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AULA 04: OS PRÉ-SOCRÁTICOS

FILOSOFIA

O pensamento pré-socráticos

Podemos começar nossa discussão a partir da filosofia das escolas filosóficas gregas
formadas antes da existência do mais sábio filósofo grego, Sócrates (469 a.C. ou 470 a.C. – 399
a.C.). Estas escolas de pensamentos foram criadas por filósofos cuja importância muito transcende a
filosofia grega e atinge o patamar de relevância geral do pensamento humano. Esse conjunto de
pensadores foi denominado pelos historiadores da filosofia como Pré-socráticos1. As informações
que possuímos sobre a filosofia pré-socrática é muito limita, possuímos apenas fragmentos
recolhidos pelos historiadores da filosofia grega, principalmente as organizadas pelo filósofo
Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.)2. Aquilo que podemos frisar é que depois da transição da
mitologia para a razão, a primeira forma de pensamento filosófico a surgir foi a Metafísica, ou
seja, uma espécie de reflexão sobre a origem e a essência do universo, a consistência da alma
imortal e questões relacionadas a existência de divindades. Em outras palavras, é um forma
de se pensar que NÃO se apoia na experiência, mas, em vez disso, articula-se por meio da
razão, da imaginação, da lógica e da retórica. Nesta aula estudaremos os pré-socráticos somente
no que diz respeito a sua reflexão sobre a origem da vida no universo (leia-se cosmos no grego),
denominado por eles como Arché.
O pensamento pré-socrático começa na escola de Mileto 3 (ver figura 1), fundada entre o
século VII e VI a.C. por aquele considerado pelos historiadores como o primeiro filósofo grego, isto
é: Tales de Mileto, responsável por trazer o conhecimento matemático oriental para a Grécia e
aprofundá-lo. Vale ressaltar que o pensamento pré-socrático, embora possa parecer abstrato,

1 Do mesmo modo que a cronologia ocidental tem o nascimento do profeta Jesus Cristo como o seu divisor de águas, os
anos a.C. (antes de Cristo) e os anos d.C. (depois de Cristo), a filosofia “divide suas águas” por meio de Sócrates. Na
realidade, o profeta cristão e o filósofo grego possuem muitas semelhanças em suas histórias, mas essa é o foco da
nossa próxima aula.

2 Ter Aristóteles como nossa fonte de informação sobre os pré-socráticos era algo muito paradoxal, pois, por um lado
pareceria ser excelente ter um dos maiores filósofos gregos como fonte de produções filosóficas antigas. Por outro lado,
isso era complexo, porque ele costuma pensar que tinha chegado na verdade mais clara até a sua época, então os
filósofos antigos, a partir da visão de Aristóteles, estavam caminhando para chegar na filosofia que ele produziu. Por
isso não podemos distingui com precisão o que é ironia, o que é interpretação de Aristóteles e o que é o pensamento, de
fato, dos pensadores pré-socráticos.

3 É uma antiga cidade da Ásia Menor, no sul da Jônia, cuja região atualmente faz parte da Turquia, situada junto à foz
do rio Meandro.

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Para Anaximandro a arché do mundo era a lei do equilíbrio universal. ele dizia: “estou refletindo com as estrelas!”. matemático e também ganhou o título dos historiadores de pai da geometria – por conta do seu teorema da proporção da dos feixes de retas cortadas transversalmente por retas paralelas. haja vista que as mudanças no estado físico do ar geram todos os outros três elementos essências à vida humana. Por exemplo. todos os seres vivos depois que morrem secam. Sabemos que seus amigos o zoavam muito. perdem toda a água do seu organismo. pensava no ar como arché. uma espécie de força infinita responsável pela separação dos opostos. Pensava na água como sendo a arché do mundo. Geralmente quando o provocavam. Além do mais. numa primeira impressão. A zoeira intensificou-se quando o seu hábito causou a sua queda em um poço. pois. por causa do seu costume de andar sempre olhado para o alto. é uma alegoria para o comportamento do filósofo que não só tende a enxergar aquilo que a maioria das pessoas não está preocupada em pensar. partem da vida cotidiana e tem como pressuposto ser atualizadas por novos conhecimentos desenvolvidos pela filosofia. a água é indispensável para a vida humana.C.metafísico e.C. Levou a cabo o aperfeiçoamento do relógio de sol e foi umas dos primeiros filósofos a traça um mapa geográfico da região grega. e a sua queda no poço demonstra a habilidade do filósofo em mergulhar tão fundo na reflexão filosófica que acaba esquecendo dos problemas corriqueiros da vida. contribuindo para a transição do pensamento mítico à filosofia. Quando o ar condensa-se 4 Existe uma história engraçada sobre Tales de Mileto. Anaximandro de Mileto (610 – 547 a. Na hierarquia da natureza a água está sobre a terra. esta força infinita regula o pagamento de todas as injustiças cometidas no mundo.C. Anaxímenes de Mileto (588 – 521 a. Figura 1  Os pensadores pré-socráticos: Tales de Mileto4 (625 – 556 a.): primeiro sucessor de Tales de Mileto na direção da Escola de Mileto. ainda assim são desenvolvidos racionalmente. Segundo ele.): estudante de Anaximandro e último representante da Escola de Mileto que. o excesso de calor no verão era compensado pelo rigoroso frio do inverno. O costume de andar olhando para cima de Tales. ficou conhecido também como grande astrônomo. porém que resume o papel dos filósofos em geral naquela época. até “ingênuo”.): foi um dos primeiros filósofos gregos. 2 .

por ser o primórdio e a essência de tudo. transferindo-o à matemática. retirando o foco do deus Dionísio. da forma arábica. A descoberta to teorema (depois conhecido como teorema de Pitágoras) por meio do qual era possível constatar que a soma do quadrado dos catetos de um triângulo retângulo é sempre igual ao quadrado de sua hipotenusa (a 2 + b2 = c2). A representação pitagórica dos números é muito distinta da que nós utilizamos atualmente. a archê do universo são os números e chegou nesta teoria por meio seus estudos musicais. Pitágoras adquiriu notoriedade na Antiguidade porque mudou o orfismo. Pitágoras representava os números através de formas. macho e fêmea. Segundo ele. o dois eram dois pontos formando uma reta (“. Dionísio) pelo culto de uma teoria puramente humana.): existia uma ceita religiosa muito influente na Grécia Antiga. a crença na transposição da alma em vários corpos. possibilitou ao filósofo constar a diferença entre números pares e ímpares e conceber o universo como uma unidade entre pares opostos: finito e infinito. Pitágoras de Samos [ver figura 2] (571 – 497 a. mais rarefeito ainda. caso seja condensado mais ainda. luz e obscuridade. ou seja. Vela destacar que os números. não consistiam em símbolos responsáveis pela representação de grandezas. torna-se terra. Se for rarefeito transforma-se em calor. levada a cabo a fim de evitar que a alma se deteriorasse. . repouso e movimento. quatro pontos para representar volume (“::”). bem e mal.ele torna-se água.C. entre outros. na realidade. era representado peplo ponto (“. eram entes corpóreos.”). o pré-socrático substituiu o culto de um deus (no caso. O primeiro profeta deste culto foi Orfeu e a sua doutrina consistia na metempsicose. Pitágoras acreditava existir uma espécie de “harmonia” e “unicidade” entre todos os seres da natureza. isto é. vira fogo. cujo objeto de culto era o deus Dionísio. no ponto de vista pitagórico. reto e curvo. Figura 2 3 . uma espécie de “alma das coisas”. o número 1. Além disso.” = “_”) o três eram três pontos que formavam um plano (“ ∴ ”).

ao contrário. cujas características são: a imutabilidade. em outras palavras o que conhecemos hoje como ditado. Não se pode ganhar ou perder ao mesmo tempo. Por exemplo. os seus opostos. pois o julgamento a partir deles é muito impreciso e muda com facilidade. Sua filosofia foi expressa por meio de aforismas – do grego aphorismus que significa definição breve. ou se ganhar ou se perder. você ganha tirando o outro. imediatamente você perde tirando o outro.C. ele é um conceito definido. se existe o amor. ou seja. ou seja.): membro da família real de sua cidade. isto é. Um exemplo claro disso é o jogo do cara ou coroa. tudo que for diferente de amor só pode ser ódio (outro conceito determinado. um conceito puramente racional. o princípio do terceiro excluído no qual ou uma proposição é verdadeira ou o seu contrário é verdadeiro. no caso |X|. Baseado nestas ideias.): estava convicto que a única arché possível para o universo seria o Ser. o não- ser não é!” – Parmênides. imediatamente. ou. Não há espaço para a contradição no pensamento grego. Em outras palavras. Parmênides não acreditava que os nossos sentidos pudessem alcançar a verdade. Parmênides de Eléia [ver figura 3] (530 – 460 a. universal e imutável. consequentemente. Figura 3 Heráclito de Éfeso [ver figura 4] (535 – 475 a. pensava que os fenômenos da vida só poderiam ter uma existência certa determinada. 4 . “O ser é e. universal e imutável). Se você ganha tirando um lado da moeda. a universalidade e a imobilidade. significa o posto de X. é portanto X. Este tipo de filosofia é denominada principum tertium non datur. se você perde tirando um lado da moeda. |X|5.C. Por causa da sua filosofia aforística ficou conhecido em sua época como 5 Símbolo que significa o exato oposto do que está dentro da chave. e tudo aquilo que se diferenciasse desses fenômenos seriam. renunciou à função de rei em favor de seu irmão. no qual sempre haverá duas possibilidades determinadas: cara ou coroa.

uma força incumbida pela separação e mobilização destes elementos. no entanto. em suas palavras.Heráclido “o obscuro” e atualmente é o filósofo pré-sócrático mais difícil de ser estudado. considerou-a como sendo a união dos quatro elementos (ou. a existência de uma força responsável por fundir os elementos e manter a sua ordem e. 5 . Por causa disso. fogo e ar). Essas energias são respectivamente. surge dialeticamente a expressão da Justiça. o amor (philia) e o ódio (neikos). por isso NÃO definiu a arché somente em um elemento. para ele. era preciso conciliar ambos os aspectos (leia-se a razão e os sentidos 7). era preciso pensar as raízes se moviam e se transformavam. Por exemplo. nem somente a partir dos sentidos. desse impasse. 7 Platão fará isso também quando desenvolver sua teoria do mundo das ideias. isto é. A arché. levando em consideração as conclusões desenvolvidas a partir dos nossos sentidos. a constante mudança6. ela manifesta-se sempre que dois fenômenos opostos enfrentam-se para gerar um terceiro elemento completamente distinto. ou seja. ele afirma que é necessário. Figura 4 Empédocles de Agrigento [ver figura 5] (495 – 435 a. na verdade. ela é Dialética. por outro lado. 6 Heráclito tem uma metáfora que dizia: “Ninguém pode banhar-se duas vezes no mesmo rio e mesmo as águas são diferentes no seu fluxo”. transformação. Para Empédocles. a arché seria a característica essencial do elemento fogo. as quatro raízes: água. em vez disso. terra. Segundo ele. por um lado. A vida de todos os seres vivos está sempre em eminente movimento. mas não o elemento em si. em vez disso. era o fogo. E essa mudança não acontece de qualquer jeito. os humanos vivem em conflito sobre o Certo e o Errado e. mas. de acordo com a forma puramente racional de se refletir sobre a realidade as quatro raízes seriam imóveis e universais. não procurava encontrar a verdade somente na razão.C.): diferente dos demais filósofos pré-socrático.

Esse ser pequenino foi chamado de “espírito nous”. Esta noção de arché como nous de Anaxágoras é o que chega mais próximo – em companhia de o arché de Demócrito de Abdera. infinitas ao mesmo tempo em número e em pequenez. porém mesmo sendo o berço da democracia direta grega. Figura 5 Anaxágoras de Atenas [ver figura 6] (500 – 428 a. Figura 6 6 .C): Foi um dos primeiros filósofos que chegou em Atenas. unificava e formava os fenômenos e os seres vivos que conhecemos hoje. ou seja: os átomos. Segundo ele. o expulsou por causa da novidade de suas ideias. como veremos a seguir – daquilo que a nossa ciência atual define como os responsáveis pela formação do universo e da vida. Anaxágoras é o primeiro filósofo grego a pensar na arché do universo como a ideia de um ser infinitamente pequeno. porque o pequeno também é infinito”. e era considerado um corpo tão pequeno que fazia parte de tudo que existia no universo. “todas as coisas estavam juntas. Sua ação movimentava.

mas possuía prótons.): foi um filósofo pré-socrático contemporâneo a Platão. e sua filosofia refletia sobre a questão da existência de uma espécie de “intervalo” entre as unidades corpóreas (leia-se partículas) que formaram o universo e a vida na terra. Figura 7 Referências bibliográficas SOUZA. 5 – 47.). Demócrito acreditava que o vazio infinitamente pequeno é o lugar no qual se movem as menores partículas do mundo. vale ressaltar que Demócrito não foi o primeiro a pensar na existência de um intervalo vazio entre partículas. 1996. São Paulo: Nova Cultural. Os Pré-socráticos: fragmentos. partículas consideradas “indivisíveis” e denominadas por ele de átomo (do grego. p. As ideias desse filósofo foram de suma importância para químicos modernos aprofundarem seus estudos sobre o átomo. I. (Org. na realidade. Os Pré-Socráticos. O átomo era maciço e considerado a arché do universo para Demócrito.C. doxografia e comentários (Coleção os pensadores). nêutrons. In: ______. J. Este “vazio” entre as partículas foi essencial para desenvolver a noção de espaço. Demócrito de Abdera [ver figura 7] (460 – 370 a. C. Contudo. descobrindo assim. elétrons e fótons. 7 . o indivisível). ele se embasou na descoberta de Zenão de Eléia e aprimorou a teoria dele. que ele não era “indivisível”. Do Mito à filosofia e II.