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Análise: Gilmar e Fux dão falsa esperança a Lula

Ministros deram a entender que futuro de ex-presidente não é tão cinzento

POR CAROLINA BRÍGIDO

24/04/2018 18:29 / ATUALIZADO 24/04/2018 19:51

O
ex-presidente Lula participa da comemoração do aniversário do PT - Edilson
Dantas/Agência O Globo/22-02-2018
BRASÍLIA — O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai ficar preso? A pena

dele pode diminuir? Ele pode ser candidato? Essas e outras questões pairam no

ar. Viraram gancho para iniciar uma conversa no elevador – e, dependendo dos

interlocutores, começar um bate-boca. Empenhados em responder essas

dúvidas que assolam a imprensa e a população em geral, dois ministros do

Supremo Tribunal Federal (STF) deram declarações públicas nesta terça-feira. À

primeira vista, eles dão a entender que o futuro de Lula não é tão cinzento no

Judiciário. Mas a realidade é outra.

A jornalistas em São Paulo, Gilmar Mendes disse que a pena de 12 anos e um

mês imposta ao petista pode ser reduzida em recurso ao STF. Ele lembrou que,
na mais alta corte do país, há divergências sobre a interpretação do crime de

corrupção passiva e lavagem de dinheiro. De acordo com um grupo de ministros

– Gilmar, inclusive -, há casos em que o réu já recebe o dinheiro “lavado”. Ou

seja, cometeu somente a corrupção ao receber propina, mas não fez esforço para

escamotear a origem dos recursos.

Verdade. Em 2014, quando o STF julgou embargos infringentes de réus do

mensalão, o ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT) foi beneficiado

por essa tese. Ele livrou-se da condenação por lavagem de dinheiro, mas

cumpriu pena por outros crimes. Em tese, o mesmo pode acontecer com Lula:

livrar-se da pena de 3 anos e 9 meses por lavagem e cumprir 8 anos e 4 meses

por corrupção. Ainda assim, ficaria em regime fechado.

Mas isso não é para agora. Lula foi condenado pela primeira instância e teve a

condenação confirmada pela segunda instância. Agora, a defesa pode questionar

a condenação e a pena ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e ao STF. Não há

como prever quanto tempo levaria para os tribunais julgarem. Mas, pelo andar

da carruagem do Judiciário, é pouco provável que seja neste semestre.

Gilmar, que historicamente tem um discurso crítico ao PT, apresentou outra

possibilidade jurídica para mudar o destino de Lula: se o STF julgasse, e

mudasse, o entendimento de que réus devem ser presos depois da condenação

por um tribunal de segunda instância.

Há sim chances concretas de se reverter essa interpretação na corte, ampliando

mais um pouco o direito de um condenado aguardar em liberdade o julgamento

de mais um punhado de recursos. Mas a presidente do STF, ministra Cármen


Lúcia, não esconde de ninguém a falta de disposição para pautar esse

julgamento. O relator do caso, ministro Marco Aurélio Mello, já disse que não

vai levar a ação para o plenário contra a vontade da presidente.

O ministro Luiz Fux também falou de Lula nesta terça-feira. Ele disse que,

mesmo condenado, o ex-presidente poderia se candidatar. O caminho seria o

seguinte: em agosto, o petista apresentaria pedido de registro ao Tribunal

Superior Eleitoral (TSE). A tendência é que a corte negue o pedido, já que a Lei

da Ficha Limpa impede a candidatura de réus condenados em segunda

instância.

Daí Lula recorreria ao STF para obter uma liminar para concorrer. Possível,

segundo a lei, é sim. Mas é provável que os ministros da mais alta corte do país

concedam esse privilégio ao ex-presidente? Pelo que dizem os ministros em

caráter reservado, Lula não levaria essa em um julgamento em plenário. A

alternativa para o réu seria rezar para o algoritmo, aquele sistema de sorteio do

STF, escolher um relator com vontade de dar essa liminar para Lula, sem levar o

caso ao plenário.