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POLÍTICA II – FILOSOFIA MODERNA

Após as transformações que Maquiavel provocou no pensamento político


os filósofos que o sucederam passaram a partir da realidade concreta da vivência do
homem, seus problemas de convivência e então desenvolverem suas teorias políticas.
Nesse contexto da modernidade, posteriormente com o surgimento do Iluminismo,
surge um grupo de três filósofos que são chamados na história do pensamento político
de contratualistas ou jusnaturalistas – são eles Thomas Hobbes, John Locke e Jean-
Jacques Rousseau. Esses filósofos tinham por princípio a ideia de que o homem possui
certos direitos por natureza, ou seja, que são do homem pelo fato de ele existir. Assim
cada um desses filósofos parte de problemáticas parecidas e chega a teorias totalmente
diferentes. Vejamos.

Thomas Hobbes - O homem é o lobo do homem

Thomas Hobbes foi um filósofo inglês que viveu de 1588 a 1679. Foi o
primeiro filósofo político dos contratualistas, afirmando que o homem é mau por
natureza e que o estado deveria ter um poder absoluto e manter a igualdade e a vida
entre os indivíduos, mesmo que ofendendo o princípio de liberdade.

Estado de Natureza

Por Natureza todos os homens são iguais (tão iguais de modo que
nenhum tenha uma habilidade capaz de, só por isso, levar a uma desigualdade natural),
e desse modo livres O homem busca a todo custo conservar sua vida. Não existem
quaisquer fundamentações morais, jurídicas e/ou políticas que regulem a vida humana;

Estado de Guerra

O homem é um ser que tem pleno controle apenas sobre si mesmo, ou


seja, podemos apenas saber aquilo que pensamos, de modo que aquilo que o outro pensa
permanece oculto a nós. Essa situação gera certo mal-estar entre os homens. Sem
quaisquer fundamentações morais ou políticas o homem permanece frágil. E na busca
incessante de conservar sua vida, não sabendo o que se passa na cabeça do outro, ele
supõe sempre o pior. Segundo Hobbes nessa situação é a única decisão racional do
homem: sem saber qualquer coisa sobre o outro é melhor supor sempre o pior, supor
sempre que o outro irá me atacar a qualquer momento. Assim Hobbes identifica que o
homem é mau por natureza, ideia expressa em sua frase “o homem é o lobo do homem”.
Assim se instaura o chamado Estado de Guerra: eu ataco antes que o outro me ataque.
Esse Estado de Guerra é prejudicial para o homem, pois ameaça sua vida.

O Contrato Social e o Estado

Para solucionar o problema do Estado de Guerra Hobbes afirma que é


necessário o Contrato Social. Esse Contrato é um acordo que fundamenta a vida em
sociedade e funda um Estado forte capaz de devolver a paz na relação entre os homens.
De acordo com Hobbes esse Contrato deve ser um pacto entre os homens capaz de
estabelecer uma ordem moral e política na convivência dos mesmos. Seria expresso na
escolha de um Leviatã, ou seja, um monarca a quem todos os homens entregariam seus
direitos para que ele pudesse exercer seu poder e estabelecer a ordem em sociedade.

Esse poder do Leviatã deveria ser absoluto e não poderia ser reclamado,
pois só ele teria a capacidade de manter tudo em ordem. O povo entregaria seus direitos
a ele e só poderia provocar uma revolução e retirar o Leviatã se seu governo estiver indo
contra os homens, ou seja, estiver ameaçando suas vidas. Assim o Estado deve servir ao
homem, não o seu contrário.
John Locke – A política da propriedade privada

John Locke foi um filósofo inglês que viveu de 1632 a 1704. É um dos
mais famosos filósofos políticos, sendo idealizador do Estado Civil Liberal e do
liberalismo econômico. Para John Locke o Estado e a Economia deveriam estar
esperados, cada qual com sua função específica dentro da sociedade.

Estado de Natureza

O homem é neutro, ou seja, não é bom nem ruim por natureza. Mas
Locke afirma que o homem tem uma propensão de ser bom por natureza. O homem não
possui quaisquer fundamentações morais, jurídicas e/ou políticas. O homem está sujeito
apenas a dois tipos de leis: as leis da natureza (instintos) e as leis de Deus (leis do
cristianismo).

De acordo Locke o homem por natureza possui três direitos inalienáveis:


direito à vida, à liberdade e, por ultimo, o direito à propriedade privada, pois de acordo
com Locke o homem estabelece uma relação de trabalho com a natureza e tudo o que é
produto dessa relação é propriedade exclusiva daquele que produziu – e nesse caso com
relação ao direito à vida e à propriedade privada acrescenta-se a ideia de punição, uma
vez que todo aquele que atenta contra a vida ou tira a propriedade privada de alguém
pode ser punido.
Estado de Guerra

Embora de acordo com Locke o homem tenha propensão a ser bom no


Estado de Natureza e possa conviver tranquilamente um perigo permanece sempre à
espreita: a falta de regulamentação moral e jurídica que abre brechas para a punição
desregulada. Essa punição desregulada pode gerar uma condição em alguns aspectos
parecida com o Estado de Guerra, mas problematizado não pelo fato dos homens serem
maus como afirma Hobbes, mas agora pela falta de regulamentação sobre a punição.

Desse modo não há como estabelecer se as punições feitas pelos


indivíduos são justas ou não, ou seja, se tais punições são coerentes e proporcionais ao
delito. Isso deixa uma condição muito arbitrária gerando a possibilidades de abusos
pelos indivíduos, colocando em risco os direitos naturais.

Contrato Social e o Estado Civil

Para solucionar a problemática dos possíveis abusos de poder com


relação às punições realizadas no Estado de Natureza John Locke propõe um Contrato
Social para a fundação de um Estado Civil. Esse Contrato Social deveria ser
desempenhado da seguinte maneira: deveria ser fundado um Estado em uma Monarquia
Parlamentar, onde o Estado seria representado pelo Rei e o Parlamento pela
Aristocracia. O dever do Estado seria, tão somente, garantir a segurança e a propriedade
privada dos indivíduos. Ele iria regulamentar as punições que eram o grande problema
no Estado de Natureza e manter uma legislação que regule a vida em sociedade dos
indivíduos.

Por outro lado a função do Parlamento seria representar o interesse dos


indivíduos, regulando a economia, criando as leis que seriam de interesse da população
e garantindo cada vez mais a liberdade individual na vida em sociedade. O Estado,
desse modo, teria o mínimo de participação, pois teria apenas a influência moral acerca
dos indivíduos, de modo que os outros anseios individuais sejam providos pelo
Parlamento.
Jean-Jacques Rousseau – A sociedade corrompe o homem

Jean-Jacques Rousseau foi um filósofo suíço que viveu de 1712 a 1778.


Foi um dos grandes representantes do pensamento iluminista dentro da filosofia
política, colocando a educação como peça chave para a construção de um sistema
político justo. Rousseau levantou reflexões acerca da desigualdade entre os homens e se
torna um dos grandes críticos da propriedade privada, se tornando uma grande
referência para o pensamento de Karl Marx acerca do comunismo.

Estado de Natureza

De acordo com Rousseau o homem não e bom nem mal por natureza.
Isso porque bem e mal são juízos que pertencem a uma concepção moral sobre o
comportamento humano. E, visto que o homem por natureza não possui quaisquer
fundamentações morais, sociais e/ou políticas, não é possível julgá-lo bom ou mal.
Porém Rousseau diz que por natureza o homem é piedoso, pois afirma que ele possui
um sentimento natural de preservação da espécie, levando-o a ajudar qualquer outro
homem que esteja em perigo. Assim podemos dizer que o homem é um “bom
selvagem”.

O homem por natureza luta constantemente pela sua vida e é livre.


Segundo Rousseau, não existem desigualdades sociais/políticas por natureza. As únicas
desigualdades que o homem possui são as diferenças físicas entre eles, que surge do
próprio acaso da natureza. Portanto, em geral, todos são iguais. Não há propriedade
privada.

Sociedade (Estado de Guerra)

Segundo Rousseau quando o homem passa a instituir a vida em


Sociedade, deixando o Estado de Natureza e se adaptando a uma vida em grupo e entre
vários grupos, ele passa para uma situação nova que é caracterizada pela
competitividade e pela individualidade. A Sociedade estabelece a propriedade privada e,
por esse motivo gera desigualdade social/política. Isso porque quando alguém proclama
que determinado pedaço de terra é dele e os demais devem ser excluídos ele está
gerando uma desigualdade entre aqueles que antes eram iguais.

Na busca por possuir cada vez mais propriedade privada o homem gera
essa competitividade, buscando assegurar apenas seus princípios individuais, deixando
cada vez mais os princípios coletivos de lado. Isso faz com que a piedade, característica
natural do homem, seja cada vez mais embrutecida e deixada de lado em detrimento do
sucesso individual. Segundo Rousseau o homem chega a ser capaz de trair seus
semelhantes e mentir para eles a fim de derrubá-los e atingir as classes mais elevadas,
caracterizando a famosa frase do pensador: “A sociedade corrói o homem”.

Contrato Social e a Soberania Popular

De acordo com Rousseau não é saudável que o homem viva numa


Sociedade com tais características, quais sejam, competitividade e individualidade,
movidas pela propriedade privadas, gerando cada vez mais desigualdades entre os
homens e corrompendo sua piedade natural. A solução para isso seria o Contrato Social
e a criação de uma Soberania Popular. Esse Contrato Social seria uma forma,
primeiramente, de impedir o monopólio da propriedade privada pela competitividade e
individualidade, evitando cada vez mais desigualdade social. Para isso seria necessário
três passos:

a) O primeiro era despertar uma consciência nos indivíduos de que aquele modo de
vida em sociedade não era saudável para eles. Fazê-los perceber tal alienação diante
da competitividade em busca de propriedade privada e levá-los a pensar uma nova
forma de organização social que garanta a igualdade entre os homens.
b) Quebrar o monopólio das propriedades privadas, impedindo o crescimento da
desigualdade social. Rousseau não era contra a propriedade, mas afirma que quando
ela é instituída como propriedade privada e se estabelece como motor da
desigualdade ela se torna negativa para a sociedade. É necessária então uma
regularização dessa propriedade através de um poder forte que seria criado.

c) Esse poder forte seria a Soberania do Popular. Para Rousseau o sistema político
deve ser baseado em uma democracia direta, onde os indivíduos juntos colocariam
sua liberdade em comum a criariam juntos as leis que eles mesmos iriam seguir
posteriormente, de modo consciente, coletivo e livre. Não existiriam representantes
que quando eleitos criariam as leis, mas apenas pessoas que ocupariam cargos
públicos para executar aquilo que fora decidido pela Soberania Popular.

Para garantir um Estado que não cause desigualdades ou para que não
seja corrompida a Soberania Popular Rousseau afirma que ela deve expressar o que ele
chama de Vontade Geral. Porém, diferente do que possa parecer, a Vontade Geral não é
a vontade da maioria ou de todos, mas é aquilo que é correto. Segundo Rousseau
mesmo que algo seja vontade de todos, se não for por natureza algo correto, então não
deve ser feito.

Para saber se algo é correto ou não deve se olhar sua natureza e não sua
aplicação em situações. Ex: se queremos saber se mentir é correto ou não devemos
pensar na natureza disso, ou seja, na própria mentira em si. Assim veremos que ela é
incorreta. Mesmo que em algumas situações a mentira possa salvar a vida de alguém, e
por isso ela seja desejada por todos, ela não deve ser efetuada, pois é incorreta por
natureza. A Vontade Geral é, portanto, um princípio lógico e racional e não uma
vontade individualista do grupo.