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-ISSN 1809-6298 . . Texto Especial 430 – agosto 2007

| Autor | Assunto | Números | Página principal | Expediente | Vitruvius |

O projeto para o Plano-piloto e o pensamento de Lúcio Costa


Francisco Lauande

Francisco Lauande é arquiteto. Formado pela Faculdade de


Arquitetura e Urbanismo, da Universidade de Brasília (1987). Tem
curso de pós-graduação em Sistemas de Construção pela
Universidade Metropolitana de Tóquio. Foi membro do Conselho
Fiscal do IAB-DF e Diretor Cultural do IAB-DF. Foi o responsável
pela organização da III Bienal de Arquitetura de Brasília (2001). Foi
professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UNIP,
campus Brasília. É aluno do curso de mestrado em Teoria e História
da Arquitetura, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da
Universidade de Brasília (orientado pelo Professor Antônio Carlos
Carpintero).

“Não se chega a uma idéia de cidade a partir de uma idéia


de espaço: ao contrário a busca de categorias fundamentais
das funções da vida social. É, portanto, o processo metódico
que leva à definição do espaço e, por conseqüência, da
arquitetura”.
G. C. Argan “Clássico Anticlássico”

Este ano comemora-se o cinqüentenário da realização do concurso


internacional que escolheu o projeto para a nova capital, de autoria de
Lúcio Costa – um dos personagens cimeiros de nossa história, no último
século. O seu legado ganha merecida relevância quando estudamos a
fundo o conjunto de sua obra vitruviana, que somado aos seus escritos
formam um conjunto de aul as – implícitas ou explícitas – que ensinam ao
arquiteto que ao conceber uma Arquitetura, deve-se, antes de mais nada,
comportar-se como pensador. Lúcio Costa deveria ser considerado por
todos – incluindo os das gerações vindouras – como um ícone primordial
de nossa arquitetura, cuja maior lição transmitida é a de ter colaborado
para validar o conceito de que a formação do arquiteto só pode ser
completa quando for oriunda do cerne de um profundo conhecimento
técnico e da própria cultura tanto quanto a de outros povos, como será
demonstrado mais adiante. A sua maior herança é, portanto, o seu
pensamento.

O projeto do Plano-piloto, como não poderia deixar de ser, é o mais


escrutinado da trajetória de Lúcio Costa, não só pelo tamanho e função,
outrossim, por ser a síntese de sua vivência na práxis. Quando ele diz que
a proposta enviada para o concurso internacional de projetos para a Esplanada dos Ministérios e a Praça dos Três Poderes, desenho de
construção da nova capital, foi, na realidade, uma maneira de Lúcio Costa. Fonte: Folha de São Paulo, 13 mar. 2007.

desvencilhar-se de uma idéia, em verdade, é o resumo de um


conhecimento acumulado, representado por croquis e traduzido em texto,
assim como, o ponto de convergência do pensamento urbanístico de uma
época, concebido com um alto grau tanto de temporalidade social como
individual. Com efeito, ele só poderá ser entendido se esse fato for
devidamente relevado. Na arquitetura, como no fenômeno de Kant, o
objeto nunca está dissociado dos fatores: tempo e espaço:

“pode-se definir arquitetura como construção concebida com


a intenção de ordenar e organizar plasticamente o espaço,
em função de uma determinada época, de um determinado
meio, de uma determinada técnica e de um determinado
programa” (1).
Projeto para o Plano-piloto com influência do pensamento

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Wrightiano, Desenho de Vilanova Artigas. Fonte: Correio Braziliense,


24 nov. 2002.
Uma cidade é fruto (sempre) de um processo econômico e social e, por
conseguinte, nasce, de uma vontade política, afastando qualquer
possibilidade de que ela seja conseqüência de um fato que acontece de
forma casual. Na transição de um capitalismo concernente ao comércio
para um capitalismo industrial, surgiram áreas urbanas cuja vida social
distanciaria, gradativamente, o homem do campo. Nelas, tornava-se
comum o surgimento de bairros eminentemente residenciais, tanto para os
proletários quanto para as classes mais abastadas, que detinham os
meios de produção.

As condições das moradias da classe operária, em uma realidade cada


vez mais urbana, levaram a uma discussão sobre o planejamento de uma
cidade ideal, considerando esse novo ambiente econômico e social. Surgiu
então, o que se pode ser denominado como um pré-urbanismo cuja
pesquisa resultaria em conceitos e, mais tarde, projetos utópicos para Broad-Acre-City, desenho de F. L. Wright. Fonte: HASSENPFLUG,
novas cidades. As concentrações urbanas passaram a ser objeto de Dieter. “Sobre centralidade urbana”
estudo por profissionais de outras áreas, como, por exemplo, os da
médica. O urbanismo transformou-se em tema de discussão entre os
arquitetos em um segundo momento.

Na visão wrightiana, por exemplo, apregoava-se uma cidade


predominantemente horizontal e bucólica, onde as pessoas viveriam em
residências cercadas por jardins. As praças que antes eram espaços de
encontro, a partir do capitalismo industrial, passam a ser, como nos ensina
Sennett na obra O declínio do homem público (2), locais,
primordialmente, de passagem. Parques foram criados para proporcionar
melhor qualidade de vida – um pedaço do campo nas cidades ou o pulmão
das cidades. O urbanismo, com efeito, nasce como área do conhecimento,
sobretudo, calcado em uma necessidade de caráter profilático.

“naquele lugar [América do Norte], emergiu uma nova


civilização, a qual era fortemente ligada à cultura rural – e Superquadras, desenho de Lúcio Costa. Fonte: Registro de uma
por isso não particularmente interessada em fazer cidades e vivência

em dar especial atenção à vida urbana. Por outro lado, seria


totalmente errôneo tomar a civilização americana como
meramente rural. Sendo rural e urbana ao mesmo tempo, ela
combina e integra aspectos tradicionais e modernos desde o
primeiro momento. Os colonizadores, seguindo o ideal do
‘homem comum’, criaram o que eu chamo de ‘paisagem
republicana’, uma paisagem que não é rural nem urbana,
mas ambas simultaneamente – uma paisagem híbrida de
proveniência americana. A versão radical da Broad-Acre-City
de Frank Lloyd Wright é um exemplo perfeito de uma
paisagem republicana americana. Ela apresenta uma
paisagem rural-urbana ortogonalmente estruturada – um
espaço sem nenhum centro” (3).

Quando Lúcio Costa disse, certa vez, que o bom urbanista deveria ser Foto do Eixo Monumental. Fonte: site www.googleearth.com
aquele que coloca um pouco da cidade no campo e um pouco do campo
na cidade, ele estava, na realidade, apropriando-se do pensamento de
Soria (criador da Cidade – linear): ”Realizar la vida urbana; urbanizar el
campo”. Tal fato comprova a tese defendida por Carpintero (4) de que o
projeto para o Plano–piloto é simbiótico, ao procurar fundir pensamentos
urbanísticos de um período, como os da Cidade – linear, Cidade – jardim
e alguns dos princípios da Carta de Atenas.

Para o entendimento da divisão da cidade em duas escalas – Residencial


e Monumental – deve-se entender, inicialmente, o conceito de escala: o
resultado da comparação, considerando a questão dimensional, entre dois
objetos. Em segundo lugar, entender que os eixos estruturadores do Desenho de Paris. Fonte: Brasília, uma questão de escala
Plano-piloto – um para cada escala – foram implantados de forma a
proporcionar uma relação entre elas e, como conseqüência, reforçar os
seus conceitos morfológicos.

O eixo residencial representa o homem no nível individual de sua


existência, onde ele possa viver com boa qualidade, possibilitando-o de
usufruir, na forma plena, dos momentos de descanso e do convívio social
mais íntimo. As superquadras foram implantadas no sentido da curvatura
das curvas de nível, com o gabarito máximo de seis pavimentos,
permitindo que as copas das árvores e as coberturas dos edifícios

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estivessem, invariavelmente, em uma altura relativamente próxima umas


das outras. A superquadra é uma das faces humanas da cidade as quais
os críticos mais contumazes, por uma capacidade limitada ao intransitivo,
não conseguem vislumbrar.

Já o eixo da chamada escala monumental, que abriga os marcos e os


principais edifícios institucionais é a espinha do dorsal da malha e
representa a dimensão coletiva – sabiamente implantado
perpendicularmente às curvas de nível. Na extremidade leste do Eixo
Monumental, está a Praça dos Três Poderes, contrariando o
posicionamento mais central das praças, em outras cidades. Uma das
hipóteses para a escolha da sua localização é a preocupação com a
segurança. Sem embargo, a morfologia denuncia, como sendo a
preponderante, a expressão simbólica desejada por Lúcio Costa. Ela está
face a face com o cerrado ou, em suas próprias palavras: a mão de um
braço (sic), que toca o coração do país A Praça dos Três Poderes é a
continuidade da área urbanizada, sem incorporar o papel de um elemento
estruturador - os cidadãos têm como palcos da vida social pública os
outros centros da cidade: o Setor Comercial Sul e a Plataforma Rodoviária
– a convergência dos eixos.
Desenho representando as curvas de nível. Fonte: CARPINTERO,
Antônio Carlos. Brasília: pratica e teoria urbanística no Brasil,
“a máquina é o ídolo da segunda fase, ‘madura’ da 1956-1998
industrialização. Este período, também chamado de ‘fordista’
é fundamentado em: Ciência: baseou-se na produção em
massa (‘grandes séries’) [...] o fordismo planejava a cidade
social. A máquina, isto é, o uso da ciência e da tecnologia,
era considerado o melhor meio de pôr em prática esta idéia.
Enquanto objetivava uma visão urbana de alto desempenho
retratando eficiência, velocidade e especialização espacial, a
produção espacial fordista não estava interessada nem em Praça dos Três Poderes, desenho de Lúcio Costa. Fonte: Registro
de uma vivência
centros urbanos como na centralização como uma estratégia
de desenvolvimento urbano. [...] a cidade fordista se
manifestava fundamentalmente como uma antítese da cidade
medieval com a sua funcionalmente e altamente integrada
centralidade cívica” (5).

No que diz respeito à temporalidade social, deve-se considerar ainda que


a construção de Brasília é o resultado de um processo de ocupação do
interior do Brasil, anterior ao desencadeado no período JK. A vontade de
mudar a capital é antiga e foi formalizada pela constituição outorgada de
1891. Esse deslocamento para o oeste significaria a quebra de uma
inércia relativa à ocupação portuguesa próxima ao litoral – mentalidade
bem diferente da dos colonizadores de Castela, na outra metade da
América do Sul, como nos foi demonstrado no livro de Sérgio Buarque de
Holanda: Raízes do Brasil (6). Rua de Diamantina, desenho de Lúcio Costa. Fonte: Registro de
uma vivência

O projeto de integração do país por intermédio de rodovias apressou a


construção de uma nova capital e, como bem se sabe, a mentalidade
desenvolvimentista era a principal característica do período JK cujo
carro-chefe era a indústria automobilística. Para Lúcio Costa a
industrialização significava a própria redenção da sociedade, levando-a
criar, de forma intencional, uma cidade que viria a privilegiar o
deslocamento por automóveis. Os dois trechos utilizados abaixo
comprovam o envolvimento de Lúcio Costa com o pensamento da época.

“Quando não desvirtuado pelos artifícios e equívocos da


propaganda comercial e da especulação ideológica, o
desenvolvimento científico e tecnológico, além de libertar o
homem da fome e da indigência, cria condições capazes de
livrá-lo igualmente da vulgaridade e da sofisticação, esses
dois extremos que é levado pelas contingências da falsa
hierarquia social, e de o reconduzir àquela vida autêntica,
simples, densa e natural, sensível e inteligente, digna
verdadeiramente da sua condição. Por onde se comprova
ser a industrialização intensiva a base mesma de um novo
humanismo” (7).

“Brasília não é um gesto gratuito da vaidade pessoal ou


política, à moda da Renascença, mas o coroamento de um “Ubapuru”, Tarsila do Amaral. Fonte: www.wekwpedia.com
esforço coletivo em vista ao desenvolvimento nacional –
siderurgia, petróleo, barragens, auto-estradas, indústria

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automobilística, construção naval; corresponde assim à


chave de uma abóbada e, pela singularidade da sua
concepção urbanística e de sua expressão arquitetônica,
testemunha a maturidade intelectual do povo que a
concebeu, povo então empenhado na construção de um novo
Brasil, voltado para o futuro e já senhor do seu destino” (8).

Um dos princípios da Carta de Atenas apropriados por Lúcio Costa, foi o


da eliminação dos cruzamentos de vias, graças à utilização de mudanças
de nível. Objetivou-se, com esse recurso, facilitar o trânsito de veículos,
evitando o desgaste da máquina com excesso de paradas. É possível
percorrer todo o Plano-piloto sem nenhum cruzamento de vias em função
da tensão (9) de sua malha. O Eixão, que corta a cidade de ponta a
ponta, dividindo a área residencial no sentido transversal, além de ser uma
das avenidas principais da cidade, é uma rodovia federal.

Brasília é utilizado por Sennett, para mostrar como o privilégio dado ao


automóvel, desvirtuou a função das ruas que deixaram de servir como local
“Doces Bárbaros”. Fonte: site www.uol.com.br
de permanência e encontro, como acontece nas cidades tradicionais. O
homem que, agora, mora em um lugar urbano e bucólico ao mesmo
tempo, encontra-se colocado face a face com a ameaça de viver de forma
oculta – fato que nos mostra uma face menos humana da cidade. Da Carta
de Atenas, empresto este trecho, para mostrar a atenção dada à
circulação de veículos, pelo pensamento corbusiano:

“os veículos em trânsito não deveriam ser submetidos ao


regime de paradas obrigatórias a cada cruzamento, que
torna inutilmente lento seu percurso. Mudanças de nível, em
cada via transversal, são o melhor meio de assegurar-lhes
uma marcha contínua. Nas grandes vias de circulação e a
distância calculadas para obter o melhor rendimento, serão
estabelecidas interligações unindo-as às vias destinadas à
circulação miúda” (10).

Quanto à temporalidade individual, a idéia de Lúcio Costa pode, da mesma


forma, ser considerada como uma simbiose de aspectos formais de
teorias urbanísticas, mas desta feita, com as reminiscências do arquiteto Cúpulas do Congresso Nacional. Fonte: Módulo
oriundas de sua vivência, por exemplo, na Europa, e das viagens pelas
cidades mineiras. São elas – consciente ou inconscientemente – também
responsáveis pela expressividade alcançada pelo seu projeto e que
acabou sendo um dos diferenciais em relação aos concorrentes, segundo
o parecer do júri do concurso. Diferentemente das outras idéias, a de
Costa propunha que a nova capital deveria, em sua morfologia,
conformar-se à paisagem – a horizontalidade e a topografia deveriam ser
seus elementos compositivos – cidade e a paisagem natural fundiriam-se
como resultado de um magnífico entendimento do genius loci (11).
Estética e função confundem-se, dando ao projeto um caráter ético. O fato
de que o mundo, não o quantificado, mas sim, o percebido é considerado
perfeito por causa da interação de seus elementos de uma forma dinâmica Desenho feito por Lúcio Costa, mostrando a visão do Congresso
e harmoniosa, torna a busca pelo belo na obra arquitetônica uma atitude Nacional da Esplanada dos Ministérios. Fonte:
www.arkhebrasil.com.br
tanto imperativa quanto ética, para o arquiteto. Sobre as referências
utilizadas na concepção do projeto para o Plano-piloto Lúcio Costa
enumerou:

“1º – Conquanto criação original, nativa, brasileira, Brasília –


com seus eixos, suas perspectivas, sua ordenance – é de
filiação intelectual francesa. Inconsciente embora, a
lembrança amorosa de Paris esteve sempre presente.

2º – Os imensos gramados ingleses, os lawns da minha


meninice – é daí que os verdes de Brasília provêm.

3º – A pureza da distante Diamantina dos anos 20


marcou-me para sempre.

4º – O fato de ter então tomado conhecimento das fabulosas


fotografias da China de começo do século (+- 1900 –
terraplenos, arrimos, pavilhões com desenhos de
implantação – contidas em dois volumes de um alemão cujo
nome esqueci).

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5º – A circunstância de ter sido convidado a participar com


minhas filhas, dos festejos comemorativos da Parson School
of Design de Nova York e de poder então percorrer de
“Grayhound” as auto-estradas e os belos viadutos-padrão de
travessia nos arredores da cidade” (12).

A característica antropofágica dos movimentos culturais no Brasil, como a


Semana de Arte de 1922 e o Tropicalismo (década de 60), não nos difere
tanto de outros povos, pois só há duas formas de duas regiões se
relacionarem: o comércio e, por esse, como conseqüência, a cultura.
Todos os povos receberam ou recebem alguma influência externa, em
algum momento de sua história. Sem embargo, o Brasil tradicionalmente,
pelo menos nos períodos citados, soube buscar e incorporar influências
culturais externas de forma responsável, criativa e sem preconceitos.

“estar desarmado de preconceitos e tabus urbanísticos e


imbuído da dignidade implícita do programa: inventar a
capital definitiva do país” (13).

Por intermédio da síntese das teorias do pensamento moderno sobre o


urbanismo, somada ao repertório de experiências urbanas de Costa, como
vimos anteriormente, o projeto para o Plano-Piloto desmente o fato de que
o caráter simbólico não deveria fazer parte da cidade moderna. O
Congresso Nacional é colocado como elemento articulador entre a Praça
dos três Poderes e o resto da área urbanizada. Para o coroamento dos
plenários, Costa utilizou um antigo arquétipo: a mimetização do cosmos
através da cúpula, que pode ser encontrada no Panteão Romano, na
Catedral de São Pedro, no vaticano ou na descrição de Plutarco ao falar
obre a fundação de Roma, por Rômulo (14). A morfologia juntamente com Interior do Panteão, Roma. Foto de Francisco Lauande
o forte apelo simbólico transmitido pelas intenções volumétricas
explicitadas, particularmente, para os edifícios institucionais, são,
certamente, a razão de uma expressividade inelutável – tradutora da
esperança que o arquiteto compartilhava com seus contemporâneos, de
um futuro melhor para o país que viria após a construção da nova capital.
Paolo Portoguesi, na obra “Depois da arquitetura moderna”, explicita uma
de suas divergências com o pensamento moderno:

“na sua tendência para a simplificação, para a nudez, a


arquitetura moderna tirou à forma o seu valor simbólico e
transferiu-o, ao contrário, para a matéria” (15).

Brasília continua necessitando de um maior entendimento a começar, pelo


processo que desencadeou sua construção. Só assim, poderemos
preservá-la na forma devida; prepará-la para o futuro; e utilizar seus
ensinamentos. A obra completa de Lúcio Costa, portanto, deveria ser
objeto de estudo constante. O que ele nos deixou como legado está, na
realidade, muito além de sua produção, que estendida às suas reflexões,
pode ser convertida em ensinamentos atemporais com utilidade em
qualquer lugar, onde o bem-estar do homem seja o principal fim. Lúcio
Costa foi Arquiteto: tecnicista e humanista. Em 1985, ele avaliou assim, o
Plano-piloto já consolidado:

“O importante é que Brasília existe e foi concebida e “Cabeça rafaelesca arrebentada”, Salvador Dali. Fonte: Grandes
consolidada já na escala do Brasil definitivo. E para mim, mestres da pintura, Folha de São Paulo, 2007.
como urbanista, importa o seguinte:

1º a sua estrutura é original e tem ‘garra’;

2º a Praça dos Três Poderes, complementada pelos


Ministérios do Exterior e da Justiça na cabeceira da
Esplanada dos Ministérios, se constitui, desde o seu
nascedouro, numa obra-prima de integração arquitetônico-
urbanística.

3º o conceito de superquadras como extensão residencial


aberta ao público, contraposição ao de ¨condomínio¨ como
área fechada e privativa, foi inovador e revelou-se válido e
civilizado; Coroação de Dom Pedro I, Jean Baptiste Debret. Fonte: Estado de
São Paulo.
4º a plataforma-rodoviária já se consolidou e definiu como
centro de convergência do complexo urbano composto da

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cidade político-administrativa e dos improvisados


assentamentos satélites;

5º o programa das quadras econômicas agora


implementado, juntamente com o das agrovilas, evitará o
espraiamento ¨suburbano¨ e, conjugados, darão afinal à
cidade não só o sentido e conteúdo social, como o apoio
rural contíguo, coisas que lhe estavam faltando” (16).

As superquadras são ocupadas de uma forma bem diferente da maneira


imaginada por Costa: pessoas de distintas classes sociais vivendo porta a
porta. O urbanismo, assim como as leis, é incapaz de eliminar
determinados vícios da vida social. Sem embargo, os equívocos estéticos Parlatório do Palácio do Planalto. Fonte: Módulo

são tradutores fiéis das doenças que afligem a sociedade. O arquiteto é,


também, um construtor de símbolos, transmissores de valores
convencionados pela sociedade cuja atividade deve ter uma perspectiva
direcionada para uma crítica comprometida com a realidade de sua época.
A sua relação, conflitante ou não, com o poder, como conseqüência,
torna-se fundamental tanto quanto inevitável.

“a cidade é o mais democrática possível. É um cacoete


chamarem a cidade de autoritária. Não tem justificativa. A
cidade tem um espírito aberto. Eu já disse que a Praça dos
Três Poderes é a Versalhes do povo [...] é bom sinal o
urbanismo funcionar bem num governo de direita ou de
esquerda. O bom urbanismo está acima das ideologias.
Pode ocorrer tanto num sistema político autoritário quanto
num liberal. Tudo depende dos profissionais responsáveis.
Se eles são submissos a caprichos políticos, então são
irresponsáveis. O verdadeiro urbanismo está acima da direita
e da esquerda” (17).

Notas

1
COSTA, Lúcio. Com a palavra, Lúcio Costa. Organização: Maria Elisa Costa. 1ª ed. Rio de Janeiro:
Aeroplano, 2001, p. 58.

2
SENNETT, Richard. O declínio do homem público. Tradução: Lygia Araújo Watanabe. 1ª ed. São
Paulo: Companhia das Letras, 1988.

3
HASSENPLUG, Dieter. Sobre centralidade urbana. Publicado no site www.vitruvius.com.br. Acesso
em: 11 de Julho de 2007.

4
CARPINTERO, Antônio Carlos. Brasília: prática e teoria urbanística no Brasil, 1956-1998. Tese de
Doutoramento. São Paulo, USP-FAU, 1998.

5
HASSENPLUG, Dieter. “Sobre centralidade urbana”. Arquitextos, n. 085. São Paulo, Portal Vitruvius,
jun. 2007 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq085/arq085_00.asp>.

6
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo, Companhia das Letras, 2006.

7
COSTA, Lúcio. Op. cit, p. 25.

8
Idem, ibidem.

9
O grau de tensão de uma via é maior quanto menor for o número de cruzamentos dela com as
demais.

10
LE CORBUSIER. A carta de Atenas. Tradução: Rebeca Sherer. São Paulo, Hucitec/Edusp, 1993, p.
98.

11
Termo que se refere à força do lugar e utilizado em CHING, Francis D. K. Forma, espaço e ordem.
Tradução: Alvamar Helena Lamparelli. São Paulo, Martins Fontes, 1999.

12
COSTA, Lúcio. Op. cit, p. 93.

13
Idem, ibidem.

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Informação retirada de CORNELL, Elias. A arquitetura da relação – cidade campo.

15
PORTOGUESI, Paolo. Depois da arquitetura moderna. Lisboa, Edições 70, 1985, p. 29.

16
Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 2, nº 15.

17
COSTA, Lúcio. Registro de uma vivência. São Paulo, Empresa das Artes, 1995, p. 5.

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