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RAFAEL DA SILVA FERNANDES

DOSSIÊ TMCI:
PROPOSTA DE VERBETE E ARTIGO-RESUMO DA OBRA:
“DINÂMICA DA PESQUISA EM CIÊNCIAS SOCIAIS: OS PÓLOS
DA PRÁTICA METODOLÓGICA: OS PÓLOS DA PRÁTICA
METODOLÓGICA”

PORTO

Janeiro de 2013
Rafael da Silva Fernandes

Aluno do segundo ano do curso de Ciência da Informação, na


Faculdade de Letras da Universidade do Porto

DOSSIÊ TMCI:

Proposta de Verbete e Artigo-resumo da Obra: “Dinâmica


da Pesquisa em Ciências Sociais: Os Pólos da Prática
Metodológica”

Trabalho realizado no âmbito da unidade curricular de Teoria e Metodologia da


Ciência da Informação, orientada pelo Professor Armando Manuel Barreiros

Malheiro da Silva.

Faculdade de Letras da Universidade do Porto


Via Panorâmica, s/n, 4150-564 Porto, Portugal

Janeiro de 2013
DE BRUYNE, Paul; HERMAN, Jacques; DE SCHOUTHEETE. Marc. Dinâmica da
pesquisa em ciências sociais. Tradução Ruth Joffly. Rio de Janeiro: F. Alves, 1977.

Resumo

Cada vez mais a internet é a principal e mais acessível fonte de Informação de toda
a gente, e por isso o Dicionário Electrónico de Terminologia em Ciência da
Informação se revela uma ferramenta eficaz na transmissão do significado de cada
conceito. O conceito de Artigo Científico é a minha proposta para a adição a esta
plataforma, pois estes artigos são o culminar das pesquisas feitas em diversas áreas
(incluindo a Ciência da Informação). A Ciência da Informação sempre esteve ligada
com a produção de conhecimento, e esta metodologia abrange diversos pontos,
entre eles, os mecanismos de pesquisa e formas de colectar os dados. O livro:
Dinâmica da pesquisa em ciências sociais: os pólos da prática metodológica, mostra
também, como é a formação, construção e estruturação dos objectos de pesquisa,
em quatro pólos diferentes: o pólo epistemológico, teórico, morfológico e técnico.

Palavras-chave: Ciência da Informação. Pesquisa científica. Artigo Científico.


Informação. Conhecimento.
DE BRUYNE, Paul; HERMAN, Jacques; DE SCHOUTHEETE. Marc. Dinâmica da
pesquisa em ciências sociais. Tradução Ruth Joffly. Rio de Janeiro: F. Alves, 1977.

Abstract

Increasingly the internet is the main and most accessible source of information for
everyone, so the Dicionário Electrónico de Terminologia em Ciência da Informação
has proved to be an effective tool in conveying the meaning of each concept. The
concept of a scientific article is my proposal to this platform, because these articles
are the culmination of research done in various fields (including Information Science).
The Information Science has always been connected with the production of
knowledge, and this methodology covers various points, including search methods
and ways to collect data. The book: Dinâmica da pesquisa em ciências sociais: os
pólos da prática metodológica also shows how the formation, construction and
structuring of research articles is, in four different areas: the epistemological,
theoretical, technical and morphological pole.

Keywords: Information Science. Scientific research. Scientific Article. Information.


Knowledge.
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 5

1 – VERBETE ............................................................................................................. 6

2 – RESUMO DA OBRA: “DINÂMICA DA PESQUISA EM CIÊNCIAS SOCIAIS: OS


PÓLOS DA PRÁTICA METODOLÓGICA” ................................................................ 7

2.1 – O polo epistemológico ........................................................................................ 8

2.2 – Os processos discursivos ................................................................................. 10

2.2.1 – A dialética ...................................................................................................... 10

2.2.2 – Fenomenologia .............................................................................................. 11

2.2.3 – A quantificação .............................................................................................. 12

2.2.4 – O método hipotético-dedutivo ........................................................................ 13

2.3 – O polo teórico ................................................................................................... 14

2.3.1 – Método e teorização ...................................................................................... 14

2.3.2 – Formulação teórica ........................................................................................ 15

2.4 – Os quadros de referência ................................................................................. 17

2.5 – O polo morfológico ........................................................................................... 18

2.6 – Os quadros de análise...................................................................................... 20

2.7 – O polo técnico .................................................................................................. 22

2.8 – Os modos de investigação ............................................................................... 27

2.8.1 – Os estudos de caso ....................................................................................... 27

2.8.2 – Os estudos comparativos .............................................................................. 28

2.8.3 – As experimentações ...................................................................................... 29

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 31


5

INTRODUÇÃO

Para a realização deste trabalho foi-nos proposta a elaboração de um novo


verbete a ser adicionado no Dicionário Eletrónico de metodologia em Ciência da
Informação, e também a composição de um artigo-resumo da obra: DE BRUYNE,
Paul; HERMAN, Jacques; DE SCHOUTHEETE. Marc. Dinâmica da pesquisa em
ciências sociais: os pólos da prática metodológica. Tradução Ruth Joffly. Rio de
Janeiro: F. Alves, 1977.
Estas duas partes do trabalho estão ligadas com o programa da unidade
curricular de Teoria e Metodologia da Ciência da Informação.
O Dicionário Eletrónico de metodologia em Ciência da Informação é agora
uma fonte bastante importante, pois cada vez mais as pessoas deixam de ir às
bibliotecas em busca de informação, como era habitual em outros tempos, e passam
mais tempo em frente ao computador, na internet, onde conseguem ter um mais
rápido e fácil acesso a todo o tipo de pesquisas. Por isso eu irei propor um verbete
para tornar este Dicionário mais rico e assim poder contribuir para o seu
crescimento.
O artigo-resumo do livro Dinâmica da pesquisa em ciências sociais: os pólos
da prática metodológica é a segunda parte do meu trabalho, onde irei apresentar as
matérias mais importantes abordadas nesta obra de valor elevado para quem se
dedica à pesquisa da Informação, pois explica todos os processos desta pesquisa,
tendo em conta os quatro polos da construção e elaboração de objetos de pesquisa
científica: epistemológico, teórico, morfológico e técnico.
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1 – VERBETE

Para esta proposta resolvi escolher o conceito de “Artigo Científico”:

Artigo Científico:

É um trabalho técnico-científico resultante de uma investigação/pesquisa por parte


de uma ou mais pessoas, de acordo com o método científico aceite por uma
comunidade de investigadores. É um estudo importante usado em todas as ciências,
incluindo a Ciência da Informação. É uma apresentação completa dos resultados de
um certo estudo, de interesse a um determinado público, que pode resultar de
investigações experimentais originais; de defesa da opinião pessoal relativamente a
um determinado assunto, opinião apoiada em estudos de autores conceituados, dos
quais se concordo ou não; de trabalhos de revisão bibliográfica; ou de atualizações a
partir de novas descobertas. O seu objetivo é esclarecer ideias ou assuntos, provar
teorias ou hipóteses, entre outros. Para isso o artigo tem de estar bem estruturado, é
fundamental saber o assunto que se quer tratar, a quem se quer comunicar esse
assunto, e a sua finalidade. Deve ser estruturado de forma coerente, obedecendo a
certas regras para a sua elaboração/estruturação. Deve ter: o Título; o Resumo na
língua vernácula e por vezes em língua estrangeira (normalmente o inglês, com o
nome de Abstract); o Texto, desenvolvimento do trabalho (com Introdução, corpo e
conclusão) e as Referências Bibliográficas. Quando estes artigos são apresentados
academicamente são divididos em três grandes partes, os Elementos pré-textuais,
os Elementos textuais e os Elementos pós-textuais. Dos Elementos pré-textuais
fazem parte: a capa, a folha de título, a errata, a folha do júri, a dedicatória, os
agradecimentos, a epígrafe, o resumo (na língua vernácula e na língua estrangeira),
o sumário, as listas e o glossário. Dos Elementos textuais fazem parte o texto (o
desenvolvimento propriamente dito) e as referências bibliográficas. Dos Elementos
pós-textuais fazem parte os anexos e o índice. Grande parte dos Elementos pré-
textuais e todos os Elementos pós-textuais são facultativos.
7

2 – RESUMO DA OBRA: “DINÂMICA DA PESQUISA EM CIÊNCIAS SOCIAIS: OS


PÓLOS DA PRÁTICA METODOLÓGICA”

Como o nome da obra indica, são nela aprofundados métodos de pesquisa


dentro das ciências sociais, ciências humanas, com a intervenção do Homem, não
naturais. Estas ciências são pluridisciplinares, pois tem um campo de ação muito
vasto (psicologia, sociologia, etc.), são também ciências abertas, ou seja, estão
sempre em busca de novos métodos e conceitos. São divididas em quatro grupos:
ciências sociais históricas (determinam concretamente os objetos de pesquisa),
nomotéticas (estabelecem leis), jurídicas (carácter normativo) e filosóficas
(universalista).
O conhecimento científico resultante, rege-se pelas leis da metodologia
científica, em que o objetivo é “esclarecer uma unidade subjacente a uma
multiplicidade de procedimentos científicos particulares, ajudando a esclarecer os
obstáculos que encontra”. (DE BRUYNE, Paul; HERMAN, Jacques; DE
SCHOUTHEETE. Marc, 1977, pág. 27) O campo de pesquisa é o lugar prático da
elaboração dos objetos. Essa pesquisa tem de ser autónoma, sem intervenção
externa nos investigadores.
A pesquisa científica está inserida num ambiente social vasto, com variados
campos constituintes e que têm repercussões no objeto final, são eles o campo: da
demanda social (tem em conta o investigador como membro de um sociedade);
axiológico (valores sociais e individuais do investigador); doxológico (campo do
saber); e o epistémico (campo do conhecimento científico).
A metodologia das ciências sociais é também uma lógica, pois tem uma
certa reflexão sobre os procedimentos lógicos e critérios das práticas científicas.
Esta metodologia é quadripolar, pois são distinguidos quatro polos: epistemológico,
teórico, morfológico e técnico. E é a junção desses polos que resulta na prática
metodológica.
8

Fonte: Dinâmica da pesquisa em ciências sociais: os pólos da prática metodológica, pág. 36

Ilustração 1 - Prática metodológica

2.1 – O polo epistemológico

A epistemologia é uma metaciência no que que diz respeito às ciências, pois


reflete sobre os princípios da ciência, e tem também um carácter intracientífico pois
é intrínseco à pesquisa científica realizada.
Tem como função estabelecer as condições de objetividade dos
conhecimentos científicos, modos de observação e experimentação entre as teorias
e os fatos. A reflexão epistemológica existe, e é a reflexão dos pesquisadores sobre
os instrumentos de conhecimento, esta é feita com o objetivo de superar as crises e
legitimar os pontos de vista. A epistemologia tem dois métodos, o histórico crítico,
onde há uma apreciação dos factos, os procedimentos lógicos, onde são apreciadas
as regras, ou seja, a epistemologia situa-se numa lógica de descobrimentos e ao
mesmo tempo de prova, apoiando-se em considerações lógicas e considerações
concretas.
Ela é dividida em epistemologias internas e geral. As internas estão
relacionadas com a história das suas práticas no domínio científico, e a geral está
ligada à história do conjunto de todas as disciplinas científicas.
9

O grande objetivo da epistemologia é fornecer regras às ciências sociais,


para que esta aprenda instrumentos uteis para as tarefas problemáticas, na criação
e consolidação de conhecimentos científicos.
A epistemologia geral é dividida em vários princípios, são eles:
O princípio da causalidade: caracteriza o aspeto nomotético das ciências.
Supõe que toda a coisa e todos os acontecimentos emergem nas condições prévias
e que toda a propriedade está legalmente conjugada a outras propriedades;
O princípio da finalidade: é o que resulta da causalidade, da causa resulta
um fim. É o objetivo dos indivíduos/grupos;
O princípio da conservação: convida a procurar o traço dos fenómenos que
não se manifestam, supondo também a sua transformação;
O princípio da negligenciabilidade: distingue o essencial do não essencial. É
indispensável para selecionar as teorias, hipóteses, o material das informação
empíricas;
O princípio da concentração: afirma que certos níveis de análise têm mais
informações para a investigação do que outros, são mais significativos que outros;
O princípio da economia: obriga a um rigor sistemático, para deste modo
prevenir os erros e reduzir a complexidade do sistema explicativo;
O princípio da identificação: determina fenómenos diferentes do comum, não
tão facilmente identificáveis;
O princípio da validade transitória até novas informações: à base de ciências
empíricas modernas, as quais são verdadeiras enquanto não há nada que as prove
falsas. No entanto todas as teorias podem ser falsificadas e abandonadas caso já
não respondam à problemática que as suscitou.
Também a epistemologia interna é dividida em alguns princípios:
Objeto e problemática científica: os objetos evoluem à medida que evoluem
os métodos e a sua problemática. Cada ciência à medida que progride tende a
adaptar o objeto aos meios de conceção. O objeto é o culminar da investigação, e
quanto melhor se define a problemática, melhor se define o objeto;
Objeto real, percebido, construído: todo o objeto é muitas vezes substituído
por um mais recente, chama-se a isto rutura epistemológica. O objeto percebido é o
que se dá aos sentidos sob a forma de imagens, súbito, e o objeto construído é o
que passa por um processo (objetivação, conceitualização, formalização e
estruturação) até ser finalizado;
10

Génese da teorização: As fontes das formulações teóricas devem ter origem


epistemologicamente:
a) Indução: não se pode apoiar em procedimentos que podem ser
decididos, deve ser espontânea;
b) O acaso: a criação de uma nova teoria pode ser potencializada por uma
descoberta. Como são inesperados, atraem a atenção do investigador;
c) Crítica: desenvolve-se em oposição a teorias estabelecidas e
experiências já conhecidas. Há a demolição de conceitos estabelecidos e
novas propostas de soluções teóricas;
d) Análise comparativa: há a comparação entre teorias, das quais podem
surgir novas hipóteses;
e) Análise controlada: é o princípio unificador dos objetos submetidos à
definição de sistemas teóricos.
f) Intuição: critica os falsos problemas e inventa os verdadeiros, luta contra
a ilusão e propõe a resolução dos problemas em função do tempo.
g) A problemática: fonte direta das teorias e das hipóteses, resulta da
insistência dos problemas concretos.

Posto tudo isto, a epistemologia pode ser vista como o motor de pesquisa do
investigador. É com isto que o objeto científico é criado e a problemática da
investigação é delimitada.

2.2 – Os processos discursivos

2.2.1 – A dialética

A dialética pode ter três aspetos: o movimento concreto, natural e socio-


histórico, é a análise e a síntese, bem como a negação das leis da lógica, mostrando
que elementos do mesmo grupo de podem relacionar entre si; a lógica de
pensamento que se quer tornar conhecimento; e a relação entre o objeto construído
pela ciência, o método empregado e o objeto real.
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A dialética é a tentativa de conceber a análise de um processo social,


essencial. Situa-se ao nível pré-teórico dos problemas fundamentais da teoria.
Basicamente é a articulação entre o epistemológico e o conceitual da teoria.
Engloba vários procedimentos críticos, como a complementaridade que
destaca as relações mutuas entre elementos já estudados; a implicação dialética
mutua que encontra em setores elementos comuns; a ambiguidade dialética que
insiste na ambivalência de certos fenómenos (são X e são não-X); a polarização
dialética que mostra as diferenças entre elementos aparentemente idênticos; e a
colocação da reciprocidade das perspetivas que faz sobressair o seu paralelismo
(elementos aparentemente sem identificação). Estes elementos são normalmente
utilizados na criação de objetos científicos.
A dialética coloca questões sem dar respostas e recusa as abstrações da
logica formal e transcendal.

2.2.2 – Fenomenologia

A fenomenologia pode ser uma prática científica, uma metodologia de


compreensão, uma filosofia ou até uma crítica às ciências. Tem ambições
epistemológicas radicais, no entanto está consciente dos limites da sua própria
abordagem.
O interesse para a pesquisa encontra-se na elaboração conceitual do objeto.
Segundo Hussal a fenomenologia seria uma forma de “voltar às próprias coisas”,
porque era necessário ir da realidade concreta à sua essência.
O primeiro movimento deste método é a redução fenomenológica, uma
rutura, fazer uma abstração de tudo o que a ciência sabe sobre o objeto em estudo.
O fenómeno não é algo que aparece, é algo que é vivido, uma espécie de intuição
captada sobre uma reflexão. O importante é perceber a essência do fenómeno,
perceber o conjunto das condições para a existência desse.
A reflexão fenomenológica exige um esforço para a compreensão do real do
objeto do investigador. Ela guiará o pesquisador quando se tratar de colocar
problemas e hipóteses.
A fenomenologia fornece uma descrição sistemática dos objetos estudados,
e assim ela é uma espécie de análise exploratória, a partir da qual se elaborará o
12

aparelho metodológico total. Ela constitui um processo epistemológico com o qual as


ciências sociais devem estabelecer as suas problemáticas, no entanto com
ambições estritamente científicas.

2.2.3 – A quantificação

A quantificação intervém por vezes na pesquisa científica para consolidar


uma argumentação, conferindo-lhe precisão e um peso suplementar. Ela também
constitui uma ligação entre a operacionalização das hipóteses e a recolha de
informações.
Ela consiste na atribuição a dimensões, propriedades ou qualidade de certos
conceitos, de uma ordem de natureza classificatória, serial, quase-serial ou métrica.
Existem quatro modos de quantificação, registados na Ilustração 2.

Fonte: Dinâmica da pesquisa em ciências sociais: os pólos da prática metodológica, pág. 81

Ilustração 2 - Modos de quantificação

“As diversas ordens que intervêm na quantificação dão lugar a operações


distintas que permitem a construção de escalas que produzem tipos de variáveis.”
(DE BRUYNE, Paul; HERMAN, Jacques; DE SCHOUTHEETE. Marc, 1977, pág. 81)
Na maior parte das vezes as ciências sociais utilizam a ordem quase serial,
uma espécie de combinação entre a ordem classificatória e a serial, em que cada
par de elementos é definido. Como se pode ver na ilustração, a ordem quase-serial
depois de passar pelo processo resultará numa variável ordenada. Mas antes passa
na escala ordinal, onde os números atribuídos aos indicadores revelam o nível a
qual eles pertencem.
13

A fidelidade é função da reprodutibilidade dos resultados. E é uma função


necessária para que exista validade.

2.2.4 – O método hipotético-dedutivo

“Uma ideia entre dois fatos: a partir das observações, uma hipótese, depois,
a partir daí, uma dedução que reconduz a experiência para controlar a hipótese, este
é o método hipotético-dedutivo”. (DE BRUYNE, Paul; HERMAN, Jacques; DE
SCHOUTHEETE. Marc, 1977, pág. 87)
O método hipotético-dedutivo está ligado ao método experimental e é um
modo de investigação bastante limitado. Usa-se este método: no conjunto dos
processos discursivos, para penetrar nos setores de pesquisa; como processo
adaptado ao polo teórico; para caracterizar a abordagem experimental; e no polo
morfológico, pois aflui na coerência lógica.
O processo científico efetua-se por saltos, com ruturas consecutivas,
reestruturando a teoria. Isto pode ser explicado pela seguinte ilustração:

Fonte: Dinâmica da pesquisa em ciências sociais: os pólos da prática metodológica, pág. 89

Ilustração 3 - O método hipotético-dedutivo


14

Coloca-se uma hipótese na presença de fenómenos e presume-se que eles


serão consequências (hipótese), depois, outras consequências surgirão dessa
hipótese, e serão confrontadas com os fatos disponíveis (dedução).

2.3 – O polo teórico

Para um pesquisador das ciências sociais, a teoria é uma necessidade, é


todo o fundamento da ciência. Se se quer chegar a conclusões pertinentes, não se
pode negligenciar o polo teórico, inerente à pesquisa científica. A sua verdadeira
função é a de ser o instrumento mais poderoso da rutura epistemológica face ao
senso comum. As teorias são então fundamentais, para capturar as experiencias e
explica-las.
A teoria é então o resultado de uma generalização a partir de fatos
conhecidos. Mas a teoria é progressivamente atualizada, com a integração de novos
dados, que põem à prova os anteriores.
Pelo teste empírico, a pesquisa pode com mais liberdade e facilidade
reproduzir a si mesma sem nada produzir, segunda a lógica, a teoria concebida não
exerce nenhum controlo sobre os resultados que não se precisam de justificar e se
refugiam apenas por detrás de fatos hipotéticos.
A teoria é prática metodológica, o que implica uma formulação estrita dos
objetos de investigação assim como a sua constante explicitação no campo teórico.

2.3.1 – Método e teorização

“A teorização inicia-se no momento em que começa a pesquisa e a


marcação constante e explícita do nível de teorização torna-se primordial; a posição
dos objetos de investigação comanda a pertinência, a coerência e a verificabilidade
das teorias.” (DE BRUYNE, Paul; HERMAN, Jacques; DE SCHOUTHEETE. Marc,
1977, pág. 108)
A teorização deve realizar a ligação entre os contextos da prova e da
descoberta. O contexto da prova sendo aquele no qual se levanta a questão da
aceitação ou não das hipóteses e teorias, e o contexto da descoberta aquele no qual
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nos questionamos como construir essas hipóteses e teorias, é um contexto de


reflexão metodológica. No entanto as teorias são frequentemente escolhidas ou
rejeitadas por razões estranhas à lógica da prova, resultando em paradigmas.
Os objetivos da teorização são variados, desde explicação de fatos, predição
por derivações de consequências testáveis de um corpo de hipóteses, etc. Mas
também pode acontecer ser necessário que a teoria, acabada ou não, seja
analisada.

2.3.2 – Formulação teórica

Todas as teorias são artefactos dos pesquisadores, são formuladas numa


linguagem construída para ter uma linguagem simbólica, e assim, contem conceitos
semânticos que se referem a fenómenos, e conceitos sintáticos, cujo papel é
articular outros conceitos. Estes níveis semânticos e analíticos, tomam a forma de
corpos de hipóteses.
O sistema teórico é formado por proposições: a proposição sintética, que é a
forma da lógica que a hipótese assume quando se submete ao teste empírico, trata-
se da realidade; e a proposição analítica, que é apenas uma tautologia, tem uma
função meramente operatória, a função de ligar proposições sintéticas, por exemplo.
São então distinguidos dois aspetos fundamentais da teoria: o conceitual (da
explicitação do sentido) e o proposicional (da formulação lógica).
A formulação obedece ao princípio da redução, que permite a manipulação
de um objeto teórico, e a explicitação obedece ao princípio da compreensão, dando
uma pertinência mais ampla às hipóteses.
A teoria deve ser um sistema integrado de proposições com relações lógicas
entre elas. As teorias são compostas por conceitos que originam outros, e estes
dividem-se em duas classes: os conceitos particulares, que têm nomes próprios, e
só dessa maneira são conceitos; os conceitos universais, que são gerais, englobam
todos os casos particulares possíveis; os conceitos genéricos, que são
generalizações empíricas, classes de acontecimentos singulares, com o poder que
caracterizar abstratamente os dados; os conceitos analíticos, que não têm referentes
empíricos, são valores particulares em casos singulares; os conceitos puros, que
16

são ficções que transcendem os casos particulares; e as variáveis, que existem em


relação com um conjunto de elementos com relações expressas quantitativamente.
“A dinâmica da teoria, metodologicamente, é o resultado da interação dos
polos da pesquisa.
A teoria presenta-se assim de três maneiras complementares, conforme seja
abordada a partir de cada um dos três outros polos metodológicos. Face ao polo
epistemológico, a teoria é um conjunto significativo pertinente a uma problemática da
qual ele apresenta uma solução válida; face ao polo morfológico, a teoria é um
conjunto coerente de proposições que fornecem um quadro explicativo e
compreensivo; face ao polo técnico, a teoria é um conjunto de hipóteses falsificável,
testável.”(DE BRUYNE, Paul; HERMAN, Jacques; DE SCHOUTHEETE. Marc, 1977,
pág. 114).
Portanto, podemos muito bem concluir que o polo teórico é um lugar de
junção dos outros polos. Isto pode ser resumido na ilustração seguinte:

Fonte: Dinâmica da pesquisa em ciências sociais: os pólos da prática metodológica, pág. 115

Ilustração 4 - Confluência do polo teórico com todos os outros


17

A teoria fornece premissas a partir das quais podem ser derivados


enunciados descritivos. E como os sistemas teóricos estão em evolução constante,
transformações podem ocorrer, e por isso é importante “fechar” as teorias.
Uma teoria não é então um conjunto de leis, mas sim “uma rede sistemática
cujas malhas seriam formadas pelas proposições-leis.”
Posto tudo isto, podemos concluir basicamente que o polo teórico
corresponde à instância metodológica em que as hipóteses se organizam e em que
os conceitos se definem.

2.4 – Os quadros de referência

Os quadros de referência constituem uma matriz disciplinar que agrupa um


conjunto de paradigmas, um conjunto de conhecimentos científicos.
Os paradigmas têm a função de clarificar e orientar as teorias, o que permite
colocar mais facilmente uma quantidade de hipóteses de trabalho particulares mais
rigorosas. Permite uma intersubjetividade maior, uma compreensão mais fácil.
Estes quadros propõem-se então a agrupar em quatro matrizes disciplinares
os principais paradigmas. Essas matrizes são:
- O positivismo: a teoria enquanto tal é inacessível, trata-se de uma
conceituação abstrata. “A característica própria do quadro positivista é a pesquisa
através da observação de dados da experiência, das leis gerais que regem os
fenómenos sociais. A constância ou regularidade dos fenómenos contatados leva a
generalizar a partir deles, isto é, a formular leis positivas” (DE BRUYNE, Paul;
HERMAN, Jacques; DE SCHOUTHEETE. Marc, 1977, pág. 136);
- A compreensão, a teoria contínua inacessível, não podem ser aplicadas as
ciências sociais, pois estas necessitam de uma conceituação concreta. Esta
abordagem “visa apreender e explicitar o sentido da atividade social individual e
coletiva enquanto realização de numa intenção. Ela justifica-se na medida em que a
ação humana é essencialmente a expressão de uma consciência, o produto de
valores, a resultante de motivações” (DE BRUYNE, Paul; HERMAN, Jacques; DE
SCHOUTHEETE. Marc, 1977, pág. 139);
- O estruturo-funcionalismo, uma recuperação sob a forma de teoria geral
que permite ligar o conjunto de fenómenos sociais, e explicá-los. Este quadro
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funcionalista aborda “desde o início uma conceção totalizante, e mesmo sistémica,


diante dos fatos sociais, pela qual cada um deles é englobado num conjunto
integrado de natureza teleológica. Cada elemento, ou uma de suas características,
determina um certo estado da totalidade-sistema, a qual, por sua vez, condiciona
seu funcionamento de conjunto” (DE BRUYNE, Paul; HERMAN, Jacques; DE
SCHOUTHEETE. Marc, 1977, pág. 143);
- O estruturalismo, axiomatizar as teorias para encontrar os fatos sociais. “Só
tem valor de interessa na medida em que se define como método, em que tende
explicitamente a colocar no início os problemas da pesquisa sob o ângulo do método
e a pensar a si mesmo como uma “atividade”. As atividades estruturalistas são
múltiplas.” (DE BRUYNE, Paul; HERMAN, Jacques; DE SCHOUTHEETE. Marc,
1977, pág. 146);
Para cada destes quadros de referência encontra-se uma série de
paradigmas: generalizações simbólicas, que são paradigmas formais, não funcionam
como leis, mas como definições, e são incorrigiveis, pois são analíticas; crenças
ontológicas, metáforas e analogias; valores que dizem respeito à escolha das
teorias; e pesquisas famosas, experiencias cruciais, etc., que advêm de várias
teorias como paradigmas no sentido restrito.
Os paradigmas são então importantes no processo de pesquisa, e é preciso
utiliza-los sem se deixar enganar por eles.

2.5 – O polo morfológico

Este polo representa o plano de organização dos fenómenos, e funciona


como quadro operatório prático da estruturação dos objetos científicos.
Três caracteres fundamentais demonstram a função do polo morfológico na
economia geral da pesquisa: a exposição, a causação e a objetivação, todos
indissociáveis.
A exposição metódica é a função com maior evidência. Neste caso o polo
morfológico é visto como um aglomerado de conceitos/proposições, fatos/leis, etc. É
onde se estruturam as teorias e as problemáticas úteis à pesquisa.
Distinguem-se seis diferentes estilos de modos de expressão metodológicos:
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a) O estilo literário, menos afastado do saber científico, e menos rigoroso na


sua exposição;
b) O estilo académico, tem uma rutura com o senso comum, com uma
linguagem esotérica;
c) O estilo simbólico, recorre à abstração lógico-matemática ou à
quantificação, com uma formulação mais restrita;
d) O estilo erístico, concebido para o desenvolvimento rigoroso de um
argumento;
e) O estilo postulativo, correspondente à lógica hipotético-dedutiva, com o
objetivo de dar provas rigorosas, com um sistema de axiomas;
f) O estilo formal, o que realiza a abstração completa, não se preocupa
com problemas substanciais.

Cada um destes estilos é a estruturação da teoria, conceitos,


desenvolvimentos e resultados da pesquisa. Articulam-se todos de maneira diferente
com os elementos da pesquisa, e cada um tem um valor particular, individual.
Ao polo morfológico compete a função metodológica de fornecer uma
estrutura, uma configuração.
A causação é a operação que permite que um acontecimento/efeito
aconteça sob determinadas condições teóricas. É a posição de uma coerência lógica
que junta e articula os fatos científicos numa certa configuração. Pode ser
expressiva ou compreensiva num tipo ideal, e positiva num sistema empírico e
estrutural. Pode também ser vista como resultante da classificação de um conjunto
de determinações.
Nesta operação atuam raciocínios que pretendem levar à explicação de
certo acontecimento, e do estabelecimento de influências entre acontecimentos.
A rede morfológica contém, frequentemente, conexões diferentes: a
proximidade espacial ou temporal, que apenas permite saber da existência de
agregados sem coesão; a ligação causal indireta, designa semi-agregados; a ligação
causal simples, que designa sistemas causais, pode ser observada entre fenómenos
sociais; a ligação significativa, que é própria dos sistemas significativos, mostra uma
causalidade compreensiva; a ligação causal e significativa, que se apoia em
sistemas causais e significativos, integra a explicação e compreensão da
causalidade.
20

A objetivação tem a função crucial de construir um espaço de causação e


significado, ela implica uma analogia e o polo morfológico ajuda a destacar um
campo de objetividade.
Existem dois modos de objetivação: cópia, representação do objeto de
pesquisa como uma transcrição fiel e expressão adequada do objetivo, e o
simulacro, que é a autoconstrução, do objeto científico que se inventa a si mesmo.
No entanto, por vezes, estes dois modos geram formas enfraquecidas ou
ilegítimas; cópias esquemáticas e artefactos. A cópia esquemática constitui o objeto
num modelo reduzido e com alguns traços essenciais, no entanto é demasiado
simples, resultando numa cópia enfraquecida. O artefacto é uma cópia de uma
cópia, uma tradução simples numa outra linguagem qualquer, o que o torna inútil,
apenas serve para tornar ainda mais obscura a problemática.
O polo morfológico é um polo autónomo da pesquisa, que apenas tem
sentido nas relações concretas das abordagens metodológicas: epistemologia,
teórica e técnica. É então um capo de determinabilidade, um espaço de causação, e
de combinatória, onde se destacam progressivamente os objetos científicos.
As funções do polo morfológico são representadas, pelas ciências sociais,
por quatro quadros de análise.

2.6 – Os quadros de análise

Os quadros de análise, representativos das funções do polo morfológico são:


as Tipologias, o Tipo Ideal, os Sistemas e os Modelos e as estruturas.
As Tipologias têm afinidade com o quadro de referência empirística analítico
e correspondem a um estado embrionário de uma disciplina científica. Elas
contribuem para a consolidação de um quadro conceitual descritivo. Nesse quadro,
o seu objetivo é a composição de conceitos, visando a maior precisão destes.
As suas condições de construção são as seguintes: 1. Necessidade de um
conceito que defina o objeto da tipologia; 2. Relações que determinem uma ordem
entre os elementos da tipologia; 3. Proposições que impliquem determinadas
características a respeito dessas relações; Por fim, um conjunto de conceitos que
designem elementos específicos dos tipos que estão nas extremidades da tipologia.
21

O Tipo Ideal é uma eidética descritiva e uma eidética formal


esquematizadora, pois esforça-se por descrever os fenómenos coerentemente e
captar a sua estrutura e lei.
O seu objetivo é o de estabelecer conexões constantes entre vários fatores,
conexões estas que causais-significativas que explicam um determinado fenómeno
social. O seu interesse é sempre o acontecimento individual, elaborando um
conceito específico para cada fenómeno singular, chamado um conceito individual.
O tipo ideal é inobservável, pois o seu objetivo é levar ao extremo cada um
dos traços da situação concreta visando produzir um conceito hiperconcreto. Ele
serve de ponto de referência para a comparação de conteúdos significativos
empíricos.
Os Sistemas comportam pelo menos: uma identificação dos elementos que
o compõem, uma especificação das características dos elementos, e uma
especificação das regras/leis que regem as interações dos elementos ou das suas
propriedades. Desde que haja uma ordem entre os elementos constituintes de um
sistema, estes podem ser quaisquer uns.
Os sistemas são então unidades que se limitam a descrever e a classificar
os elementos de um objeto. Se o sistema for aceite, é possível então ordenar e
catalogar o conhecimento adquirido. É uma articulação das teorias de um todo.
Favorece o pluralismo metodológico, estabelecendo ligações de analogia entre
diferentes níveis de explicação, sem privilegiar nenhum deles.
Os Modelos e as estruturas tratam de caracterizar a contribuição
estruturalista pelo uso morfológico das noções centrais de estrutura, modelo e forma
axiomática. A estrutura tem de satisfazer quatro condições: consistir em elementos
tais que a modificação de um acarreta a dos outros; pertencer a um grupo de
transformações, sendo esse um grupo de modelos; oferecer a possibilidade de
prever de que modo o modelo reagirá em caso de modificação de um dos seus
elementos; explicar todos os fatos observados.
A estrutura é um simulacro, pode-se definir como possibilidade prática de
transformação de sentido. Assume uma variedade de modelos que explica como
sendo paradigmas concretos. É uma forma que subsume modelos-paradigmas.
Enquanto axiomática, a estrutura é um sistema operatório que fixa o código das
convenções metodológicas.
22

Cada modelo encontra-se numa relação de oposição dialética com os outros


que pertencem à mesma família.

2.7 – O polo técnico

O polo técnico trata de procedimentos da recolha de informações, e


transformações destas em dados importantes para a problemática geral. A sua
função é descrever os fatos em sistemas significantes, por protocolos de
evidenciação experimental desses dados empíricos. Os dados podem ser de
variadas naturezas, como vemos na seguinte ilustração:

Fonte: Dinâmica da pesquisa em ciências sociais: os pólos da prática metodológica, pág. 202

Ilustração 5 - Natureza dos dados

As informações que interessam às ciências sociais, são significantes antes


de qualquer pesquisa científica, e tornam-se dados pela própria aplicação das
técnicas de recolha. Esta conserva a significação das práticas sociais efetivas, e o
dado deve apreender essa informação e transforma-la em algo pertinente para a
investigação científica. Os dados, são algo apreendido, uma apreensão do real que
a investigação quer assegurar no polo técnico.
Para chegar à categoria de fato, os dados devem ser importantes e
necessários às hipóteses teóricas precisas, dever confirmar essa hipótese e verificar
os sistemas teóricos nos quais essas hipóteses se inserem. Os fatos são então
23

conquistados e construídos pelas técnicas que os recolheram, e tornaram-se


significativos pelo sistema que os produziu.
Isto pode induzir no erro de achar que um fato é a mesma coisa que uma
teoria, no entanto, a verdade é que não pode haver um fato dito puro, separado de
qualquer ideia, tal como acontece nas teorias.
O polo técnico é o momento de observação dos fatos enquanto o polo
teórico é o momento da interpretação e explicação desses mesmos.
A recolha de dados apresenta-se com várias partições:

a) Problemáticas, que dão lugar às hipóteses de pesquisa, orientando a


recolha de dados sob a forma de questões;
b) Domínio dos paradigmas, de natureza teórica e epistemológica;
c) Elementos teoréticos não verificáveis, como conceitos puros, universais,
etc.;
d) Dados, sob a forma de fatos, recolhidos a partir de hipóteses e questões
particulares;
e) Fatos significativos, originados das hipóteses teóricas, cujo teste se
mostrou realizável;
f) Consequências fatuais, inesperadas e produzidas pela teoria;
g) Domínio das informações-acontecimentos que não respondem aos
objetivos da pesquisa.

Tendo em conta os vários quadros de referência escolhidos, a estrutura dos


fatos será bastante diferente: a abordagem positivista considerará fatos atómicos e
irá reagrupa-los como conceitos genéricos, classe da qual cada fato será um
elemento particular; a abordagem compreensiva potencializará o carácter
essencialmente significativo dos fatos sociais, e a sua natureza fenoménica; a
abordagem estruturo-funcionalista marcará a dependência dos fatos relativamente
aos sistemas nos quais estão integrados, destacando a sua natureza causal-
significante; e a corrente estruturalista insistirá na produção dos fatos pela
transformação dos sistemas que os explicam, dando-lhes independência.
As operações técnicas de recolha efetuam várias transformações a cada
objeto de conhecimento. Estas operações são acompanhadas por graus de rutura
24

que vão desde a observação das informações até à interpretação teórica, como se
pode verificar na ilustração seguinte:

Fonte: Dinâmica da pesquisa em ciências sociais: os pólos da prática metodológica, pág. 207

Ilustração 6 - Transformações técnicas

A descrição pretende-se rigorosa e tomará do método fenomenológico a


intuição dos fenómenos e a construção das essências e tipos. A codificação é
realizada por determinadas pesquisas estruturalistas, que decompõem o objeto em
unidades discriminantes não significativas, para destacar conjuntos significativos,
chamados sistemas-signos. Os dados quantificados apresentam-se sob a forma de
indicadores que fornecer índices globais. Esses indicadores podem ser agregados
ou globais. As informações agregadas são baseadas na informação recolhida junto a
membros singulares da classe estudada. Estes têm tendência a contentar-se com
apenas uma informação, não suficiente para o aprofundamento da pesquisa. Os
indicadores globais são baseados em observações guiadas pelas propriedades da
teoria como tal.
Nas ciências sociais quando é constituída uma teoria parcialmente coerente,
é difícil constituir uma definição operacional que cubra todas as ramificações de um
conceito. Por isso a estratégia mais apropriada é a que liga os dois indicadores, com
as qualidades do primeiro e os defeitos contrários do segundo.
As técnicas de recolha de dados são também bastante importantes, e têm
que satisfazer as suas próprias regras. Têm que obedecer a certas regras de
fidelidade e validade, além de critérios de qualidade e de eficiência. Existem três
modos de recolha de dados, que estão sucintamente descritos nas seguintes
ilustrações:
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Fonte: Dinâmica da pesquisa em ciências sociais: os pólos da prática metodológica, pág. 211

Ilustração 7 - Técnicas de coleta de dados 1

Fonte: Dinâmica da pesquisa em ciências sociais: os pólos da prática metodológica, pág. 212

Ilustração 8 - Técnicas de recolha de dados 2


26

Fonte: Dinâmica da pesquisa em ciências sociais: os pólos da prática metodológica, pág. 213

Ilustração 9 - Técnicas de recolha de dados 3

Fonte: Dinâmica da pesquisa em ciências sociais: os pólos da prática metodológica, pág. 214

Ilustração 10 - Técnicas de recolha de dados 4


27

Nas várias técnicas de recolha de informação, esta limita-se,


frequentemente, às amostras da população estudada. A população tem certas
características e as amostras também, com o nome de parâmetros e estatísticas,
respetivamente. Existem duas possibilidades de amostragem.
Na primeira, o pesquisador sabe a probabilidade que tem cada individuo da
população de entrar na amostra, podendo precisar a representatividade da amostra.
Os principais tipos de amostras probabilistas são: amostra aleatória; amostra
sistemática; amostra estratificada; e amostra por conglomerados.
Na segunda o pesquisador não conhece a probabilidade que cada individuo
tem de ser selecionado para fazer parte da amostra. Neste caso a interferência
estatística não pode ser legítima.

2.8 – Os modos de investigação

Os métodos de investigação são os meios de abordagem do real, fixam o


quadro instrumental da apreensão dos dados e devem concordar com as técnicas
da sua recolha.
Existem vários modos de investigação, que se podem combinar e assim
reforçar-se mutuamente. Nas ciências sociais a centralização é feita à volta das
organizações. Onde são empregues cinco modos principais: o estudo de caso, a
análise comparativa, a experimentação em laboratório ou de campo e a simulação
em computador. Os vários modos de investigação têm diferenças, o que fazem
deles estratégias de pesquisa de valor desigual no plano metodológico. No entanto
estes modos também se podem complementar, e usar no mesmo programa de
pesquisa.

2.8.1 – Os estudos de caso

O estudo de caso reúne informações tão numerosas e detalhadas quanto


possível, com o objetivo de apreender a totalidade da uma situação. Para isso
recorre a técnicas de recolha das informações igualmente variadas, como a
observação participante, a sociometria aplicada à organização e a pesquisa de tipo
28

etnográfico. Este estudo só pode aspirar à cientificidade integrado num processo de


pesquisa global. Normalmente é mais importante a natureza qualitativa na recolha
de informação, mas também é possível recorrer a métodos quantitativos.
Os estudos de caso baseados num método indutivo concentram-se em
motivos concretos encontrados no funcionamento das organizações. Dizem respeito
a problemas definidos e elaborados pelos variados responsáveis da organização.
Os problemas são abordados como se tivessem uma pertinência científica
própria, à vontade do pesquisador.
Os estudos de caso rigorosos devem apoiar-se em conceitos e hipóteses,
guiados por um esquema teórico que serve de princípio diretor para a recolha de
dados.
Os estudos de caso baseados numa teoria e referentes a um objeto de
conhecimento, tendem a testar a validade empírica de um sistema de hipóteses,
construídas experimentalmente.

2.8.2 – Os estudos comparativos

O seu interesse reside na ultrapassagem e na evidenciação de


regularidades/constantes entre várias organizações, em que as semelhanças e
diferenças são analisadas. Permitem estudar as relações entre um grande número
de variáveis no contexto de uma amostra de organizações.
Este tipo de estudo assume formas muito variadas, segundo o número de
organizações, a natureza e o tratamento dos dados.
A comparação de um pequeno número de casos similares permite teorizar
melhor a respeito de uma organização. Esta abordagem, maioritariamente
qualitativa, contribui para a criação de tipologias ligadas aos resultados da
experiência. No entanto, quando o estudo comparativo se baseia numa amostra
grande de unidades, a abordagem implica o exame sistemático dos atributos
específicos da organização.
O quadro que me melhor se adapta ao estudo comparativo é o de uma
análise sistémica. Assim, podem abordar diversos níveis de análise, com a
finalidade de estabelecer relações entre as características das estruturas internas,
29

processos e ambiente da organização. Para isso recorrem a múltiplas fontes de


informação, como estudos de caso, surveys, etc.

2.8.3 – As experimentações

Nas ciências sociais, e suas pesquisas, existem várias estratégias de


experimentação possíveis, desde as de laboratório às de campo.
A experimentação de laboratório é realizada numa situação da vista da
experiência, com uma grande possibilidade de manipulação de variáveis. Tem três
critérios mínimos: deve chegar a quantificar as variáveis; deve definir e medir uma
mudança na estrutura; e deve verificar as relações de causa a efeito.
Esta experimentação oferece a vantagem de estabelecer com maior
segurança o sentido das relações estudadas, graças ao tal controlo das variáveis,
podendo ser manipuladas da forma mais conveniente à experiência. Dá ao
pesquisador um controlo completo sobre as condições de sua observação. Permite
também uma flexibilidade de experimentação e precisão de acordo com as
necessidades de cada pesquisa, e administração dos procedimentos mais
adequados.
No entanto, este tipo de pesquisa é também limitado pelo artificialismo das
situações, isolando sempre as variáveis.
A experimentação de campo, embora também vise manipular variáveis,
constitui um modo de investigação diferente da de laboratório. Transforma o
ambiente da experiência, desta vez natural, e transforma os papéis do investigador e
dos sujeitos que participam na experiência. Esta assume formas mais adaptadas ao
campo, ditas naturais, e por isso pode ser considerada uma pesquisa de ação.
O objeto deste tipo de pesquisa não está especificado no início, e não
permanece o mesmo até ao fim, a pesquisa descobre progressivamente as questões
que a orientam, por isso se diz natural. Um problema é definido no início, de acordo
com o investigador e os membros da organização, e esse vai mudando e adaptando
progressivamente ao decorrer da investigação, com intervenção igualmente
quantitativa das duas partes.
30

Surge então uma necessidade de avaliar os efeitos dessa mudança, com o


objetivo de validar a experiencia no plano científico. E com isso pode sempre surgir
um resultado inesperado, que pode ser negativo.
A simulação como modo de investigação e pesquisa, refere-se à construção
e manipulação de um modelo operatório representando todo, ou parte de, um
sistema de processos que o caracterizam.
O seu objetivo é o de explorar as consequências de proposições tóricas
concernentes aos comportamentos organizacionais, e o de programar em
computador certos processos teóricos e observar que género de comportamento
eles geram, para comparar com resultados obtidos empiricamente. Isto é bastante
útil às organizações pois estas podem aplicar uma teoria já aceite e saber as
repercussões que isso terá no seu funcionamento interno. Neste caso está a
funcionar como instrumento de pesquisa e descoberta especulativa de certos
processos.
Uma vez estabelecido, o modelo deve ser avaliado com a finalidade de
poder ser modificado, previamente à simulação propriamente dita, para representar
melhor o fenómeno a ser estudado.
Este tipo de experimentação permite estender ou encurtar o tempo real de
um processo ou de uma mudança a fim de melhora analisa-lo.
Também tem as suas desvantagens, pois a simulação está exposta a
perigos e a limites. É tributária do modelo construído e, por conseguinte, das
escolhas operadas pelo pesquisador. Convém também ter cuidado para não
confundir os resultados da simulação com os de uma experiencia empírica.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CORNELSEN, Julce Mary – Escrever… Com normas: guia prático para elaboração
de trabalhos técnico-científicos. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra.
ISBN 978-989-26-0108-3.

artigo científico e técnico. In: Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013.
[Consult. 09 jan. 2013]. Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$artigo-
cientifico-e-tecnico>.

Artigo científico. In: Wikipédia [Em linha]. [Consult. 09 jan. 2013]. Disponível na www:
<URL: http://pt.wikipedia.org/wiki/Artigo_científico>.

DE BRUYNE, Paul; HERMAN, Jacques; DE SCHOUTHEETE. Marc. Dinâmica da


pesquisa em ciências sociais: os pólos da prática metodológica. Tradução Ruth
Joffly. Rio de Janeiro: F. Alves, 1977.