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Agricultura familiar, agroindústria e desenvolvimento territorial1


Luiz Carlos Mior

Introdução
O desenvolvimento dos territórios, sobretudo os rurais, tem se tornado objeto de
análise dos estudiosos da área do desenvolvimento rural e da agricultura. Pesquisadores de
diversas tradições disciplinares têm sido desafiados para o desenvolvimento de instrumental
teórico-metodológico mais adequado para o entendimento dos processos subjacentes a
mudança dos espaços rurais. No centro das preocupações acadêmicas está a análise do
processo de mudança rural a partir de uma perspectiva territorial e/ou multisetorial do
desenvolvimento rural procurando sair de uma visão setorial de desenvolvimento agrícola.
Nesta trajetória do debate a literatura acaba encontrando nas noções de distrito
industrial de Marschal um ponto de apoio para os processos de desenvolvimento rural. Mais
recentemente outros noções como a cluster, sistema produtivo local, arranjo produtivo local e,
na área agrícola e rural, distrito agroindustrial na literatura italiana e sistema agroalimentar
localizado de origem francesa. Para o objetivo deste trabalho, no entanto, consideramos que
uma das mais relevantes contribuições nesta área temática é a representada pela perspectiva
teórico - metodológica das redes sociais e sócio-técnicas.
O presente artigo tem por objetivo analisar o processo de mudança rural, em curso na
região oeste catarinense, a partir da utilização da noção de redes procurando identificar os
desafios para a construção de sustentabilidade no desenvolvimento territorial. Consideramos
que a transformação em curso se constitui num importante processo para visualizar os limites
e as possibilidades de mudança na relação da sociedade com os territórios rurais.
Na primeira parte deste trabalho apresentaremos, de forma sucinta, a noção de redes
verticais e horizontais de desenvolvimento rural e suas potencialidades para análise dos
processos de desenvolvimento territorial. Na segunda apresenta-se uma breve caracterização
do território Oeste Catarinense a partir da abordagem de redes Na terceira parte identifica-se
as possíveis convergências e conflitos nas relações entre a agricultura familiar, a agroindústria
e o território e os subjacentes desafios para sustentabilidade do desenvolvimento territorial.
Finalmente, apresenta-se algumas considerações finais.

1. Redes de desenvolvimento rural

A complexidade dos processos de mudança rural, sobretudo nos países desenvolvidos,


contribuiu para a ampliação da importância da abordagem de redes de desenvolvimento rural
nos anos 90. Marsden; Lowe; Whatmore (1990), argumentam que os processos de mudança
rural não devem ser vistos como determinados unicamente pela forças presentes na
globalização do sistema alimentar, e seu estudo deve incluir os processos de reestruturação
rural que envolvem as dinâmicas sociais e econômicas regionais. Enquanto os processos
globais seriam vistos como eminentemente verticais e setoriais, os processos de reestruturação
rural estariam inseridos nas dinâmicas econômicas agrícolas e não agrícolas dos territórios
locais e regionais. Lowe; Murdoch; Ward (1995), após análise da concepção exógena e
endógena de desenvolvimento rural, seus alcances e limites, propõem a utilização da noção de
redes. Estes autores enfatizam a necessidade de relacionar a dimensão espacial e a dimensão

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Trabalho apresentado no Colóquio Internacional de Desenvolvimento Rural Sustentável. Florianópolis, 22 a 25
de agosto de 2007.
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social levando em consideração as dimensões de poder. A forma como se dão as relações
sociais entre os agentes locais e entre estes e os não locais seria mais importante que pertencer
ou não a um dado território.
Já o trabalho de Murdoch (2000), o foco passa a ser com o nível intermediário de
redes. Neste nível estariam as redes que alcançam diretamente a agricultura e outros setores
sócio-econômicos dos territórios rurais e configuram assim determinados padrões de
articulação dos atores locais e não locais em processos de desenvolvimento. Este nível
intermediário de redes seria, ainda segundo Murdoch (ibid), adequado tanto para a construção
de estratégias alternativas de desenvolvimento rural como para sua interpretação. Teríamos
dois principais conjuntos de redes interagindo nas regiões rurais: as redes verticais e as redes
horizontais de desenvolvimento rural. O termo rede vertical refere-se à forma como a
agricultura é incorporada em processos mais amplos de produção, transformação, distribuição
e consumo de alimentos e matérias primas, dentro de uma abordagem setorial do
desenvolvimento. Já o termo redes horizontais de desenvolvimento rural refere-se à
incorporação da agricultura e dos territórios rurais em atividades que os atravessam e estão
imersas nas economias locais e regionais, inclusive urbanas. As redes verticais e horizontais
estão associadas à idéia de desenvolvimento setorial e territorial, respectivamente.
Analisaremos como estas duas formas de redes rurais têm sido abordadas pela literatura,
iniciando pelas redes verticais.
Os estudos das cadeias de commodities dentro da perspectiva marxista foram
pioneiros na investigação dos processos de transformação industrial que ocorrem nas diversas
etapas da cadeia alimentar: produção, processamento, distribuição e consumo final, e focavam
sobre atores, conexões e alcance espacial (FRIDLAND et al, 1981; JANVRY, 1981).
Segundo Murdoch, estes estudos teriam mostrado como as cadeias de commodities vêm
tornando-se cada vez mais dominadas por grandes atores industriais enquanto os agricultores
vêm perdendo poder e sendo excluídos do processo de produção. A dominação, pelo menos
na Europa, estaria sob influência marcante da grande distribuição alimentar. Só nos últimos
anos os estudos teriam focado, além dos problemas sociais, as conseqüências ambientais
deste tipo de desenvolvimento.
Se as redes verticais foram tradicionalmente analisadas dentro de um recorte setorial, a
partir da abordagem da cadeia de commodities, as redes horizontais têm sido abordadas,
dentro de um recorte territorial, a partir da noção de redes sociais de inovação e de
aprendizagem. Segundo Murdoch, nesse caso as estratégias de desenvolvimento rural são
pensadas a partir do fortalecimento das atividades agrícolas e também das não agrícolas. A
hipótese que norteia essas análises é a de que as regiões que têm uma história de sucesso são
as que conseguem incorporar de forma inovativa elementos naturais e sociais nas novas
estratégias de desenvolvimento econômico. A ênfase na inovação indica que as associações
ou redes mais apropriadas não são apenas amálgamas de arranjos institucionais pré-existentes
mas, sim, aquelas que habilitam novas formas de orquestrar o desenvolvimento econômico.
Estas novas preocupações com redes de inovação e aprendizagem levantam também
importantes questões para os estudos do desenvolvimento rural. Outras formas de
especialização para os espaços rurais podem estar emergindo, dentro das novas tendências da
economia mais ampla, mas dependem da habilidade de dadas áreas rurais, que é contingente
a existência de redes interativas flexíveis e relações sociais baseadas na confiança, pensadas
para facilitar a inovação.
Aquelas áreas rurais que mantém uma reserva de formas econômicas baseadas na
agricultura tradicional podem ser o melhor território para aproveitar as novas oportunidades
econômicas. Deste modo, áreas que têm avançado nas rodadas de industrialização prévia –
que eram baseadas na forte especialização rural e formas de padronização, dirigidas para as
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grandes empresas - podem não se beneficiar das novas condições econômicas (já que elas
tendem a ser configuradas pelas cadeias de commodities).
Esta descoberta questiona o entendimento do que constitui desenvolvimento rural, em
particular na esfera agrícola, onde desenvolvimento tem sido igualado a intensa capitalização
em direção às grandes unidades de produção e ao declínio do poder do trabalho. Agora o
desenvolvimento adequado é aquele estabelecido pelas novas redes de inovação. Tais redes
seriam mais facilmente construídas em áreas que conservaram uma estrutura industrial
flexível baseada em um grande número de pequenas unidades de produção. Assim, a noção de
rede recolocaria nosso entendimento do desenvolvimento e da distribuição espacial de
recursos pensados como necessários para o sucesso econômico. Ainda, segundo Murdoch
(2000), a abordagem de redes é útil porque ela possibilita integrar as questões do
desenvolvimento, internas às áreas rurais, com problemas e oportunidades, que são externas.
O termo rede permite ainda manter o interno e o externo juntos numa mesma estrutura de
referência.
Ao investigar a pertinência do uso da abordagem de redes para analisar o
desenvolvimento rural, Murdoch identifica a existência de três tipos de região associados com
os tipos de redes. O primeiro tipo seria de regiões onde predominam cadeias de commodities
específicas, com padrões de produção estandardizados, em que especialização e busca de
economias de escala são as estratégias competitivas, ligadas à presença de grandes empresas
voltadas a economia globalizada. A questão chave situa-se na capacidade de acompanhar as
inovações tecnológicas, geradas, no geral, fora da região. No outro extremo teríamos o
segundo tipo de região, onde predominam estratégias competitivas ligadas à produção
diversificada resultante da presença de redes de pequenas e médias empresas do setor agrícola
e não agrícola. Nestas pequenas e médias empresas a questão chave é a promoção continuada
de inovações, devido a sua capacidade de aprendizagem nos territórios regionais. O terceiro
tipo seria o das regiões marginalizadas tanto pelas redes estandardizadas da produção
especializada de commodities, como pela produção diversificada ligada a relações
horizontalizadas de inovação e aprendizagem.
Murdoch (ibid) enfatiza que o paradigma de rede não deveria ser usado para sugerir
apenas um modelo de desenvolvimento rural. Ao invés disto, o reconhecimento de que há
diferentes tipos de redes interagindo de maneiras distintas com o conjunto de condições pré-
existentes, implica que as estratégias adotadas pelas agências de desenvolvimento necessitam
se ajustar às diferentes áreas rurais. Portanto, o termo rede varia em significado de acordo
com o contexto de uso.
Já LOWE et al. (1995) enfatizam a necessidade de deixar de lado uma concepção
normativa das redes como característica definidora de uma nova ordem organizacional, por
dois conjuntos de motivos. Em primeiro lugar porque as redes não são novas e nem o mercado
e as relações hierárquicas estão desaparecendo. A principal questão diz respeito a como essas
instituições econômicas tradicionais podem ser recolocadas na abordagem de rede. Em
segundo lugar é importante não fazer suposições a priori sobre a natureza das relações em
rede. Assim, os problemas específicos de áreas rurais dadas devem ser avaliados dentro de
seus contextos políticos e econômicos.
A evolução das cadeias agroalimentares tem sido de concentração de grandes
empresas nos âmbitos nacional e internacional. Contudo, há outras posições que tem afirmado
a necessidade de observar como estas redes verticais de produção e consumo de alimentos
enfrentam problemas em seu processo de expansão, sendo que os resultados de suas
estratégias podem ser diversos e contestados (WHATMORE; THORNE, 1997).Assim como
torna-se necessário evitar o viés determinista presente naquelas abordagens, deve-se analisar
como outras estratégias são assumidas por atores locais e regionais, num processo não
necessariamente premeditado de construção de novas redes de desenvolvimento rural.
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Uma importante contribuição para o entendimento da mudança rural na Europa foi
apresentada por Ploeg et al (2000) no instigante artigo “Desenvolvimento rural: das
políticas e práticas para a teoria”. Como o próprio título indica, há a necessidade de
analisar os padrões emergentes de desenvolvimento rural a partir de outra perspectiva
teórica. Para os autores, o desenvolvimento rural é visto como um processo multinível,
multifacetado e multiator enraizado em tradições históricas. Em todos estes níveis aparece
uma série de respostas ao paradigma anterior de modernização. Dentre os níveis
destacados pelos autores estão o das inter-relações globais entre agricultura e sociedade, o
do novo modelo de desenvolvimento agrícola, o da propriedade individual do agricultor, o
do espaço rural e seus atores sociais e econômicos e, finalmente, o nível das políticas e
instituições.
A característica central do novo paradigma de desenvolvimento rural seria a de ser
construído a partir de uma combinação do velho e do novo (PLOEG et al, 2000) ou da
imposição das novas redes sobre as estruturas socioeconômicas pré-existentes, como é
apresentado por Murdoch (2000). Todavia, estas novas redes, em especial as ligadas ao
processo de inovação e aprendizagem, somente poderão emergir, se o velho, isto é, as
estruturas herdadas, são flexíveis e suficientemente diversas.
Tal desenvolvimento rural implicaria a construção de novas redes, a revalorização e
recombinação de recursos, a coordenação ou remodelação do social e do material e o uso
renovado do capital ecológico, social e cultural (PLOEG et al, 2000). Ainda, segundo os
autores, este novo padrão de desenvolvimento rural não seria apenas a adição de novas
atividades, especialmente não agrícolas, ao meio rural, mas sim a forma como evolui o
padrão anterior de desenvolvimento da própria agricultura. Aqui os autores se diferenciam
da posição que enfatiza as atividades não agrícolas para o desenvolvimento rural e, muitas
vezes, negligencia a evolução da própria agricultura.

2. Oeste Catarinense: um território emblemático para o estudo do desenvolvimento


rural
Tradicionalmente denomina-se de região Oeste ao território delimitado ao sul pelo
estado do Rio Grande do Sul, ao norte pelo estado do Paraná, a oeste (província de Missiones
- pela Argentina) e ao leste pela região do Planalto de Santa Catarina. O IBGE tem
denominado esta unidade espacial de Mesorregião Oeste catarinense constituída de cinco
pólos regionais. Ao todo são 118 municípios organizados em sete associações dentre as quais
destaca-se a Amosc que vem procurando construir novas estratégias regionais. Mais
recentemente o Governo do estado de Santa vem empreendendo um processo de
descentralização com a constituição neste território de 10 Secretarias de Desenvolvimento
Regional2. Uma descrição geral da região pode ser vista no quadro 1.

2.1 A região Oeste catarinense em números


Como uma das seis mesorregiões que compõem o território de Santa Catarina, a região
Oeste tem se destacado em termos agrícolas e agroindustriais. Com apenas 25% da
superfície estadual, produz cerca de 50% do valor bruto da produção agrícola. Constitui-se
ainda numa região com capacidade de produção de alimentos bem superior à demanda
regional e estadual. Segundo Silvestro et al (2000), o mercado regional, por exemplo,
absorve apenas 2,8% da produção agroindustrial de suínos e 17% da produção de leite e

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O governo de Santa Catarina constituiu um processo de descentralização administrativa no ano de 2003 criando
29 Secretarias de Estado de Desenvolvimento Regional. Em 2007 no seu segundo mandato o número chega a 36
secretarias.
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derivados. Situação que reflete a dependência ao consumo externo ligado à dinâmica
econômica nacional e internacional. O contexto de integração da região ao mercado
internacional, por sua vez, transforma este território num espaço emblemático para estudo
das inter-relações entre as tendências globais e as mudanças locais. Ou ainda, de como se
dá a transformação local em face de sua integração às dinâmicas gerais presentes no
processo de globalização da agricultura e do sistema alimentar (ver quadro 1).

Quadro 1. Descrição geral da região Oeste catarinense

Recursos naturais - Da área total de 27.484 km2


a) 31,3 % da área são terras nobres para culturas anuais
b) 25,7 % da área têm aptidão restrita para culturas anuais
c) 41,5 % da área são considerados inaptas para culturas anuais.
d) 1,5 % da área é ocupada por rios, lâminas d’água e cidades.
- A população total no ano de 2000 era de 1,06 milhão de habitantes sendo que
População
646 mil vivem no meio urbano (61%) e 414 mil no meio rural (39%).

Agricultura - A região Oeste produz mais de 50 % do VBP agrícola estadual. São cerca de
88 mil estabelecimentos rurais dentre os quais 95% de natureza familiar no ano
de 1995/96. A estrutura agrária é permeada por pequenas áreas onde cerca de
95 % e 70 % dos estabelecimentos agropecuários possuem menos de 50 e 20
hectares, respectivamente.

Indústria - O cluster agroindustrial de carnes suínas e de aves é o maior do Brasil sendo


também responsável pela maior parte das exportações e pela dinâmica
econômica regional. Recentemente surgiram novas atividades como a indústria
de leite, além de um processo diversificação do setor industrial para o ramo
metal mecânico e de móveis.

Emprego - Cerca de 50 % da população economicamente ativa trabalha em atividades


agropecuárias. Na atividade industrial os empregos estão no setor
agroindustrial que é o de maior relevância na região.

Infraestrutura - A região é servida por rodovias pavimentadas mas não possui uma ferrovia
que lhe daria maiores possibilidades de escoar sua produção. Outra grande
deficiência é a precária situação das estradas rurais, o que dificulta
sobremaneira o transporte de insumos e produtos agrícolas.

Educação - Nos anos 90 o ensino superior passou por uma grande transformação com a
constituição de duas universidades (UNOESC e CONTESTADO) o que
possibilitou a ampliação e diversificação dos cursos de graduação e, também,
pós-graduação.

Pesquisa agropecuária - A região conta com um Centro Nacional de Pesquisa de Suínos e Aves da
Embrapa e um Centro de Pesquisa para a Agricultura Familiar da Epagri.

Organizações sociais - Uma forte organização dos agricultores familiares se expressa num conjunto
de associações, sindicatos e movimentos sociais. Destacam-se na região a
Fetraf-Sul, o Movimento dos Sem Terra, além do Movimento das Mulheres
Agricultoras, dos jovens e dos atingidos por Barragens.
Fonte: Mior, 2005.
A concentração produtiva demarca a região como um território eminentemente agrícola.
Sua economia é profundamente dependente das atividades agrícolas e agroindustriais, com
poucas oportunidades de empregos em outros setores. Esta situação vem associada à
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presença ainda significativa da população rural que, segundo dados do censo de 1991 era
de 50%, e em 2000 chegava a 39 % da população total (ver quadro 1).
Em apenas algumas décadas construiu-se uma história de riqueza em que a região
demarcou seu espaço no cenário econômico nacional e internacional, notadamente através da
agropecuária e da agroindústria (Testa et al, 1996). A região abriga o maior complexo de
produção, abate e transformação de carne suína e de aves do Brasil e América Latina, sendo o
espaço privilegiado de atuação das grandes empresas agroalimentares. Sadia, Perdigão, Seara,
Chapecó tiveram origem nesta região ainda nos anos 1940 e, mais recentemente, foi
constituída a Cooperativa Aurora (anos 70). A região se notabilizou por ser pioneira no
estabelecimento de um bem sucedido sistema de integração agroindustrial entre grandes
agroindústrias e a agricultura familiar, constituindo-se em objeto de interesse teórico desde os
anos 80 (SORJ et al, 1982; SORJ; WILKINSON, 1983; GRAZIANO DA SILVA et al, 1983;
CAMPOS, 1987 e BELATTO, 1985)
Este modelo seria o responsável tanto pelo sucesso econômico regional como pelos
crescentes problemas socioeconômicos e ambientais ressaltados pela crise vivenciada nos
anos 90. Pólo de inovação tecnológica na área de produção e industrialização de suínos e
aves, berço das maiores empresas do setor carnes e derivados do Brasil, modelo de articulação
que possibilita a incorporação socioeconômica da produção familiar, são resultados
ressaltados como positivos. Concentração econômica regional, exclusão dos pequenos
produtores familiares da produção de suínos, poluição das águas pelos dejetos suínos, êxodo
rural e regional, principalmente dos mais jovens, entre outros, são apresentados como os
resultados menos nobres do modelo de agroindutrialização da região.

Este forte dinamismo agroindustrial foi demarcando profundas transformações


socioeconômicas e ambientais no espaço rural regional. Variações no espaço e no tempo
foram uma constante ao longo das relações entre os diversos atores ligados diretamente às
cadeias produtivos de suínos e aves – empresas agroalimentares e produção agrícola familiar -
e entre estes e o estado, nos seus vários níveis, mas sempre no sentido de fortalecer a
ampliação deste complexo de atividades ligadas à produção, transformação, distribuição e
consumo de proteínas animais.
Até o início dos anos 80 pode-se afirmar que existia um padrão bastante homogêneo
de desenvolvimento rural e regional. A maioria dos agricultores familiares estava integrada ao
mercado, sobretudo, através da produção de suínos cujo processo produtivo estava, em sua
maior parte, sob seu controle. O agricultor gozava de uma relativa autonomia no processo
decisório, já que podia organizar seu processo de trabalho e produção com base na
disponibilidade interna de fatores. A forma de organização da produção familiar sofre
mudanças a partir de sua integração agroindustrial (Sorj & Wilkinson (1983). Os problemas
ambientais com dejetos suínos não eram tão evidentes já que não eram tão concentrados. O
equilíbrio entre produção agrícola familiar diversificada, agroindústria e território passa a
sofrer forte transformação.
O intenso processo de reestruturação agroindustrial, iniciado nos anos 80, prenuncia
uma crise no relacionamento entre as agroindústrias e a produção familiar, com profundas
repercussões no território regional. As mudanças tecnológicas e organizacionais introduzidas
na produção suinícola começam a minar a tradicional forma de inserção da produção familiar,
com maior especialização e concentração da produção. Estas transformações ocasionam a
exclusão de significativo número de suinocultores familiares. De um total de cerca de 67 mil
suinocultores no ano de 1980, restaram cerca de 20 mil em 1995 (TESTA et al 1996). Para se
ter uma idéia da relevância destes números basta dizer que a região Oeste Catarinense
abrigava cerca de 80 mil agricultores, segundo o censo de 1980. Neste período emergem os
problemas ambientais decorrentes da produção intensiva de suínos, que começam a ganhar
relevância na mídia e na sociedade (GUIVANT, 1998; GUIVANT; MIRANDA, 1999).
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A partir deste processo, os produtores excluídos da atividade de produção de suínos
passam a buscar outras atividades produtivas como o incremento da produção de fumo, a forte
expansão da produção de leite e a agregação de valor via estratégias de agroindustrialização.
A região Oeste passa a ser a principal região produtora de Santa Catarina, incorporando
produtores, produtividade e viabilizando novas agroindústrias de pequeno, médio e grande
porte3. Pela importância decisiva na formatação de um novo padrão de desenvolvimento rural
vamos destacar a seguir o processo de emergência e de reconhecimento da agroindústria
familiar

2.2 O Oeste catarinense visto através das redes


O processo de reestruturação agroindustrial ou mudança rural em curso na região
Oeste catarinense assume características complexas. Neste contexto a abordagem da
economia política da globalização pode não ser suficiente para a obtenção de respostas
razoáveis à situação de transição regional em curso. De acordo com tal abordagem, o destino
da agricultura e seus respectivos espaços rurais seriam determinados por processos macro
como o da globalização da economia e do sistema alimentar. Da mesma forma, atribuir um
alto nível de autonomia da agricultura e seus territórios rurais locais/regionais como
reivindica a abordagem da re-localização e diversidade, pode nos fazer sucumbir ao utopismo.
É de particular importância olharmos para a região Oeste catarinense, dada a forte
presença de poderosas empresas agroindustriais, profundamente ligadas à dinâmica dos
circuitos globalizados de produção e consumo. Esta forma de articulação corresponderia a
uma típica rede vertical de desenvolvimento rural nos termos de Murdoch (2000). Exemplos
destas trajetórias podem ser vistos na internacionalização de empresas como a Sadia, Seara,
Perdigão entre outras. Neste contexto o agricultor passaria a ter, principalmente, um papel
como produtor especializado de mercadorias preso a mercados distantes.
Outro subconjunto destas redes verticais seria o formado pelo conglomerado
agroindustrial representado pelo setor cooperativo4. Estas cooperativas constroem uma rede
própria de produção, processamento, industrialização e distribuição de carne suína e de aves.
Embora abranja uma ampla gama de estruturas sociais nos marcos das cooperativas filiadas,
sua inserção econômica se dá na mesma lógica de mercado da agroindústria convencional,
isto é, aposta na economia de escala e na especialização como estratégia de organização da
produção e industrialização. Evidentemente as escalas preconizadas pelo sistema
agroindustrial cooperativo são menores que as da agroindústria convencional.
A emergência, nos anos 90, de uma miríade de iniciativas de agregação de valor
protagonizadas por um diversificado conjunto de atores locais e regionais sinaliza para um
novo momento no processo de desenvolvimento regional. Estas iniciativas tomadas por
Associações de Municípios, Associação de Pequenos Agricultores, Cooperativas de
Assentamentos de Reforma agrária podem ser vistas como parte de um processo de
construção de redes horizontais de desenvolvimento rural.
É neste contexto que nos anos 90 surgem novas políticas de apoio à agricultura
familiar, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF)5 e

3
A produção de leite na região Oeste catarinense já representa mais de 60 % da produção do Estado de Santa
Catarina. A taxa de crescimento dos últimos anos tem estado próxima aos 20% ao ano.
4
A Cooperativa Central Oeste Catarinense, por exemplo, é formada por cerca de 15 Cooperativas filiadas e mais
de 40 mil agricultores associados.
5
O PRONAF foi lançado em 1995 pela Secretaria de Desenvolvimento Rural do Ministério da Agricultura com
o objetivo geral de propiciar condições para o aumento da capacidade produtiva, a geração de empregos e a
melhoria da renda, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida e a ampliação do exercício da cidadania
por parte dos agricultores familiares (Governo Federal, 1996). O programa tem as seguintes linhas de atuação:
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é revisada a legislação que regulamente a agroindústria artesanal. São fatores que contribuem
para a construção de um novo ambiente institucional e organizacional dos empreendimentos
de agregação de valor dos agricultores familiares.
Explorar o contexto da mudança agroindustrial na região Oeste catarinense exige,
portanto, uma análise do inter-relacionamento entre as estratégias de ação destes agentes nas
diversas escalas espaciais. Na região Oeste co-existem agroindústrias convencionais que estão
ligadas ao mercado europeu de carnes (com a tendência pós-fordista) e, ao mesmo tempo, ao
mercado brasileiro, que estaria em transição. Existe ainda uma série de agroindústrias de
pequeno porte ligadas à produção de derivados de leite (queijos, iogurte, requeijão) voltada
para mercados de nicho (produtos coloniais e artesanais) mas também para o mercado
tradicional de commodities, como é o caso de queijo para pizzarias (WILKINSON; MIOR
1999).
O importante a assinalar aqui é que recursos menosprezados pelo modelo de
modernização agrícola, como a cultura e o saber fazer local, passaram a ser vistos como
cruciais para a emergência de novas redes de produção e consumo alimentares. E, ainda, a
consolidação destas novas redes de produção repousa sobre a capacidade organizacional e
institucional local que tem sido atribuída à evolução do capital social existente no território
(OCDE, apud MURDOCH, 2000). Portanto, na região Oeste existe um processo de
estandartização da produção e dos mercados consumidores, promovida pela grande
agroindústria convencional, assim como um processo de re-valorização da diversidade
ecológica e sócio-cultural promovido por outros atores regionais. A constituição destas
agroindústrias familiares se constitui num importante processo de transformação territorial
como veremos a seguir.

2.3 O surgimento das agroindústrias familiares rurais


A atividade de processamento de alimentos nas propriedades dos agricultores se
constitui numa importante estratégia da agricultura familiar de Santa Catarina. Em 1996,
segundo dados do Censo do IBGE, mais de 80% do valor da produção da indústria rural foi
produzido por estabelecimentos agropecuários com menos de 50 hectares. No caso do
processamento do leite, dos 59 mil produtores de queijo e requeijão, havia, em 1995, mais de
21 mil que comercializavam estes derivados.6 Neste mesmo ano na região Oeste cerca de 33
mil produtores produziam queijo e/ou requeijão e cerca de 11 mil produziam melado a partir
da cana-de-açúcar (ver tabela 1).
A constituição de agroindústrias rurais pode ser vista como um processo de
reconfiguração de recursos (produto colonial) promovido pela agricultura familiar em
conjunto com suas organizações associativas e com o apoio do poder público. De um produto
conservado para a subsistência (valor de uso) da família rural, para consumo na entressafra, o
produto colonial processado passa a ser visto pelos agricultores como um produto comercial
com um valor de troca e, portanto, como fonte de renda da unidade de produção familiar.

negociação de políticas públicas com órgãos setoriais; financiamento de infra-estrutura e serviços nos
municípios; financiamento da agricultura familiar; capacitação e profissionalização de agricultores familiares.

6
O IBGE não divulgou o número de agricultores que comercializavam produtos por região, o que impede a
análise quantitativa da participação do Oeste na comercialização da produção da indústria rural no estado de
Santa Catarina. Mesmo assim, pode-se afirmar que a participação da indústria rural dos agricultores familiares
ainda é muito grande na região Oeste.
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Tabela 1. Evolução do processamento de leite (queijo, requeijão), carne suína (salames e lingüiças) e cana-de-açúcar (melado) nos
estabelecimentos rurais de Santa Catarina.

Anos
1975 1985 1995/96

Região Oeste Santa Catarina Região Oeste Santa Catarina Região Oeste Santa Catarina
produtores Qtde. Nº Qtde Nº Qtde Nº Qtde (t) Nº Qtde (t) Nº Qtde (t)
Produto Nº (t) prod. (t) prod. (t) prod. prod. prod.

Queijo/requeijão 26.439 4.171 36.615 5.804 41.404 7.381 63.428 11.674 33.730 6.149 59.741 13.837
Embutidos (Salame,
lingüiça)
35.012 2.472 46.624 3.023 41.339 2.439 53.816 2.985 17.298 1.433 20.398 2.002

Melado 9.414 1.544 10.332 5.714 18.727 5.101 20.004 8.632 11.431 1.719 12.172 4.076
Fonte: Mior, 2005
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A agroindústria familiar rural é uma forma de organização onde a família rural produz,
processa e/ou transforma parte de sua produção agrícola e/ou pecuária, visando, sobretudo, a
produção de valor de troca que se realiza na comercialização. Enquanto isso, a atividade de
processamento de alimentos e matérias primas visa prioritariamente a produção de valor de
uso que se realiza no auto-consumo (Mior, 2005). Outros aspectos também caracterizam a
agroindústria familiar rural tais como: a localização no meio rural, a utilização de máquinas e
equipamentos e escalas menores, procedência própria da matéria-prima em sua maior parte,
ou de vizinhos, processos artesanais próprios, assim como predominância da mão-de-obra
familiar. Pode ainda vir a ser um empreendimento associativo, reunindo uma ou várias
famílias aparentadas ou não. Outra dimensão importante é que a agroindústria familiar está
crescentemente internalizando os aspectos legais, tanto do ponto de vista sanitário como
ambiental e fiscal, perante os organismos de regulação pública.
A partir de meados dos anos 90, estas agroindústrias e suas redes sociais passam a
conviver com outro ambiente organizacional e institucional. Do ponto de vista da regulação
da atividade de processamento e comercialização de alimentos, ocorre o processo de
descentralização e ampliação da fiscalização dos aspectos sanitários, fiscais e ambientais de
operação dos empreendimentos agroindustriais. Por exemplo, a inspeção sanitária de produtos
de origem animal passa também a ser feita pelos estados e municípios, tal como a vigilância
sanitária dos alimentos e medicamentos.

2.4 A expansão da agroindústria familiar e redes de desenvolvimento rural

O desenvolvimento da agroindústria familiar tem importantes desdobramentos no


território. Ocorrem mudanças no âmbito interno da organização da unidade familiar de
produção, no contexto mais amplo da organização da agricultura familiar, na diversificação
econômica regional, no fortalecimento de sistemas agroecológicos de produção entre outros
aspectos como veremos a seguir.
A esfera da produção da agroindústria familiar também reserva um lugar
extremamente importante para as mulheres agricultoras. Conforme analisou Guivant (2001,
2003), a estratégia de agregação de valor freqüentemente vem associada à transformação de
atividades anteriormente confinadas à cozinha da família rural. Deste território demarcado
pela presença das mulheres agricultoras, emergem as fontes de renda que passam a ser
fundamentais para a agricultura familiar. Esta re-divisão interna de trabalho da família rural se
transforma num dos principais trunfos para o sucesso da agroindústria familiar .
Uma conseqüência importante desde o ponto de vista do gênero, é que a participação
da família em grupos produtivos, com ou sem atividades de agregação de valor, permite
compartilhar o peso das tarefas agrícolas entre várias famílias. Isto ocasiona mudanças no
cotidiano das agricultoras, podendo dividir também o cuidado dos filhos, de uma maneira que
não poderiam fazer com seus maridos. E particularmente a agregação de valor dentro dos
grupos abre para as mulheres agriculturas novas oportunidades no caminho de seu
empoderamento: cursos de treinamento e capacitação, contato direto com consumidores nas
feiras, o que permite reforçar a auto-estima, com o retorno positivo que recebem daqueles
sobre seu trabalho (MIOR;GUIVANT, 2005).
Do ponto de vista da agricultura familiar a região consolida sua trajetória organizativa
constituindo novos agentes. Destacam-se o fortalecimento da Associação dos Pequenos
11
Agricultores do Oeste Catarinense (APACO)7, a constituição da Federação da Agricultura
Familiar de Santa Catarina, cujo principal território de atuação é a região Oeste, e que em 2001 é
transformada em Federação da Agricultura Familiar da Região Sul do Brasil (FETRAF-SUL), a
Constituição de Cooperativas de Reforma Agrária e a Marca Terra Viva. Outros atores regionais
como a Associação dos Municípios do Oeste Catarinense (AMOSC)8, num processo de
internalização da problemática regional, assume posturas pró-ativas na construção e
implementação de novas estratégias de desenvolvimento.
Estes novos atores regionais passam assim a discutir e a implementar estratégias de
desenvolvimento territorial baseadas na agroindustrialização de base familiar (ver síntese das
principais redes de agroindústrias no Oeste Catarinense no quadro 2). Além da mobilização das
redes sociais, os agricultores familiares deram mais um passo ampliando a complexidade dos seus
empreendimentos. Construíram formas de organização em rede das agroindústrias para servir de
apoio em várias dimensões do processo de criação, desenvolvimento e consolidação dos
empreendimentos. Visando entrar no mercado de produtos de qualidade diferenciada, surgem
experiências de uso de marcas e selos coletivos como a Sabor Colonial (Apaco), Terra Viva
(MST) e Castália (Amosc).
A agregação de valor do conjunto das agroindústrias familiares, em sua maior parte
constituída em bases artesanais abrange uma grande diversidade de produtos como grãos (milho,
), mel, leite e derivados, conservas, derivados de cana-de-acúcar, doces e chimias derivados de
frutas, sucos de frutas, chás, avicultura de corte e postura, derivados de carne suína. Esta
característica pode ser mobilizada para contrabalançar, pelo menos em parte, a tendência a
especialização dos sistemas convencionais de produção9
Enquanto boa parte da agroindústria convencional da região busca insumos e matérias primas
externos a propriedade e região (milho e soja do Centro Oeste, por exemplo) a agroindústria
familiar potencializa a utilização de insumos e matérias primas locais e regionais. A rede da
UCAF, por exemplo tem se pautado pelo desenvolvimento de sistemas produtivos agroecológicos.
Assim são preconizados a produção de leite a base de pasto e o uso da homeopatia no tratamento
dos animais. A produção de cana-de-açúcar se dá através da utilização de sistema agroecológico
assim como a produção de frutas para a produção de doces e chimias. Na produção animal de
suínos o sistema preconizado é o do sistema de produção ao ar livre em parte do processo
produtivo de criação dos leitões.

7
A Apaco se propôe a “Ser um fórum de discussão política dos problemas relacionados com a pequena produção
familiar e com grupos de Cooperação Agrícola; prestar assessoria técnica, política e administrativa aos grupos de
cooperação agrícola associados; coordenar as atividades de comercialização conjunta dos grupos de cooperação
agrícola associados”. Se organiza a partir de grupos de cooperação nas comunidade rurais, passa por uma
organização municipal e chega a estrutura da Associação. A partir de meados dos anos 90, passou a enfatizar a
busca do desenvolvimento regional sustentável, através dos sete programas: gestão agrícola, tecnologias
alternativas, cooperativismo de crédito, comercialização, assistência técnica, formação e comunicação e
agroindutrialização (APACO, 1995).
8
Criada para representar os interesses dos municípios perante outros órgãos do sistema federativo (Estado e
União), a Amosc passou a incorporar outras atribuições, como foi o caso do assessoramento técnico aos
municípios, através da prestação de serviços na área jurídica, da construção civil e contabilidade. Organizou o
primeiro Fórum de Desenvolvimento Regional em Santa Catarina, em 1996, assim como, constituiu a primeira
agência de desenvolvimento (Instituto Saga). Este instituto vem atuando no apoio ao desenvolvimento de
iniciativas de agroindustrialização constituindo para isso uma marca coletiva chamada Castália que é
disponibilizada aos agricultores juntamente com o Código de Barras.
9
A economia agrícola do estado de Santa Catarina, por exemplo, vem cada vez mais se tornando dependente de
poucas atividades produtivas. A suinocultura, a avicultura e o fumo por exemplo contribuem cerca de 50% do
valor bruto da produção agropecuária de Santa Catarina no ano de 2005 (Epagri/Cepa, 2007).
12

Quadro 2 - Redes de agroindústrias familiares existentes no Oeste Catarinense e suas principais características

Características Instituição Principais Parceiros Principais Principais Marca dos Nº de


Promotora/ Municípios recursos produtos agroindústrias
Redes Ator-mundo mobilizados pela filiadas/existentes
rede

Ucaf Apaco Fetraf-Sul Chapecó Outros Sabor Colonial 30


Orgãos financiadores Seara movimentos
Prefeituras Quilombo sociais ligados a
Outras ONG’s (Terra Nova) Coronel Freitas agricultura
Unoesc, CCA/UFSC Ipumirim familiar
Rede Ecovida ...

Instituto Saga Amosc/FDRI Epagri Outras Castália 4


Unoesc/Unochapecó Pinhalzinho organizações
Cidasc Quilombo públicas e o
Prefeituras São Carlos conhecimento
Senai técnico
Sebrae

Cooperativa Central Movimento dos Comissão Pastoral da Terra São Miguel d’oeste, Organização do Terra Viva 6
Oeste de Reforma Sem Terra INCRA Dionísio Cerqueira, MST, Crédito do
Agrária (CooperOeste) Movimento dos Pequenos Abelardo Luz, Procera, Pronaf, ...
Agricultores (MPA) Anchieta ...
Ministério do Desenvolvimento
Agrário

Fonte: Mior 2003.


13

A trajetória tecnológica da agroindústria familiar rural reside sobre sua capacidade de


utilização de um saber fazer incorporado na cultura regional. As características socialmente
valorizadas pelo consumidor regional são as ligadas as dimensões de qualidade diferenciada
da produção da agroindústria familiar comparada a agroindústria convencional. Desta maneira
os produtos da agroindústria familiar podem se beneficiar pela sua imagem de produção
artesanal, colonial e/ou agroecológica.
A emergência de um conjunto de atividades de agregação de valor pautadas na
agroindustrialização se constitui numa condição fundamental para a concretização de novas
estratégias de organização do produtor nas respectivas cadeias de valor. Assim, agricultores
passam a vivenciar novos relacionamentos com outros agentes da cadeia produtiva, quais
sejam fornecedores de insumos, processadores e distribuidores de alimentos e consumidores.
É neste processo que se constroem novas redes sociais que poderão se constituir nos pilares
para a consolidação de redes de aprendizagem e inovação. Estas por sua vez são os pilares
para a orquestração, nas palavras de Murdoch, de processos de desenvolvimento rural em
bases territoriais.
O surgimento desta miríade de formas de agroindustrialização evidencia a existência
de um tipo especial de capital social que, aliado ao capital humano (competências
acumuladas), ao capital natural e, em menor grau, ao capital econômico, está respondendo à
crise ambiental e socioeconômica existente, ao mesmo tempo em que reafirma sua capacidade
de iniciativa. Esta situação corrobora com a idéia de uma evolução rumo à constituição de
redes horizontais de desenvolvimento rural.
Uma análise da agroindústria rural evidencia, de uma maneira geral, a existência de
trajetórias singulares de evolução diferente da percorrida pela grande agroindústria
convencional. Assim, a forma de produção da matéria-prima a ser processada (própria, local,
natural e/ou ecológica), os insumos utilizados (naturais e/ou químicos), o tipo de produto e os
processos de fabricação (colonial/artesanal), assim como o tipo de relacionamento (relações
de confiança e de reciprocidade) existente entre os vários atores presentes ao longo da cadeia
(rede) de produção e, especificamente, a relação direta entre produtor e o consumidor são
algumas características que conformam, em maior ou menor grau, esta singularidade quando
comparada com a agroindústria convencional. Este conjunto de características está
diferencialmente presente nos diversos produtos produzidos pela agroindústria familiar (ver
quadro 3).
Um dos aspectos em que se assenta a construção da singularidade é a possibilidade de
incorporação do atributo “colonial” aos alimentos processados e/ou industrializados pela
agroindústria familiar. O atributo colonial vem de algum tempo chamando a atenção do
consumidor como um “selo” de qualidade, o que foi evidenciado inclusive numa pesquisa
realizada nas cinco das maiores cidades de Santa Catarina, como o nome que mais
representaria o produto das pequenas agroindústrias rurais (OLIVEIRA et al, 2000).
Após apresentação e análise geral das potencialidades da agroindústria familiar é
possível evidenciar que a mesma sinaliza para maior grau de sustentabilidade no
desenvolvimento territorial já que favorece a diversificação das atividades produtivas
agrícolas e não agrícolas, utiliza matérias primas e recursos locais, prioriza a transição para
sistemas agroecológicos e empodera os atores sociais e institucionais.
14

Quadro 3. Características das agroindústrias familiares de suínos, leite e cana-de-açúcar


no Oeste catarinense.
Produto Suínos (Salame) Leite (Queijo) Cana-de-açúcar
(melado, açúcar)

Característica
Origem e forma Própria, quase que Mista – própria e Própria, quase que
predominante de obtenção da exclusivamente também adquirida de exclusivamente.
matéria-prima vizinhos
Nível de conversão para Baixo Médio Alto
agroecologia ou produção
orgânica
Origem dos insumos e/ou Industrial e colonial Mais colonial Somente
aditivos utilizados transformação da
matéria prima
“Know how” no processo de Artesanal e industrial Artesanal e industrial Artesanal
fabricação do produto
Aspectos de qualidade A matéria-prima e ao A matéria-prima e a Aos aspectos
associada padrão de produção características colonial e natural
(industrial e coloniais no método da matéria-prima e
artesanal) de produção do do método de
queijo produção.
Especificidade com relação Pequena para média Média para grande Grande
agroindústria convencional

Fonte: Mior, 2005


Contudo, a região Oeste catarinense não se constitui num território hegemonicamente
configurado pelas redes horizontais de desenvolvimento rural nos termos propostos por
Murdoch. Como dito acima o território Oestino apresenta-se num espaço emblemático para o
estudo das dinâmicas dos sistemas produtivos locais já que co-existem redes verticais e
horizontais. Como se dá este relacionamento e as respectivas influências das redes verticais
sobre o território são objeto de analise a seguir.

3. Agricultores familiares, agroindústrias e desenvolvimento territorial


Focalizamos na trama das redes como uma tentativa de explicar o encontro das redes
verticais e horizontais de desenvolvimento rural através da identificação dos pontos de
encontro (nós) da agroindústria convencional com a familiar, no processo continuado de
expansão e de estabilização das redes.
Para Marsden, Parrot (2000), a existência destes dois tipos de redes pode ser vista
como competição entre duas diferentes formas de governança, qual seja, a da lógica industrial
e a ecológica. Tal competição poderia ser analisada em termos de produtos (orgânico ou
regional versus convencional) ou de forma alternativa, em torno de diferentes modos de
organização dentro das cadeias produtivas (governança). Os dois modos de organização
interna das cadeias produtivas (redes) são construídos em torno de diferentes noções de
qualidade, levando à emergência da competição pelo uso do termo ‘qualidade’. Em cada um
deste dois tipos de cadeias produtivas podemos observar o desenvolvimento de diferentes
combinações entre ‘natureza’, ‘região’, ‘qualidade’ e ‘valor’ os quais, por sua vez,
estabelecem o contexto para a regulação pública e privada das diferentes cadeias de produção.
15

Contudo, este dualismo no que tange a disputa em termos de qualidade deve ser visto
com cuidado quando olhamos para o contexto da região Oeste. Por exemplo, a análise da
agroindústria convencional evidencia a transição da mesma na busca de atendimento de
padrões de regulação econômica e ambiental globalmente delimitados. Dada a inserção
globalizada destas empresas, torna-se necessário a adequação aos padrões de qualidade
exigidos pelos mercados externos de carnes e derivados.
Embora as redes verticais (representadas pelas grandes agroindústrias convencionais
como atores mundo), assim como as horizontais (representadas pelos promotores das
agroindústrias familiares) estejam em processo de transformação, é a ação estratégica da
agroindústria convencional que acaba influenciando no padrão de desenvolvimento da
agroindústria familiar. Com efeito, as redes verticais de desenvolvimento rural estão mais
estabilizadas, embora em permanente transformação, enquanto que as redes horizontais estão
em processo de construção. Considerando que uma das propriedades das redes é a
possibilidade de agir a distância, é importante assinalar que, por exemplo, as redes verticais
podem estar abrindo espaço de mercado para a expansão e fortalecimento da agroindústria
familiar ou, pelo contrário, disputando espaços e recursos do território.
Outra dimensão importante para o desenvolvimento da agroindústria familiar rural é a
possível influência do entorno da agroindústria convencional. Neste pode identificar o
desenvolvimento de um conjunto de segmentos produtores do ramo metal-mecãnico e de
prestação de serviço para a indústria de carnes. Evidência da importância deste entorno para a
região é a realização desde 1996 da Feira Internacional de Processamento e Industrialização
da Carne (Mercoagro).
O desenvolvimento deste conjunto de segmentos industriais e de serviços tem
influencia marcante sobre o desenvolvimento da agroindústria familiar e tem sido apontado
como um dos fatores condicionante para o reposicionamento da agroindústria familiar na
região Oeste catarinense (Mior, 2003). Havia nos anos 90 toda uma preocupação com a
migração das empresas Sadia, Perdigão e Seara para a região Centro Oeste e a possível saída
da região de origem (Testa et al, 1996).
Contudo, os contornos da influência do desenvolvimento destes segmentos sobre a
agroindústria familiar rural não estão tão evidentes. Ao apoiarem também o surgimento deste
segmento agroindustrial os agentes do cluster máquinas, equipamentos e serviços podem
influenciar na perda das características artesanais e coloniais da produção da agroindústria
familiar. Este aspecto pode ser visto em maior intensidade na agroindústria familiar de suínos
e menos na de leite e cana de açúcar conforme quadro 3.
Da perspectiva de mercado pode-se ver a Sadia que, num processo de
descomoditização, entra no mercado do frango caipira, iniciando a produção e
industrialização na região de Dois Vizinhos (PR). Como sabemos a produção de frango
caipira é uma atividade que vem se constituindo numa alternativa para a agroindústria de base
familiar.
A Sadia passa a adquirir queijo de uma empresa de médio porte da região, que, por sua
vez, cresce e incorpora aos pequenos produtores familiares de leite. Aliás, a distribuição do
queijo e a parceria das diversas agroindústrias com as pizzarias transforma-se num ponto de
passagem das diversas redes na região. Não somente laticínios de médio porte tem esse
mercado como foco, as agroindústrias familiares da região idem. A empresa Laticínios
Cedrense, de fornecedora de queijo (commoditty) para a Sadia, firma uma “joint venture” com
16

empresa italiana10 para produção de uma especialidade, o queijo Grana Padano. que incorpora
algumas características de qualidade superior. Ao mesmo tempo, a empresa Cedrense faz uma
parceria com a Cooperativa Regional de Reforma Agrária do Oeste Catarinense
(COOPEROESTE) que passa a fornecer serviço industrial para a produção de leite
esterilizado (UTH) 11.
Da mesma forma que faz parceria com o laticínio Cedrense, em 2002 a rede da
CooperOeste, também e se associa com a Conaprole12, visando ampliar o escopo de sua rede.
A CooperOeste, que produz e comercializa o leite sob a marca Terra Viva, passa a processar
leite com a Marca Conaprole. A entrada no leite longa vida passa a orientar toda a estratégia
de mercado, com lógica da ampliação da escala com vistas à diminuição dos custos de
produção, como forma de se manter no mercado.
Já da perspectiva da Apaco surge a Unidade Central das Agroindústrias Associativas
do Oeste Catarinense (UCAF)13 com o intuito de apoiar o processo de agregação de valor de
parte dos agricultores familiares. Pelo lado da UCAF, uma tentativa de ampliar
consideravelmente o alcance de sua rede é entrar na rede internacional do comércio justo
através do suco de laranja orgânico.
Está claro, contudo, que a geografia destas redes, conforme Whatmore e Thorne
(1997) enfatizam, é muito diferente da existente nas redes dominadas pelas grandes
cooperações alimentares internacionais. Analisando o caso do café, os autores assinalam que
no Comércio Justo a rede é mediada por outro tipo de conectividade. A razão de ser do
Comércio Justo do Café e da agência social repousa na mobilização de um modo de
conectividade diferente daquele do custo mínimo e do auto-interesse individual presente na
teoria econômica neoclássica.
Um exemplo de complementaridade entre as redes pode ser visto no caso da
agroindústria familiar de cana-de-açúcar que produz doce à base de melado, utilizado como
sobremesa dos trabalhadores na unidade industrial da Sadia, de Chapecó. Embora ocorrendo
entre agroindústrias de distintas cadeias, o exemplo é importante porque mostra uma co-
existência de distintos padrões de produção e consumo de alimentos.
Além deste tipo de encontro, as redes vêm tendo, de forma mais literal, uma interface
em alguns eventos gastronômicos, como na Festa Italiana do município de Concórdia. A
utilização de produtos já não se restringe mais aos domínios da Sadia. Verifica-se também que
vem crescendo a utilização de produtos oriundos da agroindústria familiar como o codeguin

10
A empresa Indústria Gran Padania do Brasil SA. foi implantada aproveitando uma unidade da Cedrense em
Guaraciaba na região Extremo Oeste de Santa Catarina.
11
A CooperOeste é uma Cooperativa resultante do processo organizativo do MST no campo da produção.
Constituiu uma grande unidade industrial visando a produção de leite esterilizado utilizando a Marca Coletiva
Terra Viva.
12
Cooperativa Uruguaia de produtores de leite com forte atuação na região Sul do Brasil.
13
A Ucaf é uma entidade civil sem fins lucrativos organizada em forma de associação, criada em 16 de
novembro de 1999. Pode ser vista como um desdobramento da trajetória histórica de organização da Apaco em
que a participação de outros órgãos, como a Epagri, o Movimento Sindical dos Trabalhadores Rurais através da
FETRAF-SUL, o Programa Pronaf Agroindústria e o programa Desenvolver, foram fundamentais. Tem como
finalidade apoiar os agricultores familiares organizados em grupos e proprietários de pequenas agroindústrias.
Tem como objetivos unir forças para a prestação de serviços ligados às áreas de produção, gestão, controle de
qualidade, marketing e comercialização, buscando oferecer um produto com qualidade, procedência e
legalização (UCAF, 2001).
17

(produto derivado de carne suína), o queijo, a ricota e o vinho colonial, que passam a dividir
espaço com o salame e outros produtos da agroindústria convencional.
A análise realizada até aqui evidencia a existência de padrões heterogêneos de
organização das relações agricultura-agroindústria-território. Nas redes verticais existe uma
visível presença de agentes externos à região (conglomerados agroindustriais e a grande
distribuição nacional e internacional) imprimindo uma lógica de organização tipicamente
industrial nos termos da teoria das convenções de qualidade. Esta lógica de organização teria
sua origem no setor da grande distribuição alimentar nacional e, principalmente,
internacional, logo, externa ao território regional. Assim, agindo a distância, as redes
verticais, através da ação de seu ator-mundo (a grande agroindústria convencional) buscam
fixar identidades (produtor empresarial), método de produção (aviários automatizados,
climatizados), forma de organização da integração (contrato de parceria na suinocultura) e
utilização de tecnologia padronizada internacionalmente (Análise de Perigos e Pontos Críticos
de Controle – APPCC, por exemplo)14 com o intuito de alcançar a estabilização continuada
das respectivas redes.
A situação verificada na região permite afirmar que existe um padrão bastante
heterogêneo de produção da matéria-prima e sua transformação industrial nas cadeias
alimentares curtas mais local/colonial/artesanal mas não nitidamente ecológico. As
experiências rumo à construção de uma convenção de qualidade ecológica, nos moldes
propostos por Murdoch et al (2000), ainda estão em processo de constituição, como é o caso
da Rede Ucaf que está promovendo a produção agroecológica.
Uma dimensão em que agroindústria convencional e a artesanal se distanciam é na
forma de relacionamento com o território. Enquanto a primeira se autonomiza ou se
desenraiza dos espaços regionais, tendo em vista sua inserção no mercado globalizado, a
última se constitui justamente a partir de sua inserção nas redes sociais do território. A
mobilização das redes de parentesco, de amigos e sociais mais amplas evidencia como a
agricultura familiar, através da re-ativação de vínculos sociais, estabelece estratégias para
constituir mercados para seus produtos de valor agregado. Também a agroindústria familiar
rural tem uma relação mais próxima com os consumidores (feiras livres) e comerciantes
(pequeno varejo).
A influência da agroindústria convencional sobre a artesanal tem sido heterogênea nas
diferentes cadeias produtivas. Influencia distintamente os produtos e suas cadeias, como
vimos nas agroindústrias artesanais de suínos, leite e cana-de-açúcar, tanto na dimensão
tecnológica como na sua regulação.
A continuidade da trajetória da agroindústria familiar e suas redes de desenvolvimento
rural dependerá da capacidade do território em responder ao desafio de manter e aprimorar
esta forma de organização e, ao mesmo tempo, fortalecer a inserção regional em novas
cadeias de valor. Se até o momento isto foi possível com a articulação dos atores,
hegemonicamente do território, há indicações da necessidade de expansão das redes para além
do mercado regional.
Por outro lado eventos recentes como a conquista do status de Estado livre de febre
aftosa sem vacinação por Santa Catarina indica a possibilidade de nova valorização do
território para atuação das agroindústrias convencionais. Novos investimentos na produção e
industrialização de carne suína e de aves são anunciados pela agroindústria convencional.

14
Especialmente o APPCC é uma técnica que busca garantir a segurança, sobretudo sanitária, dos alimentos e
está crescentemente sendo incorporada pelas grandes empresas dentro da lógica industrial de regulação da
qualidade dos alimentos. Este é um dos sistemas exigidos pelos países importadores de carnes da União Européia
18

Uma atuação forte das agroindústrias convencionais na região pode ter igualmente influência
nas estratégias dos agricultores familiares assim como nos atores regionais.
Do ponto de vista ambiental é importante observar que a problemática dos dejetos de
suínos concentra-se em algumas microrregiões do Oeste ainda não teve solução adequada.
Termos de Ajustamento de Conduta têm sido implementados mas sua repercussão ainda está
por ser avaliada.
Outro desdobramento regional está na repercussão da expansão da produção leiteira no
território que começa a interessar a empresas multinacionais de laticínios. Este interesse
sinaliza também para a transformação da região Oeste catarinense num território produtor de
leite no sistema convencional de produção. Espera-se repercussão sobre a trajetória da
produção familiar de leite. Contudo, espera-se uma maior influência sobre a agroindústria
familiar de leite e sua estratégia tecnológica e organizacional de agregação de valor a partir de
características artesanais e coloniais de produção.

4. Considerações finais
A utilização do referencial das redes nos permitiu iluminar os distintos processos
constituintes dos sistemas agroalimentares localizados numa região predominantemente
agrícola. Estes diferentes padrões de articulação - agricultura, agroindústria e território –
refletem um processo heterogêneo de transição onde co-existem padrões estandartizados
internacionalmente de organização da produção e consumo alimentar, assim como padrões
diferenciados associados à tradição e culturas alimentares locais. Assiste-se a um processo de
co-evolução, com predominância, embora variável por cadeia, das redes verticais.
Mais recentemente pode-se evidenciar movimentos de reposicionamento da
agroindústria convencional, na direção de novos investimentos na região, o que pode indicar
novas pressões por maior intensificação dos recursos naturais e sociais do território. O sistema
agroalimentar regional estará sofrendo novas rodadas de desenvolvimento desigual o que
implicará em novos desafios para a construção de sustentabilidade territorial. Portanto, a co-
existência destas distintas redes, estará condicionada ao desenvolvimento e consolidação da
agroindústria familiar e suas redes horizontais de desenvolvimento rural.
Seguindo Courlet 1993, somos forçados a admitir que a eficácia dos sistemas
industriais localizados, para não dizer sua existência, não de deve unicamente a virtudes
endógenas, mas deve ser ligada ao tipo de sistema político-econômico nacional e às políticas
públicas que daí decorrem. Há nesta perspectiva um grande desafio para as políticas públicas
de desenvolvimento territorial sustentável. A partir do caso do Oeste catarinense pode-se
inferir que sua sustentabilidade dependerá da continuidade e fortalecimento das redes
horizontais assim como de uma maior presença de políticas públicas de apoio a estes novos
arranjos entre a agricultura familiar, os processos de agregação de valor e o território.
A análise e a promoção do desenvolvimento territorial, sobretudo em regiões rurais,
continuam a desafiar os pesquisadores assim como os seus promotores - agencias públicas de
desenvolvimento e agentes sociais e institucionais locais e regionais. A partir do caso do
Oeste catarinense pode-se argüir que é necessário prestar atenção aos processos locais de
criação e expansão das redes sociais que estão na base da construção de estratégias
alternativas de inserção sócio-econômica e, potencialmente, de sustentabilidade no
desenvolvimento.
19

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