompanhante

1) a nível da frota de pequeno porte

A captura de fauna acompanhante na pesca de arrasto-de-fundo é um


fenômeno mundial, que resulta não apenas da baixa seletividade do aparelho de
captura, como também da riqueza faunística da região nerítica e, em particular, de
seu estrato demersal-bentônico. Um fenômeno que interfere com a prática das
pescarias, pois a fauna acompanhante ocupa espaço na rede e diminui sua
seletividade, além de exigir o exaustivo e enfadonho trabalho de triar a produção
obtida, sendo que a parcela comercializável ainda compensa economicamente, mas
a porção rejeitada resulta apenas em desgaste para os pescadores e inútil
mortalidade de fauna, pois os animais são devolvidos já mortos ao mar. Mortalidade
que, para muitos, pode estar interferindo no equilíbrio ecológico das áreas de pesca.

Uma questão interessante e que precisa ser discutida. Em um artigo sobre o


cangoá Stellifer rastrifer, COELHO et alii (1985) citam essa possibilidade. Porém, por
enquanto, não existem estudos que assegurem que a pesca de fauna
acompanhante tenha prejudicado o equilíbrio ecológico, ou que assinalem a
ocorrência de declínio populacional de certas espécies como resultado exclusivo
dessa captura não intencional.

Como parte dos dados empíricos desta tese provém da frota camaroeira de
pequeno porte que atua a pequenas profundidades no litoral paulista, sediada na
praia do Perequê, buscar-se-á compará-los às informações constantes em COELHO
et alii (1986) sobre a ictiofauna acompanhante produzida por essa mesma frota.

As capturas dessa frota “amostram” um segmento de biossistema que se


estende para além da área de atuação da própria frota, e dentro do qual se mantém
tanto a população do camarão-sete-barbas como as populações das demais
espécies. Inclusive, os limites desse biossistema podem não ser os mesmos para
todas as espécies que integram a fauna acompanhante em análise, pois
características biológicas distintas levam a diferentes distribuições espaciais.

Teoricamente, relações interespecíficas e/ou a dinâmica populacional


levariam desequilíbrios em qualquer parte do biossistema a se refletirem na estrutura
da fauna acompanhante amostrada. As espécies dessa fauna que integrassem uma
mesma biocenose deveriam mostrar uma resposta causa-efeito quando alguma
delas fosse profundamente “perturbada” a nível de sua dinâmica populacional;
49

enquanto as espécies que integrassem apenas uma comunidade (quando há


apenas uma partilha do espaço) deveriam reagir somente a perturbações diretas
sobre seu contingente populacional. Na prática, são situações difíceis de serem
isoladas e caracterizadas.

A constatação de equilíbrio faunístico a nível da pesca da frota de pequeno


porte implicaria em que todo o ambiente de pesca do sete-barbas, ou além dele, que
mantém as populações amostradas, apresentaria iguais condições. No entanto, a
ocorrência de alterações na fauna acompanhante a nível dessa frota não significaria
obrigatoriamente que é a sua atuação que está prejudicandoa essa fauna
acompanhante.

Quase uma década de pesca intensiva transcorreu entre a amostragem de


COELHO et alii (1986) e a amostragem realizada para este trabalho, cujos
resultados são apresentados a seguir:

TABELA 2: listagem das espécies de peixe (1) da fauna acompanhante do camarão -sete-
barbas, produto das capturas da frota de pequeno porte, mostrando ainda o nome comum (2); o
número de indivíduos presentes nas amostras na primavera, verão, outono e inverno
(aproximadamente quarto, primeiro, segundo e terceiro trimestres), respectivamente (3), (4), (5)
e (6); o número total (7); a moda de comprimento (8); e o intervalo de comprimento em que os
indivíduos ocorreram (9).

(Observação: Tabela organizada por ordem alfabética das famílias e a mesma ordem dentro das famílias.)
50
51
52

Das 62 espécies constantes da TABELA 2, dez não ocorreram no


levantamento ictiofaunístico realizado por COELHO et alii (1986): Anchoa lyolepis
(10 exemplares), Prionotus nudigula (21 exemplares), Epinephelus niveatus (1),
Diplectrum formosum (2), Chirocentrodon bleckerianus (1), Achirus garmanio (2),
Citharichthys spilopterus (5), Diapterus rhombeus (1), Ophioscion punctatissimus (1)
e Ogcocephalus vespertilio (2 exemplares).

Por outro lado, das 77 espécies registradas por COELHO et alii (1986), 24
não foram identificadas nas amostras deste trabalho: Brevoortia pectinata (18
exemplares), Anchoa januaria, Cetengraulis edentulus (32), Bagre marinus,
Hexanematichthys grandoculis, Scorpaena isthmensis (1), Dactylopterus volitans (5),
Dules auriga (8), Diplectrum radiale (4 exemplares), Pomatomus saltator (7), Caranx
bartholomei (26), Trachinotus carolinus (64), Eucinostomus gula (5), Eucinostomus
argenteus (4), Cynoscion jamaicensis (168), Cynoscion microlepidotus (20), Umbrina
coroides (7), Bairdiella ronchus (233), Menticirrhus littoralis, Scomberomorus
brasiliensis (1), Etropus longimanus (26), Achirus lineatus (13), Balistes capriscus (8)
e Rhinobatos horkeli (16 exemplares).

Provavelmente, a diferença acentuada na quantidade de amostras entre os


dois levantamentos tem a ver com a diferença no número de espécies identificadas.
GRAÇA-LOPES et alii (1993) observam que “o número de amostras interfere na
catalogação ictiofaunística, pois a cada nova amostra foi comum o aparecimento de
espécies anteriormente não detectadas.” Evidentemente, isso acontece para as
espécies que contribuem com poucos ou mesmo com apenas um exemplar.

Com exceção de Trachinotus carolinus, Cynoscion jamaicensis e Bairdiella


ronchus as demais espécies não coincidentes apresentaram reduzido número de
exemplares, sendo também de ocorrência esporádica e, portanto, secundárias na
caracterização ictiofaunística do ambiente de pesca do camarão-sete-barbas. Não
se dispõe da informação, mas é provável que os exemplares de T. carolinus tenham
sido capturados em poucas ocasiões, tratando-se de capturas fortuitas como as que
acontecem para muitas outras espécies, pois esse carangídeo é pelágico, pouco
comum no estrato demersal-bentônico. Cynoscion jamaicensis, o goete, já contribuiu
com um número maior na amostragem de COELHO et alii (1986). Espécie comum
no produto de arrastos de fundo, deveria ocorrer nas amostras deste trabalho. É
possível que a captura de adultos pelas parelhas esteja influindo na sua participação
na fauna acompanhante da pesca da frota camaroeira de pequeno porte. Quanto a
53

Bairdiella ronchus, bastante semelhante morfologicamente com espécies de outros


gêneros (Stellifer, Ophioscion) que recebem a denominação comum de cangoá, é
característica do ambiente de pesca do sete-barbas, tornando-se difícil entender a
sua não identificação nas amostras.

Cinqüenta espécies foram comuns ao levantamento ictiofaunístico realizado


por COELHO et alii (1986). Destas, 15 atenderam aos mesmos critérios
estabelecidos pelo autor em seu artigo, ou seja: contribuíram com mais de 1% do
número total de indivíduos amostrados e/ou tiveram mais de 40% de freqüência de
ocorrência nas amostras, e integram a TABELA 3.

TABELA 3: (1) relação das espécies; (2) número total de indivíduos da espécie nas amostras; (3)
percentual em relação ao número total de indivíduos amostrados; (4) número de amostras em
que a espécie ocorreu; (5) percentual em relação ao número total de amostras; (6,7,8 e 9)
número de indivíduos presentes nas amostras de primavera, verão, outono e inverno
(aproximadamente quarto, primeiro, segundo e terceiro trimestres), respectivamente; e (10)
número médio de indivíduos por amostra.
54

Dentre essas espécies que apresentaram maior abundância relativa nas


amostras, observam-se grandes flutuações numéricas que refletem não apenas
características biológicas (habitat preferencial, contingente e polarização
populacionais, etc), mas também a variabilidade própria das operações de captura.
GRAÇA-LOPES et alii (1993) discutem extensamente a dificuldade de estabelecer
uma gradação na abundância relativa entre as espécies em qualquer levantamento
faunístico que reflita adequadamente a situação do meio. Esses autores citam que
“uma maior abundância relativa de certas espécies pode ser (em parte) explicada
pela característica de polarização que apresentam, percorrendo a área (de pesca)
em cardumes....A captura numérica ..... depende da situação de polarização dos
indivíduos no momento da captura e da intensidade do impacto do aparelho sobre os
cardumes..... A aleatoriedade (variabilidade) é observável mesmo nas capturas das
espécies mais numerosas nas amostras, pois participam com contingentes bastante
variáveis no produto de cada lance.” O ambiente de vida característico de cada
espécie também influencia na sua ocorrência. Espécies de hábitos pelágicos, por
exemplo, tendem a ser menos freqüentes e menos abundantes, contribuindo não
raramente com apenas um indivíduo.

As FIGURAS 20, 21 e 22 traduzem graficamente a TABELA 3 e dão uma


visão direta das diferenças entre as espécies em termos de abundância relativa, de
freqüência de ocorrência nas amostras e de distribuição do número de exemplares
por trimestre.
55

FIGURA 21: Freqüência de ocorrência nas amostras para as 15 principais espécies de


peixe da fauna acompanhante da pesca de pequeno porte dirigida ao camarão-sete-barbas
(Xiphopenaeus kroyeri), em Perequê (Guarujá).

Analisando-se a TABELA 3 e a FIGURA 20, observa-se que apenas cinco


espécies alcançaram 5% do número total de exemplares. Dentre elas quatro
pertencem à família Sciaenidae, que possui espécies muito bem adaptadas ao
ambiente demersal-bentônico. Paralonchurus brasiliensis (maria-luiza) foi a mais
freqüente (FIGURA 21) e a mais numerosa, com um número médio de indivíduos por
amostra (113,23) bastante alto em relação às demais espécies, estando
aparentemente sujeita a uma elevada mortalidade por pesca a nível da frota
analisada. Como também é bastante capturada pela pesca camaroeira industrial,
torna-se interessante como possível objeto de estudos visando a entender o
mecanismo homeostático que a espécie desenvolveu para suportar essa
mortalidade. Já BRAGA (1990) acredita que por não haver pesca dirigida a P.
brasiliensis, a população SP da espécie está sujeita a uma baixa mortalidade por
pesca. Na verdade, fica evidente que há o que buscar em termos do entendimento
do ciclo de vida da maria-luiza, uma possível “espécie-laboratório” a nível de
ictiofauna acompanhante da pesca de arrasto.

Dentre as outras 10 espécies que completam a Tabela, mais quatro também


são da família Sciaenidae : Stellifer brasiliensis, Cynoscion virescens, Micropogonias
furnieri e Larimus breviceps.
56

Em sexto lugar em número de exemplares ocorreu Pellona harroweri


(sardinha-mole). Espécie preferencialmente pelágica, forma cardumes grandes
sendo comum apresentar uma razoável abundância relativa em amostras realizadas
em ambientes costeiros, pois tanto na amostragem de COELHO et alii (1986) como
na de GRAÇA-LOPES et alii(1993) a espécie foi numerosa e freqüente nas
amostras. Interessante notar que há qualquer particularidade no ciclo de vida de P.
harroweri que torna exemplares de pequeno comprimento comuns em arrastos.
GRAÇA-LOPES dispõe de informações (ainda não publicadas) de que
principalmente exemplares grandes da espécie foram capturados junto à zona de
arrebentação na baía de Santos, estando no inverno em adiantado estágio de
maturação gonadal. Como na primavera (quarto trimestre) a espécie quase
desapareceu das amostras da baía (GRAÇA-LOPES et alii, 1993), e pela FIGURA
22 B observa-se que a sua abundância relativa nas amostras concentrou-se
principalmente no outono e inverno (sendo 5,0 cm a moda de comprimento nas
amostras - TABELA 2), as informações parecem indicar, simplificadamente, o
seguinte ciclo: adultos com gônadas maduras procuram, na primavera, áreas
propícias para a desova (águas mais profundas dentro e/ou fora dos ambientes
costeiros); três a quatro meses depois os jovens passam a ocupar a área de pesca
do camarão-sete-barbas analisada, integrando a sua fauna acompanhante, sendo
em sua totalidade rejeitados. Essa ocupação pode ter razões alimentares e ser de
passagem para os ambientes costeiros. De qualquer maneira, uma circunstância do
ciclo de vida de Pellona harroweri gerador de considerável mortalidade por pesca.

50 Trim e stre s
4, 1, 2 e 3
45
40
4 1
3
A
35 4
Porcentagem

30
25
3 1
20
2
15
10
2
5
0
1.Paralonchurus 2.Stellifer rastrifer 3.Porichthys 4.Isopisthus
brasiliensis porosissimus parvipinnis
Espécies
57

Trime stre s
70
4, 1, 2 e 3
1
60
B 3
50
Porcentagem

40
4
30
2 2
20 4
3
10
1
0
5.Macrodon 6.Pellona 7.Stellifer 8.Cynoscion
ancylodon harroweri brasiliensis virescens
Espécies

Trim e stre s
90
4, 1, 2 e 3
80
70 C
60
Porcentagem

2
50
40
30
4 1
20 3
10
0
9.Micropogonias 10.Symphurus 11.Larimus 12.Selene
furnieri plagusia breviceps setapinnis
E spécies

Trim estre s
70
1 4, 1, 2 e 3

60

50
D
Porcentagem

40

30
3
20 4

10 2

0
13.Lagocephalus 14.Peprilus paru 15.Trichiurus lepturus
laevigatus
Espécies

FIGURA 22 A, B, C e D: abundância relativa das principais espécies nas amostras, por


trimestres (que correspondem aproximadamente às estações do ano (quarto = primavera,
primeiro = verão, segundo = outono e terceiro = inverno).
58

Porichthys porosissimus e Symphurus paglusia são espécies com morfologia


típica de peixes que permanecem apoiados ao fundo, estando portanto mais sujeitas
à ação do aparelho de captura e, presentes em quantidade na área de pesca, serão
freqüentes nas capturas. Já Selene setapinnis nada rapidamente na coluna de água,
estando representada na fauna acompanhante por exemplares pequenos (moda em
4,0 cm) que, em função de seu tamanho, não conseguem evitar a rede. No entanto,
assim como Pellona harroweri, parece que essa espécie de peixe-galo passa uma
fase de seu ciclo de vida no tipo de ambiente característico da área de pesca do
sete-barbas, razão pela qual é freqüente e/ou numerosa nas capturas, tendo a maior
parte dos indivíduos ocorrido no primeiro trimestre do ano (FIGURA 22 C).
Lagocephalus laevigatus, Peprilus paru e Trichiurus lepturus integram a TABELA 3
em razão da freqüência de ocorrência nas amostras, sendo também bem mais
abundantes em outros ambientes, tanto que apenas a última espécie aparece na
lista das mais significativas de COELHO et alii (1986). Talvez com um maior número
de amostras, pelo menos L. laevigatus e P. paru deixassem de integrar a TABELA 3.
Os indivíduos de Trichiurus lepturus ocorreram de 4,5 a 52,0 cm. Embora muitos
ainda fossem pequenos, vários eram grandes, indicando que o ambiente demersal-
bentônico é visitado por exemplares dessa espécie quando adultos, embora sejam
pelágicos. É compreensível isso ocorrer, pois como são vorazes predadores de
peixes pequenos, a área de pesca amostrada oferece fartura de alimento.

A TABELA 4 constitui-se das espécies mais importantes tanto na


amostragem deste trabalho como na de COELHO et alii (1986). Sem dúvida, as 12
primeiras espécies que integram essa Tabela são as que caracterizam o ambiente
de pesca do camarão-sete-barbas a pouca profundidade, em razão do número e/ou
freqüência de ocorrência nas amostras, e pela manutenção do “status” de mais
freqüentes e/ou abundantes. Essa coincidência de 80% das espécies poderia ser
uma indicação de que, no conjunto, apesar da rotina de capturas, o ambiente
mantém-se faunisticamente equilibrado, com as espécies conseguindo absorver o
impacto da mortalidade por pesca, respondendo a essa “predação” adicional através
dos mecanismos que levam à homeostase populacional.
59

TABELA 4 : ( 1 ) espécies; ( 2 ) e ( 3 ) participação percentual no número total capturado;


( 4 ) e ( 5 ) freqüência de ocorrência nas amostras; ( 6 ) e ( 7 ) número médio de indivíduos
por amostra. As colunas em negrito referem-se aos dados de COELHO et alii (1986) e as
demais aos dados deste trabalho.

Porém, se qualitativamente o quadro praticamente não se alterou, como ele


está quantitativamente? A pressão da pesca sobre as populações pode estar
levando a uma diminuição do contingente populacional de várias delas, ou mesmo
de todas. AS FIGURAS 23 e 24, respectivamente, mostram as diferenças tanto na
freqüência de ocorrência das espécies nas amostras entre os dois levantamentos,
como no número médio de exemplares por amostra.
60

100

90 B
Freqüência de ocorrência nas amostras

80

70

60 A
50

40 B A

30

20

10

0
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12

Espécies (TABELA 4)

FIGURA 23: Freqüência de ocorrência das espécies (listadas na TABELA 4) nas amostras
da tese/colunas “A”, e nas amostras de COELHO et alii (1986)/colunas “B”.

120
Número médio de indivíduos por amostra

100

80

B
60

A
40

20 A
B
0
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12

Espécies (TABELA 4)

FIGURA 24: Número médio de indivíduos por amostra das espécies listadas na TABELA
4. Dados da tese = colunas “A” e dados de COELHO et alii (1986) = colunas “B”.

Embora COELHO et alii (1986) considerem a ictiofauna acompanhante da


pesca de pequeno porte dirigida ao camarão-sete-barbas como homogênea para
todo o litoral do Estado de São Paulo, essa homogeneidade deve ser compreendida
sob o aspecto qualitativo (praticamente todas as espécies ocorreram de Cananéia a
Ubatuba), e quanto à produção média por unidade de esforço (número de
exemplares ou peso médios por amostra = arrasto). Do ponto de vista de
abundância relativa e freqüência de ocorrência nas amostras, as espécies tiveram
61

participação diferenciada entre os locais de amostragem. O autor cita, para as


espécies que se destacaram, o local de maior ocorrência de cada uma delas.

A FIGURA 23 mostra que das 12 espécies importantes, comuns aos dois


levantamentos, a freqüência de ocorrência foi menor nos dados deste trabalho
apenas para Pellona harroweri (-12%), Stellifer brasiliensis (-47,6%) e Selene
setapinnis (-27,7%), sendo que as duas últimas, juntamente com Porichthys
porosissimus (+47,4%), foram as que apresentaram as maiores diferenças entre os
dois levantamentos. A explicação poderia ser os locais de maior ocorrência dessas
espécies citados por COELHO et alii (1986). As três primeiras espécies ocorreram
mais, respectivamente, em Ubatuba, Peruíbe e Ubatuba. Já P. porosissimus teve
alta concentração em Perequê, não apenas em ocorrência nas amostras como em
número de exemplares. Uma situação plenamente reforçada pelas amostras.

As demais espécies tiveram maior freqüência de ocorrência nas amostras


deste trabalho: Paralonchurus brasiliensis (+0,1%), Isopisthus parvipinnis (+9,1%),
Macrodon ancylodon (+15,1%) e Cynoscion virescens (+15%), embora tenham
ocorrido mais em Perequê mesmo nas amostras de COELHO et alii (1986). Pelo
raciocínio acima, seria esperado esse aumento na freqüência de ocorrência. Já
quanto a Stellifer rastrifer (+3,3%), Micropogonias furnieri (+11%), Symphurus
plagusia (+9,4%) e Trichiurus lepturus (+6,2%), a que causa se poderia atribuir o
aumento quando no levantamento de COELHO et alii (1986) os locais de maior
ocorrência das espécies foram, respectivamente, Peruíbe para a primeira e Ubatuba
para as três últimas? Existe a possibilidade de parte da variação observada decorrer
de mal ajuste das quantidades e período das amostras entre os dois levantamentos
nos diferentes trimestres do ano, o que corresponderia a incidir sobre fases
diferentes do ciclo de vida de cada espécie. Ainda que não se deva desprezar a
idéia de que todo o quadro de flutuações observado na TABELA 4 seja apenas um
rearranjo normal e periódico, decorrente das diferentes dinâmicas populacionais das
espécies.

Pela FIGURA 24 observa-se o comportamento das espécies em termos de


número médio de exemplares por amostra. Sete espécies (58,3%) apresentaram
aumento desse número médio acompanhado de aumento na freqüência de
ocorrência (Paralonchurus brasiliensis, Porichthys porosissimus, Isopisthus
parvipinnis, Macrodon ancylodon, Cynoscion virescens, Micropogonias furnieri e
Symphurus plagusia ), ou diminuição do número médio acompanhado de diminuição
62

na freqüência de ocorrência nas amostras (Pellona harroweri, Stellifer brasiliensis e


Selene setapinnis). As exceções foram Stellifer rastrifer e Trichiurus lepturus, que
tiveram seu contingente diminuído na amostragem apesar do aumento na freqüência
de ocorrência nas amostras, ainda que os desvios das tendências básicas tenham
sido pequenos, ou seja: S. rastrifer teve uma freqüência de ocorrência nas amostras
apenas 3,30% maior na amostragem da tese, e T. lepturus apresentou um número
médio de exemplares por amostra apenas 0,26 menor.

Para as espécies que tiveram aumento no número médio de indivíduos


amostrados, principalmente as que tiveram Perequê como local de maior ocorrência
no levantamento de COELHO et alii (1986), isso pode indicar uma maior
disponibilidade de contingente populacional dessas espécies para a pesca, salvo
circunstâncias amostrais que pudessem simular essa situação.

A forma adequada para analisar quantitativamente se a captura de


ictiofauna acompanhante prejudica a dinâmica populacional das espécies de peixe
envolvidas, exige registrar, continuamente, a produção por unidade de esforço das
mais abundantes, a fim de perceber a evolução das respostas das populações. Para
tanto, torna-se necessário restringir a interferência de algumas variáveis através de
um procedimento padrão:

a) fixar alguns barcos para colher as amostras, supondo-se que os pescadores


mantenham a mesma rotina de captura (área e arte de pesca, hora do dia, etc.);

b) fixar ainda os períodos do ano (as semanas, por exemplo) para as amostras,
de maneira a evitar a interferência das flutuações numéricas decorrentes da
dinâmica do ciclo de vida das espécies (migração, concentração reprodutiva,
recrutamento, etc.);

c) obter um número considerável de amostras, de maneira a minimizar o efeito da


variabilidade natural das capturas.

Mesmo aplicando esse procedimento amostral, detectadas tendências de


queda ou de aumento na produção por unidade de esforço de algumas espécies,
não se poderá precisar se são as capturas da frota amostrada que estão causando
as alterações. Pode-se estar detectando um efeito reflexo, ocasionado por
desequilíbrios ou reequilíbrios exógenos à frota ou à área de pesca em estudo, uma
vez que os contingentes populacionais capturados como fauna acompanhante em
determinada área de pesca são apenas parcelas das populações totais.
63

Buscando confirmar um possível aumento da quantidade de peixes na fauna


acompanhante, pode-se analisar a produção total (considerando-se os contingentes
de todas as espécies catalogadas), iniciando pela FIGURA 25.

350

300
Número médio de indivíduos nas amostras

250

200

150

100

50
a b c
0
1 2 3 4 5

FIGURA 25: Número médio de indivíduos nas amostras, sendo “a” segundo COELHO et alii (1986),
considerando-se toda a amostragem; “b” ainda referente a COELHO et alii (1986), considerando-se
apenas as amostras de Perequê; e “c” referente à amostragem do presente trabalho.

O número médio de indivíduos por amostra no artigo de COELHO et alii


(1986), considerando-se apenas a parcela da amostragem realizada em Perequê
(31 amostras), foi de 276,4 exemplares; e na amostragem deste trabalho (44
amostras), 319 exemplares. Um aumento em torno de 13,4%, ou seja, uma diferença
pequena mas não desprezível que parece confirmar no global a tendência difusa de
aumento na produção média por unidade de esforço observada a nível de algumas
espécies. No entanto, somente a diminuição ou estabilização no esforço de captura
permitiria uma recuperação dos estoques, e apenas a constatação desse fato
alicerçaria a hipótese de aumento na densidade da ictiofauna acompanhante da
pesca estudada.

Essa circunstância pode ser observada através da FIGURA 32. Na época


em que COELHO et alii (1986) realizaram a amostragem (principalmente 78 e 79), o
esforço de pesca vinha sendo incrementado desde 1972, mantendo essa tendência
até 83/84 (desconsiderando-se a pequena queda entre 77 e 79), quando começou a
declinar abruptamente (entre 80 e 81 foi ultrapassado o esforço maximizante da
64

produção, entrando-se no estágio declinante da curva que relaciona produção e


esforço, o que desestimula economicamente o esforço). As amostras deste trabalho
foram obtidas em 87 e 88, portanto já algum tempo depois de o esforço vir
diminuindo. Um intervalo importante, pois permitiu o tempo necessário para que as
espécies pudessem começar a mostrar alguma recuperação populacional, ainda que
incipiente, detectada a nível do número médio de indivíduos nas amostras.

A ictiofauna, constituída por espécies de ciclo de vida mais longo que o


camarão-sete-barbas, necessita de um tempo bem maior, sujeita a um esforço mais
baixo e estável, para acusar recuperação populacional. Provavelmente, se a partir
de 87 o esforço foi mantido a níveis mais baixos do que apresentava nesse ano,
atualmente novas amostras podem revelar uma melhor recuperação das populações
das espécies. Apenas uma possibilidade, pois o número médio de exemplares por
amostra (para o padrão de aparelho de pesca da frota analisada) talvez não tenha
condições de aumentar muito mais. Isto porque esse número médio representa
densidade de peixes no biossistema e o ambiente demersal-bentônico tem uma
capacidade limite de sustentação.

Os diferentes números apresentados pelas espécies traduzem diferentes


dinâmicas populacionais, sendo que Paralonchurus brasiliensis, por exemplo, parece
ser uma das espécies que mais rapidamente reagiu a um abrandamento do esforço
de pesca, dominando amplamente no ambiente amostrado. Há necessidade de
novas pesquisas para confirmar a dominância numérica de maria-luiza, eliminando-
se a possibilidade de se tratar de uma contingência amostral. GRAÇA-LOPES et alii
(1993), citam um caso demonstrativo desse problema: “Oligoplites saliens foi a
espécie que apresentou maior abundância relativa. No entanto, essa posição deveu-
se a um único lance onde a rede incidiu sobre um cardume (de animais muito
pequenos) e capturou 6350 indivíduos. Caso se desconsiderasse essa amostra,
Oligoplites saliens seria a quinta espécie em abundância relativa...”

A pequena diferença no número médio de indivíduos por amostra entre os


dois levantamentos poderia ser explicada por uma das hipóteses: a) a pesca não
altera a densidade média da ictiofauna e a capacidade de sustentação do ambiente
sempre foi utilizada ao redor de seu limite; b) as espécies quando das amostras mais
recentes estavam em processo de recuperação populacional, respondendo à
tendência declinante do esforço, pois antes da amostragem deste trabalho, ou
65

concomitante a ela, o esforço de pesca da frota camaroeira havia retornado para


nível semelhante ao de 77/79 (FIGURA 16).

Se as diferentes respostas das espécies em termos de “recuperação” da


abundância relativa dependem da dinâmica própria de cada população (cujos
adultos, por exemplo, se encontram vivendo sob outras condições (inclusive de
estrutura faunística), como se processariam os ajustes a nível do contingente da
fauna acompanhante presente na área de pesca amostrada? Tudo indica que as
espécies (mesmo em termos amplos) não integrem biocenoses, mas apenas
comunidades, onde há um bem menor nível de integração, mas um bem maior nível
de liberdade para regulação das populações. DANCHIN (1995) diz : “Durante muito
tempo se pensou que a existência de um grande número de espécies fosse uma
garantia de estabilidade ecológica de um meio. Parece que não é nada disso, muito
pelo contrário. Em geral, a introdução de uma nova espécie perturba tanto o meio
(quando ela se implanta) que leva ao desaparecimento de muitas outras. De fato,
tudo se passa como se o meio fosse colonizado por pequenas associações de
espécies que se superpõem, interagindo o menos possível, o que leva à formação
de estratos de ocupação muito específicos.” Essa colocação reforça a idéia de que
“ictiofaunas acompanhantes” devem formar basicamente comunidades, um tipo de
biossistema mais simples, que permite maior independência às espécies para a
regulação de seus contingentes populacionais e, conseqüentemente, propicia maior
multiplicidade faunística.

A par da ictiofauna, a fauna acompanhante constitui-se de vários outros


grupos zoológicos, reunidos para efeito de análise em : crustáceos, moluscos e
outros invertebrados. Além desses grupos, em razão da constância e quantidade em
que ocorre, incluiu-se a categoria “lixo”, composto basicamente por resíduos
plásticos (copos e sacos, principalmente), latas de alumínio, pedaços de cordas de
nylon, borracha e restos vegetais.

Os pesos médios por amostra, por trimestre (aproximadamente as estações


do ano), de Xiphopenaeus kroyeri e de fauna acompanhante, a nível da frota de
pequeno porte sediada em Perequê, podem ser comparados através da FIGURA 26.
66

25000
1.Camarão-sete-barbas

2.Fauna acompanhante
Peso médio das amostras (em gramas)

20000
2

15000 1
1
2
10000

5000

0
quarto primeiro segundo terceiro

Trim estres

FIGURA 26 : Pesos médios por amostra, por trimestre, de Xiphopenaeus kroyeri e de sua
fauna acompanhante, a nível da frota de pequeno porte sediada em Perequê.

Quantitativamente, vários artigos sobre fauna acompanhante relatam que


ela se constitui numa quantidade de biomassa que sempre ultrapassa o que se
captura da espécie-alvo. No entanto, a FIGURA 26 mostra que, em termos médios,
na maioria dos trimestres do período amostrado se capturou mais camarão-sete-
barbas do que fauna acompanhante a nível da frota de pequeno porte sediada em
Perequê, resultando na proporção entre camarão e ictiofauna de 1,26:1. Observa-se
que apenas no segundo trimestre a diferença foi grande, sendo que nos demais a
produção de fauna acompanhante seguiu de perto a de camarão, superando-a no
primeiro trimestre. Logicamente, a variabilidade característica das atividades de
captura faz com que haja uma grande flutuação na proporção entre camarão-sete-
barbas e fauna acompanhante, quando se avalia cada operação de arrasto
individualmente. PAIVA-FILHO & SCHMIEGELOW (1986), quantificando a ictiofauna
acompanhante de arrastos dirigidos ao camarão-sete-barbas, realizados na baía de
Santos e adjacências, chegaram a uma proporção média entre camarão e ictiofauna
acompanhante de 1 : 1,08, ou seja, quase 50% de cada, aparentemente não
variando muito em relação ao obtido na amostragem da tese: 56% de camarão e
44% de fauna acompanhante. Porém, esses autores se referem apenas à ictiofauna,
e caso incluíssem os demais grupos zoológicos certamente a contribuição da fauna
acompanhante aumentaria bastante. A explicação para o proporção observada na
67

amostragem da tese é que ocorreram alguns arrastos com excepcional produção de


sete-barbas, interferindo muito nos valores médios. Mesmo assim, em torno de 50%
de fauna acompanhante já é uma participação bastante importante no produto dos
arrastos.

A FIGURA 27 mostra separadamente os pesos médios, por trimestre, dos


diferentes grupos que constituem a fauna acompanhante, além do lixo.

10000

9000
Peso médio nas amostras (em gramas)

8000

7000

6000

5000
1.PEIXES
4000
1 2 1 2.CRUSTÁCEOS
2
3000
3.MOLUSCOS
2000 3
4 5 3 4.OUTROS INVERT.
5
1000 4 5.LIXO
0
QUARTO PRIM EIRO SEGUNDO TERCEIRO

TRIM ESTRES

FIGURA 27 : Pesos médios, por trimestre, dos diversos grupos que constituem a fauna
acompanhante do camarão-sete-barbas (Xiphopenaeus kroyeri), a nível da frota de
pequeno porte sediada em Perequê.

A cada trimestre, os grupos predominantes na fauna acompanhante sempre


foram peixes e crustáceos, à exceção do terceiro trimestre, em que os crustáceos
foram substituídos pelo grupo “outros invertebrados” (que inclui cnidários, ofiúros,
estrêlas, holotúrias, anêmonas, renilas, poliquetas, etc.). A caracterização qualitativa
do grupo peixes constituiu a TABELA 2, que serviu de base para parte da discussão
já desenvolvida sobre esse grupo.

Dentre os crustáceos, da mesma forma que para os peixes, se encontram


várias espécies sem interesse para a pesca e algumas espécies de interesse
econômico, principalmente camarões como Artemesia longinaris (camarão-
argentino) e Penaeus schmitti (camarão-branco). Em SEVERINO-RODRIGUES et alii
(1985) há uma discussão específica sobre os camarões que partilham da mesma
área de pesca do sete-barbas estudada neste trabalho. No primeiro trimestre,
68

aproximadamente correspondente ao verão, em que o peso médio de fauna


acompanhante superou o peso médio de sete-barbas, foram os crustáceos que
deram a contribuição mais importante, superando em muito a dos peixes.

A seguir, transcreve-se uma listagem inédita (TABELA 5) das espécies de


crustáceos que constituem esse grupo da fauna acompanhante da pesca analisada,
elaborada por SEVERINO-RODRIGUES & GUERRA, com as famílias obedecendo a
ordem filogenética e as es-
pécies, a ordem alfabética.

Dessas espécies de
crustáceos, S. dorsalis, E.
oplophoroides, H. pudibun-
dus, C. ornatus e A. ameri-
canus apresentaram grande
abundância relativa e alta
freqüência de ocorrência nas
amostras. A. longinaris, T.
constrictus, P. schmitti, P.
muelleri, C. danae, L. loxo-
chelis e A. cribrarius foram
abundantes mas não fre-
qüentes. As demais espécies
não apresentaram padrões
definidos nesse particular.
Menipe nodifrons, Metese-
sarma rubripes e Callichirus
major foram capturados aci-
dentalmente, pois devido ao
habitat diferenciado que ocu-
pam, não se encontram nor-
malmente na área de opera-
ção da rede de arrasto. As
duas primeiras habitam prefe-
rencialmente ambientes ro-
69

chosos e a terceira, escava galerias na areia.

Ainda que afastado dos demais, o grupo “moluscos” ocupa a terceira posição.
Constitui-se por pequenos cefalópodes; por bivalves, embora geralmente apenas as
valvas sejam trazidas pelas redes (o que não é estranho, pois o ambiente de pesca
não é muito favorável para essa classe de molusco); e algumas espécies de
gastrópodes, sendo Olivancillaria urceus a mais comum e abundante. O peso médio
alcançado pelo grupo é devido em grande parte ao elevado peso individual dos
exemplares dessa espécie (dotados de boa massa muscular e sobretudo de uma
concha de paredes grossas e muito pesada quando comparada às das demais
espécies). É muito comum a associação deste gastrópode com anêmonas,
provavelmente porque o tamanho da massa muscular e o peso da concha conferem
a O. urceus uma maior estabilidade. É talvez o único substrato mais permanente e
estável sobre o qual as anêmonas possam se fixar e ter acesso ao ambiente de vida
do sete-barbas, basicamente lamoso.

Os pescadores sediados na praia do Perequê dificilmente comercializam


qualquer porção da produção além do próprio camarão, pois é relativamente raro o
aparecimento de peixes grandes em quantidade suficiente para isso. Provavelmente,
o tamanho das redes e a velocidade dos pequenos barcos favorecem a evitação do
aparelho de pesca pelos animais maiores. O resultado é que, via de regra, descarta-
se toda a fauna acompanhante já morta ao mar (o rejeitado das pescarias) durante
triagem realizada pelos pescadores enquanto correm outro lance.

O lixo foi incluído no conjunto em razão do grande transtorno que causa à


atuação da rede, tornando-se mais um elemento a obliterar as malhas, reduzindo a
seletividade do aparelho, além de aumentar a exigência de força de tração. Um
problema de difícil resolução que, a nível da pesca costeira, origina-se da utilização
maciça das praias para o lazer, bem como da falta de coleta do lixo produzido por
certas comunidades costeiras (as próprias vilas de pescadores, por exemplo).

2) a nível da frota industrial

As análises até aqui desenvolvidas quanto à fauna acompanhante


contemplaram a frota de pequeno porte, um dos três segmentos da frota total dirigida
à captura do camarão-sete-barbas. Em termos dessa fauna, deve-se analisar ainda
a produção dos outros dois segmentos dessa frota total, ou seja, a frota industrial de
70

barcos pequenos (porém maiores que os da frota anterior) e a industrial de barcos


grandes. O produto das capturas desses segmentos não foi separado nas análises
de fauna acompanhante.

A TABELA 6 lista todas as espécies de peixe identificadas e que integraram


tanto a porção comercializável dessa fauna quanto a porção rejeitada.

TABELA 6 : Listagem das espécies de ictiofauna acompanhante da pesca industrial


dirigida ao camarão-sete-barbas, mostrando também o nome comum; as categorias de
pescado em que foi constatada a presença da espécie: ( I ) isolada, ( M ) mistura, e ( R )
rejeitado; e os comprimentos (cm) mínimo e máximo registrados na amostragem de cada
categoria.
71
72
73
74

Mais de 60% das espécies registradas na TABELA 6 também ocorreram no


levantamento da produção da frota de pequeno porte. O que não é estranho, uma
vez que as áreas de pesca das frotas em parte se sobrepõem, pois o ambiente
propício ao camarão é contínuo. As diferenças relacionam-se a um progressivo
aumento no tamanho dos indivíduos e à substituição gradual de espécies por outras
que habitam águas mais profundas. Passando-se da ictiofauna acompanhante da
pesca do camarão-sete-barbas para a do camarão-rosa (Penaeus paulensis e
Penaeus brasiliensis), essa substituição é mais marcante (informações do autor
ainda não publicadas), embora muitas espécies também sejam comuns a ambas.

A TABELA 6 registra as categorias em que as espécies foram identificadas,


sendo porém esse enquadramento flexível por parte dos pescadores, dependendo
das circunstâncias em que a espécie aparece. Com base na prática decorrente das
rotineiras amostras no pier de desembarque da Cooperativa Mista de Pesca Nipo-
Brasileira, pode-se caracterizar as categorias nas quais se enquadram a fauna
acompanhante (peixes, crustáceos e moluscos) em:

a) categoria isolada: como o próprio nome indica, as caixas de pescado que a


constituem apresentam indivíduos de uma só espécie (ou espécies tão semelhantes
que recebem o mesmo nome comum) de valor comercial, em tamanhos
interessantes para comercialização e em quantidade suficiente para encher pelo
menos uma caixa padrão para 20 quilos de pescado. Raras espécies são incluídas
nessa categoria quando ocorrem poucos indivíduos na viagem de pesca;

b) categoria mistura: o nome também a caracteriza corretamente. O conteúdo


das caixas desta categoria comporta várias espécies, com indivíduos de tamanho
pouco menor que o da categoria anterior para as espécies de importância comercial
(embora haja sobreposição de tamanho entre as categorias); com indivíduos de
qualquer tamanho (a partir de um mínimo) para as espécies menos valiosas ou
mesmo de espécies valiosas, quando estes ocorreram em pequena quantidade nas
operações de captura. Evidentemente, trata-se de uma categoria que alcança menor
preço no mercado. Por isso, geralmente é comprada por pequenos varejistas, para
cujo comércio é melhor variedade do que quantidade;

c) categoria rejeitado: também perfeitamente denominada, é uma categoria que


normalmente não chega ao pier de desembarque, pois os exemplares que a
constituem são descartados no mar. As amostras analisadas dessa categoria
provieram de material trazido a pedido por pescadores ou, principalmente, por
75

exemplares que ficaram misturados ao camarão e que foram coletados na esteira de


desembarque. Em vista disso, não se pode tecer comentários a respeito de
abundância relativa, freqüência de ocorrência ou mesmo moda de comprimentos dos
indivíduos incluídos nessa categoria, a nível da pesca industrial do camarão-sete-
barbas.

Pela TABELA 6 pode-se observar que, no geral, a partir de 15/16 cm os


exemplares já integram pelo menos a categoria mistura e, dependendo da
quantidade, até a categoria isolada em sua subclassificação “pequena” (pequena,
média e grande). Por exemplo: corvina pequena. Aspectos anatômicos interferem no
enquadramento dos animais. Espécies de corpo alto e musculatura mais volumosa
são aproveitados em menor tamanho. Um exemplo é Peprilus paru. Esses
comprimentos podem ser considerados os “comprimentos de corte”, ou seja, os
comprimentos de seleção.

Em termos de crustáceos, além da maior parte das espécies assinaladas


para a pesca de pequeno porte (TABELA 5), apenas outras três foram identificadas
em umas poucas amostras do rejeitado da produção de barcos da frota industrial,
conseguidas com a ajuda de pescadores : Hepatus princeps (Calappidae),
Petrochirus diogenes (Paguridae) e Callinectes sapidus (Portunidae). Isso não
significa que a carcinofauna acompanhante não seja mais rica do que o registrado,
pois em termos desse grupo zoológico são muito importantes amostras da rejeição,
parcamente obtidas a nível da frota industrial, uma vez que a maioria das espécies
nunca são comercializadas, impedindo sua amostragem na produção
desembarcada.

Quanto aos moluscos, cabe anotar algumas espécies identificadas a partir


de amostras da frota industrial: Doryteuthis plei, Loligo sanpaulensis e Lolliguncula
brevis (lulas da família Loliginidae), Octopus vulgaris (polvo da família Octopodidae),
Buccinanops sp e Adelomelon sp (respectivamente, gastrópodes das famílias
Buccinidae e Volutidae), além da comum e já assinalada Olivancillaria urceus (família
Olividae).

Se a nível da frota de pequeno porte o aproveitamento da fauna


acompanhante praticamente inexiste, em razão da relativamente pequena
quantidade de exemplares de valor comercial que se captura, na pesca industrial o
seu aproveitamento já seria viável sob o ponto de vista da existência de maior
quantidade de exemplares aproveitáveis. Porém, esse aproveitamento obedece a
76

circunstâncias ligadas à produção de Xiphopenaeus kroyeri, o alvo das capturas.


Quando há muita captura do crustáceo, praticamente toda fauna acompanhante é
devolvida, via de regra, morta ao mar. É certo que nos arrastos em que a captura de
camarão é maior, há uma menor produção de fauna acompanhante. Isto porque as
redes têm uma capacidade limite que é ocupada por um ou por outro tipo de
produção. Pelo contrário, quando a produção de camarão é pequena, o
aproveitamento de fauna acompanhante cresce e assume relevância nos
desembarques, compensando em parte a queda de receita ocasionada pela falta de
sete-barbas. Ainda que em quantidades variáveis, sempre há, mês a mês, uma
pequena parte dessa fauna que é comercializada. A FIGURA 28 mostra como
variaram as quantidades de fauna acompanhante e de camarão-sete-barbas
desembarcadas mensalmente durante 1988 (ano em que não houve defeso para o
crustáceo), onde é evidente, em julho e agosto, a compensação da diminuição na
quantidade de camarão pelo maior desembarque de fauna acompanhante.

200000
180000
160000
140000
Produção (em kg)

120000
100000
80000
60000
40000
20000
3.outros grupos
0
jan. 2.peixes
fev. mar. abr.
mai. jun. 1.camarão-sete-barbas
jul. ago. set. out.
M eses nov. dez.

FIGURA 28 : Produção desembarcada de camarão-sete-barbas e fauna acompanhante


(peixes e outros grupos) no ano de 1988, na Cooperativa Mista de Pesca Nipo-Brasileira,
em Guarujá.

Graças a esse sistema de compensação, que não implica em equivalência


econômica já que o crustáceo alcança bem melhor preço de mercado, no mês em
que a produção de camarão-sete-barbas desembarcada na Nipo-Brasileira não
ultrapassou 35 toneladas, o desembarque de pescado pela frota que captura a
espécie superou as 150 toneladas, com um total de fauna acompanhante maior do
77

que 118 toneladas. Por outro lado, em meses de alta produção de camarão, quando
em um deles (janeiro) se chegou à casa das 192 toneladas, se desembarcou
somente 18 toneladas de fauna acompanhante. A FIGURA 29 dá uma outra visão
dessa “compensação”, mostrando que graças a ela, a produção total desembarcada
nunca foi menor que 123 toneladas/ mês.

250000

200000
Fauna
acompanha nte
Produção total (em kg)

desembarcada
150000

100000

Camarão-sete -
50000 barbas
desembarcado

0
mai.
mar.

jul.
jan.

jun.

ago.

out.
abr.

dez.
set.

nov.
fev.

M es es

FIGURA 29: Variação mensal na quantidade de fauna acompanhante desembarcada em


1988 na Nipo-Brasileira, Guarujá, “compensando” as quedas na produção de camarão-
sete-barbas.

A título de comparação, pode-se examinar a pesca dirigida ao camarão-rosa


(Penaeus paulensis e P. brasiliensis) que se comporta de maneira completamente
distinta em termos de aproveitamento da fauna acompanhante. No entanto, a
motivação não é diferente: compensar a produção de camarão. O camarão-rosa é
um recurso sustentado em um contingente populacional extremamente menor que o
do camarão-sete-barbas, sendo o preço que alcança no mercado, principalmente o
de exportação, o que viabiliza a sua explotação. Nessa pescaria, a quantidade de
camarão sempre é pequena em relação às condições de armazenamento das
embarcações, viabilizando o embarque da fauna acompanhante. A FIGURA 30
mostra essa relação de quantidade entre os desembarques de camarão-rosa e de
fauna acompanhante, também amplamente dominada pelo grupo dos peixes.
78

450000

400000

350000
Produção (em kg)

300000

250000

200000

150000

100000

50000
3.outros grupos
0
jan. 2.peix es
f ev . mar . abr. mai. jun. jul. 1.c amar ão- ros a
ago. s et.
M eses out. nov . dez .

FIGURA 30: Produção mensal de camarão-rosa e fauna acompanhante desembarcados


em 1988 na Cooperativa Nipo-Brasileira, em Guarujá.

A maior profundidade de operação dessa frota resulta na captura de


algumas espécies de peixes mais nobres e exemplares de maior tamanho,
alcançando um melhor preço no mercado. Trata-se de uma fauna acompanhante
também extremamente variada em termos de espécies e identicamente dominada
em termos de abundância relativa por poucas delas (informações não publicadas do
autor).

As FIGURAS 31, 32 e 33 mostram o comportamento das duas frotas em


relação ao número de barcos em operação e de desembarques.

Ba rco s e m o pe ra çã o

100
90
80 1. Frota d o
1 ca m a rã o-
Número de barcos

70
ro sa
60
50
40
2. Frota d o
30 ca m a rã o-
20 2 se te -b a rb a s
10
0
S2
jan. f ev . mar.
abr . mai. S1
jun. jul. ago. s et. out. nov .
Meses dez .

FIGURA 31: Número mensal de embarcações de ambas as frotas camaroeiras com


desembarques na Cooperativa Nipo-Brasileira, em Guarujá, no ano de 1988.
79

A escolha da espécie-alvo das capturas define as características do


biossistema a ser explotado e as áreas de pesca que deverão ser trabalhadas. O
que, por sua vez, indica as profundidades de operação e o tamanho e a malhagem
mais ajustados para a rede, especificando, conseqüentemente, qual a velocidade de
arrasto a ser mantida para que a rede se arme e capture. Por sua vez, a velocidade
liga-se à potência do motor, que tem que ser então a mais adequada e econômica
possível tanto para a operação da rede como para deslocar o casco. Em vista disso,
a pesca do sete-barbas é realizada por embarcações de porte bem diferente do
porte das que pescam o camarão-rosa.

As áreas de pesca do camarão-rosa encontram-se em águas mais


profundas, mais longe da costa, e obrigam a viagens mais longas. Por essa razão,
apesar de a frota destinada à captura dessa espécie ser mais numerosa (FIGURA
31), a sua participação no percentual de desembarques foi 10% menor, 1414 contra
1705 desembarques da rota do sete-barbas (FIGURA 32).

Em termos de número de barcos em operação, as maiores flutuações


mensais ficaram por conta da frota dirigida ao rosa (FIGURA 31). Provavelmente,
isso deve-se a que as áreas de pesca dos barcos que atuam sobre o sete-barbas,
restritas ao litoral paulista, os levam a desembarcar sempre na Nipo-Brasileira,
enquanto os barcos que capturam o camarão-rosa deslocam-se mais à procura dos
bancos do recurso, concentrando o desembarque da produção, dependendo da
época do ano, em diferentes terminais pesqueiros além da Nipo (em Itajaí, por
exemplo).

Percentual do número de desem barques


FIGURA 32: Contribu-
ição percentual de
cada frota para o

45% número total de de-

A 55% sembarques da pes-


B ca camaroeira, em
1988, na Cooperativa
A = camarão-rosa Nipo-Brasileira, em
B = camarão-sete-barbas
Guarujá.

A FIGURA 33 mostra que o número médio de viagens realizadas pelos


barcos da frota dirigida ao sete-barbas foi entre 50 e 100 % maior do que o número
80

médio dos barcos da frota do camarão-rosa. Por outro lado, a frota do sete-barbas
apresentou também a maior flutuação nesse número médio. Essa situação evidencia
uma maior regularidade na duração das viagens dos barcos que capturam o
camarão-rosa. Isso provavelmente é em função da:

a) maior produção rentável por unidade de esforço, em razão das características


do biossistema;

b) menor variabilidade de características construtivas das embarcações, dando


um padrão operacional mais uniforme à frota;

c) maior distância das áreas de pesca, o que aumenta o custo das viagens e
obriga a estender as operações de pesca ao limite operacional das embarcações;

d) maior tamanho das embarcações dessa frota, o que permite maior autonomia,
mais espaço para armazenamento da produção e melhores condições para a
tripulação.

FIGURA 33: Número médio de desembarques por barco para as duas frotas camaroeiras,
realizados em 1988 na Cooperativa Nipo-Brasileira, em Guarujá.

Em termos de biomassa capturada, pode-se comparar o comportamento


das duas frotas através das FIGURAS 34 e 35.

Observa-se a produção bem mais elevada da frota dirigida ao camarão-


rosa, com um grande pico produtivo em maio, quando o camarão e os peixes
81

contribuíram, respectivamente, com 38.710 kg e 409.233 kg e os outros grupos da


fauna acompanhante alcançaram 50.072 kg, num total de 498.015 kg. A menor
produção para a frota do rosa foi alcançada em outubro, com um total de apenas
172.647 kg, sendo que de camarão propriamente dito não se produziu muito menos
comparativamente (35.785 kg). Peixes e outros grupos da fauna acompanhante é
que diminuíram bastante a contribuição para a biomassa total: 172.647 kg e 4.351
kg, respectivamente.

Produção total desembarcada

500000
450000
400000
1. Frota do
350000
Produção (em kg)

camarão-
300000
250000
1 rosa

200000 2. Frota do
150000 camarão-
100000 sete-barbas
50000
0 2 S2
jan. fev.
mar. abr.
mai. jun. S1
jul. ago. set. out.
Meses nov. dez.

FIGURA 34: Produção total desembarcada mensalmente durante 1988 pelas frotas
camaroeiras na Cooperativa Nipo-Brasileira, em Guarujá.

Para o sete-barbas nota-se também uma elevação da produção entre abril e


junho, apenas mais suave, com o total mensal produzido variando entre 179.965 kg,
182.400 kg e 169. 497 kg, com a maior parte constituída pelo próprio camarão. Em
janeiro, setembro e dezembro a produção total superou a cada mês os 205 mil kg.
Nesses meses, a fauna acompanhante contribuiu respectivamente com 17.933 kg,
64.058kg e 94.523 kg, observando-se um bom potencial de produção
comercializável, que atingiu o seu máximo em agosto com 110.270 kg. Porém, de
maneira geral, a maior parcela da produção desembarcada para essa frota, sempre
constitui-se do próprio camarão-sete-barbas.

A FIGURA 35 mostra a enorme diferença entre as duas frotas quanto ao


desembarque médio de fauna acompanhante por viagem.
82

Produção média de fauna acompanhante / desembarque

3500

3000
1. Frota do
2500
Produção (em kg)

camarão-rosa
2000

1500 1 2. Frota do
camarão-sete-
1000 barbas
500

0 2 S2
jan. fev.
mar. abr.
mai. jun. S1
jul. ago. set.
out. nov. dez.
Meses

FIGURA 35: Produção mensal média de fauna acompanhante desembarcada por viagem,
em 1988, pelas duas frotas camaroeiras na Cooperativa Nipo-Brasileira, em Guarujá.

A comparação entre as frotas e entre a produção de fauna acompanhante


na pesca do sete-barbas e do rosa mostram claramente a importância que essa
fauna assume na dinâmica econômica das duas pescarias, e também que sua
constituição e quantidade desembarcada decorrem da combinação de
características do biossistema em explotação, construtivas das embarcações e
econômicas. Cada uma dessas pescarias tem o seu perfil desenhado não apenas
pela disponibilidade de biomassa da espécie-alvo, mas também pela fauna
acompanhante que lhes dá individualidade qualitativa e quantitativa.

Em termos amplos, a captura de fauna acompanhante tem reflexos na


atividade pesqueira:

1) a nível estatístico-pesqueiro o controle da produção inclui somente a fração


aproveitada, sendo impossível, pelo menos no momento, quantificar a fração
rejeitada, uma vez que o controle estatístico apenas da produção desembarcada nos
entrepostos já é problemático. No entanto, para muitos autores, a não inclusão do
rejeitado nas estatísticas pesqueiras prejudica as estimativas da produção e do
esforço totais para as diferentes espécies. GULLAND (1966) menciona que a fauna
acompanhante rejeitada deve ser considerada para se obter estimativas mais exatas
das quantidades totais capturadas, enquanto a antiga SUDEPE já recomendava que
fossem desenvolvidos estudos sobre a porção rejeitada nas operações de captura
83

(SUDEPE, 1985). Hoje, o IBAMA estimula e desenvolve projetos de pesquisa sobre


fauna acompanhante, incluindo a rejeitada.

Porém, para a pesquisa em pesca, os dados estatísticos da produção que


interessam são tão somente os que se ligam às espécies explotadas como recursos
pesqueiros, sejam elas espécies-alvo de capturas ou obtidos como fauna
acompanhante. Nesse universo, os números relativos a cada espécie da fauna
acompanhante comercializável são incorporados ao seu total, obtido inclusive
através de diferentes artes de pesca. Quanto à porção rejeitada da fauna
acompanhante, os dados estatísticos-pesqueiros importantes também seriam os que
se referem às espécies explotadas comercialmente, como o contingente de jovens
de camarão-sete-barbas descartados pela própria frota que captura a espécie, por
exemplo. Relativamente às espécies sem valor para a pesca, integralmente
rejeitadas, o controle estatístico da produção e do esforço a que estão submetidas
não apresentam interesse para o gerenciamento pesqueiro. Felizmente, os dados da
tese parecem indicar que as espécies que constituem a ictiofauna rejeitada pela frota
de pequeno porte analisada têm conseguido, através dos mecanismos
homeostáticos naturais que desenvolveram, manter sob controle o seu contingente
populacional, respondendo bem à flutuação no esforço de pesca dirigido à espécie-
alvo.

A importância de se dispor dos melhores dados possíveis de produção e de


esforço de pesca totais relativos a um certo recurso deriva da necessidade de se
estimarem os parâmetros desconhecidos da “função de gerenciamento pesqueiro”
através de tentativas iterativas, o que implica no ajustamento da curva de
rendimento (produção total por esforço total), construída através desses dados
empíricos obtidos pela estatística pesqueira. Teoricamente, a quantificação da
rejeição melhoraria os dados empíricos de produção e de esforço. Na prática,
porém, como a fração rejeitada se constitui tão somente de indivíduos pequenos,
eles tenderiam a representar uma parte menor do peso total capturado de certa
espécie, desviando proporcionalmente pouco os valores empíricos de produção
(registrados em peso) obtidos pela estatística pesqueira a partir dos desembarques.
A vantagem em precisão, resultante da quantificação da rejeição, à primeira vista
não compensaria as enormes dificuldades para obtê-la.

2) a nível da eficiência de captura da espécie-alvo ou algumas outras


economicamente viáveis, observa-se que ela é prejudicada pela presença na rede
84

de exemplares pequenos ou comercialmente desinteressantes integrantes da fauna


acompanhante. Há uma “competição” pela ocupação do espaço da rede, um
aumento de “peso morto” para o barco tracionar e uma diminuição da seletividade do
aparelho por obliteração das malhas. Evitar a mortalidade de indivíduos jovens,
antes de mais nada, seria melhorar a eficiência das capturas. Tomando-se a pesca
de espinhel como exemplo, cada anzol ocupado por um exemplar de fauna
acompanhante é um anzol a menos disponível para a captura da espécie-alvo,
prejudicando a eficiência do aparelho. Portanto, evitar a mortalidade de jovens de
peixes, por exemplo, é melhorar a eficiência de captura e rentabilidade da atividade.
E isso é viável, pois experimentos com espantadores (franjas na porta da rede de
arrasto) diminuíram em 50% a captura de fauna acompanhante na pesca do
camarão-sete-barbas e branco. Estão em teste redes camaroeiras que possuem
malhas maiores na porção superior do corpo, visando a permitir o escape de
ictiofauna, sem prejudicar a captura da espécie-alvo (Müller, 1994).

3) a nível do aproveitamento da fauna acompanhante rejeitada, a pesca como


atividade econômica vê essa fauna como um transtorno e não como matéria-prima.
Isso é fácil de entender, pois o preço de mercado que poderia ser atingido por essa
fração da produção não viabiliza os custos de sua manutenção a bordo, transporte e
desembarque, principalmente em embarcações pequenas que não dispõem de
espaço sufuciente de porão, nem sistema de frigorificação, reservando espaço e
gelo para a produção mais nobre, o camarão-sete-barbas e a fração comercializável
da fauna acompanhante. Essa questão do aproveitamento da fauna acompanhante
está bem discutida em GORDON (1991).

Pelo menos as espécies que constituem a ictiofauna acompanhante


parecem apresentar capacidade de regeneração de seus contingentes
populacionais, situação facilitada provavelmente pelo relacionamento tipo
comunidade existente entre a maioria delas. Em vista disso, não parece necessário
se preocupar com a implantação de medidas protetoras dessa fauna. Porém, deve-
se envidar esforços para diminuir a sua pesca, visando a aumentar a eficiência das
capturas.
85

4. CONCLUSÕES

Para a frota industrial estudada, os barcos grandes possuem, em média,


uma eficiência do esforço de pesca cerca de quatro vezes maior do que os
barcos pequenos, sendo muito importante levar em conta essa disparidade na
estimativa do esforço de pesca total a que está submetido Xiphopenaeus kroyeri.

O pico de produção por unidade de esforço que ocorre em maio deve-se


ao recrutamento para a pesca. E o insinuado pico de Y/f de outubro deve-se a
prováveis concentrações populacionais para cópula e desova, estas inclusive
dependentes de condições ambientais favoráveis à sobrevivência de ovos e
larvas.

Para Xiphopenaeus kroyeri o defeso não tem efeito protetor mas apenas
de aumento de biomassa disponível à pesca, decorrente do próprio crescimento
dos exemplares no período de suspensão das capturas. Por outro lado, se no
período do defeso os indivíduos da nova coôrte já possuem tamanho comercial,
e se há perda de exemplares grandes por morte natural, o defeso no período que
vem sendo imposto é prejudicial à pesca do camarão-sete-barbas.

Considerando-se que Xiphopenaeus kroyeri pertence a um grupo


zoológico de comportamento pouco especializado, deve-se imaginar o modelo
mais simples de distribuição espacial da espécie perpendicularmente ao
continente: os ovos e larvas são trazidos pelas correntes superficiais em direção
à costa, espalhando-se pela região nerítica rasa; as pós-larvas e os jovens
iniciam sua vida bentônica a baixíssima profundidade e daí em diante passam a
se afastar paulatinamente para águas mais profundas com o crescimento, numa
reação ao fator pressão, que de alguma forma se liga à fisiologia de crescimento
dos indivíduos. Esse ciclo relacionado à profundidade torna o contingente
populacional dependente das dimensões da plataforma a cada isóbata, que
86

passa a atuar como um filtro que, na falta de espaço, pode concentrar o


contingente populacional até o limite tolerável pela espécie, reduzindo-o a seguir
(competição intraespecífica). Região com plataforma continental larga, com área
suficiente e tipo de fundo adequado a cada isóbata que permita uma alocação
“correta” das parcelas da população, deve sustentar maiores contingentes e,
conseqüentemente, registrar maior produção total de camarão-sete-barbas. Tal
dependência das dimensões de espaços isobatimétricos pode explicar porque a
espécie não ocorre além do centro do litoral catarinense, ou no litoral norte do
Rio de Janeiro. Nessas áreas a plataforma é estreita, sendo incompatível com as
necessidades do contingente populacional da espécie quanto à distribuição
espacial.

Considerando-se o início do ciclo de vida no mês de outubro, a idade


mínima de captura (tm) é 0,67 ano. A idade de primeira reprodução será no
próximo outubro: tr = 1 ano. E, devido ao pequeno tamanho das malhas das
redes, que lhes confere uma baixa seletividade, a idade de recrutamento
coincide com a idade mínima de captura: tR = tm, definindo-se alguns parâmetros
necessários à função do gerenciamento pesqueiro. Outros valores de
parâmetros constituíntes da mesma função, específicos para o camarão-sete-
barbas são : M (coeficiente de mortalidade natural) = 0,6 ; R* (taxa máxima de
recrutamento) = 4; h (parâmetro de homeostase) = 0,00065 ; e q (coeficiente de
capturabilidade) = 0,0030.

Pode-se estimar a produção máxima sustentável (Yms), a nível do litoral


paulista, em 6986 toneladas; o esforço que viabilizaria essa produção (fmy) em
354 000 horas de arrasto; e, como não existe nada que impeça a captura dos
indivíduos até a idade de primeira reprodução, então existe um esforço crítico
populacional (fCP) calculado em 1.200.000 horas de arrasto.

O rendimento máximo (médio) sustentável estimado situa-se em torno de


19,7 kg/h, com o esforço de pesca estabilizado em 354 000 horas de arrasto.

Se os indivíduos fossem capturados com 1 ano (tamanho de primeira


reprodução), Yms aumentaria em torno de 500 t, pouco mais em comparação com
Yms calculada com tm = 0,67 ano, o tamanho mínimo de captura para os barcos
grandes. Em compensação, seria necessário um fmy da ordem de 800 000 horas
de arrasto, contra as 354 000 horas previstas como fmy calculado na condição de
87

tm = 0,67 ano. Seria anti-econômico sob o aspecto do investimento em esforço de


pesca, e também porque manteria a frota fora da pesca camaroeira por seis
meses ao ano, pois os indivíduos estariam disponíveis à pesca apenas de
novembro a abril, a maiores profundidades.

Paralonchurus brasiliensis, Stellifer rastrifer, Porichthys porosissimus,


Isopisthus parvipinnis, Macrodon ancylodon, Pellona harroweri, Stellifer
brasiliensis, Cynoscion virescens, Micropogonias furnieri, Symphurus paglusia,
Selene setapinnis e Trichiurus lepturus são as espécies que caracterizam o
ambiente de pesca do camarão-sete-barbas a pouca profundidade.

O aumento no número médio de peixes capturados por amostra parece


ser uma resposta à diminuição ou estabilização no esforço de captura dirigido à
espécie-alvo. Os diferentes números apresentados pelas espécies traduzem
diferentes dinâmicas populacionais, sendo que Paralonchurus brasiliensis, por
exemplo, parece ser uma das espécies que mais rapidamente reagiu a um
abrandamento do esforço de pesca, dominando amplamente no ambiente
amostrado.

Como carcinofauna acompanhante da pesca de pequeno porte


identificaram-se 33 espécies de crustáceos, Das quais Sicyonia dorsalis,
Exhippolysmata oplophoroides, Hepatus pudibundus, Callinectes ornatus e
Acetes americanus apresentaram grande abundância relativa e alta freqüência
de ocorrência nas amostras.

Quando há muita captura de X. kroyeri praticamente toda fauna


acompanhante é descartada. Pelo contrário, quando a produção de camarão é
pequena, o aproveitamento de fauna acompanhante cresce e assume relevância
nos desembarques, compensando em parte a queda de receita ocasionada pela
falta de sete-barbas.

Comparando-se a pesca do camarão-rosa com a do sete-barbas


constata-se que o desembarque de fauna acompanhante é bem maior para a
frota dirigida ao camarão-rosa. O que mostra claramente a importância que essa
fauna assume na dinâmica econômica das duas pescarias, e que sua
constituição e quantidade desembarcada decorrem da combinação de
características do biossistema, construtivas das embarcações e econômicas.
Cada uma dessas pescarias tem o seu perfil desenhado não apenas pelas
88

diferentes disponibilidades de biomassa da espécie-alvo, mas também pela


fauna acompanhante que lhes dá individualidade qualitativa e quantitativa.

A nível da eficiência de captura da espécie-alvo ou algumas outras


espécies economicamente viáveis, ela é prejudicada pela presença na rede de
exemplares pequenos ou comercialmente desinteressantes integrantes da fauna
acompanhante. Há uma “competição” pela ocupação do espaço da rede, um
aumento de “peso morto” para o barco tracionar e uma diminuição da
seletividade do aparelho por obliteração das malhas. Evitar a mortalidade de
indivíduos jovens antes de mais nada acarretaria uma melhora na eficiência das
capturas.

A pesca como atividade econômica vê a fauna acompanhante rejeitada


como um transtorno e não como matéria-prima, pois o preço de mercado que
poderia ser atingido por essa fração da produção não viabiliza os custos de sua
manutenção a bordo, transporte e desembarque, principalmente em
embarcações pequenas que não dispõem de espaço suficiente de porão, nem
sistema de frigorificação, reservando espaço e gelo para a produção mais nobre,
o camarão-sete-barbas e a fração comercializável da fauna acompanhante.
89

5. RESUMO

A pesca com rede de arrasto-de-fundo dirigida ao camarão-sete-barbas


(Xiphopenaeus kroyeri), um dos mais importantes recursos pesqueiros do Estado
de São Paulo, é bastante eficiente na captura desse crustáceo. Porém, é pouco
seletiva e captura concomitantemente uma grande quantidade da variada fauna
demersal e bentônica, a denominada fauna acompanhante. Nesta tese,
analisaram-se aspectos biológicos e pesqueiros tanto do camarão-sete-barbas
quanto de sua fauna acompanhante, a partir de dados e amostras obtidos junto à
frota camaroeira industrial que desembarca sua produção na Cooperativa de
Pesca Nipo-Brasileira, no município de Guarujá, e junto à frota camaroeira de
pequeno porte (até recentemente chamada frota artesanal), com sede na praia
de Perequê (Guarujá). Obtiveram-se os dados de produção e esforço de pesca
apenas de barcos que atuaram no litoral do Estado de São Paulo, de modo a
aumentar a segurança de que se trata de uma só população de sete-barbas
amostrada. As análises dos dados relativamente à eficiência do esforço e ao
rendimento basearam-se em SANTOS (1978, 1992, 1995 e 1996 - no prelo). Em
relação à fauna acompanhante elaborou-se uma catalogação faunística,
principalmente da ictiofauna, tanto da proveniente das capturas da frota de
pequeno porte, quanto da frota industrial. Desenvolveu-se ainda uma breve
análise comparativa entre a pesca do camarão-sete-barbas e a do camarão-rosa
em termos do desembarque de fauna acompanhante.

As conclusões, em linhas gerais, foram as seguintes: 1) para a frota


industrial estudada, os barcos grandes (maiores que 14 m) possuem, em média,
90

uma eficiência do esforço de pesca cerca de quatro vezes maior do que os


barcos pequenos, sendo muito importante levar em conta essa disparidade na
estimativa do esforço de pesca total a que está submetido Xiphopenaeus kroyeri;
2) o pico de produção por unidade de esforço que ocorre em maio deve-se ao
recrutamento para a pesca. E o insinuado pico de Y/f de outubro deve-se a
prováveis concentrações populacionais para cópula e desova; 3) para
Xiphopenaeus kroyeri o defeso não tem efeito protetor mas apenas de aumento
de biomassa disponível à pesca. No período que vem sendo imposto é
prejudicial à pesca do camarão-sete-barbas. 4) o ciclo de vida do sete-barbas
parece relacionar-se à profundidade, o que torna população dependente das
dimensões da plataforma a cada isóbata; 5) estabeleceram-se os seguintes
valores para parâmetros da função do gerenciamento pesqueiro do camarão-
sete-barbas: idade mínima de captura (tm) = 0,67 ano, idade de primeira
reprodução (tr) = 1 ano, idade de recrutamento (tR) = idade mínima de captura
(tm), M (coeficiente de mortalidade natural) = 0,6, R* (taxa máxima de
recrutamento) = 4, h (parâmetro de homeostase) = 0,00065, e q (coeficiente de
capturabilidade) = 0,0030 (por unidade de esforço = 1000 horas de arrasto); 6)
pode-se estimar a produção máxima sustentável (Yms), a nível do litoral paulista,
em 6986 toneladas, o esforço que viabilizaria essa produção (fmy) em 354 000
horas de arrasto, resultando num rendimento máximo (médio) sustentável de
19,7 kg/h; 7) o esforço crítico populacional (fCP) estimado situa-se em 1.200.000
horas de arrasto; 8) quinze espécies caracterizam o ambiente de pesca do
camarão-sete-barbas a pouca profundidade em razão do número e/ou freqüência
de ocorrência nas amostras: Paralonchurus brasiliensis, Stellifer rastrifer,
Porichthys porosissimus, Isopisthus parvipinnis, Macrodon ancylodon, Pellona
harroweri, Stellifer brasiliensis, Cynoscion virescens, Micropogonias furnieri,
Symphurus paglusia, Selene setapinnis e Trichiurus lepturus; 9) o aumento no
número médio de peixes capturados por amostra parece ser uma resposta das
espécies que constituem a ictiofauna acompanhante à diminuição ou
estabilização do esforço de captura dirigido à espécie-alvo; 10) na pesca de
pequeno porte identificaram-se 33 espécies de crustáceos como carcinofauna
acompanhante, das quais Sicyonia dorsalis, Exhippolysmata oplophoroides,
Hepatus pudibundus, Callinectes ornatus e Acetes americanus apresentaram
grande abundância relativa e alta freqüência de ocorrência nas amostras; 11) a
91

nível da frota industrial, quando a produção de camarão é pequena o


aproveitamento de fauna acompanhante aumenta compensando em parte a
queda de receita; 12) a produção desembarcada de fauna acompanhante é bem
maior para a frota dirigida ao camarão-rosa; 13) a eficiência de captura da
espécie-alvo é prejudicada pela fauna acompanhante. Evitar a mortalidade
dessa fauna acarretaria uma melhora na eficiência das capturas.
92

6. SUMMARY

The fishery of the Sea Bob shrimp, Xiphopenaeus kroyeri (Heller), is the
second most important in total landing along the São Paulo State coast. It is
carried out by bottom trawl nets and the catchs present many other species of the
demersal and benthonic fauna, named “by catch fauna”.

The purpose of this thesis is the analysis of the biology and fishery of this
shrimp and some aspects of the by catch fauna, by means of data furnished by
the Cooperativa Mista de Pesca Nipo-Brasileira, and by a fleet of small boats
based on Perequê, both in Guarujá district, and still by some published papers.

The efficiency and yield analysis were developted according to SANTOS


(1978, 1992, 1995 and 1996 in press).

The main conclusions are:

1) The big boats (total length > 14m) of the fleet presented relative efficiency 4
times the small ones, which should be take into account in total annual efforts.

2) The maximum CPUE (catch per unit effort) on June is due to recruitment
and on October to a spawning spatial concentration.

3) The individual size is related to the depth.

4) The estimations of the yield function parameters resulted: capture minimum


age (tm) = 0.67 year; first spawning age (tr) = 1 year; recruitment age (tR) = 0.67
year; coeficient of natural mortality (M) = 0.60; recruitment maximum rate (R*) =
93

4.0; parameter of homeostasis (h) = 0.00065; coeficient of catchability (q) =


0.0030 for unit of effort = 1,000 hours of trawl; maximum sustainable yield = 6,986
t for an effort of 354,000 hours and CPUE of 19.7 kg/h, and critical effort of
1,200,000 hours.

5) The interruption of the fishery (March to June) did not protected the shrimp
population.

6) According to the abundance and the frequency in the samples, the by catch
fauna is caracterized by 15 species of fishes: Paralonchurus brasiliensis, Stellifer
rastrifer, Porichthys porosissimus, Isopisthus parvipinnis, Macrodon ancylodon,
Pellona harroweri, Stellifer brasiliensis, Cynoscion virescens, Micropogonias
furnieri, Symphurus paglusia, Selene setapinnis e Trichiurus lepturus, and 5
species of crustaceous: Sicyonia dorsalis, Exhippolysmata oplophoroides,
Hepatus pudibundus, Callinectes ornatus e Acetes americanus.
94

7. LITERATURA CITADA

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