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Parte I

Fundamentação
1
Breve história da moderna psicologia social
Maria Cristina Ferreira

Introdução os psicólogos sociais da primeira vertente


tendem a enfatizar principalmente os pro-
A psicologia social é uma disciplina relati- cessos intraindividuais, enquanto os da se-
vamente recente, já que adquiriu tal status gunda tendem a privilegiar as coletividades
apenas no começo do século XX, razão pela sociais.
qual alguns dos que contribuíram para a A história “oficial” da psicologia social
construção de seu passado ainda estão vi- foi contada, durante muito tempo, nos ca-
vos e atuantes em suas respectivas áreas de pítulos dos Handbooks of Social Psychology,
investigação. Um rápido exame dessa curta escritos por Gordon Allport e sucessiva-
história evidencia que, desde o início, essa mente publicados nos anos de 1954, 1968
área da psicologia social foi marcada por e 1985 com ligeiras modificações. Contudo,
uma relativa falta de consenso acerca de seu o trabalho de Allport tem sofrido críticas
objeto de estudo. Ainda assim, é possível ob- (Apfelbaum, 1992) associadas ao fato de
servar que o binômio indivíduo­‑sociedade, ser uma história parcial, que ressalta ape-
isto é, o estudo das relações que os indiví- nas as raízes da psicologia social psicológi-
duos mantêm entre si e com a sociedade ou ca, procurando assim legitimar tão somente
a cultura, esteve frequentemente no centro os pressupostos teóricos e metodológicos
das preocupações dos psicólogos sociais. de parte da comunidade científica que atua
No entanto, a ênfase maior dada ao no âmbito dessa modalidade de psicologia
indivíduo ou à sociedade irá acompanhar a social. Publicações mais recentes (Álvaro e
evolução da teorização no campo da psico- Garrido, 2007; Farr, 1999; Jahoda, 2007;
logia social desde os seus primórdios, levan- Vala e Monteiro, 2004) têm procurado supe-
do à caracterização de duas diferentes mo- rar tais limitações ao abordar as raízes não
dalidades da disciplina: a psicologia social apenas da psicologia social psicológica, mas
psicológica e a psicologia social sociológica. também da psicologia social sociológica e de
A psicologia social psicológica, segundo a outras vertentes que, ao longo do tempo, fo-
definição de Gordon Allport (1954), que se ram desenvolvendo­‑se em outras partes do
tornou clássica, procura explicar os senti- mundo, de forma independente da corrente
mentos, pensamentos e comportamentos do dominante que era praticada sobretudo nos
indivíduo na presença real ou imaginada de Estados Unidos.
outras pessoas. Já a psicologia social socio- O presente capítulo tem como objetivo
lógica, segundo Stephan e Stephan (1985), realizar uma revisão descritiva e cronológi-
tem como foco o estudo da experiência so- ca dos principais eventos apontados como
cial que o indivíduo adquire a partir de sua marcantes no desenvolvimento das diferen-
participação nos diferentes grupos sociais tes modalidades nas quais se desdobra a
com os quais convive. Em outras palavras, moderna psicologia social, como forma de
14 Torres, neiva & cols.

contextualizar suas origens, sem ter a pre- XIX, tendo exercido grande influência sobre
tensão de esgotar o assunto. Nesse sentido, a psicologia. Em 1859, Darwin publica a
inicia­‑se com a abordagem dos autores que, obra Origem das espécies, na qual desenvolve
na segunda metade do século XIX, desen- a tese da seleção natural (Boeree, 2006a).
volveram reflexões sobre temas que exer- Segundo ela, na briga pelos escassos recur-
cerão significativa influência na construção sos da natureza, somente as espécies com
da nova disciplina para, em seguida, tecer maior capacidade de adaptação às varia-
comentários sobre as obras que assinalaram ções da natureza conseguiram sobreviver e
a sua fundação. Posteriormente, discutem­ reproduzir­‑se. Darwin acreditava, portanto,
‑se os desdobramentos que ocorreram nos que o ser humano constitui­‑se como o pro-
Estados Unidos, na Europa e na América duto final de um processo evolucionista que
Latina, para, à guisa de conclusão, trazer envolveu todos os organismos vivos, ou seja,
algumas reflexões acerca do estado atual um animal social que desenvolveu maior ca-
da psicologia social. Cumpre ressaltar que pacidade de se adaptar física, social e men-
a excelente revisão histórica de ambas as talmente às mudanças ambientais e sociais.
vertentes da psicologia social, realizada por Para ele, então, haveria uma continuidade
Álvaro e Garrido (2007), mostrou­‑se funda- entre as espécies humanas e não humanas.
mental à elaboração do presente capítulo. Tempos depois, Herbert Spencer
(1820­‑1903), fundamentando­‑se na teoria
da seleção natural, converte­‑se em um dos
Os precursores principais líderes do movimento conhecido
da psicologia social como darwinismo social, sendo dele a ex-
pressão “sobrevivência do mais adaptado”.
A expressão “psicologia social” foi utilizada No livro Princípios de psicologia, publicado
pela primeira vez em 1908, ou seja, no iní- em 1870, ele aplica as ideias de Darwin so-
cio do século XX, em dois diferentes livros, bre o desenvolvimento da espécie humana
razão pela qual esse ano é considerado por ao desenvolvimento de grupos, socieda-
muitos como a data de fundação da discipli- des e culturas, enfatizando a existência de
na. Porém, ao longo do século XIX, quando uma continuidade entre ambos (Boeree,
os limites entre a sociologia e a psicologia 2006a). Seu principal argumento era o de
ainda não eram muito claros, foram publi- que as nações e os grupos étnicos podiam
cadas várias obras nas quais o indivíduo e a ser classificados na escala evolucionista de
sociedade já eram abordados e discutidos. acordo com o seu grau de desenvolvimento,
Seus autores eram pensadores oriundos de organização, poder e capacidade de adap-
vários campos do saber, como, por exemplo, tação. Desse modo, os povos mais civiliza-
a filosofia, a antropologia, a biologia, etc., dos e avançados em termos culturais eram
já que naquela época o papel profissional do hierarquicamente superiores aos povos mais
psicólogo social ainda não havia sido insti- atrasados no que tange à escala evolucio-
tuído. Entre esses, merecem destaque os es- nista. As abordagens de Darwin e Spencer
tudos de Darwin e Spencer, na Inglaterra, os exerceram forte influência na psicologia dos
estudos de Wundt, na Alemanha, e os estudos instintos, praticada ao início do século XX
de Durkheim, Tarde e Le Bon, na França. por alguns psicólogos sociais, conforme se
verá mais à frente.

Os precursores da psicologia
social na Inglaterra O precursor da psicologia
social na Alemanha
A teoria da evolução de Charles Darwin
(1809­‑1882) é considerada uma das mais Wilhelm Wundt (1832­‑1920) é o principal
poderosas e populares inovações do século representante da psicologia dos povos, que
Psicologia Social: Principais temas e vertentes 15

surgiu na esteira do movimento de reunifi- termos coletivos. Por essa razão, detém­‑se
cação da Alemanha e que tinha como foco o no estudo da língua, da arte, dos mitos e
estudo dos principais atributos em comum dos costumes, como forma de compreender
que definiam o caráter nacional ou o pensa- a mente. Em síntese, haveria uma íntima
mento coletivo do povo alemão (Mcgarty e relação entre a mente humana e a cultura,
Haslam, 1997). Suas ideias, entretanto, so- entre o indivíduo e o contexto cultural no
freram uma considerável evolução ao longo qual ele se desenvolve. Desse modo, a psico-
de sua carreira. Assim é que, inicialmente, logia deveria estudar as produções mentais
ele defendia que a psicologia científica de- coletivas originadas das ações de conjuntos
veria ser vista como uma ciência natural que de indivíduos se quisesse chegar à mente
se ocupava do estudo da mente, isto é, dos humana (Farr, 1999). A psicologia dos po-
processos mentais básicos (sensação, ima- vos de Wundt exerceu influência principal-
gem e sentimentos). Para Wundt, esse tipo mente sobre a psicologia social sociológica,
de investigação deveria ser conduzido por em virtude da ênfase atribuída à questão da
meio da introspecção, ou seja, mediante a determinação sócio­‑histórica do indivíduo e
auto­‑observação rigorosa e controlada do ao uso da metodologia não experimental.
modo pelo qual esses fenômenos ocorriam
(Álvaro e Garrido, 2007).
Em virtude dessas preocupações, Wundt Os precursores da psicologia
criou em 1879, na cidade de Leipizig, o pri- social na França
meiro laboratório de psicologia do mundo,
tendo ali realizado uma série de experimen- Conforme já mencionado, entre os pre-
tos com o objetivo de estudar os processos cursores da psicologia social na França
mentais básicos, além de ter fundado o pri- encontram­‑se Durkheim, Tarde e Le Bon.
meiro periódico de psicologia experimental. Emile Durkheim (1858­‑1917) é considerado­
Tais ações levaram­‑no a ser considerado o um dos fundadores da sociologia, tendo
fundador da psicologia experimental. publicado várias obras nas quais aborda a
Com o passar do tempo, porém, Wundt evolução da sociedade, os métodos da socio-
sentiu necessidade de estudar os proces- logia e a vida religiosa. No livro intitulado
sos mentais mais complexos ou superiores, Representações individuais e representações
como a memória e o pensamento, tendo coletivas, publicado em 1898, ele desenvolve­
constatado que o método experimental não o conceito de representações coletivas (Melo
era adequado a tal estudo. Assim, propôs Neto, 2000), que exerceu significativa influ-
uma distinção entre a psicologia experimen- ência sobre a psicologia social europeia. Para
tal, responsável pelo estudo dos processos ele, as representações coletivas (como a re-
mentais básicos, e a Völkerpsychologie (psi- ligião, os mitos, etc.) constituem­‑se em um
cologia dos povos), dedicada ao estudo dos fenômeno ao nível da sociedade e distinto­
processos mentais superiores por meio do das representações individuais, que estão no
método histórico­‑comparativo. Com isso, nível do indivíduo. Nesse sentido, postula­
ele estabelece uma clara distinção entre os que os sentimentos privados só se tornam
fenômenos psicológicos mais externos, que sociais quando extrapolam os indivíduos e
estariam na periferia da mente, e os fenô- associam­‑se, formando uma combinação
menos mais profundos, que constituiriam a que se perpetua no tempo, transformando­
mente propriamente dita (Álvaro e Garrido, ‑se na representação de toda uma sociedade.
2007). As posições de Durkheim influenciarão so-
Em sua Völkerpsychologie, Wundt toma bretudo o psicólogo social Serge Moscovici,
a mente como um fenômeno histórico, um que, muitos anos depois, desenvolve a teo-
produto da cultura e da linguagem de um ria das representações sociais.
determinado povo, que não poderia ser ex- Gabriel Tarde (1843­‑1904), na obra
plicada em termos individuais, mas sim em As leis da imitação, publicada em 1890, de-
16 Torres, neiva & cols.

fende que a vida social tem como mecanis- barbárie que não praticariam se estivessem
mo básico a imitação (Karpf, 1932). Desse sozinhas.
modo, qualquer produção individual, surgi- Quando enfatiza a irracionalidade das
da sob a forma de uma invenção ou desco- multidões, Le Bon estabelece um vínculo en-
berta, propaga­‑se na vida social por meio da tre a psicologia social e a psicopatologia, ao
imitação, uniformizando­‑a. Para ele, as ini- qual se contrapõe a psicologia social psicoló-
ciativas individuais constituem­‑se em uma gica de base cognitiva, surgida nos anos de
invenção, enquanto as uniformidades da 1970 (Farr, 1999). Por outro lado, a questão
vida social associam­‑se à imitação, que con- da sugestão ou influência social, implícita na
siste, portanto, em uma socialização da ino- psicologia das multidões, posteriormente se
vação individual. Avançando em suas pro- converterá em objeto de atenção da psicolo-
posições, o autor ressalta que as pessoas de gia social psicológica de base experimental.
status inferior costumam imitar as de maior No entanto, o estudo da mente grupal e do
status, que o processo de imitação começa comportamento das multidões propriamen-
lentamente e com o tempo se acelera e que te dito, foco central da obra de Le Bon, so-
a cultura nacional é imitada antes da estran- mente será resgatado mais recentemente,
geira (Álvaro e Garrido, 2007). As ideias de por autores como Moscovici e colaboradores
Tarde exercerão influência no trabalho de (McGarty e Haslam, 1997).
Ross, que publicou um dos primeiros livros
de psicologia social.
Em 1895, Gustav Le Bon (1814­‑1931)
publicou o livro Psicologia das multidões A fundação da psicologia social
(Melo Neto, 2000), que exerceu significa-
tiva influência nos trabalhos de vários psi- No início do século XX, a psicologia social
cólogos sociais posteriores. Nesse livro, o começa a adquirir o status de uma discipli-
autor defende a tese de que as massas ou na independente, e seu centro de gravidade
multidões constituem­‑se em seres psíquicos começa a mudar da Europa para os Estados
de características diferentes dos indivíduos Unidos (Jahoda, 2007). Duas obras, publica-
que as compõem. Nesse sentido, quando das no ano de 1908, irão marcar a fundação
eles se juntam às massas, perdem suas ca- oficial da psicologia social moderna: Uma
racterísticas superiores e sua autonomia, introdução à psicologia social, de William
passando a ser regidos por uma alma cole- McDougall, e Psicologia social: uma resenha
tiva, com características independentes das e um livro texto, de Edward Ross (Pepitone,
de seus membros, além de mais primitivas 1981). Cumpre registrar, porém, que esses
e inconscientes. As multidões seriam, ­assim, dois autores, embora fossem contemporâne-
as responsáveis pelo fato de os sujeitos per- os e tivessem usado a expressão psicologia
derem sua individualidade e passarem a social nos títulos de seus livros, não estavam
fazer parte de um todo com características falando do mesmo assunto.
totalmente distintas das partes que o com- Edward Ross (1866­‑1951) era um so-
põem. ciólogo norte­‑americano que, influenciado
Segundo Le Bon, ao se encontrar em pelas obras de Tarde e de Le Bon, caracte-
uma multidão, o indivíduo sufoca sua per- rizou a psicologia social como o estudo das
sonalidade consciente e passa a ser domi- uniformidades de pensamentos, crenças e
nado pela mente coletiva da multidão, que ações decorrentes da interação entre os seres
é capaz de levar seus membros a apresen- humanos (Pepitone, 1981). Segundo Ross,
tar comportamentos unânimes, emocionais os fenômenos subjacentes a essa uniformi-
e desprovidos de racionalidade. Em outras dade são a imitação, a sugestão e o contá-
palavras, as pessoas perdem sua capacidade gio, o que explicaria a rápida uniformidade
de raciocínio e tornam­‑se altamente suges- verificada entre as emoções e as crenças das
tionáveis, o que as leva a cometer atos de multidões. Embora Ross tenha especificado
Psicologia Social: Principais temas e vertentes 17

algumas variáveis que interferem na suges- social psicológica e a psicologia social socio-
tão (como, por exemplo, o prestígio da fon- lógica que se avizinhava. A partir do início
te), sua análise da vida social humana não do século XX, ambas as correntes sofrerão
se reverteu no desenvolvimento de um mo- grande impulso nos Estados Unidos, ainda
delo teórico formal, tendo ele se limitado a que trilhando direções distintas. Nesse sen-
organizar observações extraídas da história, tido, acompanharemos inicialmente a evolu-
da literatura e do trabalho de outros auto- ção da psicologia social psicológica para, em
res. seguida, trilharmos os caminhos percorridos
McDougall (1871­‑1938), por outro pela psicologia social sociológica ao longo
lado, era um psicólogo britânico que foi do século XX.
fortemente influenciado pelas concepções
de Darwin e Spencer sobre a evolução. Sua
obra gira em torno do conceito de instinto,
O desenvolvimento da
ressaltando a importância de certas carac-
terísticas inatas e instintivas para a vida so- psicologia social psicológica
cial. Segundo ele, os instintos apresentam nos Estados Unidos
três componentes: a percepção, que leva o
indivíduo a prestar atenção aos estímulos Nas primeiras décadas do século XX, os
relevantes a seus instintos; o comporta- Estados Unidos assistem à ascensão do beha-
mento, responsável por levar o indivíduo a viorismo, segundo o qual uma psicologia
manifestar condutas destinadas a satisfazer verdadeiramente científica deveria estudar
seus instintos; e a emoção, que faz com que e explicar apenas o comportamento humano
os instintos estejam associados a estados observável, sem considerar construtos men-
emocionais positivos ou negativos (Boeree, tais não observáveis, como a mente, a cog-
2006b). nição e os sentimentos (McGarty e Haslam,
Propôs ainda uma classificação dos 1997). Com isso, os psicólogos sociais pro-
instintos em primários, de segunda ordem gressivamente abandonam as explicações
e pseudoinstintos (Álvaro e Garrido, 2007). do comportamento social em termos de
Os instintos primários são em número de instintos, bem como o uso da introspecção,
sete e associam­‑se a emoções. Entre eles, es- passando a adotar uma psicologia social
tão, por exemplo, a fuga, associada ao medo, eminentemente experimental e focada no in-
e o combate, associado à raiva. Os instintos divíduo (Jahoda, 2007). Consequentemente,
secundários são em número de quatro e a divisão entre psicologia social psicológica
mostram­‑se importantes para a vida social, e sociológica aprofunda­‑se na medida em
como, por exemplo, o instinto gregário. Já que a psicologia passa a ser vista muito mais
os pseudoinstintos são em número de três e como uma ciência natural do que como uma
interferem nas interações entre as pessoas, ciência social (Pepitone, 1986).
como no caso da imitação, por exemplo. Os Cumpre registrar, porém, que o primei-
estudos de McDougall são considerados pre- ro experimento em psicologia social ocorreu
cursores das teorias motivacionais, que pos- ainda no século XIX, tendo sido conduzido
teriormente se tornarão objeto de investiga- por Tripplett em 1897 (Rodrigues, 1972).
ção de alguns psicólogos sociais (McGarty e Esse experimento foi realizado com crianças
Haslam, 1997). que foram solicitadas a enrolar um anzol o
No momento em que a psicologia co- mais rapidamente possível, sozinhas ou na
meça a se definir como uma disciplina in- presença de outras crianças que faziam a
dependente, a publicação concomitante das mesma tarefa. Os resultados mostraram que
obras de Ross e McDougall, estando situadas elas agiam muito mais rapidamente quan-
uma no âmbito da psicologia e outra, no âm- do estavam acompanhadas do que quando
bito da sociologia, pode ser vista como uma estavam sozinhas, lançando assim as bases
evidência da separação entre a psicologia do estudo do fenômeno de facilitação social,
18 Torres, neiva & cols.

que ainda hoje é um dos temas de interesse imigraram para os Estados Unidos. Além dis-
da psicologia social psicológica. so, os psicólogos sociais foram convocados a
Entretanto, é somente em 1924 que cooperar na resolução dos problemas sociais
surge o livro­‑texto de psicologia social de provocados pela guerra. Tais fatos influen-
Floyd Allport (1890­‑1978), considerado um ciarão sobremaneira os novos rumos toma-
dos mais famosos psicólogos sociais beha- dos pela psicologia social psicológica no pe-
vioristas da época (Pepitone, 1981). O autor ríodo que vai da década de 1930 à década de
contrapõe­‑se ao estudo da consciência cole- 1950. Nesse sentido, os psicólogos europeus
tiva ou mente grupal pela psicologia social, trarão para a psicologia norte­‑americana a
por acreditar não ser possível a existência perspectiva do gestaltismo, que substituirá
de uma mente comum a várias pessoas, de o behaviorismo até então dominante. Para
modo similar ao que ocorre com um indi- o gestaltismo, as propriedades perceptivas
víduo particular. Além disso, ele considera de um objeto formavam uma gestalt, isto
que a psicologia social faz parte da psicolo- é, um todo que apresentava características
gia do indivíduo e não da sociologia e, como distintas da soma das partes que o consti-
tal, deve ocupar­‑se do estudo das influên- tuem (McGarty e Haslam, 1997). Entre os
cias do comportamento do indivíduo em ou- psicólogos sociais europeus que, nos anos
tras pessoas e das reações a tais influências 1940, desenvolveram trabalhos influencia-
(Karpf, 1932). dos pelas ideias do gestaltismo destacam­
Allport desenvolve uma série de expe- ‑se Muzar Sheriff (1906­‑1988), Kurt Lewin
rimentos sobre facilitação social, demons- (1890­‑1947), Fritz Heider (1896­‑1988) e
trando que os grupos nos quais as pessoas Solomon Asch (1907­‑1996).
estavam juntas, mas trabalhando individual­ Com o objetivo de explorar as condições
mente, em tarefas mentais ou perceptuais, e os fatores que levam à formação e à perma-
apresentavam melhor desempenho do que nência das normas sociais, Sheriff (1936) de-
pessoas que estavam sozinhas realizando o senvolveu vários experimentos. Neles, uma
mesmo tipo de tarefa. Com sua obra, ele de- pessoa era solicitada a fazer julgamentos de
fine, portanto, os limites da psicologia social estímulos ambíguos (o quanto uma luz em
psicológica como uma disciplina objetiva e um quarto escuro se movia, quando na rea­
de base experimental (Jones, 1985). lidade estava parada), individualmente ou
Nos anos de 1920, inicia­‑se também na presença de outras pessoas. Observou­‑se
o estudo das atitudes, sob a coordenação que a pessoa, ao tomar conhecimento dos
de Thurstone e colaboradores, que desen- julgamentos feitos pelos demais (norma so-
volveram uma metodologia própria para a cial), antes ou depois do próprio julgamento,
investigação do referido construto, toma- tendia a convergir para a norma do grupo e a
do como um fenômeno mental (McGarty e desconsiderar a própria norma.
Haslam, 1997). Esse trabalho pioneiro sus- Lewin era um psicólogo judeu que
citou o desenvolvimento de várias outras imigrou para os Estados Unidos em 1933 e,
técnicas para a mensuração das atitudes. juntamente com seus colaboradores (Lewin,
Tais técnicas, aliadas à sofisticação cada vez Lippitt e White, 1939), desenvolveu pesqui-
maior do método experimental, garantirão sas sobre o clima grupal, nas quais estudou
o status científico da psicologia social psico- experimentalmente, em grupos reais, a in-
lógica ao longo das décadas subsequentes fluência dos estilos de liderança no compor-
(Graumann, 1996). tamento do grupo. Os resultados levaram­‑no
a concluir que o papel do líder era central
para o funcionamento do grupo, já que di-
A Segunda Guerra Mundial ferentes estilos de liderança provocavam ní-
veis distintos de produtividade e agressão.
Com a escalada do nazismo na Europa e a Lewin (1943) também propôs a teoria de
Segunda Guerra Mundial, muitos cientistas campo, na qual o grupo era visto como um
Psicologia Social: Principais temas e vertentes 19

campo de forças que tinha primazia sobre Asch (1946) coloca­‑se contra a posição
suas partes, isto é, sobre seus membros. Ele adotada pelos psicólogos sociais adeptos do
inaugurou ainda um programa a que deno- behaviorismo, procurando aplicar os princí-
minou de pesquisa­‑ação, cujo objetivo era pios gestaltistas no campo da percepção de
avaliar o comportamento dos membros de pessoas, que até hoje consiste em uma das
grupos da comunidade e colaborar com sua áreas centrais de estudo da psicologia so-
mudança de atitudes e comportamentos. cial psicológica. Segundo ele, ao formarmos
Em contraste com a posição de Allport uma impressão sobre uma pessoa, construí­
e de outros psicólogos sociais experimen- mos um todo organizado sobre ela, uma im-
tais, para quem o grupo representava tão pressão que difere do somatório de todas as
somente uma variável externa que exercia suas características pessoais. Os trabalhos
influência sobre os indivíduos que dele par- de Sheriff, Lewin, Heider e Asch exerceram
ticipavam, a concepção de Lewin de que o forte influência sobre toda uma geração de
grupo tem uma dinâmica própria, não re- seguidores que fizeram a história da psico-
dutível à soma das partes que o compõem, logia social psicológica nas décadas subse-
soou como bastante original e teve grande quentes.
impacto nas discussões teóricas travadas na
época (Pepitone, 1981). Seus engenhosos
experimentos trouxeram a realidade social O período do pós­‑guerra
para dentro do laboratório e converteram­
‑se em um modelo paradigmático de pesqui- O período do pós­‑guerra constituiu­‑se em
sas sobre processos e estruturas grupais que uma fase de intensa produção pelos psi-
eram ao mesmo tempo empíricas e teóricas cólogos sociais da época, estimulada pela
(Smith, 1961). continuação dos esforços de cooperação
Os trabalhos seminais de Heider empreendidos durante a guerra e pela cons-
(1944, 1946, 1958) lançaram as bases con- tatação por parte das entidades militares e
ceituais de duas linhas de pesquisa que do- governamentais de que as ciências sociais e
minarão as décadas subsequentes. Nas pu- comportamentais estavam preparadas para
blicações de 1944 e 1958, ele estabelece os colaborar no gerenciamento dos comple-
fundamentos das teorias de atribuição, ao xos problemas humanos daquele período.
defender a ideia de que, em suas relações Desse modo, nas duas décadas seguintes à
interpessoais, o indivíduo percebe o outro Segunda Guerra Mundial, a psicologia so-
e suas ações como um todo organizado e, cial psicológica converte­‑se em um campo
por essa razão, tende a procurar as causas científico produtivo, com bases solidamen-
do comportamento do outro, como forma te estabelecidas, e torna­‑se responsável por
de tornar o mundo social mais organizado, uma série de pesquisas inovadoras, talento-
estável e previsível. Para tanto, utiliza­‑se sas e cada vez mais sofisticadas do ponto de
de fatores pessoais, internos (capacidade, vista metodológico, as quais desencadearão
esforço, etc.) ou de fatores impessoais, ex- o surgimento de novas direções de pesquisa
ternos (sorte, situação, etc.). Já no artigo de e teorização (Jackson, 1988).
1946, Heider constrói os pilares das teorias Com o intuito de melhor compreender
da consistência cognitiva ao propor o princí- as razões que levaram pessoas aparente-
pio do equilíbrio cognitivo, segundo o qual mente normais e civilizadas a cometer hor-
as pessoas tendem a manter sentimentos e rores contra outros seres humanos durante
cognições coerentes sobre um mesmo objeto a guerra, Theodor Adorno (1903­‑1969)
ou pessoa, de modo a obter uma situação dedica­‑se ao estudo dos tipos de persona-
de equilíbrio. Quando esse equilíbrio se des- lidade. Ele pertencia à Escola de Frankfurt
faz, elas vivenciam uma situação de tensão – nome utilizado para designar o Instituto
e procuram restabelecê­‑lo mediante a mu- de Pesquisa que funcionava na Universidade
dança de algum dos elementos da situação. de Frankfurt – e, a exemplo de outros emi-
20 Torres, neiva & cols.

nentes psicólogos já citados, também imi- las mãos de Solomon Asch (1907­‑1996), que
grou para os Estados Unidos durante a anteriormente havia realizado estudos sobre
guerra. Logo após o término do conflito, irá a formação de impressões, e Leon Festinger
publicar, juntamente com outros membros (1919­‑1989). Tais pesquisas constituíram as
de sua equipe (Adorno, Frenkel-Brunswik, bases da teorização sobre influência social e
Levinson e Sanford, 1950), a obra A perso‑ processos intragrupais, temas presentes na
nalidade autoritária, na qual defende a tese maior parte dos modernos manuais de psi-
de que o preconceito contra as minorias so- cologia social psicológica.
ciais em geral (bem como o antissemitismo, Na sequência dos estudos iniciados
em particular) está associado a um tipo de por Sheriff nos anos de 1930, Asch (1952)
personalidade autoritária, caracterizado por dedicou­‑se a pesquisas sobre a influência
traços de rigidez de opiniões, adesão a valo- social, procurando avaliar a influência da
res convencionais e intolerância. pressão do grupo sobre o julgamento dos in-
Outra consequência do período do divíduos. Em contraste com os experimen-
pós­‑guerra foi o ressurgimento do interesse tos de Sheriff, nos quais os estímulos eram
pela pesquisa sobre atitudes. Enquanto na ambíguos, ele usou estímulos sem nenhuma
primeira fase da pesquisa sobre o tema o ambiguidade (comparação de linhas de va-
foco era a mensuração das atitudes, confor- riados tamanhos com uma linha de tama-
me já apontado, nessa nova fase os psicólo- nho padrão). Ainda assim, seus experimen-
gos sociais se concentrarão na investigação tos demonstraram que, quando uma pessoa
experimental da mudança de atitudes. tem certeza de que seu julgamento está cor-
Tais estudos iniciaram­‑se ainda nos reto, mas é confrontada com uma maioria
tempos de guerra, sob a liderança de Carl que fez um julgamento errado, ela tende a
Hovland (1912­‑1961), com o objetivo de se conformar com essa maioria e mudar seu
verificar os efeitos de filmes bélicos e de julgamento, seja porque realmente passa a
programas de treinamento do exército norte­ acreditar que estava enganada em seu julga-
‑americano sobre as atitudes dos soldados. mento e que a maioria é que estava correta,
Terminada a guerra, Hovland e colaborado- seja porque tem necessidade de ser aceita
res (Hovland, Jonis e Kelley, 1953) desenvol- pelo grupo.
veram um extenso programa de pesquisas ex- Os estudos de Asch sobre conformida-
perimentais sobre comunicação e persuasão, de suscitaram uma série de desdobramentos
com o intuito de elucidar as influências das posteriores, relacionados à investigação dos
características do comunicador (como, por diferentes fatores que influenciavam tal fe-
exemplo, seu prestígio, seu grau de credibili- nômeno, além de inspirar os experimentos
dade, etc.), da mensagem (como, por exem- clássicos de Milgram (1965) sobre obediên-
plo, seu conteúdo) e da audiência (como, por cia à autoridade. Em tais experimentos, o
exemplo, suas características de personalida- autor demonstra que os indivíduos sentem­
de) na mudança de atitudes. Esses estudos ‑se tão submissos à autoridade do experi-
fizeram com que as atitudes tivessem um mentador que, atendendo às suas instru-
papel central na psicologia social psicológi- ções, são capazes de ministrar choques cada
ca durante os anos de 1960, tendo ocupado vez mais fortes em uma determinada pessoa
maior espaço do que qualquer outro tópico (por causa de erros que ela vai simulando
nos livros­‑texto da época (McGuire, 1968). cometer durante o desempenho de uma
Contudo, nos anos de 1970, esse interesse tarefa), apesar de ela demonstrar que está
entrou em declínio com a consequente ascen- sentindo dores cada vez piores.
são do cognitivismo. Festinger (1954) recebeu influências de
Uma terceira consequência do pós­ Lewin, tendo publicado uma das primeiras
‑guerra foi o impulso que as investigações teorias formais em psicologia social – a teoria
sobre grupos receberam, especialmente pe- da comparação social –, com base nos resul-
Psicologia Social: Principais temas e vertentes 21

tados de uma série de experimentos destina- destinadas a testar seus pressupostos sobre
dos a testar hipóteses sobre as pressões para as inconsistências, contradições, tensões ou
a uniformidade que ocorrem nos grupos. De perturbações da harmonia cognitiva que
acordo com essa teoria, as pessoas, quando movem o comportamento social, bem como
não têm um padrão objetivo de comparação, sobre os diferentes fatores que interferiam
sentem necessidade de se comparar com os na redução ou não da dissonância. Apesar
demais membros de seu grupo e confirmar de ter sido também alvo de críticas, ela foi a
que eles têm crenças e habilidades seme- principal responsável pelo desenvolvimento
lhantes às suas, o que as faz se sentirem mais da psicologia social psicológica nas décadas
seguras. Quando, por outro lado, surge um seguintes (Rodrigues, Assmar e Jablonski,
membro com opinião divergente, o grupo 2000).
faz pressão para que ele mude essa opinião À medida que o interesse pelas teo-
e conforme­‑se às regras grupais e, caso isso rias da dissonância e do equilíbrio decaía,
não aconteça, rejeita­‑o, levando esse mem- a pesquisa sobre as teorias da atribuição au-
bro a escolher outros grupos de comparação. mentava, tendo marcado os anos de 1970
A teoria de Festinger foi submetida a inú- e 1980. Essas teorias desenvolveram­‑se a
meros desdobramentos, especialmente por partir dos trabalhos de Heider (1944, 1958)
Shachter (1959), que desenvolveu uma sé- sobre as relações interpessoais e têm como
rie de experimentos sobre a necessidade de principal objetivo a investigação acerca do
comparação de experiências emocionais. modo pelo qual as pessoas inferem causas
No final dos anos de 1950 e ao longo sobre o próprio comportamento e sobre o
dos anos de 1960 e 1970, as pesquisas sobre comportamento das outras pessoas, isto é,
mudança de atitudes e sobre processos gru- o que as leva a concluir que o responsável
pais foram progressivamente sendo substi- pelo comportamento é o próprio indivíduo
tuídas pelas teorias de base cognitiva. Nesse ou a situação. Tais preocupações foram in-
sentido, as teorias da consistência domina- tensamente exploradas nas obras de Jones e
ram a década de 1960, sob a influência do Davis (1965), Kelley (1967), Ross (1977) e
princípio do equilíbrio cognitivo de Heider Weiner (1986), sendo as responsáveis pelo
(1946). Entre elas, merece destaque a teo­ fato de, ainda hoje, as teorias atribuicionais
ria da dissonância cognitiva de Festinger constituírem­‑se em importante campo de
(1919­‑1989), que antes já havia desenvolvi- estudo e pesquisa da psicologia social psi-
do a teoria da comparação social. cológica.
De acordo com Festinger (1957), as As teorias da atribuição representam
pessoas tendem a buscar a harmonia ou a também a consolidação definitiva do cogni-
congruência entre suas crenças e atitudes. tivismo, que se tornou, a partir dos anos de
Desse modo, quando são induzidas a emitir 1980, a perspectiva dominante na psicolo-
atitudes contrárias às suas crenças, entram gia social psicológica atual. Tal abordagem
em dissonância cognitiva, o que lhes causa focaliza­‑se na compreensão da cognição so-
desconforto e as leva a mudar suas crenças cial, isto é, do processamento da informa-
ou atitudes, de modo a alcançar novamente ção social, baseado no pressuposto de que
a congruência. Assim, por exemplo, se uma o comportamento social pode ser explicado
pessoa fuma e sabe que isso é prejudicial à por meio dos processos cognitivos a ele sub-
saúde, ela poderá resolver essa dissonância jacentes (Fiske e Taylor, 1984). Ela se volta
parando de fumar (mudança de atitude) ou para o estudo da categorização dos objetos
buscando informações de que fumar não é sociais, ou seja, para a análise das estraté-
prejudicial à saúde (mudança de crenças). gias que as pessoas utilizam para formar
A teoria da dissonância suscitou, nas impressões, crenças ou cognições sobre os
décadas seguintes, um volume considerá- estímulos sociais que as rodeiam (o próprio
vel de pesquisas experimentais rigorosas, indivíduo, bem como outras pessoas, grupos
22 Torres, neiva & cols.

e eventos sociais), e do modo pelo qual tais consequentemente, desenvolver modelos e


categorias afetam seu comportamento. teorias que não são capazes de contribuir
para a explicação da nova realidade social
que surgia. Além disso, criticava­‑se a artifi-
A crise da psicologia social cialidade dos experimentos conduzidos em
laboratório, a falta de compromisso ético de
O período que vai do pós­‑guerra aos anos de seus mentores e a excessiva fragmentação
1970 é visto por alguns autores (Apfelbaum, dos modelos teóricos (Jones, 1985).
1992) como a era de ouro da psicologia Tais críticas suscitaram grande resis-
social, em função da grande evolução ob- tência da comunidade científica estabeleci-
servada na construção e na verificação de da à época. No entanto, contribuíram para
teorias, assim como na elaboração de pro- o movimento de internacionalização da psi-
cedimentos metodológicos e estatísticos cologia social, responsável pelo desenvolvi-
cada vez mais sofisticados. Com o passar do mento de uma psicologia social europeia,
tempo, porém, o modelo de pesquisa­‑ação mais preocupada com o contexto social,
orientado para a comunidade e para o estu- e, mais recentemente, de uma psicologia
do dos grupos, introduzido por Lewin ainda latino­‑americana.
nos anos de 1930, foi sendo paulatinamente
abandonado e substituído pela investigação
de fenômenos e processos eminentemente
intraindividuais, de natureza cognitiva. O desenvolvimento da
Tendo como meta última a investiga- psicologia social sociológica
ção das leis universais capazes de explicar nos Estados Unidos
o comportamento social, a psicologia social
psicológica estrutura­‑se progressivamente Durante o século XIX, as questões psicos-
como uma ciência natural e empírica, que sociais estiveram entre as preocupações de
desconsidera o papel que as estruturas so- filósofos, sociólogos e psicólogos europeus
ciais e os sistemas culturais exercem sobre e norte­‑americanos. No início do século XX,
os indivíduos (Pepitone, 1981). É nesse porém, os sociólogos sentiram a necessida-
contexto que a década de 1970 assistirá ao de de se diferenciar dos psicólogos sociais
surgimento da chamada “crise da psicologia que, no contexto da psicologia, passaram a
social”, que marcará em definitivo os novos adotar o behaviorismo como paradigma e a
rumos tomados pela psicologia social psico- praticar uma psicologia social psicológica
lógica a partir de então. que aos poucos se tornava cada vez mais in-
A crise da psicologia social ou “era das dividualista. Surge então a psicologia social
dúvidas” surgiu, portanto, em consequência sociológica, cuja principal vertente é o inte-
da excessiva individualização da psicologia racionismo simbólico e que tem, nas figuras
social psicológica e dos movimentos sociais de Charles Cooley (1864­‑1929) e George
ocorridos nos anos de 1970 (como o femi- Mead (1863­‑1931) seus mais notáveis pre-
nismo, por exemplo), tendo se caracteriza- cursores.
do pelo questionamento das bases concei-
tuais e metodológicas da psicologia social
psicológica até então dominante, no que
tange à sua validade, relevância e capacida- Os precursores da psicologia
de de generalização (Apfelbaum, 1992). Os social sociológica
questionamentos voltam­‑se principalmente
à sua relevância social, isto é, ao fato de Cooley era um sociólogo que recebeu in-
essa vertente da psicologia social usar uma fluências de Spencer, tendo defendido uma
linguagem científica cada vez mais neutra concepção evolucionista da mente e da so-
e afastada dos problemas sociais reais e, ciedade. Em sua obra Natureza humana e
Psicologia Social: Principais temas e vertentes 23

ordem social, datada de 1902, ele ressaltou ções sociais que a comunicação e a expres-
a influência do ambiente social na configu- são tornam­‑se possíveis, bem como a possi-
ração da natureza humana e, consequen- bilidade de uma pessoa prever a reação do
temente, da natureza da identidade ou self outro a seus atos, isto é, de assumir o papel
(Álvaro e Garrido, 2007). do outro (Jahoda, 2007).
Ao explicar a formação da identidade, Analisando a emergência desse pro-
Cooley usa a expressão “eu refletido no es- cesso na infância, Mead enfatiza a impor-
pelho” para designar o fato de que tal for- tância dos jogos infantis, em virtude de eles
mação está eminentemente associada ao permitirem à criança assumir o papel dos
modo pelo qual a pessoa imagina que apa- outros (outro significativo) ou dos membros
rece diante das outras pessoas, assim como da sociedade em que vive (eu generaliza-
ao modo pelo qual ela imagina que as outras do). Com isso, ela passa a ter consciência
pessoas reagem a ela e aos sentimentos daí de si mesma, formando assim a sua própria
decorrentes, que podem ser de orgulho ou identidade, que reflete a internalização das
de decepção. Em outras palavras, segundo normas e dos papéis presentes em sua co-
o autor, o indivíduo, ao interagir com as ou- munidade (Álvaro e Garrido, 2007).
tras pessoas, torna­‑se consciente da imagem Em síntese, para Mead, o indivíduo
e dos sentimentos que essas outras pessoas é produto do desenvolvimento das pesso-
nutrem por ele, isto é, elas atuam como um as em sociedade e estrutura­‑se por meio
espelho no qual o indivíduo se vê. do processo de interação simbólica, que
Para Cooley, o desenvolvimento da leva as pessoas a tomarem consciência de
identidade ocorre no contexto da intera- si próprias, mediante a perspectiva dos de-
ção com os outros e por meio do uso da mais membros de seu grupo social. Ele si-
linguagem e da comunicação. Tais formula- tua, portanto, a formação da identidade no
ções serviram de base a desenvolvimentos campo das relações interpessoais, da organi-
posteriores, tendo influenciado Mead, que zação social e da cultura ao postular que o
também adota a expressão “eu refletido no sujeito apropria­‑se do conjunto de padrões
espelho” ao discorrer sobre a identidade. comuns a diferentes grupos socioculturais
Mead era um filósofo norte­‑americano para desenvolver seu próprio eu (Stephan e
que estudou por algum tempo com Wundt Stephan, 1985).
em Leipizig, o que teve grande influência Mead é considerado um behaviorista
em sua obra. Posteriormente, ele passou a social, porque, ainda que defendesse o es-
dar aulas de filosofia em Michigan, onde tudo do comportamento observável, consi-
conviveu com Cooley, que na época estava derava que este era apenas um meio para
escrevendo sua tese de doutorado, e depois se chegar à experiência interna do indivíduo
em Chicago, onde permaneceu até a sua (Álvaro e Garrido, 2007). Suas proposições,
morte. Suas aulas de psicologia social foram apesar de terem recebido várias críticas,
posteriormente compiladas no livro A men‑ exerceram forte influência no desenvolvi-
te, o eu e a sociedade: do ponto de vista de mento da psicologia social sociológica, ten-
um behaviorista social, publicado após a sua do dado origem a duas diferentes correntes
morte, em 1934 (Farr, 1999). teóricas: a escola de Chicago e a escola de
A linguagem desempenha um papel Iowa.
fundamental no pensamento de Mead, a
ponto de ele considerar o ato comunicativo
como a unidade básica de análise da psi- A Escola de Chicago
cologia social. Segundo ele, a linguagem é
um fenômeno inerentemente social e, con- Durante os anos de 1930 e 1940, as ideias de
sequentemente, as atitudes e os gestos só Mead não tiveram grande impacto. Caberá,
adquirem significado por meio da interação porém, a Herbert Blumer (1900­‑1987), em
simbólica. É, portanto, no contexto das rela- Chicago, nos anos de 1950, e a Manford
24 Torres, neiva & cols.

Kuhn (1911­‑1963), em Iowa, nos de 1960, lizaram a análise de documentos, cartas e


reacenderem o interesse pela temática. histórias de vida para traçar um perfil da
Blumer era um sociólogo que, após a morte situação social desses imigrantes, segundo
de Mead, assumiu seu curso anual de aulas a sua própria perspectiva (Álvaro e Garrido,
de psicologia social, tendo cunhado de in- 2007). Em contrapartida, Bogardus (1925),
teracionismo simbólico a posição defendida outro membro da escola de Chicago, desen-
por Mead. Segundo ele, o uso da expressão volveu a primeira escala para a medida de
derivou­‑se da ênfase na compreensão do atitudes, numa evidência de que ambos os
modo pelo qual as pessoas interagem com as tipos de metodologia ali conviviam (Álvaro
outras usando símbolos. Desse modo, o in- e Garrido, 2007).
teracionismo simbólico pode ser visto como
uma forma sociológica de psicologia social
iniciada em Chicago por Blumer, a partir de A Escola de Iowa e a psicologia social
sua interpretação da obra de Mead. sociológica na atualidade
Segundo Blumer (1969), os principais
pressupostos do interacionismo simbóli- Conforme já mencionado, Kuhn (1964) é
co são os seguintes: a pessoa interpreta o um dos principais representantes da esco-
mundo para si própria, atribuindo­‑lhe sig- la de Iowa, responsável pela continuidade
nificado; o comportamento não é uma re- do interacionismo simbólico ao longo dos
ação automática a um dado estímulo, mas anos de 1960. Ele, no entanto, distancia­‑se
sim uma construção criativa derivada da mais das ideias de Mead do que a escola de
interpretação da situação e das pessoas que Chicago. Nesse sentido, defendia a utiliza-
nela se encontram; a conduta humana é im- ção dos mesmos métodos de pesquisa das ci-
previsível porque os significados e as ações ências naturais, tendo testado algumas das
dependem de cada situação, enquanto a in- proposições de Mead e abandonado outras,
terpretação das situações e a construção do por considerá­‑las não passíveis de serem
comportamento são processos que ocorrem submetidas à verificação empírica.
durante a interação social. Além disso, ele postulava que o self e
A escola de Chicago costuma ser iden- a sociedade dependiam da estrutura social.
tificada com a abordagem qualitativa de pes- Desse modo, afirmava que as expectativas
quisa, talvez porque Blumer fosse da opinião da sociedade a respeito do desempenho de
que o estudo do comportamento humano determinados papéis limitavam as intera-
deveria ser conduzido por meio de métodos ções sociais ao exercer influência sobre as
próprios que, em vez de impor estruturas concepções que as pessoas desenvolviam
ao indivíduo, fossem capazes de captar as acerca de si próprias e dos outros, sobre
realidades subjetivas construídas em cada as definições das situações e sobre os sig-
situação (Stephan e Stephan, 1985). Na rea­ nificados que as pessoas construíam. Kuhn
lidade, porém, a escola de Chicago primou (1964) destaca, porém, o papel ativo do in-
pelo ecletismo metodológico, tendo usado divíduo nesse processo, na medida em que é
abordagens quantitativas e qualitativas na ele quem escolhe os papéis a desempenhar,
tentativa de estudar cientificamente a rea- podendo também modificá­‑los.
lidade social e resolver os problemas sociais Orientados predominantemente pela
que a cidade de Chicago enfrentou nos anos perspectiva do interacionismo simbólico, e
de 1930 e 1940, tais como o aumento da usando primordialmente a observação par-
imigração, da criminalidade e da violência ticipante como método, aliada ao uso de
(Álvaro e Garrido, 2007). entrevistas, os psicólogos sociais adeptos da
A esse respeito, vale destacar a pes- corrente sociológica prosseguiram, nos anos
quisa realizada por Thomas e Znaniecki subsequentes, investigando temas como a
(1918), com o objetivo de analisar as ati- interação face a face, os processos de socia-
tudes de imigrantes poloneses, na qual uti- lização, a formação e o desenvolvimento da
Psicologia Social: Principais temas e vertentes 25

identidade, o comportamento desviante e o Nos anos de 1960, em vários países eu-


comportamento coletivo. ropeus, os psicólogos já realizavam pesquisas
Novos desdobramentos teóricos tam- psicossociais, mas foi ao final da década que
bém foram surgindo com o tempo, entre os começaram a ser realizados esforços mais sis-
quais podem ser citadas a escola dramatúr- temáticos, não apenas por parte do Comitê
gica de Goffman (1985) e a teoria da identi- Transnacional, mas também por meio de ou-
dade de Stryker (1980). Goffman deteve­‑se tras iniciativas mais isoladas, dirigidas à in-
na análise da interação face a face, consi- tegração dos psicólogos sociais europeus em
derando seus participantes como atores uma comunidade científica atuante. Assim
que podem ser mais ou menos eficazes no é que, desde os anos de 1970, a psicologia
desempenho de seus papéis. Stryker, por social europeia vem crescendo progressiva-
sua vez, propõe que a identidade apresen- mente em tamanho e influência.
ta múltiplos componentes, os quais se en- Apesar de ela ter caminhado inicial-
contram associados aos diferentes papéis mente lado a lado com a psicologia social
desempenhados pelo indivíduo, sendo que psicológica, começou rapidamente a adqui-
alguns componentes são mais salientes e, rir sua própria identidade e a demonstrar
por essa razão, mais evocados nas situações. maior preocupação com a estrutura social.
Esses desdobramentos contribuíram para a Nesse sentido, os temas de estudo mais fre-
revitalização da psicologia social sociológi- quentes entre os psicólogos sociais europeus
ca que, durante certo tempo, permaneceu são as relações intergrupais, a identidade
à margem da psicologia social psicológica, social e a influência social, que remetem
dominante no cenário acadêmico da psi­ a uma psicologia dos grupos (Graumann,
cologia. 1996). Entre os principais representantes
dessa moderna psicologia social europeia,
destacam­‑se Henri Tajfel (1919­‑1982) e
O desenvolvimento da Serge Moscovici.
psicologia social na Europa Tajfel (1981) procurou enfatizar a
dimensão social do comportamento indivi-
No ano de 1964, quando a psicologia so- dual e grupal, postulando que o indivíduo
cial psicológica já estava firmemente esta- é moldado pela sociedade e pela cultura.
belecida nos Estados Unidos, foi criado no Apoiando­‑se em tal perspectiva, desenvol-
país um Comitê Transnacional, sob o patro- veu a teoria da identidade social, por meio
cínio do Social Science Research Council, da qual defende que as relações intergrupais
com o objetivo de promover a internacio- estão intimamente relacionadas a processos
nalização da psicologia social (Moscovici e de identificação grupal e de comparação so-
Marková, 2006). Em sua formação inicial, cial.
o comitê era composto por seis psicólogos Moscovici (1976), retomando os estu-
norte­‑americanos e dois europeus, sob a dos sobre influência social, que até então se
presidência de Leon Festinger. Suas primei- preocupavam exclusivamente com os efeitos
ras iniciativas foram no sentido de fomen- da maioria dos membros do grupo, isto é,
tar o desenvolvimento da psicologia social com as pressões para a conformidade, intro-
na Europa, razão pela qual promoveu a duz na área o conceito de influência das mi-
realização de vários encontros científicos e norias, tendo realizado investigações com o
treinamentos para os psicólogos sociais eu- intuito de averiguar a inovação e a mudança
ropeus, nos quais os conhecimentos por eles social introduzida por essas minorias. Outro
produzidos começaram a ser divulgados. O campo de estudos a que ele se dedicou
Comitê Transnacional exerceu também um (Moscovici, 1981) foi o das representações
papel ativo na construção e na consolida- sociais, derivado do conceito de representa-
ção da Associação Europeia de Psicologia ções coletivas de Durkheim e caracterizado
Experimental. como modos de compreensão da realidade
26 Torres, neiva & cols.

compartilhados por diferentes grupos so- tionamento à psicologia social psicológica


ciais. A teoria das representações sociais foi norte­‑americana, marcada pelo experimen-
amplamente difundida nas décadas seguin- talismo e pelo individualismo, em prol de
tes, inclusive no Brasil, caracterizando­‑se uma psicologia social mais contextualizada,
hoje como uma das principais tendências da isto é, mais voltada para os problemas po-
psicologia social europeia. líticos e sociais que a região vinha enfren-
tando. Estimulados pela arbitrariedade dos
regimes militares e pela grande desigualda-
de social do continente, esses psicólogos so-
O desenvolvimento da psicologia ciais defendem uma ruptura radical com a
social na América Latina psicologia social tradicional (Spink e Spink,
2005).
A psicologia social praticada na América Então, passam a praticar o que tem
Latina, até a década de 1970, esteve for- sido designado como psicologia social crí-
temente influenciada pelo paradigma da tica (Álvaro e Garrido, 2007) ou psicologia
psicologia social psicológica de natureza ex- social histórico­‑crítica (Mancebo e Jacó­
perimental, dominante à época nos Estados ‑Vilela, 2004), expressões que abarcam,
Unidos. Ao final dos anos de 1960, de modo na realidade, diferentes posturas teóricas,
similar ao que já havia ocorrido na Europa, como, por exemplo, o socioconstrucionis-
o Comitê Transnacional, fundado com o ob- mo (Gergen, 1997), a análise do discurso
jetivo de promover a internacionalização da (Potter e Wetherell, 1987) e a psicologia
psicologia social, procurou também atuar marxista, entre outras. Em que pesem as
na América Latina (Moscovici e Marková, diferenças observadas entre essas corren-
2006). Nesse sentido, três de seus membros tes, a psicologia social crítica, grosso modo,
mantiveram contatos com vários psicólogos caracteriza­‑se por romper com o modelo
sociais latino­‑americanos e, em seguida, o neopositivista de ciência e, em consequên-
Comitê Transnacional estimulou a criação cia, com seus postulados sobre a necessida-
de um comitê local, além de patrocinar al- de de o conhecimento científico apoiar­‑se
guns encontros com esse grupo e um primei- na verificação empírica de relações causais
ro treinamento para os psicólogos sociais entre fenômenos. Em contraposição a tal
latino­‑americanos, no qual foi amplamente modelo, defende o caráter relacional da
discutida a necessidade de a psicologia so- linguagem e a importância das práticas dis-
cial estar mais diretamente vinculada aos cursivas para a compreensão da vida social
problemas sociais da América Latina. (Álvaro e Garrido, 2007).
Alguns dos psicólogos desse comitê lo- Na esteira da psicologia social críti-
cal fundam, em 1973, a Associação Latino­ ca, irão surgir, na América Latina, diversos
‑Americana de Psicologia Social (ALAPSO), manuais de psicologia social organizados
que nos anos seguintes continuará a fomen- segundo tal perspectiva crítica (como, por
tar o desenvolvimento de atividades na área exemplo, Aguilar e Reid, 2007; Cordero,
da psicologia social. Contudo, os proble- Dobles e Pérez, 1996; Montero, 1991),
mas políticos que muitos dos países latino­ bem como algumas associações de psico-
‑americanos vivenciaram naquele período, logia social que se contrapõem à ALAPSO,
aliados a dissidências entre os membros do como é o caso, por exemplo, da Associação
comitê local, acabaram por inviabilizar a con- Venezuelana de Psicologia Social (AVEPSO).
tinuação da ação do Comitê Transnacional Um autor frequentemente citado como legíti-
em prol da internacionalização da psicolo- mo representante dessa nova perspectiva na
gia social psicológica na América Latina. psicologia social latino­‑americana é Martin­
Ao final da década de 1970, porém, ‑Baró (1942­‑1989), psicólogo e padre jesuí­
muitos dos psicólogos sociais latino­‑america­ ta espanhol, radicado em El Salvador, que
nos iniciam um forte movimento de ques- defendeu em suas obras o desenvolvimento
Psicologia Social: Principais temas e vertentes 27

de uma psicologia social comprometida com cial teórico orientado pela concepção de que
a realidade social latino­‑americana. Para ele o ser humano constitui­‑se em um produto
(1989), a construção teórica em psicologia histórico­‑social, de que indivíduo e socieda-
social deve emergir dos problemas e confli- de implicam­‑se mutuamente (Jacques et al.,
tos vivenciados pelo povo latino­‑americano, 1998).
de forma contextualizada com sua história. No que tange à breve história da psi-
No Brasil, as primeiras publicações cologia social brasileira, cabe registrar, por
com foco na análise de questões psicosso- fim, o desenvolvimento dos cursos de pós­
ciais começaram a surgir na década de 1930 ‑graduação stricto­‑sensu no país a partir da
(Bomfim, 2003). Contudo, a instituciona- década de 1980. Esses cursos exerceram im-
lização da psicologia social ocorre apenas portante papel na estruturação de diferen-
em 1962, quando o Conselho Federal de tes linhas de pesquisa na área de psicologia
Psicologia, por meio do Parecer no 403/62, social, orientadas por paradigmas e tendên-
criou o currículo mínimo para os cursos de cias diversificadas, bem como no incremen-
psicologia, estabelecendo, assim, a obriga- to da produção científica brasileira em psi-
toriedade do ensino da psicologia social. cologia social.
A partir de então, e até os anos de
1970, a psicologia social psicológica norte­
‑americana foi a dominante, tal como ocor- Considerações finais
reu no restante da América Latina. Uma
das obras adotadas nos cursos de psicologia A revisão dos eventos que marcaram a his-
social durante esse período, que expressa tória da psicologia social contemporânea re-
tal tendência, é o livro Psicologia social, de vela que, no século XIX, as reflexões sobre
Aroldo Rodrigues, publicado pela primeira o indivíduo e a sociedade desenvolveram­‑se
vez em 1972. Seu autor também foi o res- no contexto da psicologia e da sociologia,
ponsável pelo desenvolvimento de uma pro- sem que houvesse a preocupação com o
fícua linha de pesquisa em psicologia social estabelecimento de limites sobre a nature-
psicológica no país, a qual foi divulgada em za do conhecimento psicossocial. No início
uma série de artigos publicados em perió- do século XX, ocorre uma nítida separação
dicos nacionais e estrangeiros ao longo dos entre esses dois campos do conhecimento,
anos de 1970 e 1980. com a subdivisão da psicologia social, que
A partir do final da década de 1970, os se situava na interface dos dois, em psico-
psicólogos sociais brasileiros também parti- logia social psicológica e psicologia social
cipam ativamente do movimento de ruptura sociológica, que passam a ter suas próprias
com a psicologia social tradicional ocorrido questões centrais, suas teorias e seus méto-
na América Latina. Assim, a partir da publica- dos (House, 1977).
ção, em 1984, do livro organizado por Silvia No contexto da psicologia social psico-
Lane e Vanderley Codo, intitulado Psicologia lógica que se desenvolveu a partir de então,
social: o homem em movimento, sucederam­ o indivíduo sempre esteve no centro das
‑se vários outros manuais brasileiros de psi- principais perspectivas teóricas e dos temas
cologia social (Campos e Guareschi, 2000; de pesquisa. Desse modo, as teorias e os
Jacques et al., 1998; Lane e Sawaia, 1994; programas de pesquisa que lidavam com os
Mancebo e Jacó­‑Vilela, 2004) na perspecti- fenômenos grupais ou coletivos, trabalhan-
va da psicologia crítica. do com conceitos relacionais, acabaram por
Outra importante contribuição a tal sofrer uma solução de descontinuidade e ti-
movimento foi a fundação, em 1980, da veram pouco impacto na área. Tal tendência
Associação Brasileira de Psicologia Social individuocêntrica amparou­‑se na concepção
(ABRAPSO), estabelecida com o propósito da psicologia como uma ciência natural em-
de redefinir o campo da psicologia social e pírica e, com o passar do tempo, revelou­
contribuir para a construção de um referen- ‑se incapaz por si só de explicar o compor-
28 Torres, neiva & cols.

tamento social em todas as suas nuances Nesse sentido, DeLamater (2003) enfatiza
(Pepitone, 1981). que a psicologia social consiste hoje em um
Ainda assim, durante muito tempo, os campo que se situa na interface da psicolo-
livros de psicologia social adotados nos cur- gia e da sociologia, buscando compreender
sos de psicologia abordavam, em sua maio- a natureza e as causas do comportamento
ria, apenas a psicologia social psicológica, o social humano, partindo do pressuposto de
que fez com que a psicologia social socioló- que o contexto intraindividual e o social in-
gica tenha permanecido, ao longo de várias teragem mutuamente, influenciando e sendo
décadas, com menos peso do que a psicolo- influenciado pelo comportamento individu-
gia social psicológica no âmbito da psicolo- al. Orientados por tal perspectiva, os manu-
gia (Jackson, 1988). Entretanto, a crise por ais de psicologia social mais recentes têm
que passou a psicologia social psicológica procurado contemplar as várias vertentes
nos anos de 1970 contribuiu para modificar nas quais a disciplina atualmente se desdo-
substancialmente esse quadro. bra, na tentativa de contribuir para a cons-
Devido a isso, a psicologia social psico- trução de um conhecimento psicossocial de
lógica, sem abandonar os temas tradicional- natureza científica e capaz de ser aplicado à
mente estudados, passou por uma correção realidade social dos novos tempos.
de rumos e prosseguiu na expansão de seu
corpo de conhecimentos. Paralelamente, fo-
ram surgindo novos olhares sobre antigos
tópicos (como, por exemplo, no caso do Referências
estudo da identidade e das relações inter-
grupais), novos tópicos de estudo (como, ADORNO, T.W.; FRENKEL-BRUNSWIK, E.; LE-
por exemplo, a análise das influências da VINSON, D.J.; SANFORD, R.N. The autoritarin
cultura sobre o comportamento social, pela personality. New York: Harper, 1950.
psicologia transcultural) e um maior esforço AGUILAR, M.A.; REID, A. (orgs.). Tratado de psico‑
de aplicação dos conhecimentos sociopsico- logia social: perspectivas socioculturales. Barcelona:
lógicos na resolução dos problemas sociais Anthropos, 2007.
(Jackson, 1988). ÁLVARO, J.L.; GARRIDO, A. Psicologia social:
Acrescente­‑se a isso o fato de que a perspectivas psicológicas e sociológicas. São Paulo:
McGraw-Hill, 2007.
psicologia social sociológica ressurgiu com
nova força, levando um número cada vez ALLPORT, G.W. The historical background of mo-
dern social psychology. In: LINDZEY, G. (org.).
maior de psicólogos sociais a recorrer ao in-
Handbook of social psychology. Reading, M.A.:
teracionismo simbólico e a outros modelos Addison-Wesley, 1954.
psicossociológicos como estrutura de refe-
ALLPORT, G.W. The historical background of social
rência teórica de suas pesquisas. Além disso, psychology. In: LINDZEY, G.; ARONSON, E. (orgs.).
novos e diversificados paradigmas teóricos e Handbook of social psychology. 2.ed. Reading, M.A.:
metodológicos, que têm como traço em co- Addison-Wesley, 1968.
mum a crítica aos pressupostos da psicologia ALLPORT, G.W. The historical background of social
social tradicional, desenvolveram­‑se e vêm psychology. In: LINDZEY, G.; ARONSON, E. (orgs.).
sendo designados de psicologia social crítica Handbook of social psychology. 3.ed. New York:
ou pós­‑modernas (Álvaro e Garrido, 2007). Random House, 1985.
Por fim, as últimas décadas assistiram à in- APFELBAUM, E. Some teachings from the history
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