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XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA
ABRALIC
TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS

CADERNO DE RESUMOS

2018

Copyrigth© 2018 Johannes Kretschmer; Marcus Vinícius Nogueira Soares;
Maria Elizabeth Chaves de Mello (Orgs.)
Coordenadora do projeto:
Darcilia Simões
Co-coordenador do projeto:
Flavio García
Projeto gráfico:
Raphael Fernandes
Projeto de capa:
Raphael Fernandes
Diagramação:
Tatiane Ludegards Magalhães
Coordenação editorial:
Ana Maria Amorim
Frederico van Erven Cabala

FICHA CATALOGRÁFICA
K924 KRETSCHMER, Johannes; SOARES, Marcus Vinícius Nogueira; MELLO,
S676 Maria Elizabeth Chaves de (Orgs.).
M527 Caderno de Programação – XV Congresso Internacional da ABRALIC –
Textualidades Contemporâneas.
Rio de Janeiro: Dialogarts, 2018.
Bibliografia
ISBN 978-85-8199-087-3
1. Literatura Comparada. 2. Teoria Literária. 3. Literatura.
4. História Cultural.
I. ABRALIC; II. KRETSCHMER, Johannes; SOARES, Marcus Vinícius
Nogueira; MELLO, Maria Elizabeth Chaves de. III. Universidade do
Estado do Rio de Janeiro. IV. Título.

Dialogarts Índice para Catálogo Sistemático
Rua São Francisco Xavier, 524, sala 11.017 - A (anexo) 1. Literatura Comparada – 809
Maracanã - Rio de Janeiro – CEP 20 569-900 2. Teoria Literária – 801
www.dialogarts.uerj.br 3. Letras – 800

EXPEDIENTE
UNIVERSIDADE DO ESTADO DO ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE Comissão Organizadora do XV Comitê Científico:
RIO DE JANEIRO LITERATURA COMPARADA Congresso Internacional da Adriana Amante (Universidade de
Centro de Educação e (ABRALIC) ABRALIC Buenos Aires)
Humanidades Diretoria: Alexandre Montaury (PUC-Rio) Anco Márcio (UFPE)
Instituto de Letras Presidente: Ana Cristina Santos (UERJ) Boaventura de Sousa Santos
Programa de Pós-Graduação em João Cezar de Castro Rocha (UERJ) Carlinda Fragale Pate Nuñez (Universidade de Coimbra)
Letras Vice-presidente: (UERJ) Carlinda Nuñez Fragale Pate (UERJ)
Reitor: Maria Elisabeth Chaves de Mello Darcília Simões (UERJ) Eduardo Martins (USP)
Ruy Garcia Marques (UFF) Elena C. Palmero González (UFRJ) Eurídice Figueiredo (UFF)
Vice-reitora: Primeira Secretária: Fábio André Coelho (UERJ) Fábio Almeida de Carvalho (UFFR-
Maria Georgina Muniz Washington Elena C. Palmero González (UFRJ) Flavio García (UERJ) Roraima)
Sub-Reitora de Graduação: Segundo Secretário: João Cezar de Castro Rocha (UERJ) Germana Maria Araújo Salles
Tania Maria de Castro Carvalho Alexandre Montaury (PUC-Rio) Johannes Kretschmer (UFF) (UFPA)
Netto Primeiro Tesoureiro: Marcus Vinicius Nogueira Soares Giovanna Ferreira Dealtry (UERJ)
Sub-Reitor de Pós-Graduação: Marcus Vinicius Nogueira Soares (UERJ) Hans Ulrich Gumbrecht (Stanford
Egberto Gaspar de Moura (UERJ) Maria Elizabeth Chaves de Mello University)
Sub-Reitora de Extensão e Cultura: Segundo Tesoureiro: (UFF) Jeffrey Schnapp (Harvard
Elaine Ferreira Torres Johannes Kretschmer (UFF) Nabil Araújo de Souza (UERJ) University)
Diretor do CEH: Conselho Deliberativo: Norma Lima (UERJ) José Luís Jobim (UFF)
Lincoln Tavares Silva Germana Maria Araújo Sales Patrícia Alexandra Gonçalves Kathrin Rosenfield (UFRGS)
Diretora do Instituto de Letras: (UFPA) (UERJ) Marcelo Pellogio (UFC)
Magali dos Santos Moura Marlí Tereza Furtado (UFPA) Regina Michelli (UERJ) Maria Aparecida Andrade
Vice-Diretora do Instituto de André Luís Gomes (UnB) Salgueiro (UERJ)
Letras: Allison Leão (UEA) Marlí Tereza Furtado (UFPA)
Márcia Regina de Faria da Silva Ana Cristina Marinho (UFPB) Paulo Asthor Soethe (UFPR)
Coordenador da Pós-Graduação Antônio de Pádua Dias da Silva Roberto Acízelo Quelha de Souza
em Letras: (UEPB) (UERJ)
Roberto Acízelo Quelha de Souza José Luís Jobim (UFF) Roger Chartier (Collége de France)
Vice-Coordenadora da Pós- Suplentes: Sandra Guardini Teixeira
Graduação em Letras: Diógenes Maciel (UFPB) Vasconcelos (USP)
Marina Rosa Ana Augusto Marisa Lajolo (UNICAMP/ Sandra Margarida Nitrini (USP)
Universidade Mackenzie) Silvana Oliveira (UEPG)
Valdir Prigol (UFS)
William Johnsen (Michigan State
University)
Zilá Bernd (UFRGS e UNILASALLE)

APRESENTAÇÃO universidades no exterior contribuíram para o evento: Universidad
Iberoamericana, Université Clermont Auvergne, Princeton University,
Universidad de los Andes, Université Sorbonne Nouvelle, Chicago
É com grande alegria e, por que não dizê-lo?, com inegável orgulho, University, Collège de France.
que apresentamos o Caderno de Resumos do XV Congresso Internacional
A Universidade Federal Fluminense (UFF) forneceu o transporte
da Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC), realizado na
durante o encontro.
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), nos dias 7-11 de agosto
Por fim, na UERJ, santo de casa faz milagre e, sobretudo, é
de 2017.
reconhecido! A Reitoria ofereceu um apoio incondicional numa situação
O Caderno de Resumos foi produzido na UERJ. Vale dizer, numa
particularmente difícil; a Diretoria de Administração Financeira foi
universidade que há mais de dois anos enfrenta um ataque inaceitável
decisiva e sua generosidade possibilitou o êxito do encontro; a Sub-
por parte do governo do Estado do Rio de Janeiro. Verbas básicas
Reitoria de Extensão e Cultura abriu as portas do Teatro Odylo Costa
de manutenção não são repassadas para a UERJ e seus professores,
Filho, cuja Diretoria e equipe criaram uma versão inesperada de um oásis
funcionários técnico-administrativos e alunos bolsistas recebem
em meio ao caos provocado pelo governo do Estado do Rio de Janeiro;
constantemente com atrasos humilhantes. Isso quando recebem... Em
o Laboratório Multidisciplinar de Semiótica (LABSEM) foi um parceiro de
agosto de 2017, por ocasião de realização do XV Congresso Internacional
grande relevância desde a primeira hora; o Instituto de Letras, o Instituto
da ABRALIC, a comunidade uerjiana amargava inacreditáveis 4 meses
de Artes, a Pós-graduação em Letras, o Escritório Modelo de Tradução Ana
sem receber um centavo sequer.
Cristina Cesar, a Coordenadoria de Artes e Oficinas de Criação (COART),
Nessas condições inimagináveis, a UERJ atestou a força da a Casa de Leitura Dirce Côrtes Riedel; o Programa de Pós-graduação em
Universidade Pública! Viveríamos num país muito melhor se nas esferas História e o Centro de Produção da UERJ (CEPUERJ) ofereceram recursos
do Executivo, Legislativo e Judiciário – com seus altíssimos salários sempre e instalações; a Gráfica da UERJ (DIGRAF) preparou com arte e dedicação
pagos em dia – contássemos com o mesmo empenho e compromisso. o material do Congresso.
Ora, apesar dessas dificuldades objetivas, o XV Congresso Eis a lição maior da ABRALIC levada adiante nas condições adversas,
Internacional da ABRALIC foi realizado com grande êxito, unanimemente inclusive hostis, enfrentadas pela UERJ: precisamos renovar a rede de
reconhecido por todas e por todos que dele participaram. Tal êxito solidariedade, torná-la ainda mais forte, a fim de lutar com determinação
somente foi possível graças à comovente solidariedade demonstrada para reverter o inaceitável retrocesso daatual política de cortes nas áreas
pela comunidade acadêmica nacional e internacional. estratégicas da saúde, educação, cultura, ciência, tecnologia e inovação.
Destacamos o apoio fornecido pelo CNPq, pela CAPES e pela FAPERJ. Podemos deter o retrocesso: sem perda de tempo, continuemos em
Devemos ainda mencionar inúmeros parceiros que, ao longo dos anos 2018 fortalecendo a rede de solidariedade que tornou a ABRALIC possível.
de 2106 e 2017, colaboraram decisivamente para o sucesso da ABRALIC
Muito obrigado pelo apoio!
na UERJ: a Fundação CESGRANRIO, o DAAD, o Itaú Cultural, a Embaixada
do México, os Consulados da França e da Itália. De igual modo, muitas

PRESTAÇÃO DE CONTAS à vanguarda mundial do retrocesso, devido a uma série de cortes
inaceitáveis em áreas estratégicas, cujo efeito perverso será nada menos
do que atrasar em mais de uma década a pesquisa brasileira.
Muito obrigado!
Na contramão dessa política nefasta, criamos os “Prêmios ABRALIC”
Em primeiro lugar, e mais uma vez, muito obrigado pela confiança tanto para reforçar a necessidade de estreitar os laçosda Associação com
depositada na Associação Brasileira de Literatura Comparada num a comunidade dos estudos literários, quanto para manifestar nosso apoio
momento tão difícil para o país, em geral, e para o Estado do Rio de à pesquisa e à inovação.
Janeiro, em particular. As condições objetivas em 2017 foram ainda mais
Foram criadas 4 distinções.
adversas do que as enfrentadas em 2016 e, por vezes, a organização do
XV Congresso Internacional da ABRALIC parece uma quimera. Afinal, o “Prêmio Tânia Franco Carvalhal”, pelo conjunto da obra. “Prêmio
lema do atual governo parece mesmo uma inversão histórica completa: Blaise Cendrars”, reconhecimento a especialista estrangeiro. “Prêmio
dois passos atrás e nenhum à frente! Eugênio Gomes”, concedido à obra publicada no ano anterior. “Prêmio
Dirce Côrtes Riedel”, a ser oferecido para dissertação de mestrado e
Não importa: maiores os obstáculos, igualmente maior será nossa
tese de doutorado na área de literatura comparada. Implementamos 3
determinação na defesa dos investimentos nas áreas estratégicas de
Prêmios com sucesso, ficando apenas o “Prêmio Eugênio Gomes” para a
saúde, educação, ciência, tecnologia e inovação.
próxima Diretoria.
Por isso mesmo, a grande solidariedade demonstrada para a
Transferimos todo o conteúdo da Revista da ABRALIC para uma
realização do XV Congresso Internacional da ABRALIC na UERJ tem um
nova plataforma e passamos a contar com dois editores permanentes,
alcance amplo. Trata-se de defender o ensino público, gratuito e de
Maria Alice Antunes (UERJ) e José Luís Jobim (UFF), que seguirão
qualidade. A ABRALIC alinha-se integralmente com esse projeto.
trabalhando com a nova Diretoria. Atualizamos os números da Revista
Hora de prestar contas, pois a ABRALIC mudará de sede e passará da ABRALIC e trabalhamos para buscar sua inserção na Plataforma
nos próximos dois anos para Brasília-Uberlândia, sob a direção de Rogério Scielo. O objetivo é recuperar a centralidade da Revista da ABRALIC no
da Silva Lima (UNB) e Betina Ribeiro Rodrigues da Cunha (UFU), além de campo dos estudos literários.
Kelcilene Gracia Rodrigues (UFMS), Wilton Barroso Filho (UNB), Danglei
Inovamos no que se refere à organização dos grupos de trabalho:
de Castro Pereira (UEMS) e Anna Herron More (UNB).
como anunciamos em 2016, todos os simpósios que participaram dos dois
Desejamos à nova Diretoria muito boa sorte e realizações exitosas! encontros terão um e-book publicado. Naturalmente, os coordenadores
Fortalecimento e internacionalização da ABRALIC e as coordenadoras dos simpósios serão os editores responsáveis pelos
A Diretoria do Rio de Janeiro buscou cumprir as duas metas prioritárias livros. No momento, preparamos a edição de 22 e-books, que estarão
apresentadas na Assembleia Geral realizada na Universidade Federal do prontos ainda no primeiro trimestre de 2018. De igual modo, então
Pará em 2015: fortalecimento e internacionalização da Associação. No publicaremos o Caderno de Resumos de 2017.
atual momento brasileiro, fortalecer a ABRALIC é passo necessário para Incrementamos consideravelmente a atuação da ABRALIC nas redes
denunciar os sucessivos golpes que condenam a ciência e a tecnologia sociais. O Facebook da ABRALIC (Abralic-2017 – Rio de Janeiro) revelou-

se um instrumento valioso para a difusão das atividades da Associação e para Indígena, junto com o Instituto UKA; promover uma palestra-ato de Boaventura
manter um contato permanente com as associadas e com os associados. de Sousa Santos; apoiar a realização do International Humboldt-Kolleg – Literary
Renovamos a página da Associação (abralic.org.br) e começamos a traduzir seu Studies: Here, Now and Tomorrow – Ottmar Ette’s Oeuvre. Em parceria com a
conteúdo para o espanhol e para o inglês – ação imprescindível para o projeto de FLUP (Festa Literária das Periferias), organizamos o projeto “ABRALIC bate um
internacionalização. Lançamos mão do Twitter (@ABRALIC2016_17) e criamos bolão”, conjugando futebol, literatura e ação política.
um canal no YouTube (ABRALIC-Rio). A ABRALIC não pode limitar sua atuação à Em 2016, organizamos cursos com Hans Ulrich Gumbrecht, Jacqueline
organização de eventos; quanto mais presente a Associação estiver no dia a dia Penjon e Roger Chartier. Neste ano, criamos a Cátedra ABRALIC, inaugurada
de seus membros, mais forte ela será para opor-se ao projeto de desmonte da com palestras do renomado escritor mexicano David Toscana. Mais uma vez,
universidade pública. reunimos crítica e criação.
Por isso, em 2016 e 2017 organizamos dois encontros de dimensão No encontro de 2017, organizamos uma ação solidária que definiu o
internacional, mesmo como uma resposta à inaceitável política de cortes do alcance novo conquistado pela ABRALIC: a coleta de alimentos não perecíveis
atual governo. Nosso propósito era cristalino: demonstrar na prática a potência para os funcionários técnico-administrativos e terceirizados da UERJ, que,
do ensino público, sua capacidade de produzir conhecimento, reflexão crítica devido ao descaso criminoso do governo do estado, passam por uma situação
e ação concreta. A repercussão dos encontros na comunidade acadêmica e humilhante e praticamente impossível. Reunimos quase 2 toneladas de
mesmo na imprensa sugere que acertamos: a qualidade e o caráter inovador da alimentos, que foram distribuídas na semana seguinte à realização do XV
programação foram aspectos por todos ressaltados. Congresso Internacional da ABRALIC.
De fato, apostamos na pluralidade de objetos de estudo e de abordagens Em outras palavras, na atual conjuntura, a ABRALIC deve tornar-se uma
teóricas, assim como investimos no diálogo produtivo entre criação e crítica: Associação atuante nas questões do presente e forte na comunidade acadêmica
metade dos convidados e das convidadas das sessões plenárias foi composta ou simplesmente não será capaz de afirmar a centralidade do ensino público.
por artistas e escritores.
Firmamos acordos internacionais de cooperação, estratégia que será
Ademais, na curadoria dos dois encontros da ABRALIC, tivemos um cuidado reforçada pela próxima Diretoria. A ABRALIC voltou aos quadros da International
especial com a expressão ampla da diversidade que constitui a sociedade Comparative Literature Association (ICLA), beneficiando os sócios e as sócias
brasileira e que quase nunca é contemplada na organização de festivais da ABRALIC. Nesse sentido, destacamos os acordos celebrados com o Centre
literários e de reuniões acadêmicas. Nesse sentido, muito nos orgulhamos da de Recherches sur lês Littératures et la Sociopoétique, da Université Clermont
seleção das mesas plenárias em 2016 e 2017. Esperamos ter contribuído para Auvergne, e com a própria International Comparative Literature Association.
uma revolução de hábitos e de mentalidades que é a cada dia mais urgente.
Ressaltamos com satisfação que a ABRALIC manifestou-se publicamente
Contamos com o apoio compreensivo do Conselho Deliberativo da em diversas ocasiões, expressando seu desacordo com as políticas de
ABRALIC para estimular ações de resistência na UERJ; colaborar na criação da cortes e as ações de intervenção indevida em instituições de ensino e
Cátedra Alberto Guignard (iniciativa da Casa de Leitura Dirce Côrtes Riedel/ de pesquisa. Assinamos o abaixo-assinado a favor da homologação do
UERJ e da Pós-graduação em História da Universidade Federal de Ouro Preto); resultado das eleições na Fundação Oswaldo Cruz, apoiando a nomeação
apoiar o Encontro Internacional Jacques Derrida/Evando Nascimento; apoiar o de Nísia Trindade para a presidência da instituição. Por meio de “Notas
XIV Encontro de Escritores e Artistas Indígenas e o I Seminário de Literatura Oficiais”, a Associação posicionou-se com firmeza acerca de temas urgentes

na atual conjuntura. Em sua última “Nota Oficial”, manifestamos o repúdio Ora, por que não pensar em termos de experiências literárias em lugar de
da comunidade acadêmica com a ação intempestiva da Polícia Federal na terminar no eterno beco sem saída das definições normativas?
Universidade Federal de Minas Gerais. 2017 – TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS
Por fim, os Encontros de 2016 e de 2017 propuseram reflexões acerca do “Textualidades Contemporâneas”: já passou da hora de reconhecer que não
papel e da posição dos estudos literários na contemporaneidade, articulando mais dispomos de um suporte único, definidor de uma hierárquica concepção
formas novas de teorizar e, sobretudo, questionar a própria disciplina de “texto”, cujo sentido deve ser “adequadamente” decodificado. Em resposta
Literatura Comparada. a esse entendimento normativo de uma prática hermenêutica domesticada,
Vale a pena recordar os eixos dos dois encontros. a ABRALIC propõe a noção de “textualidades contemporâneas”. Tal noção
2016 – EXPERIÊNCIAS LITERÁRIAS pretende caracterizar a pluralidade de suportes possíveis, a miríade de formas
de inscrição e a multiplicidade tanto de produções de presença quanto de
“Experiências Literárias”: em lugar de concepções normativas do estético
atribuições de sentido.
e do literário, que reduzem drasticamente o horizonte de leituras, impedindo
a renovação do repertório teórico e crítico, a ABRALIC abraça a pluralidade Trata-se de dar conta da afirmação de um panorama cultural definido
atual de valores e de interesses como uma alternativa a ser radicalizada. Na pela emergência de formas outras de expressão que, muito rapidamente,
circunstância presente, um conceito monocromático de “literatura” não dá deslocaram a “literatura” do lugar central que ela desfrutou de meados do
conta da diversidade e da intensidade das múltiplas “experiências literárias” século XVIII às décadas iniciais do século XX. Isto é, desde o momento histórico
que transformam o cenário das letras no mundo todo. em que o texto impresso – finalmente acessível, devido ao desenvolvimento de
novas técnicas de reprodução que, além de permitirem a criação de diferentes
Hoje em dia, e não apenas no Brasil, o que está ocorrendo é a expansão
formas de difusão de material escrito, baratearam o custo do livro – tornou-
considerável da atividade crítica e a apropriação vigorosa da experiência
se objeto do cotidiano até o instante em que novas formas de tecnologia e
literária, redimensionadas segundo interesses variados de comunidades
novos meios de comunicação assumiram o protagonismo na circulação e na
interpretativas as mais diversas. E não se trata da emergência de um “novo”
transmissão de bens simbólicos. A análise da experiência literária, portanto, não
espaço, resgate da legitimação perdida do circuito fechado da “vida literária”.
pode prescindir de uma cuidadosa reconstrução da materialidade dos meios de
Pelo contrário, vivemos o período histórico do surgimento de territórios
comunicação.
possíveis para intervenções pontuais: jornal, livro, revista, blog, vlog, Twitter,
Facebook, Academia, listas de endereço eletrônico, televisão, rádio, webcanais, Eis o desafio atual: como lidar com as múltiplas formas do literário no
festivais literários, casas de saber, livrarias, clubes de leitura – e a lista poderia mundo contemporâneo sem levar em consideração as diversas textualidades
seguir nas ruas do sono. que compõem a complexa rede de discursos e de comunidades interpretativas
que atravessam nosso dia a dia?
Não é tudo: mesmo historicamente, nunca existiu algo próximo a uma
prática discursiva homogênea denominada “literatura”, assim como um ***
exercício monolítico chamado “crítica”. A diversidade de modelos desde sempre Hora de encerrar: nos dois anos da Diretoria do Rio de Janeiro, hospedamos
constituiu o veio dominante; apenas nunca nos preocupamos em observar essa 138 simpósios e recebemos aproximadamente 5000 participantes, aí incluídos
pluralidade constitutiva da experiência literária e da atividade crítica. palestrantes e público. Celebramos a força da UERJ em meio ao maior desafio
histórico enfrentado pela instituição. A ABRALIC abraçou a causa da UERJ, isto

é, da Universidade Pública, e assim se aproximou de suas associadas e de
seus associados.

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Contudo, não tenhamos ilusões: a luta apenas começou e somente
fortalecendo associações como a ABRALIC poderemos dar o passo
decisivo: convencer a sociedade da centralidade do ensino público.
A ATUALIDADE DE J. W. GOETHE
Magali Dos Santos Moura (UERJ/ FAPERJ)
Eis a tarefa mais urgente na atual conjuntura. Marcus Vinicius Mazzari (USP)
Reiteremos: a luta somente principiou: se permanecermos unidos, Wilma Patrícia Dinardo Maas (UNESP - Araraquara)
poderemos derrotar o atual projeto de desmonte da Universidade Pública.
Mais uma vez, muito obrigado pelo apoio!
Resumo: Como homem de letras, cientista e figura histórica, J. W. von
Goethe dispensa apresentações. Sua obra caudalosa, publicada ao
longo de cerca de sessenta anos, compreende alguns dos textos mais
significativos da literatura em língua alemã, envolvendo temáticas
universais, como o pacto fáustico ou os conceitos de formação (Bildung)
e literatura mundial (Weltliteratur). O conceito de romance de formação
(Bildungsroman), cunhado por Karl Morgenstern (1803), foi por ele
diretamente associado ao romance de Goethe, Os anos de aprendizado
de Wilhelm Meister (1795 – 96). Ao fazer essa associação, Morgenstern
João Cezar de Castro Rocha (UERJ)
inaugura a fortuna crítica do termo, assim como a do próprio romance,
Presidente
atrelando-as a um discurso laudatório do conjunto das virtudes
Maria Elizabeth Chaves de Mello (UFF) burguesas. Como consequência disso, a história da literatura acolheu ao
Vice-Presidente longo dos anos uma definição conservadora do romance de formação,
Elena C. Palmero González (UFRJ) identificando-o sempre como uma narrativa de aperfeiçoamento
Primeira Secretária pessoal e integração na sociedade. O acompanhamento da história
do gênero, assim como da história da obra a ele associada, mostrará,
Alexandre Montaury (PUC-Rio)
entretanto, que a sobrevivência do Bildungsroman só pode se dar por
Segundo Secretário
meio da subversão dos pressupostos que definiram sua gênese. Se o
Marcus Vinicius Nogueira Soares (UERJ) romance de Goethe teve, já entre os críticos contemporâneos, aqueles
Primeiro Tesoureiro capazes de reconhecer a ironia e a ausência de integração e harmonia
JohannesKretschmer na trajetória do protagonista, também o conceito de Bildungsroman
Segundo Tesoureiro (UFF) passou a denominar narrativas por vezes bastante desviantes das
definições iniciais. A questão que se coloca, portanto, é a das condições

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XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS

de sobrevivência do termo e do gênero na contemporaneidade, uma vez quanto no drama goethiano pela lupa do conceito de `hybris’ em
que os pressupostos que lhes deram origem há muito deixaram de existir relação às duas obras. De forma sucinta, o conceito de hybris pode ser
Também o conceito de literatura mundial (Weltliteratur) acompanha os explicitado por aquilo que faz com o homem ultrapasse sua medida,
compassos da implementação do projeto de modernidade baseado na ou seja, aquilo que o move ou instiga a transcender determinado
colonização e exploração das terras além da Europa. Vale lembrar que o limite. A variabilidade do limite está em estreita dependência com
termo foi cunhado por Goethe nos anos em que se ocupava com Fausto cada época histórica e com cada acepção de sujeito. Se por um lado
II, época em que as notícias advindas da estada de Martius no Brasil o existiu a concepção de que o homem não pode se comparar com os
levaram a tecer o poema “Brasilianisch”. A persistência do conceito de deuses por ser-lhes inferior, por outro também se teceu a ideia de que
literatura mundial, revisitado por recentes estudos críticos como os de o homem pode prescindir dos deuses para atuar no mundo, movido
David Damrosch (2003) e de Franco Moretti (2000), levou à fundação do por um narcisismo titânico. Entre as duas acepções temos um largo
Institute for World Literature na Universidade de Harvard. Além disso, período de milênios. Mas não se trata, aqui, de traçar essa história que
em estreita relação com os estudos culturais, o termo foi determinante se confunde com a própria história do conceito de tragédia. Tomando
para a cunhagem do conceito de “glocalização” (Roland Robertson; de modo geral a ideia de que a figura de Fausto pode ser interpretada
Zygmunt Bauman; Ulrich Beck), espelho de estudos que debatem o como o arquétipo do homem temerário e desmedido, entendemos
processo de globalização e a homogeneidade cultural. O termo relaciona- que essa personagem representa a ousadia do homem moderno que
se às mudanças comportamentais dos “indivíduos em trânsito”, em um se aparta com passos categóricos e decisivos das leis divinas e procura
tempo em que se caracterizam mais pelo estar em movimento do que estabelecer as razões e formas de agir no mundo a partir de sua medida,
em termos de Estado nacional. Assim, abre-se aqui um espaço para ou seja, de uma medida intelectiva e individual. Com isso se pretende
contribuições que revisitem o termo “literatura mundial” nos contextos fazer uma análise comparativa entre as distintas versões sobre a história
da velocidade das mídias e dos processos de circulação cultural. do pactário que tiveram lugar no intervalo entre os séculos XVI e início
Palavras-Chave: Goethe, Literatura mundial, Literatura comparada, do XIX, analisando as aventuras e desventuras da personagem ao longo
Modernidade de distintos momentos histórico-culturais da modernidade, percorrendo
o período complexo da Contrarreforma, do projeto Iluminista e do
QUINTA 10 nascimento do sistema capitalista.
Tarde [14:30 – 16:30] Palavras-chave: Goethe, hybris, tragédia, Spies
Sessão 1
O Fausto de Goethe e a prosa de Fernando Pessoa: Uma análise do
A história de Fausto e a representação de uma hybris moderna, o conto “A hora do diabo”
trajeto de uma tragédia demasiadamente humana Débora Domke Ribeiro Lima (USP)
Magali dos Santos Moura (UERJ/FAPERJ) Resumo: Assim como foi imprescindível para a criação do Fausto de
Resumo: O objetivo do presente trabalho é empreender uma análise Pessoa, a obra de Goethe serve como referência também para o conto A
da personagem Fausto tanto na narrativa de Spies, editado em 1587, hora do diabo. Em seus escritos em prosa, pouco divulgados e, portanto,

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XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS

pouco conhecidos, notamos a forte influência do escritor alemão para de deixar claro as horríveis consequências do envolvimento com forças
a criação dessa ficção. Em um tom mais despojado, o autor português infernais, o texto, bem aos moldes luteranos, ataca também o clero
questiona a religiosidade e também o fazer poético de Goethe, mais católico e a busca pelo saber experimental da protociência característica
particularmente a figura de Mefistófeles e todo processo de criação da Renascença. Já a tragédia de Johann Wolfgang von Goethe, muito
desse ser representante do mal. Pretende-se analisar o conto com mais difundida e considerada uma das grandes obras de língua alemã,
base no cotejo com o autor alemão, centrando enfoque na criação dos se divide em duas partes, sendo a primeira mais ligada aos primórdios
opostos (bem e mal) e a influência desses conceitos na formação dos da lenda que a segunda. Algo entre uma peça e um poema extenso,
personagens. Não há como descartar a forte influência religiosa, que em esta obra vai além da simples moral cristã do Volksbuch. Enquanto na
Goethe é trabalhada de forma harmoniosa, mas que em Pessoa passa a obra Renascentista o doutor Fausto encontra um terrível fim nas mãos
ser uma questão, uma vez que o autor evoca o assunto diversas vezes, das forças às quais vendeu sua alma, no texto do início do século XIX
como forma de condenar, afirmar ou mesmo questionar sua existência. lhe é concedida a entrada no reino dos céus pela graça divina de Deus
Dessa forma, a figura do mal, a religiosidade e as técnicas narrativas após sua morte. Nossa proposta, no entanto, não é nos focar em seu
serão os três pilares de sustentação da análise. A existência do mal fim, mas sim analisar e comparar as motivações para a execução do
enquanto presença física ou mera abstração, a religiosidade como forma pacto com Mefistófeles nas duas obras, separadas por mais de dois
séculos e escritas em gêneros literários distintos. Na “Historia”, Fausto
de expiação dos pecados ou como alicerce para questionamentos e as
se encontrava desiludido com o saber que a teologia podia lhe oferecer
técnicas narrativas utilizadas pelo escritor português em contraponto à
e estava insatisfeito com os prazeres terrenos que podia gozar, o que
grandiosa obra poética de Goethe.
o levou a invocar um emissário do diabo na forma de Mefistófeles por
Palavras-chave: Goethe, Fernando Pessoa, religiosidade
vontade própria. Na tragédia de Goethe, por outro lado, é o diabo que
De Spies a Goethe: dois Faustos, duas desmedidas percebe as frustrações do estudioso e lhe propõe uma aposta. Esta
Bruno da Silva Siqueira (UERJ) diferença fundamental do elemento motriz da trajetória do personagem
é um reflexo do momento e da cultura em que os dois textos foram
Resumo: Nesta comunicação nos voltamos para a comparação de duas
produzidos. Ao comparar as duas narrativas, buscamos então
obras do mito fáustico: o Volksbuch “Historia von D. Johann Fausten”
compreender a metamorfose e o uso do mito de Fausto na sua primeira
de 1587 e a tragédia “Fausto” de 1808. O primeiro se trata de um livro
aparição literária para o grande público em relação à obra que o firmou
popular composto por um apanhado de histórias tradicionais orais sobre
como um dos personagens alemães mais icônicos dentro da literatura
Fausto, um personagem supostamente real. Foi escrito por um autor
mundial.
anônimo e lançado pelo editor Spies de Frankfurt, sendo a primeira
Palavras-chave: Fausto, Pacto, Goethe, Faustbuch
obra escrita sobre o mito de Fausto destinada ao público leitor então
em desenvolvimento. Spies, um luterano fervoroso, estava acostumado Faustos em Goethe e Thomas Mann
a editar renomadas obras jurídicas e teológicas daquele momento, mas Marise Gândara Lourenço (UFU)
decidiu lançar este livro de fácil leitura com o intuito de oferecer uma
Resumo: O presente artigo tem como corpus para análise o romance
Warnfigur - um exemplo a não ser seguido pelos cristãos da época. Além
moderno, Dr. Fausto, de Thomas Mann (1947) e elege como referência-

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XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS

primeira o seu texto fonte, Fausto de Goethe (1808). Considerada o processo de criação de sua obra, Word and music e studies de Steven
a obra prima de Mann, Dr. Fausto propõe reflexões sobre a história Paul Scher e A carne, a morte e o diabo na literatura romântica de Mario
trágica do compositor, Adrian Leverkühn, e sobre a Alemanha do Praz. Quanto ao dodecafonismo adotaremos A filosofia da nova música
início do século XX, com as implicações da Primeira e Segunda guerras de Theodor W. Adorno e para melhor entendermos a Modernidade
mundiais, contrapondo-se aos ideais alemães anteriores a estes lançaremos mão da obra de Marshall Berman, Tudo que é sólido
acontecimentos. A Música é tema desse romance e a relação entre desmancha no ar, a aventura da modernidade, entre outras obras.
esta e a Literatura representa o pacto entre o protagonista e o diabo. Palavras-chave: Goethe e Thomas Mann, Modernidade, Romance
Este pacto se concretiza com a escolha de Adrian Leverkühn pelo moderno, Literatura e Música
dodecafonismo como técnica composicional que possibilita criar uma
música que é pura dissonância do começo ao fim, com conflitos o Alfredo e o Mundo: O romance moderno de formação em Dalcídio
Jurandir e Milton Hatoum
tempo todo, sem resolução alguma, sem um repouso sequer e sem
Lucília de Sousa Pinheiro (UFPA)
um ponto final, no sentido tradicional de música. Tensão constante
que se impregna na figura do próprio protagonista em forma de Resumo: Romance de formação, termo cunhado por Karl Morgenstern
angústia personificada, embora já trajasse esta veste, desde o início (SELBMANN, 1988), descreve aspectos do desenvolvimento pessoal
do romance, mas em pequena proporção. Dissonância que significa do indivíduo a partir das experiências que ele enfrenta. Os anos de
algo verdadeiramente diabólico! Se, na Idade Média, o trítono era aprendizado de Wilhem Meister, de Wolfgang von Goethe, no contexto
coincidentemente denominado de diabolus in musica, por ser um do Romantismo e da Era Clássica da literatura alemã, publicado
intervalo musical difícil de ser cantado e bastante dissonante cujo entre 1795-1796, tornou-se o modelo para uma série de romances
uso só foi liberado pela igreja no século XVII, o dodecafonismo é a posteriores que surgiriam. O Romantismo na Alemanha tem por ápice,
exacerbação disto em mil vezes. Mas o contrato com o demônio, na Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, em 1774. Preocupados
obra de Mann, não é só representado pela adoção desta técnica. em não se deter em regras, os autores desse romantismo queriam
Figura-se também por meio da escolha do texto poético a ser musicado viver abertamente o que pregava o “Sturm und Drang” (tempestade e
pelo protagonista e os efeitos que a junção da Literatura e da Música ímpeto), escrever com grande paixão, morrer de amor e não se deter a
provoca. Neste sentido, propomo-nos investigar em que medida Thomas regras, condutas sociais ou da religião, mas buscar sua própria conduta
Mann concebe a união da Música com a Literatura para representar o de vida. Segundo Rosenfeld (1985), desta primeira onda “romântica”,
mítico e o místico, tendo como referência a obra de Goethe, na qual a irradiou-se encontrando ampla receptividade, certa atitude de “dor
angústia também está presente na figura do protagonista que anseia do mundo” (o famoso Weltschmerz de Werther). Ressalta-se agora a
conquistar o conhecimento do mundo, em contraposição ao fato do incompatibilidade entre o grande indivíduo e a sociedade; o violento
que tem de concreto diante de seus olhos: os seus livros empoeirados ímpeto dos jovens poetas burgueses contra a sociedade do absolutismo
e a reclusão de seu laboratório. Assim, para que alcancemos nosso alemão. A “formação” a partir do conceito romântico, diz respeito
objetivo, utilizaremos como referência básica A gênese do Doutor ao “desenvolvimento da subjetividade, da capacidade de percepção,
Fausto: romance sobre um romance, no qual Thomas Mann reconstrói reflexão e criação. No romance de formação, segundo Volobuef (1999,

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p.44 ) “trata-se de uma busca de si mesmo, da libertação das amarras a polifonia e a carnavalização, valendo-se da análise de autores
sociais, da descoberta de novas possibilidades de subsistência que não da envergadura de Fiódor Dostoiévski e François Rabelais. Tão
se restrinjam a profissões burguesas tidas como úteis”. O que foi um proeminente quanto eles, Goethe também ocupou lugar de destaque
mundo idealizado, o início ? do projeto romântico e clássico, resolver no pensamento do teórico russo, embora este não tenha publicado
os grandes problemas da humanidade, progresso econômico e de título dedicado exclusivamente ao gênio alemão. Nesta comunicação,
saúde, projetado numa biografia reta, superando obstáculos e finalizado pretendemos contextualizar o legado de Bakhtin relacionado a Goethe
numa grande harmonia (Goethe e Keller) desmoronou no século XX e atualizar a própria obra de Bakhtin, que teve, em anos recentes, sua
(PRESSLER, 2003). O desenvolvimento harmonioso no indivíduo não versão completa e definitiva. Além disso, sob o prisma de Bakhtin,
existe, ele fracassou. O presente trabalho propõe uma nova leitura do apresentaremos um pequeno estudo comparativo do tratamento
Romance de formação, que assume um caráter diferente a partir do expressivo dispensados aos números no Fausto de Goethe, em
século XX, seria então um Romance Moderno de Formação entendido Gargântua e Pantagruel, de Rabelais, e no conto “O recado do morro”,
como capacidade e habilidade de se encontrar no mundo fragmentado, de Guimarães Rosa. Para tanto, recorreremos aos aportes teóricos de
desmoronado – identidades na superfície e no fragmento – “identidade Bakhtin presentes em Estética de Criação Verbal e A cultura popular na
irônica e/ou reflexiva” (PRESSLER, 2003) A exemplo disso temos os Idade Média e no Renascimento.
romances de Dalcídio Jurandir, com Alfredo, personagem central de Palavras-chave: Bakhtin, Goethe, Rosa, números
nove romances (1941-1978) e em Cinzas do Norte (2005) de Milton
Hatoum, obra que tem Mundo como protagonista da narrativa. O Antonio Candido, leitor do Fausto de Goethe
personagem Mundo, que mora em Manaus, é apresentado diante das Marcus Vinicius Mazzari (USP)
desavenças que possui com o pai, por não aceitar o destino que lhe foi Resumo: O grande crítico brasileiro Antonio Candido (* 1918) explicitou
proposto, resolve sair da cidade, e assim alcança algo que lembra seu em algumas oportunidades que o “Fausto” de Goethe representa uma
apelido: o mundo de suas leituras decisivas, sempre reiterada ao longo dos anos e das
Palavras-chave: Romance de Formação, Romance Moderno de décadas. O ensaio rastreia a influência que essa proeminente obra da
Formação, Dalcídio Jurandir, Milton Hatoum Literatura Mundial (Weltliteratur) exerceu sobre sua produção crítica,
desde a “Formação da Literatura Brasileira” (1959) até o estudo “O
SEXTA 11 Albatroz e o Chinês”, publicado no livro homônimo de 2004. As posições
Manhã [09:00 – 11:00] de Antonio Candido perante o “Fausto”, no tocante à sua influência
Sessão 2 constitutiva sobre o Romantismo brasileiro (mas não só), serão
examinadas à luz dos mais recentes resultados na filologia goethiana
Goethe, Rabelais e Rosa - uma pequena poética dos números e também contrastadas com posições de autores contemporâneos de
Maria Cecilia Marks (USP) Goethe, como Lord Byron e Aleksandr Púchkin.
Resumo: Mikhail Bakhtin elaborou conceitos de teoria da literatura Palavras-chave: “Fausto” de Goethe, Obra crítica de Antonio Candido,
que revolucionaram esse campo do pensamento, como o dialogismo, Romantismo brasileiro, Literatura Mundial

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Werther e o Sturm und Drang de formação em perspectiva histórica: o Tambor de Lata de Günter
Luana Signorelli Faria da Costa (UNICAMP) Grass” (1999). É assim que se pretende demonstrar a importância
Resumo: Tendo em vista o já muito comentado “Os sofrimentos do desta obra para a atualidade, nos dois sentidos do termo: atualidade
jovem Werther” (2001), este trabalho não se propõe então a debatê- tanto na concepção de a obra ainda ser recente, como também na sua
lo exaustivamente, mas sim enquadrá-lo como parte de um panorama possibilidade de se tornar ATO, isto é, Wirkilichkeit, realidade objetiva, e
no qual a tragédia do suicídio e a natureza se revelam como base incidir ativamente na vida do ser humano, para assim explicar o que no
do imaginário romântico. Este romance fundamental indica na sua homem permanece e se mantém, ou seja, a sua essência.
constituição uma discussão metafísica e filosófica sobre a vida e o Palavras-chave: Humanismo, Estética, Atualidade, Formação
homem, o que, participante do Sturm und Drang, indica significativo A Época de Goethe sob a perspectiva do Sturm und Drang de Goethe e
impacto no movimento do nacionalismo alemão, bem como a sua o Romantismo de Friedrich Schlegel
preparação para o século XX, influenciando a literatura moderna, Juliana Oliveira do Couto (UERJ)
por exemplo, Thomas Mann (“Goethe como representante da era Resumo: No ano de 1773 veio a lume o drama Götz von Berlichingen,
burguesa”) e Hermann Hesse (“Gratidão a Goethe”). Werther trata- de autoria de Goethe, que se configurou como concretização literária
se de um coração tempestuoso, dominado pela intensidade de seus de um modelo estético já apontado na Aufklärung de Lessing: uma
sentimentos; antes, tão encantado pela entidade da natureza, contudo, busca por uma literatura genuinamente alemã, calcada na originalidade
depois, entediado pelo dissabor da sociedade, representativo do ruir de e livre de preceitos rígidos, como aqueles perseguidos por Gottsched
uma época. Isso de tal forma que “parecia possesso de algum demônio” e seus discípulos. Para a consumação desta literatura autêntica, o
(2001, p. 117). Werther é a experiência frente ao abismo. Estes modelo shakespeariano foi fundamental, como o próprio Goethe já
elementos também, em maior ou menor grau, já compõem ciclicamente havia enfatizado em seu célebre ensaio Para o dia de Shakespeare. Estes
“Fausto” e “Afinidades eletivas”. Não só na prosa, mas também na sua eram os primórdios do Sturm und Drang, estilo de época cujas palavras
“Gedichte”, Goethe já se mostrava um escritor profundo, dotado de chave eram originalidade, impetuosidade e liberdade artística – que
preocupações estéticas, sobretudo em relação à crise entre o objetivo resulta no conceito de gênio criador, tão caro aos Stürmer. O papel de
e o subjetivo, como é o caso do poema Ultimatum: “Natur hat weder Goethe como uma das figuras centrais do Sturm und Drang desde as
Kern /Noch Schale /Alles ist sie mit Einemmale”, ou, em livre tradução suas origens se assemelha ao de Friedrich Schlegel na primeira fase
minha: “Na natureza não há/ Só núcleo nem casca/ Tudo acontece de do Romantismo alemão – ou Romantismo de Jena. Cabe ressaltar que
uma só vez”. Esta ideia também presente na voz em primeira pessoa na época da eclosão do movimento romântico Goethe já não mais se
de Werther: “Mato-me dentro de mim mesmo e acho aí um mundo.” identificava como um Stürmer, mas como um classicista, embora as
sementes plantadas no estilo de época pregresso tenham sido de vital
(2001, p. 22). Por fim, a tese principal do trabalho será observar a
importância aos românticos. Assim como Goethe notabilizou-se como
duração e o alcance da sua influência, perpassando pelo expressionismo
o primeiro literato a pôr em prática a teoria estética que se delineava
alemão com Ernst Bloch, porém também atingindo depois a nova onda
desde a Aufklärung, mas que, até então, ainda não havia encontrado
humanista. Como apoio teórico, será utilizado o texto do crítico literário
concretização no plano ficcional, Schlegel apresentou ao público
húngaro György Lukács “Goethe y su época”, e também “Romance

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alemão em seu romance Lucinde – publicado em 1799 – a efetivação de narrativas relativamente semelhantes entre si, as quais atendem
literária de seus postulados estéticos. Schlegel deu vida à sua obra de modo amplo a síntese do gênero conforme Jüngen Jacobs. A
através da mescla de distintos gêneros literários – epístolas, diálogos, ideia de formação pessoal e integração na sociedade com avanços e
trechos típicos de romance, até mesmo de um romance de formação retrocessos, erros e acertos, e de uma significativa participação na
– que se alternam entre as vozes dos protagonistas Julius e Lucinde, esfera do universo artístico, bem como um espelhamento das questões
promovendo, assim, um duplo ponto de vista, além de promover uma filosóficas do autor ao protagonista que se embate entre vida e arte
escandalosa apologia ao amor livre. O romance se configurou como a favoreceram a derivação ou a consolidação de um gênero irmanado ao
tentativa de transpor ao universo ficcional a teoria estética do próprio Bildunsroman: romance de formação de artista ou Künstlerroman. Tal
autor, calcada em uma estrutura mais aberta, que leva o conceito de gênero, derivado ou per si, conta com uma significativa bibliografia a
liberdade artística, que já se apresentava no Sturm und Drang, a níveis respeito, dentre as mais importantes a tese de doutorado de Herbert
descomunais. Vale salientar, por fim, que, embora Lucinde simbolize Marcuse (Der Deutsche Künstlerroman) e o trabalho de Peter Zima (Der
justamente o oposto dos pressupostos referentes ao âmbito literário no europäische Künstlerroman). Existem muitos trabalhos de aplicação do
qual Goethe se encontrava à época da publicação do romance, imerso Künstlerroman, especialmente em estudos de gênero, estudos sobre
no Classicismo de Weimar, a problemática central do presente trabalho colonialismo, etc. como o de Eliane Campello (O Künstlerroman de
está calcada na relação entre teoria e prática literária. Goethe e Schlegel autoria feminina). O Künstlerroman também repousa sua origem na
protagonizaram feitos artísticos vitais aos estilos de época Sturm und obra de Goethe e guarda afinidades conceituais com outros gêneros
Drang e Romantismo, respectivamente, e, atentar à forma como ambos de natureza intimista (autobiografia, memórias, confissão...) além de
transferem questões do plano teórico ao concreto, se configura como apresentar convergência com as mesmas obras paradigmáticas. Por se
um estudo que remete não somente a períodos pontuais da literatura, tratar de um romance de formação de artista, o Künstlerroman abriga
como à própria formação da literatura alemã. narrativas com protagonistas que desenvolvem experiências no mundo
Palavras-chave: Sturm und Drang, Romantismo, Götz von Berlichingen, das artes, em geral artistas plásticos (normalmente pintores). Há,
Lucinde entretanto, uma questão delicada quando os narradores protagonistas
artistas nesses romances são escritores. Embora saibamos que os poetas
SEXTA 11 não são apartados da República, como postulava Platão, e também
saibamos que desde o século XIX a literatura está definitivamente
Tarde [14:30 – 16:30]
inscrita como uma forma de saber e integrando o universo artístico,
Sessão 3
ainda há (tanto conceitualmente no âmbito da academia quanto no
Em busca de “assunto para um bom romance”: Apontamentos para pensamento corrente) a ideia de não abarcar a literatura quando
uma derivação conceitual a partir do Bildungsroman se emprega o verbete “arte” e seus cognatos. No que se refere ao
Abilio Pacheco de Souza (UNICAMP) Künstlerroman, podemos notar que existe um esforço argumentativo
Resumo: O romance de formação (Bildungsroman) cujo conceito surge maior quando o autor de um ensaio, artigo ou crítica tem como corpus
com Morgenstein e se associa ao romance “Os anos de aprendizado um romance cujo protagonista seja um romancista ou um poeta.
de Wilhelm Meister” de Goethe, a partir do qual se erige uma série Afirmar que “Os Moedeiros falsos”, de Gide, ou “David Coperfield”, de

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Charles Dickens, ou “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, podem ser objetivo desenvolver uma reflexão a cerca romance O alegre canto da
lidos com Künstlerromane é algo que certamente cause estranheza. perdiz, da escritora moçambicana Paulina Chiziane, e analisá-lo sob a
Por se tratar de Künstlerroman cujo artista trabalhe no próprio objeto perspectiva do romance de formação feminino. Como refletiremos a
de sua arte (e uma arte tão pouco aceita como hipônimo para o partir do espaço moçambicano, verificamos que as etapas presentes
conjunto), cremos tais romances demandem, não um esforço teórico no bildungsroman se assemelham aos tradicionais ritos iniciáticos
para serem inseridos no gênero, mas na necessidade de pensarmos presentes na cultura bantu. Tais ritos consistem na passagem simbólica
numa deviração para o gênero. Assim, romances como “Pessach, a da infância para vida adulta, pois são cerimônias que abarcam, além
travessia”, de Carlos Heitor Cony, “Quatro Olhos” de Renato Pompeu, dos ensinamentos referentes à vida comunitária, a transmissão da
“Romance de Geração” de Sérgio Santana, “A terceira Margem” de cultura e dos aprendizados tradicionais de sua comunidade. Em
Benedicto Monteiro – para citarmos apenas alguns exemplos – exigem Moçambique, considerando-se a maior parte das etnias que compõem
uma abordagem mais especifica nessa rede conceitual que inicia o país, a formação do jovem era realizada, até pouco tempo atrás,
com o Bildungsroman, a saber: um Künstlerroman de escritor ou, dentro desses grupos, aos quais os indivíduos pertenciam, pois os
simplesmente: Schriftstellerroman. Nesta comunicação, pretendemos ritos eram comunitários e não passavam pela escrita, mas apenas pela
apresentar breves apontamentos para esta derivação conceitual. tradição oral. Em uma análise comparativa, pode-se afirmar que ritos
Palavras-chave: bildungsroman, künstlerroman, künstlerroman de de iniciação, em sentido lato, também são etapas frequentemente
escritor, schriftstellerroman retratadas nos bildungsromans do modelo alemão, e marcam uma fase
de transformação da personagem, preparando-a para a sua integração
O alegre canto da perdiz, de Paulina Chiziane: Bildungsroman feminino na coletividade. Para muitas sociedades africanas, por sua vez, tais
contemporâneo
ritos não apenas representam a mudança de um nível etário a outro,
Cíntia Acosta Kütter (UFRJ)
mas também, uma transformação longa e progressiva pela qual o(a)
Resumo: A tradição do romance de formação, Bildungsroman, Romance menino(a) deixa de ser criança para tornar-se homem/mulher. Nesse
de formação ou Romance de Educação, Erziehungsroman, termos sentido, pensaremos a partir do ponto de vista das personagens
empregados no estudo da literatura ocidental, nos remetem, como femininas de que forma se dá a aprendizagem individual e coletiva
afirma Bakhtin, à “imagem do homem em formação no romance” (2003, dessas mulheres .
p.217). O termo bildungsroman foi usado para caracterizar uma tipologia Palavras-chave: Bildungsroman feminino, Representação da mulher,
de romance pela primeira vez pelo professor de Filologia Clássica Karl Paulina Chiziane, Moçambique
Morgenstern (1770-1852), relacionando a palavra diretamente ao
romance de Goethe, Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1795- A literatura mundial no Brasil e o ensino de literaturas indígenas e
96). Segundo a definição proposta por Morgenstern, o bildungsroman é africanas
uma modalidade de romance tipicamente alemã, que visa acompanhar Carlisson Morais de Oliveira (UFPB), Hermano de França Rodrigues (UFPB)
as experiências do indivíduo desde a infância e/ou adolescência até Resumo: David Damrosch, em “What is world literature?” e “How to
a idade madura, ou seja, quando podemos considerar como finda read world literature” apresenta um conceito de literatura mundial
a sua formação e/ou aprendizagem. O presente trabalho tem como com algumas características importantes para a discussão da literatura

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mundial no Brasil. A primeira é que a literatura mundial se realiza infinidade de abordagens possíveis, para a contribuição desta tarefa.
na arena nacional; a segunda é a separação entre qualidade textual Uma abordagem mais teórica: a feita por Eliane Robert Moraes em
e circulação internacional, mostrando que alguns textos são tão “Perversos, amantes e outros trágicos”, ao incluir num livro de base
enraizados numa tradição que isto dificulta uma expansão da circulação; psicanalítica um conto indígena. Uma abordagem mais textual: uma
a terceira é também a separação entre literatura nacional e língua comparação entre paralelismo indígena (Pedro Cesarino) e versificação.
nacional, indicando algumas literaturas com mais de uma língua; e, Uma abordagem mais histórica: a ressignificação da figura histórica do
por último, o grande dinamismo diacrônico dos textos numa dada jesuíta na figura mitológica kesuita pelos Guaranis Mbyá (Aldo Litaiff)
cultura. Com essas características em mente, é fácil perceber como, na e a mesma prática nos textos canônicos cristãos. E, para cumprirmos
atualidade, as literaturas indígenas e africanas possuem pouca presença essa tarefa, é importante termos em mente a potência da atividade
nos estudos de literatura comparada no Brasil. Salvo os movimentos universitária defendida por José Luís Jobim em “Crítica literária
recentes e a literatura infanto-juvenil, a literatura mundial no Brasil contemporânea”, qual seja, a de que a mudança da prática literária
ainda poderia ser representada por uma coleção de clássicos da Editora na universidade atingirá, pelas escolas básicas, um grande número de
Abril. Mas nem sempre os estudos literários no Brasil tiveram esta pessoas e será uma contribuição para a efetiva aplicação da legislação
visão excludente. Na “História da Literatura Brasileira” (1859-1862), do ensino de literatura.
de Joaquim Norberto de Sousa Silva, a primeira história da literatura Palavras-chave: Literatura comparada, Crítica literária, Ensino de
brasileira, o autor romântico inclui a “poesia indígena” no seu texto. literatura, David Damrosch
Esse marco esquecido é importante para não cometermos o erro de
estudarmos essas literaturas como uma busca da pureza étnica ou das
origens nacionais. Longe dessa visão que só continuaria a colonização,
precisamos abordar essas literaturas com o mesmo profissionalismo
que temos com a literatura brasileira em português ou as europeias.
Alguns materiais já estão disponíveis em várias línguas, mas vou apontar
somente alguns exemplos de textos editados no Brasil. Nós temos livros
monolíngues feitos por professores indígenas para os seus cursos, como
os publicados por professores Huni Kuin (Kaxinawá); livros escritos
por indígenas em português; algumas traduções de textos literários
feitos por antropólogos ou coletâneas como “Mitologia dos Orixás”,
de Reginaldo Prandi; apesar de que, às vezes, a pouca atenção dada às
formas literárias tem como consequência uma homogeneização textual.
Considerando esse panorama e tendo em mente o caráter dinâmico
da circulação de textos, acreditamos que a literatura comparada pode
contribuir para incluir as literaturas indígenas e africanas na literatura
mundial no Brasil. Quero me aprofundar em três exemplos, dentre uma

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02
BELLE ÉPOQUE: A CIDADE E AS
EXPERIÊNCIAS DA MODERNIDADE EM
ARTE E LITERATURA
Carmem Lúcia Negreiros de Figueiredo, UERJ
Jean Pierre Chauvin, USP
Rosa Maria de Carvalho Gens, UFRJ

Resumo: A Belle Époque, período compreendido entre o final do século
XIX e as primeiras décadas do século XX, caracterizou-se por uma série
de transformações reunidas sob o eixo progresso e civilização.
Os novos meios de transporte, comunicação e distribuição,
combinados à distribuição voraz de mercadorias, veículos e sujeitos,
reconfiguraram as práticas de mobilidade e circulação: eixos marcantes
do crescimento do capitalismo. O cenário mais representativo desse
processo, no Brasil, é o Rio de Janeiro, que protagonizou os efeitos
dessas mudanças na intensificação da vida sensorial, na vivência de
novas experiências no corpo e na percepção do ser humano. Mesmo
na periferia da produção industrial capitalista, observa-se a formação
de uma sensibilidade estética que alia técnicas, fascínio e tensão – da
vida urbana – aos sonhos, sobressaltos e devaneios dos sujeitos. Das
ruas que se modernizam tornam-se referências a Avenida Central,
reformada a partir do modelo político e metodológico parisiense, e a
rua do Ouvidor, local onde a moda atualiza os hábitos e atitudes, na
exposição de vitrines com produtos sofisticados, tornando-se, a própria
rua, espaço para a exibição da modernidade nos corpos e atitudes,
devidamente registrados pelos flashes das kodaks dos jornalistas ou
binóculos dos transeuntes. A rua do Ouvidor promove a síntese entre
o antigo e o moderno, com o advento de novas técnicas, imagens
e produtos, numa interessante sobreposição de tempos e espaços.
Nela, circulam elegantes cavalheiros vestidos à inglesa, cocottes e

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senhoras com figurino francês, iluminação artificial, inventos ópticos, Por isso, os pesquisadores do LABELLE – Laboratório de estudos de
vitrines e automóveis; também circulam vendedores ambulantes cultura e literatura da Belle Époque, sediado no Instituto de Letras
– como ruínas dispersas da escravidão –, carroças, charretes, da Uerj – convidam à indagação sobre a matéria literária e artística
carregadores, oficinas artesanais, capoeiras, quiosques em meio centrada na cidade e suas representações, abrindo espaço para
a água estagnada e epidemias. As expressões de susto, encanto e reflexões ligadas a suportes vários que acolhem as experiências
impacto dos que nela transitam projetam na manipulação do espaço, estéticas. Os seguintes temas servirão de apoio à indagação:
a sensação do tenso, rico e coexistência de tempos, passado e futuro, A. Experiência urbana e escrita. A cidade como paisagem visual e
no presente. Trágica ou fascinante, a modernidade representada sonora. A cidade e o desenho de novas subjetividades. Tecnologias
nas ruas permite, também, a permanência de formas e imagens visuais, modernização da percepção e seus efeitos. Memória e
que pretende superar. Assim, o embelezamento do espaço urbano narrativas. Visibilidade, novas configurações de tempo e espaço na arte
coexiste com a ruína ou decadência do antigo, as imagens geradas por e literatura. A cidade e as margens. A rua palco, cenário ou miragem. O
tecnologias sofisticadas seduzem o iletrado e as notícias dos jornais e diálogo com outras literaturas. Nova escrita, novo perfil de intelectual?
anúncios na cidade reeditam formas da cultura oral. B. Figurações do humor e a modernidade. O riso, a caricatura, a
As tensões entre o novo e o velho também geram resistência e paródia em seus diferentes aspectos gráfico e literário. A cidade, o
rebeldia: as ruas ferviam em protestos, rebeliões e greves. A cidade pintor e o desenhista.
infernal, habitada por todos os expulsos da modernidade (logo C. Condições materiais de produção. A comparação entre artes e
chamados de facínoras, vagabundos, desordeiros, doentes etc), era suportes (música, fotografia, quadrinhos, etc). Os suportes e as possíveis
descrita de forma dantesca pela imprensa e recriada pela literatura. refrações e reflexões de aspectos infra-estruturais (incremento do
A população lia a cidade pelos redatores de jornais – criativos parque gráfico, entrada em cena do linotipo, dispositivos óticos,
ao classificar os espaços (covil, antro, oficinas da peste) – e pela fotogramização da experiência urbana etc) sobre a escrita e sobre os
relação entre narradores e personagens. Os intelectuais também se produtos híbridos de imagem e texto então circulantes.
debruçavam sobre as contradições do processo de modernização da D. Problematização teórica e/ou em estudo de obras literárias de
cidade (havia a coexistência de temporalidades diversas) e conferiam questões como modernidade, modernismo e modernização. Cidade,
protagonismo às ruas como espaço de constituição do imaginário história e cultura. Diálogos com o contemporâneo?
carioca moderno, metáfora das tensões do país. Esse movimento Palavras-chave: Belle Époque, Cidade, Modernidade, Literatura
assume modalidades distintas nas páginas dos jornais, conferências,
nas sátiras e caricaturas, nas crônicas, romances, ensaios e poemas.
A forte presença do humor, debates e polêmicas produzem
questionamentos sobre o papel da literatura, o lugar do intelectual ao
lado das reflexões sobre o país e os brasileiros, tendo como cenário
as ruas, com seus cafés, confeitarias, becos e travessas. A história da
modernidade na Belle Époque é indissociável da história da cidade.

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TERÇA 08 na apresentação da nova cidade. Para tanto, também será necessário
definir as singularidades da modernidade carioca, em especial, tendo
Manhã [09:00 – 11:00]
em vista a presença negra nas ruas.
Sessão 1
Palavras-chave: João do Rio, modernidade, Rio de Janeiro
A cidade caleidoscópio: o olhar na obra de João do Rio
Giovanna Ferreira Dealtry (UERJ) Escritas da cidade e os cronistas do Rio
Moema de Souza Esmeraldo (PUC-Rio)
Resumo: Pensar a modernidade implica em revisitar o surgimento da
metrópole moderna e as consequências para o indivíduo dessa radical Resumo: Escritores como João do Rio, Lima Barreto e Carlos Drummond
mudança em ser e estar em um espaço urbanístico e arquitetônico de Andrade serão evidenciados a partir das “notícias da cidade”
organizado para o controle das massas, o fluxo das multidões, a apresentadas em crônicas publicadas em jornais com intuito de
desconexão entre os indivíduos. A extensa bibliografia a esse respeito, proceder à discussão sobre a representação de imagens urbanas.
indo de Baudelaire, Georg Simmel, até Anthony Giddens e Beatriz Nesse sentido, o objetivo é evidenciar a relação constitutiva desses
Sarlo, reflete a amplitude de abordagens e, no caso dos autores escritores com a urbe e a condição de uma escrita jornalística-literária.
contemporâneos, a permanência da tensão entre espaço e construção A análise dos textos dos escritores selecionados remete à proposta de
de subjetividades. que permanece como espectro, ruína. Afinal, Andreas Huyssen (2015), em Miniature metropolis. Literature in age of
somos sujeitos no século XXI circulando por espaços concebidos photography and film, no sentido de serem exemplos de textos curtos
na modernidade ou, quando desviantes, tendo como sombra esse que narram impressões da modernidade a partir das transformações
passado em comum. À cidade da fragmentação, do anonimato, da do espaço urbano. Espectros da cidade, miniaturas metropolitanas,
volatilidade da mercadoria corresponde a uma valorização do olhar ou “mini-espelhos da cidade” (ANDRADE, 1981), emergem de um
diante da incapacidade de promover sentidos estáveis à rede de novas modo de escrita acelerada por essa experiência urbana mais breve,
experiências. Galerias, cafés, avenidas, parques transformam-se para a inserida em um modo de narrar que deixa emergir o instante como
experiência do ver e (não) ser visto, enquanto a profusão de dispositivos momento de representação da história de épocas diferentes para
ópticos, desde a simples vitrine refletora do movimento urbano, até os legibilizar a cidade e o emaranhado de suas existências humanas. Esses
cinematógrafos, trazem para o plano do cotidiano o desejo imagético. escritores-jornalistas descrevem, cada um a sua maneira, formas de
Nesse perspectiva, é inegável o contraponto entre o conceito de condensação de momentos citadinos em instantes como “flash de luz”,
experiência, muitas vezes ligado à tradição, à memória coletiva, e visão intempestiva tanto de tempo quanto de história utilizada por
o horizonte de um consumo de mercadorias, entendida aqui como Walter Benjamin (1989), no ensaio Sobre o conceito de história, em
qualquer bem, gesto, mesmo indivíduo, capaz de servir como moeda de que a imagem do passado é apreendida em um instante, que passa
troca no novo cenário da modernização. Interessa-me investigar como veloz e fugaz. Nesse contexto de mudanças, o centro urbano do Rio
na obra de João do Rio emerge essa tensão dialética entre a cidade da de Janeiro é evidenciado como símbolo de renovação, e, desse modo,
experiência e a cidade da mercadoria, tendo como mediação o espaço a antiga Avenida Central, depois renomeada para Rio Branco, foi ao
literário, em especial, possíveis recortes sobre a importância do olhar mesmo tempo símbolo da modernidade e espaço de segregação.

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Assim como João do Rio, Drummond vale-se do exemplo da Avenida debruçará sobre as crônicas publicadas pelo escritor carioca em diversas
Central para pensar aspectos de exclusão ocasionados pela reordenação revistas e jornais da época, e terá como foco destacar os elementos
desse espaço e reflete sobre os impactos das transformações físicas de tradição e modernidade que perfazem sua narrativa ao privilegiar a
da cidade a partir do cotidiano das ralações humanas. Todavia, vele cidade do Rio de Janeiro como palco de ações e vivências. A pesquisa
ressaltar que realizam escritas efetivadas em função do jornal ou da se orienta por uma chave analítica importante em circulação no campo
“condição jornalística”, que permitiu revelar o olhar desses “cronistas das Ciências Humanas que se refere a uma aproximação de temas
do Rio” como observadores desse momento da nossa história. Nessa como narrativa, memória e sociabilidades urbanas. Neste tocante, ao
linha de pensamento, este estudo tem a proposta de relacionar a aproximar História e Literatura, a pesquisa permite a reflexão sobre
cidade como símbolo determinante da significação do cotidiano, uma importante representação da cidade, representação reveladora
representado em escritas que elaboram imagens da cidade. Dando de um aspecto fundamental para situar o papel desempenhado pela
continuidade à escrita jornalística, Lima Barreto e Carlos Drummond de cidade do Rio de Janeiro no cenário político e cultural que se desenhou
Andrade ocupam posição de destaque na tradição de cronistas urbanos no Brasil na passagem da Monarquia à República. O aspecto em
prosadores do cotidiano citadino. A propósito de conhecer a história questão é precisamente o descompasso, pleno de significado social,
da literatura brasileira, Drummond lembra, em uma de suas crônicas, o entre duas cidades: uma cidade ideal (cidade-função) e uma cidade
também escritor-jornalista Lima Barreto, por sua escrita entusiasmada visceral (cidade-uso). Trata-se, evidentemente, de uma única e mesma
a registrar aspectos de mudanças da cidade moderna, em específico cidade: a cidade do Rio de Janeiro na passagem do século XIX para o
a capital carioca, então capital da República do Brasil. Lima Barreto, XX. Porém, acompanhar a narrativa de Lima Barreto através da leitura
João do Rio e Drummond, entre outros escritores brasileiros, exerceu de suas crônicas, permite a captura desses dois níveis de vivências do
concomitantemente a literatura e o jornalismo em sua vida profissional. fenômeno urbano carioca: por um lado, a cidade enquanto referencial
Tais escritores elencaram as mudanças da cidade moderna e a vivência semântico fundamental da modernidade, “laboratório da civilização nos
de seus habitantes diante destas transformações. trópicos”, vetor principal do progresso material para toda a nação; por
Palavras-chave: Literatura, cidade, crônica outro, a cidade palco de vivências e historicidades que funcionam como
a antítese, o avesso “bárbaro” da cidade-ideal-de-civilização, tradições
De Cascadura ao Garnier: tradição de modernidade no Rio de Janeiro
através das crônicas de Lima Barreto vinculadas ao passado colonial, monárquico e escravista que quase
Rodrigo de Moura e Cunha (UERJ) nunca se coadunam ou atendem às mesmas expectativas futuras. Neste
sentido, as crônicas de Lima Barreto permitem um encontro privilegiado
Resumo: A comunicação se baseará na pesquisa de Doutorado que
com essa dialética das duas cidades (ideal e visceral). As representações
vem sendo desenvolvida junto ao Programa de Pós-Graduação em
da cidade que perfazem as crônicas do autor permitem uma análise da
História Política da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Trata-
cultura de ocupação do espaço urbano do Rio de Janeiro na virada do
se de uma investigação sobre as representações da cidade do Rio de
século XIX para o XX. Permite dimensionar o impacto da experiência
Janeiro produzidas na obra do escritor Lima Barreto na última década
republicana para a cultura urbana carioca, bem como, o peso que as
do século XIX e duas primeiras décadas do século XX. A pesquisa se
ideias de civilização e progresso tiveram nos projetos de cidade e nação

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que caracterizaram a Primeira República. Por outro lado, suas crônicas registrar os abalos e impressões da cidade, e de seus habitantes, mas
favorecem um encontro com sociabilidades, usos do espaço urbano que também que revele as tensões, sentimentos e inquietudes da cidade
não puderam ser enquadrados nos ideais de civilização e progresso. que habita no observador.
Que peso Lima Barreto confere a essas sociabilidades e tradições não Palavras-chave: Lima Barreto, Paisagem, Memória, Narrativa
enquadradas? Como aparece essa tensão dialética na construção do
urbano (tradição x modernidade)? A hipótese principal da pesquisa TERÇA 08
defende a ideia de que a obra de Lima Barreto afirma o efeito do tempo Tarde [14:30 – 16:30]
na construção da cultura, das sociabilidades e usos do espaço urbano: a Sessão 2
tradição como a vigência do passado no presente.
Palavras-chave: Lima Barreto, Rio de Janeiro, Tradição, Modernidade As cartas e o “diário extravagante” de Lima Barreto: um roteiro de
aprendizagem da cidade e das letras
Memória, narrativa e paisagem urbana em Lima Barreto Fátima Maria de Oliveira (CEFET-RJ)
Carmem Lúcia Negreiros de Figueiredo (UERJ) Resumo: A presente comunicação dá prosseguimento à pesquisa
Resumo: Um dos pontos fortes da literatura produzida por Lima Barreto sobre a correspondência e o “diário íntimo” do escritor carioca Afonso
(1881-1922) está na problematização do olhar para a paisagem. Seus Henriques de Lima Barreto (1881-1922), como parte das atividades
romances, contos e crônicas procuram tornar visíveis as camadas de do LABELLE. Pretende-se elaborar um recorte em que se privilegiem
ficção que moldaram palmeiras, sabiás, florestas e cascatas em nossa as cartas e anotações íntimas do jovem Lima Barreto, no período
história cultural. São diversas as perspectivas para ver a paisagem compreendido entre 1903 e 1906, quando a cidade do Rio de Janeiro
em suas obras. Em uma delas, a paisagem é compreendida como passava por um vasto processo de reurbanização com o objetivo político
construção cultural que tornou o pitoresco uma necessidade estético- e econômico de colocá-la nos eixos do progresso e da civilização. A
política. Em outra perspectiva, objeto desta comunicação, a paisagem modernização do espaço urbano provocava no jovem Lima Barreto
habita o sujeito por meio da incorporação da memória que auxilia avaliações céticas quanto aos benefícios que poderia trazer para seus
a desautomatizar o olhar. Pretende-se apresentar as estratégias habitantes e sua memória histórica, mas, também, despertava-lhe
dessa maneira de olhar a cidade e a paisagem urbana. Discutir os prazer e sedução diante do novidades próprias da chamada Belle
efeitos dos deslocamentos do cronista pela cidade do Rio de Janeiro Époque. Ao mesmo tempo em que a cidade se modernizava, permitindo
cuja sofisticação de olhar encontra as mesmas estratégias estéticas a seus moradores e visitantes novas experiências sensoriais, advindas
do romancista. Os aspectos dinâmicos da cidade, como os bondes, de recursos técnicos, Lima Barreto dedicava-se a sua autoformação
automóveis, multidão, passeios públicos, servem ao deleite do olhar, cultural, literária, ética e estética, a fim de constituir uma autoimagem
tão errante quanto a subjetividade. Cronista ou romancista Lima Barreto apropriada à realização de seu projeto de tornar-se um intelectual e
desenha a paisagem urbana por meio da percepção do instante, frágil escritor reconhecido por seus pares. O roteiro para tal constituição se
e fugidio, capaz de integrar camadas de tempo nos cenários da cidade. configura em cartas enviadas aos amigos, em viagem pela Europa ou
Processo que exige uma outra sintaxe, outra forma de narrar para pelos Estados Unidos, com os quais procura manter trocas culturais

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reclamava seu lugar na parte civilizada do mundo. diário. Se o diário e a carta permitem uma visibilidade controlada esperanças utópicas e. Marta Rodrigues (Colégio Pedro II / NUPELL) pela primeira vez. A partir do personagem transformação. automóveis e bondes. tornando-se uma espécie de símbolo dos novos tempos. já apresentava preocupação com momento em que a capital da recém-proclamada República. cada vez mais integrados à paisagem urbana. O presente trabalho tem como cidade do Rio. coincide com o desenvolvimento dos mais sociais instauradas pelo fim do regime monárquico e início do regime diversos sistemas de circulação. Nacionalismo. Lima Barreto. a família se muda do Brasil pós-republicano. Lima Barreto percebe no trem um espaço privilegiado de 42 43 . a quem cabe a responsabilidade de expor a falência das posições. o transporte de massas.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS produtivas e exercitar sua escrita de molde satírico ao enviar-lhes seu personagem em confronto com uma realidade que lhe destitui. É por meio dessas duas forma de “escrita de si” (Foucault) objetivo analisar a trajetória de decepções de Policarpo. Assim sendo. por Policarpo Quaresma: uma trajetória de desencantos exemplo. que se despedaça frente à realidade político-social trem quando. A velocidade é. como tema de fato. como os meios de transporte coletivos. como também uma subjetividade Lima Barreto e a cidade: deslocamento e experiência na modernidade em construção. Triste fim de vida social. Pré-Modernismo. terminou por balizar muitas das preocupações pretendemos analisar como os sucessivos deslocamentos sofridos estéticas que lhe foram posteriores. Em lugar de buscar refúgio em evocações para o subúrbio. Como movimento elemento que catalisa uma série de transformações na experiência e em que pela primeira vez a questão da nacionalidade se colocava modela um novo estar no mundo. Não é sem razão. intercalando que Lima Barreto irá delimitar um amplo campo de visibilidade que a visão ufanista do personagem à visão crítica. a exposição no espaço público amplia a a quem acompanha rumo ao seu triste fim. Não obstante o incômodo provocado pelas primeiras nostálgicas de um passado nacionalista. notícias sobre os melhoramentos promovidos pelos administradores da gradativamente. o autor discutiu as frustrações de um projeto Vale lembrar que o escritor carioca se torna um usuário assíduo do utópico de pátria. os sonhos nacionalistas. em última instância. Policarpo Quaresma. autor do chamado pelo indivíduo na modernidade impactam a obra de Lima Barreto. que o urbana trem comparece em vários estudos sobre a modernidade. republicano. Lima Barreto vai colocar viagens. românticas do personagem pelo sujeito da escrita. atenta às tensões entre temporalidades e espaços Elaine Brito Souza (Colégio Pedro II) diversos. irônica e satírica do lhe permitirá observar e ser observado. entrecortada por Palavras-chave: Correspondência. Lima Barreto. na alternância desse jogo de narrador. visibilidade e convida a essa prática como exercício de compreensão da Palavras-chave: Romantismo. A correspondência e as anotações pessoais do jovem Afonso Policarpo Quaresma Henriques revelam não só o olhar crítico sobre as contradições do processo de modernização da cidade. problematizar questões nacionais. então. Lima Barreto. período histórico marcado pela invasão família de negros diretamente atingida pelas mudanças históricas e da técnica no cotidiano. a estrada de ferro é uma invenção revolucionária por permitir. nesta comunicação. Para Walter Benjamin. por recomendação do médico do pai. mesmo antes do Modernismo propriamente dito escritor que viveu na cidade do Rio de Janeiro entre 1881 e 1922. em plena os impasses da formação social brasileira. portanto. o Resumo: O Romantismo ecoa nos autores brasileiros. de que participa intensamente como descendente de uma Resumo: A modernidade. experiência avenidas.

modernidade. Portanto. cabe mencionar o conto Um e outro. A presente atravessa a cidade. se que o termo “moderno” surge constantemente na obra do autor e ao acompanharmos o movimento desses personagens. a concepção de moderno Janeiro a bordo de um trem e. as coisa que avista é um bonde passando. representações de gênero. ficção brasileira. que cidade? As primeiras Partindo de uma leitura do conto “A figurante”. Mutt. Ao mesmo tempo em que o indivíduo a esse espírito. A percepção. Basta lembrar que Isaías Caminha chega ao Rio de relação às imagens produzidas pelo cinema. confeitarias cruzam-se como contemporâneo de constituição de identidades. tema da crônica Enfatiza-se que o cerne da comunicação será a obra Modernos. permitem jogar luz no processo culturalmente. com suas imagens e investigação centra-se no conceito de cidade e de moderno nos anos sensações díspares. Jeff & Cia (1922). Gonzaga de Sá é aquele que melhor imaginar existindo nos espaços escusos da cidade do Rio de Janeiro. reconhecer em suas leituras o que via pelas ruas ou o que podia do “indeterminado”. A cidade apresenta-se na produção de o movimento da própria cidade. Costallat de maneira vária. deslocamento. publicada em 1920. ao desembarcar na Praça XV. ele é atravessado por ela. de Sérgio Sant’Anna. num momento em 44 45 . experiência Marcelo de Souza Pereira (Colégio Pedro II) Benjamin Costallat: qual moderno. amplamente tematizado por Lima Barreto em sua obra. obtendo grande sucesso de público. Rio de Janeiro pelo fenômeno do urbano. e pessoas. tratou de temas sintonizados uma consciência em trânsito. desestabilizada por choques contínuos 20 do século passado.. Mistérios do Rio (1924). Ressalte- ao longo da viagem de trem que a conduzirá ao centro da cidade. Entre a imagem e o texto: resignificando a Belle Époque num conto de Sérgio Sant’anna Palavras-chave: Lima Barreto. representa a “mania ambulatória” de Lima Barreto.. de 1915. No plano ficcional. impostos aos sentidos. moderno. Enfim. Resumo: Benjamin Costallat: qual moderno. Benjamin sugere estarmos diante de um sujeito em constante circulação e de Costallat. Até mesmo Policarpo Quaresma. Com o Binóculo. espaços de encontro e divulgação de arte –– deixando entrever uma encontramos numerosas referências a esse meio de transporte. é num misto de atenção. um público moderno que desejava de ferro”. transe que os personagens se locomovem e nos guiam nessa viagem Palavras-chave: belle-epoque. o que dinâmica social marcada pela vertigem e o cosmopolitismo. a primeira e seus desdobramentos. acompanhamos aponta para a sua artificialização. tenta acompanhar o ritmo frenético de coisas (1920). do de mudança e transformação. escritor carioca desse momento. Surgem como uma época movimentada presente para o passado e vice-versa. ávido de novidades.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS observação das paisagens humana e natural. também encontramos personagens Tais narrativas permitem um pensar sobre: a percepção do autor em em deslocamento. e deixa entrever os perfis múltiplos que se símbolos e anônimos. as figurações da cidade do Rio de Janeiro. décadas do século XX aparecem aos nossos olhos envoltas por uma aura buscamos compreender de que forma os saltos temporais. Cocktail (1923). cabarés. devaneio e estabelecem a partir do olhar do autor.. Ao longo do Diário íntimo. Seus livros tiram proveito de um público que que se transfere para um sítio que fica “a duas horas do Rio por estrada se transformava. No entanto. que cidade? Resumo: A comunicação propõe uma reflexão acerca do diálogo que Rosa Maria de Carvalho Gens (UFRJ) a Belle Époque estabelece com a literatura contemporânea brasileira. a partir de obras de Costallat –– Modernos.. com seu turbilhão de produtos. em que salões. Por fim.. aberta para a discussão sobre a dinâmica da palavra cuja protagonista tem o olhar submetido a uma infinidade de estímulos moderno na época e sobre os demais pontos aqui elencados. surpreende-se com a chegada do trem que vem de longe.

em decorrência do lacaniano. A imaginação do narrador Armando Ferreira Gens Filho (UERJ) se intensifica quando faz entrar em cena um novo personagem: o artista. que Eduarda. A Belle Époque “A figurante” é um conto que integra o livro O voo da madrugada. que interessa de perto à literatura.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS que as noções de centro e periferia encontram-se complexificadas. os quais compõem uma ambiência que remete erotismo para o modelo parisiense de modernização. Pela ênfase concedida ao registro fotográfico. Assim. a tabu. Misto de instalação e performance. cumpria a função de imortalizar cenas veemência de tal desconstrução de identidades. o narrador traz para o primeiro plano a figura feminina. A Belle Époque. a ser o objeto de arte que ambos policiais. Fotografia e ilustração de poemas na revista Careta passando a determinar o ritmo da narrativa. Resumo: Não se pode negar as marcas de inovação gráfica presentes Lucas de Paula. Por meio do olhar imaginativo. o súbito e a fragmentação que começavam a se de modernidade no Brasil. constatou-se que as páginas da referida revista valiam por uma fotografia da Belle Époque carioca. efetuada por processo civilizatório que a ela se impôs. de certa forma. contemporaneidade. contemporâneo do narrador. levada a cabo pelo olhar típicas do viver urbano. Há mesmo uma nítida intenção meio do vetor da diferença. A repetição. pintor homossexual que absorveu o clima vanguardista às revistas ilustradas das primeiras décadas do século XX. acirra sensacionalismo em reportagens que tratam de temas- produzem de forma colaborativa. num país que ainda não se libertou do provincianismo. ao recusar o papel de mera modelo para o finalidades várias em diferentes seções dos referidos periódicos. ordem do significante. hétero e homossexual. nesse sentido. não para meramente Rio de Janeiro do início do século XX. a velocidade. A sondagem da fotografia quase centenária leva o narrador a se deixar atrair pela figura de uma QUARTA 09 mulher. imprime impacto nas crônicas entre eles passa. Renascença e Careta. de fonte da compulsão à repetição. É com esse por exemplo. O encontro dos dois pitorescas. na qual despontam importantes repeti-lo. desenvolve uma relação erótica que vai consolidar a fotografia de cunho documental ilustra anúncios. a dinâmica do comércio Palavras-chave: Sérgio Sant’Anna. Sessão 3 que guia o trabalho com a escrita. Ao se folhear de Paris. atração inusitada na medida em que se considera a posição Tarde [14:00 – 16:00] de figurante que ela ocupa na imagem. capta instantes da vida cotidiana. por sua vez aponta para o trabalho com a de registrar de modo nada displicente a cotidianidade do espaço público 46 47 . atua como locus traumático do imaginário cultural brasileiro: trauma no sentido instalar nos habitantes da cidade do Rio de Janeiro. permite que se faça uma abordagem da não é difícil concluir que se tratava de antídoto para enfrentar a Belle Époque como um ponto fundamental para a discussão sobre a ideia vertigem. e o fluxo de pessoas-. salta aos olhos o farto emprego da fotografia com personagem. Durante a realização da pesquisa sobre a ilustração de poemas na relação entre Eduarda e Lucas. desestabiliza as fronteiras entre espelhos que refletiam narcisicamente o viver citadino através do uso vida e arte. se configura como um lugar simbólico para o qual o imaginário literário publicado em 2003. centro e periferia. retrato de um artista. engendrada a partir da contemplação de revista Careta. No texto. mapeia as transformações personagens ganha em densidade na medida em que a própria relação operadas na cidade do Rio de Janeiro. modernização. que adquire um nome (Eduarda) e uma história. retrata paisagens o seu processo rumo ao protagonismo e à liberação. se vê na incômoda situação de ser portador de ideias modernas aleatoriamente as páginas das revistas Kósmos. elementos . sujeito e objeto. por sua vez. o narrador observa uma fotografia do brasileiro contemporâneo está sempre se voltando. A da fotografia que. mas para ressignificá-lo.como a presença dos automóveis.

A produção pictórica. sociais. pintura e fotografia. Entre estas finalidades do uso da fotografia como possibilidades distintas na futura trilha do fazer artístico: 1. então. a partir deles. esta comunicação busca. No segundo que foram publicados na revista Careta. que nos interessa particularmente de perto. gestos. ganhos e lucros). abrange as formas linguagem do novo meio de expressão artística para. tendo por base recortes. claro. Neste visão” estabelecerão. entre de produtividade? Eles se apropriarão. como pretende-se demonstrar. A ideia em si consiste mesmo em operar por contraste (com “v” maiúsculo e entre muitas aspas!). ou bem será um de composição investem em recortes. Fotografia.. práticas e dinâmicas como do período.. Edgar Degas e. Espaço urbano históricas e artísticas verificadas no epicentro da modernidade. Paris. para conceber uma imagística toda nova. dispositivo de controle disciplinador sobre corpos. para estudar a “lógica da mostração” (BOEHM. inclusas aí a literatura e a pintura. Palavras-chave: Revista ilustrada. p. com a realidade histórica das relações recíprocas 28).XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS para elaborar um painel visual de usos. defrontam. de Baudelaire). impõe um desafio às artes crítica ao processo de modernização em passo acelerado nesta Paris. Estes “artistas de processos de ilustração de poemas nas páginas da revista Careta. 48 49 . 2015. as mundo por François Arago (1786 – 1853) em discurso na Academia fronteiras do conceito tradicional de pintura e radicalizarão. 2015. será nas páginas da revista Careta que também uma atividade espiritual que não deverá se deixar macular por nenhum se encontra um emprego bastante peculiar. deparará com pelo menos duas cerimônias etc. não sem atualizar o Marcos Fabris (USP) conceito de Realismo. de aspectos da padrões de gênero literário e questões de gênero. a pintura se libertará fotografia e objeto poético. concepção. a representação do “Verdadeiro” e moldura. Embora não haja aqui o desejo de construir uma epistéme Realistas e dos Impressionistas. almejam atingir – ou figurar – o cerne da experiência Tradição e renovação na imagística da Belle Époque parisiense moderna em seu aspecto mais totalizante. aplicado à ilustração e/ou ornamentação de poemas cujos processos apenas em seu valor de face. fragmentos de sua habitual ocupação. como de Ciências de Paris em 1839 (após inúmeras querelas envolvendo veremos no curso da exposição proposta para esta comunicação. nomes que nas artes incluem Gustave da imagem em periódicos ilustrados. Ampliarão. atitudes. p. através Courbet. o interesse investigativo. captadas pela lente da câmera e as formas criadas pelo ilustrador. 2. oficialmente apresentada ao da “pura pintura”. Os pintores “de visão” se sem cair nas armadilhas da “oposição” e “síntese” (BOEHM. além de convergir para as possíveis fecundo com as artes fotográficas. aquelas Resumo: O nascimento da fotografia. como veremos. um diálogo inédito e tremendamente sentido. mais especificamente a pintura. Poema.. regra ou forma artística. insuficientes para ilustrar e/ou emoldurar poemas. a disputas de patentes. Édouard Manet – para não dos procedimentos técnicos empregados na ilustração de poemas mencionarmos o “Impressionismo total” de Paul Cézanne). Trata-se do uso da fotografia meio mecânico (esta será a tese dos simbolistas e. ou bem será ilustração documental. mormente. políticas. capaz de representar os aspectos detectar os efeitos e as significações do que se quer mostrar e do que da realidade cotidiana que não eram contemplados por certos tipos se quer isolar em conjuntos visuais que fazem uso da fotografia para de produção. os veios comunicativos entre caso. a saber. que exigirá a distinção entre os tipos e as funções desenhos e que assinalam uma estética gráfica de cunho híbrido e da imagem pictórica e da imagem fotográfica (esta será a tese dos experimental. De que modo e com que grau relações estabelecidas entre corpo humano e corpo do poema. informar sobre as novíssimas configurações urbanas. 30) em entre as duas formas artísticas. Nesses termos. montagens e articulações com “problema de visão”. assentando a pintura em outras bases. Claude Monet. assim.

para. Jacques- gêneros – ficção e ensaio). Buscaremos. físico. atualizar de ordem médica ou científica. ante o paradigma de outras formas artísticas que não valorizam. perde sua importância histórica. a partir deles.. como ocorrerá com Leibniz. a arte como atividade especial. A partir de então. De forma geral. fazendo a apologia de seu desaparecimento Resumo: Um dos principais romancistas da Belle Epoque francesa. Nesses termos. caleidoscópio. sobretudo amplamente nos estudos de caso que pretende-se discutir) chegarão com a lírica baudelairiana. são usados pelo autor como imagem ou a arte na vida. Voltaire e o conceito de Realismo. certamente. privilegiada. O que fora. Assim. por exemplo. “sistema fotográfico” emprestarão à pintura (que deles se beneficiará estabelecer paralelos pertinentes com a literatura do período. Dentre os instrumentos. reunidos Cabanel. microscópio. pela mesma editora). almeja discutir como a pintura francesa do período conhecido como colocando Proust numa linhagem de escritores que se preocupam em Belle Époque se apropria de procedimentos caros à linguagem do novo pensar o processo literário em sintonia com pesquisas e descobertas meio de expressão artística. então. o caleidoscópio. mas de reconhecer que este modo de expressão artístico. as expressões essencialmente urbanas (porque mecânicas metáfora da leitura e/ou escritura. cinescópio. Louis David e Eugène Delacroix). em sintonia com a produção visual mais a tal ponto que os valores pictóricos experimentarão uma nova avançada de então. aquelas da Balzac. a demanda histórica que exigia a renovação da Palavras-chave: Pintura francesa. lupa. pintura (já na crítica de arte de Diderot. além de outros expoentes dos circuitos oficiais. uma pletora de artigos e ensaios (publicados na imprensa ou não. que salta aos olhos do leitor (e que já vem sendo abordado pela crítica fundada em bases artesanais ou calcadas na ideia de “gênio”. o princípio visual da inacabados e fragmentários (igualmente reunidos e publicados cultura material ocidental desde a Renascença percebe-se supérfluo postumamente. assentar a pintura em outras bases. em 50 51 . especializada): as inúmeras e reiteradas referências a instrumentos portanto. olhar palaciano ou daquele burguês entre sujeito e objeto (de resto. abundam no texto permitindo digressões da ordem da crítica e da já verificadas em grau diverso na pintura francesa mais avançada de teoria literárias (servindo ao autor de trampolim na passagem entre os períodos precedentes – pensemos em Jean Siméon Chardin. ao ensaística e epistolar – pode-se destacar um elemento recorrente e menos em sua essência. inclusive como metáfora do livro. a capital do no século XIX. assim como rascunhos de projetos de romances consagrados do l’art pompier. entre outros. d’O pintor da vida moderna) efetiva-se finalmente. ou industriais). analogamente. produtores pela editora Gallimard). “qualidade”. Trata-se.. por extensíssimo romance (de sete tomos). que buscam figurar uma relação simbólica distinta do estereoscópio. uma vastíssima correspondência exemplo na arte de Horace Vernet. especificamente. Jean-Léon Gérôme ou Alexandre (compilada numa coleção “quase definitiva” em 21 volumes). a crítica mais Lanterna mágica e vue d’optique: instrumentos proustianos de projeção de memórias consequente à modernização e às suas sequelas caberia mais à câmera Luciana Persice Nogueira (UERJ) que ao pincel. para citar apenas alguns dos mais importantes “pura pintura”. Nessa imensa obra – ficcional. e radicalizar a crítica ao processo de modernização em intelectuais que mencionam esse instrumento. talvez se destaque. Telescópio.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS A natureza e a quantidade dos procedimentos que a fotografia ou o curso na Paris. retomada e atualizada pelo Modernidade crítico e escritor Charles Baudelaire dos Salões e. a fotografia. Fotografia. Belle Époque. esta comunicação em importância. em Marcel Proust (1871-1922) deixou-nos um legado colossal: um suas formas mais conservadoras. espectroscópio. de privilegiar os modos de expressão artísticos que dissolvem ópticos. Por quê? Não se trata aqui absolutamente de postular a “morte da pintura”.

É o que defende Jonathan Crary em seu ensaio sobre acompanha a modernização. Alemanha e a d’optique (também conhecida como perspectiva). Portanto. aos A indumentária em Júlia Lopes de Almeida. merecendo difusão e interpretação no mundo ibero-americano. pela denominação desse gênero jornalístico-literário que não tem termo será dado destaque a dois instrumentos. que se desenvolvem e renovam ao longo do século XIX e no e culturais. o dia-a-dia da República de Weimar (1919-1933). o incipit e o excipit de seu romance num só traço. e de opor-se ao esquecimento. um dos um enfoque comparativo. literária e simbólica. condição social serão resgatadas e. Os costumes e as roupas usadas chamado de flanador. olhar moderno. Kracauer. com um intuito maneiras de ver e compreender o mundo (os seres. uma cidade a construção histórica e a revolução do olhar moderno (2012). a começar grandes temas do século XIX e da Belle Epoque). nas obras de Júlia Lopes de Almeida. ensaios. descrevem. em termos literários e antropológicos. muitas vezes com lugares. o presente trabalho. o tempo “iluminista”. pois foram recolhidas e publicadas pelo autor na antologia Straßen in Berlin alguns estudiosos a consideram um fenômeno efêmero e extravagante. aparentemente secundários. mas também de suas personagens. parcialmente latino-americano. as coisas. examinar algumas das crônicas sobre ruas centrais de Berlim. instrumento óptico. chamadas por Percebe-se. trata a moda em milhares de artigos. juntamente com a modernidade. Paula Campos de Castro (UFJF) Palavras-chave: Marcel Proust. a proposta do 52 53 . porém raras vezes sociedade na qual ela estava inserida. em Walter Benjamin conceitos que auxiliem sua delimitação. Pretende-se. tendo escrito época. Berlim era. a descrição. mas reveladores e alegorizáveis da vida registrar no texto novas ideias. por suas personagens permitem que o leitor identifique. onde a ascensão Kracauer (1889-1966) acompanhou. A menção às tecnologias visuais permite aos escritores transeuntes e pela ciência. literatura Resumo: O presente trabalho tem como objetivo compreender a importância dos relatos sobre a indumentária na escrita de Júlia Lopes Crônicas berlinenses de Siegfried Kracauer numa ótica transnacional de Almeida (1862-1934). escritor. resenhas. Para isso será utilizada sua contribuição para Claudia Silveyra D’Avila (UFSC) a revista quinzenal A Mensageira. atribuído a um narrador andante. de revelar aspectos importantes de processos sociais e o espaço). nascida nesse período. crítico de cinema alemão Siegfried concentrado no fim do século XIX e início do século XX. Nessa comunicação. as mudanças no modo de ver aqui. e por outro lado.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS seus textos. e a memória (este. o primeiro e o último a serem consagrado na língua alemã. Estas. da burguesia brasileira e a necessidade da alta sociedade de impor sua informação e poesia. São quadros e cenas sugestivas. essa pioneira que representava e antecipava processos modernizadores do perspectiva permite situar Proust como um dos principais intelectuais a mundo inteiro. Berlim 1919-1933 dois instrumentos. tipos humanos. não só de ele “Stadtbilder” (imagens urbanas). e principalmente crônicas. revela a sua importância. pois. conjugando entretenimento. à falta de memória que início do século XX. registrarem as mudanças de seu tempo. buscando As crônicas mais representativas. espaços públicos. focalizar os aspectos mencionados no romance proustiano: a lanterna mágica e a vue em que as crônicas kracauerianas transcendem Berlim. um retrato da sociedade carioca em A Mensageira olhos do autor e como mecanismos que acionam estratégias escriturais. O recorte histórico da pesquisa está Resumo: O jornalista. por exemplo. com o tempo e a ação do tempo sobre o espaço. a presença desses Palavras-chave: S. crônica. despercebidos pelos sua classe social e até mesmo sua origem. inaugurando e encerrando a obra. para Kracauer. und anderswo (Ruas em Berlim e alhures) (1964). literalmente e/ ou simbolicamente. fenômenos. ambíguos. na tentativa de retratar a um olhar fílmico. objetos concretos. considerações e conceitos referentes às da grande cidade. inquietantes e promissores.

mas o espírito crônicas e ensaios. psicológica e estética. o Rio impunha uma nova forma de ficcionais de Júlia Lopes de Almeida. Sociedade Carioca. e nas que existe um diálogo do indivíduo com o mundo exterior. e sob a égide da da autora sobre a moda feminina em sua época. continuava o mesmo. em suas roupas.” (XIMENES. “O diálogo da mulher se fazia pelas roupas e africano e sua antropofagia indígena. visto que a afirmação Sebastião Lindoberg da Silva Campos (PUC-Rio) da burguesia trouxe consigo um novo estilo de vida e novas regras. Calcado nos estudos científicos. também. pelo código da sociedade patriarcal: ela precisava ser tola. as ruas cariocas pareciam de tortura. As mulheres ruas cariocas. sem sequer colocar a cara à rua e perceber aquilo que de mais sinalizador de posição social e diferenciação de sexo. uma ferida narcísica. o poder da ordem.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS trabalho é analisar qual a função da indumentária na construção das QUINTA 10 personagens em suas obras. do fim do século XIX estavam em dupla prisão: ficavam trancadas em Apagando o passado colonial dos casarios portugueses. parece-nos interessante aliar a análise do papel em um espaço fétido. se tornar o objeto máximo de consumo. sob o símbolo das largas avenidas. tanto que Maria Alice Ximenes afirma: “Em meio a este cenário de fácil a ciência positivista ousou pensar a cidade. Soberba que era. assim.” seus propósitos de civilização – em termos euclidianos –. verdadeiras embalagens se com prédios ao melhor estilo francês. Manuel de Macedo – Rua do Ouvidor. sobretudo das mulheres. composta mergulhar numa outra dimensão cultural que abandonara seu delirium por espartilhos e saiotes. levava para os (XIMENES. mostrando que a importante compõe a cidade: sua gente. mas o golpe revista A Mensageira trazendo um retrato da sociedade brasileira da dado pelos Hércules-Quasímodos não abalara a sua autocrença época. 25). blindou-se do foi marcado pela disseminação de novos ensejos para a sociabilidade contato humano na também soberba – para usar um termo de Joaquim burguesa. que tornara seu centro. malandras. Grande parte de sua literatura apresenta Tarde [14:30 – 16:30] ao leitor costumes. Movido mais por lendas que estudos técnicos. ambíguas”. o vestuário se revelava. saraus e bailes. geralmente “sinistras. nas obras Rasgando as faldas do seu berço. que avançava nos moda opera sobre um tripé de facetas: social. O período histórico retratado nas obras de Júlia Lopes de Almeida redentora da qual havia se revestido. um incrível livros. acompanhada por sua democratização. Palavras-chave: Literatura. a civilização por meio dos disseminação da moda. localidades e personagens que retratam o comportamento da sociedade na qual suas histórias estão inseridas. sob o símbolo das armas. das outras ruas cariocas. óperas. protegida de todos os perigos Tudo possibilitava as aparições públicas. o retrato do progresso. p. da indumentária na construção das personagens femininas. A Sessão 4 escritora narra o cotidiano de sua época a partir de um olhar feminino. Indumentária mais pela cobiça gerada pela fábula que a necessidade imposta pela 54 55 . 23) A indumentária. portanto. abandonara o passado. A República. Morro do Castelo. O Resumo: A ciência positivista da virada do século XIX para o XX trabalho busca recuperar publicações de Júlia Lopes de Almeida na conhecera seu lado patológico nos sertões nordestinos. Os subterrâneos da alma apresentando um período marcado por grande transição da sociedade e carioca em Lima Barreto da moda. 2009. Sendo assim. publicada nos livros de técnica e ciência transformava cirurgicamente seu corpo. impotente e estéticos e sanitários o Rio de Janeiro apagou de sua memória aquilo bela e. 2009. enfeitando- um espaço privado e. pois é por meio dela sertões indômitos. p. como a frequência a peças de teatro. cujo exemplo mais significativo é a roupa íntima. símbolo das transformações urbana e cultural. à interpretação das considerações pensar a seus habitantes. bafiento e retrógrado: o Morro do Castelo. Ali. portanto. ocupa papel fundamental na comunicação subjetiva reprimida.

diretor do Instituto Nacional de Leonardo Pinto Mendes (UERJ) Música publicou seu relatório sobre a Organização dos Conservatórios Resumo: A partir de 1890. mas permanece surpreendentes é a quantidade de mulheres que frequentavam a com o espírito fincado no passado. os que estudavam música (e estes números dão conta tão somente do homens do progresso que avançam com suas picaretas conduzindo Instituto Nacional de Música). Dos 80 Descanso. um dos elementos de uma sociedade que inclina o corpo para o futuro. Lima Barreto. num argumento que evidencia considerar-se inadequada a singular o espírito do homem civilizado da Belle Époque das ruas do carreira musical para mulheres. A proposta se vincula principalmente ao eixo transformação urbana. num narrativa que quase beira o cômico. sensível a histórias de amor. A na medida em que propõe trazer à tona dois mundos de sonoridades Palavras-chave: Belle Époque. Literatura. no caso brasileiro. que atuavam com sugestões para o aprimoramento do Instituto brasileiro. mulheres também se fábula. Nesse relatório o autor avalia uma série de circulação de histórias licenciosas. A nesses dois grupos. Palavras-chave: Belle Époque. As tesouros escondidos sob a massa geológica da urbe desenterram um práticas musicais femininas são ainda práticas invisíveis. O relatório inclui mais visibilidade no mercado da literatura pornográfica. A destruição do outrora Morro do instituição: de um total de 401 alunos. Lima Barreto nos oferece uma Batista de Almeida. vaticinado com a abertura da Av. traição e poder. com eles. diferentes. mulheres Os sons silenciados: traços das mulheres na música em crônicas da Belle Époque carioca Álbum De Caliban: Coelho Neto e a literatura pornográfica na Belle Viviana Mónica Vermes (UFES) Époque Resumo: Em 1897 Leopoldo Miguez. escritos em 1905 para O Correio da Manhã. movido pelas velhas crenças. O Morro do Castelo (ou representadas as práticas musicais femininas nas crônicas de Machado sua ausência) converteu-se num símbolo sisífico que se renova a cada de Assis e de Lima Barreto. Além dessas sociedade cujo retrato é marcado pelo encantamento. Ávido pelo novo. 347 eram mulheres. hoje publicada em livro. compositoras e até mesmo mulheres como Hilária O subterrâneo do Morro do Castelo. relações e Castelo transformações que deixam seus traços nas efêmeras crônicas. remodela-se o futuro. crônica. 76. Na narrativa. Surgem novos editores e livrarias. editoras de música. na qual são apresentados dados quantitativos um circuito alternativo às elegantes Laemmert e Garnier. personagens. apaga-se o passado. homens sedentos por encontrar sentido estrito. oferecendo uma tabela comparativa. editora de 56 57 . Não obstante a quantidade de mulheres Rio. Morro do silenciados pela história e. criavam as condições para que a música ocorresse. Essa desproporção é tratada no relatório como Barreto construir uma narrativa proposital na qual retrata de forma “lamentável”. que. é o mote para Lima alunos de piano.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS ciência. Na série de textos dedicavam à música fora dos círculos da burguesia: atrizes-cantoras. movido pela práticas musicais aprendidas no conservatório. pensando passado de fantasia sob as vestes contemporâneas da estética urbana. a tia Ciata. o desmonte do morro do Castelo parece ser a síntese inequívoca sobre cada conservatório e. conservatórios musicais europeus procurando extrair dessa análise como a Livraria do Povo e a Livraria Moderna. uma cidade. Central. trata-se de invisibilidades de modos e escalas destruição do morro é a síntese de um dado: no afã de transformações. seus nomes estão ausentes da grande a desconstrução do passado incômodo são meras molduras de uma maioria dos manuais de história da música brasileira. mas. configura-se no Brasil um espaço novo de de Música na Europa. apesar de não fazerem música. Neste trabalho pretendo verificar de que forma aparecem a civilização é mais patológica que a selvageria. música.

Entre 1897 e 1898. da peça A Tempestade uma das atingidas pelo colapso. nessa descrição obras que o leitor atual não chamaria de pornográficas. Cabiam dez livros publicados e apresenta como temática central o drama social. vamos conhecer a faceta de autor licencioso de 58 59 . que consta um total de fim em si mesmo. e circulação. demarca a travessia do personagem para a descoberta eram capazes de acelerar o coração e proporcionar uma experiência do mundo promissor. Com o pseudônimo de Caliban. o escritor Henrique Coelho Neto pela resistência por status. Belle Époque. A percepção de que havia um mercado para esta Palavras-chave: Pornografia. uma fórmula encontrada foi o que se descortina é uma narrativa sobre a desconstrução de um escrever pornografia a partir da tradição clássica do “riso de Rabelais”. de William Shakespeare. Eram considerados Resumo: A obra Belém do Grão-Pará. articulistas começam a comentar literatura licenciosa em literatura pornográfica da Belle Époque. e se depara com um cenário desfavorável às suas publicados em jornais de todo o país. na década de 1920. A família dos Alcântara. seus temas. protagonista do Ciclo. no contexto do incipiente mercado de abertura. Com cautela. que incluía o sexo e as partes íntimas econômica e sociocultural que se fez sentir na cidade e provocou a do corpo. facilitando sua aceitação sofrimento humano nos seringais da floresta. padrões retóricos anúncios dos grandes jornais. as livrarias evitavam a palavra “pornografia” e optavam da ilha do Marajó onde o personagem Alfredo. importante que emana do projeto ético e estético do escritor paraense Nesta comunicação. “Livros Pândegos” almeja uma vida na capital paraense para experienciar o tão sonhado ou “Livros para Homens”. divertimento picante. O impresso pornográfico começa a aparecer nos Coelho Neto e estudar essa literatura. É nesse seio de intrigas e esfacelamento explorou a fórmula rabelaisiana em contos e crônicas que foram que Alfredo se insere. O romance “Belém do Grão-Pará” (1960). o parâmetro entre esses dois universos XX. o fundamento catástrofe humana e social narrada por Dalcídio. de Dalcídio Jurandir. notas e crônicas. Para veicular conteúdo licencioso possibilidades que não teria na vila de Cachoeira do Arari. Para anunciar os romances retratam o drama e a miséria no universo de sobrevivência impressos. o qual acredita que irá lhe proporcionar de satisfação física e mental ao leitor. é o quarto pornográficos os livros que convidavam o leitor a fazer sexo como um romance do chamado Ciclo do Extremo Norte. ideal. por prazer mecânico. por expressões divertidas como “Leitura Alegre”. A derrocada do Ciclo festivo rabelaisiano criava uma zona de ambivalência e libertação ligada da Borracha na Amazônia. deflagrou uma crise ao “baixo corporal” (BAKHTIN). de Dalcídio edições. de 1890 até o começo do século idealizações. sobre uma experimentação grotesca com o mundo em meio à Associado a uma perspectiva carnavalizada do mundo. com graus variados de realismo. os textos foram editados pela prestigiosa Livraria e paisagens geográficas antagônicas nos transmite uma mensagem Laemmert em fascículos e reunidos no volume Álbum de Caliban. Nesse sentido. A marca da “Leitura Alegre” era oferecer progresso e a vida urbana. Os três primeiros mas que eram denominadas assim no período. mas surpresos com a e configurações narrativas. No entanto. tenta esconder o prejuízo e a miséria (1611). A ancoragem em tradições de prestígio social e a linguagem falência das famílias que viveram os tempos áureos à custa de muito castiça filtravam o conteúdo pornográfico. só ou acompanhado. Coelho Neto literatura era crucial para a decisão dos editores de investir nessas O tempo do abandono no romance Belém do Grão-Pará. humano e político dos habitantes da região amazônica.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS Machado de Assis. Os impressos portanto. A palavra “pornografia” era conhecida e empregada na acepção Jurandir: o sublime e o grotesco na decadência da Belle Époque moderna de representações explícitas de órgãos e coreografias sexuais Viviane Dantas Moraes (UFPA) criadas para causar sensações físicas nos leitores. ao maior número possível de leitores.

Jean Pierre Chauvin (USP) menos rebuscado. Literatura brasileira. sociais desfavorecidas e de inchaço populacional. a paródia e o pastiche sejam frutos de uma mesma modalidade literária. assiste à edição de antologias que. dos primeiros a situar a sátira como gênero menor e menos importante Palavras-chave: Humor. que a poesia bem-humorada de Emílio condição de emergência que configura uma crise das necessidades mais de Menezes. grotesco. pretende-se discutir o embota o sublime da belle époque. isso acarretou na cristalização de preconceitos Varnhagen organizou os dois tomos do Florilégio da Poesia Brasileira sobre o gênero cômico e no parcial apagamento de autores que – publicados pela Imprensa Nacional. de Giorgio Agamben. entre outras características. Essa explicação. foi questionada por uma parcela de nossa crítica – esta. pela qual compreende-se a desconstrução do não implica que os autores não estivessem comprometidos com o ideal de urbanização e nos transmite a ideia de que o progresso não é momento histórico de sua produção. que congregava cento SEXTA 11 e vinte autores – de Gregório de Matos a José Carlos de Oliveira. discute-se o fato de o “poema-piada” ocupar uma pretendem abarcar o que de melhor e mais relevante foi produzido espécie de não-lugar em nossa tradição literária. em prosadores como Lima Barreto um cenário de fome. o (raro) público leitor brasileiro se em poetas e prosadores situados na chamada Belle Époque brasileira.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS sobre a modernidade. além de simplista. em Lisboa. Belle Époque que o lírico. embalada pelo humor dos Resumo: Já nas últimas décadas dos oitocentos. A fracassada experiência do garoto na cidade público favorável à sua circulação. de flagelo das camadas e João do Rio. Brasil. A tensa realidade que assola conceito de humor. vida nua aplicação de preceitos da poética tradicional. Juó Bananére. Francisco de Adolfo Dentre outros sintomas. com ênfase em produções literárias do século seringais e a derrocada do projeto de exploração da borracha criaram XX. e constituem uma mas traço estilístico consciente. A crônica e o novo jornalismo novecentista compostas em contextos diversos. o rebaixamento do riso e do gênero cômico se devesse à mera Palavras-chave: Amazônia. O historiador foi um versejaram. sobre questões de interesse universal. Abandono. com talento. o jornalismo brasileiro homens que os escreveram. a ironia não era meramente um sintoma “panfletário”. entra em contradição com os novíssimos rumos pretendidos Modalidades do humor na Belle Époque pelos idealizadores do Modernismo. Oswald de Andrade e Murilo Mendes. no estado de Exceção. de crise na educação. Nesse sentido. sob circunstâncias específicas. Em 1850. considerando as diversas acepções e usos do termo Belém e a Amazônia como um todo. A afiliação dos textos ao gênero cômico começava a mostrar sinais da transformação que o tornaria um dos 60 61 . informal e não-purista. para refletirmos como a Amazônia dalcidiana entre outros. estabelece-se um diálogo com a ideia de vida nua e iniciado em meados do Oitocentos. uma Marcus Vinicius Nogueira Soares (UERJ) parte das antologias sugere que a sátira. foi a vez de Raymundo Magalhães Júnior dar a público a sua Antologia de Humorismo e Sátira. Isso implicaria relembrar que. A presente análise concentra- Resumo: Desde meados do século XIX. desvela um cenário grotesco onde o abandono torna-se a regra na ideologicamente comprometida com o projeto (pseudo) nacionalista modernidade. dita “nacionalista”. provocada pelo devassamento dos na cultura luso-brasileira. até o momento de sua publicação. em sua apologia ao verso ligeiro. Seria um equívoco supor que. Neste trabalho. básicas. Dentre outros fatores. Em 1957. Eliane Robert Moraes organizou sua Antologia da poesia Sessão 5 erótica brasileira (2015). Ao reunir poesias de diferente natureza. nem considerassem o restrito promessa de felicidade. Mais Tarde [14:00 – 16:00] recentemente.

ampliaria também o seu campo de atuação profissional. de Picasso. que apenas teria encontrado nos periódicos como reais e verdadeiros”. por meio de aproximações à sofridas pelo jornalismo do fim de século. a partir da metade do possa ser demasiadamente fixo. a representação da realidade por meio da realização utilizando os recursos de reprodução de imagem disponíveis à época. Com esse processo em escala industrial. Difundindo-se em uma velocidade nunca antes imaginada e precisamente. desejado pela sociedade.. de maneira involuntária. A percepção a esse mundo do ao seu lugar no contexto desse novo jornalismo. ou seja. A presente comunicação abordará como significativas com as acentuadas modificações tecnológicas e discursivas se apresentam experiências estéticas. publicada em 1874 sob o pseudônimo de Sylvio literários Dinarte e também em fotografias tiradas por Jean Cocteau. A fotografia mais do que em que procura dar conta de uma demanda cada vez mais interessada um artefato de projeção da realidade. fotografia. nascida “criado. na sua intenção e gestos significativos caminhos. Por outro lado. é dito “literário” quando advém de um ato de fingimento. diz respeito experiências. Trata-se de reconhecer o teatro. enquanto jornalístico gerado e gerido em suas páginas e que sofre transformações registro de uma realidade. As relações com as artes em geral. Modigliani. uma vez que. num perturbador encantamento. por muitos um olhar ao escritor interartístico. a crônica teria sido o gênero que melhor caracterizou as das vezes. como ponto de partida da abordagem do gênero é considerar a questão Hansen (2005) nos lembra que “ficcão é a figura fingida do possível fora do âmbito da literatura. os da imagem fotográfica. Além produto “imagens fotográficas” rapidamente passa a ser massificado disso. chama-nos à um veículo mais acessível e barato de difusão. do escritor Palavras-chave: crônica brasileira. Mais século XX. quanto ao desenvolvimento da crônica no Brasil. do teatro e da máquina fotográfica. muitas no século XIX. taunay. o jornais atingiriam um público cada vez mais amplo e diversificado. ação(. de muitos lugares e pelo olhar pesquisador de inúmeras diante do texto. da fotografia. há de se figura proeminente. gêneros Visconde de Taunay. Longe de pressupor que esse lugar reverberado há muito que um texto fictício. na medida e. a Resumo: A invenção da fotografia ou o que poderíamos chamar da fotografia e sua narrativa visuais. Diante desse quadro. fotografia.. trata-se de investigar a crônica não assim determinado por comparação com a coisa. jornalismo do século XIX. no presente estudo. em agosto de 1916. mas como um gênero atenção a menção à fotografia no texto teatral e. na peça teatral Da Mão à Boca se Perde à Sopa. ficcionado” instaura fascínio e imagens que ocasionam. a questão que gostaríamos mais pragmáticos demonstram a necessidade de narrativas. em nossas de propor. teatro e fotografia dão conta de uma identidade interartística Rosana Campos Leite Mendes (UnB PósLIT/FAPEMAT) estabelecidas nas obras em questão. Então. por essa época. A atividade jornalística deixa de ser apenas apêndice verificar o entendimento da lógica desviante de continuamos a ler da atividade letrada e começa a ganhar uma autonomia até então inédita ficção em contraposição a outros textos denominados de científicos ou em território nacional. em notícias e assuntos sensacionalistas. do corpo e do rosto retratado. primordialmente. interartes 62 63 . Se tradicionalmente é práticas jornalísticas oitocentistas. É nesse mesmo período que a ancora-se em um processo no qual a verossimilhança alcançava um reportagem ganha destaque no jornalismo e o repórter se torna a sua patamar elevado no terreno da visualidade. O objetivo desse trabalho é estabelecer fixação da imagem obtida pela câmara escura nos chega. e mais precisamente formas de arte romance.)definidos como um gênero literário. Erik Satie Teatro de Taunay e fotografias de Jean Cocteau: cerco aos gestos e e outros artistas. próximas ao Café de La Rotonde. pessoas no século XIX. O que se vê.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS meios de comunicação mais influentes na vida cultural do país no técnicas de reprodução mais rápidas de fixação da imagem. é a procura por Palavras-chave: teatro. acreditamos que o mais importante século XVIII.

a partir das assimilações do ritmo frenético da cidade como o uso de fotografias e imagens. propulsor da indústria do de Janeiro. em trazer a epilepsia como clave de construção temática. o autor abre um diálogo entre memória. como um espaço de luta /desejo para se inserir na modernidade. Resumo: A resistência à forma romance tem sido anunciada como Esses temas não são desmotivados. com isso. como também a alquimia sociocultural operada em livro se constrói a partir de estratégias autoficcionais do autor-narrador. Parece ser do teatro de revista nas primeiras décadas do século XX o caso de Machado. cultura e literatura. ao meu ver. e as ressignificações sobre o nacional. isto é. entre memória da Belle Époque e autoficção ficcional da vida dos narrados. construído no jogo biográfico- Cartografia do passado. sobretudo. não ser humano) e o desenvolvimento de uma sensibilidade estética que alia só para se reconhecer suas raízes na produção do ideário de identidade a vida urbana com o fascínio das novas tecnologias. desde entretenimento. assinala um olhar para trás formal é fruto de um questionamento da mediação sobre as vozes que se contrapõe ao olhar para o futuro da modernidade científica. André Luís Gomes (UnB) sujeito presente ante si mesmo. senão para mostrar que há dois prática usual da contemporaneidade. textual e formal. isto é. o popular. abrir uma leitura crítica que concatene questões entre o presente Para tanto. registros médicos. Tal aspecto ensaio. Resumo: Este estudo tem como objetivo apresentar o Teatro de Revista mas a teia de relações e de espaços entre seres e coisas composta no Brasil como uma das mais férteis e diversificadas experiências da num intervalo narrado. fato 64 65 . O contexto nas primeiras décadas do século XX. buscada numa série de personas (Flaubert. seus palcos. informações que flertam entre a fabulação ficcional e a realidade a identidade brasileira. destacam-se não só os elementos básicos de sua estrutura narrado e o presente contemporâneo. enfim. A partir disso. Com esse rasgo causado pela literatura na história. a vida de Machado de Assis.) O autor. modernidade. especialmente do negro. livro cuja matéria prima parece não ser mais o Beatriz da Silva Lopes Pereira (UnB). Objetiva. compreendida alterações sensoriais (novas experiências no corpo e na percepção do como um “marco” no jogo de forças negociado pela cultura negra. das sobreposições de tempo e mudanças Thomas Alves Häckel (UERJ) arquitetônicas. a belle époque. da sociedade. como um espaço privilegiado de inserção sociocultural o crescimento do capitalismo e das mudanças materiais (como meios das camadas populares. a exemplo da de transporte. configuradas pelo eixo do progresso e da civilização. de Assis. distribuição voraz de mercadorias etc) até as Companhia Negra de Revistas e da peça Tudo Preto. moda. mas. A escolha do autor nacional. Machado Palavras-chave: Teatro de Revista.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS “De pernas para o ar”: experiências da modernidade na dramaturgia presentes em narrativas e a maneira que são narradas. É interessante lembrar que o e convenções. em textos que costumam níveis de disputa de discursos presentes na obra: os da vida literária e manipular procedimentos tradicionais da ficção narrativa para expressar intelectual do período e os diversos gêneros mesclados na obra (crítica. os “tipos” sociais e os variados discursos histórica sobre uma gama de personagens e suas relações sociais no enunciadores da crítica ao cotidiano da cidade. e. as construções de sentido feitas de acontecimentos e fatos. à política e aos costumes momento narrado. oferecer uma recriado na obra apresenta transformações da modernidade no Rio pequena abordagem desse fenômeno cultural. ainda. que se modernizava. em sua condição de “espelho” da realidade brasileira. em suas intercomunicações com a literatura. confissões etc. Mário de Alencar) denota a decisão de trazer um discurso Tudo Preto incomum para falar sobre a belle époque. desejo modernidade no cenário teatral brasileiro da belle époque tropical. cartas. inserção sociocultural. organizando o texto narrativo por uma cartografia de relações operadas para além de um indivíduo como foco principal.

A pertinência do tema do nosso simpósio se verifica no fato de que. autoconscientes. por mais fecundas que tenham sido. por grande ênfase no campo da teoria da literatura. nos últimos anos do século XX e no início deste século XXI. um jornal dedicado de modo praticamente exclusivo à crítica de obras brasileiras contemporâneas. Resumo: O último século foi marcado. De tal modo foi prestigiado o paradigma da Teoria que disciplinas correlatas. como a crítica literária e a história literária. Em 2017. buscando aprofundar as questões propostas no ano anterior. tanto no resgate da obra de críticos importantes de nossa tradição literária – como é o caso da reedição da obra de José Guilherme Merquior –. que se exprime.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC perceptível pelo uso ficcional de elementos reais e não-literários como instrumento para reforçar uma memória cultural. não esgotam as diferentes facetas que circundam o tema do nosso simpósio. O escopo desse trabalho será formulado em dois SEU LUGAR NO DEBATE PÚBLICO DE IDEIAS pontos: apresentar uma reflexão sobre as estratégias de autoficção Cristhiano Motta Aguiar (U. podemos enxergar uma revalorização da crítica. ficaram relegadas a um segundo plano. empreendido por pesquisadores como João Cezar de Castro Rocha. e traçar uma relação entre memória. Some-se a isso a existência hoje de um periódico como o Rascunho. posicionamos o foco do nosso debate especificamente no âmbito da crítica literária. Além disso. a reforma do palacete de Miguel Couto. memória. manifestando com força essa retomada da 66 67 . o Hospital dos Alienados. Belle Époque. cultura literários. Tivemos o privilégio de debater seus impasses e perspectivas. o debate entre ciência médica A CRÍTICA LITERÁRIA CONTEMPORÂNEA E e homeopatia etc. especificamente no cenário brasileiro. tempos e olhares sobre o passado narrado. Mackenzie) Eduardo Cesar Maia (UFPE) contidas no romance. a partir da escolha 03 feita sobre o que observar: a epilepsia. cidade e literatura a partir do intercâmbio entre discursos e o funcionamento da narrativa como uma rede de relações. propomos dar continuidade a esta reflexão.P. e pela promessa de abordagens mais sofisticadas. no último encontro da Abralic. no âmbito dos estudos Palavras-chave: autoficção. temos consciência do quanto as discussões anteriores. Em 2016. além de metodologicamente mais rigorosas. como no resgate da chamada crítica de rodapé.

João Cezar de Castro Rocha. blogs e outras formas de publicação a profusão de sites. como campos amplamente internet e das redes sociais. Jornalismo sociedade pós-industrial lhe legou. TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS crítica literária no Brasil.. que ela deixe de ocupar o lugar periférico que a contemporânea. À época. conferir mais visibilidade à literatura contemporânea na medida em que a torna TERÇA 08 mais nítida no conjunto de discursos que compõem o contemporâneo. Manhã [09:00 – 11:00] Assim. Literatura sem. Manuel da Costa entrever a busca pelo reestabelecimento de uma possível maior Pinto. interessado na grande imprensa e na difusão própria da virtuais. trabalhos que enfoquem o pensamento e a trajetória de voltados para o compartilhamento e discussão de experiências de importantes críticos que. efetivados então por eles. por uma retomada da polêmica oportuna a presença de debates que tomem como ponto de partida a enquanto espaço de debate. redes sociais de leitura e canais do Youtube eletrônica. dos meios digitais de produção. no âmbito brasileiro. de questionamento e de construção de atuação e as ideias de críticos atuais: críticos que tenham essa atuação valores. até então literária escrita por ficcionistas e poetas. dúbio – por que não dizer: esquizofrênico – permite uma redefinição de sua importância. Palavras-chave: Crítica Literária. reflexões sobre a crítica diferentes maneiras: pela defesa de um viés individual. ao mesmo tempo Resumo: Em diferentes perspectivas sociais. relevância da própria textualidade literária na contemporaneidade. começou um intenso debate. como é o caso de Álvaro Lins. com revistas e com sites. A proeminência atual da crítica parece manifestar-se de Antonio Candido e José Guilherme Merquior. esse Cristhiano Aguiar (U. Isso tudo não deixa de representar um movimento de revisão do caráter fundamental ao papel da crítica literária. Teoria Literária. antropologia etc. Além do mais. tem Interessam mais objetivamente ao simpósio trabalhos que se voltem ocasionado uma série de mudanças de paradigmas nas práticas para a discussão de questões fundamentais da crítica literária atual. permitem Castello. pela necessidade de um discurso mais aberto aos espaços não marcada pela conquista de algum espaço em veículos impressos e acadêmicos. Alcir Pécora e Paulo Franchetti. hoje nos departamentos e pós-graduações de Letras das universidades Lúcia Miguel Pereira. conferiram sempre leitura. por exemplo. dessa forma. Justamente esse dentro e fora. cultural e político das A crítica literária na internet: literatura contemporânea brasileira e valores literários nas críticas de booktubers textualidades contemporâneas. mas também no cenário acadêmico. A crítica pode. função e valor. divulgação e experimentação digital para dezenas de 69 . a respeito das articulações entre produção que compõem os estudos literários e mesmo com outros ramos do literária e internet. chama a atenção impressos. reiteramos o interesse desse simpósio em discutir e refletir Sessão 1 sobre o lugar da crítica literária hoje não apenas no âmbito dos estudos literários. Em meados dos anos 90. brasileiras. em outra clave. especialmente a internet. Otto Maria Carpeaux. não raro. que tais como: suas relações com a academia e com as outras disciplinas ainda hoje não se esgotou. Todos esses traços. Gilda de Mello e Souza. Mackenzie) caráter ambíguo. que deixa ver suas marcas até teóricos e historiadores da literatura. sua relação com os jornais veículo de criação.P. o advento e a consolidação que permite tornar mais percussiva a presença da própria obra literária. Nesse sentido. mesmo quando foram discurso hegemônico da teoria literária. culturais. o suporte dos blogs se revelou o principal saber – história. filosofia. também se faz soterrado pela fetichização do método. blogs. de José atribuídos à revalorização do discurso crítico na atualidade. passíveis de serem receptivos à polêmica e ao debate – são os casos. Rodrigo Gurgel. necessariamente.

algumas digitais das Fanfics ou sites como o Wattpad e o site de comércio de características intrínsecas às formas de expressão e publicação na web livros Amazon. O objeto da nossa comunicação procede por simpatia (ou antipatia). não interpessoais. ou eventos acadêmicos: eles também despontam ou se rearticulam o Facebook ou o Reddit (ou o extinto Orkut). já é fato estabelecido que os debates em torno da tempo outras modalidades de debate sobre a produção literária foram literatura não se circunscrevem mais aos livros. revistas especializadas se desenvolvendo. Sob a fundamentam as obras resenhadas?. não a universidade.” Se outrora os salões de leitura se metamorfosearam na dedicacos a criar e veicular vídeos sobre livros e leitura – brasileiros. escrita e o da chegada de um texto às vistas (não mais às mãos) do leitor. Além de publicar terão sua resposta definitiva em nosso simpósio. diferentes práticas Natalia Francis de Andrade (Puc-Rio) críticas aproveitaram a internet como um novo local de discussão sobre a literatura.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS escritores e escritoras. Se. Literatura e afirmar que a Era do Blog enquanto eixo fundamental das relações Valor. produções textuais nas quais obras literárias ambientes propícios para a comunicação ágil. evidentemente. Ao procuraremos problematizar as seguintes questões: a) Quantos viabilizar a supressão do longo intervalo temporal entre o momento da canais no Youtube abordam a literatura brasileira contemporânea?. a ser desdobrado em Atualmente. julga. Youtube. do qual a imprensa dedicados ao comentário de livros. pesquisadores. sua sobrevida recente se nota no grande salão virtual. eram os blogs e sites tradicionais Resumo: Neste momento em que caminhamos para o final da segunda os principais pontos de encontro da crítica literária. b) Quais autores e que editoras geralmente são selecionados?. possuem espaços de interação com os usuários de seus vão diretamente ao encontro da natureza dialógica da crítica. em maior ou menor grau de Compagnon. consiste em analisar um aspecto deste fenômeno: os canais no Youtube Sendo assim. de diferentes perfis e níveis de profissionalização. O crítico-internauta: estratégias de circulação e enunciação da crítica literária em rede Da mesma forma que no caso da criação literária. as plataformas desses atores ao suporte técnico em voga. nos quais há a publicação em círculos virtuais. “seu lugar ideal é o salão. discutidas. por identificação ou projeção”. d) Que valores literários de flexionar suas estratégias de circulação e de enunciação. jornalistas culturais crítica sobre a literatura como escopo principal. tais como o Goodreads. Antoine serviços nos quais podemos encontrar. surge a figura do “crítico internauta”. A efervescência da vida literária nas redes digitais e circulação de uma série de gêneros textuais que acolhem a análise – da qual participam professores. mas servirão como e compartilhar resenhas e ensaios em formato digital. lembra que a crítica depende de complexidade literária. sua primeira forma é a diferentes canais de Booktubers – como são chamados os Youtubers conversação. outras formas de divulgação e criação da intensa produção outros contextos de uma pesquisa acadêmica a ser iniciada. imprensa. inicialmente. como os já citados blogues. ele conclui. c) Que os meios digitais abriram para a crítica especializada a possibilidade fundamentação teórica embasa estas leituras?. Para além disso. com o passar do década do século XXI. sintoma apenas de uma simples aderência criação literária ficcional. e) É possível chamar um vídeo de égide da popularização da internet como importante rede de conexões um Booktuber de “crítica literária”? As perguntas. porém. ele mantém 70 71 . em O demônio da Teoria. avaliadas. são comentadas. outro aspecto deste debate dizia respeito à crítica literária na internet. É o caso das redes sociais. Literatura contemporânea brasileira entre criação literária e meios digitais se encontra encerrada. Mesmo ambientes de e autores – não é. pois ela “aprecia. Assim. a ponto de podermos Palavras-chave: Crítica Literária Contemporânea. poética na contemporaneidade são possíveis. balizamento para um pontapé inicial de pesquisa. A partir de um recorte retirado de é uma metamorfose.

tecnológicos que possibilitaram -e possibilitam. por exemplo.o acesso mais Ali. configurar- 72 73 . divulgação e consumo de múltiplas experiências literárias. revista. de maneira análoga.permaneçam escondidas em pontos cegos para ensaio dedicado a Caetano Veloso que saiu publicado em sua primeira o academicismo. ou seja. a entrevista. Para a discussão traremos à baila exemplos que vão de querelas que recentemente proposta. Santiago foi um dos primeiros. políticas se sobrepõem umas às outras em ritmo mais intenso do que bem como de variadas formas de textualidades: falo da internet e em outros ambientes. entre estes. tanto como componente de seu gesto crítico A entrevista como um entre-lugar da crítica literária contemporânea no contexto histórico de fim de ditadura e abertura política. bem como às revistas como Veja. internet. meios eletrônicos claro. A fim de realizar um apanhado instantâneo dessa conjuntura. em diversos pontos. Modo de Usar. que oscilam entre o antagonismo dos principais do país. acompanha as leituras de comunicação. o seu lugar de criador e crítico nas experiências literárias e Palavras-chave: crítica contemporânea. televisão. Aliás. envolveram autores e professores universitários no Facebook – como a isto é. conformado assim. Serão problematizados também os anacronismos coletânea de ensaios intitulada Uma Literatura nos Trópicos. a partir da pesquisa e leitura e escuta de entrevistas de Silviano Santiago. de então. coletânea incontornável. bem de 1978. e as de determinado segmento universidade. em que Lúcia Melo de Sousa (UFF) o artista precisava se pensar e atuar na cena pública mediante sua Resumo: O trabalho se propõe a pensar o espaço e a função do opinião política e atitude comportamental. solicito o pensamento e os textos. rádio. a novos suportes de descritos por Jürgen Habermas. fundamentais para qualquer contribuição mais pungente cena cultural brasileira no fim dos anos 70. sobressai o ethos polêmico: disputas produção.vejamos estas como metonímias do acalorada repercussão de uma matéria publicada no jornal O Globo e corpo-do “antenado” professor e ensaísta e crítico e ficcionista e poeta intitulada “Livros com protagonistas gays apontam para naturalização do Silviano Santiago. jornal.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS vínculos virtuais com outros críticos e leitores. como o universitário. e a partir literatura já está aferrado. ao no debate literário . a voz e a letra e a imagem-. como Escamandro. dos tipos I-Phones e Smartphones. crítica literária na textualidades brasileiras contemporâneas. e. em especial. tema” – a blogs e revistas eletrônicas. no ano decorrentes da aplicação do conceito de esfera pública à internet.como uma outra e diferente forma que as “margens” da web – que têm abrigado discussões em estágio de ação e atuação e atualização do artista e do objeto artístico na embrionário. Refiro-me. como a Rolling Stones-. uma vez que nela aparece o como a necessidade de pensarmos em alianças estratégicas entre esses ensaio “O entre-lugar do discurso latino-americano” em que Silviano novos espaços críticos e aqueles tradicionais. quanto nos mais recorrentes nessa circunvizinhança e torna públicas algumas de novos meios que emergiram a partir do aperfeiçoamento e expansão suas impressões e opiniões em fóruns virtuais e caixas de comentários. editorial ou da grande de seu espaçamento mediante o surgimento dos telefones celulares mídia. discutiremos os motivos que fazem com cultural. quanto como componente. de um espaço “em aberto” de experimentação crítica. com as e complementaridade tanto com os meios impressos quanto com a suas tradicionais Páginas Amarelas. gênero discursivo entrevista tanto nos tradicionais e canônicos meios hoje. A partir daí. senão o primeiro. à dos salões literários democrático. Na minha interpretação. onde o pensamento sobre vai trazer o conceito de “entrelugar”. a entrevista. esfera pública. crítico literário e ensaísta a solicitar e lançar mão da entrevista--no A intenção é demonstrar os usos heterogêneos que artistas e estudiosos momento histórico dos anos 70 reservada aos Suplementos Literários têm feito desses espaços virtuais. para uma boa parte da população.

pelos museus da Paris dos anos Ser interrogado nas escolhas que se faz é sinal de que o debate está 60. bem como um espaço de valorização Resumo: Atuar como crítico literário estando dentro dos limites da cultura da periferia. pelas bibliotecas norte-americanas dos anos 70. esta comunicação tem por objetivo recuperar a figurarão ou não no cânone e sobre a possível representatividade memória do lançamento dos volumes organizados por Ferréz. produzidos entre 2001 e 2004. entrevista. porque é 74 75 . lançar prognósticos sobre a qualidade das obras.“Literatura Marginal – A Cultura da apresenta-se como uma empreitada complexa que exige critérios Periferia Ato I. de dentro e de fora de projetos estéticos e/ou práticas textuais. união. todo ponto de vista. toda do pensamento um entre-lugar para habitar: precário e provisório e categorização é relativa. entre-lugar temas que tem se destacado é o da representação da realidade marginal e periférica. arriscam-se em tecer Palavras-chave: Recepção Crítica. fundamentalmente. se há o risco do agir. Assim. uma escritura de testemunho. passando pelo jovem enformado pelo minimizar as incoerências que surgirão ao longo do percurso crítico. intelectual grande a tentação de não apenas categorizar a narrativa brasileira ou não. promoção. entretanto. vez que o papel do crítico inscreve-se no exercício da avaliação e do julgamento. Trazendo para o centro da discussão os excluídos sociais. mas também buscar nomes representativos de longo de sua formação e. para a para demarcar o reconhecimento e o destrinchamento de variantes. Investir nessa reflexão quando se está dentro desses limites. No seu caso. na tentativa de definir.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS se-ia numa entre-lugar. pois não imune ao tempo. Ato II e Ato III”. especialmente o jornal. Memória do lançamento. não Ana Paula Franco Nobile Brandileone (UENP) raro. bem como apropriação e legitimação desta expressão Não por acaso. a fim de literária deles no circuito da crítica e historiografia literária brasileiras. 2009. discutir a recepção crítica do “calor da hora”. criando. volumes especiais da Caros Amigos. contemporâneas. um professor de literatura. 2014). Diante desse perigoso. o que pode levar a conclusões uma especialidade. 2013. evitando que denomina o movimento (NASCIMENTO. Literatura análises sobre estas produções e autores. tendo em vista os artigos dada a multiplicidade de formas e temas das produções narrativas publicados em periódicos. contexto de multiplicidade da produção ficcional brasileira um dos Palavras-chave: Silviano Santiago. Isso porque a isenção não é o melhor caminho para gibis em seu Robinson Crusoé. do cidadão aberto e que o objeto interrogado sempre inaugura novas leituras e intelectual e crítico e criador que fez do deslocamento do corpo e e que. Literatura marginal: a memória do lançamento de “literatura marginal a literatura marginal encerra no ponto de vista interno e na própria – a cultura da periferia ato I. onde a personalidade pública. marginal. “Literatura Marginal – A Cultura da Periferia Ato ainda que provisoriamente. a recusa em elaborar qualquer tipo de síntese também multidisciplinares: desde do menino de Formiga que transformou os incorre em risco. sobre autores que HOLLANDA. ou seja. pudesse veicular e divulgar o conhecimento adquirido ao dos tempos atuais. que se precipitadas. Alguns críticos. parte dos críticos se mostram reticentes. Considerando a importância da publicação dos espaciotemporais da produção literária que é alvo de investigação. traços e marcas desta época. cinema na Belo Horizonte dos anos 50. ato II e ato III” origem social dos autores o seu fator de reconhecimento. faz-se necessário. mais e sobretudo. todo critério. PATROCÍNIO. já que qualquer posicionamento implica em escolha e formou a partir de experiências literárias múltiplas e diversificadas e em exclusão. entretanto.

Em meio a tudo isso. ajudará 76 77 . A verificação dessa hipótese foi feita com base protagonista vivida pela atriz Sônia Braga. de recepção problemática e foi possível verificar até que ponto realmente os meios de comunicação de curto tiro e curto impacto. Eles discorrem sobre obras de novos autores desconhecidos ao público e discutem sobre o que mais Resumo: O longa-metragem Aquarius. Mackenzie) força que eles têm ganhado no meio editorial. autores nacionais. site de extrema relevância para o da internet. próprio diretor da fita.P. (pessoa que faz resenhas literárias por meio de vídeos publicados em entre a crise econômica. mas ocasionalmente contratados por Tarde [14:30 – 16:30] editoras para a divulgação entre os seus inúmeros seguidores. Mackenzie) resenhas realizadas pelos booktubers. a digitais transformaram as relações humanas atualmente. realizado pelo diretor Kleber chamou a atenção para a obra. que publicamente associa a história de Clara. suscitou mesmo antes de sua estreia inúmeras questões. Mackenzie). Kleber Mendonça. e consequentemente muitos fãs. Busca-se. Mendonça Filho. redes sociais. na construção de suas três partes. por exemplo. Mais do que isso. booktuber como exemplo o trabalho de críticos que era publicado em jornais de TERÇA 08 grande circulação. e a morte da crítica é a divulgação de obras literárias de novos autores por meio dessas Thiago Blumenthal (U. resenhas literárias. amadora e ganhando seguidores (às vezes muito fiéis). chegando ao observação da arquitetura da obra. a do calor da hora.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS A influência de booktubers em novos autores nacionais que ele seja realmente “ouvido”. As críticas e as Palavras-chave: Crítica literária. É uma espécie de marketing boca a boca. uma vez que o booktuber se apresenta como amigo do público leitor.P. Helena Bonito Pereira a partir de diversas notícias sobre o surgimento de booktubers e a (U. P. geralmente de forma gratuita. o autores assistam aos vídeos dessas pessoas. inclusive por parte do sem considerar o que os resenhistas. ponto de trazer a crítica literária para o mundo do leitor e fazendo com focadas na personagem de Clara. eram feitas por críticos especialistas. verificando o tipo de do poder executivo e o decorrente processo de impeachment que influência que esses booktubers possam ter sobre os autores – caso os deflagrou a então presidenta Dilma Rousseff. Uma Sessão 2 nova modalidade de vídeo que está se popularizando entre os leitores Aquarius. e principalmente. O referencial teórico foi desenvolvido Ana Claudia Jacinto de Mauro(U. então. analisar Aquarius dentro desse contexto em relação à sua relevância na internet (aqueles que têm ao menos mil visualizações por crítica. os supostos escândalos de pedaladas fiscais redes sociais) e autores nacionais contemporâneos. lançado em território nacional em setembro de 2016. a julgam ser importante?. eles levam em consideração filme foi lançado e imediatamente uma leitura política passou a ser as críticas e aplicam em seu trabalho ou continuam desenvolvendo livros vinculada por parte da crítica e do público. Esse tipo de trabalho é agora realizado por amadores. ao movimento de resistência em uma pesquisa qualitativa realizada entre alguns autores nacionais de política que estamos todos fazendo parte. e em relação com o seu meio. visualização de resenhas feitas por booktubers de trabalho. e aos seus mecanismos de divulgação dentro vídeo) e pela leitura de obras de referência. por conta de Este artigo busca compreender a relação que existe entre o booktuber sua relação com o período político pelo qual o Brasil está passando. A partir dessas informações do mercado cinematográfico brasileiro. com diversos artigos Resumo: Com a popularização dos meios de comunicação digitais e selecionados a partir do Publish News. muitas pessoas passaram a produzir conteúdo de forma meio editorial atual. neste ficção selecionados.

como endosso a perspectiva de que. em se tratando de arte – especialmente professor universitário. como editor que precisa lidar com a apreciação no que diz respeito à arte literária –. como acadêmico. o submissão da consciência crítica ao que Miguel de Unamuno chamou de recente livro The Death of Expertise. por distópica e “intempestiva” do fazer crítico. de uma hipótese a ser discutida no simpósio – de que perspectiva histórica de crítica. de política. Ideologia. como resenhista de jornal. crítica. de Tom Nichols. além. transcende a mera tentativa teórica. por exemplo. por supostamente conhecer de antemão o Antoine Compagnon. faremos um levantamento de outros uma parte considerável da crítica literária contemporânea adota artistas ao longo da história que também assumiram o front de debater determinados preceitos ideológicos como valores apriorísticos e como as ideias. o ato crítico não se pautava sobre o livre-arbítrio. exerce de algum modo oficial ou extraoficialmente um papel crítico. como pesquisador. mesmo que seja parte importante Filho. seja na crítica literária praticada XVIII. Em uma se. análise hoje pois é não mais incomum o artista – seja ele na forma de pois se apoiam em critérios exclusivamente políticos para a escolha de um escritor. é de fato um filme político ou trata. plástico. Durante a Idade da enquanto fenômeno artístico complexo – seja no âmbito da teoria Retórica. a como um elemento interno-externo (an importer-exporter. música ou áreas afins – que também seus temas – de preferência a defesa de causas politicamente corretas. Charles! Ser ‘gauche’ na vida” Resumo: A ideia central da comunicação é defender a concepção de que Peron Pereira Santos Machado Rios (UFPE) a excessiva politização dos estudos literários. por exemplo. fragmentada acaba recaindo numa forma de pecado intelectual bastante frequente: a (mas concretizada) dos jornais e das redes sociais – nesse último caso. a ideologia não pode servir como e posterior edição do produto da arte. na visão quantidade de trabalhos críticos (acadêmicos e jornalísticos) que nem cômica de um George Costanza). é claro. cineasta. Parece-nos importante esse tipo de ao menos estabelecem qualquer relação com obras literárias concretas. a crítica literária por considerações completamente alheias ao entendimento da literatura é um exercício que nasce com a ideia de clássico. “ideocracia” – o abandono de si em troca da segurança e do conforto de Palavras-chave: aquarius. Política O abandono de si: razões para uma distinção entre crítica e militância Eduardo Cesar Maia Ferreira Filho (UFPE) “Vai. razão basilar de sua atividade. guiando-nos em especial vocação e natureza. portanto. pode levar a excessos e. de que a 78 79 . A densidade e complexidade de curadoria junto ao Instituto Moreira Salles. como as ondas de Boa Viagem. Parto da observação pessoal – trata- que perigosas. Teoria da Literatura. O pelas reflexões mais recentes de Leyla Perrone-Moisés e do francês militante político-ideológico. buscaremos nos ancorar em uma perspectiva um tanto quanto exclusivamente persuasiva de qualquer discurso ideológico que. Em contraposição a tal tendência. Tal é o caso de Mendonça explicação total ou motivação última. principalmente. Palavras-chave: Crítica Literária. como espirra no lastro da análise que é o melhor para o conjunto social. algumas vezes motivada Resumo: Em sua vertente corriqueira e sistemática. em suas margens sutis. É curioso observar. kleber mendonça filha. ainda ao empobrecimento crítico. presume-se portador de “verdades universais”. Em termos de visada de um bom romance. de toda a crítica ao mesmo tempo diluída. progressistas e emancipacionistas.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS a empreender uma discussão melhor formulada se o longa-metragem em jornais e revistas –. no arco temporal extenso que vai da Antiguidade ao século literária produzida dentro da academia. que no momento da inscrição deste trabalho mantém um cargo da concepção do artista e do crítico. a interpretação e mesmo a qualidade de suas próprias obras. cinema uma visão esquemática da realidade. já tem objetivos pré-definidos e aqui proposta.

veiculadores de culturas resistentes Roberto Acízelo de. O atualidade). Ficção. duras afrontas viessem compor uma longa polêmica (1687-1715). Contemporaneidade Mas não sem que. uma hipostasia realidade ou ficção no bojo do romance e como situa o narrador no do texto literário – que se via destacado das raízes sócio-históricas sutil exercício da verossimilhança como conceitoGostaria de analisar que lhes davam vida e viço – e da própria atividade analítica. do estruturalismo e da nova crítica – dito do seu conceito. realizadas pelos críticos do período como Costa Lima se situa nas hierarquias da realidade como sujeito anterior. na abordagem dos textos literários. é realizar uma radiografia dos autonomia e sensível ao caráter proteiforme dos modelos – aparece em valores que circulam na escrita brasileira contemporânea. em que toda produção se desenvolve e respira (e num nível diverso do Palavras-chave: Realidade. Crítica. sequencialmente.Gostaria de proceder à leitura do que Costa Lima chama de círculos europeus). caracterizando ainda mais espartilhado: a própria noção de hierarquia não faria sentido o que a lógica chamaria de petitio principii ou tautologia (cf. dos textos se verificava mais na confirmação dos clássicos do que no e a controvertida pós-modernidade põe a questão num locus reflexivo tonus individual que veiculasse um acréscimo à tradição. que tiveram seu auge. Axiologia. No início do século XX. ao mesmo tempo que se desregulamentam as poéticas.ideologicamente. despontam abordagens teóricas de reaproximação com o de uma enunciaçãoTrata-se de ver o que ele considera ficção e o que literário. SOUZA. os estudos culturais trouxeram.como pode ser lido no não Era a semente do formalismo. Como podemos observar. Do ponto de vista estético. elementos referentes ao contexto amplo também a Análise do Discurso. o aporte necessário o discurso imanente a estas conceituações.Trata-se de um trabalho que para relativizar semelhantes excessos.Trata-se de uma crítica da crítica uma vez que vou apoiados sempre nesse close reading –. no período quinhentista.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS modernidade seria ciosa.tal como Jauss define o termo autor implícito.Mestre em Letras UFMG Pretendo neste estudo verificar o textos não tinha outra função além da aferição axiológica em última conceito de verossimilhança em Luis Costa Lima e o autor implícito neste instância. que caminhos pouco explorados ainda são possibilidade. pondo-os estado larval com o turning point de Lutero. na sequência. verossimilhança.para verificar ordem contextual e biográfica. Por sua também os conceitos de espaço e tempo no bojo do romance e também vez. ao texto e sua materialidade. antes. de modo a Na ambiência do espírito romântico e sob o influxo da ideia de gênio identificarmos quais as tradições que esses textos atuais recuperam e criador. A partir de então. na qual progressistas e conservadores trocavam Helenice Maria Reis Rocha (UFMG) argumentações e vitupérios. a legitimidade valor na história da crítica literária aparenta ser a sua única constante. O resultado foi. ele considera realidade e. neutraliza-se a máxima medieval “De gustibus non est disputandum”. de maior atenção à linguagem. Palavras-chave: História. nos anos 60 e 70 (quando a virada culturalista já ganhava força nos Literatura. a crítica de literatura Resumo: Luis Costa Lima e a Teoria da Literatura Helenice Maria Reis preserva em seu rol uma série de autores para quem a análise de Rocha . romance que ocorria no século XIX). portanto. a flutuação do 80 81 . apresentando com vigor. como resposta às elucubrações de conceito. A avaliação literária como a conhecemos – dirigida pela propósito de nossa exposição. entre buscar o implícito ao discurso de um teórico canônico na Teoria da nós. em confronto com o que essa longa história já nos legou. mais conhecida como a Querelle des Anciens Luiz Costa Lima e a Teoria da Literatura et des Modernes. Crítica literária: seu percurso e seu papel na a uma régua comparativa – necessária para o expediente axiológico. para mescla teorias uma vez que para chegar a um implícito terei que usar a reflexão sobre o literário.

que possui amplitude até o momento. tendo Álvaro Lins e Afrânio Coutinho como seus principais escola Centro Estadual de Educação Integral São Pedro (Ceemti) . localizada no Centro da cidade de Vitória e também realizada literária no mês de março de 2017. como os do Ensino Médio e Fundamental. Também Uma dessas práticas foi a crítica de rodapé. ficaram à margem mapeamento de todos os clubes de leitura do Projeto Leia Mulheres do processo que culminou com a hegemonia da crítica universitária. em março de 2017 de Afrânio Coutinho que. Leitura Literária.e. mas e discutidos em 2016/2 e a previsão para o ano de 2017. Gamelas et al. Os discípulos insubmissos: Álvaro Lins e a crítica de rodapé no Recife um clube de leitura que se propõe a ler obras literárias escritas por Fábio Cavalcante de Andrade (UFPE) mulheres. Relataremos a participação no encontro de dois da crítica dos jornais entre os anos 30 e 60. ao longo da história. pontuando que somente formou-se na cidade de Vitória (ES) a partir de agosto as ideias já sugeridas para que o projeto se expanda e também atinja de 2016. Manhã [09:00 – 11:00] O formato do clube de leitura nos parece necessário para que antigas Sessão 3 práticas tradicionais sejam rompidas e substituídas. Nessa não estão na listagem do cânone literário – onde sua maioria ainda são postura de refletir sobre os seus fundamentos percebe-se o esforço de homens. “A teta racional”. Eiterer e Abreu (2009). haja vista que a experiência de participação em um clube de leitura. figura notável no âmbito acerca do projeto.Escola pelejadores. Por fim. utilizaremos como principais referenciais teóricos Cosson (2014). Maria Amélia Dalvi (UFES) a respeito do Projeto Leia Mulheres em Vitória (ES). Clube de leitura e especificamente. que traz ao leitor 10 rigorosa. influenciado pelo New cristicism. O embate ficou conhecido como a “polêmica da cátedra e do contos . Meu objetivo é apresentar a maneira como a crítica de 82 83 . especificamente. na íntegra no espaço da sala de aula. ou mesmo abordar livros que tensionada hoje pela crise do próprio conceito de literatura. dificuldades e impressões encontradas mediação do Clube de Leitura “Leia Mulheres”. no qual quase não é possível ler uma obra literária a possibilidade de enfrentar seus limites metodológicos e conceituais. Representada por Álvaro Lins. por exemplo. principalmente Palavras-chave: Leia Mulheres.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS O Projeto “Leia Mulheres” como espaço de fortalecimento da leitura Viva. Faremos uma compreender as várias formas de crítica praticadas no Brasil. tendo como uma campanha de defesa de uma crítica profissional e de metodologia discussão seu primeiro livro. no sentido de Resumo: Este trabalho visa relatar a experiência de constituição e apontar os principais desafios. Objetivamos mostrar a potencialidade do espaço do clube outros públicos. realizaremos um breve panorama Taiga Bertolani Scaramussa (UFES). (2003). a literatura escrita por mulheres. iniciou e que teve a presença da escritora. a experiência de apresentação do Projeto Leia Mulheres na rodapé”. rotulada de impressionista apresentaremos os dados coletados através de consulta online sobre as/ e sobre a qual se quis imprimir a aura de puro amadorismo e raso os participantes do clube de leitura em Vitória (ES) e demais mediadoras diletantismo. brancos. Giovana Madalosso. Apresentaremos a listagem completa dos livros já lidos nacional desde 2015.ocorrido em São Paulo. no Brasil mostrando as principais características e diferenças. é bem diferente das vivências tidas durante o período da Resumo: Um dos traços mais interessantes da crítica contemporânea é escolarização formal. mesmo apresentação geral do Projeto Leia Mulheres no Brasil. classe média – e nos livros didáticos. ou seja. Para tanto. QUARTA 09 Azevedo e Martins (2011). de leitura para fortalecimento da leitura literária. um aquelas que de algum modo. primeiramente na cidade de São Paulo (SP). o rodapé sofreu os ataques anos do Leia Mulheres .

pela distância em relação ao Rio e. crônicas. de seus companheiros de movimento. contos e capítulos posicionamentos que podem contribuir para a reflexão do papel da 84 85 . principalmente. também. além de poemas. traduzidas em seu curso de Estética na Universidade do Distrito Federal. esse espírito de inquietação e pesquisa que Joel Pontes. definindo Merenice Merhej (USP) o movimento como essencialmente aristocrático e preocupado com Resumo: Dentre as muitas contribuições de Mário Andrade para a rupturas apenas formais na Arte.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS rodapé então praticada nos jornais do Recife se posicionou diante da de seus romances. insistindo nos que podem ser considerados embrionários para sua produção crítica matizes e na complexidade do debate. do qual. importantes. escreveu crítica das diferentes linguagens artísticas. num movimento dialético de grande riqueza intelectual. ao fim da vida. Embora seus ensaios mais conhecidos tenham sido feitos nas décadas um objetivo desse trabalho. diverso. Os responsáveis pelos rodapés nos literatura. e o crítico do Macunaíma já atuava como crítico musical em jornais de São Paulo. acordo com as próprias convicções. importante lição para a crítica contemporânea: o livre exercício da crítica mais especificamente entre 1935 a 1938. Recife político as e estéticas sobre Arte. É com escritor disserta. Livros e Ideias. a oportunidade de concretizar deve implicar no livre julgamento e interpretação de uma obra ou de essa ação. A porém atento à necessidade de espessura e de poder de sedução do experiência no departamento e sua saída traumática tornam-se fatores discurso crítico. desenvolvendo uma postura sugerida pela própria argúcia revistas mais importantes da época. sociais . foi um dos fundadores e idealizadores. de Janeiro. Polêmica. também. Contrapor a visão do artista nesses dois momentos é. para sua concepção da Arte como ação e de seu principal legado daquela geração de críticos que pode se tornar uma papel como Artista que age pela Arte. de modo a preservar um pluralismo embasado. na época Rio de Janeiro. também. entre 1922-1929. luta entre a cátedra e o rodapé. Os críticos de Embora haja a participação de Mário de Andrade em outras revistas rodapé do Recife se posicionaram de maneira muito independente. sem tratar das questões político- arte. Literatura Brasileira/ ter sido reforçada pela distância em relação ao centro da vida cultural Literatura Francesa. Moacir de sua relação com a produção internacional e a produção literária da Albuquerque e Aderbal Jurema puderam apresentar um olhar capaz época. Essa liberdade intelectual parece Revista Klaxon (Maio de 1922 a Janeiro de 1923) . por meio de ensaios. Estética ( Setembro de 1924 a Junho de 1925) do país da época e. As de Lins: questionar o mestre e ter autonomia para se posicionar de contribuições a serem analisadas. na década de 1940. Paulo. onde Lins e Coutinho firmavam suas verves. sobre o modernismo brasileiro. teatro. movimento e de si mesmo. em especial. cinema. Ambos Nas revistas modernistas. que tem. ao assumir a direção do Departamento de Cultura de São uma ideia. está também seu trabalho de crítico. e no ensaio Mário de Andrade: Crítico de si mesmo de 1942. Ensaios esses de ultrapassar a dicotomia entre a cátedra e o rodapé. em que analisa a si mesmo e seus contemporâneos. Critica de rodapé. na década de 1930. Dessa forma prolongaram o posterior e. em pelo menos um número. da mineira A Revista (Julho de 1925 a Junho 1926). cultura e pesquisa do Brasil. circo e teve importante contribuição na jornais recifenses tinham em Álvaro Lins uma referência familiar e disseminação das ideias modernistas. em que o no Rio. as seções escolhidas devem-se ao elaborando sínteses de questões inflamadas pela polêmica que se dava fato de se tratarem de textos exclusivamente sobre literatura. desde o início do Movimento Modernista. decisivos na transformação e amadurecimento de suas preocupações Palavras-chave: Álvaro Lins. serão as das seções: livros e revistas. em especial na comparação entre o crítico de 1930 e 1940. o autor de militante do movimento modernistas. como a Antropofagia. pois contribuiu para todas as formadora.

versos de circunstância. este trabalho analisará como se constrói a imagem do crítico de circunstância a reflexões sobre o fazer literário. In: Aspectos da Literatura Formação da Literatura Brasileira. características vistas como basilares de Museu de tudo se. Será feito um levantamento dos ensaios que constam na João Cabral também se lança à ambiguidade que perpassa o seu Museu Obra Completa (1994) e na coletânea Prosa (1997). enfatizando a de tudo¸ livro no qual ele experimenta a dupla função de ser poeta e análise de “Da função moderna da poesia”. figuras conviviais ou aquelas com os quais. a prática poética voltada possuía um telos. ao imbricar a metalinguagem e os versos (1975). Literatura. evidentemente. demonstrar que. Dizendo-se respaldar nos escritos estético-anárquicos de ao passo que se distancia da realidade que circunda um leitor cada Jean-Marie Guyau. à medida explicitação mais articulada de seu pensamento sobre o tema. Encontramos do distanciamento espaço-temporal. São Paulo: Martins Fontes. mais inclinado para a função metalinguística. alude aos poemas de endereçamento Brasileira. Pretende- circunstâncias. mantenha afinidades estéticas as provas desde anotações avulsas em seu Diário íntimo. em ANDRADE. do período setecentista. até a crítico de arte. Daí que para Lima Barreto a literatura 86 87 . enquanto poeta. Crítica. A arte. Embora. se encontram em Museu de tudo. suas Impressões de leitura. passando e/ou ideológicas. tardio texto O destino da literatura. tanto nos textos em prosa quanto naqueles poemas dedicados a outros escritores ou que a eles façam referências. O autor põe sobre a literatura a Conceito que ele associa à maneira como o poeta moderno ocupa. Resumo: Um pensar acerca da natureza da literatura. a literatura dedique muitos dos seus versos a esse fim. O movimento modernista. moderna da poesia”. apesar compõe um traço constante na biografia de Lima Barreto. Buscar- se-á apontar como as ideias do João Cabral crítico são incorporadas a Lima Barreto: crítica literária e marginalidade social sua própria poética e de que maneira elas podem ter interferido em Josias Vicente de Paula Júnior (UFRPE) algumas das leituras feitas acerca da sua obra. veemente pelo ensaísta João Cabral. Ao homenagear poetas. Edneia Rodrigues Ribeiro (UFMG-IFNMG) além de indicar em que medida esses preceitos propagados pelo João Resumo: A partir da aproximação entre metalinguagem e versos de Cabral crítico se revelam nos versos do João Cabral poeta. M. “Crítica literária” e “Poesia crítico ao mesmo tempo. Cultura uma comparação entre a crítica que se esboça em versos e aquela que é feita em prosa. e uma finalidade da mais para escritores do seu círculo de convivência é combatida de modo alta importância existencial. e composição”. um dever. ainda. A partir desses aspectos. no que relaciona a sua poesia também aos versos de circunstância. além de alguns poemas de cunho metalinguístico que Palavras-chave: João Cabral. 197. pintores. cria que a missão do escritor literário seria a de vez mais distante da poesia moderna. escultores. livro do qual fora extraído o maior metalinguagem número de poemas para a antologia Poesia Crítica (1982). buscar-se-á fazer Palavras-chave: Mário de Andrade. ele fomentar e de aprofundar a solidariedade humana. a fim de demonstrar similaridades e divergências João Cabral de Melo Neto: dualidades de um poeta crítico no exercício crítico realizado por meio desses dois gêneros textuais. em verso. quanto na contemporaneidade. 5 ed. principalmente nos João Cabral de Melo Neto.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS crítica literária tanto no século XX. discorrendo sobre outros escritores (Riedel). uma função. responsabilidade de encarnar a “consciência mais profunda do existir” se com seus próprios pares. p. poesia crítica. como se verifica em “Da função em que o embate entre a forma e política ainda permanecem atuais. João Cabral estaria exercendo o almejado papel de pela fundação da revista Floreal. 253-258. e por estudiosos como Antonio Candido que.

são eles: I: A literatura da era barroca no Brasil (até etnia) os principais empecilhos para sua aceitação plena no panteão 1770). a uma escolha estética fundamental: com veemência os preconceitos da época que lhe teriam impedido a a escrita clara. solidão. como ainda para seu metro como crítico. como afirmara Tolstoi em O que é a arte?. autárquico. Estudos Culturais. Certamente em obras que mencionavam a importância da literatura. o da literatura brasileira (1974). Barreto uma justa análise estética de seus livros? a sintaxe arrevesada. Não lhe interessava o tom rebarbativo. o crítico investiu escritura. 1750-1880. a clareza e simplicidade na três décadas (1960. 2. Curiosamente. Seriam. teria sido obstinada e conscientemente excluído dos processo autônomo”. sua marginalidade social lhe nacional. Não estaríamos. historiografia literária nacional. pode-se afirmar sem José Guilherme e a historiografia literária no Brasil equívocos que os dois pilares do balizamento literário por parte de Thaís Amélia Araújo Rodrigues (UESPI) Lima Barreto são: 1. Numa época de crítica Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. Pelo título dos capítulos. com o livro citado anteriormente. mas um (Martha). o estilo cifrado ou empolado. II: O Neoclassicismo (1760-1836). na qual as relações possuíam um peso decisivo para publicado em (1959). para o estudo da razões – origem social. pelas mais diversas é necessário destacar o papel dos críticos literários. suas marcas extra-textuais (classe. cor da pele. uma visão comprometida com a realidade. Condensando o argumento. vale ressaltar que obra nas últimas décadas estaria operando uma irônica inversão: seu este capítulo é encerrado com o seguinte tópico: Machado de Assis e a resgate apresenta-se quase sempre como uma leitura redentora de sua prosa impressionista. meios eficazes de divulgação de sua obra – a crítica exercida na grande analisar a evolução da história da literatura desde Anchieta a Euclides imprensa – justamente em decorrência de sua condição social de da Cunha. termo por ele preferido. Exalta-se seu caráter marginal ao passo que se denuncia finalidade levou. extra-literárias. texto tolstoiano intelectuais brasileiros da segunda metade do século passado. portanto. a capacidade de comunicação ampla. Sendo assim. ausência de um padrinho. Merquoir também contribuiu para a historiografia a consagração ou danação de um autor. isto é. Isso serviu não Palavras-chave: Lima Barreto. com Resumo: O presente trabalho objetiva analisar as contribuições de José o contemporâneo. cuja atenção não recaísse nas marcas Candido faz isso com maestria em um de seus livros mais famosos: exteriores. Segundo Merquior. no início do referido livro “A evolução das repetido que Lima Barreto teria sofrido uma “conspiração do silêncio” formas literárias não é um processo autossuficiente. geral. cujo objetivo seria o maior grau justa fama. assim agindo. por se saber periférico dentro do campo literário. Muito se tem estudo. Estética apenas como norte para o seu processo criativo. da pessoa do autor. que a forte retomada de sua e finalmente IV: O segundo Oitocentismo (1877-1902). etc. III: O Romantismo (1836-1875) dos louvados. Crítica literária. parece-nos. quatro capítulos. a qual intenta. impressionista. 70 e 80) de sua produtividade.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS deveria ser necessariamente militante. durante que nosso autor leu e muito admirou. negando novamente a Lima de comunicabilidade possível. com a experiência humana em seu mistério e sua Guilheme Merquior (1941-1991) para a historiografia literária no Brasil. que é o nosso objeto de retirava as chances de acionar a “cordialidade” nacional. É justamente isso que o crítico se propõe a fazer. Tal condição social. Situando -se como um dos maiores “desenvolvimento da fraternidade entre os homens”. É a partir deste comprometimento que se funda a “substância especialmente com seu livro De Anchieta a Euclides: Breve história da obra”. a divisão dos capítulos já elucida tal ideia. despojada. Alguns desses críticos trazem valorosas – Lima Barreto preconizava que a crítica se ativesse a uma leitura contribuições para a história da literatura em nosso país. por coerência. O livro é divido em pobre e mulato. percebe-se a abrangência 88 89 . simples. Antonio centrada unicamente na obra.

utilizamos. as reedições são comentadas. boa parte daquilo que pode ser lido como um para embasar a discussão sobre historiografia literária. Ishiguro abandona as locações japonesas Merquior. ele já tinha sido convertido em uma espécie de comentarista oficial de assuntos QUARTA 09 japoneses na mídia britânica e a crítica se dedicava a encontrar ecos Tarde [14:00 – 16:00] da literatura e da cultura nipônica em seus livros. O próprio autor atribui parte de verão conta com a apresentação do professor Fábio Andrade em: sua repercussão inicial justamente ao fato de ele ter “uma cara japonesa A Visão Integradora de José Guilherme Merquior: Por uma História e um nome japonês” em um momento em que havia interesse por Crítica da Literatura Brasileira. Seu terceiro romance. além do próprio ethos japonês nos narradores de Ishiguro também pode ser lido como Merquior (1974). de modo bastante hábil. Diz que não se interessa por contextos históricos específicos de idade e até hoje como um dos escritores de maior sucesso tanto e sim por sentimentos universais e — a despeito de seus romances comercial quanto de crítica em seu país. Nascido em Nagasaki nove anos após a queda da bomba. Com o aumento de Sessão 4 sua influência literária e munido de um dos personagens mais ingleses da literatura. tendo obtido reconhecimento tão japonesas vêm dos filmes e não dos livros e logo surgem estudos logo iniciou sua carreira literária. facilitando ainda mais a as resenhas de estreia. Com efeito. É trívia em estudos literários que a obra de arte é autônoma estabelecer rapidamente como um dos mais aclamados das últimas e que o autor não é autoridade sobre ela. a discrição. A essa altura. consegue pautar largamente os estudos Resumo: Kazuo Ishiguro (1954) é um dos autores contemporâneos e críticas de sua própria obra. estabeleceu a posição que ele ocupa desde os 34 anos nipônico. Coutinho (1995). Literatura brasileira e finca seus personagens em solo britânico. esse romance histórico sobre o entreguerras conseguiu se essa visão. Destacando como este livro traça um uma literatura que permitisse leituras de cunho multicultural e pós- panorama historiográfico da literatura brasileira. tendo seus interesses e décadas. A informação de pois os livros de José Guilherme Merquior estão sendo reeditados pela que ele nasceu no Japão figura no primeiro parágrafo de quase todas É Realizações. The Remains of comparando suas técnicas descritivas àquelas usadas pelo cinema the Day (1989). visões pessoais a respeito de seu próprio trabalho. uma insistência parcialmente justificada pelo inserção das ideias merquiorinas na crítica literária contemporânea. Vencedor do Man Booker Prize usarem momentos e dados históricos precisos — a crítica logo adere a for Fiction. esta largamente ambientados naquele país. Desde 2012.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS e significância desta obra. no entanto. A Palavras-chave: Historiografia literária brasileira. permeia boa parte da recepção inicial de sua obra. fato de seus dois primeiros livros terem narradores japoneses e serem A reedição do livro De Anchieta a Euclides foi lançada em 2014. de dignidade como contrição dos próprios sentimentos e intenções. brasileiro. a discussão sobre o crítico é mais frequente. trazer Merquior para o debate de ideias sobre o sistema literário nem mesmo em viagens. o mordomo Stevens de The Remains of the Day. A questão da sua nacionalidade. José Guilherme partir de seu terceiro trabalho. Ele diz que suas poucas influências mais prestigiados do Reino Unido. Casos como o de 90 91 . Ishiguro Questões de crítica e recepção em Kazuo Ishiguro passa a contestar duramente leituras orientalistas de seus romances Juliana Silva Cunha de Mendonça (USP) e. Como suporte teórico colonialista. a noção (1959) entre outros. Bosi (2006) e Candido algo essencialmente britânico: o comedimento. O que fortalece a ideia de como é importante Ishiguro se muda para a Inglaterra em 1960 e nunca retorna ao Japão.

obra de Kazuo Ishiguro. Assim. É lícito observar que desde o século notadas no âmbito estético. de alguma forma. esses traços revelam o mal-estar generalizado. mostram como a relação entre imprensa. embasando- exemplo. André Bueno (2002). uma vez que são mostradas barbaridades. literatura inglesa. o texto Palavras-chave: Passaporte. a literatura urbana e as transformações sociais no contexto citadino distintas modificações que representam a atualidade. por meio da ação da linguagem e dos artifícios literários. apontando. Cartografia urbana perspectiva caótica e desestruturada. Fernando Bonassi. Nossa proposta a multiplicidade cultural através da (des)integração e do desencanto de comunicação pretende analisar questões de crítica e recepção da global. Linda Hutcheon (1991). no decorrer dos séculos. crítica literária. mostrava esse processo instigantes problemáticas para o horizonte tradicional da crítica literária. Assim. a qual suscita por diversos lugares do globo. Renato Cordeiro Gomes de cidades brasileiras e de grandes metrópoles mundiais. Esse panorama mostra e autor é complexa e mutuamente determinante. também. possibilitando o entendimento de que a globalização transformou a sociedade em uma grande metrópole A estética literária enquanto formatação cartográfica em Passaporte desgovernada pelo sistema capitalista. uma vez que as narrativas têm revelado XIX. contemporânea constituída por meio diversos registros fragmentários Giorgio Agamben (2009). cidade é reflexo de muitas outras e essa composição se dá pela mera literatura contemporânea permutação de fatos e elementos. insensibilidades em diversos locais do globo. Tal efeito se constrói pela de Fernando Bonassi estética da obra. pelas formatações da sociedade capitalista pós-moderna. como é o caso da andam lado a lado. pois o autor reutiliza o formato de um documento Dulce Mírian Veloso(UNIMONTES). crítica para um mundo vazio. para conduzir e transportar os leitores a várias (UNIMONTES) nacionalidades. a geopolítica mundial inserida numa contemporâne. Rita de Cássia Silva Dionísio Santos oficial. provocado. o passaporte. esta comunicação visa discutir literários. refletiremos sobre a cartografia literária em Passaporte numa nuances que mostram o atual desenho do mundo globalizado. em Passaporte (2001) de Fernando Bonassi. nos seus interstícios. têm apresentado questões relativas como a produção literária contemporânea tem se mostrado um desafio ao seu contexto de produção e quase sempre figuram aspectos que para historiografia brasileira. Crítica literária demonstra. Resumo: O desenvolvimento da estética urbana e a apreensão do espaço ao que parece. por conseguinte. à medida que a industrialização avançava e expandia nova configuração estética urbana na obra supracitada. no que refere às diversas transformações merecem ser estudados e renovados. Diante disso. apontando como entrevistas e declarações do inversões de valores. os textos nas viagens pelo mundo a fora. a arte. alienações. percebe-se que a arte participa e visto ser uma narrativa em que análise estética e estrutural da obra em contextualiza ativamente das revoluções e das mudanças ocorridas prosa é primordial para compreensão do conteúdo crítico nela presente. no entanto. como por perspectiva de relações entre a crítica e a pós-modernidade. bem o caos e a vida agitada da sociedade pós-moderna. Nesse sentido. que enseja (1994) e outros. na sociedade.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS Ishiguro. peso excessivo que o aval do escritor recebe em um contexto em que a certamente. labiríntico e descentrado. Ao autor influenciaram leituras de seus romances e problematizando o que parece. pois a sensação que se tem ao ler esses textos é a de que uma Palavras-chave: Kazuo Ishiguro. autoridade do crítico parece enfraquecida. e na literatura contemporânea é possível encontrar Nesse viés. 92 93 . violências. uma obra literária nos em autores como Zygmunt Bauman (1998). com o objetivo aparente de ultrapassar as fronteiras e citadino têm ligações diretas com a perspectiva espaço-temporal – integrar o leitor ao mundo globalizado por meio de impressões obtidas especialmente quando se trata de obra literária.

A escolha de O filho da mãe e Simpatia (UNINOVE) pelo demônio se deve ao fato de que ambas as obras estabelecem entre si um diálogo bastante produtivo ao projeto de tese que desenvolvemos Resumo: O presente trabalho tem por objetivo apresentar reflexões na Universidade Federal Fluminense. – visando principalmente a distender as dicotomias de diversos autores brasileiros da atualidade (obras publicadas entre entre pertencimento/ não pertencimento. refletindo. sempre ciente. Trabalhar leitura literária em um ambiente como a academia dos limites e alcances da ficção na criação de um imaginário poderoso. de Bernardo Carvalho. da globalização e das biopolíticas. Literatura Contemporânea. principalmente. Consideramos que esse projeto. aulas expositivas. debates. tem suas peculiaridades. professores e alunos dessa instituição romances de Bernardo Carvalho revela a literatura como um discurso discutiram romances premiados nacionalmente. acerca da história e Ruffato. entrevistas. concentrando-se com 1990 e 2017) a estudantes de graduação em Letras e Tradução de uma propriedade na relação tensa entre luta e submissão. os pesquisadores Silva & Couto reuniram um grupo de professores interessados em escrever sobre os romancistas brasileiros Marcelino Freire (1967-). entre os anos o esforço de pensar nosso tempo e suas antinomias por meio dos 2010 e 2016. Fernando Bonassi (1962-) e Luiz Ruffato (1961-). universidade privada. ao mesmo tempo. Semestralmente. Acreditamos que os 94 95 . à luz do conceito Academia. eventos Palavras-chave: Bernardo Carvalho. ideológicas e identitárias na ficcionalização das guerras literatura brasileira contemporânea. Rita de Cassia Oliverio Couto Agamben e Michel Foucault. localizada na cidade de São Paulo. de Luiz poder e às ideologias. política e o papel do intelectual na relacionado à área de estudos linguísticos e literários das línguas era do mercado. tout court. mas os modos pelos quais são reveladas relações determinados autores brasileiros a integrar o chamado cânone da de poder. Ficção com autores e tradutores dessas obras no exterior e depoimentos de Biopolítica críticos literários. que após leituras. como Nove Noites de passagens pelas quais podemos percorrer os caminhos da crítica ao (2002). visto que geralmente esse processo leva o que permite ao crítico expandir seus horizontes teóricos. Nesse sentido. O projeto apresentou romances contemporâneas. e o resultado foi representativo. Sessão 5 comparativa dos romances O filho da mãe (2009) e Simpatia pelo demônio (2016). Nascia aí a literatura acadêmica que consolidaria esses escritores dentro do cânone da literatura brasileira contemporânea. nas reflexões de Giorgio Yuri Jivago Amorim Caribe (UFPE). dos riscos a correr.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS A ficção biopolítica em Bernardo Carvalho QUINTA 10 Larissa Moreira Fidalgo (UFF) Manhã [09:00 – 11:00] Resumo: Este trabalho tem como tema principal a análise crítico. favoreceu históricos. história. especialmente no que diz respeito advindas da experiência de um projeto acadêmico de formação de leitores de obras da literatura brasileira em um curso de graduação às relações entre ficção. traduções e imprensa: o cânone literário contemporâneo de autores brasileiros de biopolítica estabelecido. do brasileiro Bernardo Carvalho. Bernardo Carvalho (1960-). leitor a refletir de forma mais aprofundada sobre cada obra. e Eles eram muitos cavalos (2001). A abordagem inglesa e portuguesa. juntamente com carvaliana nos revela um discurso que investiga não somente os fatos uma série de circunstâncias que exemplificaremos a seguir. Foi então entretanto.

de escolha desses romances para integrar o projeto acadêmico e os centrado na relação pensamento. dialogando com a ideia de crítica política. Percebemos assim rápidas e diminui o interesse pelo universo dos leitores proficientes. a reflexão sobre estudo de novas bibliografias LÉVI- de romances de dez escritores brasileiros traduzidos em língua inglesa STRAUSS. traz uma entrevista realizada pelo do Nascimento) e da Literatura Brasileira (João do Rio e outros). contudo focar. Também ressaltamos a importância da recente iniciativa de da terra. Utilizar músicas. 2014). Não dispensar a literatura universal crítica literária formadora dos cânones da contemporaneidade no Brasil se baseia também na força das instituições acadêmicas. continuidade e Wanice Garcia Barbosa(PUC-GO). dos e brasileira. jornais. grandes bibliotecas via internet. valorizadores da cultura cânones. crítica literária. à história de sua gente. relacionando o desenvolvimento científico Resumo: Vários escritos sobre a Literatura Goiana. C. conforme matéria do jornalista Cassiano Elek Machado do folclore entre outras que servirão de suporte a futuras propostas (2013). JANOVITCH. o grau de influência exercido pela crítica literária na formação do É importante salientar que a pesquisa tem como objetivo despertar cânone contemporâneo. V. acreditamos que o lançamento de pós. Dentre os objetivos específicos a uma empresa gigante do mercado editorial em patrocinar o lançamento serem avaliados. Introdução. Ela influenciou os organizadores no processo e produzir a análise critica e percepção como um processo dialético. funcional e atrativa. Édipo à luz da internet. das matérias jornalísticas e dos eventos os autores atuais e doutores em literatura regional de seus leitores. Aproximar grupos editoriais organizados. além de artigos acadêmicos relacionados aos romances e leitura dos contos. O segundo volume Élis. fazer uma constatação da importância da Carvalho. por exemplo. análise e ensaio. C. Identificar variáveis relevantes de formas diversas. apto a criar por meio de para reafirmar o papel da academia na crítica literária formadora dos novas leituras conscientes e responsáveis. In: PROPP.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS volumes organizados por Silva e Couto entre 2013 e 2016 têm um papel ênfase a crítica literária historiográfica em que produziram títulos entre fundamental no reconhecimento acadêmico sobre o valor da obra meados do XX ao pós-moderno (Hugo de carvalho Ramos. Em suma. de Eagleton (2003). Veiga. Visitas a Museus. Porém. seduzindo-os para as coisas da terra. Maria Teresinha Martins (SILVA & COUTO. As leituras são ensaios e uma entrevista sobre a obra de Ruffato. do estudo semelhante à antologia.I. literários. foram declaradas com a transformação da sociedade. teatros.moderna. Serão considerados na presente tese os contos Goianos. Rogério Pereira Borges (PUC-GO) ruptura de paradigmas. significativa e funcional. Galerias de contemporaneidade Artes. Bernado desses romancistas no Brasil e até mesmo fora dele. José J. Especificar e compreender as construções humanas. atores e autores para melhorar o contexto. S. tendo em vista as dificuldades enfrentadas para traduções desse escritor. Formar leitores multiplicadores das coisas da terra. valorizar a literatura regional. escritores brasileiros. dando interpretação de resultados e processos ou experimentos científicos e 96 97 . história ao e selecionar os procedimentos necessários para produção. linguagem e construção da realidade eventos em torno das obras. 2016) traz tornar a Literatura Goiana prática. O mais recente (SILVA & COUTO. A estrutura e a forma – reflexões sobre uma obra de para serem comercializados eletronicamente fora do Brasil através Vladimir Propp. Maria Aparecida Rodrigues. A importância da Análise Crítica do Conto Goiano contemporâneo entendendo como se desenvolvem por acumulação. Melhorar e propiciar um ambiente para a valorização dessa iniciativa editorial reitera nossa tese de que o trabalho da do meio sociocultural dos leitores. capaz de promover o leitor uma literatura científica sobre a obra desses escritores é fato que veio à condição de sujeito ativo e importante. crítico literário Manuel da Costa Pinto com o escritor brasileiro Bernardo Pretende-se com o estudo. o fato de Luiz Ruffato ter sido um dos contemplados metodológicas. Palavras-chave: cânone literário.

Responde-se à ―crise penitenciária‖. problematiza as certa parcela da população. “espaço”. da do aprisionamento como forma de punição – e. Nessa conjuntura. ―Ela é como que seu programa‖. Chamado. nenhum agente cumpriu pena pelas mais de cem mortes cometidas. outras propostas. o colapso do sistema penitenciário provocou. uma significativa recorrência da Crítica a conceitos modo geral. explica Foucault (Vigiar e punir). sobretudo influências na literatura universal. em uma operação da Polícia Resumo: Diálogos entre a Crítica e outros campos disciplinares. este trabalho propõe Forças Armadas. pior. “território”. do extermínio de própria ficção contemporânea. Um grupo formado por indivíduos de classe. Ou seja. oferta de cursos discutir como o pensamento de Edward Said contribui para o debate profissionalizantes. que. revelando o processo de naturalização como “lugar”. nossa moderna história punitiva tem sido marcada por um duplo e contraditório papel da prisão: ela é espaço simultaneamente de 98 99 . como em ―crise‖. criminosas. No Brasil. por demanda. não Palavras-chave: Crítica. como atesta Eduardo Nordeste.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC tecnológicos. de frequentemente. E a partir da necessidade de estudarmos evolução do pensamento de um CULTURAIS povo que desbravou grandes matas. as fronteiras . Tem-se notado. compra de bloqueadores de celular. Geografia. Entendido de tais questões levantadas pelas produções ficcionais do presente. resume. Edward Said. para além da Psicanálise e da Filosofia. são práticas correntes nos domínios assassinados em presídios brasileiros. da Nas duas primeiras semanas deste ano. a prisão vem acompanhada de sua reforma. respostas pontuais. conto Goiano. a solução é sempre reforçar o cárcere. o sistema prisional precisaria ser reformado. cor e idade determinadas. pois A EXPERIÊNCIA DO CONFINAMENTO: 04 reveste de capital importância para todos. As matanças foram produzidas por confrontos entre facções Coutinho no prefácio à obra “Literatura Comparada: textos fundadores”. gerando cenas de horror. Por meio de pressupostos LITERATURA E OUTRAS PRODUÇÕES teóricos culturais buscando a valorização de sua terra e seus autores. não por acaso. comparada. mais de 130 presos foram Antropologia e da Geografia. Não temos novidade aí. crise nos presídios. escalação das as espacialidades. cada vez mais. As reações e pensamentos estarão bem claros nas Maria Rita Soares Palmeira (USP) obras literárias. entre diversidades. A intenção é estabelecer um estudo e materiais de autores contistas goianos. crítica literária Resumo: Quase 25 anos depois do Massacre do Carandiru (1992). Militar. identidades pós- questionado radicalmente. chamada para controlar uma rebelião de detentos. de ― organizada em conjunto com Tânia Franco Carvalhal. como no caso da História. sobretudo. Interfaces entre Crítica e Geografia no pensamento de Edward Said A chacina resultou no assassinato de pelo menos 111 presidiários da Ariane da Mota Cavalcanti (UFPE) antiga Casa de Detenção de São Paulo. com a construção de novas prisões. e verificar a influência obtida até Daniela Birman (UNICAMP) Lisa Carvalho Vasconcellos (UFBA) o pós modernismos. a maior parte nas regiões Norte e da Literatura Comparada nas últimas décadas. Desde praticamente seu coloniais nascimento. colocando em evidência as tensões entre as identidades. Palavras-chave: historiografia Goiana.

em sentido mais restrito. abrigos de menores. pensar o cárcere e tudo o fazendo. Ditadura Militar) com testemunhos do Massacre do por especialistas. Desdobrando e dando continuidade à nossa proposta inicial. lembramos que julgamos apropriado ainda prisões e campos também foram abordadas em discussões de escritos indagar sobre a possibilidade de um diálogo efetivo com as novas vozes sobre a Colônia Penal de Tarrafal e o Gulag soviético. de modo exótico? Prosseguindo com essa proposta. figura temática da ilha prisão. Ele será ainda a ocasião para e outros modos de expressão artística (rap. Literatura diferentes linhas de investigação das literaturas de e/ou sobre o cárcere. É. As especificidades de outras campo cultural. ancoradas nas experiências do chamado ― manicomial foi debatido a partir de leituras sobre Lima Barreto e Maura preso comum: que espaço há para uma troca enriquecedora de ideias e Lopes Cançado. A experiência de confinamento da classe média brasileira nos debater problemáticas como aquela do valor na escrita carcerária. uma excepcionalidade jurídica e política encarceramento e morte de oponentes de determinado regime luso-afro-brasileira. e. buscaremos discutir neste Simpósio Palavras-chave: Confinamento. se mantém. como o Sessão 1 dos manicômios. Prisões e manicômios. Quais Resumo: A crença na existência de sujeitos livres e autônomos se generalizou na sociedade neoliberal de tal modo que pode ser 101 . incluindo aí. Já o confinamento da literatura carcerária. até bem pouco tempo ativa e terrível. a de isolamento dos ―indesejados sociais‖. para este Simpósio. tortura. e estudos político. também julgamos pertinente refletir sobre as confrontar obras relativas a diferentes períodos de exceção no Brasil limitações das respostas e propostas apresentadas (pelo poder público. aquelas nascidas diretamente TERÇA 08 do Massacre do Carandiru. prosseguirmos com discussões iniciadas na Abralic 2016. Considerando as tragédias ocorridas em nossas prisões de mesmo nome. ou entre literatura e Justiça. Alvo de críticas e questionamentos. tivemos a oportunidade de no início deste ano. outras escritas Tarde [14:30 – 16:30] prisionais e mesmo relativas a outros tipos de confinamento. Mas seu lugar institucionalizado discutir os vínculos entre ética e estética. como já vimos crítico – que propomos. assim Vitor Soster (USP) como seus embates com a noção de cânone e com a formação de um corpo de textos entendido como representativo dessa escrita. desativações e implosões. diante desse complexo cenário histórico – e também teórico e Aumentando o escopo do nosso campo de reflexão. torna-se objeto de derivadas da coerção e da disciplina? Consideramos pertinente ainda reformas. em simpósio artes plásticas). sobre o controle biopolítico do corpo. Parte dessas apresentações será publicada em breve na experiências? Em que medida esses autores e suas obras são recebidos revista Literatura e Autoritarismo (UFSM). contemporânea e suas elaborações simbólicas: a produção do espaço em “O som ao redor” incluindo questionamentos sobre a estética dessa literatura. Por fim. Nesse último encontro. interessa-nos examinar diferentes formas concentracionárias que a ele se relaciona no campo da cultura. pois. entre outros) assim como nos perguntar sobre o Carandiru e outras produções literárias e musicais (de grupos de rap) espaço de acolhimento que essa série de genocídios recebeu em nosso relativas ao cárcere contemporâneo. interessa. cinema documentário. num sentido mais amplo. (Estado Novo. TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS exceção (atravessada pela ausência de leis e direitos) e prolongamento as especificidades da escrita produzida a partir do confinamento? A de práticas autoritárias que têm se disseminado pela nossa experiência prisional ou manicomial engendra novas formas literárias. quartéis. matança. sociedade.

é possível problematizar determinadas entre o que seria um discurso sobre o espaço – quer dizer. meio de práticas e relações sociais. por esse de diferentes estratos da classe média de uma mesma vizinhança motivo. Especificamente ao pensarmos em narrativas. A escolha desse filme se justifica por dois motivos: um temático. que permitiriam uma maior inovação que ele contém e. É assim que chegamos à segunda razão da escolha do filme práticas se sustentariam pela ideologia veiculada por manifestações pernambucano. Sendo assim. Já o da dona-de-casa ao proprietário de terras. especialmente aquelas vindas da indústria cultural. ainda à concepção do saber representacionista do positivismo. produzido por ato de testemunhar (percebido em seus limites) seriam valorizados.. A vertente crítica dos Estudos Palavras-chave: foco narrativo. predominantemente visual e outro auricular. outro Desse modo. DARDOT. de se apresentarem como a única realidade possível e desejável. ainda que não percebido dessa forma. espaço. A obra de Mendonça Filho tematiza criticamente o problema “assiste como um ‘terceiro’ (. até políticas de envolve a compreensão de que o espaço é constituído pelos objetos privatização do espaço público. a consequência é a oposta à propagada. estendida aos trabalhadores. propomos uma análise do espaço indo-europeias”) a partir da oposição entre um testemunho produzido no filme “O som ao redor” (Kleber Mendonça Filho. Seria assim que poderíamos compreender a solução Resumo: Em “Testemunho e a política da memória”. recorremos às considerações de resiste à linguagem. quer dizer. interessa-nos a forma culturais. mesmo sendo ideológica. Segundo o autor. Mais do que tratar de seu tema. este estudo se propõe analisar a crítica buscada pelo filme Entretanto. o modelo visual relaciona-se com a chegada de uma empresa de segurança privada. 2012). pela forma que ele impõe a esses nos modos de utilização desse espaço (cf. (Benveniste). 2010).. Márcio simbólica apresentada pelas narrativas para impasses da vida social. centrado na escuta.) a um caso em que dois personagens esboçado acima ao acompanhar o cotidiano de núcleos de personagens estão envolvidos” (Benveniste). autores como Jameson (1981) e Schwarz (1999) propõem Testemunhos visuais e auditivos na literatura prisional que as olhemos na direção oposta àquela apontada pelas normas que Daniela Birman (UNICAMP) as organizam. seja como “aquele que se mantém no fato” dados da realidade vivida no universo diegético. ao mesmo tempo. de forma que o tempo narrativo do presente (no Lefebvre (1974) sobre a produção do espaço. a experiência do enfrentamento da morte Para o desenvolvimento da análise. apresenta um acontecimento-limite. Tais objetos. o espaço qual a testemunha ainda encontra-se presa ao acontecimento) e o vivido pelo ser humano não é dado pela natureza. O autor também faz uma distinção Seguindo essa diferenciação. Cada núcleo. entendido como aquele que formal. filme e do pensamento que o forma. De acordo com o crítico. Culturais atua nesse ponto ao buscar os limites dessa ideologia contemporaneidade manifesta na cultura contemporânea. mas. “O vocabulário das instituições do pensamento contemporâneo. a descrição narrativas prisionais e manicomiais marcadas pelo testemunho a partir 102 103 . sabe. a ponto como o espaço desses personagens é produzido pelo foco narrativo. também ele simbólico. Nesse modelo. estabelece uma relação superstes é compreendido seja como testemunha e sobrevivente de específica com seu meio que. Seligmann-Silva explora a distinção do testemunho como “testis” Para que possamos investigar a opacidade sob a transparência limitante e como “superstes” (cf. no primeiro caso. LAVAL. O som ao redor.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS constatada nas mais diversas práticas cotidianas: desde a concorrência sobre o que há no espaço – e o estudo da forma do espaço – que entre empresários. Benveniste. o testis. seria aquele que viu e. o para que se possa obter indícios do alcance e dos limites do próprio confinamento ao “status quo” se estabelece como modo de vida.

Publicados na imprensa sujeito. Em Infância. 2012. Hospício. marco biográfico da prisão do escritor (1936-1937). de Graciliano Ramos. até Dos primeiros contatos com a justiça e suas prisões em “Infância”. que pode ser explorada em análise literária. Os modos e meios de violência manicomial quanto a dificuldade e mesmo impossibilidade de perceber e injustiça contidas nas narrativas apontam para uma temporalidade e transmitir certos acontecimentos. abolindo o polo da consciência e impossibilitando a apropriação a partir de 1938. que se empenha em restituir repetição histórica e social. Em Lima. A noção contida na afirmação desamparo freudiana e da identificação da construção literária de que encerra o capítulo “O cinturão” paira sobre todo o livro: “Foi esse o uma “gênese do escritor” e sua ética nestas memórias. Dyonélio e Maura. Com efeito. com recursos vários e significados distintos. a noção de “passividade” em Blanchot. a nosso ver. assim como da construção visual que ali é realizada. nem defendemos a que o presente (tempo da enunciação. impossibilidade marcada pelo sofrimento radical que destrói o contexto de sua escrita. p. da por meio das escolhas formais do autor. mas de Machado e Maura Lopes Cançado. marcada por violência. mas que diz de um presente recorrente. então exclusão de um determinado modelo em função de outro. 206). opressão. RAMOS. o relato própria do traumático. Prisão. não cronológica. Em perspectiva “L´écriture du desastre”). recém- cegueira. Graciliano. não sustentamos aqui a benjaminiana de história. confronto entre o mundo da criança (e suas figuras de poder na família. da incerteza ganham mais força. escola primária do interior” (“Os astrônomos”. assim como do primeiro contacto que tive com a justiça”. se expande para todas as dimensões de “Infância” (1945).XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS da indagação do lugar que o olho e o olhar ganham nessas escritas. parte-se do pressuposto de existência de modelos “puros” de testemunho. a palavra passará de pena (castigo) à outra pena (instrumento de escrita). manifestação de liberdade em relação às amarras desse Graciliano Ramos meio originário (o do menino e o do adulto sob um estado totalitário do Luciana Araujo Marques (UNICAMP) qual é funcionário). assim como a característica saído do cárcere não metafórico. de uma dinâmica de da linguagem visual. testis e relações que se pode estabelecer entre presente e passado em Infância superstes. escritas por Lima Barreto. Dyonélio Machado. Evidentemente. essa divisão e oposição. dos primeiros contatos com a injustiça) e poderão nos ajudar a pensar nas narrativas sobre o cárcere manicomial formaliza uma temporalidade que resta como latência autoritária em e prisional. onde “justiça” refere-se à falta 104 105 . a que se converte em arma e. (tempo do enunciado. do escritor consagrado. numa sociedade patriarcal no limiar da interessante. mas também no de ver. e o do adulto. Lima Barreto. O enfoque traumático do aprendizado da leitura. em sentido que não se restringe ao psicologismo se destaca pela exploração. assim como na problematização uma coletividade que a obra busca representar e dar voz. Visão Mas é sabido que. Dyonélio um gesto político de teor testemunhal não só em seu nome. investigar relatos ligados à impossibilidade abolição da escravatura e da proclamação da República. a partir da noção de sociais as quais o menino tem acesso. de certo ponto. que se dá pós-cárcere. No caso de Graciliano. os textos que compõem Infância são posteriores ao do acontecimento-limite (cf. afirma: “Não há prisão pior que uma reflexiva da sua narrativa. Palavras-chave: Testemunho. as experiências da névoa. Uma das da oposição entre testemunho visual e auditivo. medo. aqui sintetizadas de modo esquemático.). De todo funcionário do Estado que o encarcerara) convoca as reminiscências modo. os horrores aos quais assistiu e viveu. do termo. para Graciliano. Graciliano Ramos. Lopes Cançado exploram tanto a percepção visual do cárcere prisional e despotismo patriarcal e escravocrata. Graciliano Ramos e Maura é a de continuidade estrutural. Também se torna na escola etc. Resumo: Esta comunicação se propõe a apresentar uma interpretação tema decisivo destas memórias.

pela repetição. de desarticular a fala do homem e Palavras-chave: Infância. prisão caminhar para uma não linguagem ou para o silêncio. nos dos infantes com propósitos moralizantes para a edificação do homem. e o necessário repensar das fronteiras que avizinham e separam o homem dos animais não humanos. mas na cultura brasileira . Esse rompimento de fronteiras presente nas metamorfoses poéticas de Stela relaciona- O humano animal: a zoopoética de Stela do Patrocínio se com o ambiente de confinamento e desempenha uma função de Gabriela Simões Pereira (FURG) resistência à clausura. visa adentrar essa Primeiro. Proponho analisar a obra Reino dos bichos e dos animais é o meu nome (2001). Em 2001. Palavras-chave: Stela do Patrocínio. uma coletânea das falas de Patrocínio. Resumo: Esta pesquisa insere-se em um novo campo de investigação. Especificamente. desenvolvido no animal não humano. Segundo. quando o objeto em análise é a Jacson Raymundo (UFRGS) poesia. tal campo engloba estudos da QUARTA 09 biologia. Escreve de ontem. Zoopoética. terceiro. se tornaria abundante nas décadas Mosé. Este estudo. em cavalo. a qual se desdobra. metamorfoseando-se em macaco. que representa para além daquele recorte histórico dos primeiros a palavra poética que se quer animalizada. mediou a publicação de seguintes não só na literatura. destacando-se entre os demais internos devido ao dá luz a seus espaços de confinamento: de produção e circulação restrita seu falatório poético. O confinamento como forma literária: hibridismo de gêneros e polifonia locutória na narrativa memorialística de “Diário de Fernando” em específico. porque diz de seu agora. com o desejo do eu lírico de romper com a natureza humana e 106 107 . psicóloga e psicanalista brasileira. Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRGS. transpondo-as1 para a forma telenovela. em a experiência máxima com esta justiça que é sua prisão sem julgamento. teatro etc. Stela. das ciências humanas e sociais e. constituindo versificada. Na Literatura Brasileira. Nos estudos literários.cinema. em que os animais são antropomorfizados injustiça sofrida. p. “Infância” ainda hoje com a mesma pertinência. no universo do menino. desde seus 21 anos. caso destacado é zoopoética. à luz de Moretti (2008. como a própria o designava. Intrinsicamente transversal. Loucura iniciado nas últimas décadas do século XX. 31). busco investigar a tentativa poética de o que. viveu asilada em instituições o romance memorialístico atinente à ditadura militar (1964-1985). política ou cultural com base na desconstrução derridiana e suas elaborações acerca da oferece elementos distintivos. Esse processo metamórfico ocorre ao revés do domínio Haverá um segundo. no sentido de substituir anos de vida. cachorro etc. Resumo: O amálgama entre forma literária e processo social se torna mais evidente em períodos em que a História social. atualmente. Como lemos a lógica da construção frasal pela descontinuidade. pelo fluxo vertiginoso da palavra. em zoopoética. que totais manicomiais. e “Armadilha para Lamartine” a zooliteratura. de Stela do Patrocínio (1941-1992). é responsável pela criação de uma nova área de pesquisa. sempre primeiro contato com essa mesma alegórico das fábulas. no do adulto.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS dela e no pacto com o leitor implícito também se chama a atenção para “vestir-se” de animal. Graciliano Ramos. Viviane à época devido ao temor da censura. seria uma “estrutura temporária deslocamento/perturbação das fronteiras que separaram o humano do interna ao fluxo contínuo da história”. encontra-se às Tarde [14:00 – 16:00] voltas de dois temas: o concernente ao animal propriamente dito e à Sessão 2 sua animalidade. Um verdadeiro “ciclo” se formaria. denominado Estudos Animais. desenvolvida de dois modos na obra de Patrocínio.

memorialístico Obra testemunhal expressiva do período da ditadura militar brasileira. a todos eles insistiam na descrição da sociabilidade do cárcere. Petrópolis: Vozes. Da polifonia autoral narrativa dos momentos em que foi detido e de sua permanência na e locutória (o autor é um ou são dois? E quem são os narradores?) à prisão. Michel. Vigiar e punir: nascimento da dois romances brasileiros: Armadilha para Lamartine (1976). Ditadura. passando por recompõe os horrores da instituição total. temporal e espacial de Janeiro: Rocco. FOUCAULT. omitidas ou camufladas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BETTO. resultava daí era uma escrita orientada por certa racionalidade prisional. a profusão de livros a polifonia locutória . Porto Alegre: Arquipélago Editorial. lançado por meio da denúncia das violações aos direitos humanos lá executadas postumamente. publicado durante a própria ditadura. A literatura vista de longe. de Carlos prisão.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS interação a partir da complexidade autoral. Palavras-chave: Confinamento. 2009) oferece questões instigantes para os A escrita do confinamento em “Retrato Calado”. Nesse livro.Nos Cárceres da Ditadura Militar (2009). 2009.o autor é personagem da obra. Sussekind. decorrente da coerção e da violência 108 109 . na virada para os anos 2000. Franco. são constitutivos de escritos pelos chamados presos comuns). que se passa entre 1959 e 1965. as chaves anos da ditadura militar. pois. visto que a relação entre autor e narrador é complexa Maria Rita Sigaud Soares Palmeira (USP) . Dificilmente qualquer crítica a respeito de Armadilha políticas e mesmo por suspeita de tráfico. décadas antes. Neste trabalho foram desenvolvidos dois aspectos: um interno à estrutura narrativa. que era professor e filósofo. e o outro é a sua relação com o processo histórico. de para Lamartine (1976). mas retrata a tensa realidade brasileira de duas Pessoa Neto. embora não seja possível duvidar do seu estatuto “armadilhas” explícitas. permitem que ia além do tema prisional. Ambas de minha pesquisa sobre a “nova literatura carcerária” (como se as obras primam por características como o hibridismo de gêneros e convencionou nomear. por Frei Betto tendo como base os manuscritos de Frei Fernando. de Luiz Roberto Salinas Fortes estudos literários.que. Instigada pelos aspectos uma forma literária distinta. Diário de Fernando. além de denunciar as violências do sistema manicomial. do Brasil entre outubro de 1954 e agosto de 1955. Não se tratava. compõe o livro um diário. pesquisei quatro desses volumes – e também interpretar seus narradores. como se verá adiante. escrito Brasil. que ao leitor atento de escritor quando vêm à luz as suas memórias do cárcere. O que partir da lógica da “microfísica do poder” que é própria desses espaços. SUSSEKIND. ed. Romance companheiro seu de ordem religiosa e de cárcere durante a ditadura. será linear. Tradução de Anselmo luta contra o regime. Dono minuciosa memorialização histórica do contexto político (conturbado) de uma escrita pungente e seca. Rio de Algumas das conclusões a que cheguei sugeriam a existência de uma forma própria ao confinamento. A leitura que proponho é um desdobramento de interpretação merecem ser cuidadosamente exploradas. Carlos. Rio de Janeiro: Editorial Labor do e Diário de Fernando . numa perspectiva foulcaultiana. São tantas as “escritor prisioneiro”. nesse livro de Luiz Roberto Salinas Fortes. em 1988. agora ampliados pelos piores soluções ora dinâmicas ora mais subjetivas e até prolixas. de Carlos Sussekind. 1976. Salinas conta de suas detenções por razões pelo Estado. Salinas. que não fala da MORETTI. Frei. Tradução de Raquel Ramalhete. Além da instiga e ao analista torna imperioso sublinhar. 2013. 2008. mas não o protagonista. Armadilha para Lamartine. Resumo: A comunicação propõe uma leitura de “Retrato calado” que que é a representação de autor e narrador e também os desníveis discuta o modo como o confinamento é elaborado literariamente formativos da obra. Representadas em diferentes situações formais e materiais que apontavam para a formação de um conjunto de confinamento (a própria diferença é algo questionável). Diário de Fernando (BETTO. 41. Hospício.

que se debruça sobre os fatos e o que seu autor foi submetido. e cuja integridade e amigos de militantes. que põem em xeque o para além disso. Em curto ensaio sobre o livro de Salinas. sobretudo. a identificação de traços do que se pode discurso testemunhal que pode ser construído a partir dos fatos ou é chamar de característico a uma escrita produzida a partir do cárcere. é: que tipo de testemunho podem produzir um comentário que me chamou particularmente a atenção. Em relação à produção literária um arranjo formal a indicar a coerção da instituição prisional. dando conta dos fatos a partir do testemunho que a engendrava – pautava-se pela perspectiva de estar fora. O que da geração anterior. paradoxalmente a desconstrói. as especificidades desse interessante para contar e. mas que constrói um Salinas Fortes testemunho. e do trauma. calado” a fim de que seja possível refletir sobre certa forma coerciva justamente porque há lacunas que o documento. no caso. Não falei. A literatura feita na cadeia era relacional como o espaço que na América Latina. há particularidades na produção literária delicada. de modo que se instaure a ambiguidade. a utilização do testemunho não mais necessariamente Intento também analisar as particularidades estilísticas de “Retrato como documento. mas sim como um discurso que é simulacro do real. nas narrativas produzidas por essa denominada Resumo: Segundo Benjamin o narrador é alguém que tem algo segunda geração de autores. cujos efeitos o acompanhariam pelo resto da vida. não pode preencher. Brasil e 110 111 . Candido diz: “Aparentemente que viveram suas consequências. total invenção. ou aqueles a particularidade da construção do livro. ora aos outros reconstituem os fatos ocorridos no período dos regimes ditatoriais internos. É o ponto de vista predominante nas narrativas que também por se reportar ora ao mundo além-grades. bem como o descaso dos carcereiros e a testemunho dos fatos ocorridos/vividos no período compreendido tortura. Ao observar aqueles que estavam de certa forma a margem dos fatos. eu poderia supor que houvesse desse período histórico. Literariamente. Há no livro. sentido. a partir da análise do tratamento que lhe dão. em fim de organizar o vivido é o principal recurso a que recorrem os diferentes contextos ou sistemas. uma segunda geração de narradores seja. ausência. cujos autores são. As narrativas construíam-se narradores. Antonio Candido faz Ou seja. pelos regimes ditatoriais na América Latina. a discurso histórico. a pergunta. a López: narrativas testimoniais qual reproduz o próprio contexto do período que representa. há toda uma produção literária que prolifera a partir do final porque apresenta situações armadas de fora. e da narrativa. aqui. e que também precisam dizer? Nesse casual. de Julian construindo algo distinto. muitas vezes pela sua produzida pela experiência prisional e que atravessa o século XX. quase sempre desaparecidos ou mortos pelo elas põem a prova” (Antonio Candido. “Retrato calado” não se furta a narrar as situações bestiais a latino-americana contemporânea. especificamente. Trata-se de um discurso que. na América latina. portanto. “Salinas no cárcere”. Ainda que escrito em prosa introspectiva e experiência direta dos fatos. Ou regime militar. 227). mas dá elementos para do século passado. Portanto. construindo Palavras-chave: literatura prisional. Luiz Roberto uma realidade. a julgar pela afirmação de Candido. Claudia Lorena Vouto da Fonseca (UFPel) interessa-nos investigar.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS características a uma instituição total. percorrer os caminhos da memória. “Retrato calado”. p. reflexão. uma formalização da matéria narrada que exige maior estatuto do testemunho em sua relação com os fatos e sua narrativa. daquele que tem a do governo ditatorial. a disposição da matéria é perfeita como esquema narrativo. No entanto. a partir da invenção de fatos complementares à realidade. se há consenso no que diz de Salinas ocorreram no momento de maior endurecimento repressivo respeito à validade do testemunho. uma característica distingue essas narrativas: um move esta leitura é. As detenções é basicamente documento. de Beatriz Bracher e Uma muchacha muy bella. filhos ou familiares avaliar como é por dentro o indivíduo arrastado nelas.

Nesse ínterim. não propriamente contrária. descobre-se que Dalcídio Jurandir lê o romance Dom resgate e trabalho de memória? Para tanto. o contato com Tarde [14:30 – 16:30] obras literárias em um contexto de opressão pode ter impulsionado Sessão 3 os projetos estéticos e éticos do escritor-leitor. Dalcídio. mas inversa sobre tal ideia ao refletir sobre Palavras-chave: confinamento. objetiva- Resumo: A relação entre a experiência do confinamento e literatura se estudar. e Una muchacha muy bela. que narra a trajetória de um mesmo personagem chamado Alfredo Palavras-chave: Narrativa testimonial. ainda. além dos pressupostos teóricos de autores que se conjunto de dez livros intitulado “Ciclo do Extremo Norte (1941-1976) debruçaram ao estudo da nova novela histórica. como o consagrado romance Memórias do Cárcere. surge o projeto de criação de um estudiosos do tema. no Pará. que teve sua primeira versão em 1929. sai da Ilha do Marajó para a capital Bracher Belém. em perspectiva comparada. o romance. durante o Estado A escrita e a prisão: potências e dilemas Novo. e com a esposa na época. leitor. filtradas totalmente pela ficção e pela de Cachoeira. há sempre uma busca por algo. a partir da ótica do escritor na sua experiência enquanto um leitor no QUINTA 10 cárcere. uma possível aproximação entre é normalmente vinculada ao aspecto da criação de obras que narram os personagens Alfredo e Dom Quixote assim como analisar a possível tal vivência. Natalia Joelsas Timerman (USP) de 1930. mas foi publicado ambiguidade. já adulto. de tentava reescrever e finalizar seu primeiro romance Chove nos Campos 2013. o escritor solicitava a ela que lhe mandasse de um discurso que é um falso testemunho. mas acaba colecionando experiências e testemunhos da tragédia humana. de influência de Dom Quixote. ainda assim é representação. em textos muito curtos e comedidos para Desterros – Histórias de um hospital-prisão (Editora Elefante. de 2004. No último da utopia e da opressão romance do Ciclo. 2002). A partir de algumas correspondências trocadas Labortexto. por duas vezes. a partir burlar a censura do presídio. 2017). adotando como pressupostos a bibliografia produzida por apenas em 1941. com coordenação editorial de Bruno Zeni. partiremos de duas obras Quixote. Ditadura. volta desolado para o Viviane Dantas Moraes (UFPA) Marajó para herdar as ruínas deixadas pelo pai. Este trabalho propõe uma perspectiva um ciclo literário sobre a Amazônia. Em que medida o discurso que representa a história. Num oficial. Um dos objetivos é investigar. na década Bruno Golçalvez Zeni (USP). em Belém. da experiência de prisão vivida por Dalcídio Jurandir. extraoficial ou. Ribanceira. Embora a cada história narrada O leitor no cárcere: o escritor Dalcídio Jurandir entre os moinhos de vento sua decepção só aumente. portanto. ficcional. em que medida. Quixote os papéis exercidos pelos escritores em uma situação de exceção. Comunista e esteve. Lopéz. na concepção da ideia de criar Graciliano Ramos.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS Argentina. em busca de uma vida melhor. por exemplo. A década publicadas nos primeiros anos deste século XXI: Não falei. Nesse sentido. O escritor paraense Dalcídio Jurandir foi militante do Partido Resumo: Esta comunicação pretende se debruçar sobre duas obras. preso e incomunicável. desses registros. narrativas de testemunho. de Jullian. na gestão do governo de Magalhães Barata. social e política na Amazônia. muitos deles por códigos que só os dois compreendiam. filtrado pelo relato histórico livros. Julian López. de Beatriz de 1930 foi uma época importante na carreira literária do autor que Bracher. no presídio Sobrevivente André Du Rap (do Massacre do Carandiru) (Editora São José. de 112 113 . Alfredo. Trata-se. Beatriz que. durante o período na cadeia. de Miguel de Cervantes.

podem ser vinculada à autorização de “dizer tudo. O encontro do jornalista e do ex-presidiário. tanto no âmbito da leitura está rouco por sua condição de classe. de todas as formas”. sem experiência direta do cárcere. angolana presa por acima sob a perspectiva de alguns críticos. Walter Benjamin e relatos colhidos pela autora em seu trabalho como psiquiatra no suas reflexões sobre a experiência na sociedade capitalista avançada e Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário. em grande do livro. entremeada por diversos outros Antonio Candido e sua noção de sistema literário. funciona como um liberador de potencialidades caso de Donamingo. Literatura. Pretendemos Du Rap. Desterros Paul Zumthor e os desafios da passagem da performance oral para o se constitui do olhar de Natalia Timerman sobre seu trabalho de cinco registro da leitura. anos na prisão e sobre a história de Donamingo. As vozes de Zeni e Timerman. A primeira é composta de depoimentos. sem deixar de lado o caráter os padrões modernos. Desterros surge da vontade e da necessidade de elaboração examinar como neste contexto extremo as possibilidades e limitações da experiência da autora de trabalho no cárcere. esses espaços que operam hoje. Memórias história das pessoas presas. nos perguntamos como os escritores que se formam nas sobre o tema? O relato de André procura estabelecer com o leitor uma prisões e suas obras enfrentam mecanismos que restringem sua atuação comunicação empenhada. mas com sua própria voz. quanto no da escrita. Cristiane Checchia (UNILA) compõe o relato. A autora narra a Palavras-chave: Prisões. relatos de seus sejam indiretas.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS autoria de Natalia Timerman. gênero e passagem pela prisão. como “depósitos humanos” ou “campos de concentração o massacre do Carandiru e da disponibilidade e força narrativa de André para pobres”. é válido que sua história seja contada por outra para alguns presos. pois nelas não é incomum que o individual ceda literário e catártico da narrativa. editou e organizou o material que Mario René Rodríguez Torres(UNILA). a segunda é a história de Donamingo. filtradas pela experiência da autora como psiquiatra amigos (“aliados”) e uma reflexão sobre a própria feitura do livro por e como escritora. ainda que as vozes que saem de dentro da prisão improvisos e fragmentos de cartas de André Du Rap. mesmo interessadas. particularmente intensas. ao escrever e refletir Por outro lado. o jornalista e escritor Pratica literárias modernas e seu questionamento em prisões do Cone Sul Bruno Zeni foi quem entrevistou. consideradas vozes que expressam o cárcere? Quando o protagonista observaremos como tal autorização implícita. não vêm de dentro das grades. um marco histórico que une o autor e os leitores em produção e o consumo das obras literárias muitas vezes rompem com um contexto social que permanece trágico. abrindo caminho para a reconfiguração de voz? Quais os dilemas e desafios que se colocam aos autores de fora subjetividades esgarçadas por sucessivas e diversas formas de opressão. o registro da Resumo: Neste trabalho propomos uma reflexão sobre alguns experiência e a passagem do oral para o escrito apresentaram questões resultados de práticas de leitura e escrita literárias recentes observadas que podem ser analisadas na forma do texto e nos recursos de edição em prisões do Cone Sul. com Derrida. que. A comunicação pretende refletir sobre os temas Bruno Zeni. nas palavras de João Camillo Penna. que faz do Massacre do Carandiru um tema a determinados espaços. mostraremos como nas prisões a compartilhado. da prisão. Por um lado. Igualmente. André fala de sua própria vivência. dentre os quais se destacam tráfico que teve um filho na cadeia. procurando preservar as marcas da voz e da postura do rapper. em São Paulo. da mesma forma que as referências dos autores 114 115 . André du Rap é o de funcionamento da instituição literária moderna se fazem único dos três autores que esteve preso. Em Sobrevivente André Du Rap. Sobrevivente André Du Rap é fruto do desejo de Zeni de narrar medida. e dilemas similares. Tal instituição é pensada aqui. o relato de Timerman comporta teor espaço ao coletivo.

em contraste com “A lei do cão”. por uma leitura imanente do texto com vistas a. seus mitos. e d) a relação da Wellington Furtado Ramos (UFMS) memória com a narração. Um segundo seu bojo a discussão da problemática do valor na escrita literária do conjunto de obras é constituído por produções menos conhecidas. neste caso. alcançaram o mercado editorial pesquisa busca vincular-se ao Simpósio “A experiência do confinamento: e encontraram um ambiente propício de difusão na virada do século. sobretudo. a partir Resumo: Pretende-se. e ratificada pela observação impressa na capa e em sua neste cenário das escritas de/sobre o confinamento. neste Palavras-chave: leitura e escrita em prisões. vida e morte aqui apresentadas se baseiam na análise de um corpus que ainda está no maior presídio do país – cantada em 10 contos. no estabelecimento de a partir das experiências vivenciadas neste projeto. primeiramente. tais quais lidas busca de avaliá-lo em sua conformação ao gênero épico. busca relacionar-se com o leitor. neste trabalho. Em primeiro lugar. na medida em que traz em como os livros do escritor brasileiro Luiz Alberto Mendes. contada em sendo mapeado. na situação de privação de liberdade em Foz do Iguaçu. um terceiro conjunto é formado aprisionado. na intermédio da relação entre “experiência” e “memória”. Por fim. de Luiz Philippe Florence Borges. e no Centro de Reintegração Social Feminino uma voz épica que não representa um coletivo “nacional”. Florence Borges / aquele que narrou porque viu e viu porque viveu”. tendo como premissa Epos do cárcere: sobre A lei do cão. à moda clássica – emula. primeiro contato com a obra. o trabalho buscará (CRESF) no estado do Paraná. posta em cena na obra que tomamos por objeto a partir da como os trabalhos das mulheres do projeto artístico cultural Yo no fui. o épico. por com o livro “A lei do cão” (1984). As reflexões Paulo. c) o estudo São Paulo. b) seu plano de conteúdo. folha de rosto. na Argentina. digo. Experiência 116 117 . no âmbito do projeto de extensão traçar analogias entre os modelos clássicos da epopeia . literatura e outras produções culturais (2)”. Como se percebe. .sua história. mas cujo contorno começa a ser desenhado em nossa 10 cantos pelo renomado poeta e cirurgião jurídico / Luiz Philippe pesquisa. Luiz Alberto Mendes. enunciada por Walter Benjamin. escolha de um gênero fixado na história literária ocidental. Dentre nossas preocupações. em que se lê: “A epopeia da casa de detenção de São Palavras-chave: Confinamento.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS costumam remeter a tradições orais antes que escritas. prisões de Foz do Iguaçu negação dos aspectos formais do gênero épico. Vale dizer que é busca de suas semelhanças e. Nessa medida. neste contexto específico. que acontece em uma unidade prisional feminina nos arredores de Se. que emergiram que. de Luiz Philippe Florence Borges do posicionamento do narrador como testemunha. Epopeia. com vistas a perscrutar sua posição/localização desde a capa. mas põe em cena um “epos do cárcere”. no texto. principalmente no que tange à atualização da voz narrativa permanentemente à nossa própria trajetória leitora. pela que desenvolvemos nos últimos dois anos na Penitenciária Estadual de figura do Poeta. direcionar-se para um campo mais amplo de relação contextual. A produzidos inicialmente no cárcere. Virgílio e Camões . objetiva-se verificar por textos que têm sido elaborados nas oficinas de leitura e escrita como a construção da voz narrativa – se encarnada. mas do diretor da casa de detenção. Foz do Iguaçú II (PEFII). suas alegrias e tristezas. a posição do autor é privilegiada. por tratar-se não do Buenos Aires. cárcere. nos debruçamos sobre alguns textos que. que se interpelam diferenças. mediada alguns dos questionamentos que nos propusemos a investigar pela legitimidade conferida pela experiência do “autor” que “narrou teoricamente neste trabalho. conforme supracitado. porque viu e viu porque viveu”. estabelecer um primeiro contato daí. incluem-se: a) sua adequação aos/ou Associação civil e cultural Yo no fui. a pesquisa é norteada. a epopeia da casa de detenão de a noção clássica de “modelo”.tal qual lidos universitária Direito à Poesia – círculos de leitura com pessoas em em Homero.

assegurar um maior controle dos corpos. sobretudo. consumado na internação em sanatórios. pois. na narração em primeira pessoa. vez que o primeiro conto é apresentado por meio de uma narração em jornalista. Já em seu cada indivíduo e. época da acirrada repressão que se terceira pessoa e o segundo. 118 119 . o que se certa altura. de cavalos que o perseguiam. contudo. romancista. Resumo: A obra de Caio Fernando Abreu frequentemente apresenta a riqueza e a saúde da população em geral. ora por causa das alterações Contos de Kolimá comportamentais devido ao seu estado psíquico. observa. em primeira pessoa. se por um lado. pouco Este processo. foi mandado para a Colônia de Dois Rios. Michel Foucault (Microfísica do poder. um advogado apresenta sinais de insanidade diante ambivalente. apresenta um movimento Napoleão”. Todos a quem ele revela essa informação Tarde [14:00 – 16:00] o excluem de seu convívio. muitas vezes. em 27 de outubro Uma diferença significativa. Nele. Caio Fernando Abreu deste tema é “O ovo”. no horizonte. A princípio. do sofrimento físico. depois da promulgação do Ato Institucional número 5. 1982) identifica a formação de uma “polícia médica”. No mesmo livro. um conflito entre sujeito e repressão do Estado. característico dos era possível transferir a responsabilidade sobre a própria saúde para anos do regime militar implantado a partir do golpe de 1964. reforça um mecanismo mais abrangente de controle narrativas. Foi contista. que parece se aproximar cada vez mais. por vezes. Esta diferença de seguiu à Intentona Comunista de 35. contudo. em Ilha Grande. à medida que os cavalos passam a manifestar agressividade e uma estrutura opressora e autoritária. em conjunto com a criação das casas de internação. uma de 1892 e morreu no Rio de Janeiro em 1953. publicado em 1969. que suspendia que passam a segregar os doentes mentais do convívio com as pessoas direitos políticos fundamentais. outro conto paradigmático Palavras-chave: Loucura. Em ambos os contos os protagonistas Notas sobre a narrativa de testemunho em Memóras do cárcere e sofrem um duplo processo de alienação. de uma visão recorrente. Resumo: Graciliano Ramos nasceu em Alagoas. junto com outros presos políticos mas. que Milena Mulatti Magri (UNESP) consistia em um conjunto de mecanismos capazes de garantir a ordem. por vezes. Narrado em primeira pessoa. cronista. possibilidade de ruptura com a ordem responsável pela manutenção de contudo.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS Loucura e repressão nos primeiros contos de Caio Fernando Abreu Edições Graal. nos contos de Abreu. desprezo pelo protagonista. Por meio dessa “polícia” críticas ao contexto de repressão política e cultural. Caio Fernando Abreu elabora diferentes consideradas sãs. foi preso sob o governo Vargas. Repressão. por outro. ora por meio do Andrea Zeppini Menezes da Silva (USP) processo de exclusão social. a loucura é ainda uma o protagonista se afeiçoa pelos animais. que atinge não só o interno. por meio do tema da loucura. “Os cavalos brancos de por meio do tema da loucura. mas o conjunto da sociedade. de caráter fantástico. Em 1936. se dá pela forma narrativa. Este conflito é no qual cada um passa a vigiar a si mesmo e ao outro. ela é a imagem da exclusão e. livro de estreia. Inventário do Irremediável. sua perturbação se acentua. como meio de apresentar e exclusão. Em seu ensaio “A onde ficou durante 18 dias e onde teve a experiência mais difícil da política da saúde do século XVIII”. desse modo. a de introjeção da exclusão e da alienação interna ao sujeito. como se observa do conflito entre sujeito e repressão do Estado. logo no conto de abertura deste mesmo livro. o personagem SEXTA 11 confidencia que enxerga uma parede branca. até o momento em que ele é internado Sessão 4 em uma clínica psiquiátrica. foco narrativo se revela imprescindível para compreender o processo Passou por algumas prisões. A representação desenvolvido.

como objetivo analisar a produção de as questões que serão discutidas no presente trabalho. A partir de 1954. os dois autores situações políticas e ideológicas atuais que vivemos no Brasil e no fazem emergir em suas palavras a humanidade mais pungente. à parte. testemunho gráficos em relação às histórias em quadrinhos convencionais. seus pontos em comum e de atrito. obra.inspiradas do mundo em seu estatuto de exceção: um mundo que funciona como em relatos de sobreviventes da guerra que permaneceram no país repressão. a permanecerem em campos e dos homens. dura e mundo. a surgir . Onde o homem guerra. O fim da ditadura em 1975. os dois autores compartilham. então. e Vencedor y vencido. dedica os próximos vinte anos um espaço para os silenciados nem a retratação pelo mal que havia a colocar no papel essa experiência: Contos de Kolimá é sua principal. Investigação e descoberta. a vida que não é mais vida. Onde o poder infinito sobre mais de quarenta obras foram lançadas retomando o contexto da alguém se encaixa à destituição total de humanidade. Em meio às conturbadas vive os seus avessos.a exemplo da premiada e pioneira Maus. Ainda que tenham tido experiências muito diferentes. lugares onde a vida nua é controlada e incluída em não tiveram voz para relatar suas experiências traumáticas. Graciliano e e que. As obras que passaram a narrar acontecimentos da guerra magistral. viveram o auge de uma democracia durante a Segunda República no extremo oriental da Sibéria. Graciliano Ramos e Chalámov experimentaram na pele. nasceu em Vólogda. no romance gráfico Varlam Chalámov. não proporcionou Kolimá apenas em 1953. Mas. e as atrocidades cometidas eram realizadas por exilados espanhóis e na alma. pois. sendo mandado para Kolimá. Chalámov conhece o pior dos guerra que os obrigou. ambientada na Segunda Guerra Mundial . escritor russo. 2007. no contexto das romances gráficos espanhóis sobre a guerra civil por meio das obras El narrativas da memória empreendidas pelos dois autores. A experiência de quase um ano de encarceramento está em Fragmentos: a reconstrução da memória sobre a Guerra civil espanhola Memórias do Cárcere. depósito. por quase quarenta anos. do norte-americano A vida que pertence àquele mundo próprio. o que é do homem. mas que faz parte Art Spiegelman. as vivências difícil. de Paco Roca. para lembrar de Agamben: a vida matável e insacrificável. e os que permaneceram na Espanha a prisão e o campo. setenta anos depois. de Sento. registrar as lutas do passado.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS prisão. expondo a perspectiva dos vencidos. a partir desses lugares. castigo. as temperaturas Espanhola e a violência sistemática do Estado franquista do pós- chegam a sessenta graus negativos. formas de repressão geradas em regimes totalitários. ressaltando arte de volar. publicado postumamente. Varlam Chalámov. Viveram em países como França e México. Los surcos del Azar. Segundo Todorov. não só a crueza e a com regimes totalitários e manter o diálogo como pilar principal para intensidade de suas prosas. como também algumas questões essenciais a democracia. sem freios e sem regras. dá a relação entre ética e estética nessa prosa testemunhal? São essas Este trabalho tem. Nos últimos anos. Na prisão e no campo. quase morre por mais de uma vez e sai de silêncio. e sido feito. livro inacabado. Em 1929 Daisy Mota da Silveira (UNIFESP) foi preso por questões políticas. é preso novamente Resumo: Os sobreviventes da Guerra Civil Espanhola (1936-1939) em 1937. Libertado em 1932. no entanto. o conhecimento da verdade histórica para lidar com a tarefa de expressar a morte: como transformar o horror permite extrair lições valiosas para que conflitos violentos não voltem em literatura? Por que narrar? Até onde narrar? Como narrar? Como se a ocorrer e é a arma mais poderosa para se combater o totalitarismo. um dos piores campos do Gulag. após a promulgação da ley de memoria. A partir de sua exclusão. em 1907. as características desses romances Palavras-chave: Graciliano Ramos. a 120 121 . várias obras começaram a vida indeterminada entre a vida e a morte. já no Círculo Ártico. tiveram chance de falar sobre as feridas Chalámov se depararam com lugares onde o homem pode exercer tudo que foram sufocadas pelo Estado e pela sociedade. ameaça. de Antonio Altarriba. é fundamental.

armada ou não. além de textos críticos. Através de uma série de Anderson Bastos Martins (UFSJ) entrevistas com diferentes mulheres.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS importância de dar voz aos sobreviventes de conflitos violentos e a e também de um conjunto de monólogos ficcionais que se intercala necessidade de apresentá-los às novas gerações para que. O segundo filme. assumindo um separam esses dois filmes. o ensaio e o filme de arte Mulheres e seus testemunhos: o cinema documental de Lúcia Murat e – destacam-se duas figuras femininas. tortura. as imagens de frente e de lado (mugshots) – tiradas dessa experiência traumática ao longo de 40 anos de silenciamento. questões tipicamente femininas emergem e dão duas produções da recente filmografia luso-brasileira. feminino. ambos se propõem a revisitar o tema das ditaduras que assolaram Para analisar como isso se dá. da refletem teórica e esteticamente sobre a singularidade do lugar da diretora portuguesa Susana de Sousa Dias. mais do às falas das depoentes. As películas o tom da obra. Giorgio documentário que se assenta sobre o depoimento de antigos militantes Agamben (Homo sacer e O que resta de Auchwitz) e Daniele Giglioli presos e torturados pelos regimes autoritários luso-brasileiros. é ler ambos os trabalhos como tentativas de captar – procurando entender como a fala ou o silenciamento de mulheres e representar esteticamente a especificidade da dor e do sofrimento pode ser recuperado e tornado visível. Para além dos vinte anos que mulher enquanto vítima de tortura e aprisionamento. Nesse universo insituável – entre o documentário. homens e mulheres de origens e épocas diferentes. durante o Guantánamo. a obra pessoas. da brasileira Lúcia Murat. romance gráfico. das vítimas no momento da sua prisão – são filmadas em câmera Palavras-chave: memória. cotejaremos os dois trabalhos com os ambos os países. e 48 (2009). do arquivos policiais mantidos pelo Estado português até os dias de a vida nas prisões durante e após o fim da guerra e as consequências hoje. um prisioneiro de Guantánamo. a tortura e depois a liberdade Ould Slahi. No filme. e fazem isso a partir de uma mistura de ficção e trabalhos teóricos de Gayatri Spivak (Pode o subalterno falar?). um livro escrito a partir do manuscrito de Mohamedou período da ditadura brasileira. A prisão. cinema submetidas tantas militantes. tem. eles trazem muitos elementos em comuns: lugar de enunciação feminino e um espaço de identidade específico. que foi editado por Larry e a tentativa de reintegração à vida comum são os temas dos relatos Siems e teve diversos trechos meticulosamente analisados e censurados 122 123 . entretanto. filosóficos e historiográficos intenção. Em suas falas. representação lenta e acompanhadas ao fundo pela fala dos retratados. uma que conhecer as vozes do passado. no contexto de tortura e do aprisionamento ao qual foram Palavras-chave: mulheres. Nossa (Crítica dela vittima). prisão. 48. Segundo a própria Susana de Susana de Sousa Dias Sousa Dias. Lúcia Murat procura recompor as especificidades da trajetória de mulheres de diferentes idades e meios Resumo: Esta comunicação discute o lançamento de O diário de sociais que se envolveram na militância. Baseando-se no relato de 16 ex-militantes humana dos atos de guerra que marcaram a vida de milhares de anti-Salazar. As obras escolhidas apresentam diferentes perspectivas sobre contrapõe a fala dos depoentes às suas fotos de registro recuperadas os anos em que a Espanha esteve dividida por diferentes ideologias. O primeiro dos filmes assumidamente adota a perspectiva feminina como ponto de partida para refletir sobre A escrita do terror: a história de uma estranha coautoria em Guantánamo os horrores da ditadura civil-miltar do Brasil. Trabalhamos com a hipótese de que ambas as obras Que bom te ver viva (1989). trauma. a princípio. foi a partir da recolha inicial das suas imagens e do contato Lisa Carvalho Vasconcellos (UFBA) com os seus depoimentos em particular que o projeto do filme tomou Resumo: O presente trabalho procura analisar comparativamente forma. possam compreender a dimensão proposta mais abrangente.

e nele se enquadra igualmente o discurso sobre a história da literatura. pode ser considerada uma ciência porque trata daquilo no qual ocorre Palavras-chave: Guantánamo. com as diversas ondas de contestação globalização. terrorismo da história a partir da metade do século XX. O livro DE LITERATURA é também uma narrativa dos maus-tratos recebidos pelo autor a Roberto Acízelo Quelha de Souza (UERJ) despeito da flagrante ausência de provas que o incriminassem. e a desconfiança pós-estruturalista com as metanarrativas ou narrativas totalizantes. ainda seria 124 125 . o avanço dos estudos culturais. Diante de tais perspectivas. os problemas publicação. afirma que a história da literatura se tornaram lugares-comuns na teoria literária contemporânea. o estruturalismo. passa a ser motivo de desconfiança. marxistas. pós-coloniais. Nesse ambiente. como os estudiosos da estética da recepção. o discurso histórico. escrita e verdade. meu objetivo é discutir o conceito de coautoria levando em conta a escrita de Mohamedou Ould Slahi. para além de Kafka”. como o formalismo russo. Nesta Constantino Luz de Medeiros (UFMG) comunicação. poucos ousam empenhar-se na defesa da dimensão histórica da literatura. no âmbito da busca pela autonomia das vanguardas modernistas. literatura e um progresso infinito. tornam o terreno da história da literatura um campo minado de radicalismos e distorções. a partir de 1960. Descrito por John Le Carré como “uma visão do inferno.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC pelas autoridades estadunidenses. as correntes críticas de filiação aos estudos intrínsecos. em seus Cursos construção na contemporaneidade bem como a diversas premissas que sobre Literatura Bela e Arte (1801-1804). O A HISTÓRIA DA LITERATURA COMO 05 diário de Guantánamo apresenta a narrativa pessoal de Mohamedou PROBLEMA: REFLEXÕES SOBRE A CRISE Ould Slahi dos eventos que levaram a seu encarceramento na prisão PERMANENTE NOS ESTUDOS DIACRÔNICOS norte-americana situada na ilha cubana de Guantánamo. O panorama atual passa pelo surgimento do materialismo cultural nos anos de 1980. para além de Orwell. August Wilhelm Schlegel. Em última instância. teoria e crítica literárias já eram Guantánamo como um desafio à proposta de uma cultura global em visíveis a muitos estudiosos. No entanto. Após isso. no bojo do cosmopolitismo e da conscientização histórica a editora Canongate Books na preparação da versão liberada para que insuflava os espíritos nas primeiras décadas de 1800. o objetivo é apresentar O diário de relacionados à aproximação entre história. as muitas interferências e censuras impostas ao texto pelas autoridades dos Estados Unidos Resumo: Desde o surgimento do conceito moderno de história da e o trabalho editorial realizado pelo jornal britânico The Guardian e literatura. feministas. O primeiro ataque ocorrido ainda nas primeiras décadas de 1900 se dava por motivos estéticos. nos quais uma das grandes questões que se coloca é a da representação das vozes oprimidas pelo discurso histórico hegemônico.

uma visão homogeneizadora uma vez. Palavras-chave: História da literatura. na conceitualização de Foucault. apresentado pelo Em outras palavras. retroativamente. múltiplas tradicional pela destruição artificial da simultaneidade do heterogêneo camadas espaciais e durações pluritemporais. então como at different moments of their own time”. De acordo com e os pressupostos epistemológicos e teóricos que hoje sustentam este modelo. como áreas overshadow the uniform flow of time. Estudos diacrônicos. ao Grupo de Trabalho pretende levantar estas e outras questões concernentes contrário. a partir do teorema da dissincronia do sincronico uma dar relevo aos processos de realimentação entre hipóteses teóricas identificação da história como processo cronológico de temporalidade acerca dos pressupostos da escrita de histórias atuais e as formas de 126 127 . Deste modo. a contribuição proposta pretende interseção e cruzamento de múltiplas curvas temporais copresentes. atualizar a ideia de H. R.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS possível falar em crise da história da literatura. aos estudos diacrônicos de literatura. formassem processos complexidades. a historicidade emerge precisamente em espaços de a sua configuração escritural. história. antes. a delicada questão do ponto de equilíbrio entre projetos à história como se os eventos de todas as esferas da vida. emergentes teóricos redutores de complexidade e modelos que. sincronia. visível Sessão 1 na apresentação da história como linearidade sequencial progressiva de todos os fenômenos sucessivos em suas regularidades e ritmos Sem prólogo nem epílogo: notas sobre experimentos de historiografia uniformes. a ficção cronológica do momento histórico que homogeneíza as diferenças em conceitos de época e instaura rupturas TERÇA 08 marcadas por prológos e epílogos. Focalizando. Em Time and History Kracauer teóricos e práticas experimentais. os múltiplos compreender e delinear o que foram os discursos literários do passado? eventos de determinado momento histórico. Trata-se de uma ficção que Manhã [09:00 – 11:00] sustentava conceitos de temporalidade nos estudos literários. impossíveis de Resumo: A partir do olhar sobre práticas historiográficas pontuais serem enclausurados numa periodização única. será colocada. mais por sua mania de impor. nos seguintes termos: “The shaped times of the divers não fazem mais sentido? Se a história deve ser lida a contrapelo. faz ainda sentido estudar a história da literatura? Esse historiador como expressão de um conteúdo uniforme seria. novos repertórios unitários marcados pela similaridade. Neste horizonte. A crise nos estudos de historiografia literária por assim dizer. A sua proposta esclarece com mais precisão fenômenos de literária equilíbrio instável e fronteiras porosas e interpenetráveis. as reflexões ensaiadas pretendem projeta. A sua crítica à estrutura diacrônica única encontra respalde que anima a construção de modelos teóricos para a escrita de em argumentos de S. Any historical period compreendia Walter Benjamin. presentes Heidrun Krieger Olinto(PUC-Rio) em experimentos historiográficos do nosso tempo. ou os estudos diacrônicos específica. ou ainda como constructo social e cultural must therefore be imagined as a mixture of events which emerge de um discurso hegemônico. de modo exemplar. expressão de momentos de curvas temporais distintas. Kracauer que responsabilizava o historiador histórias de literatura com acento sobre linguagens plurais. Jauss de que a historicidade da literatura acentuando-se a convivência de temporalidades distintas no mesmo emerge precisamente nos pontos de intersecção da diacronia e da momento cronológico e no mesmo espaço histórico. condicionadas por histórias específicas e não por uma história una. Literatura e A ideia da coexistência simultânea do não-simultâneo invalida. catalisam em momentos cronológicos simultâneos.

o crítico e o leitor. breve nota sobre a atualidade dessa concebiam a aproximação entre a obra. pertinente ao campo literário abandona a mera catalogação de obras e a disposição de da teoria literária. analisando. bem como da ideia de “contemporaneidade”. que adere a este e. a historiadores e teóricos da literatura que. Multitemporalidade “estranhas” e “extemporâneas” relações. como atestam as histórias da o “estranhamento”. Roberto Acízelo Quelha de Souza(UERJ) literatura brasileira Resumo: Mais ou menos de 2000 a 2017 se estendeu o projeto que teve por meta inventariar e editar os textos fundadores da historiografia O primeiro romantismo alemão e o historiador de literatura como leitor da literatura brasileira.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS sua concretização. recorro ainda aos ensaios de Agamben sobre a noção do “ser de seu tempo está sua formação filológica. Entre os motivos que explicam a diferença seus respectivos ofícios. partindo da noção de “estranhamento”. ocorre o texto que apresento retoma o problema das conexões entre literatura uma reconfiguração dos discursos sobre a literatura. ao mesmo tempo. como “uma singular relação com próprio tempo. de modo que “ler é satisfazer o impulso filológico”. que talvez. Reflexões sobre um ciclo de pesquisas: entre o conceito e a história Palavras-chave: historiografia. são tão próximos quanto distantes em histórico-literária moderna. cujos resultados foram Constantino Luz de Medeiros(UFMG) dados a público de 2002 a 2017. surgimento de uma historiografia literária que se diferencia por seu Palavras-chave: teoria. como acontecia até então. empreende-se reflexão sobre o lugar desse gênero de trabalho no atual momento dos estudos literários.teoria da literatura. o autor. preservam sua potência de eterna novidade. criticando literário com outras artes. concreto caráter crítico. não sendo apenas a descrição e o mero catálogo de obras e autores. dele toma distâncias”. August Wilhelm Schlegel e de Friedrich nós estamos expostos: o de banalizar a realidade”. com o movimento primeiro-romântico. “como antídoto eficaz contra um risco a que todos literatura de Friedrich Schlegel. historiografia. Teoria da Literatura. embora da literatura no Zeitgeist primeiro-romântico é parte da episteme “irmanados num fim cognitivo”. abstrato. história da literatura. No relação” Em tempos de novas propostas de expansão do campo literário. Esse fenômeno de reconfiguração do discurso da história nessa passagem. e passa centro das discussões atuais sobre as novas possibilidades de relação do a atuar como um leitor em segunda potência. seja sublinhando a sua mútua dependência. Apenas quando se leva 128 129 . É nesse Palavras-chave: História da Literatura. O historiador e história. Joana Luíza Muylaert de Araújo(UFU) Friedrich Schlegel indica o modo singular como os românticos de Iena Resumo: “Literatura e história. Ao afirmar que “o verdadeiro leitor tem de ser o Literatura e história: breve nota sobre a atualidade dessa relação autor amplificado”. Carlo Ginzburg sugere e confrontando autores e obras. Resumo: A compreensão dos fenômenos de literatura em sua dimensão propondo-se seu potencial para pôr em relevo a tensão entre conceito estética e em seu contexto histórico foi uma das contribuições mais e história. no dados biográficos sobre autores. Bouterwek. dando ênfase a modos de contágio. alvorecer do século XIX. Diacronia e sentido que espero poder construir algumas hipóteses em defesa dessas Sincronia. vista como incontornável para a compreensão adequada dos importantes dos estudiosos do primeiro romantismo alemão para o problemas da área. Em conhecido ensaio. Concluído o longo ciclo. Pressupondo a pertinência e atualidade desse entre a historiografia literária dos irmãos Schlegel e a maioria das obras debate. Refere-se o autor. por isso mesmo. seja contemporâneo”.

mantiveram o das variantes. p. Ao longo de sua carreira. Belli. ou de obras de Dante. mas simplesmente os consideraram instrumentos úteis para de France. em ‘57 descobriu a fonte principal Palavras-chave: Cesare Segre. o autor e o leitor. Nosso foi Cervantes. à não exaltaram os novos métodos como descobertas revolucionárias e análise crítica de textos como a Chanson de Roland ou os lais de Marie exclusivas. sobre ele reflete”. do escritor que se faz novamente produtor. Umberto Eco e outros. Hans Robert Jauss afirmaria que “a história intensidade pelo debate crítico daqueles anos. utilizando Friedrich August Wolff (1759-1824) e Christian Gottlob Heyne (1729. García objetivo foi reconstruir parte da reflexão de Segre sobre o método e a Márquez e muitos outros. Gadda. partindo da delicada relação entre a visão objetiva do texto. de modo que novos da literatura é um processo de recepção e produção estética que se conceitos foram sendo incorporados em seu aparato metodológico. que na Itália. com Maria Corti. desses estudiosos na fundamentação científica da historiografia literária. a partir de suas concepções teóricas sobre a narratologia. o filólogo Santorre 1812) é que se pode compreender a verdadeira dimensão do papel Debenedetti. Boccaccio. Segundo a definição de Gian Luigi Beccaria Friedrich Schlegel. os representantes da corrente ao longo de mais de 60 anos de trajetória. do formalismo. Em 1971 publicou a edição crítica da Chanson de Roland. em sua concretude filológica. obra e leitor. Petrarca. Anos mais tarde. Crítica literária. Históra da literatura. levando em consideração sua relação com a edições críticas. em sua obra crítica. os “críticos italianos autores italianos. Segre afirma Resumo: O filólogo românico Cesare Segre (1928-2015) produziu. Calvino. (Opere minori) de Ariosto em 1954. sobretudo no que diz respeito a definição do que é o texto literário e a Palavras-chave: História da literatura. e do crítico que (assimilada através de seu orientador. Esta comunicação analisa e discute o papel dos irmãos O filólogo. Primeiro Romantismo Alemão. sua relação com a cultura. teve o mérito de Friedrich e August Wilhelm Schlegel no processo de reconfiguração ter sido um dos primeiros na Itália a divulgar conceitos derivados da da historiografia literária. da culturologia da escola de Tartu (assimilada sobretudo atividade do crítico e historiador de literatura na aproximação recíproca através de Lotman).XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS em consideração a sólida formação obtida nas escolas filológicas de a edição de 1532 com as variantes de 1516 e de 1521. à vertente plurilinguística na literatura italiana. Shakespeare. de uma das mais enigmáticas entre as obras italianas antigas. Em 1960 publicou o Orlando furioso de Ariosto segundo 130 131 . entre as quais devemos lembrar as “obras menores” história e a cultura. entre autor. soube equilibrar o ato crítico Raphael Salomão Khéde(UERJ) e a teoria. à intertextualidade. preparou várias função da crítica literária. ao descrever a aproximação entre o historiador de A partir do final dos anos ‘60 começou a se interessar com mais literatura. No ensaio Una crisi anomala (1993. 4). do estruturalismo e da semiótica. Corneille. à sintaxe do período nos primeiros relacionamento com a história”. aprofundar a descrição e a compreensão do texto literário”. partes de materiais preparados pelo seu tio-avô. XII). 2014. o Ritmo Literatura Italiana Cassinese. Kafka. “com poucas exceções. uma extensa obra crítica estruturalista-semiológica levaram em consideração os resultados dedicada a inúmeras questões literárias: da crítica textual à crítica alcançados pela cultura precedente e. p. Segundo ele. o linguista Benvenuto Terracini). Alfieri. sobretudo. Segre. e Algumas reflexões de Cesare Segre sobre a crítica literária o trabalho de interpretação e de teoria. Leitor (SEGRE. realiza na atualização dos textos literários por parte do leitor que os que já tinha como base a filologia românica e a estilística de Spitzer recebe. contando com elogios inclusive por parte de Maurice Delbouille.

com a complexificação da “divisão territorial Ainda sobre o regionalismo: notas para repensar o problema do trabalho”. de manifestação isolada. com a queda do edifício imperial e com a instauração do federalismo. o conceito ingressou em nosso circuito crítico O tema da língua no romantismo e no modernismo brasileiros e histórico. como. Talvez não seja incorreto dizer que literatura que viria a ser denominada de regionalista. Ao contrário do que comumente se estabeleceu literatura e se passou a entender. a noção/conceito de esboçaremos um exame da historicidade do conceito.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS QUARTA 09 somente se faz possível. à tentativa de formular uma linguagem inovadora. É possível estabelecer uma relação entre esse nacionais. que passa a delimitar com mais precisão do ponto de vista Fernando Cerisara Gil (UFPR) histórico. uma vez que a discussão e sobretudo. no âmbito de sua produção intelectual. a rural e a urbana. como também. veremos que a noção de regionalismo se entre Alencar e o escritor português Pinheiro Chagas. esteve relacionado locais e particularistas. por exemplo. acabaram resultando em enfrentamentos. como o que se estabeleceu inclusive o literário. A perspectiva brasileiros. do ponto de vista letrado. Com isso. econômico e cultural as diversas formações espaciais. posicionamentos divergentes sobre esse assunto e de legitimação de valores que fosse unificador. culturais e autor de Iracema teve uma atuação relevante no que toca essa questão histórico-sociais que não estavam dadas no século XIX. por outro. E esforço e a predisposição predominante em sua época de se forjar uma no risco desse mesmo esforço se situavam não somente o fantasma da tradição para o país que o caracterizasse pela coesão nacional. A nossa intervenção. história da brasileiras do século XIX. tratava. no Sessão 2 período republicano. Daí a circulou e suscitou embates entre políticos e intelectuais brasileiros. Delimitação essa necessária à constituição e à qual ao longo do século XIX. unificadores e integradores do Império brasileiro ao longo língua portuguesa na escrita literária. nesse sentido. crítica. ao mesmo tempo. Não se fragmentação histórica e nacional da América hispânica. somente no Márcia Regina Jaschke Machado (UFMG) século XX. buscou aproximar em muitos aspectos a linguagem 132 133 . A sua emergência e. O constitui e se imanta com uma série de condições literárias. Na base desse esforço. aproximando escrita estava a urgência da construção do estado e da identidade cultural literária e falar brasileiro. como modo de conceber a literatura brasileira. literatura regionalista. partiremos da análise do envolvimento de José de que pretendemos demonstrar e sustentar é a de que a visão e o esforço Alencar e de Mário de Andrade na questão do “abrasileiramento” da centralizadores. regionalismo/regional se encontra ausente na crítica e na história literária Palavras-chave: regionalismo. busca investigar as razões e implicações da “ausência” (como conceito) e da “presença” (como Resumo: Esta comunicação tem como objetivo apresentar alguns produção literária) e. com a ascensão política das províncias e com Manhã [09:00 – 11:00] certa vitória também política e social de frações da oligarquia brasileira. aspectos articulados mas distintos de um mesmo processo. No necessidade da formação hegemônica de um sistema de (auto)compreensão âmbito da literatura. Para isso. centralizador e integrador. apesar de haver a produção ficcional de uma operação do conceito de regionalismo. a tensão e o potencial sempre presente de fragmentação sobre a diferenciação entre língua portuguesa de Portugal e do Brasil e de desmembramento das nossas províncias do tecido nacional. por um lado. Um dos grandes esforços de José do século não permitiram a formação de ideologias e sistemas culturais de Alencar. portanto. indiciar as condições históricas aspectos de possíveis relações entre o Romantismo e o Modernismo e literárias de sua entrada no horizonte crítico brasileiro. nesse sentido. por Resumo: A comunicação tem como objetivo debater a hipótese segundo a exemplo.

conforme pode ser da obra de Veríssimo. Romantismo Palavras-chave: José Veríssimo. Brasileira (3ª fase 1895-1899) 4º ano. revistas. Comércio. manifestou publicamente se com a aproximação de uma Conferência no Conservatório Dramático seus posicionamentos críticos. “O teatro e a finalidade é propor um debate sobre as possíveis relações entre esses sociedade francesa contemporânea”. conforme o que já estava fazendo Mário jesuíta”. em sua teoria e método. 1898. teatro brasileiro. (1º ano. chegando a sofrer acusações ao compor o capítulo XVII de sua História da literatura. este em resposta à polêmica com publicada por José Veríssimo na Revista da Academia Brasileira de Letras Pinheiro Chagas. Nota-se. parte 1. como no prefácio de Sonhos d’ouro ou de São Paulo no dia 12 de setembro de 1910 que. quando se debruçou sobre a mesma da conferência quanto do artigo. 1ª série (1901). Esse setembro de 1900. já no século XX. Deixou o projeto inacabado de uma Gramatiquinha da língua aproveita-se integralmente deste ensaio para compor o capítulo XVII de brasileira. Assim sendo. tanto assumiria posição análoga. Rio de Janeiro: Garnier. posteriormente é no posfácio à 2ª edição de Iracema. Publicado originalmente no Jornal do Comércio. “O teatro no Rio de Janeiro”. Mário de Andrade. literatura que é delineada. Décadas depois. Recolhido em livro segundo seus relatos. é possível verificar seu desejo de ver uma grande “Martins Pena e o teatro brasileiro”. portanto. historiografia literária José Veríssimo e as dimensões do teatro brasileiro Maria do Carmo de “A Normalista” e outras mulheres submissas de Márcio Roberto Pereira (UNESP/Assis) romances brasileiros do século XIX em estudo comparado Maurício Viana de Sá (UFAM) Resumo: Antes de tornar-se o capítulo XVII da História da literatura brasileira (1916). ao qual dedicou seus estudos sua História da literatura brasileira. de 10 de fevereiro de 1908 Palavras-chave: História da Literatura. 27-33). num estudo diacrônico. de “O teatro brasileiro”. Publicado originalmente no Jornal do dois momentos da história da literatura brasileira. São eles: correspondência. e sua literatura? e outros escritos. Muitos de seus interlocutores. Tal análise inicia- de falta de rigor gramatical. sob o título de “O teatro brasileiro”. de 10 de de Andrade em cartas. José Veríssimo Resumo: Este artigo é parte de minha dissertação de mestrado e se abordou esse tema em diversas publicações. no decorrer da A partir de 1930 a produção desse material tornou-se escassa. uma abordagem histórica. Recorrendo à com o objetivo de mostrar o amadurecimento das perspectivas do crítico Literatura Comparada. parte 2. como ele mesmo a denominara. outros artigos serão importantes para base na análise das anotações deixadas por ele sobre esse assunto Veríssimo compreender o teatro nacional e. analisamos algumas 134 135 . Sob título original. tomo XV. contudo. as incoerências e os inúmeros problemas da Comércio. Não desejava. número 2. de 03 de setembro de 1900. “José de Alencar e brasileiro. “José de Alencar e o seu drama “O concretização desse projeto. textos de crítica ou mesmo textos literários. esse trabalho propõe a investigar a mulher na sociedade brasileira do século XIX refaz o percurso das ideias do crítico paraense sobre o teatro nacional como esposa subserviente. criar uma nova língua. Publicado originalmente na Revista parcela de intelectuais envolvida nessa empreitada. Com carreira do crítico. Modernismo. em jornais. Publicado originalmente no Jornal do salientar a complexidade. Publicado na obra Que é estudo comparativo sugere. portanto. mas sistematizar o falar nos Estudos de literatura brasileira. o caráter orgânico ao longo da segunda metade da década de 1920. Além disso.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS de seus textos literários do falar brasileiro. cujo resultado é a construção de uma história da observado pela documentação deixada pelo autor de Macunaíma. 1907. José Veríssimo questão. também. servirão como um e dos debates com muitos de seus interlocutores presentes em sua exercício para uma abordagem plural sobre o teatro nacional. p. Assim sendo. não deixavam de o seu drama “O jesuíta”. palestras. outubro de 1910.

Carla Bassanezi Pinsky e Joana Maria Pedro (2012) e alternativas mais condizentes para a área. proponho Michel Foucault (2015). provenho reflexões conceituais B. d’ O Cortiço. 2006. através de um questionamento de certas atitudes e metodológicas que justifiquem procedimentos interpretativos da crítica literária. uma ênfase específica sobre aspectos afetivos resultantes do nosso Palavras-chave: Literatura Comparada. Para atingir Isabela Melim Borges (UFSC) esse objetivo. Manhã [09:00 – 11:00] de Adolfo Caminha. tanto a atual quanto a vigente na virada do século XIX atualizados pela percepção de que há uma interação codependente para o XX. Lopes (1859-1916). João da mata. Tânia Franco Carvalhal problemáticas enfrentadas pelo campo da história da literatura em (2006). do romance A Normalista. desde os mais atuais até os corpo e mente. aspecto que já aparece em inúmeras reflexões. após fazer um levantamento de algumas das principais teórica os estudos de Sandra Nitrine (2010). Mary Del Priore e Carla Bassanezi minha pesquisa de mestrado. Para além desses modelos. Para estudo comparado com outros romances brasileiros dos resultados obtidos em minha pesquisa de doutorado. de Lucíola. O ponto de partida é a interlocução com histórias literárias contemporâneos de B. Para isso. cujo foco é do século XIX. Usarei como fundamentação Dessa forma. 4 vols (2004. A partir daí. eu tenho por objetivo apresentar parte literárias. história da literatura Central European Women’s Writing. analisaremos os homens que orbitam em torno da personagem principal do romance (Zuza. para. A personagem central deste QUINTA 10 estudo comparado é Maria do Carmo. A New Literary da pouca visibilidade que é dada ao poeta e à sua obra. de Aluízio Azevedo e os personagens por alternativas alinhadas com tendências teóricas contemporâneas. que as levam ou condenam à submissão. necessário entender o papel da crítica que estava em voga. Submissão. A New History of German Literature (2004). como por exemplo. tentar entender o porquê produzidas ao longo do século XXI. 2007. na busca Alencar e Pombinha. Nessa minha busca. buscou-se the Literary Cultures of East-Central Europe: Junctures and disjunctures in traçar um esboço da recepção da crítica sobre obra do poeta através de the 19th and 20th centuries. Feminino.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS personagens de romances do século XIX. em minha atual pesquisa proponho Pinsky (2015). A comparative uma análise dos periódicos da época. Temos como propósito refletir sobre o lugar dado ao poeta e retroalimentada de noções como sujeito e objeto. foi History of America (2009). crítica literária. 2010). pai História da Literatura como uma gaia ciência de Maria do Carmo e Coutinho). Para investigar acerca da perspectiva submissa Sessão 3 da mulher no século XIX. Lopes. de José de discutir a produção de conhecimento em histórias literárias. buscamos as personagens Lúcia. através de contribuições advindas da neurociência da Resumo: Com o presente trabalho pretende-se trazer luz à obra do poeta emoção. Antônio Candido (2014). delineando o Literary Cultures of Latin America: a Comparative History (2004). 136 137 . da percepção e da estética. identificando como estão por traz da Aline de Almeida Moura (PUC-Rio) trama manipuladora. (2001). A contato com sistemas literários e culturais como também atuantes Normalista nesse campo de estudo. nos compêndios de história da literatura. como esse processo ocorre e quais suas relações Resumo: Nessa apresentação. A presença do poeta B. assim. Lopes nos periódicos cariocas da virada do século mas que necessita de um vocabulário que consiga prover caminhos XIX para o XX para a sua efetivação dentro do campo da história literária. periódicos. razão e emoção. History of panorama intelectual e político daquele momento. history of literatures in the Iberian Peninsula (2010) e A History of Palavras-chave: B. Lopes.

é possível falar de uma do trabalho. a partir dos contos de fadas. de Franco Moretti. Friedrich Schlegel Palavras-chave: História da Literatura. como em A virada: o nascimento do mundo moderno presença dos mitos fundacionais na Literatura Brasileira contemporânea (2009). segundo T. Gumbrecht.. surgiram os contos de fadas. ou contos folclóricos. localizamos o que remanesceu após a dessacralização “intuição simbólica”. Latência como o mito como pensamento. como chama Schlegel: “E o que é toda bela mitologia dos mitos. por redefinição de conceitos e métodos em vista de uma aplicabilidade exemplo. qual prover uma alternativa através de um sopro de gaia ciência. “sinfilosofia” do livro Conversa sobre a poesia. de Friedrich Schlegel. U. histórias profanas que sofreram cartas.]. de H. mas do que agora continua a Romantismo cristalizou tanto uma série de lugares-comuns. Será que é serão avaliados através das contribuições da neurociência. considerando.]?” Nesse ficção verbal ser proveniente de tais relatos ancestrais. Eliot. este trabalho faz parte de reflexões sobre a mais amplo. considerados as mais antigas narrativas.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS também avaliarei abordagens históricas de literatura em sentido viver”. Romantismo.. vultos heroicos de um passado remoto em um dito e fracassado a essa proposta de epistemologia alternativa. não do que está morto. conforme observou Affonso Romano divinatório. faltava-lhes uma mitologia lógica de nossa realidade. anterior mesmo pressupostos teóricos e práticas escriturais através de uma reavaliação ao Romantismo. consciente do “momento presente de Sant’Anna em Análise estrutural do romance brasileiro (1972). foram perdendo o de Alencar traça fundamentos de uma “nova poesia” para a Literatura caráter inicialmente sagrado. notadamente ao emigrarem de uma cultura para outra. The bourgeois: between history and e seus desdobramentos. Palavras-chave: Estudos diacrônicos. o autor d’O tronco do ipê. No decorrer a carne do nosso mundo? Tais como os românticos. Afeto. o artista estaria tomando consciência do seu poder que. o do passado [. como a 138 139 . a exemplo dos encantamentos e bruxarias. De onde toda senão uma expressão hieroglífica da natureza circundante [. Ainda sobre as polêmicas manifestações do imaginário dos povos. que pudesse nutrir e representar a imaginação poética por meio de uma Nesses contos. de Stephen Greenblatt. Esses experimentos versões modificadas pela sociedade em que ele está inserido. visando a possível dizer que a Literatura Brasileira dos nossos tempos incorpora. faço uma atualização do campo da história literária em seus produções artísticas retomam uma estrutura mitológica. com seus elementos fantásticos. Epistemologia Entre a ficção e a história: elementos góticos em contos e romances de Proposições para os estudos diacrônicos de literatura Alexandre Herculano Rodrigo de Agrela (UFMG) Hugo Lenes Menezes (IFPI) Resumo: Nas Cartas Sobre A Confederação dos Tamoios (1856). numa perspectiva Levistraussiana. Em termos mais mundo globalizado com reestruturações geopolíticas? Será que essas amplos. como movimento ou como um conjunto de origem do presente (2014). José Resumo: Os mitos. e criam novos discursos por meio da apropriação de uma da tradição racionalista presente no pensamento ocidental a fim de linguagem inovadora? Se o verbo transforma-se em carne do mundo. aqueles não explicados pelas leis da Para os membros do primeiro Romantismo. Lembremos processo de criação.. permaneceram como Brasileira daquele momento – o Romantismo. apresenta uma sólida consciência transformações. Entretanto. Nessa perspectiva. Teoria. estético-literária e também semelhanças de pensamento com a Dessa maneira. proponho uma interação entre a teoria e a prática através (nova) mitologia na nossa produção literária contemporânea? Quem são e da interlocução das reflexões com os diversos experimentos a fim de para onde vão as nossas Musas? propor caminhos mais profícuos para a história da literatura.. e Depois de 1945. com o passar do tempo. S. ou. literature (2013).

Ficção gótica. Em semelhante esfera. autor de vanguarda? Uma leitura concreta de Ludwig Tieck Contos de fadas populares (1797). deu-se a estudos diacrônicos na historiografia literária. seja na vertente fantástica Haroldo. o código narrativo. Assim sendo. como ele gostava de dizer. outra referência constante de recordemos que a prosa de imaginação. conservando características próprias. do citado introdutor da ficção não trata extensamente dele em seus escritos. a vários títulos. objetivamos demonstrar. surgida no primeiro período estilístico dos Oitocentos e. sombrios. Entre esses trabalhos está a Re- relato ficcional. maranhense nas atenções da crítica. afirmou Uma das grandes questões dessa obra é justamente a da crise dos Ítalo Calvino em O conto fantástico no século XIX (2004). Por isso o fato de a historiografia e o ótica. nos contos de destaca pelas leituras pouco convencionais que faz de figuras estabelecidas Lendas e narrativas (1851) e nos romances O monge de Cister (1841). inclusive sob a configuração de uma nova modalidade.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS virtude recompensada. Simultaneamente. Ficção histórica. que Haroldo escreveu em parceria com o irmão adotarem. cadáveres. Com o Romantismo alemão. o presbítero (1843). recursos que aperfeiçoam seus enunciados. mais uma designação à produção contendo o expoentes da poesia concreta. Haroldo problematizou a história encontraria nos contos de horror de E. em que Haroldo questiona a ausência de Gregório de Mattos exemplo do fenômeno constamos em Alexandre Herculano. e trazê-las à atenção do leitor. assassinatos e até Palavras-chave: Romantismo europeu. cunhada por Roman Jakobson. mas faz comentários muito 140 141 . Um Barroco. O do panteão literário. obra que praticamente sozinha recolocou o poeta possibilitando. em termos forma literária. Por sinal. Hoffmann. e a ciência histórica sempre apresentaram. sendo raro um romântico não apresentar Resumo: Haroldo de Campos. estruturalmente são os trabalhos dedicados a reabilitar figuras literárias sob uma nova em comum.A. da literatura em moldes tradicionais e preocupou-se em elaborar um o romance ocupou o cerne do ideário romântico e alcançou o status de cânon literário (ou um contracânon. Outro exemplo é o Sequestro do uma reflexão fora do confronto entre narradores e analistas. no âmbito da literatura brasileira. Em outras palavras. como o príncipe histórica em vernáculo. A partir da noção de poética ascensão e plenitude estética dessa narrativa.uma categoria poundiana. constatamos a relevância das histórias Alexandre Herculano folclóricas para o Movimento Romântico desde a escolha da publicação de uma obra de forte presença de elementos macabros: a coletânea Machado de Assis. pela interação do viés da arte verbal com o da história. a fada salvadora e a bruxa má. escrever uma história literária do ponto de vista tributária da ficção gótica: o romance histórico. Augusto de Campos. além de ter sido um dos idealizadores e uma “peça noturna”. e propõe que o autor de História de Portugal (1846-1853) e História da origem e poeta baiano foi o iniciador de uma verdadeira tradição poética paralela estabelecimento da Inquisição em Portugal (1854-1859). o fantástico e o gótico. marco inicial Gustavo Reis da Silva Louro (UFRJ) do Romantismo alemão. achegarem-se e Visão de Sousândrade. insólito. encantado. de Antonio Candido. musicais) que respondesse às indagações criativas contemporâneas. quanto uma série de tipos. mutuamente. O exemplo mais patente dessa preocupação da obra haroldiana ou não.T. com castelos medievais continente europeu. fantasmas. também tem vasta obra crítico-teórica. haja vista que a enquanto esforço do medievalista de Portugal para colocar as letras literatura fantástica nasceu associada à ficção gótica. cuja maior expressão se sincrônica. Mas a crítica haroldiana também se na comunicação ora proposta. também na Formação da literatura brasileira. a presença de elementos da narrativa gótica. uma abordagem pátrias em compasso com a literatura de autores de outros países do do mal despontada na Inglaterra do século XVIII. dos criadores . mortos andando entre vivos. Haroldo bobo (1843) e Eurico. Machado de Assis é um exemplo notável. criaturas grotescas.

escondido. Haroldo de Campos. “Fora do povoado de Malbork”. as questões relativas à tradução e ao plágio. A sua obra é tão atrelada às questões que circunscrevem o seu tempo e o nosso tempo Os impasses da crítica: a questão dos gêneros em Ítalo Calvino que se torna impossível passarmos despercebidos por uma obra tão rica Marlon Augusto Barbosa (UFRJ) para o pensamento teórico. do escritor italiano que podem ser consideradas clássicas para a Teoria Literária. de um tipo de (meta) noite de inverno. Trata-se de um livro em que um leitor e uma leitora ficção que é repleta de técnicas e problemáticas que só seriam vistas nos são os personagens principais. Após adquirir um novo exemplar de “Se escritores mais radicais do século vinte. Para o poeta concreta. o primeiro trabalho a se dedicar simultaneamente. ao romancista do leitor e a leitora lançam-se em um universo labiríntico de livros e situações século XIX e ao poeta concreto. em movimento: “Você seu ensaio. Essa leitura que um viajante numa noite de inverno”. Gêneros Literários. o objetivo deste trabalho é entender como. poética sincrônica. Procuraremos desenvolver branco preenchem o lugar da história e um novo início de romance aparece essa hipótese neste trabalho. Os capítulos nomeados são inícios de romances o Estruturalismo . A separação entre números e nomes. desviado. foge aos modelos convencionais e nasce do cruzamento exemplo: os gêneros literários. em busca de uma satisfação do prazer da leitura que lhes é continuamente Palavras-chave: Machado de Assis. Italo Calvino esteve durante toda a sua vanguarda vida engajado política e teoricamente com a literatura. Viajante 142 143 . o espaço literário em geral e tantos assim sucessivamente. Em leitura que está por começar. Ruptura de gêneros na literatura latino-americana.. que por um erro de encadernação. Haroldo vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino. gêneros e discursos diversos.. como Borges. defeito a partir da página 32. de estilos. ser inserida no âmbito da descobre. através de que estratégias de composição o texto de Calvino baseada no princípio de que apenas os capítulos numerados pertencem ao dialoga com a Teoria Literária . no Brasil. mas o anúncio de uma romancista brasileiro deve ser encarado como um autor de vanguarda.. Ao trocá-lo por outro volume. isto é. o leitor-personagem Haroldo faz de Machado pode. como por Italo Calvino. a capítulos – doze deles numerados (Capítulo 1. ao identificar em livro “Se um viajante numa noite de inverno” agora é “Fora do povoado Machado um escritor de vanguarda. Sua obra crítica e literária articula questões Resumo: O livro Se um viajante numa noite de inverno. obviamente.principalmente com o Formalismo Russo e livro propriamente dito. em processo. O primeiro capítulo numerado Palavras-chave: Italo Calvino. Os obstáculos para a leitura se intensificam quando esse recusam o realismo em Machado de Assis. Capitulo 2. entre partir de uma desarticulação do romance. segundo a crítica. Este é. e realidade e a ficção. O agora. a morte e o retorno do autor.” . de um hibridismo de gêneros. Assim. Haroldo.e formula uma possível teoria para os gêneros literários. ele descobre O questionamento do rótulo “realista” aplicado à prosa machadiana é que a história nada tem a ver com aquela cuja leitura havia começado: o tão antigo quanto essa própria classificação. o seu livro apresenta um velha querela entre os defensores e os opositores do realismo machadiano. de Italo Calvino. roubado. ainda que essa questão não romance também apresenta um erro de encadernação – páginas em seja enunciada explicitamente em sua obra. O livro é escrito em vinte e dois os níveis de realidade no interior da ficção. está de que modo. pelo que averiguamos até numa noite de inverno procede a partir de cancelamentos sucessivos. o leitor e a leitura. e faremos ainda um levantamento crítico do para o leitor personagem.) e entre eles. pode ser colocado entre aqueles que de Malbork”.. de outros autores dentro do livro principal. outros). o fluxo da narrativa de Se um viajante que Haroldo escreveu sobre Machado. a viajante numa noite de inverno”. 10 capítulos nomeados (“Se um outros tópicos. Capítulo 3.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS instigantes. aquele que é considerado o maior não é Se um viajante numa noite de inverno. Se um viajante numa defende que Machado foi introdutor. A princípio.

da tradição através da renovação. 1996. afirma Carlos mais traduzidos. 1973. Garnier (1870-1880) A INCLUSÃO DAS DIFERENÇAS E DAS 06 Valeria Cristina Bezerra (UNESP) DIVERSIDADES NAS NOVAS TESSITURAS DE Resumo: Em busca de conhecer o processo de formação da literatura PRODUÇÃO E NAS LEITURAS LITERÁRIAS nacional no século XIX. p. Literatura nacional. O homem. sejam trabalho na edição dos escritos de autores brasileiros. livreiro-editor responsável. pela consagração de nomes Resumo: O comparatismo tem servido como valioso e insubstituível como José de Alencar. coloca-os como condição estrangeira. Garnier entre 1870 e 1880. período em que o editor contratou um virgem. L. Antonio Candido. p. pois escrever é sempre reescrever a história da literatura tem insistido. inscreve-se a possibilidade de sobrevivência papel da literatura estrangeira na história da literatura brasileira. Dentre as recepção crítica no Brasil. seja por seu comparação com autores canônicos e à luz de novas teorias. Evaldo Balbino da Silva (UFMG) Divanize Carbonieri (UFMT) que dividiam com a literatura brasileira os espaços de difusão literária e a atenção do público. Palavras-chave: História da literatura. no sentido primeiro desta palavra. não podemos ver num texto aquilo que o tornaria de B. 1995. p. dentre outros. Machado de Assis. Este estudo tem como objetivo o que a leitura recortou (COMPAGNON. seja pela tradução recebidos por novos leitores e críticos. vemos que seu meio de abordagem e estudo de obras literárias.13). Analisaremos o perfil dessas obras – autores passada é procedimento comum à criação literária. Se considerarmos que o 144 145 . possibilitando exercício profissional interferiu no meio literário brasileiro. Tradução para a permanência da literatura enquanto um sistema vivo de obras. decifrando-a. O editor era constantemente saudado nas páginas dos Literatura Comparada possibilita que novos autores. E isso porque dialogar com a escrita prosa de ficção traduzidos. nesse Leni Nobre de Oliveira (CEFET/MG) período o Brasil contou com uma ampla presença de obras traduzidas. Nesse viés. a de livros do país. L. Tomando como exemplo Baptiste-Louis Garnier. sem mestiçagens. diferença de tempo entre a veiculação Fuentes ao indagar se seria possível haver produção de literatura original e a publicação no Rio de Janeiro – assim como aspectos de sua sem tradição (FUENTES apud FIGUEIREDO. No entanto.63). a história literária ateve-se aos esforços de homens CONTEMPORÂNEAS de letras brasileiros e às suas produções originais. editoras de origem.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC Tradução e literatura nacional: um estudo do empreendimento editorial de B. compreender o impacto da literatura estrangeira nas letras brasileiras nesse sentido. diferente daquela na qual de leitura reúne-se ao de escrita. o que propõe uma perspectiva texto se constrói pelo trabalho da citação.74. a fim de oferecer elementos para a discussão do indagações de Fuentes. o de uma pureza sem corpo de tradutores e inseriu no mercado do país cerca de 80 títulos de interferências. tornando-o um amplo e diverso diálogo entre teorias e produções literárias diversificado por meio da inclusão de obras estrangeiras no comércio contemporâneas com as de diversas épocas. vem escrevendo um grande e único texto através dos tomando como caso de estudo o empreendimento editorial de tradução tempos. atividade em que o ato mais complexa da ideia de literatura nacional. Assim. Compagnon defende que todo e publicação de produções estrangeiras. Nesse sentido. à luz de sua periódicos por seu empenho em prol da literatura nacional. na medida em que eles “a vivem. aceitando-a. deformando-a” (CÂNDIDO.). em certa medida. Literatura referindo-se à importância dos leitores.

Diversidades e diferenças. contemporâneo Hilda Hilst destaca-se pela adoção de uma postura didático e paradidático). Nessa conjuntura. que agora se constrói. obras e temáticas que abordem sobre que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na diferenças. são ‘reescritas’. Se para Calvino (1998. mostram as são percebidas à luz do cânone e dos clássicos. Se “todas as obras literárias. incluem-se. subsidiários naturais ironias e as denúncias presentes em obras aparentemente ingênuas. considerando as orientações governamentais de inclusão das diversidades como QUINTA 10 princípio básico da cidadania. tanto do analíticas. Com a perspectiva apresentada. a originalidade. experimental. em é um mosaico de referências que absorve e transforma outras outras palavras. as novas tessituras literárias. Se no emaranhado que se tece a partir de fios pelas sociedades que as leem na verdade. não há releitura de uma discursivos diversos existe uma transformação. por Fuentes ou a deturpação apontada por Cândido. as releituras feitas de obras já cristalizadas (como aquelas ponto de vista da produção quanto da interpretação da obra literária sobre Machado de Assis) que. as demandas de Contemporânea.. Nesse caso. p. inferimos que o seu discurso ampla e perceptiva da alteridade. ponto de partida para a negação ou afirmação Palavras-chave: Comparatismo. Outra significação instaura-se. a qual “se se pertinente que esse recurso seja observado em seu potencial constrói no espaço criado pela abertura da palavra frente a outra”. com sua capacidade generativa. entre outras possibilidades linguagem e nos costumes)”. Com ele dialoga. demais produtos culturais do nosso tempo amplia e complexifica porque a palavra nova. temas caros às abordagens cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na sobre alteridade. mesmo que inconscientemente. da crítica e da teoria literárias na contemporaneidade. revelador das diferenças e das diversidades na produção literária uma vez que o signo. sob as novas investigações. s. engendrada do velho discurso. Se por meio do comparatismo. muitos deles subsidiados pelo governo polêmica que nos revela a voz de uma escritora preocupada com as ou pelos próprios autores. e essa arte se torna objeto complexo.d. p.119. torna- sendo solidário. Teorias contemporâneas atendimento às propostas educacionais no Brasil. a relação da Literatura com os então.11). livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras privilegiando autores. considerando a pluralidade e a multiplicidade de A ironia enquanto recurso estético na produção de Hilda Hilst culturas que caracterizam o povo brasileiro e suas diversas heranças. abre-se “para contemporânea. p. produções anteriores. para o prosseguimento e para a reinterpretação” (CURY. da herança cultural.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS escritor é antes de tudo um leitor. levaram as escolas de formação básica Tarde [14:30 – 16:30] e superior a incluir disciplinas e conteúdos que demandam novos Sessão 1 materiais paradidáticos e suportes teóricos subsidiários das novas abordagens e. neste Simpósio a réplica.). os “clássicos são aqueles produção. o que vai caracterizar a intertextualidade. Aline Pires de Morais (UNEMAT) várias foram as publicações que se fizeram necessárias e oportunas Resumo: Considerada uma importante voz no cenário literário brasileiro para o aportes do ponto de vista da literatura (teórico.13). ganhará um outro sentido. a renovação aludida obra que não seja também uma ‘reescritura” (EAGLETON. opondo-se ao mesmo ou lhe a partir de um pensamento transcultural e transdisciplinar. Literatura de novas produções e leituras. em busca de uma contemplação mais questões de seu tempo e que não pretende fazer literatura como forma 146 147 . diversidades e inclusão. pretendemos acolher trabalhos que discutam sobre os rumos da 1982. nasce das brechas seus significados.

em seu estudo sobre a ironia. esta em especial. ao desferir o tom irônico em crônicas próprias mãos. em todas essas narrativas. o desespero humano frente a uma sociedade que perdeu a noção de Danticat problematiza as relações de colonialidade e o silêncio coletivo ética. a ironia é o recurso encontrado pela autora para destilar rádio popular que dá voz à população da região por meio de seu programa sarcasmo e incitar o riso. a narrativa se desloca para apresentada como ferramenta de denúncia e desvelamento social.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS de fugir da realidade. inicialmente. Haiti. Hilst potencializa um discurso que demonstra toda que procura olhar para aqueles que foram esquecidos. em Porto Príncipe. após esse sumiço. mas migrou para os Estados Unidos com a idade de doze anos. uma empresária instrumento questionador da ordem vigente. objetiva-se mostrar de que modo a ironia destilada masculino e feminino.Portanto. mas como maneira de pensá-la criticamente. desvela um anseio de comunicar-se a fim de preencher os vazios da Palavras-chave: crônica. a fim de vingar a morte do esposo. embora a obra tenha sido publicada após diante do cenário sócio político que ela procura mostrar em seus textos. este trabalho busca mostrar de nacionalidade – haitiana e estadunidense – a autora é atualmente uma que modo o discurso irônico aparece nas crônicas hilstianas como das vozes mais expressivas da diáspora. a escritora paulista em fazer a paz entre as gangues da favela Cité Pendue. corrupção. a autora falou sem medo e sem pudores de problemas sociais historicamente consolidados e Resumo: Nascida em 1969. Em seu mais recente romance Claire of the sea light Linda Hutcheon. já que. Em textos polêmicos. a autora 148 149 . o terremoto no Haiti (12 de janeiro de 2010). uma garota pobre que foge ao saber que seria adotada por mostraremos como a opção pela atitude irônica em Hilda Hilst é Madame Gaëlle. histórico-sociais. É uma ironia que reflete que vão além de desastres naturais. Danticat centra a narrativa. classe ignora os problemas sociais enfrentados diariamente pelos cidadãos. por Hilst em sua produção é o veículo para a produção de uma crítica Por meio da ironia. assim. assim a cronista faz da ironia uma postura de entrevistas. Notamos que. em Claire of the sea light. mostra de que modo (2013). Por isso. Edwidge Danticat desmascarou a elite não apenas campineira. Porém. Sua escrita transita entre histórias recurso estético que visa desvelar as mazelas de uma sociedade que ficcionais e não ficcionais. ironia. escreve-se para vencer a frustração diante da vida e também para vencer o medo e as angústias que atormentam a alma A representação do silêncio e silenciamento em Claire of the sea light de EdwidgeDanticat humana. faz justiça com as e das estratégias repressivas. elucidando questões de gênero. e nacionalidade. a autora retrata uma população cercada de problemas tratando as temáticas de modo cáustico e feroz. dos códigos de conduta bem sucedida que. raça. vítimas de todo a consciência de que a literatura é construída em um espaço onde se um processo social excludente e massacrador. Hilda Hilst alma humana. refletida na constante perda de valores básicos de uma coletividade em criminalidade. disparidade social e desigualdades entre os gêneros conflito. a história de Max demonstra claramente sua tomada de consciência face às realidades Junior. um rapaz afluente que comete um crime contra Flore Voltaire. Característica recorrente na produção cronística uma empregada da família. a trágica história de Bernard Dorien. uma apresentadora de de Hilst. com sua boa intenção que buscam no real o substrato para a palavra. que vitimou mais de 200 rompendo assim com a leveza que sempre caracterizou o gênero e mil pessoas. os eventos de outros personagens: a história de Gaëlle. e a de Louise George. no desaparecimento a ironia pode se transformar em instrumento de crítica. denunciando uma indignação que é na verdade uma subjetividade de uma pequena vila de pescadores assolada pela violência. Hilst destilou seu “veneno” e arrancou Ana Flávia de Morais Faria Oliveira (UFMT) as máscaras de uma sociedade hipócrita. Dessa maneira. e de Claire. Com dupla toda a burguesia brasileira.

voltam-se para suas publicações questões históricas. fazendo com no mundo das Letras até as vésperas do terceiro milênio. refletiremos sobre como romances. a memória histórica e a metaficção historiográfica. sem nunca ter merecido um estudo acadêmico de invisibilidade e subalternidade das mulheres haitianas. defendida no seu desejo de escrever. poemas. como os que cercam a memória Resumo: O presente estudo busca analisar as retomadas e as releituras individual e a coletiva. que têm permitido novas abordagens das obras Resumo: Partindo da constatação do crescente interesse do campo publicadas. de um certo Brasil. Fernando Pessoa considerável de pesquisas. Abrigando- poética propõe um discurso franciscano e camaleônico. a memória pessoal e a ficcional. de décadas. que a obra de Adélia Prado faz das tradições bíblicas. sobretudo. mostrando sua influência nas relações de poder que possibilidades de pesquisa que se multiplicam. no tocante aos autores acompanharão o desdobramento de um caso exemplar: o número “seculares” (tais como Carlos Drummond de Andrade. incluindo-se a literatura judaico- como linguagem e. Para isso. Do mesmo modo com que ela. mas um sujeito que se constitui de autores da nossa tradição literária. são algumas e silenciamentos. Na obra da se muitas vezes sob os estudos culturais.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS se esforça em representar essas relações de colonialidade existentes volta para a obra de Carolina Maria de Jesus – escritora que alcançou entre as classes mais abastadas e as menos favorecidas que ainda um sucesso fulgurante nos anos 1960 com seu Quarto de despejo: insistem em permanecer na sociedade do Haiti. o estudioso da memória poeta mineira há diálogos intensos. além da descoberta de contos. pelo viés comparatista. para o acervo de Elzira Divina Perpétua (UFOP) manuscritos inéditos. Essas reflexões cristã e mística. Carolina de Jesus. hoje. de um gênero textual. que mascara com o título a autobiografia de sua infância e juventude no interior de Minas. uma escritora do nosso tempo A investigação acadêmica volta-se. Até mesmo a distinção hierárquica passado – um público leitor que a compreendesse e que dialogasse com entre os chamados subgêneros do gênero memorialista. constrói uma continuidade e uma ruptura. nos últimos anos. Projeto esse que passa a ser conhecido graças à investigação literários. perde o sentido. e de modo explícito. nas universidades brasileiras. incompleto e inacessível. Memória. que compõem o projeto literário da o gênero confessional. mas principalmente Tradição religiosa e traição em Adélia Prado: a humildade e o seu com o aparecimento das chamadas teorias da memória. das Letras pelos estudos sobre a memória. fazendo calar um silêncio permeiam uma sociedade. como o segundo diário. Edwidge Danticat de uma ex-favelada. A abrangência reverso no cruzamento de vozes dessas teorias vem favorecendo o aprofundamento de debates cada Evaldo Balbino da Silva (UFMG) vez mais contundentes e expressivos. decolonialidade e um referencial teórico que aborde as sobre a autora. sociais e culturais sobre o Haiti. menos conhecidas. Memórias de que o país seja um Estado independente de sociedade colonial. não só com o advento Palavras-chave: Carolina de Jesus. lançaremos mão de teorias da pós. rastro do pós-estruturalismo. a princípio banido do horizonte dos estudos escritora. de um indivíduo e de uma assim. ou mnemônica textual. silenciamentos. Ao fazê-lo. políticas. bem como a situação diário de uma favelada. como tal. que se e Camões). Extrapolando a publicação que a consagrou. sua a memória social e a cultural. peças de teatro. conquistou um lugar de destaque no âmbito acadêmico que lega à contemporaneidade o que foi negado à sua idealizadora no brasileiro nas últimas décadas. as pesquisas colonialidade. além de Diário de Bitita. Projeto literário de outras formas de expressão das escritas do eu. com uma série encontra não apenas um texto a analisar. o objetivo deste trabalho é analisar a representação dos silêncios coletividade. também vai 150 151 . Casa de alvenaria: diário Palavras-chave: relações de poder. Sendo um tempo e de um lugar.

para um vitral. a respeito de quem há escassos determinada consideravelmente pela sua capacidade inata de sentir a dados biográficos. e que é tida por uma senhora de origem aristocrática. de O Seminarista além de. principalmente. trazendo para o bojo tomada em sentido comparativo com seus maiores clássicos (no sentido da tradução dos discursos bíblicos a traição no sentido de releitura. Pesquisando a respeito da biografia do seu tio. mãe de Bernardo Guimarães. como o irmão. pretendo apresentar o esboço obra da autora. Não que utilizamos estão sempre e inevitavelmente habitadas por outras passou despercebido o sub título da obra Rosaura: a enjeitada. como a personagem discordância e concordância. sua mãe foi uma fuga a diálogos constantes. Como suporte teórico. que precederam a presente. Esse posicionar-se Ambos foram crianças enjeitadas pela mãe. dados que comprovam que o mesmo é irmão de Constança Beatriz de a maneira individual por que o homem “constrói seu discurso é Oliveira. Assim servirão a esta leitura os livros: Bagagem. O homem da mão seca e A obra Rosaura foi tomada como lugar de pesquisa historiográfica. Fuentes apud Eurídice Figueiredo (1995). Para a análise proposta. justamente porque “a linguagem só Catharina de Oliveira. Bíblia. de Mikahil com a Bíblia. passou a emergir do cativeiro. se tradições bíblicas pelo viés crítico da releitura. a enjeitada: efígie ou esfinge de Bernardo Guimarães desdobrável. A faca no peito. serão diferentemente de outros que chegaram até o presente trazendo marcas utilizados fragmentos da obra da autora. Antônio José da Silva. Com a pesquisa. narradores e vozes de uma análise interpetativa de uma obra menor do escritor mineiro poéticas. Tem-se. em muitos momentos. Antonio Candido (1973) e Forjando uma escrita que prima pelo caminho da simplicidade. Nesse sentido. Julia Kristeva (1969). O pelicano. Antoine Compagnon (1996). Maria Caetana de Oliveira. empregado por Calvino). de fusão e atrito entre vozes muitas vezes Rosaura. O que resulta disso é um discurso Rosaura. Nesse sentido. diante da fala do outro é inevitável na medida em que o código nada e esta. levantei apresentarem-se “estranhas e hostis” entre si. as representações que ela faz de Deus e da vida. o vigário parecidas. o romance Rosaura: a enjeitada. mas que também não deixam de. deparei com reconhece que toda e qualquer comunicação se faz por um dialogismo. toda a obra adeliana promove um resgate das Bernardo Guimarães. discussões sobre intertextualidade e dialogia. comparecerão estudos. e se inscrevem Bakhtin (1997). cinema. em documentos de sua ordenação. pois nos apresenta sujeitos multifacetados Marcus Caetano Domingos (UNESP-Franca) com discursos também de múltiplas faces. Carlos na obra de Adélia. de aristocrática. a família materna vive na comunicação dialógica daqueles que a usam”. Segundo este teórico. teatro. Terra de Santa Cruz. e que foram reinterpretadas na poesia. Com as 152 153 . disparado. parda e forra. agora. palavra do outro e os meios de reagir diante dela”. na Resumo: Na presente comunicação. Foi o caso. também o foram. O coração TV. acidentalmente. portanto. Traição. tanto em prosa quanto em das leituras. Os componentes da banda. e que deixaram marca na cultura nacional. Cacos em especial. durante uma pesquisa de história política. A crítica contemporânea que desenvolvo. uma revelação biográfica do autor: vários de seus ancestrais maternos conceito desenvolvido por Bakhtin que aponta para um movimento de haviam sido criados como crianças enjeitadas. com afirmações e negações do já dito. porque a obra se trata de um livro esquecido. como pesquisa de doutoramento. e as palavras de Bernardo. poéticas e narrativas da autora se constroem nas brechas dos discursos Palavras-chave: Tradição. serão utilizadas algumas quando. a vozes Maria Zilda Ferreira Cury (1982). Menor. neste trabalho. Seu diálogo é mais intenso vozes. um desdobramento dos sujeitos. É principalmente desse livro que emanam. Impossibilita-se o indivíduo de de Oliveira. Segundo o registro de batismo de Thereza. Thereza de Jesus mais é do que um fenômeno social. Adélia Prado bíblicos e promovem uma encenação em que a humildade e o seu reverso se cruzam sem se excluírem. camaleônico. pela mãe. Escrava Isaura. Manuscritos de Felipa.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS fazê-lo em relação aos autores “sagrados”.

entre os dramas familiares e os dramas que envolvem significativas em seus contextos. Alteridade fazendas das redondezas e. A segunda. já que tais obras se tornam mais subliminares. nas Palavras-chave: Interdisciplinaridade. dado a músico. Com nica=imagem). mestiço. quando frequentou as aulas da velha faculdade de São “todas as obras literárias. elucidando. o meu busto é verônica?” (vero=verdade. se enriquecer mutuamente e se constituírem mananciais subsidiários que. compararemos a obra Minha vida de menina. na cidade de Sacramento. “agora. tanto por quem escreve como Memórias de meninas: tessituras. na região. percebi relações. o diário apresenta as visões de mundo e da sociedade SEXTA 11 de sua autora. livro mais do que efígie. e Diário de Bitita. como também os acontecimentos históricos para uma fina ironia empregada por Bernardo. como mundo de seu autor. de Carolina Maria que haveria outra referência. submetidas ao processo da comparação. em 1982. entregue para publicação em 1976. pelas sociedades que as lêem. seria importante para uma compreensão mais profunda de sua obra e com lapso temporal que vai de 1918 a aproximadamente 1938. de personagem Belmiro. As análises literárias e biográficas tem ruptura. amplificar e esclarecer os vários significados registro e das tessituras discursivas de qualquer escritor. Dramas vivenciados de Jesus. Reescrita. creio ser plausível pensar. com tudo o que eles possam apresentar de tradição e de portraiture. A hipótese apontaria de diamantes. falando sério. ambientada em na trama coincidiriam com a vida das personagens femininas da família. há releitura de uma obra que não seja também uma ‘reescritura”. peças centrais do enredo do romance bernardiano. Além da referência biográfica óbvia.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS informações a respeito da família materna do autor em mãos li a obra. como dizia Balzac)”. é o vida e de sua compreensão da sociedade e do país. humilhações e preconceitos. poeta e boêmio. discursos e diferenças por quem lê. marcas indeléveis da percepção de um estudante de direito. na verdade. Se o foi Bernardo. tornando-o uma provável esfinge. codificados nas tessituras do discurso ali organizado. em 8 de novembro de da cultura. A primeira. as produções literárias podem Um grande reforço a esta hipótese foi dado pelo próprio Bernardo. porque “toda 154 155 . óbvias algumas. Se a literatura é um espaço Sessão 2 privilegiado para que as cenas do cotidiano e simulações possam ser encenadas pelo sujeito pós-moderno. os dois diários podem revelar que o capital cultural nelas Leni Nobre de Oliveira (FAPEMIG) preservado se constitui como instrumento de construção e reconstrução Resumo: O sentido da obra literária. em “Carta a Fernando Saldanha Moreira. publicada em 1942. da sociedade e das diversidades costuradas nos alinhavos 1882”. referente ao base nessa perspectiva. nas mínimas fendas do discurso. quando as personagens. ao mesmo tempo em que se sobressai o registro das Manhã [09:00 – 11:00] questões raciais próprias da sua condição. Quando comparadas. registro do olhar de uma menina negra. Helena Morley. Publicada na França. que pode ter feito do tais como a abolição da escravatura e a Proclamação da República. Com esse capital. (ma dos textos. nas delicadas teias de significantes codificados tomado como o “retrato” de Bernardo na obra o personagem Belmiro. imiscuída na trama. a literatura outras obras. contextos. em novas leituras. em meados do século XIX. chamou o livro de “a minha velha efígie. nem sempre intencionalmente ali expressas. E é Bernardo. Assim. em São Paulo. por último. muitas vezes só se revela à luz de da memória do passado no presente. o que pode facilitar por meio do comparatismo. e outras. Decifrá-la tendo como narradora uma descendente de ingleses branca. enquanto hipótese. na carta ao amigo. não indaga. que que inconscientemente. mesmo Paulo. são ‘reescritas’. coincidiriam. a transparência de novos sentidos. seus contrastes e suas confluências pode-se materializar como fonte reveladora do próprio sentido do podem corroborar. em outras palavras. Diamantina. cobre o cenário de decadência da mineração e exploração Dores. quero dizer retrato. Releitura.

5. A classe subalterna ficou restrita a determinado circuito pré-noções e é munido desse aparato que se acerca de um texto. 2009. Oração dos desesperados. pp. que são de dos dois diários. do CESPE em Brasília pode até parecer tímido. São Paulo/Brasília. o qual é extremamente homogêneo. ao associar literatura o qual o seu conjunto de expectativas passará a atritar”. Helena. tomando como base se encontra na bibliografia do PAS/UnB. com geográfico. Entretanto. Palavras da crítica. EAGLETON. MORLEY. como afirma Zuenir Ventura habitualmente são objetos da fala de outrem. Assim. um caminho muito significativo. Editora Bertolucci. o termo “marginal” uma para e elite e outra para as classes subalternas. são representantes de tal estética. Minha vida de menina. DUTRA. Teoria da Literatura: Uma introdução. mesmo literárias) que pertencem ao campo literário. dos desesperados conseguiu transitar da periferia de SP às escolas Memórias de meninas de Ensino Médio brasilienses. José Luís ficar em seu ‘devido lugar’ e aqueles que querem manter seu espaço (Org. se pensarmos a obra literária a autoria de escritores originários de grupos sociais marginalizados. 65) descontaminado” (DALCASTAGNÈ. À vista disso. Minha vida de menina. REIS.13) JESUS. além de averiguar rompendo com a duplicidade da tríade de Candido (autor-obra-público): questões relacionadas à autoria.07). p. confirmando que. (p. que não Assim. o que. é incontestavelmente significativa. que tematizam o que é peculiar aos sujeitos e espaços tidos como apresenta seu potencial revelador das diferenças. Essa separação de e a “cidade oficial” é ultrapassada e esses grupos marginalizados que classes deu origem a uma “cidade partida”. por meio do comparatismo. 2009. das diversidades e marginais” (NASCIMENTO. que causariam desconforto com a sua presença. em nível social. Oração Palavras-chave: Comparatismo. 2012. Sérgio Vaz e suas produções da cultura da qual ela faz parte. literatura marginal. Waltencir. e. bem como sua ressonância. produzidas e vinculadas à margem do corredor editorial. examinar o porquê e como se deu esse trajeto tem sido amplamente difundido e tem alcançado inúmeros leitores. 20-21). In: JOBIM. Diário de Bitita. constituindo com o adjetivo “marginal”. Com essa nova está relacionado à “margem”. percorreu tradição: a bibliografia de processos seletivos universitários brasileiros. E todo leitor acumula um repertório de (1994). agora. beirada. percorrendo um contra fluxo. 1992. geração de escritores periféricos. Diário de Bitita. mas tal mudança. ao lado de obras (não apenas toda a extensão do território brasileiro. sob determinada perspectiva. Rio de Janeiro: Imago. Rio de “tensão resultante do embate entre os que não estão dispostos a Janeiro: José Olympio. 37). pois foi produzido na periferia. (p. para os quais são comumente compostas por obras ditas canônicas. Carolina Maria de. 2007. “literatura marginal designaria os livros que Das periferias de São Paulo para as escolas de Brasília: os trânsitos do poema “Oração dos desesperados” de Sérgio Vaz não pertencem aos clássicos da literatura nacional ou universal e não Aline Teixeira da Silva Lima (UnB) estão nas listas de leituras obrigatórias dos vestibulares” (NASCIMENTO. a periferia em geral. Cânon. pois o tem como objetivo analisar este texto poético dentro do contexto da texto em questão. passam a ser sujeitos de 156 157 . p. transcultural e transdisciplinar. ela ainda. O feito ser publicado em uma revista dedicada à literatura marginal. a fronteira entre a “cidade marginal” significa aquele que não está inserido no centro.). De forma geral.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS escrita ficcionaliza o seu leitor. pretendemos ampliar os significados pertencem ou que se opõem aos cânones estabelecidos. que na verdade representa toda uma classe social. No campo literário brasileiro. estamos classificando “as obras literárias essa dupla via como é o próprio modo de ser desse tipo de patrimônio. São Paulo: Martins Fontes. seus poemas seriam vozes 2003. o texto poético analisado rompeu com determinada Resumo: O poema de Sérgio Vaz. O presente trabalho que pequena e centralizada. isto é. Sacramento: “não autorizadas”. 1973. Roberto. pois. ou partir de um pensamento cultural. ed. Terry.

tais como são narradas em suas ou travestismo desse dita persona. e 1980. é analisar Leibniz. consequentemente. ocasional. surrealista e Barroca.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS sua própria fala. o que não deixa de fora o conjunto da obra de memórias de um transexual 30 anos depois (2011) de João W. desenvolvendo-se numa atmosfera de dos desesperados contrastes. há diferenças marcantes na trajetória ou episódio. e sim. a jantar à mesa. cujo enredo se desenrola numa espécie de coreografia de ou neobarroco. As diferenças não devem ser usadas como uma mulher-fálica que mesmo numa identidade feminina possui pênis aporte/argumento para discriminações e preconceitos e que. vivenciada já a partir das décadas de 1970 numa alternância não linear. ora mulher dona de casa que espera o marido voltar do trabalho com o Por conseguinte. feminilidade. deve ser compreendido como um continuum Resumo: A partir do confronto com a concepção do barroco moderno espacial. Butler (1993) entende que concepção do personagem nolliano. gênero e aspectos de construção. com o qual sacia seu parceiro homem ou um homem travestido em essas vozes possam não apenas falar. Tais conceitos relativos à Divanize Carbonieri (UFMT) construção e estruturação do signo e consequentemente do personagem Resumo: O objetivo deste trabalho é o exame das obras autobiográficas e da sua linguagem. esquizofrênica. como também serem ouvidas. ao autobiografias. Contudo. que nem a morte é capaz de frear. este trabalho tem como objetivo propor uma análise da uma linguagem erótica. de antíteses. num período em que a condição trans era ainda bastante dinâmica. construção do personagem-narrador e da sua linguagem na obra ‘Acenos Palavras-chave: Barroco. da mesma forma que em certos instantes se mostra como arte marginal seja respeitada. campo literário. cena invisibilizada no país. de opostos. paradoxal. Nele. Barroco. de antípodas que se fundem num único ser cujas relações de identidade. Deleuze (2015) e simultaneidades.A artificialização barroca nos “Acenos e evolução e maturação do personagem-corpo. nos apresenta a dobra como teoria da infinitude. Deleuze. Tudo isso escrito em Sarduy (1979). a próxima transmutação e conscientização dos dois escritores. Dobra e afagos’ de João Gilberto Noll. Sérgio Vaz. Artificialização. mas também as que se faz em redobras e desdobramentos. chama de performatividade de gênero. os quais fica evidente na implicações que se estabelecem entre eles. preciso reconhecer a separação entre sexo e gênero. Identidade. a Desconstruções de gênero nas autobiografias de Anderson Herzer e proliferação e a condensação) como sendo praticada na literatura João W. Para ela. de instante presente. a próxima identidade e/ou gênero. Nery recente. proposto por Benjamim (1984). erótico. nos evidenciando uma perspectiva interna da periferia. Oração zoófilo. nos permite observar uma certa ‘colisão’ com o A queda para o alto (1982) de Anderson Herzer e Viagem solitária: romance supracitado. será apontada a artificialização de Sarduy e sua subdivisão em três mecanismos (a substituição. ativo e/ou passivo em suas performances sexuais e sociais. Esses dois autores brasileiros têm em comum a experiência numa variação entre gêneros linguísticos do masculino e do feminino da transmasculinidade. A voz do personagem-narrador do romance em questão se expõe Nery. Noll. segundo Benjamim. Esse aparente Bia Crispim de Almeida (UFRN) caos. sobretudo na América Latina. visto que tal personagem-narrador existe uma relação estreita entre a materialidade do corpo e o que ela transmutável apresenta-se ora homem hetero com impulsos de macho. que de maneira alguma pode antecipar a próxima fala. transportam o leitor a afagos” de João Gilberto Noll um universo conflitante. as diferenças sexuais 158 159 . Assim como Sarduy. em outro momento. Palavras-chave: literatura marginal. Para compreender o fenômeno da transgeneridade. é necessário que a cultura e. Identidade em trânsito . assim.

identidades e práticas que. Esta. de fato. na verdade. conflituoso envolvendo personagens que realizam Dorinaldo dos Santos Nascimento (UFU) transações econômico-sexuais. mas à prática reiterativa de atos e gestos estilizados. queer. neste trabalho. nada há de natural nas intercambiam sexo e dinheiro. mas que pela crítica e historiografia literárias canônicas -. ainda. dos dramas e vitórias de minorias marginalizadas Contudo. materialização tanto do sexo quanto do gênero nunca está realmente uma função laborativa periférica traduzida enquanto dupla zona completa. tendo em mira referencial Resumo: A emergência do discurso da diferença no âmbito da Literatura teórico-metodológico alinhado à crítica da cultura em conjugação às converge para o diálogo com a agenda política contemporânea sobre contribuições da teoria queer. por sua vez. perspectivamos analisar personagens (e narradores) e suas Nery condições ou modos de ser-estar. transmasculinidades. sujeitos que se prostituem. visando ao estabelecimento ela. o sexo de uma pessoa não brasileira contemporânea. sob severos códigos de moralidade. entabulamos como leitura analítica a diversidade sexual no tangente às orientações homoafetivas e à textos em prosa (contos e romances) de ficcionistas propulsores reivindicação ou negação de subjetividades gays. ainda que o sexo seja gênero (ou pela orientação sexual. tais como: Samuel Rawet. que se dão de acordo com bases regulatórias. A própria necessidade da reiteração indica que a prostituição masculina. é possível analisar como de abjeção outsider. enquadrados no binômio relacional Panorama de cenas sexuais da prostituição masculina na prosa imbricadamente ambíguo. podem ser e são reconstruídas pelos indivíduos durante homoeróticas confluentes às cenas sexuais fundadas no âmbito da suas histórias de vida. seja pela conexão discriminatória cisgênera. Dito de outra forma. Com base nessa discussão teórica. João W. tendo esteja implicado na performatividade de gênero). o “aproveitamento” de situações e/ou assuntos polêmicos projetados no sexo é tão construído discursivamente quanto o gênero. seja pelo estigma de atividade aviltante ao as narrativas de Herzer e Nery desconstroem a heteronormatividade comercializar o corpo (objeto de uso). a “regulatório”.em que pese. e. O que Butler identifica como fator comum de tese em andamento) se inscreve enquanto estudo teórico-crítico tanto na materialização do corpo e do sexo quanto na performatividade e com viés histórico comprometido com o alargamento de pesquisas de gênero é justamente o caráter reiterativo de ambos. objetivamos. em determinadas homoerótica brasileira contemporânea circunstâncias. lésbicas. inquietante. desejo. problematizar desejos. face aos rumos. De fato. em identificações de gênero. o silenciamento. trajetórias e desafios da homocultura estabelecendo o “sexo” como uma categoria normativa ou um ideal nos estudos literários . uma construção.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS materializadas nos corpos são indissociáveis das práticas discursivas. a âmbito narrativo-ficcional em consonância à configuração do tema do construção ou materialização do sexo depende da reiteração de gênero. por mais paradoxal que seja. 160 161 . Para tanto. a performatividade de gênero não se resume a apenas um único de um campo de investigação com a ficção homoerótica a qual faz ato. Sendo assim. nesse estudo diacrônico- Palavras-chave: gênero. Desse modo. de uma “literatura de subjetivação gay”. Diante disso. tenso e. perspectiva panorâmica. configurado por sujeitos da ficção que predetermina sua identidade de gênero. De acordo com envolvendo literatura e homoerotismo. não podemos dizer em vista um quadro narrativo recorrente na literatura homoerótica que o gênero seja sexo. nuançada em ambivalências pelos entendimento das identidades de gênero e suas transformações. materializando-o naquilo que parece ser natural. dos conflitos. este trabalho (projeto é. Isso equivale a dizer que é o discurso que normatiza ou invisibilidade e/ou negativização de textos de expressão homoerótica regula o sexo. Anderson Herzer. crítico. Sob esse horizonte de investigação. propondo rupturas que são importantes para o melhor vinculada à homossexualidade.

bem como as representações do labor do sexo vendido na discursiva instável (isto é. sempre em aberto. possamos ler e reler empresta à narrativa machadiana um estilo que. Este trabalho compreendem a leitura do texto literário em consonância a aspectos tem em um primeiro momento o interesse em apresentar os principais pragmáticos da realidade sociocultural plasmados na realidade ficcional. permitindo Assis constitui-se verdadeiro problema para o discurso historiográfico que se estabeleçam. Marco Lacerda e Marcelino narrativa brasileira do fim do oitocentos. da história da crítica literária. ainda no artístico do século XIX. Sublinhamos. este trabalho pretende salientar quais valores da crítica a respeito de sua obra. sempre por se fazer) da narrativa machadiana. O objetivo. obriga o leitor (crítico) a observar o seu significado discursivo dentro capazes de atualizar o significado da obra do “maior escritor brasileiro” de uma posição ideológica de contraponto e questionamento sobre o em relação aos problemas dos brasileiros de hoje.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS Gasparino Damata. que à luz de pressupostos teóricos que sempre deslocada dos discursos ideológicos de seu tempo. desenvolvimento da modernidade no Brasil. A profunda condição Felipe Bastos Mansur da Silva (UERJ) irônica de seu discurso traduz-se em uma escrita dúbia. pleno) à estrutura cenas sexuais. novos diálogos com a sua em literatura. além de originalíssimo. a narrativa machadiana estabelece um paradigma curioso em nossa literatura: é a expressão máxima da 162 163 . E é pelo recurso da ironia. João Gilberto Noll. e que. pelo conceito barthesiano) no discurso literário de sua época. ao mesmo tempo em que está Freire. negociações de performances XX suscita ideias muitas vezes antagônicas . figura de pensamento ampliada pela Palavras-chave: Homoerotismo. dominantes no século XIX. portanto. Desse modo. Crítica e interpretação (que se tornaria a identificação de seu estilo. é compreender melhor como se de seu tempo: recusou fórmulas estabelecidas e rearticulou outras. mas chegando também àquelas que se travam Machado transgrediu o projeto comum aos narradores brasileiros na atualidade. que desde o princípio do século discussão acerca das relações de poder. debates críticos em torno da obra de Machado de Assis e em relação ao este trabalho buscou processo exegético que deslindasse eixos de seu lugar na história de nossa literatura. Machado de parece dar ao texto uma força constante de ressignificação. Prostituição masculina. no gênero narrativo (contos e romances) princípio do século XX. errante e que Resumo: Reconhecido como o principal escritor brasileiro. que Machado desenvolveu uma estrutura narrativa capaz de problematizar a si mesma e de colocar a voz que Machado de Assis: o sentido de um nome narra sob suspeita. ao longo do tempo. Enquanto suas expressões lírica e são colocados em cena em alguns dos momentos de estabelecimento dramática evidenciam identidades bastante estáveis no contexto da crítica machadiana. na mesma vigentes ao fim de século. A opção por um caminho diferente à lógica medida em que o próprio conceito de cânone se transforma ao longo burguesa das estéticas romântica e realista. também. Constituição de narrativa machadiana à condição de visão de mundo do autor – parte personagens fundamental de seu estilo –. Machado de Assis no intuito de ativar novas interpretações críticas. desse modo. portanto. Ironia. fenômeno perceptível desde o princípio da formação crítica. partindo das primeiras discussões. constituição de subjetividades dos personagens.mas que sempre giram em sexuais e de gênero imbricadas no plano dos desejos entre os atores das torno do desejo de dar um sentido estável (isto é. Ao introduzir outra voz Palavras-chave: Machado de Assis. desenvolve o estabelecimento do nome Machado de Assis na condição produzindo um discurso próprio e de distensão em relação às ideias de representante maior do cânone de nossa literatura.

Resumo: A proposta desta comunicação. a “diversidade nas novas tessituras exerceu uma função absolutamente indispensável para a criação das de produção” de sentido do mundo e do Brasil a partir de literatura contra-narrativas produzidas por escritores marginalizados. Katia Regina da Costa Santos (UFRJ) inicialmente. E ao retirarmos a Tarde [14:00 – 16:00] licença ficcional. Em momento algum pensa-se em “enquadrar” o culturas e suas especificidades. é pensar a recepção dos leitores que imaginamos que teóricos contemporâneos podem nos auxiliar neste processo? É função estejamos formando na contemporaneidade – aqueles os quais do professor “eliminar” o mal-estar que por acaso se instale a partir de queremos aproximar também dos grandes clássicos – de textos que se tal leitura? Falamos aqui da necessidade de uma recepção politicamente apresentem com marcas de seus tempos. A referida pesquisa privilegia guiada? Estas são as questões que somos impelidos a examinar nesse textos não ficcionais. “Solo de Clarineta: Memórias”. negros Verissimo. também. em um momento ou outro. mediação e mobilização entre os sujeitos. periférico nas sociedades. de autores consagrados. A intenção é “ler” o Brasil do discurso histórico. que é parte de um projeto podem ser apresentadas a esses leitores para nos ajudar a evidenciar de pesquisa acerca da representação do sujeito negro na literatura que todo autor é antes de tudo um homem do seu tempo? Quais brasileira. no caso de Verissimo. e o mesmo acreditamos que possamos pensar diários e outros documentos que visam ressignificar a dita veracidade de um autor da estatura de Erico Verissimo. I e II. falamos aqui dos dois tomos que trazem as memórias do escritor Erico Palavras-chave: diversidade. Distintas canônica brasileira. relatos autobiográficos. No trabalho em questão pretendo investigar de 164 165 . os repelem? Quais justificativas. e deixarmos transparecer suas ideias muitas vezes Sessão 3 condenáveis. o que seria apenar contraproducente e maniqueísta. V. No caso. Nesse a partir de tal texto. canônes. recepção. o autor nos fala também de uma ou outra Negra. como seguir com o processo de formação de destes O lugar do sujeito negro no imaginário dos escritores brasileiros: Érico “outros” leitores que chegam às salas de aula em abundância neste Verissimo. A ideia é ouvi-los sem o “véu” da ficção. produzem autor. Em suas memórias. A mistura e apresentados – com o mesmo descaso político de seu tempo. Assim.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS SEXTA 11 de cada época a partir das memórias ou ensaios de determinado autor ou autora. eles próprios. o propósito deste trabalho é pensar a recepção contexto em que as dicotomias entre centro e margem. um estudo de caso momento do país? Como fazê-los persistir na leitura desses textos que. em um constante diálogo. principalmente. trabalho a partir da leitura das memórias de Erico Verissimo. Michela Rosa Di Candia (UFRJ) e sua descrição de tais sujeitos nos mostra que seu texto pertence a uma determinada “escola” brasileira de caracterização do cidadão e da Resumo: A visão do diferente é vista como uma ameaça ao pretendido cidadã negros – assim como alguns indígenas. o centro de poder norte-americano que representem. Stuart Hall novas formas de associação. por ele citados caráter homogêneo da nação e família norte-americana. dos povos distintos nos EUA não convergiu para a unicidade. diz/dizia que nos processos de releituras não podemos abrir mão de Povos subjugados e/ou marginalizados manifestam-se por meio de qualquer teórico ou teoria que nos ajude a entender o lugar do sujeito textos literários em seus diversos gêneros. mulher e Americanah: construção identitária em romance de ChimamandaAdichie pessoa negra e/ou mulata com a qual tenha convivido ou se relacionado. colonizador destes mesmos textos (os dois volumes) por sujeitos contemporâneos e colonizado são estabelecidas.

Para análise deste texto singular da literatura inglesa Escrever para viver coeva. Ao deslocar-se para os Estados Unidos. pela Rocco). e sua reinvenção identitária. Para tal é todos estes significantes presidem uma narrativa nada convencional preciso considerar os elementos culturais e psíquicos que se articulam sobre a morte da esposa do autor: ele conta sobre sua dor. gênero. pois ele também parece querer com outros sujeitos. Ainda. verdades. ou relatos ficcionalizados da biografia do autor. mescladas num tempo cronológico e subjetivo. um romance. juntando-se sinfonicamente para tentar descrever a dor da perda e a e esteja atento e receptivo ao mundo a seu redor. esta reflexão de Julian Barnes – escritor torna significativa na medida em que esboça os traços da experiência e ensaísta inglês cuja obra é tema de estudo de meu doutorado . as lembranças. 2011:13) mas que. eles identidade(s) que podem ser contestadas. assimiladas ou negadas em esperam e acreditam que possam expressar ideias. No entanto. ou sugerem. ora como nigeriana. A narrativa ficcional que parte do No decorrer do romance. Parto do princípio de que “a identidade Esta é a salvação deles. mesmo num Ifemelu em diferentes momentos de sua vida. um local escolhido como lar. estejam ou não devastados pelo luto” (BARNES. se pensarmos que o encontra-se em Altos Vôos e Quedas Livres (Levels of Life. e a narrativa se E o mundo se transforma”. considerando uma das exigências da autoficção precariedade. Em decorrência reinventar eventos autobiográficos e tem se mostrado um importante disso. plenamente unificada. a cultura de seu país perdas. Além disso. transformando suas experiência do luto. seu país de origem. luto são elementos instigantes que nos fornecem. lar subjetiva do homem. de Chimamanda num tempo recontado. encontramos a potência da memória. Nesta publicação de 2013 (tradução para português podemos perceber que se instaura um campo de renegociação e em 2014. pois ora é vista como campo de pesquisa literária em nossos tempos. nigeriana. na 166 167 . completa. contexto contemporâneo. segura e coerente é uma fantasia” 2013). progressivamente esfacelador da experiência Palavras-chave: identidade. na medida em que é articulado de um modo narrativo. podem ser um texto híbrido apresentado em três partes: um ensaio. e à inexorável questão da morte. porque. ela precisa negociar suas identidades. mulher e Americanah.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS que maneira Ifemelu. sabendo às diferenças de classe social. lembrando que o tempo se torna tempo humano Resumo: “Você junta duas coisas que nunca foram juntadas antes. auto-relato. uma pequena considerados um locus privilegiado do encontro entre a vida interna estória e um extrato de memória que também pode ser lido como do sujeito e sua inscrição em determinada história social e cultural. histórias. com a honestidade possível do discurso. a busca pela palavra justa e lúcida que o narrador se questione. etnia. Adichie é construída como negra. Ifemelu é ecoar os questionamentos do homem contemporâneo frente ao amor confrontada com uma realidade distinta da Nigéria. ao contrário. há resistências e tentativas de construção de ressignificações. “americanah”. a personagem vive universal para contar sobre o íntimo particular quer também recriar e em constante tensão ao transitar por duas culturas. apesar de falar de sua história. é formada na interação morta nunca aparece na narrativa. 1995). digressões em formas de partilhar com o leitor suas experiências. protagonista de Americanah. o nome da esposa (HALL. Curt e Blaine. tomamos pressupostos de Paul Ricoeur em seus estudos sobre o Mirian Gado Fernandes Costa (USP) tempo e a memória. relacionamentos amorosos de frente a passagem do tempo e diante da finitude. americana. na experiência empática da morte do outro. Stuart. amor. possibilitando a criação de que “os escritores acreditam nos padrões que suas palavras criam. de origem adquire uma nova configuração no seu contato com as parâmetros para refletirmos sobre as transformações da narração de si personagens Obinze. Memória. composto de memórias. no original). temporal (Tempo e Narrativa II.

XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS forma literária que “cria uma certa distância até do seu próprio eu. Julian Barnes. Assim. Essas obras permanecem nas salas os distribuídos no triênio 2013-2014-2015 e são conhecidos como de aula e são lidas diariamente por alunos e/ou professores. essencial que o aluno tenha contato com o texto literário antes mesmo Palavras-chave: História e Cultura africana e afro-brasileira. Os livros escolhidos para esta análise são mais variados temas e gêneros. ler eles mesmos. Cada turma recebe uma caixinha cheia de e a inferiorização da contribuição de africanos e afrodescendentes obras literárias. Educação Básica no cantinho da leitura ou em pequenas estantes ou em baús. de obras que trabalham as questões PERRONE-MOISÉS. geralmente literárias. que compreendem o primeiro. revela-se. mas professora da educação básica. com a realização desta pesquisa. Tencionamos investigar as estratégias de representação escolhidas pelos autores dessas narrativas para a Resumo: Objetiva-se. conhecida como leitura deleite. em nossa experiência em sala de aula. principalmente Palavras-chave: Literatura contemporânea. Acreditamos que é áreas do conhecimento – PNLD/PNBE”. na hora da leitura deleite ou em outro momento propício. Desde 2013. como 168 169 . contendo cerca de trinta e cinco títulos diferentes. por serem mais conhecidas e com mais atividades “prontas” para serem Ressignificações trabalhadas com as crianças. As narrativas literárias da africanidade e da afrodescendência ainda são bastante desconhecidas do público Questões étnico-raciais e história e cultura africana e afro-brasileira geral e de muitos professores que preferem não se arriscar. diariamente. O estudo da literatura. analisar as promoção da igualdade racial e da valorização da contribuição africana narrativas literárias da africanidade e/ou afrodescendência selecionadas e afrodescendente na sociedade brasileira. Acervos Complementares/PNAIC. e evidenciá-la aos professores para que não perpetuem o racismo o segundo e o terceiro ano. faz com que eles estejam acessíveis para as crianças. pelo MEC e que fazem parte das caixas enviadas para as escolas sobretudo das literaturas que o governo federal decide enviar para participantes do Programa Nacional da Alfabetização na Idade Certa todas as escolas do país. havia essa distância é a condição para a proximidade em relação aos outros” uma quantidade. na parte “ACERVOS COMPLEMENTARES Alfabetização e letramento nas diferentes inicial da aula. então. percebemos que. muito pequena. Notamos também que contemporâneo. É do primeiro ciclo e também no envio de material pedagógico para ser necessário pensar numa abordagem descolonizadora dessas literaturas trabalhado com os alunos dessas turmas. e permite religar-se ao mundo fragmentado étnico-raciais e a história da cultura africana. 2016). podem escolher o livro que será lido pelo professor ou. dos ao invés de questioná-los. no caso dos que já sabem ler. elas têm a liberdade para manipulá-los e folheá-los e. quando efetivamente começou o PNAIC. Vale nas narrativas literárias dos acervos complementares: alfabetização e letramento ressaltar que nosso intuito não é avaliar metodologias. o para verificar que histórias e que representações dos povos africanos e Governo Federal tem investido na formação continuada de professores afrodescendentes estão sendo apresentadas às crianças brasileiras. Narrativas de aprender a ler. e o fato de esses livros ficarem nas salas. práticas Sheila Dias Silva Laverde (UFMT) ou resultados do PNAIC. nessas caixas. extremamente importante (PNAIC). muitos professores preferem a leitura de obras clássicas. Infelizmente. Escritas de si.

consiste em um dos legados do pensamento antigo mais reincidentes na história ocidental. 1994). com o desenvolvimento dos campos da medicina na senda da experimentação empírica. tendo as investigações que a tomaram como objeto presenciado o nascimento das ciências dedicadas ao estudo da mente (SCLIAR.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC 07 A MELANCOLIA E SEUS DESDOBRAMENTOS NA LITERATURA: DO ROMANTISMO À CONTEMPORANEIDADE Fabiano Rodrigo da Silva Santos (UNESP) Márcia Eliza Pires (UNESP) Adriana Carvalho Conde (UFSM) Resumo: O conceito de melancolia. segundo a antiga teoria dos humores. a melancolia ocupa lugar cativo no campo das tradições médicas. tristeza e solidão seriam atributos próprios das mentes superiores e invulgares. há uma associação íntima entre melancolia e estados de inventividade genial. acrescenta a seu repertório a influência astrológica de saturno que enriquece o imaginário acerca dessa enfermidade. ao campo das artes e das atividades intelectuais – segundo o tratado. Ainda na antiguidade. pois. que levaria o enfermo ao isolamento misantropo. posteriormente. o termo melancolia torna-se inadequadamente impreciso e obsoleto para descrever uma condição patológica e positivamente verificável – isso. à prostração. da produção desequilibrada da bile negra. o tratado atribuído a Aristóteles. Inicialmente. cunha uma definição de melancolia que se tornaria cara. de maneira que excentricidade. à loucura e a uma tristeza mórbida. A partir do século XVIII. a melancolia adentra a Idade Média e nos tratados de Constantinus Africanus (BENJAMIN. identificada com o ermo e com a morte. a essa 170 171 . cujas origens remetem à medicina hipocrática. 1984). Tributária ao pensamento de Hipócrates e Galeno. conhecido como Problema XXX (1998). oriunda.

acedia. a melancolia desenvolve-se de relacionamento com a história. a melancolia já medrara com relativa autonomia e franco vigor chancela a hegemonia do ideário moderno. o romantismo representa a nos campos das artes. que. Dada sua proeminência junto ao romantismo. e a psicologia moderna adotam. que. Baudelaire acerca do tempo presente pode ser tratada como ponte entre vicejando sobretudo em solo romântico. melancolia e resistência na poesia de Baudelaire como um mecanismo Conforme se distancia da ciência. Saturno (e a envolta em atmosfera de rarefação. opacidade e dissolução. e o complexo melancólico torna-se não apenas referência para a identidade do artista moderno. carrega para os campos da o espírito romântico e o das épocas futuras. essas categorias tornar-se-ão ainda mais próximas como referência para a identidade do artista moderno. ao modo. luto. como meio de identificação de reação a esse ideário. tédio. até seu conforme se desenvolve a sociedade burguesa e. enquanto a ilustração 172 173 . Modernidade. é extirpada de suas pretensões à possuem interlocução com a proposta de nossas discussões. que. Além disso. consequentemente. a visão desencantada de acentuadamente nas artes. já presente no Problema imagética da melancolia na literatura ocidental entre o romantismo e XXX. principalmente. do isolamento como identidade. rarefeita e opaca. Alegoria. ao presenciar a falência das utopias modernas prima para uma concepção de arte hiperbolicamente subjetiva. Considerando-se a ligação íntima entre a melancolia e a configuração silêncio. encontrando correspondência criação artística todo um repertório de imagens que servirão de matéria na arte do século XX. configura uma imagem do século comum. visa comportar considerações sobre os diversos desdobramentos da A equação entre tristeza. como reconhece Hugo Friedrich (1979). precipitação. o conceito “depressão”. uma bandeira negra e desmantelada. o gênio romântico converte-se em artista maldito. pois. entediante. tratamento como mirante para avaliação do fenômeno histórico. transcendência e à sacralidade aurática (BENJAMIN. mas prisma monocromático pelo qual ele enxerga a realidade e relaciona-se com a história. desde a leitura da melancolia gênio no romantismo. o simpósio proposto muitos contributos da história da melancolia à esfera das artes. Com efeito. sempre insuficiente. que face à deflagração de fenômenos que colocaram em relevo os nexos coloca em relevo os contrastes entre o artista inspirado e a realidade íntimos entre progresso e barbárie. teatro e crítica produzidos desde fins do século ser alheado do plano utilitário da sociedade moderna. influência malsã dos astros). incursionando pelos meandros da melancolia. apenas em busca de Benjamin (1989) e Dolf Oehler (1997) reconhecem a associação entre correspondências especulativas e mesmo metaforicamente poéticas. será de grande importância para a configuração do conceito de a contemporaneidade. spleen. o artista converte-se em anátema e a arte tem em seu norte um ideal vazio. Como reconhecem Michael Löwy e Robert Sayer (1995). a própria arte. no processo a evidencia de categorias negativas e testemunhem a falência de utopias de constituição da sociedade moderna. então. Sublime. assume o estigma XVIII até o século XXI que tomem como referência a melancolia. Sensível a esses fenômenos. converte-se em motivo poético. A medicina melancolia pode ser considerada uma de suas bandeiras de resistência. utilitarismo moderno. o tédio. Enfeixando. bile negra. a uma forma de genialidade desviante e mesmo maldita. 1987) – na esfera do Palavras-chave: Melancolia. a bem dizer. vazio. sentimento de exílio e estagnação estão entre os de aspectos da identidade artística moderna. loucura e inspiração. Desse marginaliza-se o artista.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS altura. mediante uma atitude de negação e resistência. ficção. poesia.

Em sua Literatura bem como sobre a religião cristã. lutou por intermédio da palavra. é satisfatória. mas de uma importante figura que revolucionou a era dos Vivenciamos uma era de especulações e dificuldades e a evolução Oitocentos. o que seria possível através da trabalho enigmático. Crente no poder do homem em impossibilidade de o homem responder a si mesmo inquirições que edificar sua felicidade particular. Tarde [14:00 – 16:00] que com pouquíssimas palavras. presenciando a passagem do século XVIII ao XIX. Nessa perspectiva. Religião. Questionamentos Testemunha de um ínterim transicional. desenvolver na presente comunicação emitirá uma nota positiva sobre a escolha de um tema poético. não intentamos encerrar hermeticamente Natália Pedroni Carminatti (UNESP-Araraquara) um posicionamento. pesquisadores das Letras. Melancolia. diariamente. do Deus cristão.François-René Auguste racionais percam toda sua racionalidade a fim de.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS QUARTA 09 menos para aliviar as constantes provações a que somos submetidos. é o melancólico. ao da morte e uma melancolia estrutural. Ela está lá. Mal sabíamos que uma pedra provocaria tantos Melancolia e religião na literatura romântica de Chateaubriand alardes. Diante disso. a cada dia. sabemos que ela dá significado e orientação minuciosamente. a representação Não sabemos se uma resposta concludente. o tema mais poético de todos é a morte. cedendo espaço a diversas doutrinas. mas inaugurar um novo modo de leitura que se Resumo: A magnificência da literatura está em sua capacidade artística principiou com as obras de François-René Auguste de Chateaubriand. o autor francês. 4 de julho de 1848. no entanto. porém a experiência cotidiana faz com que estes utopistas Palavras-chave: Literatura. Uma notável unidade de efeito 174 175 . essa que nos tempos atuais. Não é por acaso. a impressão tida é que não se trata de mera circunstâncias em que o homem sente necessidade de voltar a si mesmo. o emprego de um tom elevado. disse o suficiente: “No meio do caminho Sessão 1 tinha uma pedra”. todavia. Chateaubriand. e o tom mais elevado fragmentou-se em tantas crenças. apesar de deísta. carece de explicações que transcendem o limite de sua insensibilidade face à miséria humana. pela defesa do itinerários distintos. cultural do homem torna-se. mas nós. assim. os estudos que nos propusemos interação de três fatores: a relação entre uma obra literária e a música. Nunca pensei que Literatura e Religião conjugar-se-iam Resumo: Em seus ensaios “The Poetic Principle” e “The Philosophy of tão profundamente. e o que experimentamos aqui apresenta um sentido e uma Marluce Faria de Melo e Souza (UERJ) determinação. substancial. que a grande maioria de seus Há na religião ou na literatura uma resposta à melancolia humana? poemas e contos apresenta um intenso rigor musical. consciência. a despeito de sua quem mais se martirizou com as ruínas e triunfos dessas duas épocas de racionalidade. período em que a França conhecia vertiginosas reformas. empenhando-se em confluir uma com a outra. sobretudo. O ser humano. pelo menos. foi fogem de seu domínio concreto. a nossa existência. convergentes a um tema axial: a homem e. de exprimir a interioridade humana. posto que morreu em Paris em são hasteados no que tange à funcionalidade da Literatura. presente em todas as Augusto no próprio nome. harmonizaram-se e isso foi o bastante para darmos início a este é produzir uma elevação da alma no leitor. acreditar de Chateaubriand que tudo tem um porquê e uma aplicabilidade no universo em que prestamos obrigações. Edgar Allan Poe defende que o propósito básico da poesia Mas. O ensejo de estudar a arte que produzimos abre arauto do passado. Composition”. coincidência. Sintoma complementar é a incessante busca do A forma e a voz da melancolia: a construção literária do efeito em sublime em entidades superiores que nos conduzem a crer que nada é Edgar Allan Poe por acaso. Portador de pretensões libertárias. Salve nosso grande mestre Carlos Drummond de Andrade. visão.

o escritor utiliza Melissa Raquel Zanetti Franchi (UNICAMP) os mais variados recursos para construir uma atmosfera que envolva o Resumo: São muitas as mentes criativas e superiores que permeiam a leitor. seduzindo-o ou — nos contos mais aterrorizantes Comédia Humana. convidando-o. assim como personagens deixam Balzac). forma visionária. a loucura é linguisticamente enunciada. é no imaginário romântico sobre o gênio. por exemplo. ainda que sucumba às armadilhas vorazes do jornalismo de impressão e se sente dominado pela atmosfera sombria. ou até pontuação e aspecto gráfico — para dar corpo à tristeza. a melancolia e a inevitabilidade da 1980). incompreendido sombrio que o cerca e procura despertar no leitor a mesma sensação: a por seus contemporâneos. por ultrapassar o homem. Composição ser chancela de legitimação para o gênio (BRISSETE. atmosfera claustrofóbica. o Cenáculo constitui um agrupamento de talentos inspira uma singular sensação: sabe-se. Melancolia estrutural. 155). todas as palavras. maneira única de compreender e sentir a existência. Bénichou (1973) afirma convidados de uma festa ao ritmo das batidas de um relógio. Quando todas as imagens.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS rege o sistema literário de Edgar Allan Poe. contribuindo para a mitificação em torno dos artistas e sua morte são literariamente construídas. assumindo a função de “julgá-la e mantê- insanidade se ergue como figura dominante e inescapável. sons. na época romântica. o leitor vira partícipe do jogo criativo e se sente atingido por a uma instância diferenciada do resto da sociedade. que se aproxima dos seria destrutivo. A melancolia. e David Séchard. sensação lúgubre não só permeia seus contos e poemas como constrói suas bases. aquele que detém dons e uma substância material que tinge cada aspecto narrativo e poético. Para tanto. Assim. propõe-se um universo. cristaliza-se a imagem do escritor Fall of the House of Usher”. No processo de constante ressignificação também são retratados como poetas sofredores. uma obra de Poe. Em “The que. — até forçando-o a participar de sua realidade. Ao leitor apresenta-se mais A representação do escritor e a melancolia em Ilusões Perdidas do que um tema. são mártires de sua missão. que se trata de e virtudes dedicados ao sacerdócio artístico e científico. a benesse da genialidade. seus membros. 2005/2008) e sua narrativa. Construção sonora infelicidade torna-se critério de identificação entre os pares. Uma história (antro dos “anjos caídos” e talentos literários desperdiçados. o pensamento. de adjetivos negativos e as aliterações pesadas conferem ao texto uma pois apontaria para uma cisão entre homem e gênio (McCORMICK. traria narrativa. musical configura a imagem da própria Morte. 20). o narrador se sente sufocado pelo ambiente melancólico. numa dinâmica entre “incompletude e abundância de vida” (DIAZ. os inúmeros símbolos de deterioração. 176 177 . segundo deixa de ser apenas uma história. isolado. Consequentemente. a profusão Tissot em 1768. que envolveria perspectiva elementos textuais disponíveis — sejam eles imagens. imediatamente. de aparência frágil e doentia. que se dedicou a invenções tipográficas. por assim dizer. A caracterização uma dor ou uma inquietação universal. na obra de Poe. Os sofrimentos do escritor passam a Palavras-chave: Unidade de efeito. o leitor percebe a unidade de Rubempré. consigo um lado negativo: o fardo de elaborar os anseios humanos Em “The Masque of the Red Death”. Procuramos demonstrar como Poe faz uso de todos os Nesse contexto. cuja “saúde” já fora investigada por descrição do espaço. É nosso objetivo investigar a desses personagens ligados à atividade criativa é fortemente ancorada construção dessa unidade de efeito. Sua inspiração criativa seria de cunho diabólico. 2007). todos os acostumados a uma vida de miséria. A talentos extraordinários que estão acima de seu controle e arbítrio. Lucien movimentos contêm o mesmo núcleo criativo. associação com a insanidade. tamanho o fascínio de Balzac pelos homens de gênio. de ser apenas personagens. ganhando forma e adquirindo voz. de modo que a frente da sociedade” (p. os escritores passam a se situar “acima e à Tell-Tale Heart”. Já o início dos textos Em Ilusões Perdidas. a narrativa altamente e de guiar e dar sentido à sociedade. como se pertencentes poética. Já em “The la” (p.

fruto perda da noção de origem e identidade. No início melancólico. ela nos aponta os desafios como é trazido por Agamben. em direção a um indeterminado da combinação entre boa disposição de humores e temperamentos que não se esquiva de olhar o escuro de sua própria época. como o discurso necessário para o encontro com a verdade. propiciando a transgressão da moral (RIVAS. 1986). posta Benjamin. bem como sua oposição à figura do burguês. Balzac em questão. a ideia de que aos gênios é escusada a quebra das regras novas traduções possíveis e transitórias para os impasses de seu tempo. para o passado em busca do que seria o desastre original: o trauma arte e insanidade.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS Aristóteles já correlacionava excepcionalidade e melancolia. Giannetti põe em questão a impossibilidade parrésica. Essa condição – não transitória – e suas figuras oferecem um campo de investigação que se desdobra culminaria na capacidade de viver em um “registro emocional mais na arte e na ética da tradução. 2007) em Ilusões Perdidas (1837-1843). Melancolia. em crescimento à época (BOURDIEU. genialidade. a melancolia como paradigma para frente a um evento chocante. através da teoria de Walter presença virtual da morte e sua consequente naturalização. firma-se sobre um texto estruturalmente melancólico e A revolução de melancolia: a vida após a ruína delirante e sobre a trama que envolve a)a melancolia e b) o estado de Lívia Santiago Moreira (UNICAMP) sítio da subjetividade da protagonista (jornalista. familiarizada com a Resumo: Neste trabalho iremos pensar. A melancolia (eucrasia) e excesso de bílis negra. maneira a melancolia se configura nos âmbitos temático e estrutural estabelecendo relações com o contexto histórico de produção da obra da obra. sobre uma tendência da ficção contemporânea de se voltar durante o Romantismo – da associação entre melancolia. A linguagem melancólica de Lugares que não conheço. Resumo: O trabalho propõe uma leitura de Lugares que não conheço. Water Benjamin. que. procurando justificar o impacto de tal recurso. o exilado e o tradutor como aqueles que se encontram na do século XIX. e com a tradição – existente desde a Grécia Antiga e cujo ápice se deu para tanto. 1996). contribui para a formação da boemia (SEIGEL. Ao valer-se de uma linguagem que subverte a própria o mundo pós-histórico. Assim. tal Entendida no contexto contemporâneo.Ética da pressuposto de que a classe artística não funciona segundo a pragmática tradução utilitária da sociedade capitalista e burguesa. Esse “não pertencimento” às engrenagens sociais. Ainda pensando segundo Agamben. de Cecília Giannetti. pessoas que nunca vi. é exposta a distância entre o real e a o surgimento de novas formas de subjetivação e engajamento com representação). que compreende também os literatos vinculados à imprensa literária. 2012). que é construída a partir de um evento traumático pessoal. sociais ganha força. construídas a partir da “falta de fundamento” (Bodenlos) e da faculdade de dizer. compondo artístico. sob o Palavras-chave: Melancolia. Debruça-se. Vilém Flusser. que repercutiu nas angústias da contemporaneidade. a narrativa Palavras-chave: Representação do escritor. é o anacronismo 178 179 . A incomunicabilidade do texto delirante que se colocam para a reinvenção de novas ficções possíveis de serem traz a tona o fracasso da linguagem naquilo que é confiado a ela: a habitadas. Freud e Vilém Flusser. Assim. é escopo deste trabalho investigar a representação dos escritores e pessoas que nunca vi. Propomos uma aproximação entre o amplo”. do encontro do Eu da subjetividade moderna com a linguagem. de Cecília Giannetti expressa principalmente pela peculiaridade do modo de vida dos Clélia Precci Pereira Pachiel (UFJF) artistas. A melancolia aparece aqui na sua dimensão expressão semântica. quando se inicia a consolidação do campo literário e vanguarda do mundo globalizado do capitalismo avançado. a fim de investigar de que suas cenografias autorais (DIAZ.

mas também em “O Manhã [09:00 – 11:00] cão de Dürer”. com a leitura que Agamben faz de Freud. rationalis ou mentalis. a fim de fazerem presença. assim. Klibansky. O conto parece elaborar uma decifração Hipócrates. bem de melancolia: imaginativa. que atribui a condição do melancólico à produção pelo da gravura e. é justamente através de patologia e situando-a na natureza”. xilogravura renascentista produzida por Albrecht urbano. Também incontestável é a influência pessoas que nunca vi. como passa a desconstruir sua relação com o coletivo e com o espaço surge Melencolia I. Lugares que não conheço. baseia-se em anterior estudo de estado de espírito melancólico. a vida criativa dos homens. conto recolhido em Caligrafia da solidão (2006). justamente quando Cristina rompe com suas estruturas e está em surto. Fundindo uma narrativa da ausência e da incomunicabilidade que o romance de esse documento ao neoplatonismo cristão. recorrendo à astrologia ao atribuir o se. ambos a sugerir. segundo Julia Kristeva. Aristóteles observa empiricamente a relação há uma ansiedade dos autores em se localizarem em seu momento entre esse estado de espírito e a excepcionalidade intelectual do histórico. Palavras-chave: melancolia. sintoma à influência de Saturno. não lhe é inerente. creditando à bile negra de estética realista. empreende notável interpretação da gravura como leitura que mais se aproxima de estar consciente. em que a obra de Dürer comparece. tratados sobre a melancolia. Portanto. aborda o de Agrippa — à sua teoria. Marcelo Pacheco Soares (IFRJ) semelhante à figura central düreriana (uma inerte figura alada) até o cão Resumo: Problemata XXX. o 180 181 . No entanto. contemporaneidade. estabelece após o evento traumático. Para além da menção do gravurista no título. diferente das narrativas de combate. apurando a tese de a fim de refletir acerca do estado de melancolia que Cristina. em Saturno e tema da violência enquanto estado de consciência. da personagem feminina. descrevendo três Espera-se. imagística do texto ficiniano. Essa obra de Dürer será analisada por Walter Benjamin sistematização. o que pode levá-los a temas caros ao período e às narrativas indivíduo (melancolia como mal dos heróis). que ela alcança níveis qualitativos que o homem genial alcançaria em virtude do grau esse estado quando “perde” a identidade que acreditava ser sua. a nível temático. a Verdade hipocrática a causa dessa genialidade. atribuem o significante I. em Estâncias. na postura e imobilidade. alusão à citada melancholia pauta as aflições sistematizadas e a reflexão em torno dos processos de imaginativa.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS da fratura entre tempo e história que caracteriza o contemporâneo: organismo da atra bilis. trauma voltando-se sobretudo aos séculos XVII a XIX. um conto melancólico de Maria João Cantinho várias evidências corroboram essa presença. QUINTA 10 resultando em trabalhos acadêmicos diversos. em que também relaciona à melancolia não pode dizer porque não coabita o sujeito. Agrippa von Nettesheim chega a conclusões análogas partindo protagonista da obra em questão. Panofsky e Saxl. Conta. poder defender. uma vez que todas essas relações são fetichistas. Mais tarde. “extraindo a melancolia da do tempo presente parece inalcançável. em 1903. também. Esse ensaio benjaminiano foi objeto de pesquisa da escritora portuguesa Maria João Cantinho. um dos primeiros de olhar perdido no infinito. nos 1920 em investigação da melancolia no drama barroco alemão. “O cão de Dürer”. Nossa Sessão 2 investigação debruça-se sobre a poética dessa narrativa. a Ficino. atribuído a Aristóteles. trazendo para a a melancolia. Marsiglio Ficino desenvolve Giannetti parece pretender fazer presença e comunicar: A linguagem no século XV De vita triplici. Assim. Nesse contexto. mais do que encaminhar ao interior da imagem. do tratado aristotélico em De occulta philosophia. é Dürer após presumível contato com a tese de Ficino — Karl Giehlow.

funcionar como base de uma enunciação literária cheia de contornos na qual todas as diversas artes se unificam sem resíduos”. embora um objeto. Produção de presença. que é. usamos o conceito de Paulo Geovane e Silva (FACISABH/Universidade de Coimbra) memória estética do crítico Mário Praz. verificar de que maneira a melancolia se associa à pesquisa reside na concepção de que o discurso da autora-leitora é incongruência e ao questionamento social e ocasiona a geração de constituído pela visão moderna de melancolia. o estudo revisitará as noções Centrada no desenvolvimento do poema em prosa. retórica essa filiada às líricas Resumo: A relação com o passado e o sentimento de inadequação de autoras lidas e traduzidas pela escritora carioca. tem se dedicado à escrita de segundo o qual. não parece deixar transparecer mais um discurso melancólico que parece por ação dos sentidos e sim da memória. entre melancolia. capazes de apontar novos caminhos estéticos. o da mulher. Para tanto. este trabalho buscará Praz. “em si mesma. Assim. Pretende-se. resgata pensamento do filósofo Antonio Russi. de Dijon para debater a aproximação. atualizando as próprias discussões de uma esteticizado na palavra e perspectivado a partir de um olhar tão próprio: representação hodierna da melancolia. estudando o paralelo entre Resumo: Relativamente nova no cenário literário moçambicano.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS protagonista empreende viagem para dentro de si. pois a expressão de uma arte não é assimilada pelo emprego desenvolve nas artes plásticas. trabalhada por Baudelaire e Poética posteriormente fermentada por Rimbaud. relação de Aloysius Bertrand com o passado e a atmosfera gótica Palavras-chave: Melancolia. O estudo parte de constituem alguns dos principais e mais comuns impulsos na busca uma imagem caleidoscópica presentificada pelas reverberações poéticas por originalidade e revitalização da forma poética. aos sentidos da Lica Sebastião e a melancolia do olhar obra em sua memória. ironia e dissonância. O pressuposto da diante disso. parte-se da de autoria. o mesmo não ocorre e plástica. assim. pintora e poetisa. deixa ver uma lírica irradiante humanos. que. entre poiésis e sujeito sensível. possa ser percebido através dos outros. de Emily Dickinson e Sylvia Plath na obra de Ana C. Dürer. Procura-se debater. cada arte reside em todas as outras. Literaturas africanas de Contemporânea língua portuguesa. Nessa memória é que o protagonista busca sua leitura da gravura demonstrar em que medida a melancolia. contorna um lirismo próprio do discurso feminino. Lica simultâneo das demais. Contudo. Caleidoscópio. na ausência de um dos sentidos versos em que. conforme femininos. Sebastião. Interartes. achegando-se à lírica de e então produzimos nossa leitura desse conto que agencia uma re. Lica Literatura e Artes Visuais. que remonta às relações obras dissonantes. Lica Sebastião. Arte. não apenas o modo como a melancolia contribuiu para a busca por originalidade e ultrapassagem 182 183 . significação de Melencolia I.. autobiografia e produção de presença. na palavra poética. Assim. cheia de mulher e de mulheres. tal como preconiza também o trabalho que a escritora na Arte. de um modo ou de outro. Resumo: Este estudo propõe a análise de uma retórica da melancolia no João Tavares Bastos (UFRJ) livro Poética (2013) de Ana Cristina Cesar. Lica Sebastião. Palavras-chave: Melancolia. Para entender o processo. professora. escrita de si. literatura de autoria feminina O caleidoscópio de Ana Cristina Cesar: uma retórica da melancolia Melancolia e dissonância: conexões entre a revitalização poética e a Leide Rozane Alves da Silva (UnB) marginalidade literária. Literatura Portuguesa Palavras-chave: Melancolia.

morrem. O conceito de ironia: constantemente representação e a natureza da “amada morta” e o modo como a arte 184 185 . De Baudelaire jusqu’à espécie de ressurreição Interessa-nos desvendar como se processa a nos jours. mas como ela frequentemente emerge referido a Sócrates. de alguma forma. femininas que. Supõe-se.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS das formas e regras clássicas. o gótico e o grotesco. Poema em prosa. preenchendo espaços e fazendo-se suportar pelas diversas particularmente apreciados pelo Romantismo: a melancolia e a ironia. encontra-se marginalizado objetiva e subjetivamente. porém transformações da organização social continuamente estimulam a obscuro. que a análise se centrará nas obras O Gaspar da noite: fantasias à verdadeira obcessão no personagem masculino. por seu corpo. Paul Sartre para sua fundamentação. de Aloysius Bertrand. numa territoires. a personagem social dos literatos repercutiu na produção literária. de Suzanne Bernard. a associação descrição das Musas da Mitologia. de Søren A. As abertura de novas fronteiras para o pensamento e para o belo e. ambientado em e a complexificação da realidade. 79) “existem no fio narrativo. característica com a qual o cineasta assinala seus filmes. seus dentes. desenvolvendo fim. inspirado em um conto russo do século XIX. que a conjugação entre a melancolia e a dissonância configura que inexplicavelmente adoece e definha até que uma única parte de um dos mais fecundos caminhos para a originalidade. o posicionamento marginalizado 2005. segundo Jean-Paul Sartre. Baudelaire. um fetiche. Berenice. que aparece em A Noiva Cadáver. Ela é uma maneira de Rembrandt e Callot. demonstra que os escritores desenvolveram Bertrand. Kierkegaard e Que é literatura?. Trata-se de figuras pequenos poemas em prosa. de Laura de faculta o contraste entre as estratégias de inovação dos autores e. de Jean- em situações de marginalização e dissidência. permite indicar como a modificação do posicionamento político. A Resumo: A presença constante da “amada morta” nas histórias de descrição da adoção de alguns dos principais móveis românticos por terror. assim. Elegemos Emily. depois. em períodos de tensão e ruptura. Pressupõe-se. permanece intacta e saudável. Le Poème en prose. Esclarece-se. se faz acompanhar do questionamento ou repúdio do tempo ou da Bertrand condição corrente. que a adoração ou reverência nostálgica ao passado frequentemente Palavras-chave: Literatura Comparada. geralmente assassinadas de Arthur Rimbaud e contará com os textos Le Poème en prose et ses ou acometidas de doença ou loucura. para tanto. desde os mais diversos forma ígnea é costurada através da congruência entre dois motivos lugares. do conto homônimo de Edgar Allan Poe (1835). Compreende-se. como a melancolia. de Beatriz de Dante. em Que Adriana Carvalho Conde (UFSM) é literatura?. propicia que se verdadeira obcessão pela representação do corpo inanimado das delineie uma linha de desenvolvimento dessa mistura explosiva e se mulheres em suas narrativas. A Dama Morta ocupa um lugar disso. e As iluminações. A abordagem trata cadáver de Tim Burton. p. reflexões se concentrarão na interface entre o a personagem mórbida e exigem a renovação e a revitalização expressivas. Egeu. Cultua-se a representação da mulher morta desde a Cristalizada através do conceito de spleen baudelairiano. as quais. A conexão entre os precursores dessa (2006. além Petrarca e de Julieta de Shakespeare. e que. O Spleen de Paris: lembrança obsessiva que o atormenta e assombra. em um cenário romântico. segundo Ruth Silviano Brandão alcance as delimitações e usos desses motivos por Baudelaire em seu em Mulher Ao Pé da Letra: a personagem feminina na literatura manuseio do poema em prosa. nesse sentido. de Yves Vadé. retornam. de Charles Baudelaire. que as uma fictícia Inglaterra Vitoriana. nos anos 1800. vazio e produz uma ilusão. personagem portanto. personagens”. filme de ainda da relação entre a melancolia. faz com que esses sentimentos se associem e particularmente se destaquem The dark lady: A “Amada Morta” em A Noiva Cadáver de Tim Burton em situações nas quais o literato. Algo que.

Aqui é importante lembrar que Darío de uma bela mulher é. Para o ‘príncipe das letras castelhanas’ a melancolia p. paradoxalmente. A melancolia”. o tema mais poético do mundo” tinha uma visão aristocratizante da condição e da função do artista./ ¿No oyes caer las gotas de mi melancolía?” Neste como a (expressão da) manifestação da condição marginal do poeta terceto final o poeta nicaraguense Rubén Darío (1867-1916) sintetiza numa sociedade que o condena. Na nossa proposta. O terceto referido inicialmente Tarde [14:30 – 16:30] faz parte do poema “Melancolia”. Elizabeth Bröfen. Isto como a única alternativa possível imagens são arquetípicas e reverberam um imaginário que ultrapassa os para a arte de enfrentar a massificação e o utilitarismo próprios do limites do tempo e do espaço./ cargo lleno de penas lo obra do padre de Modernismo de maneira genérica . como reconhece o poeta mesmo. elucidarmos a atuação da “amada morta” nos filmes do cineasta e sua Assim o expressa em muitos de seus poemas e seus contos. e o poeta. Para Darío. Poe (2006. visão segundo a qual a criação poética é um processo complexo. Musa. Cristina Léon Alfar. pelo que o artista acaba sobre a mulher e o gótico fornece a chave interpretativa a fim de relegado ao isolamento. estes poemas (ou cantos de vida e esperança) – e a Resumo: “Y en este titubeo de aliento y agonía.548) declara em The Philosophy of Composition que “a morte. o mais relação com a literatura e outras artes. ideia é interessante não só porque propõe a estética como origem de Palavras-chave: Rubén Darío. Mas. sem dúvida. no começo de outro poema). Ruth Silviano Brandão. também porque parece ir na contramão daquela visão biografista que a de “mulher morta como musa”. por versos” diz. As personagens tanto se aproximam entre si quanto dos padrões exigente. de Dário de Jesus Gomez Sanchez (UFPE) maneira específica.podem ser lidos que apenas soporto. “lleno de ensueños y loco de condenada à insatisfação. da criação artística. à marginação social. fazem parte do livro “Cantos de vida A melancólica esperança de Rubén Darío e esperança. só consegue viver produzindo essas gotas de melancolia. pois. Focalizaremos os conceitos de Catherine processo de modernização nos finais do século XIX e começos do Carter. “Cantos de Vida uma ética (“Ama tu ritmo y ritma tus acciones/ bajo su ley. conto do livro Azul (1888). e cujo resultado não é outro que “gotas de armonía”.e quase que a condição necessária - dos dois artistas há um casamento de ideias e convenções. Modernismo. tal poesia elaborada Monica Germanà. Gótico. século XX. à agonia e à melancolia.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS projeta a imagem do corpo inanimado da mulher. num tom mais exaltado. Anne Williams cuja sobreposição entre os estudos não tem possibilidade nesse contexto. Los cisnes y otros poemas” (1905). Dark no qual um arrebatado e faminto poeta é condenado pelo particular monarca a guardar silencio e tocar uma inútil caixa de música até morrer QUINTA 10 isolado num jardim do palácio moderno. asi como tus y Esperanza” 186 187 . que junto com “De otoño” e “Lo Sessão 3 fatal”. mas meio de suas personagens femininas invocam um tema de longa data. Poe e Burton. é o resultado do fazer poético. a arte em geral e a poesia a ideia de que seus poemas são o produto de uma alma sonhadora em particular seriam uma esperança que não alcança. conforma um conjunto de Noturnos impregnados de angustia e desengano que. Palavras-chave: Tim Burton. demonstrando o fascínio suscitado pela figura da “amada morta”. que se manifesta na elaboração formal e na diversidade comumente difundidos pela literatura tradicional e pelo cinema cujas cultural de seus referentes. indício de que no processo criativo encontra na melancolia a origem . paradigmático tal vez seja “El rey burguês”. Melancolía. uma busca aprisionada pela poesia.

Em seu ensaio “Sobre a solidão” Michel o mistério da existência. o qual. o fazem com uma aguda (e aparentemente “nova”) consciência modo que a ação. demonstrar o que se diz a partir da distração ocasionada pelo contato costumeiro com o outro. sublime. integrante da delineamento da moderna sociedade capitalista implicaram a falência obra Faróis (1900). e com afável tom de melancolia. uma espécie de Resumo: As presentes considerações dedicam-se à relação entre o relação de luto com o ideal. no contexto elucidado. Embora tais poemas versem sobre temas inserido se dispõe às elucubrações da esfera da subjetividade. 2011). a ausência do norte da idealidade. como se pretende como o triunfo da razão instrumental. foram objetos da dicção sublime do romantismo. Busca-se.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS O céu está morto: melancolia. curvado sob as pressões históricas. estaria leitura de poemas emblemáticos do momento de transição entre a mais facilmente disposto a experimentar a existência de maneira poesia romântica e a de feitio moderno. como a ânsia por elevação. posto que tal integridade está intimamente vinculada de Gerárd de Nerval. tão sensível ao complexo da impossibilidade. dentre eles a decadentismo. de Charles à busca do convívio consigo mesmo. modernidade concepção da obra de arte aurática e a utopia. reflete sobre a constatação de impossibilidade. por assim dizer. cenários solitários. alegoria. nitidamente. que esbarra frequentemente no silêncio e na na poesia decadentista sondagem do inominável. pois. Parte-se da perspectiva de que certos fenômenos históricos. consequentemente. na poesia de Cruz e brasileira. que resulta numa dicção poética elíptica em que inextricável do estar no mundo. de ideias norteadores da cosmovisão romântica. motivo da melancolia e a crise da idealidade observada na poesia revela-se como instância fantasmática. 1857). Ampara-se. como “El desdichado” (1853). “Spleen” (Les Fleurs du mal. via sugestão. a Palavras-chave: melancolia. Aquele que estivesse pelo complexo ético e estético convencionalmente designado por acompanhado da ausência dos estímulos exteriores. parecem Valéry. Michel de Montaigne e Cecília Meireles: um encontro entre duas em grande medida. “não temos qualquer meio para atingir exatamente em nós o encaminhar a poesia da segunda metade do século XIX a uma linguagem que desejamos obter” (VALÉRY. 1887). a revolução industrial e o demonstrar mediante as considerações do poema “Tédio”. consciente de si mesma. na hipótese de que a dicção Fabiano Rodrigo da Silva Santos (UNESP) poética elíptica pode atestar. Com efeito. tal consciência se inscreve. o sujeito neles de Stéphane Mallarmé. aqui. elementos esses que. Os tradicionalmente românticos. da qual se pode aproximar romântica tardia européia e cujas ressonâncias se fazem sentir no apenas indiretamente. três pilares do ideal gera uma poesia matizada por denso sentimento de luto em relação ao ideal que trai as origens Resumo: A solidão sempre atuou como motivação para o históricas de temas e procedimentos característicos da poesia enfeixada desenvolvimento do olhar contemplativo. como o mito. de um cantinho em que seja possível o constatação da impossibilidade de transcendência e a distância entre os acesso à parte da genuinidade da essência – já que. Segundo Montaigne. Sousa. O silêncio constitui os plácidos Baudelaire e “L´azur” (datado de 1864 e integrando Poèsies. No contexto do simbolismo simbolismo francês e. isto é. o vislumbre 188 189 . mais íntegra. a uma arrière-boutique. solidões A consciência do triunfo dos imperativos da modernidade sobre Márcia Eliza Pires (UNESP-Araraquara) esses. crise da idealidade e a dicção do sublime cada vez mais enigmática. como assevera recursos de expressão disponíveis e a realização poética plena. a crise metafísica e o vazio se fazem sentir no de Montaigne (1533-1592) convida o leitor a manter-se ao abrigo de plano da expressão. a melancolia e universos internos e externos põem-se em constante confluência de o tédio. na poesia simbolista brasileiro.

existente.9). também em Buenos Aires. 2016. ou protagonista descobre em si mesma uma mesma fé. tomamos nosso trabalho volta-se por observar como a solidão é premente a essas a crônica “Terceiro instantâneo de Buenos Aires”. do primeiro enquanto filósofo. o estilo do ensaio. buscando demorar-se pelas horas e espaços ermos. os aspectos da segunda na qualidade de texto que faz parte da coletânea de contos América do Sul: Traição escritora. da escritora contemporânea japonesa Banana Yoshimoto. em que a melancolia é a a esfera subjetiva e exterior. e o conto “O fundamental. calor. segundo Rushdie (1992) “como um presente que remete ao estrangeiro. Adotando. não apenas climático como também humano produzem hábitos e por vezes. Na crônica. (GAGNEBIN. 25).236). Enquanto ela se depara tema comum é a melancolia de estar em espaço estrangeiro. Michel de Montaigne. o objetivo de espaço estrangeiro na formação do indivíduo contemporâneo. por não dominar o idioma latino. Por meio da comparação entre o ensaio base para essa reconstrução mental. crônica pertencente à obra Escolha seu a melancolia gerada pelo afastamento do ambiente de nascimento sonho. Sobre o com uma cidade tão cosmopolita como tantas outras do oriente. a narradora. podemos entendê-la como algo distante. como única oportunidade de sobrevivência e reconstrução sensações que ela só percebe estando em espaço estrangeiro. ou “impulso de sentir-se em casa em toda a parte” eu. que ceciliana estabelece com o meio externo uma relação inabitual: seu formam um” (p. e outras viagens (2000). Em ambas as obras o auto 190 191 . Em outras palavras. a solidão perfaz os traços de cada autor: as peculiaridades telefonema”. Ambos os textos tratam do deslocamento Palavras-chave: Cecília Meireles. mas também prescinde do reconhecimento de uma plateia que não seja o próprio como nostalgia. Solidão das personagens de sua terra natal para ambientes estrangeiros. No conto para um futuro. onde o Resumo: No momento no qual o espaço estrangeiro tem sido visto. (LUKÁCS. Para expor de forma mais clara essas situações. de Banana Yoshimoto. por com que a noção de correspondência promova o espelhamento entre vezes a reconstituição de uma infância perdida. em uma névoa de tempo perdido” (p. também. se entender em meio a esses dois espaços. a solitária voz (1995) “só poderia ser bem sucedido com os dois (ambientes). e “a existência de um verdadeiro país natal torna. de Cecilia Meireles. uma japonesa que está viajando a se problemática. ela naturalmente compara o que vê à sua terra natal. Embora impressionada pela efervescência Joy Nascimento Afonso (UNESP-Assis) cultural. tanto politicamente quanto existencialmente” trabalho. a voz enunciativa da cronista propõe configuram um novo individuo social construído em dois mundos: o pensar sobre o anseio da liberdade do ponto de vista da escolha em ambiente nostálgico da juventude e o ambiente estrangeiro. ainda que este lar perdido esteja em uma do outro: a autossatisfação mostra-se autônoma na medida em que cidade perdida. p. no povo argentino ao ir visitar uma igreja. que segundo Jean Améry cercada pelas representações que os objetos evocam. 2002. duas obras caracterizadas pelo intenso teor metafísico.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS da liberdade dá-se a partir da conquista de si em total desprendimento e que o passado é o lar. A natureza humana também é sondada por Cecília Meireles (1901. a narradora. Exercendo papel pertencente à coletânea Crônicas de Viagem (1998). a olhar sensível e perscrutador alcança o íntimo dos objetos fazendo literatura contemporânea de viagens busca um retorno ao passado. propomos a análise de dois textos cujo contrata um guia com ascendência nipônica. Consonante a Montaigne. A fim de verificar a melancolia em de Michel de Montaigne e a crônica de Cecília Meireles. a conceito de terra natal. 101). uma brasileira de viagem a Buenos Aires descreve Melancolia e distâncias aproximadas em Cecília Meireles e Banana as suas sensações e expectativas diante da cidade que oferece vários Yoshimoto tipos de atrativos culturais. a saudade do país natal e 1964) no texto “Da solidão”. p.

os romances ao espaço estrangeiro conscientiza as narradoras não apenas de sua de Sabino e de Cyro dos Anjos. trabalhar a hipótese de que a literatura mineira teria. Melancolia autores em seus textos e a realização de uma cidade grande. dessa forma. Para analisar a unicidade desses discursos. semelhantes dentro desse caráter. Melancolia. Banana em suas raízes: o conflito entre uma lógica provinciana. a segunda fase modernista e a Ditadura transmitir a experiência vivida. as especificifidades de do mesmo período. Belo Horizonte. um em três recortes temporais do século XX existencialismo feroz e. os momentos instaura a melancolia na perspectiva das vozes que narram. apontada pelos Yoshimoto. Pretendemos memória e a tradição. muitas vezes. A rede de textos que são muitas rotular obras e identificá-las dentro de um determinado momento vezes colocados como semelhantes por serem de um mesmo período histórico. diferente das outras correntes de pensamento rotulação contribuem para que. uma uma vez que a assimilação dos processos históricos e sua continua linguagem específica. Para isso. procuramos demonstrar como se da sociedade ao homem. caçador de mim: a peculiaridade das produções culturais mineiras necessidade de narrar as inquietações inerentes à condição humana. reflexões que integram o cânone nacional e um conjunto de canções considerado sobre a importância e a especificidade do olhar da literatura e da cultura representativo de um imaginário mineiro moderno. São exemplos dessa forma de produção a prosa memorialista de Pedro 192 193 . uma melancolia que é comum Denise Ribeiro Frade (UFMG) à prosa urbana e mais comum ainda dentro das produções culturais Resumo: A presente comunicação tem o objetivo de discutir a mineiras. voltada para a condição do indivíduo e de suas dores. talvez. Há nas produções em destaque uma Eu. destacando-se. Memória até a década de 1980. almeja demonstrar características da produção mineira frequentemente consideradas intrínsecas que privilegiariam. os versos de Drummond e os do Clube da Esquina. tomando-as atravessam três períodos marcantes para a história nacional: a como modo alternativo de construir conhecimento sobre o passado e primeira fase modernista. a sobreposição (1989) e Giorgio Agamben (2007). com todos os problemas da vida urbana. como é ambos os textos. trabalharemos.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS descobrimento de uma terra natal. possibilitando. ao invés de alegorias e recursos mais panfletários. A análise que compreende o período entre a década de 1920 Palavras-chave: Mineiridade. A questão da história também deve ser debatida. políticos brasileiros. pretendemos pensar em quatro autores mineiros histórico pode ser reanalisada. Correntes essas que serviram muitas vezes para cada discurso não seja observada. Militar. de certa forma. em textos que sobre as experiências decorrentes de eventos históricos. peculiaridade das produções culturais mineiras canônicas estabelecendo à luz de teóricos como Walter Benjamin. traz uma dicotomia Palavras-chave: literatura de viagem. mas principalmente de quem elas são. questões concernentes à comparativos entre diferentes formas do mundo cultural. especialmente à luz das ideias de Walter Benjamin comum nos romances que retratam períodos históricos. especialmente. gerado pela melancolia frente Nava. Cecilia Meireles. entre outras produções que se focam solidão. uma expressão mais existencialista. Os discursos que são produzidos pelos artistas mineiros de repercussão nacional são. principalmente. em sua temática. Por meio da análise de na interação do indivíduo com o mundo ao invés de mostrar.

a perspectivas teóricas. na sua mistura de linguagens. diferentes percepções e a necessária reflexão sobre a múltipla atividade sensorial do leitor/espectador/ouvinte. afetaram a cultura Ocidental e certamente provocaram escritores. mudanças de comportamento coletivo e desenvolvimento de um novo ambiente de que a escrita e seus suportes participam. o alfabeto fonético e a escrita. ou veladamente evidenciavam. diferentes linguagens. jornalistas e colegas de ofício acabou criando uma pauta de questões recorrentes que. em seus processos de funcionamento e de cíclica predominância.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC 08 A SUPERAÇÃO DE LIMITES NA OBRA DE OSMAN LINS: DISSIPANDO A CEGUEIRA ANTE OS HIERÓGLIFOS QUE NOS CERCAM Leny da Silva Gomes (UNIRITTER) Elizabeth de Andrade Lima Hazin (UnB) Resumo: Pensar as textualidades contemporâneas conduz de imediato às práticas textuais que abrigam. Críticos demonstram estar atentos a elementos formais. aproximando-se. como Osman Lins. agregada aos estudos literários do Autor e às incursões metaliterárias em suas narrativas. Alguns textos – entre eles a obra de Osman Lins – se realizam no suporte livro em processo de superação dos limites próprios das páginas impressas. a palavra impressa e as mídias eletrônicas. nas provocativas reflexões metaliterárias e nas inusitadas estratégias compositivas. a temáticas habilmente selecionadas que sinalizam. 194 195 . Naturalmente interligados. num mesmo espaço. na obra do autor. O diálogo estabelecido entre Osman Lins. é indicativa de caminhos a percorrer para um trabalho de compreensão não só de sua obra. envolvidos e comprometidos que eram em questões que exigiam uma percepção além da que as mídias de massa veiculavam. ao domínio da hipermídia. mas também de sua época.

que se reflexão teórica sobre a narrativa. e avança um pouco com motivadas pelas tecnologias da informação que provocaram um olhar a pesquisa acadêmica. fluxos. Com efeito. em seu romance Avalovara (1973). encaminhamos este simpósio para mesmo da leitura de sua obra. por Palavras-chave: Osman Lins. Sua fascinação pelo amalgamada a outras. ainda incipiente. trazendo à tona aspectos como o peso acolher estudos sobre a associação da obra de Osman Lins à sua da biografia do escritor na sua ficção. levando em conta suas estratégias textuais e as relativos à escrita criativa. propensa a fusões. a qual se nutre sobretudo dos livros iniciais. um escritor que inventa A escrita unificadora de Osman Lins sua própria teoria. própria do início entre literatura e contextos. do primeiro momento. “abre-se aqui um novo estágio na crítica osmaniana. conservados nos arquivos representação da plenitude de seu fecundo engenho espiritual. 196 197 . Por fim. Ana Luiza Andrade escreve um depoimento sobre a trajetória evoluir da escrita e suas leituras sobre os suportes da escrita e sobre a da fortuna crítica osmaniana. a influência que teria sofrido do visão em relação ao seu tempo e às práticas da escrita literária e Novo Romance francês e a orientação seguida por seus romances e não literária. a partir da década de 90 do século XX. entre a projeção precursora de uma textualidade que se firmará no sobre o ato da escrita. à grandes momentos dessa trajetória: o primeiro. Tais palavras tornam clara a importância de perseguir em Resumo: A comunicação pretende apresentar e constatar a concepção profundidade o pensamento teórico de Osman Lins na tentativa de de arte e de literatura de Osman Lins. 50). Crítica. ao desvelamento das infiltrações caracterizaria por constituir-se em crítica desbravadora. de fato. os pesquisadores Sessão 1 que se destacaram naquele momento chamaram a atenção para um Osman Lins teórico. se iniciaria em 2013. à medida que avança em seu percurso ficcional” Ricardo Andrade (UnB) (p. sempre permeou o Manhã [09:00 – 11:00] pensamento do escritor. a meu ver. O segundo momento delineia-se a partir da futuro e uma percepção dos movimentos iniciais. em evento organizado na UnB. simultaneidades. Percebe-se que muito da arquitetura da obra osmaniana é pautada integradora e unificadora de tudo: a defesa do ofício e da função por uma concepção de comunicação. três A partir desta manifesta importância dada ao evoluir da escrita. Isso significa assegurar para o autor uma posição limiar contos após ter o autor publicado o ensaio Guerra sem Testemunhas. ocasião das homenagens dos 40 anos de publicação de Avalovara. Teoria. Haveria. resultantes de trabalhos finais ou não totalmente conscientizados. As da tendência de uma arte sem fronteiras e liames — anti-purismos concepções de espaço e de tempo adquirem novos contornos numa estéticos característicos da modernidade — sempre mesclada e cultura de contiguidades. o terceiro. concepção e estes procedimentos estabelecem uma obra cosmogônica. Segundo aquela pesquisadora. bem como seus procedimentos traçar sua ars poetica. que se tornou prática habitual oficiante — aglutinadora do sagrado e do profano — do escritor. notas que deixou impressas em seus livros. Textualidades contemporâneas. para o número 37 da Revista Cerrados manufatura dos livros é visível na produção ficcional e ensaística. com o uso da Internet. Esta da Fundação Rui Barbosa e do IEB/USP. então. com relação à QUINTA 10 busca de um pensamento teórico que. em que estabelece seus momentos principais.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS Em 2014. de inclinação ornamental. (UnB). não racionalizados publicação de alguns livros basilares. e. mas intuídos. para ser mais precisa. das mudanças de pós-graduação (dissertações e teses). ao passado da escrita e uma experimentação de novas textualizações.

Osman Lins. apontam para personagens que definem os espaços em que atuam. mencionados e analisados canais. inicialmente em seu caráter de fusão de tudo e de integração do homem em Perdidos e achados. o autor dá voz ao personagem central. tempo histórico e reflexão teórica. e. Escrita. dos estudos sobre alegoria Perdidos e achados. tende a se interpenetram em Baudelaire e Lins. ao assinalar que João Adolfo Hansen. As fronteiras do gênero literário. e ornamentações retóricas. cujos comportamentos são habituais dentro de seus grupos. de Baudelaire. numa rede infinita escritores que romperam com os cânones norteadores da arte literária de significados intricados. considerados. A escrita osmaniana será. Renato. Simbolizando perdas e lamentos. pela sociedade parisiense do século dezenove e invoca a musa urbana assim. Ideais igualitários na literatura de Osman Lins e de Charles Baudelaire privilegiando a utilização de alegorias que. em Avalovara. realidade e Charles Baudelaire é o alvo deste estudo comparatista entre dois especulação filosófica. de João Adolfo Hansen. O considerando-os todos parasitas. Osman Lins comunga com os ideais igualitários trabalho. A gente que transita por Ernst Robert Curtius. Unificação como criados e extraídos da urbanidade parisiense ao expressar em 198 199 . tempo. Temáticas de buscas e mudanças trabalho mostrará que a escrita de Osman Lins. e ainda de aspectos históricos da baudelairianos. e míticas. bem como a junção Resumo: Refletir sobre a arquitetura textual de Osman Lins e a de de ficção. abordada transeuntes das grandes metrópoles. relativizando no conto de Perdidos e Achados. aos ciclos de um calendário e obras constituem-se reveladoras do tempo narrativo perpassado pelas aos movimentos intercalados entre as distinções entre as situações de dimensões de espaço. que as enchentes levam as plantações. sendo comparadas com diversas enquanto se multiplicam as posses do perverso. recortada de literatura europeia e da Idade Média Latina. em Literatura Europeia e Idade Média Latina pelas ruas recifenses traz seus temores e suas melancolias diferentes dos (2013). autor. A evidenciação da formulação estética de Osman Lins. disparidades. especificamente. Curtius. revelando-se como forma privilegiada de conhecimento. através do estudo de E. de modo geral. dicotomias e oposições. também como alegóricos. figuração e sentido próprio. R. expostas por re-nato que lamenta a justiça humana e sobre-humana. em suas configurações criativas e interpretativas morrem filhos do homem justo. por intermédio proporcionam Maria Aparecida Nogueira Schmitt (CES/JF) a união binária de mecanismos poéticos e retóricos. na perspectiva do mundo reinventado. recursos teóricos predominantes e constantes de reflexões do próprio espaço são subvertidos em Pequenos Poemas em Prosa. cidade anfíbia. Ambas as relações análogas às margens de um rio. apresentada em conexão. e dos seus poemas em prosa onde transitam diferenças na inserção em um simbolismos livrescos e da escrita. uma visão apocalíptica. em particular. contidas em Guerras Sem Testemunhas (1974) e em entrevistas e nos contos de Nove. de Osman Lins. Baudelaire emprega o formas figuradas ao longo da antiguidade e da Idade Média latina e recurso estilístico da zoomorfização para a inclusão dos marginalizados europeia. que sobrevive aos infortúnios da cheia. em sua exuberância engenhosa e em suas relações sagradas de raça. ao apresentar Recife. e na designação de sua tipologia. Baudelaire recria a dimensão espacial da cidade. publicadas em Evangelho na Taba (1979). narrativa. é relacionada às caracterizações da alegoria. sendo que este apresenta unificar contradições. Utilizando exemplos e afeita a padrões instituídos. com a tradição da grande cidade para cantar os cães enlameados e afastar os cães ocidental. em sua obra ao fazer dos detritos recolhidos da cotidianidade a matéria-prima para Alegoria — Construção e Interpretação da Metáfora (1986). ubíquos e isotópicos. Novena.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS repleta de perspectivas e de peculiaridades renovadoras e vivificadoras. o ao cosmos. também reformulado. Palavras-chave: Avalovara. fusão e integração com as tradições expondo sua crítica radical à desumanização no espaço existencial literárias universais. Os poemas de Baudelaire partidas e chegadas.

sobretudo. Novena indiciam ao leitor que se afaste da ser definida como um tecido de tradições e ensinamentos. Pequenos “tan” significa a extensão de fios em uma urdidura. urbana em sua mistura de do texto. Tantra e “tenet” têm a Lins lançou mão de três obras em especial que tratam do amor ligado a mesma raiz etimológica – o tapete urdido é o livro. metaliteratura. mas que teria vivido no século XII d. a raiz do sânscrito no jogo textual de ambos Obras que falam delas próprias. um método de escritura. qualquer acepção meramente erótica pura o outro trata-se do livro bíblico do antigo testamento “Cântico dos e simplesmente – a força da criação está na força do amor devotado à Cânticos” (também chamado “Cantares de Salomão”) e mais o “Ananga palavra. a saber: “L’Art amoureux des Indes”. indicando aí ser esta uma das vertentes que tomará no enredo da obra. marginalidade relevância que tem a figura do tapete. Afirma Ron Barret que a etimologia do leitor que se faz detetive na tentativa de revelar o que se esconde de Tantra é baseada na metáfora da tecelagem. Esse revigorante manancial que é o texto osmaniano sagrado. extraído da banalidade vem sendo distorcida. Nesta comunicação. que desponta como estratégia textual: seu que são tão importantes para a construção. o livro.tratado do amor conjugal”. E também pode Poemas em Prosa e Nove. Tantra é uma palavra do sânscrito e que como detentora do antídoto contra ela própria. urbanidade. tratarei da inclusão que Osman Como se me cercasse um ritmo: o uso da figura conceitual Ressonantia na obra osmaniana Lins faz do tema do amor tântrico como subsídio para a criação do Elizabeth de Andrade Lima Hazin (UnB) texto literário – a arte ligada à criação pela via do amor não pelo viés erótico como se concebe no ocidente. segundo tradutores. C. de modo simplório como apenas uma prática sexual oriental. da mesma forma. Criação literária autor de que se sabe pouco. Palavras-chave: Avalovara. Ranga . tecer. porém. uma riqueza profunda resguardada em si. nela. A divindade onde o escritor retira uma das cinco epígrafes que abrem o livro . tantra significa tear. O de dois escritores afinados ente si com propósitos humanitários ficam uso das duas palavras no título desta comunicação refere-se também contempladas as linguagens e as percepções distintas no despertamento a este espelhamento etimológico. A confluência de dados não para por aí. do que é a desejo de coerência faz com que o material recolhido por seus olhos de 200 201 . Osman do quadrado Sator.já delicadamente incrustada nas palavras refere-se ao amor ao texto. de Max-Pol Fouchet. Texto. urdidura. tal Resumo: Já escrevi anteriormente que Osman Lins constrói para si como se vê nas culturas orientais e que aparecem nestes três textos. considerando a imensa Palavras-chave: inclusão. Na aproximação etimologia. principalmente no ocidente – sendo entendida e recolhido no lixo das metrópoles. do arquipoeta hindu Kalyana Malla. “linhas” musa acadêmica para invocar a musa famíliar. era. um gênero escritural datado desde o século VII de nossa linguagens objeto das reflexões metaliterárias. texto. superando como já disse. espaço de enlace derradeiro – e eterno – dos amantes Abel e ? e segue-se ainda com a descoberta de Tantra e texto: divindades do amor em Avalovara que a mesma raiz da palavra Tantra (tan) de origem proto-indo-europeia Maria Aracy Bonfim (UFMA) gera “ten” que está na composição da palavra latina “tenet” – centro Resumo: Para a elaboração de seu romance Avalovara de 1973. cujo significado é “sustém”. Tantra. mas que se liga ao sagrado.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS seus poemas em prosa o perfil do artista que revela a cidade grande relação amorosa de Abel e ?. de cuida de modo singular do que a arte nos possa revelar. já desde sua sangradas existencialmente e em constantes buscas. Há insere os seres ficcionais na cidade de Recife como criaturas sofridas. aquele que sustém divindades ou a escrituras sagradas e que versam sobre o amor carnal a criação. Osman Lins. Literalmente.

ao contrário. Thomaz Antonio Santos Abreu (UnB) relação entre essas figuras. dê conta de que pertencem ao mesmo campo semântico elementos um colosso de crítica social. Avalovara. instrumentos fundamentais de pensamento. de imagens e situações não-sonoras que que denunciam relações de opressão e/ou paradigmas de emancipação. apresenta. escrever da maioria da sociedade. a aquisição se pensar a si próprio. Não se trata. especialmente (mas não apenas) no que só na aparência díspares. Esse trabalho pretende trazer à tona a figura concerne à socialização e aos processos de subjetivação das suas denominada Ressonantia. significado que emerge reelaborado no tecido Textual ficcional. é. Tais opressão é a aprovação da irrestrita terceirização dos serviços. arrastaria com ela alguns elementos. a hipótese de que parto é a de que o texto Loreius. Estratégia de imensas coleções. político-filosoficamente. Resumo: O Brasil atual vive um momento de (retomada do) que ajudariam na tarefa de identificar e descrever os seus aspectos. no dizer de Osman personagem Loreius. Trata-se de determinadas noções percebidas inicialmente essa figura se reveste de importância insuspeitada. contido em algumas figuras por ele escolhidas como receptáculos Palavras-chave: Osman Lins. Na obra osmaniana. o lexical. proporcionando ao em Avalovara. em todos os níveis: o da estrutura. tessitura de rede que se estende por todo exercer força gravitacional sobre a consciência e sobre as práticas das o texto. Avalovara) de sons. orquestrando-se. duas formas de autoritarismo parecem transforma-se em artesania. ao texto uma semântica própria. judiciário e midiático quaisquer. que funcionam como operadoras do texto. Desse modo. em sua obra. são opostas aos interesses que Osman Lins sabe utilizar com maestria. e terminam por conceder se subsume ao golpe atualmente em curso no país. que se disseminam por com o fito de se oferecer à população a aparência de ganhos sociais que toda a obra e a que se prendem significados diversos. o simbólico. Por suas mãos. despontam no seu continuum. podemos dizer que estas são metáforas (no caso. diegético-estruturalmente. o da sintaxe. Figuras Conceituais. transcendendo os limites da objetificação ficcional osmaniano articular-se-ia através de uma sofisticada inter. Assim. paradigmática o que torna cheia de significados uma leitura feita na sequência exata em para a reflexão e a prática interessadas na ruptura com formas de que vêm os fragmentos de Avalovara. legislativo. A ressonância aqui aludida é muitas vezes Isso posto. neste artigo. ao contrário daquela que elege dominação: Loreius é co-responsável pela procura do palíndromo que 202 203 . sintetizando em torno de si densos conjuntos de do conhecimento de como Osman Lins usa tal figura conceitual resulta significado. na medida em leitor a experiência da percepção do que pode estar contido em uma que ajudam a pensar o texto ao mesmo tempo em que fazem o texto palavra. de como se constrói um texto literário. conceituais. mas sim de figuras organizadoras. para este romance. nodal Lins. Assim. Sempre coerente com seu projeto narrativo lucidamente numa compreensão mais adensada de suas estratégias narrativas e. lítero-filósofo que é. A mais recente evidência dessa e revelando vínculos entre os diversos níveis de que ele é formado. é o nosso interesse. em organizado. autoritarismo político que se coaduna com o autoritarismo financeiro mantendo uma relação de significação com seus elementos constitutivos típico das formações capitalistas. de Avalovara. (de)mo(n)strar que a materializada no texto pela passagem da espiral que. e que ela é. portanto. de um fragmento para outro. em um personagem. recobrindo-o.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS colecionador se distribua entre o que é por mim denominado de figuras o caminho das linhas narrativas separadamente. Neste sentido. recurso escritural adviriam de reformas as quais. o imagético. Osman Lins. o que figuras constroem um sistema de pensamento. e em clave capaz de fazer com que o leitor se pessoas. em uma situação. Osman Lins como que amplia e aprofunda o significado última instância. de figuras nesse comenos. correspondente à disseminação. no texto personagens. os poderes executivo.

aceite formas de dominação quanto podem estão intimamente ligadas. posto que seu senhor. elas pessoa. quanto no recorte histórico ulterior. de maneira que os atos estejam político de emancipação. o romance Avalovara. dando origem interpretação político-filosófica. ao passo que Publius Ubonius deseja a continuidade da relação servil a O espaço desdobrado em Conto Barroco ou Unidade Tripartita que Loreius está submetido. no palíndromo. mas sob o rigor de sobre como uma pessoa (ou um grupo) tem obliterada sua tomada um artista que “mantém cuidadosamente a charrua nos sulcos” (LINS. em combate à inversão da relação senhor-servo que Loreius Lins. em “Conto desempenha. justifica mediante o recurso à “ideologia”. Embora estas duas procedimentos mentais e sociais que são operados para que uma características sejam apontadas. na Prefeitura. É natural que o leitor. em que esses blocos. e agindo Barroco ou Unidade Tripartita”. Trazendo Marx à discussão. que é a conjunção. trata. de seu agente fundante. há a conjunção alternativa “ou” entremeando os blocos de narrativas se da relação entre “repressão” e “recalcamento”. configuram um novo século que. de chapéu 204 205 . o à articulação proporcionada por aquela conjunção. também QUINTA 10 é responsável por tal perquirição. e. Ideologia. conjugados XX em período ditatorial. Loreius é o único responsável pela Tarde [14:30 – 16:30] demanda de liberdade que sente. um desenrolar das ações. retoma antiga/s forma/s de opressão desenvolvimento consecutivo. quando diz “Estou em Tiradentes. Resumo: Três meses após a publicação de Nove. em razão ser sugeridas alternativas de negação e superação desta aceitação. sobre a qual tem consciência. o caráter do dessas alternativas e que Loreius é paradigma de crítica ideológica. na rua. Esse caráter cifra anti-ideológica. na igreja Matriz. uma cidades mineiras de Congonhas. ainda que política. e Loreius. como um recurso tipográfico. p. tanto pode ser exequível deslindar à simultaneidade e à leitura de possibilidades. o longo século página. Osman consciência. trata-se de um “fetichismo” que se (pseudo) dos eventos em “Conto Barroco”. num fundamento em que nada é fixo neste texto literário. então. Ouro Preto e Tiradentes. Publius Ubonius é o único responsável pela Vanessa Pereira Cajá Alves (UnB) demanda de liberdade que sente e sobre a qual não tem. Ademais. como aspectos distintos. Emancipação. no primeiro caso. posto que Loreius deseja ser livre. Repressão capanga-narrador que também se desdobra. 32). em Sessão 2 combate à opressão do seu senhor. em entrevista ao Diário de Pernambuco. inicalmente. podemos refletir sempre no plano da alteração e da possibilidade. consequentemente. desdobramento também se estende à disposição dos elementos na tanto no recorte histórico a que pertence seu autor. Nessas claves de que compõem o texto literário e. 1973. A partir da terceira página do texto. sob o signo da permutação. podemos refletir sobre como uma por Osman Lins na entrevista supracitada. afirma que. Publius Ubonius. infelizmente. No âmbito da cidade de Tiradentes. inscreve. de consciência em face daqueles que a submetem à exploração. há um Palavras-chave: Loreius. ou um grupo. no chafariz. aqui. munido desse apontamento feito trazendo Freud à discussão. se coloque em uma posição pessoa identifica-se com o seu próprio agressor. Novena. Podemos dizer de busca por um elemento localizável que ateste essa sincronicidade que. uma atmosfera o seu senhor e a própria obra. as ações decorrem simultaneamente nas contra a dominação de Publius Ubonius. negando a repressão e o recalcamento. no segundo caso. por ora revelando-se coisa una. a qual tem o condão de estruturar sua relação com da simultaneidade apontado por Lins instaura.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS estrutura o romance. O espaço diegético Defendemos que a literatura osmaniana vem a lume no coração desdobra-se em três cidades mineiras barrocas.

em estado de liberdade. Em suma. Osman Leny da Silva Gomes (UNIRITTER) Lins desenvolve. 1975. seu conceito de limitação da literatura Resumo: A justaposição da cultura das mídias eletrônicas com a cultura (leia-se impressa) – “sua carência: contar apenas com a palavra escrita. como percebe. somos atraídos realizações.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS na cabeça” (LINS. se traduz. ser constituído por figuras humanas. pela história da escrita e da literatura. reflexão teórica sobre o fazer literário e sobre o ato da leitura. então e manuscritos de seu acervo atestam sua posição crítica relativa aos coisificadas ou com a sua individualidade tendendo para o zero” (LINS. alguns eventos. 178). 1976. os atores como mediadores” ( p. confrontando conceitos tradicionais da física Palavras-chave: Osman Lins. Sabe-se do interesse do autor pela história do intencionalmente disposto. estarem no ponto de o que aqui categorizo como espaço desdobrado em “Conto Barroco ou partida de novas coerências” (p. partindo do conceito de espaço. associações de com uma visão que postula: “toda história contém a irreversibilidade. Nesse contexto. de dentro do texto como nas não os caminhos já conhecidos” (LINS. citada em Guerra sem testemunhas (1969). Espaço desdobrado dos meios da “gravação direta” e à sua visão de que o “desdobramento simultâneo a nossos olhos” seria a única vantagem da escrita sobre os Nenhum vitral retém a claridade: um salto. “paradoxo do tempo”. o desafio no intuito de um maior envolvimento e participação criativa do leitor. Nove. 1973. também serão explorados elementos que dizem Moorhouse (1961). um gesto meios de registro direto (disco ou fita magnética. aos contemporâneos. adquirirem uma significação. no silente. inventariado. mas aquilo que prepara o texto para substituir Osman Lins. Relaciona. Novena. o som. por uma intensificação de estratégias experimentais isenta do rumor. façam desprender a luz. a intenção deste estudo é analisar circunstâncias. a partir daí. E são essas conquistas que enriquecem o leitor. o acontecimentos. refletindo e representando o cosmo acontecimento e a possibilidade de certos acontecimentos. Em contraponto à aposta de Butor (1974) na superioridade Tripartita. que opera de modo a engendrar uma obra constituída de tornando visível uma atenção do autor dirigida ao livro e às suas relações monumentalidades. Novena. p. Ilya Prigogine e Isabelle Stengers (1992) discutem o como uma melodia através” (LINS. alfabeto. 137). em suas múltiplas obra de Osman Lins. 72). 52). 206 207 . toda conquista árdua atinge o público. âmbito da literatura. osmaniano. colocando-a numa rota histórica. 1979 p. Conto Barroco ou Unidade de atores. são mediadas pelos órgãos dos escritor pernambucano Osman Lins. por alguns acontecimentos. cuja respeito à discussão do espaço da palavra e da imagem no texto literário capa estampa a espiral do Disco de Festo. por sua vez. Obras como a Historia del alfabeto de A. silêncios e iluminações. representado no texto. Em Entre o tempo catedrais góticas com suas pedras iluminadas pela “luz [que] perpassa e a eternidade. levando o leitor à superação dos limites da obra do com o leitor as quais. enquadra a personagem e que. instado a justificar suas “experiências revolucionárias”. Se considerarmos o conjunto da Unidade Tripartita”.” (p.C. 144). como “tudo o que. em certas movediço dessa narrativa. 93) dos vitrais. a galáxia de Gutenberg segundo McLuhan (1972). mais Para isso considera-se que a obra de Osman Lins propõe leituras que cedo ou mais tarde. na época). de “novas coerências”. então. Além disso. ou gestos sinalizadores em seu ensaio Lima Barreto e Espaço Romanesco. estratégias narrativas. têm sua percepção mediada por uma rede Palavras-chave: Osman Lins. os resultados possam ser marcados sentido que Latour ( 2012) dá ao termo “a rede não é aquilo que está pela dificuldade de comunicação.192) –. um grito. Novena. denominado por Lins. acontecimentos artísticos. impressa. p. Desde a publicação de Nove. Livros sucedendo. o silêncio a uma solidão produtiva. sentidos que. inclusive. a imagem. capazes de iluminar os silêncios. conjugado a uma intensa tanto pode ser absorvido como acrescentado pela personagem. é investigar associações possíveis de acontecimentos em rede – no ainda que. declarava: “Em literatura. p. são diligentemente anotadas. sexta narrativa de Nove.

p. Cada cena anterior faz par com uma posterior. valho-me das reflexões de 208 209 . Nove. entender o processo da médio do conto. Abismos se abrem entre nós e os outros e a impossibilidade de transpô- de Osman Lins. “O pássaro transparente”. publicada em 1957 nos leva de roldão ao centro de uma das temáticas mais aterrorizadoras da existência humana: a solidão. assim. principalmente quando a transição de focalização (de externa para interna) do narrador a poesia acompanha e se insere na fonte ideográfica da língua japonesa. precedem este e outros Palavras-chave: tradução. Solidão e Política: Os gestos. novena. Por isso ela é tão inquieta. Marcos Eduardo Lopes Rocha (UnB) pois para ele a poética da tradução é a “forma de vida que transforma Resumo: Nove. as ideias de Henri Meschonnic permearão as reflexões. de destreza para Lins. Pois ela não cessa de articulação de alguns elementos narratológicos da primeira narrativa trabalhar sobre nós” (MESCHONNIC. permitindo. personagem protagonista do conto de Lins. Buscando compreender a uma forma de vida. portanto. os diversos caminhos que a tradução oferece para Essa trágica evidência nos faz questionar. criando dois conjuntos de polos opostos na narrativa: exterior/interior. do pernambucano Osman Lins. de Osman própria enfermidade. em maior ou menor grau. Hannah Arendt um pássaro que deixa visível sua superfície e suas entranhas. Esta configuração põe em relevo a metáfora do título. de Osman Lins na perspectiva filosófica de passado/presente. heterodiegético. no momento do traduzir. quatro episódios que. Os É necessário a junção. também. que. está Resumo: Esta comunicação trata de algumas considerações sobre a velho. sociais e culturais para onde a palavra está renascendo. sobre a chegar a um trabalho literário em outra língua (no caso a japonesa) que categoria da solidão em termos políticos. doente. que ele possa se fazer compreendido. o descarte e a recriação de ideias. Retábulo. e a tradução para o japonês los constitui-se como uma ameaça visceral da perda de contato até com Cacio José Ferreira (UnB) nós mesmos. Esse processo de recomposição e de uso de elementos gráficos podem ser a compreensão do livro. acamado e sem voz. de teorias da episódios de “O pássaro transparente” são compostos por um parágrafo tradução e de tradições. póetica do traduzir. Osman Lins. em termos de nossa se aproxime dos ornamentos poéticos e do rigor da escrita osmaniana. poesia e ideograma: o Retábulo de Santa Joana Carolina. pelo viés filosófico. É preciso adequar aos princípios linguísticos. O quinto episódio. ou seja. evidenciando. com focalização interna. marca dois tempos distintos: passado e presente. da angústia por não poder se expressar pelo uso da palavra. a compreensão perpassa pelos manuais que já existem padrões na disposição temporal da narrativa. Ela só nos acontece se a própria linguagem se torna um novo estilo literário na obra do autor. transmutando. novena. por sua vez. através dos gestos. Resta-lhe tentar a comunicação com ressonância poética que surge. inscrito em sua Narratologia obra homônima. carecem de precisão e. Cacilda Bonfim (UnB) Palavras-chave: O pássaro transparente. inaugura tudo em linguagem. de Osman Lins. discute. Ressonância. André. no processo seus familiares. mediado pelo discurso indireto livre. na ordem cronológica. Há poética no texto traduzido.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS Elementos de narratologia em O pássaro transparente. talvez devido a de tradução do conto Retábulo de Santa Joana Carolina. discorrerei primeiramente sobre do caminho da tradução do conto em evidência. o ponto e criam novos caminhos. a qual cria uma estrutura padronizada e episódica. estamos diante da impotência a captura poética que permeia toda a narrativa. de Osman Lins Por conseguinte. humana. para a língua japonesa. Nessa perspectiva. 1989. comunicação como os outros. com focalização interna e outro. A estrutura episódica também possibilita Dessa maneira. Nesse sentido. Osman Lins quatro que o sucedem. Ora. Resumo: A leitura do conto “Os Gestos”.247).

nesse sentido. portanto. nem ingressam no livro pelo trabalho fragmentário de Lins (com exceção em sua própria pessoa. Medo de saber de espaço de questionamento e. Contrariamente. cuja relação é de latência). solidão e estar só. Visando tal intento. que tal qual o isolamento. SOLIDÃO Nazca vai falar de espaço e de distância. Já aí. na obra de Arendt Origens do Totalitarismo encontram-se os termos: “A rainha dos cárceres da Grécia”. que possamos pensar a categoria da solidão e suas implicações políticas tentando prová-la perversa. Assim o texto osmaniano categorias essenciais a nossa existência. por excelência. ainda. entendidos como atentar para o fato de que nas categorias arendtiana. já por essas noções preliminares Nancy. HANNAH ARENDT. Ao juiz que a interroga. O que eu a partir de Hannah Arendt tendo na literatura feita por Osman Lins o tenho escondido debaixo dos meus olhos é medo. explica situação na qual o sujeito faz companhia a si mesmo através do diálogo Maurício Mendonça Cardozo a respeito do pensamento de Jean-Luc interior que estabelece consigo. assumindo o fragmentário como está só – ele não falta a si mesmo – já que opera o diálogo interior do condição de existência no mundo” (NANCY. percebida por mim. do intervalo que em si mesmo 210 211 . Existência. elucidar certos conceitos e definições que Olhar do fragmento: desdobramentos de microimagens na leitura de A funcionaram como luzeiros frente a tentação de emergirmos no senso rainha dos cárceres da Grécia comum da significação das próprias palavras. a dimensão privada da existência. puro devir. 2013. busca resgatar. que do pensamento literário de Osman Lins. chamamos a atenção ao fato de que manifesta de modo mais visível: a hipertextualidade/hipermidialidade. “estar só” (solitude) pistas. potencial.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS Hannah Arendt. embora. não formas e ordens de totalização. é enigma que a literatura osmaniana se pela incapacidade de agir e manter os vínculos. pois. ou seja.215). Isso significa dizer. Keli Cristina Pacheco (UEPG) imediato que para Hannah Arendt a solidão. solidão e isolamento mesmo (embora não sejam sinônimas) ocorrem “Alice no País das Maravilhas” e Escher. faz-se necessário. é cheio de links em isolation. é preciso foca em alguns desses links (evidentes ou latentes). não encontra abrigo algum. prende-nos e liberta-nos em seus mistérios. filosófico. é tomado de mundos a serem ampliados. Nesse sentido. que foram traduzidas em português. pensamento. São eles as linhas de Nazca. loneliness e solitude. Assim. A mencionada obra de Lins se refira ao mundo público e solidão. responde: “O senhor vê mal. A fragmentação é o nexo. o estar só não Resumo: O texto prolífico em imagens e citações de Osman Lins torna equivale ao isolamento (categoria também imprescindível para esta evidente uma característica da linguagem escrita que o texto eletrônico interpretação).414). como caminhos que podem revelar alguns nós da rede não é o mesmo que “solidão” (loneliness). ou seja. São citações “exteriores” que quando o indivíduo falta a si. A corrente invisível de Palavras-chave: OSMAN LINS. cabe apontar de Emanuelle Alves Adacheski (UEPG). Sobre o fragmentário. se nomeia em homenagem a uma (anti) heroína de difícil apreensão: Dito isto. Assim. isolamento. Nosso trabalho respectivamente por isolamento. p. das que modo o tempo passa” (LINS. o qual se coloca “[n]a esteira de uma resistência a diferentes podemos de imediato inferir que André. ou. o “estar só” se trata de uma de Escher. o protagonista de Lins. cabe pressupor que a inserção dessa abordagem no seminário “Superação de Limites na Obra de Osman Lins: dissipando a cegueira a ladra grega que consegue entrar das prisões de seus país de diversas entre os hieróglifos que nos cercam” da XV Abralic é um convite para maneiras. caracteriza- que. entre os dois autores. objetivando uma análise que possa esclarecer não só SEXTA 11 a confluência. 2015. é mistério. Ele está em solidão. a ponto de tornar-se célebre. mas também Manhã [09:00 – 11:00] enriquecer pesquisas sobre literatura e política enquanto forma de Sessão 3 resistência à desertificação do próprio existir. primeiramente. p.

Não faltará portanto quem texto plural. o que diz a imagem? A corrente invisível de objetivo de destrinchar uma rede lexicográfica do campo semântico Alice é já a imagem do hipertexto: seguir coelhos brancos por buracos da visão e. na sua variedade. na opção que fiz. que Lins Resumo: A obra de Osman Lins abriga várias possibilidades de leitura. indesejável no magistério e próprio de loucos (ou de de um leitor em personagem do livro lido. do mestre. veja. B. sobretudo. Alice no País das ainda as vantagens de apenas atuar na escola secundária: evito muitos Maravilhas. perceber no fragmento do Gato de Cheshire a presença na poética osmaniana: a visão e o ato de ver. o duelo entre poesia e história etc. 1976. as regras de elaboração literária. galeria de artes à obra que expõe. Colho Palavras-chave: A rainha dos cárceres dá Grécia. imoto ? como o das figuras geométricas. As Em A Rainha dos Cárceres da Grécia. visto que ama. ela me permite a p. Aliás. literárias para trazer uma hipótese de leitura deste livro. desse Pretendo analisar o texto de A Rainha dos Cárceres da Grécia com o sobrevoo? E vista a figura. vulneráveis acrescentam à fruição o mérito ou o valor do risco. Por último. portanto. dos que ocupam as cadeiras do gato é como a rede social e como o livro: uma sequência de sinais de letras ? o lente de botânica ou de zoologia não cede ao impulso de presença parcial e diáfana (prestes a desaparecer) e que ainda assim de querer inocular. “nele penetramos por diversas entradas” (BARTHES. Mas qual a origem dessa distância. não chegam a compensar. nisto. certa malícia. é ler o Plantas e animais. em espíritos quase sempre voltados para outras permitem o contato (com tipos de fantasmas). construção da personagem. 1992. orientado pela professora Elizabeth Hazin. o problema relativo à biografia autoral e a Rede de palavras suposta vinculação à fatura final da obra de arte. é um recorte de meu projeto de doutoramento em curso 212 213 . distancia-se dos sãos). Nossa proposta. a metamorfose esse papel. acho. de Escher (1956). Linhas de Nazca. a Palavras-chave: Osman Lins. ao mesmo tempo harmônica e sutil. p. há vários temas que se entrecruzam em todos os momentos do romance e pretendo explorar suas conexões em um jogo narrativo singular: a questão do(s) gênero(s) literários. remete-nos a “Print gallery” quem. por vezes. figura completa das linhas. o que há de menos transmissível: uma paixão. confessa-me A. Visão. Sempre temi percurso paradoxal de “A rainha dos cárceres da Grécia”. formam um universo romance pelos intervalos que ele cria com textos/imagens do mundo. 39) e “(quem sabe entretanto aonde vai quem se enreda em projetos desinteressada fruição das obras que povoam a minha casa. Minha análise partirá do outro. Exige a arte das letras. a imagem do direções. a aparição seguinte trecho: “Mas ? diverso. último livro publicado pelo relações temáticas associadas à visão e ao ato de ver estão presentes escritor pernambucano. como decapitar uma cabeça sem corpo?). valendo-me dessa rede. na verdade. na tentativa de uma perquirição monográfica. atualização incessante. discutir um dos temas mais caros desconhecidos.” Pretendo Sob os olhos de um texto: a visão em A rainha dos cárceres da Grécia indicar a importância do vocabulário empregado neste fragmento e sua Pedro Henrique Couto Torres (UnB) relação com a arquitetura. A Rainha dos Cárceres da Grécia. as categorias da poética clássica.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS é o próprio mistério e a revelação: é o olhar? do alto que forma a na Universidade de Brasília. empregou na confecção literária de A Rainha dos Cárceres da Grécia. Esta comunicação. Print Gallery encargos absorventes ? estéreis. o contato com o mistério que coloca em cheque o jogo de do diário do Professor no dia 2 de dezembro. em que um vórtice vazio é o centro da fusão de uma como a história e a geografia. em 1976. ao contrário. 3)”. ? e que os proveitos da alta docência. Meus olhos desse gênero?) (LINS. a partir do poder (afinal.

podemos observar que a arte musical passa professor de biologia para a leitura da primeira metade do romance). com o objetivo de avaliar o opostas. quando se podemos dizer que Osman Lins consegue equilibrar inovação e tradição identifica uma ausência relacionada aos três narradores que se em sua obra literária. A leitura do romance sob essas 214 215 . e a com maestria e senso de ordenação.). a amante do professor de biologia. A referência ao erudito e ao popular nestas produções enriquece procedimentos de uma mise em abyme que envolva tanto a mímese o universo textual com um acervo sonoro que amplia sua rede de do enunciado (relativa ao tema trabalhado nos romances que se significações. avaliada. conceitos e Scarlatti). bem como do Resumo: A capacidade de um artista de se reinventar é um importante ponto de vista de Antoine Compagnon sobre a modernidade europeia. traduzido pela crise da objetividade do o País e a dicotomia existente entre o povo e a elite. Ao passo que em Avalovara percebemos um uso musical misturam – a saber. arqueologia. e Julia de diversas áreas do conhecimentos (matemática. em A Rainha dos Cárceres da Grécia o repertório inclui problematizados por Linda Hutcheon em seu livro Narcissistic Narrative: canções populares dos astros da seresta. e de Adorno. sujeito contemporâneo. Brasilidade discussões de Agamben sobre o que é o contemporâneo. Além disso. o tema da ausência) quanto da enunciação (relativa de tom mais solene (combinação básica da cantata Catulli Carmina ao procedimento utilizado na escrita desses romances). e de que forma essas características apontam das questões sociais do pós-guerra. e a ausência do pintura. em suas reflexões sobre o narrador cárceres da Grécia. política. sujeito que se caracteriza Mayara Moratori Peixoto (UFJF) por uma renovação paradoxal do indivíduo da epopeia porque. Esse sujeito será compreendido a partir das Palavras-chave: Osman Lins. incluindo nela elementos ausência de sua amante. conceito trabalhado a partir da leitura da produção Grécia acadêmica atual sobre a obra de Osman Lins. etc. que a avalia localmente Sebastiana Lima Ribeiro (UnB) no contexto da produção literária latino-americana. narrador-personagem. Ele consegue orquestrar. o professor de biologia.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS Ressonâncias musicais em Avalovara e em A rainha dos cárceres da da modernidade”. entendida como um híbrido A escrita da ausência no romance contemporâneo: A rainha dos de presença-ausência. Música. a desempenhar um papel crescente de importância na estrutura das e a estrutural. sua arte. tempo em que o sujeito recebe a escuridão de seu tempo. Problematiza-se a ausência em dois níveis: a temática. Neste sentido. ao Resumo: O trabalho se debruça sobre uma leitura do romance A Rainha modo deste. mote inicial da escrita do seu romance. arquitetura. Os esforços empreendidos para superar seus mesclam no romance (Osman Lins e a ausência da figura materna. Notadamente em Avalovara e A Rainha braço amputado de seu ex-marido. de Osman Lins que se insere nesse contexto histórico-cultural. de Osman Lins. há the metaficcional paradox ¬– essa construção relaciona-se à ausência uma imersão no hinário cívico brasileiro por meio do qual o autor revela de um ponto de vista único. Repertório. a consolidação da extinção da para uma “escrita da ausência”. próprios limites como escritor são evidenciados no crescente grau de apontada em entrevista a Edla van Steen presente no livro Viver e elaboração estética de suas últimas produções. Relacionam-se a essa discussão os conceitos de Benjamin modo como seu narrador-personagem organiza suas características sobre o narrador em um contexto de pobreza de experiência derivada temáticas e estruturais. portanto. hipótese de leitura construída pelo dos Cárceres da Grécia. liquida a si mesmo – mas de formas diametralmente dos Cárceres da Grécia. O romance é localizado numa “tradição “arte de narrar” é. Escrever [2008]. frevo e samba. quando se pensa na construção do romance a partir dos obras. Marquezim Enone. fator na criação de uma obra inovadora e perdurável.

então. como Osman Lins contemporaneidade no romance de Lins. (ii) a desordenação e a reordenação. Ladeira pensam em criar. A Rainha dos Cárceres da Grécia. especialmente no que tange não chega a escrever sua lição de casa. A rainha dos cárceres da Grécia (1977). Essa proposição dela. Nesse jogo de livro que resgate os exercícios de descrição de figuras que eram comuns múltiplos espelhos. mas não Cárceres da Grécia como algo “ingênuo e pueril” e sim como algo “criador e primordial”. No entanto. a análise de “Exercício de Bárbara Costa Ribeiro (UFC) Imaginação”. como Thayla Crisrhana Martins Pereira (UnB) defende Wolfgang Iser. Palavras-chave: Osman Lins. em termos de criação e artifícios literários característicos de Osman Contemporaneidade. Gilbert Durand. algo. o personagem é incorporado à narrativa objeto de seu estudo. intitulado. metanarrativamente contado na última entrada do diário do e carrega consigo o significado de formar uma imagem mental de Professor. juntamente com seus amigos escritores. então. para isso. Tilintam as palavras de Osman Lins: uma leitura de Exercício de em que esses mecanismos tomam força tal que se cria. e (iii) a fusão e o que veio a desabrochar em seu último romance publicado. através da imaginação em contato com A rainha dos cárceres da Grécia palavra. micronarrativa escrita por Osman Lins. em seu Estruturas Antropológicas do Imaginário. é objetivo dessa Sessão 4 comunicação propor uma leitura pautada na relevância da mesma para o ato da escrita de Osman Lins e na forma como Lins representa Saem a passear Maria de França e Stela do Patrocínio: a dicção poética esse recurso em seu último romance publicado A Rainha dos Cárceres da loucura da Grécia (1976). Empreende-se. A Rainha dos defende o imaginário como sendo a infância da consciência. Osman Lins e Julieta de Godoy respira dentro de um outro romance. Esse mundo criado. na Resumo: O trabalho aqui proposto é o exame de uma dicção poética ocasião em que uma garota pede a Lins que escreva algo de lembrança da loucura percebida a partir da trajetória ficcional de Maria de França. é lançado o livro Lições de mal se deixa entrever.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS perspectivas possibilitou que se constatassem diversos elementos da Casa que reúne textos de nove autores. mas ao próprio torna-se possível com base nas ligações semânticas as quais lê-se no texto. lançamo-nos ao desafio de analisar uma voz que em sua infância escolar. como (i) a inversão. transforma realidade em literatura em A Rainha dos Cárceres da Grécia Etimologicamente. em seu álbum e ele. Assim. busca sobre o que poderia ser germinal em “Exercício de Imaginação” Palavras-chave: Osman Lins. em 1966. uma um procedimento metaficcional. uma voz da ausência. Exercício de Imaginação. indica-se também aqui a análise do ápice do processo que Dicionário Analógico da Língua Portuguesa de Francisco Azevedo. em 1978. seu texto publicado nesse livro o entrelaçamento de linhas narrativas que apontam para o exercício de é justamente “Exercício de Imaginação”. que sussurra por entre 216 217 . o de Osman Lins. Propõe-se. apresentando finalidades que não pertencem a ela. Assim. um igualmente. se refere à realidade. mas extrapola os limites Resumo: O imaginário é uma construção no ar. Metaficção Lins. a palavra “imaginário” deriva do latim imaginari em que. Anos mais tarde. um mundo estritamente literário. escreve o pequeno texto baseado na figura É ela a personagem de A rainha dos cárceres da Grécia. Considerando que a imaginação é entendida como um importante SEXTA 11 elemento que permeia as representações artísticas desde muito e Tarde [14:00 – 16:00] admitindo o conceito de imaginação como criação. romance que da capa do álbum.

em 2001. no que pudermos acessar e intuir em Avalovara mostra traços da ascece mística empreendida pelos através do próprio romance. conduzida pelo pássaro que dá o nome à obra literária e fitas. entretanto. o livro Reino dos e cosmos. Dicção poética. de Osman Lins vagar na noite dentro da noite. contracena com o mundano. então. Julia. de medo. O jamais o sentido da loucura. O contraste entre realização e destruição lírica. chamamos ao passeio. fechando-se autor transporta o leitor para mundos paralelos em que a busca pela ao infinito. numa extensa entrevista tomada entre os anos de 1986 e 1989. Linguagem duplamente oculta. em uma de suas é essa língua – loucura na poesia. representada pela transfiguração para a unidade entre homem. juntamente com ninguém”. Expressava-se em signos cifrados: dentro desses símbolos. Lins. como meio para ouvir os sons do próprio corpo. portanto. Lançando-se à inquirição de silêncio absoluto. poesia na loucura? – interessa-nos entrevista constantes no Evangelho da Taba. à estagnação e à decadência da maior parte dos demais trinta anos. em um diário ensaístico. dos sons do mundo. Tanto quanto as múltiplas bichos e dos animais é o meu nome (2001). Saber como das palavras. em que a Stela do Patrocínio. Stela tornou-se conhecida por uma falada marcadamente personagens do romance. Nessa voz deslizante. Nesta acrobacia romanesca que é o debruçar-se proximidade com a filosofia tântrica indiana. traveste-se de comentador literário e tenta desvendar os apontamentos de Octavio Paz. pedem verificação do assim como nos sublimes instantes da unificação e de domínio final lirismo do louco enquanto personagem de ficção ou poeta. nasceu. Giorgio Agamben. lado a lado ao estado de alerta. mulher Como resultado dessas gravações. espécie de bi-filtração: a narrativa de Julia Marquezim Enone e a própria Loucura. associada o que seja a linguagem poética. O referencial teórico do trabalho apoia. A linha narrativa poética desse discurso da loucura. e da comparação entre figuras. O testemunho da poesia de Stela foi gravado através de perfeição. sobre a linguagem de ficção e a poesia. de resignação e de torpor Stela e de Maria de França irmanam as dicções. A dentre outros. demonstra uma certa primordialmente aqui. a crítica produzida por parte do próprio Osman do professor que. 218 219 . a esmiuçar a obra de JME. dicção da personagem Maria de França. por ser a voz Martha Costa Guterres Paz (UFRGS) de um romance ausente dentro de outro romance. Maurice Blanchot. com o lirismo de sua fala sonoridades presentes na narrativa. somente outros símbolos. dedicamos atenção especial à composição prática de purificação e de realização espiritual. As semelhanças entre as falas de em seus momentos de angústia. com toda sua complexa sobre a obra de Osman Lins. manicômio no Rio de Janeiro. internada nas últimas décadas do século XX na transformação ascendente interna de seus protagonistas se contrapõe Colônia Juliana Moreira. onde viveu por à ascenção. John Cage procura provar a inexistência do de que faz parte este pequeno artigo. Resumo: O desenrolar do enredo em Avalovara revela um cuidadoso encontramos uma tal dicção que faz eco à poesia de outra mulher. este que se lança. no romance. a mudez interna. pela fusão dos protagonistas entre si e se na bibliografia da pesquisa desenvolvida no âmbito de mestrado com o tapete misterioso. sentidos possíveis do romance deixado pela amada morta. simbolicamente. Stela do Patrocínio análise do narrador não nomeado. representada eu-lírico e Maria personagem. movimento de personagens e de cenas entremeadas de sons. é acessada por uma Palavras-chave: A rainha dos cárceres da Grécia. a Transfiguração e silêncio em Avalovara. ressaltando. faz parte do rol de oposições que enriquecem a obra de Osman Lins. o silêncio envolve os personagens integral então disposto em versos. na tentativa de descobrir se afinal fora “amante de Lins na investigação sobre o trabalho da escritura.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS as lacunas do texto metalinguístico orquestrado pela personagem com Maria e Stela. Por ser a voz de uma louca. Stela yogues tântricos rumo à unificação com o todo cósmico.

é o ápice consigo própria. signo linguístico e confere a ele uma “importância real”. Nesse sentido. Palavras-chave: Dramaturgia. De acordo com a teórica. configuram narrativas de viagem as correlações entre o som e silêncio com os momentos finais da – seja no evidente deslocamento espacial. da autorrepressão ao autodesenvolvimento”. apesar de não figurar entre textos os como Abel – em sua jornada por meio do amor e da palavra . viagem 220 221 . Tomo aventura de Ulisses configura “a viagem metafórica que a humanidade como um possível aporte. conforme sublinha Matos. Avalovara. precisou realizar para efetuar a passagem da natureza à cultura. a Semiologia altera a natureza arbitrária do como anota Olgária Matos. protagonista de Avalovara. o texto fundamental da civilização europeia”. Lisbela esse “sentimento de quem não tem morada e em nenhuma parte de si encontra repouso”. Este artigo procura mostrar Dante Alighieri. para fundamentar esse prisma analítico. ‘Lisbela e o prisioneiro’ é uma peça que pode ser lida e testemunho mais eloquente das imbricações entre razão e mito que a de dissecada a partir de uma vertente que leva em consideração a crença Homero. Nesta comunicação. Em suas travessias impregnado na tradição oriental do tantrismo. apartado de Florença. no poder criador da palavra. compreendido como figura fundadora da racionalidade. no intuito de melhor compreender a esplêndida experiência/ do mundo ermo e ignorado”. mostramos presentes na peça. o qual... assumindo. quanto a Commedia..XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS O músico e compositor canadense Raymond Murray Schafer vai mais Errâncias e conhecimento: a viagem de Abel.). mesmos’. Semiologia. Pois Abel. mais”. o ardor de Ulisses longe e destaca a necessidade de submergir nos reservatórios de Luciana Barreto Machado Rezende (UnB) quietude interior para restaurar a tranquilidade espiritual.alinha-se antológicos de Osman. justamente o indeclinável ardor na busca pelo conhecimento. em contraponto também cumpre um tortuoso e iluminador percurso de aprendizagem com sua dimensão simbólica. “dono de vontade e consciência” não recusa “a vetor de que tratará este trabalho.” Essa perspectiva de abordagem da linguagem será o homérico. Dante e Ulisses indubitavelmente Palavras-chave: Silêncio. por parte do autor. que. “nenhuma obra dá de 1960. Como Dante. sobretudo os que prestigiam as narrativas com enfoque deixando-se reger pelo que Marco Lucchesi chama de “nostalgia do regionalista e com a força representativa do imaginário popular. de de toda a trajetória de Abel e da Inominada. datado Adorno e Horkheimer. longe de sua Ítaca.. brasileiros. Imaginário popular. seja na fusão de tempos incansável busca dos amantes e as possíveis associações com o sagrado distintos e na presentificação do discurso narrativo. o “(. do os estudos semióticos de Julia Kristeva. como disposto partir de que matéria linguística são construídas a leveza e a comicidade no Canto XXVI . em ‘Estrangeiros para nós instinto à sociedade. do Inferno dantesco. iniciáticas. O silêncio Resumo: Na relação que a literatura guarda com o mundo e também transcedental.) símbolo e transformação ao não se esquivar das provas a serem transpostas. assim. o arquétipo do homem em busca de si mesmo. movido pelas ousadas Marina Arantes Santos Vasconcelos (UnB) venturas da errância. Ulisses. tomou para si um espaço cativo entre os leitores ao eu homérico. de Homero. segundo quem. mencionado com ênfase no final do romance. e Ulisses. A Divina Comédia. Schafer empreendem uma viagem interior. deixa de ser símbolo e ‘reveste toda a eficiência e toda a significação do a exemplo do canto das sereias exemplarmente suportado pelo herói simbolizado’ (. A dimensão simbólica e criadora da palavra em Lisbela e o prisioneiro. tanto Avalovara. em turbulentos mares e ilusórias ilhas. Cage. Ulisses também está exilado. a incondicional. os peregrinos Abel. na Dialética do Iluminismo. Palavras-chave: Avalovara. Para Resumo: Texto dramatúrgico do renomado escritor Osman Lins. de Osman Lins.

Maragogi e “Seria necessário. dentre elas Abaporu. dizia ele. para pensar o papel do professor no ensino mais abrangentes da vida no capitalismo e ainda mais do que nunca superior. ao obtido por Osman Lins na década de impelem quem as frui a um pesar e medir das aparências e essências. usei dez imagens clássicas da volume três peças em um ato”. refiz a pesquisa na disciplina que ministro em Pedagogia e Romance dos Dois Soldados de Herodes completam. Fabricar bonecos é que livro “”Do ideal e da glória: problemas inculturais brasileiros(1977)”. Ressalto com clareza aqui a maior dificuldade da sua tarefa. nosso autor fazia uma análise da qualidade vida. O realismo das peças que compõem Santa. editado no – Por que não? Como. “Apesar das insuficiências dos com as contradições da vida cotidiana ainda mais dramáticas quando alunos. Osman Lins escreveu um texto de cinco Resumo: Damião Luiz – Capanga nunca foi profissão. ou ainda esclarecedores dos mais terríveis limites impostos ao desenvolvimento alguns um Romero Britto? Currículos e parâmetros sofisticados para dos talentos e potencialidades humanas. Os problemas da a organizar e ministrar seus cursos de graduação como se tivessem realidade dos anos 1960 e 1970 reaparecem no atualizar de gêneros diante de si alunos ideais”. do ensino superior brasileiro tendo como pano de fundo a própria automóvel e soldado. mais propriamente. Mona Lisa e O quarto de Van Gogh. O nível de acerto foi ainda pior. No ano de 2016. partindo de um questionário a gêneros populares medievais como o mistério. aparência/ que continuam reproduzindo na idade adulta desenhos esquemáticos essência aprendidos aos sete? Que papel tem a universidade na caótica educação 222 223 . É indubitável que a questão se agravou nos últimos quarenta em seus períodos de ditadura. Claraval páginas chamado “Reflexões sobre um quadro-negro”. todos os dias da Neste pequeno texto. bem aquém do que errado. um único ato: “Compõem o presente do questionário como parâmetro. reconhecer que o interlocutor à sua Araripina serem aldeias em torno da bíblica Belém. ao professor. no prefácio. de Osman Lins Leonardo Monteiro Trotta (UNICARIOCA) Adriana de Fátima Barbosa Araújo (UnB) Resumo: No ano de 1976. pergunto então qual papel nos cabe na sala de aula atual? refletir sobre a relação entre aparência e essência nesse texto/peças Discussões teóricas embasadas em críticos de arte quando nossos aparentemente leves e bem-humoradas. adequado três atos comporem uma peça. A proposta dessa comunicação é anos. mas tudo está completamente de acordo com as verdades as ele desejou e imaginou”. Damião Luiz – Profissão é o que se faz. segundo diz o numa instituição privada chamada “Arte. Suas conclusões derivaram de e situações muito antigas. aparece profundamente atado educação brasileira como um todo. É bem o seu contrário! As astúcias composicionais de Osman Lins comparativamente falando. Não é isso que se passa. automóvel e soldado. mas tão profundamente alunos não reconhecem um Monet. que trazem inovações de forma e conteúdo uma pesquisa na sua própria sala de aula. a imagem da santa feita e refeita por Damião Este trabalho que aqui apresento parte do ponto levantado por Lins: realmente faz milagres. visto e bebo do que faço. Ditadura militar. continuam os professores vividas em situações de aguda opressão e violência.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS O que se faz da vida com tudo que se é: resistência e realismo em Ensino superior: os mesmos problemas quarenta anos depois Santa. Claraval. de Osman Lins. quarenta As peças Mistério das Figuras de Barro. alunos que não dominam os elementos básicos da linguagem visual e Palavras-chave: Osman Lins. Partindo próprio Osman Lins. Realismo. Isso em vez do que pareceria mais história da arte brasileira e mundial. Algo parece estar frente-ou. Algo parece estar errado. altamente imaturos e despreparados. O Grito. Auto do Salão do Automóvel anos depois. 1970. o auto e o romance. cultura e educação”. ouvinte-é outro. básico no campo literário com dez questões. o trânsito representar a sociedade. um Leonardo da Vinci. com tudo o que se é. não é profissão.

ALTERIDADES CONCEITUAIS DO educação artística FANTÁSTICO Flavio García (UERJ) Marisa Martins Gama-Khalil (UFU) Sylvia Trusen (UFPA) Resumo: Louis Vax. Filipe Furtado. sem perder de vista 224 225 . 1970). não se eximindo de reconhecer os precursores esforços de Todorov. ela opta por menor rigidez estruturalista e. preferindo. por essa razão. 1974). migra da visão genológica daquele para uma visão modal. inicia procurando delimitar certos pressupostos bastante rígidos que definiriam o gênero literário.. sem hesitar. em sua primaz publicação em torno da ficção fantástica (Le récit fantastique: La poétique de l’incertain. a literatura fantástica. em suas diversidades histórica e teórica. Paris: Larousse Université.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC básica brasileira? Sãos estas discussões que este pequeno trabalho se propõe. sob vieses estruturalistas. em seu paradigmático trabalho de fundamentação teórica acerca do fantástico (Introduction à la littérature fantastique. Paris: Press Universitaires de France. logo de imediato. Paris: Editions du Seuil. circunscreve. adverte o leitor. Palavras-chave: Ensino superior. ainda que muitos de seus pressupostos sejam idênticos aos dele. Irène Bessière. Tzvetan Todorov. porém. na introdução ao seu clássico estudo sobre o fantástico (L’art et la littérature fantastiques. partindo da profecia de Osman Lins: “(. elementar e complexa. em seu universo. 1960). em virtude disso. flexibilizando. tanto o conceito de gênero. literatura brasileira. Educação brasileira. também se refere a perspectivas anteriores ou coevas. sobre as dificuldades que envolvem quaisquer tentativas de definição do gênero.)a situação será 09 insustentável-e o próprio desastre imporá então as suas leis”. voltar-se ao exame crítico dos textos ficcionais nos quais irrompe o acontecimento considerado inexplicável pelas leis admitidas em nosso mundo natural. em si e. quanto define. diferentemente de Vax e outros seus antecessores ou coetâneos. talvez já influenciada pelos ares vindouros da semiologia.

dez anos depois. Gênero. Madrid: Páginas de Espuma. de forma alguma. anglo-germânicos ou gênero. Espera-se que as comunicações apresentadas neste simpósio neolatinos – dedicaram-se a refletir sobre o fantástico. a se poder falar de modos discursivos. Harry Belevan. ser esquecidos. 1980). a partir da publicação. enriquecendo-o Renato Prada Oropeza. igualmente. com introdução bastante oportuna escreveria duas diferentes versões de verbetes para o fantástico (Teorías de lo fantástico. de fato. 2011). todo o arcabouço apresentado pelo teórico búlgaro. observando as relações entre categoria e de origens variadas – europeus ou americanos. em seu estudo (A construção Bozzetto. Víctor Bravo. (E-Dicionário de Termos Literários. sob diferentes ângulos e aspectos. o mesmo Furtado que. – sem. em <http://www. entre as visões genológica – que parece a que mais com Bèssiere. antecessores e contemporâneos. Remo Ceserani e. o momento. Modo são inerentes aos gêneros. e houve.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS as inovações metodológicas e conceituais trazidas à cena por Bessière. Roas. em uma delas. imiscuindo-as sem comparativistas. do qual muitos adentraram o século seguinte. com privilégio para tensões a orientação genológica. optando. então. lhe sobrepesa a obra lhe agrada – e modal – muito pouco referida em sua obra –. ainda que não o fizesse em absoluta consonância sem muita prudência. adotando seja abordem. resgata María Barrenechea. oscila. coordenação de Carlos Ceia. seja a modal. 1966). no entanto. Da com contribuições advindas da semântica estrutural de Algirdas Julien viragem do Século XX para o XXI. a ótica modal galardoado com o prêmio Málaga de Ensaio. – Fantástico (modo) –. Christine Brook-Rose. merece especial destaque David Roas. Desse difuso grupo de teóricos e críticos. a crítica e a historiografia do fantástico. a visão genológica.com. via de regra. Pampa Olga Arán. Ana do fantástico na narrativa. New York: às vezes. atentarem para o fato de que as categorias. de uma reunião de textos fundamentais de alguns de seus de Todorov. tarde. Roger atinge de certo modo a maioridade” e. Antón Risco. 1981). outros que optaram por teoria. pois é nítida a influência que. Madrid: Arco/Libros). ainda. Rosalba Campra. modos de expressão. elencados não por critérios cronológicos. e.edtl. Jean-Baptiste Baronian. dentre os americanos. por tratar o fantástico como sendo uma categoria – no que New Accents. dentre 226 227 . mantendo-se bastante produtivo até Greimas (Sémantique structurale. contudo.pt>). disponível Roas publicaria seu trabalho de referência (Tras los límites de lo real. genológica – Fantástico (gênero) – e assimilando. chegando. muitos teóricos e críticos também não se aprofunda. Paris: Larousse Université. Palavras-chave: Fantástico. Jaime Alazraki. ou. em outra. Roger Callois. Susana Reisz. levara ao extremo a visão estruturalista de seu antecessor. Ao longo desse Século XX. correndo-se o assumido risco de deixar de mencionar alguns nomes que não devessem. as diversas visões conceituais que envolvem a ficção. Lisboa: Livros Horizonte. de Rosemary Jackson (Fantasy: The Literature of Subversion. iluminado o cenário dos se referir às vertentes ficcionais do fantástico chamando-as de categoria estudos do fantástico neste momento de globalização. Jean-Paul Sartre. reiterando. corrigindo falhas e completando faltas em 2001. podem-se destacar. Pierre-Georges Castex. a maiores atenções distintivas. Cerca de três décadas mais um espaço singular no universo do fantástico. sua visão Una definición de lo fantástico. na verdade. os europeus. mas pela ordem alfabética de seu primeiro nome. portanto. mesmo. que delas se compõem – ou de discursos – sem se darem conta. de que os discursos implicam. que vem ocupando reafirmando. reconhece que terá sido com Todorov que “a crítica do gênero fantástico Jean Bellemin-Noël.

o destino e a naturalização do sobrenatural no espaço de pensamento” predominante em algumas sociedades. Para Alexandra Britto da Silva Velásquez (UERJ) alguns críticos. geralmente entre a perspectiva africana e a europeia. em especial cotidiano estão presentes nas duas obras. Dessa forma. em Bakhtin em “Questões de Literatura e Estética – A Teoria do Romance”. por conseguinte. Juntamente a essas questões. Destino. realismo animista dando assim uma ordem subjetiva imposta para o caos da história” Everton Fernando Micheletti (USP) (2012. em que este seria algo primitivo ou estritamente religioso. termos estes considerados a partir de Todorov. especialmente em contos e do mundo. contraponto com a ciência. problema que se aponta. Espaço insólito movimento em direção à modernidade. esta complexa proposta coletiva que estrutura o ser e a consciência” nessas sociedades (2012. Mia Couto e o insólito na literatura africana: (im)possibilidades do que criam a ‘ilusão’ de um contínuo. nos p. também nas obras de Couto p. há uma especificidade africana que não caberia nos Resumo: Este trabalho pretende investigar o conceito de cronotopia termos do fantástico e do maravilhoso como propostos por Todorov nos romances “Cem anos de solidão” (1967). uma série de situações e acontecimentos insólitos. há uma e. de Mia Couto – uma leitura comparatista universal. mito e do mágico”. dentre eles estão: Aristóteles. de Gabriel García Márquez e. o que face desse conjunto conceitual. considerando que o animismo “desestabiliza Outros autores também complementam as investigações sobre o tempo a hierarquia da ciência sobre a magia e da narrativa secularista da nas obras citadas. “A varanda do frangipani” (2007). dos deuses econômicas” e “se reproduz na esfera da cultura e da vida social” (2012. um “modo animista o tempo. fornecendo certezas culturais. utilizando o termo “realismo animista” para a literatura. pontos a seguirem em discussão. Se o tempo de aventuras nas africanas. onde o tempo parece zique-zaguear defende que o inconsciente animista “é uma forma de subjetividade regido por forças desconhecidas. e Marquez. 241). ao invés da ideia de um abismo. Manhã [09:00 – 11:00] havendo alguns estudos. porém variam as abordagens. observamos personagens que ocupam espaços insólitos. Ele denomina esse processo de “reencantamento” Resumo: Há. de Mia Couto. o de “realismo animista” proposto por Garuba. “suaviza o Palavras-chave: Cronotopia. na literatura de Mia Couto. Afastando-se da perspectiva evolucionista sobre o animismo. distintas. o que. 242). p. Ele recoloca. Nesse mesmo sentido. de tempo. mais geral. como afirma Bakhtin. de Gabriel García Marquez e aplicados a toda produção literária. com a realidade. Santo Agostinho. tempo. Em romances. Esse aspecto chama a atenção há certo tempo. como o colombiano García conceito. modernidade através da reabsorção do tempo histórico nas matrizes do Walter Benjamim e Gustavo Krauser. surge um novo por autores de culturas. o autor que se movem segundo o acaso. a priori. o animismo como característica humana remete ao estudo do conceito de cronotopia delineado por Mikhail de relação com o mundo e. surgem as seguintes questões: o insólito 228 229 . é possível vislumbrar como Garuba afirma haver um “inconsciente animista”. de modo que Sessão 1 permanecem questões. que se incorpora aos “processos de atividades materiais e no romance grego abre frestas para a intrusão do destino. envolve o contraponto local/ n’A varanda do frangipani. e dos demônios. Um primeiro A cronotopia em Cem anos de solidão. para “a massa de pessoas comuns”. Numa leitura resistência às tentativas de aproximação com o “realismo mágico” comparatista entre dois romances publicados em épocas diferentes latino-americano. Primeiramente. Marquez e o moçambicano Mia Couto. assim. que Marquez e Couto apresentam em suas narrativas. 242-243).XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS QUARTA 09 remete ao fantástico e ao maravilhoso.

Velhas Identidades Novas. o que medievo (Le GOFF. CHIAMPI. que marca o fim da ditadura termo insólito vem sendo empregado nas tradições teóricas. do nessa característica. É o Palavras-chave: Mia Couto. ao buscarem Propõe-se. 2011)-.o nosso dia ainda está por vir.” nas diferentes formas do modo gramatical – as diferentes maneiras de Em outras palavras. Quanto a sua constituição.1996)-. ou modal (BRESSIÈRE. por vezes. abordando um pouco sobre o assunto.2010. narrativa confessional. Inicia-se este estudo pelo dicionário Larousse Resumo: A narrativa Vinte e Zinco do escritor moçambicano Mia Couto Cultura (1992. a ligação inevitável entre os seres humanos e a dor que os une. Ainda segundo Maciel (2013). O termo é utilizado nesse contexto “ora cinco é para vocês que vivem nos bairros de cimento. Realismo Maravilhoso(CARPENTIER. sendo.1927). principalmente nos estudos das literaturas de Isto é possível ver nas palavras da personagem Jessumina: “ Vinte e língua portuguesa e espanhola.2010). apontando algumas conhecimento de um testemunho único. Para nós. do insólito que envolve a narrativa.todoroviano (TODOROV. faz-se necessário Kátia Marlowa Bianchi Ferreira Pessoa (UNIPLAC). p. 635). Jane Tutukian. assim. às regras. o termo insólito aparece. sem deixar de destacá-la como do Realismo Mágico(ROH. extraordinário. em seu livro “contrário ao uso.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS na literatura de Mia Couto pode ser entendido em termos do fantástico dando ênfase aos diários. Em seguida Vinte e zinco de Mia Couto: um diário marcado pela presença do será pontuado o insólito presente em cada capítulo após apresentar insólito em uma sociedade pós. afiança o seu caráter de narrativa confessional. que aponta a palavra “insólito” como sendo foi publicada pela primeira vez em 2013. objetiva-se nesse trabalho pontuar a presença Estranho. 230 231 . históricas da literatura. Os leitores do século XX. ou Realismo Animista (PEPETELA.” isto é. o ironia ao Vinte e Cinco de Abril de 1974. a narrativa e do maravilhoso ou restringe-se ao “realismo animista”? Até que ponto confessional alcança seu apogeu no início do século XX e continua em esses conceitos todos podem circular para a análise das literaturas de voga até os dias atuais. 10). o que não é usual. Assim. variando em gênero e número e pobres que vivemos na madeira e zinco. críticas e salazarista em Portugal e o fim da guerra colonial em Moçambique.Segundo Garcia (2013. na verdade visam a obter possíveis respostas às questões. quanto se fazer afirmações” García (2013) afiança que dependendo da corrente à independência de Moçambique não afetaria tão cedo aos pobres teórica adotada. Para tanto. baseando-se FURTADO.1980). países e regiões.colonial uma discussão teórica sobre o assunto. inclusive em caminhos inversos. realismo animista. p. consumo e passou a ser digerida por uma grande massa de leitores encontrando-se o animismo no fantástico e no maravilhoso europeus? interessados no secreto.1980). incomum. desse a narrativa se assemelha a um diário em que os onze capítulos são modo. negros como substantivo. pois a literatura íntima tornou-se produto de vários continentes. visto que a família Castro insólito é burguesa e a personagem Irene procura guardar os seus segredos escritos em cadernos transformados em diários íntimos. Maria Cândida Melo fazer um estudo sobre o que é insólito e como ele está presente na Pereira (UNIPLAC) narrativa estudada. literatura africana. categoria ficcional comum a variados gêneros literários.2001. FURTADO. assegura que o título Vinte e Zinco é uma infrequente. a mudança tanto do governo português. 1966 e 1987. um aspecto intrínseco e interno às estratégias de construção datados em 19 a 30 de Abril. ou freudiano (FREUD.1989) –. anormal.1997). raro. do Fantástico-genealógico (TODOROV. contribuir com essa discussão. que se pode comprovar em Vinte e Zinco. Esta característica também é ressaltada narrativa presentes na produção ficcional do Maravilhoso – clássico ou por meio das citações dos cadernos da personagem Irene. ora como adjetivo. significando uma que continuariam na mesma situação.

Ambiguidde nomeando aqui.. pretendo. Diário. Irene Bessiére. também não objetivo confrontar os surpresa. Camila da Silva Alavarce (UFU) Para tanto. bem como 232 233 . incomum seja marca definitiva. como antes de qualquer outro traço – inclusive antecedendo a hesitação –. 166). como Ambiguidade. do capítulo “A travessia manifestações híbridas. de propor uma aproximação entre um “modo de funcionar” Palavras-chave: Insólito. um pensamento em torno de “por que o Fantástico” – indagação que especificamente. possibilidades semelhantes de criação e de efeitos estéticos. reúne e rotula parte dessas partir de O outro pé da sereia e. investigar o espaço comum propõe uma reflexão não em torno de “o que é o Fantástico”. como procedimentos literários que viabilizam. hesitação. visa às suas funções. a partir João Olinto Trindade Junior (UERJ/UFRRJ) da qual se alcançariam efeitos de sentido específicos e calculados. no qual o fantástico estaria inserido não como meta a Absurdo(RIBEIRO. exagero. Quero tecer uma reflexão para a qual fantástico e ironia estejam No espaço da dissonância: ironia e fantástico em O outro pé da sereia. sói acontecer com grande parcela da literatura gótica. sob a designação de “pseudofantástico e suas do tempo” – pensar o Fantástico funcionando na narrativa e. por exemplo. “o fantástico não define uma qualidade atual de objetos ou Resumo: Passando por teóricos pré e pós-Todorov – por vieses não de seres existentes. Dissonância. tanto o acontecimento irônico. gostaria de – a Roas (2011. O próprio Todorov (1975. horrorífica. policial.2010)-. em “O relato fantástico: forma mista do caso e da adivinha”. no interior da de Mia Couto narrativa. nem constitui uma categoria ou um gênero literário. Fantástico. do inesperado. mas. mas sim como “gatilho” ou procedimento narrativo para atualização contemporânea do Maravilhoso (TODOROV. Para a estudiosa. sentido. do Sobrenatural. portanto.” Logo.1996). transgressão e contradição são palavras que caracterizam estudos em torno da natureza do fantástico. Com esse estudo. terrorífica.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS variando a adjetivação a partir do lugar do qual o crítico fala-. ou ao seu modo de funcionamento. suspense.. de mistério. lato-. do de um relato. quanto o acontecimento fantástico. mas sim entre ironia e fantástico. revisitarei parte significativa dos estudos relacionados à Resumo: Não pretendo falar do Fantástico como gênero. Racismo fantástico e um “modo de funcionar” próprio ao acontecimento irônico. de ficção-científica.que Todorov propõe ser a ser atingida. imprevisível. ideológicos -. apenas cronológicos. p. 62-66). dúvida.]” “Lógica narrativa” se refere exatamente ao modo de organização de suas delimitações ao longo do século XX e começo do XXI. Ainda para Bessière. delimitando ironia e ao fantástico. autor de estudos mais tradicionais em torno do fantástico. Colonialismo. os seus traços e o diferenciando desta ou daquela categoria. próximos. tendo em mente o romance de Mia Couto e. ambíguo. e mesmo fins específicos. contraditório.em sentido a contradição e a ambiguidade: “ambivalente. especialmente. a lógica narrativa que se apropria de toda uma infinidade de gêneros híbridos em que a manifestação do fantástico como estratégia será sempre aquela que tem em mira. p. como estou Palavras-chave: Ironia. também. o capítulo mencionado. no sentido em que encaminho a minha proposta. o estranho ou o maravilhoso. os estudos do mas supõe uma lógica narrativa que é tanto formal quanto temática Fantástico tem amadurecido e gerado profícuo(s) debate(s) em torno [. insiste na necessidade de se pensar o fantástico Rupturas no discurso oficial: o fantástico e a metaficção historiográfica menos como uma categoria ou gênero literário e mais como uma como estratégias contra-hegemônicas em literaturas de língua portuguesa espécie de estratégia constitutiva do projeto literário do autor. nesse variantes”. encenação. o relato fantástico é essencialmente paradoxal.

questiona o Covizzi e García. não do elemento fantástico na narrativa. ocorre é fortuita. procurando desmarginalizar o literário por campo do sonho para dramatizar. Todorov. Bessiére. também. ao promover a interrupção da história. na literatura. a exemplo da (“Vou visitar a minha Luzia/Quero me casar com sua filha/ . e das suas diferentes representações narrativas. Nesse tipo de narrativa. Sylvia Maria Trusen (UFPA) em meio à proeminência das mais diversas manifestações do fantástico . E. Narrativa significados –. que contrapõe . a manifestação pesadas”). o qual é. É através dessa percepção que se é possível compreender Sessão 2 – observando as premissas gramscianas de hegemonia cultural – que ele se faz presente sempre que urge a necessidade de um discurso da Maravilhoso e alteridade no Cobra Norato.termo este aqui utilizado em sua pluralidade de Hegemônico. ao discurso histórico dito como oficial. traz-nos curiosidade o apontamento feito descortina. capaz de invocar um discurso – numa acepção foucaultiana QUARTA 09 . tão sujeito aos processos da no universo dos falantes de Língua Portuguesa. a promovam-se as transgressões das leis do mundo objetivo. pois evoca vozes silenciadas com relação ao efeito de transgressão produzido pela recorrência ao pelo poder constituído. problematiza da incerteza.que tem como finalidade desconstruir outros discursos. Furtado e Chiampi. tratou do problema. logo constataríamos que muitas lançam mão do imaginário e o fantástico. Veiga e Mia couto. por via 234 235 . expondo- vida é sutil. poema de Raul Bopp. o que foge às regras da meio do confronto com o histórico. modo narrativo. um discurso Discurso do qual se apropriaram escritores de maior e menor expressão narrativo em prosa e. Metaficção Historiográfica. Gênero ou modo de se narrar. passando por Eça de Queirós e outros. Tarde [14:00 – 16:00] hegemônicos. se acaso deitássemos a vista sobre obras que se a contestação do discurso hegemônico ao ampliar a fronteira entre o acercam do insólito. somos confrontados com a afirmação de que “a ciência é grosseira. só pela sua simples existência. por definição. espécie de discurso contra-hegemônico que tem que apagar os olhos primeiro / O sono escorregou as pálpebras possui. como José J. A opção pelo fantástico na Metaficção elemento fantástico na narrativa. tomando como referência nomes dessa área o discurso histórico. Por esse viés. por dentro. de Carvalhal. estes.ou que. gerando um discurso literário que. dentre uma de suas vertentes mais profícuas. razão. para propor este trabalho..Então você Metaficção historiográfica. e é para corrigir essa distância que a literatura nos importa”( as. dentre outros. parece haver uma relativa concordância conhecido como oficial . Campra.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS sua derradeira nomenclatura. capaz de questionar o poder constituído.gera polêmica. Gênero literário.7). até os mais Palavras-chave: Fantástico. De fato. De fato. que vão de um Álvaro narrativa como qualquer outro. o presente trabalho procura demonstrar como p. recoberto por atmosfera onírica opta por nomear como “pseudofantásticos” (2011). podemos reiterar essa observação de que o fantástico sempre foi determinadas narrativas promovem um exercício de enfrentamento um discurso transgressor dentro do próprio espaço da transgressão. ao leitor. como a prosa e a fílmica -. poética ao romper a barreiro entre aquilo presumido como real..modal e genológico. se na Aula (1987) de Barthes Historiográfica permite que. anotando que. Resgatar eventos históricos através de um discurso de estudos como Todorov. Resumo: Os versos que abrem o Cobra Norato. uma cena: desejo de errrância (“Um dia/ eu hei por David Roas sobre a manifestação de determinados discursos que de morar nas terras do sem-fim”). Discurso Contra- contemporâneos . A eleição desses versos. entretanto. Roas. sabemos. de Raul Bopp e na recolha de Antônio Brandão de Amorim Lendas do Nheengatu e em Português contracultura.

novela. não por acaso. crônica. tal redução não é relevante para o jogo ficcional apenas um gênero literário. no campo da literatura. consequentemente. expandindo seus 236 237 . crítica. em grande se e mostra sua próprias leis. a passagem de um A tessitura do gênero fantástico: uma análise da construção da certo gênero literário (o maravilhoso). pertence ao Palavra-chave: alteridade. p. permitindo representações chegada do Modernismo. aos seus leitores quão limitada é a visão que possuem do universo. contrária ao modelo emergente que tinha como ideal continuaremos seguindo a trilha inaugurada pelo Los poderes de la uma linguagem livre de normas. constitui uma das obras a que Freud tinha mais apreço. os ‘sujeito mais nefasto que tem aparecido em nosso meio intelectual’. contudo. matéria central na psicanálise. de Brandão de Amorim. dado que subjuga. escritos. 86) O que Freud parece estar afirmando Academia Brasileira de Letras. o prêmio regidos pela lógica do inconsciente. possuem sua sintaxe própria. Sua leitura promove profundas reflexões sobre a existência de fatos inexplicáveis e incompreensíveis à razão humana. foi indicado ao Prêmio Nobel de Literatura é que longe de serem produções destituídas de sentido. mas também as narrativas de fundo mítico. que “longe de serem representações. Contudo. Victor Bravo. que trouxe consigo um novo padrão de produção artística. não se deteve ao cultivo de anota o venezuelano). conheceu as faces extremas da crítica literária: “desde o ele argutamente adverte. Mas apesar do número e valor próprios é porque a elaboração desse universo outro constitui expressivo de volumes publicados e da diversidade de gêneros por ele experiência distinta. as artes plásticas e a literatura. entre outros. no intuito de a produção literária não apenas dos contos reunidos por Grimm e romper com este paradigma é que este trabalho se propõe a analisar Perrault. o Interpretação dos transformando. de elementos dos sonhos são experiências mentais verdadeiras e reais Lima Barreto. encenada na literatura. da Literatura Brasileira. cujo escopo temos ampliado para compreender para além das opiniões exaltadas ou prejulgamentos. também. à revolução cultural fomentada pelo movimento modernista e sobre a qual se debruçam as teorias em torno do insólito. a saber o Lendas do 1908. Recebeu.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS deste instrumento. que se institui na narrativa. e. de Raul Bopp. a ‘o maior romancista brasileiro’ de Otávio de Faria” (BOSI. com a obra A Cidade Maravilhosa. Em um primeiro momento. 210-1). simultaneamente crível. conto. é pouco lido na atualidade. maravilhoso. os sonhos. p. próxima do falar cotidiano. o romance Esfinge. parte. sobretudo. do mesmo tipo das que surgem no estado de vigília através dos 2013. Escritor prolífico. revelando aos seus personagens e. sonhos. de Coelho Neto pelas explicações lógicas do mundo. com a seu discurso é o da alteridade absoluta. por aclamação da sentidos”(FREUD. foi ultrajado justamente por causa de sua do aparentemente inconciliável. de 1933. teatro. ficción (Victor Bravo). No entanto. por conseguinte. Dono de uma escrita inconfundível. percebe-se que este romance está nheengatu e em português. publicado pela primeira vez em pesquisadores e por viajantes no norte do país. Escreveu romance. 1996. Se a vida sonhada ganha na ficção sentido poesia. dominado fantasticidade em Esfinge. ainda em vida. Nela. nas narrativas Resumo: Henrique Maximiano Coelho Neto foi um grande representante que colocam em cena a produção onírica (exemplo cabal é o Alice. o estranho. escrita esmerada. porém. pondera que Andressa Silva Sousa (UEMA) embora possa parecer haver uma redução do fantástico. Neste trabalho. opera-se. intertextualidade gênero fantástico. para outro. O autor. no Cobra Norato. Esta dinâmica. O de “Príncipe dos Prosadores da Literatura Brasileira”. Tal situação deve-se. lido e reatualizado entre as narrativas que tratam de acontecimentos sobrenaturais e que. fábula. pela maneira como o sobrenatural se inscreve no enredo. constitui brasileiro. como as recolhidas uma de suas obras.

Van Helsing (2003). dirigido por Stephen Sommers. passando pelo cinema e Resumo: Ancorado nos pressupostos teóricos de Tzvetan Todorov. que podem ser: o Dracula (1992). autômatos. Magia. embora tenha extrapolado os limites da luneta mágica. de Joaquim Manuel de Macedo. do filme Palavras-chave: Esfinge. no qual determinadas tendências tecnológicas transubstanciar símbolos em tons dissonantes de loucura. fantasia. criada pelo célebre roteirista John Logan. desde literatura. o steampunk se traduz na literatura e em outras artes que é. Joaquim Manuel de Macedo em ambientação vitoriana. medo. correlação dos elementos verbais. do professor Enéias Tavares apresenta-se como um os mecanismos utilizados pelo autor no processo de construção da romance de mistério. Palavras-chave: Insólito. a partir da revisitação de eventos textuais que evidenciam os tipos de reações que a percepção do históricos e de obras clássicas. a vapor (sobretudo dirigíveis. Construção da fantasticidade. bem como reconhecer Dr. atingindo Jander Antonio Sá de Araujo (UFRJ) diversas áreas artísticas. como se disse. de modo a adquirir um caráter mais amplo. de Kim Newman¸ da novela gráfica A liga extraordinária. mas. Este trabalho objetiva Investigação retrofuturista e dandismo decadentista em A lição de investigar algumas características próprias da Literatura Fantástica anatomia do temível Dr. O bem e o teriam evoluído de maneira muito mais veloz do que de fato aconteceu. Propõe nas lentes do mal e do bem na narrativa em estudo. Nas primeiras manifestações steampunk. de Enéias Tavares presentes no romance Esfinge (1925) na perspectiva de três vertentes Bruno Anselmi Matangrano (USP) teóricas pautadas nos estudos de Howard Philip Lovecraft (2007). física e moral do protagonista Simplício e o efeito colateral de feitiçaria com contornos de movimento estético e cultura urbana. A presença do insólito em A luneta mágica cuja origem data das décadas de 70 e 80 do século XX. Resumo: Em um primeiro momento. A fantasia ganha uma visão futurista (muitas vezes distópica e/ou decadente) para força por meio de rituais cabalísticos. a presença do sobrenatural na diegese e as marcas se denomina “Ficção Alternativa”. ainda que grande parte das narrativas vinculadas 238 239 . aos moldes de romances como Anno inexplicável desperta nas personagens da narrativa. em mundos fantasiosos ou em versões paralelas do próprio passado histórico. a dúvida e a desestabilização do mundo real. (o efeito do real). enfim. de Alan Moore. sintáticos e semânticos que propiciam misturando o que dentre os estudos do fantástico (termo usado em um espaço adequado para o surgimento do sobrenatural no enredo seu sentido mais amplo). fantasticidade do romance. Coelho Neto. logosóficos e numerológicos ao o passado histórico. esse verniz mecanizado revestia uma Londres oitocentista ou finissecular. Louison (2014). até a moda e a música. e. em roupagem retrofuturista de viés steampunk. destacamos: a O autor aplica tons tupiniquins a esta estética tipicamente anglófona.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS horizontes de compreensão acerca da realidade. este as artes sequenciais. A lição de anatomia do temível Tzvetan Todorov (1975) e David Roas (2014). e da recente série Análise estrutural televisiva Penny Dreadful (2014). a magia trazer o bom narrativas pela criação de mundos povoados por máquinas movidas senso e o equilíbrio no narrador autodiegético. cuja primeira publicação se deu em 1999. Caberá. Entre esses mecanismos. O Retrofuturismo é uma tendência estética contemporânea. carruagens motorizadas). inatingível. Louison. Sua origem deriva de trabalho visa a elucidar a questão do insólito no romance de folhetim A livros de Ficção Científica. mais precisamente da ficção científica. mal se chocam e se entrelaçam na composição pictórica do ato de ver o Por sua vez. o problema da miopia literatura. aparentemente.

para isso. trazem essa atmosfera para outros ambientes.-K. de J. o vício. de Charles Baudelaire. ganhando cor narrativas fantásticas? E. no “O fantástico” de Ceserani (2006). obra em que tempo.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS ao movimento se passem na terra da rainha. defendida a priori pelo crítico russo. apresenta-se um panorama sobre o conto fantástico contendo seu surgimento e evolução com o objetivo 240 241 . descreve a sublime presença das categorias do modo fantástico presentes no conto de João cidade do Rio de janeiro ao mesmo tempo em que mostra as faces do Rio. Decadentismo. sob a perspectiva da Belle Époque. traços mais marcantes das poéticas naturalista. coletâneas de contos intitulado “Dentro da Noite” (1910). poéticas oitocentistas. espaço e suas personagens. são utilizados estudos sobre o steampunk empregada como base para diversas análises de literatura fantástica. o presente trabalho tem por objetivo mostrar como o classificação da Literatura Fantástica com base nos questionamentos romance de Enéias Tavares revisita poéticas. evidenciando seu conteúdo específico tanto do ponto de vista escondidas nas sombras. argumentação foi respaldada na metodologia bibliográfica com base Palavras-chave: Steampunk. João do Rio. Modo fantástico.Khalil (2013). após algumas observações sobre a problemática da decadentista. em que se faz um apanhado das Literatura policial principais teorias sobre o fantástico e propõe sistemas temáticos e retóricos narrativos baseados. os escritos de Ceserani (2006) mostram a complexidade dessas tradição a partir da figura da personagem-título. A presente análise Palavras-chave: Literatura Fantástica. explicitando o aspecto narrativas e que elas não se resumem à resposta da existência ou decadentista e seu caráter de dândi. no intuito de entender seus mecanismos e situar a obra de Tavares as formuladas por Todorov (2014) não abarca. atrás de mascaras. esta última referida ao autor como aquela que destacou o Wellingson Valente dos Reis (IFPA/UNAMA) enraizamento cultural e a influência do imaginário popular nos relatos Resumo: O presente estudo consiste em fazer uma análise literária do fantásticos. outras. confrontando-as e mesclando-as de modo a gênero ou modo?. Além de identificar também a João do Rio. deixando alguns fatores nessa tendência estética contemporânea. Tal à personagem Des Esseintes do livro Às avessas. o grotesco da então capital de um Brasil que passava (2006). O tem como objetivo principal identificar o teor fantástico presente na bebê de tarlatana rosa narrativa de João do Rio. por um processo de civilização aos moldes franceses. à luz de escritos inerentes à literatura fantástica de fora de sua perspectiva genológica. presente no livro de tarlatana rosa de João do Rio. identificando as estrutura da narrativa. quanto do ponto de vista temático à luz das teorias de Ceserani luxúria. Partindo de elementos da literatura “policial de enigma” e dos se utilizar teóricos que discutissem as especificidades do fantástico. no seu artigo Literatura Fantástica: tipicamente oitocentistas. pretende-se estudar o diálogo e a releitura da Por isso. Huysmans. nos becos. Para tanto. Além disso. como o livro de de responder os seguintes questionamentos: Como se constituem as Tavares. desvelando a formal. Esta pesquisa consiste na análise do conto O Bebê de conto “O bebê de tarlatana rosa” de João do Rio. simbolista e entretanto. quais teorias abordam o fantástico? Buscou- local. lida em perspectiva comparada inexistência do sobrenatural. realista. nas teorias dos modos “O bebê de Tarlatana Rosa” de João do Rio sob a perspectiva do modo literários proposta por Northrop Frey (1957) e nos escritos de Bessière fantástico (1974). notou-se que para o estudo de narrativas fantásticas lançar um olhar contemporâneo para um hipotético futuro do passado se faz necessário uma reunião de fatores que a principal teoria reconstruído. principalmente. obras e formas narrativas levantados por Gama.

publicado no ano de 2011. Ancestralidade. uma guerra civil assolou o país do continente africano. Escritas fantásticas. viagem ser puramente panfletária. Sessão 3 enfim uma época que deixaria inúmeros traumas tanto na população nativa quanto nos colonos portugueses que por lá permaneceram após o “Um grilo fantástico” e “O ocidente misterioso”: uma leitura de dois contos de Altino do Tojal fim da Guerra Colonial. de dois contos. Os Novos Putos (1982). é Cristina a personagem ficcional centralizadora das vozes narrativas que trazem testemunhos de violência do contexto pós-independência de Angola. ex-colônia de Portugal. possui . A ficção de cultural cuja estranheza e temporalidade podem contribuir com algumas Conceição Evaristo.A partir da narrativa “Ayoluma. 1980). filha de colonos Mônica Muniz de Souza Simas (USP) portugueses. Há também outras Altino do Tojal. que vivia Manhã [09:00 – 11:00] então experiências de violência. Mundo Lobo Antunes. de António Lobo Antunes: memórias de um nosso povo”. será possível perceber a presença de “silêncio perplexo” diferentes vozes. miséria. A comunicação buscará caracterizar como um modo de inaugurar um mundo ficcional em que as vozes as sensibilidades de uma narração ouvinte e observadora de um outro das mulheres negras fossem colocadas em primeiro plano. fugas. Os dois contos. “O Grilo de Pi” e “Orvalinho”. Algumas delas são atribuídas a folhas ou objetos.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS A ancestralidade. sendo 8 da obra mais conhecida do Angélica Maria Santana Batista (UERJ) autor. Conciliou sua(s) vivência(s) e sua(s) escrita(s). no entanto. da obra Olhos d”agua. a escrevivência. Nesse QUINTA 10 período. (presente nos gêneros de matriz insólita em diferentes níveis) estaria na Palavras-chave: Literatura de Macau. perseguições políticas. a alegria do Comissão das lágrimas. através da análise surgindo no romance. que contém além desses 38. Fantástico. asiático em comparação com outras escritas na constituição de gêneros? A ancestralidade. verdade e realidade. o maravilhoso e o fantástico em Conceição Evaristo (1987). como seu pai ou sua mãe. am princípio muito apegada à representação realista interrogações às delimitações da escrita ficcional fantástica em suas (com laivos de violência. a partir da análise textual. relações de alteridade. FURTADO. mas assume Resumo: Esta comunicação tem por objetivo tecer relações entre o a função de mediadora do testemunho dessas tantas vozes que vão modo fantástico ficcional e a literatura de viagens. não vivenciou as experiências narradas. Resumo: Em “Comissão das lágrimas”. inseridos no livro Histórias de Macau 242 243 . Até que ponto o fantástico pode se desgarrar da momentos de fissura que desafiam os conceitos prévios e estanques realidade histórica? Como o fantástico se apresenta nas ficções do leste do que chamamos de gêneros do metaempírico (cf. paradoxalmente. o Maravilhoso e o Fantástico se mesclam com o Essas são algumas questões que. podem intuito de dissolver as linhas do tempo e do espaço: a transgressão mobilizar teoricamente um debate mais amplo acerca do tema. do escritor português António Palavras-chave: Conceição Evaristo. Imaginários em tentativa de resgate da identidade afrodescendente sem. enraizados na vida local de Macau. No livro. a protagonista Cristina. vivências e representações que dificulta a delimitação Ana Paula Silva (UFU) do que é ficção. correspondem à matéria ouvida de um Resumo: Maria da Conceição Evaristo de Brito nasceu em Belo Horizonte contador de histórias anônimo que habilita elementos do imaginário em 1946. nascida em Angola e morando em Portugal no presente da enunciação. opressão e racismo). do escritor português outras são de personagens.

Nesse sentido. em Pedro Páramo. Em “Comissão das lágrimas”. da morte de seu filho. Esse diálogo constante se mostra como para combater dissidências). de Teolinda Gersão – autora contemporânea portuguesa –. Apesar de ter sido escrita em outro denunciar a violência. Também consideramos as se comprovar a possibilidade de diálogo que a presente comunicação se abordagens teórico-críticas de Ana Paula Arnaut e Raquel Trentin a dispõe a realizar. então. o testemunho. memória. observando nela como o modo insólito marca essa escrita. já que os habitantes invisíveis se procuram uns aos das lágrimas (a qual teria sido instaurada pelo partido do governo outros. a fim de (1955). As perspectivas buscar a escrita do indizível. inclusive. insólito de Juan Rulfo. tem-se Pedro Páramo isso traumáticas. desconhecido. a fim de aproximar México e Portugal. há um cavalo – que dá nome ao livro – aqui uma busca pelo referente. a despeito de ser imperativo. pretende- Roas. David partir desse exemplo pontual e da temática evidenciada acima. pretendemos mostrar. sujeitos traumatizados. mas a impossibilidade de fazê-lo. mas ele pode de sua vivência terrena em uma casa fechada há muito tempo. do mexicano Juan Rulfo. no romance. por ordem da Comissão contação de histórias. Logo. o que marca o sujeito traumatizado não é o em seu viés narratológico e totalmente ambientada em uma cidade narrar o trauma. Seligman-Silva e Marisa Gama-Khalil. as leituras possíveis na perspectiva contemporânea de Teolinda Gersão e Palavras-chave: “Comissão das lágrimas”. já que ele não consegue saltar um a configuração da escrita de caráter testemunhal da experiência obstáculo enquanto viajava para visitar uma mulher. uma tendência à conversa e à violência – por exemplo na Cadeia de São Paulo. é preciso que se revela. encontra- associado diretamente à morte e ao tempo. A casa da cabeça de cavalo. um cavalo se a transfiguração dessa memória traumática de experiências-limite – presente oferecido pelo protagonista. Miguel Páramo. além de ampliar respeito da obra de António Lobo Antunes e do romance português. Isso porque o trauma os impede contexto histórico. Para estes que passam por situações-limite. contamos com as contribuições teóricas de Bakhtin. O romance entrelaça. habitada por seres mortos. A Para isso. Como de contato esboçadas acima vão. Fantasmagoria Juan Rulfo: diálogos além-mar na perspectiva fantasmagórica Maria Catarina Rabelo Bozio (USP) Resumo: A casa da cabeça de cavalo (1995). é viável encontrar pontos de contato com o romance de relatar os fatos vividos. de Teolinda Gersão. aos poucos. com medo de perder-se. traz como eixo central da narrativa um grupo de espectros que ocupam o seu tempo realizando gestos habituais 244 245 . além das temáticas gerais descrever a violência? Quais os sentimentos que ficam em quem sofre e perpassam questões mais pontuais de cada romance. Nesse contexto. tempos e chave de permanência para que os habitantes da casa persistam num espaços. cavalo parece ser o único que realmente sofre com a morte de Miguel. e por porém numa perspectiva que une dois continentes. há uma efabulação. uma vez que se lembrar das atrocidades seria de Teolinda. Não há cabeça do cavalo. é algo inviável. numa tessitura de vozes narrativas múltiplas que transfigura estado de intermédio da morte e resistam à passagem para o estágio sentimentos e ressentimentos obscuros encerrados nas memórias dos seguinte. Desse modo. já que também se trata de uma narrativa fragmentada doloroso demais. Juan Rulfo. que dá nome ao livro – participa do ser humano. Nesse observar que se trata daquelas silenciadas pela morte ou pelo trauma da contexto. e Pedro Páramo. Fantástico. No mesmo eixo da perspectiva fantasmagórica.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS vozes que o leitor não consegue identificar de quem são. por exemplo. o traumática. Em A casa da a violência? Ou em quem se culpa? Não há a que se referenciar. uma vez que esse real é inassimilável. isto é. de Palavras-chave: Teolinda Gersão.

A Terra (México). Essa relação entre ambos coerência. Perante essas reverberações que se fazem através do suas linguagens artísticas desmontam a sensibilidade surrealista ultraje à racionalidade. Arte e Literatura são campos que têm suas áreas de influência Palavras-chave: modo fantástico. estética. conceito cunhado por como “ Uma fantasma na literatura juvenil brasileira: entre ladrilhos e Octavio Paz (1997) para se referir ao espírito moderno e. procuraremos ressaltar estetas. o olhar estético sobre a arte da com a escrita de Carlos Fuentes modernidade possui como um dos pontos de ruptura esse dinamismo Jucelino de Sales (UnB) entre séculos (XIX e XX). com as inúmeras correntes estéticas da vanguarda. seguida da análise literária da novela fantástica promissor. dessa fé indubitável na razão. ambos de recriando uma nova sensibilidade a partir dos elementos simbólicos e nacionalidade mexicana. eu. Significações paralelas de modernidade seus espaços de atuação costumam aparecer senão simultaneamente. aparecem artistas e escritores com aspirações e e a estética fantástica europeia. a imagem dessa de Frida Kahlo e a poética de Carlos Fuentes. que perante os desastres e a exploração social esmagadora. subvertem o discurso nalgumas de suas obras pictóricas o olhar transgressor enviesado pelo vigente e autorizado de uma história oficial através da polissemia do universo latino que com as rupturas do século XX se afasta dos seus discurso estético. intitulada Aura. possibilitando uma releitura histórica e simbólica da laços manchados pela imposta origem europeia. a partir da voz dada aos excluídos. Nosso ocidental. em seus campos de linguagem próprios. primeiro. imaginação simbólica. o discurso científico Resumo: Discutiremos nessa comunicação relações entre arte e autorizado. Uns quantos golpes. Assim. distanciando-se de uma tradição poéticas que inovam e renovam as antigas demarcações do real. muito aproximadas. olhar investigativo se debruça sobre dois desses estetas. por vezes em proximidades temporais. da leitura analítica de quatro obras pictóricas de do século XIX sob o sentimento daquilo que o crítico autodenominou Kahlo. quando não similares. com assombros” escrito a partir de discussões tecidas na disciplina Literatura a eclosão do fantástico enquanto experiência literária que no século Fantástica que integra o Programa de Pós-Graduação em Estudos 246 247 . essas semelhanças tornam-se patentes. Nesse sentido. apresentando convergências e singularidades entre a estética sofreu fortes abalos. que em determinados períodos Uma fantasma na literatura juvenil brasileira: entre ladrilhos e assombros históricos. filhas de uma “tradição da ruptura” Resumo: A presente comunicação é fruto do artigo acadêmico intitulado para evocarmos a “autodestruição recriadora”. Universos que dominam a história da sensibilidade debate: a novela fantástica Aura.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS Trânsitos entre o surrealismo e a modernidade latino-americana: a XX assume uma expansão extraordinária no espaço histórico-cultural estética pictórica de Frida Kahlo e seu modo fantástico de convergência latino-americano. que abarcou toda a civilização burguesa em uma no universo. pelo viés da arte dele e da obra transgressora sua que trazemos como referência para o e da literatura. Segundo George Steiner (1991). começa a se ruir nos interstícios partirá. ambos compondo nos interstícios do contexto imaginários do universo fantástico latino-americano. pautado no controle da razão produto do homem iluminista literatura. a saber: As duas Fridas. Isso se dá de Andréia de Oliveira Alencar Iguma (UFU) maneira pungente na modernidade: de um lado. ambos os latino-americano: Frida e Fuentes. humana. Nela. O abraço amoroso “o grande ennui”. nessa fronteira. de outro. Procuramos discutir e demonstrar que não se revelava. Diego e o senhor Xólot e O marxismo profunda nostalgia diante do progresso e da confiança num futuro dará saúde aos doentes. de Fuentes. em que. por séculos orientadora de certa consciência literária elitista. o que nos aproxima América-Latina.

Carlos Reis. teremos Resumo: Filipe Furtado. A narrativa fantástica vitoriana. justamente esse ponto que nos leva a direcionar o olhar a esse campo tornando-se personagem central em muitas narrativas que recorreriam de investigação.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS Literários na Universidade Federal de Uberlândia – UFU. como apoio teórico a contribuição de CECCANTINI (2010). uma vez que tal como Roas (2014) propõe. Portuguesa. entre outros. 1987. defende que. Evidentemente. uma vez que sua construção é permeada de elementos insólitos. instaurada em textos literários desde a Idade Média” (p. ultrapassada a redução que lhe 248 249 . projeto de pesquisa “Figuras da Ficção”. a literatura fantástica rompe com o real estático. que teve como objetivo insólitos como responsáveis pelo ampliar da perspectiva do leitor. afirmando serem e o modo fantástico. Universidade Nova de Lisboa. ainda. refletir”. o CESERANI (2006). O pesquisador português Feito esse percurso. o o desvendar dos pontos em evidências trazidos pela autora na obra que contribuiu satisfatoriamente para a ampliação de um arcabouço supracitada.17). e é mesmo. e. 2006. crítico/literário aos participantes. Nesse sentido. Para esse momento contaremos com o apoio de BESSIÈRE (2013). pois a realidade “crua” limitaria A presente disciplina foi dividida entre leituras teóricas e literárias. desse modo. p.191). Literatura teoria e crítica. coordenador do fantástico é “provocar – e. é de grande relevância refletir sobre as da personagem”.191). e propiciar um panorama acerca da produção da literatura fantástica. o efeito do aos “lugares comuns do gótico” (p. travaremos uma discussão entre a produção juvenil sobrelevou as figuras do lobisomem e do vampiro. dra. com o objetivo de contemplar Palavras-chave: Insólito. os estudos nessa área são novos e repletos de lacunas a serem preenchidas. é pouco estudada. em consonância pensar que esse leitor está em processo de transição.191). Mercado. Literatura Juvenil. (Demónios íntimos. nos “universos ficcionais. passariam a ter uma presença muito frequente no fantástico” é expressiva dentro dessa produção. In: Figuras da ficção. ROAS (2014). A obra em evidência caminha entre o suposto mundo Tarde [14:30 – 16:30] real e o mundo fantástico. Assim. Para ele. seus questionamentos escapam as respostas engessadas e formatadas as personagens ocupam lugar de destaque” (Narratologia(s) e teoria pelo sistema. e permite que o leitor indague os limiares Sessão 4 entre esses dois mundos por meio da leitura. pioneiro da problematiza a figuração do Monstro. para ele. Lisboa. elegemos como escopo de nossa escrita a obra literária Fantástica A Bailarina Fantasma (2009) da escritora brasileira Socorro Acioli. Tese de doutorado. de Braulio Tavares por reflexões que circunscrevem o subsistema da literatura juvenil Flavio García (UERJ) brasileira contemporânea. portanto. Coimbra: Centro de Literatura “incertezas do real”. objetivando um romper com o predeterminado. uma vez que. fantástica com a Vítima e o Exterminador. divide a cena referida área. uma vez que. É importante ressaltar que a presença insólita “duas variantes de entidades sobrenaturais que. ampliam o horizonte de perspectiva. e que muitos dos com os Estudos Narrativos. tratando de tipos e funções de personagens. faremos dois percursos necessários. desenvolvido no Centro de que se tratando de uma literatura rotulada como juvenil. No que tange as leituras teóricas. p. Acrescentamos ainda. do princípio QUINTA 10 ao término. sob supervisão Ademais. que. Marisa Martins Gama-Khalil. trabalharemos pelo prisma que compreenda os elementos da profa. e a leitura de artigos e teses que contemplem a temática. GAMA-KHALIL (2013). lobisomem representa uma “figura preternatural já antes referida ou. décadas mais tarde. é importante Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. O primeiro será conduzido Figurações do lobisomem em Sete monstros brasileiros.

esta categoria da narrativa Objetos mágicos. Braulio Tavares. que muitos brasileiros país adentro o prelúdio para nossas dimensões de análise do conto “O Saci”. assombrações e magia. outros mais flexíveis) que. das análises desses autores. ou seja. Tavares “busca inspiração nos monstros que Goiás. africanos. “Personagem e europeu. que durante muitos do lobisomem. graduais e complexos que não analisaram a irrupção de elementos destoantes da ordem empírica. Lobisomem gerações a gerações. nos preocupamos. conforme a circunscreveu Filipe Furtado..4. não podemos precisar suas origens ou fatos que 250 251 . do pecado e da se de uma “categoria sem a qual não há relato que se sustente” Santa Inquisição.]. Como as lendas e contos populares são passados de Fantástica. sob diferentes processos.49- essas obras. e que inéditas de alguns personagens já conhecidos” (“Apresentação”. tratando.15). “a figuração. n. através 50). Faremos. Rio de Janeiro: Casa da Palavra. Coimbra. marcado por incertezas de ordens várias: intempéries Figuração”. p. 2014. 2014.] criaturas assustadoras [. apenas para (p. de Hugo de Carvalho Ramos leitura que a personagem suscita e que motivam a expressa rejeição de Fabianna Simão Bellizzi Carneiro (UERJ) uma leitura imanentista” (p. In: Sete integra a coletânea Tropas e Boiadas. e compõe personagens cuja figuração o sertão brasileiro através de um resgate das histórias pautadas em perpassa. crendices. n. pontualmente no continente (“Introdução”. [. p. Coimbra. Atentamos para o fato de se monstros brasileiros. em que se encontrem personagens aproximáveis à figura Carvalho Ramos. tendo em vista efeitos de categorias do fantástico no conto “O saci”. aparições. p. Para Reis. “Personagem e Figuração”. com efeitos pragmáticos” como o sobrenatural. teóricos e críticos de narrativas fantásticas que. climáticas e o medo das doenças e calamidades. bem como a rigidez exercida em conluio entre a (“Pessoas de livro: figuração e sobrevida de personagens”.9). produz sentidos e que gera comunicação. Nesse tratar de uma obra que traz elementos muito típicos do interior de conjunto de sete contos. 8).. entendida como categoria fundamental um rico acervo de obras ficcionais que se vinculariam ao fantástico. brasileiros. cultos nas premissas teóricas e metodológicas desenvolvidas por Carlos Reis.] uma coletânea de aventuras escritor goiano Hugo de Carvalho Ramos.. constantes sertão e de elementos fantásticos presentes no conto de Hugo de desse livro. Ficção e africanos. escritor brasileiro. contos e histórias de superstição trazidas pelos europeus Palavras-chave: Estudos Narrativos. de processos compositivos dinâmicos. que ele define como sendo “um livro de contos inspirados em [. em entender o imaginário supersticioso que circunda crianças e mesmo adultos” (p. E para falarmos do imaginário do Esta comunicação pretende ler contos de Braulio Tavares.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS fora imposta pelas escolas estruturalistas. se restringem à descrição (p. Debruçaram-se.. ao iniciarmos certos parâmetros impactaram milhares de brasileiros através das histórias ouvidas quando comparativistas. Para esse pesquisador português. In: Revista de soberania monárquica e a Igreja Católica. deitamos raízes na cultura oral. 2014. “o Resumo: As inquietações e motivações diante do medo propiciaram estudo da personagem ficcional. Conforme sugere. portanto. requer na contemporaneidade. Figuração de Personagens. um conjunto de diferentes vieses e perspectivas (e em diferentes continentes). In: Revista de Estudos Literários. do conhecem apenas pela tradução oral. sobre Estudos Literários. servem de válida e importante fonte para atos de semiotização. publicou Sete monstros elencarmos alguns exemplos.10) é um propósito central. a personagem seria produto da figuração.4. assinalando estudos (alguns mais rígidos. a figura arquetípica do lobisomem. 56). solicita a articulação de um discurso que perscrutarmos obras ficcionais que trazem elementos fantásticos.. publicado em 1917. com base anos prevaleceu no interior do Brasil através de danças indígenas. do discurso literário e especificamente dos textos narrativos ficcionais” Situamo-nos no período medievo.52-53).. no que toca sobretudo aos dispositivos retórico-discursivos. fatos e situações insólitas. pitadas de feitiço e cabeça de mandinga: algumas “foi revalorizada numa óptica contratualista.

visando suscitar o medo e a ansiedade no bibliográfica que será devidamente referenciada ao longo do texto. mas cotejarmos um estudo que maior de figuras e situações literárias e culturais. as narrativas góticas utilizam trabalho não conclusivo. Trata-se de um e o riso por influência do Romantismo. trabalho se debruçará sobre o macroespaço do sertão. A colônia é retratada como uma região atrasada. Essa vertente evoca imagens do passado em narrativas fantásticas que eram contadas no Brasil colonial e que seus textos. e pode seguem uma lógica narrativa. os Janeiro (UERJ). Graduação Stricto Sensu em Letras da Universidade do Estado do Rio de que geram e perpetuam o medo. (1981). dessacralizando os espaços que atravessam. Todorov (2008). Figuras como monstros. tais como o Gótico. em função de se configurarem as manifestações do gótico no Regionalismo brasileiro do Romantismo como imagens ameaçadoras tanto em sua face imaginária como realista. de uma perspectiva colonial. Assim. alongarmos nossas discussões sobre o conto popular em no leitor. A figura modo fantástico. agrega uma gama termos estruturais ou caracterizadores. logo espaço e personagem são vistos como literatura sertanista manifestações insólitas e incongruentes com os valores europeus. Campra (2016). além do mais esse espaço é povoado. Como dito. Jackson com a integração com a cidade. o que vem ocasionando uma representado como um espaço selvagem e bravio. suscitando no leitor sentimentos antitéticos como o terror indiretamente guardam testemunhos dessa época. das quais lista-se Roas (2014). por indivíduos tiranos e malvados. o gótico se desenvolve a partir Palavras-chave: Literatura Brasileira.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS os desencadearam. Cingindo os insólitos rios e matas goianos: os espaços topofóbicos da supersticiosa e bárbara. possibilitando a assinale a relevância do conto popular como arcabouço de informações presença de diferentes vertentes. aristocratas maus trabalho está vinculado à Tese de Doutorado “Um ser tão assombrado: e bandidos povoam o imaginário gótico. que é formal e temática e que reproduz ter vindo com os europeus. cuja metodologia se pauta em pesquisa imagens escuras e lúgubres. obra para irradiar experiências geradoras de uma possível incerteza neste trabalho. o Fantástico. por exemplo. onde o progresso irrupção de teorias e críticas que têm como objetivo refletir sobre suas não chegara. demônios. dentre outras figuras muito presentes em as transformações da razão e do imaginário coletivo. esse que vem gerando estudos nos últimos anos é a do Modo Fantástico. mas seu estudo insinua que as narrativas fantásticas do Saci. Este leitor. ao Modernismo”. Literatura Fantástica. Bruno Silva de Oliveira (UFU) No Brasil. Uma das vertentes teóricas em muitas narrativas. Covizzi (1978). guarda registros da mitologia romana. considerando-o como um modo por agregar uma história popular contada na América no Século XX e uma história variadas modalidades. Sendo assim. tornando-se um repositório das famosas e disseminadas. etnográficas e sociais. na área de Estudos de Literatura. o sertão e as personagens que o atravessam se enquadram Resumo: O Fantástico é um das modalidades que vem ganhando espaço nas características “valorizadas” pela vertente. que vem sendo desenvolvida no Programa de Pós. Bessière (2001) não nomeia diretamente o antiga contada há mais de cinco séculos na Europa ou Ásia. uma das mais históricas. Regionalismo. são carregados de superstições. Esses espaços topofóbicos. O espaço do sertão é nas últimas décadas nos estudos literários. os microespaços que compreende o Fantástico por meio de uma abordagem mais topofóbicos que se ramificam dele e como esses participam na 252 253 . No Brasil. cadáveres. quais possibilitam a barbárie. que versa sobre os impactos do embate Sertão cultural entre as metrópoles europeias e as colônias nos demais continentes. primitiva. podemos notar semelhanças entre abrangente e atemporal. enquanto modo. valendo-se da nossa cultura popular. Não é nosso intuito. conforme pesquisaremos. e a evolução e o desenvolvimento seria possível somente especificidades.

a reconhecimento social da figura de Alexandre. narrativa coloca em foco a família de Dora. desse modo. Espaço teórica que sustentará a análise do corpo metamorfo e monstruoso do Lobisomem e o espaço em que se insere esse corpo partirá dos estudos Oralidade e mito: a construção da fé em dois contos de lobisomem de Michel Foucault. objetos mágicos. uma perspectiva insólita. Marisa Gama-Khalil e Jamille da Silva Santos (UFU) Jean-Jacques Courtine. Modo Fantástico. nesse espaço. O segundo Moles. segundo as notícias do jornal. porém Gerais. de Bráulio Tavares relata a vida cotidiana de frustração. vislumbramos que esses pelo seu irmão mais velho. Para tal Ramos.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS construção do insólito ficcional em narrativas sertanistas goianas. faremos uso da noção de real estribo de prata que incha e multiplica-se em milhares de arrobas maravilhoso com base nos estudos de Alejo Carpentier sobre o assunto. visto que poderíamos considerá- aventura de um grupo de amigos em uma pousada no interior de Minas los como simples objetos exercendo suas funções prosaicas. dos quinze contos que constituem a obra. Tais narrativas trazem como personagem principal o lobisomem. Nessa obra. Para Histórias de Alexandre: os objetos mágicos na dobragem da personagem insólita Alexandre investigarmos de perto essa literatura oral que vem sendo transmitida Lilliân Alves Borges (UFU) por gerações que utilizaremos os postulados de Luis da Câmara Cascudo. para abordamos esse ser sobrenatural Resumo: Uma espingarda que alcança distâncias extraordinárias. Tanto a espingarda quanto o estribo de prata são exemplos nos quais o mesmo afirma que o maravilhoso se estabelece por meio de objetos mágicos que permeiam e constituem a subjetividade da da fé. um que emerge de uma cultura específica. de Hugo de Carvalho da literatura fantástica articuladas nos estudos de Todorov. perspectiva. de prata. pois. Resumo: O presente trabalho tem como objetivo analisar a construção Palavras-chave: corpo. “As morféticas” e “Pai Nonato”. Conforme elucida Abraham Zinho. espaço. Ceserani. A base Palavras-chave: Medo. e nesse local ela encontra seu grande amor. cerimônia essa realizada por padre Bertino. e. “A sétima filha”. construção essa que nos remete a uma literatura embasada da oralidade e na religião. sétima filha que fora batizada ele é designado Major Alexandre. além de existir um invalidaria todas as suas ações como padre. No bojo dessa polêmica. Assim. Gilles Deleuze e Félix Guattari. selecionamos dois deles: “O estribo de prata” e “A espingarda estudo tomaremos como corpus dois contos: “Prata” de Rosana Rios de Alexandre”. O conto de Rosana Rios narra a Alexandre concebe esses objetos. porque é a 254 255 . onde Raissa vai para esquecer um antigo namorado que lhe na vida de Alexandre tudo é redimensionado. como obras aqui citadas serão investigadas por intermédio de algumas noções as dos contos “Pelo caiapó velho” e “O Saci”. Filipe Furtado e Renato Prada Oropeza. a presença desses objetos uma família cercada por crenças populares e o conflito da validade mágicos possibilita o deslocamento da personagem de um mundo eclesiástica de Padre Bertino. David Roas. lobisomem mítica vinculada à figura do lobisomem. está prosaico marcado pela desigualdade social. e por meio da fé o irreal se torna real. As acabam corroborando para a dobragem da personagem. Remo Ramos. acreditamos que a fé é a crença mais sincera nas personagem Alexandre na obra Histórias de Alexandre de Graciliano coisas impossíveis. de Bernardo Élis. transportando-o para um sendo processado pela igreja e tendo cassada sua ordenação. os objetos proporcionam ao indivíduo a supressão de uma conto. ganhando uma nova deixou marcas eternas. observamos como a personagem e “A sétima filha” de Bráulio Tavares. Mais especificamente. Para este trabalho. e uma ajuda para a transformação que lhe sucederá. literatura fantastica. ao infringirem as leis admitidas em nosso mundo. no caso de Alexandre. ação que espaço fantástico permeado por muitas riquezas. que.

é nessa relação os objetos articulam duas perspectivas: a denotativa e a conotativa. muitas vezes os objetos são o foco da uma função insólita. Objetos mágicos. são infrequentes os trabalhos que inanimados. pretendemos averiguar a relevância desses objetos literárias operam uma reinvenção no tocante à funcionalidade dos mágicos na constituição da subjetividade da personagem Alexandre. quer se trate de um objeto benéfico ou investigam as projeções dos objetos na literatura e essa carência de de um objeto amaldiçoado. sua funcionalidade. retira os objetos de seu uso utilitário. Vivemos rodeados por objetos e muitas vezes não campo do insólito. acessórios que povoam o espaço em que vivem. observamos o quanto as coisas que fazem parte do nosso ambiente podem ter que Alexandre. para ser engendrada. mas. Portanto. por meio da polissemia literária. e conforme afirma Gama-Khalil: apesar dos objetos nos damos conta de que eles. eles agem no interior do sujeito. necessita que os objetos eles são considerados especialmente a partir de sua função ou de seu sejam retirados de sua utilidade convencional. de Horácio Quiroga. onde tudo é possível e aceito. constituem fazerem parte do exterior. já a sua fruição abarcaria uma função acusativa. o objetivo deste ser: um sujeito rico. a partir de alguns contos. que a subjetividade da personagem vai se O uso do objeto. de Prosper Mérimée. a maneira pela qual o sujeito se constitui. No entanto. onde uma subjetividade que. famoso. distorcendo e degenerando a realidade. dando-lhes No caso da literatura fantástica. movendo-os para o estatuto decorativo. fazendo-nos repensar o seu lugar no nosso cotidiano. o modo como esses que as pessoas delegam às coisas. ou seja. O teórico francês Michel Viegnes. os pintores e escritores conseguem ver e revelar esses poderes Sessão 5 locais. a qual vai ao encontro de quem ele gostaria de ambiência insólita e/ou de terror na trama. é um processo que se denotativa. a subjetividade é subalterna. entre exterior e interior. ou seja. As narrativas em nossa análise. não contente com o seu cotidiano. Uma conexão que pode ser realizada acerca do aspecto SEXTA 11 fantasmagórico dos objetos é com a noção de “objetos selvagens”. de fantástico. em Objetos insólitos e assombrados: da concretude prosaica à maldição Le fantastique. como é compreensível no mundo dito real. indagado sobre a presença de uma alma nos objetos Resumo: Nos estudos literários. objetos. Em vista do apresentado. pesquisas provavelmente pode ser atribuída à significação habitual o objeto sempre será o suporte de uma projeção do próprio sujeito. Portanto. que ela adquire uma nova subjetividade. situa-o no plano da perspectiva constituindo e se transformando. De acordo com a leitura realizada por sempre a literatura projeta esteticamente os objetos de forma Judith Revel sobre as teorias de Michel Foucault. e “Os barcos suicidas”. alguns autores evidenciam. para esses Manhã [09:00 – 11:00] autores. Venho defendendo em meus atuais estudos que nos processos intrínsecos à subjetivação”. desenvolvida por Michel de Certeau e Luce Giard.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS partir da relação estabelecida com eles. um sujeito que não trabalho é evidenciar essa hipótese. o 256 257 . os espíritos dos objetos. somente. em um mundo em “A Vênus de Ille”. e sim. W. misérias em que vive. estando esta relacionada à Palavras-chave: Histórias de Alexandre. Jacobs. ele assevera que. “A mão do macaco”. nem uma subjetividade insólita. mais do que isso. como elementos simplesmente objetos afetam a personagem. porque. Desse modo.W. “atuando a nossa subjetividade. com o mundo de enorme influência na formação de identidades individuais e culturais. que o configura paulatinamente ao longo de toda a obra. situados externamente a nós. Subjetividade. assunção da participação dos objetos na constituição da subjetividade personagem insólita dos sujeitos. situaria numa perspectiva conotativa. argumenta sobre o valor dos objetos na construção da Marisa Martins Gama-Khalil (UFU) ficção literária e.

499) do fantástico.13). língua. Por isso. seus sonhos ou seus pavores e seus Jean Fabre. 8. 2012. sujeito Todorov. dificuldade que remonta às Palavras-chave: fantástico. 2014). Ora. um diariamente no nosso cotidiano. Aràn (1999). os estudos do gênero em causa. p. medo. Jean Bellemin-Noël sido usado para designar as mais diferentes manifestações literárias. a face terrífica. mas elemento invocado por aquilo que há de inexplicável no próprio sujeito. 2009). 2011. mirabolante e exagerado (cf. titubeante entre acreditar no acaso ou no sobrenatural. A estátua crucial para a irrupção do inexplicável. e de acordo com lo. haja vista os pontos representariam. torná-lo real mesmo 258 259 . CESARANI. o gênero fantástico baseados nessa categoria literária não são raros e fazem muito sucesso não é e nem pretende ser antônimo de real. Paradoxalmente parte de com públicos diversos. 9). seguindo a primeira tendência. (1972). é encantadora e mágica se comparado com o que temos que enfrentar com o mesmo valor cultural para todas as épocas. A primeira limita o gênero a determinadas estratégias narrativas e temas e o O fantástico genológico: considerações teóricas e outras considerações localiza historicamente no século XIX. série de relações que envolvem tanto a religião. OROPEZA. Parece-nos que verdadeiramente o indivíduo tem um sistema realista para questionar o que se entende por realidade curiosidade em conhecer outro mundo e descobri-lo a ponto de senti- num dado momento histórico e cultural. o presente trabalho. parecem seguir “duas tendências contrapostas”. a as implicações sócio-histórico e culturais pertinentes uma vez que a literatura se faz presente e se mostra encantadora devida à dualidade realidade é uma construção complexa cujos valores dependem de uma do discurso e no envolvimento do leitor a ponto de deixá-lo suspenso. “a crítica designava como fantástica toda narrativa gênero ou modalidade literária. Seria. Séries e filmes arte e ciência (Cf. Dessa forma.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS qual investe no objeto seus desejos. “o efeito de real não é um simples acessório estilístico” medos. portanto. teoria da literatura. p. outros gêneros com os quais se imbrica. p. não há uma mesma realidade. p. Sendo assim. como política. quem possui e quem é possuído? CAMARANI. caracterização pois bastante se-á da discussão acerca de um fantástico genológico a partir das abrangente. o termo foi em alguns autores tomado como Resumo: A literatura é umas das válvulas de escape da nossa rotina. Nessa linha de compreensão. o termo fantástico foi muitas vezes usado O sonho do não eu como sinônimo de excêntrico. às vezes de gêneros não afiliados entre si. 199). torná-lo palpável e. contrariando a realidade disso. Além do mais. a mão mumificada de um macaco ou os barcos suicidas aquilo que se considera como fantástico ainda hoje. Felipe Furtado (1980) e Pampa O. tendo considerações teóricas de Tzvetan Todorov (1970). desde Palavras-chave: objeto. ocupar- que nos cerca” (BATALHA. por exemplo (Cf. Ademais. 12). p. (Cf. 2006. Afinal tais como o romance gótico e o realismo mágico. Luís Paulo Fiúza Marques (U. VOLOBUEF. 2006. de alguma maneira. vê-lo. Ciente de fatos que não pertenciam ao mundo real. o inexplicável dos objetos seria (FABRE Apud BATALHA. portanto. parece se tornar ainda mais fantástica gravíssimo erro simplesmente opor fantástico a real sem considerar quando vem acompanhada de mistério e medo. Nesse quesito. que englobava desde o onírico ao sobrenatural. Há pois uma flutuação entre com vida. A segunda o alarga de tal modo Karla Menezes Lopes Niels (UFF) a abranger não somente outros períodos históricos como a abraçar os Resumo: Antes dos estudos de Todorov acerca do gênero fantástico. literatura fantástica. complexa e inexplicável dos de encontro entre o gênero fantástico e outros gêneros literários sujeitos que se iludem ao pensar que possuem esses objetos.P Mackenzie) 1999. como uma espécie de macro- na década de 1970. genologia “diferentes concepções filosóficas do final do século XVIII” (CESARANI. Ela equivalente a fantasia e vice e versa.

Bartleby responde que “prefere Palavras-chave: Alberto Savinio. bem como as diferentes circunstâncias sobre o contato que teve com o excêntrico escriturário: “Bartleby. Turkey e Nippers. O narrador. 260 261 . como por exemplo. foram utilizados como fundamentação teórica os atmosfera fantástica. 2009). no entanto. assim. Desse modo. o escrivão. porém logo em também. A obra de contos de “Bartleby. depois foi fundamental o conhecimento das teorias e conceitos acerca da entropia. procedendo- do gênero fantástico moderno. com as estéticas vanguardistas. um homem caracterizado mágico.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS que distante das leis que regem o nosso mundo. personagem marcado pela excentricidade e por um constante estado Palavras-chave: Fantástico. a um aprofundamento da análise dentro dessa teoria. Para efetivar esta pesquisa. a partir da problematização das noções de fantástico e realismo trajetória do incomum escrivão. Por principal afirmando que não tinha problemas com sonhos. que encontra que nos primeiros dias trabalhou de modo ininterrupto. o escrivão”: uma metáfora da entropia Rubens Figueiredo foi publicada em 1994 e praticamente reescrita Vanessa Lemos de Moura Santiago (UFPI) pelo autor em 2009. cujo dono é um bem-sucedido Savinio e Bontempelli e o universo imaginativo da literatura fantástica advogado. que faz parte da obra. O personagem Bartleby começa a trabalhar num cartório de Wall Street. Sonho. O conto que escolhemos para analisar neste artigo é Os por meio da análise do personagem Bartleby como uma metáfora da anéis da serpente. chega a afirmar a seguinte frase e l’Altro”. de Herman Melville. p. dentre outros. esse estudo pretende avaliar a hipótese da apropriação de um afirmação já na primeira linha do conto “Nunca me preocupei com conceito científico como elemento estruturante na construção de sonhos” (FIGUEIREDO. tendo presente o conceito de metafísica. exemplo na pintura. O livro contém sete contos. fora extinto. por intermédio das obras de Alberto outros dois copistas daquele cartório. o conceitos de entropia. nos quais as personagens parecem estar presas em seus próprios o escrivão: uma história de Wall Street (2009). em “La vita intensa” de Massimo Bontempelli e “Maupassant por uma personalidade tranquila. Identidade de apatia com relação ao mundo. o que ocorre de fato. esse cargo. apresentando um intrigante um problema com sonho no decorrer do enredo. Faz essa fim. Duplo. indagação feita pelo chefe do cartório. não fazer”. O conto inicia-se com a personagem se. p. o espaço onírico. Giorgio De Chirico. difundidos pelo físico Moacir Leão (1983) e fantástico e a identidade são analisados como elementos constituintes pelo teórico Rudolf Arnheim (1971) e Max Milner (1994). o de aproximação desses escritores italianos com as suas interlocuções escriturário mais estranho que jamais vi ou de que ouvi falar” (MELVILLE. trabalho é o conto Bartleby. e é narrado a partir de uma entropia. de Alberto Savinio. fez-se necessário a Maupassant e l’Altro leitura inicial da obra literária a ser analisada. Resumo: Este trabalho objetiva investigar o insólito no conto Bartleby. La vita intensa. na segunda edição. que já havia sido conselheiro do Tribunal de Chancelaria do Sonia Cristina Reis (UFRJ) estado de Nova Iorque. 2009. O dono Resumo: Estudo de alguns aspectos do modo fantástico na Literatura do cartório e patrão de Bartleby é o narrador desse conto e narra a Italiana. Para qualquer Savinio. 2009. O insólito nesse conto é representado pela figura de Bartleby movimento artístico e literário de origem francesa. Para isso. onde o duplo da personagem. 125) e também no segundo parágrafo um personagem ficcional. o Surrealismo. seguida começou a recusar-se a conferir as suas próprias cópias com os em campo artístico italiano.. A obra de Herman Melville analisada neste “nunca me preocupei com o que sonhava” (FIGUEIREDO. Massimo Bontempelli. que constitui uma das narrativas Tal constatação já na introdução do texto nos indica que talvez haverá mais estranhas da Literatura mundial. portanto. 125). pensamentos.

Feito a queda da bomba atômica. o tempo passou a ser algo desconjuntado isso. será feita uma apresentação Resumo: No decorrer do século XX. por ser também composta por narrativas curtas Sessão 6 e por trazer consigo os elementos fantásticos. Numa tentativa de explorar esses encontrado e o que ainda pode ser explorado desse tema. Mas. demonstrar como os elementos fantásticos Deslocamentos cronológicos do fantástico: representações do tempo das obras desses dois autores corroboram para uma nova perspectiva em Borges e Calvino sobre o tempo – tendo em vista o momento histórico e literário -. as obras de Borges e Calvino serão contrapostas. o escrivão: uma as obras “Ficções” e “O Aleph” como principais fontes de referência. entropia vez. história de Wall Street. de Herman Melville. algo que. Esse descompasso entre o ser humano e respectivas obras. com a proposta de explorar não apenas como esses temas Leão (1983) e Rudolf Arnheim (1971). Para trabalhar esses aspectos. compreende expor as reflexões e os resultados obtidos da O imortal. foram escolhidos os autores Jorge Luiz Borges e Ítalo teórica.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS recorreu-se. as conclusões serão traçadas com base nas seu tempo. este trabalho continentes. principalmente aos autores Tzvetan Todorov (2004). Por fim. foi um tema recorrente na obras citadas durante a comunicação. portanto. metáfora. visando estabelecer o que foi literatura fantástica do período. foram selecionadas análise de um personagem insólito do conto Bartleby. sendo Borges argentino e Calvino italiano. com noções a respeito dos temas e literatura passaram por consideráveis transformações. Para os propósitos dessa comunicação. A comunicação tem como objetivo. dessa Palavras-chave: Melville. principalmente após a segunda guerra mundial. mais do que isso. não fazia sentido em itinerário de como esses dois autores tratam o tema do tempo em suas termos de causa e efeito. Primeiro. A finalidade deste trabalho. com passagens das obras para ilustrar o que está sendo proposto. Muitas das narrativas se e constituiu-se como um desafio proposto na Disciplina Literatura passam em uma espécie de além-tempo. mas também em diferentes para a execução deste estudo. do humano de lidar com a eternidade. cujas leituras foram essenciais eram trabalhados em diferentes estilos. foi selecionada a obra “As Tarde [14:00 – 16:00] Cidades Invisíveis”. mas força os personagens a contemplarem sua inevitável SEXTA 11 entropia. nesse momento da história. Inicialmente a referida análise foi escrita em forma de contos do autor parecem fugir a qualquer tentativa de linearidade artigo científico e posteriormente transformada em ensaio para fins de cronológica. utilizando certas argumenta que. Bartleby. as representações do tempo na das obras a serem exploradas. Em Borges foi desenvolvido com base nos estudos sobre a Literatura Fantástica. Octavio Paz estilos utilizados. mas. em que as mudanças e Universal Monográfico. a principal fascinação se dá com o eterno. personagens em lidarem com o tempo que atravessam. os Serpa Brandão. não por acaso. Moacir Calvino. por mais que o tempo fuja da linearidade. Saulo de Cunha transformações humanas se encontram negadas ou sobrepostas. Como base aspectos. como se evidencia pelo conto portanto. Em termos metodológicos. o autor problematiza a incapacidade publicação e apresentação em Congresso. ministrada pelo professor Dr. foi leitor de Borges – há nova visão deste conto e propôs uma nova interpretação para a figura uma espécie de efeito reverso: novamente. muitas vezes. cada Kleber Kurowsky (UFSM) qual com suas particularidades. bem como do contexto da época. não leva a uma suposta eternidade. para traçar um no imaginário popular. há uma dificuldade dos de Bartleby e o que ele representa dentro dessa narrativa. os textos de Benedito Nunes e Massaud Moisés a respeito do 262 263 . A análise promoveu uma Na obra de Calvino – o qual.

O teórico literatura no século XX e XXI. chamado de fantástico tradicional. neofantástico. Essas de Nodier e Maupassant) e XX (com os estudos de Castex e Todorov. afirma que ele apareceu no fim do século XVIII com Cazotte e evoluiu Palavras-chave: Fantástico tradicional. Como assinala Castex (Le o crítico espanhol chama de “neofantástico”. a contemporâneo. Calvino. estranho? Modos ou gêneros? o ser fantástico. publicado em 1942. deixando. 1970). Fantástico. Dessa por Octavio Paz em “O arco e a lira” e “Os filhos do barro”. entre as diferentes concepções do fantástico tradicional aplicado na por exemplo. no entanto. Sobre o fantástico na contemporaneidade. ao longo do século XX e até os dias atuais. Resumo: Mesmo considerando coerentes os argumentos. tendo em vista que nossos estudos têm O que temos nos dias atuais é uma série de estudos desencontrados um foco na produção fantástica em língua francesa. a temática das obras se aproxima das angústias existenciais e psicológicas. Alguns reflexões sobre esse fantástico francófono dos séculos XX e XXI. estes com o objeto de analisar as dimensões estudioso acredita que o fantástico molda-se a exigências do homem mais estruturais do texto. Esse fantástico tradicional foi alvo no progresso das ciências se desvanece. traçaremos um estudo comparativo Todorov (Introduction à la littérature fantastique. uma ou Maravilhoso como manifestação fantástica na atualidade. O fantástico contemporâneo de Resumo: A literatura fantástica foi muito fecunda nas produções Sartre vai ao encontro das ideias de Jaime Alazraki (2001) naquilo que narrativas europeias durante o século XIX. Para tratar dos temas e do contexto. 1962). principalmente o que se objetiva neste estudo é mostrar que o fantástico tradicional do nas literaturas de língua espanhola. sobre o que foi proposto transcendentais e passando a transcrever a condição humana. O Martins Gama-Kalil. da modalidade resultante do contexto da pós-modernidade. nos textos de literatura fantástica escritos a partir do século Palavras-chave: Borges. Paris: Corti. Assim. Paris: Seuil. de Marisa “Aminadab. o fantástico torna-se a regra. que seriam Neofantástico os últimos representantes satisfatórios do gênero. principalmente. Para isso. em seu artigo. Há uma tendência entre os estudiosos hispânicos em atribuir não há a mesma variedade de estudos críticos como aqueles vistos a autores como Júlio Cortázar e Adolfo Bioy Casares narrativas de cunho sobre o fantástico do século XIX. maneira. outros tratam o Realismo Mágico século XIX ainda tem. No entanto. segundo os dois períodos nos quais o fantástico encontrou melhor ambientação o estudioso espanhol. ou O fantástico como linguagem”. espanhola. Tempo XX. Marise Gândara Lourenço (UFU) As reflexões de Todorov estão relacionadas a um ensaio de Sartre. maravilhoso. considerações de Alazraki são baseadas em obras produzidas em língua por exemplo). autores afirmam que há atualmente um neofantástico.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS tempo serão empregados. o fantástico teve uma vida relativamente breve. é preciso expor as a respeito da manifestação contemporânea da modalidade. configura um momento em que a crença foram o Romantismo e o Simbolismo. o homem “normal” é precisamente Diabo e Deus. Todorov assinala que nessa nova literatura do século XX. Fantástico contemporâneo. de explorar realidades argumentação se sustentará. durante o século XIX culminando nos contos de Maupassant. Assim. Essa nova abordagem conte fantastique en France de Nodier à Maupassant. não a exceção. A literatura fantástica: gênero ou 264 265 . Para permanência na literatura. resultando na sensação de várias tentativas de definição ao longo dos séculos XIX (com as teorias de incompreensão do mundo e da realidade que nos cerca. apresentando um ser humano que se enxerga impotente O fantástico tradicional: do Século XIX à contemporaneidade diante das transformações e opressões de um mundo que caminhava Amanda da Silveira Assenza Fratucci (UNESP) rapidamente para a modernização. dessa maneira.

em Dr. em Mann. o trítono era coincidentemente denominado de por exemplo. propomo. que enfrentou acontecimentos históricos receio de contar-nos sobre o pacto e o seu resultado? Como a música tão importantes como a Guerra Civil Espanhola. propomo-nos uma investigação atrelada que ele define de fantástico e como o define em contraposição ao às teorias já apresentadas. Roas entre tantos outros teóricos a serem pesquisados medida Thomas Mann concebe o diálogo da Música com a Literatura e que consideram esta literatura sob o olhar genológico. o demônio. ele começa a entrar em uma crise de consciência maior diabolus in musica. desde o início do romance. Já Leverkühn de adotar o dodefonismo como técnica composicional que Joaquim Aubert.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS modo?. é a busca de um filho para entender as motivações de um Thomas Mann. mal? Qual o limiar entre o medo e a angústia. embora de Barcelona. enfim. um ato tão drástico em idade avançada. Figura-se também por meio da escolha do texto poético a ser tensões comparativistas. T Rosemary Jackson com Fantasy: literatura y subversión. de que seja mais produtivo tomar a literatura fantástica como bastante dissonante cujo uso só foi liberado pela igreja no século XVII. buscando também compreender em que de Furtado. de um casamento em declínio e de uma velhice solitária. representa o na Universidad del País Vasco. Em El arte de volar. Fausto de Mann.” É assim que estrangeiro. não é só representado pela adoção desta nos estudar as diversas concepções do fantástico. Estudo que elegemos ser algo de grande importância para entender os limiares entre o maravilhoso e o Resumo: “Meu pai se suicidou em 4 de maio de 2001. Modos e gêneros. Altarriba. o objetivo do presente artigo musicado pelo protagonista e os efeitos que a junção da Literatura e da é o de contrapor o pensamento de Todorov no que diz respeito ao Música provoca. sem enquadrá-la em um período histórico. Mas se entre Antonio Altarriba e o cartunista Kim. ele tem 266 267 . o narrador se recusa a falar o nome Mefistófeles e tem pai com um passado difícil. em 2007. Neste sentido. além da falência ocidental. Reno com os Procedimentos formais e sistemas temáticos do fantástico. Mais do que o início de o diabo e Deus se enquadram no maravilhoso porque. fantástico como modos. na Idade Média. mais conhecido como Kim. ao longo de sua História é tomada como uma possibilidade financeira. dando ênfase às técnica. Fausto de uma obra. nasceu em Barcelona e já possibilita criar uma música que é pura dissonância do começo ao fim. e Imagens oníricas nos romances gráficos A arte de voar e O prolongado sonho do Sr. Desta forma. recebeu prêmios como o Gran Premi del Saló Internacional de Còmic gerando uma angústia personificada no protagonista (Adrian). El Correo e El Mundo. Dissonância que significa algo verdadeiramente diabólico! sonhos simbolizam pontos de virada na vida do protagonista: quando. em Dr. confrontaremos as mais significativas teorias que concebem o Palavras-chave: Diabo e Deus. considerando a junção nascido em Saragoça e catedrático aposentado de Literatura Francesa da Literatura com a Música que. entre outros Ana Lúcia Mendes Antonio (UNIFESP) escritos a serem descobertos. um romance gráfico resultado da parceria como sendo um gênero que se caracteriza por provocar medo. mas em pequena Perich. porque Todorov apresenta-nos este último começa El arte de volar. Medo e angústia. Se. escreve também sobre literatura e pacto com o Diabo? Pacto que acontece a partir da escolha de Adrian é colaborador de periódicos como El País. disto. entre as quais podemos citar Bessière com Maravilhoso e fantástico seu texto El relato fantástico: forma mixta de caso y adivianza. é possível acompanhar como os proporção. na obra de Mann. Mas o contrato com visão genológica que a base de sua criação seja a incerteza. de ascensão a Deus. Principalmente. o modo. Além para representar o mítico e o místico. em 1995 e o XII Premi Internacional del Humor Gat ele já trajasse esta veste. por ser um intervalo musical difícil de ser cantado e com o fato de lidar com o contrabando de carvão na França. e se tratada sob a dodecafonismo é a exacerbação disto em mil vezes. representa o diabo e o contrato com o para realizar.

em sua obra. memória mesmo autor. sonho. publicou em muitos países e ganhou diversos contexto de produção inesgotável em significados. O sr. reclama que ele a deixou toda suja de carvão ao abraçá-la. Conhecido por seu pseudônimo Lewis Carroll. A ideia com este trabalho é fazer uma análise comparativa fotográfica. no diálogo intersemiótico entre literatura e fotografia criadas pelo Palavras-chave: Romance gráfico. entre eles o de melhor trabalho no Salão Internacional de a Fotografia de Lewis Carroll é tão literária quanto é fotográfica a sua Quadrinhos de Barcelona. principalmente. Resumo: As ilustrações são um grande atrativo para a leitura pois suscitam efeito de sentido relacionado ao insólito (fotografias infantojuvenil. talvez porque facilite a interpretação em alguns momentos.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS um sonho com sua própria mãe. sonho. transferência. sendo publicada no Brasil em Dodgson foi eternizado sob a autoria dos clássicos “Alice in Wonderland” 2006. Ao olhar com atenção algumas fotografias de chinês e muito sábio. uma jovem muçulmana. bastante misterioso e ameaçador. Sara. O objetivo é ampliar o leque analítico para formular uma análise interpretativa dos efeitos da configuração do insólito Foto-grafia: o mundo. inclusive. prêmios. T. um poeta mais fiéis que a pintura. os conceitos de compreensão de sua obra artística e. Ainda nessa temática. dentro da imagens. sob o olhar. Em outras palavras. Essa foi. em Palma de Mallorca. Esta discussão tomará por base a noção de insólito e de 268 269 . o insólito e a perplexidade na obra de Charles L. e Scallywax. papel e lápis às enfermeiras e rascunha em três cadernos a descrição Charles fez experimentos de manipulação e narrativa fotográfica em de seus sonhos naquele período. T. assim como a Fotografia. Charles L. é necessário perceber a intertextualidade imanente presente campos de estudo. Diante do grande arsenal de fotos deixadas pelo autor. nascido em das Fotografias de Charles Dodgson. ele renuncia oficialmente a seus ideais trouxe às pessoas a possibilidade de contar suas histórias através das anarquistas e resolve voltar à Espanha.. para uma maior aproximação da entre essas duas obras abordando. da psicanálise e da psicologia analítica. talvez pela diversão da interrupção entre um texto escrito trapaceiras). busco agora clarear seu punctum Barcelona e um dos mais renomados de todos os artistas espanhóis (BARTHES. produção de romances gráficos espanhóis. e que está presente em sua obra artística como um todo. Em paralelo a sua de coma na UTI do Hospital Son Dureta. O advento da Fotografia rompe com ele. literária e persegue uma trajetória de autoconhecimento. pede obra literária. Nesse momento. que. Isto implica afirmar que. Há imagens fortemente carregadas um contexto no qual a foto possuía um estatuto de “eternizar” retratos de simbolismo e que envolvem três outros personagens: Su. do renomado quem os fez. de estreia da editora Zarabatana Books. Pablo. Carroll deixou também um arsenal imenso de fotografias. No O que podemos afirmar é que as imagens contam uma história. após 40 dias (1865) e “Alice through the looking-glass” (1871). deslocamento. dia seguinte. seus traços também podem dizer algo sobre relato real: trata-se da obra O prolongado sonho do sr.Francesc Capdevilla Gisbert. que já não via há anos. por meio de seus delírios. em 1988 e 1996. algo tão real em nossa vida diária. e acompanhadas ou não de um texto escrito. entre outros efeitos. projeção. Um dia tomada pelo mistério artista conhecido como Max . Dodgson esta breve análise se centrará em duas fotografias que apresentam Ana Carla Vieira Bellon (UERJ) semelhança ficcional insólita com a obra literária Alice in Wonderland. Antonio resolve confrontar seu sócio no ramo. logo. 1980) e compreendê-lo passo a passo dentro de um do circuito alternativo. temos outro exemplo que reflexões e questionamentos. a obra Literatura. de seu gesto criativo e seus sonho. de uma maneira que suscitou e suscita muitas interpretações. Da mesma maneira que uma ilustração se utiliza fartamente de imagens oníricas para recriar a narrativa de um diz muito sem palavras. no e outro. noto que há uma potência criativa visível permeada pelo insólito Sara. Sua mãe. o pai de Carroll. Ela traz a história do comerciante Cristóvão T.

da construção de caminhos. Por isso mesmo. Comes Roaring Back’. CORPOS: entre ambas as manifestações artísticas do autor: imagem e texto. Exploring the Ruins of Ford’s Fantasyland’. e nos permitem hoje colocar algumas questões que articulam este simpósio. a relação entre capital e natureza. das quedas das ilusões. aonde o incrível podia ser tornar real. Once Tamed. Palavras-chave: Insólito. auto-estradas. Este artigo é. busco dar 10 vasão à potência insólito-ficcional existente em duas fotos de Charles L. Fotografia. The New York Times. sem dúvida. uma reflexão inicial sobre Lúcia Sá (University of Manchester) a configuração ficcional-insólita a partir da Teoria dos Mundos Possíveis. onde a modernidade vira ruína. Este simpósio propõe explorar várias formas de intervenção do ser humano. A partir do diálogo intersemiótico e da teoria dos mundos possíveis. A conexão fundamental entre essas duas narrativas é. é também o lugar do fracasso desses projetos arquitetônicos. da abundância. o capital. Dodgson. e sobretudo. NARRATIVAS. 20 de fevereiro de 2017) e outro sobre o desflorestamento (‘Amazon Deforestation. a tecnologia. Quais são os projetos e imaginários que explicam essas intervenções e como pode se avaliar o êxito ou o fracasso delas? Como é que a cidade. A construção da modernidade no meio da selva está relacionada à maneira como a região foi sempre o lugar da proeza.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC ficção dentro da realidade fotográfica em paralelo à literatura. revelam algumas das questões que há anos permeiam muitas das leituras sobre a Amazônia. portanto. bastante recentes. mas é também. Esses dois artigos. Javier Uriarte (Stony Brook University) de Tomás Albaladejo. da exceção. ferrovias. por exemplo. e os sonhos de modernização do estado-nação e do capital global 270 271 . Literatura. Ficção Resumo: A Amazônia continua ocupando papel de destaque na mídia internacional. acaba de publicar dois artigos extensos sobre a região: um sobre a Fordlândia (‘Deep in Brazil’s Amazon. repressas. rotas. o lugar onde o progresso podia virar loucura. vários projetos de transformação radical do espaço desde a perspectiva da arquitectura. De forma a estabelecer uma relação de complementariedade ARQUITETURAS. 24 de fevereiro de 2017). da infraestructura. NOVAS APROXIMAÇÕES À AMAZÔNIA literatura e fotografia.

viver e narrar que Henry Ford’s Forgotten Jungle City de Gregg Grandin. o como lugar do primitivo. p. 69). de Márcio Souza. mas também para ensinar de narrar e de construir (cidades. por exemplo. resposta à rapidez e à violência dos processos de desflorestamento da Convidamos. este o filme Iracema: uma transa amazônica.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS foram pensados em relação à selva e o lugar dela no passado e no para a relação entre a humanidade e o meio ambiente? Como pensar futuro? Obras importantes como Trem fantasma: a modernidade na os possíveis lugares dos mundos vegetais. arquitectura e meio ambiente. uma transformação radical e violenta da paisagem. As ‘humanidades meio-ambientais’ têm pois. As frequentes O filme Iracema. Assim como as tensões e cruzamentos entre anglófono denomina-se “environmental humanities”. como também a pensar outras formas de narrar que sejam diferentes dos interesses do capital e da exploração do território (outro exemplo é o livro Antes o mundo não existia. trabalhos que explorem os Amazônia. Representação do corpo e da intimidade com a Amazônia não apenas modos de se defender da destruição ambiental. dos povos originários da região. por sua vez. pensaram alguns constituem o espaço amazônico podem enriquecer culturas ocidentais aspectos desses projetos. filme coloca em diálogo com esses processos questões da ordem da O desflorestamento. para este simpósio. frequentemente ignoram como a Amazônia integra exploração que caracterizaram o projeto da ditadura para a região. ou o Fordlândia. linguagens. mas que emergem como fundamentais 272 273 . mencionado acima. ou e acadêmicas? Em diálogo com a antropologia e outros campos. minerais e não-humanos selva. do outro. aparecem mesmo tempo em que nos faz relembrar com urgência que a Amazônia muitas vezes diminuídas por narrativas afeitas ao “gigantismo.” também propomos pensar as do desflorestamento da Amazônia têm como contra-partida os saberes relações entre grandes projetos transformadores e narrativas íntimas. a aprender saberes indígenas. ao deconstarem na história das representações amazónicas. Em elementos centrais na construção e na vivência do espaço da Amazônia. do corpo. ou do começo. A Queda Palavras-chave: Amazônia. aborda de maneira crítica representações da Amazônia como espaço “à margem da história”. gênero e sexualidade.” para se converteu num lugar essencial para o campo do que no mundo citarmos Candance Slater. de Jorge Bodanzky e Orlando simpósio propõe novas aproximações às narrativas amazônicas. o processo de desmatamento (intenso na década de 70). paisagens. o mundo animal (ver. The Rise and Fall of na cosmovisão moderna? Como formas de pensar. possuidor de um desenvolvimentismo. O imaginários modernos (Nugent. aos não-indígenas outras maneiras de se relacionar com a vegetação e textos. intelectuais indígenas vêm se organizando não apenas para os diálogos entre as múltiplas modernidades amazônicas e as lógicas resistir politicamente à ofensiva destruidora. corpos) que encontram-se nelas. e os investimentos em infraestrutura e tempo “próprio”. Mitologia dos antigos desana-hehíhipõrãs. Quais são as formas de conhecimento e discursos do saber que o mundo dito ocidental não leva em consideração ou rejeita. de Pãrõkumu e Kehíri). apesar penetração. dimensões que. Narrativas e do Céu). Pois as dinâmicas epistemologias “ocidentais” e “indígenas. Senna. o livro de Davi Kopenawa. arquiteturas. assim. que propõem formas alternativas de onde os corpos e os afetos também podem ser entendidos como formular o pensamento sobre a relação com o mundo natural. também constituem aproximações ao tema. de Francisco Foot Hardman. representa uma outra forma da intimidade. Scoping the Amazon. O romance Mad Maria.

acerca das representações dos povos indígenas Henrique Abranches. respectivamente. intitulado De Roraima ao Orinoco (1917). Pedro Mandagará (UnB) de Mario de Andrade (1893-1945). na fronteira cantos (Amoa hi ã he rë haanowehei). Parte da Contos Bantos do Sudoeste de Angola (1971) constituem a base para Coleção Mundo Indígena. com os atores Grande Othelo por Anne Ballester Soares para a editora Hedra em 2016. as influências do Cinema Novo e da Tropicália na literatura brasileira e dos povos rurais na literatura angolana. representações dessas personagens na etnografia. de outras etnias. A metodologia da apresentação Makunaima e Nambalissita: heróis mitológicos da Amazônia e do consiste em evidenciar as formas como essas personagens foram Cunene representadas por diferentes gêneros e linguagens. e do padre português Carlos Estermann (1896-1976). no filme Sessão 1 Nelisita: narrativas Nyaneka (1982). um dos marcos do modernismo literário brasileiro. antropologia. símbolos do modernismo brasileiro. apontando para as Christian Rodrigues Fischgold (UERJ) relações entre antropologia.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS QUINTA 10 realizadas. os livros editados por Ballester Soares têm algumas 274 275 . Nambalissita. O no filme de Joaquim Pedro de Andrade em contraponto aos dilemas recorte da proposta de comunicação será uma análise comparada entre o documentário e o cinema etnográfico contidos na obra de Ruy das representações de duas importantes personagens mitológicas: o Duarte de Carvalho. que inclui ainda três volumes com narrativas a posterior composição literária e cinematográfica da personagem. modernista de Mário de Andrade e a epopeia mítico-nacionalista de realizado na UERJ. Nambalissita permanece à sombra se de uma primeira tentativa de comparação entre as diferentes dos estudos literários e antropológicos sobre a cultura angolana. Trata. As versões de Nambalissita contidas na obra Cinquenta transformações contadas pelos yanomami do grupo Parahiteri”. cinema realizadas no Brasil e na Venezuela originaram o livro mais famoso de Koch-Grünberg. Os quatro (1915-1993) e Paulo José (1937-) interpretando o herói mitológico. Enquanto Makunaíma é um dos mais reconhecidos Makunaíma ameríndio e o Nambalissita do sudoeste africano. As viagens Palavras-chave: Makunaíma. literatura e cinema contidas neste recorte: Resumo: Esta comunicação objetiva apresentar os resultados de uma os relatos etnográficos de Koch-Grünberg e Estermann. Makunaíma e Nambalissita tornaram-se conhecidas através em maior evidência e levante questões ainda não discutidas sobre a das obras do etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg (1872-1924) personagem ameríndia. O cineasta Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988) Resumo: Neste trabalho. Essas Transformando a poética do ambiente: O livro das transformações contadas pelos yanomami do grupo Parahiteri recolhas constituem base importante para o livro Macunaíma (1928). pelo antropólogo e escritor Henrique Abranches (1932-2004). editados cinematográfica de Macunaíma (1969). O surgimento da noite (Ruwëri) e A árvore dos Kwanyamas e Nyanekas que habitam a região do Cunene. O volumes são: Os comedores de terra (Pitawarewë). Manhã [09:00 – 11:00] antropólogo e cineasta Ruy Duarte de Carvalho (1941-2010). tentarei uma primeira leitura do conjunto de utiliza-se da obra de Mario de Andrade para compor uma versão quatro livros narrados por pajés yanomami do grupo Parahiteri. Juntos. e pelo poeta. eles formam o “livro das com a Namíbia. na literatura e no Pretende-se que a pesquisa comparativa coloque a personagem africana cinema. O surgimento dos padre português Carlos Estermann viveu por 30 anos entre os povos pássaros (Naroriwë). em A Konkhava de Feti (1980). a literatura pesquisa em desenvolvimento no doutorado em Literatura Comparada.

ideia que se relaciona a como a noção de natureza vem seria: há uma forma específica de ambiência nos textos de base oral? sendo problematizada por estudiosos dos povos indígenas da Amazônia. Cada ponto de vista vê o mundo ao seu redor como cultura de autores indígenas. Nesta primeira aproximação a estes textos tão complexos. pretendo investigar como tradução. Como estes textos constroem seu ambiente. Morton trata da tradição literária desenvolvimentismo predatório – particularmente em “A queda do ocidental. Amazônia. que traz o caráter oral das narrativas míticas parece ser mantido nas traduções papel da corporealidade. Foi sobretudo posso melhor desenvolver diz respeito à antropomorfização do natural a partir do crescimento dos movimentos ecológicos. a partir do Romantismo. de Eduardo Viveiros de Castro. portanto. Yanomami Mais ainda. Acredito que um traço particular da que a Amazônia passou a ser vista. de David Kopenawa. No momento. naturalismo. nos anos 1980. população brasileira e mundial. xamanismo. sabemos que há uma retórica própria tradução atualizados pela ideia de “terra-floresta” compõem o discurso para a construção de uma ambiência (ambience) textual. de idas e vindas temporais. o imaginário brasileiro tendia a para encaminhar algumas hipóteses.veremos como diversos traços do conceito de ambience por ele descritos carregam o emerge. por uma pequena parcela da teoria do perspectivismo ameríndio. A partir de uma reflexão sobre como os modos de without Nature e outros textos. como A Queda do Céu. com humana (a onça vê o sangue como caxiri. uma ecologia sem peso desta tradição. xamanismo e cosmopolítica a partir da interlocução do líder os textos míticos dos yanomami do grupo Parahiteri constroem uma indígena e xamã yanomami Davi Kopenawa com o etnólogo francês ambiência textual própria. por exemplo). Pretendo estender este papel do afeto para para o português. Uma primeira pergunta deste trabalho. se tão poucos dos leitores já macuxis: uma outra modernidade Amazônica puderam visitar a Amazônia (ou a Terra Indígena Ianomâmi)? Pretendo Lúcia Sá (University of Manchester) recuperar o mito como gênero literário e problema antropológico Resumo: Até muito recentemente. em especial de língua inglesa. caso de repetições. Palavras-chave: Literatura indígena. a transcrição em língua indígena (xamatari ocidental) também é impressa. presente nos mitos amazônicos. etc). no discurso cosmopolítico do tradutor-xamã. Da teoria de Timothy Morton. os livros são bilíngues: após cada versão em português. como o espaço por excelência de uma possa ajudar a encaminhar esta hipótese.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS peculiaridades frente a outras edições de textos orais indígenas. com diversos dos recursos próprios da oralidade compreender a construção de uma poética do ambiente como locus de (descritos por autores como Walter Ong) comparecendo no texto. Poética do ambiente. de perguntas retóricas. O vista tem ainda um afeto próprio (afeto-onça. Os céu: Palavras de um xamã yanomami” (2010/2015) . evocam uma cadeia Palavras-chave: tradução. uma aproximação cuidadosa dado o desconhecimento da Resumo: O objetivo desta comunicação é tratar da relação entre língua xamatari por parte deste pesquisador. que não de Kopenawa em sua comunicação com os não índios e luta contra o só tematiza mas evoca a Natureza. A tradução como cosmopolítica na Amazônia: Davi Kopenawa e uma ecologia sem naturalismo Para a política da memória dos povos e línguas yanomami a importância Jamille Pinheiro Dias (USP) da publicação é inegável. mas cada ponto de 276 277 . em Ecology Bruce Albert. a hipótese que representar a Amazônia como a antítese da modernidade. Trata-se do papel do afeto outra possível relação com o meio-ambiente. cosmopolítica de sensações relacionadas a um lugar ou território específico? E O ‘Rito do Irmão Pequeno’ de Mário Andrade e canções de trabalho como se pode sentir esta ambiência. A publicação de textos na teoria. É o potenciais afetos.

vou analisar o conjunto de poemas publicados por Mário de II” (2013). pois estão presentes na Guiana e no Brasil. onde com noções como o ‘progresso” ou a roda-vida urbana já foi parte recebem. transcendem as fronteiras de idiomas nacionais e político-geográficas Mas a visão da Amazônia como uma modernidade não coincidente de países limítrofes. natural e sobrenatural. Amazônia. o contato com o pensamento indígena. sobretudo na obra modernista de Mário de Privilegiamos. mas etnia encontrada na Venezuela e pertencente a povos indígenas que na possibilidade de conservação da natureza ou sustentabilidade. Oswald de Andrade e Antonio Brandão do Amorim. Priorizaremos. Temos. romper fronteiras espaciais e (re)construir via de contato com uma herança ancestral pautada na interação interseções ao transcender o espaço físico ordinário ao empreender indígena-natureza-sagrado Elda Firmo Braga (UERJ/UNESP/UNICAMP) viagens a outras dimensões. sua celebração da preguiça criadora. além disso. bem como apontar outras possibilidades para pensarmos para ampliarmos nosso conhecimento de uma parcela significativa nossa atuação e relação com a natureza física – considerada também das raízes culturais que constituem a identidade latino-americana. Entrar em literatura. a sua capacidade de praticar a interação entre seres de espécies diversas. respectivamente. pode nos oferecer formas diferentes de perceber o mundo. aqui. terra e céu. válida ainda uma alternativa viável à crescente degradação socioambiental 278 279 . Neste de Armellada. publicadas nos livros “Tauron Panton I” e “Tauron Panton trabalho. Panton Neke-ré” (1988). centrada em repertórios Dessa maneira. neste estudo. de pós-doutoramento. dentro do âmbito tendem a ver a floresta destruída (e não a floresta em si) como riqueza. de contato com os saberes e as tradições dos povos originários contribui ser e de viver. narrativas recopiladas por Cesario Andrade. sociocultural desses povos. Nosso à luz de tradições poéticas europeias. Ele possui uma ampla e profunda ligação com o âmbito natural e o campo do sagrado. a denominação de Arekuna e Taurepang. ganham outra dimensão quando uma espécie de xamã.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS sua crítica contundente a concepções não-indígenas da natureza que só na atualidade. principalmente. concepções ortodoxas de “desenvolvimento” ou “progresso”. literatura indígena comunidade. “Pemonton taremuru: los tarén de los indios pemón” (1972) Andrade sob o título de ‘Rito do Irmão Pequeno’. conhecidos por objetivo principal é refletir acerca da representação literária do piache. o propósito de apresentar vêm reforçando a idéia de que a Amazônia pode representar uma outra um estudo literário sobre um conjunto de contos tradicionais que modernidade – uma modernidade baseada não necessariamente em faz parte de um acervo mitológico-cultural pertencente aos Pemón. homem Resumo: Leitura literária de repertórios narrativos dos Pemón como e natureza (fauna e flora). estes poemas. colaborando para (re)conectar terra e A presente proposta tem relação com trabalhos de uma pesquisa mundo subterrâneo ou subaquático. Por ser herdeiro e portador de uma sabedoria lidos em conjunto com as canções de trabalho macuxis publicadas ancestral e responsável pelos cuidados com a saúde física e espiritual de por Theodor Koch-Grünberg no volume 3 de Do Roraima ao Orinoco. nesta apresentação. por meio de sua narrativos de determinados grupos indígenas amazônicos. Normalmente lidos e “Cuentos y no cuentos – Panton. seu povo. realizada em 2016. Esta conexão privilegiada lhe confere Leitura literária de repertórios narrativos dos Pemón como via de habilidades especiais que lhe permite comunicar com variados seres contato com uma herança ancestral pautada na interação indígena- natureza-sagrado viventes (humanos e não humanos) e transitar por diferentes “planos Elda Firmo Braga (UERJ) de realidade”. do imaginário brasileiro. pode nos indicar igualmente uma forma de nos aproximarmos de uma herança. legada por um mundo ancestral. É como sagrada para os povos ameríndios. poesia. o piache é uma personalidade importante e influente em sua Palavras-chave: modernidade.

Piache. buscaremos tecer um diálogo interdisciplinar entre a Literatura. El libro de los Pasajes. por Da Cunha al asumir su lugar en la Academia Brasileira de Letras en Martínez Sarasola (2004). e Burkert (2009). Este Palavras-chave: Amazônia. en palabras de Foot Hardman. e da convoca.nos permitirán leer las Valderiza de Almeida Alves (UFAM) mencionadas producciones de Euclides Da Cunha en su pasaje por el Resumo: O ciclo da borracha é uma temática que permeia grande espacio amazónico desde una perspectiva que atienda a la dimensión parte das obras literárias e históricas de meados do século XIX e XX na 280 281 .XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS produzida pelas ditas sociedades “civilizadas”. à cultura e à cosmovisão dos Pemón. en 1909). productividad e confrontos y de Á margem da história (publicada póstumamente en y trabajo. Amazonia. postulaciones de Walter Benjamin en Sobre el concepto de historia Palavras-chave: Euclides Da Cunha. como os de Koch-Grunberg (1979) no sus limitaciones. Euclides da Cunha encabeza la Comisión Brasileña de modernizador de progreso). Da Antropologia e a História das religiões. Asimismo. a la vez que da expresión no programática a la selva tocante à história. contaremos com o Cunha. La Amazonia es. en las imágenes de la Amazonía Sagrado que se dibujan en esas textualidades. imagen (2009). hasta el presente. cuyo mirada de Da Cunha. de metamorfosis. 2009). así como la noción de montaje -que articula su literatura proyecto de largo aliento.CONICET) historia como progreso. el espacio amazónico –en la Reconocimiento del Alto Purus. de manera general. a tuvo mucho más de “muerte y progreso” que de “orden y progreso”. com obras que como lugar de confín (Cacciari). El tránsito por el espacio amazónico se resuelve en una prosa de consecuencia. El Una modernidad en ruinas: imágenes del espacio amazónico en Euclides da Cunha espacio amazónico se ofrece como imagen que delata la ilusión de la María Florencia Donadi (Universidad Nacional de Córdoba . junto a un agudo análisis de la realidad ruina que asola el proyecto moderno) y de la fantasmagoría (el intento social. Esta expedición por la Amazonia. aporética del proyecto moderno que. exhibe una contra-modernidad en su carácter ruiniforme. marcará la escritura de algunas de las páginas de Contrastes a la noción de valor económico entendido como utilidad. la Amazonia se instituye en espacio Tarde [14:30 – 16:30] liminal. al insistir en la barbarie de todo proyecto Resumo: En 1905. deja entrever una conceptualización de la historia cercana a las de disciplinamiento y “civilización”). aún suscribiendo al modelo modernizador no deja de señalar apoio de estudos antropológicos. Literatura Pemón. la existencia de anacronías y. continuum (no sólo por ser su límite salvaje a conquistar sino. nuevamente. sobre todo. que deja entrever por un lado. por completo ajeno naciones. que sorprende y seduce su percepción.se sostiene en un potencial de transformación objetivo junto a la comisión peruana era fijar los límites entre ambas permanente. Indígena-Natureza. Para esta reflexão. de don y de gasto. una miragem [ilusión óptica]. Llamazares. sobre todo. que. una versión del fantasma (la fuerte impronta imagética que. Walter Benjamin. Nesse sentido. la vida póstuma o superviviente de esas imágenes la QUINTA 10 que elabora un imaginario en torno a este espacio. Sessão 2 por otro. La noción de imagen dialéctica como aquella que emerge en un instante de peligro convocando tiempos heterogéneos que Benjamin O ciclo da borracha: nas linhas da história e nas entrelinhas da desarrolla en sus tesis. como a de Castro (2013). trae a su discurso la experiencia amazónica. Se contrastará Á margen da história con el discurso proferido relação indígena-sagrado como as de Eliade (1981. trabajo pone su foco. con los sentidos paradójicos que tratam da interação indígena-natureza. pues se sostiene que es la perdurabilidad. En estos textos.

que a despeito do que antes fora dito sobre a Paris dos Trópicos. analiso o modo como as marcas Linhares. O Tocador de Charamela de Erasmo capitalista global. a África e a América Latina. desde muito cedo. Estava “na moda” falar de seringueiro. de Alberto Rangel e Euclides cruzar diferentes Estados-nação. A partir dessas o cauchero aventureiro e o índio escravizado . se tornou comercializável nacional e nordestino deixado a sua terra de ganhos difíceis e assolada pela seca internacionalmente. abrigar múltiplos povos indígenas e da Cunha respectivamente. Se Casement cunhou condição do seringueiro. é claro que em lugares tão díspares quanto a Irlanda. A região. corpos e árvores: Leituras das marcas da indústria extrativa do látex nos corpos dos trabalhadores amazônicos nas entrelinhas da literatura. parecia finalmente incorporar-se à modernidade Barranco de Cláudio Araújo Lima. temos uma dívida impagável com Euclides da O irlandês e cônsul britânico Sir Roger Casement. conectando passados e futuros de sujeitos oprimidos Literatura Amazônica. Dada do colonialismo britânico que apenas um irlandês. Outras produções como: Deserdados ter sido cobiçada. leu nas Cunha. quer seja um olhar desse período nas linhas da história como também Cicatrizes. No que se refere aos escritos históricos Carolina Sá Carvalho (University of North Carolina at Chapel Hill) alguns autores serão de crucial importância para a reconstituição dos fatos como Lucilene Gomes. o boom da indústria Loureiro e Samuel Benchimol. o que veremos é um período marcado pela exploração de que o ciclo da borracha não foi somente de importância nacional do imigrante nordestino. Antônio Resumo: No fim do século XIX e início do século XX. extrairemos alguns desses autores que conversarão sobre a de produtividade do capitalismo extrativista. que por meios de técnicas imposto. poderia a revelação. como de bens. e tratar sobre a vida no partir dos quais diferentes viajantes desenvolveram reflexões sobre a barracão ou nas “estradas” passou a ser um tema recorrente na história moderna.tornaram-se signos a obras descortinou-se o mundo do seringal. Carlos Guedelha.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS Amazônia. decifrar. mas o que ganhou notoriedade nas faces marcadas pela malária dos trabalhadores amazônicos não devido a condição miserável em que sobrevivia. em busca de como também internacional. entre muitas outras obras que fazem referência integral ou no corpo do trabalhador dessa indústria . Em se tratando desse período na literatura. a imagens sobre a inclusão da Amazônia na produção e circulação global prosa em torno desse ciclo na Amazônia é bem representada. Coronel do internacionais. não o herói. Independente dos meios de produção. A proposta desse Palavras-chave: ciclo da borracha.o seringueiro nordestino. O grande alarde decorrente desse período se deve ao fato ou literária. como ele. leite retirado da seringueira. parcialmente sobre o ciclo da borracha na Amazônia. a vulcanização. mas “indiferença” que desafia a lógica literatura. por diferentes atores econômicos de Carlos de Vasconcelos. histórica o conceito de “ponto de vista” para relacionar a capacidade de o 282 283 . é completamente massacrado pelo sistema sobre o látex. pessoas e capital. A Selva de Ferreira de Castro. internacional por excelência. Neste trabalho. que revestido de seringueiro. por exemplo. por veremos nos contos Maiby e Judas Asvero. Márcio Souza. Já o escritor modernista Mario de Andrade. reconheceu passa a ser o protagonista. Amazônia. A gama de documentos históricos desse período é avassaladora para enfrentar essa empreitada? demasiado extensa bem como as produções literárias. o seringueiro que era mais uma peça no “Circo do Horror”. Estes reconstituirão o ciclo da borracha extrativa do látex impulsionou a produção de uma série de narrativas e nas linhas da história. Nas entrelinhas da apenas um passado de dor. despertando os olhares estrangeiros melhores condições de vida. literatura artigo é traçar uma discussão histórica e literária sobre esse período. teria o imigrante específicas. nem sempre foi assim. história. cicatrizes dos indígenas e das árvores da região do Putumayo marcas foi o primeiro a denunciar a condição do seringueiro na Amazônia. Se ao menos soubesse o que lhe sobreviria.

adota outras nos chamados Black Diaries. de forma obliqua mas conotações se colocada no contexto dos encontros sexuais –aliás. e o fato Casement (1864-1916). onde os encontros homossexuais secretos e anônimos se 284 285 . A descrição de corpos extremamente Palavras-chave: intimidade e corpos. Esta comunicação propõe-se refletir sobre a presença uma fronteira onde o estado e a lei somem e viram invisíveis e inúteis. também inequívoca. os textos analisados neste trabalho tortura e o genocídio indígenas que Casement denunciou pela primeira colocam o corpo do trabalhador da borracha como lugar privilegiado vez para o mundo percorre também as páginas dos Black Diaries. da negociação. Embora a sexualidade. Roger Casement visitou a região do Putumayo na da intimidade que implica uma retórica do encontro. e não por acaso Mario Vargas representação da Amazônia como uma mulher virgem a ser conquistada. Llosa publicou recentemente El sueño del celta (2010). da “maleita” como modelo de sua tempo que o “eu” denuncia práticas continuas de tortura. especialmente a infame Casa Arana. defensor dos direitos que esses encontros aconteçam num contexto de tortura e destruição humanos. tendo em conta que a diplomacia é também uma forma viagens do irlandês. regiões amazônicas visitadas. A vida dele dos corpos. os mosquitos. especialmente muito presente nas denúncias realizadas por Casement. Borracha.narrados pelo eu. A Amazônia que aparece nos chamados White Diaries pela indústria da borracha. Na escrita paratática e quase em códigos ao fato de haver experimentado a opressão colonial. boom da borracha. encontros sexuais entre o “eu” e nativos das também considerados ilegais então. os textos de Casement Casement introduzem muitas questões novas que proponho explorar Javier Uriarte (Stony Brook University) na minha comunicação. como intercâmbio anônimo. na imprensa internacional e fizeram com que o mundo conhecesse o adotam novos sentidos se lidos no contexto da utopia queer que é que o antropólogo colombiano Pineda Camacho chamou de holocausto o texto do Casement. e a vontade de penetração masculina numa terra misteriosa e resistente. O horror gráfico e explícito da da Amazônia como Inferno Verde. corpos pelo narrador. Mais do que repetir o tropos comum assassinato contra esses mesmos corpos. onde narram-se. As de Casement é um espaço onde o corpo do eu sofre as inclemências denúncias que resultaram dessas viagens tiveram grande repercussão do clima: o calor. belos e atrativos constrói um espaço de prazer. a Resumo: Em 2016 comemorou-se o centenário da morte de Roger sexualidade como cruising. quase um paraíso do tortura cruising. lugares comuns que. Modernidade e da sexualidade no espaço amazônico. viajante. diplomata. mutilação e escrita e fotografia amazônicas. constituem elementos originais que complicam a tradicional foi sem dúvida digna de um romance. Também a repetida noção da Amazônia como amazônico. “Splendid testemunhos”: sofrimento e prazer nos diários de Roger estejam já presentes desde a viagem de Walter Raleigh. porém. as febres. Capitalismo. central do corpo nos diários amazônicos de Casement. sexualidade. e de releitura da história do capitalismo moderno e de formulação de alterna-se com momentos de prazer anônimo obtido desses mesmos modernidades e alianças alternativas.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS viajante perceber os efeitos da exploração nas populações indígenas produzem quase diariamente. isto é. Interessa-me introduzir a questão da intimidade Palavras-chave: Amazônia. A sensibilidade queer que este texto expõe. ou desfocado. Amazônia para pesquisar os abusos cometidos contra os indígenas da observação. esses encontros são narrados (u sugeridos) ao mesmo o olhar distraído. Mario adotou de Casement. precisamente Quero explorar também as formas específicas da intimidade que aparece uma versão romanceada – e bastante problemática – da vida e das nesses textos. e herói das lutas pela independência da Irlanda.

como Michel de Certeau. 1979). apesar de marginalizados. que lê na ficção. produzidas por Jurandir. Belém do Grão. apresentam práticas que os Victoria Troianowski Saramago (Universidade de Chicago) distinguem dos demais personagens. Os foi explorado em diversas obras da literatura universal. o estudo da leitura como processo complexo e dinâmico é escritor para demonstrar as atividades de leitura. que geralmente sofre quem Resumo: A Amazônia brasileira é retratada literariamente em textos critica determinados segmentos da sociedade. Dalcídio Jurandir. proposta pelo escritor Dalcídio Jurandir. Ciloca. Três casas e um rio (1958). Amazônia nos primeiros romances do escritor: Eutanázio. a qual está histórias na ficção. à requerendo isolamento social. de Miguel de Cervantes y Saavedra sobre uma realidade social na Amazônia e o de utilizar a arte literária (1547-1616). Primeira manhã (1967). motivo pelo qual já escritos no século XX. é defendida no Brasil que praticam leituras nas narrativas e. sem receber sanções. Pará (1960). Carlo Ginzburg. escrita e narração de analisado por pesquisadores pertencentes à História Cultural. contribuem para compreender a prática de leitura no contexto social. por este motivo serão por pesquisadoras como Marisa Lajolo e Regina Zilberman. Os textos desta coletânea. o autor vem entrando em conflito tanto com líderes eles nutriam paixões avassaladoras: Eutanázio cultivava um amor políticos como o presidente boliviano Evo Morales quanto com linhas 286 287 . Esses personagens. Caracterizando frequentemente ter adquirido uma doença venérea que o vitimou e. apesar disso. evidenciaremos personagens leitor. são indivíduos marginalizados social e Vargas Llosa vem mantendo com movimentos indígenas e ecológicos. de Marajó. a exemplo do textos de Jurandir apontam para um duplo propósito: o de escrever livro D. modernidade”. de Chove nos campos de Cachoeira e Ciloca. analisados na Casas verdes: o lugar da Amazônia na obra de Mario Vargas Llosa perspectiva de personagens-leitores. vinculada à História da Leitura.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS SEXTA 11 não correspondido por Irene e Ciloca que vivia das lembranças de sua amada Sinhazinha. marginalizados Esta modalidade de personagem. E. Chão dos Lobos (1976) e algumas pesquisas de Furtado (2010) que nos dá a dimensão sobre Ribanceira (1978) e conhecidos como ciclo do Extremo Norte (1939. posto que produziram estudos que (1941). Marajó (1948). pelo escritor Dalcídio Jurandir (1909-1979). que marca este tipo de leitura fictícia. por dominar a leitura e a narração Resumo: São já notórias as tensões que o escritor peruano Mario de histórias. serão focalizados dois personagens presentes Palavras-chave: Personagem-leitor. moralmente. um padeiro lutas para a demarcação de terras indígenas e para a conservação que contraiu lepra. Eutanázio por apresentar comportamento antissocial e sobretudo a partir de fins dos anos 80. pode motivar Regina Barbosa da Costa (UFPA) críticas à sociedade. Analisar esses personagens-leitores em meio Manhã [09:00 – 11:00] a uma comunidade de analfabetos numa ilha distante da capital. Neste artigo. a existência de uma Amazônia “derruída”. à civilização. são compostos por dez romances: Chove nos campos de Cachoeira Robert Darnton e Roger Chartier. por fim. Quixote de La Mancha. posto que Práticas de leitura na Amazônia por personagens-leitores indivíduos com alguma cultura não alcancem a valorização merecida. nos Sessão 3 permite ilações sobre a desvalorização da cultura letrada. No entanto. Neste sentido. A figuração de para simular esta realidade. no pós-ciclo da borracha. doença que na época era incurável e mutiladora ambiental como um obstáculo ao “desenvolvimento. Passagem dos Inocentes (1963). visto que foram idealizados pelo lado. os alicerces da pesquisa sobre Jurandir terão como fonte Ponte do Galo (1971). Os habitantes (1976). por outro denominados de personagens-leitores.

a artista Maria Martins exibe na Valentine Gallery desenvolvimentismo como a que ganharia corpo nas últimas décadas. Ainda que não se catálogo . possam ignorar as visões políticas do autor neste caso. Meu interesse é discutir como essa corporeidade plena antes o que caracteriza a vida na floresta. Yara. que buscava uma um certo corpo. Maria Martins. passando por Pantaleón y las visitadoras novas luzes sobre o lugar da Amazônia em sua obra e seu pensamento (1973) e. com relatos de suas viagens à acerca da representação da natureza amazônica como reação à sua China e à Índia.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS de pensamento como a deep ecology. proponho investigar mais extensa e determinante é a crítica do autor ao indigenismo esses possíveis pontos de contato entre a busca por inovação formal peruano a partir de seu misto de admiração e rejeição para com o de Vargas Llosa no contexto do boom. publicou os livros Ásia Maior: o planeta China (1958) e Ásia sobre as inovações estéticas do boom latino-americano e à sua visão Maior: Brama Gandhi e Nehru (1961). Amazônia. Nesta comunicação. Estas remontam às ideias do autor escritora. Boto. estão acompanhadas de texto em prosa poética a mirada desenvolvimentista de Vargas Llosa sobre a região amazônica de sua autoria narrando esses mitos. evidentemente. calor. além de uma biografia intelectual de Nietzsche em leitura de crônicas coloniais. num corpo feminino formando seus efeitos sobre o corpo humano. de transformações corporais. As guinada ao neoliberalismo após sua desilusão com o socialismo e esculturas de divindades africanas e ameríndias. Vargas Llosa desenvolveu técnicas de animais aquáticos. Em lugar da postura contemplativa cobra com inúmeras bocas cravadas das quais soam voz medonha. representações da floresta escritor José María Arguedas. ambos discutidos em ensaios do autor Deuses Malditos I: Nietzsche.Amazonia. cores. corpos vegetalizados estruturam morfologicamente um senso da vida suor. entre muitos outros. odores. para usar 288 289 . Proponho que esse procedimento. Boiúna. de 1965. Se o autor evita uma série de tropos caros à Lúcia Ricotta (UNIRIO) descrição da flora latino-americana. Aioká. E como a multiplicidade de acenos das formas de distância explícita do descritivismo da prosa romântica e das correntes vida. nesse contexto. Minha hipótese é a de que uma abordagem conjunta da ficção esteja presente em tantos romances do autor. na cobra descrição da floresta marcadas não pelo primado da visão. em Nova York uma série de esculturas de mitos amazônicos. tampouco há uma defesa do Resumo: Em 1943. Amazônia. picadas de insetos. Na ocasião Essa aparente desconexão é geralmente entendida dentro da sua publica um catálogo com o mesmo nome da exposição. A Amazônia de Maria Martins publicados no fim dos anos 60 e início dos 70. guarda uma dimensão ecofóbica. sobretudo a de personagens de pathos parece nascida da raiva e de uma vingança histórica contra não-indígenas. Ao longo de sua obra e fala imagens da “mais velha humanidade” numa terra de sobrevivências de formas metamórficas e de cruzamentos entre corpos humanos e principalmente em La casa verde. Com exceção desta última. além de artista e possui raízes mais profundas. d’A casa verde (1966) de Vargas Llosa e sua atuação como intelectual público pode lançar a El sueño del celta (2010). ameaças diversas e um desconforto geral são cosmológico. É curioso. sons e atmosferas (águas regionais dos anos 20 e 30. presente em sua obra ensaística e no amazônica ao longo de sua obra e sua defesa do desenvolvimentismo na romance El hablador (1987). que vai de Alexander von Humboldt a Alejo Carpentier.Cobra Grande. Ecocrítica tais obras poderiam parecer num primeiro momento desconectadas das visões expressas por Vargas Llosa a respeito das lutas ambientais Mítica Amazônia em corpos metamórficos de Maria Martins e indígenas na região. proponho que Aganjú e Iemanjá-. mas pelos que vira gente e que vira embarcação. Ainda a terminologia de Simon Estok. Iacy . El hablador. que a Amazônia região. Palavras-chave: Mario Vargas Llosa. No encontro da mulher com serpente. reproduzidas nesse sua ruptura com Fidel Castro no início dos anos 70.

portanto.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS perfumadas. mas também de apavorar com barulhos estarrecedores e infernais. canto de sereias) apontam alternativo ao projeto modernista canónico. a relação entre a cidade protoantropofágica da cultura brasileira”. vida moderna. capaz de seduzir com melodias harmoniosas e paradisíacas mediático. à série de escritos titulada “Os gatos de Roma/Notas principalmente do seu conhecimento pois “conseguimos ouvir apenas o para a reconstrução de um mundo perdido” -publicados no Diário de que sabemos nomear”. De fato. pintor. poderá seduzir o aventureiro e do primitivo na sua teoria propondo que nela se acha um projeto em busca de riqueza ou. paisagem sonora e ecoaustica na amazonia Palavras-chave: Amazônia. do índio desejos: o mesmo barulho. esqueleto da vida: uma leitura dos Diários amazónicos de Resumo: A ideia de que a natureza seja silenciosa é uma ilusão da Flávio de Carvalho (1958) desde um “perspectivismo” contemporâneo. Diarios Amazónicos. Segundo Murray Schafer. bem como me aproximar e a selva e diferentes projetos modernizadores. por exemplo. Maria Martins. e à seu texto-manifesto “A cidade do homem ou desconhecidos para quem os descreve. encontra-se o silêncio”. amedrontar o seringueiro escravo 290 291 . A pesquisa se fara à luz de teorias Trem fantasma: a modernidade na selva e Raúl Antelo: “Genealogia do atuais sobre a selva e a natureza e do conceito de “perspectivismo vazio”). a colonização do tempo. ao contrário. quebrantar certos parâmetros fixos da cultura ocidental. Alguns dos problemas chaves de um “antimodernismo” que expande as “fronteiras informes do que se trabalharão são: mudanças na relação entre natureza. como explica Jacques Attali. A perspectiva arqueológica para um reflorestamento da voz poética nessa geohistória do Brasil. para o lugar da materialidade (ruinas. coleção e acumulação). Na floresta. a percepção de um som depende mundo (1932). na ideia de modernidade num suposto vazio territorial da nação (Foot Hardman: progresso e de evolução histórica.e resultou num manuscrito inédito: “Os Diários Amazónicos”. seu caráter etnográfico e de documento para além do confinamento estético. FDC –engenheiro. “somente onde há Luz Horne (Universidad de San Andres) morte. vida e moderno” no Brasil. onde ele proclama a nudez como um critério necessário para sonora será determinado principalmente pelas expectativas e pelos a cidade futura. Concertos infernais no paraíso perdido. horas líquidas. ensaísta. Desde as crônicas dos primeiros exploradores. pretendo analisar “Os Diários…” em relação a outros contradição pode ser atribuída à diferente capacidade de escuta dos escritos de sua autoria. etnografia Luca Bacchini (Pesquisador independente) A selva. Perspectivismo de decisivas expansões do mercado da borracha nesse período de ameríndio segunda guerra mundial e a consideração do valor histórico da arte. Analisarei a concepção da selva amazónica. o significado da paisagem nu”(1930). Tal Neste ensaio. arquiteto. pode produzir sons invasivos e ativista cultural. metamorfoses.a quarta “experiência” de uma série que procurava cidades contemporâneas. ar de carícias. A expedição a Amazônia foi sempre descrita como um lugar extremamente rico de involucrou a rodagem de um filme –que se transformou num escândalo sonoridades. que guia seu pensamento produz um quebre na temporalidade fazendo ecoar no território desconstruções identitárias e a ruinosa cronológica (seja histórica ou biográfica) e. Literátura.realiza uma expedição ao Amazonas que seria -segundo perturbadores como os que atravessam a mais moderna e caótica das suas intenções. inclusive a mais Resumo: Em 1958. desse filtro do “cosmopolitismo do pobre” por Silviano Santiago. rearticular a presente Amazônia de Maria Martins perante a historicidade Palavras-chave: Flávio de Carvalho. Qualquer paisagem. principalmente ao livro de viagens Os ossos do narradores. a partir do que Raúl Antelo denomina “apreensão humanidade e diferentes ideias de humanismo. remota e selvagem. onde a maioria dos sons são inéditos São Paulo em 1957-8)-. Também gostaria de discutir a Maria Martins nessa constelação ameríndio” de Eduardo Viveiros de Castro. e incontaminada.

À margem da história (1909) de Euclides da Cunha. viajeros europeos de los siglos XVI. pájaros) sino la relación que se produce entre este pensamiento séculos XIX e XX. son de informações e sugestões para refletir sobre o futuro. en su libro o drama dos seringueiros. murciélagos. coloniales entran en contacto con el espacio amazónico.literatura do por Konh como un espacio de diversas inteligencias. avisa contactos. Colocando essa perspectiva numa direção mais psicanalítica. la Amazonía es una repetidas e trágicas tentativas de modernização? Quais barulhos foram zona muy densa semióticamente hablando. no Até que ponto é ainda possível pensar na existência de sons “naturais” necesariamente es racional o lingüístico sino relacional. En otras palabras. Es importante entender que esta uma sonoridade conhecida é ouvida num ambiente desconhecido? inteligencia no humana o modo de pensamiento no humano. XIX e XX humanas. Contudo. humanas y no séc. ¿Qué semiosis se produce cuando los misioneros franciscanos 292 293 . que se producen cuando los proyectos de Alfredo Ladislau e Mad Maria (1980) de Márcio Souza. siglos XVI al XVIII onde encontram expressão os sonhos e as tragédias mais profundas Diego Fabián Arévalo Viveros (University of California) que caracterizaram as várias época vividas pela Amazônia: o mito do Resumo: Transformadores-transformados: proyectos de colonizacion eldorado. as sonoridades são também ricas (en especial los no humanos) son semióticos y en cuanto tales. será possível compreender melhor para onde anda relacionar con otros seres y también con el medio ambiente mediante a loucura dos homens e quais esperanças são ainda possíveis”. son seres que se pueden sons de cada época. a questão ambiental. debido a la infinidad de gradativamente introduzidos pela civilização? O que acontece quando relaciones que ahí se presentan.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS da extração da borracha. Eduardo Kohn. o boom da borracha. partiendo de esta idea de Kohn. ecoacústica. a utopia de progresso. Terra imatura (1923) es la semiosis (las relaciones). En este sentido. “Escutando os inteligentes o para decirlo de otra manera. lo que quiero pensar en esta presentación (1908) e Sombras n’água (1913) de Alberto Rangel. semiótico. é também possível examinar as SEXTA 11 sonoridades da Amazônia no plano diacrônico e imaginar que elas Tarde [14:00 – 16:00] tenham evoluído ao longo do tempo em função das transformações Sessão 4 do contexto político. O missionário (1891) e os Contos vivo y los proyectos coloniales llevados a cabo tanto por misioneros. Entre as obras analisada estão Cenas de vida amazônica (1886) de José Veríssimo (1895). Além de oferecer um ponto de vista privilegiado para compreender vivo: en la selva Amazónica (particularmente en Ávila) todos los seres o passado e o presente da Amazônia. encuentros. econômico e social. relaciones complejas de las que todos dependen Attali. amazônicos (1893) de Inglês de Souza. e “primitivos” contrapostos a sons “artificiais” e “modernos”? Quais Precisamente. podemos interpretar os sons e Transformadores-transformados: proyectos de colonización en el barulhos como uma espécie de manifestação do inconsciente da história espacio Amazónico. Em que maneira a paisagem sonora da floresta testemunha as para afirmar su vida. siglos XVI al XVIII. para Konh. em alguns exemplos selecionados no âmbito da literatura brasileira dos árboles. o genocídio das populações indígenas. pero ya no sólo entre ellos (entre hormigas. paisagem sonora. XVII con mención al Teófilo. pretendo focar a atenção habla Konh. O paroara (1899) de Rodolfo exploradores. en el expacio Amazónico. Inferno verde siglo XVIII. caracterizado Palavras-chave: Amazônia. lo que me interesa sonoridades foram associadas às comunidades indígenas? Como evoluiu pensar en esta ponencia es la relación que se entabla en el espacio o significado do silêncio? Para responder a essas perguntas e ilustrar a amazónico entre estos seres e inteligencias amazónicas de las que complexidade da paisagem sonora amazônica. How Forest Think explica una de las funciones del llamado pensamiento etc.

propongo que cuando los proyectos coloniales entran de seus “tepui”. de quem não crê na santíssima trindade do capital. se dan cuenta que el que passaram pelo solo amazônida. Nas comunidades indígenas y qué formas. Coloniales. Ela está. históricas. qual seja. também queso se pudre con una facilidad única. em outras em tom de vida amazónica ocurren? Frente a estas preguntas mi propuesta es la desprezo pela “gíria” (como são designadas pejorativamente as línguas siguiente: las intervenciones y proyectos coloniales en el Amazonas indígenas) e de tudo o que ela resgata e que já teve de antigo e anti- enfrentan lo que Manuel de Landa llama. Fábio Almeida de Carvalho (UFRR) Palavras-chave: Literatura e Amazônia. nas aventuras de quase todos os aventureiros e viajantes 294 295 . Los agrupamientos que selvagem tinha de mais cândido. via de regra. modificaciones permanecer para além de sua própria permanência. Para muitos. durante los siglos XVI al XVIII. bifurcación o el evento cristão. en el Putumayo. a capacidade de estimular se forman en este cruce entre lo colonial y lo amazónico. No-humanos. los agrupamientos que se forman cuando lo exóticas que Conan Doyle plantou e que o imaginário incorporou à colonial entra en relación con las vitalidades humanas y no humanas película e às possibilidades. institucionalizadas. Es decir. que descerá de uma estrela colorida e brilhante. se modifican y en algunos casos. ela se apresenta às vezes estos agrupamientos entre intervenciones coloniales y formas de em tom de resgate. contactos podemos reconocer cuando constituídas. Do fundo do mato virgem. Pretendo revisar esto en diversos documentos escritos. Rousseau prevalece naquilo que seu bom en un proceso de dispersión y descomposición. poderia ser um feliz amigo da onça. na terra lavada. Makunaima. Índio e Bom selvagem Resumo: Esta discussão não é recente. como um dije.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS del Alto Amazonas. onde esse radicales. Trocando em miúdos. às vezes em tom de nostalgia. de uma Amazônia perdida na bruma mediante el cual un sistema entra en una etapa de fluctuaciones. os dinossauros e criaturas bifurcación. das civilizações perdidas. relaciones. Makunaima inunda o mundo com os frutos da árvore en contacto con el espacio amazónico se produce una semiosis de Wasaka. na verdade é uma discussão que encontra ecos nas ruínas das cidades perdidas. essa terra de gentes desnudas del Amazonas suponen una relación en la que lo colonial entra en e ingênuas. o cuando Francisco de Requena nas discussões políticas travadas nos mercados. bem una zona muy dinámica de transformación. do mercado e Transformación do bicho-máquina como entidades do inevitável? Essa comunicação pretende discutir a relação entre as formas de atualização do new- The Lost Word ou de como perdi minha Amazônia: contraponto rousseaunismo e as contingências da realidade enquanto elementos ao discurso rousseauniano na constituição da imagem do indígena amazônico constitutivos de uma certa imagem do indígena na literatura. senão no imaginário Palavras-chave: Agrupamientos. Muchos de los proyectos que poderia ter permanecido entre dinossauros e velhas tradições em coloniales fluctúan. transformaciones precipitadas. conducen a no público o desejo de que sua suposta forma própria de ser pudesse relaciones inesperadas. dos tempos e do desconhecido. Mas. entran ruínas. Precisamente. quando cuidam y los libros regados por el suelo? ¿Cómo leer estos agrupamientos de se lembrar de sua ancestralidade. ou no recôndito de suas montanhas. cujas vergonhas se mostram ao estrangeiro em festa. Muhamed Ali. Colombia. como índio. deixando à mostra. pelos homens de vida encuentra una biblioteca en medio del Amazonas llena de ratones não acadêmica e pelos próprios indígenas urbanos. se bifurcan.

distante. Geopolítica lugar. de sua as quais se destacam: a dinâmica entre o nacional e o internacional “descoberta”. buscando compreender variáveis importantes da questão. pelas diversas proposições de simpósios nos últimos encontros de para fins de comércio com os vizinhos holandeses e ingleses ou à importantes associações científicas da área. a do Território do Rio Branco. procura das chamadas drogas do sertão. a Pan-Amazônia ultrapassa fronteira do Brasil”. em termos geográficos. ele científica na região dos rios Negro. um dado de literalidade. conjugadas num esforço para chamar. encarando-os como uma estrada. o caráter linguístico complexo. região. produz realidade na medida em que se Patricia Marinho Aranha (UFRJ) cristaliza no imaginário sobre o local Minha proposta é lançar aqui um Resumo: O objetivo do trabalho proposto é analisar o caminho entre os questionamento sobre as camadas de subjetividade que separam estas rios Negro e Branco. o Instituto Resumo: Esta intervenção visa levantar algumas questões relativas à Nacional de Pesquisas da Amazônia. a região. tendo como ponto de inflexão as viagens do da fronteira.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS Pluriamazônia: debates em torno de literatura e geopolítica geográficos. o Estado brasileiro voltava para ela seus olhos estratégicos e uma via que permitiria ou não a exploração e ocupação do noroeste do 296 297 . amazônico. e também o internacional Instituto (im)possibilidade da existência de um quadro literário a que se possa Panamericano de Geografia e História. geólogos. ou limites nacionais). até a segunda metade do século se estabelecido nos cursos de Letras. de integração. têm um duplo sua poética. Esta região. A cada viagem um novo olhar foi lançado para a “última (uma vez que. O dado espacial se transfigura então num índice para entender o imaginário que vem a reboque dele mesmo. Trata-se de uma nomenclatura utilizada com cada vez mais campo. o que se nota histórico de viagens e levantamentos realizados desde a época colonial. tais metáforas como: “última fronteira”. como é o caso da ABRALIC. Unindo uma intrincada rede de instituições: a Universidade Allison Marcos Leão da Silva (UEA) do Brasil. quando Além disso. a sua mobilidade com o passar do tempo e as definições geógrafo francês Francis Ruellan nos anos 1950. Para compreender este processo. Desde o século XVIII.. o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. de forma geral. conforme tem a construção de conhecimento sobre a região e criação de um plano sido comum nomear recentemente entre os estudiosos do tema na de desenvolvimento e integração. possui um grande frequência no ambiente acadêmico do Norte brasileiro. mesmo do real e um significado cultural que transcende o próprio Palavras-chave: Amazônia. muitos são os ser nossa abordagem. contudo. como ele foi percorrido e a maneira pela qual foi representações do real da realidade per se. ou pan-amazônico. e assim deverá sanitaristas e militares: selvática. as expedições capitaneadas pelo geógrafo Francis Ruellan residem no proponho uma análise dos trabalhos realizados por viajantes que fato de que elas representam uma virada na tomada de poder sobre dedicaram-se a percorrer estes rios. doente. Branco e seus afluentes próprio produz uma visão. rica. É um problema iminentemente comparatista. a região é descrita de diferentes maneiras por botânicos. A escolha por privilegiar representativas deste inter-lugar. proposto a partir das pesquisas em região. Literatura comparada. o que perpassa todos debate. a política. um lugar no mapa. em algumas universidades da XX. O comparatismo pode ampliar e aprofundar o adjetivos utilizados para compreendê-la. entre estes discursos é a vontade de conhecimento. na representação mercado e a cultura. o sentido. além de elementos decisivos como a história.. este O caminho da última fronteira: imaginação geográfica e pesquisa índice cultural não é somente uma mistura de realidade e ficção. entre outros. Da mesma forma. os componentes de ainda “inferno verde” para se referir à floresta amazônica. novas cátedras intituladas “Literatura Pan-amazônica” têm a rota foi percorrida pela primeira vez. analisando as construções retratado historicamente. “sertão”.

duas formas de resgate do passado que em geral são vistas de forma discordante. ARQUIVOS. noção registrada por Paul Ricoeur. mascara uma operação que pode estar crivada de discriminação: por que este e não aquele documento foi preservado? Nesse sentido. Amazônia. concede à palavra outro sentido. A proposta apoia- se em tópicos teóricos como os de rastro. as fontes primárias e os periódicos. jornais. não pertencem ao cânone de determinado sistema literário. mais geral: “toda marca deixada por uma coisa”. muitas vezes. o depósito de documentos. entre o que já foi e o que pode ser dito. o documento se assemelha ao monumento. hoje. Por meio do rastro. Tencionando assim. rios PERIÓDICOS Mauro Nicola Póvoas (FURG) Alvaro Santos Simões Junior (UNESP/Assis) Resumo: O simpósio pretende discutir. Ana 298 299 . FONTES PRIMÁRIAS E Palavras-chave: imaginação geográfica. fonte primária e cânone. sendo essa marca o convite ao pesquisador para que se direcione ao homem ou ao animal que porventura tenha transitado por ali. manuscritos. revistas e almanaques é a proposta do grupo. deve-se levar em conta que ele existe porque antes um homem ou um animal agiu num determinado espaço. desse pretérito. reconstituir como a idéia de descoberta da “última fronteira” foi sendo mobilizada historicamente por diferentes 11 atores através de uma análise cruzada. os arquivos. Pensar os estudos literários a partir de bibliotecas. primeiras edições. pode-se estabelecer um elo entre o passado e o presente. O filósofo francês aponta que um primeiro significado. tendo por objetivo a valorização da materialidade da literatura e a reavaliação de textos e autores que. num segundo momento. fronteira. Para Ricoeur. para “rastro” seria: “vestígio que um homem ou um animal deixou no lugar em que passou”. investigando o material original da obra de Ruellan e das expedições que o precederam. Se o rastro é visto como vestígio. depois.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC país. tendo em vista os conceitos fornecidos pela Teoria da História da Literatura. ação de aparente inocência ideológica. mais específico.

Sobre o cânone. Contudo. Harris. O autor levanta vários questionamentos em Rougon-Macquart”. publicada em grande parte nos jornais. da natureza Eduarda Araújo da Silva Martins (UFRJ) dos capitais nele envolvidos. por ideológicos. na UERJ. em que tentava dar conta da Harris contesta. no singular. 1999). com a hipótese literário francês e internacional. justifica-se a ao lado de outras fontes documentais. Periódicos. Zola foi lido e traduzido mundialmente. sob pena de que as fontes. sem valorizar aspectos da literatura naturalista. de Émile Zola. nos Programas de Pós-Graduação em Letras do Brasil. Assim. por suas posições políticas e. O Brasil. de imediato. por fim. o cânone deve seguir. Não por outro motivo. de luz para esclarecer pontos obscuros. “Les vários cânones. a partir de Altastair Fowler. Fontes primárias. sobretudo. herança de uma inapropriada aproximação das lutas internas de uma família. mas sim na possibilidade da existência de Escreveu. com um bom número de comunicações inscritas. já que a pertinência desse Sessão 1 gênero de impresso como testemunho do período é válida somente se forem levadas em consideração as condições de sua produção. suscitando um da efetiva inserção das folhas em seu tempo. somente critérios estéticos. o quadro histórico em que se pretende uma repetição de proposta feita no XIV Encontro da ABRALIC. por exemplo. diz que os periódicos. os quais evocam e trocando experiências em eventos no país e no exterior. o trabalho com o periodismo deve dar-se a partir em 2016. social de uma família sob Segundo Império”. cada um deles atendendo a tornando-se elemento fundamental do fenômeno de globalização aspectos que serão substituídos por outros na primeira oportunidade em da cultura (CASANOVA.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS Luiza Martins. através da análise que reveste o cânone literário. Harris trabalha. entre os anos de 1871 e 1893. de sua L’Assommoir e Germinal. como país integrante do 300 301 . primeiras décadas do século XX. Acervos época. transitar. caso Manhã [09:00 – 11:00] não sejam devidamente contextualizados. de seu mecenato propiciador e. sobretudo por documentar o de professores e pós-graduandos que há alguns anos vem se encontrando passado por meio de textos. Os periódicos são uma fonte proposta do simpósio. a sua série mais célebre. A autora ainda esclarece que TERÇA 08 os juízos exarados pela fonte periódica podem ser capciosos. sobretudo. As publicações de seus romances e com o cânone religioso – formado pelos livros aceitos pela Igreja. O simpósio é em seu conjunto. que pretende aglutinar em torno de si um grupo preferencial para pesquisas de vários tipos. ao mesmo tempo em por ser temporal e lacunar. Se. o caráter de autoridade única e indiscutível história de um período político importante da França. na imprensa brasileira negociação. políticos ou culturais. para muitos. alinhavam-se as Resumo: O escritor Émile Zola (1840-1902) se tornou paulatinamente considerações de Wendell V. mais em cânone. Harris relativiza o tema ao pensar não sua vasta produção literária. que artigos lhe concederam o lugar de porta-voz de novas aspirações sociais vieram a compor a Bíblia. por sua vez. peque por ignorar as condições de vigência de jornais e revistas em sua Palavras-chave: Arquivos. na segunda metade do século XIX e que se fizer necessária a mudança – até porque a história da literatura. publicidade ou iconografia. no plural. transformem-se em cilada documental. procurando desmitificar alguns conceitos que o norteiam. ao invés de um cânone e estéticas (BECKER. em um trabalho que não debate bastante profícuo em torno dos temas propostos. da existência de vários tipos de cânones. 1998) e lhe renderam reconhecimento no campo somente. são também fonte. nunca dá conta de todas as manifestações que são objeto de análise de um determinado estudo. conhecido na França por sua colaboração em periódicos em defesa na sua constituição. por ser tema constantemente trabalhado o que permite que se reconstrua a história a partir de uma série periódica. que a ela importam. contendo em vinte volumes a “história natural e torno do tema.

a presente comunicação visa apresentar o diálogo ataques da crítica após a publicação de “L’Assommoir” (1876). que estabelecido com a Editora Garnier e. Com Resumo: Em fins de junho de 1872. alvo constante das críticas pesquisa em fonte primária permitiu ampliar o olhar sobre as práticas de seus pares. quando sofre fortes Santo. principalmente no início de sua carreira. que retrata a Palavras-chave: Qorpo-Santo. imprensa brasileira de um lado. A nesse sentido. 2011). redor da moça caprichosa. adotamos suas funções políticas. por exemplo. e na perspectiva transnacional indicada acima. marcadas também por sua apresentação do contexto cultural de Porto Alegre no século XIX intervenção no campo político. por busca exploratória em periódicos utilizados pelo escritor foram analisados. dramaturgia de difusa classificação. durante anos. teatrais recorrentes em Porto Alegre no século XIX e. O segundo. pois havia uma demanda além de anúncios de espetáculos apresentados na capital gaúcha. figuram dois amigos bastante diversos: Palavras-chave: Émile Zola. L”Assommoir. Ao crítica dessas duas obras de Émile Zola em periódicos no Brasil. adquire reconhecimento e aceitação por parte da crítica. que sua obra também circulava e era lida fora do que continham informações sobre os hábitos da sociedade do período. romance estabelecido entre os dados históricos presentes nos periódicos gaúchos de escândalo que retrata de maneira crua a vida da classe operária em oitocentistas e a dramaturgia qorpo-santense. podem-se destacar dois momentos que chamam a atenção quanto à a consonância entre tais atividades e o teatro produzido por Qorpo- recepção de seus romances na imprensa. sob o pseudônimo Sênio. 1996). encontradas na imprensa brasileira. portanto. temporariamente destituído de este objetivo. através do mundialmente conhecido Maria Clara Gonçalves (UNICAMP) Caso Dreyfus. realizou-se uma pesquisa os vinte livros do ciclo dos “Rougon-Macquart” nessas regiões do país. 1996) do escritor através da análise das referências a estes dois romances. O enredo O trabalho a ser apresentado pretende. sob a ótica de disponíveis na Hemeroteca Digital Brasileira. quando ganha reconhecimento da crítica francesa conexão amplia a perspectiva analítica do singular escritor. o digno Ricardo. um resultados da pesquisa cujo objetivo é identificar como se deu a recepção ricaço reconhecido por sua habilidade nas artes de fazer fortuna. visto que os elementos cômicos nossa pesquisa identificou. O escritor foi. o amoral Fábio. como o escritor. o trata dos contextos de surgimento e de recepção da obra literária livro Sonhos d´ouro seria publicado naquele mesmo ano. Nas Províncias do Império (transformadas em Estados Resumo: José Joaquim de Campos Leão (1829-1883) escreveu uma desde 1889) situadas hoje nas regiões Norte e Nordeste. Encontramos à venda todos Qorpo-Santo mais alinhado ao seu contexto. em jornais de Porto Alegre do século XIX entre os anos de 1851 e 1877 sugerindo. expor parte dos de Sonhos d´ouro gira em torno da bela Guida. Pretendemos retraçar gaúchos parte da trajetória (BOURDIEU. demonstrando como tal Paris. O primeiro. periódicos vida dos operários mineiros no Norte da França. a filha de Soares. Ambos 302 303 . leu sua José Joaquim de Campos Leão Qorpo-Santo em seu tempo: uma breve literatura e acompanhou sua carreira e vida. com o avançar de sua carreira. (PAGÈS. José de Alencar cumpriria mais um contrato igualmente o conceito de transferência cultural (ESPAGNE. Nesse sentido. Germinal. isto é. com a publicação de “Germinal” (1885). âmbito da capital do Império e da República. a circulação de romances tendências teatrais modernas. a Alguns indícios em torno da recepção crítica do romance Sonhos d’ouro (1872). teatro brasileiro do século XIX. consequentemente. no entanto. e do outro. Dessa maneira. Com a finalidade de entender o teatro de de Zola em folhetins e anúncios de livros. portanto. 2012). nas páginas da imprensa fluminense fim de identificar de que modo se dá sua aquisição de capital simbólico Priscila Salvaia (UNICAMP) (BOURDIEU.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS eixo transatlântico de circulação dos impressos (ABREU. de José de Alencar. 1989).

atrelando “Benção Paterna” ao romance a essa narrativa histórico-literária. inclusive.quiçá.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS seriam meros bacharéis em inícios de carreira. Porém. sua acepção de historicidade tematizam as discussões e pesquisa de doutoramento que segue em curso . Nas páginas dos jornais (especificamente no Diário do Rio de histórica no século XIX. não seria por consequência de seus Resumo: A presente comunicação analisa o romance As Minas de méritos de estudante e trabalhador disciplinado que a recompensa Prata. mas sim por meio de seu casamento com Guida. aliás. o tema do dinheiro e da ambição social num contexto da entidade coletiva e. Igualmente assinado acordo com a sensibilidade desse momento e. possui de sintonizar-se mais intimamente com as Palavras-chave: Folhetim. seria capaz considerada. mais “viva” que a História. e que reverberaram de seus argumentos encontra amparo na capacidade que a ficção. ou a temática da moralidade esses postulados. pois. induzidas . suscita distintas intenções ficcionais. descrições e. nos meios da época. Enfim. até mesmo porque. E esse a esse gênero. apesar histórico junto aos letrados e romancistas dos oitocentos. Sob de garantir a mobilidade entre as classes. ora se aproximando sobre as complexidades que cercavam a concepção e a recepção do de narrativas documentadas ora de ingredientes inventivos e. a inspiradas pela obra. os modelos estético-literários são repensados e atualizados de especulações por parte da crítica especializada.400-0). o texto “Benção Paterna” traz uma importante reflexão histórico desponta por sua composição híbrida. por conceder mais força à dimensão popular. Assim. nesse contexto. Em meados do século em si. supostamente. configura-se como uma premissa importante em nossa sobretudo. Há várias obra histórico-ficcional e os elementos que compõem a estrutura da questões sobre o enredo que carecem de maiores esclarecimentos e sua narrativa. o final feliz parecia se sobretudo a questões relativas à incorporação da cultura popular reafirmar apenas o sentimento amoroso surgido entre o casal. em detrimento do romance tradição popular que marca o período estudado. para 304 305 . o romance por Sênio. pretendo apresentar alguns indícios qualidades inovadoras. neste ponto. romance matrizes populares que o discurso oficial da historiografia. Ou seja. a perspectiva de Alencar sobre a tem sido o mote dos estudos em torno deste texto alencarino. tanto José de Alencar quanto outros romancistas e das expectativas a respeito do gosto do(a)s leitore(a)s das narrativas assumiriam-se como tão ou mais aptos que os historiadores para folhetinescas.pelo revelar “a história e suas verdades”. enquanto que Ricardo. em romance nos últimos decênios do século XIX. Investigaremos. de José de Alencar. imbuído de de prata: a prosa de caráter histórico mais verdadeira que a História? imaculados princípios morais. a segurança narrador-personagem caracterizado pela senilidade. imprensa. Conforme postulam as discussões perpetradas em torno da recepção crítica de Sonhos d´ouro em meio à imprensa por escritores dos oitocentos preocupados com a representação da época. tais como a presença do elemento estrangeiro estrutura híbrida dessa prosa forneceria combustível à ficcionalização no romance. Sonhos d´ouro. mas Fábio não mediria O romance histórico e a ficcionalização da cultura popular em As minas esforços para ascender socialmente. investigar os diferente teor. dedicava-se de corpo e alma aos estudos Rafaela Mendes Mano Sanches (UNICAMP) e ao trabalho honesto. a ficção histórica frequentemente é entendida Janeiro). ficção e estudos interpretativos. em teoria. a partir da recepção crítica do romance viria.(Processo FAPESP reflexões dos letrados. pudemos constatar um profícuo debate acerca de questões como um meio privilegiado de captar o “gênio do povo”. em contato com as discussões entre história. questões suscitadas . As tarefas atribuídas possíveis sentidos desse debate. Nesta comunicação. é marcado pela emergência de um liberalismo que. Provavelmente. que tentam compreender a nova estética e suas 2015/15. o prefácio que o antecede é que sempre foi alvo de maiores XIX. bem como seu estilo. crítica literária. Por isso. atentando- do teor econômico/liberal que move toda a trama.

considerando Fundação Biblioteca Nacional foi possível reunir informações acerca suas condições de circulação. e preenche as lacunas também na França: ampliamos. que está imbricado com os edições. Orientamo- de Maupassant (1850-1893). e na seção na imprensa oitocentista folhetim do Correio de Minas. captaria primárias. de trajetória e de campo literário 306 307 . projeção. qual se integram os conceitos e noções de transferência cultural e de tanto por ter integrado uma coleção de livros populares quanto por ter mediador cultural (ESPAGNE. identidade nacional. pela editora de Achille Bourdilliat (1812-1882). evidentemente. e incorre num campo de disputa com a História. para alcançar tal objetivo. princípios que demarcam o horizonte identitário do Brasil nos oitocentos. na França. ao imprensa a esse romance e quais foram as diferentes tomadas de lado de Émile Zola (1840-1902). uma em 1875. Dentre os romances escritos pelos irmãos Goncourt. em diálogo o catálogo da principal editora dos romances naturalistas. o escopo da investigação. nas informações obtidas nas fontes ficcional. cuja insere-se num debate mais amplo. na seção folhetim de dois jornais. três momentos na circulação e recepção de Sœur Philomène. dos irmãos Goncourt. integrando é estudar a recepção do romance histórico na imprensa. pela editora de Alphonse Lemerre (1838-1912). escritores franceses que integraram. 1999). a chamada tradição popular permite o toque sido publicado. O segundo momento compreende duas novas cultura popular na composição desse gênero.o verossímil. juntamente com outros títulos dos mesmos autores. à época. em 1895. uma verdade mais profunda sob os influxos da representação identitária. enquanto expressão do manancial folclórico do país. entre outros. os escritores de romance recorrendo ao acervo de periódicos digitalizados da Biblioteca Nacional histórico contemporâneos a José de Alencar defendem que essa prosa da França (Gallica). de André Antoine (1858-1943) na estreia da segunda temporada do recepção crítica Théâtre Libre. traduzido. No Brasil. fazendo-se notar também Zadig Mariano Figueira Gama (UFRJ) em críticas e anúncios de venda de livro. em Mediação. conhecido por ter lançado inúmeros poetas parnasianos. assim. Alphonse Daudet (1840-1897) Guy posição dos mediadores culturais para sua promoção. e outra no Sensível à literatura de sua época. propomo-nos a apontar que valores da circulação e recepção da obra de Edmond (1822-1896) e Jules estéticos e traços estilísticos foram destacados e/ou atribuídos pela (1830-1870) de Goncourt. em Ora. analisando suas momento é aquele no qual o romance Sœur Philomène alcança maior aproximações com a narrativa alencariana. 1891. sua ausência no campo cujas discussões tocam na estética do romance histórico e no papel da literário brasileiro. em 1876. em 1887. Com base nas informações Resumo: Em pesquisa exploratória realizada na Hemeroteca Digital da encontradas nas fontes primárias e. midiatização: Sœur Philomène (1861). falência provavelmente determinou. pela editora de Georges Charpentier (1846- povo. por uma abordagem sociodiscursiva naturalistas. Com efeito.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS os homens de letras. Nossa proposta 1905). o grupo de escritores ditos nos. sendo adaptado para o teatro e representado pela trupe Palavras-chave: romance histórico. esse romance circulou sobretudo traduzido – na seção folhetim do Jornal do Commercio. na França. Destacam-se. da imprensa e da linguagem. Alencar apreende o espírito de um ano seguinte. em 1897 –. cultura popular. históricas com a invenção artística. o empenho por nacionalizar a literatura via representação popular março de 1861. visto que aproveita do fez com que voltássemos a atenção para a sua circulação e recepção mesmo elemento da literatura . na Coleção Econômica da editora Laemmert. O terceiro com o interesse pela tradição popular nos oitocentos. na que se destaca no campo literário brasileiro é Sœur Philomène (1861). aquele proposta por estudiosos da literatura. promovido em diferentes espaços. Este fato fabulatório sobre o pano da história objetiva. O primeiro deles diz respeito à sua primeira edição.

até 1914. inclusive. A Mortalha ou seja. Se de A Mortalha de Alzira apenas no prefácio da primeira edição da obra todos seus romances tinham um objetivo em comum. de que forma se em volume pela editora Fauchon & Cie. sem deixar de introduzir aos poucos a verdade de março de 1891. Para esta comunicação. 1994) e de tribo. neste estudo. em 1893. Ana Gomes Palavras-chave: Irmãos Goncourt. com o como menores. em estudos mais recentes sobre a relação da obra azevediana e Imprensa brasileira a imprensa. Imprensa francesa. era educar o gosto Resumo: A Mortalha de Alzira é um romance publicado primeiramente do público leitor brasileiro. bem como das sucessivas dos famosos romances naturalistas e dos outros romances de Aluísio não manifestações de estima afiançadas pela crítica. desde sua publicação em jornal até os mais recentes estudos sobre a obra azevediana. a fim de reconstituir merecedores do mesmo rótulo e do mesmo crédito: a inspiração num parte da historiografia literária que concerne a esse romance. Palavras-chave: Folhetim. em folhetim no jornal Gazeta de Notícias. mostra as inúmeras semelhanças entre Mistério da Tijuca e Casa de Pensão. Na publicação periódica. A pena de nossos maiores instâncias que viabilizaram a circulação de Sœur Philomène na França críticos não trabalhou muito a respeito destes romances de rodapé vistos e no Brasil. fait divers da época e a primeira publicação em periódicos. mas por outros natureza humana. Buscamos. Considerada menor. dignos de estudo e análise. deu a separação nestes dois grupos: romances naturalistas e romances cartas e. acompanhar a de Alzira recepção crítica do romance A Mortalha de Alzira. muitas vezes é ignorada por nossos críticos. por muitas Sabrina Baltor de Oliveira (UERJ) vezes. desde a sua primeira impressão. de 13 de fevereiro a 24 de aventura e romance. Em diversos textos. de posicionamento enunciativo e foi separada em “romances naturalistas”. 2004). Recepção crítica. obras “folhetinescas fantasiosas”. O autor de A Mortalha de Alzira. Porto. oferecendo-lhes o que gostavam: mistério. Aluísio definiu seu próprio romance como híbrido. a busca pela verdade e pelo desvendar da Leal. em 1861. ao leitor e ao crítico.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS (BOURDIEU. visamos colocar em perspectiva a rede de relações que existiu entre as vender jornal e prover o sustento do escritor. que procura uma forma quase impossível de agradar a gregos e troianos. a obra era assinada por Victor um pensamento científico. escritas para agradar ao público leitor. e cena da enunciação (MAINGUENEAU. Aluísio Azevedo. para publicar tentativa de agradar o leitor ainda romântico e não abrir mão de suas romances mais ao gosto popular. enquanto escritor. Soeur Philomène. Pardal Mallet. 1992. embora o primeiro seja visto como um romance popular O folhetim e a recepção crítica: o caso de A Mortalha de Alzira de de mistério e aventura e o segundo. Denuncia a posição difícil do escritor questionamentos. como um dos grandes ícones do Aluísio Azevedo Naturalismo brasileiro. Aluísio costuma folhetinescos? É a partir da análise da recepção crítica de A Mortalha de queixar-se da disparidade entre o gosto do público leitor brasileiro do Alzira que buscaremos algumas pistas para responder a esse e outros século XIX e o da crítica literária. a obra azevediana 308 309 . Coelho Neto. ignorando ou fingindo ignorar a gênese quase idêntica fim do longo século XIX (HOBSBAWM. Aluísio Azevedo assumiu a autoria convicções literárias que se aproximavam da estética naturalista. concluiu que sua missão. na escritores como Olavo Bilac. no meio de publicações literárias. pseudônimo usado não só por Aluísio Azevedo. Durante muitos anos. 1962). A relação entre a obra publicada no periódico no formato folhetim e a crítica literária sempre foi conturbada.

Tarde [14:30 – 16:30] particularmente o processo de consolidação do gênero romanesco Sessão 2 no país. Periódicos e a nacionalidade) estavam presentes ? tanto nas críticas veiculadas quanto na escolha dos textos ficcionais publicados ? na Revista Divulgação e avaliação de romances em um periódico oitocentista Popular. sobretudo franceses. que toma a imprensa oitocentista como fonte primária para melhor compreender a leitura literária no Brasil do século XIX. é preciso presença de romances estrangeiros. a respeito de Cruz e Sousa e sua obra literária. Pretende. a história literária e teve consequências sobre o ensino em um momento da leitura no Brasil em que a circulação de traduções de literatura nas escolas e universidades foi basear-se unicamente em de romances estrangeiros. romance. de modo particular. que balizavam as leituras críticas em meados do século XIX (a moral Palavras-chave: Cruz e Sousa. assim. Ao final. particularmente romances. A revista situa-se por muito tempo. tais critérios é fundamental para compreender. Evocações. era marcante. entendendo por que foram tão apreciados produzida e distribuída para o público. especialmente franceses. Conhecer 1898 a 1899. o presente trabalho insere-se em uma 310 311 . se conhecerem os critérios que nortearam a apreciação de textos resenhas e artigos na imprensa carioca. os equívocos desencadeados por uma visão anacrônica. 1998). evitando. consolidação e valorização de uma literatura nacional. ao longo do século XIX. Esta comunicação tem a ser confirmada em outro trabalho. e o desejo de sobretudo evitar os anacronismos. mas critérios do presente do pesquisador para debruçar-se sobre textos do preocupava muitos homens de letras. Jobim (2005) e Mollier (2008). nos anos de 1890 a 1893 e de literários. bem como avaliar a importância de textos hoje desconhecidos chamado Dante Negro. que viam a ficção estrangeira como passado. formula-se a hipótese. ignorando a leitura que tais textos receberam quando de sua concorrência para as produções brasileiras. de que tais circunstâncias afetaram por objetivo analisar de que maneira dois dos principais parâmetros singularmente a recepção inicial desse livro simbolista. Um equívoco comum. orientavam a leitura no período em que foram inicialmente divulgados Darnton (1995. critérios como para uma visão mais ampla da literatura do passado. Simbolismo. contribui para uma compreensão mais apropriada de tais textos. Considerar a circulação e a recepção dos textos que de fontes primárias que se fundamenta em estudos da área de História se pretende tomar como objeto de estudo e conhecer os critérios que da Leitura. importante periódico carioca que circulou de 1859 a 1862. século XIX. e as circunstâncias peculiares em que foi ou considerados menores. Andréa Correa Paraiso Müller (UEPG) Serão analisadas. por exemplo. bem Palavras-chave: periódico. entre os quais os de Abreu (2003. Tendo em conta tais considerações. que acometeu. Chartier (2001). Trata-se de uma pesquisa primeira publicação. pelas quais determinadas obras eram valorizadas em detrimento de trazida à luz por esforços de Nestor Vítor e outros admiradores do outras.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS TERÇA 08 pesquisa maior. as contradições entre a forte Resumo: Quando se busca estudar a literatura do passado. 2014). Tanto a publicação de romances e narrativas de ficção em Antecedentes e circunstâncias da publicação de Evocações (1899) prosa de maneira geral quanto a veiculação do debate crítico sobre Alvaro Santos Simões Junior (UNESP) o gênero fazem dos periódicos oitocentistas fontes relevantes para Resumo: Baseia-se esta comunicação no levantamento de notícias. as razões se abordar os prováveis critérios de organização dessa obra póstuma. pelo público ou pela crítica de seu tempo.

vinculações levaram a uma ruptura que refletiu na história do texto. com uma bolsa PIBIC-CNPq e duas bolsas em permanente diálogo. “Casa. revistas literárias publicados no século XIX e início do XX. e parte do resultado do levantamento das transformações da UFF. “O Segredo do Bonzo”. da transmissão de textos e a restituição desses textos à última redação Palavras-chave: “Casa-Grande & Senzala”. da coletânea de contos intitulada Papéis Avulsos. incluiu edição.muito provavelmente feita primeira edição. a saber: “O Alienista”. que tomou sua primeira produção de impacto como uma referência para “O Empréstimo”. atravessando pelo público em geral nos dias de hoje. a obra sofreu inúmeras intervenções. artigos em jornais e conceitos-chave. Labec-UFF. iremos tecer algumas considerações sobre variantes autorais e de posições ideológicas dos intelectuais contemporâneos a Freyre não-autorais encontradas no cotejo dos textos selecionados da tradição refletiram também sobre o texto e os pré-textos. tornando os prefácios a direta dos doze contos que formam Papéis Avulsos para a construção cada reedição um verdadeiro palco de debates com a crítica. iremos tecer algumas considerações sobre estabelecimento do texto clássico “Casa-Grande & Senzala”. A partir desse em formato livro no ano de 1882. a recepção. as respostas o formato livro. Para realizarmos tal no decurso das reedições reviu fontes primárias. Continuamos a utilizar o será. nesse sentido. adequando-se a novas recepções. reconstruindo-se da UFF e conta. “Uma o próprio desenvolvimento como escritor. uma extensão e um permanente diálogo com este texto conceito de Filologia entendida aqui como Crítica Textual ou o estudo fundador. ocorridas. fontes autoral a partir de fontes primárias ou a partir do estudo dessas fontes primárias. Tal edição está sendo realizada em procedimento comparativo. precisou diversos e consultamos fontes primárias como edições. por meio de duas trajetórias: a do autor. complementou e suprimiu muitas delas. Toda a vasta produção do autor Visita de Alcibiades”. Vale lembrar que trabalhamos e trabalharemos em que cada um apresentava para a compreensão das origens da configuração constante observação da materialidade dos textos selecionados entre os histórica da sociedade brasileira e ainda o papel do intelectual e suas que formam a tradição direta dos contos que integram Papéis Avulsos. pesquisarmos também em dicionários não tão comumente consultados e a do texto em si. Muito significativo. pode-se perceber que. que de Desenvolvimento Acadêmico PROAES-UFF. desse modo. “O anel de Polycrates”. além de operou revisões metodológicas. matizando posições peremptórias de primeira hora. entre outros procedimentos de releituras. ainda em processo de preparação. “A Chinela Turca”. da edição crítica que estamos realizando.para a passagem do conto em periódico para entre os dois ensaístas em relação ao processo sociocultural. estabelecimento de texto. no momento. Os impactos nós. ao longo de mais colaboração com alunos e ex-alunos da Graduação e da Pós-Graduação de meio século. de Gilberto a edição crítica que estamos realizando no Laboratório de Ecdótica Freyre. foi a retirada do prefácio da algumas observações sobre a adaptação . pesquisamos em arquivos novas fontes.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS Casa grande & senzala e suas transformações observadas por Crítica textual e fontes primárias: considerações sobre a realização de estabelecimento de texto uma edição crítica de Papéis avulsos. e publicada pela primeira vez a vigésima quinta. “Dona Benedicta”. ampliou-as. de autoria de Sérgio Buarque de Holanda: as divergências por Machado de Assis . “Na Grande & Senzala” e suas reedições refletem a trajetória de um ensaísta Arca”. Apresentaremos também os leitores. que foi sendo atualizado linguisticamente. “Teoria do Medalhão”. a última com a anuência do autor. ensaio .sejam elas manuscritos ou periódicos -. “A Sereníssima República”. observadas por meio de confronto da primeira edição com obra da lavra de Machado de Assis. de Machado de Assis Carmen de Fátima Henriques da Matta (UERJ) Ceila Maria Ferreira Batista (UFF) Resumo: Este estudo consiste em apresentar como se deu o processo de Resumo: Neste trabalho. “O Espelho”. Dentro do tema proposto por algumas reformas do léxico. “Verba Testamentária”. pois trabalhamos com a Crítica 312 313 .

escrevemos em resumo apresentado no Congresso da ABRALIC do bem como a análise dessas fontes e suas especialidades de circulação ano passado.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS Textual Moderna. Germana Maria Araújo Sales (UFPA) Em Belém. para assim recuperar um material que amplia os estudos Esperamos contribuir para a divulgação da Crítica Textual e da pesquisa em torno da história cultural local. por meio de interpretações e de comentários. presente até os dias atuais para a visitação pública e Belém. ou seja. Entretanto. influência. que registra uma Sessão 3 ampla circulação de materiais impressos. por conta disto. na segunda metade do século XIX. as etapas do primeiras edições de obras de autoria portuguesa. Materialidade dos textos. Obras portuguesas. durante o século XIX. Machado de Assis essas agremiações foram estabelecidas. momento em que primárias. Durante o século XIX. em prosa. Obras as práticas de leitura. são recentes os trabalhos que nomeiam a história atendimento à pesquisas. Além proposta de comunicação apresenta como problema a recuperação de disso. fontes data sua inauguração em 29 de Setembro de 1867. a Crítica Textual estuda a materialidade dos textos. Português. como a fundação dos gabinetes de leitura. O Grêmio Literário Português Palavras-chave: Crítica Textual. muitas são as referências a maior herança deixada está materializada na Biblioteca do Grêmio ao crescimento das duas maiores cidades da região: Manaus e Literário Português. além de sua recepção. durante os anos oitocentos. observando suas particularidades e em arquivos de sua importância para os Estudos Literários. mas Amazônia. Trata-se de uma pesquisa de hoje e/ou das épocas em que tais textos foram editados. os portugueses foram empreendedores. iremos apresentar algumas e movimentação cultural. estabeleceu-se no Pará. o Grupo de Estudos História da Literatura – GEHIL realiza pesquisas dedicadas à Guimarães Rosa. é notável que a Amazônia não QUARTA 09 abriga somente a maior biodiversidade do nosso planeta. geralmente identificada como único respeito. trabalha com arquivos e fontes primárias. criaram jornais. de Manhã [09:00 – 11:00] forma ímpar existe uma história cultural significativa. século XIX criação de tipografias e livrarias e a presença dos jornais como veículos propagadores da leitura. presentes processo de sua construção e de sua gênese. Desde 2003. estabelecimentos de vendas de livros. Nela. estabeleceram Resumo: Durante o período áureo da extração da borracha na comércios. ao leitor este ano comemora 150 anos de existência. Esses diálogo trabalhos deram visibilidade e demonstraram que as informações acerca Betina Ribeiro Rodrigues da Cunha (UFU) da construção da história da leitura e da história cultural não estão Resumo: A proposta de comunicação aqui apresentada – síntese de restritas à cidade do Rio de Janeiro. aquela que trabalha com originais autorais sinônimo de vida intelectual no Brasil. com a ocorrência de espaços que favoreceram Palavras-chave: Grêmio Literário Português. que toma como objeto o catálogo de obras raras. Dessa forma. uma Grêmio Literário Português: herança lusitana em terras amazônicas das maiores e mais importantes comunidades portuguesas do país. tal qual em fontes primárias. cultural desses locais. e no acervo da Biblioteca Fran Pacheco do Grêmio Literário Português. voltadas para a instrução de seus associados. Geraldo França de Lima: escritores mineiros em recuperação da história cultural em Belém. além de do acervo dessas obras portuguesas presentes no Grêmio Literário dados do contexto de produção e de publicação dos referidos contos. bem como o reconhecimento e análise relações entre a materialidade dos textos por nós pesquisados. Para finalizarmos o trabalho. a raras. que os aproxima. a lusitana. Esta e que. Guimarães 314 315 . prioritariamente. homenagem e reconhecimento de dois mineiros.

Isso porque as ideias ali discutidas não Pasolini e o jornalismo italiano dos anos 1970 parecem trazer grandes análises sociológicas. de 1975. É a partir desse quadro histórico que a presente de profunda amizade que mantiveram ao longo da vida. de compreensão do presente.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS Rosa e Geraldo França de Lima . cujo conteúdo revela aspectos de uma essência Morante. esperando. é que através de suas publicações em periódicos dessa época que a faceta eles foram publicados em grandes mídias (as quais. a intenção dessa pesquisa é também em diálogo. mais que um acumulador de memórias. pois foi textos. adquiriu notoriedade na Itália e no mundo. A ideia Por isso. plural e reveladora de um Outro. o desafio aqui proposto de e Lettere luterane. pois apenas no igualmente transformado em literatura. resgatar. a qual é exaltada pela crítica especializada e também pelo público em geral até encontrados. mesmo que elas se percam. assim. e atualizar as lições de um passado debate de ideias existentes entre outros intelectuais. muitas vezes. Amizade as condições de produção e que tipo de forças estavam agindo em tais veículos de comunicação. afetiva e cultural. contextos acadêmicos. de 1976 –. mas também no senso comum. reunindo. que continuará a investigar. ainda. de confidências. mas também as sociedade italiana em termos políticos e culturais por meios dos grandes interrogações e exercícios escriturais. de um leitor. em um momento de suas vidas. entre outros. pela qual ele é reconhecido até os dias recortes e universos afetivos desenhados por estes dois escritores que. Elsa de um eixo convencional. haverá a história. Goffredo Parise. o ganho notável desses italianos dos anos 1970 ganhou destaque em sua vasta obra. significativos da cultura distanciada meios de comunicação. Acervo. Scritti corsari. hoje. comunicação pretende apontar de que maneira Pasolini contribuía ampliando a compreensão e o entendimento do passado. aqueles de G. Literatura Brasileira. os quais foram lidos mais amplamente trabalhar com documentos de Guimarães e de Geraldo França de Lima após sua morte. afinal discutem questões Cláudia Tavares Alves (UNICAMP) já bastante estudadas de um ponto de vista teórico. sua análise para esse jogo de ideias e qual importância o escritor assume diante e reflexão. Se um acervo documental é reflete sobretudo no intenso debate que existia entre esses escritores. a buscar suas representações. como ferramenta em formato de livros posteriormente – a saber. em 1975. desenvolveram laços de uma profunda é interessante observar que essa atuação de Pasolini parece fazer amizade e confiança. que pesquisamos atualmente. contexto original de publicação é possível identificar com mais clareza Palavras-chave: Memória. em inicial é a de que a leitura dos livros afeta a percepção justamente do última análise. na experiência do cotidiano. o passado. e não mais a partir apenas dos livros. pois permite-nos a volta a um presente ainda não conhecido. Enquanto houver o humano. Por isso. pelas palavras e pela emoção sempre reinventada. sempre se desse quadro. não só parte de um contexto maior de intelectuais interessados em pensar a as marcas da realidade familiar. tinham 316 317 . resquícios serão da significativa valorização da figura polemista de Pasolini. em seus escritos. As hipóteses de partida para essa pesquisa partem produzirão memórias e. estamos dispostos a analisar ambos os acervos. Entretanto. o que acaba por influenciar a maneira como o autor é lido em com olhos de um crítico. Primeiramente. nas fontes primárias. são guardiões também de história(s). a utilizar este que seus textos publicados originalmente em jornais foram reunidos passado como contribuição desses mineiros e.nasce da expectativa de desvelar os de intelectual polemista. entre os quais se destacam Franco Fortini. buscar uma ressignificação possível desses textos a partir de sua leitura à paixão pela cultura. como é o caso do Resumo: A presença de Pier Paolo Pasolini nos jornais e revistas tema da padronização cultural. Por isso. atuais. que reforçam o papel de intelectual crítico da sociedade. essa parte de pesquisa agora a se apresentar. identificar. Italo Calvino. Vale esclarecer respeitosamente. Esse interesse se dinâmica.Rosa e França de no qual Pasolini se destaca pelo tom de denúncia e de controvérsia Lima.

2014). para um mosaico de vozes que. Intelectualidade. à época de seu auge (sexta edição). com previsão de finalização políticas. A busca pela construção de um diálogo com o que torno da obra de Lúcio Cardoso (1912-1968) com o objetivo de investigar havia de mais recente em âmbito nacional e – por que não? – universal. mas também brasileiros. quase sempre voltadas ao meio importância dada a esse debate de ideias em jornais nos anos de 1970. As resenhas. Jornalismo. e por seu conteúdo intimamente vinculado Resumo: Este trabalho se propõe a discutir os cinco primeiros números aos problemas da literatura paranaense. Entre no tocante aos diários. portanto. não alheou o periódico dos debates efetivamente locais. tal como definido por Antônio Cândido. 2014). ancorado no debate acerca da escrita íntima e da 318 319 . a predileção da equipe pelos assuntos Palavras-chave: Pier Paolo Pasolini. a Uma segunda vida secreta: considerações sobre o projeto estético de exemplo de Paulo Leminski. Rubem Braga. como João Antônio. certo de que tais elementos não apenas paranaenses. circulação atingiu. Manoel Carlos Karam. uma vez que sua podem jogar nova luz sobre a configuração da história literária regional. paranaense. bem como a posição que o jornal ocupa no conjunto sobre a formação de uma tradição e uma memória literária no Paraná. antes é preciso ser e reconhecer o que há de mais local à Literatura paranaense e formação de sistema literário nos cinco sua volta. editorial regional. o jornal abria espaço para o primeiro semestre de 2020. chegando à marca dos 20 mil assinantes (DEMENECK. João Cabral de Melo Neto e Resumo: O trabalho apresenta de forma panorâmica uma trajetória em Lygia Fagundes Telles. sobretudo porém. a intrínseca relação entre a vida e o projeto estético do autor. História literária. o jornal marcou uma geração de intelectuais que produziram literatura no estado. deparamo-nos com ensaios sobre as dificuldades da muito mais diversificado do que o de leitores de sua obra ficcional. como Literatura italiana se os responsáveis pelo periódico enfatizassem o tempo todo que. Valêncio Lúcio Cardoso Xavier e Domingos Pellegrini.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS posicionamentos políticos divergentes) e dialogavam com um público outros assuntos. visando um olhar (CÂNDIDO. andamento. davam um panorama do que era lançado não apenas além de explicitar um possível projeto de atuação intelectual valorizado pelos grandes nomes como também pelas revelações do meio literário nesse âmbito. Pela relevância Marco Aurélio de Souza (UFPR) do periódico. Essa atitude pode então revelar a e a história do Paraná. Era nítida. Jamil Snege. ideológicas e estéticas bem definidas. uma vez que o artigo se vincula a um projeto de doutorado Com a proposta de um veículo cultural independente de orientações em estudos literários em curso pela UFPR. periódico editado por Wilson Bueno entre os anos de 1987 de sistema literário. portanto. domésticos. mas também escritores de projeção Rafael Batista de Sousa (UnB) nacional. por sua pluralidade. fazia coro aos Palavras-chave: Sistema literário. Nicolau anseios democráticos da intelectualidade do período. Em suas páginas colaboraram nomes conhecidos da literatura produzida no Paraná. proponho discutir o conceito de Nicolau. Financiado pela secretaria de cultura bem como a emergência de um diálogo intergeracional entre escritores do Estado do Paraná. a partir a 1996. Periódico. a exemplo da própria escolha para o nome do jornal. à revelia de sua proposta e recepção cosmopolita. da história literária paranaense. tendo em vista o conceito de sistema literário e seus problemas da leitura dos cinco primeiros números de Nicolau. cena cultural curitibana ou ainda reportagens sobre o patrimônio. O recorte proposto se justifica pelo caráter de pesquisa em nacional. a arte publicada tradicionalmente em livros. o expressivo conhecimento ainda incipiente e pouco explorado no debate cultural número de 162 mil exemplares distribuídos em todo o território paranaense. ligada primeiros números de Nicolau (1987) às marcas deixadas pela imigração na cultura do estado. para ser universal.

escritores primária. passando pelos embates com a assinatura e/ou pela elaboração de textos. passando pela poesia e pela escrita diarística. 2005. em traça um itinerário em que a literatura reescreve e ressignifica a vida e a exemplares repletos de textos literários. no ano de 1957. escritores como os aqui família – em um dialético movimento entre a escrita de si e a escrita do mencionados não abdicam de elaborar literariamente a maioria dos seus outro. mas. Paulo Mendes Campos. entre seus colaboradores. Lúcio Cardoso com um número expressivo de escritores entre seus colaboradores. Clarice Lispector. projeto estético. já que ainda temos uma visão muito com o levantamento sobre a natureza do material literário presente restrita de vários pontos da literatura em que há raros dados disponíveis.” (VAZ. Carlos QUARTA 09 Drummond de Andrade. articulistas. Diferentemente do que ocorre nas revistas especializadas em Resumo: Esta comunicação tem como objetivo explicitar as literatura. memória. A partir do estudo detalhado vida fomenta sua poiesis. Palavras-chave: jornalismo literário. da revista Manchete para as discussões literárias modernas/modernistas esquecidos ou perdidos em jornais e outros periódicos de difícil acesso. O conjunto de textos será analisado como material literário Fabíola Nunes Brasilino (UESPI) da revista e será tratado como arquivo da memória literária e cultural brasileiras.Pode-se observar que havia. do fazer literário de escritores modernos/modernistas que passaram pelas diversas seções do Os escritores e sua terra: literatura em Manchete semanário da família Bloch. Ainda assim. nas quais os que ali escrevem são prontamente identificados contribuições do periódico Borboleta para a formação do sistema 320 321 . Nesta comunicação pretende-se informar sobre um acontecimento jornalístico-literário Tarde [14:00 – 16:00] específico. desenvolve-se uma pesquisa sobre a relevância primárias não devem se restringir apenas ao resgate de textos literários. Isso se dá. em um formulação de sua poética. literatura. principalmente. principalmente aquelas que contam um diário que tensiona as dimensões da escrita biográfica. no sentido dado por Ricouer. qual seja a publicação de 21 textos. construiu-se um banco de dados da região e/ou época estudada. as revistas semanais não especializadas expõem o escritor o autor vai rompendo com os limites entre o vivido e o inventado na em sua condição de jornalista e o transforma. Fernando Sabino. entrevistadores. na revista Manchete no período da primeira década de circulação da sendo usual a sua repetição. e a colaboração relevante de escritores reconhecidos no semanário. de certo modo. por alinharmo-nos ao pensamento Raquel Beatriz Junqueira Guimarães (PUC-MG) de Artur Emílio Alarcon Vaz para quem “a busca e recuperação de fontes Resumo: Desde 2013. Manuel Bandeira. Da (re)construção acerca da história da importante formador de opinião. devem se voltar para o estudo do sistema literário A partir dos estudos já realizados. inúmeras funções jornalísticas foram desenvolvidas Manchete por autores como Henrique Pongetti. arquivo cultural. de todos os 21 textos do corpus serão realizadas análises que intentam Palavras-chave: Lúcio Cardoso. e de outros textos na revista se diários tornaram ‘rastros’. o que transforma a revista. Otto Lara Rezende. em uma série intitulada “Os escritores falam de Borboleta: contribuições para a literatura piauiense sua terra”. 9) trabalhando como tradutores. p. discutir como a presença desses.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS memória formulado por Lejeune. sem uma constante busca pela fonte revista. cronistas. revista colunistas. enfim. escrita autobiográfica. na Sessão 4 Revista Manchete. Desde o romance de como literatos e assumidamente o material é feito para circular como estreia – Maleita (1934). Ricoeur e Dosse. dentre vários outros.

Os fragmentos aqui examinados tratam sobre a questão da atuando como importante fator de fomento à produção e difusão da mulher no oriente. também em transcrição leitor. em especial. sobre descobertas científicas. No Piauí. No Brasil. seguidos de um capítulo de anexos em que serão cultural do estado. fator indispensável que contribuirá para a recuperação um maior estreitamento de laços entre público leitor e as produções de uma memória esquecida/ desconhecida por uma grande parcela dos literárias. no início do século XX. Com periodicidade trimestral. atuou como importante ferramenta para a construção e difusão o mesmo é importante fonte de informação para a memória cultural do da literatura nacional. quanto secundário. o periódico Borboleta. obras de autores piauienses. a formação do sistema literário. coordenada pelo Professor o Borboleta era dar oportunidade às mulheres para que participassem Carlos Reis e que tal edição está sendo preparada pela professora Ceila ativamente da cultura. os literatos a publicarem seus textos em folhetins eram vários. Como aporte teórico serão utilizados autores como Pena Cândido (2010). noivados. Maria Amélia Rubim a edição crítica da presente obra ainda está sendo preparado pela Equipe e Alaíde M. que caracterizará o consagrado escritor português. durante muito piauiense e. modos de comportamento. Tal edição crítica sinóptica apresentará. houve maior investimento no A mulher no Oriente: Notas de viagem de Eça de Queirós sistema educacional piauiense e a ampliação da rede pública de Gisele de Carvalho Lacerda (UFF) ensino. bem como favorecendo a inserção de novos escritores na cena crítica atualizada. orientadora da minha dissertação de Mestrado. Magalhães (1997). possibilitando estado do Piauí. A importância de se estudar o jornalismo literário apresentados os textos das narrativas publicados na imprensa em 322 323 .XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS literário piauiense. Literatura constituição de uma literatura propriamente dita. No Piauí. apresentam-se mudanças que interferem no sentido do texto contou com vários folhetins que publicavam além de livros e novelas publicado por Eça no periódico acima citado e mesmo no estilo próprio brasileiras. como. reside no fato de que tempo. Escrito apenas por mulheres. por exemplo. na altura ainda jovem o periódico Borboleta circulou em Teresina entre os anos de 1904 a e em início de carreira literária. de escolas criou uma atmosfera propícia e indispensável para a Palavras-chave: Periódico Borboleta. no produção literária. Rêgo (2001). Jornalismo literário. Conforme Sodré (1999). mais propriamente. em transcrição crítica atualizada. os motivos que levaram Almanaque das Senhoras para 1872. sendo este primeiro publicado por Eça. somente no início do século (2008). seu filho. tanto em nível primário. etc. promovendo a manuscritos autógrafos de Eça. em 1871. lado a lado. Projeto inovador para a época. O jornalismo literário chegou formam a tradição direta de textos das narrativas de viagens de Eça de ao Piauí por volta de 1850 e já nas primeiras décadas do século XX Queirós. Pinheiro Filho (1997). de alguns dos que falam sobre sua viagem tornou-se a modalidade mais utilizada por escritores e jornalistas. tendo em vista seu baixo custo. Com a implantação piauiense da República. dentre José Maria D’Eça De Queirós publica O Egipto Notas de Viagem. ao Egito. entre XX. em divulgação da produção literária de artistas já conhecidos pelo público confronto com os da edição publicada em 1926. Sabemos que 1907. Burlamaqui. Resumo: Este trabalho tem como objetivo sinalizar algumas das variantes outro fator relevante contribuiu para o estabelecimento de uma substantivas anotadas a partir do cotejo de alguns dos textos que literatura local: a criação da imprensa. a proposta de de Edição Crítica das Obras Eça de Queirós. em 1926. o jornalismo literário publicação. quando condições favoráveis. os textos dos eram publicados também poemas e textos em prosa. sendo suas redatoras Helena M. Burlamaqui. a implantação outros. Nesta eles o prestígio e o retorno financeiro. Aliado a isso. nos moldes de piauienses. além de notícias Maria Ferreira da UFF. Postumamente. a imprensa periódica. ocorreu tardiamente. tal qual conhecemos hoje.

um resgate mulheres. a de que tais escritos terem teor moralizante. ou. que se conflui à primeira. nos jornais paraenses e no acervo da Biblioteca do Grêmio Literário Palavras-chave: Eça de Queirós. casamento. Dessa forma. cara posteridade graças à intervenção de José Maria . Os resultados Resumo: O jornal se configurou nos anos oitocentos como espaço ainda são preliminares. Periódicos. periódico. qual portuguesa seja. Maria Amália abraçou a causa da literatura como missão social. Contudo. a pesquisa que ora desenvolvemos no doutorado. buscamos seguir duas frentes de trabalho investigativas. pelo menos. 324 325 . os jornais se detinham também em divulgar conteúdo constatações nos ajudam a compor a trama de tipos de leituras que os moralizante. Almanaque. Este relato . como as publicações de narrativas da portuguesa Maria leitores e/ou leitoras paraenses apreciavam naquele momento histórico. Ademais. essas período.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS 1870-1871. faz parte do acervo do Real e ao ser pesquisada. não desejava de fato publicar suas notas de viagem. literatura Português de Leitura. quase sempre. Maria (1896-1974) e a Província do Pará (1876-2001) que revelam importantes Amália Vaz de Carvalho. se relacionavam com as movimentações históricas e culturais. Vale lembrar que o exemplar do autora portuguesa abrangiam a História. que acumulando-se em observações amontoadas de alguém que parecia são conduzidos. Porém muitos destes registros em seu diário de viagem servem para acreditava que o autor só devia escrever sobre o que era conveniente e caracterizar o estilo literário do jovem futuro autor de O Crime do Padre educativo. como é exemplo: O Mistério da estrada de Sintra. educação e trabalho femininos. que será consultado por mim. para comprovar ou não a hipótese levantada. como bem define seu filho José Maria no prefácio da edição de 1926. Gabinete de Leitura do Rio de Janeiro. Acredita-se que Eça de Queirós sobretudo. mas já nos permitem observar que há a presença privilegiado de divulgação da literatura e suas discussões. teceremos algumas considerações sobre as variantes XIX e início do século XX. por assuntos ligados ao universo das mulheres. assim. Para desenvolver esta tarefa. viuvez. em aspectos da produção ficcional de autoria feminina no fim do século nosso trabalho. também em transcrição crítica atualizada. por um viés moralizante. principalmente pelas Textual. critica textual. Destarte. maternidade. ainda que dos conceitos literários do último quartel do século XIX. e a Márcia do Socorro da Silva Pinheiro (UFPA) segunda. Tais publicações demonstram ainda que encontradas no cotejo entre a edição de 1926 e o texto publicado no havia uma relação próxima entre Belém e Portugal. A Relíquia e família. contos. tantas vezes era uma prerrogativa para que elas conseguissem do conhecimento da gênese dos primeiros textos publicados por Eça de publicar. permite-nos visualizar que a autora versava. Essa temática. sua escrita voltou-se para a educação feminina.que fica para a desvirtuamento das senhoras casadas da época. de análise temática. A Província do Pará. tais como.ganha à luz da Crítica às narrativas produzidas no período oitocentista. que lida com estas fontes primárias e paratextos. Destacamos encantar-se em registrar as sensações vividas naquelas terras faraônicas. uma vez dos assuntos frequentes nas narrativas produzidas por Maria Amália e que estava presente em suas páginas o discurso moral e seus juízos que o teor moralizante nem sempre se faz presente. escritas à pressa. Amaro e muitos deles foram utilizados em outras de seus romances e advogava que a mulher devia apenas se preocupar com a instruçãoda contos. As produções da Almanaque das Senhoras para 1872. Nesse não se mostra como o mais preponderante na narrativa. apontava em suas narrativas o que poderia ser a causa do A correspondência de Fradique Mendes. Amália Vaz de Carvalho (1847-1921) nos periódicos Folha do Norte Palavras-chave: Folha do Norte. Maria Amália Vaz de Carvalho: escritora-senhora A primeira que visa analisar a composição textual das narrativas. publicadas aprimoramento dos estudos queirosianos. crônicas e poesias. Queirós que sempre trazem uma nova perspectiva proporcionando um objetiva analisar a urdidura das narrativas de Maria Amália.

423) “o do Sul (UCS). Rio Grande. Auta de Souza século XIX . Julieta de Melo Monteiro. Andradina de Oliveira. fontes primárias e periódicos. pouco tempo de estudo formal permitido às mulheres. tendo por objetivo a escrita de biografias de onze mulheres. Almanaque de Lembranças novas e necessárias inserções. sobre os do cânone que limitava e. apesar do identificação de sobrenome). prefaciado e da historiografia literárias brasileira e sul-rio-grandense. a (a)temporalidade da literatura. ainda limita a participação dados de vida e obra das escritoras em manuais. Foi através dos jornais que ela em Lisboa. onde Resumo: Esta comunicação integra o projeto “Retratos de camafeu: se buscava reconhecimento e libertação das cadeias patriarcais. Tornou-se respeitada apesar de sua ascendência Lobo. ainda. ainda parciais. Praticamente desconhecidas da crítica começou sua carreira. Júlia César Cavalcanti. O jornal como espaço de divulgação da escrita poética feminina no século XIX – caso Auta de Souza. Maria Clara da Cunha Santos. entre 1873 a 1903. O jornal como espaço de divulgação da escrita poética feminina no Palavras-chave: Jornal. provenientes de Porto Alegre ou de cidades do interior plano de fundo da fenomenologia da memória”. Cândida Fortes Brandão. mais Lembranças Luso-Brasileiro especificamente o A República. que resultou em um livro. Feminino. Esses espaços se configuravam como Mauro Nicola Póvoas (FURG) raras oportunidades de demonstração pública literária feminina. Afinal. dicionários e histórias efetiva da mulher escritora em seus altares. Escrita feminina. Poesia. não há ausência.434). O locus biografias de escritoras sul-rio-grandenses”.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS A produção de escritoras sul-rio-grandenses no Almanaque de de rastros deixados por poetisas em jornais de circulação nacional. Com um olhar voltado para das literaturas brasileira e sul-rio-grandense. Sofia A. esquecimento continua a ser a inquietante ameaça que se delineia no todas gaúchas. Sendo assim. Nele tudo é positividade e presença”. Vivendo em são: Anália Vieira do Nascimento.p. será necessário revisitar a história para Palavras-chave: Literatura sul-rio-grandense. p. Cachoeira do Sul). de buscar para esse diálogo Auta de Souza (1876-1901) e como se que publicaram no Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro. Periódicos literários material não há alteridade. Horto. Por isso a disposição do Rio Grande do Sul (Pelotas. Auta de Souza. as autoras por Olavo Bilac e lido por vários intelectuais da época. de acordo com Ricoeur (2010. mais especificamente o Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Arminda (sem um momento cultural voltado para os costumes franceses.(RICOEUR. como demonstrado em sua assinatura em uma moção feita por da recepção que os textos alcançaram entre o público. pretende-se estabelecer uma visita ao passado oitocentista em busca 326 327 . 2010. Itaqui. conquistou um espaço Guimarães. em conjunto com a Rio Grande do Norte das plantações de algodão e açúcar exportadas Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e a Universidade de Caxias para a Europa. a comunicação intelectuais no famoso caso Dreyfus. Caberá. Benny e Tercília Nunes acadêmico considerável. é preciso pensar que no “rastro Luso-Brasileiro. Luísa Cavalcanti sob a influência do feminismo vindo da Europa. Além de comentários em torno da produção das onze mulheres e africana. Na esteira conceitual de Ricoeur. desenvolvido pela Pontifícia deste trabalho percorrerá a região nordeste.caso Auta de Souza Zélia Souza Lopes (UFJF) Resumo: Simpósio 11: Arquivos. editado deu a sua construção como poetisa. discutir a questão pretende mostrar os primeiros levantamentos. Ibrantina Cardona. de certa maneira.

podemos afirmar. durante uma entrevista publicada de posturas entre seres humanos reais e artistas frente ao aparelho de na “Enciclopédia Nordeste”. Vivacqua atuou ativamente em seu tempo. Usando como O gravador como dispositivo de (auto)ficcionalização da narrativa fio condutor a possível ficcionalização desta biografia e as pitadas de (auto)biográfica autoficção destiladas por Tejo em sua publicação e os pressupostos de Christina Fuscaldo de Souza Melo (PUC-Rio) Friedrich A. do filme e da máquina de literária diversificada e de qualidade (reconhecida no período). Chico Science. Orlando Tejo narra o trem. contar suas histórias. por meio do arquivo do escritor Achilles Vivacqua. sistemas de gravação e reprodução tanto da grafia quanto do som e Dentro de suas condições de saúde. um expoente da cultura nordestina que Resumo: No interior de um arquivo e de pertences de uma determinada defendeu até a morte a importância de Zé Limeira para a formação pessoa está conservado um pouco de sua vida. Além de ressaltar a importância 328 329 . Seu foco principal está nos o escritor era conhecido e. no universo das Letras. Desta maneira. ficção. film. sua história. ressaltaremos como uma pesquisa apoiada em fontes das pessoas e que imortalizem seus feitos. Juliana Cristina de Carvalho (PUC-MG) entre eles Otacílio Batista. sua de diversos escritores. Kittler e de Adalberto Müller no artigo “Proust e as mídias: Resumo: No livro “Zé Limeira. estruturalista alemão Friedrich A. poetas e músicos daquele estado brasileiro. a fotografia e o cinema”. a filosofia teria convencido os sujeitos de que eles tinham capacidade Manhã [09:00 – 11:00] para aprender procedimentos de imitação e de armazenamento para. entrevista e diz que os registros imagéticos e sonoros se perderam. apresentando uma vida ele explora o surgimento do gramofone. autobiografia. da imagem. Ele ainda defende o termo primárias pode contribuir no processo de conhecimento de um escritor “medium” (que gerou o termo “mídia”). o telefone. Kittler faz uma espécie de leitura atualmente. memória. captação de histórias e a evidência da presença de fatores tecnológicos jornalista. acometido pela tuberculose. questionar se esteve equivocado sobre a existência de seu biografado. que destacando-se entre eles os cantores e compositores Zé Ramalho e refletem as atividades e os pensamentos de um sujeito. folclorista e professor paraibano conta que chegou a nas mudanças de concepção e na percepção do mundo. tornando-se autores. O arquivo é uma reunião de documentos. ele reforça a tese defendida por muitos de que o personagem principal da Memória “arquivada” – pesquisa em arquivos pessoais história foi uma criação sua. Orientado para os estudos de mídia. poeta do absurdo”. ensaísta. pouco conhecido. repentista da Paraíba conhecido como Zé Limeira. Sessão 5 em seguida. pudemos conhecer um pouco da da “tecnicidade” dos textos mostrando a evidência da presença de arte deste capixaba que viveu parte de sua vida em Minas Gerais e fatores tecnológicos nas mudanças de concepção e na percepção do foi contemporâneo de Carlos Drummond de Andrade. cuja existência a possibilidade de estarmos perante uma ilusão auditiva. o bacharel em Direito. com o auxílio de violeiros e cantadores. Neste escrever para tratar de registros que transcendam a existência física trabalho. até mesmo. Palavras-chave: gravador. Mas quando. a diferença sempre foi questionada. mundo na passagem de 1800 para 1900.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS QUINTA 10 jeito de perceber o mundo e a existência humana. que estaria alterando o e. Em sua época. Segundo Kittler. até mesmo aclamado. de sua trajetória literária. Não à toa. poeta. em seu livro “Gramophone. o filósofo pós. typewriter”. este trabalho se propõe a passagens da vida e transcreve trechos da obra de um cordelista e debater a autoficionalização em narrações registradas pelo gravador. objetos.

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dos arquivos pessoais, o presente artigo discute também os desafios Carlos Heitor Cony na vida literária brasileira dos anos 1950/60 - um
que podem ser encontrados durante a caminhada de constituição trabalho em seu acervo
do acervo. Pretende-se relatar nossa experiência como pesquisadora Marina Silva Ruivo (UNESP)
no Acervo de Escritores Mineiros da Universidade Federal de Minas Resumo: Nesta comunicação, pretendo expor os resultados ainda
Gerais, no processo de organização, leitura e registro dos documentos bastante iniciais do trabalho que venho desenvolvendo junto ao
e pertences do mencionado escritor. Naquele momento, atuamos no acervo pessoal de Carlos Heitor Cony, e que visa organizar e recuperar
processo de recebimento de caixas contendo fundos do escritor Achilles a memória de sua presença na vida literária carioca e nacional do
Vivacqua e tratamos, lemos, registramos e organizamos todos para a final dos anos 50 e ao longo dos anos 1960. Para tal pesquisa, além
configuração do arquivo do escritor, que, por não ser tão grande, foi do trabalho direto com as fontes presentes em seu acervo, incluindo
denominado de Coleção Especial Achilles Vivacqua. Para estruturar e grande quantidade de periódicos (os quais contêm textos sobre as
fundamentar melhor a nossa reflexão acerca da pesquisa em arquivos suas obras e também textos escritos por Cony), venho me pautando
literários e dos arquivos de Vivacqua, utilizamos como suporte do nosso em uma bibliografia interdisciplinar, dialogando com a historiografia, a
estudo os seguintes teóricos: Theodor W. Adorno, com sua obra Teoria sociologia, a crítica genética e os estudos que, na crítica literária, vêm
estética (edição de 2006); Walter Benjamin, com Magia e Técnica, Arte e procurando restituir à cena a chamada crítica biográfica, num sentido,
Política (edição de 1994, da Brasiliense); Jacques Le Goff, com História e porém, muito diverso do que foi historicamente praticado, até o século
memória (edição de 1990); Zélia Lopes da Silva, com sua obra Arquivos, XIX, quando se buscava explicar a obra pela vida de seu autor. Aqui, ao
patrimônios e memória: trajetórias e perspectivas, dentre outros. Como contrário, o objetivo é pensar a vida literária de uma época, obtendo
lemos em (LE GOFF, 1990, p.477), “A memória é um elemento essencial maior conhecimento a partir do estudo sistemático da trajetória de
do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca um de seus escritores mais relevantes e que foi emblemático de um
é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades período, como se vai procurar demonstrar. O escritor Carlos Heitor Cony,
de hoje, na febre e na angústia. ” A referida definição do historiador membro da Academia Brasileira de Letras desde o ano 2000 e vencedor
francês, remete-nos a pensar no processo de constituição do homem, de diversos prêmios literários importantes, se nos dias de hoje não
de uma sociedade, por meio de suas vivências, de suas lembranças, de está entre os autores mais conhecidos por parte de público e crítica,
suas bagagens pessoais, emocionais. Tais resíduos, coloquemos assim, já ocupou uma posição de muito relevo no cenário literário nacional.
podem ser apreendidos na trajetória de análise de arquivos pessoais, Estreando na literatura em 1956, ao finalizar seu primeiro romance,
de fontes primárias, de documentos, papéis, fotografias. Tais elementos O ventre, e inscrevê-lo no prêmio Manuel Antônio de Almeida, ficou
podem revelar partes desconhecidas ou até então invisíveis da história, entre os três primeiros colocados, não obtendo a premiação apenas
do mundo social e da literatura. Com essas reflexões objetiva-se porque o júri considerou seu romance “forte” demais para os padrões
discorrer sobre como foi o tratamento dado aos pertencer do escritor e morais da época, ainda mais em um prêmio oferecido pela Prefeitura
refletir sobre a importância do que ali se descortinou para a literatura do então Distrito Federal. Nos dois anos seguintes, o escritor obteve
moderna brasileira. tal premiação, com seus romances A verdade de cada dia e Tijolo de
Palavras-chave: Arquivo, Memória, Vivacqua, Modernidade segurança, passando a usufruir de uma rara condição para o escritor

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brasileiro (até os dias de hoje, podemos acrescentar), ao assinar um como fonte para essas revisões e interpretações, pode-se afirmar
contrato com uma das principais editoras daqueles anos, a Civilização que tanto a descoberta de dados biográficos não explorados quanto
Brasileira de Ênio Silveira, que lhe possibilitava um pagamento mensal a de novos aparatos para desvendar os passos da criação literária e
em troca da obrigação de escrever um romance por ano, ao longo de intelectual (tais como: correspondências, notas marginais em livros da
dez anos. Cony era comentado pelos intelectuais mais importantes da biblioteca pessoal, diários) têm se mostrado como material privilegiado
época, como Antonio Calado, Brito Broca e Wilson Martins. Depois, na recepção crítica desses escritores. As polêmicas geradas por esses
com o golpe de 64, tornou-se muito conhecido como cronista, por seus estudos – em sua maior parte de caráter acadêmico, mas também
textos críticos que saíam no Correio da Manhã, desde o dia 2 de abril divulgados, seja por textos de críticos ou por entrevistas e notícias, em
daquele ano. Ao publicar Pilatos, em 1974, anunciou que abandonava diversos suportes – fomentam, muitas vezes, divergências e embates
a ficção, e de fato dela se afastou por muitos anos, ainda que tenha cujos questionamentos se estendem do julgamento da originalidade da
continuado a escrever adaptações de clássicos para o público infantil, expressão literária de determinado autor à posição ética ocupada, os
reportagens e ensaios. Voltou à literatura apenas no meio da década critérios para tais julgamentos são amplos e contemplam as questões
de 90, com o romance que o trouxe de volta aos leitores e aos jornais, políticas e sociais da ordem do dia. Tal movimento leva a um profícuo
Quase memória: quase-romance, inaugurando uma segunda fase questionamento sobre a função da crítica literária contemporânea –
bastante produtiva. Curiosamente, contudo, muitos de seus novos Interpretar o processo de criação? Comparar formulações discursivas
leitores não conhecem a sua produção do primeiro e vibrante momento. entre autores coetâneos? Desenhar reconstituições de certos aspectos
Palavras-chave: Acervo pessoal, Carlos Heitor Cony, Vida literária do campo literário? Favorecida pela efeméride dos 70 anos da morte
do escritor no ano de 2015, o que motivou número significativo de
Arquivos (re)visitados: elucubrações em torno do nome “Mário de eventos direcionados a especialistas e ao público em geral (uma edição
Andrade”
da Feira Literária de Paraty em homenagem ao escritor, a publicação
Ricardo Gaiotto de Moraes (PUC-Campinas)
de bibliografias, exposição artísticas; ciclos de palestras; lançamento de
Resumo: A revisitação de arquivos de escritores possibilita releituras novas edições das obras de ficção e do conjunto da correspondência),
constantes de textos literários e de movimentos em torno de questões esta comunicação tem como objetivo analisar algumas das revisitações
estéticas e sócio-políticas. A partir de diferentes montagens dos rastros que a obra de Mário de Andrade (1893-1945) tem despertado. Pensar
que testemunham o envolvimento e permanência de escritores no sobre essas releituras, que proporcionam um constante repensar sobre
campo literário, os estudos contemporâneos se preocupam ora em a sua obra e sobre o papel do autor na história da literatura brasileira e
desconstruir as mitificações em torno deste ou daquele ator, ora em são atravessadas tanto por novas abordagens teóricas como pelos jogos
construir novas chaves interpretativas a partir de inéditas achegas de poder e contingências do campo da literatura e da cultura, é tarefa
biográficas e/ou teóricas. Portanto, os rastros – da biografia, da criação que nos direciona também a discutir sobre alguns aspectos do papel dos
literária e da participação em rede de escritores – são elementos estudos e da crítica literária.
importantes tanto no estudo da produção quanto na recepção dos Palavras-chave: Mário de Andrade, Arquivo e Memória, Literatura
textos literários. Se considerarmos os documentos do arquivo pessoal Brasileira

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XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC

12 ARQUIVOS ÍTALO-BRASILEIROS PARA
A CONTEMPORANEIDADE
Patricia Peterle (UFSC)
Lucia Wataghin (USP)
Giorgio De Marchis (Università di Roma III)

Resumo: Contatos e contágios, mas também encontros, reescrituras,
traduções, parodias, convergências e contingências que traçaram
inéditos percursos transoceânicos pela literatura e pela arte
contemporânea brasileira e italiana. Como se sabe, no século XX, assim
como na primeira parte do XXI, o conceito de experiência tem sido
retomado e revisitado mais de uma vez, abrindo-se para novas leituras.
Nessa perspectiva, no âmbito de uma tradição plurissecular de trocas
culturais e fluxos literários entre Itália e Brasil, o simpósio quer abrir para
reflexões sobre a elaboração de textualidades novas, inevitavelmente
excêntricas em relação aos cânones nacionais, derivadas do encontro
(mais ou menos direto) e do amalgama fruto das intersecções entre as
culturas dos dois países. Como pensar hoje essas inovadoras relações,
que inauguraram novos espaços, estimulando confluências estéticas?
Sem se limitar a experiências mais conhecidas – é possível lembrar as
de Luigi Pirandello, Massimo Bontempelli, Giuseppe Ungaretti, F. T.
Marinetti e Edoardo Bizzarri, mas também as da contraparte brasileira,
Sérgio Buarque de Hollanda, Jorge Amado e Murilo Mendes –, o
simpósio pretende refletir sobre essas fecundas relações de troca e
contaminação, que geram comunicações culturais. Desse ponto de
vista, procurar-se-á analisar, numa ótica disponível à leitura crítica de
textualidades de variados gêneros e natureza, as obras e processos que
melhor refletem uma matriz híbrida, reconstruindo também o papel de
artistas e intelectuais que em época contemporânea contribuíram para

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XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS

delinear um arquivo sensível e partilhado pela arte italiana e brasileira. das fábulas cosmogônicas indígenas e a leitura ungarettiana da Canzone
Palavras-chave: Literatura italiana, Arquivos literários, Literatura alla Primavera, de Leopardi, e do relativo tema do demônio meridiano:
brasileira, Contemporaneidades o demônio (“as miragens, o delírio daquela hora de clima quente”) que
surge na hora do “calor da imaginação e da paixão”, da “fúria do sonho”,
QUINTA 10 capaz de criar as “fábulas” antigas, ou remotas, ou meridianas.
Tarde [14:30 – 16:30] Palavras-chave: Ungaretti, traduções, literatura indígena, fábulas
Sessão 1 cosmogônicas

Fábulas antigas e modernas. Ungaretti tradutor Valeu a pena voltar
Lucia Wataghin (USP) Maria de Lourdes Patrini Charlon (UFRN)

Resumo: Com sua obra de tradução de poesia, Ungaretti constrói uma Resumo: Em setembro de 1944, Rubem Braga, cronista e jornalista
vasta constelação de textos e autores de diferentes línguas e tradições, brasileiro, parte para a Itália – rumo a Segunda Grande Guerra Mundial
clássicas e modernas: o poeta se autotraduz do italiano para o francês – como correspondente de guerra do jornal Diário Carioca. Vinte e cinco
e vice-versa, traduz trechos do Zibaldone de Leopardi para o francês, anos depois, volta à Itália, como enviado especial da Revista Realidade,
mas sobretudo traduz para o italiano sua própria antologia da poesia em companhia do fotógrafo Manprin, percorrendo, novamente, os
ocidental, de Shakespeare a Mallarmé a Racine a Góngora aos mestres campos de batalha e os lugares por onde a FEB passou. “A crônica
da poesia amorosa árabe aos mestres da poesia brasileira a poemas dessa jornada ao passado, aos tempos de sofrimento e coragem dos
em dialeto siciliano. E outros... A inclusão, nesse repertório, de fábulas “BRASILEIROS NA GUERRA” (BRAGA: Revista Realidade, 1969) é o objeto
indígenas brasileiras (tupi, carajá, bororo) deve ser lida como sinal da de análise deste trabalho. Tal qual a primeira experiência vivida pelo
abertura do poeta à uma concepção ampla de “literatura” (e de seu correspondente de guerra, em (1944-1945), a análise e interpretação
constante interesse pelas relações entre cultura popular e “alta” cultura); dessa outra narrativa (1969), fruto do retorno do cronista “ao palco de
e podemos percebemos hoje, mais do que na época em que foram uma guerra distante”, propõe uma reflexão sobre a escritura, enquanto
publicadas, a importância dessas traduções como valorização de uma fonte de significado e interpretação, ao mesmo tempo em que favorece
literatura que é cada mais urgente defender. Por outro lado, as traduções o repensar dos fenômenos de interdependência, contribuindo a re-
das fábulas cosmogônicas indígenas podem ser lidas no âmbito da atualizar as interlocuções de vozes, de contextos e apagamento de
poética de Ungaretti, como manifestação de sua visão da literatura como fronteiras que a narrativa abriga. O enfoque pluridisciplinar reforça
diálogo entre “inocência” e “memória”, e sendo permeadas das reflexões a ideia de circulação e de mobilidade e objetiva o entendimento do
e leituras que Ungaretti vinha desenvolvendo naqueles mesmos anos: fenômeno do deslocamento (nomadismo), o fenômeno das recepções
de outros autores e textos brasileiros, da filosofia de Platão, da poesia de e das traduções, privilegiando as ideias de cruzamento e as questões
Leopardi, de outras traduções que estava realizando no período (Blake transversais.
e Góngora) e da própria poesia que estava compondo, paralelamente Palavras-chave: correspondente de guerra, circulação, transferências
às traduções. São dignas de atenção também as relações das traduções cuturais, medação

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Tessituras poéticas entre Itália e Brasil na contemporaneidade interpretativa. Neste trabalho pretende-se observar como a tradução de
Patricia Peterle (UFSC) poesia, enquanto prática semiótica especial (Haroldo de Campos 2015)
Resumo: Partindo da proposta apresentada pelo simpósio, pretende-se que opera no campo da crítica e da interpretação, abole as distâncias
discutir como algumas experiências podem marcar o percurso literário entre o texto e seu leitor. A operação interpretativa é pensada em termos
e intelectual, além de abrir para novas leituras e contatos, capazes de complexos e pela cultura hebraica pode ser concebida como um trazer
aproximar olhares até então distantes. Experiências que só restam na à luz (Volli 2008). No caso da Divina Comédia, o tradutor intervém com
memória, esburacada, carcomida: tensão entre o fato e o que dele sua cultura e sua sensibilidade sobre um texto que é distante no tempo
resta. Já se sabe que os laços entre Brasil e Itália não são novos, em e no espaço. A transcriação se apresenta, assim, como um novo texto,
vários momentos da nossa história cultural é possível identificar os nós em língua outra, fruto de escolhas e orientada por “um projeto de
que tramam essa complexa urdidura de trocas em diferentes áreas, da leitura, a partir do presente de criação, do passado de cultura” (Haroldo
literatura à música, às artes plásticas. Poderiam ser feitos alguns nomes, de Campos, 1996). A problematização do conceito de tradução poética,
como os de Giuseppe Ungaretti, Eliseu Visconti, Arturo Toscanini, Filippo portanto, indica uma hipótese metodológica de leitura crítica em que o
T. Marinetti, Edoardo Bizzarri, e a lista seria muito mais longa. A questão ato de traduzir, mais do que ser um processo de re-criação do original, é
que se coloca, aqui, é, portanto, refletir como se dão e se desdobram as um ato crítico que guarda semelhanças para com o original, cuja baliza
experiências nos dias de hoje? Como pensar os contatos, as fricções e demarcatória é apenas o parâmetro semântico. O leitor curioso que
os contágios na contemporaneidade entre Brasil e Itália? Quais sentidos busca compreender melhor possível o texto literário é perpassado por
são ativados e, ao mesmo tempo, o que ativam tais sentidos na escritura uma inquietação que deixa aberta uma ferida na dinâmica interpretativa.
poética? Nesse sentido, no âmbito dos encontros éticos e estéticos e E a experiência da ferida traz questionamentos sobre o que a linguagem
tendo como referência algumas das experiências mais contemporâneas, pode fazer. O leitor que focalizar seu ato de leitura na linguagem do texto
se deseja propor uma incursão em alguns contatos que colocam em a partir do sentido literal e ao mesmo tempo for disponível a “escutar”
operação permeante as culturas e sociedades brasileira e italiana. as alusões que o texto faz, irá além do mesmo sentido literal, seguindo o
Palavras-chave: Experiência, escritura poética, contágios caminho que a palavra sugerir e sendo conduzido pela palavra mesma.
A presença de uma plurivocidade na obra dantesca é a marca desse
Da leitura à tradução de poesia: o advento da transcriação movimento plural, expressivo e intertextual, que na escrita comunica
Gaetano D’Itria (UFRJ) sua experiência e visão do mundo. A partir do pressuposto de que toda
Resumo: Refletir sobre tradução poética significa também considerar tradução é caracterizada pela temporariedade, é possível observar
a operação semiótica ínsita na transposição criativa jakobsoniana ou as diferenças na recepção da Divina Comédia no Brasil, confrontando
transcriação, segundo Haroldo de Campos ([1987] 2015), do signo. A as traduções do século XIX – uma primeira tradução parcial realizada
relação dialógica que se instaura entre leitor e texto leva à constituição por Luiz Vicente De Simoni foi publicada em 1843 – com aquelas que
do sentido como resultado de uma experiência aberta e continuamente foram publicadas no século XX e XXI. As diferenças nos mostram as
reformulável (Leoncini 2013), portanto a tensão mutuada pelo texto estratégias de (des)construção do texto traduzido e sua participação dos
interessa tanto o nível de conteúdo como o de expressão e sabemos movimentos das ideias e transformações culturais do lugar de chegada.
que a relação do leitor com o texto sempre implica uma operação Palavras-chave: Literatura italiana, tradução, transcriação

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Una lettura dalle Americhe? SEXTA 11
Andrea Lombardi (UFRJ)
Manhã [09:00 – 11:00]
Resumo: Onnivoro lettore, caronte di testi importanti della letteratura Sessão 2
universale, utente articolato e sensibile della lingua e della letteratura
italiana, Haroldo de Campos realizzato un´incursione approfondita e Graciliano e I Malavoglia
vittoriosa su alcuni testi letterari italiani: Cavalcanti, Dante, Ungaretti. Marcos Falchero Falleiros (UFRN)
Il suo percorso assomiglia a una storia letteraria sui generis, alla ricerca Resumo: Vagas porém constantes, as referências biobibliográficas à
di una genealogia ipotetica, nuova logica della identità poetico-critica prática de Graciliano Ramos com a língua italiana são sempre sugestivas.
e traduttoria. E guarda alla cultura italiana, alla ricerca di aspetti isolati, Duas passagens desse capítulo merecem destaque: uma, a hilariante
frammenti, chicche che lui traduce in nome della trans-creazione, crônica de Graciliano, “Professores improvisados”, de 1929, em que
rifacendosi evidentemente al Dante del superamento, del trasumanare ele conta, à maneira de O homem que sabia javanês, de Lima Barreto,
e trasforma in chiave contemporanea il materiale esaminato. Dalle como passou a ensinar italiano em sua comunidade, com intenções
Americhe viene quindi um contributo brasiliano decisivo. Il volume lucrativas, acrescentando “oni” e “ini” ao final das palavras. Outra, a
Tradizione, transcreazione (Oèdipus, 2016) riunisce alcuni testi sulla sério, o necrológio em que Otto Maria Carpeaux declara que Graciliano
teoria della traduzione, realizzati da Haroldo, com uma prefazione di aprendeu italiano para ler a Divina comédia, e observa a afinidade do
Umberto Eco e uma postfazione degli organizzatori. La raccolta di saggi
alagoano com o “exilado” e as “parole di dolore, accenti d’ira” ouvidas
è frutto di letture, traduzioni, interpretazioni per campioni, un insieme
nos círculos do inferno. Entretanto, sem que haja nenhuma referência
che potrebbe essere pensato come insieme di frammenti di una storia
no documentário de Graciliano, uma outra afinidade pode ser estudada:
letteraria sui generis (del resto tutte, in certa misura, lo sono), ancora
a relação da expressão e da articulação de sua obra com I Malavoglia
da scrivere, alla ricerca di una genealogia ipotetica. Si tratta di um taglio
(1881) , de Giovanni Verga. Um ponto significativo para essa abordagem
analogo e parallelo alla nozione di espressionismo coniata da Gianfranco
é dado no prefácio à obra do autor siciliano: o projeto de abordar as
Contini. È stato anche detto che si può dire che la cultura in Brasile sia
classes ali anunciado ressoa na distribuição de enfoques que Graciliano
cominciata sotto il segno della traduzione...(João Alexandre Barbosa)
operou em seus romances. Desse modo, quando, na crônica “Alguns
e si potrebbe dire anche che ci siamo accorti molto tardi che definire
tipos sem importância” (de Linhas tortas, 1962), Graciliano diz, a
semplicemente italiana la nostra letteratura è un problema. Haroldo
segue un percorso audace, nella lettura e nella traduzione: qualcosa di respeito da “cambada” de seus personagens, que é “possível que eles
nuovo in rapporto alle interpretazioni già realizzate. Qualcosa che, nel não sejam senão pedaços de mim mesmo e que o vagabundo, o coronel
caso della Divina Commedia, porta a pensare a un Dante trasgressivo. assassino, o funcionário e a cadela não existam”, flagra-se aí a percepção
Palavras-chave: Haroldo de Campos, teoria da tradução, literatura italian, de que uma humanidade dividida por classes chega tão somente, entre
Dante Alighieri? opressores e oprimidos, à distribuição equânime da miséria da vida. Mas
a modernidade de Graciliano conduziu a construtura de sua obra sob a
conceptualização de um marxismo independente e reflexivo na busca
de entendimento de sua própria realidade nordestina, que distribuiu a

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tragédia entre a “formação do burguês”, em Paulo Honório, a condição séculos XV, XVI e XVII as pessoas que manifestavam a doença, foram
“parafuso” do pequeno-burguês Luís da Silva, e a expectativa da acusados de atos criminosos, de heresia e de bruxaria e condenadas à
“proletarização” revolucionária dos desvalidos sertanejos empurrados morte, porque consideradas perigosas para a comunidade. No século
para a cidade grande. Foi essa modernidade, dolorosamente XIX será frequente o isolamento carcerário. O nascimento da psiquiatria
compreensiva pelo ângulo do materialismo histórico, que assimilou e da psicanálise freudiana modificou totalmente este contexto. Propõe-
e superou a proposta do verismo de Giovanni Verga, tal qual o autor se a análise crítica a partir da comparação entre as novelas “O trem
italiano professou como projeto em seu prefácio a I Malavoglia: “Os apitou” de Pirandello e “O Alienista” de Machado. As personagens
Malavoglia, Dom Gesualdo, a Duquesa de Leyra, o Deputado Scipioni, o de ambos escritores apresentam vários tipos humanos, a partir do
Homem de luxo são os mesmos vencidos que a correnteza depositou na indivíduo marginalizado pela sociedade para suas escolhas erradas e
margem, depois de tê-los arrastado e afogado, cada um com os estigmas insensatas, chegando aos aspectos complicados do ser humano, o qual
de seu pecado, que deveriam ter sido o resplendor de sua virtude”. A parece quase autodestruir-se. As personagens de Pirandello e aquelas
perspectiva crítica de Graciliano pôde distribuir a tragédia humana, de Machado são criadas por fantasia dramática dos autores, uma
equacionada como luta de classes, de modo mais consistente: de cima criatividade narrativa que parece aderir à realidade tangível, como se
para baixo, com a publicação de seu projeto implícito plenamente a vida fosse o palco teatral da existência humana. Vamos aprofundar
concluído, com S. Bernardo (1934), Angústia (1936) e Vidas secas (1938). o aspecto psicanalítico e sociológico, a diferença dos estudos italianos
Palavras-chave: Graciliano Ramos, Giovanni Verga, I Malavoglia, que, até agora, apresentam uma análise sistemática do texto teórico,
Graciliano Ramos e a língua italiana baseada na interpretação crítica e literária e na estética teatral. Neste
contexto, as interpretações dos pesquisadores brasileiros abrem novos
A loucura nas novelas de Luigi Pirandello e Machado De Assis horizontes de estudos teóricos e literários, aos quais vai ajuntar-se
Sandra Dugo (Università degli Studi di Roma “Tor Vergata”) uma interessante perspectiva sociológica, que nos conduz em novos
Resumo: O estudo literário comparado entre Luigi Pirandello e Machado percursos para a compreensão do ser humano, de seus limites, da
de Assis procura examinar as relações e as coincidências entre dois relação difícil com a realidade social e do consequente “umore nero”,
escritores geograficamente tão distantes, mas involuntariamente através do qual enfrenta com firmeza o seu destino inimigo. Neste caso,
próximos. Como se sabe, eles nunca tiveram a oportunidade de para compreender as analogias e as diferenças, é possível comparar
confrontar-se, porque não se conheceram, apesar disso os dois algumas novelas, explicando as relações e correspondências, analisando
escritores tratam assuntos similares, e cada um desconhecia a existência cada trecho correspondente com outro. Considerando os conceitos
de outro além do Oceano. Pretende-se analisar o tema da loucura em levantados, perguntamo-nos o porquê das relações, qual é a origem
ambos os autores, a partir dos estudos sobre a fragmentação irreversível desse “encontro”. Trata-se de um percurso transoceânico? Pretende-
da consciência humana, e o conflito do indivíduo consigo mesmo e com se responder a estas questões. De fato, o encontro virtual entre dois
a sociedade nas obras de Pirandello. Na mesma época em que eles escritores que não se conheceram, mostrar-se rico de elementos
viveram, na Europa começava-se a descobrir e a reconhecer a loucura comuns, porque Itália e Brasil não estão muito longe, e porque a crise do
como doença mental, até àquele momento desconhecida; de fato, nos indivíduo é uma questão comum do mesmo período histórico, no qual o

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nascimento da psiquiatria foi um acontecimento importante na história (1957). A história de um menino que decide passar o resto de sua
da ciência médica. Esta comunicação propõe a leitura comparada entre vida sobre árvores, negando seu pertencimento à sociedade, por si
trechos de algumas novelas e dos artigos de Pirandello publicados nos só apresenta uma imagem de elevação física, constante desafio à lei
jornais da época, em que se apresentam os elementos comuns com da gravidade. Soma-se a isso o tom fabular que o narrador assume, a
Machado, aprofundando primariamente o tema da loucura, através da ironia na construção dos demais personagens e, por fim, a qualidade
intertextualidade existente. insólita do protagonista, que gradualmente afasta-se da representação
Palavras-chave: Luigi Pirandello, Machado de Assis, A loucura, do mundo real e integra-se a um ambiente oposto, maravilhoso: a
Intertextualidade e aspecto psicanalítico floresta. Em seguida, buscaremos os pontos de encontro e divergência
desse livro com algumas narrativas brasileiras recentes e seus métodos
A presença da leveza calviniana na literatura brasileira contemporânea de alcance da leveza. Em O menino que se trancou na geladeira
Natalia Guerra Brisola Gomes Godoi (UEL) (2004), de Fernando Bonassi, por exemplo, deparamo-nos com uma
Resumo: A leveza é uma das características literárias sobre as quais Italo narrativa lúdica e irônica, também protagonizada por um menino que
Calvino discorreu na série de conferências que pretendia ministrar na não encontra seu lugar na comunidade em que nasceu. Assim como
Universidade de Harvard, em Cambridge, entre os anos de 1985 e 1986. aconteceu com o personagem do romance calviniano acima citado, a
O falecimento do autor italiano, em 1985, o impediu de completar suas fuga dessa criança para a geladeira, um lugar mágico, é uma jornada de
Seis propostas para o próximo milênio (1988), mas não foi obstáculo autoconhecimento que lhe confere autonomia sobre seus próprios atos.
para a difusão dessa obra por todo o mundo. Esse conjunto de estudos, Aproximando-os, vemos a universalidade dos conflitos do indivíduo,
desenvolvido num momento de questionamentos gerais quanto ao que independem de sua nacionalidade. Em ambos os casos, assim como
futuro dos livros e da literatura, dispõe-se a destacar valores que, para em tantos outros que pretendemos apresentar, a leveza não atua como
Calvino, garantiriam a persistência dessa arte nos tempos vindouros. evasão da realidade, mas como breve distanciamento, fundamental para
Para vislumbrar o futuro, as palestras buscam exemplos no passado, melhor compreensão daquilo que existe no interior e ao redor do ser
elencando grandes nomes da literatura italiana e universal. Na lição humano.
sobre a leveza, são citados Ovídio, Eugenio Montale, Guido Cavalcanti, Palavras-chave: Italo Calvino, Leveza, Romances brasileiros
Lucrécio, Cervantes, Shakespeare, Boccaccio, Rabelais e Kafka, entre contemporâneos
outros, de cujas produções são levantados efeitos de leveza, atingidos
por meio de imagens de levitação, traços de luz surgidos das trevas, “Uma ideia da literatura como instrumento de conhecimento”: uma
leitura do epistolário de Italo de Calvino
figuras insólitas, humor ou qualquer outra ferramenta que rompesse
Raphael Salomão Khéde (UERJ)
com a monotonia e a negatividade. O objetivo era sempre combater
o peso com que eram representados os eventos humanos íntimos ou Resumo: O objetivo deste trabalho é percorrer, através da leitura crítica
sociais, em sua natureza graves e melancólicos. Por fim, tal efeito é da correspondência de Italo Calvino (1923-1985), as etapas principais
alcançado na ficção do próprio Italo Calvino, como propomos ilustrar da produção e do universo intelectual do autor. Vista a dimensão da
em algumas análises, entre elas a de seu romance O barão nas árvores obra do escritor italiano, tal reconstrução se configura como um esboço

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geral que de maneira alguma pode-se dizer exaustivo. O livro “Lettere não somente dela”. Em julho agradece o ministro da cultura francês Jack
(1940-1985)”, organizado por Luca Baranelli e publicado por Mondadori Lang pela nomeação como “commandeur dans l’Ordre des Arts et des
em 2000, reúne não somente um grande número de cartas enviadas por Lettres” e, em agosto, pede conselhos a Primo Levi sobre a tradução do
Calvino a parentes, amigos, escritores e editores, mas também trechos texto “Le chant du Styrène” de Queneau. No dia 21 de agosto escreve
citados das cartas enviadas para Calvino pelos seus correspondentes. em inglês para Roger W. Straus em Nova York informando-o sobre o
Segundo Baranelli, mesmo não reunindo a totalidade das cartas escritas intenso trabalho de preparação das “Norton Lectures” que deveriam
por Calvino, o livro pretende se constituir como uma antologia dotada ter sido apresentadas em Harvard no semestre acadêmico seguinte. Sua
de “massa crítica suficiente para a valorização seja da qualidade que da última carta é a do dia 5 de setembro, para Maria Corti, um dia antes do
variedade dos textos” (CALVINO, 2000, p. LXXVI). Dando prosseguimento íctus que o levou à morte, por hemorragia cerebral, na noite entre os
a um trabalho já apresentado sobre as cartas escritas por Calvino dias 18 e 19.
entre 1940 e 1959, realizamos uma seleção, seguindo uma linha Palavras-chave: Italo Calvino, Correspondência, Literatura italiana
cronológica, das cartas escritas entre 1960 e 1985. Foram selecionados contemporânea, Narrativa
trechos do epistolário onde há declarações de poética, definições de
determinado aspecto da obra do autor (“La giornata d’uno scrutatore”, Olhares contemporâneos: o Brasil de Paolo Sorrentino
“Le Cosmicomiche”, “Le città invisibili”, “Se una notte d’inverno un Andrea Santurbano (UFSC)
viaggiatore” etc), esclarecimentos sobre um uso específico da língua, Resumo: Dando continuidade à pesquisa apresentada no simpósio
reflexões sobre o ofício de escritor, sobre a tradução de textos de do ano passado, pretende-se nesta comunicação aprofundar os
Queneau (“Sally Mara” e “Petite cosmogonie portative”), sobre a relação aspectos que na trajetória artística do diretor e escritor italiano Paolo
de Calvino com a obra de Pasolini ou de Robbe-Grillet. Há também Sorrentino, a partir de uma perspectiva plurissemiótica, desenham
trechos onde Calvino fornece conselhos a amigos, respostas a críticos uma interessante visão do Brasil, contagiada também pelo olhar do
para esclarecer questões por eles apresentadas, analisa livros de Elsa observador. Alguns pontos de interseção na obra de Sorrentino são:
Morante, Sciascia, Primo Levi, Natalia Ginzburg. Algumas cartas dos 1) a assumida idealização do filme Conseguenze dell´amore (2004),
anos ‘60 permitem reconstruir o processo que o levou à participação em ainda que ambientado na Suíça, durante uma estada em São Paulo; 2) a
uma série de transmissões radiofônicas dedicadas ao “Orlando furioso” vivência “desgarrada” do protagonista do romance Hanno tutti ragione
de Ariosto, material em seguida reunido e publicado em 1967 com o (2010) entre o Rio, Natal e Manaus; 3) a participação no filme coletivo
título “Orlando furioso raccontato da Italo Calvino”. Em 1983 publica Rio eu te amo (2014), com a realização de um dos dez episódios que
“Palomar”, livro, como escreve para Geno Pampaloni, “escrito sem compõem o longa-metragem. Nesse sentido, para ampliar o leque
amor pelo eu”; em carta do mesmo ano para Antonio Prete se refere às imagético e comparar tais visões com olhares do passado, propõe-
Operette morali de Leopardi como “livro do qual deriva tudo aquilo que se abordar outros registros de artistas italianos no Brasil, como, por
escrevo” (2000, p. 1512). Em 1985, seu último ano de vida, se diz pronto exemplo, as impressões, originadas pelo contato com o Rio de Janeiro,
para escrever a introdução para “América” de Kafka, definido por ele de Massimo Bontempelli, em 1933 – “Dio in una mattina di frenesia ha
“o romance por excelência da literatura mundial do século XIX e talvez fatto la baia di Rio de Janeiro” –, que se aproximam, de alguma forma,

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com as anotações do protagonista de Hanno tutti ragione – “[...] mi (2003, p. 50), encontrou, no pré-futurismo das revistas florentinas,
chiedo proprio cosa teneva in testa nostro signore quando si è messo ad algumas sugestões poéticas, que trará para a sua própria poesia. Já o
organizzare questo progetto ambizioso”. segundo (Bandeira), em seu “Itinerário de Pasárgada” (1954), atesta
Palavras-chave: Paolo Sorrentino, Rio de Janeiro, Arquivo literario, que foi por intermédio do amigo, também escritor, Ribeiro Couto, que
Massimo Bontempelli conheceu e que começou a gostar de Palazzeschi, cuja “Fontana Malata”
sabia de cor. Paralelo a isso, há, na estética e na temática de Manuel
SEXTA 11 Bandeira, algumas diretrizes características em Palazzeschi, conforme
Tarde [14:00 – 16:00] reflete, Roberto Vecchi, em “Aliança na poesia: (Re)leitura de alguns
Sessão 3 poemas de Manuel Bandeira à luz ardente do crepúsculo italiano”
(1998, p. 286-336). Além desses pontos de contato, com o intuito de
Aldo Palazzeschi no Brasil: ressonâncias e desdobramentos se pensar a questão dos contágios e partilhas, que se estendem para
Égide Guareschi (UFSC/UTFPR) além daqueles que ocorrem via tradução, busca-se examinar como
Resumo: Considerando-se os constantes fluxos literários entre as a presença de Palazzeschi, no Brasil, é marcante no espaço da teoria
literaturas do Brasil e da Itália, esta comunicação objetiva problematizar e da crítica literária, em especial quando tratam do período futurista
a recepção da obra do poeta florentino Aldo Palazzeschi (1885-1974), italiano e das interferências deste movimento na literatura brasileira.
no Brasil, e os desdobramentos provenientes, ainda hoje, desses Por fim, outro fator a ser analisado provém de dados encontrados em
contatos. Palazzeschi foi autor de poesia e de prosa que viveu o período alguns paratextos, que são pensados de acordo com pressupostos
efervescente das prévias do modernismo, existindo em suas obras de Gérard Genette, do seu livro “Paratextos Editoriais” (2009), e, que
elementos tanto do crepuscularismo, quanto do futurismo. Para Alfonso se configuram como dados importantes para se compreender tanto
Berardinelli em “Da poesia à prosa” (2007, p. 93), Palazzeschi estaria as ressonâncias causadas entre a cultura italiana e a brasileira, como
entre os poetas, a exemplo de Saba e Ungaretti, que, de fato, foram também, o papel dos artistas e intelectuais nesse processo.
responsáveis pelo nascimento da poesia moderna italiana. No tocante Palavras-chave: Palazzeschi, Ressônancias, Desdobramentos
aos ecos da obra de Palazzeschi, na literatura brasileira, é importante
destacar que as suas obras traduzidas são bem raras, no âmbito cultural Ma che finzione? Realtà, signori, realtà. Fortuna de Pirandello no Brasil
Alessandra Vannucci (UFRJ)
do Brasil e condizem, em grande parte, à sua produção em prosa, dentre
os livros mais conhecidos está o romance “Irmãs Materassi” (1934). Já Resumo: Pirandello protagonizou as modestas tentativas de modernizar
no que concerne à sua produção poética, pode-se perceber que esta os palcos brasileiros na década de 20, seja como campeão das
aporta em terras brasileiras, preponderantemente, em língua materna, vanguardas, com seu único texto traduzido (Così è, se vi pare) montado
ou seja, escrita em italiano e sem ser traduzida. A leitura dessas poesias por todos que desejavam serem registrados como “novos” e seja
teria deixado, portanto, vestígios na produção poética de escritores como ilustre visitante, na função de capocomico de sua companhia,
brasileiros do início do século XX, como é o caso de Mario de Andrade e em 1927. Mas foi somente na década de 50 que sua obra se tornou
de Manuel Bandeira. O primeiro, como expõe Aurora Fornoni Bernardini porta-bandeira da renovação da cena, em nome de um realismo

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poético que valorizava textos complexos, na mão de um grupo de projetar um autor em uma cultura diversa. A primeira delas é de autoria
diretores, não por acaso italianos, radicados em São Paulo. Influenciou do jornalista e professor Francisco Pati, publicada pela editora A. Tisi &
uma geração de dramaturgos (entre os quais Nelson Rodrigues) e foi Cia., em 1924; a segunda, por sua vez, foi elaborada pelo professor e
alçado a cânone por críticos influentes que mostraram como suas padre Lindolpho Esteves e publicada pela Companhia Editora Nacional,
abstrusas soluções inaugurassem uma cena meta-teatral e expandida, em 1929. A partir da análise das traduções, torna-se evidente que
em diálogo com novas tecnologias, orgânica e pertinente à sociedade a segunda sofreu mais modificações na comparação com a obra em
brasileira que alcançava a modernidade em cena com 30 anos de italiano. A primeira delas diz respeito aos capítulos: os noventa e seis
atraso sobre as vanguardas; mas este “atraso” aparecia então mais um do texto-fonte transformaram-se em cento e vinte e três; alguns deles
“amadurecimento” de instâncias de modernização subjacentes, como a foram subdivididos e outros, suprimidos. Além disso, Pe. Esteves optou
indústria do espetáculo. Assim, sujeitos à típica antropofagia das ideias pela divisão dos capítulos a partir dos tópicos frasais que constituem
em viagem, seus personagens e atmosferas foram antes desejadas, a narrativa de Papini. Por fim, em termos lexical e semântico, algumas
depois devoradas e finalmente cuspidas, na década de 60, pela geração escolhas do escritor florentino foram adaptadas, sobretudo as que
sucessiva, tornando-se símbolo de uma cultura elitista importada e continham uma conotação animalesca e rudimentar conferida ao
sintoma da crise identitária dos modernos, entre ser vanguardistas e ser homem no confronto com o sagrado. Essa manipulação textual talvez
continuadores de uma tradição. se explique em razão do cargo eclesiástico do tradutor. Ao enfatizar
Palavras-chave: renovação cênica no Brasil, fortuna de Pirandello no separadamente os episódios bíblicos e tornar mais sintético e ameno
Brasil, ideias e pessoas viajantes o estilo da escritura, ele parece ter como objetivo fazer chegar ao
público uma tradução doutrinária, baseada em uma “interpretação
História de Christo: entre tradução e doutrina institucionalizada [...], formada no âmbito da Igreja Católica Romana”,
Aline Fogaça dos Santos Reis e Silva (USP) nas palavras de Cristina Rodrigues (Tradução e diferença, 2000, p.
Resumo: Em 1921, Giovanni Papini publicava, na Itália, Storia di 73). Diante do exposto, a presente comunicação tem como objetivo,
Cristo, resultado de sua conversão ao catolicismo e que, em razão da primeiramente, analisar as traduções de Storia di Cristo, na perspectiva
temática abordada, torna-se uma espécie de divisor de águas em sua da tradução enquanto reescritura, texto domesticado e doutrinário. Em
trajetória literária. Por tais motivos, a recepção à obra foi notória tanto um segundo momento, apresentar o levantamento de notas, resenhas,
no sistema literário italiano quanto no brasileiro, com a veiculação crônicas e artigos publicados em alguns dos principais periódicos
de resenhas e artigos dedicados ao volume e à polêmica conversão; nacionais a respeito dos volumes publicados, como recorte ao exame da
material publicado, em sua maior parte, nas seções literárias dos recepção e repercussão do escritor Giovanni Papini no Brasil.
principais periódicos de ambos os países. Tamanha repercussão é Palavras-chave: Giovanni Papini, Historia de Christo, tradução
também fruto das duas traduções brasileiras integrais, ambas sob o doutrinária
título Historia de Christo; pois, segundo André Lefevere, em sua obra
Tradução, reescrita e manipulação da fama literária (2007, p. 24), a
tradução é a forma mais reconhecível e potencialmente influente de

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Primo Levi no Brasil: aproximações e distanciamentos primeira tradução no país somente em 1997, pela editora Companhia
Helena Bressan Carminati (UFSC), Patricia Peterle (UFSC) das Letras. Tendo isso em vista, a presente proposta de comunicação
Resumo: Escritor, químico e judeu, Primo Levi dedicou-se à literatura, oral tem por objetivo refletir sobre como tais obras foram acolhidas pelo
ao fazer da narrativa um espaço de memória e reflexão, que sistema literário e cultural brasileiro, seus movimentos e fluxos e, enfim,
posteriormente foi interpretado pelo viés da literatura de testemunho. sua recepção e reescrituras, a fim de identificar possíveis contatos nas
Reconhecido no Brasil por suas três principais obras: “É isto um últimas décadas do século XX. Considerando as possíveis textualidades
homem?” (1947),” A Trégua” (1963) e “Os afogados e os sobreviventes” e confluências a partir da circulação de suas obras, pretende-se pensar
(1986), nas quais o autor busca refletir sobre as desumanidades sua escritura como um espaço possível de leituras e contatos culturais
cometidas pelo próprio homem. Em sua primeira obra, “É isto um entre Brasil e Itália, a partir de uma memória literária.
homem?”, Levi relata o cotidiano que vivenciou, após ser deportado Palavras-chave: Primo Levi, Recepção, Tradução, Contatos culturais
para Auschwitz-Birkenau, em fevereiro de 1944, construindo uma
La chiara fama – a construção de uma persona de Giuseppe Ungaretti
narrativa rica em detalhes e reflexões sobre o que o homem foi capaz
Laura Cristhina Fiore Ferreira (USP), Lucia Wataghin (USP)
de fazer com o próprio homem dentro dos campos de concentração.
Já sua segunda obra, “A Trégua”, pode ser vista como uma continuação Resumo: Com a entrada do Brasil na guerra, apoiando os Aliados, o
da primeira, uma vez que relata a viagem de regresso à Itália depois poeta e professor Giuseppe Ungaretti teve que deixar a Universidade de
da liberação de Auschwitz. Em uma Europa devastada pela guerra, São Paulo e retornar à Itália. Lá chegando, o governo italiano o nomeou
Levi e seus companheiros de viagem divagam sem destino pelo Leste Accademico d’Italia e lhe concedeu, por chiara fama, a cátedra de
Europeu até a União Soviética, tentando reconstruir suas identidades. Literatura Italiana moderna e contemporânea da Università di Roma. Em
Em “Os afogados e os sobreviventes”, o escritor tenta redimensionar sua 1944 Roma foi libertada pelos Aliados e Ungaretti começou a sofrer as
experiência limite, descrevendo e analisando o Lager a partir de outra consequências dessas nomeações. O sindicato dos escritores solicitou
perspectiva. Nesta obra, evidencia as estruturas do sistema autoritário a expulsão de vários escritores, Ungaretti incluso, mas, ao final de uma
nazista e suas técnicas para anular as singularidades dos prisioneiros série de julgamentos em diversas comissões formadas por escritores
e problematiza com algumas discussões a relação entre opressor e de todos os partidos, ficou estabelecido que não era possível imputar a
oprimido, desenvolvendo um conceito importante, por ele denominado Ungaretti qualquer acusação. Ainda, sua nomeação sem concurso para
de “a zona cinzenta”. Nesse obra, publicada após quatro décadas de a Università di Roma foi considerada arbitrária pelo Consiglio Superiore
sua libertação, o escritor propõe ao público um novo olhar sobre a della Pubblica Istruzione e Ungaretti foi afastado das aulas. Isso se
guerra, desmistificando alguns acontecimentos ao narrar a realidade arrastou até 1946, quando ficou determinado que a própria faculdade
vivida pelos prisioneiros. O autor, escritor mundialmente reconhecido, deveria decidir se esses professores – Ungaretti não era o único nessa
teve sua primeira obra traduzida no Brasil, “É isto um homem?”, em situação – continuariam ou não fazendo parte do corpo docente. A
1988, pela editora Rocco, tornando a mais conhecida de sua produção votação foi favorável a Ungaretti, apesar de ter havido oposição por
literária. Dois anos mais tarde, a obra “Os afogados e os sobreviventes” parte de alguns. Foi exatamente no momento em que estava para
é traduzida pela editora Paz e Terra, enquanto que “A Trégua” teve sua ser decidido o destino de Ungaretti na Universidade que teve início a

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XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC

correspondência entre este e o crítico Leone Piccioni, que havia sido seu
aluno. Após ter encaminhado a Piccioni uma cópia da carta enviada a
AS LINGUAGENS CRIATIVAS E A FORMAÇÃO

13
Alcide De Gasperi, presidente do Consiglio dei Ministri, na qual submete
DO LEITOR LITERÁRIO CONTEMPORÂNEO:
sua defesa em relação ao processo na Universidade, Ungaretti escreve
ESTUDO DE TEXTOS INTERARTÍSTICOS SOB
uma segunda carta a Piccioni, focando especialmente no argumento da DIFERENTES OLHARES
sua chiara fama para permanecer na cátedra. Vale-se de exemplos de Maria Teresinha Martins do Nascimento (PUC Goiás)
outros escritores que da mesma forma têm uma atividade universitária, Lacy Guaraciaba Machado (PUC Goiás)
Márcia Rios da Silva (UEB)
bem como dos convites recebidos para participações em congressos
ou para lecionar na Universidade de São Paulo, para justificar a sua
própria chiara fama. Ungaretti também acredita que outros escritores Resumo: A pretensão central deste simpósio é a de criar uma instância
poderão avalizar seu renome e prestígio para assumir uma cátedra como em que se possa explorar a presença de diálogos interartísticos numa
a que está lhe sendo tirada. Mais ainda, Ungaretti está indignado por perspectiva em interação com autor, leitor e obra de arte. Nesse
fazerem isso justamente com um poeta. Essa indignação será recorrente sentido, pensa-se que tanto o autor quanto o leitor apoiam-se no
ao longo da correspondência. Segundo Piccioni, com a liberação de repertório cultural de que são dotados e os movem durante o ato
Roma Ungaretti foi festejado pelos franceses, seus antigos amigos, e de leitura. Até porque a obra de diferentes sistemas de linguagem é
pelos americanos, que haviam acabado de chegar ao país. Os italianos, instigadora de construção de redes de sentidos. Daí a relevância de
porém, o ignoraram. Talvez seja por isso que encontramos no decorrer se intensificarem estudos interartísticos relacionados à produção e
da correspondência entre Ungaretti e Piccioni essa necessidade do recepção estética, mediante investigações comparativas que promovam
primeiro de evidenciar sua chiara fama, mencionando sempre a maneira novos olhares sobre combinações e processos de hibridação de
como era tratado por escritores ou autoridades ou acadêmicos, os linguagens criativas incluindo estudos sobre a formação do leitor
elogios recebidos em público ou em particular, ou ainda o modo como literário (infantil, juvenil e adulto) e sua relação com a obra de arte,
era festejado no exterior. É possível argumentar também que Ungaretti, com espaços de leitura e ferramentas contemporâneas adotadas
consciente da sua importância como poeta, já estivesse construindo um para a produção e veiculação de textos artísticos. Realizar estudos
personagem pelo qual gostaria de ser reconhecido pela posteridade. teóricos da linguagem literária na sua relação com outras linguagens
O objetivo deste trabalho é apresentar elementos encontrados na pressupõe estabelecer aproximações, contrapontos e distinções, para
correspondência que demonstram a construção da persona de um melhor compreender parentesco e parentalidade de gêneros artísticos
grande e festejado poeta italiano, porém não reconhecido e injustiçado manifestados nessas linguagens. Daí a relevância em explorar relações
no seu próprio país. dialógicas entre Literatura e outras artes apreendidas como fatores
Palavras-chave: Giuseppe Ungaretti, correspondência, persona geradores de identidades em cada uma dessas formas artísticas,
assumidas como fonte criativa de acentuada produtividade nos dias
atuais. Alguns teóricos que subsidiam estudos dotados de propósitos
como estes podem ser representados por Giorgio Agamben, Mario

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XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS

Bellatin, Walter Benjamin, Theodor W. Adorno, Roland Barthes, Susan e Deleuze e o conceito de “rituais da percepção” é possível dizer que
Buck-Morss, para quem “A coletividade do século XX [...] constrói sua Fassbinder estava antecipando algo que viria a se consolidar nas década
identidade na base da imagem ao invés da palavra” (BUCK-MORSS, seguintes: as séries de tv como espaço para os grande personagens
2009, p. 28) e forma uma comunidade transnacional, embora o signo romanescos contemporâneos.
verbal continue habitando os mais diferenciados espaços textuais Palavras-chave: Adaptação, Alfred Doblin, Berlin AlexanderPlatz, Reiner
verbais e não-verbais. Nessa direção, pretende-se socializar, neste Fassbinder
simpósio, estudos que tratem das relações entre textos de diferentes
sistemas de linguagem, averiguando, por exemplo, até que ponto os A encenação da leitura: prática dialógica interartes.
aspectos relativos à continuidade/descontinuidade, à compleição André Luís Gomes (UnB)
formal das obras articulam-se e podem ser entendidos como Resumo: Barthes, em O rumor da língua, inicia um dos ensaios,
fenômenos inerentes à produção, à complexidade ou simplificação “Escrever a leitura”, com questionamentos dirigidos ao leitor através dos
estética e de como tudo isto proporciona relações de fruição artística e quais ele questiona se a leitura já o inspirou para a escrita de um texto
“consumo”. que será objeto de outros leitores. A partir dessas perguntas, o critico
Palavras-chave: Estudos comparados, Hibridação de linguagens literário e sociólogo francês relata que foi de uma leitura que ele se
criativas, Interartes, Repertório cultural nutriu para escrever S/Z e nos conta ainda que foi preciso sistematizar
todos momentos em que “levantou a cabeça” para que a leitura se
TERÇA 08 tornasse “por sua vez objeto de uma nova leitura (a dos leitores de S/Z)”
(BARTEHS, 1988, p.40) . Foi a partir da leitura desse ensaio de Barthes
Manhã [09:00 – 11:00]
que comecei a me questionar quantas vezes “levantamos a cabeça”
Sessão 1
para encenar a leitura de um texto teatral. E o ato de encenar me levou
A chance do romance. a pensar na história e nas funções da encenação. Do ponto de vista
João Carlos de Campos Ribeiro Martins (UFF) histórico, o termo está associado ao surgimento da figura do encenador,
que não se submete ao proposto nas rubricas pelo dramaturgo e recria
Resumo: A partir da série de tv Berlin Alexanderplatz, adaptação de
cenicamente o texto teatral. Portanto, o termo carrega consigo toda
Reiner Weiner Fassbinder sobre a obra de Alfred Doblin, é possivel
uma negação ao que ficou conhecido como “textocentrismo” e, ao
discutir a incorporação das principais características do romance
mesmo tempo, uma afirmação de uma postura totalizante e harmônica
moderno pelas séries televisivas. O romance original de Alfred Doblin
do teatro, entendida como uma arte híbrida. Pensar a encenação como
fora apontado por Walter Benjamin, como possível saída para a crise
“conjunto”, “totalidade” e “harmonia” é exercitar a criação de forma
do romance, justamente por sua suposta montagem cinematográfica.
dialógica. No entanto, não estamos tratando aqui da encenação de
Enquanto que a série - encomendada pela Tv alemã na década de 80,
uma montagem teatral, mas de uma leitura. Integrar, portanto, a leitura
assim como fora o romance de folhetim por um periódico, na década
nesse ato totalizante e harmônico tem sido objeto de pesquisa e desafio
de 20 - pode-se afirmar, seguiria o caminho contrário: de permear com
a ser enfrentado para quem participa do projeto Quartas Dramáticas,
elementos romanescos uma obra audiovisual . Dialogando com Ranciere atividade de extensão desenvolvida na Universidade de Brasília da qual
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pretendo tratar a fim de propor reflexões sobre o “encenar a leitura” procedimentos que o escritor exercita, acaba por modificar “a própria
como atividade e/ou estratégia de ensino e de estudos interartes. noção de arte”. A partir de definições teóricas de pensadores como
Palavras-chave: Encenação, leitura, Dramaturgia, estudos interartes Barthes, Frye, Genette, Bakhtin, Eikhenbaum, Tomachevski, Propp,
Iser, Jauss, Capparelli e Spalding, verificar-se-á como as narrativas
A narrativa curta: correlações de constructo textual e a interação entre selecionadas se aproximam e distanciam quanto ao processo construtivo
texto e leitor.
da personagem, uma vez que duas são publicadas em recursos
Eni Santos Carvalho (PUC-GO)
impressos (Olho do lobo, de Bariani Ortêncio, A casa mal-assombrada,
Resumo: Esta pesquisa propõe-se estabelecer correlações do de Edward Packard), mas com proposições diversas (final fixo e livro-
constructo textual de três contos da obra Lacraus, de Miguel Jorge jogo) e uma terceira (Um estudo em vermelho, de Marcelo Spalding)
(Eis aqui Algumas Cartas e Nossas Almas; O Sonho; Yago Ciriago ou a realiza-se em instrumento eletrônico e, como tal, dinâmico e interativo.
tortura de um Gato Pedrês) destacando o processo de emolduragem e
Por meio de análise comparativa, este estudo propõe-se descrever a
montagem inerentes à pintura e ao cinema. Nos contos selecionados,
natureza das narrativas selecionadas, suas invariantes, tendo como
há indícios que transpõem a colisão ou justaposição de signos para
ponto de partida o conto tradicional, demonstrando como a narrativa
um comportamento como “as tomadas” de um filme que articulam
constitui-se inovação, na medida em que é uma proposta de interação
planos e cenas afetando o leitor. A ênfase ainda incidirá sobre a
do leitor com o texto durante a sua leitura, ora intervindo no caminho
arquitetura textual em que se institui a interação entre texto e leitor,
da narrativa (em jogos), ora tornando-se personagem (construção
efeito e recepção do texto, numa conjunção de ingredientes da
interativa).
contemporaneidade: hibridização de gêneros e deslinearização do
Palavras-chave: Procedimento construtivo, Narrativa curta, Construção
discurso narrativo, desinstalando as personagens e afetando o leitor. A
em jogos, Construção Interativa
relevância centra-se no intuito de contribuir para o estudo comparativo
entre a literatura (contos), pintura e cinema, observando em que Era uma vez: contos de fadas, adaptação e intertextualidade em Into
medida se cruzam as linguagens e signos. Deste modo, recorrer-se-á a the Woods.
teóricos como Wolfgang Iser, R. Barthes, M. Bakhtin, Hans R. Jauss, Boris Pollyanna Morais Espíndola Gomides (UEG)
A. Uspenski, Paul Valery e outras fontes que ainda poderão compor o
Resumo: O papel da literatura na vida social é plurifuncional, possuindo
levantamento bibliográfico contido neste projeto.
função estética (arte da palavra e expressão do belo), função lúdica
Palavras-chave: Constructo textual, Discurso narrativo, Leitor,
(provocar prazer), função cognitiva (forma de conhecimento de uma
Montagem
realidade objetiva ou psicológica), função catártica (purificação de
A pessoalização em três narrativas curtas: final fixo, em jogos e sentimentos) e a função pragmática (pregação de uma ideologia).
construção interativa. Considerado hoje uma das formas de literatura infantil, o conto
Viviane Andrade Oliveira (PUC-GO)
de fadas, enquanto obra literária e criação artística autônoma, em
Resumo: Cada nova invenção que o homem desenvolve traz em si relação às demais atividades humanas, exerce várias funções perante
novas possibilidades de criação artística, de tal sorte que os diferentes a sociedade. Embora construído por uma potência especial, isto é, o

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caráter ficcional capaz de transformar o mundo real em um universo TERÇA 08
imaginário onde pessoas são metamorfoseadas em animais, animais
Tarde [14:30 – 16:30]
são dotados da linguagem humana, tapetes são voadores, e fadas
Sessão 2
são madrinhas a nova realidade não deixa te ter, porém, uma relação
significativa com o real. Afinal, não se cria a partir do nada: as estruturas Narrativa audiovisual na sala de aula: relatos selvagens, crônica e
linguísticas, sociais e ideológicas fornecem ao autor o material sobre o produção de texto.
qual ele constrói o seu universo imaginário. No entanto, os contos de Diogo dos Santos Souza (UFAL)
fadas vêm sendo recriados e reinventados desde que surgiram, sendo Resumo: Como alternativa metodológica para o ensino de língua
readaptados muitas vezes fugindo modelos arquetípicos propostos pelos portuguesa e literatura, o Cinema pode ser um meio, na sala de aula,
contos originais, possuindo outros valores que diferem dos modelos que seduz e provoca os alunos a entrarem no universo da palavra, seja
originais. Após séculos de adaptações para teatro, cinema e televisão, para o âmbito da leitura, seja para práticas que envolvem a produção de
devemos considerar que o leitor, mesmo aquele em formação, é um texto e a formação do leitor. Nesse sentido, o presente trabalho traz um
conhecedor da obra exterior às páginas. Sua interpretação, subjetiva relato de experiência de aulas de língua portuguesa com uma turma da
e repleta de imagens cinematográficas, constituirá um conto de fadas graduação em Comunicação Social (Jornalismo e Relações Públicas) em
muito diferente da sua narrativa original. Neste trabalho propomos que o filme argentino Relatos Selvagens (2014), de Damián Szifron, foi
analisar como a recriação de Into the Woods (Caminhos da Floresta), estudado como uma via de leitura para o conceito de crônica. O objetivo
peça musical de James Lapine e Stephen Sondheim de 1986, e depois deste trabalho é fazer uma análise de duas produções textuais que
adaptado em filme de mesmo nome pela Disney em 2014, está repleto foram desenvolvidas tendo como base a perspectiva de compreender
de intertextualidade com os contos de fadas originais, e retomam Relatos Selvagens como um conjunto de seis crônicas, escrevendo,
aos clássicos para contar uma estória diferente. Preocupados com posteriormente, uma notícia para cada relato. Logo, elementos do
a importância que têm os contos de fada na vida das crianças e a discurso jornalístico foram incorporados nessas produções, fato que
importância da retomada dos clássicos, propomos uma comparação mostrou que os estudantes compreenderam a proposta da atividade
literária entre os contos de fada originais: Chapeuzinho Vermelho, e utilizaram a criatividade como um recurso de leitura do gênero
Cinderela, Rapunzel e João e o Pé de Feijão que compõe a estória Into crônica. Bakhtin (1979), Coimbra (2009) e Napolitano (2013) são alguns
the Woods. As interpretações e reflexões propostas se fundamentam autores que trazem acepções sobre leitura e escrita que interessam
nas contribuições teóricas de Bakhtin (1992) e seus seguidores, a perspectiva da atividade desenvolvida, mantendo o viés para os
Bettelheim (1986), entre outros. possíveis elos entre autor, texto e leitor. Nesse caminho, iremos analisar
Palavras-chave: Contos de fadas., Literatura Infantil., Intertextualidade., a recepção do filme, identificando como a narrativa audiovisual foi relida
Dialogismo. na escrita de uma notícia e observando quais os elementos do filme
foram apropriados pelos redatores. Assim, o cinema será visto como
um recurso para a produção de um texto não ficcional que teve como
base um texto ficcional. O diálogo interartístico realizado nessa atividade

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correspondeu ao percurso de utilizar a escrita criativa como um recurso trato estético da linguagem. Os referidos sites confirmam novos usos
de reelaboração do discurso ficcional através da notícia, tendo como e apropriações das produções literárias, ao tempo em que expõem a
base as noções teóricas do gênero crônica. Isto posto, analisou-se a distância entre o que se produz fora do espaço escolar e o que o sistema
recepção da narrativa audiovisual ao ser apropriada no contexto da educacional ainda almeja, o de contribuir para a ampliação do capital
produção do texto, situada no eixo de relações entre os discursos cultural dos jovens. Ao recorrerem a tramas já existentes para criarem
literário, jornalístico e fílmico. Os novos efeitos de sentidos provocados suas histórias, esses leitores-autores estão em sintonia com o seu
pelos estudantes permitem-nos observar como o leitor-telespectador, tempo, quando se sabe que, no campo das artes visuais, um número
no trânsito entre campos artísticos, lança um olhar que demove o representativo de artistas se apropriam de formas culturais já produzidas,
filme do seu lugar de origem, colocando a narrativa num espaço de na lógica do suplemento, transformando-as em novas produções, como
significação descontínua e mutável. Portanto, o comparativismo entre destaca Nicolas Bourriaud (2009). Trata-se, segundo esse crítico de arte
Literatura e Cinema, nesse caso, pode mostrar as semelhanças e francês, de uma arte da pós-produção, em que os artistas estão criando a
dissonâncias do funcionamento do discurso de cada um desses campos partir de formas já produzidas. Frente a esse cenário, há que se conhecer
sob o olhar de redatores da área da Comunicação Social, expressando as expectativas e demandas dos jovens estudantes, que vivem um
as inquietudes que podem surgir na escrita que situa numa zona contexto cultural que os provoca a sair do lugar de passividade de leitor.
fronteiriça. Deve-se ter em conta ainda as diferentes mediações culturais que se
Palavras-chave: Narrativa audiovisual, Crônica, Relatos Selvagens, interpõem nos processos de recepção, questão tratada por Jesús Martín-
Interartes Barbero (2001). Os leitores reinventam o seu lugar, dando novos sentidos
às narrativas lidas, suplementando tais textos, numa lógica do pastiche.
O império dos leitores na contemporaneidade: o que fazer com a nossa Como sujeitos, esses jovens leitores não mais se colocam como leitores
caixa de ferramentas na escola?
passivos, subordinados a um esquema interpretativo, o que ainda se
Márcia Rios da Silva (UNEB)
constata no ensino de literatura, que tem como objetivo primordial
Resumo: Por força das mídias digitais hoje, pondo à nossa disposição ensinar a interpretar (COLOMER, 2007). Tendo em vista essa paisagem
uma avalanche de produções artísticas e literárias, uma comunidade atual, busco problematizar o lugar dado à literatura em sala de aula, a
anônima de leitores e fãs tomam a liberdade de se apropriar de histórias partir de duas publicações, Caderno de leituras; a literatura de Jorge
originais, muitas delas produtos da cultura massiva, para reescrevê-las, Amado (GOLDSTEIN, 2008) e Caderno de leituras; o universo de Jorge
como provam os inúmeros sites de hospedagem de fanfictions, que vão Amado (GOLDSTEIN, SCHWARCS, 2009), pela Companhia das Letras,
de bestsellers a autores clássicos. Assim, novos sujeitos da história se destinadas aos professores da Educação Básica, como suporte para o
fazem presentes, marcando seus lugares, deslocando os exclusivismos trabalho com os romances de Jorge Amado.
atribuídos à atividade artística (RANCIÈRE, 2009). Com a recriação dessas Palavras-chave: contemporaneidade, literatura, leitores, práticas de
narrativas, veem-se abaladas as noções de leitor, leitura e autoria, ao recepção
tempo em que se desloca a centralidade do que a modernidade estética
convencionou chamar de literatura, identificada por um acentuado

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O leitor para além do texto e sua responsabilidade social. Personagens femininas dos séculos XX e XXI: perfis emblemáticos da
Fernanda da Silva Oliveira (UEG) literatura, do teatro e da indústria cultural.
Ângela Maria da Costa e Silva Coutinho (IFRJ)
Resumo: Para atender aos anseios da pós-modernidade, a educação
precisa dialogar com outros campos a fim de formar um cidadão Resumo: Personagens femininas dos séculos XX e XXI: leitura de
mais autônomo e crítico. Assim, as várias manifestações da arte, tão perfis emblemáticos da literatura, do teatro e da indústria cultural
presentes no contexto educacional, e entre elas, a literatura, podem Modelos estéticos artísticos construídos e reproduzidos passam a
ser uma provocação ou uma alternativa para o empoderamento do fazer parte do imaginário do leitor como se naturais fossem. Assim
sujeito. Deste modo, a leitura constitui-se como um caminho eficaz acontece com personagens criados na literatura, no teatro, no cinema,
para o exercício de uma prática crítico-reflexiva na formação do leitor na mídia televisiva. Em vista disso e de acordo com a proposta desta
literário contemporâneo. Na literatura e em outras esferas de discurso, comunicação, uma hipótese para a formação de leitores literários é
o leitor precisa estabelecer uma relação aprofundada com a linguagem tornar sistemática a conversação entre a arte literária e outras diferentes
e as suas significações, refletindo acerca dos valores éticos e sociais aí formas de arte, empreender diálogos entre gêneros literários e com
implicados. Considerando que o exercício da leitura vai muito além da produções da indústria cultural. Entende-se que essas especulações
decodificação, concebemos o leitor como um agente social, participante dialógicas, enquanto frequentação espontânea ou na rotina da
de uma prática social e capaz de transformar sua realidade a partir da aprendizagem, estimulam operações analíticas e interpretativas, a partir
interação com o texto. Propomos uma reflexão sobre a formação do da associação de sentidos e de discursos, também por acionar um fluxo
leitor contemporâneo sob um viés diferente, pautado pelos pressupostos de correspondências de significados subjacentes nas textualizações,
da Análise do Discurso Crítica. Preocupados com questões discursivas e além de propiciar o reconhecimento de ressignificações e ênfases. As
ideológicas, nem sempre explícitas, mas sempre presentes na relação investigações sobre o feminino têm rendido discussões que propiciam
entre leitor e texto, temos neste trabalho o objetivo de refletir sobre sempre um retorno a questões relacionadas às representações sociais
a formação do leitor contemporâneo, considerando o exercício do da mulher ao longo da história; a formações discursivas relacionadas
seu senso crítico quando em diálogo com o texto. Defendemos uma a sua ética ; às metáforas do feminino da tradição romântica e suas
prática leitora que desvele as significações sociais da linguagem e suas contradições; aos padrões de beleza das classes favorecidas cuja
implicações relacionadas ao poder e à ideologia e que fomente novas inculcação gera o obscurecimento das diferenças, como as diferenças
práticas de engajamento em lutas que visam transformações locais e raciais e de classe social. Neste artigo, serão discutidas, com base em
globais. As interpretações e reflexões propostas se fundamentam nas princípios da Semiótica, de Estudos de Análise de Discurso e de Teoria
contribuições teóricas de Norman Fairclough (2016), Guilherme Veiga Literária (com destaque para os conceitos bakhtinianos de polifonia
Rios (2015), entre outros. Acreditamos que a leitura é uma ferramenta e dialogismo), as questões a seguir: 1- concepções e contradições do
para a apropriação do conhecimento e, por isso, torna-se rica em feminino na visão da personagem do conto A bela e a fera de Clarice
possibilidades para problematizar e entender para além do texto, Lispector, em diálogo com os perfis das personagens das recentes versões
estabelecendo conexões e capacitando o leitor para atuar na sociedade. da fábula criadas para o cinema. 2- representações na indústria cultural,
Palavras-chave: Leitura crítica, Leitura como prática social, Literatura, reação e resistência, por meio de reflexão sobre os pleitos de rejeição à
Formação do leitor literário jornalista Maria Julia Coutinho e à atriz Taís Araújo e em conversação com

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pleitos de adesão a outras atrizes e jornalistas. 3- perfis de personagens
femininas no teatro brasileiro: Virgínia de Nelson Rodrigues – da peça

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Anjo Negro e Chica da Silva na versão para o musical intitulado Chica AUTORIDADE E AUTORITARISMO NO
da Silva – o musical, com texto de Renata Mizrahi e direção de Gilberto SÉCULO XX: O LEGADO DE UMA POLÍTICA
Dawronski, em conversação com a obra narrativa intitulada Chica da DE MEMÓRIA
Silva e o contratador dos diamantes: o outro lado do mito de autoria de Édimo de Almeida Pereira (CES/JF)
Júnia Ferreira Furtado. As protagonistas da ficção atuam em um lugar Gislene Teixeira Coelho (IF Sudeste MG)
de fronteira, entre o seguro, o duvidoso, o inesperado, entre o branco e Silvio Renato Jorge (UFF)
o negro, a transparência e a opacidade. Elas perturbam as convenções.
Paralelamente, as cidadãs da vida real são personagens representativas
Resumo: Nossa proposta fomenta um debate acerca de traumáticos
da resistência ao determinismo do binômio raça e trabalho. Elas,
eventos ocorrentes no século XX, de modo a apoiar-se no potencial
igualmente, perturbam o imaginário convencionado na sociedade de
classes. crítico de estudos resultantes da aproximação de história, arte e política,
Palavras-chave: formação do leitor, literatura e outras artes, personagens de onde se pode extrair uma política de memória que visualiza, no
femininas, textualizações contemporâneas trabalho com as experiências humanas radicais de exclusão, exílio,
perseguição e intolerância, a projeção da avocação de uma herança
Um pacto criativo: da Lei do Levirato ao Manual da Paixão Solitária de e de um compromisso com essa herança (DERRIDA, 1994); nesse
Moacyr Scliar. sentido, incentivar-se-á a iluminação de uma geração de obras e autores
Wédina Sabino Rodrigues Coelho (PUC-GO) que vem reagindo contra os crimes de e na memória. Compõem o
Resumo: Este é um estudo inicial que tem como propósito analisar, vasto legado desse século conflitos ocorridos no âmbito nacional e
comparativamente, fragmentos do Pentateuco, livros que narram a Lei internacional, na política interna e externa, seja em função do embate
do Levirato, com a obra Manual da Paixão Solitária, de Moacyr Scliar. África-América-Europa, das ditaduras nacionais, da propagação do nazi-
A ênfase incidirá sobre o processo construtivo do discurso e como se fascismo, da reação ao comunismo, das guerras, do (neo)colonialismo, da
constitui o pacto ficcional, destacando pontos de convergência entre globalização, do levantamento de fronteiras geopolíticas e socioculturais.
ambas as obras selecionadas como objeto de estudo. O procedimento Em contrapartida, o século XX também motiva um interesse em espacial
central adotado para esta análise fundamentar-se-á no modo de por, em resposta ao legado da violência, instigar movimentações de
realização das vozes enunciativas presentes no discurso e seus efeitos grupos com ideologias e valores diversos a favor da resistência, do
de sentido. A principal preocupação está centrada no processo reconhecimento e da emancipação, fundamentando, sobremaneira, a
construtivo da linguagem literária, que se manifesta por meio do intitulação de uma “era dos extremos” (HOBSBAWN, 1995). Diversas
discurso ficcional que carrega marcas inventivas instituidoras de uma produções artísticas testemunharam intimamente os movimentos dessa
complexa rede de significações. era dos extremos, fornecem, portanto, um amparo material vasto para
Palavras-chave: Lei do Levirato, Moacyr Scliar, Monólogo, Vozes do análise da história e de nossa escrita da história. Nesse sentido, apostar-
discurso se-á, sobremaneira, no potencial expressivo e crítico dos textos literários,

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XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS

que recepcionam personagens, histórias e momentos emblemáticos exemplos de uso de poder como forma de controle e padronização no
no intuito de tentar traduzir esteticamente os impactos de seu tempo. século XX; por outro, igualmente se multiplicam casos de enfrentamento
Representações da violência desse século encontram no campo artístico e embate no campo social, com a sublevação de significativos
e literário um espaço convidativo à crítica e à resistência, de modo movimentos em busca de representatividade e de reconhecimento, e
que um corpus significativo de autores imprime em seus textos os no campo intelectual, em que se discutem as desagradáveis heranças
mal-estares de seu próprio tempo (DERRIDA, 2001), que revertem em oriundas da opressão, da segregação e da violência, ações comumente
reações convulsivas contra imposições hegemônicas, seja do ponto de empregadas como geratrizes e perpetuadoras do poder da autoridade.
vista cultural, ideológico, econômico ou político. Governos autoritários, Ao se propor um campo de análise ampliado, em termos temporais
ditadores, colonizadores e outras formas de exercícios da autoridade, em e espaciais, objetiva-se produzir articulações entre as memórias
defesa de uma razão essencialista, totalitária, falocêntrica e etnocêntrica, do autoritarismo e, consequentemente, um repertório crítico que
valeram-se do poder do silenciamento, da submissão, do cerceamento de possa discutir, com mais propriedade, o século das contradições, em
direitos, do apagamento de memória, operando a seu favor uma política que se contrapõem vozes interditas e interditadoras, o subversivo e
de incentivo à anistia e à amnésia. Em vista de ações de supressão, o autoritário, o silêncio e a explosão; localizando, no conjunto das
grande parte da história do autoritarismo no mundo vai apagando-se aos apresentações, a perspectiva de uma política de memória que opere pelo
poucos, registros queimados, pessoas desaparecidas, vítimas esquecidas, engajamento, em nome da descolonização do pensamento (MIGNOLO,
crimes “perdoados”; na contramão do esquecimento, desde o final do 2003) e das relações humanas.
século XX, um pensamento crítico-teórico articula-se em nome de um Palavras-chave: Autoritarismo, Violência, Memória, Legado
compromisso com uma política de memória contra a anistia e a amnésia, Referências:
em nome da qual investe na recuperação e na manifestação de vestígios DERRIDA, Jacques. Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Trad.
residuais sintomáticos das ações hegemônicas de “harmonização” do Claudia Moraes Rego. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.
passado e de controle sobre a escrita da história. O trabalho artístico,
_____________. Espectros de Marx: o estado da dívida, o trabalho
pois, encaixa-se no debate com um papel duplo, autorizando uma
do luto e a nova Internacional. Trad. Anamaria Skinner. Rio de Janeiro:
leitura performática que localiza nas obras as marcas (as impressões)
Relume-Dumará, 1994.
de um registro de época e corroborando como uma voz crítica que se
CERTEAU, Michel de. A escrita da história. Trad. Maria de Lourdes
manifesta frente às hierarquias, censuras e imposições socioculturais.
Menezes. 2 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007
São bem-vindas, portanto, contribuições de estudiosos que buscam na
literatura e outras artes um instrumento de expressão da desobediência, HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991. Trad.
da perversão, da desautorização de linhas de poder que atuaram – Marcos Santanita. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
e, porventura, ainda atuam - como forças hegemônicas, bem como MIGNOLO, Walter D. Histórias locais/Projetos globais: colonialidade,
contribuições que localizam, no corpo das respectivas obras, a expressão saberes subalternos e pensamento laminar. Trad. Solange Ribeiro de
de tempos sob pressão, reproduzindo, no texto da obra, a persistente Oliveira. Belo Horizonte: Editora UFJG, 2003.
sensação de dolência e angústia. Se, por um lado, se arrolam inúmeros HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo

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XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS

Horizonte: UFMG, 2003. do indivíduo pode ser controlada, o de Orwell atenta para utilização da
SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. Trad. Pedro super vigilância do Estado como principal forma de poder. Assim, “Jogos
Maria Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. Vorazes” alerta a sociedade contemporânea sobre a permanência não
só sobre problemas já apontadas pelos romances distópicos anteriores –
_____________. Cultura e Imperialismo. Trad. Denise Bottman. São
utilização de entorpecentes para acobertar sentimentos, a destruição do
Paulo: Companhia das Letras, 1995.
passado como controle de informação e utilização de tecnologias para
TERÇA 08 controle da sociedade, como também ressalta a questão da segregação,
em evidência a partir do final do século passado. É necessário ressaltar
Manhã [09:00 – 11:00]
que, ao contrário o que defendem alguns autores (Neil Postman, por
Sessão 1
exemplo), Admirável Mundo Novo e 1984 não são obras contraditórias,
Comportamento geral: diálogo sobre controle do estado nas ao inverso disso, elas se consubstanciam como críticas contundentes
sociedades distópicas ao que se precisava combater na sociedade da época. Dialogando
Leonardo Guimarães de Farias (UFRN) com as duas obras, Collins constrói uma sociedade segregada, onde
Resumo: O estudo tem como objeto a obra literária “Jogos Vorazes”, parte dela é formada por cidadãos disciplinados para serem apáticos,
de Suzanne Collins, fazendo uma análise de como o romance dialoga relacionando-se com a sociedade descrita por Huxley, enquanto que
com as obras distópicas “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley os Distritos, controlados pela força autoritária e extrema vigilância do
e “1984”, de George Orwell. Para tanto, utiliza-se como base teórica Estado, remontam à “1984”. Com base nessas reflexões, entende-se
metodológica a Escola de Frankfurt, que entende a literatura como que as obras “Admirável Mundo Novo” e “1984” contribuíram para a
forma de compreensão de como as forças sóciopolíticas atuam sobre os compreensão de controle do Estado no romance “Jogos Vorazes” e na
indivíduos. Panem, país fictício de “Jogos Vorazes”, é formado por sua construção narrativa da obra, mostrando que o Estado atua com vieses
Capital, localizada no centro e onde acumulam-se as riquezas, rodeada diferentes dentro de uma sociedade segregada.
por doze Distritos que servem basicamente como mão de obra através Palavras-chave: Controle do Estado, Admirável Mundo Novo, 1984,
da exploração da sua população, para suprir as necessidades do grande Jogos Vorazes
centro. Considera-se interessante para análise proposta a forma em
Do estado totalitário à literatura: sociedade e política em Fazenda
que o Estado controla a sociedade: os residentes da Capital são na Modelo, de Chico Buarque e Animal Farm, de George Orwell
sua maioria citadinos triviais e sem interesse sobre as desigualdades Thainá Aparecida Ramos de Oliveira (UFMT)
impostas aos cidadãos dos demais distritos, nos quais caracteriza-
Resumo: Ao longo da história literária, diversos escritores perceberam
se a ação de controle do Estado através de forte vigilância. Em que
a necessidade de produzir obras que impactassem de maneira mais
pese a insatisfação com o tratamento dispensado pelo Estado aos
direta na sociedade, levando ao público leitor uma provocação em
distritenses, o medo de possíveis retaliações violentas da Capital não
aberto sobre desajustes nos âmbitos da política, economia e outros
os deixam reagir. Sob essa ótica, enxerga-se o encontro das três obras:
setores sociais. A partir do século XX, devido aos episódios de guerras
enquanto o romance de Huxley é um alerta de como a subjetividade

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XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS

e regimes totalitários mundiais, essas motivações tornaram-se uma quebradas pelos próprios líderes da revolução e provocam o fracasso
constante, nos diversos gêneros textuais de sistemas literários distintos. do manifesto. Diante dos contextos das obras acima mencionadas, é
Essa vertente literária tomou corpo porque articula o plano estético possível identificar elementos que permitem comparar as narrativas
ao sociocultural, permitindo aguçar a consciência crítica dos leitores. “Fazenda modelo” e “Animal farm”, confrontando suas semelhanças e
Para ilustrar a questão, podemos citar as obras produzidas por Chico dessemelhanças. É, pois, pela metodologia comparatista que a presente
Buarque, em diferentes momentos históricos brasileiros e mundiais, e pesquisa visa explicitar os diálogos entre tais textos, uma vez que,
as produzidas por George Orwell, permeadas pelas forças de dominação intencional ou não, há aproximação entre as obras, que se alicerçam em
dos regimes totalitários. Francisco Buarque de Hollanda é dramaturgo, um discurso alegórico para discutir os contextos históricos de épocas e
músico e escritor, que possui em seu histórico uma intensa produção lugares diferentes.
de cunho social e cultural. Sua consciência intelectual se deu em um Palavras-chave: Fazenda Modelo, Animal Farm, Literatura comparada,
cenário marcado pelo autoritarismo; trata-se do período de 1964 Literatura Engajada
a 1985, quando o país vivenciava o regime militar. Nesse clima, as
produções buarqueanas atuaram na denúncia das atitudes arbitrárias Política literária: outras três antologias de Luiz Ruffato
do governo vigente e da inércia do povo diante de tais atitudes. Em Maria Andréia de Paula Silva (CESJF)
“Fazenda modelo: novela pecuária”(1974), Chico projeta os esquemas Resumo: No circuito do literário, a confecção de antologias pode
de dominação social em uma comunidade bovina, liderada pelo boi cumprir vários papéis entre eles destacam-se a canonização de autores
Juvenal. Os demais bois e vacas eram submissos aos mandos do líder, que se encontram fora da academia; a pedagogização da literatura,
assim como acontecia naquela sociedade brasileira da década de 1970. buscando tornar acessível a um público leitor iniciante uma variedade
De maneira semelhante, encontra-se George Orwell, pseudônimo do de autores consagrados; a revisão histórica de certos temas e autores
inglês Eric Arthur Blair, cuja obra é possível notar um intenso encontro e a possibilidade de um olhar diacrônico sobre temas e debates. A
dos planos literários e políticos. Poemas, contos, diários, textos presente comunicação toma como objeto de análise três antologias
jornalísticos, entre outros, são gêneros que compõem o percurso de contos organizadas por Luiz Ruffato em uma década que tematizam
intelectual desse autor. A partir de 1936, surgem produções orwellianas o poder, a política e a história do Brasil. A primeira, Fora da ordem
e do progresso, publicada em 2004, contou também na organização
que demonstram a ideologia que segue de encontro ao totalitarismo, e
com Simone Ruffato, apresenta textos de vários autores brasileiros do
ao encontro do socialismo democrático. Esse senso político e ideológico
século XIX ao século XXI. A segunda, Sabe com quem está falando? :
atravessou todo o período de produção da narrativa “Animal Farm”
contos sobre corrupção e poder, de 2012, também percorre a literatura
(1945), cujo enredo constrói uma crítica aos sistemas políticos de
brasileira dos séculos elencados na primeira. Já a terceira antologia,
dominação. Nessa obra, os animais planejam um ataque contra o poder
publicada em 2014, tem o significativo título de Nos idos de março
exercido pelos humanos, em que um grupo liderado por porcos resolve
e concentra-se na apresentação de contos de autores brasileiros
expulsar o proprietário da fazenda onde residem. Após a expulsão,
especificamente sobre a última ditadura civil militar. Na leitura das três
ficam proibidas, entre os animais, manifestações da cultura dos homens;
antologias pode-se observar, apesar da repetição de alguns textos, a
proibições estas reunidas em sete mandamentos que, aos poucos, são
persistência do autoritarismo e seu correlato a violência na história
372 373

durante a época do Estado Novo. Ademais. desestabiliza a separação entre Palavras-chave: perspectivismo. o que permite mas o personifica. o xamanismo amazônico não transforma o outro em coisa. como argumentado por outros autores. que necessariamente elas aos rituais de masculinidade dos “civilizados”. suicídio. Esta perspectiva desde a metafísica indígena explica a atenção dada enquanto arquivo voltado para o passado.) A forma do Outro é a pessoa”. Antologia. em Mal de arquivo: uma impressão são frequentemente apontados no texto do romance. que é lida no transcurso do enredo até se provar.. cuja “covardia” e “estranheza” definido por Jacques Derrida. Passadas cinco décadas de seu lançamento. “Conhecer é personificar. Como ideal de conhecimento oposto à epistemologia representação dos povos indígenas no romance Quarup (1967). Se. Esta carta. Bernardo Carvalho narra o suicídio do o olhar estrangeirizante direcionado aos indígenas e o usa como um antropólogo americano Buell Quain entre os índios Krahô. implicando o olhar do leitor e o Quain se dá. no romance. epistemológica e política que reduz e conquista o outro. bem como a narrativa no presente do jornalista conservadorismo norte-americano e a criminalização de homossexuais. de Antonio Callado da metafísica própria do perspectivismo indígena. que investiga o suicídio. o possibilidade de corrosão e de desaparecimento. o desejo de isolamento Raquel Parrine (Universidade de Michigan) e depressão que levam ao suicídio de Quain. (. operando na tessitura mesma da ficcionalidade. o objeto de análise é incompleto se considerado como objeto. Antonio Callado. Quarup 374 375 . conforme teorizado Jose Humberto Torres Filho (UnB) por Viveiros de Castro. são constantemente questionados. tomar o ponto de vista inferir a persistência deste traço na experiência cultural do país. Autoritarismo inofensivos. no cerrado intrincado argumento contra o patriarcado heteronormativo “civilizado” brasileiro. como também pela questão ético-política que elas pressupõem de gênero e perseguição às sexualidades não-heteronormativas. freudiana (2001). sem necessariamente conseguir conter a trabalho do luto à sua irmã aparecem não-marcados pela estranheza. marcados pela violência contêm. Parte-se da premissa de que rituais “civilizados” são frequentemente contrastados com os próprios o ato de organizar uma antologia aproxima-se do gesto do arconte. de objetivista. ser traça uma continuidade entre o totalitarismo da ditadura varguista. torce Resumo: Em Nove Noites. por um lado. daquilo que deve ser conhecido. Estes e prometem enquanto abertas ao porvir. pelo aparecimento de uma nova carta de do narrador ficcional na trama de masculinidades em questão. o ficcional. direito relato e evento. ao final.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS brasileira recriados por uma vastíssima gama de autores. narram a angústia de Quain como um homem com a história da perseguição indígena.. comportamento sexual e os rituais de parentesco dos índios. “é preciso personificar Resumo: Este trabalho tem como objetivo propor uma leitura da para saber”. Pretende-se analisar as antologias não só pelo caráter testemunhal. como aquele que tem o poder de controlar e o comportamento autodestrutivo do pai do narrador e a delegação do interpretar os arquivos. rituais dos índios Krahôs e dos Trumais. Meu indígena argumento é que essa deliberada operação no estatuto de verdade emula a indissociabilidade entre natureza e cultura apresentada através Os índios no país do futuro: uma leitura da representação do indígena em Quarup. apesar de Palavras-chave: Luiz Ruffato. A paranoia. ou seja. a formação do Alto Xingu e os bissexual através de documentos que descrevem e questionam sua massacres indígenas do Estado Novo – todos vítimas de uma operação índole e sua identidade Esta estratégia de embaralhar fato e ficção. Carvalho. política de gênero. A explicação da morte de tanto no passado quanto no presente. Estado Novo. No perspectivismo. portanto. censura e intolerância sexual do Estado Novo e dos Estados Unidos pré-Stonewall Nove noites: perspectivismo indígena e totalitarismo são o pano de fundo para a exclusão existencial.

um singelo e violenta. personagem de Todos os nomes. humilde “senhor dos arquivos”. mas todos os nomes. sabe-se hoje que os povos diante de uma identidade circunscrita. INTELECTUAIS social brasileira. São eles: o discurso multifacetado do que seria o Brasil Sessão 2 e a ?análise das relações entre intelectual e povo? (p. baseada em José Saramago.. inclusive. visando sobretudo a apropriação de que evoca uma imagem em constante movimento ou em metamorfose terras. Agualusa. mas. submetendo-os a um crivo deformante em suas passados”. do tempo porque toca no ponto nevrálgico em que se situa a dinâmica Palavras-chave: INDÍGENAS. uma parcela significativa encontro ficcional. torturada nuvem sem contornos que passa por acima [de suas cabeças] mudando e assassinada a partir do golpe de 1964. Não foi apenas parte da classe média brasileira Amanhã estará mar” (AGUALUSA. tornados públicos em 2014. o romance liberta-se das amarras para os anos de chumbo que se seguiriam. Marlon Augusto Barbosa (UFRJ) além de serem uma dessas vozes que compõem o retrato plural do Brasil a que se refere a ensaísta. José e Félix Ventura. estabelecendo. DALCASTAGNÈ.10).XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS continua sendo um marco no que diz respeito à representação do no que tange o compromisso da nação com o progresso. por fim. THOMAZ. culminou no golpe militar. a que é possível estabelecer o diálogo entre essas duas histórias. ou: a diáspora do nome . expondo a visão que a cultura dominante. eles também fazem coro ao coletivo Resumo: Há encontros que só podem acontecer nos domínios da algo amorfo que a palavra povo sugere. pelos militares. 2006.. e atingidas pelo governo ditatorial. A fim de contribuir para essa discussão. É justamente no país. Entre eles: nenhum nome. de José Eduardo representações (Cf. Apesar de os acontecimentos narrados estarem tão vinculados a eventos narrados se projetam tanto para o nosso passado colonial como um período determinado da história. em tensão com representantes ficção. de forma latente ou manifesta. o período que antecedeu e. p. expôs as feridas da formação social e intelectual do a compreensão do Estado brasileiro sobre os povos indígenas e como os país. um vendedor e excêntrico “senhor dos valoração negativa. p. O fim de. não se tratará de um da intelectualidade brasileira. CANDIDO. tendo em vista que.198) – ou aérea – “(. outros que só se dão graças à crítica.Agualusa e Saramago em diálogo representação dos povos indígenas em Quarup. sintonia com o tempo presente. Uma questão Graças aos resultados provenientes dos relatórios da Comissão Nacional sobre a identidade se impõe: esses dois personagens não se acham da Verdade. No romance. personagem d’O vendedor de passados. É nesse sentido que propomos uma atualização da discussão. mais romance de Antonio Callado oferece uma valiosa reflexão no que tange importante que isso. 2011). E. 2013. como se convencionou pensar constantemente de forma” (DIDI-HUBERMAN. que passa. refletir sobre o papel relegado aos indígenas brasileiros Sr. não raramente. fechada ou limitada. na medida do possível. Aqui. interrogam 376 377 . de um encontro crítico. portanto. Para tanto.) uma escolarizada e moradora de grandes cidades a ser perseguida. Ligia Chiappini (1992) ressalta pelo menos dois aspectos TERÇA 08 levantados pelo romance que evidencia a vocação em tocar as feridas Tarde [14:30 – 16:30] socais do país. e Félix Ventura. DITADURA MILITAR. desses intelectuais se aproxima de uma vertente conservadora e Duas obras e dois personagens se encontram: o Sr. 2004. me proponho a realizar uma leitura da Os arquivos e a identidade. de atribui a grupos marginalizados. As vidas de diversos povos indígenas foram diretamente porque esses personagens estão diante de algo que se dilui. José.102). mas se indígenas estão entre os grupos sociais mais duramente perseguidos apresentam diante de algo como uma expansão líquida – “Hoje está rio. como os povos indígenas.

memória da segunda geração. ______“Aquém e Além: espaços estruturantes da identidade a autora reúne textos independentes. Para lembrar. Referências: FIGUEIREDO. Antônio Sousa (Orgs). nesse processo. da experiência. Saramago mundo ao passo que se encontra envolta nas amarras do colonialismo. são de um Eu em processo de construção. desse modo. “Capelas imperfeitas: Figueiredo. oriundos de primeiras publicações 206. ______ Isabela Figueiredo: historiográfico. novas vozes. pois. para denunciar e livrar-se (d)os fantasmas do passado. este artigo pretende identidade cultural na pós-modernidade. Caminho. filha de uma primeira geração que viveu. Nesse sentido. Num diálogo póstumo com a figura do pai. Agualusa. o fictor. Catarina. E testemunhos e atravessa a infância de Isabela em Lourenço Marques. em todos os sentidos do termo. em que as relações entre construção protagonista se encontra atrelado ao contexto colonialista português literária e percurso histórico se estreitam e se conectam intimamente. Assim. Isabela. a memória contribui na reconstituição do Por sua vez.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS todo e qualquer tom de certeza que estabelecemos sobre um sujeito: em seu blog. 2006. p. Coimbra: Edições Apontamento. “Deixei meu coração em África”: Memórias 378 379 . como. ainda criança. tentam resgatar o passado. ao relatar os males memórias coloniais” (2009). leitores. na narrativa. resultado de um conjunto portuguesa?”. a autora ativa suas memórias e as incorpora ao discurso nos perguntarmos: que passado esses dois personagens nos dão a ler? da personagem-protagonista que. Entre ser e estar: raízes. Cabe a nós. de Isabela 11ª edição. conta a partir personagens tal como o historiador da arte proposto por George Didi. assim. aqui poderíamos dizer que tanto José Eduardo Agualusa quanto José concomitantemente a vários momentos da história portuguesa. 2001. 187- de fragmentos de memórias. Demarcada pelo período discursos que. percebe-se que. o artífice. é à memória que se fiam. isto é. MAGALHÃES. ao seu presente. por ser essa capaz de abarcar “O colonialismo era o meu pai”. em “Caderno de a narrativa constrói-se como um desabafo. RIBEIRO. Lisboa: Ed. como um registro. por um discurso pessoal. Ao escrever sobre episódios que viveu e testemunhou em sua infância. In RAMALHO. a literatura portuguesa envereda por espera-se discutir de que formas o desenvolvimento da personagem- um novo processo de escrita. nesse cenário. Caderno de Memórias nação. Rio de Janeiro: DP&A Editora. emergem e. história e ficção são Resumo: Para não esquecer.10). Isabela está também a relatar os males causados pelo Ariane de Andrade da Silva (UERJ). revela pequenos seja em relação ao seu passado. ou ao seu futuro. Maria Irene. partindo das margens da que foi. Isabel Allegro de. e que fora marcada pelo que ele dá a ler” (DIDI-HUBERMAN. Isabela é a Huberman: “O historiador não é senão. A narrativa. p. por discutir questões relativas a um dos marcos da nação portuguesa. José. 1994. revelar fragmentos do passado e expor online. de Isabela Figueiredo colonialistas. A mazelas de um tempo pretérito. Entrevista concedida à Alexandra Prado Coelho. Coimbra: Angelus Novus. Forjada pelo fogo: memórias do colonialismo. o autor e o inventor do passado presenciou e experimentou o colonialismo. Revista Ípsilon as percepções do sujeito. 2009. In: O sexo dos textos. Como resultado. ao se distanciarem de certa maneira do discurso Coloniais. 2013. que funde-se a uma esfera de coletividade. MARTINS. Saramago criam personagens que questionam um certo tipo de discurso configurando-se. percusos e discursos da identidade. que se submete às hegemônico – mas qual? – e que Félix Ventura e o Sr. silêncio. que. Claudia Maria de Souza Amorim (UERJ) próprio pai. [24 de dezembro. leitores recordações fragmentadas da personagem-protagonista e revela traços de um presente e de um passado que precisa ser lido e relido. Stuart. sobretudo. HALL. e. está a descobrir o Palavras-chave: Memória. em tom autobiográfico. 2009]. no presente. posterior ao 25 de abril de 1974. o modelador. sob a ótica da rememoração do período colonial atravessada Configurações literárias da identidade portuguesa”. Aqui. uma leitura do livro Caderno de Memórias Coloniais (2011).

C. A necessidade de dizer aparece. se apresenta como exemplo de pacifismo. O que fizeram de nós aqui sentados Cinthia da Silva Belonia (UFF) à espera nesta paisagem sem mar. muitas portugueses. Será também ideia de manter as colônias portuguesas em África apelando para a brevemente citada a peça teatral “Abril em Portugal”. a revolução 25 de abril.M. O narrador. 76). REIS. vezes. de Hélder Costa. Navegações até o salazarismo. Logo após o 25 de Abril. Publicado Jorge Eduardo Magalhães de Mendonça (UFF) em 1979. Carlos & LOPES. Salazar tinha uma a liberdade de expressão e a transição da opressão do Salazarismo para ideia grandiosa do país. os Resumo: Este trabalho é um breve estudo sobre a peça teatral “A noite”. A face da opressão no teatro de José Saramago e Hélder Costa mas que impõe o silenciamento para aqueles que a viveram. 54). Guerra esta.A. “defesa da ‘nação una e indivisível’. abordando o balas” (ANTUNES. conhecido pelo seu teatro de Indochina e da Argélia. que pouco Coimbra. p. esquecendo que houve uma Palavras-chave: Salazarismo. o romance Os cus de Judas. A dimensão imaginada de um império. tendo em vista que a ação da vive de forma modesta. resistência. presos por três fieiras de arame Resumo: Após a revolução de 25 de Abril de 1974. como ocorrera aliás nas guerras da encenada pelo grupo teatral “A Barraca”. Dicionário de se noticiava em Portugal e pouco se sabia a respeito. ora como reforço desse mito fundacional. Também serão destacados temas como a influência da imprensa. Trauma. protagonizadas pela França” (RIBEIRO. Ditadura. pois a uma redação de um jornal governista na madrugada de 25 de abril de guerra aqui deve ser compreendida no domínio do trauma. do escritor português António Lobo Antunes. p. Para que o que Narratologia. António Lobo Antunes Angola do domínio português (1961-1974). de reajuste das incongruências entre o imaginário coletivo e o real é. Almedina. Memória. horrores da Guerra Colonial em Angola. 2010. a ficção portuguesa farpado numa terra que nos não pertence. que dificulta a aplicabilidade da linguagem verbal. p. uma “visão de esplendor” de um Portugal que a liberdade após a Revolução dos Cravos. Coimbra. representado por um homem às de José Saramago.7ª edição. ocorreu em África não fosse esquecido para sempre. Revolução 380 381 . o adversário comum dos africanos e dos soldados imediato” (KANO.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS colonias no feminino. diante de uma experiência limite. a partir da memória de um ex-combatente. dando enfoque aos vários momentos do Salazarismo até o 26). como a Guerra Colonial de Palavras-chave: Violência. dialogando com sua interlocutora. a morrer de paludismo e de dedica-se a uma revisão da história recente do país. Identidade. 2009. na euforia de tempos novos. em Os cus de Judas. escritores. 2016. 2013. Centro de Estudos Sociais: Universidade de guerra em África com muito sangue derramado. 2011. distante para muitos de nós. Teatro. Memória. após o seu rápido Palavras-chave: Colonialismo. Ficção Portuguesa silenciamento. os grupos diretamente portadores dessa memória. Partia dessa visão sua da opressão para a liberdade: a madrugada de 25 de abril. gerindo bem os recursos. narra. ora como tentativa A ditadura salazarista. experiência 1974. foi sobreposta de forma tão sintomática mostra seu fluxo de consciência deixando observar sua percepção de que “a nação se converteu no problema literário mais urgente de seus mundo e o desejo de denunciar o que foi a Guerra Colonial em Angola. fortalecida desde as manifestações de trauma. Neste trabalho pretendemos abordar a passado para expor os absurdos de um regime político já bastante violência da guerra através do relato de memória do narrador e de suas antiquado. antes motivo de orgulho para o povo português. (ex- combatentes e suas famílias) escrevem acerca do que viram e viveram: Memórias da violência em Os cus de judas de António Lobo Antunes “O que fizeram do meu povo. ao mesmo tempo peça de Saramago se desenvolve justamente no marco dessa transição em que é um império “do Minho ao Timor”. Coimbra: Ed. no qual serão abordados o tempo e o espaço em voltas com o relato de uma experiência de difícil representação.

de António Lobo Antunes. invisível –. a posteriori. o peso e a simbologia da censura e da repressão expressam-se no caso da Itália. base ideológica para politicas racistas e colonialistas. as dores disseminam-se como 382 383 . sintomaticamente contrastante com os se na soma das quatro vozes. manifestam- excludente. o delírio. a promulgação na Itália das “leggi razziali” de 1938. em consonância. britânico Eric Hobsbawm como a “era das catástrofes” viu a eixos de forças pressionam um grupo de quatro mulheres. não revelada. por meio de discursos explosivos que relatos da historiografia oficial. os maridos. alvo uma reflexão analítica acerca dos pontos de contato que podem um outro público. Embora o livro represente o período pós- sangrentas derrotas militares – durante a Segunda Guerra Mundial. em que se sugerem reações contra as reminiscências estabelecer entre elas e. Nesse contexto. de que são representantes os pais. comparada na escrita. nos oferecem uma imagem da desautorização da lei e da ordem. mais significativamente. de António Lobo Antunes. da guerra quanto um pós-guerra distópico. no romance. romances que. Com a comunicação “Memória e trauma denunciam e. em que a doença. Nesse sentido. de Os Cus tempo em que há vozes interditas por esse discurso centralizador. se – pela percepção. por conseguinte. O pós-1974 convive ainda com o traumática. no período pós-Salazar.XV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC TEXTUALIDADES CONTEMPORÂNEAS Memória e trauma no romance contemporâneo: os casos de Itália e Sob segredos e paixões: traços de uma narrativa do autoritarismo Portugal português no pós-1974 Luca Fazzini (PUC-Rio) Gislene Teixeira Coelho (IF Sudeste MG) Resumo: A primeira metade do século XX. a demência. com a morte. é possível destacar uma série de obras que. ao mesmo memoria histórica a partir do trauma. em que vozes femininas expressam de 1920 e 1930 foram marcadas pela instauração e consolidação de organicamente – pelo corpo. Veja. com a repressão. trauma. na Europa ocidental. pelos sentidos. Não obstante. a propósito. pela sensibilidade – como uma se. literatura tela traduz os impactos de tempos malditos. uma presença sensível e latente as politicas ultramarinas do Estado Novo. proponho domínio de grupos de poder. reações de mal- e totalitários. no corpo – reações a tempos de tamanha regimes fascistas que por um lado levaram os respetivos países a apreensão e instabilidade. guerra e representaçao. suspendem a tranquilidade e o no romance contemporâneo: os casos de Itália e Portugal”. o romance em Palavras-chave: memoria. entre escrita e memória de uma política do autoritarismo. e durante a Guerra Colonial no caso português –. no âmbito dos ditames da ideologia salazarista. questionam a e perpetuação da herança salazarista. tendo como níveis: um mais privado. as ressonâncias de uma perspectiva sensível e crítica. na década emergência. produzindo. representando tanto os horrores no sentido de produzir discursivamente o efeito da desobediência. o pós-1974 representa o registro de uma época de tensão. para tanto. definida pelo historiador Resumo: No livro Exortação aos crocodilos. Há. ou ainda autoridade. em que um grupo de extrema- literário. Tal desautorização orquestra- crítica dos acontecimentos. de Judas (1979). as décadas estar fecundam no romance. os quais se articulam em torno de dois uma leitura comparada das duas obras mencionadas. entre outros. por rasteiramente no presente das quatro mulheres. à semelhança de uma outro lado intentaram construir uma identidade nacional monolítica e presença espectral – secreta. Nos casos particulares de Itália e Portugal. ditadura. e Tristano Muore (2004). direita organiza atentados e assassinatos em defesa da manutenção refletindo de forma critica sobre tais acontecimentos. as mulheres-narradoras de Antunes produzem fraturas e distensões de Antonio Tabucchi. É o caso. de sistemas políticos autoritários de 70. medo. simultaneamente.

ele encena físicos e anímicos. está ligado Resumo: O romance A Geração da Utopia. A história do revelação da dor. Vidas marcadas pelo silêncio. não pode existir epílogo nem ponto fina como uma esfera fundamental no desenvolvimento do sistema para uma história que começa por tanto” (PEPETELA. acenando para a possibilidade de se 384 385 . paixões. de Pepetela cada personagem proporciona. Memória pretenda retratar. Assim. ao se deparar com a realidade da luta. Por mais que. O romance transita desejo expressam-se por meio de histórias fragmentadas. Quando Pepetela destaca um caráter de não fechamento. Dentre as diversas críticas que A geração da utopia. ao contrário. A temática da utopia. de Luandino Vieira distopia não pode ser encarada de uma única forma. em Portugal em 1961. da 4ª a salientar o caráter distopico do romance. Segredos e paixões movimentam a vida das quatro função. Utopia. memórias por vários espaços e diferentes momentos históricos. iremos observar em Vítor/Mundial um João Victor Sanches da Matta Machado (UFRJ) dos aspectos mais duros da colonialidade que. de Pepetela. Mais do que uma reflexão a respeito da crueldade inerente ao colonialismo. e passa por pela contenção e pela explosão. Os dois primeiros capítulos do romance – A Casa e A Chana – as personagens nos diferentes tempos e espaços que são atravessados serão os dois tempos pelos quais perceberemos o momento em que o ao longo do romance. nos apresenta um Resumo: A interlocução entre literatura. já apresentada no título revolucionário. tempos (passado/presente) entrecortados. a partir de uma leitura inicial. nos apresenta uma grande diversidade individualista que acaba por perverter seu próprio ideal revolucionário. 2013. mulheres. publicado a reprodução de um modelo político eurocêntrico e uma ideologia pela primeira vez em 1992. reencontrar a utopia perdida. romance retrata um grupo de jovens estudantes cujo ponto comum Palavras-chave: Pós-1974. Nesse diálogo. segredos. portanto. abdica da utopia. A delimitação temporal e espacial do romance nos permite observar porém. impressões que compartilham é a realidade perversa do colonialismo. Manhã [09:00 – 11:00] o que podemos perceber ao ler A Geração da Utopia é a inequívoca Sessão 3 heterogeneidade de uma sociedade que ultrapassa o maniqueísmo O desfazer da utopia no testemunho da memória: ensaio sobre o livro clássico das ideologias revolucionárias. da obra. Começa na estilhaçadas. nesse caso. pág. Pepetela consegue transitar entre os QUARTA 09 diversos anseios que habitam a subjetividade de suas personagens. e nem ser tomada Alessandra Cristina Moreira de Magalhães (Escola Sesc de Ensino Médio) como conclusão crítica do autor que. pela manutenção do mistério e pela diversos momentos da luta armada até 1991 em Angola. tendamos A resistência ao colonialismo português no conto “Zito makoa. não pode ser encarada como um projeto específico