You are on page 1of 273

Introdução à Análise Real

Aldo B. Maciel
e
Osmundo A. Lima

1a Edição
Prefácios

A nossa motivação para escrever este texto nasceu no


segundo semestre do ano letivo de 2003 quando ministramos,
pela terceira vez, a disciplina Introdução à Análise no Curso
de Licenciatura em Matemática da Universidade Estadual da
Paraı́ba. Essa disciplina é oferecida para os alunos do último
ano do curso, quando estes já estão praticamente prontos
para o exercı́cio da profissão de professor, tendo adquirido um
senso bastante crı́tico para a leitura de textos de Matemática
e, por conseguinte, passam a, aparentemente, apresentar al-
guma dificuldade no aprendizado do asunto a partir dos textos
comumente utilizados. Nós já tı́nhamos uma longa experiência
no ensino de Análise Real para cursos de Bacharelado em
Matemática em outras universidades e sempre adotávamos os
textos conhecidos na literatura sobre o assunto publicados no
Brasil.
Quando passamos a ensinar no Curso de Licenciatura em
Matemática da Universidade Estadual da Paraı́ba, cujo projeto
pedagógico prioriza fortemente a formação do professor, sem,
contudo, negligenciar o rigor na apresentação e desenvolvi-
mento dos conteúdos especı́ficos de Matemática, passamos a
observar que os textos usuais da literatura não contemplavam
esta perspectiva e residia aı́ a aparente dificuldade no apren-
dizado encontrada pelos estudantes. Sentimos, então, a ausência
na literatura de um texto introdutório de Análise Real que, ao
mesmo tempo em que apresentasse o assunto com o rigor
nescessário para a transmissão das idéias, utilizasse uma lin-
guagem leve e dialogada de tal modo a estimular o estudante
do último ano do Curso de Licenciatura a aprender para en-
sinar Análise Real. Este é, portanto, o objetivo deste texto o
qual cobre todo o material de um primeiro curso de Análise
Real a ser ministrado no último ano da graduação.
3

Gostarı́amos de expressar nossos agradecimentos: aos


colegas do Departamento de Matemática e Estatı́stica da Uni-
versidade Estadual da Paraı́ba por utilizarem nossas notas de
aulas e pelo incentivo à publicação das mesmas; aos nossos
ex-alunos de Introdução à Análise, particularmente a Anselmo
Ribeiro Lopes, pelo trabalho na elaboração e resolução de
parte das listas de exercı́cios; aos professores Luiz Adauto
Medeiros e Manoel Milla Miranda da Universidade Federal do
Rio de Janeiro pela leitura crı́tica e valiosas sugestões ao texto
e, finalmente, agradecer à Editora da Universidade Estadual
da Paraı́ba (eduep) pela oportunidade de publicação do texto.

Campina Grande-PB, dezembro de 2005

Os Autores
A primeira edição deste livro alcançou um relativo sucesso,
tendo sido usado como texto básico ou como texto de referência
em disciplinas introdutórias de Análise Real tanto em cursos
de licenciatura como em cusos de bacharelado em Matemática
e, também, em cursos de nivelamento para ingresso em Mestra-
dos em Matemática de diversas universidades brasileiras. A
todos os colegas que adotaram o texto os autores agrade-
cem, não só pelas mensagens de estı́mulo a uma segunda
edição, mas, principalmente pelas várias sugestões encamin-
hadas, tendo sido acolhidas e incorporadas neste nesta se-
gunda edição todas aquelas que, na opinião dos autores, con-
tribuiram para o aperfeiçoamento da apresentação dos assun-
tos, dentro da filosofia do texto destacada no prefácio da primeira
edição.
diversos cursos de Matemática nossa motivação para es-
crever este texto nasceu no segundo semestre do ano letivo
de 2003 quando ministramos, pela terceira vez, a disciplina
Introdução à Análise no Curso de Licenciatura em Matemática
da Universidade Estadual da Paraı́ba. Essa disciplina é ofer-
ecida para os alunos do último ano do curso, quando estes já
estão praticamente prontos para o exercı́cio da profissão de
professor, tendo adquirido um senso bastante crı́tico para a
leitura de textos de Matemática e, por conseguinte, passam
a, aparentemente, apresentar alguma dificuldade no apren-
dizado do asunto a partir dos textos comumente utilizados.
Nós já tı́nhamos uma longa experiência no ensino de Análise
Real para cursos de Bacharelado em Matemática em outras
universidades e sempre adotávamos os textos conhecidos na
literatura sobre o assunto publicados no Brasil.
Quando passamos a ensinar no Curso de Licenciatura em
Matemática da Universidade Estadual da Paraı́ba, cujo projeto
pedagógico prioriza fortemente a formação do professor, sem,
contudo, negligenciar o rigor na apresentação e desenvolvi-
5

mento dos conteúdos especı́ficos de Matemática, passamos a


observar que os textos usuais da literatura não contemplavam
esta perspectiva e residia aı́ a aparente dificuldade no apren-
dizado encontrada pelos estudantes. Sentimos, então, a ausência
na literatura de um texto introdutório de Análise Real que, ao
mesmo tempo em que apresentasse o assunto com o rigor
nescessário para a transmissão das idéias, utilizasse uma lin-
guagem leve e dialogada de tal modo a estimular o estudante
do último ano do Curso de Licenciatura a aprender para en-
sinar Análise Real. Este é, portanto, o objetivo deste texto o
qual cobre todo o material de um primeiro curso de Análise
Real a ser ministrado no último ano da graduação.
Gostarı́amos de expressar nossos agradecimentos: aos
colegas do Departamento de Matemática e Estatı́stica da Uni-
versidade Estadual da Paraı́ba por utilizarem nossas notas de
aulas e pelo incentivo à publicação das mesmas; aos nossos
ex-alunos de Introdução à Análise, particularmente a Anselmo
Ribeiro Lopes, pelo trabalho na elaboração e resolução de
parte das listas de exercı́cios; aos professores Luiz Adauto
Medeiros e Manoel Milla Miranda da Universidade Federal do
Rio de Janeiro pela leitura crı́tica e valiosas sugestões ao texto
e, finalmente, agradecer à Editora da Universidade Estadual
da Paraı́ba (eduep) pela oportunidade de publicação do texto.

Campina Grande-PB, dezembro de 2005

Os Autores
6
Conteúdo

Prefácio da Primeira Edição 2

Prefácio da Segunda Edição 4

1 Sistemas de Números 11
1.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
1.2 Conjuntos e Funções . . . . . . . . . . . . . . . 12
1.3 Números Naturais . . . . . . . . . . . . . . . . . 14
1.4 Números Inteiros . . . . . . . . . . . . . . . . . 18
1.5 Números Racionais . . . . . . . . . . . . . . . . 19
1.6 Números Reais . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26
1.6.1 Valor Absoluto e Intervalos . . . . . . . . 30
1.6.2 Propriedade Arquimediana de R . . . . . 31
1.7 Conjuntos Contáveis . . . . . . . . . . . . . . . 33
1.8 Exercı́cios do Capı́tulo 1 . . . . . . . . . . . . . 38

2 Seqüências Numéricas 47
2.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
2.2 Seqüências de Números Reais . . . . . . . . . . 47
2.3 Limite de Uma Seqüência . . . . . . . . . . . . . 51
2.4 Seqüências de Cauchy . . . . . . . . . . . . . . 61
2.5 Exercı́cios do Capı́tulo 2 . . . . . . . . . . . . . 64

7
8 CONTEÚDO

3 Séries Numéricas 69
3.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69
3.2 Séries . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70
3.2.1 Séries de Termos não Negativos . . . . . 74
3.2.2 Séries Alternadas . . . . . . . . . . . . . 78
3.3 Convergência Absoluta . . . . . . . . . . . . . . 79
3.4 Outros Testes de Convergência . . . . . . . . . 81
3.5 Exercı́cios do Capı́tulo 3 . . . . . . . . . . . . . 87

4 Noções de Topologia da Reta 93


4.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93
4.2 Limite Superior e Limite Inferior . . . . . . . . . . 94
4.3 Noções de Topologia da Reta . . . . . . . . . . 99
4.3.1 Conjuntos Abertos . . . . . . . . . . . . . 101
4.3.2 Conjuntos Fechados . . . . . . . . . . . 102
4.3.3 Conjuntos Compactos . . . . . . . . . . . 104
4.3.4 Conjuntos Completos . . . . . . . . . . . 106
4.4 Exercı́cios do Capı́tulo 4 . . . . . . . . . . . . . 109

5 Limites de Funções 113


5.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113
5.2 Funções Limitadas . . . . . . . . . . . . . . . . 113
5.3 Limites de Funções Reais . . . . . . . . . . . . 116
5.4 Limites Laterais, Infinitos e no Infinito . . . . . . 122
5.4.1 Limites Laterais . . . . . . . . . . . . . . 123
5.4.2 Limites Infinitos . . . . . . . . . . . . . . 124
5.4.3 Limites no Infinito . . . . . . . . . . . . . 125
5.5 Funções Monótonas . . . . . . . . . . . . . . . . 126
5.6 Exercı́cios do Capı́tulo 5 . . . . . . . . . . . . . 132

6 Funções Contı́nuas 135


6.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 135
6.2 Funções Contı́nuas . . . . . . . . . . . . . . . . 135
6.2.1 Funções Contı́nuas em Intervalos . . . . 145
CONTEÚDO 9

6.2.2 Funções Uniformemente Contı́nuas . . . 149


6.3 Exercı́cios do Capı́tulo 6 . . . . . . . . . . . . . 153

7 Funções Deriváveis 159


7.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 159
7.2 A Derivada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 159
7.3 O Teorema do Valor Médio . . . . . . . . . . . . 165
7.4 A Fórmula de Taylor . . . . . . . . . . . . . . . . 171
7.5 A Regra de L’Hôpital . . . . . . . . . . . . . . . . 174
7.6 Exercı́cios do Capı́tulo 7 . . . . . . . . . . . . . 181

8 Funções Integráveis 187


8.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 187
8.2 Integral Superior e Integral Inferior . . . . . . . . 188
8.3 A Integral de Riemann . . . . . . . . . . . . . . 195
8.3.1 A Integral Como Limite de Somas de
Riemann . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200
8.3.2 Propriedades da Integral de Riemann . . 204
8.3.3 O Teorema Fundamental do Cálculo . . . 211
8.4 Exercı́cios do Capı́tulo 8 . . . . . . . . . . . . . 220

9 Seqüências e Séries de Funções 227


9.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 227
9.2 Seqüências de Funções . . . . . . . . . . . . . 228
9.3 A Convergência Pontual . . . . . . . . . . . . . 229
9.4 A Convergência Uniforme . . . . . . . . . . . . . 232
9.4.1 Propriedades da Convergência Uniforme 235
9.5 Séries de Funções . . . . . . . . . . . . . . . . 238
9.5.1 Critérios de Convergência para Séries de
Funções . . . . . . . . . . . . . . . . . . 240
9.6 Séries de Potências . . . . . . . . . . . . . . . . 249
9.6.1 A Série de Taylor . . . . . . . . . . . . . 254
9.6.2 A Série Binomial . . . . . . . . . . . . . . 261
9.7 Exercı́cios do Capı́tulo 9 . . . . . . . . . . . . . 264
10 CONTEÚDO

Bibliografia 269
Capı́tulo 1

Sistemas de Números

1.1 Introdução

A Análise Real trabalha conceitos que, de um jeito ou de


outro, conforme o próprio nome indica, estão relacionados com
números reais. Sendo assim, entendemos ser importante fazer
uma apresentação desse sistema numérico, bem como co-
mentar suas principais propriedades. Esse é o principal obje-
tivo deste capı́tulo. Contudo, não faremos aqui uma construção
detalhada do sistema dos números reais, tarefa esta mais per-
tinente a um curso de Fundamentos da Matemática. Aqui
nos limitaremos a fazer uma breve apresentação de um dos
métodos, dentre os vários conhecidos na literatura matemática,
de introdução dos números reais a partir do sistema mais prim-
itivo dos números naturais. Antes, porém, a fim de facilitar a
comunicação com o leitor, achamos conveniente dedicar uma
seção do texto para apresentar a notação e a terminologia
mı́nima necessárias para tratar conjuntos e funções.

11
12 CAPÍTULO 1. SISTEMAS DE NÚMEROS

1.2 Conjuntos e Funções


Se A é um conjunto, a notação x ∈ A (lê-se: x pertence
a A) significa que x é um elemento de A. Escrevemos x <
A (lê-se: x não pertence a A) para indicar que x não é um
elemento de A. Um conjunto B denomina-se subconjunto do
conjunto A quando cada elemento de B é também elemento
de A, e denotamos tal fato por B ⊂ A (lê-se: B está contido
em A). Quando ocorrer de B ⊂ A e existir a ∈ A com a < B
dizemos que B é um suconjunto próprio de A. Dizemos que
dois conjuntos A e B são iguais, e escrevemos A = B, quando
ocorre simultanemente que A ⊂ B e B ⊂ A. Indicamos por
∅, e chamamos de conjunto vazio, o conjunto que não possui
elementos. Temos, naturalmente, que ∅ ⊂ A, qualquer que
seja o conjunto A.
Dados os conjuntos A e B podemos formar o conjunto A∪B
(lê-se: A união B) obtido juntando-se os elementos de A aos
elementos de B, ou seja, o conjunto formado pelos elementos
que estão em A ou em B. Em sı́mbolos temos

A ∪ B = {x; x ∈ A ou x ∈ B}.
Também podemos formar o conjunto A∩ B (lê-se: A interseção
B) como sendo o conjunto dos elementos que pertencem si-
multaneamente a A e a B. Em sı́mbolos temos

A ∩ B = {x; x ∈ A e x ∈ B}.
Podemos considerar ainda a diferença entre A e B, denotado
por A − B (lê-se: A menos B), e formado pelos elementos que
estão em A e não estão em B. Em sı́mbolos temos

A − B = {x; x ∈ A e x < B}.


Observemos que, para considerarmos a diferença entre A e B,
não exigimos que B seja necessariamente subconjunto de A.
1.2. CONJUNTOS E FUNÇÕES 13

No entanto, quando isso ocorre a diferença A − B é chamada


de complementar de B com respeito a A.
Para simplificar alguns argumentos utilizamos os sı́mbolos
∀ (quantificador universal) e ∃ (quantificador existencial) para
significar para todo e existe, respectivamente.
Dados dois conjuntos não vazios A e B, uma função f de
A em B é uma regra ou associação que a cada x ∈ A corre-
sponde um único elemento y ∈ B. O conjunto A é denominado
domı́nio e o B de contradomı́nio da função f.
Usamos a notação
f : A −→ B
x 7−→ f (x)
para denotar uma função f de A em B.
Dados dois conjuntos A e B construimos um novo conjunto,
denominado produto cartesiano de A por B, e denotado por
A × B (lê-se: A cartesiano B), cujos elementos são os pares
ordenados (a, b), onde a ∈ A e b ∈ B, isto é
A × B = {(a, b); a ∈ A e b ∈ B}.
Um conjunto importante associado a uma função f: A → B
é o seu gráfico, denotado por G( f ), que é o subconjunto de
A × B dado por
G( f ) = {(x, y) ∈ A × B; y = f (x)}.
Dadas uma função f : A → B e S um subconjunto de A,
denominamos de imagem de S por f, e denotamos por f (S ),
o subconjunto de B definido por
f (S ) = {y ∈ B; y = f (x) para algum x ∈ S }.
Analogamente, se C é um subconjunto de B, denominamos de
imagem inversa de C por f e denotamos por f −1 (C) o subcon-
junto de A definido por
f −1 (C) = {x ∈ A; f (x) ∈ C}.
14 CAPÍTULO 1. SISTEMAS DE NÚMEROS

Seja f: A → B uma função:

• Dizemos que f é injetiva quando f (x1 ) , f (x2 ) sempre


que x1 , x2 , ou equivalentemente, f (x1 ) = f (x2 ) acarreta
x1 = x2 .

• Dizemos que f é sobrejetiva quando para cada y ∈ B


existe x ∈ A tal que f (x) = y.

• Quando f é simultaneamente injetiva e sobrejetiva dize-


mos que é uma bijeção.

Quando f : A → B é uma bijeção, fica bem definida a


função inversa de f, denotada por f −1 , cujo domı́nio é B e
contradomı́nio é A, como sendo a função que a cada y ∈ B
associa o único x ∈ A tal que f (x) = y.
Dadas f : A → B e g: B → C definimos a função composta
g ◦ f: A → C por (g ◦ f )(x) = g( f (x)), ∀x ∈ A.
Por enquanto o material até aqui exposto é suficiente para
o trabalho nas próximas seções, e a medida que formos ne-
cessitando iremos introduzindo a linguagem adicional necessária
para trabalharmos com conjuntos e funções.

1.3 Números Naturais


A partir desta seção vamos apresentar os sistemas de
números com os quais trabalharemos neste texto. Admitire-
mos a existência de um conjunto não vazio N, chamado de
Números Naturais, para o qual vale os seguintes axiomas,
conhecidos como Axiomas de Peano1,2 :
1
Giuseppe Peano (1858-1932).
2
Os Axiomas de Peano aparecem na sua obra Princı́pios de Aritmética,
publicada em 1889.
1.3. NÚMEROS NATURAIS 15

Axioma 1.1 : 1 é um número natural (isto é, 1 ∈ N).

Axioma 1.2 : Cada número natural n possui um único suces-


sor, o qual é denotado por n0 .

Axioma 1.3 : O número natural 1 não é sucessor de nenhum


outro número natural (ou seja, n0 , 1, ∀n ∈ N).

Axioma 1.4 : Se m e n são números naturais tais que m0 = n0 ,


então m = n.

Axioma 1.5 : Se M ⊂ N tem as propriedades

a) 1 ∈ M;

b) n0 ∈ M sempre que n ∈ M,
então M = N.

A partir dos Axiomas de Peano é possı́vel definir em N uma


operação de adição, denotada por +, de tal maneira que 10 , o
sucessor de 1, é 1 + 1, o qual é denotado por 2; o sucessor de
2 é 2 + 1, o qual é denotado por 3 e, em geral, n0 = n + 1. De
modo que temos
N = {1, 2, 3, . . . }.
A partir deste ponto abandonaremos a notação n0 para denotar
o sucessor de n e escreveremos sempre n+1 como o sucessor
de n. Define-se também em N, utilizando-se a operação de
adição já definida e dos Axiomas de Peano, uma operação de
multiplicação3 , denotada por · e as duas operações definidas
gozam das seguintes propriedades :

• Associatividade: m + (n + p) = (m + n) + p e m · (n · p) =
(m · n) · p para quaisquer m, n, p ∈ N.
3
Para os detalhes recomendamos a leitura de [9].
16 CAPÍTULO 1. SISTEMAS DE NÚMEROS

• Comutatividade: m + n = n + m e m · n = n · m para
quaisquer m, n ∈ N.

• Leis do Cancelamento: Se m + p = n + p, então m = n


e se m · p = n · p, então m = n para quaisquer m, n, p ∈ N.

• Distributividade: m · (n + p) = m · n + m · p para quaisquer


m, n, p ∈ N.
Observação: Na prática, quando não há risco de ambigüidade,
omitimos a notação · para indicar a operação de multiplição.

O Axioma 1.5 é conhecido na literatura matemática como


Primeiro Princı́pio de Indução e se constitui numa ferramenta
muito utilizada para demonstrar afirmações sobre números nat-
urais. O procedimento é feito da seguinte forma: suponhamos
que uma determinada afirmativa A(n) sobre n ∈ N cumpre as
seguintes condições:

a) A(1) é verdadeira, isto é, a afirmativa é válida para n = 1.

b) A(k) verdadeira ⇒ A(k + 1) verdadeira4 , isto é, admitindo


a veracidade da afirmativa para um natural k abitrário, é
possı́vel demonstrar a veracidade da mesma para k + 1.

Nestas condições A(n) é verdadeira para todo n ∈ N.

Exemplo 1.1 Considere a seguinte afirmativa: Para n ∈ N

2 + 4 + 6 + · · · + 2n = n(n + 1). (1.1)

Vamos mostrar que a fórmula (1.1) é válida para todo n ∈ N


usando o primeiro princı́pio de indução. Se n = 1 temos que

2 = 1(1 + 1)
4
O sı́mbolo ⇒ significa implica.
1.3. NÚMEROS NATURAIS 17

ou seja, a fórmula vale para n = 1. Admitindo agora a veraci-


dade da fórmula para um k arbitrário de N, tentemos demon-
strar a veracidade da mesma para k + 1. Temos, então, que

2 + 4 + 6 + · · · + 2k + 2(k + 1) = k(k + 1) + 2(k + 1) =

(k + 2)(k + 1) = (k + 1)[(k + 1) + 1],


de modo que a afirmativa vale para k+1. Pelo primeiro princı́pio
de indução, segue que a afirmativa (1.1) é verdadeira para
todo n ∈ N.

No conjunto N está definida a relação “ < ” do seguinte


modo: dados m, n ∈ N dizemos que m é menor que n, e es-
crevemos m < n, quando existe k ∈ N tal que m + k = n.
Quando m < n dizemos também que n é maior que m e es-
crevemos n > m. As principais propriedades da relação “ < ”
são:

• Tricotomia: Para cada par de números naturais m e


n, uma, e somente uma, das sentenças abaixo é ver-
dadeira:

i) m = n ou ii) n < m ou iii) m < n.

• Monotonicidade: Se m, n ∈ N e m < n, então, para todo


k ∈ N,
i) m + k < n + k e ii) km < kn.

As demonstrações das propriedades acima decorrem do


primeiro princı́pio de indução e podem sem encontradas em
[9].
Escrevemos m ≤ n (lê-se: m é menor ou igual a n) para
indicar que m < n ou m = n. Escrevemos também n ≥ m (lê-se:
n é maior ou igual a m) quando m ≤ n.
A relação “ ≤ ” goza das seguintes propriedades:
18 CAPÍTULO 1. SISTEMAS DE NÚMEROS

• Reflexividade: ∀ x ∈ N, x ≤ x.
• Transitividade: Para x, y e z ∈ N, se x ≤ y e y ≤ z então
x ≤ z.
• Anti-Simetria: Para x, y ∈ N se x ≤ y e y ≤ x então
x = y.
Observação: Uma relação entre elementos de um conjunto
não vazio A que goza das propriedades acima é chamada de
relação de ordem.

1.4 Números Inteiros


O sistema dos números naturais apresenta uma deficiência
óbvia, qual seja, a de que a equação m + x = n nem sempre
admite uma solução para m e n dados arbitrariamente em N.
Por exemplo, 5 + x = 7 admite a solução x = 2, enquanto
que 5 + x = 2 não admite solução em N. Essa dificuldade é
resolvida construindo-se5 o conjunto dos Números Inteiros Z,
contendo N como um subconjunto próprio, e no qual estão
definidas operações de adição e multiplicação que general-
izam as operações correspondentes de N. Além do mais:
a) Z possui um elemento chamado zero, e denotado por 0,
que é neutro em relação à adição, isto é m+0 = m, ∀ m ∈
Z.
b) O elemento 1 ∈ N ⊂ Z é neutro em relação à multiplicação,
ou seja 1m = m, ∀ m ∈ Z.

c) Em Z a equação m + x = n admite solução única, quaisquer


que sejam m, n ∈ Z.
5
Não faremos os detalhes aqui. Recomendamos ao estudante a referência
[9].
1.5. NÚMEROS RACIONAIS 19

A relação de ordem de N se estende para Z, de modo que


Z fica sendo formado pelos inteiros maiores que zero, chama-
dos de inteiros positivos, o próprio zero e os inteiros menores
que zero, que são os inteiros negativos. Assim, podemos es-
crever a lista usual dos números inteiros

· · · , −3, −2, −1, 0, 1, 2, 3, · · ·

e a sua representação como pontos de uma reta separados


por uma distância fixa de tal modo que “a < b” indica que a
está à esquerda de b.

1.5 Números Racionais


O sistema dos números inteiros apresenta, por sua vez,
a deficiência de que nem sempre uma equação do tipo mx =
n pode ser resolvida em Z. Por exemplo, a equação 4x = 8
possui a solução x = 2 enquanto que a equação 6x = 7 não
admite solução em Z. Essa deficiência é suprida construindo-
se o conjunto dos números racionais Q, isto é:
( )
p
Q= ; p, q ∈ Z e q , 0 .
q
Os elementos de Q são também chamados de frações.
Em Q definimos a Igualdade a Adição e a Multiplicação
do seguinte modo:
p m
Igualdade: = ⇔ pn = qm, q , 0 e n , 0.
q n
p m np + mq
Adição: + = , q , 0 e n , 0.
q n qn
p m pm
Multiplicação: · = , q , 0 e n , 0.
q n qn
20 CAPÍTULO 1. SISTEMAS DE NÚMEROS

Uma fração do tipo p/1 é identificada com o inteiro p. Com


esta identificação temos que Q contém Z como um subcon-
junto próprio.
As operações de adição e de multiplicação definidas em
Q generalizam as correspondentes operações de Z e, além
de satisfazerem as propriedades associativa, comutativa, ex-
istência dos elementos neutros (o 0 da adição e o 1 da multiplicação),
a existência dos simétricos aditivos e a distributividade, sat-
ifaz também a propriedade da existência dos inversos multi-
plicativos. Dizemos, então, que Q, munido das operações de
adição e multiplicação e gozando das propriedades acima de-
scritas, constitui um corpo.
Diferentemente do que ocorre em Z, o corpo Q é um sis-
tema numérico no qual resolve-se qualquer equação do tipo
ax = b, com a e b em Q, e a , 0. No entanto, o sistema dos
números racionais apresenta ainda a deficiência de que deter-
minadas equações algébricas, como por exemplo x2 = 2, não
admite solução em Q. De fato, se existissem números inteiros
p e q tais que p2 /q2 = 2, com p e q primos entre si, então
p2 = 2q2 . Assim, p2 seria um inteiro par e, portanto, p também
seria par (o quadrado de um inteiro é par se, e somente se, o
inteiro é par). Terı́amos, então, que p = 2m, para algum inteiro
m. Neste caso 4m2 = 2q2 , donde q2 = 2m2 , logo q2 seria par
e, conseqüentemente, q também seria par, o que contradiria a
hipótese de que p e q são primos entre si. Outros exemplos
de equações algébricas que não admitem soluções em Q são
apresentadas nos exercı́cios deste capı́tulo. Essa deficiência
apresentada pelos racionais é séria. Um exemplo desta difi-
culdade é que, para uma figura plana quadrada com lado de
medida igual a 1, não existe número racional que represente
a medida da sua diagonal, pois, se a fosse um tal número
então, pelo famoso Teorema de Pitágoras, deverı́amos ter que
a2 = 12 + 12 = 2. No entanto, como acabamos de ver, não
1.5. NÚMEROS RACIONAIS 21

existe em Q um número cujo quadrado seja igual a 2. Com


este exemplo vemos a real necessidade de dispormos de um
sistema numérico mais amplo que o dos racionais. Este fato
foi, provavelmente, constatado pelos pitagóricos no perı́odo de
450 a 400 a. C. quando observaram que a diagonal de um
quadrado e o seu lado são grandezas incomensuráveis. Con-
vidamos o estudante a ler a referência [2] onde há uma boa
exposição sobre o assunto.
Passamos agora a desenvolver algumas etapas que em-
basam o processo teórico de ampliação do corpo dos números
racionais para um corpo no qual podemos resolver a questão
observada no parágrafo anterior.
No corpo Q dizemos que uma fração p/q é positiva se pq ∈
N. Isso, na verdade, significa dizer que p e q ou são ambos
inteiros positivos ou ambos inteiros negativos. O subconjunto
das frações positivas de Q é denotado por Q+ .
É simples verificar (faça-o como exercı́cio) que o subcon-
junto Q+ goza das seguintes propriedades:

i) Q+ é fechado com respeito às operações de Q, isto é, se


x, y ∈ Q+ , então x + y e xy pertencem a Q+ .

ii) Dado x ∈ Q, uma, e somente uma, das alternativas a seguir


é verdadeira: ou x = 0, ou x ∈ Q+ , ou −x ∈ Q+ .

Dados dois racionais x e y, dizemos que x é menor que y


e escrevemos x < y (ou que y é maior que x e escrevemos
y > x) se y − x ∈ Q+ .
A relação “ < ” introduzida em Q generaliza a relação
“ < ” de Z (que, por sua vez, é uma generalização da relação
“ < ” introduzida em N). Observe que em Q, o subconjunto Q+
dos racionais positivos, é exatamente o conjunto dos racionais
x de Q tais que x > 0.
As principais propriedades da relação “ < ” de Q são:
22 CAPÍTULO 1. SISTEMAS DE NÚMEROS

a) Dados x e y em Q, uma, e somente uma, das alternativas é


verdadeira: ou x < y, ou x = y ou y < x.

b) Dados x, y e z em Q, se x < y e y < z então x < z.

c) Se x < y então x + z < y + z, ∀ z ∈ Q.

d) Se x < y e z > 0 então zx < zy.


1 1
e) Se 0 < x < y então < .
y x
Convidamos o estudante a demonstrar, como um exercı́cio,
cada uma das propriedades acima.
Analogamente ao que fizemos em Z, escrevemos x ≤ y
para indicar que x < y ou x = y. Quando x ≤ y escrevemos
também y ≥ x. A relação “ ≤ ” goza das propriedades Re-
flexiva, Transitiva e Anti-Simétrica, portanto é uma relação de
ordem em Q.
O conjunto Q, munido das operações de adição e multiplicação
e da relação de ordem, constitui uma estrutura algébrica que
chamamos de corpo ordenado.
Duas propriedades importantes de Q são dadas nas proposições
a seguir.

Proposição 1.1 Se x e y são números racionais tais que x <


y, então existe um número racional z tal que x < z < y.

Prova: Sendo x < y, então 2x = x + x < x + y < y + y = 2y.


Assim, 2x < x + y < 2y e, multiplicando por 1/2, obtemos
x < x+y
2
< y. Tomemos z = x+y
2
e temos o resultado.

Proposição 1.2 Se x e y são dois números racionais posi-


tivos, existe um inteiro positivo m tal que mx > y.
1.5. NÚMEROS RACIONAIS 23

p r
Prova: Sendo x e y racionais então x = e y = , com p, q, r
q s
e s inteiros, os quais podemos supor que são todos maiores ou
iguais a 1 pois x e y são positivos. Assim, ps ≥ 1 e, portanto,
2ps ≥ 2 > 1, o que acarreta 2qrps > qr. Considerando o inteiro
p r
m = 2qr obtemos m > , como querı́amos.
q s
A propriedade de Q dada pela Proposição 1.2 é conhecida
como Propriedade Arquimediana de Q.
O corpo Q dos números racionais, além da deficiência algébrica
anteriormente explicitada, apresenta outra deficiência, a qual
apresentaremos a seguir, após a introdução de alguns con-
ceitos necessários.

Definição 1.1 Um subconjunto S de Q denomina-se limitado


superiormente quando existe t ∈ Q tal que x ≤ t para todo
x ∈ S.

Um número t nas condições da Definição 1.1 denomina-se


cota superior par S . É claro que se t é uma cota superior para
S então qualquer número maior que t também é uma cota su-
perior para S . Analogamente, define-se subconjunto limitado
inferiormente de Q e cota inferior.
Quando um subconjunto de Q é, simultaneamente, limitado
inferiormente e superiormente dizemos que é limitado.

Definição 1.2 Um número racional u denomina-se supremo


de um subconjunto limitado superiormente S ⊂ Q, se:
i) u é uma cota superior para S e
ii) se t é qualquer cota superior para S então u ≤ t.

Quando o supremo de S ⊂ Q existe nós o denotamos por


sup S . É imediata a verificação de que o supremo de um sub-
conjunto limitado superiormente de Q, quando existe, é único.
24 CAPÍTULO 1. SISTEMAS DE NÚMEROS

Analogamnete define-se ı́nfimo de um subconjunto limitado in-


feriormente S ⊂ Q e quando tal número existe o denotamos
por inf S . Quando S ⊂ Q possui supremo e sup S ∈ S , dizemos
que S possui um elemento máximo. Observação análoga para
ı́nfimo e elemento mı́nimo.
Uma caracterização importante para o supremo de um sub-
conjunto limitado superiormente S de Q é apresentada na proposição
a seguir.

Proposição 1.3 Seja S um subconjunto limitado superiormente


de Q. Então u ∈ Q é o supremo de S se, e somente se:
a) u é cota superior de S , isto é, x ≤ u, ∀x ∈ S ;
b) Dado qualquer racional r > 0, existe x ∈ S tal que u − r < x.

Prova: Suponhamos que u é o supremo de S . Então u é uma


cota superior de S , portanto, satisfaz a). Se existisse r0 > 0
tal que u − r0 ≥ x, ∀x ∈ S , então u − r0 , que é estritamente
menor que u, seria cota superior de S , o que contradiria a min-
imalidade de u. Portanto, para cada r > 0 existe x ∈ S tal que
u−r < x. Reciprocamente, suponhamos que u satisfaz a) e b) e
seja t uma outra cota superior de S . Se fosse t < u tomarı́amos
r = u − t > 0 e, por b) existiria x ∈ S com u − (u − t) < x. Isto é,
t < x, o que contradiria a hipótese de t ser cota superior de S .
Portanto u ≤ t, donde sup S = u.
O exemplo a seguir é importante e explicita, conforme prom-
etemos exibir, uma outra deficiência dos racionais. Trata-se
de um exemplo de um subconjunto de Q que é limitado su-
periormente mas que não possui nem elemento máximo nem
supremo.

Exemplo 1.2 Consideremos os subconjuntos S e T de Q da-


dos por
S = {x ∈ Q; x > 0 e x2 < 2}
1.5. NÚMEROS RACIONAIS 25

e
T = {y ∈ Q; y > 0 e y2 > 2}.
Observe que se x ∈ S e y ∈ T, como ambos, x e y, são pos-
itivos e x2 < y2 , segue que x < y. Em outras palavras, os
elementos de T são cotas superiores para S e os elementos
de S são cotas inferiores para T. Mostremos agora que o con-
junto S não possui elemento máximo. De fato, se x ∈ S , sendo
x > 0 e x2 < 2 então 2 − x2 > 0 e 2x + 1 > 0. Pela Propriedade
Arquimediana de Q (Proposição 1.2) podemos ecolher n ∈ N
tal que n(2 − x2 ) > 2x + 1, donde 2x+1
n
< 2 − x2 . Além disso,
sendo n ≥ 1, segue que n2 ≤ n . Assim,
1 1

!2
1 2x 1 2x 1
x+ = x2 + + 2 ≤ x2 + + =
n n n n n
2x + 1
x2 + < x2 + 2 − x2 = 2.
n

Portanto, x + 1n ∈ S . Mas, x + 1n > x e, assim, deduzimos que S


não possui elemento máximo. Por sua vez, o conjunto T não
possui elemento mı́nimo pois, se y ∈ T então y > 0 e y2 > 2,
logo, pela Propriedade Arquimediana de Q, podemos escolher
m ∈ N tal que m(y2 − 2) > 2y donde − 2y m
> 2 − y2 . Logo
!2
1 2y 1 2y
y− = y2 − + 2 > y2 − > y2 + 2 − y2 = 2.
m m m m

Note que o fato de ser y > 1 e m ≥ 1 acarreta ym > 1, donde


y − m1 > 0, ou seja, y − m1 ∈ T e, portanto, T não possui ele-
mento mı́nimo. Podemos finalmente concluir que S não pos-
sui supremo. De fato, se existisse u = sup S , não poderia ser
u2 < 2 pois neste caso u ∈ S e, assim, u seria o elemento
máximo de S , que não existe. Também não pode ser u2 > 2
pois, neste caso, como u > 0, terı́amos u ∈ T. Mas, T não tem
26 CAPÍTULO 1. SISTEMAS DE NÚMEROS

mı́nimo, e, assim, existiria v ∈ T com v < u. Ora, como todos


os elementos de T são cotas superiores para S , terı́amos uma
contradição para o fato de u ser o supremo de S . Muito bem!
Se não pode ser u2 < 2 nem u2 > 2, só pode ser u2 = 2. No en-
tanto, em Q não existe elemento cujo quadrado seja igual a 2.
Portanto, só podemos concluir pela não existência do supremo
de S em Q.

1.6 Números Reais


Na seção anterior exibimos duas dificuldades apresentadas
pelo corpo dos números racionais Q, quais sejam: a não ex-
istência de um número racional cujo quadrado seja igual a 2 e
um exemplo de um subconjunto limitado superiormente que
não possui supremo. Observando mais atentamente o Ex-
emplo 1.2 vemos que os subconjuntos S e T são disjuntos,
todos os elementos de S são menores que todos os elemen-
tos de T, mas não existe em Q um elemento “separador” dos
conjuntos. Isto nos conduz à seguinte interpretação: imagi-
nando os racionais como pontos de uma reta, como fizemos
com os inteiros, mesmo sabendo que dados quaisquer dois
racionais, tão próximos quanto queiramos um do outro, sem-
pre podemos exibir um terceiro racional entre eles, ainda as-
sim alguns pontos (na realidade muitos pontos) não estão as-
sociados a números racionais. Em outras palavras, Q não
“preenche” toda a reta.
Por todos os motivos anteriormente apresentados, torna-
se necessária a ampliação do corpo dos números racionais
para um corpo “maior” que venha a sanar as deficiências
apresentados por Q. Isto é feito construindo-se o corpo dos
números reais R a partir do corpo dos números racionais Q. Há
diversos métodos para fazer tal construção. Dois bem famosos
1.6. NÚMEROS REAIS 27

e que podem sem encontrados na literatura listada na bibli-


ografia recomendada neste texto são o Método dos Cortes de
Dedekind6 e o Método das Seqüências de Cauchy7 . Adianta-
mos, contudo, que, por quaisquer dos métodos utilizados, os
corpos finalmente construı́dos gozarão exatamente das mes-
mas propriedades.
Deixamos de apresentar aqui os detalhes da construção
do corpo dos números reais pelos seguintes motivos:

• Uma tal construção demanda um tempo extra, normal-


mente não disponı́vel em um curso como o aqui pro-
posto.

• Em geral, os estudantes de um curso introdudutório de


Análise Real não adqüiriram, ainda, maturidade suficiente
(do ponto de vista de conhecimentos matemáticos acu-
mulados) para acompanharem os detalhes da construção.

• Entendemos que, neste momento, é mais importante para


o estudante conhecer as propriedades satisfeitas pelo
números reais R do que mesmo conhecer qual seja a
natureza desses números.

A partir de agora vamos aceitar o fato de que existe um


corpo ordenado, contendo Q como um subconjunto próprio,
chamado corpo dos números reais e denotado por R, para o
qual vale o seguinte Teorema.

Teorema 1.1 (Teorema de Dedekind) Suponha que R se es-


creve como uma união disjunta de dois subconjuntos não vazios
A e B tais que para todo a ∈ A e para todo b ∈ B vale que a < b.
Então existe um único c ∈ R satisfazendo a ≤ c para todo a ∈ A
e c ≤ b para todo b ∈ B.
6
Richard Dedekind (1831-1916)
7
Augustin-Louis Cauchy (1789-1857)
28 CAPÍTULO 1. SISTEMAS DE NÚMEROS

Convidamos o estudante a consultar a referência [10] onde


é apresentada a construção de R usando cortes de Dedekind
e é dada uma demontração do Teorema de Dedekind. Re-
comendamos também a leitura da referência [9] onde é feita
uma construção de R, com bastante detalhes, utilizando o
método das seqüências de Cauchy.
No corpo R vale o seguinte resultado, o qual, conforme já
constatamos por meio do Exemplo 1.2, não é verdadeiro em
Q.

Teorema 1.2 Todo subconjunto S ⊂ R, não vazio e limitado


superiormente, possui supremo.

Prova: Vamos construir dois subconjuntos A e B de R que


estão nas condições do Teorema de Dedekind. Para tanto
consideremos

A = {a ∈ R; a < x para algum x ∈ S }

e B o subconjunto de todos os outros números reais, isto é

B = {b ∈ R; b ≥ x para todo x ∈ S }.

O subconjunto B é o conjunto das cotas superiores de S , logo


é não vazio pois S é limitado superiormente. O subconjunto
A é não vazio pois S é não vazio. Dado t ∈ R, ou t ≥ x para
todo x ∈ S , neste caso t ∈ B, ou existe x ∈ S tal que t < x e
neste caso t ∈ A. Portanto R = A ∪ B. Além disso, para todo
a ∈ A e para todo b ∈ B temos que a < b. Com efeito, se a ∈ A
e b ∈ B então existe x ∈ S tal que a < x ≤ b, donde a < b.
Pelo Teorema de Dedekind existe m0 ∈ R tal que a ≤ m0 ≤ b,
para todo a ∈ A e para todo b ∈ B. Desde que m0 ∈ R então
ou m0 ∈ A ou m0 ∈ B. Se fosse m0 ∈ A então existiria x0 ∈ S
1.6. NÚMEROS REAIS 29

x0 − m0
com m0 < x0 . Consideremos δ = > 0 e tomemos
2
a0 = m0 + δ > m0 . Temos que
x0 − m0 x0 + m0
a0 = + m0 = < x0
2 2
e, portanto, a0 ∈ A, o que seria uma contadição. Logo m0 ∈ B,
que é o conjunto das cotas superiores de S . Como m0 ≤ b para
todo b ∈ B, segue que m0 é a menor das cotas superiores de
S , isto é, m0 = sup S .
Um corpo ordenado no qual vale o Teorema 1.2 é denom-
inado corpo ordenado completo. Assim, R é um corpo or-
denado completo para o qual temos as seguintes inclusões
próprias
N ⊂ Z ⊂ Q ⊂ R.
Em R podemos agora resolver aquela equação x2 = 2, que
não foi possı́vel resolver em Q. Isto é, existe em R um ele-
mento r > 0 tal que r2 = 2. De fato, como Q ⊂ R então S , o
subconjunto limitado superiormente de Q dado no Exemplo 1.2
é, obviamente, um subconjunto limitado superiormente de R.
Logo existe r ∈ R tal que r = sup S . Mas, do mesmo modo
como foi feito no Exemplo 1.2, r2 não pode ser nem menor
que 2 nem maior que 2. Portanto
√ terá que ser igual a 2. Este
número real é denotado por 2 e é chamado de raiz quadrada
(positiva) de 2. Trata-se de um número real que, conforme já
vimos, não é racional.
Os números reais que não são racionais são chamados
de números irracionais. Há muitos outros números irracionais,
alguns bem famosos, como a razão entre o comprimento e o
diâmetro de uma circunferência, denotado por π, e a base dos
logaritmos neperianos, denotado por e. Mais ainda, veremos
na seção 1.7 deste capı́tulo que, num certo sentido, há bem
mais irracionais que racionais em R.
30 CAPÍTULO 1. SISTEMAS DE NÚMEROS

1.6.1 Valor Absoluto e Intervalos


Dado x ∈ R definimos o valor absoluto, ou módulo de x, e
denotamos por |x|, como sendo


 x, se x ≥ 0,
|x| = 


se x < 0.

 −x,


Ou, equivalentemente, |x| = max{x, −x} ou ainda |x| = x2 . As
principais propriedades do valor absoluto são:
i) |x| ≥ 0 ∀ x ∈ R e |x| = 0 ⇔ x = 0.

x |x|
ii) |xy| = |x||y| e = se y , 0.
y |y|
iii) |x| ≤ a ⇔ −a ≤ x ≤ a e |x| ≥ a ⇔ x ≥ a ou x ≤ −a.
iv) |x + y| ≤ |x| + |y| ∀ x ∈ R e ∀ y ∈ R.
v) ||x| − |y|| ≤ |x − y| ∀ x ∈ R e ∀y ∈ R.
Uma classe importante de subconjuntos de R é a dos in-
tervalos, para os quais há uma notação especial, do seguinte
modo: dados a e b ∈ R com a < b

[a, b] = {x ∈ R; a ≤ x ≤ b}, (a, b] = {x ∈ R; a < x ≤ b},

[a, b) = {x ∈ R; a ≤ x < b}, (a, b) = {x ∈ R; a < x < b},

[b, +∞) = {x ∈ R; b ≤ x}, (b, +∞) = {x ∈ R; b < x},

(−∞ , a] = {x ∈ R; x ≤ a} e (−∞ , a) = {x ∈ R; x < a}.

O próprio corpo dos reais R é considerado um intervalo e


escrevemos R = (−∞, +∞).
1.6. NÚMEROS REAIS 31

Os intervalos do tipo (a, b), (−∞, a), (b, +∞) e (−∞, +∞)
são chamados de intervalos abertos e os do tipo [a, b], (−∞, a]
e [b, +∞) são chamados de intervalos fechados.

1.6.2 Propriedade Arquimediana de R


O corpo dos reais goza da Propriedade Arquimediana, con-
forme vemos na proposição a seguir.

Proposição 1.4 Dados a, b ∈ R com a > 0, existe n ∈ N tal


que na > b.

Prova: Consideremos o subconjunto S de R dado por

S = {ma; m ∈ N}.

Negar a existência de n ∈ N tal que na > b significa dizer que


ma ≤ b para todo m ∈ N. Ou seja, S seria limitado superior-
mente. Pelo Teorema 1.2 existe u = sup S . Como a > 0, pelo
item b) da Proposição 1.3 existe m0 ∈ N tal que u − a < m0 a,
donde u < (m0 + 1)a. Ora, como m0 + 1 ∈ N então o número
(m0 + 1)a ∈ S , por definição de S , o que é uma contradição.
Logo existe sim n ∈ N tal que na > b.
Uma propriedade importante de R é estabelecidada pela
próxima proposição.

Proposição 1.5 Sejam a e b números reais com a < b. Então


existe r ∈ Q tal que a < r < b.

Prova: Vamos separar a demonstração em 3 casos:


[Caso 1. 0 < a < b] - Pela Proposição 1.4 (Propriedade
Arquimediana) existe k ∈ N tal que k(b − a) > 1, de modo que
1
temos, + a < b. Seja A = {m ∈ N; m > ka}. Novamente pela
k
32 CAPÍTULO 1. SISTEMAS DE NÚMEROS

Proposição 1.4 segue que A , ∅. Usando o Princı́pio da Boa


Ordenação8 de N temos que o conjunto A possui um menor
elemento, digamos n0 . Então

n0 n0 − 1
>a e ≤ a.
k k
Portanto,
n0 1
a< ≤ + a < b.
k k
n0
Assim r = ∈ Q e a < r < b.
k
[Caso 2. a ≤ 0 < b] - Outra vez pela Proposição 1.4 existe
1
k ∈ N tal que kb > 1. Neste caso 0 < r = < b e, portanto,
k
a < r < b.
[Caso 3. a < b ≤ 0] - Neste caso temos 0 ≤ −b < −a que
se enquadra nos caso anteriores, logo existe r ∈ Q tal que
−b < r < −a ou seja, a < −r < b.
Corolário: Sejam a e b números reais com a < b. Então existe
t ∈ R − Q tal que a < t < b.
b a
Prova: Sendo a < b então √ < √ . Portanto existe um
2 2
a b √
racional r tal que √ < r < √ . Assim t = r 2 ∈ R − Q é tal
2 2
que a < t < b, como querı́amos.

Definição 1.3 Seja D ⊂ R. Dizemos que D é denso em R se


para todo intervalo aberto (a, b) de R temos D ∩ (a, b) , ∅.

A Proposição 1.5, juntamente com seu Corolário, afirmam


exatamente que Q e R − Q são ambos densos em R. O fato de
8
O Princı́pio da Boa Ordenação afirma que todo subconjunto não vazio de
N possui um menor elemento.
1.7. CONJUNTOS CONTÁVEIS 33

Q ser denso em R, juntamente com o fato de ser enumerável,


conforme veremos na próxima seção, conferem a R uma “es-
trutura topológica” importante chamada de Espaço Topológico
Separável.

1.7 Conjuntos Contáveis


Definição 1.4 Dizemos que um conjunto A é equipotente a
um conjunto B, ou que A e B têm a mesma cardinalidade, e
escrevemos A ' B, quando existe uma bijeção f de A em B.
Desde que inversas de bijeções são bijeções, então, se
A ' B segue que B ' A. Como também compostas de bijeções
são bijeções temos que se A ' B e B ' C então A ' C. Além
disso, é óbvio que qualquer que seja o conjunto A temos sem-
pre A ' A. Portanto a propriedade “ser equipotente a” estab-
elece uma relação de equivalência na classe dos conjuntos.
Um conjunto A é dito finito quando ou é vazio ou qundo
existe n ∈ N tal que A é equipotente a {1, 2, . . . , n}. É claro que
se A é equipotente a {1, 2, . . . , n} e a {1, 2, . . . , m} então n = m.
Dizemos, assim, que n é o número de elementos de A, ou que
a cardinalidade de A é n, e escremos #A = n. Portanto, dois
conjuntos finitos são equipotentes se, e somente se, têm o
mesmo número de elementos. Um conjunto que não é finito é
dito infinito.
Um conjunto infinito A é dito enumerável se A ' N. Em out-
ras palavras, os elementos de A podem ser arranjados como
os termos de uma seqüência9 . Neste caso dizemos que A tem
cardinalidade ℵ0 (lê-se: alefe zero).
Os conjunto finitos e os enumeráveis são classificados gener-
icamente como conjuntos contáveis.
9
Uma seqüência é uma função cujo domı́nio é N. Veja mais detalhes no
Capı́tulo 2.
34 CAPÍTULO 1. SISTEMAS DE NÚMEROS

Exemplo 1.3 O conjunto dos números racionais do intervalo


[0, 1], isto é, Q ∩ [0, 1], é enumerável. De fato, se agruparmos
esses números utilizando seus denominadores comuns temos
a seqüência:

1 1 2 1 3 1 2 3 4
0, 1, , , , , , , , , ,...
2 3 3 4 4 5 5 5 5

Proposição 1.6 Se f : A → B é injetiva e B é contável então


A é contável.

Prova: Se A for finito, nada temos a demonstrar. Se A for


infinito, como f : A → f (A) é uma bijeção, segue que A '
f (A), onde f (A) denota a imagem de A por f. Portanto f (A) é
infinito, e como f (A) ⊂ B, com mais razão, B também é infinito.
Como, por hipótese, B é contável, segue que é enumerável.
Logo existe uma bijeção g : N → B. Denotemos por bn =
g(n), para n ∈ N. Assim B = {b1 , b2 , b3 , . . . }. Seja k1 o primeiro
número natural tal que bk1 ∈ f (A). Chamemos de k2 o primeiro
número natural maior do que k1 tal que bk2 ∈ f (A). Tomemos,
em seguida, o primeiro número natural k3 maior que k2 tal que
bk3 ∈ f (A). Continuando com este processo obtemos que

f (A) = {bk1 , bk2 , bk3 , . . . }.

Definamos, agora, h : f (A) → N pondo h(bk j ) = j, j =


1, 2, 3, . . . . É claro que h é uma bijeção. Como f : A → f (A) é
uma bijeção, segue que h ◦ f : A → N é uma bijeção, donde
A ' N, ou seja, A é enumerável.
Corolário Todo subconjunto de um conjunto contável é contável.
Prova: Seja B contável e S ⊂ B. Considere iS : S → B a in-
clusão de S em B dada por iS (x) = x. Claramente iS é injetiva.
1.7. CONJUNTOS CONTÁVEIS 35

Exemplo 1.4 Vimos no Exemplo 1.3 que Q ∩ [0, 1] é enu-


merável. Usando adequadamente a Proposição 1.6 (faça-o
como exercı́cio) podemos mostrar que os conjuntos
h i
Q ∩ j+1 j+1
, se j é ı́mpar,



 2
− 1, 2
Aj = 


 h i
 Q ∩ − j, 1 − j ,


se j é par.
2 2

são todos enumeráveis. Observe que

A1 = Q ∩ [0, 1], A2 = Q ∩ [−1, 0], A3 = Q ∩ [1, 2],

e assim por diante.

Proposição 1.7 A união enumerável de conjuntos enumeráveis


é enumerável.

Prova: Sejam A1 , A2 , A3 , . . . An , . . . conjuntos enumeráveis e



[
A = Ai . Sendo cada Ai enumerável então podemos escr-
i=1
ever
A1 = {a11 , a12 , a13 , a14 , a15 , . . . , a1n , . . . }
A2 = {a21 , a22 , a23 , a24 , a25 , . . . , a2n , . . . }
A3 = {a31 , a32 , a33 , a34 , a35 , . . . , a3n , . . . }
A4 = {a41 , a42 , a43 , a44 , a45 , . . . , a4n , . . . }
.. ..
. .
An = {an1 , an2 , an3 , an4 , an5 , . . . , ann , . . . }
.. ..
. .

Consideremos o esquema gráfico a seguir indicado:


36 CAPÍTULO 1. SISTEMAS DE NÚMEROS

a11 / a12 a13 / a14 a15 / ···


z z zz< zz zz< zzz
zz zz zz zz z
zz zz zz zz zz
|zz zz |zz zz }zz
a21 a22 a23 a24 a25 ···
z z< zz zz< zz zz=
zz zz zz zz zz
zzz zzz zzz zzz zzz
 z |z z |z z
a31 a32 < a33 a34 < a35 ···
zzz z zz z zz z zz zzz
z z z z z
zz zz zz zz zz
|zz zz |zz zz }zz
a41 a42 a43 a44 a45 ···
}}> }} }}> }}
}} }}
}
}}
}
}}
}
}} }} }} }}
 }}} } } } } } }
.}
.. . ~}
.. .}
.. . ~}
.. ... .
..
Seguindo a indicação das setas concluimos que os termos da
seqüência
(a11 , a12 , a21 , a31 , a22 , a13 , a14 , a23 , a32 , a41 , . . . )
enumera todos os elementos de A. Logo, A é enumerável.

Teorema 1.3 O conjunto Q dos números racionais é enumerável.


Prova: Para demonstrar este teorema é suficiente considerar
a coleção de conjuntos
A1 = Q ∩ [0, 1], A2 = Q ∩ [−1, 0], A3 = Q ∩ [1, 2], . . .
do Exemplo 1.4, a qual é uma coleção enumerável de conjun-
tos enumeráveis. Observando agora que o conjunto Q pode

[
ser escrito como Q = Ai segue que é enumerável.
i=1
A primeira grande diferença até agora observada entre Q e
R é que R é completo e Q não é. Vamos agora mostrar outra
diferença significativa entre Q e R, qual seja a de que R não é
enumerável. Este é o conteúdo do teorema a seguir.
1.7. CONJUNTOS CONTÁVEIS 37

Teorema 1.4 O conjunto dos números reais R não é enumerável.


Prova: Vamos mostrar que o intervalo aberto (0, 1) não é enu-
merável, usando um processo construtivo chamado de Processo
Diagonal de Cantor. Raciocinemos por contradição. Supon-
hamos que existe uma enumeração de (0, 1), ou seja
(0, 1) = {x1 , x2 , x3 , . . . , xn , . . . }.
Usando a expansão decimal10 de cada xn temos
x1 = 0, a11 a12 a13 . . . a1m . . .
x2 = 0, a21 a22 a23 . . . a2m . . .
x3 = 0, a31 a32 a33 . . . a3m . . .
x4 = 0, a41 a42 a43 . . . a4m . . . (1.2)
.. ..
. .
xn = 0, an1 an2 an3 . . . anm . . .
.. ..
. .
onde os ai j são algarismos de 0 a 9. Vamos exibir um ele-
mento de (0, 1) que não se encontra na lista acima. Façamos
o seguinte: para cada n ∈ N, escolhamos bn tal que bn = 1
se ann , 1 e bn = 2 se ann = 1. Tomemos agora o número
x ∈ (0, 1) cuja expansão decimal é x = 0, b1 b2 b3 . . . O número
x não se encontra na lista (1.2) pois, por construção, difere de
cada xn exatamente no n−ésimo termo de sua representação
decimal. Assim, não existe enumeração de (0, 1). Segue que
R não é enumerável, pois do contrário, todos os seus subcon-
juntos seriam enumeráveis, o que não é verdade para (0, 1),
conforme acabamos de ver.
O conjunto dos números irracionais, R − Q, é não enu-
merável, pois se não fosse assim terı́amos que R seria enu-
merável uma vez que R = Q ∪ (R − Q) estaria sendo represen-
tado pela união de dois conjuntos enumeráveis.
10
Para detalhes sobre expansão decimal ver [1].
38 CAPÍTULO 1. SISTEMAS DE NÚMEROS

1.8 Exercı́cios do Capı́tulo 1


1.1- Demonstre as propriedades abaixo sobre números reais:

a) Se x ∈ Q e y ∈ R − Q então x + y ∈ R − Q.
b) Se x ∈ Q, y ∈ R − Q e x , 0 então xy ∈ R − Q.
c) Se x ∈ R, x , 0 e xy = 0 então y=0.

d) Se x ≥ 0 e y ≥ 0 então xy ≤ x+y2
.
e) |a − b| ≤ |a| + |b|, ∀ a, b ∈ R.

f) |a| − |b| ≤ |a − b|, ∀ a, b ∈ R.
g) |a + b| ≥ |a| − |b|, ∀ a, b ∈ R.
|a + b| |a| |b|
h) ≤ + , ∀ a, b ∈ R.
1 + |a + b| 1 + |a| 1 + |b|
1.2- Mostre que:
1
a) {a + b + |a − b|} = max{a, b}.
2
1
b) {a + b − |a − b|} = min{a, b}.
2
1.3- Mostre que se a1 , a2 , . . . , an ∈ R então

|a1 + a2 + · · · + an | ≤ |a1 | + |a2 | + · · · + |an |.

1.4- Demonstre a desigualdade de Bernoulli11

(1 + x)n ≥ 1 + nx, ∀ n ∈ N e ∀ x ≥ −1.

1.5- Mostre que, se x ≥ 0, então


n(n − 1) 2
(1 + x)n ≥ 1 + nx + x , ∀ n ∈ N.
2
11
James Bernoulli (1654-1705).
1.8. EXERCÍCIOS DO CAPÍTULO 1 39

1
1.6- Mostre que dado ε > 0 existe N ∈ N tal < ε.
N
1.7- Mostre que se S ⊂ R é limitado inferiormente e m0 = inf S
então, para cada y > m0 , existe x ∈ S tal que y > x ≥ m0 .

1.8- Mostre que as equações ax = b, a , 0 e a + x = b


possuem soluções únicas em R.

1.9- Mostre que, ∀ n ∈ N,

xn − yn = (x − y)(xn−1 + xn−2 y + · · · + xyn−2 + yn−1 ).

1.10- Para n e k em Z com n ≥ 1 e 0 ≤ k ≤ n considere os


números binomiais
n(n − 1)(n − 2) · · · (n − k + 1)
!
n n!
= = ·
k k!(n − k)! 1.2 · · · k
Demonstre a chamada Relação de Stifel12

n+1
! ! !
n n
+ = .
k k+1 k+1

1.11- Use indução e a Relação de Stifel para mostrar que


n !
X n n−k k
(x + y) =
n
x y ∀ x, y ∈ R e ∀ n ∈ N.
k
k=0

1.12- Demonstre a Desigualdade de Cauchy-Schwarz13 : da-


dos números reais arbitrários x1 , x2 , · · · xn e y1 , y2 , · · · yn ,
então  n 2  n  n 
X X 2  X
xi   y2i  .
 
 xi yi  ≤ 
i=1 i=1 i=1

12
Michael Stifel (1486-1567).
13
Hermann Amandus Schwarz (1843-1920).
40 CAPÍTULO 1. SISTEMAS DE NÚMEROS

1.13- Mostre que para cada a > 0 existe um único x > 0 tal
que x2 = a.

1.14- Mostre que os números reais a seguir são todos irra-


cionais:
√ √ √ √
a) log10 5, b) 3, c) 2 + 3, d) 2 + 3.

1.15- Seja S ⊂ R não vazio e limitado inferiormente. Mostre


que m = inf S se, e somente se, satisfaz às seguintes
condições

a) m é cota inferior de S e
b) ∀ε > 0 ∃ x ∈ S tal que x < m + ε.

1.16- Mostre que todo subconjunto não vazio e limitado inferi-


ormente S ⊂ R possui ı́nfimo.

1.17- Dados x, y ∈ R defina a distância de x a y por d(x, y) =


|x − y|. Mostre que d goza das propriedades

a) d(x, y) ≥ 0, ∀ x, y ∈ R e d(x, y) = 0 ⇔ x = y.
b) d(x, y) = d(y, x), ∀ x, y ∈ R.
c) d(x, y) ≤ d(x, z) + d(y, z), ∀ x, y, z ∈ R.
( )
1
1.18- Seja A = ; n ∈ N . Mostre que inf A = 0.
n

1.19- Mostre que se p é um número primo positivo então p
é irracional.

1.20- Mostre que se p , q são ambos primos positivos então



pq é irracional.
1
1.21- Mostre que se 0 ≤ a < , ∀n ∈ N, então a = 0.
n
1.8. EXERCÍCIOS DO CAPÍTULO 1 41

1.22- Seja S um subconjunto não vazio e limitado de R. Dado


a ∈ R considere os conjuntos aS = {ax; x ∈ S } e
a + S = {a + x; x ∈ S }

a) Mostre que aS e a + S são não vazios e limitados.


b) Se a ≥ 0 mostre que sup(aS ) = a. sup S e inf(aS ) =
a. inf S .
c) Se a < 0 mostre que sup(aS ) = a. inf S e inf(aS ) =
a. sup S .
d) Mostre que sup(a + S ) = a + sup S e inf(a + S ) =
a + inf S .

1.23- Sejam S e T subconjuntos não vazios e limitados supe-


riormente de R. Demonstre que o conjunto

S + T = {x + y; x ∈ S e y ∈ T }

é não vazio, limitado superiormente e sup(S +T ) = sup S +


sup T.

1.24- Mostre que se f : A → B é sobrejetiva então existe uma


função g : B → A tal que f ◦ g = IB , onde IB denota a
função identidade de B em B. Em particular, g é injetiva.

1.25- Mostre que se f : A → B é injetiva então existe uma


função h : B → A tal que h ◦ f = IA , onde IA denota a
função identidade de A em A.

1.26- Mostre que a composta de duas funções bijetivas é uma


função bijetiva.

1.27- Sejam a e b números reais tais que a < b + 1n , para todo


n ∈ N. Mostre que a ≤ b.

1.28- Prove que 2n−1 ≤ n!, para todo n ∈ N.


42 CAPÍTULO 1. SISTEMAS DE NÚMEROS

1.29- Prove que o Primeiro Princı́pio de Indução e o Princı́pio


da Boa Ordenação são equivalentes em N..

1.30- Prove que se f : A → B é uma função sobrejetiva e A é


enumerável então B é também enumerável.

1.31- Sejam S e T subconjuntos de R não vazios e limitados


inferiormente. Demonstre que o conjunto

S + T = {x + y : x ∈ S e y ∈ T }

é não vazio, limitado inferiormente e inf(S + T ) = inf S +


inf T.

1.32- Mostre que se C é um conjunto enumerável e A é qual-


quer conjunto infinito então A ∪ C ' A, e que se B é
qualquer conjunto não enumerável então B − C ' B.

1.33- Mostre que:

i) Todos os intervalos abertos limitados de R são equipo-


tentes.
ii) Todos os intervalos abertos de R são eqüipotentes.
iii) Todos os intervalos de R são equipotentes.

1.34- Prove que para qualquer coleção C de subconjuntos de


um conjunto X tem-se:
[ \ \ [
X− A= (X − A) e X − A= (X − A).
A∈C A∈C A∈C A∈C

Em palavras temos “O complementar da união é a interseção


dos complementares” e “O complementar da interseção
é a união dos complementares”.
1.8. EXERCÍCIOS DO CAPÍTULO 1 43

1.35- Dado X um conjunto finito qualquer, denote por #(X) o


número de elementos de X . Mostre que se A e B são
conjuntos finitos então

#A + #B = #(A ∪ B) + #(A ∩ B)

1.36- Seja C uma coleção de subconjuntos de um conjunto X .


Prove que, para qualquer função f : X → Y tem-se:
[ [
a) f ( A) = f (A).
A∈C A∈C
\ \
b) f ( A) ⊂ f (A).
A∈C A∈C
c) f (A − B) ⊃ f (A) − f (B) para todo A e B de C.
d) f é injetiva se, e somente se, f (A − B) = f (A) − f (B)
para todo A e B de C.
\ [
e) Se f é injetiva então f ( A) = f (A).
A∈C A∈C

f) Se f (A ∩ B) = f (A) ∩ f (B) para todo A e B de C então


f é injetiva.

1.37- Seja C uma coleção de subconjuntos de um conjunto Y .


Prove que, para qualquer função f : X → Y tem-se que:
[ [
a) f −1 ( B) = f −1 (B).
B∈C B∈C
\ \
b) f ( B) =
−1
f −1 (B).
B∈C B∈C

c) f (C − D) = f −1 (C) − f −1 (D) para todo C e D de C.


−1

d) f −1 ( f (A)) ⊃ A para todo A ⊂ X.


e) f −1 ( f (A)) = A para todo A ⊂ X se, e somente se, f é
injetiva.
44 CAPÍTULO 1. SISTEMAS DE NÚMEROS

f) f ( f −1 (B) ⊂ B para todo B ⊂ Y.


e) f ( f −1 (B) = B para todo B ⊂ Y se, e somente se, f é
sobrejetiva.

1.38- Prove que todo conjunto infinito contém um subconjunto


enumerável.

1.39- Prove que todo conjunto infinito contém um subconjunto


próprio ao qual é equipotente.

1.40- Seja C uma coleção enumerável de conjuntos dois a


dois disjuntos tal que, para todo A ∈ C, A ' R. Mostre
que [
A ' R.
A∈C

1.41- Mostre que se A e B são contáveis então A×B é contável.

1.42- Mostre que se A1 , A2 , · · · , An são contáveis então A1 ×


A2 × · · · × An é contável. Conclua que Qn é enumerável.

1.43- Dado um conjunto A denote por PA a coleção de todos


os subconjuntos de A. Mostre que:

a) Se A possui n elementos então PA possui 2n elemen-


tos.
b) Se A é enumerável então PA ' R. Em particular PN '
R.
c) Se A é qualquer conjunto então PA não é equipotente
a A.

1.44- Mostre que qualquer coleção de intervalos abertos dois


a dois disjuntos de R é contável.
1.8. EXERCÍCIOS DO CAPÍTULO 1 45

1.45- Prove que o conjunto dos polinômios

a0 + a1 x + a2 x2 + · · · + an xn

com coeficientes inteiros é enumerável.

1.46- Um número real é dito algébrico14 se é raiz de um polinômio


com coeficientes inteiros. Mostre que o conjunto dos
números algébricos é enumerável.

14
Um número real que não é algébrico é chamado de transcendente.
46 CAPÍTULO 1. SISTEMAS DE NÚMEROS
Capı́tulo 2

Seqüências Numéricas

2.1 Introdução
A noção de limite tem uma posição destacada em Análise
Matemática. Os principais conceitos ou resultados desse ramo
da Matemática geralmente estão relacionados a algum tipo de
limite.
A maneira mais simples, do ponto de vista pedagógico, de
se introduzir o conceito de limite é por meio de seqüências de
números reais. Nosso objetivo geral aqui é analisar tal con-
ceito, estudando suas propriedades e demonstrando os prin-
cipais resultados que serão de interesse para este e para os
próximos capı́tulos.

2.2 Seqüências de Números Reais


Uma seqüência ou sucessão de números reais é uma função

a : N −→ R
n 7−→ a(n) = an

47
48 CAPÍTULO 2. SEQÜÊNCIAS NUMÉRICAS

que a cada n ∈ N associa um número an ∈ R, chamado de


termo geral ou de n-ésimo termo da seqüência. Representa-
mos uma seqüência por (an )n∈N , ou (a1 , a2 , . . . , an , . . . ) ou sim-
plesmente por (an ).

Exemplo 2.1 Estão dados abaixo alguns exemplos de seqüências.


   
a) 1
n n∈N
ou 1, 1
2
, 1
3
, 1
4
, 1
5
, ...

b) (n)n∈N ou (1, 2, 3, 4, 5, . . . )
√  √ √ √ √ √
c) 2 ou ( 2, 2, 2, 2, 2, . . . )
n∈N

d) ((−1)n )n∈N ou (−1, 1, −1, 1, −1, . . . )

É importante aqui fazer a distinção entre entre a notação


(a1 , a2 , . . . , an , . . . ), para a seqüência, e {an ; n ∈ N}, para a
sua imagem. Na notação (a1 , a2 , . . . , an , . . . ) entende-se a
listagem de um número infinito de termos, enquanto que sua
imagem tanto pode ser infinita, como finita e até mesmo ser
um conjunto unitário, como ocorre com qualquer seqüência
constante, como, por exemplo, a seqüência do item c) do Ex-
emplo 2.1.
Uma subseqüência de uma seqüência (an ) é a restrição da
mesma a um subconjunto infinito N0 = {n1 < n2 < · · · < nk <
. . . } ⊂ N. Escrevemos (ank )k∈N , ou (an1 , an2 , . . . , ank , . . . ) ou (ank )
para denotar uma subseqüência.

Exemplo 2.2 Considere a seqüência

((−1)n )n∈N = (−1, 1, −1, 1, −1, 1, . . . )

e sejam P = {2, 4, 6, 8, 10, . . . } o subconjunto de N for-


mado pelos naturais pares e I = {1, 3, 5, 7, 9, . . . } o for-
mado pelos naturais ı́mpares. Temos que P e I são infinitos.
2.2. SEQÜÊNCIAS DE NÚMEROS REAIS 49

Para estes subconjuntos temos as seguintes subseqüências


da seqüência original:

((−1)n )n∈P = (1, 1, 1, 1, 1, 1, . . . )


e
((−1)n )n∈I = (−1, −1, −1, −1, −1, −1, . . . ).

Observemos que se N0 é um subconjunto próprio e infinito


de N e se a : N → R é uma seqüência, então, a rigor, a sub-
seqüência a|N0 : N0 → R não seria uma seqüência uma vez
que seu domı́nio é N0 , N. No entanto, conforme o estudante
poderá verificar nos exercı́cios deste capı́tulo, podemos sem-
pre considerar uma subseqüência como uma função real cujo
domı́nio é N.
Dizemos que uma seqüência é limitada superiormente (re-
spec. limitada inferiormente) quando existe M ∈ R tal que
an ≤ M, ∀n ∈ N (respec. an ≥ M, ∀n ∈ N). Quando (an ) é
simultaneamente limitada superiormente e inferiormente dize-
mos que é limitada, o que é eqüivalente a dizer que existe
M > 0 tal que |an | ≤ M, ∀n ∈ N. Evidentemente, toda sub-
seqüência de uma seqüência limitada (superiormente, inferi-
ormente ou os dois) é também limitada (superiormente, inferi-
ormente ou os dois).
Uma seqüência (an ) é denominada não decrescente quando
an ≤ an+1 para todo n ∈ N. Quando vale a desiguldade es-
trita dizemos que a seqüência é crescente. Analogamente
define-se seqüências não crescentes e seqüências decres-
centes. Classificamos tais tipos de seqüências como seqüências
monótonas.
A seguir damos exemplos de algumas seqüências de inter-
esse em Cálculo e em Análise Matemática.

Exemplo 2.3 Fixado q ∈ R, consideremos a seqüência (an )


cujo termo geral é an = qn , ∀n ∈ N. Quando q = 0 ou q =
50 CAPÍTULO 2. SEQÜÊNCIAS NUMÉRICAS

1 temos as seqüências (0, 0, 0, . . . ) e (1, 1, 1, . . . ), respectiva-


mente. Se 0 < q < 1, então, para todo n ∈ N temos 0 < qn < 1
e qn+1 < qn , logo (an ) é limitada e decrescente. Se q > 1 então
qn+1 > qn para todo n ∈ N, portanto a seqüência é crescente.
Além disso, sendo q > 1, tem-se q = 1 + d para algum d > 0 e,
da desigualdade de Bernoulli (vide Exercı́cio 1.4 do Capı́tulo
1), qn = (1 + d)n ≥ 1 + nd, ∀n ∈ N, isto é, (an ) é não limitada
superiormente. Se −1 < q < 0 a seqüência não é monótona
(seus termos são, alternadamente, positivos e negativos) mas
é ainda limitada pois |qn | = |q|n < 1, ∀n ∈ N. Se q = −1 a
seqüência é (−1, 1, −1, 1, . . . ) que não é monótona mas é lim-
itada. Finalmente se q < −1 a seqüência não é monótona
(seus termos se alternam de sinal) e é não limitada, uma vez
que as suas subseqüências (a2n−1 ) e (a2n ) são ilimitadas, re-
spectivamente, inferiormente e superiormente.

Exemplo 2.4 Seja 0 < q < 1 e consideremos a seqüência


n
X
que tem como termo geral bn = q j . A seqüência (bn ) é
j=0
claramente crescente e, da fórmula da soma dos n primeiros
termos de uma progressão geométrica de razão q, temos

1 − qn+1 1 qn+1 1
bn = = − < ·
1−q 1−q 1−q 1−q
1
Portanto 1 < bn < , ∀n ∈ N, logo limitada.
1−q

Exemplo 2.5 Consideremos a seqüência (cn ) cujo termo geral


n
X 1
é cn = . Tal seqüência é, evidentemente, crescente. Temos
j=0
j!
também que
1 1
≤ n−1 , ∀n ≥ 1,
n! 2
2.3. LIMITE DE UMA SEQÜÊNCIA 51

conforme se comprova no Exercı́cio 1.28 do Capı́tulo 1. Logo,


para todo n ≥ 1, temos
n−1
X 1 1 − ( 12 )n
2 ≤ cn < 1 + =1+ < 3,
j=0
2j 1 − 21

usando q = 12 no exemplo anterior. Observe que obtivemos,


para n ≥ 2, 2 < cn < 3.

Exemplo 2.6 Seja


! a seqüência (zn ) cujo termo geral é dado
n
1
por zn = 1+ . Usando o desenvolvimento binomial de
n
Newton1 obtemos
!n
1 n n(n − 1) n(n − 1)(n − 2) · · · 1
1+ =1+ + 2
+ ··· + =
n n 2!n n!nn
      
1 − n1 1 − n1 1 − 2n · · · 1 − n−1
n
2+ + ··· + <
2! n!
1 1
2 + + ··· + = cn ,
2! n!
onde cn é o termo geral da seqüência do exemplo anterior.
Portanto a seqüência (zn ), a qual é claramente crescente, é
também limitada e, além disso, 2 < zn < cn < 3 para todo
n ≥ 2.

2.3 Limite de Uma Seqüência


Definição 2.1 Dizemos que um número L é o limite de uma
seqüência (an ) se, para cada ε > 0, existir N(ε) ∈ N tal que
|an − L| < ε para todo n ≥ N(ε).
1
Isaac Newton (1642-1727).
52 CAPÍTULO 2. SEQÜÊNCIAS NUMÉRICAS

Quando uma seqüência (an ) possui limite L dizemos que


(an ) converge para L, ou é convergente para L, e denotamos
tal fato simbolicamente por lim an = L, ou lim an = L ou ainda
n→∞
por an −→ L.
Quando uma seqüência não é convergente dizemos que é
divergente.
Observação: Na Definição 2.1 escrevemos N(ε) para explic-
itar a dependência do natural N ao número ε > 0 dado. No
entanto, para não sobrecarregar a notação e sempre que não
houver risco de ambigüidade, escreveremos simplesmente N.

Proposição 2.1 O limite de uma seqüência convergente é único.

Prova: Seja (an ) convergente. Suponhamos, por contradição,


que an −→ L e an −→ L0 com L , L0 . Vamos supor, sem perda
da generalidade, que L > L0 . Sendo assim, podemos tomar
L − L0
ε= > 0. Neste caso existiriam N1 e N2 em N tais que
2
|an − L| < ε, ∀n ≥ N1 e |an − L0 | < ε, ∀n ≥ N2 . Agora, se
n > max{N1 , N2 } terı́amos

3L0 − L L + L0 L + L0 3L − L0
! !
an ∈ , ∩ , = ∅,
2 2 2 2

o que é um absurdo.
O significado intuitivo do fato de (an ) possuir limite L é que,
estabelecendo-se uma margem de erro mediante um número
positivo ε, podemos aproximar todos os termos da seqüência,
a partir de N(ε), por L e o erro cometido com esta aproximação
é menor que ε.

Exemplo 2.7 Considere a seqüência (an ) cujo termo geral é


1
an = . Então lim an = 0. De fato, dado ε > 0, a propriedade
n n→∞
2.3. LIMITE DE UMA SEQÜÊNCIA 53

arquimediana dos reais garante que existe N ∈ N tal que Nε >


1
1, isto é < ε. Logo, para qualquer n ≥ N
N

1 − 0 = 1 ≤ 1 < ε.
n n N

Exemplo 2.8 Considere a seqüência (an ) cujo termo geral é


1
an = 1 − . Então lim an = 1. De fato, observe que
2n n→∞

1 1
|an − 1| = − n = n

2 2
e pela desigualdade de Bernoulli temos

2n = (1 + 1)n ≥ 1 + n > n, ∀n ∈ N
1 1
logo n
< , ∀n ∈ N. Ou seja,
2 n
1 1
|an − 1| = n
< , ∀n ∈ N.
2 n
1
Assim, dado ε > 0 considere N ∈ N tal que < ε. Logo, para
N
qualquer n ≥ N
1 1
|an − 1| = ≤ < ε.
n N
Exemplo 2.9 A seqüência ((−1)n )n∈N é divergente. Com efeito,
1
se existisse L ∈ R tal que (−1)n −→ L então, para ε = ,
2
1
existiria N ∈ N tal que ∀n ≥ N terı́amos |(−1)n − L| < , isto
2
1 1
é |L + 1| < e |L − 1| < . Em outras palavras, terı́amos
!2 ! 2
3 1 1 3
L∈ − , − ∩ , = ∅, o que é um absurdo.
2 2 2 2
54 CAPÍTULO 2. SEQÜÊNCIAS NUMÉRICAS

A seqüência do exemplo anterior é um exemplo de uma


seqüência limitada que não é convergente. A recı́proca deste
fato, no entanto, é verdadeira, como mostra a proposição a
seguir.

Proposição 2.2 Toda seqüência convergente é limitada.

Prova: Seja (an ) uma seqüência convergente para L. Con-


siderando ε = 1 temos que existe N ∈ N tal que |an − L| < 1,
para todo n ≥ N. Como

|an | = |an − L + L| ≤ |an − L| + |L|

então, para todo n ≥ N temos |an | < 1 + |L|. Tomemos agora

M = max{|a1 |, |a2 |, . . . , |aN−1 |, 1 + |L|}

e obtemos |an | ≤ M, ∀n ∈ N, demonstrando que (an ) é limi-


tada.
As seqüências convergentes apresentam um comportamento
plenamente compatı́vel com as operações algébricas de R,
conforme explicitado na proposição a seguir.

Proposição 2.3 Sejam (an ) e (bn ) com an −→ a e bn −→ b.


Então:

i) (an + bn ) é convergente e an + bn −→ a + b;

ii (an bn ) é convergente e an bn −→ ab;


1 1
iii) Se ∀n ∈ N bn , 0 e também b , 0 então −→
bn b
an a
iii) Se b , 0 e bn , 0 ∀n ∈ N então −→
bn b
2.3. LIMITE DE UMA SEQÜÊNCIA 55

Prova: Para provar i) seja ε > 0 dado. Então existem N1 e N2


ε
em N tais que n ≥ N1 acarreta |an − a| < e n ≥ N2 acarreta
2
ε
|bn − b| < . Agora, se n ≥ max{N1 , N2 } temos
2
ε ε
|(an + bn ) − (a + b)| ≤ |an − a| + |bn − b| < + = ε.
2 2
Para a prova de ii) sabemos, em primeiro lugar, que, de acordo
com a Proposição 2.1, existe M > 0 tal |an | ≤ M, ∀n ∈ N. Seja
agora ε > 0. Então existem N1 ∈ N tal que
ε
n ≥ N1 ⇒ |an − a| <
2(1 + |b|)
e N2 ∈ N tal que
ε
|bn − b| < .
2M
Portanto, se n ≥ max{N1 , N2 } temos

|an bn − ab| = |an (bn − b) + b(an − a)| ≤

|an (bn − b)| + |b(an − a)| = |an ||bn − b| + |b||an − a| <


ε ε ε ε
M + |b| ≤ + = ε.
2M 2(1 + |b|) 2 2
Para provar iii) seja ε > 0 dado. Temos que existe N1 ∈ N tal
|b|
n ≥ N1 ⇒ |bn − b| < .
2
Mas, |bn − b| = |b − bn | ≥ |b| − |bn | e, portanto,
|b|
n ≥ N1 ⇒ |bn | > .
2
Também existe N2 ∈ N tal que

ε|b|2
n ≥ N2 ⇒ |bn − b| < .
2
56 CAPÍTULO 2. SEQÜÊNCIAS NUMÉRICAS

Agora, se n ≥ max{N1 , N2 } temos


ε|b|2
1 − 1 = b − bn = |bn − b| < 2
= ε.
bn b bbn |b||bn | |b|
2
|b|

Para a prova de iv) use iii) e ii).


A seguir apresentamos algumas proposições que estab-
elecem propriedades importantes que as seqüências conver-
gentes satisfazem e que são bastante úteis no cálculo de lim-
ites e em demonstrações de outros resultados de análise.

Proposição 2.4 Se (an ) converge e lim an = a então (|an |)


n→∞
converge e lim |an | = |a|.
n→∞

Prova: Dado ε > 0 existe N ∈ N tal que |an − a| < ε se n ≥ N.


Mas
| |an | − |a| | ≤ |an − a|
donde | |an | − |a| | < ε se n ≥ N.
É importante observar que a recı́proca da proposição an-
terior não é verdadeira, a menos que a = 0 (vide Exercı́cio 2.7
deste Capı́tulo), como podemos constatar com o exemplo da
seqüência divergente ((−1)n ) cuja seqüência obtida tomando-
se o valor absoluto de cada termo é a seqüência constante e
igual a 1, portanto, convergente.

Proposição 2.5 Sejam (an ), (bn ) e (cn ) seqüências tais que


an ≤ bn ≤ cn para todo n ∈ N. Se lim an = lim cn = a então
n→∞ n→∞
lim bn = a.
n→∞

Prova: Dado ε > 0 existem naturais N1 e N2 tais que

n ≥ N1 ⇒ |an − a| < ε
2.3. LIMITE DE UMA SEQÜÊNCIA 57

e
n ≥ N2 ⇒ |cn − a| < ε.
Tome N = max{N1 , N2 }. Então

n ≥ N ⇒ |an − a| < ε e |cn − a| < ε.

Mas an ≤ bn ≤ cn para todo n. Logo an − a ≤ bn − a ≤ cn − a


para todo n. Se n ≥ N temos também

−ε < an − a ≤ bn − a ≤ cn − a < ε

isto é |bn − a| < ε, como querı́amos.


Corolário: Sejam (bn ) e (cn ) seqüências de números reais
tais que 0 ≤ |bn | ≤ cn para todo n ∈ R e lim cn = 0. Então
n→∞
lim bn = 0.
n→∞

Exemplo 2.10 Considere a seqüência (an ), com a um número


real fixo. Suponhamos que 0 < |a| < 1. Vamos verificar que
1
lim an = 0. De fato, sendo 0 < |a| < 1 então > 1. Seja
n→∞ |a|
1
x= − 1. Temos que x > 0 e |a| = 1+x
1
. Pela Desigualdade
|a|
de Bernoulli temos (1 + x) ≥ 1 + nx. Assim, para todo n ∈ N
n

temos
1 1
|a|n = ≤ .
(1 + x)n 1 + nx
Mas, |a|n = |an | donde
1 1
0 ≤ |an | ≤ < , para todo n ∈ N.
1 + nx nx
Usando o Corolário anterior temos que lim an = 0.
n→∞

Proposição 2.6 Seja (an ) uma seqüência convergente e tal


que an ≥ 0 para todo n ∈ N. Então lim an ≥ 0.
n→∞
58 CAPÍTULO 2. SEQÜÊNCIAS NUMÉRICAS

Prova: Suponhamos, por contradição, que lim an = a < 0.


n→∞
Então, existe N ∈ N tal que |an − a| < − a2 se n ≥ N. Portanto
an − a < − 2a donde an < a2 < 0, para todo n ≥ N, o que é uma
contradição.
Corolário: Sejam (an ) e (bn ) seqüências convergentes de
números reais tais que an ≥ bn para todo n ∈ N. Então lim an ≥
n→∞
lim bn .
n→∞
Prova: É suficiente considerar cn = an − bn ≥ 0.

Exemplo 2.11 Considere uma seqüência (a√n ) com an ≥ 0 para



todo n ∈ N e lim an = a. Então lim an = a. Com efeito, se
n→∞ n→∞
for a > 0 temos
 √ √   √ √ 
√ √ an − a an + a |an − a|
an − a = √ √ = √ √ .
an + a an + a
Agora
√ √ √ 1 1
an + a ≥ a ⇒ √ √ ≤ √
an + a a
donde obtemos
√ √ |a − a|
an − a ≤ n√ .
a
Dado ε > 0 existe N ∈ N tal que

n ≥ N ⇒ |an − a| < ε a.
Logo, para n ≥ N

√ √ |an − a| ε a
an − a ≤ √ < √ = ε,
a a
√ √
ou seja, lim an = a. Se tivermos a = 0, dado ε > 0 existe
n→∞

N ∈ N tal que an < ε2 para todo n ≥ N. Logo, an < ε o que

significa lim an = 0.
n→∞
2.3. LIMITE DE UMA SEQÜÊNCIA 59

A seguir estabeleceremos algumas proposições importantes


a respeito de seqüências (e subseqüências) que conduzem a
um dos resultados principais deste capı́tulo que é o Teorema
de Bolzano-Weierstrass.2,3

Proposição 2.7 Seja (an ) uma seqüência convergente para L.


Então toda subseqüência de (an ) converge para L.

Prova: Seja (ank ) uma subseqüência de (an ). Em primeiro lugar


observemos que, sendo n1 < n2 < n3 < · · · < nk . . . , temos
n1 ≥ 1, n2 ≥ 2, n3 ≥ 3 e, em geral, nk ≥ k para todo k ∈ N.
Considere agora ε > 0 dado. Então existe N ∈ N tal que
n ≥ N acarreta |an − L| < ε. Em particular, para nk ≥ N temos
|ank − L| < ε. Mas, nk ≥ k para todo k ∈ N e, portanto,

k ≥ N ⇒ nk ≥ N ⇒ |ank − L| < ε.

Em outras palavras lim ank = L.


k→∞

Proposição 2.8 Seja (an ) uma seqüência não decrescente e


limitada superiormente. Então (an ) é convergente.

Prova: Sendo (an ) uma seqüência limitada superiormente então


existe M = sup{an ; n ∈ N}. Mostremos que M é o limite de (an ).
De fato, dado ε > 0 existe N ∈ N tal que M − ε < aN . Sendo
(an ) não decrescente temos que n ≥ N acarreta an ≥ aN . Como
M = sup{an ; n ∈ N} então

n ≥ N ⇒ M − ε < aN ≤ an ≤ M < M + ε,

ou seja |an − M| < ε, para todo n ≥ N.


2
Bernard Bolzano (1871-1848).
3
Karl Wierstrass (1815-1897).
60 CAPÍTULO 2. SEQÜÊNCIAS NUMÉRICAS

Um resultado análogo ocorre para seqüências não cres-


centes e limitadas inferiormente (faça-o como exercı́cio). Com-
binando estes dois últimos resultados temos o seguinte:
Corolário: Toda seqüência monótona e limitada é conver-
gente.
Voltando agora aos Exemplos 2.4, 2.5 e 2.6 podemos con-
cluir que todas as seqüências ali exibidas são convergentes.
Conforme anunciamos, apresentamos agora um resultado
fundamental a respeito de seqüências numéricas. Trata-se do

Teorema 2.1 (Bolzano-Weierstrass) Toda seqüência limitada


possui uma subseqüência convergente.

Prova: É suficiente mostrar que toda seqüência (limitada ou


não) possui uma subseqüência monótona. Em seguida, us-
ando a hipótese de a seqüência ser limitada segue, do Corolário
da Proposição 2.8, o resultado. Para justificar que toda seqüência
possui uma subseqüência monótona considere (an ) uma seqüência
qualquer. Dizemos que um seu termo an é um termo desta-
cado se am ≤ an , para todo m > n. Por exemplo, uma seqüência
monótona não decrescente não possui termos destacados,
enquanto que para uma seqüência monótona não crescente
todos os seus termos são destacados. Denotemos por D o
conjunto dos ı́ndices n tais que an é um termo destacado de
(an ). As possibilidades para D são:
D é infinito. Isto é, D = {n1 < n2 < · · · < nk < . . . }. Neste caso,
sendo an1 destacado, am ≤ an1 , para todo m > n1 . Em
particular an2 ≤ an1 . Do mesmo modo am ≤ an2 , para todo
m > n2 , em particular an3 ≤ an2 . Assim, a subseqüência
(an1 , an2 , . . . , ank , . . . ) é monótona não crescente.

D é finito. Sendo assim, seja n1 ∈ N maior que todos os ele-


mentos de D. Então an1 não é destacado, logo podemos
encontrar an2 com n2 > n1 , e an2 > an1 . Do mesmo modo
2.4. SEQÜÊNCIAS DE CAUCHY 61

an2 não é destacado e podemos prosseguir construindo


uma subseqüência de (an ) que é monótona crescente.

D é vazio. Neste caso, como já observamos anteriormente, a


própria seqüência (an ) é monótona não decrescente.

Muito bem! Sabendo-se agora que toda seqüência possui uma


subseqüência monótona, e as subseqüências de um seqüência
limitada são também limitadas, segue o resultado.

2.4 Seqüências de Cauchy


Definição 2.2 Uma seqüência (an ) é denominada seqüência
de Cauchy se, para cada ε > 0 existe um N(ε) tal que

m, n ≥ N(ε) ⇒ |am − an | < ε.

Em outras palavras, significa dizer que quando uma seqüência


é de Cauchy os seus termos ficam arbitrariamente próximos
uns dos outros a partir de um determinado ı́ndice.
!
1
Exemplo 2.12 A seqüência é de Cauchy pois, se ε > 0
n
é dado, considere N ∈ N tal que Nε > 2, cuja existência é
garantida pela Propriedade Arquimediana de R. Então
ε ε

1 1 1 1 1 1
m, n ≥ N ⇒ − ≤ + ≤ + < + = ε.

n m n m N N 2 2
Proposição 2.9 Toda seqüência corvergente é de Cauchy.

Prova: Seja (an ) uma seqüência convergente para o limite L.


Dado ε > 0 existe N ∈ N tal que
ε
n ≥ N ⇒ |an − L| < .
2
62 CAPÍTULO 2. SEQÜÊNCIAS NUMÉRICAS

Portanto, para m, n ≥ N,
ε ε
|am − an | ≤ |am − L| + |an − L| < + = ε.
2 2

Proposição 2.10 Toda seqüência de Cauchy é limitada.

Prova: Seja (an ) uma seqüência de Cauchy. Para ε = 1 existe


N ∈ N tal que

m, n ≥ N ⇒ |am − an | < 1.

Pela desigualdade triangular temos que, para todo n ≥ N,

|an | = |an − aN + aN | ≤ |an − aN | + |aN | < 1 + |aN |.

Seja M = max{|a1 |, |a2 |, . . . , |aN−1 |, 1 + |aN |} e temos que |an | ≤


M para todo n ∈ N.

Proposição 2.11 Toda seqüência de Cauchy de R é conver-


gente.

Prova: Seja (an ) uma seqüência de Cauchy. Temos que (an ) é


limitada, pela proposição anterior. Pelo Teorema de Bolzano-
Weierstrass (an ) possui uma subseqüência (ain ) convergente
para o limite L. Dado ε > 0 existe N1 ∈ N tal que
ε
in ≥ N1 ⇒ |ain − L| < .
2
Por outro lado, sendo (an ) de Cauchy, existe N2 ∈ N tal que
ε
n, m ≥ N2 ⇒ |an − am | < .
2
2.4. SEQÜÊNCIAS DE CAUCHY 63

Tomemos N3 = max{N1 , N2 }. Como in ≥ n para todo n ∈ N,


teremos n ≥ N3 acarretando in ≥ N3 , donde
ε ε
|an − L| ≤ |an − ain + ain − L| ≤ |an − ain | + |ain − L| < + =ε
2 2
isto é, lim an = L.
n→∞

A Propopsição 2.11 não é verdadeira em Q pois qualquer


seqüência de racionais convergindo para um irracional
√ (por ex-
emplo a seqüência das aproximações decimais de 2) é uma
seqüência de Cauchy em R e, em particular em Q, que não
converge em Q. Na seção 4.3.4 do Capı́tulo 4 voltaremos a
tratar dessa questão.
64 CAPÍTULO 2. SEQÜÊNCIAS NUMÉRICAS

2.5 Exercı́cios do Capı́tulo 2


2.1- Calcule os limites abaixo:
3n2 + 4n − 2
a) lim
n→∞ 2n2 + 1
√ √
b) lim ( n + 3 − n)
n→∞
r 
1
c) lim n  1 + − 1
 
n→∞ n
!
1 2 n
d) lim 2 + 2 + · · · + 2
n→∞ n n n
sen (n)
e) lim
n→∞ n
1 1 1
2.2- Calcule lim an onde an = + + ··· + .
n→∞ 1.2 2.3 n(n + 1)
1
2.3- Mostre que lim = 0.
n→∞ 2n

2.4- Seja S ⊂ R não vazio e limitado superiormente, e seja


M = sup S . Mostre que existe uma seqüência (xn ) de
elementos de S tal que lim xn = M.
n→∞

(−1)n sen(n)
2.5- A seqüência (xn ) tal que xn = possui alguma
3
subseqüência convergente? Justifique sua resposta.

2.6- Sejam (an ) e (bn ) seqüências convergentes para a e b, re-


spectivamente. Mostre que max{an , bn } converge max{a, b}
e min{an , bn } converge para min{a, b}.

2.7- Mostre que se lim |an | = 0 então lim an = 0.


n→∞ n→∞
2.5. EXERCÍCIOS DO CAPÍTULO 2 65

2.8- Mostre que se lim an = 0 e (bn ) é uma seqüência limitada


n→∞
então lim an bn = 0.
n→∞

√ q √ r q √
2.9- Mostre que a seqüência 2, 2 2, 2 2 2 · · · con-
verge para 2.

2.10- Mostre que lim n a = 1 se a > 0.
n→∞
√n
2.11- Mostre que lim n = 1.
n→∞

2.12- Mostre que:


xn+1
i) Se xn > 0, ∀n ∈ N, e lim = a < 1 então vale que
n→∞ xn
lim xn = 0.
n→∞
ii) Use o item anterior para mostrar que
nk αn
lim = lim = 0,
n→∞ αn n→∞ n!

onde k ∈ N e α > 1.

2.13- Use a parte i) do problema anterior e o fato de que


!n
1
lim 1 + =e
n→∞ n
n!
para mostrar que lim = 0.
n→∞ nn

2.14- Dadas (xn ) e (yn ) defina (zn ) pondo z2n−1 = yn e z2n = xn .


Prove que lim xn = lim yn = a se, e somente se, lim zn =
n→∞ n→∞ n→∞
a.
2.15- Suponha que existe ε > 0 tal que ε ≤ xn ≤ n2 para todo

n suficientemente grande. Prove que lim n xn = 1.
n→∞
66 CAPÍTULO 2. SEQÜÊNCIAS NUMÉRICAS

x1 + x2 + · · · + xn
2.16- Se lim xn = a prove que lim = a. A
n→∞ n→∞ n
recı́proca é verdadeira? Justifique sua resposta.

2.17- Seja (xn ) uma seqüência com a seguinte propriedade:


existe um número p ∈ N tal que xn+p = xn ∀n ∈ N. Prove
que se (xn ) é convergente então (xn ) é constante.

2.18- Prove que se uma seqüência monótona tem uma sub-


seqüência convergente então ela própria é convergente.

2.19- Dados√a, b ∈ R+ defina as seqüências (xn ) e (yn ) pondo


√ x +y
x1 = ab, y1 = a+b 2
e xn+1 = xn yn , yn+1 = n 2 n . Prove
que (xn ) e (yn ) convergem para o mesmo limite.

2.20- Se 0 < r < 1 e uma seqüência (xn ) satisfaz a desigual-


dade |xn+1 − xn | < rn , ∀ n ∈ N, mostre que (xn ) é de
Cauchy.
1
2.21- Sejam a > 0 e b > 0. Mostre que lim (an + bn ) n =
n→∞
max{a, b}.

2.22- Mostre que a seqüência (xn ) tal que

1 1 1
xn = 1 + + + ··· +
2 3 n
é divergente.

2.23- Mostre que a seq


√üência (an ) definida recursivamente por
a1 = 1 e an = 1 + an , n ≥ 2, converge e calcule seu
limite.

2.24- Mostre que se (an ) é não crescente e limitada inferior-


mente então (an ) converge e seu limite é o inf{an ; n ∈ N}.
2.5. EXERCÍCIOS DO CAPÍTULO 2 67

2.25- Mostre que lim an = a se, e somente se, toda sub-


n→∞
seqüência (ank ) de (an ) possui subseqüências (ank j ) tal
que lim ank j = a.
j→∞

2.26- Mostre que se uma seqüência de Cauchy (an ) tem uma


subseqüência que converge para a, então lim an = a.
n→∞

2.27- Seja (xn ) tal que xn = (1 + a)(1 + a2 ) · · · (1 + an ). Mostre


que lim xn existe se 0 ≤ a ≤ 1.
n→∞

2.28- Seja x1 > 0 dado. Para n > 1 defina xn = 1


1+xn−1
. Mostre
que lim xn existe e determine-o.
n→∞

1 1 1
2.29- Seja (xn ) tal que xn = 1 + 1 + + + · · · + . Use o
2! 3! n!
critério de Cauchy para mostrar que lim xn existe.
n→∞

2.30- Seja (xn ) uma seqüência tal que |xn+1 −xn | ≤ cn e suponha
Xn
que a seqüência (sn ) = ck converge. Então (xn ) con-
k=1
verge.

2.31- Prove que se (xn ) converge então, para cada p ≥ 1,

lim (an+p − an ) = 0.
n→∞

2.32- Seja x1 = 1 e defina xn+1 = 2 − x1n . Mostre que (xn ) é


monótona e limitada. Calcule lim xn .
n→∞

2.33- A seqüência (an ) definida como sendo a1 = 1, a2 = 1


e an+2 = an+1 + an para n = 1, 2, 3 . . . , conhecida como
seqüência de Fibonacci4 , é claramente divergente mas,
4
Fibonacci, também conhecido como Leonardo de Pisa (1175-1250).
68 CAPÍTULO 2. SEQÜÊNCIAS NUMÉRICAS

an+1
a seqüência (rn ) dada por rn = converge. Prove a
an
última afirmação e calcule lim rn . Sugestão: Prove que
n→∞
(r2k ) é não crescente e limitada inferiormente e (r2k−1 ) é
não decrescente e limitada superiormente.
Capı́tulo 3

Séries Numéricas

3.1 Introdução
A ideia de “série infinita” surge quando imaginamos a operação
de somar sucessivamente sem que essa operação termine
após um número finito de parcelas. Um exemplo motivador
para essa questão pode ser visto ao considerarmos o seguinte
problema geométrico simples. Dado um quadrado de área
igual a 2, ao traçarmos uma das suas diagonais dividimo-lo
em dois triângulos retângulos cada um com área igual a 1. Em
seguida dividamos um dos triângulos ao meio traçando a bis-
setriz do seu ângulo reto para obter dois triâgulos retângulos,
cada um com área igual a 1/2. Dividamos novamente um
dos triângulos de área 1/2 pela bissetriz de seu ângulo reto
para obter dois triângulos de áreas iguais a 1/4. Prosseguindo
com essas divisões indefinidamente, obtemos uma infinidade
de triângulos, cada um com área igual à metade da área do
anterior, e tais que a soma das áreas vale a área do quadrado
original. Em outras palavras, podemos dizer que a área do
quadrado original se exprime como a “soma infinita” das áreas
dos triângulos.

69
70 CAPÍTULO 3. SÉRIES NUMÉRICAS

Assim, podemos dizer que

1 1 1 1 1
1+ + + + + + ... (3.1)
2 4 8 16 32
“possui” o valor 2 e escrevemos,

1 1 1 1 1
1+ + + + + + · · · = 2.
2 4 8 16 32
Vemos, deste modo, que o conceito de série infinita ex-
tende o conceito aritmético de soma de uma quantidade finita
de parcelas para soma de uma quantidade infinita de parcelas.
Evidentemente que faz-se necessário estabelecer as condições
matemáticas para dar sentido a tal conceito. O objetivo deste
capı́tulo é, portanto, introduzir o conceito matemático de série
de números reais, quando também apresentaremos diversos
exemplos e daremos os principais critérios e testes de con-
vergência.

3.2 Séries
Dada uma seqüência de números reais (an ), podemos for-
mar uma nova seqüência (sn ) da seguinte forma:

s1 = a1 ,
s2 = a1 + a2 ,
s3 = a1 + a2 + a3 ,
..
.
sn = a1 + a2 + · · · + an ,
..
.

O termo geral da seqüência (sn ) é chamado de n−ésima


soma parcial, ou de reduzida de ordem de n de (an ). A seqüência
3.2. SÉRIES 71

(sn ) assim obtida é chamada de série infinita, ou simplesmente



X
de série e é denotada por an .
n=1
Quando (sn ) converge para um limite S dizemos que a

X ∞
X
série an é convergente, e escrevemos an = S . Quando
n=1 n=1
uma série não é convergente dizemos que é divergente. Ob-
serve que, no caso de séries convergentes, estamos usando o

X
mesmo sı́mbolo an para denotar tanto a própria série como
n=1
o seu limite S .
É evidente que, na prática, deduzir se uma dada série con-
verge ou não, usando como argumento para tal dedução so-
mente a definição, pode ser um trabalho muito difı́cil. Neste
sentido, é importante termos critérios para podermos garantir
se uma dada série é convergente ou não.
Uma condição necessária para a convergência de uma série

X
é que seu termo geral tenha limite zero. De fato, se an é
n=1
convergente para S , ou seja, se lim sn = S , então
n→∞

lim an = lim (sn − sn−1 ) = lim sn − lim sn−1 = S − S = 0.


n→∞ n→∞ n→∞ n→∞

Esta condição, no entanto, não é suficiente para a convergência


de uma série, como mostra o importante exemplo a seguir.


X 1
Exemplo 3.1 (A Série Harmônica) Consideremos a série ,
n=1
n
1
chamada de Série Harmônica. Seu termo geral an = tem
n
limite zero, no entanto a série diverge. De fato, consideremos
a sua reduzida s2n de ordem 2n
72 CAPÍTULO 3. SÉRIES NUMÉRICAS

2n−1 parcelas
z }| {!
  1 1
s2n = 1 + 21 + 1
+ 1
+ · · · + n−1 + ··· + n >
3 4
2 +1 2
!
  1 1
1+ + 1
2
1
4
+ 1
4
+ ··· + + ··· + n =
2n 2
| {z }
2n−1 parcelas iguais a 1
2n

1 2 2n−1
1+ + + · · · + n = 1 + n 12 ·
2 4 {z
| 2}
n parcelas iguais a 1
2

Observe que para obtenção da desigualdade acima substitu-


imos em cada parêntesis todas as parcelas pela menor delas.
Vemos, assim, que a subseqüência (s2n ) de (sn ) cresce arbi-
trariamente, e, conseqüentemente, a seqüência (sn ) também
cresce.
A Série Harmônica se constitui num exemplo de uma série
divergente. Vamos agora apresentar um exemplo importante
de uma série convergente e que inclui como caso particular o
exemplo usado como motivação na Introdução deste capı́tulo.
Exemplo 3.2 (A Série Geométrica) Dado q ∈ R considere-

X
mos a série qn . Se |q| < 1 temos que lim qn = 0. Temos
n→∞
n=1
também (vide Exemplo 2.4 do Capı́tulo 2) que
q qn+1 q
sn = − = (1 − qn )
1−q 1−q 1−q
e, portanto,
q   q
lim sn = 1 − lim q =
n
·
n→∞ 1−q n→∞ 1−q
3.2. SÉRIES 73

Em muitos casos é mais prático considerar uma série com


o somatório iniciando em n = 0. Este é o caso da série geométrica

X 1
e temos qn = .
n=0
1−q
1
Para o caso particular da série geométrica com q = obte-
2
mos a série (3.1) da introdução deste Capı́tulo, ou seja

X 1
n
= 2.
n=0
2

Um critério de convergência para séries, muito importante


do ponto de vista teórico, é o chamado Critério de Cauchy para
séries dado pela proposição seguir.

Proposição 3.1 (Critério de Cauchy para séries) Uma série



X
an é convergente se, e somente se, para cada ε > 0 existe
n=1
N ∈ N tal que, para todo p ∈ N

n ≥ N ⇒ |an+1 + an+2 + · · · + an+p | < ε.


X
Prova: Uma série an é convergente se, e somente se, a
n=1
seqüência das somas parciais (sn ) é convergente. Uma vez
que em R uma seqüência é convergente se, e somente se, é

X
uma seqüência de Cauchy, resulta que an ser convergente
n=1
é eqüivalente a (sn ) ser de Cauchy, isto é, para cada ε > 0
existe N ∈ N tal que

n, m ≥ N ⇒ |sm − sn | < .
74 CAPÍTULO 3. SÉRIES NUMÉRICAS

Assim, se n ≥ N então, como qualquer que seja p ∈ N temos


n + p > N, logo

|sn+p − sn | = |an+1 + an+2 + · · · + an+p | < ,

como querı́amos.
As séries convergentes se comportam compativelmente com
as opreções algébricas de R, conforme estabelece a proposição
a seguir.


X ∞
X
Proposição 3.2 Se an e bn são séries convergentes e
n=1 n=1

X
α e β são constantes reais, então a série (αan + βbn ) é
n=1

X ∞
X
convergente. Além disso, se an = a e bn = b, então
n=1 n=1

X
(αan + βbn ) = αa + βb. Simbolicamente escrevemos
n=1


X ∞
X ∞
X
(αan + βbn ) = α an + β bn .
n=1 n=1 n=1

Prova: A prova segue do resultado correspondente aplicado


às seqüências das reduzidas.

3.2.1 Séries de Termos não Negativos


Apresentaremos aqui o principal critério de convergência
para séries de termos não negativos. Trata-se do Critério de
Comparação dado pela próxima Proposição.
3.2. SÉRIES 75

Proposição 3.3 (Critério de Comparação) Dadas as séries



X ∞
X
de de termos não negativos an e bn , se existir uma con-
n=1 n=1
stante C > 0 tal que an ≤ Cbn , ∀n ∈ N, então a convergência

X ∞
X ∞
X
de bn implica a de an e a divergência de an implica a
n=1 n=1 n=1
X∞
de bn .
n=1

Prova: Desde que an ≥ 0 e bn ≥ 0 para todo n ∈ N então



X ∞
X
as reduzidas (sn ) e (tn ) de an e bn , respectivamente,
n=1 n=1
são seqüências monótonas não decrescentes e, além disso,
sn ≤ Ctn , para todo n ∈ N. Se (tn ) for convergente então, em
particular, é limitada e, assim, (sn ) é limitada e monótona não
decrescente, portanto, convergente. Por outro lado, se (sn ) não
for convergente, sendo monótona não decrescente, é neces-
sariamente não limitada, o que implica na não limitação de (tn )

X
e, portanto na não convergência de bn .
n=1


X 1
Exemplo 3.3 A série é convergente uma vez
n=0
(n + 1)2n
que
1 1
≤ n
(n + 1)2 n 2

X 1
para todo n ∈ N e a série é convergente, como vimos
n=0
2n
anteriormente.

Observação: Na demonstração da Proposição 3.3 o argu-


mento utilizado foi, em outras palavras, o seguinte: uma série
76 CAPÍTULO 3. SÉRIES NUMÉRICAS


X
de termos não negativos an é convergente se, e somente
n=1
se, a seqüência (sn ) das suas reduzidas é limitada. Vamos
utilizar essa observação no exemplo a seguir.

X 1
Exemplo 3.4 ( p−séries) Considere a série p
, p ∈ R.
n=1
n
Vamos usar a Observação acima para mostrar que se p > 1

X 1
então p
é convergente. De fato, para n = 2m − 1 temos
n=1
n
   
1+ 1
2p
+ 1
3p
+ ··· + 1
(2m−1 ) p
+ ··· + 1
(2m −1) p
<
!
  1 1
1+ 1
2p
+ 1
2p
+ ··· + + · · · + p(m−1) =
2 p(m−1) 2
| {z }
2m−1 parcelas

1 2 1 m−1
   
2m−1
1+ 2
2p
+ ··· + 2(m−1)p
=1+ 1
2 p−1
+ 2 p−1
+ ··· + 2 p−1
,

onde, para a obtenção da desigualdade acima, substituimos


em cada parêntesis todos os termos pelo maior deles. Desde
1
que p − 1 > 0, então < 1. Logo a série geométrica
∞ !n 2 p−1
X 1
converge. Em particular a seqüência das suas so-
n=0
2 p−1
mas parciais é limitada. Segue que a seqüência das somas

X 1
parciais (sn ) da série p
, a qual é monótona não decre-
n=1
n

X 1
cente, é convergente. Assim, é convergente. Observe
n=1
np
1 1
que, para o caso p ≤ 1 temos que n p ≤ n e, assim, ≤ p.
n n
3.2. SÉRIES 77


X 1
Como a série é divergente, segue da Proposição 3.3 que
n=1
n

X 1
é divergente.
n=1
np

As séries convergentes de termos não negativos têm ainda


uma propriedade interessante, qual seja a de que o valor de
sua soma é independente da ordem em que os termos são so-

X
mados. Para formalizar esse resultado seja an uma série
n=1
de termos não negativos e convergente para o limite S 1 . Se
σ : N → N é uma bijeção de N e bn = aσ(n) , vamos mostrar que

X ∞
X
bn , obtida de an por uma reindexação, é convergente e
n=1 n=1
X∞ ∞
X
bn = S 1 . De fato, se tm é a m−ésima soma parcial de bn ,
n=1 n=1
consideremos j = max{σ(i); i = 1, 2, · · · , m} e s j a j−ésima

X
soma parcial de an . Então, claramente, tm ≤ s j ≤ S 1 . Logo
n=1

X
a seqüência das somas parciais de bn é limitada e, conse-
n=1
quentemente, é convergente (pois é não decrescente). Por-
tanto, existe S 2 ∈ R tal que lim tm = S 2 e, além disso, S 2 ≤ S 1 .
m→∞

X
Do mesmo modo, podemos pensar em an como obtida de
n=1

X
bn por uma reindexação e deduzimos que S 1 ≤ S 2 . Logo,
n=1
S1 = S 2.
78 CAPÍTULO 3. SÉRIES NUMÉRICAS

3.2.2 Séries Alternadas


Quando os termos de uma série se alternam de sinal dize-
mos que é uma série alternada. Uma série alternada é, por-

X ∞
X
tanto, uma série de um dos tipos (−1)n+1 an ou (−1)n an ,
n=1 n=1
onde an > 0 para todo n ∈ N.
Vimos que para uma série qualquer ser convergente é necess-
rio que o seu termo geral tenha limite zero. No caso das série
alternadas vale uma “quase recı́proca”, que é um resultado
conhecido como Critério de Leibniz1 para séries alternadas, e
está dado na proposição a seguir.

Proposição 3.4 (Critério de Leibniz) Seja (an ) uma seqüência


decrescente de termos positivos tal que lim an = 0. Então
n→∞

X
(−1)n+1 an é convergente.
n=1

Prova: Vamos analizar as reduzidas de ordem par, (s2n ) e as



X
de ordem ı́mpar, (s2n−1 ) de (−1)n+1 an . Temos que
n=1

s2n = (a1 − a2 ) + (a3 − a4 ) + · · · + (a2n−1 − a2n ),

sendo cada parcela entre parêntesis um número positivo. Logo


(s2n ) é uma seqüência crescente de termos positivos. Também
podemos escrever

s2n = a1 − (a2 − a3 ) − · · · − (a2n − a2n−1 ),

e sendo cada parcela entre parêntesis um número positivo de-


duzimos que 0 < s2n < a1 para todo n ∈ N. Portanto (s2n ) é con-
vergente para um limite S . Agora, observe que s2n−1 = s2n + a2n .
1
Gottfrid Wilhelm Leibniz (1646-1716)
3.3. CONVERGÊNCIA ABSOLUTA 79

Logo,
lim s2n−1 = lim s2n + lim a2n = S + 0 = S .
n→∞ n→∞ n→∞

Segue que lim sn = S (ver Exercı́cio 2.14).


n→∞

O resultado expresso na Proposição 3.4 obviamente vale



X
também para séries alternadas do tipo (−1)n an .
n=1

Exemplo 3.5 A série harmônica alternada



X 1 1 1 1
(−1)n+1 = 1 − + − + ···
n=1
n 2 3 4
!
1 1
é convergente pois é decrescente e lim = 0.
n n→∞ n

3.3 Convergência Absoluta


A série harmônica alternada dada no Exemplo 3.5, a qual
é convergente, é tal que a série obtida tomando-se os valores
absolutos dos seus termos, que é a série harmônica, não é
convergente. Esse fato é destacado e sugere a definição a
seguir.

X
Definição 3.1 Dizemos que uma série an é absolutamente
n=1

X ∞
X
convergente se |an | converge. Quando an converge mas
n=1 n=1

X ∞
X
|an | não converge dizemos que an é condicionalmente
n=1 n=1
convergente.
80 CAPÍTULO 3. SÉRIES NUMÉRICAS

A série harmônica alternada, como vimos anteriormente, é


um exemplo de uma série condicionalmente convergente.

X 1
Exemplo 3.6 As séries do tipo (−1)n+1 p , com p > 1, são
n=1
n
absolutamente convergentes pois, como sabemos, as séries

X 1
, com p > 1, são convergentes.
n=1
np

X 1
Na verdade a própria série (−1)n+1 p , com p > 1, é
n=1
n
1
convergente (trata-se de uma série alternada com an = p a
n
qual, para p > 1, forma uma seqüência decrescente com limite
zero). Esse fato é verdadeiro em geral, séries absolutamente
convergentes tambem são convergentes, como bem expressa
a proposição a seguir.
Proposição 3.5 Toda série absolutamente convergente é con-
vergente.

X
Prova: Consideremos an uma série absolutamente conver-
n=1
gente. Desde que −|an | ≤ an ≤ |an |, segue que 0 ≤ an + |an | ≤

X
2|an | para todo n ∈ N. Como, por hipótese, |an | é con-
n=1
vergente, segue, do critério de comparação para séries de

X
temos não negativos, que (an + |an |) é convergente. Por
n=1

X ∞
X
outro lado, a série −|an | é convergente, portanto an =
n=1 n=1

X
(an + |an | − |an |) é convergente.
n=1
3.4. OUTROS TESTES DE CONVERGÊNCIA 81

3.4 Outros Testes de Convergência


Ao tratarmos com uma série numérica, as questões que se
apresentam são, em primeiro lugar investigar se a dada série
é convergente ou não e, uma vez garantida a convergência da
mesma, calcular (ou pelo menos estimar) o valor da sua soma.
Para a investigação da convergência ou não de determinadas
séries são conhecidos alguns critérios.
Apresentamos nesta seção três critérios de convergência.
Os dois primeiros já familiares para os estudantes desde os
cursos elementares de Cálculo Diferencial e Integral, quais se-
jam, o Critério de d’Alembert2 (ou Teste da Razão) e o Critério
de Cauchy (ou Teste da Raiz) e o terceiro é o Critério de Dirich-
let3 . Há muitos testes de convergência, alguns deixados como
exercı́cios, como o Teste da Integral, o Teste de Comparação
no Limite e o Teste de Abel4 , e outros, de demonstração e de
aplicação um pouco mais elaborados, que o estudante inter-
essado poderá consultar a bibliografia recomendada ao final
deste texto.


X
Proposição 3.6 (Teste da Razão) Seja an uma série de ter-
n=1
|an+1 |
mos não nulos e suponhamos que lim = L. Então
n→∞ |an |

a) Se L < 1 a série é absolutamente convergente.

b) Se L > 1 a série é divergente.

c) Se L = 1 o teste é inconclusivo.
2
Jean Le Rond d’Alembert (1717-1783).
3
Peter Gustav Lejeune Dirichlet (1805-1859).
4
Neils Henrik Abel (1802-1828).
82 CAPÍTULO 3. SÉRIES NUMÉRICAS

Prova: Para a prova de a) ecolhamos b ∈ R tal que L < b < 1.


|an+1 | |an+1 |
Como lim = L então existe N ∈ N tal que ≤ b para
n→∞ |an | |an |
todo n ≥ N. Portanto,

|aN+1 | ≤ b|aN |
|aN+2 | ≤ b|aN+1 | ≤ b2 |aN |
|aN+3 | ≤ b|aN+2 | ≤ b3 |aN |
e podemos deduzir, usando o Primeiro Princı́pio de Indução,
que
|aN+ j | ≤ b j |aN |, para todo j ∈ N.

X ∞
X
Sendo 0 ≤ b < 1 então |aN |b = |aN |
j
b j é convergente
j=1 j=1

X
e segue do critério de comparação que |an | é convergente.
n=1

X
Logo an é absolutamente convergente. Para a prova de b)
n=1
|an+1 |
temos que existe N ∈ N tal que > 1, para todo n ≥ N.
|an |
Assim, para todo j ∈ N temos que

|aN+ j | > |aN+ j−1 | > |aN+ j−2 | > · · · |aN | > 0,

X
isto é, a seqüência (an ) não tem limite zero, portanto an não
n=1
converge. Para justificar a inconclusibilidade do teste no caso
∞ ∞
X 1 X 1
L = 1 consideremos as séries e . Em ambos os
n=1
n n=1 n2
|an+1 |
casos lim = 1 sendo que a primeira série é divergente e
n→∞ |an |
a segunda é convergente.
3.4. OUTROS TESTES DE CONVERGÊNCIA 83


X 1
Exemplo 3.7 A série (−1)n é absolutamente convergente
n=1
n!
pois
(−1)n+1 1
|an+1 | (n+1)! n! 1
= = = ,
|an | 1
(−1)n n! (n + 1)! n + 1
|an+1 |
donde lim = 0 < 1.
n→∞ |an |


X
Proposição 3.7 (Teste da Raiz) Seja an uma série e supon-
pn n=1
hamos que lim |an | = L. Então
n→∞

a) Se L < 1 a série é absolutamente convergente.


b) Se L > 1 a série é divergente.
c) Se L = 1 o teste é inconclusivo.

pn < b < 1.
Prova: Parapa prova de a) ecolhamos b ∈ R tal que L
Como lim |an | = L então existe N ∈ N tal que |an | ≤ b
n

n→∞
para todo n ≥ N. Portanto, |an | ≤ bn para todo n ≥ N. Sendo

X
0 ≤ b < 1 então bn é convergente e segue do critério de
n=1

X ∞
X
comparação que |an | é convergente. Logo an é abso-
n=1 n=1
lutamente convergente.
pn Para a prova de b) temos que existe
N ∈ N tal que |an | > 1, para todo n ≥ N. Assim, a seqüência

X
(an ) não tem limite zero, portanto an diverge. Para ver que o
n=1
teste é inconclusivo no caso L = 1 consideremos, novamente,
∞ ∞
X 1 X 1 pn
as séries e 2
. Em ambos os casos lim |an | = 1
n=1
n n=1
n n→∞
84 CAPÍTULO 3. SÉRIES NUMÉRICAS

e, como sabemos, a primeira série diverge enquanto que a


segunda converge.


X rn
Exemplo 3.8 A série (−1)n é absolutamente convergente
n=1
nn
qualquer que seja r ∈ R pois
r
n
r n
r n |r| |r|

(−1)n n =
n
n
= ,
n n n
p rn
donde lim |an | = 0 < 1, onde an = (−1)n n .
n→∞ n
Proposição 3.8 (Critério de Dirichlet) Sejam (an ) e (bn ) se-
qüências de números reais tais que

i) A seqüência (sn ) das somas parciais de (an ) é limitada.

ii) A seqüência (bn ) é monótona e lim bn = 0.


n→∞


X
Então a série an bn é convergente.
n=1

Para a prova da Proposição 3.8 estabeleceremos inicial-


mente dois lemas técnicos.

Lema 3.1 Sejam a1 , a2 , · · · , a p e b1 , b2 , · · · , b p números reais


k
X
e consideremos sk = a j , k = 1, 2, · · · , p. Então
j=1

a1 b1 + a2 b2 + · · · + a p b p =

s1 (b1 − b2 ) + s2 (b2 − b3 ) + · · · + s p−1 (b p−1 − b p ) + s p b p .


3.4. OUTROS TESTES DE CONVERGÊNCIA 85

Prova: Observe que a1 = s1 , a2 = s2 − s1 , a3 = s3 − s2 e, de um


modo geral, a j+1 = s j+1 − s j , para j = 1, 2, · · · , p − 1. Portanto

a1 b1 + a2 b2 + a3 b3 + · · · + a p b p =

s1 b1 + (s2 − s1 )b2 + (s3 − s2 )b3 + · · · + (s p − s p−1 )b p =


s1 b1 + s2 b2 − s1 b2 + s3 b3 − s2 b3 + · · · + s p b p − s p−1 b p =
s1 (b1 − b2 ) + s2 (b2 − b3 ) + · · · + s p−1 (b p−1 − b p ) + s p b p ,
como querı́amos.

Lema 3.2 Sejam b1 , b2 , b3 , · · · , b p números reais satisfazendo


a hipótese b1 ≥ b2 ≥ b3 ≥ · · · ≥ b p ≥ 0 e a1 , a2 , a3 , · · · , a p
k
X
números reais quaisquer. Consideremos sk = a j e supon-
j=1
hamos que existem números reais µ e M tais que

µ ≤ sk ≤ M, ∀k = 1, 2, · · · , p.

Então

µb1 ≤ a1 b1 + a2 b2 + a3 b3 + · · · + a p b p ≤ Mb1 .

Prova: Desde que µ ≤ sk ≤ M, para k = 1, 2, · · · , p e b1 ≥


b2 ≥ b3 ≥ · · · ≥ b p ≥ 0, então

µ(b1 − b2 ) ≤ s1 (b1 − b2 ) ≤ M(b1 − b2 )

µ(b2 − b3 ) ≤ s2 (b2 − b3 ) ≤ M(b2 − b3 )


..
.
µ(b p−1 − b p ) ≤ s p−1 (b p−1 − b p ) ≤ M(b p−1 − b p )
µb p ≤ s p b p ≤ Mb p
86 CAPÍTULO 3. SÉRIES NUMÉRICAS

Somando membro a membro essas desigualdades obtemos


µb1 ≤ s1 (b1 − b2 ) + s2 (b2 − b3 ) + · · · + s p−1 (b p−1 − b p ) + s p b p ≤ Mb1 .
Assim, pelo Lema 3.1
µb1 ≤ a1 b1 + a2 b2 + a3 b3 + · · · + a p b p ≤ Mb1
como querı́amos.
Prova da Proposição 3.8 Podemos supor, sem perda da gen-
eralidade, que a seqüência (bn ) é não crescente e bn ≥ 0 para
todo n ∈ N. Como (sn ) é limitada existe H > 0 tal que |sn | ≤ H
para todo n ∈ N. Logo
|an+1 + an+2 + · · · + an+k | = |sn+k − sn | ≤ |sn+k | + |sn | ≤ 2H,
ou seja
−2H ≤ an+1 + an+2 + · · · + an+k ≤ 2H.
Pelo Lema 3.2 temos
−2Hbn+1 ≤ an+1 bn+1 + an+2 bn+2 + · · · + an+k bn+k ≤ 2Hbn+1
ou
|an+1 bn+1 + an+2 bn+2 + · · · + an+k bn+k | ≤ 2Hbn+1 .
Desde quer lim bn = 0 então, para cada ε > 0 existe N ∈ N tal
n→∞
que
ε
n ≥ N ⇒ bn < .
2H
Logo
n+k
X
|an+1 bn+1 + an+2 bn+2 + · · · + an+k bn+k | = | a j b j | < ε,
j=n+1


X
o que acarreta a convergência da série an bn , pelo pelo
n=1
Critério de Cauchy.
3.5. EXERCÍCIOS DO CAPÍTULO 3 87

3.5 Exercı́cios do Capı́tulo 3



X ∞
X
3.1- Considere as séries an e bn , onde,
n=1 n=1


!
√ 1
an = n + 1 − n e bn = ln 1 + .
n

Mostre que lim an = lim bn = 0. Calcule explicitamente


n→∞ n→∞
as n−ésimas somas parciais sn e tn dessas séries e mostre
que lim sn = lim tn = ∞. Conclua que as séries dadas
n→∞ n→∞
são divergentes.

3.2- Use o teste da raiz para mostrar que as séries abaixo


convergem:
∞ ∞  ∞ 
X n5 X √  X −n n
a) , b) n
n−1 , c)
n=1
5 n
n=1 n=1
3n + 1

3.3- Verifique se as seguintes séries convergem ou divergem:


∞ !n ∞ ∞
X 2 X (−1)n 2n X (−1)n
a) n!, b) , c)
n=1
n n=1
n! n=1
n(n + 2)


X
3.4- Se an , an ≥ 0 ∀n ∈ N, é convergente, então as séries
n=1


X ∞
X
an xn , x ∈ [0, 1] e an sen(nx), x ∈ R
n=1 n=1

são absolutamente convergentes.


88 CAPÍTULO 3. SÉRIES NUMÉRICAS


X ∞
X
3.5- Mostre que se an converge absolutamente, então a2n
n=1 n=1
converge.

X ∞
X ∞
X
3.6- Prove que se a2n e b2n convergem, então an bn
n=1 n=1 n=1
converge absolutamente.

X ∞
X
3.7- Prove que se a2n e b2n convergem, então
n=1 n=1


X
(an + bn )2
n=1

também converge.

X ∞
X
3.8- Prove que se a2n e b2n convergem, então
n=1 n=1

∞ 2  ∞   ∞ 
X X  X 
 an bn  ≤  a2n   b2n  .

n=1 n=1 n=1


X ∞
X
3.9- Mostre que se an e bn convergem absolutamente,
n=1 n=1

X
então (an cos(nx) + bn sen(nx)) também converge.
n=1

3.10- Suponha que a seqüência de termos não negativos (an )



X
é decrecente e a série an converge. Mostre que
n=1

lim nan = 0.
n→∞
3.5. EXERCÍCIOS DO CAPÍTULO 3 89

3.11- Mostre que uma série de números reais é absolutamente


convergente se, e somente se, ela pode ser expressa
como a diferença de séries convergentes de termos não
negativos.

X
3.12- Prove que a série an , an ≥ 0, é convergente se,
n=1
e somente se, a seqüência (sn ) das somas parciais é
limitada.

X xn
3.13- Determine para quais valores de x as séries e
n=1
n2

X xn
são convergentes.
n=1
nn


X
3.14- Dê exemplos de uma série convergente an e de uma
n=1

X
seqüência limitada (xn ) tais que an xn seja divergente.
n=1


X
3.15- Prove que se an ≥ 0 para todo n ∈ N e an converge,
n=1
∞ √
X an
então também converge.
n=1
n

3.16- Seja (an ) é uma seqüência decrescente de termos posi-


tivos como limite nulo e f uma função decrescente, definida
em [1, +∞) e tal que f (n) = an , para todo n ∈ N. Mostre
X∞ Z ∞
que a série an converge se, e somente se, f (x)dx
n=1 1
converge.
90 CAPÍTULO 3. SÉRIES NUMÉRICAS

an
3.17- Se an ≥ 0 e bn > 0 para todo n ∈ N e se lim = 0
n→∞ bn

X ∞
X
então an converge se bn converge.
n=1 n=1

3.18- [Critério de Abel] Sejam (an ) e (bn ) seqüências de números


reais tais que

X
a) an é convergente;
n=1

b) (bn ) é monótona e limitada.



X
Então an bn é convergente.
n=1


X 1
3.19- Mostre que é diverente.
n=2
n ln n

X 1
3.20- Mostre que a série converge se r > 1 e di-
n=2
n(ln n)r
verge se r ≤ 1.

X ∞
X
3.21- Sejam an e bn duas séries de termos positivos
n=1 n=1
tais que
an
0 < lim < ∞.
n→∞ bn

Mostre que ou ambas as séries convergem ou ambas


divergem.

X 1
3.22- A série √ converge ou diverge? Justifique
n=1 n(n + 1)
sua resposta.
3.5. EXERCÍCIOS DO CAPÍTULO 3 91


X
3.23- Mostre que se an converge e se (sn ) é tal que sn =
n=1
s1 + s2 + · · · + sn
a1 + a2 + · · · + an então a seqüência con-

n
X
verge, e seu limite é an .
n=1

X ∞
X
3.24- Mostre que se an converge e bn diverge, então a
n=1 n=1

X
série (an + bn ) diverge.
n=1

X n
3.25- A série (−1)n converge ou diverge? Justifique
n=1
n+1
sua resposta.

X xn
3.26- Determine os valores de x para os quais a série
n=1
nx
seja convergente.

3.27- Seja (an ) é uma seqüência decrescente de termos não


X∞
negativos. Mostre que a série an converge se, e so-
n=1

X
mente se, 2k a2k converge.
k=0

X ∞
X
3.28- Suponhamos que an = A, bn = B e a convergência
n=0 n=0

X n
X
de an é absoluta. Seja cn = ak bn−k , para n =
n=0 k=0

X
0, 1, 2 · · · Mostre que cn = A.B.
n=0
92 CAPÍTULO 3. SÉRIES NUMÉRICAS


X
3.29- Mostre que, se an é absolutamente convergente, então
n=1

X ∞
X
an = aσ(n) para toda bijeção σ : N → N.
n=1 n=1
Capı́tulo 4

Noções de Topologia da Reta

4.1 Introdução

Topologia é o campo da Matemática que objetiva basica-


mente descrever como estão “colocadas” determinadas classes
de subconjuntos de um conjunto maior, chamado de espaço
topológico, e no qual alguma noção de proximidade está definida.
A linguagem introduzida pela Topologia é fundamental para a
generalização do conceito de continuidade de funções. Trata-
se, portanto, de um importante campo de estudo. Contudo,
uma vez que não faz parte dos objetivos deste texto o aprofun-
damento desse tema, nos limitaremos a apresentar as noções
topológicas necessárias para trabalhar, nos próximos capı́tulos,
com limite e continuidade de funções reais. Usaremos forte-
mente a interpretação geométrica de R como pontos de uma
reta, daı́ a denominação “Topologia da Reta”. Antes, porém,
retornaremos às questões de limites de seqüências para intro-
duzir alguns conceitos básicos para um melhor entendimento
da linguagem da topologia da reta. É o que faremos na próxima
seção.

93
94 CAPÍTULO 4. NOÇÕES DE TOPOLOGIA DA RETA

4.2 Limite Superior e Limite Inferior


Um número real x chama-se ponto aderente de uma seqüência
de números reais (an ) quando esta possui uma subseqüência
(an j ) tal que lim an j = x. Portanto, o conjunto dos pontos ader-
n j →∞
entes de uma seqüência é o conjunto dos limites de suas sub-
seqüências convergentes.
O Teorema 2.1 garante que o conjunto dos pontos ader-
entes de uma seqüência limitada é sempre não vazio e a Proposição 2.1
afirma que uma seqüência convergente possui um único ponto
aderente que é exatamente o seu limite.
A seqüência (n)n∈N , por ser estritamente crescente e não
limitada, não possui ponto aderente algum. Por outro lado,
a seqüência (1, 1, 2, 1, 2, 3, 1, 2, 3, 4, · · · ) admite cada número
natural como um ponto aderente. Vemos então, com estes
dois últimos exemplos e os comentários do parágrafo anterior,
que o conjunto dos pontos aderentes de uma seqüência tanto
pode ser infinito como finito e até mesmo vazio.
Quando uma seqüência (an ) é limitada então o conjunto C
de seus pontos aderentes, que é não vazio, é também limitado.
Podemos, assim, para uma seqüência limitada, definir o limite
superior de (an ), denotado por lim sup an , e o limite inferior de
(an ), denotado por lim inf an , como sendo

lim sup an = sup C e lim inf an = inf C.

Quando a seqüência (an ) não é limitada superiormente es-


crevemos lim sup an = ∞ e quando não é limitada inferior-
mente escrevemos lim inf an = −∞. É claro que lim sup an ∈ R
se, e somente se, (an ) é limitada superiormente. Analoga-
mente, lim inf an ∈ R se, e somente se, (an ) é limitada infe-
riormente.
4.2. LIMITE SUPERIOR E LIMITE INFERIOR 95

Proposição 4.1 Se L = lim sup an e ` = lim inf an então, dado


ε > 0 existe N ∈ N tal que

n ≥ N ⇒ ` − ε < an < L + ε.

Prova: Desde que L e ` são números reais então (an ) é lim-


itada. Se para algum ε0 > 0 tivéssemos an ≥ L + ε0 para
um número infinito de ı́ndices n então poderı́amos escolher
n1 < n2 < · · · < nk < · · · em N de tal modo que ank ≥ L + ε0 .
Sendo (an ) limitada então (ank ) é também limitada e, pelo Teo-
rema de Bolzano-Weierstrass, (ank ) possui uma subseqüência
(ank j ) convergente para um limite x ∈ R que seria, assim, um
ponto aderente de (an ). Como ank j ≥ L+ε0 então x ≥ L+ε0 > L,
o que é uma contradição pois L é o supremo do conjunto dos
pontos aderentes de (an ). Logo, para cada ε > 0, só pode
haver um número finito de ı́ndices n com an ≥ L + ε. Isto é,
existe N1 ∈ N tal que

n ≥ N1 ⇒ an < L + ε.

Por meio de um raciocı́nio semelhante podemos garantir que


existe N2 ∈ N tal que

n ≥ N2 ⇒ ` − ε < a n .

Tomando agora N = max{N1 , N2 } obtemos

n ≥ N ⇒ ` − ε < an < L + ε,

como querı́amos demonstrar.


Corolário: Uma seqüência (an ) é convergente se, e somente
se,
lim sup an = lim inf an ·
96 CAPÍTULO 4. NOÇÕES DE TOPOLOGIA DA RETA

Exemplo 4.1 Considere a seqüência (an ) cujo termo geral é


dado por !
1 nπ
an = 1 − sen .
n 2
Temos que

(4n + 1)π
! !
1 1
a4n+1 = 1− sen = 1− .1
4n + 1 2 4n + 1
e, assim, lim a4n+1 = 1. Temos também que
n→∞
! !
1 (4n − 1)π 1
a4n−1 = 1− sen = 1− .(−1)
4n − 1 2 4n − 1
e, portanto, lim a4n−1 = −1. Como
n→∞
!
1 nπ
|an | = 1 − sen ≤ 1

n 2
para todo n ∈ N, segue que lim inf an = −1 e lim sup an = 1.
Podemos também concluir, usando o Corolário da Proposição 4.1,
que (an ) é divergente.

Há outra forma de se introduzir o limite superior e o limite


inferior de uma seqüência (an ), eqüivalente à acima apresen-
tada, formulação esta que, em determinadas situações, facilita
o trabalho com o limite superior e o limite inferior. Trata-se da
seguinte formulação: para cada n ∈ N consideremos o con-
junto
An = {an , an+1 , an+2 , · · · }. (4.1)
Uma vez que (an ) é limitada então An é um conjunto limitado e,
portanto, existem αn = inf An e βn = sup An . Como An+1 ⊂ An ,
temos também que αn ≤ αn+1 e βn+1 ≤ βn , ou seja, (αn ) e
(βn ) são seqüências monótonas, e sendo limitadas (pois (an ) é
4.2. LIMITE SUPERIOR E LIMITE INFERIOR 97

limitada), são ambas convergentes (vide Proposição 2.8 e seu


comentário logo a seguir). Sejam

L = lim αn e L = lim βn .
n→∞ n→∞

Mostremos, na proposição a seguir, que

L = lim inf an e L = lim sup an .

Proposição 4.2 Seja (an ) uma seqüência limitada. Então

lim inf an = L = lim inf An


n→∞

e
lim sup an = L = lim sup An ,
n→∞

onde An está definido em (4.1).

Prova: Vamos demonstrar que L = lim sup an e deixamos


como um exercı́cio a demonstração de que L = lim inf an . Seja
x um ponto aderente de (an ), isto é, x é o limite de uma sub-
seqüência (ank ) de (an ). Como nk ≥ k então ank ∈ Ak , logo,
ank ≤ βk . Assim,

x = lim ank ≤ lim βk = L.


k→∞ k→∞

Donde segue que


lim sup an ≤ L. (4.2)
Vamos agora construir uma subseqüência de (an ) que con-
verge para L. Para k = 1, como β1 = sup A1 , existe n1 ∈ N
tal que
β1 − 1 < an1 ≤ β1 .
Para k = 2, como βn1 +1 = sup An1 +1 , podemos determinar n2 >
n1 tal que
1
βn1 +1 − < an2 ≤ βn1 +1 .
2
98 CAPÍTULO 4. NOÇÕES DE TOPOLOGIA DA RETA

Para k = 3, como βn2 +1 = sup An2 +1 , existe n3 > n2 tal que

1
βn2 +1 − < an3 ≤ βn2 +1 .
3
Prosseguindo com essa construção, para cada k ∈ N determi-
namos ank tal que

1
βnk +1 − < ank+1 ≤ βnk +1 . (4.3)
k+1
Passando ao limite em (4.3) quando k → ∞ obtemos lim ank =
k→∞
L. Assim, L é um ponto aderente de (an ) e, conseqüentemente,

L ≤ lim sup an . (4.4)

De (4.2) e (4.4) segue que L = lim sup an , como querı́amos


demonstrar.
Com o auxı́lio da Proposição 4.2 vamos dar uma caracterização
para o limite superior e o limite inferior de uma seqüência limi-
tada.

Proposição 4.3 Seja (an ) uma seqüência limitada. Então

i) L é o limite superior de (an ) se, e somente se, dado ε > 0,

a) existe N ∈ N tal que an < L + ε para todo n ≥ N e


b) an > L − ε para uma infinidade de ı́ndices n.

ii) ` é o limite inferior de (an ) se, e somente se, dado ε > 0,

c) existe N ∈ N tal que an > ` − ε para todo n ≥ N e


d) an < ` + ε para uma infinidade de ı́ndices n.
4.3. NOÇÕES DE TOPOLOGIA DA RETA 99

Prova: Vamos demonstrar o item i) e deixamos como ex-


ercı́cio o item ii). Suponhamos que L = lim sup an . Pela Proposição 4.2
temos que L = lim βn , onde βn = sup{an , an+1 , · · · }. Logo existe
n→∞
N ∈ N tal que βN < L + ε e, portanto an < L + ε para todo
n ≥ N, o que prova a). Outra vez pela Proposição 4.2 sabe-
mos que existe uma subseqüência de (an ) que converge para
L. Logo exite uma infinidade de ı́ndices n tais que an > L − ε,
o que prova b). Reciprocamente, suponhamos que vale a) e
b). Por a) temos que βn = sup An ≤ L + ε para n ≥ N, e como
por b) an > L − ε para uma infinidade de ı́ndices n, sendo (βn )
uma seqüência não crescente, segue que βn ≥ L − ε para todo
n ∈ N. Donde obtemos L = lim βn .
n→∞

4.3 Noções de Topologia da Reta


Definição 4.1 Dado um subconjunto S ⊂ R, dizemos que um
ponto x0 ∈ R é um ponto de acumulação de S se para cada
ε > 0 existe x ∈ S tal que 0 < |x − x0 | < ε. O conjunto dos
pontos de acumulação de S é chamado de derivado de S e é
denotado por S 0 .

Exemplo 4.2 Para o intervalo I = (0, 1) os pontos 0 e 1 são


pontos de acumulação. Na realidade qualquer x ∈ R tal que
0 ≤ x ≤ 1 é ponto de acumulação de (0, 1), ou seja, I 0 = [0, 1].

Exemplo 4.3 O subconjunto


( )
1 2 3 n
S = , , , ··· , , ···
2 3 4 n+1

de R tem exatamente um ponto de acumulação, a saber, x0 =


1.
100 CAPÍTULO 4. NOÇÕES DE TOPOLOGIA DA RETA

Se S ⊂ R é finito então S não possui pontos de acumulação.


O conjunto N dos números naturais também não possui pon-
tos de acumulação. No entanto, vale a seguinte versão do
Teorema de Bolzano-Weierstrass para conjuntos.

Teorema 4.1 Todo subconjunto infinito e limitado de números


reais possui pelo menos um ponto de acumulação.

Prova: Seja S ⊂ R infinito e limitado. Podemos selecionar uma


seqüência (an ) de pontos dois a dois distintos de S . Sendo S
limitado então (an ) é limitada e, pelo Teorema 2.1 (Teorema de
Bolzano-Weirestrass), esta possui uma subseqüência conver-
gente (an j ). Seja x0 = lim an j . Mostremos que x0 é um ponto
n j →∞
de acumulação de S . De fato, dado ε > 0 existe N ∈ N tal que

n j ≥ N ⇒ |an j − x0 | < ε.

Escolhamos n j0 > N tal que an j0 , x0 . Tal escolha é possı́vel


tendo em vista que a seqüência (an ) é constituida de pontos
dois a dois distintos. Logo, para cada ε > 0 existe an j0 ∈ S
tal que 0 < |an j0 − x0 | < ε o que prova que x0 é um ponto de
acumulação de S .

Proposição 4.4 Se x0 é um ponto de acumulação de S ⊂ R


então existe uma seqüência (xn ) de pontos de S , com xn , x0
para todo n ∈ N, satisfazendo lim xn = x0 .
n→∞

Prova: Como x0 é um ponto de acumulação de S então, para


cada ε > 0 existe x ∈ S tal que 0 < |x − x0 | < ε. Em particular,
para cada n ∈ N existe xn ∈ S tal que 0 < |xn − x0 | < 1n . Portanto
lim xn = x0 .
n→∞
4.3. NOÇÕES DE TOPOLOGIA DA RETA 101

4.3.1 Conjuntos Abertos


Dados x e ε > 0 em R chamamos o intervalo (x − ε, x + ε) de
vizinhança de centro x e raio ε e o representamos por Vε (x).
O conjunto Vε (x) − {x}, isto é, a vizinhança de centro x e raio ε
suprimida de x, é denotada por Vε∗ (x). Nesta terminologia, um
ponto x é um ponto de acumulação de S ⊂ R se para toda
vizinhança Vε∗ (x) temos Vε∗ (x) ∩ S , ∅.

Definição 4.2 Um subconjunto A de R denomina-se aberto se


para cada x ∈ A existe ε > 0 tal que Vε (x) ⊂ A.

Exemplo 4.4 Para a e b em R, com a < b, o intervalo aberto


(a, b) é um subconjunto aberto. De fato, para cada x ∈ (a, b)
podemos escolher ε = min{x − a, b − x} e temos Vε (x) ⊂ (a, b).
Os intervalos do tipo (−∞, a) e (b, +∞), assim como o próprio
R, são também subconjuntos abertos (justifique).

Observe que o conjunto vazio ∅ não contradiz a Definição 4.2


simplesmente porque não possui ponto algum, logo é um sub-
conjunto aberto.
A classe dos subconjuntos abertos goza das propriedades
dadas pela proposição a seguir, cuja demonstração é deixada
para os exercı́cios.

Proposição 4.5 A união de uma coleção qualquer de sub-


conjuntos abertos é um subconjunto aberto e a interseção de
uma coleção finita de subconjuntos abertos é um subconjunto
aberto.

Se A ⊂ R é um subconjunto aberto não vazio então, para


cada x ∈ A existe ε x > 0 tal que Vεx (x) ⊂ A. Assim
[
A= Vεx (x).
x∈A
102 CAPÍTULO 4. NOÇÕES DE TOPOLOGIA DA RETA

Isto é, todo subconjunto aberto não vazio de R pode ser rep-
resentado como uma união de intervalos abertos. Pode-se
mostrar (vide [8]) um resultado mais refinado o qual afirma que
“todo subconjunto aberto pode ser representado como uma
união enumerável de intervalos abertos dois a dois disjuntos”.

4.3.2 Conjuntos Fechados


Definição 4.3 Um subconjunto F de R é denominado fechado
se seu complementar R − F é aberto.

Exemplo 4.5 Para a e b em R, com a < b, o intervalo fechado


[a, b] é um subconjunto fechado de R. Para ver isto é bastante
obeservar que

R − [a, b] = (−∞, a) ∪ (b, +∞)

e usar o Exemplo 4.4 e a Proposição 4.5.

Exemplo 4.6 Desde que R = R − ∅ e R é aberto, segue que ∅


é fechado. Como também ∅ = R − R e ∅ é aberto, segue que
R é fechado.

Um fato importante a respeito de R é que os seus únicos


subconjuntos que são simultaneamente abertos e fechados
são o vazio e o próprio R. A demonstração deste fato extrapola
os objetivos deste texto e pode ser vista em [8].
Decorre da Proposição 4.5, e das propriedades da operação
de tomar complementares, que a coleção dos subconjuntos
fechados de R goza das seguintes propriedades: a interseção
de uma coleção qualquer de fechados é um fechado e a união
de uma coleção finita de fechados é um fechado.

Proposição 4.6 Um subconjunto F ⊂ R é fechado se, e so-


mente se, F contém todos os seus pontos de acumulação.
4.3. NOÇÕES DE TOPOLOGIA DA RETA 103

Prova: Suponhamos que F é fechado. Mostremos que nen-


hum ponto de R − F pode ser ponto de acumulação de F.
Seja x0 ∈ R − F. Sendo R − F aberto, existe ε x0 > 0 tal que
Vεx0 (x0 ) ⊂ (R − F). Neste caso Vεx0 (x0 ) ∩ F = ∅. Em outras
palavras, não existe x ∈ F tal que 0 < |x − x0 | < ε x0 . Portanto
x0 não é ponto de acumulação de F. Reciprocamente, supon-
hamos que F contém todos os seus pontos de acumulação.
Seja x0 um ponto arbtrário de R − F. Temos, por hipótese,
que x0 não é ponto de acumulação de F. Sendo assim, ex-
iste ε x0 > 0 tal que para todo x ∈ F vale Vεx0 ∩ F = ∅. Em
outras palavras, Vεx0 (x0 ) ⊂ (R − F), o que mostra que R − F é
aberto e, conseqüentemente, F é fechado.

Os conjuntos fechados podem também ser caracterizados


em termos de limites de seqüências de seus pontos, conforme
estabelece a proposição seguinte.

Proposição 4.7 Uma condição necessária e suficiente para


que um conjunto F ⊂ R seja fechado é que, para qualquer
seqüência convergente (xn ) de pontos de F tem-se lim xn ∈ F.
n→∞

Prova: Sponhamos que F ⊂ R é um subconjunto fechado e


seja (xn ) uma seqüência convergente para x ∈ R, com xn ∈ F
para todo n ∈ N. Somente duas situações pode ocorrer: ou
existe n0 ∈ N tal que xn0 = x, e neste caso já temos que x ∈ F,
ou então x , xn para todo n ∈ N e, neste caso, para cada
ε > 0 existe N ∈ N tal que 0 < |xn − x| < ε para todo n ≥ N.
Em outras palavras, x é um ponto de acumulação de F, e pela
Proposição 4.6 segue que x ∈ F. Suponhamos agora que F
contém os limites de todas as suas seqüências convergentes.
Mostremos que F 0 , o conjunto dos pontos de acumulação de
F, está contido em F. Se F 0 = ∅, então F 0 ⊂ F. Se F 0 , ∅,
seja x ∈ F 0 . Pela Proposição 4.4 existe uma seqüência (xn ) de
104 CAPÍTULO 4. NOÇÕES DE TOPOLOGIA DA RETA

pontos de F tal que lim xn = x e, portanto, x ∈ F. Assim, em


n→∞
qualquer caso tem-se F 0 ⊂ F, ou seja, F é fechado.

4.3.3 Conjuntos Compactos


Definição 4.4 Um subconjunto K ⊂ R é denominado com-
pacto quando é limitado e fechado.

Exemplo 4.7 Todo intervalo [a, b] de R é compacto pois é


limitado e fechado. Intervalos do tipo (a, b] ou [a, b) não são
compactos pois são limitados mas não são fechados e inter-
valos do tipo [a, +∞) ou (−∞, a] não são compactos pois são
fechados mas não são limitados.

Uma caracterização dos subconjuntos compactos de R em


termos de seqüências é dada pela proposição a seguir.

Proposição 4.8 Um subconjunto K ⊂ R é compacto se, e so-


mente se, toda seqüência (xn ) de pontos de K possui uma
subseqüência (xn j ) convergente para um ponto de K.

Prova: Suponhamos K compacto, isto é, limitado e fechado,


e seja (xn ) uma seqüência de pontos de K. Temos que (xn )
é limitada e, pelo Teorema de Bolzano-Weierstrass, (xn ) pos-
sui uma subseqüência (xn j ) convergente para um limite x ∈ R.
Sendo K fechado segue, da Proposição 4.7, que x ∈ K. Recip-
rocamente, suponhamos que toda seqüência (xn ) de pontos de
K possui uma subseqüência (xn j ) convergente para um ponto
x ∈ K. Se K não fosse limitado para cada n ∈ N existiria xn ∈ K
com |xn | ≥ n. Neste caso terı́amos uma seqüência (xn ) de pon-
tos de K que não admitiria nenhuma subseqüência conver-
gente, contradizendo a hipótese sobre K. Também se K não
fosse fechado existiria x ∈ K 0 com x < K e, pela Proposição 4.4,
4.3. NOÇÕES DE TOPOLOGIA DA RETA 105

existiria uma sequüência (xn ) de pontos de K convergente para


x, o que novamente contradiria a hipótese sobre K.
Há uma outra caracterização dos subconjuntos compactos
de R cuja formulação matemática é a que se usa em Topologia
Geral para definir compactos. Para darmos essa caracterização
necessitamos da definição seguinte.

Definição 4.5 Uma coleção de conjuntos abertos A = {Aλ ; λ ∈


Γ}, onde Γ é um conjunto de ı́ndices qualquer, é denominada
[
cobertura aberta de um subconjunto S ⊂ R se S ⊂ Aλ .
λ∈Γ

Na Definição 4.5, qualquer subcoleção de A cuja união


contém S é chamada de subcobertura de S .
De posse da Definição 4.5 podemos enunciar, sem dar-
mos a demonstração, do Teorema de Borel Lebesgue1,2 que
se constitui muma caracterização dos compactos de R.

Teorema 4.2 (Teorema de Borel-Lebesgue) Um subconjunto


K ⊂ R é compacto se, e somente se, toda cobertura aberta de
K possui uma subcobertura finita.

Para a prova do Teorema 4.2 recomendamos a leitura de


[10].

Exemplo 4.8 O subconjunto (0, 1] de R não é compacto pois


a coleção de abertos A = {( 1n , 2); n ∈ N} é uma cobertura
aberta de (0, 1] que não possui nenhuma subcobertura finita.
Do mesmo modo o subconjunto [0, +∞) de R não é compacto
pois a coleção de abertos A = {(n − 2, n); n ∈ N} é uma cober-
tura aberta de [0, +∞] que não possui nenhuma subcobertura
finita.
1
Emile Borel (1871-1938).
2
Henri Lebesgue (1875-1941).
106 CAPÍTULO 4. NOÇÕES DE TOPOLOGIA DA RETA

4.3.4 Conjuntos Completos


No Capı́tulo 1 nós dissemos que um corpo ordenado era
“completo” quando valia o Teorema 1.2, isto é, quando todo
subconjunto não vazio e limitado superiormente possuia supremo,
e, naquele capı́tulo, vimos que R era um corpo completo. Anal-
isando bem a demonstração do Teorema 1.2 vemos que a
propriedade de R ser um corpo completo não depende do
fato de R ser corpo, ou seja, não depende das propriedades
algébricas e sim da noção de ordem entre pontos de R e, nat-
uralmente, da validade do Teorema de Dedekind. Aqui nesta
secção, usando seqüências de Cauchy, vamos introduzir o
conceito de “conjunto completo” como sendo aquele em que
toda seqüência de Cauchy é convergente, e veremos, por meio
do Exemplo 4.9, que o próprio R é um conjunto completo. Ev-
identemente que, para a introdução do conceito de seqüência
de Cauchy, e em particular o conceito de conjunto completo,
é fundamental a função valor absoluto, ou seja, a ferramenta
matemática usada em R para “medir” distâncias. Veremos
nesta seção que, em R, os conceitos de ser “completo”, no
sentido de que todo subcunjunto limitado superiormente pos-
sui supremo, e ser um “conjunto completo”, no sentido de que
toda seqüência de Cauchy é convergente estão fortemente
relacionados.

Definição 4.6 Um subconjunto S ⊂ R é dito completo se toda


seqüência de Cauchy de pontos de S é convergente para um
ponto de S .

Exemplo 4.9 O próprio R é completo uma vez qu toda seqüência


de Cauchy de números reais é convergente, conforme estab-
elece a Proposição 2.11.

Uma outra demonstração de que R é um conjunto com-


pleto, usando o lim inf e lim sup, é a seguinte. Dada (xn ) uma
4.3. NOÇÕES DE TOPOLOGIA DA RETA 107

seqüência de Cauchy em R e ε > 0, existe N ∈ N tal que

|xn − xm | < ε para todo m, n ≥ N.

Conseqüentemente, para todo n ≥ N, temos que xN − ε < xn <


xN + ε e, assim,

xN − ε ≤ αN ≤ lim αn ≤ lim βn ≤ βN ≤ xN + ε, (4.5)


n→∞ n→∞

onde

αn = inf{xn , xn+1 , · · · } e βn = sup{xn , xn+1 , · · · }.

Da Proposição 4.2 segue que lim inf xn = lim αn e lim sup xn =


n→∞
lim βn , segue de (4.5) que lim inf xn e lim sup xn são finitos e
n→∞

0 ≤ lim sup xn − lim inf xn ≤ 2ε.

Sendo ε > 0 arbitrário temos lim sup xn = lim inf xn e, pelo


Corolário da Proposição 4.1 segue que (xn ) é convergente.

Exemplo 4.10 O subconjunto (0, 1] de R não é completo pois


( 1n ) é uma seqüência de pontos de (0, 1] que é de Cauchy mas
não converge em (0, 1].

Exemplo 4.11 O subconjunto Q dos números racionais não é


completo pois a seqüência

(1, 1, 4, 1, 41, 1, 414, 1, 4142, · · · ),


√ √
das aproximações decimais de 2, converge para 2 e, por-
tanto, é uma seq√
üência de Cauchy que não é convergente em
Q uma vez que 2 é irracional.

Proposição 4.9 Admitamos que em R toda seqüência de Cauchy


é convergente. Então todo subconjunto de R, não vazio e limi-
tado superiormente, possui supremo.
108 CAPÍTULO 4. NOÇÕES DE TOPOLOGIA DA RETA

Prova: Seja S ⊂ R não vazio e limitado superiormente. Seja


x1 ∈ S e M1 ∈ R com x1 < M1 . Se não existir nenhum ponto
de S , diferente de x1 , no intervalo [x1 , M1 ] então x ≤ x1 , para
todo x ∈ S . Neste caso x1 é o supremo de S . Caso contrário,
isto é, se existe pelo menos um ponto de S diferente de x1 no
intervalo [x1 , M1 ], consideremos os dois subintervalos
 M1 − x1  M − x
1 1

x1 , e , M1 .
2 2
h i
Pode ocorrer de existir um ponto de S no intervalo M12−x1 , M1
e
h Mpode ocorrer
i de não existir ponto algum de S no intervalo
1 −x1
2
, M1 . Neste último caso M12−x1 é uma cota superior de
S . Assim, em qualquer caso podemos considerar um intervalo
[x2 , M2 ] com x2 ∈ S e M2 uma cota superior de S e, além
disso, x2 − x1 < M1 − x1 . Raciocinando do mesmo modo com
o intervalo [x2 , M2 ] podemos determinar um intervalo [x3 , M3 ]
com x3 ∈ S , M3 uma cota superior de S e x3 − x2 < M12−x1 .
Prosseguindo com essa construção obtemos uma seqüência
monótona não decrescente (xn ) de pontos de S e uma seqüência
monótona não crescente (Mn ) de cotas superiores de S de tal
maneira que
M1 − x1
xn+1 − xn < (4.6)
2n−1
e
M1 − x1
Mn − x n ≤ (4.7)
2n−1
para n = 1, 2, 3, · · · De (4.6) segue (faça-o como um exercı́cio)
que (xn ) é uma seqüência de Cauchy, logo existe u ∈ R tal
que lim xn = u. De (4.7) temos que lim (Mn − xn ) = 0. Logo
n→∞ n→∞
lim Mn = u. Como x ≤ Mn para todo x ∈ S , então x ≤ u,
n→∞
para todo x ∈ S , ou seja, u é uma cota superior de S . Agora,
dado qualquer ε > 0 existe N ∈ N tal que se n ≥ N tem-se
xn ∈ (u − ε, u] o que demonstra que u é o supremo de S .
4.4. EXERCÍCIOS DO CAPÍTULO 4 109

4.4 Exercı́cios do Capı́tulo 4


4.1- Determine os pontos aderentes de cada seqüência dada
abaixo
   
a) sen nπ
2
+ (−1)n
, b) cos nπ
2
+ (−1) n
,
 
c) (n!), d) 1
n!
,
   2+(−1)n 
n−n2
e) 1+2n2
, f) 2
− 1
n
.

4.2- Sejam (xn ) e (yn ) seqüências limitadas de R satisfazendo


a condição xn ≤ yn , para todo n ∈ N. Mostre que

lim inf xn ≤ lim inf yn e lim sup xn ≤ lim sup yn .

4.3- Seja (xn ) uma seqüência limitada de R. Mostre que:

a) Se c ≥ 0 então

lim inf(cxn ) = c lim inf xn

e
lim sup(cxn ) = c lim sup xn .
b) Se c < 0 então

lim inf(cxn ) = c lim sup xn

e
lim sup(cxn ) = c lim inf xn .

4.4- Sejam (xn ) e (yn ) seqüências limitadas de R. Mostre que:

a) lim inf(xn + yn ) ≥ lim inf xn + lim inf yn ;


110 CAPÍTULO 4. NOÇÕES DE TOPOLOGIA DA RETA

b) lim sup(xn + yn ) ≤ lim sup xn + lim sup yn .

4.5- Dê exemplos para mostrar as desigualdades no Exercı́cio


4.4 podem ser desigualdades estritas.

4.6- Mostre que todo subconjunto finito de R é fechado.

4.7- Prove que a união de uma coleção finita e a interseção de


uma coleção qualquer de subconjuntos compactos de R
é um subconjunto compacto.

4.8- Dado um subconjunto S de R, dizemos um ponto x ∈ R é


um ponto fronteira de S se toda vizinhança de x contém
pontos de S e de R − S . Denotamos por ∂S o conjunto
dos pontos fronteira de S . Prove que A ⊂ R é aberto se,
e somente se, A ∩ ∂A = ∅.

4.9- Seja S um subconjunto de R. Dizemos que x é um ponto


aderente de S se x é o limite de alguma seqüência (xn )
de pontos de S . Chamamos de fecho de S , e denotamos
por S , o conjunto dos pontos aderentes de S . Prove que,
para todo S ⊂ R, tem-se S = S ∪ ∂S . Deduza, então, que
S é fechado se, e somente se, ∂S ⊂ S .

4.10- Mostre que para quaisquer dois subconjuntos A e B de R


tem-se que A ∪ B = A ∪ B e A ∩ B ⊂ A ∩ B. Dê exemplos
de subconjuntos de R para os quais vale que A ∩ B é um
subconjunto próprio de A ∩ B.

4.11- Prove que, para todo S ⊂ R, tem-se que S 0 , o conjunto


dos pontos de acumulação de S , é um conjunto fechado.

4.12- Seja Fn = [an , bn ], n ∈ N, uma famı́lia de intervalos


fechados, limitados e tais que [an+1 , bn+1 ] ⊂ [an , bn ].
Mostre que existe pelo menos um ponto x0 pertencente
4.4. EXERCÍCIOS DO CAPÍTULO 4 111
\
a todo os Fn , em outras palavras, Fn , ∅. Mostre
n∈N
ainda que se lim (bn − an ) = 0 então existe exatamente
n→∞
um ponto x0 que pertence a todos os intervalos Fn .

4.13- Neste exercı́cio vemos que a condição de ser fechado e


limitado do Exercı́cio 4.12 é essencial.
  \
a) Seja In = 0, 1n . Mostre que In = ∅.
n∈N
\
b) Seja Jn = [n, +∞). Mostre que Jn = ∅.
n∈N

4.14- Seja E um subconjunto de R. Um subconjunto D ⊂ R é


dito denso em E se D ⊂ E ⊂ D. Prove que se C é denso
em D e D é denso em E, então C é denso em E.

4.15- Prove que se S ⊂ R é finito então S 0 , o seu derivado, é


vazio.

4.16- Prove que x0 é um ponto de acumulação de S se, e so-


mente se, toda vizinhança de x0 contém infinitos pontos
de S .

4.17- Demonstre a Proposição 4.5.

4.18- Demonstre que:

a) A interseção de uma famı́lia qualquer de conjuntos


fechados é um conjunto fechado.
b) A união de uma coleção finita de conjuntos fechados
é um conjunto fechado.

4.19- Dê exemplo de uma famı́lia de conjuntos fechados cuja


união não é um fechado.
112 CAPÍTULO 4. NOÇÕES DE TOPOLOGIA DA RETA

4.20- Dê exemplo de uma famı́lia de conjuntos abertos cuja


interseção não é um aberto.

4.21- Dizemos que um conjunto D ⊂ R é denso em R se D ∩


(a, b) , ∅ para todo intervalo aberto (a, b) ⊂ R. Prove
que D é denso em R se, e somente se, todo número real
x0 é ponto de acumulação de D.

4.22- Se A e B são conjuntos não vazios, define-se a distância


entre A e B por

d(A, B) = inf{|a − b|; a ∈ A e b ∈ B}.

a) Prove que se d(A, B) = 0, com A fechado e B com-


pacto, então A ∩ B , ∅.
b) Dê exemplos de dois conjuntos fechados A e B tais
que d(A, B) = 0 e A ∩ B = ∅.

4.23- Mostre que toda coleção de abertos não vazios e dois a


dois disjuntos de R é enumerável.
Capı́tulo 5

Limites de Funções

5.1 Introdução
O nosso principal objetivo nesse Capı́tulo é ampliar o con-
ceito de limite, já introduzido no Capı́tulo 2 para o caso de
seqüências numéricas, para a situação mais geral de funções
reais definidas em subconjuntos de R. A nossa estratégia, levando
em consideração o público alvo deste texto, é apresentar o
conceito na forma mais ampla possı́vel, de modo a dar condições
mı́nimas aos interessados em leituras mais avançadas, mas
procurando estabelecer as eqüivalências em termos de limites
de seqüências numéricas, de tal modo a aproveitar bem o ma-
terial até agora estudado.

5.2 Funções Limitadas


Definição 5.1 Dados um subconjunto S de R e f: S → R uma
função real, dizemos que f é limitada inferiormente quando
existe m ∈ R tal que
m ≤ f (x) para todo x ∈ S .

113
114 CAPÍTULO 5. LIMITES DE FUNÇÕES

Analogamente, dizemos que f é limitada superiormente quando


existe M ∈ R tal que

f (x) ≤ M para todo x ∈ S .

Quando f é ao mesmo tempo limitada inferiormente e su-


periormente dizemos que é limitada. Ou seja, quando existem
m e M em R tais que

m ≤ f (x) ≤ M para todo x ∈ S

ou, equivalentemente, existe C > 0 tal que

| f (x)| ≤ C para todo x ∈ S .

Vemos, deste modo, que f : S → R é uma função limitada


se, e somente se, a sua imagem f (S ) = { f (x); x ∈ S } é
um subconjunto limitado de R e, portanto, existem inf f (x) e
x∈S
sup f (x).
x∈S

Exemplo 5.1 A função f: R → R dada por f (x) = x2 é limitada


inferiormente pois 0 ≤ f (x) para todo x ∈ R mas não é limitada

superiormente pois para cada M > 0, tomando x0 = M + 1
obtemos,
√ √
f (x0 ) = f ( M + 1) = ( M + 1)2 = M + 1 > M.

Exemplo 5.2 A função f: (0, +∞) → R definida por por f (x) =


1
não é limitada superiormente pois dado M > 0 podemos
x
1
encontrar x > 0 de tal modo que x < e, conseqüentemente,
M
1
f (x) = > M. Mas f é limitada inferiormente pois 0 < f (x)
x
para todo x ∈ (0, +∞). Além disso temos que inf f (x) = 0 pois,
x>0
5.2. FUNÇÕES LIMITADAS 115

1
dado ε > 0, existe x ∈ R tal que x > e, assim, 0 < f (x) =
ε
1
< ε. Agora, para a > 0, f restrita a [a, +∞) é limitada, pois
x
1 1
se x ≥ a > 0 temos 0 < ≤ .
x a

Proposição 5.1 Sejam f: S → R e g : S → R funções reais.

i) Se f e g são limitadas então f + g e f.g são limitadas.

ii) Se f é limitada e existe α > 0 tal que |g(x)| ≥ α ∀x ∈ S


f
então é limitada.
g

Prova:
i) Existem M1 > 0 e M2 > 0 tais que

| f (x)| ≤ M1 e |g(x)| ≤ M2 , ∀x ∈ S .

Então

|( f + g)(x)| = | f (x) + g(x)| ≤ | f (x)| + |g(x)| ≤ M1 + M2

e
|( f.g)(x)| = | f (x).g(x)| = | f (x)|.|g(x)| ≤ M1 .M2 .

ii) Existe M > 0 tal que | f (x)| ≤ M para todo x ∈ S . Logo


!
f f (x) | f (x)| M
(x) = = ≤ ,
g g(x) |g(x)| α

para todo x ∈ S .
116 CAPÍTULO 5. LIMITES DE FUNÇÕES

5.3 Limites de Funções Reais


Sejam S um subconjunto de R, a um ponto de acumulação
de S e f : S → R uma função real. Dizemos que L ∈ R é
o limite de f em a, e escrevemos lim f (x) = L, quando para
x→a
cada ε > 0 existe δ > 0 tal que x ∈ S e 0 < |x − a| < δ acarreta
| f (x) − L| < ε. Equivalentemente, lim f (x) = L quando dada
x→a
qualquer vizinhança Vε (L) existe Vδ∗ (a) tal que se x ∈ S ∩ Vδ∗ (a)
então f (x) ∈ Vε (L).
É claro que o número δ, cuja existência é assegurada pela
definição de limite, não é único pois para qualquer δ0 > 0 sat-
isfazendo δ0 < δ também te-se que que x ∈ S e 0 < |x − a| < δ0
acarreta | f (x) − L| < ε.

Exemplo 5.3 Considere f : R → R definida por f (x) = 3x − 1.



Então lim f (x) = 8. De fato, dado ε > 0 tome δ = e temos
x→3 3
que se 0 < |x − 3| < δ

| f (x) − 8| = |3x − 1 − 8| = |3x − 9| = 3|x − 3| < 3δ = ε.

Exemplo 5.4 Considere f: R → R definida por:


 2
x −4
 x − 2 , se x , 2




f (x) = 



−1, se x = 2


Então lim f (x) = 4. Com efeito, dado ε > 0 tome δ = ε e temos


x→2
que se 0 < |x − 2| < δ

(x − 2)(x + 2)
2
x − 4
− 4 = − 4 = |x − 2| < δ = ε.
x−2 x−2

5.3. LIMITES DE FUNÇÕES REAIS 117

Exemplo 5.5 Seja f : R → R definida por f (x) = x2 . Então


lim f (x) = 9. De fato, dado ε > 0 devemos determinar δ > 0
x→3
tal que 0 < |x − 3| < δ implique em | f (x) − 9| < ε. Como
queremos estimar f nas proximidades do ponto 3 podemos
nos restringir aos pontos x tais que |x − 3| < 1. Neste caso
temos |x| = |x − 3 + 3| ≤ |x − 3| + 3 < 4 e, assim |x + 3| < 7. Logo

| f (x) − 9| = |x2 − 9| = |(x + 3)(x − 3)| = |x + 3||x − 3| < 7|x − 3|.


ε
Vemos, então, que se escolhemos δ = min{1, } temos
7
0 < |x − 3| < δ ⇒ |x2 − 9| < 7δ = ε.

Exemplo 5.6 A função√ f : (0, +∞) → R dada por f (x) = x
é tal que lim f (x) = a, para a > 0. De fato, dado ε > 0
x→a
devemos determinar δ > 0 tal que 0 < |x − a| < δ implique em
√ √
| x − a| < ε. Observemos inicialmente que, para todo x > 0,
temos
√ √ √ √
√ √ ( x − a)( x + a) |x − a|
| x − a| = √ √ = √ √ .
x+ a x+ a
√ √ √
Como para todo x > 0 temos sempre que x + a > a,
então
1 1
√ √ < √ .
x+ a a
Logo
√ √ 1
| x − a| < √ |x − a|
a

e, portanto, dado ε > 0 podemos escolher δ = ε a para ter-
√ √
mos | x − a| < ε.

A proposição a seguir estabelece uma equivalência entre


a definição de limite formulada em termos de epsilons e deltas
com uma formulação em termos de seqüências convergentes.
118 CAPÍTULO 5. LIMITES DE FUNÇÕES

Proposição 5.2 Sejam f : S → R uma função real e a um


ponto de acumulação de S . Então lim f (x) = L se, e somente
x→a
se, para toda seqüência (xn ) de pontos de S com xn , a para
todo n ∈ N e lim xn = a tem-se lim f (xn ) = L.
x→∞ x→a

Prova: Suponhamos que lim f (x) = L. Se (xn ) é uma seqüência


x→a
de pontos de S com xn , a para todo n ∈ N e lim xn = a, então
x→∞
dado ε > 0 existe δ > 0 tal que

x ∈ S e 0 < |x − a| < δ ⇒ | f (x) − L| < ε.

Por outro lado, para o δ > 0 acima determinado existe N ∈ N


tal que
n ≥ N ⇒ |xn − a| < δ.
Assim, para n ≥ N temos 0 < |xn − a| < δ e, portanto, | f (xn ) −
L| < ε, ou seja, lim f (xn ) = L. Reciprocamente, suponhamos
n→∞
que para qualquer seqüência (xn ) de pontos de S , com xn , a
para todo n ∈ N e lim xn = a, tem-se lim f (xn ) = L. Mostremos
x→∞ x→a
que lim f (x) = L. Negar essa hipótese significa dizer que ex-
x→a
iste um número ε0 > 0 tal que para cada n ∈ N é possı́vel
1
encontrar xn ∈ S com 0 < |xn − a| < , mas | f (xn ) − L| ≥ ε0 .
n
Neste caso terı́amos xn , a para todo n ∈ N com lim xn = a
n→∞
sem que lim f (xn ) = L, o que é uma contradição.
n→∞

Corolário 1: Se lim f (x) = L e lim f (x) = M então L = M.


x→a x→a
Prova: Considere uma seqüência (xn ) com xn , a para todo
n ∈ N e lim xn = a. Temos então que lim f (xn ) = L e lim f (xn ) =
n→∞ n→∞ x→∞
M o que implica (vide Proposição 2.1) em L = M.
Corolário 2: Sejam f : S → R e g: S → R com lim f (x) = L e
x→a
lim g(x) = M então:
x→a
5.3. LIMITES DE FUNÇÕES REAIS 119

i) lim( f (x) ± g(x)) = L ± M.


x→a

ii) lim f (x).g(x) = L.M.


x→a

f (x) L
iii) Se g(x) , 0 e M , 0 então lim = .
x→a g(x) M
Prova: Seja (xn ) tal que xn , a para todo n ∈ N e lim xn =
n→∞
a. Então lim f (xn ) = L e lim g(xn ) = M. Segue agora da
n→∞ n→∞
Proposição 2.3 que

a) lim ( f (xn ) ± g(xn )) = L ± M


n→∞

b) lim f (xn ).g(xn ) = L.M


n→∞

f (xn ) L
c) lim =
n→∞ g(xn ) M
o que demonstra o corolário.
Corolário 3: Sejam f e g funções reais tais que f (x) ≤ g(x)
para todo x , a. Se lim f (x) = L e lim g(x) = M então L ≤ M.
x→a x→a
Prova: Seja (xn ) tal que xn , a para todo n ∈ N e lim xn = a.
n→∞
Então lim f (xn ) = L e lim g(xn ) = M. Como f (xn ) ≤ g(xn ) para
n→∞ x→∞
todo n ∈ N, segue da Proposição 2.4 que L ≤ M.
Corolário 4: Sejam f, g e h funções reais tais que f (x) ≤
g(x) ≤ h(x) para todo x , a. Se lim f (x) = lim h(x) = L então
x→a x→a
lim g(x) = L.
x→a
Prova: Seja (xn ) tal que xn , a para todo n ∈ N e lim xn = a.
n→∞
Então lim f (xn ) = lim h(xn ) = L. Como f (xn ) ≤ g(xn ) ≤ h(xn )
n→∞ n→∞
para todo n ∈ N, segue da Proposição 2.5 que lim g(xn ) = L e,
n→∞
portanto, lim g(x) = L.
x→a
120 CAPÍTULO 5. LIMITES DE FUNÇÕES

Corolário 5: Se lim f (x) = L então lim | f (x)| = |L|.


x→a x→a
Prova: Seja (xn ) tal que xn , a para todo n ∈ N e lim xn =
n→∞
a. Temos que lim f (xn ) = L e, portanto, da Proposição 2.4,
n→∞
segue que lim | f (xn )| = |L|. Logo lim | f (x)| = |L|.
n→∞ x→a

Proposição 5.3 Sejam f: S → R e g: S → R funções reais e a


um ponto de acumulação de S . Suponhamos que lim f (x) = 0
x→a
e g é limitada em uma vizinhança de a. Então lim f (x)g(x) = 0.
x→a

Prova: Sendo g limitada em uma vizinhaça de a então existem


números reais C e h positivos tais que |g(x)| ≤ C para todo
x ∈ S com 0 < |x − a| < h. Logo

0 ≤ | f (x)g(x)| = | f (x)||g(x)| ≤ C| f (x)|.

Como lim | f (x)| = | lim f (x)| = |0| = 0, temos, pelo Corolário


x→a x→a
4 da Proposição 5.2, que lim | f (x)g(x)| = 0, o que acarreta
x→a
lim f (x)g(x) = 0.
x→a

Exemplo 5.7 Sejam f, g: R → R dadas por f (x) = c, c con-


stante, e g(x) = x. Então, para todo a ∈ R temos lim f (x) = c
x→a
e lim g(x) = a pois se (xn ) é tal que xn , a para todo n ∈ N
x→a
e lim xn = a temos f (xn ) = c e g(xn ) = xn para todo n ∈ N e,
n→∞
portanto, lim f (xn ) = c e lim g(xn ) = a.
n→∞ n→∞

Exemplo 5.8 Seja p : R → R um polinômio, isto é, existem


números reais a0 , a1 , · · · , an tais que p(x) = a0 +a1 x+· · ·+an xn
para todo x ∈ R. Usando o Exemplo 5.7 e fazendo aplicações
sucessivas do Corolário 2 da Proposição 5.2 segue que lim p(x) =
x→a
p(a). Temos também que se q é um polinômio com q(a) , 0
5.3. LIMITES DE FUNÇÕES REAIS 121

então existe uma vizinhança de a na qual q(x) , 0 e, portanto,


em tal vizinhança a função f (x) = q(x) está bem definida e vale
p(x)

que lim x→a


p(x)
q(x)
= p(a)
q(a)
·

  5.9 Considere f : R − {0} → R dada por f (x) =


Exemplo
sen 1x . Verifiquemos que f não possui limite em x0 = 0. Para
tanto consideremos a seqüência (xn ) dada por xn = (2n+1)π
2
.
Temos que xn , 0 para todo n ∈ N, limn→∞ xn = 0 e

(2n + 1)π π
! !
1 
f (xn ) = sen = sen = sen nπ + .
xn 2 2

Assim, f (xn ) = 1 se n é par e f (xn ) = −1 se n é ı́mpar, ou


seja, a seqüência ( f (xn )) não possui limite. Veja um esboço do
gráfico de f abaixo.
122 CAPÍTULO 5. LIMITES DE FUNÇÕES

Exemplo 5.10  Considere a função f: R − {0}→ R definida por


f (x) = xsen 1x . Temos que lim x = 0 e sen 1x ≤ 1 para todo
x→0
x , 0. Pela Proposição 5.3 segue que lim f (x) = 0. Veja um
x→0
esboço do gráfico de f abaixo.

Exemplo 5.11 A função1 f: R → R dada por




 1, se x ∈ Q,
f (x) = 



 0, se x ∈ R − Q.

não tem limite em ponto algum de R. De fato, se a ∈ R, podemos


escolher uma seqüência de racionais (xn ) e uma seqüência de
irracionais (yn ), com xn , a e yn , a para todo n ∈ N e tais que
xn → a e yn → a. Neste caso temos f (xn ) = 1 e f (yn ) = 0 para
todo n ∈ N e, portanto, lim f (xn ) = 0 e lim f (yn ) = 1 ou seja, f
n→∞ n→∞
não possui limite em a.

5.4 Limites Laterais, Infinitos e no Infinito


No estudo de algumas funções reais particulares, certas
situações merecem destaque tais como: nas vizinhanças de
um determinado ponto o comportamento dos valores da função
pode ser diferente quando a variável independente se aprox-
ima do ponto em questão pela esquerda ou pela direita; a
função pode estar definida para valores muito grandes (em val-
ores absolutos) e é importante analisar o que ocorre com os
valores da função. O nosso objetivo nesta seção é introduzir a
linguagem matemática adequada para tratar tais situações.
1
A função f do Exemplo 5.11 é conhecida como Função de Dirichlet
5.4. LIMITES LATERAIS, INFINITOS E NO INFINITO 123

5.4.1 Limites Laterais


Definição 5.2 Seja f uma função real definida no intervalo
(a, a + η), para algum η > 0. Dizemos que um número L é
o limite lateral à direita de f em a, e escrevemos lim+ f (x) = L,
x→a
se, para cada ε > 0 existe δ > 0 (δ < η) tal que a < x < a + δ
acarreta | f (x) − L| < ε. Analogamente, se f está definida em
um intervalo (a − η, a), para algum η > 0, dizemos que um
número L é o limite lateral à esquerda de f em a, e escreve-
mos lim− f (x) = L, quando para cada ε > 0 existe δ > 0 (δ < η)
x→a
tal que a − δ < x < a acarreta | f (x) − L| < ε.

Exemplo 5.12 Consideremos f: R → R dada por

x + 1, se x ≤ 2,



f (x) = 


 2x − 3, se x > 2.

Temos lim+ f (x) = 1 e lim− f (x) = 3. De fato, dado ε > 0


x→2 x→2
ε
tomemos δ = e obtemos, para 2 < x < 2 + δ, isto é,
2
0 < x − 2 < δ,
| f (x) − 1| = |2x − 3 − 1| = |2x − 4| = 2|x − 2| = 2(x − 2) < 2δ = ε.
Para o cálculo do limite à esquerda no ponto 2, tome agora
δ = ε e temos, para 2 − δ < x < 2, isto é −(x − 2) < δ,
| f (x) − 3| = |(x + 1) − 3| = |x − 2| = −(x − 2) < δ = ε.
Vide esboço do gráfico de f abaixo.

Proposição 5.4 Seja f : (a − η, a) ∪ (a, a + η) → R. Então


lim f (x) = L se, e somente se,
x→a

lim f (x) = lim+ f (x) = L.


x→a− x→a
124 CAPÍTULO 5. LIMITES DE FUNÇÕES

Prova: Suponhamos que lim f (x) = L. Assim, dado ε > 0,


x→a
existe δ > 0 tal que se 0 < |x − a| < δ então | f (x) − L| < ε.
Portanto, a < x < a + δ implica | f (x) − L| < ε e a − δ < x < a
implica | f (x) − L| < ε. Assim, lim+ f (x) = L e lim− f (x) = L.
x→a x→a
Reciprocamente, suponhamos que lim− f (x) = lim+ f (x) = L.
x→a x→a
Dado ε > 0 existem δ1 > 0 e δ2 > 0 tais que, se a < x < a + δ1
tem-se | f (x) − L| < ε e se a − δ2 < x < a tem-se | f (x) − L| < ε.
Seja δ = min{δ1 , δ2 }. Então, para 0 < |x − a| < δ, ou seja,
x ∈ (a − δ, a) ⊂ (a − δ2 , a) ou x ∈ (a, a + δ) ⊂ (a, a + δ1 ) temos
| f (x) − L| < ε. Logo lim f (x) = L.
x→a

Exemplo 5.13 : Seja f: R → R definida por

x , se x ≥ 0,
 2


f (x) = 


 −x, se x < 0.



Dado ε > 0 escolhamos δ = ε. Se consideramos 0 < x < δ
então | f (x) − 0| = |x2 | = x2 < δ2 = ε. Assim, lim+ f (x) = 0. Por
x→0
outro lado, dado ε > 0 podemos escolher δ = ε e temos, para
−δ < x < 0, | f (x) − 0| = | − x| = −x < δ = ε, isto é, lim− f (x) = 0.
x→0
Logo, pela Proposição 5.4, lim f (x) = 0.
x→0

5.4.2 Limites Infinitos


Definição 5.3 Seja f : S → R e a um ponto de acumulação
de S . Dizemos que o limite de f em a é +∞, e escrevemos
lim f (x) = +∞, quando para cada M > 0 existe δ > 0 tal que
x→a
0 < |x − a| < δ então f (x) > M. Analogamente, dizemos que o
limite de f em a é −∞, e escrevemos lim f (x) = −∞, quando
x→a
para cada M > 0 existe δ > 0 tal que 0 < |x − a| < δ então
f (x) < −M.
5.4. LIMITES LATERAIS, INFINITOS E NO INFINITO 125

Exemplo 5.14 Consideremos f : R − {0} → R definida por


1 1
f (x) = · Dado M > 0 escolhamos δ = · Então para
|x| M
1 1
0 < |x − 0| < δ, ou seja, 0 < |x| < , obtemos > M.
M |x|
Portanto, lim f (x) = +∞.
x→0

Exemplo 5.15 Seja f : R − {0} → R definida por f (x) = ln |x|.


Dado M > 0 tomemos δ = e−M . Se 0 < |x − 0| < δ, ou seja,
0 < |x| < e−M , então ln |x| < −M. Logo, lim f (x) = −∞.
x→0

5.4.3 Limites no Infinito


Definição 5.4 Seja f: (a, +∞) → R. Dizemos que um número
L é o limite de f em +∞, e escrevemos lim f (x) = L, quando,
x→+∞
para cada ε > 0 existe K > 0 tal que, se x > K acarreta
| f (x) − L| < ε. Analogamente, se f : (−∞, a) → R, dizemos
que L é o limite de f em −∞, e escrevemos lim x→−∞ f (x) = L,
quando para cada ε > 0 existe K > 0 tal que x < −K então
| f (x) − L| < ε.
Exemplo 5.16 Seja f : (0, +∞) → R dada por f (x) = −1
1+x
.
Dado ε > 0 tomemos K = 1ε e obteremos, para x > K,

1 1 1 1
| f (x) − 0| = −
= < < = ε.
1+x 1+x x K
Portanto lim f (x) = 0.
x→+∞

Exemplo 5.17 Considere f: (−∞, −1) → R definida por f (x) =


−1
1+x
 . Dado ε > 0 tomemos K = 1 + 1ε para obter, para x <

− 1 + 1ε ,

1 1
| f (x) − 0| = −
= − < ε.
1+x 1+x
Portanto lim f (x) = 0.
x→−∞
126 CAPÍTULO 5. LIMITES DE FUNÇÕES

Exemplo 5.18 A função do exemplo anterior possui limite lat-


eral à esquerda igual a +∞ no ponto −1. Para ver isto, se K > 0
1
é dado, tomemos δ = e temos, para −1 − δ < x < −1, isto
M
é, 0 < −(1 + x) < δ,

1 1
f (x) = − > = K.
1+x δ
Portanto lim− f (x) = +∞.
x→−1

Definição 5.5 Seja f: (a, +∞) → R. Dizemos que f tem limite


+∞ quando x tende a +∞, e escrevemos lim f (x) = +∞,
x→+∞
quando para cada M > 0 existe K > 0 tal que, se x > K então
f (x) > M. Analogamente, se f : (−∞, a) → R, dizemos que f
tem limite +∞ quando x tende a −∞, e escrevemos lim f (x) =
x→−∞
+∞, quando para cada M > 0 existe K > 0 tal que, se x < −K
implica f (x) > M.

Há ainda os casos lim f (x) = −∞ e lim f (x) = −∞, os


x→+∞ x→−∞
quais recomendamos ao leitor formalizá-los como exercı́cios.

Exemplo 5.19 Seja f: (0, +∞) → R dada por f (x) = x. Para
cada M > 0 escolhamos K = M 2 e obtemos, para x > K,
√ √ √
f (x) = x> K= M 2 = M,

ou seja, lim f (x) = +∞.


x→+∞

5.5 Funções Monótonas


Uma função f: S → R, definida em um subconjunto S de R,
é dita não decrecente se, para todo par de pontos x1 e x2 em
5.5. FUNÇÕES MONÓTONAS 127

S , com x1 < x2 , tem-se f (x1 ) ≤ f (x2 ). Quando vale a desigual-


dade estrita dizemos que f é crescente. Analogamente define-
se função não crescente e função decrescente. Classificamos
tais tipos de funções como funções monótonas. Notemos que
uma função constante é simultaneamente não crescente e não
decrescente. Observe que pode ocorrer de f : S → R não ser
monótona, mas sua restrição a algum subconjunto de S ser.
Este é o caso, por exemplo, da função f : R → R dada por
f (x) = |x| que é decrescente no intervalo (−∞, 0] e crescente
no intervalo [0, +∞).

Exemplo 5.20 Seja f : R → R, tal que f (x) = x3 . Temos que f


é crecente pois se x < y então

f (x) − f (y) = x3 − y3 = (x − y)(x2 + xy + y2 ).

Mas, quaisquer que sejam x e y tem-se

y y2 y2 y 2 y2
x + xy + y = x + 2x + + 3 = (x + ) + 3 ≥ 0,
2 2 2
2 4 4 2 4
e assim f (x)− f (y) = (x−y)(x2 +xy+y2 ) < 0 ou seja, f (x) < f (y),
se x < y. Vide esboço do gráfico de f abaixo.
128 CAPÍTULO 5. LIMITES DE FUNÇÕES

Exemplo 5.21 Consideremos a função f : [1, +∞) → R dada


1
por f (x) = , onde [x] denota a função “chão de x”, isto é,
[x]
[x] = “o maior inteiro que é menor ou igual a x”. Mostremos
que f é não crescente. Para tanto sejam x1 e x2 em [1, +∞)
com x1 < x2 . Temos que existem únicos números naturais n1 e
n2 tais que x1 ∈ [n1 , n1 + 1) e x2 ∈ [n2 , n2 + 1) e, além disso,
n1 ≤ n2 uma vez que x1 < x2 . Portanto
1 1 1 1
f (x1 ) = = ≥ = = f (x2 ),
[x1 ] n1 n2 [x2 ]
ou seja, f é não crescente.

Observemos que, quando f : S → R é crescente (ou de-


crescente) segue da definição que f é injetiva, isto é, x1 , x2
acarreta que f (x1 ) , f (x2 ). Portanto, existe a função inversa
f −1: f (S ) → S dada por f −1 (y) = x se, e somente se, f (x) = y.

Proposição 5.5 Se f : (a, b) → R é monótona, então existem


os limites laterais de f em cada ponto x0 ∈ (a, b).

Prova: Suponhamos que f é não decrescente (o caso f não


crecente é análogo e deixado como exercı́cio). Se x0 ∈ (a, b),
para todo x ∈ (a, x0 ) temos f (x) ≤ f (x0 ). Ou seja, f restrita
a (a, x0 ) é limitada superiormente. Seja α o supremo do con-
junto { f (x); x ∈ (a, x0 )}. Mostremos que lim− f (x) = α. Para
x→x0
tanto, dado ε > 0, sendo α o supremo de f em (a, x0 ), ex-
iste x1 ∈ (a, x0 ) satisfazendo α − ε < f (x1 ) ≤ α. Tomemos
δ = x0 − x1 > 0 e obtemos, para x0 − δ < x < x0 ,

| f (x) − α| = α − f (x) ≤ α − f (x1 ) < ε,

ou seja, lim− f (x) = α. Por outro lado f é limitada inferiormente


x→x0
em (x0 , b) pois aı́ f (x0 ) ≤ f (x). Tomemos agora β o ı́nfimo do
5.5. FUNÇÕES MONÓTONAS 129

conjunto { f (x); x ∈ (x0 , b)} e mostremos que lim+ f (x) = β.


x→x0
Dado ε > 0, sendo β o ı́nfimo de f em (x0 , b), existe x2 ∈ (x0 , b)
tal que β ≤ f (x2 ) < β + ε. Tomemos δ = x2 − x0 > 0 e então,
para todo x tal que x0 < x < x0 + δ, temos

| f (x) − β| = f (x) − β ≤ f (x2 ) − β < ε,


isto é, lim+ f (x) = β.
x→x0

Corolário 1: Se f é não decrescente em (a, b) então para


cada x0 ∈ (a, b) temos

lim f (x) = sup f (x) ≤ f (x0 ) ≤ inf f (x) = lim+ f (x)


x→x0− x∈(a,x0 ) x∈(x0 ,b) x→x0

e se f é não crescente em (a, b) então para cada x0 ∈ (a, b)


temos

lim f (x) = inf f (x) ≤ f (x0 ) ≤ sup f (x) = lim− f (x).


x→x0+ x∈(a,x0 ) x∈(x0 ,b) x→x0

Segue do Corolário 1 da Proposição 5.5 que quando f é


monótona em (a, b) então o valor de f em x0 é finito uma
vez que existem e são finitos os limites laterais em cada ponto
x0 ∈ (a, b).
Corolário 2: Se f é não decrescente em (a, b) e se a < x1 <
x2 < b então
lim f (x) ≤ lim− f (x).
x→x1+ x→x2

Prova: Escolha x̂ ∈ (x1 , x2 ). Desde que x̂ ∈ (x1 , b) temos

inf f (x) ≤ f ( x̂).


x∈(x1 ,b)

Analogamente, desde que x̂ ∈ (a, x2 ) então

f ( x̂) ≤ sup f (x).


x∈(a,x2 )
130 CAPÍTULO 5. LIMITES DE FUNÇÕES

Agora, pelo Corolário 1 da Proposição 5.5 temos

lim f (x) = inf f (x) ≤ f ( x̂) ≤ sup f (x) = lim− f (x),


x→x1+ x∈(x1 ,b) x∈(a,x2 ) x→x2

o que demonstra o Corolário.


Uma propriedade de destaque das funções monótonas definidas
em intervalos é que em cada ponto do intervalo o limite existe
e este coincide com o valor da função no ponto, exceto, even-
tualmente, em um subconjunto contável. Este resultado é o
que estabelece a proposição a seguir.

Proposição 5.6 Se f : (a, b) → R é monótona então existe


lim f (x) e é igual a f (x0 ), exceto, eventualmente, em uma
x→x0
quantidade contável de pontos de (a, b).

Prova: Suponhamos que f é não decrescente (o caso não


crescente é feito de maneira semelhante) em (a, b). Sabemos,
pelo Corolário 1 da Proposição 5.5, que para todo ponto x0 de
(a, b) temos
lim f (x) ≤ f (x0 ) ≤ lim+ f (x).
x→x0− x→x0

Chamemos de N o subconjunto de (a, b) dado por

N = {x0 ∈ (a, b); lim− f (x) < lim+ f (x)}.


x→x0 x→x0

Dizer que x0 < N significa que lim− f (x) = f (x0 ) = lim+ f (x),
x→x0 x→x0
ou seja, o limite de f em x0 existe e é igual a f (x0 ). Assim,
é suficiente provarmos que N é contável. Para cada x0 ∈ N
escolhamos r x0 ∈ Q tal que

lim f (x) < r x0 < lim+ f (x).


x→x0− x→x0
5.5. FUNÇÕES MONÓTONAS 131

Um tal r x0 sempre existe em virtude da densidade de Q em R.


Seja Ψ : N → Q a função que a cada x0 ∈ N associa o r x0
acima escolhido. Afirmamos que Ψ é injetiva. De fato, se x1 e
x2 pertencem a N com x1 < x2 então

lim f (x) < lim+ f (x) e lim− f (x) < lim+ f (x)
x→x1− x→x1 x→x2 x→x2

e pelo Corolário 2 da Proposição 5.5 temos

lim f (x) ≤ lim− f (x).


x→x1+ x→x2

Logo

Ψ(x1 ) = r x1 < lim+ f (x) ≤ lim− f (x) < r x2 = Ψ(x2 ).


x→x1 x→x2

Isto é, Ψ(x1 ) , Ψ(x2 ) e, portanto, Ψ é injetiva. Segue da


Proposição 1.6 que N é contável, como querı́amos.
132 CAPÍTULO 5. LIMITES DE FUNÇÕES

5.6 Exercı́cios do Capı́tulo 5


5.1- Prove que:

i) lim x3 = 1
x→1

x2 − 1
ii) lim =2
x→1 x − 1
iii) lim (2x − 1) = 3
x→2
iv) lim cos(x) = cos(a)
x→a

5.2- Prove que se lim f (x) = L então existe uma vizinhança


x→a
de a na qual f é limitada.

5.3- Prove que se f (x) ≥ 0, ∀x , a e lim f (x) = L então


√ x→a
lim f (x) = L
p
x→a

5.4- Prove que cada uma das seguintes funções é limitada no


intervalo indicado:
sen(x)
a) f (x) = em (−∞, ∞)
1 + x2
sen(x)
b) f (x) = √ em (0, +∞)
x
cos(x)
c) f (x) = 2 em (−∞, ∞)
x − 2x + 2
1 − x2
d) f (x) = em (−1, 1)
1 + x3
5.5- Encontre o supremo e o ı́nfimo das seguintes funções:

a) f (x) = 3 + 2x − x2 em (0, 4)
b) f (x) = 2 − |x − 1| em (−2, 2)
5.6. EXERCÍCIOS DO CAPÍTULO 5 133

c) f (x) = −e−|x| em (−∞, ∞)

5.6- Suponha que f é limitada em A e g é ilimitada em A.


Prove que f + g deixa de ser limitada em A.

5.7- Encontre funções f e g nenhuma das quais é limitada em


A, mas que o produto é limitada em A.

5.8- Prove que se lim | f (x)| = 0 então: lim f (x) = 0


x→a x→a

5.9- Calcule os seguintes limites



x+1−1
a) lim
x→0 x
√ √
b) lim ( x + 1 − x)
x→∞

5.10- Sejam f, g : S ⊂ R → R funções limitadas. Prove que:

a) sup( f + g) ≤ sup f + sup g


b) inf( f + g) ≥ inf f + inf g
c) sup(c f ) = c sup f e inf(c f ) = c inf f se c ≥ 0
d) Se c < 0 tem-se: sup(c f ) = c inf f e inf(c f ) = c sup f

5.11- Prove que:

i) Para todo a, b ∈ R, a2 + ab + b2 ≥ 0.
ii) A função f : R → R tal que f (x) = x3 é extritamente
crescente em R.

5.12- Prove que se lim f (x) = ∞ e f (x) ≤ g(x) em alguma


x→a
vizinhança suprimida de x = a então: lim g(x) = ∞
x→a

5.13- Prove que:


134 CAPÍTULO 5. LIMITES DE FUNÇÕES

1
a) Se lim f (x) = ∞ então: lim =0
x→a x→a f (x)
b) Se lim f (x) = 0 e f (x) , 0 ∀x ∈ Vδ∗ (a) então:
x→a
1
lim = +∞
x→a f (x)

5.14- Prove que se lim f (x) = L então: existe a ∈ R tal que f


x→∞
é limitada em [a, +∞).

5.15- Prove que se f é monótona decrescente em (a, b) então,


para cada x0 ∈ (a, b), lim+ f (x) e lim− f (x) ambos exis-
x→x0 x→x0
tem e vale:

lim f (x) = inf f (x) ≥ f (x0 )


x→x0− x∈(a,x0 )

e
f (x0 ) ≥ sup f (x) = lim+ f (x)
x∈(x0 ,b) x→x0

5.16- Prove que se f é monótona decrescente em (a, b), então


para a < x1 < x2 < b temos

lim f (x) ≥ lim+ f (x).


x→x1− x→x2

5.17- Se f (x) < g(x) ∀x ∈ S , dê um contra-exemplo para


mostrar que, em geral, não se tem lim f (x) < lim g(x).
x→a x→a
!
p 1
5.18- Seja f : Q → R definida por f = onde, p e q são
q q
primos entre si e q ≥ 1. Mostre que ∀a ∈ R lim f (x) = 0.
x→a
Capı́tulo 6

Funções Contı́nuas

6.1 Introdução
Apresentamos neste capı́tulo o conceito de continuidade
de funções reais. Tal conceito é, sem dúvida, um dos mais
básicos em Cálculo e Análise Real, muito importante em aplicações,
dada a sua utilidade em problemas de aproximações, e funda-
mental em outras áreas como Geometria e Topologia. Intuitiva-
mente falando, a propriedade de continuidade de uma função
significa que “pequenas variações” na variável independente
produz “pequenas variações” nos valores da função.

6.2 Funções Contı́nuas


Definição 6.1 Sejam f : S → R uma função definida em um
subconjunto não vazio de R e x0 um ponto de acumulação
de S . Dizemos que f é contı́nua em x0 se lim f (x) = f (x0 ),
x→x0
isto é, se para cada ε > 0 existe δ > 0 (que pode depender de

135
136 CAPÍTULO 6. FUNÇÕES CONTÍNUAS

ε e de x0 ) tal que

x ∈ S e |x − x0 | < δ ⇒ | f (x) − f (x0 )| < ε.

Uma observação necessária a ser feita neste instante é


que, quando definimos limite de uma função f : S → R em um
ponto x0 (vide seção 5.3), não exigimos que tal ponto fosse
necessariamente um ponto de S , mas sim, que fosse ponto de
acumulação de S . A exigência dessa hipótese é que, ao in-
vestigarmos a existência do limite de uma função em um ponto
x0 ∈ R, não importa se a função está definida em x0 e sim que
esteja definida em pontos próximos de x0 . Por outro lado, na
Definição 6.1 acima, o ponto x0 pertence a S , o domı́nio de f,
podendo ser ou não um ponto de acumulação de S . Ocorre,
no entanto, que se x0 não for ponto de acumulação de S , isto
é, se existe δ0 > 0 tal que (x0 − δ0 , x0 + δ0 ) ∩ S = {x0 }, então f
é necessariamente contı́nua em x0 pois, dado ε > 0 podemos
tomar δ = δ0 e teremos que se x ∈ S e |x − x0 | < δ0 então
x = x0 , logo | f (x) − f (x0 )| = 0 < ε.
Quando x0 ∈ S não é ponto de acumulação de S dizemos
que é um ponto isolado de S . O que acabamos de mostrar no
parágrafo anterior foi que toda função é contı́nua em pontos
isolados do seu domı́nio de definição.
Uma outra observação importante a ser feita é que a pro-
priedade de f ser contı́nua em x0 é uma propriedade “local”,
isto é, o que importa são os valores de f para x em uma
vizinhança de x0 . É com base nessa observação que, ao in-
vestigarmos a existência do limite de uma determinada função
f em um ponto x0 e, em particular, ao verificarmos se f é
contı́nua em x0 , podemos restringir os valores de x a uma
vizinhança especı́fica (e conveniente) de x0 . Usamos esse pro-
cedimento no Exemplo 6.4.
6.2. FUNÇÕES CONTÍNUAS 137

Exemplo 6.1 Seja f : R → R definida por f (x) = k, k uma


constante. Se x0 é um ponto arbitrário de R então f é contı́nua
em x0 pois para qualquer ε > 0 podemos tomar δ como sendo
qualquer valor positivo e temos
|x − x0 | < δ ⇒ | f (x) − f (x0 )| = |k − k| = 0 < ε.
Exemplo 6.2 Considere f : R → R definida por f (x) = x e
seja x0 um ponto arbitrário de R. Se ε > 0 é dado tomemos
δ = ε e obtemos
|x − x0 | < δ ⇒ | f (x) − f (x0 )| = |x − x0 | < δ = ε.
Portanto f é contı́nua em x0 .

Exemplo 6.3 Seja f : R → R definida por f (x) = ax + b, a


e b constantes. Considere x0 um ponto arbitrário de R. Se
a = 0 então f é constante e já vimos no Exemplo 6.1 que f é
ε
contı́nua em x0 . Se agora a , 0, dado ε > 0 tomemos δ =
|a|
e temos
| f (x) − f (x0 )| = |ax + b − ax0 − b| = |a||x − x0 | < ε
se |x − x0 | < δ. Portanto, em qualquer caso, f é contı́nua em
x0 .
Exemplo 6.4 Considere f : R → R definida por f (x) = x2 e
seja x0 um ponto arbitrário de R. Mostremos que f é contı́nua
em x0 . Em primeiro lugar vamos considerar x ∈ (x0 − 1, x0 + 1),
ou seja |x − x0 | < 1. Neste caso |x| < 1 + |x0 |. Assim,
| f (x) − f (x0 )| = |x2 − x02 | = |x + x0 ||x − x0 | ≤
(|x| + |x0 |)|x − x0 | < (1 + 2|x0 |)|x − x0 |.
ε
Portanto, dado ε > 0, tomando δ = min{1, }, teremos
1 + 2|x0 |
|x − x0 | < δ ⇒ | f (x) − f (x0 )| < ε.
138 CAPÍTULO 6. FUNÇÕES CONTÍNUAS

No Exemplo 6.4 fica evidente a dependência do δ ao ε dado


e ao x0 considerado.

Exemplo 6.5 Seja f : R → R dada por f (x) = |x|. Sabemos


que, quaisquer que sejam x e x0 em R, |x| − |x0 | ≤ |x − x0 |.

Portanto, dado ε > 0 arbitrário,
podemos
tomar δ = ε para
concluirmos que f (x) − f (x0 ) = |x| − |x0 | ≤ |x − x0 | < ε se

|x − x0 | < δ.

Quando f : S → R não é contı́nua em x0 ∈ S dizemos que


é descontı́nua em x0 , ou que x0 é uma descontinuidade de
f. Assim, como costumamos proceder nos cursos de Cálculo,
para f ser contı́nua em x0 devemos observar três itens:

1) f está definida em x0 ;

2) Existe o limite de f em x0 ;

3) lim f (x) = f (x0 ).


x→x0

Se pelo menos um dos itens acima não for verdadeiro então


f é descontı́nua em x0 .

Exemplo 6.6 Consideremos f : R − {1} → R definida por


x2 − 1
f (x) = . Temos que
x−1
x2 − 1 (x + 1)(x − 1)
lim f (x) = lim = lim = lim(x + 1) = 2.
x→1 x→1 x−1 x→1 x−1 x→1

Como f não está definida em x0 = 1 não cabe arguir sobre


continuidade ou descontinuidade neste ponto. No entanto,
temos uma boa alternativa para estender f a toda a reta de
modo a termos uma função contı́nua, basta definir f (1) = 2.
6.2. FUNÇÕES CONTÍNUAS 139

Exemplo 6.7 Seja f : R → R definida por




 x, se x , 0,
f (x) = 


 1, se x = 0.

Temos que

lim f (x) = 0 e lim f (x) = 0.


x→0− x→0+

Portanto lim f (x) = 0 , f (0) = 1, ou seja, f é descontı́nua em


x→0
x0 = 0.

No Exemplo 6.7 acima poderı́amos redefinir f no ponto


0 como sendo f (0) = 0 e, assim, a nova função f seria
contı́nua no ponto. Uma descontinuidade como a deste ex-
emplo é chamada de descontinuidade removı́vel.
Observe que o que fizemos nos Exemplos 6.6 e 6.7 para
obter uma função contı́nua foi (re)definir o valor da função no
ponto como sendo o valor do limite de f. O que estava ocor-
rendo era que o limite de f no ponto existia mas, ou f não
estava definida naquele ponto ou, quando estava definida, o
valor de f no ponto era diferente do valor do limite. O que
fizemos foi “consertar as coisas”, isto é, removemos a descon-
tinuidade. Daı́ a denominação “descontinuidade removı́vel”.

Exemplo 6.8 Consideremos f : R − {0} → R definida por


|x|
f (x) = . Temos que
x
lim f (x) = −1 e lim f (x) = 1.
x→0− x→0+

Assim, f não possui limite em x0 = 0 sendo, portanto, de-


scontı́nua neste ponto.
140 CAPÍTULO 6. FUNÇÕES CONTÍNUAS

No Exemplo 6.8 acima, uma vez que os limites laterais


de f existem mas são distintos, é impossı́vel (re)definir f no
ponto x0 = 0 de modo a ter uma função f contı́nua. Uma de-
scontinuidade como a deste exemplo é chamada de descon-
tinuidade de salto.
As descontinuidades removı́veis e as de salto são classi-
ficadas como descontinuidades de 1a espécie. Todos os out-
ros tipos de descontinuidades são classificadas como descon-
tinuidades de 2a espécie.

Exemplo 6.9 Seja f : R → R definida por




 1, se x ∈ Q,
f (x) = 



 0, se x ∈ R − Q.

Já vimos no Exemplo 5.11 que f não possui limite em ponto


algum de R. Na verdade uma reformulação simples do argu-
mento utilizado naquele Exemplo mostra que, em qualquer
ponto de R, os limites laterais não existem. Ou seja f é de-
scontı́nua em todos os pontos e todas as descontinuidades
são de 2a espécie.

A seguir estabelecemos a equivalência entre a definição


de continuidade em termos de epsilons e deltas e em termos
de seqüências convergentes.

Proposição 6.1 Seja f : S → R uma função real. Então f é


contı́nua em x0 ∈ S se, e somente se, para qualquer seqüência
(xn ) de pontos de S com lim xn = x0 tem-se que ( f (xn )) é
n→∞
convergente e lim f (xn ) = f (x0 ).
n→∞

Prova: Demonstração análoga a da Proposição 5.2.


6.2. FUNÇÕES CONTÍNUAS 141

Proposição 6.2 Sejam f e g de S ⊂ R em R contı́nuas em


x0 ∈ S . Então:

a) f + g é contı́nua em x0 ;

b) f g é contı́nua em x0 ;

c) Se g(x0 ) , 0 então existe uma vizinhança Vη (x0 ) tal que


f
a função está bem em definida em Vη (x0 ) ∩ S e é
g
contı́nua em x0 .

Prova: A prova dos itens a) e b) segue diretamente do Corolário 2


da Proposição 5.2. Para a prova do item c), como g(x0 ) , 0,
|g(x0 )|
consideremos ε0 = e, desde que g é contı́nua em x0 , ex-
2
iste η > 0 tal que se x ∈ S e |x − x0 | < η então |g(x) − g(x0 )| < ε0 ,
isto é
|g(x0 )| |g(x0 )|
g(x0 ) − < g(x) < g(x0 ) + .
2 2
Se for g(x0 ) > 0 segue que

g(x0 )
0< < g(x),
2
e se for g(x0 ) < 0 segue que

g(x0 )
g(x) < < 0.
2
f
Em qualquer caso temos g(x) , 0 em Vη (x0 ) ∩ S e, portanto,
g
f
está aı́ bem definida. A continuidade de em x0 decorre do
g
Corolário 2 da Proposição 5.2.
142 CAPÍTULO 6. FUNÇÕES CONTÍNUAS

Exemplo 6.10 Vimos, nos Exemplos 6.1 e 6.2, que toda função
constante e a função identidade são contı́nuas em todo ponto
x0 ∈ R. Logo, por aplicações sucessivas dos itens a) e b) da
Proposição 6.2, deduzimos que as funções polinomiais são
contı́nuas em todo ponto x0 ∈ R. Segue agora, deste último
fato e do item c) da Proposição 6.2 que as funções racionais,
isto é, definidas como quociente de dois polinômios, são contı́nuas
em todos os pontos onde o denominador não se anule.

Observe que usando a Proposição 6.2 reobtemos a con-


tinuidade das funções dadas nos Exemplos 6.3 e 6.4.

Proposição 6.3 Sejam f : S → R e g : T → R com f (S ) ⊂ T,


f contı́nua em x0 ∈ S e g contı́nua em f (x0 ) ∈ T. Então g ◦ f :
S → R é contı́nua em x0 .

Prova: Seja (xn ) uma seqüência de pontos de S tal que lim xn =


n→∞
x0 . Sendo f contı́nua em x0 então lim f (xn ) = f (x0 ) e sendo g
n→∞
contı́nua em f (x0 ) segue que lim g( f (xn )) = g( f (x0 )). Ou seja
n→∞
lim (g ◦ f )(xn ) = (g ◦ f )(x0 ), o que significa a continuidade de
n→∞
g ◦ f em x0 .
Usando a Proposição 6.3 e o Exemplo 6.5 deduzimos que
se f : S → R é contı́nua em x0 ∈ S então | f | : S → R dada por
| f |(x) = | f (x)| é contı́nua em x0 .
Quando uma função f é contı́nua em todos os pontos do
seu domı́nio de definição S , dizemos que é contı́nua em S .
6.2. FUNÇÕES CONTÍNUAS 143

Exemplo 6.11 Considere f : S → R uma função com a seguinte


propriedade1 : existe k > 0 tal que | f (x) − f (y)| ≤ k|x − y|. Então
f é contı́nua em S pois dados um ponto qualquer x0 de S e
ε
ε > 0 tomemos δ = e temos que, se x ∈ S e |x − x0 | < δ,
k
ε
| f (x) − f (x0 )| ≤ k|x − x0 | < k = ε.
k
Exemplo 6.12 Vamos mostrar que a função seno é contı́nua
em todo R. Em primeiro lugar temos que para todo x ∈ R
|sen x| ≤ |x| e em segundo lugar temos que

sen x−seny = 2sen(


x−y
2
) cos( x+y
2
).

Logo, como a função cosseno é limitada por 1, vem que

|sen x−seny| ≤ |x − y|,

para todo x, y ∈ R, isto é, a função seno é lipschitziana. Segue


do Exemplo 6.11 que seno é contı́nua.

Exemplo 6.13 Seja f : R → R definida por


  


 sen 1
x
, se x , 0,
f (x) = 



se x = 0.

 0,

Temos que f é contı́nua em R − {0} uma vez que é a composta


1
em R − {0}. Observe
da função seno com a função racional
x
que, conforme podemos deduzir do Exemplo 5.9, f não possui
limites laterais em x0 = 0 sendo este ponto, portanto, uma
descontinuidade de 2a espécie.
1
Uma função com tal propriedade é dita função lipschitziana em honra ao
matemático Rudolph Lipschitz (1831-1904).
144 CAPÍTULO 6. FUNÇÕES CONTÍNUAS

Exemplo 6.14 Considere g : R → R definida por


 
, se x , 0,
( 1
xsen
g(x) = x
0, se x = 0.
Então g é contı́nua em todo R. De fato, se x0 = 0 temos
!
1
lim g(x) = lim xsen = 0 = g(0).
x→0 x→0 x
Logo g é contı́nua em x0 . Agora, se x , 0 temos,!pelo Exem-
1
plo 6.13, que a função f dada por f (x) = sen é contı́nua
x
em R − {0} e, pelo Exemplo 6.2, a função h dada por h(x) = x
é contı́nua em R. Portanto, pelo item b) da Proposição 6.2,
segue que g é contı́nua em R. Observe que para x , 0
! !
1 1
|g(x)| = xsen = |x| sen

≤ |x|.
x x
Como g(0) = 0, concluimos que para todo x ∈ R, −|x| ≤ g(x) ≤
|x|. Assim, o gráfico de g está compreendido entre as retas
y = x e y = −x.
Exemplo 6.15 Utilizando um racicı́nio totalmente análogo ao
do exemplo anterior podemos mostrar que a função g : R → R
definida por
 
, se x , 0,
( 1
x2 sen
g(x) = x
0, se x = 0.
é contı́nua em todo R. Neste exemplo temos que para x , 0
! !
1 1
|g(x)| = x sen = x sen ≤x .
2 2 2
x x
Como g(0) = 0, concluimos que para todo x ∈ R, −x2 ≤ g(x) ≤
x2 . Assim, o gráfico de g fica compreendido entre as parábolas
y = x2 e y = −x2 .
6.2. FUNÇÕES CONTÍNUAS 145

6.2.1 Funções Contı́nuas em Intervalos


Conforme já comentamos anteriormente, a propriedade de
continuidade é uma propriedade “local”. No entanto, quando
as funções contı́nuas estão definidas em intervalos, estas pos-
suem ótimas propriedades “globais”. Algumas destas propriedades
serão exploradas nessa seção. Antes, porém, a fim de garantir
a clareza dos enunciados, faz-se necessário introduzir o con-
ceito de continuidade à direita e à esquerda de um ponto.

Definição 6.2 Diz-se que uma função f : S → R é contı́nua à


direita no ponto x0 ∈ S se lim+ f (x) = f (x0 ). Analogamente f é
x→x0
contı́nua à esquerda em x0 se lim− f (x) = f (x0 ).
x→x0

Exemplo 6.16 Consideremos f : R → R dada por f (x) = [x],


onde [x] indica o maior inteiro que é menor ou igual a x. Dado
k ∈ Z temos f (x) = k, para k ≤ x < k + 1 e f (x) = k − 1 para
k − 1 ≤ x < k. Portanto lim− f (x) = k − 1 , f (k) e lim+ f (x) =
x→k x→k
k = f (k). Logo, em x0 = k temos que f é contı́nua à direita e
descontı́nua à esquerda.

Dada uma função real f definida em um intervalo fechado


[a, b] quando dissermos que f é contı́nua em [a, b] fica suben-
tendido que nas extremidades do intervalo estamos considerando
a continuidade lateral correspondente.

Teorema 6.1 Consideremos [a, b] um intervalo fechado e lim-


itado de R. Então toda função contı́nua f : [a, b] → R é limi-
tada.

Prova: Suponhamos, por absurdo, que f não fosse limitada.


Então, para cada n ∈ N existiria um ponto xn em [a, b] tal
que | f (xn )| > n. Sendo [a, b] um limitado então (xn ) seria uma
146 CAPÍTULO 6. FUNÇÕES CONTÍNUAS

seqüência limitada e, pelo Teorema de Bolzano-Weierstrass,


possuiria uma subseqüência (xn j ) convergente para um ponto
α ∈ R. Sendo [a, b] um fechado de R segue, da Proposição 4.7,
que α ∈ [a, b]. Pela continuidade de f terı́amos que ( f (xn j ))
seria convergente (exatamente para f (α)) e, em particular, se-
ria limitada. Mas isso não poderia ocorrer pois | f (xn j )| > n j .
Logo f terá que ser limitada.
Observação: Na demonstração do Teorema 6.1 acima não
usamos o fato de [a, b] ser um intervalo, mas somente o fato
de ser um fechado e limitado, isto é, um compacto de R. Assim,
o que demonstramos foi que funções reais contı́nuas definidas
em compactos são limitadas.

Teorema 6.2 (Teorema do Máximo e do Mı́nimo) Sejam [a, b]


um intervalo fechado e limitado e f : [a, b] → R uma função
contı́nua. Então existem α e β em [a, b] tais que

f (α) ≤ f (x) ≤ f (β)

para todo x ∈ [a, b].

Prova: Pelo Teorema 6.1 temos que f ([a, b]) é um subcon-


junto limitado de R. Logo existem

m = inf f (x) e M = sup f (x).


x∈[a, b] x∈[a, b]

Mostremos que existem α e β em [a, b] tais que f (α) = m


e f (β) = M, isto é, o máximo e o mı́nimo são atingidos em
pontos de [a, b]. Suponhamos, por contradição, que o máximo
M não é atingido, ou seja, f (x) < M para todo x ∈ [a, b]. Seja
1
g : [a, b] → R dada por g(x) = . Temos que g é
M − f (x)
contı́nua e g(x) > 0 para todo x ∈ [a, b]. Pelo Teorema 6.1
existe K > 0 tal que 0 < g(x) ≤ K, para todo x ∈ [a, b]. Ou
6.2. FUNÇÕES CONTÍNUAS 147

1
seja, ≤ K, para todo x ∈ [a, b]. Ou ainda, f (x) ≤
M − f (x)
1
M − , para todo x ∈ [a, b]. Mas isso é uma contradição pois
K
1
M− < M e M é supremo de f em [a, b]. A demostração
K
para o caso do ı́nfimo é feita de maneira análoga.

Teorema 6.3 (Teorema do Valor Intermediário) Suponha que


f : [a, b] → R é contı́nua e f (a) , f (b). Então, para cada c ∈ R
entre f (a) e f (b), existe x0 ∈ [a, b] tal que f (x0 ) = c.

Prova: Se for c = f (a) temos x0 = a e se for c = f (b) temos


x0 = b. Suponhamos, sem perda da generalidade, que f (a) >
f (b) e seja c com f (a) > c > f (b). Consideremos g : [a, b] → R
definida por g(x) = f (x) − c e seja

S = {x ∈ [a, b]; g(x) > 0}.


Notemos que S é limitado e não vazio, uma vez que g(a) =
f (a) − c > 0. Logo existe x0 = sup S . Vamos provar que x0 ∈
(a, b) e f (x0 ) = c. De fato, como g é contı́nua à direita em a,
então existe δ1 > 0 tal que se x ∈ [a, a + δ1 ) então g(x) > 0.
Ou seja, [a, a + δ1 ) ⊂ S . De modo que a < x0 ≤ b. Por outro
lado g(b) = f (b) − c < 0 e como g é contı́nua à esquerda
em b existe δ2 > 0 tal que se x ∈ (b − δ2 , b] então g(x) < 0.
Conseqüentemente a < x0 < b. Sendo x0 = sup S , para cada
1
n ∈ N, existe xn ∈ S tal que x0 − < xn ≤ x0 . Assim, lim xn = x0 .
n n→∞
Sendo g contı́nua em x0 então lim g(xn ) = g(x0 ). Como g(xn ) >
n→∞
0 para todo n ∈ N então lim g(xn ) ≥ 0. Isto é, g(x0 ) ≥ 0. Agora,
n→∞
para todo x ∈ [a, b] e x > x0 temos g(x) ≤ 0. Isso acarreta que
lim+ g(x) ≤ 0. Ora, como g é contı́nua em x0 temos
x→x0

g(x0 ) = lim g(x) = lim+ g(x) ≤ 0.


x→x0 x→x0
148 CAPÍTULO 6. FUNÇÕES CONTÍNUAS

Concluimos que g(x0 ) = 0, ou seja, que f (x0 ) = c, como


querı́amos provar.
Corolário 1 Se f está nas condições do Teorema do Valor
Intermediário e é não constante então a imagem de f é o in-
tervalo fechado [m, M], onde
m = inf f (x) e M = sup f (x).
x∈[a, b] x∈[a, b]

Prova: Os números m e M existem pois f ([a, b]) é um sub-


conjunto não vazio e limitado de R. Pelo Teorema do Máximo
e do Mı́nimo (Teorema 6.2) existem x1 e x2 em [a, b] tais que
f (x1 ) = m e f (x2 ) = M. Temos também que m < M pois f
é não constante. Pelo Teorema do Valor Intermediário, para
todo y ∈ (m, M) existe x ∈ [a, b] tal que f (x) = y. Logo
f ([a, b]) = [m, M].
Corolário 2 Se f está nas condições do Teorema do Valor
Intermediário e é crescente (respec. decrescente) então existe
exatamente um x0 em [a, b] tal que f (x0 ) = c.
Prova: Suponhamos f crescente. Se existissem x0 e x̄0 em
[a, b] com x0 < x̄0 e f (x0 ) = f ( x̄0 ) = c terı́amos uma contradição
pois
c = f (x0 ) < f ( x̄0 ) = c.

A proposição a seguir é uma ótima aplicação do Teorema


do Valor Intermediário.
Proposição 6.4 Se f : [a, b] → [a, b] é contı́nua então existe
x0 ∈ [a, b] tal que f (x0 ) = x0 .
Prova: Considere g : [a, b] → R dada por g(x) = x − f (x).
Temos que g é contı́nua em [a, b], g(a) = a − f (a) ≤ 0 e
g(b) = b− f (b) ≥ 0. Logo, pelo Teorema do Valor Intermediário,
existe x0 ∈ [a, b] tal que g(x0 ) = 0. Isto é, f (x0 ) = x0 .
6.2. FUNÇÕES CONTÍNUAS 149

Proposição 6.5 Seja f : [a, b] → R contı́nua e injetiva. Então


a função inversa f −1 : [m, M] → [a, b] é contı́nua, onde

m = inf f (x) e M = sup f (x).


x∈[a, b] x∈[a, b]

Prova: Sejam y0 ∈ [m, M] e (yn ) uma seqüência de pontos de


[m, M] com lim yn = y0 . Devemos mostrar que xn = f −1 (yn )
n→∞
converge para x0 = f −1 (y0 ). Suponhamos, por contradição,
que isso não ocorre. Então existe ε0 > 0 tal que |xn − x0 | ≥
ε0 para uma infinidade de ı́ndices, isto é, existe uma sub-
seqüência (xn j ) de (xn ) tal que

|xn j − x0 | ≥ ε0 . (6.1)

Como (xn j ) é limitada, pelo Teorema de Bolzano-Weierstrass


e pelo fato de [a, b] ser um fechado de R, a seqüência (xn j )
possui uma subseqüência (xn jk ) convergente para um ponto
x̄ ∈ [a, b]. Em virtude de (6.1) temos que, necessáriamente,
x0 , x̄. Sendo f contı́nua então ( f (xn jk )) converge para f ( x̄).
Mas ( f (xn jk )) é uma subseqüência de (yn ) e, portanto, con-
verge para y0 = f (x0 ). Logo, pela unicidade do limite, temos
f (x0 ) = f ( x̄). Mas isso é uma contradição uma vez que x0 , x̄
e f é injetiva.

6.2.2 Funções Uniformemente Contı́nuas


Na definição de continuidade de uma função f em um ponto
x0 , o delta que intervém depende, em geral, tanto de epsilon
como do próprio ponto x0 . No entanto, determinadas funções
contı́nuas têm um comportamento mais uniforme no seu domı́nio
de definição e o delta depende somente do epsilon positivo
dado. Estas são as funções uniformemente contı́nuas. For-
malmente temos
150 CAPÍTULO 6. FUNÇÕES CONTÍNUAS

Definição 6.3 Uma função f : S → R é denominada unifor-


mente contı́nua em S se, para cada ε > 0, existe δ(ε) > 0 tal
que

∀ x, x0 ∈ S ; |x − x0 | < δ ⇒ | f (x) − f (x0 )| < ε.

Exemplo 6.17 A função f : R → R tal que f (x) = |x| é uni-


formemente contı́nua pois dado ε > 0 basta escolher δ = ε e
temos que se |x − y| < δ

| f (x) − f (y)| = ||x| − |y|| ≤ |x − y| < ε.

Exemplo 6.18 A função f : R → R dada por f (x) = sen x é


uniformemente contı́nua pois

|sen x − seny| ≤ |x − y|

e, portanto, dado ε > 0 tomemos δ = ε para obtermos |x−y| < δ


acarretando | f (x) − f (y)| < .

1
Exemplo 6.19 A função f : (0, 1) → R dada por f (x) =
x
é contı́nua em (0, 1) mas não é uniformemente contı́nua. De
fato, para ε = 12 , dado δ > 0 qualquer, seja n ∈ N tal que 1n < δ,
e tomemos x1 = n1 e x2 = n+1 1
. Temos que x1 e x2 pertencem a
(0, 1) e |x1 − x2 | = n1 − n+1
1
< n1 < δ, mas

1 1
| f (x1 ) − f (x2 )| = − = |n − (n + 1)| = 1 > ε.

x1 x2

O que mostra que f não é uniformemente contı́nua em (0, 1).

Proposição 6.6 Seja f : [a, b] → R contı́nua. Então f é


uniformemente contı́nua.
6.2. FUNÇÕES CONTÍNUAS 151

Prova: Suponhamos, por absurdo, que f não seja uniforme-


mente contı́nua. Então existe ε0 > 0 tal que para todo δ > 0
podemos encontrar pontos x e y em [a, b] com |x − y| < δ mas
que | f (x)− f (y)| ≥ ε0 . Em particular, para cada n ∈ N, podemos
escolher δ = 1n e obtemos seqüências (xn ) e (yn ) em [a, b] tais
que |xn − yn | < n1 , mas | f (xn ) − f (yn )| ≥ ε0 . Como (xn ) e (yn ) são
limitadas então, pelo Teorema de Bolzano-Weierstrass e pelo
fato de [a, b] ser fechado, elas possuem subseqüências (xn j ) e
(yn j ), respectivamente, que convergem para pontos de [a, b].
Sejam então
r = lim xn j e s = lim yn j .
j→∞ j→∞

Temos então que

1
0 ≤ lim |xn j − yn j | ≤ | lim (xn j − yn j )| ≤ lim = 0,
j→∞ j→∞ j→∞ nj

isto é, 0 ≤ |r − s| ≤ 0, donde r = s. Pela continuidade de f


temos
lim f (xn j ) = lim f (yn j ) = f (r),
j→∞ j→∞

logo
lim [ f (xn j ) − f (yn j )] = 0.
j→∞

Mas isto é uma contradição pois | f (xn j ) − f (yn j )| ≥ ε0 para todo


n j.
Voltando ao Exemplo 6.19, se considerarmos f definida
em [x0 , +∞), para qualquer x0 > 0, teremos que f é uniforme-
mente contı́nua como uma decorrência da proposição a seguir.

Proposição 6.7 Consideremos f : [a, +∞) → R uma função


contı́nua e suponhamos que lim f (x) = L ∈ R. Então f é
x→+∞
uniformemente contı́nua em [a, +∞).
152 CAPÍTULO 6. FUNÇÕES CONTÍNUAS

Prova: Seja ε > 0 dado. Então existe b > 0 de tal modo que
ε
| f (x) − L| < , para todo x ≥ b. Assim, se x1 ≥ b e x2 ≥ b,
2
então | f (x1 ) − f (x2 )| < ε. Pela Proposição 6.6 segue que f é
uniformemente contı́nua em [a, b + 1], logo existe δ > 0, o qual
podemos considera-lo menor que 1, tal que se x1 , x2 ∈ [a, b+1]
e |x1 − x2 | < δ então | f (x1 ) − f (x2 )| < ε. Agora, dados x1 e x2
em [a, +∞) com |x1 − x2 | < δ, ou ocorre de x1 e x2 pertencerem
a [a, b + 1] e neste caso | f (x1 ) − f (x2 )| < ε, ou ocorre de x1
e x2 pertencerem a [b, +∞), e neste caso também acontece
que | f (x1 ) − f (x2 )| < ε, ou, em último caso, estão ambos na
interseção [b, b + 1] e, novamente, temos | f (x1 ) − f (x2 )| < ε.

Corolário 1 Se f é contı́nua em (−∞, b] e lim f (x) = ` ∈ R


x→−∞
então f é uniformemente contı́nua em (−∞, b].
Prova: A prova é deixada para os exercı́cios.

Proposição 6.8 Seja f : R → R contı́nua e tal que exis-


tem lim f (x) = ` e lim f (x) = L. Então f é uniformemente
x→−∞ x→+∞
contı́nua em R.

Prova: Deixamos para os exercı́cios.


6.3. EXERCÍCIOS DO CAPÍTULO 6 153

6.3 Exercı́cios do Capı́tulo 6


6.1- Mostre que a função


 x, se x ∈ Q,
f (x) = 



 0, se x ∈ R − Q.

tem descontinuidade de 2a espécie em cada x0 , 0 e é


contı́nua em x0 = 0.

p se f é contı́nua em x0 e f (x) ≥ 0, ∀x ∈ R então


6.2- Prove que
h(x) = f (x) é contı́nua em x0 .

6.3- Mostre que se f é contı́nua em R e f (x) = 0 para todo


x ∈ Q então f (x) = 0 para todo x ∈ R.

6.4- Seja f : R → R contı́nua em x0 = 0 e satisfaz a condição

f (x + y) = f (x) + f (y), ∀x ∈ R.

Mostre que f é contı́nua em R.

6.5- Prove que se g é contı́nua em x0 = 0, g(0) = 0 e existe


δ > 0 tal que

| f (x)| ≤ |g(x)|, ∀x ∈ Vδ (0)

então f é contı́nua em x0 = 0.

6.6- Seja f contı́nua em (a, b) e tal que ambos lim+ f (x), lim− f (x)
x→a x→b
existem. Mostre que f é limitada em (a, b).

6.7- Mostre que se f é contı́nua e injetiva em [a, b] então f é


monótona crescente ou decrescente.
154 CAPÍTULO 6. FUNÇÕES CONTÍNUAS

6.8- Prove que o polinômio p(x) = a0 + a1 x + · · · + an xn , onde


an , 0 e n é ı́mpar, possui pelo menos uma raiz x0 ∈ R.
6.9- Mostre, mediante um exemplo, que se f e g são uniforme-
mente contı́nuas em I , então o produto f g pode falhar de
ser uniformemente contı́nua em I .

6.10- Seja f contı́nua em (a, b). Mostre que f é uniforme-


mente contı́nua em (a, b) se, e somente se, existem
lim+ f (x) e lim− f (x).
x→a x→b

6.11- Prove que se f é contı́nua em R então f é uniforme-


mente contı́nua em todo intervalo limitado I .

6.12 - Verifique se as funções abaixo são contı́nuas em seus


domı́nios:

a) f (x) = x2 + 1, x ∈ R.
1
e− x , se x > 0,
(
b) g(x) =
0, se x ≤ 0.
 
x2 sen 1x , se x , 0,
(
c) u(x) =
0, se x = 0.
 senx
 , se x , 0,
d) v(x) = 


x
1, se x = 0.

6.13- Sejam f, g : I → R contı́nuas. Mostre que:

h(x) = max { f (x), g(x)} e k(x) = min { f (x), g(x)}

são contı́nuas em R.

6.14- Mostre que toda função lipschitziana f : I → R é contı́nua.


6.15- Seja f : R → R tal que f (x) = x3 . Mostre que f restrita
ao intervalo [−α, α], α > 0, é lipschitziana.
6.3. EXERCÍCIOS DO CAPÍTULO 6 155

6.16- Seja f : R → R tal que f (λx) = λ f (x) para todo x e todo


λ ∈ R. Mostre que f é contı́nua em R.

6.17- Seja f : R → R definida como




 0, se x ∈ R − Q,
1, se x = 0,



 1/q, se x = p/q, q > 0 e mdc(p, q) = 1,

Prove que ∀ a ∈ R, lim f (x) = 0 e conclua que f é


x→a
contı́nua apenas em R − Q.

6.18- Seja f : R → R uma função contı́nua tal que

f (x + y) = f (x) + f (y), ∀x, y ∈ R

Prove que f é da forma αx, para algum α ∈ R.

6.19- Mostre que a equação

5 7 16
+ + =0
x−1 x−2 x−3
admite uma solução entre 1 e 2 e outra entre 2 e 3.

6.20- Mostre que se f é contı́nua em [a, b] então existe uma


função contı́nua g em R tal que g(x) = f (x) para todo x ∈
[a, b]. Uma tal função é chamada de extensão contı́nua
de f a R.

6.21- Seja f : R → R uma função contı́nua tal que

lim f (x) = lim f (x) = 0.


x→−∞ x→∞

Mostre que f é limitada em R.


156 CAPÍTULO 6. FUNÇÕES CONTÍNUAS

6.22- Seja I ⊂ R um intervalo e f : I → R uma função. Defina


( )
f (x) − f (y)
D= ; x, y ∈ I e x , y .
x−y

Prove que se D é limitado então f é uniformemente


contı́nua em I.

6.23- Prove que se f e g são uniformemente contı́nuas em um


intervalo limitado (a, b) então o produto f g é uma função
uniformemente contı́nua em (a, b).

6.24- Seja f : [a, b] → [a, b] satisfazendo à seguinte condição:


existe 0 ≤ λ < 1 tal que | f (x) − f (y)| ≤ λ|x − y| para todo x
e todo y em [a, b]. Mostre que existe um único x0 ∈ [a, b]
tal que f (x0 ) = x0 .

6.25- Seja f : R → R uma função tal que | f (x) − f (y)| ≤ λ|x − y|


para todo x e todo y de R e para algum 0 < λ < 1. Mostre
que existe um único x ∈ R tal que f (x) = x. (Sugestão:
Dado x0 ∈ R defina a seqüência (xn ) por xn = f (xn−1 ),
para n = 1, 2, 3, · · · e mostre que (xn ) é de Cauchy em
R.)

6.26- Seja f : [a, b] → R dada por f (x) = x. Mostre que f é
uniformemente contı́nua porém, não é lipschitziana.

6.27- Dizemos que uma função f : R → R é periódica de


perı́odo p > 0 se f (x + p) = f (x) para todo x ∈ R. Prove
que toda função f : R → R contı́nua e periódica é limi-
tada e existem pontos x1 , x2 ∈ R satisfazendo a condição
f (x1 ) ≤ f (x) ≤ f (x2 ) para todo x ∈ R.

6.28- Prove que f : R → R é contı́nua se, e somente se, para


todo S ⊂ R tem-se f (S ) ⊂ f (S ).
6.3. EXERCÍCIOS DO CAPÍTULO 6 157

6.29- Mostre que se f é uniformemente contı́nua em R então,


dadas quaisquer duas seqüências, (xn ) e (yn ) tais que
lim |xn − yn | = 0 tem-se que lim | f (xn ) − f (yn )| = 0.
n→∞ n→∞

6.30- Sejam f, g, h e k funções de [0, +∞) em R definidas por,


1 √
f (x) = x2 , g(x) = cos x, h(x) = cos(x2 ) e k(x) = x.
1+x
Quais delas são uniformemente contı́nuas em [0, +∞)?

6.31- Uma função real definida em um intervalo [a, b] é dita


linear por partes quando existem pontos x0 , x1 , · · · xn sat-
isfazendo a = x0 < x1 < · · · < xn = b, e f restrita a
cada subintervalo [xi−1 , xi ], i = 0, 1, · · · n, é linear. Mostre
que dada qualquer função f contı́nua em [a, b] e dado
ε > 0 existe uma função g contı́nua e linear por partes
em [a, b] tal que | f (x) − g(x)| < ε
158 CAPÍTULO 6. FUNÇÕES CONTÍNUAS
Capı́tulo 7

Funções Deriváveis

7.1 Introdução
Didicamos este capı́tulo ao estudo das funções deriváveis
e, uma vez que estamos supondo o leitor familiarizado com a
interpretação gemétrica da derivada como coeficiente angular
da reta tangente ao gráfico da função, ou com a interpretação
fı́sica como a velocidade de um ponto material, concentraremos
nossa argumentação nos aspectos matemáticos do conceito,
objetivando estudar as propriedades básicas da noção de derivada
e enfatizar os resultados que conduzam a informações sobre
a função a partir de informações sobre a sua derivada.

7.2 A Derivada
Definição 7.1 Sejam I ⊂ R um intervalo aberto e f : I → R
uma função. Dizemos que f é derivável em x0 ∈ I se existe o
limite
f (x) − f (x0 )
lim . (7.1)
x→x0
x,x0
x − x0

159
160 CAPÍTULO 7. FUNÇÕES DERIVÁVEIS

O limite (7.1) quando existe é denotado por f 0 (x0 ) e de-


nominado derivada da função f no ponto x0 .
Fazendo em (7.1) h = x − x0 , ou seja x = x0 + h, teremos
que x → x0 se, e somente se, h → 0. Assim, quando o limite
existe, escrevemos
f (x0 + h) − f (x0 )
f 0 (x0 ) = lim . (7.2)
h→0 h
Outras notações para a derivada de uma função em um
ponto são
df d f
D f (x0 ), (x0 ) ou .
dx dx x=x0
Quando em (7.2) nos restringimos a valores positivos de h,
o limite, quando existe, é denominado derivada lateral à direita
de f em x0 e denotado por fd0 (x0 ) e quando nos restringimos a
valores negativos de h, o limite, quando existe, é denominado
derivada lateral à esquerda de f em x0 e é denotado por fe0 (x0 ).
Assim,
f (x0 + h) − f (x0 )
fd0 (x0 ) = lim+
h→0 h
e
f (x0 + h) − f (x0 )
fe0 (x0 ) = lim− .
h→0 h
Evidentemente que f é derivável em x0 se, e somente se, ex-
istem as derivadas laterais em x0 e fd0 (x0 ) = fe0 (x0 ) = f 0 (x0 ).
Quando f 0 (x) exsite em todo x ∈ I dizemos que f é de-
rivável em I.

Exemplo 7.1 Seja f : R → R definida por f (x) = k, k uma


constante. Se x0 é um ponto qualquer de R então f é derivável
em x0 e f 0 (x0 ) = 0 pois
f (x0 + h) − f (x0 ) k−k 0
lim = lim = lim = lim 0 = 0.
h→0 h h→0 h h→0 h h→0
7.2. A DERIVADA 161

Exemplo 7.2 Considere f : R → R definida por f (x) = x e


seja x0 um ponto de R. Temos que
f (x0 + h) − f (x0 ) x0 + h − x0 h
lim = lim = lim = lim 1 = 1.
h→0 h h→0 h h→0 h h→0

Portanto f é derivável em x0 e f 0 (x0 ) = 1.

Exemplo 7.3 A função f : R → R definida por f (x) = |x| não é


derivável em x0 = 0 pois
f (h) − f (0) −h
lim− = lim− = lim− (−1) = −1
h→0 h h→0 h h→0

e
f (h) − f (0) h
lim+ = lim+ = lim+ 1 = 1.
h→0 h h→0 h h→0

f (h) − f (0)
Portanto, não existe lim .
h→0 h
A primeira informação que deduzimos de uma função que
é derivável em um ponto é que esta é contı́nua no ponto. É o
que estabelece a proposição a seguir.

Proposição 7.1 Seja f : I → R uma função derivável em um


ponto x0 ∈ I, onde I é um intervalo aberto. Então f é contı́nua
em x0 .

Prova: Considere a igualdade


f (x) − f (x0 )
f (x) = f (x0 ) + (x − x0 ), x , x0 .
x − x0
Então
f (x) − f (x0 )
lim f (x) = f (x0 ) + lim lim (x − x0 ) =
x→x0 x→x0 x − x0 x→x0
f (x0 ) + f 0 (x0 ).0 = f (x0 ),
162 CAPÍTULO 7. FUNÇÕES DERIVÁVEIS

isto é, lim f (x) = f (x0 ), o que significa dizer que f contı́nua
x→x0
em x0 .
A recı́proca da Proposição 7.1 é falsa conforme constata-
mos mediante o Exemplo 7.3.
As propriedades algébricas da derivada estão apresentadas
na proposição a seguir.
Proposição 7.2 Sejam f e g funções definidas em um inter-
valo aberto I e deriváveis em x0 ∈ I. Então
i) f + g é derivável em x0 e ( f + g)0 (x0 ) = f 0 (x0 ) + g0 (x0 ),
ii) f g é deivável em x0 e ( f g)0 (x0 ) = f (x0 )g0 (x0 ) + f 0 (x0 )g(x0 ),
f
iii) Se g , 0 então g
é derivável em x0 e
!0
f f 0 (x0 )g(x0 ) − f (x0 )g0 (x0 )
(x0 ) =
g [g(x0 )]2
Prova: Para a prova de i) temos que
( f + g)(x0 + h) − ( f + g)(x0 )
=
h
f (x0 + h) − f (x0 ) g(x0 + h) − g(x0 )
+ .
h h
O resultado segue das propriedades de limite de funções. Para
a verificação de ii) é bastante observar que
f (x0 + h)g(x0 + h) − f (x0 )g(x0 )
=
h
g(x0 + h) − g(x0 ) f (x0 + h) − f (x0 )
f (x0 + h) + g(x0 ),
h h
usar a Proposição 7.1 e as propriedades do limite de funções.
Finalmente para provar iii) temos que
f (x0 +h) f (x0 +h)− f (x0 )
− f (x0 ) g(x0 +h)−g(x
f (x0 ) 0)
g(x0 +h)
− g(x0 ) g(x0 )
= h h
h g(x0 )g(x0 + h)
7.2. A DERIVADA 163

e, da Proposição 7.1 e das propriedades do limite de funções,


temos o resultado.
Segue agora, por aplicações sucessivas da Proposição 7.2,
que os polinômios são funções deriváveis em todos os pontos
de R, como também as funções racionais nos pontos onde o
denominador é não nulo.

Proposição 7.3 (Regra da Cadeia) Sejam f : I → R e g : J →


R funções definidas, respectivamente, nos intervalos abertos
I e J com f (I) ⊂ J. Suponha que f é derivável em x0 ∈ I e g
derivável em f (x0 ) ∈ J. Então g ◦ f é derivável em x0 e

(g ◦ f )0 (x0 ) = g0 ( f (x0 )) f 0 (x0 ).

Prova: Suponhamos inicialmente que f 0 (x0 ) , 0. Neste caso


temos que f (x) , f (x0 ) para todo x suficientemente próximo
de x0 . Logo

g( f (x)) − g( f (x0 )) g( f (x)) − g( f (x0 )) f (x) − f (x0 )


= ·
x − x0 f (x) − f (x0 ) x − x0
Passando ao limite quando x → x0 obtemos

(g ◦ f )0 (x0 ) = g0 ( f (x0 )) f 0 (x0 ).

Por outro lado, se for f 0 (x0 ) = 0 então, para x próximo de x0 ,


ou ocorre que f (x) = f (x0 ), e neste caso g( f (x)) = g( f (x0 )),
donde
g( f (x)) − g( f (x0 ))
lim = 0 = g0 ( f (x0 ).0 = g0 ( f (x0 )) f 0 (x0 ),
x→x0 x − x0
ou ocorre f (x) , f (x0 ), portanto, vale

g( f (x)) − g( f (x0 )) g( f (x)) − g( f (x0 )) f (x) − f (x0 )


=
x − x0 f (x) − f (x0 ) x − x0
164 CAPÍTULO 7. FUNÇÕES DERIVÁVEIS

e teremos
g( f (x)) − g( f (x0 ))
lim =
x→x0 x − x0
g( f (x)) − g( f (x0 )) f (x) − f (x0 )
lim = 0.
x→x0 f (x) − f (x0 ) x − x0
Assim, em qualquer situação temos a validade da fórmula

(g ◦ f )0 (x0 ) = g0 ( f (x0 )) f 0 (x0 ).


É importante observar que na passagem ao limite usamos o
fato de que, quando x → x0 , temos que f (x) → f (x0 ), pela
continuidade de f em x0 .

Exemplo 7.4 Considere f : R → R definida por


  


 xsen 1x , se x , 0,
f (x) = 



se x = 0.

 0,

Temos, para x , 0 e pelas Proposições 7.1 e 7.2,


1 1 1 1 1 1
f 0 (x) = sen( ) + x cos( )(− 2 ) = sen( ) − cos( ).
x x x x x x
Agora, para x0 = 0 temos
1
f (x) − f (x0 ) xsen( x ) 1
= = sen( )
x − x0 x x
que não tem limite quando x → 0. Isto é, f não é derivável em
x0 = 0.
Exemplo 7.5 Considere f : R → R definida por
  


 x 2
sen 1
x
, se x , 0,
f (x) = 



se x = 0.

 0,

7.3. O TEOREMA DO VALOR MÉDIO 165

Temos, para x , 0 e pela Regra da Cadeia,


! !
1 1
f (x) = 2xsen
0
− cos .
x x

E para x0 = 0 temos
 
2 1
f (x) − f (x0 ) x sen
!
x 1
= = xsen .
x − x0 x x

Como !
1
lim xsen = 0,
x→0 x
segue que f é derivável em x0 = 0 e f 0 (0) = 0. Assim
    


 2x sen 1
x
− cos 1
x
, se x , 0,
f (x) = 
0



se x = 0.

 0,

!
0 1
Mas f não é uma função contı́nua pois cos não tem limite
x
quando x → 0.

7.3 O Teorema do Valor Médio


Seja I ⊂ R um intervalo e f : I → R uma função. Dizemos
que f assume um máximo absoluto em x0 ∈ I se f (x0 ) ≥ f (x)
para todo x ∈ I. Se a desigualdade f (x0 ) ≥ f (x) ocorre apenas
em uma vizinhança de Vδ (x0 ) ⊂ I dizemos que f assume um
máximo local em x0 . Quando temos f (x0 ) ≤ f (x) para todo
x ∈ I dizemos que f assume um mı́nimo absoluto em em
x0 e quando for f (x0 ) ≤ f (x) apenas para x restrito a uma
vizinhança de Vδ (x0 ) ⊂ I dizemos que f assume um mı́nimo
166 CAPÍTULO 7. FUNÇÕES DERIVÁVEIS

local em x0 . Os pontos onde f assume um máximo (local ou


absoluto) ou um mı́nimo (local ou absoluto) são chamados de
extremos de f. É evidente que se x0 é um ponto interior de I
e se x0 for um extremo absoluto de f então x0 é um extremo
local de f.

Proposição 7.4 Sejam I um intervalo aberto de R, f : I → R


uma função e x0 um extremo local de f. Se f for derivável em
x0 então f 0 (x0 ) = 0.

Prova: Vamos admitir que f assume um máximo local em x0


(o caso de mı́nimo local é análogo). Então existe δ > 0 tal que
f (x) ≤ f (x0 ) para todo x ∈ (x0 − δ, x0 + δ). Portanto,

≤ 0, se x0 < x < x0 + δ,
(
f (x) − f (x0 )
= (7.3)
x − x0 ≥ 0, se x0 − δ < x < x0 .

Agora, como existe f 0 (x0 ), necessariamente temos

f (x) − f (x0 ) f (x) − f (x0 )


lim− = f 0 (x0 ) = lim+ .
x→x0 x − x0 x→x0 x − x0

Mas, por (7.3) temos

f (x) − f (x0 ) f (x) − f (x0 )


lim− ≥0 e lim+ ≤ 0.
x→x0 x − x0 x→x0 x − x0

Donde se conclui que f 0 (x0 ) = 0.

Teorema 7.1 (Teorema de Rolle) 1 Seja f contı́nua em [a, b]


e derivável em (a, b) com f (a) = f (b). Então existe x0 ∈ (a, b)
tal que f 0 (x0 ) = 0.
1
Michel Rolle (1652-1719).
7.3. O TEOREMA DO VALOR MÉDIO 167

Prova: Se for f (x) = f (a) para todo x ∈ (a, b), como f (a) =
f (b), então f é constante em [a, b] e, portanto, f 0 (x) = 0 para
todo x ∈ (a, b). Assim, podemos supor que existe x ∈ (a, b) tal
que f (x) , f (a). Sendo f contı́nua em [a, b], pelo Teorema do
Máximo e do Mı́nimo (Teorema 6.2), f possui extremos abso-
lutos em [a, b]. Como estamos supondo que f não é constante
em (a, b) e pelo fato de que f (a) = f (b), então pelo menos um
dos pontos de extremo absoluto de f pertence a (a, b). Seja
x0 tal ponto. Segue da Proposição 7.4 que f 0 (x0 ) = 0.

Teorema 7.2 (do Valor Médio de Cauchy) Sejam f e g fun-


ções reais contı́nuas em [a, b] e deriváveis em (a, b). Então
existe x0 ∈ (a, b) tal que

( f (b) − f (a))g0 (x0 ) = (g(b) − g(a)) f 0 (x0 ). (7.4)

Prova: Consideremos a função ϕ definida em [a, b] por

ϕ(x) = ( f (b) − f (a))g(x) − (g(b) − g(a)) f (x). (7.5)

Temos que ϕ é contı́nua em [a, b], diferenciável em (a, b)


e ϕ(a) = ϕ(b). Portanto, a função ϕ está nas condições do
Teorema de Rolle. Logo existe x0 ∈ (a, b) tal que ϕ0 (x0 ) = 0.
Mas, para todo x ∈ (a, b) temos

ϕ0 (x) = ( f (b) − f (a))g0 (x) − (g(b) − g(a)) f 0 (x).

Logo, para x = x0 temos

( f (b) − f (a))g0 (x0 ) = (g(b) − g(a)) f 0 (x0 ),

como querı́amos demonstrar.


A versão do Teorema do Valor Médio mais amplamente ap-
resentada nos cursos de Cálculo Diferencial é um caso partic-
ular do Teorema 7.2 e é a seguinte:
168 CAPÍTULO 7. FUNÇÕES DERIVÁVEIS

Teorema 7.3 (do Valor Médio de Lagrange) 2 Seja f : [a, b] →


R uma função que é contı́nua em [a, b] e é diferenciável em
(a, b). Então existe x0 ∈ (a, b) tal que
f (b) − f (a)
f 0 (x0 ) = . (7.6)
b−a
Prova: Para a prova é suficiente considerar no Teorema 7.2
g(x) = x.

Proposição 7.5 Seja f : (a, b) → R uma função derivável.


i) Se f 0 (x) > 0, ∀ x ∈ (a, b), então f é crescente em (a, b).
ii) Se f 0 (x) < 0, ∀ x ∈ (a, b), então f é decrescente em (a, b).
iii) Se f 0 (x) = 0, ∀ x ∈ (a, b), então f é constante em (a, b).

Prova: Dados x1 e x2 em (a, b), com x1 , x2 , podemos su-


por, sem perder a generalidade da demonstração, que x1 <
x2 . Assim, a função f restrita ao intervalo [x1 , x2 ] atende às
hipóteses do Teorema 7.5 e, portanto, existe t ∈ (x1 , x2 ) tal
que
f (x2 ) − f (x1 ) = f 0 (t)(x2 − x1 ). (7.7)
Logo, i), ii) e iii) seguem diretamente de (7.7).

Proposição 7.6 Sejam f e g funções deriváveis em (a, b),


com f 0 (x) = g0 (x) para todo x ∈ (a, b). Então existe uma con-
stante c tal que f (x) = g(x) + c para todo x ∈ (a, b).

Prova: Consideremos ϕ(x) = f (x) − g(x) em (a, b). Temos


que ϕ0 (x) = f 0 (x) − g0 (x) = 0, para todo x ∈ (a, b). Portanto,
por iii) da Proposição 7.5, existe c tal que ϕ(x) = c, isto é,
f (x) = g(x) + c.
2
Joseph Louis Lagrange (1736-1813).
7.3. O TEOREMA DO VALOR MÉDIO 169

Proposição 7.7 Seja f : I → R um função derivável em um


intervalo aberto I ⊂ R e suponhamos que existe M > 0 tal que
| f 0 (x)| ≤ M para todo x ∈ I. Então

| f (x) − f (y)| ≤ M|x − y|

para todo x e todo y de I, ou seja, f é uma função lipschitziana


(vide Exercı́cio 6.14).

Prova: Sejam x e y quaisquer em I. Podemos supor, sem


perda da generalidade, que y < x. Pelo Teorema do Valor
Médio existe ξ ∈ (y, x) tal que f (x) − f (y) = f 0 (ξ)(x − y). Por-
tanto,

| f (x) − f (y)| = | f 0 (ξ)(x − y)| = | f 0 (ξ)|x − y| ≤ M|x − y|,

e temos demonstrada a proposição.

Exemplo 7.6 Consideremos f : R → R dada por f (x) = sen x.


Temos que f 0 (x) = cos x. Como | cos x| ≤ 1, então |sen x −
seny| ≤ |x − y|. Mais particularmente temos |sen x| ≤ |x|, para
todo x ∈ R.

Proposição 7.8 Se f é derivável em um intervalo aberto I ⊂


R e existe M > 0 tal que | f (x) − f (y)| ≤ M|x − y|, para todo x e
todo y de I, então | f 0 (x)| ≤ M, para todo x ∈ I.

Prova: Para cada x ∈ I temos que

f (y) − f (x)
f 0 (x) = lim .
y→x y−x
Desde que
f (x) − f (y) ≤ M, se y , x,
y−x
170 CAPÍTULO 7. FUNÇÕES DERIVÁVEIS

segue que | f 0 (x)| ≤ M, como querı́amos.


Quando uma função f é derivável em um intervalo aberto
I, o valor de sua derivada em cada ponto é univocamente de-
terminado, uma vez que é dado por um limite, e o limite, como
sabemos, é único. Neste caso temos a função f 0 : I → R, que
a cada x ∈ I associa f 0 (x). Podemos agora indagar se, dado
x0 ∈ I, existe a derivada de f 0 em x0 . Quando tal derivada ex-
iste dizemos que f possui uma derivada segunda em x0 e a
denotamos por f 00 (x0 ). Do mesmo modo, quando f 00 (x) existe
para todo x ∈ I, podemos indagar se existe a derivada de f 00
em um ponto x0 ∈ I, e quando tal derivada existe, dizemos
ser f é três vezes derivável em x0 e denotamo-la por f 000 (x0 ).
E assim por diante, podemos indagar sobre a existência da
derivada de ordem n de f em um ponto x0 ∈ I, quando f
possui derivada de ordem n − 1 em todos os pontos de I,
e, quando é este o caso, denotamos tal derivada por f (n) (x0 ).
Usa-se também

dn f dn f
(x0 ), ou
dxn dxn x=x0

para denotar a derivada de ordem n de f em x0 . A partir daqui


faremos a convenção de que, para n = 0, entenderemos f (0) (x0 )
como sendo o valor de f em x0 .

Definição 7.2 Se f : I → R possui derivadas até a ordem n


contı́nuas em I, dizemos que f é de classe C n e escrevemos
f ∈ C n (I).

Na definição 7.2 se I = [a, b], estaremos considerando nas


extremidades do intervalo a derivada lateral correspondente.
Quando f : I → R possui derivadas de qualquer ordem
contı́nuas, dizemos que f é de classe C ∞ e escrevemos f ∈
C ∞ (I).
7.4. A FÓRMULA DE TAYLOR 171

As funções polinomiais, as trigonométricas cos e sen, definidas


em R, a função logarı́tmica, definida em R+ e a função expo-
nencial, definida em R são de classe C ∞ nos seus respectivos
domı́nios. Também as funções racionais são de classe C ∞ nos
seus domı́nios de definição.

7.4 A Fórmula de Taylor


Para funções f de classe C n [a, b] há uma excelente aproximação
polinomial para f, como mostra a proposição a seguir.
Proposição 7.9 (Fórmula de Taylor) 3 Seja f : [a, b] → R
uma função de classe C n [a, b] e tal que f (n+1) existe em (a, b).
Se c é um ponto qualquer de [a, b] então, para cada x ∈
[a, b], x , c, existe ξ entre c e x tal que
(x − c) (x − c)2
f (x) = f (c) + f 0 (c) + f 00 (c) + ···
1! 2!
f (n) (c) f (n+1) (ξ)
··· + (x − c)n + (x − c)n+1 . (7.8)
n! (n + 1)!
Prova: Consideremos c < x. O caso c > x é tratado de
maneira análoga. Definamos F : [c, x] → R pondo
(x − t) (x − t)2
F(t) = f (x) − f (t) − f 0 (t) − f 00 (t) − ···
1! 2!
1 (x − t)n+1
· · · − f (n) (t)(x − t)n − K(x, c) ,
n! (n + 1)!
onde K(x, c) é escolhida satisfazendo
(x − c)n+1 (x − c)
K(x, c) = f (x) − f (c) − f 0 (c) − ···
(n + 1)! 1!
1
· · · − f (n) (c)(x − c)n ,
n!
3
Brook Taylor (1685-1731).
172 CAPÍTULO 7. FUNÇÕES DERIVÁVEIS

de tal modo que F(c) = 0 = F(x) = 0. Além disso, temos que F


é contı́nua em [c, x], derivável em (c, x) e F(x) = 0. De maneira
que podemos aplicar o Teorema de Rolle (Teorema 7.1) para
garantir a existência de ξ ∈ (c, x) tal que F 0 (ξ) = 0. Mas

F 0 (t) = − f 0 (t) − f 0 (t)(−1)


− f 00 (t)(x − t) − 2!1 f 00 (t)2(x − t)(−1)
− 2!1 f 000 (t)(x − t)2 − 3!1 f 000 (t)3(x − t)2 (−1)
............................................
1
− (n−1)! f (n) (t)(x − t)n−1 − n!1 f (n) (t)n(x − t)n−1 (−1)
(x−t)n
− n!1 f (n+1) (t)(x − t)n − K(x, c)(n + 1) (n+1)! (−1),

isto é,

F 0 (t) = − f 0 (t) + f 0 (t)


− f 00 (t)(x − t) + f 00 (t)(x − t)
− 2!1 f 000 (t)(x − t)2 + 2!1 f 000 (t)(x − t)2
..........................................
1
− (n−1)! f (n) (t)(x − t)n−1 + (n−1)!
1
f (n) (t)(x − t)n−1
n
− n!1 f (n+1) (t)(x − t)n + K(x, c) (x−t)
n!
.

Portanto
1 (n+1) (x − t)n
F 0 (t) = − f (t)(x − t)n + K(x, c) .
n! n!
Como temos F 0 (ξ) = 0 então K = f (n+1) (ξ), e temos demon-
strada a proposição.
O termo
f (n+1) (ξ)
Rn+1 = (x − c)n+1 (7.9)
(n + 1)!
da Fórmula (7.8) é chamado de Resto de Lagrange, e a própria
fórmula (7.8), é chamada de Fórmula de Taylor com Resto de
Lagrange. Observe que se n = 0 temos exatamente o Teorema
7.4. A FÓRMULA DE TAYLOR 173

do Valor Médio de Lagrange (Teorema 7.5). Observe também


que
Rn+1
lim =0
x→c (x − c)n

e isto significa dizer que quando f satizfaz às condições da


Proposição 7.9 então, para x próximo de c, podemos aproxi-
mar f (x) pelo polinômio

f (n) (c)
Pn (x) = f (c) + f 0 (c)(x − c) + · · · + (x − c)n
n!
e o erro cometido com esta aproximação é menor que C|x−c|n ,
onde C é uma constante positiva.

Exemplo 7.7 Consideremos f (x) = e x no intervalo [−1, 1] e


c = 0. Neste caso temos f (0) = f 0 (0) = · · · = f (n) (0) = 1.
Portanto
x2 xn
ex = 1 + x + ··· + + Rn+1 ,
2! n!
onde
eξ xn+1
Rn+1 = .
(n + 1)!
Chamando
xn
Pn (x) = 1 + x + · · · +
n!
temos
eξ |x|n+1 e
|e x − Pn (x)| = ≤ .
(n + 1)! (n + 1)!
Esta última desigualdade informa que o erro cometido ao aprox-
imarmos e x pelo polinômio Pn (x) no intervalo [−1, 1] é menor
e
ou igual a .
(n + 1)!
174 CAPÍTULO 7. FUNÇÕES DERIVÁVEIS

7.5 A Regra de L’Hôpital


Uma boa utilização do Teorema do Valor Médio de Cauchy
(Teorema 7.2) aparece no cálculo de determinados limites de
quocientes do tipo “zero sobre zero” ou “infinito sobre infinito”,
os quais são comumente chamados de “indeterminações”. As
proposições 7.10 e 7.12 deste capı́tulo estabelecem em que
condições tais “indeterminações” podem ser contornadas e
as regras de procedimento são conhecidas em Cálculo como
Regras de L’Hôpital 4 .

Proposição 7.10 Sejam f e g funções reais definidadas em


um intervalo I ⊂ R e a um ponto de I. Suponhamos que
i) f 0 e g0 existem em Vδ∗ (a) (uma vizinhança de a desprovida
do centro ) na qual g0 (x) , 0;

ii) lim f (x) = lim g(x) = 0;


x→a x→a

f 0 (x)
iii) lim existe.
x→a g0 (x)
Então
f (x) f (x) f 0 (x)
lim existe e lim = lim 0 ·
x→a g(x) x→a g(x) x→a g (x)

Prova: Vamos redefinir f e g no ponto a como sendo f (a) =


g(a) = 0. Deste modo temos que f e g são contı́nuas em uma
vizinhança Vδ (a), para algum δ > 0. Naturalmente que não
sabemos se f 0 (a) e g0 (a) existem. Se a < x < a + δ então
f e g são contı́nuas em [a, x] e deriváveis em (a, x). Logo,
pelo Teorema do Valor Médio de Cauchy (Teorema 7.2) existe
t x ∈ (a, x) tal que
[ f (x) − f (a)]g0 (t x ) = [g(x) − g(a)] f 0 (t x ),
4
Guillaume François Antoine de L’Hôpital (1661-1704).
7.5. A REGRA DE L’HÔPITAL 175

ou seja, f (x)g0 (t x ) = g(x) f 0 (t x ). Nós temos também que g(x) ,


0. De fato, desde que g(a) = 0, se fosse g(x) = 0 então, pelo
Teorema de Rolle (Teorema 7.1), existiria c ∈ (a, x) tal que
g0 (c) = 0, o que contradiria o hipótese de ser g0 (x) , 0 em
Vδ∗ (a). Conseqüentemente temos

f (x) f 0 (t x )
= 0 .
g(x) g (t x )
Uma argumentação semelhante para a − δ < x < a mostra que
existe t x ∈ (x, a) tal que

f (x) f 0 (t x )
= 0 .
g(x) g (t x )
Agora, quando x → a temos que t x → a e, portanto,

f (x) f 0 (t x ) f 0 (x)
lim = lim 0 = lim 0
x→a g(x) tx →a g (t x ) x→a g (x)
uma vez que, por hipótese, este último limite existe.

Exemplo 7.8 Considere o problema de calcular

1 − cos x
lim ·
x→0 sen2 x

Para isso consideremos as funções f (x) = 1 − cos x e g(x) =


sen2 x Temos que lim f (x) = lim g(x) = 0. Além disso, f 0 (x) =
x→0 x→0
sen x e g0 (x) = 2sen x cos x. Logo

f 0 (x) sen x 1 1
lim 0
= lim = lim = .
x→0 g (x) x→0 2sen x cos x x→0 2 cos x 2

Proposição 7.11 Sejam f uma função real definida em um


intervalo I ⊂ R e a um ponto de I. Suponhamos que
176 CAPÍTULO 7. FUNÇÕES DERIVÁVEIS

i) f é contı́nua em a;

ii) f é derivável em Vδ∗ (a) para algum δ > 0;

iii) lim f 0 (x) existe.


x→a

Então f é derivável em a e f 0 (a) = lim f 0 (x).


x→a

Prova: Consideremos F(x) = f (x)− f (a) e G(x) = x −a. Temos


que lim F(x) = lim G(x) = 0. Temos também que
x→a x→a

F 0 (x) f 0 (x)
lim = lim = lim f 0 (x),
x→a G 0 (x) x→a 1 x→a

F 0 (x) F(x)
isto é, existe lim 0
· Pela Proposição 7.10, existe lim
x→a G (x) x→a G(x)
e
F(x) F 0 (x)
lim = lim 0 = lim f 0 (x)·
x→a G(x) x→a G (x) x→a

Portanto,
f (x) − f (a)
lim = lim f 0 (x).
x→a x−a x→a

Em outras palavras, f é derivável em a e f 0 é contı́nua em a.

Proposição 7.12 Sejam f e g funções reais definidadas em


um intervalo (b, +∞) e suponhamos que

i) f 0 (x) e g0 (x) existem e g0 (x) , 0 para todo x ∈ (b, +∞);

ii) lim f (x) = lim g(x) = +∞;


x→+∞ x→+∞

f 0 (x)
iii) lim existe.
x→+∞ g0 (x)
7.5. A REGRA DE L’HÔPITAL 177

f (x)
Então lim existe e
x→+∞ g(x)

f (x) f 0 (x)
lim = lim 0 ·
x→+∞ g(x) x→+∞ g (x)

f 0 (x)
Prova: Seja L = lim · Então, dado ε > 0, existe um
x→+∞ g0 (x)
número a tal que

f (x) − L < ε para todo x > a.


0
g0 (x) 2 (7.10)

Observemos que, necessariamente, g(x) > g(a) para todo x >


a, pois se existisse x1 > a tal que g(x1 ) ≤ g(a) então, sendo
lim g(x) = +∞, podemos encontrar x2 > x1 tal que g(x2 ) ≥ g(a),
x+∞
e, pelo Teorema do Valor Intermediário (Teorema 6.3), existiria
c ∈ R com a < x1 ≤ c ≤ x2 e g(c) = g(a). Mas, neste caso, pelo
Teorema de Rolle (Teorema 7.1), existiria d ∈ R, com a < d < c,
tal que g0 (d) = 0, o que contradiria a hipótese de que g0 (x) , 0
para todo x ∈ (b, +∞). Usando o Teorema do Valor Médio de
Cauchy (Teorema 7.2) para f e g no intervalo [a, x] temos que
existe ξ ∈ (a, x) tal que

f (x) − f (a) f 0 (ξ)


= 0 · (7.11)
g(x) − g(a) g (ξ)

Por (7.10) temos


f (ξ) − L < ε .
0
g0 (ξ) 2 (7.12)

Logo também temos

f (x) − f (a) − L < ε ∀ x > a.



g(x) − g(a) 2 (7.13)
178 CAPÍTULO 7. FUNÇÕES DERIVÁVEIS

Escolhamos x > a suficientemente grande tal que f (x) > f (a)


e g(a) > 0. Como lim f (x) = lim g(x) = +∞ então
x→+∞ x→+∞

f (x) g(x) − g(a)


lim = 1 = lim ·
x→+∞ f (x) − f (a) x→+∞ g(x)

Logo
f (x) g(x) − g(a)
lim · = 1.
x→+∞ f (x) − f (a) g(x)
Assim, se x > a,

ε

f (x) g(x) − g(a)
· − 1 <
f (x) − f (a) g(x) 2|L| + ε

x > a. Então
se
f (x) − f (x)− f (a) = f (x)− f (a) · f (x) · g(x)−g(a) − f (x)− f (a) =
g(x) g(x)−g(a) g(x)−g(a) f (x)− f (a) g(x) g(x)−g(a)

f (x)− f (a) · f (x) · g(x)−g(a) − 1 < |L| + ε · ε < ε
  
g(x)−g(a) f (x)− f (a) g(x)
2 2|L|+ε 2
ε
< |L| + · Conseqüentemente,
f (x)− f (a)
pois de (7.13) temos
g(x)−g(a) 2
temos

f (x) − L ≤ f (x) − f (x)− f (a) + f (x)− f (a) − L < ε ε
g(x) g(x) g(x)−g(a) g(x)−g(a) 2
+ 2

se x > a.
f (x) f 0 (x)
Portanto, lim = L = lim 0 ·
x→+∞ g(x) x→+∞ g (x)

x
Exemplo 7.9 Considere o problema de calcular lim . Para
ex x→+∞
resolver este problema façamos f (x) = x e g(x) = e . Então x

f 0 (x) 1
lim f (x) = lim g(x) = +∞ e lim 0
= lim x = 0.
x→+∞ x→+∞ x→+∞ g (x) x→+∞ e
x
Portanto, lim = 0.
x→+∞ ex
7.5. A REGRA DE L’HÔPITAL 179

Proposição 7.13 Sejam f e g funções reais definidadas em


um intervalo I e a um ponto de I . Suponhamos que

i) f 0 (x) e g0 (x) existem e g0 (x) , 0 em a < x < a + δ para algum


δ > 0;

ii) lim+ f (x) = +∞ e lim+ g(x) = +∞;


x→a x→a

f 0 (x)
iii) lim+ = L.
x→a g0 (x)
f (x)
Então lim+ = L.
x→a g(x)

1 1
Prova: Seja x = a + ou, eqüivalentemente, u = · Então
+
u x−a
x → a se, e somente se, u → +∞. Agora,
!
1
lim f a + = lim+ f (x) = +∞
u→+∞ u x→a

e !
1
lim g a + = lim+ g(x) = +∞.
u→+∞ u x→a

Pela Proposição 7.9


 e usando
 a Regra
 da Cadeia,
  temos  
f (x) f a + 1
u
f 0
a + 1
u
− 1
u2
f 0
a + 1
u
lim+ = lim   = lim     = lim   =
x→a g(x) u→+∞ g a + 1 u→+∞ g0 a + 1
− 1 u→+∞ g0 a + 1
u u u 2 u
f 0 (x)
lim = L·
x→a+ g0 (x)

Exemplo 7.10 Considere o problema de determinar

lim x ln x.
x→0+
180 CAPÍTULO 7. FUNÇÕES DERIVÁVEIS

− ln 1x
Para solucioná-lo escrevamos, para x > 0, x ln x = 1
=
x
ln 1x 1 1
− 1
· Sejam f (x) = ln e g(x) = . Temos que f 0 (x) e g0 (x)
x
x x
existem, g0 (x) , 0,

lim f (x) = lim+ g(x) = +∞


x→0+ x→0

e
f 0 (x) − 1x
= = x.
g0 (x) − x12
f 0 (x) f (x)
Donde lim+ 0
= 0 e, portanto, lim+ = 0.
x→0 g (x) x→0 g(x)

Proposição 7.14 Sejam f e g funções reais definidadas em


um intervalo I e a um ponto de I . Suponhamos que

i) f 0 (x) e g0 (x) existem e g0 (x) , 0 em a − δ < x < a para algum


δ > 0;

ii) lim− f (x) = +∞ e lim− g(x) = +∞;


x→a x→a

f 0 (x)
iii) lim− = L.
x→a g0 (x)
f (x)
Então lim− = L.
x→a g(x)

Prova: O argumento da prova é semelhante ao da Proposição 7.13


e é deixada para os exercı́cios.
7.6. EXERCÍCIOS DO CAPÍTULO 7 181

7.6 Exercı́cios do Capı́tulo 7


7.1- Seja f : R −→ R definida por f (x) = |x|3 . Calcule f 0 (x) e
f 00 (x) para todo x ∈ R e mostre que f 00 não é derivável
em x = 0.

7.2- Seja f : R → R dada por:


x, se x < 1,
( 3
f (x) =
ax + b, se x ≥ 1,

onde a e b são constantes. Determine os valores de a e


b para os quais f é dirivável em x0 = 1.

7.3- Seja f : R → R dada por :


 
x sen x12 , se x , 0,
( 2
f (x) =
0, se x = 0.

Mostre que f é derivável em R mas f 0 não é limitada em


vizinhança alguma da origem.

7.4- Explique porque a função f : [0, 2] → R definida por


f (x) = 1 − |1 − x| não satisfaz o Teorema de Rolle.

7.5- Demonstre que, para qualquer número real b, o polinômio


p(x) = x3 + x + b possui exatamente uma raiz real.

7.6- Prove que se f é derivável em x = a então


   
f a + 2h − f a − 2h
f 0 (a) = lim ·
h→0 h

7.7- Prove que se f é duas vezes derivável em x = a então


f (a + h) − 2 f (a) + f (a − h)
f 00 (a) = lim ·
h→0 h
182 CAPÍTULO 7. FUNÇÕES DERIVÁVEIS

7.8- Seja f : R −→ R tal que


| f (x) − f (y)| ≤ (x − y)2
para todo x, y ∈ R. Prove que f é constante.

7.9- Sejam c0 , c1 , . . . , cn constantes reais tais que


c1 cn−1 cn
c0 + + · · · + + = 0.
2 n n+1
Prove que a equação

c0 + c1 x + · · · + cn−1 xn−1 + cn xn = 0
tem pelo menos uma raiz real entre 0 e 1.

7.10- Seja f : (0, +∞) −→ R derivável e suponha que


lim f 0 (x) = 0.
x→+∞

Seja g(x) = f (x + 1) − f (x). Prove que lim g(x) = 0.


x→+∞

7.11- Seja f : [0, +∞) → R e suponha que:


i) f é contı́nua para em [0, +∞);
ii) f 0 (x) existe para todo x > 0;
iii) f (0) = 0;
iv) f 0 é monótona crescente.
Se g(x) = para x > 0, prove que g é monótona cres-
f (x)
x
cente.

7.12- Seja f contı́nua em [x0 , b) e derivável em (x0 , b) e


suponha que existe lim+ f 0 (x). Mostre que fd0 (x0 ) existe
x→x0
e
fd0 (x0 ) = lim+ f 0 (x).
x→x0
7.6. EXERCÍCIOS DO CAPÍTULO 7 183

7.13- Seja f derivável em [a, b] e k ∈ R tal que k está entre


fd0 (a) e fe0 (b). Prove que existe c ∈ (a, b) com f 0 (c) = k.
7.14- Prove que se lim f (x) = +∞, lim g(x) = +∞ e
x→−∞ x→−∞

f 0 (x)
lim =L∈R
x→−∞ g0 (x)
f (x)
então lim = L.
x→−∞ g(x)
7.15- Seja f : R → R dada por:
( α  
|x| sen 1x , se x , 0,
f (x) =
0, se x = 0.

Para que valores de α f é derivável em x = 0?

7.16- Seja f uma função monótona em um intervalo I tal que


f 0 (x) > 0 para todo x ∈ I. Seja ϕ a inversa de f. Mostre
que se f 00 (x0 ) existe em um ponto x0 ∈ I então, para
y0 = f (x0 ) ϕ00 (y0 ), existe e
f 00 (x0 )
ϕ00 (y0 ) = − .
[ f 0 (x0 )]3

7.17- Seja f : R → R uma função tal que:


i) f é contı́nua em R e f (0) , 0;
ii) f é derivável em x = 0;
iii) f (x + y) = f (x) f (y) para todo x e todo y em R.
Mostre que f (x) = ecx , onde c = f 0 (0).

7.18- Sejam f e g funções deriváveis em [a, b] satisfazendo


f (a) ≤ g(a) e f 0 (x) ≤ g0 (x), ∀ x ∈ [a, b]. Mostre que
f (x) ≤ g(x), ∀ x ∈ [a, b].
184 CAPÍTULO 7. FUNÇÕES DERIVÁVEIS

7.19- Demonstre que xn − 1 ≥ n(x − 1), ∀ x ≥ 1 e ∀ n ∈ N.

7.20- Mostre que:

a) x ≤ tan x, se 0 ≤ x ≤ π2 .
b) log(1 + x) < x, se x > 0
c) x ≤ arcsen x ≤ √ x , se 0 ≤ x < 1.
1−x2

7.21- Suponha que f é derivável em x > x0 e lim f 0 (x) = L.


x→+∞
f (x)
Mostre que lim = L.
x→+∞ x

7.22- Mostre que:


!x
1 a x

lim 1 + = e e lim 1 + = ea .
x→+∞ x x→+∞ x

7.23- Mostre que se f é positiva e derivável em um intervalo I


então
d f 0 (x)
log( f (x)) = , ∀ x ∈ I.
dx f (x)

7.24- Suponha que f 0 (x0 ) e g0 (x0 ) existam, g0 (x0 ) , 0 e que


f (x0 ) = g(x0 ) = 0. Prove que

f (x) f 0 (x0 )
lim = 0 ·
x→x0 g(x) g (x0 )

7.25- Seja g : R −→ R derivável e suponha que existe M > 0


tal que
|g0 (x)| ≤ M para todo x ∈ R.
Fixe ε > 0 e defina f (x) = x + εg(x). Prove que, para ε é
suficientemente pequeno, f é biunı́voca.
7.6. EXERCÍCIOS DO CAPÍTULO 7 185

7.26- Seja f : [0, 1] −→ R derivável. Suponha que f (0) = 0 e

| f 0 (x)| ≤ | f (x)|, ∀ x ∈ [0, 1].

Mostre que f (x) = 0 para todo x ∈ [0, 1].

7.27- Suponha que f 0 (x) , 0 em (a, b).

a) Prove que f é estritamente monótona em (a, b).


b) Seja g inversa de f . Prove que g é derivável e que
1
g0 ( f (x)) = em (a, b).
f 0 (x)

7.28- Seja f : R → R uma função real. Um ponto x0 ∈ R é dito


ponto fixo de f se f (x0 ) = x0 . Suponha que existe uma
constante 0 < λ < 1 tal que | f 0 (x)| ≤ λ para todo xR.

a) Prove que f possui um único ponto fixo x0 .


b) Prove ainda que x0 = lim xn , sendo x1 um número
n→∞
real arbitrário de R e xn+1 = f (xn ) para n = 1, 2, 3, . . .

7.29- Seja f : I → R uma função. Mostre que se f é derivável


em x ∈ I então existe uma função contı́nua u : I → R tal
que
f (y) − f (x) = (y − x) f 0 (x) + u(y)
 

e lim u(y) = 0.
y→x

7.30- Seja L uma função real definida em (0, +∞) satisfazendo


L(x.y) = L(x) + L(y) e
L(1 + x)
lim = 1.
x→0 x
Mostre que L(x) = log x, para todo x ∈ (0, +∞).
186 CAPÍTULO 7. FUNÇÕES DERIVÁVEIS
Capı́tulo 8

Funções Integráveis

8.1 Introdução

Apresentamos neste capı́tulo o conceito de integral de uma


função real definida e limitada em um intervalo fechado I =
[a, b] de R.
Historicamente a origem do cálculo integral é bem ante-
rior à do cálculo diferencial e, rudemente falando, surgiu na
antigüidade nos trabalhos de Arquimedes (285-212 a.C.) liga-
dos ao cálculo de áreas de figuras planas e volumes de sólidos
pelo método da exaustão. Vê-se, assim, o forte apelo geométrico
inerente ao conceito de integral desde a sua origem mais re-
mota. O desenvolvimento que faremos aqui é bem mais re-
cente e segue as idéias de Riemann1 com os aperfeiçoamentos
itroduzidos por Darboux (1842-1917)2 .

1
Georg Friedrich Bernard Riemann (1826-1866)
2
Gaston Darboux (1824-1917)

187
188 CAPÍTULO 8. FUNÇÕES INTEGRÁVEIS

8.2 Integral Superior e Integral Inferior


Uma partição de um intervalo fechado e limitado [a, b] de R
é um subconjunto finito P = {x0 , x1 , · · · , xn } de pontos de [a, b]
satisfazendo à condição a = x0 < x1 < · · · < xn−1 < xn = b.
Cada subintervalo [xi−1 , xi ], com i variando de 1 até n, tem
comprimento xi − xi−1 e é chamado de i−ésimo intervalo da
partição P.
Seja f : [a, b] → R uma função limitada e seja P =
{x0 , x1 , · · · , xn } uma partição de [a, b]. Temos que f é limitada
em cada subintervalo [xi−1 , xi ] de P e, portanto, existem mi e
Mi , respectivamente o ı́nfimo e o supremo de f em [xi−1 , xi ].
Assim

mi = inf{ f (x); x ∈ [xi−1 , xi ]} e Mi = sup{ f (x); x ∈ [xi−1 , xi ]}.

Definimos a soma inferior de f relativamente à partição P como


sendo
n
X
s( f ; P) = mi (xi − xi−1 ) (8.1)
i=1

e, analogamente, definimos a soma superior de f relativa-


mente à partição P como sendo
n
X
S ( f ; P) = Mi (xi − xi−1 ). (8.2)
i=1

Os números s( f ; P) e S ( f ; P) são denominados, respectiva-


mente, de somas de Riemann-Darboux inferior e superior de
f, relativas à partição P.
A seguir apresentamos três resultados técnicos a respeito
de somas inferiores e superiores a fim de podermos definir a
integral inferior e a integral superior de uma função limitada f.
8.2. INTEGRAL SUPERIOR E INTEGRAL INFERIOR 189

Lema 8.1 Se f : [a, b] → R é limitada então, para qualquer


partição P de [a, b], tem-se
m(b − a) ≤ s( f ; P) ≤ S ( f ; P) ≤ M(b − a)
onde
m = inf{ f (x); x ∈ [a, b]} e M = sup{ f (x); x ∈ [a, b]}.
Prova: A prova segue diretamente do fato de que, para cada
i = 1, 2, · · · , n tem-se que m ≤ mi ≤ Mi ≤ M e que
n
X
(xi − xi−1 ) = b − a.
i=1

Denotemos por P([a, b]) a coleção de todas as partições


de [a, b]. Se P e Q pertencem a P([a, b]), dizemos que Q é
um refinamento de P se P ⊂ Q.
Lema 8.2 Seja f : [a, b] → R uma função limitada e sejam
P e Q duas partições de [a, b]. Se Q é um refinamento de P
então
i) s( f ; P) ≤ s( f ; Q) e
ii) S ( f ; Q) ≤ S ( f ; P).
Prova: Seja P = {x0 , x1 , . . . , xn } e suponhamos, inicialmente,
que a partição Q resulta de P pelo acréscimo de um ponto,
ou seja, Q = P ∪ {r}, com x j−1 < r < x j para algum j entre
1, 2, . . . , n. Sejam m0 e m00 , respectivamente, os ı́nfimos de f
nos subintervalos [x j−1 , r] e [r, x j ] de Q. Eevidentemente que
m j ≤ m0 , m j ≤ m00 e x j − x j−1 = (x j − r) + (r − x j−1 ). Portanto,
s( f ; Q) − s( f ; P) = m0 (r − x j−1 ) + m00 (x j − r) − m j (x j − x j−1 )
= m0 (r − x j−1 ) + m00 (x j − r) − m j (x j − r) − m j (r − x j−1 )
= (m0 − m j )(r − x j−1 ) + (m00 − m j )(x j − r) ≥ 0.
190 CAPÍTULO 8. FUNÇÕES INTEGRÁVEIS

Donde s( f ; P) ≤ s( f ; Q). A passagem para o caso geral é feita


repetindo-se o argumento anterior um número finito de vezes.
Analogamente prova-se que S ( f ; Q) ≤ S ( f ; P).
O Lema 8.2 nos informa que os refinamentos de uma partição
tendem a aumentar as somas inferiores e a dinimuir as supe-
riores.

Lema 8.3 Seja f : [a, b] → R uma função limitada e sejam


P e Q duas partições quaisquer de [a, b]. Então s( f ; P) ≤
S ( f ; Q).

Prova: A partição P ∪ Q é um refinamento comum a P e Q. De


modo que, pelos dois lemas anteriores,

s( f ; P) ≤ s( f ; P ∪ Q) ≤ S ( f ; P ∪ Q) ≤ S ( f ; Q).

Concluimos do Lema 8.3 que para uma função limitada em


[a, b] as somas inferiores são cotas inferiores para a somas
superiores e que as somas superiores são cotas superiores
para a somas inferiores. De maneira que podemos estabele-
cer a seguinte definição.

Definição 8.1 Seja f : [a, b] → R uma função limitada. Defin-


imos a integral inferior de f como
Z b
f (x)dx = sup{s( f ; P)}
a P∈P

e a integral superior de f por


Z b
f (x)dx = inf {S ( f ; P)}
a P∈P
8.2. INTEGRAL SUPERIOR E INTEGRAL INFERIOR 191

Proposição 8.1 Seja f : [a, b] → R uma função limitada e


sejam m e M tais que m ≤ f (x) ≤ M para todo x ∈ [a, b].
Então
Z b Z b
m(b − a) ≤ f (x)dx ≤ f (x)dx ≤ M(b − a).
a a

Prova: Pelo Lema 8.1 temos

m(b − a) ≤ s( f ; P) ≤ S ( f ; P) ≤ M(b − a)

para qualquer P ∈ P. Portanto

m(b − a) ≤ sup{s( f ; P)} ≤ inf {S ( f ; P)} ≤ M(b − a).


P∈P P∈P

Logo
Z b Z b
m(b − a) ≤ f (x)dx ≤ f (x)dx ≤ M(b − a),
a a

como querı́amos.

Proposição 8.2 Seja f : [a, b] → R uma função limitada.


Então, para qualquer c ∈ R, temos
Z b Z b
i) [ f (x) + c]dx = f (x)dx + c(b − a)
a a

Z b Z b
ii) [ f (x) + c]dx = f (x)dx + c(b − a)
a a

Prova: Seja P uma partição qualquer de [a, b]. Vamos domon-


strar o item ii) e deixamos o item i) como um exercı́cio. De-
notemos por µi = sup{ f (x) + c, x ∈ [xi−1 , xi ]} e por Mi =
192 CAPÍTULO 8. FUNÇÕES INTEGRÁVEIS

sup{ f (x), x ∈ [xi−1 , xi ]}. Temos que µi = Mi + c. Logo,


Xn Xn
µi (xi − xi−1 ) = (Mi + c)(xi − xi−1 ) =
i=1 i=1
n
X
Mi (xi − xi−1 ) + c(b − a).
i=1

Ou seja, S ( f + c; P) = S ( f ; P) + c(b − a), donde


Z b
inf {S ( f + c; P)} = [ f (x) + c]dx =
P∈P a
Z b
inf {S ( f ; P)} + c(b − a) = f (x)dx + c(b − a).
P∈P a

Proposição 8.3 Seja f : [a, b] → R limitada. Dado qualquer


c ∈ (a, b) tem-se que
Z b Z c Z b
i) f (x)dx = f (x)dx + f (x)dx.
a a c
Z b Z c Z b
ii) f (x)dx = f (x)dx + f (x)dx.
a a c

Prova: Denotemos por S ab , S ac e S cb as somas superiores de


f relativamente às partições de [a, b], [a, c] e [c, b], re-
spectivamente. Seja P uma partição qualquer de [a, b]. O
ponto c pode pertencer ou não a P. Se c < P consideremos
P0 = P ∪ {c}. Então P0 é uma partição de [a, b] que induz as
partições P1 = P0 ∩ [a, c] e P2 = P0 ∩ [c, b] de [a, c] e [c, b],
respectivamente. Assim,
S ab ( f ; P) ≥ S ab ( f ; P0 ) = S ac ( f ; P0 ) + S cb ( f ; P0 ) ≥
Z c Z b
f (x)dx + f (x)dx. (8.3)
a c
8.2. INTEGRAL SUPERIOR E INTEGRAL INFERIOR 193

Portanto
Z b Z c Z b
f (x)dx ≥ f (x)dx + f (x)dx. (8.4)
a a c

Seja agora ε > 0 dado arbitrariamente. Existem partições P1 e


P2 de [a, c] e [c, b], respectivamente, tais que
c
ε b
ε
Z Z
S ac ( f ; P1 ) < f (x)dx + e S cb ( f ; P2 ) < f (x)dx + .
a 2 c 2
Observemos que o conjunto P = P1 ∪ P2 é uma partição de
[a, b] tal que S ab ( f ; P) = S ac ( f ; P1 ) + S cb ( f ; P2 ). Logo
Z b Z c Z b
f (x)dx ≤ S ac ( f ; P1 ) + S cb ( f ; P2 ) < f (x)dx + f (x)dx + ε
a a c

qualquer que seja ε > 0 dado. Assim


Z b Z c Z b
f (x)dx ≤ f (x)dx + f (x)dx. (8.5)
a a c

De (8.4) e (8.5) segue


Z b Z c Z b
f (x)dx = f (x)dx + f (x)dx
a a c

como querı́amos demonstrar.


Nós definimos a integral inferior e a integral superior para
funções limitadas definidas em [a, b], com a < b. No entanto,
para simplificar a escrita e estender alguns resultados sobre
integrais, é importante incluir os caso a = b e a > b e, assim,
definimos:
Para a = b,
Z a Z a
f (x)dx = f (x)dx = 0.
a a
194 CAPÍTULO 8. FUNÇÕES INTEGRÁVEIS

Para a > b,
Z b Z a Z b Z a
f (x)dx = − f (x)dx e f (x)dx = − f (x)dx.
a b a b

Considerando a definição acima podemos agora ampliar a


aplicabilidade da Proposição 8.3 também para os casos em
que c < a ou c > b, com a hipótese adicional de f estar
definida em [c, a] ou [b, c].

Proposição 8.4 Seja f : [a, b] → R limitada. Definamos as


funções F e G em [a, b] do seguinte modo: F(a) = G(a) = 0 e
para x ∈ (a, b]
Z x Z x
F(x) = f (t)dt e G(x) = f (t)dt.
a a

Então em cada ponto x0 ∈ [a, b] onde f é contı́nua temos


F 0 (x0 ) = G0 (x0 ) = f (x0 ).

Prova: Vamos demonstrar que F 0 (x0 ) = f (x0 ) se x0 for um


ponto de continuidade de f e deixamos para os exercı́cios a
demonstração de que G0 (x0 ) = f (x0 ). Seja x0 ∈ (a, b) e h ∈ R
tal que x0 + h ∈ (a, b). Usando a Proposição 8.3, com a devida
adaptação para o caso de ser h < 0, obtemos
Z x0 +h Z x0
F(x0 + h) − F(x0 ) = f (t)dt − f (t)dt =
a a
Z x0 Z x0 +h Z x0 Z x0 +h
f (t)dt + f (t)dt − f (t)dt = f (t)dt.
a x0 a x0

De maneira que
x0 +h
F(x0 + h) − F(x0 ) 1
Z
= f (t)dt.
h h x0
8.3. A INTEGRAL DE RIEMANN 195

Usando agora a Proposição 8.2 temos,


R
x0 +h [ f (t) − f (x )]dt
F(x0 + h) − F(x0 ) − f (x ) =
x 0
0
0 ·
h |h|

Pela Proposição 8.1 temos que


Z x0 +h
|h| inf [ f (t) − f (x0 )] ≤ [ f (t) − f (x0 )]dt ≤
|t−x0 |≤|h| x0
|h| sup [ f (t) − f (x0 )].
|t−x0 |≤|h|

Logo

F(x0 + h) − F(x0 )

inf [ f (t) − f (x0 )] ≤ − f (x0 ) ≤
|t−x0 |≤|h| h
sup [ f (t) − f (x0 )].
|t−x0 |≤|h|

Se x0 é um ponto de continuidade de f então

inf [ f (t) − f (x0 )] e sup [ f (t) − f (x0 )]


|t−x0 |≤|h| |t−x0 |≤|h|

tendem a zero quando h tende a zero. Concluimos, portanto,


que F 0 (x0 ) = f (x0 ).

8.3 A Integral de Riemann


Tendo sido apresentados os conceitos de integral superior e
integral inferior de uma função f, definida e limitada em um in-
tervalo [a, b], passemos agora a definir a integral de Riemann
de f.
196 CAPÍTULO 8. FUNÇÕES INTEGRÁVEIS

Definição 8.2 Seja f : [a, b] → R uma função limitada. Dize-


mos que f é integrável à Riemann em [a, b] quando
Z b Z b
f (t)dt = f (t)dt
a a

Z b
e o valor comum denotamos por f (t)dt.
a

Exemplo 8.1 Seja f : [a, b] → R dada por f (x) = c, para todo


x ∈ [a, b]. Então f é integrável em [a, b] e
Z b
f (t)dt = c(b − a).
a

De fato, qualquer que seja a partição P de [a, b] temos que


mi = Mi = c em todos os subintervalos e, por conseguinte,
s( f ; P) = S ( f ; P) = c(b − a). Logo,
Z b Z b
f (t)dt = f (t)dt = c(b − a).
a a

Exemplo 8.2 Seja f : [a, b] → R definida por


(
1, se x ∈ Q ∩ [a, b],
f (x) =
0, se x ∈ [a, b] − Q.

Então f não é integrável em [a, b] pois, qualquer que seja a


partição P = {a = x0 < x1 , . . . < xn = b} de [a, b], em cada
de seus subintervalos [xi−1 , xi ] existem números racionais e
irracionais, portanto mi = 0 e Mi = 1. Logo s( f ; P) = 0 e S ( f :
P) = b − a, o que acarreta
Z b Z b
f (t)dt = 0 e f (t)dt = b − a.
a a
8.3. A INTEGRAL DE RIEMANN 197

Definição 8.3 Dada uma partição P = {a = x0 < x1 < . . . <


xn = b} de [a, b], define-se a norma de P, e denota-se por kPk
o número

kPk = max{xi − xi−1 , i = 1, 2, . . . n}.

Proposição 8.5 Se f : [a, b] → R é monótona então é in-


tegrável.

Prova: Suponhamos que f é não decrescente. Para qualquer


partição P de [a, b], temos
Z b Z b
f (t)dt ≤ S ( f ; P) − s( f ; P) =
f (t)dt −
a a
X X
(Mi − mi )(xi − xi−1 ) ≤ kPk (Mi − mi )
P∈P([a,b]) P∈P([a,b])

Desde que f é, por hipótese, não decrescente, em cada subin-


tervalo [xi−1 , xi ], temos Mi = f (xi ) e mi = f (xi−1 ). De modo que
X X
(Mi − mi ) = ( f (xi ) − f (xi−1 ) = f (b) − f (a).
P∈P([a,b]) P∈P([a,b])

Logo temos
Z b Z b
0≤ f (t)dt − f (t)dt ≤ kPk( f (b) − f (a)).
a a

i) Se f (b) = f (a) então f é constante e, portanto, integrável.


ε
ii) Se f (b) , f (a) então, para ε > 0 seja δ = ·
f (b) − f (a)
Se kPk < δ temos
Z b Z b
f (t)dt − f (t)dt < ε
a a
198 CAPÍTULO 8. FUNÇÕES INTEGRÁVEIS

o que acarreta
Z b Z b
f (t)dt = f (t)dt
a a

ou seja, f é integrável em [a, b].

Proposição 8.6 Seja f : [a, b] → R contı́nua. Então f é


integrável.

Prova: Consideremos F e G como na Proposição 8.4. Temos


que
F 0 (x) = G0 (x) = f (x), ∀ x ∈ [a, b].
Logo, F(x) = G(x) + c, para todo x ∈ [a, b] e para alguma
constante c. Como F(a) = G(a) = 0, segue que c = 0. Ou seja,
F(x) = G(x) para todo x ∈ [a, b]. Em particular, para x = b,
temos
Z b Z b
f (t)dt = F(b) = G(b) = f (t)dt,
a a

portanto, f é integrável em [a, b].

Proposição 8.7 Seja f : [a, b] → R limitada. Então f é in-


tegrável se, e somente se, para cada ε > 0 existe uma partição
P de [a, b] tal que S ( f ; P) − s( f ; P) < ε.

Prova: Suponhamos que f é integrável em [a, b]. Então


Z b Z b Z b
f (t)dt = f (t)dt = f (t)dt.
a a a

Logo, dado ε > 0 existem partições P1 e P2 de [a, b] tais que


b
ε b
ε
Z Z
S ( f ; P1 ) − f (t)dt < e f (t)dt − s( f ; P2 ) < .
a 2 a 2
8.3. A INTEGRAL DE RIEMANN 199

Assim, temos S ( f ; P1 ) − s( f ; P2 ) < ε. Tomemos P = P1 ∪ P2 e


então,
S ( f ; P1 ) ≥ S ( f ; P) ≥ s( f ; P) ≥ s( f ; P2 )
e, portanto,

S ( f ; P) − s( f ; P) ≤ S ( f ; P1 ) − s( f ; P2 ) < ε.

Reciprocamente, suponhamos que para cada ε > 0 existe uma


partição P de [a, b] tal que S ( f ; P) − s( f ; P) < ε. Desde que
que
Z b Z b
S ( f ; P) ≥ f (t)dt ≥ f (t)dt ≥ s( f ; P),
a a

então
Z b Z b
0≤ f (t)dt − f (t)dt < ε.
a a

Sendo ε > 0 arbitrário segue que


Z b Z b
f (t)dt = f (t)dt.
a a

Logo, f é integrável em [a, b].

Exemplo 8.3 Considere dois números reais c e d e definamos


f : [a, b] → R por

c, se a < x ≤ b
(
f (x) =
d, se x = a.

Então f é integrável em [a, b] e


Z b
f (t)dt = c(b − a).
a
200 CAPÍTULO 8. FUNÇÕES INTEGRÁVEIS

Com efeito, suponhamos, sem perda da generalidade, que c <


d. Então, qualquer que seja partição P = {a = x0 < x1 < · · · <
xn = b} de [a, b], temos m1 = c, M1 = d e mi = Mi = c para
i = 2, · · · , n. Portanto, S ( f ; P) − s( f ; P) = (d − c)(x1 − x0 ). Seja,
agora, ε > 0 dado e tomemos uma partição P0 de [a, b] tal que
ε
x1 − x0 < e teremos que S ( f ; P0 ) − s( f ; P0 ) < ε. Logo, f é
d−c
integrável em [a, b]. Além disso, como para qualquer partição
Z b
P de [a, b] temos s( f, P) = c(b − a), então f (t)dt = c(b − a).
a

8.3.1 A Integral Como Limite de Somas de Rie-


mann
Apresentamos nesta seção uma caracterização importante
da integral de Riemann como limite de somas, conhecidas
como somas de Riemann. Tal caracterização é muito útil, es-
pecialmente na demonstração de algumas propriedades da in-
tegral. Antes, porém, vamos demonstrar a próxima proposição
a qual será útil na demonstração do Teorema 8.1.

Proposição 8.8 Seja f : [a, b] → R limitada. Então, para


cada ε > 0 existe δ > 0 tal que
Z b Z b
S ( f : P) < f (t)dt + ε e s( f ; P) > f (t)dt − ε
a a

para qualquer partição P de [a, b] tal que kPk < δ.

Prova: Suponhamos que f (x) ≥ 0 em [a, b]. Dado ε > 0


existe uma partição P0 = {a = x0 < x1 < · · · < xn = b} de
b
ε
Z
[a, b] tal que S ( f ; P0 ) < f (x)dx + . Seja M = sup f (x)
a 2 x∈[a, b]
ε
e tomemos 0 < δ < . Se P é qualquer partição de [a, b]
2Mn
8.3. A INTEGRAL DE RIEMANN 201

com kPk < δ, indiquemos com [y j−1 , y j ] os subintervalos de


P que estão contidos em algum subintervalo [xi−1 , xi ] de P0
e com [yk−1 , yk ] os intervalos restantes de P. Cada um dos
intervalos [yk−1 , yk ] contém pelo menos um ponto xi . Assim, há
no máximo n intervalos do tipo [yk−1 , yk ]. Quando [y j−1 , y j ] ⊂
[xi−1 , xi ] temos M j ≤ Mi e y j − y j−1 ≤ xi − xi−1 . Logo, M j (y j −
y j−1 ) ≤ Mi (xi − xi−1 ) uma vez que tratam-se de números não
negativos. Além disso Mk (yk − yk−1 ) ≤ Mδ. Portanto
X X
S ( f ; P) = M j (y j − y j−1 ) + Mk (yk − yk−1 ) ≤
j k
n
ε b
X Z
Mi (xi − xi−1 ) + Mnδ < S ( f ; P0 ) + < f (x)dx + ε.
i=1
2 a

Para o caso geral, como f é limitada, existe uma constante


c > 0 tal que f (x) + c ≥ 0, para todo x ∈ [a, b]. Tomando g(x) =
Z b
f (x) + c temos, pelo que já provamos, S (g; P) < g(x)dx + ε,
a
qualquer que seja a partição P do intervalo [a, b] tal que kPk <
δ. Ocorre que S (g; P) = S ( f ; P) + c(b − a) e, portanto,
Z b Z b
g(x)dx = f (x)dx + c(b − a),
a a

o que acarreta
Z b
S ( f ; P) + c(b − a) < f (x)dx + c(b − a) + ε
a

Z b
e, por fim, S ( f ; P) <
f (x)dx + ε. Com um raciocı́nio análogo
a Z b
prova-se a outra desigualdade s( f ; P) > f (x)dx − ε e fica
a
demonstrada a proposição.
202 CAPÍTULO 8. FUNÇÕES INTEGRÁVEIS

Dada uma partição P = {a = x0 < x1 < · · · < xn = b} de


[a, b], escolhamos um ponto ξi em cada subintervalo [xi−1 , xi ]
e denotemos por ξ a n−upla (ξ1 , ξ2 , · · · , ξn ). Se f é uma função
real definida em [a, b], a expressão
n
X
S ( f ; P; ξ) = f (ξi )(xi − xi−1 )
i=1

é chamada de soma de Riemann de f.

Definição 8.4 Escrevemos lim S ( f ; P; ξ) = γ ∈ R quando,


kPk→0
para cada ε > 0 existe δ > 0 tal que |S ( f ; P; ξ)−γ| < ε, qualquer
que seja a partição P de [a, b] com kPk < δ e qualquer que
seja a escolha de ξ associada a P.

Teorema 8.1 Seja f : [a, b] → R uma função limitada. Então


f é integrável à Riemann se, e somente se3 ,
Z b
lim S ( f ; P; ξ) = f (x)dx.
kPk→0 a

Prova: Suponhamos que f é integrável à Riemann. Dada


uma partição P = {a = x0 < x1 < · · · < xn = b} de [a, b],
qualquer que seja ξ = (ξ1 , ξ2 , · · · , ξn ) com ξi ∈ [xi−1 , xi ], temos
claramente que

s( f ; P) ≤ S ( f ; P; ξ) ≤ S ( f ; P).

Como f é integrável à Riemann em [a, b], então, pela Proposição 8.8,


Z b
lim s( f ; P) = f (x)dx = lim S ( f ; P).
kPk→0 a kpk→0

3
A construção da integral como no Teorema 8.1 é conhecida como Integral
de Cauchy.
8.3. A INTEGRAL DE RIEMANN 203

Logo
Z b
lim S ( f ; P; ξ) = f (x)dx.
kpk→0 a
Reciprocamente, suponhamos que lim S ( f ; P; ξ) = γ ∈ R.
kPk→0
Mostremos que f é integrável à Riemann em [a, b] e, além
Rb
disso, a f (x)dx = γ. Para tanto seja ε > 0 dado e considere-
mos uma partição P = {a = x0 < x1 < · · · < xn = b} de [a, b].
Para cada i = 1, 2, · · · n escolhamos ξi e ηi em [xi , xi−1 ] tais
que
f (ξi ) > Mi − ε e f (ηi ) < mi + ε.
Tais escolhas são possı́veis tendo em vista que Mi é o supremo
de f em [xi−1 , xi ] e mi é o ı́nfimo de f em [xi−1 , xi ]. Então

S ( f ; P; ξ) > S ( f ; P) − ε(b − a) e S ( f ; P; η) < s( f ; P) + ε(b − a)

e, portanto,
Z b
S ( f ; P; η) − ε(b − a) < s( f ; P) ≤ f (x)dx ≤ (8.6)
a
Z b
f (x)dx ≤ S ( f ; P) < S ( f ; P; ξ) + ε(b − a).
a

Passando ao limite em (8.6) quando kPk → 0 obtemos


Z b Z b
γ − ε(b − a) ≤ f (x)dx ≤ f (x)dx ≤ γ + ε(b − a).
a a

Desde que ε > 0 é arbitrário, concluimos que f é integrável


Rb
em [a, b] e que a f (x)dx = γ.

Exemplo 8.4 Seja f : [a, b] → R dada por f (x) = x. Sabemos


que f é integrável em [a, b] uma vez que é aı́ contı́nua. Vamos
204 CAPÍTULO 8. FUNÇÕES INTEGRÁVEIS
Rb
usar o Teorema 8.1 para determinar o valor de a f (x)dx. Para
tanto consideremos uma partição qualquer P = {a = x0 < x1 <
· · · < xn = b} do intervalo [a, b] e, para cada i = 1, 2, · · · n
xi + xi−1
escolhamos ξi = . Temos que ξi ∈ [xi−1 , xi ] e
2
n n
X X 1
S ( f ; P; ξ) = f (ξi )(xi − xi−1 ) = (xi + xi−1 )(xi − xi−1 ) =
i=1 i=1
2
n
1X 2 1 1
2
(xi − xi−1 ) = (xn2 − x02 ) = (b2 − a2 ).
2 i=1 2 2
Z b
1
Assim, f (x)dx = lim S ( f ; P; ξ) = (b2 − a2 ).
a kPk→0 2

8.3.2 Propriedades da Integral de Riemann


Proposição 8.9 Sejam f : [a, b] → R e g : [a, b] → R in-
tegráveis e c ∈ R uma constante. Então

i) f + g é integrável em [a, b] e
Z b Z b Z b
( f (x) + g(x))dx = f (x)dx + g(x)dx.
a a a

ii) c f é integrável em [a, b] e


Z b Z b
(c f )(x)dx = c f (x)dx.
a a

Prova: Para provar i) seja ε > 0 dado. Sendo f e g integráveis


em [a, b] existem números reais δ1 > 0 e δ2 > 0 tais que

ε
Z b
S ( f ; P; ξ) − f (x)dx < , sempre que kPk < δ1

a 2
8.3. A INTEGRAL DE RIEMANN 205

e
ε
Z b
S (g; P; ξ) − g(x)dx < , sempre que kPk < δ2 ,

a 2

onde P é uma partição de [a, b]. Seja δ = min{δ1 , δ2 } e


tomemos uma partição P de [a, b] com kPk < δ. Temos, então
Z b Z b !
S ( f + g; P; ξ) − f (x)dx + g(x)dx =

a a
Z b Z b
S ( f ; P; ξ) + S (g; P; ξ) −

f (x)dx − g(x)dx ≤
a
a

ε ε
Z b Z b
S ( f ; P; ξ) − f (x)dx + S (g; P; ξ) − g(x) < + = ε.

a a 2 2

Isto é,
Z b Z b
lim S ( f + g; P; ξ) = f (x)dx + g(x)dx =
kPk→0 a a
Z b
( f (x) + g(x))dx.
a

Para provar ii) observamos inicialmente que se c = 0 o resul-


tado é imediato. Podemos, então, supor que c , 0. Dado ε > 0,
sendo f integrável em [a, b], existe δ > 0 tal que

ε
Z b
S ( f ; P; ξ) − f (x)dx < , sempre que kPk < δ.

a |c|

Logo, se kPk < δ, temos


Z b Z b
S (c f ; P; ξ) − c f (x) = cS ( f ; P; ξ) − c f (x)dx =

a
a

ε
Z b
|c| S ( f ; P; ξ) − f (x)dx < |c| = ε.

a |c|
206 CAPÍTULO 8. FUNÇÕES INTEGRÁVEIS

Isto é
Z b Z b
lim S (c f ; P; ξ) = (c f )(x)dx = c f (x)dx.
kPk→0 a a

Proposição 8.10 Se f : [a, b] → R é integrável e [c, d] ⊂


[a, b] então f é integrável em [c, d].

Prova: Dado ε > 0, sendo f integrável em [a, b], existe uma


partição P de [a, b] tal que S ( f ; P)− s( f ; P) < ε. Consideremos
P∗ = P ∪ {c, d}. Temos que P∗ é um refinamento de P. Logo

s( f ; P) ≤ s( f ; P∗ ) ≤ S ( f ; P∗ ) ≤ S ( f ; P),

o que acarreta

S ( f ; P∗ ) − s( f ; P∗ ) ≤ S ( f ; P) − s( f ; P) < ε.

Seja, agora, P̂ = P∗ ∩ [c, d]. Então

S cd ( f ; P̂) − sdc ( f ; P̂) ≤ S ( f ; P∗ ) − s( f : P∗ ) < ε

o que significa que f é integrável em [c, d].

Proposição 8.11 Se f é integrável em [a, b] e c ∈ (a, b) então


Z b Z c Z b
f (x)dx = f (x)dx + f (x)dx.
a a c

Prova: Pela Proposição 8.10 f é integrável em [a, c] e em


[c, b]. O resultado segue da Proposição 8.3.

Proposição 8.12 Se f : [a, b] → R é integrável e f (x) ≥ 0


Rb
para todo x ∈ [a, b] então a f (x)dx ≥ 0.
8.3. A INTEGRAL DE RIEMANN 207

Prova: Para cada partição P de [a, b] temos que S ( f ; P; ξ) ≥


0. Logo, Z b
f (x)dx = lim S ( f ; P; ξ) ≥ 0.
a kPk→0

Corolário: Sejam f : [a, b] → R e g : [a, b] → R funções


integráveis tais que f (x) ≤ g(x) para todo x ∈ [a, b]. Então
Z b Z b
f (x)dx ≤ g(x)dx.
a a

Prova: Sendo f e g funções integráveis, segue da Proposição 8.9,


que g − f é integrável e
Z b Z b Z b
(g(x) − f (x))dx = g(x)dx − f (x)dx.
a a a

Por hipótese g(x) − f (x) ≥ 0, para todo x ∈ [a, b]. Logo, pela
Z b
Proposição 8.12, (g(x) − f (x))dx ≥ 0. Combinando os re-
a
sultados fica demonstrado o Corolário.
Dada uma função real qualquer f : [a, b] → R vamos
definir f + : [a, b] → R e f − : [a, b] → R respectivamente por
(
+ f (x), se f (x) ≥ 0,
f (x) =
0, se f (x) < 0.
e (
− f (x), se f (x) ≤ 0,
f (x) =

0 se f (x) > 0.
Quando f : [a, b] → R é limitada, então f + e f − são
funções4 limitadas não negativas satisfazendo | f | = f + + f −
e f = f + − f − como se comprova facilmente.
As funções f + e f − são chamadas de parte positiva e parte negativa, re-
4

spectivamente, de f.
208 CAPÍTULO 8. FUNÇÕES INTEGRÁVEIS

Se f : [a, b] → R é limitada e P é uma partição qualquer


de [a, b], então, para cada i = 1, 2, · · · , n denotamos por Mi+ e
m+i respectivamente o supremo e o ı́nfimo de f + em [xi−1 , xi ],
ou seja
Mi+ = sup{ f + (x); x ∈ [xi−1 , xi ]}
e
m+i = inf{ f + (x); x ∈ [xi−1 , xi ]}.

Lema 8.4 Se f : [a, b] → R é limitada então Mi −mi ≥ Mi+ −m+i


para i = 1, 2, · · · , n.

Prova: Se tivermos mi ≥ 0 então f (x) ≥ 0 em [xi−1 , xi ] e,


neste caso, f + (x) = f (x) em [xi−1 , xi ], logo Mi+ = Mi e m+i =
mi . Se for Mi ≤ 0 então f (x) ≤ 0 em [xi−1 , xi ]. Neste caso
f + (x) = 0 em [xi−1 , xi ] e, portanto Mi+ = m+i = 0. Finalmente
se for mi < 0 < Mi então, como f + (x) ≥ 0, m+i ≥ 0 e, portanto,
m+i > mi . Donde −mi > −m+i e como neste caso Mi+ = Mi
temos Mi − mi > Mi+ − m+i .

Proposição 8.13 Se f : [a, b] → R é integrável, então f + e


f − também são integráveis em [a, b].

Prova: Dado ε > 0 existe uma partição P = {a = x0 < x1 <


· · · < xn = b} de [a, b] tal que S ( f ; P) − s( f ; P) < ε. Agora
n
X
S ( f + ; P) − s( f + ; P) = (Mi+ − m+i )(xi − xi−1 ≤
i=1
n
X
(Mi − mi )(xi − xi−1 ) = S ( f ; P) − s( f ; P) < ε.
i=1

Portanto, f + é integrável em [a, b]. Por outro lado, da igual-


dade f − = f + − f e da Proposição 8.9 segue que f − é in-
etgrável em [a, b].
8.3. A INTEGRAL DE RIEMANN 209

Proposição 8.14 Se f : [a, b] → R é integrável, então | f | é


integrável em [a, b] e
Z b Z b

f (x)dx ≤ | f |(x)dx.
a a

Prova: Da Proposição 8.13 temos que f + e f − são integráveis


em [a, b]. Como | f | = f + + f − segue, da Proposição 8.9, que
| f | é integrável em [a, b]. Agora, usando a desigualdade

−| f (x)| ≤ f (x) ≤ | f (x)|,

válida para todo x ∈ [a, b], e o Corolário da Proposição 8.12


temos
Z b Z b Z b
− | f (x)|dx ≤ f (x)dx ≤ | f (x)|dx,
a a a

isto é Z b Z b

f (x)dx ≤ | f |(x)dx.
a a

Proposição 8.15 Sejam f : [a, b] → R e g : [a, b] → R


funções integráveis. Então f g : [a, b] → R dada por ( f g)(x) =
f (x)g(x) é integrável.

Prova: Suponhamos inicialmente que ambas as funções são


não negativas em [a, b]. Seja P = {a = x0 < x1 < · · · < xn = b}
uma partição de [a, b]. Vamos escrever

M f g = sup{ f (x)g(x); x ∈ [xi−1 , xi ]},

m f g = inf{ f (x)g(x); x ∈ [xi−1 , xi ]},

M f = sup{ f (x); x ∈ [xi−1 , xi ]},


210 CAPÍTULO 8. FUNÇÕES INTEGRÁVEIS

m f = inf{ f (x); x ∈ [xi−1 , xi ]},


Mg = sup{g(x); x ∈ [xi−1 , xi ]},
mg = inf{g(x); x ∈ [xi−1 , xi ]},
M1 = sup{ f (x); x ∈ [a, b]}
e

M2 = sup{g(x); x ∈ [a, b]}.


Então
M f g ≤ M f Mg e m f g ≥ m f mg
em [xi−1 , xi ]. Assim

M f g − m f g ≤ M f Mg − m f mg =
M f Mg − M f mg + M f mg − m f mg =
M f [Mg − mg ] + mg [M f − m f ] ≤ (8.7)
M1 [Mg − mg ] + M2 [M f − m f ].

Multiplicando (8.7) por xi − xi−1 e somando desde i = 1 até i = n


obtemos

S ( f g; P) − s( f g; P) ≤
M1 [S (g; P) − s(g; P)] + M2 [S ( f ; P) − s( f ; P)]. (8.8)

Sabemos que para cada ε > 0 existe uma partição P de [a, b]


tal que
ε
S (g; P) − s(g; P) < e
2(1 + M1 )
ε
S ( f ; P) − s( f ; P) < . (8.9)
2(1 + M2 )
Substituindo (8.9) em (8.8) obtemos S ( f g; P) − s( f g; P) < ε, o
que implica na integrabilidade de f g em [a, b]. Para tratar o
8.3. A INTEGRAL DE RIEMANN 211

caso geral em que f e g não são necessariamente não nega-


tivas em [a, b] é suficiente escrever

f g = ( f + − f − )(g+ − g− ) = f + g+ − f + g− − f − g+ + f − g−

e usar o que acabamos de demonstrar.

8.3.3 O Teorema Fundamental do Cálculo


Históricamente o Cálculo nasceu da necessidade que os
matemáticos da antigüidade tiveram para resolver dois tipos
de problemas: calcular áreas de figuras planas (ou volumes
de sólidos) e traçar tangentes em pontos de uma dada curva
do plano. O primeiro tipo de problema carrega o “germe” do
Cálculo Integral e o segundo o do Cálculo Diferencial.
Na segunda metade do século XVII os trabalhos desen-
volvidos pelos grandes matemáticos Isaac Newton (1642-1727)
e Gottfried Leibniz (1646-1716) foram fundamentais para a
sistematização e a unificação das duas teorias matemáticas,
ao ponto de, na atualidade, se creditar a esses dois matemáticos
a invenção do Cálculo Diferencial e Integral.
O nosso objetivo principal nesta seção é demonstrar o “O
Teorema Fundamental do Cálculo”, o qual se constitui no re-
sultado que estabelece a conexão entre o Cálculo Diferencial
e o Cálculo Integral.
Suponhamos que f : [a, b] → R é limitada. Segue-se da
Proposição 8.4 que vale a fórmula
Z x
d
f (t)dt = f (x) (8.10)
dx a

em cada ponto x ∈ [a, b] no qual f é contı́nua. Em particular,


se f é contı́nua em [a, b], a equação (8.10) é satisfeita para
todo x ∈ [a, b].
212 CAPÍTULO 8. FUNÇÕES INTEGRÁVEIS

Uma função G com a propriedade de que G0 (x) = f (x) para


todo x ∈ [a, b] é chamada de primitiva, ou integral indefinida,
de f. Assim, para as funções contı́nuas em [a, b], a equação
(8.10) informa que a função F : [a, b] → R definida por
Z x
F(x) = f (t)dt
a

é uma primitiva de f.
Notemos que se c ∈ R é uma constante então F + c é
também uma primitiva de f. Na verdade, como uma conseqüência
do Teorema do Valor Médio de Lagrange (Teorema 7.3), qual-
quer primitiva de f é do tipo F +c para alguma constante c. Va-
mos usar este resultado para estabelecer o teorema a seguir.

Teorema 8.2 Se f : [a, b] → R é contı́nua e G é uma primitiva


de f, então
Z b
f (x)dx = G(b) − G(a). (8.11)
a

Prova: Seja F : [a, b] → R dada por


Z x
F(x) = f (t)dt.
a

Temos que F 0 (x) = G0 (x), logo, G(x) = F(x) + c, para alguma


constante c. Como F(a) = 0 então c = G(a). Isto é F(x) =
G(x) − G(a). Em particular, F(b) = G(b) − G(a), ou seja
Z b
f (x)dx = G(b) − G(a).
a

É comum nos livros de Cálculo usar-se a notação


b
G(x) = G(b) − G(a).
a
8.3. A INTEGRAL DE RIEMANN 213

Uma aplicação importante do Teorema 8.2 consiste em:


para calcularmos a integral de uma função contı́nua f em [a, b]
tudo que precisamos R b é ter “em mãos” uma primitiva qualquer
G de f e teremos a f (x)dx = G(b) − G(a). Assim, o problema
de calcular a integral de uma função contı́nua f em [a, b] se
transfere para o problema, aparentemente mais simples, de se
determinar uma primitiva de f. Daı́ a justificativa para o esforço
que é desenvolvido nos cursos introdutórios de Cálculo Difer-
encial e Integral, especialmente os mais dirigidos para aplicações,
em se construir extensas tabelas de primitivas. Neste sentido
é importante o estabelecimento das chamadas “técnicas de
integração”. Não é nosso objetivo tratar aqui desta questão
com profundidade e recomendamos ao leitor a referência [1].
A equação (8.10) sugere a indagação de se toda derivada
pode ser integrada para retornarmos à função original. A re-
sposta para essa questão é negativa, conforme vemos no ex-
emplo a seguir.

Exemplo 8.5 Considere a função f : R → R definida por


 
, se x , 0,
( 1
x2 sen
f (x) = x2
0 se x = 0.

Como se comprova facilmente temos


   
, se x , 0,
( 1
2xsen − 2x cos 1
f (x) =
0 x2 x2
0 se x = 0.

Observamos que f 0 não é limitada em nenhuma vizinhança


da orı́gem e, portanto, não é integrável em qualquer intervalo
contendo a orı́gem.

A resposta à questão acima levantada é positiva se a derivada


for limitada e integrável, como mostra a proposição a seguir.
214 CAPÍTULO 8. FUNÇÕES INTEGRÁVEIS

Proposição 8.16 Seja f : [a, b] → R uma função derivável


tal que f 0 é limitada e integrável em [a, b]. Então
Z b
f 0 (x)dx = f (b) − f (a).
a

Prova: Dada uma partição P = {a = x0 < x1 < · · · < xn = b}


qualquer de [a, b] temos
n
X
f (b) − f (a) = [ f (xi ) − f (xi−1 )]. (8.12)
i=1

O Teorema do Valor Médio de Lagrange aplicado em cada


subintervalo [xi−1 , xi ] garante que que existe ξi ∈ (xi−1 , xi ) tal
que f (xi ) − f (xi−1 ) = f 0 (ξi )(xi − xi−1 ). Assim, (8.12) se escreve
como
n
X
f (b) − f (a) = f 0 (ξi )(xi − xi−1 ). (8.13)
i=1
Sendo f 0 limitada, consideremos, para cada i = 1, 2, · · · , n

Mi0 = sup{ f 0 (x); x ∈ [xi−1 , xi ]}


e
m0i = inf{ f 0 (x); x ∈ [xi−1 , xi ]}.
Portanto, para cada i = 1, 2, · · · , n

m0i (xi − xi−1 ) ≤ f 0 (ξi )(xi − xi−1 ) ≤ Mi0 (xi − xi−1 ). (8.14)
Adicionando desde i = 1 até i = n e usando (8.13) obtemos
n
X n
X
m0i (xi − xi−1 ) ≤ f (b) − f (a) ≤ Mi0 (xi − xi−1 ). (8.15)
i=1 i=1

Isto significa que, qualquer que seja a partição P de [a, b],


temos
s( f 0 ; P) ≤ f (b) − f (a) ≤ S ( f 0 : P).
8.3. A INTEGRAL DE RIEMANN 215

Z b Z b
0
Assim, f (x)dx ≤ f (b) − f (a) ≤ f 0 (x)dx. Como f 0 é in-
a a
Z b
tegrável em [a, b], segue que f 0 (x)dx = f (b) − f (a).
a

Proposição 8.17 (Integração por Substituição) Sejam


f : [a, b] → R contı́nua e v : [c, d] → [a, b] com derivada
contı́nua. Suponhamos que v(c) = a e v(d) = b. Então
Z b Z d
f (y)dy = f (v(x))v0 (x)dx.
a c
Z y
Prova: Seja F : [a, b] → R definida por F(y) = f (t)dt.
a
Z b
Temos que F (y) = f (y), F(a) = 0 e F(b) =
0
f (y)dy. Mas,
a
pela Regra da Cadeia, obtemos

[F(v(x))]0 = F 0 (v(x))v0 (x) = f (v(x))v0 (x).

Agora, pelo Teorema Fundamental do Cálculo, temos


Z d d
f (v(x))v (x)dx = F(v(x)) = F(v(d)) − F(v(c)) =
0
c c
Z b
F(b) − F(a) = f (y)dy.
a

Proposição 8.18 (Integração por Partes) Consideremos u :


[a, b] → R e v : [a, b] → R funções deriváveis com derivadas
u0 e v0 integráveis em [a, b]. Então
Z b b Z b
u(x)v (x)dx = u(x)v(x) −
0
v(x)u0 (x)dx.
a a a
216 CAPÍTULO 8. FUNÇÕES INTEGRÁVEIS

Prova: Sabemos, da regra de derivação de um produto, que


(uv)0 = uv0 + u0 v. Portanto (uv)0 é integrável em [a, b]. Pela
Proposição 8.16 temos
Z b b
[u(x)v(x)]0 dx = u(x)v(x) ,
a a

donde segue o resultado.


Dada f : [a, b] → R limitada e integrável, sejam

m = inf{ f (x); x ∈ [a, b]} e M = sup{ f (x); x ∈ [a, b]}.

Sabemos, da Proposição 8.1, que


Z b
1
m≤ f (x)dx ≤ M.
b−a a
Z b
1
A quantidade f (x)dx pode ser interpretada como a
b−a a
média de f em [a, b].

Teorema 8.3 (Primeiro Teorema da Média) Consideremos f :


[a, b] → R contı́nua. Então existe c ∈ (a, b) tal que
Z b
f (x)dx = f (c)(b − a).
a
Z x
Prova: Seja F(x) = f (t)dt. Sabemos que F é contı́nua em
a
[a, b] e diferenciável em (a, b). Pelo Teorema do Valor Médio
de Lagrange (Teorema 7.3) temos que existe c ∈ (a, b) tal que
F(b) − F(a) = F 0 (c)(b − a). Ou seja,
Z b
f (x)dx = F 0 (c)(b − a) = f (c)(b − a),
a
8.3. A INTEGRAL DE RIEMANN 217

como querı́amos.
Quando f é uma função não negativa, o Primeiro Teorema
da Média admite uma interpretação geométrica simples. Com
efeito, desde que a integral de f corresponde à área da região
do plano compreendida entre o eixo das abcissas, as retas
x = a e x = b e o gráfico de f, o resultado afirma, em primeiro
lugar, que esta área é um número compreendido entre a área
do retângulo de base b − a e altura m e a do retângulo de
mesma base e altura M, e, em segundo lugar, que quando f
é contı́nua esta área é igual a área de um retângulo de base
b − a e altura f (c), para algum c ∈ [a, b].
Quando f e g são funções integráveis em [a, b] com f
Rb
contı́nua, g ≥ 0 e a g(x)dx > 0, o número real
Rb
f (x)g(x)dx
µ= a
Rb (8.16)
a
g(x)dx
é chamado de média ponderada de f em [a, b] com respeito à
função peso g. Podemos agora generelizar o Teorema 8.3 do
seguinte modo:

Teorema 8.4 Sejam f e g são funções integráveis em [a, b].


Rb
Suponhamos f contı́nua, g não negativa e a g(x)dx > 0. Então
existe ξ ∈ [a, b] tal que µ = f (ξ), onde µ é o número real
definido por (8.16).

Prova: Sendo f e g integráveis em [a, b] então f g também é


integrável em [a, b]. Sendo f contı́nua no intervalo fechado e
limitado [a, b], existem m e M tais que
m ≤ f (x) ≤ M
para todo x ∈ [a, b]. Como g(x) ≥ 0 em [a, b] então
mg(x) ≤ f (x)g(x) ≤ Mg(x),
218 CAPÍTULO 8. FUNÇÕES INTEGRÁVEIS

para todo x ∈ [a, b]. Logo


Z b Z b Z b
m g(x)dx ≤ f (x)g(x)dx ≤ M g(x)dx,
a a a
Rb
donde, dividindo-se por a
g(x)dx > 0, obtemos

m ≤ µ ≤ M.

Pelo Teorema do Valor Intermediário (Teorema 6.3) temos que


existe ξ ∈ [a, b] tal que µ = f (ξ).
O resultado obtido no Teorema 8.4 informa que existe ξ em
[a, b] tal que
Z b Z b
f (x)g(x)dx = f (ξ) g(x)dx,
a a

o que generaliza o Teorema 8.3 tomando-se g(x) = 1 em [a, b].

Teorema 8.5 (Segundo Teorema da Média) Suponhamos que


f é monótona, f 0 é integrável e g é contı́nua em [a, b]. Então
existe ξ ∈ [a, b] tal que
Z b Z ξ Z b
f (x)g(x)dx = f (a) g(x)dx + f (b) g(x)dx.
a a ξ
Z x
Prova: Seja G(x) = g(t)dt. Sabemos que G0 (x) = g(x) e,
a
portanto, Z b Z b
f (x)g(x)dx = f (x)G0 (x)dx. (8.17)
a a
Usando integração por partes na última integral em (8.17) obte-
mos
Z b b Z b
f (x)g(x)dx = f (x)G(x) − G(x) f 0 (x)dx. (8.18)
a a a
8.3. A INTEGRAL DE RIEMANN 219

Podemos agora usar o Teorema 8.4 e garantir a existência de


ξ ∈ [a, b] tal que
Z b Z b
G(x) f (x)dx = G(ξ)
0
f 0 (x)dx
a a

e do Teorema Fundamental da Cálculo segue que


Z b
G(x) f 0 (x)dx = G(ξ)( f (b) − f (a)). (8.19)
a

Substituindo (8.19) em (8.18) temos


Z b
f (x)g(x)dx = f (a)G(ξ) + f (b)(G(b) − G(ξ))
a

isto é
Z b Z ξ Z b
f (x)g(x)dx = f (a) g(x)dx + f (b) g(x)dx,
a a ξ

como querı́amos.
220 CAPÍTULO 8. FUNÇÕES INTEGRÁVEIS

8.4 Exercı́cios do Capı́tulo 8


8.1- Prove que

1
12 + 22 + 32 + · · · + n2 = n(n + 1)(2n + 1), ∀n ∈ N.
6
Use agora a partição

1 2 n−1
P = {0 < < < ··· < < 1}
n n n
do intervalo [0, 1] para mostrar que f (x) = x2 é in-
tegrável em [0, 1] e
Z 1
1
x2 dx = .
0 3

8.2- Prove que


#3 "
1
1 + 2 + 3 + · · · + n = n(n + 1) ,
3 3 3 3
∀n ∈ N.
2

Usando a partição do exercı́cio anterior prove que f (x) =


x3 é integrável em [0, 1] e
Z 1
1
x3 dx = .
0 4

8.3- Seja f : [0, 1] −→ R tal que


(
0, se x ∈ R − Q
f (x) =
x, se x ∈ Q

Mostre que f não é integrável em [0, 1].


8.4. EXERCÍCIOS DO CAPÍTULO 8 221

8.4- Seja f : [a, b] −→ R contı́nua e tal que f (x) ≥ 0 para


todo x ∈ [a, b]. Prove que se
Z b
f (x)dx = 0
a

então f (x) = 0 ∀x ∈ [a, b].

8.5- Dê um exemplo de uma função f : [0, 1] −→ R limitada


que não é integrável em [0, 1], mas | f | é aı́ integrável.

8.6- Seja f integrável em [a, b] e tal que 0 ≤ m ≤ f (x) ≤ M,


para todo x ∈ [a, b]. Mostre que

" Z b # 21
1
m≤ f 2 (x)dx ≤M
b−a a

8.7- Seja f : [a, b] −→ R contı́nua e suponha que f (x) ≥ 0


para todo x ∈ [a, b]. Mostre que existe c ∈ [a, b] tal que

" Z b # 21
1
f (c) = f 2 (x)dx
b−a a

8.8- Sejam f, g : [a, b] −→ R funções integráveis. Mostre que


as funções ϕ(x) = max f (x), g(x) e ψ(x) = min f (x), g(x)
   
são também integráveis em [a, b].

8.9- Seja f : [a, b] −→ R uma função contı́nua e defina:


Z b
ϕ(x) = f (t)dt
x

Calcule ϕ0 (x).
222 CAPÍTULO 8. FUNÇÕES INTEGRÁVEIS

8.10- Sejam I = [a, b], J = [c, d], e f : I −→ R uma


função contı́nua, e v : J −→ R uma função diferenciável.
Suponha que v(J) ⊂ I e mostre que a função G : J −→ R
definida por Z v(x)
G(x) = f (t)dt
a
é diferenciável com G0 (x) = f (v(x)v0 (x).

8.11- Calcule F 0 (x), sendo:


Z x2
a) F(x) = sen(t2 )dt,
0
Z senx
b) F(x) = cos(t)dt.
0

8.12- Sejam f : [a, b] −→ R uma função contı́nua e I um inter-


valo de R. Se α, β : I −→ [a, b] são funções deriváveis,
defina ϕ : I −→ R pondo
Z β(x)
ϕ(x) = f (t)dt, ∀ x ∈ I.
α(x)

Prove que ϕ é derivável em I e


ϕ0 (x) = f (β(x))β0 (x) − f (α(x))α0 (x), ∀ x∈I

8.13- Use o exercı́cio anterior para calcular F 0 (x) se F é dada


por Z 2x √
F(x) = 1 + t2 dt.
x2

8.14- Uma função f : R −→ R é dita periódica de perı́odo


T > 0 se f (x + T ) = f (x), para todo x ∈ R. Mostre que
se f é integrável e periódica de perı́odo T então:
Z b+T Z b
f (t)dt = f (t)dt, ∀ a, b ∈ R.
a+T a
8.4. EXERCÍCIOS DO CAPÍTULO 8 223
Z b
8.15- Mostre que, se f é limitada em [a, b] e f (x)dx existe
Z b a+ε

para todo 0 < ε < b − a então: f (x)dx existe.


a

8.16- Mostre que se f : [a, b] −→ R é limitada com um


número finito de descontinuidades, então f é integrável
em [a, b].

8.17- Seja f : [a, b] −→ R limitada tal que f (x) = 0, exceto


nos pontos c1 , c2 , · · · , cn de [a, b]. Mostre que
Z b
f (x)dx = 0.
a
Z b
8.18- Prove que se f : [a, b] −→ R é contı́nua e f (x)g(x)dx =
a
0 para toda função contı́nua g : [a, b] −→ R então
f (x) = 0 , ∀ x ∈ [a, b].
8.19- Prove que se f, g : [a, b] −→ R são contı́nuas então:
"Z b #2 Z b Z b
2
f (x)g(x)dx ≤ f (x) dx g(x)2 dx
a a a

8.20- Seja f : [a, b] −→ R contı́nua e não negativa. Mostre


que, se M = max f (x), então
[a, b]

Z b ! n1
lim n
f (x)dx = M.
n→∞ a

8.21- Considere o polinômio P(x) = a0 + a1 x + a2 x2 · · · + an xn


cujos coeficientes satisfazem à relação
n
X
a2i = 1
i=1
224 CAPÍTULO 8. FUNÇÕES INTEGRÁVEIS

Prove que:
1
π
Z
|P(x)|dx ≤ .
0 2

8.22- Um conjunto E ⊂ R tem conteúdo nulo se dado ε > 0


existe uma coleção finita de intervalos abertos (an , bn )
tais que
k
[ k
X
E⊂ (an , bn ) e (bn − an ) < ε.
n=1 n=1

Mostre que todo conjunto finito tem conteúdo nulo.

8.23- Mostre que todo conjunto infinito limitado com um número


finito de pontos de acumulação tem conteúdo nulo.

8.24- Um conjunto E ⊂ R tem medida nula se dado ε > 0 ex-


iste uma coleção enumerável de intervalos abertos (an , bn )
tais que

[ ∞
X
E⊂ (an , bn ) e (bn − an ) < ε.
n=1 n=1

Mostre que todo conjunto que tem conteúdo nulo tem


medida nula. A recı́proca é verdadeira? Justifique.

8.25- Mostre que todo conjunto enumerável tem medida nula.

8.26- Mostre que se f é limitada em [a, b] e o conjunto E


dos pontos de descontinuidade de f tem conteúdo nulo
então f é integrável em [a, b].

8.27- Seja f : [a, b] → R limitada e seja E o conjunto dos


pontos de descontinuidade de f. Mostre que se E tem
medida nula então f é integrável em [a, b].
8.4. EXERCÍCIOS DO CAPÍTULO 8 225

8.28- Seja f : [a, b] → R definida por f (x) = 0 se x é irracional


1 p
e f (x) = se x = , onde p e q são inteiros primos entre
q q
si e q > 0. Defina f (0) = 1 se 0 ∈ [a, b]. Prove que f é
Z b
integrável em [a, b] e f (x)dx = 0.
a

8.29- Mostre que se K é compacto e tem medida nula então


K tem conteúdo nulo.

8.30- Suponha que f e g satisfazeem as seguintes condições:

i) g0 existe e é integrável em [a, b]


ii) f é contı́nua em [c, d],

onde c e d são respectivamente o ı́nfimo e o supremo de


g em [a, b]. Mostre que se g(a) = α e g(b) = β então
Z β Z b
f (y)dy = f (g(x))g0 (x)dx.
α a

8.31- Sejam f, g : [a, +∞) → R tais que


Z x
i) f (z)dz existe e é limitada para todo x ≥ a,
a
ii) g é monótona em [a, +∞) e lim g(x) = 0.
x→∞
Z +∞
Prove que f (x)g(x)dx existe.
a

8.32- Sejam f, g : [a, +∞)Z→ R tais que f é monótona e


+∞
limitada em [a, +∞) e g(x)dx existe. Prove que
a
Z +∞
f (x)g(x)dx existe.
a
226 CAPÍTULO 8. FUNÇÕES INTEGRÁVEIS
Capı́tulo 9

Seqüências e Séries de
Funções

9.1 Introdução
Tratamos neste capı́tulo de seqüências ( fn ) cujos termos
são funções reais definidas em um mesmo subconjunto S ⊂ R.
Para cada x ∈ S podemos considerar a seqüência numérica
( fn (x)), à qual podem ser aplicados os conceitos de limitação,
monotonicidade, convergência, etc, conforme estudados no
Capı́tulo 2. Nesse Capı́tulo avaliaremos até que ponto tais
propriedades se estendem para seqüências de funções e es-
tudaremos outras propriedades mais especı́ficas.
Dentre as várias justificativas para a importância de se es-
tudar seqüências e séries de funções destacamos a seguinte:
no tratamento de determinados problemas de equações fun-
cionais, isto é, equações onde a incógnita é uma função, uma
técnica utilizada consiste em pesquisar soluções aproximadas
do problema original sob condições mais regulares e, por pas-
sagem ao limite da seqüência de funções resultante do processo
de aproximação, determinar a solução exata do problema.

227
228 CAPÍTULO 9. SEQÜÊNCIAS E SÉRIES DE FUNÇÕES

Para seqüências de funções, diferentemente das seqüências


numéricas estudadas no Capı́tulo 2, há diversos conceitos de
limite. Estudaremos aqui os dois principais deles, o limite pon-
tual e o limite uniforme, e dirigiremos nosso interesse em re-
sponder à seguinte questão: se cada uma das funções da
seqüência ( fn ) possui uma propriedade comum a todas elas,
tal como continuidade, diferenciabilidade ou integrabilidade,
sob que condições essa propriedade continua válida para a
função limite da seqüência?

9.2 Seqüências de Funções


Seja S um subconjunto de R. Uma seqüência de funções é
uma função que a cada n ∈ N associa uma função fn definida
em S e tomando valores em R. Usamos a notação( fn (x))n∈N , x ∈
S , ou simplesmente ( fn ), quando está suficientemente es-
clarecido no contexto qual seja o domı́nio S , para denotar uma
seqüência de funções.

Exemplo 9.1 Alguns exemplos de seqüências de funções são:


!
1
1. , x ∈ (0, +∞).
nx n∈N

 x
2. , x ∈ R.
n n∈N

3. (xn )n∈N , x ∈ [0, 1].


!
sen(nx)
4. √ , x ∈ (0, +∞).
x n∈N
9.3. A CONVERGÊNCIA PONTUAL 229

9.3 A Convergência Pontual


Definição 9.1 Dizemos que uma seqüência de funções ( fn )n∈N ,
fn : S → R, converge pontualmente (ou converge simples-
mente) para uma função f de S em R quando, para cada x ∈ S ,
a seqüência numérica ( fn (x))n∈N é convergente para f (x), isto
é, dado ε > 0, existe N(ε, x) ∈ N tal que

n > N(ε, x) ⇒ | fn (x) − f (x)| < ε.

Na Definição 9.1 escrevemos N(ε, x) para enfatizar que o


número natural N pode depender tanto do ε > dado como do
x ∈ S em questão. No entanto, na prática, na maioria das
situações escreveremos apenas N para não sobrecarregar a
notação.
1
Exemplo 9.2 A seqüência ( fn ) dada por fn (x) = , x em
nx
(0, +∞), é pontualmente convergente para f : (0, +∞) → R
tal que f (x) = 0 para todo x ∈ (0, +∞). De fato, dado ε > 0, se
1
x > 0 é fixado, consideremos N(ε, x) = e teremos que para
εx
n > N(ε, x), isto é nx > ε , 1


1 − 0 = 1 < ε.
nx nx
x
Exemplo 9.3 A seqüência ( fn ) dada por fn (x) = , x ∈ R, é
n
pontualmente convergente para a função f : R → R tal que
f (x) = 0 para todo x ∈ R. De fato, dado ε > 0, se x ∈ R é
|x|
fixado, tomemos N(ε, x) = e teremos que para n > N(ε, x),
ε
|x|
isto é n > ,
ε
x − 0 = x = |x| < ε.
n n n
230 CAPÍTULO 9. SEQÜÊNCIAS E SÉRIES DE FUNÇÕES

Passaremos agora, nos próximos exemplos, a analizar que


tipo de resposta a convergência pontual fornece para a questão
levantada na introdução deste capı́tulo.

Exemplo 9.4 Consideremos a seqüência ( fn ) onde fn (x) = xn ,


x ∈ [0, 1]. Observemos que todas as funções são contı́nuas
em [0, 1]. Observemos ainda que, se 0 ≤ x < 1 então a
seqüência numérica (xn ) é tal que lim xn = 0 e se x = 1
n→∞
a seqüência numérica (xn ) é tal que lim xn = lim 1n = 1.
n→∞ n→∞
De maneira que a seqüência ( fn ) é pontualmente convergente
para a função descontı́nua f : [0, 1] → R dada por

0, se 0 ≤ x < 1,
(
f (x) =
1, se x = 1.

sen(nx)
Exemplo 9.5 Seja a seqüência ( fn ) onde fn (x) = √ ,x∈
n
sen(nx) 1
R. Temos que √ ≤ √ , para todo x ∈ R. Portanto
n n
lim fn (x) = 0 para cada x ∈ R. Isto é, ( fn ) é pontualmente
n→∞
convergente para a função identicamente nula em R. Temos
ainda que todas as fn são deriváveis em R e! a derivada de
0
sen(nx) √
cada uma delas é dada por fn (x) =
0
√ = n cos(nx),
n
formando uma seqüência que não tem limite em ponto algum
de R.

Exemplo 9.6 Consideremos a seqüência de funções ( fn ), to-


das definidas em [0, 1] da seguinte forma

(n + 1)xn , se 0 ≤ x < 1,
(
fn (x) =
0, se x = 1.
9.3. A CONVERGÊNCIA PONTUAL 231


X
Aplicando o teste da razão à série (n+1)xn concluimos pela
n=1
convergência da mesma para todo 0 ≤ x < 1, portanto, o seu
termo geral (n + 1)xn tem limite zero. Assim a seqüência ( fn )
converge pontualmente para a função f identicamente nula
em [0, 1]. Observe agora que todas as funções fn são in-
R1 R1
tegráveis em [0, 1] e 0 fn (x)dx = 1. No entanto 0 f (x)dx =
R1
0
0dx = 0.

A análise que fazemos dos últimos três exemplos é a seguinte.


No Exemplo 9.4 temos uma seqüência de funções contı́nuas
que converge pontualmente para uma função descontı́nua, isto
é, a convergência pontual não é suficientemente forte para
“transferir” para a função limite f a propriedade de continuidade
gozada por todas as fn . No Exemplo 9.5 temos uma seqüência
de funções deriváveis ( fn ) que converge pontualmente para
uma função f (que inclusive é derivável em toda a reta) e,
no entanto, a seqüência ( fn0 ) formada pelas derivadas de fn
diverge em todos os pontos de R, ou seja, a seqüência das
derivadas de fn não converge para a derivada de f uma vez
que nem sequer converge. Finalmente, no Exemplo 9.6 temos
uma seqüência de funções ( fn ), todas integráveis, que con-
verge pontualmente para uma função f que também é integrável,
mas as integrais das fn formam uma seqüência numérica que
converge para um valor diferente da integral do limite.
Voltando a analizar o Exemplo 9.4 podemos observar que
o que ocorreu foi o seguinte: Cada função fn é contı́nua à es-
querda no ponto x0 = 1 e, portanto, lim− fn (x) = fn (1). Além
x→1
disso, como ( fn ) converge pontualmente em x0 = 1 então
lim fn (1) = f (1) = 1. Ocorre que f não é contı́nua à es-
n→∞
querda em x0 = 1 pois lim− f (x) = 0 e f (1) = 1. Mas ( fn (x))
x→1
converge para f (x) em todos os pontos de [0, 1], ou seja,
232 CAPÍTULO 9. SEQÜÊNCIAS E SÉRIES DE FUNÇÕES

lim fn (x) = f (x). Assim, temos, por um lado, que


n→∞

lim ( lim fn (x)) = 0


x→1− n→∞

e, por outro lado,


lim ( lim fn (x)) = 1.
n→∞ x→1−
Em outras palavras, a convergência pontual não foi suficiente-
mente forte para permitir, neste caso, a intercambialidade dos
limites.
Nos Exemplos 9.5 e 9.6, uma vez que tanto a operação
de derivação como a de integração são definidas através de
limites, procedendo-se como acima, fazendo-se as devidas
adptações, obeserva-se que também não é válida a intercam-
bialidade dos limites. Esse é, digamos, o principal “defeito” do
limite pontual. Na próxima seção apresentaremos um outro
conceito de limite de seqüência de funções que é bem mais
“comportado” com relação às propriedades de continuidade,
diferenciabilidade e integrabilidade dos termos da seqüência e
de seu limite.

9.4 A Convergência Uniforme


Na Definição 9.1 de convergência pontual o número nat-
ural N, inerente à definição, pode depender do ε > 0 dado e
do particular ponto x considerado. Quando ocorre de o N de-
pender somente do ε e for independente do particular ponto
x, diremos qua a convergência é uniforme. Mais precisamente
temos a seguinte definição:
Definição 9.2 Diz-se que uma seqüência de funções ( fn )n∈N ,
fn : S → R converge uniformemente para f : S → R quando
para cada ε > 0 existe N(ε) ∈ N tal que
n > N(ε) ⇒ | fn (x) − f (x)| < ε, ∀ x ∈ S .
9.4. A CONVERGÊNCIA UNIFORME 233

Observemos, da definição acima, que


sup | fn (x) − f (x)| ≤ ε se n > N(ε),
x∈S

portanto
sup | fn (x) − f (x)| −→ 0 quando n −→ ∞.
x∈S

É evidente que se ( fn ) converge uniformente para f então


também converge pontualmente, ou seja, a convergência uni-
forme implica na convergência pontual. A recı́proca, no en-
tanto, não vale, conforme comprovamos com os exemplos a
seguir.
Exemplo 9.7 Nos Exemplos 9.2 e 9.3 obtivemos, respectiva-
1 |x|
mente, N(ε, x) = e N(ε, x) = , os quais dependem
εx ε
explicitamente do particular ponto x. Vemos, assim, que em
cada daqueles casos a convergência não é uniforme.
Exemplo 9.8 A seqüência do Exemplo 9.4 converge pontual-
mente, no intervalo [0, 1), para a função identicamente nula,
mas a convergência não é uniforme (veja Exercı́cio 9.5). En-
tretanto se 0 < α < 1 então a convergência é uniformeme em
S = [0, α] pois
sup |xn − 0| = αn −→ 0 quando n −→ ∞.
x∈S

Um critério importante para a convergência uniforme é o


critério de Cauchy estabelecido no Teorema 9.1 a seguir. Porém,
antes de demonstrar o teorema necessitamos da seguinte definição.
Definição 9.3 Dizemos que uma seqüência ( fn ) de funções
de S é uma seqüência de Cauchy quando, para cada ε > 0
existe N ∈ N tal que
m, n > N ⇒ | fn (x) − fm (x)| < ε, ∀x ∈ S .
234 CAPÍTULO 9. SEQÜÊNCIAS E SÉRIES DE FUNÇÕES

Proposição 9.1 Uma seqüência ( fn ) de funções de S con-


verge uniformemente se, e somente se, é uma seqüência de
Cauchy.

Prova: Suponhamos que ( fn ) converge uniformemente para


f : S → R. Então, dado ε > 0 existe N ∈ N tal que
ε
n > N ⇒ | fn (x) − f (x)| < , ∀x ∈ S .
2
Logo, se m, n > N temos
ε ε
| fm (x) − fn (x)| ≤ | fm (x) − f (x)| + | fn (x) − f (x)| < + = ε,
2 2
para todo x ∈ S . Ou seja ( fn ) é uma seqüência de Cauchy.
Reciprocamente, suponhamos que ( fn ) é uma seqüência de
Cauchy. Então, para cada x ∈ S , a seqüência numérica ( fn (x))
é uma seqüência de Cauchy e, sendo R completo, tal seqüência
converge para um número real lim fn (x) (univocamente deter-
n→∞
minado, tendo em vista a unicidade do limite em R). Fica,
assim, bem definida uma função f : S → R tal que f (x) =
lim fn (x). Seja agora ε > 0 dado e tomemos ε0 > 0 com ε0 < ε.
n→∞
Temos que existe N ∈ N tal que, para todo x ∈ S ,

n > N ⇒ | fn (x) − fn+m (x)| < ε0 , ∀ m ∈ N.

Logo, fixando n > N, temos que

lim | fn (x) − fn+m (x)| = | fn (x) − f (x)| ≤ ε0 < ε.


m→∞

Ou seja, se n > N, então | fn (x) − f (x)| < ε para todo x ∈ S , o


que demonstra a convergência uniforme de ( fn ) para a função
f.
9.4. A CONVERGÊNCIA UNIFORME 235

9.4.1 Propriedades da Convergência Uniforme


Veremos nessa seção como a convergência uniforme “se
comporta” relativamente às propriedades de continuidade, difer-
enciabilidade e integrabilidade dos termos da seqüência.

Teorema 9.1 Seja ( fn ) uma seqüência de funções de S em R


que converge uniformemente para uma função f : S → R e
suponhamos que todas as funções fn são contı́nuas em um
ponto x0 ∈ S . Então f é contı́nua em x0 .

Prova: Temos que dado ε > 0 existe N ∈ N tal que


ε
n > N ⇒ | fn (x) − f (x)| < , ∀ x ∈ S .
3
Fixemos um natural n0 > N. Como fn0 é contı́nua em x0 , existe
δ > 0 tal que
ε
x ∈ S e |x − x0 | < δ ⇒ | fn0 (x) − fn0 (x0 )| < .
3
Logo,

| f (x) − f (x0 )| = | f (x) − fn0 (x)| + | fn0 (x) − fn0 (x0 )| +


ε
| fn0 (x0 ) − f (x0 )| < 3 = ε,
3
se |x − x0 | < δ, o que demonstra a continuidade de f em x0 .

Teorema 9.2 Seja ( fn ) uma seqüência de funções de [a, b]


em R que converge uniformemente para uma função f : [a, b] →
R e suponhamos que todas as funções fn são integráveis.
Então

i) f é integrável em [a, b] e
236 CAPÍTULO 9. SEQÜÊNCIAS E SÉRIES DE FUNÇÕES
Z b
ii) lim f (x)dx = lim fn (x)dx.
n→∞ a n→∞

Prova: Para a prova de i) consideremos ε > 0 e seja N ∈ N tal


que
n ≥ N ⇒ | fn (x) − f (x)| < ε, ∀ x ∈ [a, b]. (9.1)
Seja agora P uma partição de [a, b]. De (9.1) temos, para todo
x ∈ [a, b],
fN (x) − ε < f (x) < fN (x) + ε,
então
s( fN , P) − ε(b − a) ≤ s( f, P) ≤ S ( f, P) ≤ S ( fN , P) + ε(b − a).
Logo
S ( f, P) − s( f, P) ≤ S ( fN , P) − s( fN , P) + 2ε(b − a).
Mas, desde que fN é integrável em [a, b], existe uma partição
P0 de [a, b], tal que
S ( fN , P0 ) − s( fN , P0 ) < ε.
Para a partição P0 temos
S ( f, P0 ) − s( f, P0 ) < ε[1 + 2(b − a)].
Donde segue que f é integrável em [a, b]. Para a prova de ii)
observemos que, para todo n ≥ N
Z b Z b Z b
| fn (x) − f (x)| dx < ε(b − a).

fn (x)dx − f (x)dx ≤
a a a

Portanto, Z b Z b
lim fn (x)dx = f (x)dx.
n→∞ a a

No teorema anterior se cada fn for contı́nua em [a, b] então,


pelo Teorema 9.1, f é contı́nua e, portanto, integrável em [a, b].
9.4. A CONVERGÊNCIA UNIFORME 237

Teorema 9.3 Seja ( fn ) uma seqüência de funções de classe


C 1 em [a, b]. Se para algum c ∈ [a, b] a seqüência numérica
fn (c) converge e, além disso, a seqüência das derivadas ( fn0 )
converge uniformemente em [a, b] para uma função g, então
( fn ) converge uniformemente para uma função de classe C 1 f
tal que f 0 = g.

Prova: Pelo Teorema Fundamental do Cálculo, para cada n ∈


N e para cada x ∈ [a, b], temos
Z x
fn (x) = fn (c) + fn0 (t)dt. (9.2)
c

Passando ao limite, quando n → ∞, em (9.2) e usando o Teo-


rema 9.2, segue que existe f (x) = lim fn (x) e vale a igualdade
n→∞
Z x
f (x) = f (c) + g(t)dt. (9.3)
c

Além disso, pelo Teorema 9.1, g é contı́nua em [a, b], logo, no-
vamente pelo Teorema Fundamental do Cálculo, f é derivável
e f 0 (x) = g(x). Segue que f é de classe C 1 . Agora, de (9.2) e
(9.3), temos
Z x
| fn (x) − f (x)| ≤ | fn (c) − f (c)| + | fn0 (t) − g(t)|dt. (9.4)
c

Por outro lado, sabemos que para todo ε > 0 existe N ∈ N tal
que, para n > N

| fn (c) − f (c)| < ε e | fn0 (t) − g(t)| < ε ∀ t ∈ [a, b]. (9.5)
Usando (9.5) em (9.4) resulta que

n > N ⇒ | fn (x) − f (x)| < ε[1 + (b − a)], ∀ x ∈ [a, b].


Ou seja, ( fn ) converge para f uniformemente em [a, b].
238 CAPÍTULO 9. SEQÜÊNCIAS E SÉRIES DE FUNÇÕES

9.5 Séries de Funções


Dada uma seqüência de funções ( fn ), fn : S → R, podemos
considerar formalmente a série

X
fn = f1 + f2 + · · · + fn + · · · (9.6)
n=1


X
O subconjunto dos pontos x de S tais que a série fn (x)
n=1
converge é chamado de domı́nio de convergência de (9.6).


X
Exemplo 9.9 A série xn tem como domı́nio de convergência
n=1
o conjunto S = {x ∈ R; |x| < 1}.

X 1
Exemplo 9.10 A série possui como domı́nio de con-
n=1
nx
vergência o conjunto S = (1, +∞).


X (x − 1)n
Exemplo 9.11 A série converge pontualmente no
n=1
n2n
intervalo −1 ≤ x < 3. De fato, usando o teste da razão podemos
comprovar que a dada série converge absolutamente no in-
tervalo −1 < x < 3 e diverge se x < −1 ou x > 3. Para
∞ ∞
X (−2)n X (−1)n
x = −1 obtemos a série = , a qual con-
n=1
n2n n=1
n
verge, pelo critério de Leibniz, e para x = 3 obtemos a série
∞ ∞
X 2n X 1
n
= , a série harmônica, a qual é divergente. As-
n=1
n2 n=1
n
sim, a série de funções dada converge pontualmente no inter-
valo −1 ≤ x < 3.
9.5. SÉRIES DE FUNÇÕES 239

Dada uma série de funções com domı́nio de convergência



X
S , podemos definir a função φ : S → R por φ(x) = fn (x).
n=1

X
A série fn (x) converge pontualmente (ou uniformemente)
n=1
conforme a seqüência das somas parciais (Φn ) dadas por

Φn (x) = f1 (x) + f2 (x) + · · · + fn (x)

seja convergente pontualmente (ou uniformente) em S .


Como conseqüências dos Teoremas 9.1, 9.2 e 9.3 temos
as seguintes propriedades para séries de funções:

X
• Se a série fn (x) converge uniformemente para f em
n=1
S e cada fn é contı́nua em c ∈ S segue do Teorema 9.1
que f é contı́nua em c.

X
• Se a série fn (x) converge uniformemente para f em
n=1
[a, b] e cada fn é integrável em [a, b] segue do Teo-
rema 9.2 que f é integrável em [a, b] e vale a igualdade

Z bX ∞ Z
X b
fn (x)dx = fn (x)dx.
a n=1 n=1 a


X
• Se a série fn (x) convergente em um ponto c ∈ S ,
n=1

X
cada fn0 é contı́nua em S e fn0 (x) converge uniforme-
n=1

X
mente em S então, pelo Teorema 9.3, fn (x) converge
n=1
240 CAPÍTULO 9. SEQÜÊNCIAS E SÉRIES DE FUNÇÕES

uniformemente em S e vale a igualdade


∞ 0 ∞
X  X
 fn (x) =
 fn0 (x), ∀ x ∈ S .
n=1 n=1

9.5.1 Critérios de Convergência para Séries de Funções


Apresentamos a seguir alguns critérios de convergência
para séries de funções.

X
Teorema 9.4 (Critério de Weierstrass) Seja fn (x) uma série
n=1

X
de funções em S tais que | fn (x)| ≤ bn e bn é convergente.
n=1

X
Então fn (x) converge uniformemente (e absolutamente) em
n=1
S.

Prova: Seja (Φn ) a seqüência das somas parciais da série



X ∞
X
fn (x). Desde que a série bn é convergente, dado ε > 0
n=1 n=1
existe N ∈ N tal que

m > n > N ⇒ bn+1 + bn+2 · · · + bn+m < ε.

Portanto, para m > n > N temos

sup |Φm (x) − Φn (x)| ≤ bn+1 + bn+2 · · · + bn+m < ε


x∈S


X
e pelo Teorema 9.1 temos que fn (x) converge uniforme-
n=1
mente em S .
9.5. SÉRIES DE FUNÇÕES 241


X cos(nx)
Exemplo 9.12 A série converge uniformemente em
n=1
n2

cos(nx) 1 X 1
R uma vez que ≤ e é uma série numérica
n2 n2 n=1 n2
de termos não negativos que é convergente e, portanto, podemos
aplicar o Critério de Weierstrass para concluir a convergência
uniforme da série dada.

Definição 9.4 Dizemos que uma seqüência de funções


fn : S → R converge monotonicamente f : S → R quando
para todo x de S a seqüência ( fn (x)) é monótona e converge
para f (x).

Os próximos dois teoremas são critérios úteis para deduzir


a convergência uniformee de séries de funções.

Teorema 9.5 (Critério de Dirichlet) 1 Sejam (an ) e (bn ) duas


seqüências de funções de S ⊂ R em R satisfazendo às seguintes
propriedades:
k
X
i) a seqüência Φk (x) = ak (x) das reduzidas de (an ) é uni-
j=1
formemente limitada em S , isto é, existe H > 0 tal que
|Φk (x)| ≤ H para todo x em S e para todo k em N;

ii) para cada x ∈ S , (bn (x)) é uma seqüência monótona;

iii) lim bn (x) = 0 uniformemente em S .


n→∞


X
Então an (x)bn (x) converge uniformemente em S .
n=1

1
Peter Gustav Lejeune Dirichlet (1805-1859)
242 CAPÍTULO 9. SEQÜÊNCIAS E SÉRIES DE FUNÇÕES

Prova: Por i), para n, k ∈ N e ∀ x ∈ S temos que

|an+1 (x) + · · · + an+k (x)| = |Φn+k (x) − Φn (x)| ≤ 2H.

Sejam

S 1 = {x ∈ S ; (bn (x)) é monótona decrescente} e

S 2 = {x ∈ S ; (bn (x)) é monótona crescente}.

Temos que S = S 1 ∪ S 2 . Pelo Lema 3.2, para n, p ∈ N, temos

|an+1 (x)bn+1 (x) + · · · + an+k (x)bn+k (x)| ≤ 2Hbn+1 (x),

para todo x ∈ S 1 . Desde que lim bn (x) = 0 uniformemente em


n→∞

X
S 1 , segue do Teorema 9.1 que a série an (x)bn (x) converge
n=1
uniformemente em S 1 . Semelhantemente, a série converge
uniformemente em S 2 . Portanto, converge uniformemente em
S.

Teorema 9.6 (Critério de Abel) Sejam (an ) e (bn ) duas seqüên-


cias de funções de S ⊂ R em R satisfazendo às seguintes
propriedades:

X
i) a série an (x) é uniformemente convergente em S ;
n=1

ii) para cada x ∈ S , (bn (x)) é uma seqüência monótona;

iii) (bn (x)) é uniformemente limitada em S .



X
Então an (x)bn (x) converge uniformemente em S .
n=1
9.5. SÉRIES DE FUNÇÕES 243

Prova: Seja M > 0 tal que |bn (x)| ≤ M para todo x em S e


para todo n em N. Considere S 1 e S 2 como na demonstração
do Teorema 9.5. Podemos admitir que bn (x) ≥ 0 (para tanto
é sufuciente considerar bn (x) + M ). Por i), dado ε > 0 existe
N ∈ N tal que para n > N
|an+1 (x) + · · · + an+k | < ε, ∀ x ∈ S ∀ k ∈ N.
Então, pelo Lema 3.2, temos

|an+1 (x)bn+1 (x) + · · · + an+k (x)bn+k (x)| < εbn+1 ≤ εM


para todo n > N, para todo k ∈ N e para todo x ∈ S 1 . Portanto,

X
pelo Teorema 9.1, a série an (x)bn (x) converge uniformente
n=1
em S 1 . A convergência uniforme em S 2 é obtida semelhante-
mente e, conseqüentemente, a convergência em S .

Teorema 9.7 (Teorema de Dini) 2 Seja ( fn ) uma seqüência de


funções reais definidas em um subconjunto compacto K de R
e pontualmente convergente para uma função f : K → R. Se,
para todo x de K a seqüência numérica ( fn (x)) é monótona e
tanto f como todas as fn são contı́nuas em K, então a con-
vergência é uniforme.

Prova: Consideremos ε > 0 dado arbitrariamente. Para cada


c ∈ K existe nc ∈ N tal que | fn (c) − f (c)| < ε, para todo
n ≥ nc . Como fnc − f é contı́nua existe uma vizinhança aberta
Vc de centro c tal que | fnc (x) − f (x)| < ε para todo x ∈ Vc . Por
hipótese | fnc (x)− f (x)| é decrescente e, portanto, | fnc (x)− f (x)| <
ε para[ todo n ≥ nc e para todo x ∈ Vc . Observemos que
K ⊂ Vc e, sendo K compacto, pelo Teorema de Borel-
c∈K
Lebesgue (Teorema 4.2), existe um número finito de pontos
2
Dini-Ulisse (1845-1918)
244 CAPÍTULO 9. SEQÜÊNCIAS E SÉRIES DE FUNÇÕES

r
[
c1 , c2 , · · · , cr de K tais que K ⊂ Vc j . Assim, se tomamos
j=1
N = max{nc1 , nc2 , · · · , ncr } então | fn (x) − f (x)| < ε para todo
n ≥ N e para todo x ∈ K, o que demonstra a convergência
uniforme de ( fn ) para f.
Apresentamos a seguir um importante resultado que, num
certo sentido, generaliza o Teorema de Bolzano-Weierstrass
(Teorema 4.3) e, como tal, encontra muitas aplicações em
teoremas de existência. Antes, porém, para facilitar a com-
preensão, é útil estabelecer a seguintes definições:

Definição 9.5 Dizemos que uma seqüência ( fn ) de funções


de S ⊂ R é eqüicontı́nua em S quando para cada ε > 0 existe
δ > 0 tal que

x, y ∈ S e |x − y| < δ ⇒ | fn (x) − fn (y)| < ε, ∀ n ∈ N.

Definição 9.6 Dizemos que uma seqüência ( fn ), fn : S → R,


é uniformemente limitada quando existe uma constante real
positiva M tal que | fn (x) ≤ M para todo n ∈ N e para todo
x ∈ S.

Teorema 9.8 (Teorema de Arzelá-Ascoli) 3, 4 Seja ( fn ) uma


seqüência de funções reais contı́nuas e definidas em um inter-
valo [a, b]. Suponhamos que ( fn ) é eqüicontı́nua e uniforme-
mente limitada em [a, b]. Então ( fn ) possui uma subseqüência
uniformemente convergente em [a, b].

Prova: Sendo Q enumerável, seja (rn ) uma enumeração dos


racionais de [a, b]. Consideremos a seqüência numérica ( fn (r1 )).
Temos que | fn (r1 )| ≤ M para todo n ∈ N e, pelo Teorema
3
Cesare Arzelà (1847-1912)
4
Giulio Ascoli (1843-1896)
9.5. SÉRIES DE FUNÇÕES 245

de Bolzano-Weierstrass (Teorema 4.3), ( fn (r1 )) possui uma


subseqüência convergente ( f1n (r1 )). Ou seja, a seqüência de
funções ( f1n ) converge para x = r1 . Consideremos agora a
seqüência numérica ( f1n (r2 )). Temos novamente que | f1n (r2 )| ≤
M e, portanto, podemos extrair uma subseqüência ( f2n ) de
( f1n ) que converge para x = r2 , de modo que ( f2n ) é conver-
gente em x = r1 e em x = r2 . Continuando com este procedi-
mento, obteremos seqüências ( fkn )n∈N , k = 1, 2, 3, · · · com as
seguintes proriedades
i) ( fkn )n∈N é uma subseqüência de ( f jn )n∈N se j < k;
ii) ( fkn )n∈N é convergente em x = r j j = 1, 2, · · · , k.
Consideremos agora a seqüência de funções ( fnn )n∈N . Exceto
para um número finito de termos, tal seqüência é uma sub-
seqüência de ( fkn )n∈N , k = 1, 2, 3, · · · Portanto, ( fnn )n∈N con-
verge em x = r j , j = 1, 2, 3, · · · Em outras palavras, a seqüência
converge nos pontos racionais de [a, b]. Mostremos que ( fnn )n∈N
converge uniformemente em [a, b]. Seja, então, ε > 0 dado.
Usando a hipótese de eqüicontinuidade de ( fn )n∈N e, em par-
ticular, a continuidade (uniforme) de ( fnn )n∈N , existe um número
real δ > 0 tal que
ε
| fnn (x) − fnn (y)| < , (9.7)
3
se |x − y| < δ e para todo n ∈ N. Seja, agora, uma partição P =
{a = x0 < x1 < · · · < x p = b} de [a, b] tal que max{xq − xq−1 , q =
1, 2, · · · p} < δ. Usando a densidade de Q em R podemos supor
que todos os pontos xq , 1 ≤ q < p, são racionais. Claramente,
pela escolha da partição P, para qualquer x ∈ [a, b] existe pelo
menos um ponto xq , 1 ≤ q < p, tal que |x − xq | < δ. Portanto,
para cada x ∈ [a, b], podemos em (9.7) fazer y = xq para um
certo xq e temos
ε
| fnn (x) − fnn (xq )| < , ∀ n ∈ N. (9.8)
3
246 CAPÍTULO 9. SEQÜÊNCIAS E SÉRIES DE FUNÇÕES

Por outro lado, as seqüências ( fnn (xq ))n∈N , 1 ≤ q < p, são


convergentes. De modo que existe N(ε) ∈ N tal que
ε
| fnn (xq ) − fmm (xq )| < , (9.9)
3
se m, n ≥ N(ε) e para todo 1 ≤ q < p. De (9.8) e (9.9) temos
que

| fnn (x) − fmm (x)| ≤ | fnn (x) − fnn (xq )| + | fnn (xq ) − fmm (xq )|+
ε ε ε
| fmm (xq ) − fmm (x)| <
+ + = ε,
3 3 3
∀ x ∈ [a, b] e ∀ m, n ≥ N(ε). Logo, ( fnn )n∈N converge uniforme-
mente em [a, b].
Vamos encerrar essa seção apresentando um teorema im-
portante sobre aproximação de funções contı́nuas por polinômios.
Trata-se do Teorema de Aproximação de Weierstrass a seguir
enunciado e demonstrado.

Teorema 9.9 (Aproximação de Weirstrass) Dada uma função


f : [a, b] → R contı́nua, existe uma seqüência (pn ) de polinômios
em [a, b] tal que lim pn (x) = f (x) uniformemente em [a, b.]
n→∞

Prova: Primeiramente vamos demonstrar o teorema para o


caso em que [a, b] = [0, 1] e f (0) = f (1) = 0. Desde que
[0, 1] é fechado e limitado então f é uniformemente contı́nua
em [0, 1] (Proposição 6.6). Neste caso podemos considerar
a extensão de f a R como sendo nula fora de [0, 1], a qual
continuaremos a denotar por f, que, assim, é uniformemente
contı́nua em R. Para cada n ∈ N seja
Z 1 !−1
cn = 2 n
(1 − x ) dx .
−1
9.5. SÉRIES DE FUNÇÕES 247

Temos que cn > 0 para todo n ∈ N. Consideremos, agora, para


cada n ∈ N o polinômio qn (x) = cn (1 − x2 )n . Obeservemos que,
tendo em vista a escolha de cn ,
Z 1
qn (x)dx = 1, para todo n ∈ N. (9.10)
−1

Observemos também que


Z 1 Z 1 Z √1
n
(1 − x ) dx = 2
2 n
(1 − x ) dx ≥2 n
(1 − x2 )n dx
−1 0 0
Z √1
n 4 1
≥ (1 − nx2 )dx = √ > √ .
0 3 n n

Donde segue que cn < n. Considerando que para cada δ tal
que 0 < δ ≤ 1 temos, para 0 < δ ≤ |x| ≤ 1,

qn ≤ n(1 − δ2 )n (9.11)

X √
e considerando que a série n(1−δ2 )n é convergente (pelo
n=1
Teste da Razão), segue, usando o Critério de Weierstrass (Teo-
rema 9.4), que lim qn (x) = 0 uniformemente. Definamos agora,
n→∞
para cada n ∈ N, a função de [0, 1] em R dada por
Z 1
pn (x) = f (x + t)qn (t)dt. (9.12)
−1

Como f é nula fora de [0, 1] então


Z 1−x
pn (x) = f (x + t)qn (t)dt. (9.13)
−x

Fazendo a mudança de varável s = x + t em (9.13) obtemos


Z 1
pn (x) = f (s)qn (s − x)ds. (9.14)
0
248 CAPÍTULO 9. SEQÜÊNCIAS E SÉRIES DE FUNÇÕES

Desde que qn é um polinômio, segue que pn é um polinômio.


Dado ε > 0, escolhamos δ > 0 tal que |y − x| < δ acarrete
ε
| f (y) − f (x)| <
2
e escolhamos N ∈ N tal que
√ ε
n(1 − δ2 )n < para todo n > N, (9.15)
8M
onde M = sup{| f (x)|; −1 ≤ x ≤ 1}. Usando (9.10), (9.12),
(9.15) e o fato de que qn (x) ≥ 0, vemos que
Z 1
|pn (x) − f (x)| = [ f (x + t) − f (x)]qn (t)dt ≤

−1
Z 1 Z −δ
| f (x + t) − f (x)|qn (t)dt ≤ 2M qn (t)dt + (9.16)
−1 −1
ε δ
Z Z 1
qn (t)dt + 2M qn (t)dt ≤
2 −δ δ
√ ε ε ε
4M n(1 − δ2 )n + < + = ε,
2 2 2
para todo n > N e para todo x ∈ [0, 1]. Se f : [0, 1] → R
é contı́nua e não necessariamente satisfaz à condição f (0) =
f (1) = 0, podemos considerar a função g : [0, 1] → R definida
por g(x) = f (x) − f (0) − x( f (1) − f (0)), que é contı́nua e,
agora, satisfaz à condição g(0) = g(1) = 0. Pelo que já demon-
stramos, g pode ser uniformemente aproximada por polinômios
e, portanto, vale o mesmo para f. Finalmente se f : [a, b] →
R é contı́nua, consideremos g : [0, 1] → R dada por g(t) =
f (a+t(b−a)). Pelo que jé demonstramos existe uma seqüência
(qn ) de polinômios tal que lim qn (t) = g(t) uniformemete em
n→∞
x−a
[0, 1]. Dado x ∈ [a, b] seja t = ∈ [0, 1]. Portanto
b−a
 x−a 
lim qn (t) = g(t) = f a + (b − a) = f (x)
n→∞ b−a
9.6. SÉRIES DE POTÊNCIAS 249

uniformemente em [a, b], ficando, assim, demonstrado o teo-


rema.

9.6 Séries de Potências


Um tipo particular de série de funções, e que aparece com
destaque em Análise Real, tanto do ponto de vista teórico
como do ponta de vista das aplicações, são as séries de potências,
que são séries da forma

X
an (x − c)n = a0 + a1 (x − c) + a2 (x − c)2 + · · · (9.17)
n=0

O número c é chamado de centro da série e dizemos que


(9.17) é uma série de centro c. Quando c = 0 temos a série

X
an xn = a0 + a1 x + a2 x2 + a3 x3 + · · · (9.18)
n=0

a qual é uma série de centro zero.


X
Proposição 9.2 O domı́nio de convergência de an (x − c)n
n=0
é intervalo cujo centro é o centro da série.

Prova: Suponhamos que a série converge em x0 , c. Então


ela converge absolutamente no conjunto dos x tais que |x−c| <
|x0 − c|. De fato, como lim an (x0 − c)n = 0. Portanto, existe b > 0
n→∞
tal que |an (x0 − c)|n ≤ b para n = 0, 1, 2, · · · Mas,

|x − c|n |x − c|n
|an (x − c) | = |an ||x0 − c|
n n
≤b
|x0 − c|n |x0 − c|n
250 CAPÍTULO 9. SEQÜÊNCIAS E SÉRIES DE FUNÇÕES

para n − 0, 1, 2, · · · Logo, se |x − c| < |x0 − c| então



X
|an (x − c)n |
n=0

converge, pelo critério de comparação com a série geométrica



X |x − c|
|bqn | cuja razão é < 1.
n=0
|x0 − x|

Exemplo 9.13 Alguns exemplos de séries de potências são:


∞ ∞ ∞
X X X xn
a) xn , b) n!xn , c) ,
n=0 n=0 n=0
n!

∞ ∞ ∞
X xn X (x − 1)n X xn
d) , e) , f) 2
.
n=1
n n=1
n2n n=1
n

É óbvio que para x = c a série (9.17) é convergente e seu


valor é a0 (aqui é importante convencionarmos que 00 = 1).
O conjunto dos pontos x ∈ R para os quais (9.17) converge é
chamado de domı́nio de convergência da série.

X (x − 1)n
Exemplo 9.14 Consideremos a série . Então o seu
n=1
n2n
domı́nio de convergência é −1 ≤ x < 3. De fato,
r
n |x − 1|n |x − 1| 1 |x − 1|
lim n
= √n =
n→∞ n2 2 lim n 2
n→∞
√n
pois lim n = 1. Conseqüentemente, pelo Teste da Raiz, a
n→∞
|x − 1|
série converge se < 1, isto é, −1 < x < 3. Para x =
2
9.6. SÉRIES DE POTÊNCIAS 251

∞ ∞
X (−2)n X (−1)n
−1 obtemos = , a qual é convergente, pelo
n=1
n2n n=1
n
Critério de Leibniz. Finalmente, para x = 3 obtemos a série
∞ ∞
X 2n X 1
n
= , a qual é divergente. Portanto o domı́nio de
n=1
n2 n=1
n
convergência é −1 ≤ x < 3.

X
Exemplo 9.15 Consideremos a série xn . Temos que para
n=0

X
|x| < 1 a série é convergente. Para x = 1 obtemos a série 1,
n=0

X
a qual é divergente e se x = −1 obtemos a série (−1)n , a
n=0
qual também não converge. Vemos, assim, que o domı́nio de
convergência é {x ∈ R; −1 < x < 1}.

O intervalo de convergência de uma série de potências é


o intervalo aberto que resulta do domı́nio de convergẽncia ao
suprimir-se os eventuais extemos onde a série converge.
A série de potências do Exemplo 9.15 é uma série geométrica,
a qual, como sabemos, converge absolutamente, se |x| < 1, e
1
o valor da soma é , ou seja,
1−x

1 X
= xn , para − 1 < x < 1.
1 − x n=0

Dizemos que uma função real f é desenvolvı́vel em série


de potências no intervalo (x − r, x + r) se existem constantes
reais a0 , a1 , a2 , · · · tais que

X
f (x) = an (x − c)n .
n=0
252 CAPÍTULO 9. SEQÜÊNCIAS E SÉRIES DE FUNÇÕES

1
Assim, pelo Exemplo 9.15, a função , é desenvolvı́vel em
1−x
série de potências no intervalo −1 < x < 1.

X
Proposição 9.3 Seja an (x − c)n uma série de potências
n=0
com intervalo de convergência (c − r, c + r). Então, para cada
s ∈ R com 0 < s < r, a série converge uniformemente no
intervalo [c − s, c + s].

Prova: Para cada x = c + s ∈ [c − s, c + s] temos que a



X
série numérica an (x − c)n converge absolutamente. Ou seja
n=0

X
an sn é absolutamente convergente. Como para todo x ∈
n=0
[c − s, c + s] temos que |an (x − c)n | ≤ |an ||s|n segue, pelo Critério
X∞
de Weierstrass (Teorema 9.4), que a série an (x − c)n é uni-
n=0
formemente convergente no intervalo [c − s, c + s].

X
Corolário 1 Se an (x − c)n converge no intervalo (c − r, c + r),
n=0
seja f : (c − r, c + r) → R a função dada por

X
f (x) = an (x − c)n .
n=0

Então
i) f é contı́nua;
ii) f é derivável e

X
f (x) =
0
nan (x − c)n−1 ;
n=1
9.6. SÉRIES DE POTÊNCIAS 253
Z x
iii) Para cada x ∈ (c − r, c + r) existe f (t)dt e
c
x ∞
(x − c)n+1
Z X
f (t)dt = an .
c n=0
n+1

Prova: Dado x ∈ (c − r, c + r) seja 0 < s < r tal que x ∈



X
[c − s, c + s]. A seqüência das somas parciais de an (x − c)n
n=0
são polinômios, portanto contı́nuas, deriváveis e integráveis
em no intervalo [c − s, c + s]. Como a convergência é uniforme,
pela Proposição 9.3, podemos usar os Teoremas 9.1, 9.2 e 9.3
e obter i), ii) e iii).
Podemos usar as propriedades das séries de potências
demonstradas no Corolário 1 da Proposição 9.3 para obter
novos desenvolvimentos em séries de potências a partir de
desenvolvimentos já conhecidos. Por exemplo, vimos no Ex-
emplo 9.15, e comentários logo a seguir, que se |x| < 1,

1 X
= xn = 1 + x + x2 + x3 + · · · (9.19)
1 − x n=0

Substituindo x por −x em (9.19) (na verdade estamos tomando


compostas de funções contı́nuas) obtemos, para |x| < 1, o
desenvolvimento

1 X
= (−1)n xn = 1 − x + x2 − x3 + · · · (9.20)
1 + x n=0
Z x
1
Integrando (9.20) de 0 a x e usando que dt = ln(1 + x)
0 1+t
obtemos, para |x| < 1,

X (−1)n xn+1 x2 x3 x4
ln(1 + x) = = x− + − + ··· (9.21)
n=0
n+1 2 3 4
254 CAPÍTULO 9. SEQÜÊNCIAS E SÉRIES DE FUNÇÕES

Substituindo agora x por x2 em (9.20) obtemos, para |x| < 1, o


desenvolvimento

1 X
= (−1)n x2n = 1 − x2 + x4 − x6 + · · · (9.22)
1+x 2
n=0

Agora integrando (9.21) desde t = 0 até t = x e usando o


Z x
1
fato de que dt = arctg( x) obtemos, para |x| < 1,
0 1 + t2

X (−1)n x2n+1 x3 x5 x6
arctg( x) = = x− + − + ··· (9.23)
n=0
2n + 1 3 5 6

X (−1)n
Sabemos, do critério de Leibniz, que a série numérica
n=0
n+1
é convergente. Assim, obtemos, tomando x = 1 em (9.21), que
1 1 1 1 1
ln 2 = 1 − + − + − + ···
2 3 4 5 6
Do mesmo modo, podemos tomar x = 1 em (9.23) e usando o
π
fato de que arctg(1) = obtemos
4
π 1 1 1 1 1
=1− + − + − + ···
4 3 5 7 9 11

9.6.1 A Série de Taylor


Quando uma função real f é desenvolvı́vel em série de
potências, ou seja,

X
f (x) = an (x − c)n , x ∈ (c − r, c + r),
n=0

então, do item ii) do Corolário da Proposição 9.3, temos


9.6. SÉRIES DE POTÊNCIAS 255


X
f 0 (x) = nan (x − c)n−1 , x ∈ (c − r, c + r),
n=1
X∞
f 00 (x) = n(n − 1)an (x − c)n−2 , x ∈ (c − r, c + r),
n=2
X∞
f 000 (x) = n(n − 1(n − 2)an (x − c)n−3 , x ∈ (c − r, c + r)
n=3

e, por indução,

X
f (k) (x) = n(n − 1) · · · (n − k + 1)an (x − c)n−k , x ∈ (c − r, c + r),
n=k

para todo k ∈ N, de tal modo que f (c) = a0 , f 0 (c) = 1.a1 ,


f 00 (c) = 2.1a2 , f 000 (c) = 3.2.1a3 e, por indução, f (k) (c) = k!ak .
Logo
f (n) (c)
an = , ∀ n ∈ N. (9.24)
n!
Concluimos então que, quando f é desenvolvı́vel em série de
potências em um intervalo (c − r, c + r), f é infinitamente de-
rivável em (c − r, c + r) e

X f (n) (c)
f (x) = (x − c)n , x ∈ (c − r, c + r). (9.25)
n=0
n!

O série do segundo membro de (9.25) é chamada Série de


Taylor de f em torno de c no intervalo (c−r, c+r). Em particular,
se c = 0 obtemos

X f (n) (0) n
f (x) = x, x ∈ (−r, +r) (9.26)
n=0
n!

que é chamado de desenvolvimento de Maclaurin5 de f.


5
Colin Maclaurin (1698-1746)
256 CAPÍTULO 9. SEQÜÊNCIAS E SÉRIES DE FUNÇÕES

No Capı́tulo 7 vimos que, para uma função f que pos-


sui derivadas contı́nuas até a ordem n − 1 em um intervalo
[c, x] e possui a derivada de ordem n, podemos escrever a
sua Fórmula de Taylor com resto de Lagrange, isto é,

f 00 (c)
f (x) = f (c) + f 0 (c)(x − c) + (x − c)2 + · · · +
2!
f n−1 (c)
(x − c)n−1 + Rn (9.27)
(n − 1)!

f n (ξ)
onde Rn = (x − c)n para um certo ξ ∈ (c, x).
n!
Quando f é uma função de classe C ∞ em um intervalo
[a, b] e se c ∈ [a, b] então para cada x ∈ [a, b] e para todo n ∈
N podemos escrever (9.27). Portanto uma função de classe
C ∞ é desenvolvı́vel em sua série de Taylor em torno de um
ponto de seu intervalo de definição se, e somente se, lim Rn =
n→∞
0.
Apliquemos o que acabamos de ver acima para a função
f (x) = sen x em torno de c = 0. Temos, para cada n ∈ N,

x3 x5 x2n−1
sen x = x − + + · · · + (−1)n + R2n .
3! 5! (2n − 1)!

Como as funções seno e cosseno têm valor absoluto menor


ou igual a 1 em toda a reta real então

|x|2n
|R2n | ≤ .
(2n)!

Por outro lado, sabemos que, qualquer que seja x ∈ R, a



X |x|n
série é convergente, logo o limite do seu termo geral
n=0
n!
é zero. Assim obtemos o desenvolvimento de Maclaurin da
9.6. SÉRIES DE POTÊNCIAS 257

função seno

x3 x5 x7 X x2n+1
sen x = x − + − + ··· = (−1)n . (9.28)
3! 5! 7! n=0
(2n + 1)!

Para obtermos o desenvolvimento de Maclaurin da função


cosseno é suficiente derivarmos (9.26) termo a termo e, assim,

x2 x4 x6 X x2n
cos x = 1 − + − + ··· = (−1)n . (9.29)
2! 4! 6! n=0
(2n)!

Consideremos agora a função exponencial f (x) = e x . Us-


ando a fórmula de Taylor com resto de Lagrange temos, para
todo n ∈ N,

x2 x3 xn−1
ex = 1 + x + + + ··· + + Rn , (9.30)
2! 3! (n − 1)!
onde
|x|n |x|n
|Rn | ≤ , se x < 0 e |Rn | ≤ eb , se x ≥ 0,
n! n!
para algum b > 0. Em ambos os casos lim Rn = 0. Assim, o
n→∞
desenvolvimento de Maclaurin da função exponencial é

x2 x3 X xn
e =1+x+
x
+ + ··· = . (9.31)
2! 3! n=0
n!

Quando uma função f de classe C ∞ é desenvolvı́vel em


sua sua série de Taylor em torno de um ponto c dizemos que é
uma função analı́tica numa vizinhança de c. As funções seno,
cosseno e exponencial são funções analı́ticas em uma vizinhança
da origem, como acabamos de verificar. Na realidade tais
funções são analı́ticas em uma vizinhança de qualquer ponto
258 CAPÍTULO 9. SEQÜÊNCIAS E SÉRIES DE FUNÇÕES

da reta real. De um modo geral as funções elementares do


cálculo são funções analı́ticas, como o estudante pode veri-
ficar com facilidade. Não faz parte dos propósitos deste texto
exibir listas de funções analı́ticas, o que pode ser suprido por
um bom livro de Cálculo Diferencial e Integral.
Evidentemente que toda função analı́tica é de classe C ∞
mas, a recı́proca não é verdadeira como podemos observar no
clássico exemplo, a seguir exibido, de uma função de classe
C ∞ que não é analı́tica em vizinhança alguma da origem.
Consideremos f : R → R dada por

1





 e t , se t > 0,


f (x) = 





 0, se t ≤ 0

Mostremos que f é de classe C ∞ (R). Para tanto, mostremos


inicialmente que

!k 1
1 −
lim e t = 0, para todo inteiro k ≥ 0. (9.32)
t→0+ t

De fato
!k !k
1 1
!k 1
1 − t t
e t = = ∞ <
t 1 X 1 1 !n
et n! t
n=0
!k
1
t
!k+1 = (k + 1)!t → 0
1 1
(k + 1)! t
9.6. SÉRIES DE POTÊNCIAS 259

quando t → 0+ . Como conseqüência de (9.32) temos que qual-


quer que seja o polinômio p então

! 1
1 −
lim p e t = 0. (9.33)
t→0+ t

Mostremos agora que f (n) existe para todo inteiro n ≥ 0 e


está definida para todo t ∈ R. Primeiramente mostremos, por
indução sobre n, que, para t > 0

! 1
1 −
f (t) = p
(n)
e t , para algum polinômio p. (9.34)
t

1
Para n = 0 temos f (0) (t) = f (t) = e− t , para t > 0, por definição
de f, e, neste caso, p é o polinômio identicamente igual a
1. Suponhamos que (9.34) é válida para n. Então, derivando
(9.34) com respeito a t temos

" ! !# 1 ! 1
1 1 0 1
− 1 −
f (n+1)
(t) = 2 p −p e t =q e t, (9.35)
t t t t

onde q é o polinômio dado por q(x) = x(p(x) − p0 (x)). Observe


que fe(n) (t) = 0 para t ≤ 0 pois, por definição f (t) = 0 para t ≤ 0.
Vamos agora mostrar que existe fd(n) (0), para todo n ∈ N.
Temos que

1
f (t) − f (0) 1 −
lim = lim+ e t = 0,
t→0+ t t→0 t

ou seja fd0 (0) = 0. Vamos supor que fd(k) (0) = 0 e provemos


260 CAPÍTULO 9. SEQÜÊNCIAS E SÉRIES DE FUNÇÕES

que fd(k+1) (0) = 0. Temos que

! 1
f (k) (t) − fd(k) (0) 1 1 −
fd(k+1) (0) = lim+ = lim+ p e t =
t→0 t t→0 t t
! 1
1 −
lim g e t = 0.
t→0+ t

Sendo p um polinômio então g(x) = xp(x) também é um polinômio,


e podemos usar (9.33). Logo fd(k+1) (0). Portanto, fd(n) (0) = 0
para todo n inteiro com n ≥ 0. Como fe(n) (0) = fd(n) (0) = 0 para
todo n ≥ 0 inteiro, concluimos que f se anula, juntamente com
todas as suas derivadas, em x = 0. Logo, sua série de Maclau-
rin é identicamente nula em qualquer vizinhança. origem, o que
evidentemente não ocorre com f pois f (t) > 0 para t > 0. Em
outras palavras, f é de classe C ∞ mas não é analı́tica em nen-
huma vizinhança da origem.
Na seção 7.4 apresentamos a Fórmula de Taylor com Resto
de Lagrange. No entanto, há uma expressão alternativa para
a Fórmula de Taylor na qual o resto aparece envolvendo uma
integral. É o que apresentamos na proposição a seguir.

Proposição 9.4 Suponhamos que f : (a, b) → R possui


derivada contı́nua até a ordem n + 1 em um ponto c ∈ (a, b) e
definamos Rn (x), para x ∈ (a, b), como sendo
n
X f (k) (c)
f (x) = (x − c)n + Rn (x). (9.36)
k=0
k!

Então Z x
1
Rn (x) = (x − c)n f (n+1) (s)ds. (9.37)
n! c

Prova: Para a prova recomendamos a leitura de [1].


9.6. SÉRIES DE POTÊNCIAS 261

9.6.2 A Série Binomial


Dedicamos esta seção para mostrar que a função real fα
definida em (−1, 1) por fα (x) = (1 + x)α , α uma número real, é
desenvolvivel em série de Maclaurin no intervalo (−1, 1). Trata-
se de um exemplo interessante onde aparece a chamada Série
Binomial, a qual se constitui numa generalização para o con-
hecido Binômio de Newton.
Temos que fα é de classe C ∞ em (−1, 1) e

fα0 (x) = α(1 + x)α−1


fα00 (x) = α(α − 1)(1 + x)α−2
fα000 (x) = α(α − 1)(α − 2)(1 + x)α−3
.. ..
. .
fα (x) = α(α − 1)(α − 2) · · · (α − n + 1)(1 + x)α−n
(n)

.. ..
. .

Portanto, fα (0) = 1, fα0 (0) = α, fα00 (0) = α(α − 1), fα000 (0) =
α(α − 1)(α − 2) e, de uma forma geral,

fα(n) (0) = α(α − 1)(α − 2) · · · (α − n + 1),

para todo n ∈ Z, n ≥ 0. Assim, a Fórmula de Maclaurin para fα


se escreve
α(α − 1) 2 α(α − 1)(α − 2) 3
fα (x) = 1 + αx + x + x + ··· +
2! 3!
α(α − 1) · · · + (α − n + 1) n
x + Rn (x).
n!
Passaremos a mostrar que lim Rn (x) = 0. Utlizaremos aqui a
n→∞
expressão do resto Rn (x) na sua forma integral (Proposição 9.4),
ou seja Z x
1
Rn (x) = fα(n+1) (t)(x − t)n dt. (9.38)
n! 0
262 CAPÍTULO 9. SEQÜÊNCIAS E SÉRIES DE FUNÇÕES

Consideremos inicialmente 0 ≤ x < 1. Substituindo fα(n+1) (t) em


(9.38) e tomando valor absoluto obtemos
Z x
|α||α − 1| · · · |α − n|
|Rn (x)| ≤ (1 + t)α−n−1 (x − t)n dt. (9.39)
n! 0

Observe que, sendo 0 < t < 1, então

α−n−1 (1 + t)α
lim (1 + t) = lim = 0.
n→∞ n→∞ (1 + t)n+1

Logo (1 + t)α−n−1 < 1 para todo n suficientemente grande. Us-


ando esta informação em (9.39) e realizando a integração in-
dicada obtemos
|α||α − 1| · · · |α − n| n+1
|Rn (x)| ≤ x · (9.40)
(n + 1)!

Aplicando o Teste da Razão à Série



X |α||α − 1| · · · |α − n|
xn+1
n=0
(n + 1)!

podemos constatar a convergência da mesma. Logo seu termo


geral tem limite zero, donde segue que lim Rn (x) = 0.
n→∞
Consideremos agora o caso −1 < x ≤ 0. Neste caso temos
Z 0
1
Rn (x) = fα(n+1) (t)(t − x)n dt. (9.41)
n! x

Substituindo o valor de fα(n+1) (t) em (9.41) tomando o valor ab-


soluto obtemos
Z 0
|α||α − 1| · · · |α − n|
|Rn (x)| ≤ (1 + t)α−n−1 (t − x)n dt,
n! x
9.6. SÉRIES DE POTÊNCIAS 263

isto é
Z 0  t − x n
|α||α − 1| · · · |α − n|
|Rn (x)| ≤ (1 + t)α−1 dt. (9.42)
n! x 1+t
A função (1 + t)α−1 , para x ≤ t ≤ 0, é contı́nua, logo limitada.
Além do mais, vale a seguinte desiguladade
t−x
≤ −x se − 1 < x ≤ t ≤ 0.
1+t
De fato, multipliquemos a desigualdade −1 < x por −t > 0 e
adicionemos −x a ambos os lados para obter t − x ≤ −x(1 + t).
Portanto
 t − x n
≤ (−x)n e (1 + t)α−1 ≤ M, se − 1 < x ≤ t ≤ 0,
1+t
para um certo M > 0. Levando estas informações em (9.42) e
realizando a integração indicada vem que
|α||α − 1| · · · |α − n|M
|Rn (x)| ≤ (−x)n+1 . (9.43)
n!
Usando o Teste da Razão deduzimos que lim Rn (x) = 0. Por-
n→∞
tanto
α(α − 1) 2 α(α − 1)(α − 2) 3
(1 + x)α = 1 + αx + x + x +
2! 3!
α(α − 1) · · · (α − n + 1) n
··· + x + ···
n!
 α  α(α − 1) · · · (α − n + 1)
Denotando por o número temos
n n!
então que
∞ 
α
X α  n
(1 + x) = 1 + x , para |x| < 1. (9.44)
n
n=1
A série em (9.44) é chamada de Série Binomial e quando α é
um inteiro positivo m se reduz a uma soma finita que coincide
com o Binômio de Newton para (1 + x)m e que, neste caso, é
válido para todo x ∈ R.
264 CAPÍTULO 9. SEQÜÊNCIAS E SÉRIES DE FUNÇÕES

9.7 Exercı́cios do Capı́tulo 9


xn
9.1- Mostre que se fn (x) = , n ∈ N, então
1 + xn
se |x| < 1,


 0,
lim fn (x) =  se |x| > 1,

1,

n→∞  1, se x = 1,


2

pontualmente.

9.2- Mostre que se fn (x) = n2 x(1−x)n , n ∈ N, então lim fn (x) =


n→∞
0 pontualmente em [0, 1].
9.3- Mostre que se fn (x) = nxe−nx , n ∈ N, então lim fn (x) = 0
2

n→∞
pontualmente em R.

9.4- Mostre que se fn (x) = nx(1− x)n , n ∈ N, então lim fn (x) =


n→∞
0 pontualmente no intervalo [0, 1], mas não uniforme-
mente.

9.5- Faça um exame quanto à convergencia uniforme em [0, 1)


para a seqüência ( fn ), onde fn (x) = xn .

9.6- Examine a convergência uniforme em [0, 1] para as seqüências


( fn ) e (gn ) definidas por
2
fn (x) = xn (1 − xn ) e gn (x) = nxe−nx .

9.7- As seqüências ( fn ) em [0, 1], (gn ) em (0, 1) e (hn ) em


[0, 100] são dadas por
sen(nx) nx3
fn (x) = xn (1 − x), gn (x) = e hn (x) = .
nx 1 + nx
Mostre que ( fn ), (gn ) e (hn ) convergem pontualmente
nos seus respectivos domı́nios de definição. Qual dela(s)
converge(em) uniformemente?
9.7. EXERCÍCIOS DO CAPÍTULO 9 265

9.8- As funções fn e f definidas em A∪B são tais que fn A con-
verge uniformemente para f A e fn B converge uniforme-


mente para f B . Mostre que fn converge uniformemente
para f em A ∪ B.

9.10- Seja ( fn ) e (gn ) seqüências de funções que convergem


uniformemente para f e g, respectivamente, em um in-
tervalo I de R. Prove que
α fn + βgn −→ α f + βg
uniformemente em I, para todo α e todo β reais. O que
se pode dizer com respeito ao produto fn gn ?

X
9.11- Mostre que a série (1 − x)xn converge pontualmente
n=1
em (−1, 1] e sua soma é a função
1, se |x| < 1,
(
f (x) =
0, se x = 1.
A convergencia é uniforme?

9.12- Para n ∈ N as seqüências ( fn ) e (gn ) são definidas em


[0, 1] por
fn (x) = (1 − x)2 xn e gn (x) = (−1)n xn (1 − x).

X ∞
X
Prove que fn (x) e gn (x) convergem uniformemente
n=1 n=1
em [0, 1].

9.13- Prove que as séries de funções


∞ ∞
X sen(nx) X cos(nx)
e
n=1
n2 n=1
n3
convergem uniformemente em R.
266 CAPÍTULO 9. SEQÜÊNCIAS E SÉRIES DE FUNÇÕES

9.14- Mostre que, quando α ≥ 0, a série


∞ 
X α  n
1+ x
n
n=1

converge uniformemente para (1+x)α no intervalo [−1, 1].



X xn sen(nx)
9.15- Mostre que a série , p > 1, converge uni-
n=1
np
formemente em [−1, 1].

X (−1)n+1
9.16- Prove que a série converge uniformemente
n=1
n+x
em [0, +∞), mas não converge absolutamente para todo
x ∈ R.
9.17- Suponha que cada fn é monótona no intervalo [a, b] e
que a seqüência ( fn ) converge pontualmente em [a, b]
para uma função contı́nua. Prove que a convergência é
uniforme.

X x
9.18- Mostre que a série converge uniforme-
n=1
n(1 + nx2 )
mente em R.

X (−1)n
9.19- Prove que a série converge uniforme-
n=1
n x ln(n + 1)
mente em [0, +∞).

9.20- Considere a seqüência de funções ( fn ) em [0, 2] dada


por
1
fn (x) = (1 + xn ) n .
Prove que a seqüência de funções fn , todas deriváveis
em [0, 2], converge uniformemente para uma função lim-
ite f, a qual não é derivável no ponto x = 1.
9.7. EXERCÍCIOS DO CAPÍTULO 9 267

9.21- Considere a seqüência ( fn ) de funções em [0, 1] dada


por
nx
fn (x) = , p > 0.
1 + n2 x p
Encontre os valores de p para os quais ( fn ) converge
uniformemente para uma função limite f. Examine se
Z 1 Z 1
fn (x)dx −→ f (x)dx
0 0

para p = 2 e p = 4.
1 − 12
9.22- Mostre que lim e x = 0, para todo p = 1, 2, 3, · · ·
x→0 xp
9.23- Seja f : R → R definida por
( −1
e x2 , se x , 0,
f (x) =
0, se x = 0.

Prove que f é de classe C ∞ , porém não é analı́tica na


origem.

9.24- Mostre que existe uma seqüência de polinômios que


converge uniformemente para |x| no intervalo −1 ≤ x ≤ 1.

9.25- Seja g a função definida por


0, se x < 0,
(
g(x) =
x, se x ≥ 0.
Então, para todo intervalo [α, β] existe uma seqüência
de polinômios que converge uniformemente para g em
[α, β].
9.26- Seja f : [a, b] → R uma função contı́nua. Mostre que
existe uma seqüência de polinômios que converge uni-
formemente para f em [a, b].
268 CAPÍTULO 9. SEQÜÊNCIAS E SÉRIES DE FUNÇÕES

Seja f : [a, b] → R uma função contı́nua satisfazendo


9.27- Z
b
f (x)xn dx = 0, ∀ n ∈ N. Mostre que
a
Rb
i) a
f 2 (x)dx = 0.
ii) Deduza que f (x) = 0 para todo x ∈ [a, b].
Bibliografia

[1] APOSTOL, T. M.: Calculus. Volúmenes 1 y 2, Editorial


Revertê, Barcelona, 1976.

[2] ÁVILA, G. S.: Introdução à Análise Matemática. São


Paulo, Edgard Blücher Ltda., 1993.

[3] AYRES Jr, F.: Álgebra Moderna. Trad. M. C. Matos,


McGraw-Hill do Brasil, São Paulo, 1973.

[4] BEALS, R.: Advanced Mathematical Analysis. Springer-


Verlag, New York, 1973.

[5] BOYER, C. B.: História da Matemática. Trad. E. F. Go-


mide, Ed. Edgard Blücher Ltda., São Paulo, 1974.

[6] FIGUEIREDO, D. G. de: Análise I. 2a Edição, L. T. C. Edi-


tora, Rio de Janeiro, 1973.

[7] HALMOS, P. R.: Naive Set Theory. D. Van Nostrand Com-


pany, New Jersey, 1960.

[8] LIMA, E. L.: Curso de Análise. Volume 1, Rio de Janeiro,


IMPA-Coleção Projeto Euclides, 1976.

[9] MONTEIRO, L. H. J.: Elementos de Álgebra. Rio de


Janeiro, Ao Livro Técnico, 1969.

269
270 BIBLIOGRAFIA

[10] RUDIN, W.: Principles of Mathematical Analysis.


McGraw-Hill Book Co., New York, 1964.

[11] SIMMONS, G. F.: Introduction to Topology and Modern


Analysis. McGraw-Hill Book Company, New York, 1963.
Índice

Adição pontual, 229


de números naturais, 15 uniforme, 232
de números racionais, 19 Corpo, 20
Associatividade, 15 ordenado, 22
Axiomas de Peano, 14 completo, 29
Cota, 23
Cardinalidade, 33 inferior, 23
Cobertura aberta, 105 ı́nfimo, 24
Comutatividade, 15 superior, 23
Conjunto, 12 supremo, 23
aberto, 101 Critério
compacto, 104 de Dirichlet, 241
completo, 106 de Weirstrass, 240
denso, 32
enumerável, 33 Densidade de Q em R, 32
fechado, 102 Derivado, 99
finito, 33 Diagonal de Cantor, 37
infinito, 33 Distribitividade, 15
limitado, 23
inferiormente, 23 Expansão decimal, 37
superiormente, 23
vazio, 12 Fórmula de Taylor, 171
Conjuntos Função, 13
contáveis, 33 bijetiva, 14
equipotentes, 33 composta, 14
Convergência contı́nua, 135

271
272 ÍNDICE

derivável, 159 algébrico, 45


imagem de uma, 13 transcendente, 45
imagem inversa de uma, 13 Números
injetiva, 14 Inteiros, 18
inversa, 14 Irracionais, 29
limitada, 113 Naturais, 14
inferiormente, 113 Racionais, 19
limitada Reais, 26
superiormente, 114 Norma
sobrejetiva, 14 de uma partição, 197
uniformemente contı́nua, 150
Operações com conjuntos, 12
Gráfico de uma função, 13
Partição, 188
Integração refinamanto, 189
por partes, 215 Ponto aderente, 94
por substituição, 215 Ponto de acumulação, 99
Integral Princı́pio
de Riemann, 195 da Boa Ordenação, 32
inferior, 190 de Indução, 16
superior, 190 Produto cartesiano, 13
Intervalo, 30 Propriedade Arquimediana de Q,
aberto, 31 23
fechado, 31
Raiz quadrada, 29
Leis do Cancelamento, 15 Regra
Limite da Cadeia, 163
de uma função, 116 de L’Hôpital, 174
de uma seqüência, 51 Relação
inferior, 94 de equivalência, 33
superior, 94 de ordem, 18
Limites
laterais, 123 Série, 70
Binomial, 263
Número convergente, 71
ÍNDICE 273

de Maclaurin, 255 do máximo e do mı́nimo, 146


de Potências, 249 do valor intermediário, 147
de Taylor, 255 do valor médio
geométrica, 72 de Cauchy, 167
harmônica, 71 de Lagrange, 168
Seqüência Fundamental do Cálculo, 211
convergente, 52 Topologia, 93
de Cauchy, 61
de números reais, 47 Valor absoluto, 30
divergente, 52 Vizinhança, 101
limitada, 49
inferiormente, 49
superiormente, 49
Soma
de Riemann, 202
de Riemann-Darboux, 188
inferior, 188
superior, 188
Sqüência
de funções, 227
Subconjunto, 12
próprio, 12
Subseqüência, 48
Sucessor, 15
Teorema
da média
primeiro, 217
segundo, 218
de Bolzano-Weierstrass, 60
de Dedekind, 27
de Dini, 243
de Pitágoras, 20
de Rolle, 166