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RELATÓRIOS E DOCUMENTOS OFICIAIS DO ATELIER DO CENTRO

Méthodo Rubens Espírito

Autor: CCS

Aula: Aula de segunda

Assunto: Corpo sem órgãos / Escassez /

H

ö lderlin

Data: 19 de março de 2018

Abundante escassez

Em 1801, poucos anos antes de colapsar mentalmente, Hölderlin viajou à França numa época em que queixava-se da extrema dificuldade que tinha de usar livremente aquilo que sua nacionalidade lhe impunha. Suas preocupações se baseavam no contraste de produtividade entre os alemães e os gregos antigos – referência quase absoluta para ele, por estarem mais próximos dos deuses do que seu povo – além de um traço dos gregos ausente aos alemães:

estes, por serem ademais entregues à organização, não possuíam a qualidade grega de entregar-se ao destino; não se reconheciam menor que forças regentes de suas vidas 1 . Ambos tinham, porém, a mesma dificuldade de retornar ao seu nativo, como denuncia estes versos seus:

Sua vontade foi certamente instituir Um império da arte, mas aí o nativo foi por eles renegado e, lamentavelmente, A Grécia, beleza suprema, soçobrou 2

A preocupação de Hölderlin não englobava uma vontade de produzir obras de arte como as dos gregos, mas sim a dúvida sobre a possibilidade das obras modernas diferirem, de modo decisivo, daquelas que estavam sendo produzidas em sua época – as obras então chamadas modernas. Nesta época, ele estava empenhado em escrever os cantos pátrios que, diferente dos cantos noturnos e canções de amor, procuravam encontrar o que não havia ainda acontecido: o que era propriamente ocidental. A partir de reflexões sobre o passado, ele gostaria de tirar dele lições. Numa carta ao seu amigo Casimir Böhlendorf, mostrando-se altamente lúcido, ele adverte o

1 A fraqueza dos gregos consiste em não conseguir, diante do excesso do destino e das suas destinações, manter o controle destes. Sua grandeza consiste em ter aprendido o que lhe é estranho – o autocontrole. Heidegger, Explicações sobre a poesia de Holderlin, UnB, pág.

102 2 Holderlin e Sófocles, Beaufret, Zahar, pág. 15
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2 Holderlin e Sófocles, Beaufret, Zahar, pág. 15

perigo eminente da própria loucura e diz:

Por isso é também tão perigoso querer, por abstração, ir buscar as regras de arte única e exclusivamente à excelência grega. Meditei muito nisso, e agora sei que, além daquilo que para os gregos e para nós deve ser a coisa suprema – a relação viva e a destreza. Nada mais deveremos ter de comum com eles. Porém, o que nos é próprio tem de ser aprendido, tão bem como o que nos é estranho.

Acredito ser esta relação viva da qual ele justapõe com a destreza algo que está sendo investigado seriamente nas aulas de Res como um dos elementos principais de um artista. Talvez só partindo desta relação viva possa se apreender o que é realmente estrangeiro e local – extrapolando noções apenas geográficas – o que talvez seja o que Hölderlin chama aqui de próprio e estranho, tendo em vista sua e paixão e tradução de Antígona, onde a estranheza é colocada como a principal característica do homem:

Muitas são as coisas estranhas, nada, porém,

há de mais estranho do que o homem 3

Tendo chegado até aqui, está claro que as preocupações que nos rondam não são aleatórias, mas sim sérias e herdadas historicamente – talvez sejam elas parte de motores que movem um artista a continuar perguntando.

Quem sabe não só a existência da pergunta sobre a escassez de sua origem, seja ela qual for, seja fundamental ao artista mas um modo de fazer com que sua existência seja sempre a de pergunta, pois sua não resposta também parece ser fundamental. Não encontrar resposta talvez seja também a condição de um artista continuar vivo e sua constante procura, talvez, possa

ser aquilo nomeado por arte em vez de sua possível resposta, que uma vez existindo, seria traidora de si própria e passaria a não mais existir, ou pior, a não mais ser objeto da procura do artista, pois estaria dentro do limite do familiar – vejo, dentro dos limites que posso identificar entre os atos de ver e não ver, este acontecimento na obra de Res – ela em si – e eu não sei dizer aqui o que se resumiria a esta expressão – é um corpo que percebe trepidação em toda e qualquer coisa que, por sua vez, logo que detectada, não se deixa usar sem fremir também. Res, sendo o possibilitador destes acontecimentos epilépticos, os têm como partes de seu próprio corpo – que, já sem partes, come seu próprio fígado sem matar ninguém a não ser a si mesmo sem que haja mesmo um enterro – submetendo toda estranheza à mais larga curva que a palavra pátria consegue fazer. Indiferente ao seu conteúdo, diante de perguntas feitas de lava, não há origem que não seja escassa; diante das mesmas perguntas, não há, porém, escassez que atinja o zero.