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GRUPO I

Lê o poema seguinte. Em caso de necessidade, consulta o vocabulário e as notas apresentados a


seguir ao texto.

a este moto1 seu2:


Se Helena apartar3
do campo seus olhos,
nascerão abrolhos4.

VOLTAS
A verdura amena5,
gados, que paceis6,
sabei que a deveis
aos olhos d’ Helena.
Os ventos serena,
faz flores d’ abrolhos
o ar de seus olhos.

Faz serras floridas7,


faz claras as fontes:
se isto faz nos montes,
que fará nas vidas?
Trá-las suspendidas
como ervas em molhos,
na luz de seus olhos.

Os corações prende
Com graça inhumana8;
de cada pestana
ũ’ alma lhe pende9.
Amor se lhe rende,
e, posto em giolhos10,
pasma nos seus olhos11.

Luís de Camões, Rimas, Coimbra, Almedina, 2005, p. 19.


(Texto estabelecido e prefaciado por Álvaro J. da Costa Pimpão)

Vocabulário e notas
1 mote; 2 da autoria do próprio Camões; 3 afastar, deixar de olhar; 4 plantas espinhosas; 5 agradável, bela; 6 pastais; 7 v. 9: o olhar de

Helena transforma a água turva das fontes em água límpida; 8 enorme; 9 está suspensa; 10 posto de joelhos, em adoração; 11 encanta-
se com os seus olhos, aos quais fica preso, sem poder deixar de os fitar
Apresenta, de forma clara e bem estruturada, as tuas respostas aos itens que se seguem.

1. Explica a relação entre o «moto» ou mote e as voltas da cantiga.

2. Explicita o sentido da pergunta feita pelo sujeito lírico nos vv. 10-11, tendo em consideração a
relação entre Helena e a Natureza.

3. Identifica, justificando, o primeiro recurso expressivo que, na segunda estrofe, contribui para a
sugestão do poder transformador dos olhos de Helena.

4. Prova que o primeiro e o segundo versos da cantiga, «A verdura amena / gados, que pasceis»,
têm o mesmo número de sílabas métricas mas não têm o mesmo número de sílabas
gramaticais.

Apoiando-te na tua experiência de leitura, escreve um texto que tenha entre 120 e 150 palavras,
no qual apresentes as principais características físicas e psicológicas que Camões atribui às
mulheres que canta.

GRUPO II

Lê o texto seguinte. Em caso de necessidade, consulta a nota apresentada.

Os grandes temas camonianos

O amor
O amor é, de facto, o principal tema de toda a lírica camoniana – como é, n’Os Lusíadas,
uma das grandes linhas que movem, organizam e dão sentido ao universo, elevando os heróis à
suprema dignidade de, através dele, atingirem a divinização.
Na Lírica de Camões, o amor é, contudo, fonte de contradições vivamente sentidas: ele é
sucessivamente «fogo que arde sem se ver», «ferida que dói e não se sente», «contentamento
descontente» – daí que ele dificilmente possa trazer consigo a alegria e a paz. É algo de
indefinível ou, nas próprias palavras do Poeta, «um não sei quê, que nasce não sei onde, vem
não sei como e dói não sei porquê.» (…)

A mulher amada: a natureza


Ligado ao tema do Amor, encontramos, como vimos, o tema da mulher amada, entendida
como ser celestial – «celeste formosura» – ou como fera, Circe1; da ausência da mulher amada,
vivida como ocasião de purificação do amor, ou como mágoa e saudade; o da morte da amada,
encarada com mágoa serena e resignação cristã (soneto «Alma minha gentil que te partiste») ou
como mágoa revoltada, impotente e, esta sim, «sem remédio» (sonetos Quando de minhas
mágoas a comprida ou O céu, a terra, o vento sossegado). É bom de ver que estas visões
contrastantes da amada, da sua ausência ou morte, têm que ver com a dupla visão do amor,
atrás referida.
Mas o entendimento amoroso exige um enquadramento natural. A natureza aparece-nos na
poesia camoniana, na lírica como na épica, como uma natureza alegre (Alegres campos, verdes
arvoredos), serena, luminosa, perfumada, em que avultam o verde, o cristal das águas límpidas,
os frutos saborosos, as flores. Neste cenário se vivem sentimentos amorosos – e se a natureza,
por vezes, fica indiferente (soneto O céu, a terra, o vento sossegado), de outras vezes ela
compartilha da tristeza dos amantes (Aquela triste e leda madrugada).

O «desconcerto do mundo»
Experiência amorosa e experiência de vida colocam Camões perante uma constatação: a de
que no mundo a realidade é absurda e domínio do «desconcerto», em que se premeiam os maus
e se castigam os bons. Esta
constatação deixou marcas amargas n’Os Lusíadas – e deixou-as na Lírica, em poemas de
revolta, de queixa, desengano, perplexidade angustiada. (…)
A mudança, que é a condição de tudo, para ele fez-se sempre para pior. Por isso se sente
com o direito de se interrogar se o bem passado foi de facto bem ou se já era prenúncio do mal
presente.

Amélia Pinto Pais, Eu cantarei de amor – lírica de Luís de Camões, Porto, Areal Editores, 2007, pp. 27-29.
(Texto adaptado)

Nota
1 feiticeira, na mitologia grega; modelo de maldade

1. Para responder a cada um dos itens de 1.1 a 1.5, seleciona a opção que permite obter uma
afirmação correta.

1.1 A frase que melhor sintetiza os dois primeiros parágrafos é


 (A) O amor é o tema central da obra de Luís de Camões; mas apresenta faces diferentes,
conforme se trate da poesia lírica ou da poesia épica.
 (B) O amor é o grande tema da obra de Luís de Camões; na poesia lírica apresenta-se
como um fenómeno contraditório.
 (C) O amor é o grande tema da obra de Luís de Camões, apresentando, na poesia épica,
um caráter de sentimento pleno de dignidade.
 (D) O amor é o tema central da obra de Luís de Camões; apresenta faces diferentes,
sendo valorizado na poesia épica.

1.2 De acordo com o segundo parágrafo, o sentimento amoroso expresso por Camões na poesia
lírica caracteriza-se por ser de natureza
 (A) contraditória.
 (B) problemática.
 (C) pessimista.
 (D) injusta.

1.3 A «mulher amada» é apresentada por Camões como


(A) um ser angélico e formoso.
(B) um ser diabólico e feroz.
(C) um misto de bom e de mau.
(D) um ser ora bom ora mau.
1.4 A natureza apresenta-se, na poesia lírica de Camões,
 (A) sem ligação com os estados de alma dos amantes.
 (B) por vezes como confidente dos amantes.
 (C) por vezes tomando parte nos estados de alma dos amantes.
 (D) enquadrando os estados de alma dos amantes.

1.5 De acordo com o último parágrafo do texto, o tema camoniano do desconcerto do mundo
tem na origem
 (A) a constatação de que o mundo se caracteriza pela diversidade.
 (B) a verificação de que o mundo se caracteriza pela contradição.
 (C) a constatação de que o mundo é ilógico.
 (D) a verificação de que o mundo se caracteriza pela mudança contínua.

2. Responde, de forma correta, aos itens apresentados.

2.1 Seleciona, no quarto parágrafo do texto, três nomes que possam integrar o campo lexical da
Natureza.

2.2 Indica a função sintática da expressão «a divinização», l. 3.

2.3 Transcreve, do último parágrafo, a oração subordinada adjetiva relativa explicativa.

GRUPO III

O amor é um sentimento que todos atinge a partir da adolescência. Os mais velhos estão
também a ele sujeitos.

Num texto bem estruturado, com um mínimo de 200 e um máximo de 300 palavras, expõe as
tuas ideias sobre a importância deste sentimento para o bem-estar desta camada populacional
idosa.
Soluções
Grupo I
A
1. As voltas retomam, desenvolvendo o tema do mote.
2. Se a força transformadora de Helena atinge a Natureza inerte, qual será a sua influência sobre os seres
vivos, sobre as pessoas? Este é o sentido da pergunta.
3. Trata-se da anáfora «Faz», «faz», vv. 8-9, através da qual se evidencia o poder transformador de
Helena; [Esta anáfora prolonga-se, de algum modo, nas palavras «faz», «fará», nos dois versos
seguintes; e, na primeira estrofe, já tinha ocorrido a palavra «faz», v. 6.]
4. O verso «A verdura amena» tem sete sílabas gramaticais e cinco sílabas métricas; o verso «gados, que
pasceis» tem cinco sílabas gramaticas e cinco sílabas métricas.

Grupo II
1. 1.1 (A); 1.2 (A); 1.3 (D); 1.4 (C); 1.5 (C)
2. 2.1 «campos», «águas», «flores»
2.2 Complemento direto
2.3 «que é condição de tudo» [A sua função sintática é de modificador do nome apositivo «mudança»,
o seu elemento subordinante.]