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PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL

Disciplina HIP 8077 Cultura e Trabalho


Semestre: 2014.2
Profas. Adelaide Gonçalves e Irenísia Oliveira
Discente: Francisco Helton de Araujo O. Filho

As formas de resistência escrava na historiografia piauiense. Perspectivas recentes.

Novos temas e abordagens sobre a experiência de homens e mulheres


escravizados no Brasil vêm sendo ampliado e aprofundado pela historiografia da
escravidão a pelo menos três décadas, quando surgiram os estudos que questionavam o
mito de uma sociedade consensual que tendia a omitir os conflitos e tensões entre
senhores e escravos1. Nesse sentido, buscamos realizar uma breve análise das
perspectivas recentes sobre a História Social da escravidão negra no Piauí, apontando
para a necessidade de observar as ações dos sujeitos escravizados que mediaram o
universo da cultura e do mundo do trabalho, analisando as diversas formas de resistências
cotidianas dos cativos a partir dos novos enfoques sobre a resistência escrava no Brasil2,
na medida em que o trabalhador escravizado não só resistia através de casos limites como
fugas, assassinatos dos senhores ou suicídio, mas negociavam, forçando os limites da
escravidão em busca de seus próprios interesses, melhores condições de vida, constituição
de laços e redes de parentescos e na luta pela liberdade3.
As resistências abertas poderiam significar ganhos temporários nas relações de
produção, e ainda ficar a lembrança de coragem e luta dos cativos, mas, por outro lado,
eram ganhos incertos, pois poderia haver maior repressão e aumento dos castigos como
forma de desmoralizar essas ações. Por esse motivo, a prosaica, mas constante luta entre
o cativo e os seus algozes, as formas corriqueiras de resistência e as armas ordinárias
usadas pelos cativos é o que procuramos enfatizar como outra forma de compreender a
resistência negra no Piauí escravista.

1
SCHWARTZ, Stuart B. A historiografia recente da escravidão brasileira. In: Escravos, roceiros e rebeldes.
Trad. Jussara Simões. Bauru, SP: EDUSC, 2001, pp. 21-88.
2
CARVALHO, Marcus J. M. de. Resistência escrava no Brasil: raízes e roteiros de algumas discussões
recentes e GOMES, Flávio dos Santos. Experiências negras e Brasil escravista: questões e debates. In:
ALADAA - Associação Latino-Americana de Estudos Africanos e Asiáticos X Congresso Internacional. Rio
de Janeiro, 2000. Disponível em: <biblioteca.clacso.edu.ar/ar/libros/aladaa> Acesso em: 20-05-2014.
3
MACHADO, Maria Helena P. T. Em torno da autonomia escrava: uma nova direção para a História
Social da escravidão. Rev. Bras. de História. São Paulo. V. 8. N. 16. pp. 143-160, 1988.
Na reconstituição das experiências dos trabalhadores escravizados no cotidiano de
exploração e violência, é importante está atento ao que se pode coligir das fontes, e quais
aquelas que possibilitam o pesquisador perceber essas tramas. Muitas fontes são ricas em
informações sobre o cotidiano dos trabalhadores, ao qual cada vez mais contribuem para
ampliar o horizonte da pesquisa histórica, o que vem mostrando aspectos de uma cultura
elaborada pelos próprios trabalhadores escravizados. Apesar da dificuldade em localizar
as fontes do século XIX e XVIII no Piauí, é preciso maior esforço dos pesquisadores em
explorar arquivos paroquiais e cartoriais locais, pois “qualquer indicio que revele a
capacidade dos escravos de conquistar espaços ou de ampliá-los segundo seus próprios
interesses, deve ser valorizado”4.
Muitos estudos, tanto a nível nacional quanto local, elegeram uma visão idealizada
do sertão e das relações sociais que ali se formaram. Terra mistificada de vaqueiros,
“entregues a atividade rude do pastoreio, criaram-se forte e destemidos, dando origem a
uma sociedade livre, movediça e varonil”5. Essa visão escamoteou as relações de
dominação e disciplinamento no cotidiano das fazendas6, assim como as resistências e as
sociabilidades criadas pelos cativos e subordinados. O sertão seria então uma terra quase
desabitada, com extensos campos onde o gado pastava livremente, ao arredio do vaqueiro.
Nas leituras sobre a historiografia da escravidão no Piauí, observamos que as
análises discutem a escravidão nas fazendas de gado, já que a pecuária se constituiu como
base econômica, cuja abordagem gira em torno das formas de manutenção do sistema
escravista, o perfil dos escravos, as formas de resistências abertas e as relações entre
senhores e escravos7.
Temos as análises da historiadora Miridan Falci (1995), que aborda o trabalho
livre e o trabalho escravo, caracterizando os tipos de trabalhos, o sexo, a idade, e as
variados ofícios e ocupações, utilizando estudos demográficos para caracterizar os cativos
do Piauí. A autora faz uma caracterização da estrutura demográfica da população escrava
no Piauí, a partir dos censos, registros de batismos e algumas listas de classificação. Tânya

4
SILVA, Eduardo e REIS, João José. Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São
Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 15.
5
CASTELO BRANCO, Renato. O Piauí: A Terra, O Homem, O Meio. 2ª ed. São Paulo: Quatro Artes –
Série Brasil. 1970, p.68.
6
Temos hoje vários estudos que mostram o uso sistemático e a diversidade de ocupações do trabalhador
escravizado na pecuária. Cf. LIMA, Solimar O. O Vaqueiro Escravizado na Fazenda Pastoril Piauiense.
História: debates e tendências. V. 7, n.2, jul/dez. 2007, p. 138-154, publ. No 2° sem. 2008.
7
LIMA, Solimar Oliveira. Braço Forte. Trabalho escravo nas Fazendas da Nação do Piauí – (1822 – 1871).
Passo Fundo: UPF, 2005; FALCI, Miridan B. K. Escravos do Sertão: Demografia, Trabalho e Relações
Sociais. Teresina: FCMC, 1995; BRANDÂO, Tanya Maria Pires. O Escravo na Formação social do Piauí.
Teresina: EDUFPI, 1999.
Brandão (1999), por outro lado, aborda a escravidão com uma perspectiva mais social do
que econômica. Em seu trabalho, a autora define que o criatório não necessitava de muitos
braços, resultando em pouca mão-de-obra, onde os trabalhos mais pesados ficavam por
conta dos escravos. A autora afirma ainda que nas fazendas públicas o tratamento dos
escravos era mais “brando” do que nas propriedades privadas. Brandão não nega a
violência, no entanto, aponta que os castigos eram formas disciplinadoras dos escravos8.
Esses dois estudos, exploraram elementos importantes que possibilitam novos
olhares sobre a escravidão no Piauí. As críticas feitas a eles se remetem ao fato de que
tende a reforçarem algumas teses clássicas, como a mão de obra negra ter sido usada de
forma secundária nas fazendas de gados. Em Tânia Brandão o trabalho escravo estava
ligado a tarefas secundárias, onde no criatório ficavam os trabalhadores livres, e a posse
de cativos representava muito mais demonstração de status, havendo um tratamento
distinto entre as fazendas publicas e privadas. Em Miridan Falci seria a relação escravista
baseadas no compadrio (consenso e contratualidade), pela proximidade entre as classes
dos senhores e escravos, que tende a reforçar a ideia de um sistema ameno.
Já Solimar Lima (2005) questiona a visão paternalista e aponta para uma frequente
e violenta repressão nas fazendas publicas. Explora temas relacionado à constituição da
força de trabalho, a mão de obra e ocupações escrava, processo produtivo e as formas de
controle e resistência escrava nas fazendas da nação no Piauí. O historiador discute as
formas de manutenção do sistema escravista, como o sistema de “quarta”, e a reação dos
cativos, analisando a subjetividade dos escravos, as condições de vida nas fazendas
publicas e a exploração do trabalho do escravizado. Sistema que gerou tensões e conflitos
pela exigência de submissão e violência. Lima revelou ainda através de queixas e
denúncias de escravos as formas de limitar a exploração dos cativos e as reações diretas,
como assassinatos e fugas. O historiador evidencia uma série de atividades desenvolvidas
não só nas fazendas, mas no recinto das vilas e cidades, demonstrando que essas
atividades realizadas eram direcionadas ao mercado. Esses estudos que se diferenciam
em suas respectivas e abordagens trouxeram várias possibilidades de temas que podem
ainda ser explorados9.
A partir dos estudos feitos por Solimar Lima sobre o sistema de quarta, fica claro
que existia uma rede de relações entre os cativos e livres ou “agregados”, implícita na

8
BRANDÂO, Tanya Maria Pires. O Escravo na Formação social do Piauí. Teresina: EDUFPI, 1999.
9
LIMA, Solimar Oliveira. Braço Forte. Trabalho escravo nas Fazendas da Nação do Piauí – (1822 –
1871). Passo Fundo: UPF, 2005.
documentação oficial. Lima afirma, que os bens dos trabalhadores mortos, por exemplo,
apesar de continuar nas mãos dos administradores das fazendas, eram reclamados pelos
parentes ou descendentes. O sistema de “quarta” pode ter sido um mero instrumento de
controle e disciplina dos trabalhadores escravizados. No entanto, é bem possível que a
reação dos próprios trabalhadores pelo reconhecimento dos seus direitos tenha tido um
peso no desenrolar dessas questões. Apesar de ser difícil mostrar até que ponto a
resistência cotidiana dos trabalhadores escravizados contribuiu para mudar essa situação,
muito se tem feito para entrever na documentação os sinais de ação e mobilização e
negociação dos cativos em busca de seus próprios interesses. Lima mostra ainda em seu
trabalho, que os “agregados” das fazendas eram moradores indesejados “aos olhos das
autoridades”, por serem “acusados de matar bois da Nação para o consumo, apropriar-se
de cavalos e, sobretudo, de ‘praticarem desordens e estímulos aos escravos’”. Muitos
desses “agregados”, eram libertos que moravam a muito tempo nas fazendas10.
Os cativos estavam em todos os ambientes da vida urbana, nas igrejas, nas casas,
nas ruas, nos becos e travessas, nos morros, nas praças, mesmo diante das proibições dos
códigos de posturas e as estratégias policiais, que tentavam disciplinar a presença negra
em alguns espaços do ambiente urbano sem a devida autorização. Uma rede de práticas
que foram mapeadas pela historiografia da escravidão urbana no Brasil. No trabalho como
vendedores, escravos de ganho que realizavam algum tipo de tarefa diária, escravos de
aluguel, manipulando a pouca liberdade que tinha nas ruas, no contato com outros
escravizados e pessoas livres 11.
As tarefas domésticas de cozinheiras, lavadeiras, amas e demais empregados e
outras ocupações praticadas nos centros urbanos como sapateiros, alfaiates, carpinteiros,
pedreiros, ferreiros, eram realizadas tanto por escravos quanto por libertos das camadas
marginalizadas. De acordo com esse entendimento, a vida dos trabalhadores escravos na
cidade era mais “frouxa”, na medida em que o controle do senhor sobre o escravo nos
centros urbanos era mais flexível. No entanto, isso não significava que o escravizado não
sofria violência, perseguição e chantagens. Engana-se aquele que acredita que o recinto
das vilas e cidades era um ambiente benigno e menos atroz. Em O Feitor Ausente (1988)
de Leila Algranti revela que o ponto amplamente comentado pelos estudiosos da

10
LIMA, Solimar Oliveira. Braço Forte. Trabalho escravo nas Fazendas da Nação do Piauí – (1822 –
1871). Passo Fundo: UPF, 2005, p 122-123.
11
ALGRANTI, Leila M. O Feitor Ausente: estudos sobre a escravidão urbana no Rio de Janeiro - 1808-
1822. Editora Vozes: Petropolis, 1988.
escravidão nos centros urbanos, é a questão “de maior liberdade e flexibilidade”12 dos
escravos nesses centros.
Os estudos do historiador Mairton Celestino da Silva13 foram os primeiros a
abordar a escravidão dentro de um centro urbano em desenvolvimento no Piauí, a
transferência da capital Teresina, no século XIX. Silva (2005) analisa primeiro, em
trabalho monográfico, o cotidiano dos escravos e libertos em Teresina, problematizando
a transferência de escravos para o espaço urbano, onde o trabalho escravo foi fator
importante para a construção da nova capital e determinante das relações de trabalho que
se constituiu ao longo do período, enfrentando a violência e a dominação senhorial através
dos mecanismos de dominação como as leis e as regras expressas, por exemplo, pelos
códigos de posturas. Em outro trabalho, o historiador aponta para aspectos culturais dos
negros através dos “mecanismos de sobrevivência e de sociabilidades”14, frente a uma
política de controle social que desenvolveu um aparato policial que não permitiam as
“manifestações da identidade negra” nas ruas da nova capital.
Outra contribuição inovadora sobre a escravidão negra é da historiadora Francisca
Raquel (2009), que discute em seu trabalho de dissertação o cotidiano, a resistência e as
formas de controle dos escravos no Piauí, na segunda metade do século XIX, priorizando
sua análise sobre os escravos de propriedade privada. A historiadora identifica o perfil
dos escravos no Piauí, as condições de trabalho e as atividades desenvolvidas, assim como
as formas de resistência (fugas, homicídios, roubos e suicídios de escravos), e as formas
de controle dos escravos, representada pelas instituições do Estado, como a polícia e a
legislação, que elaboraram estratégias com o objetivo de manter o trabalhador escravo
submisso ao sistema escravista e ao processo produtivo 15.

12
ALGRANTI, Leila M. O Feitor Ausente: estudos sobre a escravidão urbana no Rio de Janeiro – 1808-
1822. Editora Vozes: Petropolis, 1988, p.47.
13
SILVA, Mairton Celestino da. Escravos e libertos: uma história da escravidão em Teresina – 1871 -1888.
2005. 132f. Monografia (História) – Centro de Ciencias Humanas e Letras – Universidade Federal do Piauí,
Teresina, 2005. ________. Batuque na rua dos negros: cultura e polícia na Teresina da segunda metade do
século XIX. 2008. 137 f. Dissertação (Mestrado em História) – Centro de Ciências Humanas Universidade
Federal da Bahia, Salvador, 2008.
14
SILVA, Mairton Celestino da. Batuque na rua dos negros: cultura e polícia na Teresina da segunda
metade do século XIX. 2008. 137 f. Dissertação (Mestrado em História) – Centro de Ciências Humanas
Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2008.
15
COSTA, Francisca Raquel da. Escravidão e Conflitos: cotidiano, resistências e controle de escravos no
Piauí na segunda metade do século XIX. 2009. 152f. Dissertação (Mestrado em História) – Centro de
Ciências Humanas e Letras Universidade Federal do Piauí, Teresina, 2009.
Não existem estudos específicos sobre o tráfico de escravos para o Piauí. Temos
uma breve discussão feita pelas historiadoras Miridan Falci 16 e Tânia Brandão17, em
relação à chegada dos cativos. Miridan Falci sugere três eixos de importação de escravos
para a província do Piauí, propiciado pela localização geográfica intermediária ou de
transição entre o Maranhão, Pernambuco e Bahia. O primeiro eixo seria de leste a oeste,
através de uma rede de comerciantes que saiam da Bahia e Pernambuco para o sul do
Maranhão, produtor de algodão. O segundo eixo se daria no sentido contrário, saindo de
São Luís e atravessando o Piauí para outras províncias. O terceiro eixo seria ao norte, no
delta do Parnaíba, “onde a presença de mais de 3.000 ilhas encorajava o contrabando e o
comercio ilegal de escravos”18. Tânia Brandão mostra que existia uma grande variedade
étnica e forte presença de africanos em Campo Maior-PI, no final do século XVIII, o que
evidenciava certa demanda de trabalhadores para as fazendas de gado da região,
beneficiadas pelo tráfico. Por outro lado, Falci afirma que nas primeiras décadas do século
XIX, o percentual de trabalhadores africanos no Piauí passa a ser baixo. A historiadora
revela alguns dados a partir dos inventários das cidades de Jerumenha e Oeiras ao sul do
Piauí e Parnaíba, ao norte, indicando a presença de 13 a 17% de africanos, com a média
de 15,48% para a Província. Com esse resultado, a pesquisadora conclui que houve uma
regressão do número de africanos na província, dando inicio a um processo de
crescimento endógeno. A explicação para isso, segundo Falci, seria um processo de
decadência das culturas de algodão e fumo, e um possível empobrecimento dos
fazendeiros, resultando que “a população africana não mais será renovada”19.
Após 1850, em decorrência do tráfico interprovincial para suprir as demandas por
mão de obra das regiões de expansão dos cafezais, os cativos das regiões de pequenos e
médios planteis, principalmente do Nordeste, vivenciaram uma nova experiência
enquanto possibilidade de comercialização. O tráfico interno adquiriu dimensão nacional
e provocou um desequilíbrio demográfico e um “processo de concentração social da
propriedade cativa” nas áreas cafeeiras. Hebe Mattos faz uma brilhante análise dos
escravos que tiveram sua vida cotidiana violentamente alterada pelo tráfico

16
FALCI, Miridan Britto Knox. Escravos do sertão: demografia, trabalho e relações sociais. Piauí. 1826-
1888. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1995,
17
BRANDÂO, Tanya Maria Pires. O escravo na formação social do Piauí: perspectivas
do século XVIII. Teresina: Editora da Universidade Federal do Piauí,1999.
18
FALCI, Miridan Britto Knox. Escravos do sertão: demografia, trabalho e relações sociais. Piauí. 1826-
1888. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1995, p. 38.
19
FALCI, Miridan Britto Knox. Escravos do sertão: demografia, trabalho e relações sociais. Piauí. 1826-
1888. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1995, p. 45.
interprovincial, ao analisar processos envolvendo esses cativos crioulos originados de
pequenos e médios planteis do Nordeste. A autora pôde identificar relações pessoais e
familiares constituídas por esses cativos nos processos analisados, que poderiam servir
como possibilidades de restringir a decisão de serem vendidos pelos senhores. Mas após
1850, todos os cativos se viram com a constante possibilidade de ameaça de
desenraizamento20.
Apesar de não haver um estudo especifico sobre o impacto do tráfico
interprovincial na experiência dos cativos no Piauí, temos indícios de que muitos escravos
passaram por esse drama de terem sidos separados de suas famílias. Mariana, cabra, de
apenas 5 anos de idade e seu irmão José, também cabra, 7 anos de idade, filhos de Maria,
mulata, 41 anos de idade, cozinheira21, moradores no povoado Peripery, freguesia de
Piracuruca, foram exportados para fora da Província pela sua senhora d. Maria Victoria,
em 20 de outubro 1877. Certamente Mariana e José tiveram como destino alguma fazenda
de café no Centro-Sul, não tendo a mesma sorte dos seus outros dois irmãos Francisca,
cunhã, 12 anos, que já trabalhava como costureira e Felisbella, cabra, de 8 anos de idade,
que talvez só não foram vendidos por já exercerem alguma atividade produtiva. Desde
tenra idade essas crianças escravizadas começavam a trabalhar. Além de Mariana e José,
foram exportados, Luísa, em 23 de janeiro de 1878 pelo seu senhor Raimundo Freitas
Silva e Sergio, exportado em 26 de janeiro de 1878 pelo seu senhor José Luis da Silva
Medeiros, todos averbados na coletoria da vila de Peripery22.
Mesmo nesses momentos de tensões, o que emerge desse contexto pós 1850 -
“fazendas antigas e novas, a comunidade escrava e o tráfico interno”, são “vida e cores
que nenhum cálculo demográfico pode substituir”, e que é preciso ainda pintar23. É
evidente que os cativos teceram relações conjugais e estabeleceram laços pessoais que
constituíam um certo espaço de autonomia, inclusive com a possibilidade de escravos se
relacionarem com parceiros de outro senhor. Para a região sudeste, de acordo com R.
Slenes “os escravos formavam famílias dentro do cativeiro, mas se empenhavam em
estabelecer elos horizontais (por exemplo de compadrio) junto a livres e libertos pobres,
como também laços verticais de dependência com a classe senhorial e seus clientes”. Se

20
MATTOS, Hebe Maria. Das Cores do Silêncio: os significados da liberdade no sudeste escravista, Brasil
século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998, p. 111-112.
21
APEPI. Série: Municipio. Subsérie: Piracuruca – Escravos. Caixa: 417
22
APEPI. Série: Município. Subsérie: Piripiri. Caixa: 170
23
MATTOS, Hebe Maria. Das Cores do Silêncio: os significados da liberdade no sudeste escravista, Brasil
século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998, p.120.
empenhavam em construir roças de seus donos e uma economia proto camponesa dentro
da escravidão com a esperança de adquirir mais autonomia e comprar a alforria para
membros familiares. Isso teria provocado um racha entre escravos africanos e crioulos ou
ladinos. Sistema de incentivos por parte dos senhores, tornando o cativo mais vulnerável,
com ameaça constante e uso da força poderia ter servido como uma forma de controle.
Para Slenes, esse sistema também pode induzir os cativos “a uma aquiescência externa”24.
O esforço dos escravos de se aproximarem da liberdade demandava um tempo longo e
nem sempre com garantia de sucesso. O autor argumenta que por isso, os cativos não
tenham quebrado os laços com seus pares e com suas raízes africanas, mas articulado a
lógica cultural de matriz africana para elaborar estratégias alternativas.
Outro tema que não foi muito aprofundado na historiografia piauiense e que foi
uma das questões que mais suscitaram debates no Brasil, a partir da segunda metade do
século XIX, em todos os meios públicos ou privados foi predominantemente a questão da
escravidão e da liberdade. Seja na opinião publica através dos jornais, seja nos litígios
travados nas salas dos cartórios ou tribunais dos cantos mais remotos do país, causaram
conflitos e tensões que envolveram os magistrados, escravos e proprietários25.
A partir da década de 1870, a questão da relação entre liberdade e escravidão
ganha um outro sentido. Ao discutir a lei de 1871, coloca-se a questão dos debates
travados desde o final dos anos de 1860 a 1871, e o que esses debates provocaram de
mudanças em relação ao acesso dos cativos à alforria. Os estudos revelam a participação
dos escravizados no processo da conquista da liberdade, as redes de relações construídas
em torno desse processo, na medida em que esses sujeitos conseguiam mobilizar muita
gente em favor de sua causa. Questão delicada para os jurisconsultos e magistrados e para
a sociedade proprietária de escravos, que levaram longos anos de debates, mas sempre
mantendo a cautela e a moderação, num país que velava a escravidão, escondendo-a
vergonhosamente, ao mesmo tempo em que esses conflitos eram travados internamente e
cotidianamente na vida de milhões de cativos, africanos e brasileiros, que para lei, mesmo
tendo “liberdade”, não tinha cidadania.
Muitas das questões jurídicas relacionadas à escravidão foram originadas das
disputas judiciais do foro. Essas questões se tornavam um problema jurídico suscitado

24
SLENES, Robert. A Árvore de Nsanda transplantada. Cultos kongos de aflição e identidade escrava no
Sudeste brasileiro (século XIX). In: Libby, Douglas Cole e Furtado, Junia Ferreira (org.). Trabalho Livre,
trabalho escravo: Brasil e Europa, século XVIII e XIX. São Paulo: Annablume, 2006, p. 278.
25
LARA, Silvia H. Escravidão, Cidadania e História do Trabalho no Brasil. Proj. História. São Paulo.
(16), Fev. 1998.
pelas ações de liberdade movidas por escravos. Esses cativos geralmente moravam junto
aos seus senhores, ocupados os espaços na cozinha e corredores das casas ou terreiros,
para o descanso da lida do trabalho durante o dia, ou em casebres de palhas construídos
ao redor das vilas e cidades. A resistência e a luta pela liberdade escrava eram travadas
cotidianamente, através de conflitos e negociações, como é o caso da escrava Emilia 26,
que teve sua liberdade negada, após anos de esperança, indo sua questão parar nos foros
da justiça. A suposta "liberdade" dos cativos, não quer dizer que tenha se modificado as
formas de opressão, permanecendo numa situação de liberdade precária27.
Consideramos ser preciso situar o controle e a reprodução da ordem escravista no
tempo e no espaço, buscando perceber as experiências dos trabalhadores cativos numa
rede de relações que ultrapassavam a oposição entre senhor e escravo. Perceber as
relações específicas, não só verticalmente, mas horizontalmente, as sociabilidades e laços
de solidariedade entre cativos, forros e livres, dentro de uma sociedade marcadamente
hierarquizada.
É o que vem mostrando cada vez mais uma gama de pesquisas recentes bem
documentadas sobre as relações escravistas numa dimensão mais do cotidiano e sua
articulação com os processos históricos mais amplos. Como indica Marcus Carvalho:
(...) a historiografia dos anos 90 sobre resistência escrava tem
dado enorme importância às transgressões cotidianas, aos
pequenos atos de rebeldia, às fugas temporárias, aos furtos
perpetrados pelos negros, aos derriços e algazarras, às alianças
circunstanciais ou não com outros membros das camadas
subordinadas, às festividades, a luta pela sobrevivência das
tradições afro-brasileiras, as tentativas de preservação de arranjos
familiares e demais grupos de convivência, enfim às expressões
de humanidade dos cativos que sempre se repetiam por mais que
os senhores tentassem reduzi-los à condição de coisas 28.

A resistência do trabalhador cativo tende aparecer num evento extraordinário,

26
Emilia, que tinha 15 anos em 1879, pertencia a D. Theodora Maria do Espírito Santo. Quando Emília
nasceu, foram doadas duas novilhas de gado por Thomé, “que se dizia seu pai”, para constituir pecúlio
logo que completasse os 15 anos, e comprar sua liberdade. Até completar a idade, Emília foi sendo
enganada pela sua dona e seus filhos, que se aproveitaram do gado de Emilia para comer e vender em
proveito próprio, ainda por cima sem libertá-la, mesmo após a morte de D. Theodora, que tinha prometido
a libertá-la quando morresse. APEP. Caixa 170.
27
CHALHOUB, Sidney. Precariedade estrutural: o problema da liberdade no Brasil escravista (século
XIX). In: História Social, n. 19, segundo semestre de 2010.
28
CARVALHO, Marcus J. M. de. Resistência escrava no Brasil: raízes e roteiros de algumas discussões
recentes. In: ALADAA - Associação Latino-Americana de Estudos Africanos e Asiáticos X Congresso
Internacional. Rio de Janeiro, 2000, p. 12. Disponível em: <biblioteca.clacso.edu.ar/ar/libros/aladaa>
acesso: 20-05-2014.
atípico, onde emergem os conflitos, tensões e tornam visíveis as normas, dissolvidas nas
fontes históricas. Por outro lado, as ações aparentemente isoladas dos trabalhadores
escravizados, numa situação que em si mesma não tem um significado político imediato
ao ato, aparecem muitas vezes despolitizadas. As formas de resistências cotidianas são
silenciosas e muitas vezes não aparecem explicitas nas fontes. James Scott (2006)
contribui nesse sentido, ao analisar as resistências cotidianas expressas nas atitudes
políticas diretas ou indireta, desenvolvidas por várias pessoas no mesmo momento, aquilo
que ela chama de discursos ocultos. Scott afirma que “a relação entre as elites e os
subordinados, é mais do que qualquer outra coisa, uma luta material em que ambas as
partes procuram constantemente detectar fragilidades e explorar pequenas vantagens”29.
Nesse sentido, os limites da resistência são estabelecidos pelas possibilidades de conflitos
que se dão no cotidiano, “uma dimensão mais discreta da luta política”, aquilo que Scott
chama de infrapolítica. Essas formas de resistência dependem do contexto, e muitas vezes
se dão de forma silenciosa, mas adquirem um significado importante nos processos de
mudanças30.
A historiografia sobre a escravidão negra no Brasil, desde a década de 1980, já
vem trabalhando nessa perspectiva. João José Reis e Eduardo Silva foram os primeiros a
chamar atenção para essa questão ao afirmarem que no “Brasil, como em outras partes,
os escravos negociaram mais do que lutaram abertamente contra o sistema”31.
Contribuições teórico-metodológicas, neste sentido, ajudam a renovar as
perspectivas sobre o tema, dando um novo olhar para as experiências dos sujeitos que
muitas vezes apareciam inaudíveis, como se não tivessem interesses próprios, uma visão
de mundo.

29
SCOTT, James. A Dominação e a Arte da Resistência: Discursos Ocultos. Trad. Pedro S. Pereira. Letra
Livre: Lisboa, 2013, p. 254.
30
SCOTT, James. Exploração normal, resistência normal. In: Revista Brasileira de Ciência Política, n° 5,
Brasília, jan-jul de 2011, pp. 217-243.
31
SILVA, Eduardo e REIS, João José. Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São
Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 14.
Referências

ALGRANTI, Leila M. O Feitor Ausente: estudos sobre a escravidão urbana no Rio de


Janeiro - 1808-1822. Editora Vozes: Petropolis, 1988.

BRANDÂO, Tanya Maria Pires. O Escravo na Formação social do Piauí. Teresina:


EDUFPI, 1999.

CARVALHO, Marcus J. M. de. Resistência escrava no Brasil: raízes e roteiros de algumas


discussões recentes e GOMES, Flávio dos Santos. Experiências negras e Brasil
escravista: questões e debates. In: ALADAA - Associação Latino-Americana de Estudos
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