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Discurso do sujeito coletivo, complexidade e auto-organização

TEMAS LIVRES FREE THEMES


Discourse of the collective subject, complexity and self-organization

Fernando Lefevre 1
Ana Maria Cavalcanti Lefevre 2
Maria Cristina da Costa Marques 1

Abstract The aim of the present work is to discuss Resumo O presente trabalho busca apresentar al-
some consequences of the method called “Discourse guns desdobramentos do método do discurso do su-
of the Collective Subject” concerning the semantic jeito coletivo no que toca à densidade semântica por
density of the qualitative data, that implies a signif- ele provocada, que implica a presença significativa-
icantly and more relevant presence of the collective mente mais relevante, nas pesquisas sociais que en-
thought as empirical reality in qualitative researches. volvam coleta de depoimentos, do pensamento cole-
Such a presence of the empirical material, associat- tivo como realidade empírica. Tal presença mais
ed to the understanding of the collective thought as significativa do material empírico, aliada ao enten-
referent, allows a dialogue of the descriptive and in- dimento do pensamento das coletividades como re-
terpretative moment in this variety of research. This ferente, permite o diálogo do momento descritivo
in turn alludes to a new possibility that points out to com o momento interpretativo neste tipo de pesqui-
the uncertain and unexpected contributing to a re- sa, podendo assim, como nova possibilidade que
newed understanding of the nature and processes of aponta para o incerto e para o inesperado, contri-
the social representations as complex realities. buir para um entendimento renovado da natureza
Key words Discourse of the collective subject, Com- e do funcionamento das representações sociais como
plexity, Collective thought, Self-organization realidades complexas.
Palavras-chave Discurso do sujeito coletivo, Com-
plexidade, Pensamento coletivo, Auto-organização

1
Departamento de Prática
de Saude Pública, Faculdade
de Saúde Pública,
Universidade de São Paulo.
Av. Dr. Arnaldo 71,
Cerqueira Cesar.
01246-000 São Paulo SP.
flefevre@usp.br
2
Instituto de Pesquisa do
Discurso do Sujeito
Coletivo.
1194
Lefevre F et al.

Introdução Em paralelo, apenas a título de esclarecimento,


diremos que, para a semiologia ou semiótica en-
A experiência de mais de dez anos com a produção quanto ciência geral dos processos de significação, a
própria de trabalhos usando o discurso do sujeito dimensão sintagmática (a do e/e) refere-se relações
coletivo ou DSC1 e com a análise ou acompanha- entre si dos elementos constitutivos dos discursos
mento de projetos de outros pesquisadores que ou enunciados, enquanto a dimensão paradigmáti-
utilizam o DSC tem nos dado a certeza de que esta ca (a do ou/ou), a da escolha de cada elemento do
metodologia gera um novo tipo de resultado so- enunciado dentre um rol de escolhas possíveis.
bre o qual é preciso refletir. Enfatizando a dimensão sintagmática das re-
O tema do presente trabalho é a exploração presentações (a do e/e), colocaremos que sua va-
das implicações da idéia contemporânea de com- lorização permite tornar as representações mais
plexidade nas suas relações com o discurso do su- ricas e mais claras, porque mais exemplificadas,
jeito coletivo enquanto proposta metodológica mais detalhadas, mais justificadas.
para pesquisas sociais que buscam descrever e in- Ora, isso vai levar a um aumento físico e espa-
terpretar representações sociais. cial da presença empírica da representação na pes-
Não vamos detalhar aqui a metodologia; dire- quisa social que tem depoimentos como sua maté-
mos apenas, muito sinteticamente, que o discurso ria-prima, o que implica também um aumento do
do sujeito coletivo, como técnica de processamento status desta dimensão empírica frente à dimensão
de depoimentos, consiste em reunir, em pesquisas teórica ou metadiscursiva, neste tipo de pesquisa.
sociais empíricas, sob a forma de discursos únicos Temos com isso um acréscimo do poder expli-
redigidos na primeira pessoa do singular, conteú- cativo da representação?
dos de depoimentos com sentidos semelhantes. Sem dúvida uma representação mais ricamen-
Estes conteúdos de mesmo sentido, reunidos te descrita, mais detalhada, mais justificada per-
num único discurso, por estarem redigidos na pri- mitiria entender melhor aquilo que as pessoas pen-
meira pessoa do singular, buscam produzir no lei- sam sobre um dado tema. Mas por que isso signi-
tor um efeito de “coletividade falando”; além disso, ficaria um aumento do poder explicativo da repre-
dão lugar a um acréscimo de densidade semântica sentação?
nas representações sociais, fazendo com que uma Porque, não sendo a representação o que as
idéia ou posicionamento dos depoentes apareça pessoas pensam, mas o signo ou a manifestação,
de modo “encorpado”, desenvolvido, enriquecido, ou tradução verbal e também discursiva e narrati-
desdobrado. va do que as pessoas pensam, uma representação
No que toca às representações sociais, pode- mais ricamente descrita vê aumentado o poder
mos dizer, em paralelo, que há por certo uma qua- explicativo sobre seu objeto – que, em termos peir-
se inevitável flutuação ou imprecisão terminológi- ceanos, corresponderia ao “objeto do signo”2 ou o
ca em trabalhos como o presente. Por isso, vale referente da representação.
salientar que utilizaremos o conceito de represen-
tação social, aqui, como o equivalente dos subs-
tratos verbais ou verbo-narrativos das represen- Complexidade
tações, deixando claro portanto que essas repre-
sentações são fenômenos complexos que extrapo- Para avançar no entendimento de nosso tema,
lam largamente suas manifestações verbais. enunciado acima, parece útil contextualizá-lo e re-
Retomando o fio desta introdução, podemos feri-lo teoricamente à idéia de complexidade.
começar a enunciar nossa tese central dizendo que Por que tal escolha?
o DSC, como método, porque gera representações Porque, como se verá a seguir, o discurso do
sociais “encorpadas”, com grande volume de con- sujeito coletivo, pelas suas características, abre, no
teúdo, implica em termos semióticos, a valorização que toca às representações sociais como objeto de
da dimensão sintagmática das representações (li- pesquisa empírica, novas possibilidades de rela-
gada ao conteúdo destas, ou, na terminologia do ções – no caso de diálogo – entre o todo e as par-
DSC, às expressões-chave). Por outro lado, este tes, entre o individual e o coletivo, entre o teórico e
mesmo conteúdo “encorpado” reforça a dimensão o empírico, entre a descrição e a interpretação, en-
paradigmática das representações, isto é, a identifi- tre a síntese e a análise, entre o paradigma e o sin-
cação e nomeação de conjuntos de depoimentos tagma e, last but not least, entre o qualitativo e o
com sentido semelhante, bem como a distinção quantitativo, o que justifica, e talvez exija, a sua
entre si dos conjuntos que, na terminologia do DSC, inserção no quadro das reflexões atuais sobre o
apresentam diferentes idéias centrais ou ancoragens. tema da complexidade.
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Nesse sentido valeria, cremos, uma breve ex- Morin, reflete sobre a complexidade como sendo a
posição sobre a idéia de complexidade, sem qual- estratégia da desintegração para a reconstrução,
quer pretensão outra que não seja a de situá-la “a complexidade desmonta a totalidade clássica e
enquanto pano de fundo teórico subjacente à pro- monolítica, com a preocupação teórica de estabe-
blemática diretamente abordada aqui, que diz res- lecer uma nova totalidade aberta, circular, precária
peito aos possíveis efeitos do DSC (como modo de e em permanente intercâmbio com as suas partes”.
processar depoimentos) no sentido das represen- Assim, o todo não mais se constitui como soma
tações sociais que emergem de pesquisas sociais das partes, mas pela interação que se dá entre elas.
empíricas. A explicação complexa está ligada não mais ao re-
A complexidade, como conceito nuclear, vem conhecimento do conteúdo das partes (dos seres
sendo abordada na ciência contemporânea como vivos, por exemplo) mas, somado a este reconhe-
fundamental para a compreensão de fenômenos cimento, a inter-relação que se dá internamente
em diversos campos do conhecimento. O pressu- nesse sistema e externamente com o ambiente. Este
posto da complexidade aponta para o reconheci- princípio da complexidade alimentará inúmeros
mento de que a simplificação obscurece as inter- trabalhos relativos à reflexão sobre os sistemas
relações de fato existentes entre todos os fenôme- culturais e societais, nas suas relações internas e
nos do universo e que é imprescindível ver e lidar com a sociedade.
com a complexidade do mundo em todos os seus Entender os fenômenos da vida na sociedade
níveis. pressupõe, segundo o pensamento complexo, con-
A idéia de “complexidade” ou “complexo” está textualizar estes fenômenos na sua relação com o
ligada, no cotidiano dos discursos, a “complica- todo (a sociedade) e com os sistemas singulares de
do”, à idéia da dificuldade explicativa para fatos, sua existência. A complexidade vai dialogar de per-
realidades, problemas. Tal dificuldade explicativa to com a incerteza e com o acaso, sendo, por essa
se refere comumente à diversidade de fatores e as razão, resistente aos modelos explicativos simpli-
implicações entre eles. Algo é complexo quando é ficadores e cartesianos que pretendem, através de
difícil de explicar, ou seja, quando não é simples. determinismos calcificados no positivismo, expli-
Não obstante, a origem da palavra, do latim car os fenômenos da vida. A rede causal é circular
complexus, diz respeito ao que “abrange ou encerra e dinâmica, amparada nos conceitos de ordem,
muitos elementos ou partes”, ou ainda, ao “con- desordem e auto-organização. Não significa, en-
junto de coisas, fatos ou circunstâncias que têm tretanto, segundo autores como Atlan6, negar o
qualquer ligação ou nexo entre si”. Ainda, segundo determinismo e as leis que estão presentes nos fe-
Aleksandrowicz 3, complexidade deriva de vocábu- nômenos naturais, por exemplo, mas apontar para
lo latino, significando “entrelaçado, abraçado, con- o aleatório, o ocaso, o ruído, que, ao contrário do
tido”, tendo, na língua portuguesa, adicionado ao significado para a comunicação, pode ser positi-
seu sentido literal de “intrincamento de circuns- vado como propiciadores de novas formas de res-
tâncias” uma nuance de dificuldade. posta e organização social.
A ênfase na complexidade como conceito ex- A noção de ruído vem da teoria das comunica-
plicativo para os fenômenos da vida em seus di- ções de Shannon, que aguçadamente utiliza deste
versos aspectos acentua-se, entretanto, a partir do conceito para construir a teoria da complexidade
início do século XX, quando novos empregos do pelo ruído. Na comunicação, ruídos são erros na
termo são utilizados e estudados, no campo da transmissão de mensagens e indesejáveis em uma
matemática (números complexos, algoritmos não comunicação, motivo pelo qual, na teoria da co-
simplificados), da química (corpos ou substânci- municação, não existe positividade na presença de
as com elementos diferentes ou heterogêneos são ruídos. No caso dos sistemas naturais, este evento
reconhecidos como associados), nos modelos da pode ser diferente. Os sistemas naturais criam vias
cibernética, nas teorias da informação e da comu- alternativas de comunicação na ocorrência de ruí-
nicação, na psicanálise e, atualmente, nas reflexões dos, tornando-se mais complexos. Nesta direção, a
da antropologia moderna e nas ciências sociais4. complexidade pelo ruído poderia explicar a comu-
Pensadores como Edgar Morin, Henry Atlan, nicação entre sistemas sociais que na presença de
Maturana, Varela, Michel Serres, entre outros, con- ruídos (aqui entendidos como fenômenos natu-
tribuíram de forma decisiva nas últimas décadas rais, sociais, entre outros) se complexificam para
para a construção da idéia de complexidade e seus criar novas formas de organização e sobrevivência.
modelos apontam principalmente para a necessi- Alecsandrovics3, referindo o pensamento de Atlan
dade da interação entre sistemas, sem perder o sobre a complexidade e sua discussão sobre auto-
potencial da diversidade. Silva5, apontando para organização, aponta também para a distinção que
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este autor faz entre racionalidade científica e racio- emitirem, no cotidiano de suas vidas, juízos ou
nalidade mítica. A racionalidade científica pretende opiniões, que são condições necessárias para viver
um controle da realidade concreta por meio da técni- e se comunicar em sociedades complexas.
ca, por sua vez, a racionalidade mítica é a que explica Estes esquemas sociocognitivos, acessáveis atra-
os aspectos da existência no plano dos desejos e valores, vés de depoimentos individuais, são entidades vir-
desta forma criando também a ética, conforme vivida tuais que, por isso, precisam ser reconstituídas atra-
pela maioria dos indivíduos e grupos sociais. vés de pesquisas sociais que comportem uma di-
Na reflexão sobre esta questão, o autor evi- mensão qualitativa e quantitativa.
dencia que as experiências de dor e de prazer de cada Tais pesquisas revelam um primeiro nível de
um são memorizadas em função de sua história in- complexidade do fenômeno das representações
dividual e coletiva e, sob efeito da memória e da sociais, que se traduz na constatação que o estudo
imaginação, o bem e o mal associados às experiênci- e o entendimento do pensamento coletivo implica
as sensoriais presentes são estendidos na duração e uma démarche complexa, na medida em que diz
deslocados no espaço. Nesta direção, podemos atri- respeito à articulação entre o virtual, ou seja, os
buir ao outro as mesmas experiências que as nos- esquemas, o individual, ou seja, os depoimentos e
sas, concebendo um bem ou um mal coletivos, re- o coletivo, isto é, o uso destes esquemas internali-
lativizados na forma de sublimar desejo e sofri- zados nas interações e comunicações sociais.
mento de cada grupo humano. O segundo nível, mais interno, de complexida-
A complexidade, como foi assinalado, pressu- de da problemática aqui discutida é dado pela pro-
põe comunicação e interação entre as partes do dução propriamente dita, nas pesquisas que usam
sistema e o todo. A comunicação estabelece a pos- o DSC, das representações como painéis de discur-
sibilidade de sobrevivência e auto-organização dos sos coletivos.
sistemas complexos, como as comunidades hu- O presente nível encerra uma problemática com-
manas. Alguns parâmetros podem apontar o mo- plexa na medida em que revela a presença e a neces-
vimento de complexidade de um sistema segundo sária articulação teórico-metodológica entre o ní-
Parreira7: o nível de informação utilizado pelo sis- vel anterior, mais teórico, cuja principal tarefa con-
tema nas suas decisões de ação, o grau de varieda- siste na “desvirtualização” das representações soci-
de interna do sistema, ou seja, a diversidade das ais e este segundo nível mais propriamente meto-
suas partes ou componentes, no plano cultural, dológico, que implica um encadeamento de opera-
socioemocional e estrutural, o grau de variedade ções que envolve a transformação do depoimento
externa do sistema, o número de entidades cultu- bruto em depoimento trabalhado, identificação do
ral e estruturalmente diferentes que interagem de sentido ou sentidos de cada depoimento, categori-
forma permanente e o grau de exposição da varie- zação, ou seja, agrupamentos de depoimentos se-
dade interna e externa, expresso em decisões e ações melhantes em conjuntos, denominação destes con-
que efetivamente dela resultam e a aproveitam. juntos, reunião de conteúdos de depoimentos se-
Assim sendo, pode-se colocar que ciência e a melhantes num depoimento único, entre outras.
pesquisa, munidas da intuição sobre complexida- O terceiro nível de complexidade diz respeito
de, estariam convergindo para a solução de ques- às relações entre este substrato empírico constitu-
tões a respeito de um mundo não mais fragmen- ído pelo painel de DSCs que expressam, descritiva-
tado e estratificado, mas complexo e que exige, mente, as representações sociais e o metadiscurso
portanto, soluções também complexas. teórico do pesquisador na sua tarefa de interpre-
Em conformidade como o referencial acima tação dos dados.
exposto, optou-se por segmentar em níveis a temá- Reunindo-se estas três “complexidades”, pos-
tica aqui discutida, para com isso poder revelar mais tula-se que a novidade do DSC, pela grande im-
claramente a complexidade inerente seja às relações portância que tal pesquisa confere aos discursos
intra-partes, seja às relações inter-partes, nas pes- das representações sociais como fenômeno empí-
quisas de representação social que usam o DSC. rico com alto poder de auto-organização, consiste
Antes, porém, de entrar, em nível analítico, no em que, nesta metodologia, as relações entre des-
detalhamento de cada uma das partes de nosso crição e interpretação, entre discurso e metadis-
argumento central, que busca indicar as possíveis curso na pesquisa do pensamento coletivo devem
relações entre o DSC e a idéia de complexidade, ser muito mais horizontais, ou seja, de diálogo, do
convém, sinteticamente, enunciar nossa tese, nes- que costuma acontecer normalmente, em que o
tes termos: mundo empírico aparece demasiadamente subor-
As representações sociais são esquemas socio- dinado ao metadiscurso teórico (digamos arro-
cognitivos de que as pessoas lançam mão para gante) do pesquisador.
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Podemos agora detalhar analiticamente estas Estas matrizes, por sua vez, existem, mas apenas
“complexidades”. como potencialidades que só adquirem forma e con-
sistência como representações sociais através da sua
metabolização pelas consciências individuais.
Complexidade nível I: produção individual Para que este produto das consciências indivi-
das representações sociais duais se transforme em representação social, é pre-
ciso pensar tal produto como um texto ou discur-
Esquematicamente, o que se busca colocar neste so narrativo, que veicula um dado posicionamen-
nível é que: to diante do tema pesquisado.
. As pessoas pensam ou são capazes de pensar A representação precisa ser um texto deste tipo
sobre temas que lhes digam respeito (até como con- porque só o texto narrativo - e nunca partes de
dição básica da sua existência como seres sociais ou, texto (palavras, por exemplo) - permite veicular
como diriam os gregos, como animais políticos); um ou mais sentidos, que revelam posicionamen-
. As pessoas pensam com base em representa- tos ou opiniões.
ções sociais, existentes (da perspectiva da pesquisa É preciso finalmente pensar que estes textos
social empírica) em forma virtual na sociedade. dependem do recorte do tema por meio de per-
Do ponto de vista da pesquisa social empírica, isso guntas estrategicamente compostas, de modo a
não significa dizer, evidentemente, que as repre- fazer com que as respostas dos indivíduos consti-
sentações sociais não sejam entidades concretas e tuam o melhor acesso possível às representações
nada virtuais: noticiários de TV, artigos de jornais sociais.
ou revistas, conversas de botequim ou cabeleirei- Podemos chamar toda esta etapa do processo
ro, entre tantos outros textos, são exemplos de de complexidade nível I porque envolve uma arti-
uma infinidade de oportunidades dos indivíduos culação entre o virtual, o individual e o coletivo,
receberem informações com as quais compõe as uma vez que se trata de representações sociais re-
suas representações sociais. Mas, parece-nos, tais sultantes de internalizações externalizadas e socia-
informações, em si, não constituem exatamente lizadas nas interações sociais cotidianas, que re-
representações sociais mas, mais apropriadamen- produzem e atualizam representações existentes
te, fontes de representações sociais: para se torna- virtualmente na sociedade.
rem e, mais ainda, para funcionarem, efetivamen- Todo este processo tem, neste nível, como ou-
te, como representações sociais, elas precisam pas- tput maior, a produção de uma matéria-prima (con-
sar pelo filtro das consciências individuais; junto de depoimentos de pessoas) de qualidade
Detalhando o esquematizado acima, diríamos para a pesquisa de representação social.
inicialmente que parece constituir constatação pri- Tal output aparece então como input para a
mária colocar que uma coletividade de pessoas, etapa seguinte, que se detalha abaixo.
sobre temas que são capazes de pensar, pensam
algo (nossa experiência empírica sugere, todavia,
que, pelo menos entre nós, brasileiros, as pessoas Complexidade nível II: re-produção coletiva
podem pensar ou opinar também sobre assuntos das representações sociais
que, em tese, não seriam, por não serem técnicos
no assunto, capazes de opinar). O segundo nível nas pesquisas com o DSC, o do
Mas, evidentemente, apesar da primariedade processamento da matéria-prima dos depoimen-
desta constatação, há todo um arcabouço teórico- tos, permitirá que se implemente a respeito do tema
metodológico prévio, que, a nosso ver, permite X, os discursos que revelam o que as coletividades
construir esta primariedade como uma questão pensam, como pensam o que pensam e como este
de pesquisa, ou seja, que viabiliza a construção da pensamento se distribui no espaço social.
opinião coletiva como um objeto a ser pesquisado Na técnica do DSC1, a matéria-prima produzi-
e acessado de modo cientificamente válido. da na etapa denominada complexidade nível I é,
Faz parte deste arcabouço teórico pensar as agora, na denominada complexidade nível II, me-
opiniões coletivas como representações coletivas todologicamente tratada com vistas à produção
ou sociais8, habitus9, ideologias, crenças, sistemas propriamente dita do pensamento coletivo sob a
simbólicos que, considerando as coisas esquema- forma de um painel de DSCs, selecionando-se as
ticamente, podem ser vistas como matrizes discur- expressões-chave das respostas individuais e iden-
sivas existentes nas formações sociais, às quais os tificando-se a ou as idéias centrais e/ou ancora-
indivíduos se reportam, para emitirem seus juízos gens correspondentes. Em seguida, as respostas
pessoais. individuais, assim tratadas, são reunidas a outras
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respostas que apresentam sentidos semelhantes ou De fato, um dos testes para saber se tal mode-
complementares, consubstanciando um depoi- lo/metodologia foi de fato implementado numa
mento síntese. O conteúdo deste depoimento sín- dada pesquisa concreta consiste em verificar se
tese é, por sua vez, editado, com o uso de uma série sujeitos entrevistados numa pesquisa que utiliza o
de técnicas para constituir o produto final que é o DSC, colocados diante dos discursos do sujeito
discurso do sujeito coletivo, ou seja, uma opinião coletivo que ajudaram a constituir, são, efetiva-
coletiva de uma pessoa coletiva, redigida na pri- mente capazes de se identificar com o mesmo e
meira pessoa do singular. dizer: “eu também acho tudo isso!” Temos experi-
Finalmente, as representações sociais sobre o ências concretas de “devoluções” de resultados de
assunto pesquisado, ou mais precisamente, seu pesquisas feitas com o DSC nas quais tal senti-
substrato discursivo, são constituídas pelo con- mento foi diversas vezes manifestado por partici-
junto dos discursos do sujeito coletivo relativos pantes das “devolutivas”. Foi o caso de trabalho
aos temas e subtemas pesquisados. que desenvolvemos em Itapecerica da Serra, São
Esta complexidade nível II revela a necessidade, Paulo10, envolvendo avaliação de um programa de
para se configurar as opiniões coletivas, de por em humanização do atendimento de saúde, e no Rio
prática um grande número de operações encadea- de Janeiro11, envolvendo avaliação da implantação
das que culminam no painel de discursos coletivos. um processo de vigilância à saúde com os funcio-
Com efeito, o processamento das respostas que nários da Secretaria da Saúde deste estado.
culmina na produção dos discursos do sujeito cole- Este sujeito coletivo pessoal ou pessoalizado e
tivo supõe: uma postura rigorosamente descritiva, seu discurso constituem, acredita-se, uma forma
a análise detalhada, a seleção do conteúdo relevante mais viva e mais “natural” de reconstrução e ex-
de cada resposta, a busca e a nomeação do(s) pressão das representações sociais, porque mais
sentido(s) manifesto(s) (as idéias centrais) e laten- “encarnada” em sujeitos. E isso porque se acredita,
tes (as ancoragens) presentes nos conteúdos das res- conforme explicitado na sessão “Complexidade
postas e, finalmente, a edição dos DSCs, condições nível I”, que é pela via das pessoas, que são seus
necessárias para que as pesquisas com o DSC sejam portadores, que as representações sociais funcio-
vistas como produções da ciência que possam, como nam, na prática, no dia-a-dia das interações so-
todo pensamento científico, ser criticadas nas suas ciais da vida cotidiana.
eventuais insuficiências ou erros e reproduzidas pe-
los pesquisadores que assim o desejarem.
Complexidade nível III: ressignificação
interpretativa das representações sociais
Pressuposto teórico-metodológico ou a emergência do diálogo

A soma destas duas complexidades pressupõe um O terceiro nível – o que classicamente é apresenta-
modelo sobre o que é o pensamento coletivo e uma do nos relatórios ou nos papers sob a rubrica “Dis-
metodologia destinada, através de pesquisas em- cussão e interpretação dos dados” – diz respeito às
píricas, a fazer emergir pensamentos coletivos so- perguntas: o que, do dado bruto das opiniões sob
bre temas específicos, que sejam conformes a este a forma de DSCs, pode ser destacado; por que as
modelo. pessoas pensam o que pensam; qual o contexto
Tal modelo/metodologia, esquematicamente, deste pensamento; quais suas consequências e quais
postula que : suas implicações práticas.
Os pensamentos coletivos ou representações Aqui, o lugar do sujeito da produção de sentido
sociais são metabolizações pessoais ou individuais das representações sociais muda de dono (o dono
de matrizes discursivas existentes virtualmente nas anterior era o sujeito empírico, o que produz o dis-
formações sociais, acessadas através de pesquisas curso da realidade) passando a ser ocupado, de
com indivíduos questionados através de pergun- modo explicito, pelo pesquisador-portador-da-teo-
tas abertas, metabolizações essas que, visando à ria ou do discurso sobre a realidade, ainda que,
atualização e expressão concreta, em forma de num primeiro momento (o da limpeza dos dados
opiniões coletivas, das matrizes discursivas virtuais, brutos), este pesquisador não esteja propriamente
são, sob a forma de constructos, agrupadas, por convocando um outro discurso, mas apenas desen-
semelhança semântica, em discursos síntese redi- volvendo um rearranjo interno das informações.
gidos na primeira pessoa do singular, de modo a Mas, da perspectiva do DSC – no qual o mate-
configurar um sujeito coletivo portador de uma rial empírico dos discursos individuais e coletivos
opinião, ou de um “eu acho...” social. das pessoas ganha um grande destaque – convocar
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outros textos para a tarefa explicativa, interpretati- Ora, como temos dois discursos em diálogo, o
va, contextualizadora das representações sociais segundo discurso, o do pesquisador/contexto não
resultantes da pesquisa, que consiste, como diria está explicando o primeiro, o discurso empírico da
Althusser12, em praticar teoria, vai implicar, da par- representação social: ambos estão explicando o
te do pesquisador portador do metadiscurso teóri- referente, isto é, em termos peirceanos, o objeto do
co, a necessidade de dialogar, o tempo todo, com o signo.
texto empírico, buscando, sempre, tornar a expli- Cada DSC e o conjunto de DSCs que veiculam
cação, a contextualização, as consequências e as as representações sociais conformam opiniões co-
implicações, compatíveis com este texto empírico. letivas completas e densas que, por isso, sugerem,
O diálogo do discurso com o metadiscurso, na incitam, estimulam a presença de outros discursos
perspectiva que aqui se defende, é, portanto, mui- (da teoria, do contexto, das implicações) com os
to diferente do habitual regime de relações existen- quais os DSCs podem, em condições de igualdade
te entre estes dois discursos na pesquisa social qua- discursiva, conversar, dialogar e deste diálogo re-
litativa tradicional, caracterizado pela dominação sultar um avanço no conhecimento apontando,
do discurso teórico sobre o empírico, que, no mais talvez, para resultantes semânticas inéditas e ines-
das vezes, se apresenta fragmentado, justaposto, peradas.
esparso, funcionando sobretudo como ilustração
e justificação para os posicionamentos teóricos do
pesquisador. Uma ilustração
Na pesquisa tradicional, o material empírico
dos pensamentos coletivos não é, como no DSC, Apresentaremos abaixo um exemplo de um proje-
um discurso coletivo completo (com categoria, to desenvolvido com o DSC que permite ilustrar
conteúdo, argumentos) mas, sempre, um compos- alguns aspectos da problemática aqui discutida.
to de pedaços, fragmentos, nomes de discurso sem Trata-se de uma pesquisa desenvolvida no ano
discurso (no caso das pesquisas com perguntas de 200214 por solicitação do Ministério da Saúde
abertas apenas categorizadas) que, por isso, preci- da Argentina, em parceria com a Organização Pan-
sariam ser “completados” pelo “único discurso” Americana da Saúde por ocasião da introdução
que, segundo esta visão e segundo a prática dela pelo governo daquele país da política pública que
decorrente, pode imperar na pesquisa, que é o exigia do médico a prescrição de medicamentos
metadiscurso teórico sobre a realidade, produzido exclusivamente pelo nome genérico. Os dados aqui
pelo pesquisador. apresentados referem-se à primeira etapa da pes-
Ora, é fácil ver por aí a porta aberta para a quisa e foram coletados junto a usuários e médi-
arbitrariedade ou para a violência simbólica13 da cos de hospitais públicos de Buenos Aires (Qua-
tarefa explicativa, que no fundo não está sendo dro 1 e Gráfico 1).
efetivamente mobilizada para explicar a realidade Vamos apresentar uma das perguntas que tem
mas para “auto-explicar” e reproduzir a própria como tema a relação entre qualidade e preço dos
teoria. medicamentos.
Com o diálogo do empírico com o não empíri- Pergunta:
co, proposto pelo DSC, temos de fato dois discur- Hoje na Argentina os médicos devem receitar
sos sendo confrontados e, consequentemente, preferencialmente pelo nome genérico e não pela
duas explicações: de um lado, o discurso empírico marca do medicamento. Isto significa que o paci-
das opiniões ou representações sociais, sob a for- ente poderá escolher os medicamentos entre as di-
ma de um painel de discursos do sujeito coletivo ferentes opções de preços disponíveis. A pergunta
que, como se assinalou no início, é um signo e, é: o/a senhor/a considera que medicamentos de
consequentemente, uma materialidade ou concre- preços diferentes podem ter a mesma qualidade?
tude que, enquanto fato simbólico e sociológico, (Hoy en la Argentina los médicos deben recetar
dá sentido e luz ao referente; de outro lado, temos preferentemente por el nombre genérico y no por la
outro discurso, com outro sujeito (o pesquisador- marca del medicamento. Esto significa que el paci-
portador-da-teoria), que é o discurso do contex- ente podrá elegir entre distintas opciones de precios
to, que de fato funciona aqui como um com-texto, en los medicamentos disponibles. La pregunta es: ¿Ud.
ou seja, como um texto com outro texto. considera que medicamentos de distinto precio pue-
den tener la misma calidad?)
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Lefevre F et al.

Quadro 1. Síntese qualitativa das representações sociais.

Categorias idéias centrais


SIM
A Porque os medicamentos podem ter preços diferentes, uma vez que o preço é determinado por vários
fatores que não têm necessariamente a ver com a qualidade do medicamento
B Porque a prescrição pelo nome genérico facilita o acesso da população aos medicamentos e também
permite ao consumidor a escolha da marca
C Porque confia nos órgãos governamentais, na seriedade dos laboratórios e nos médicos
D Desde o momento em que o Estado estabeleça controles, legislação e mecanismos de competição
adequados
COM RESERVAS
E Porque tem dúvidas sobre os mecanismos de controle de qualidade usados pelos laboratórios e farmácias
(controle de qualidade dos produtos feito pelas próprias empresas)
F Na atualidade, na Argentina, não há como garantir o controle de qualidade dos medicamentos pelo
Estado
NÃO
G Porque a qualidade de um medicamento depende de seu processamento. Os medicamentos de preço mais
baixo podem ter pior qualidade e os efeitos podem ser diferentes
H Porque quem deve indicar e informar ao paciente qual o medicamento mais adequado e qual o melhor
laboratório é o médico e não o farmacêutico
UMA SOLUÇÃO
I Monopolização da produção de medicamentos pelo Estado

45

40 MÉDICO
POBLACIÓN
35

30

25

20

15

10

0
A B C D E F G H I

Gráfico 1. Representações sociais de médicos e da população sobre a relação entre preço e qualidade dos
medicamentos. Buenos Aires, 2002.
1201

Ciência & Saúde Coletiva, 14(4):1193-1204, 2009


Vamos apresentar os discursos do sujeito co- mesmo gosto e produz a mesma necessidade e,
letivo correspondentes à representação A: “Porque então, por isso mesmo é que considero que sim,
os medicamentos podem ter preços diferentes, uma que os medicamentos podem ser de preços dife-
vez que o preço é determinado por vários fatores rentes e marcas diferentes e origens distintas e po-
que não têm necessariamente a ver com a qualida- dem servir para a mesma coisa, sim podem servir.
de do medicamento”, que nos mostram o argu- Em uma palavra, é o mesmo medicamento:
mento central dos discursos emitidos pelos indiví- não tenha medo de tomá-lo.
duos entrevistados, quando analisados, primeiro
em conjunto e depois separadamente. Médicos y población
DSC A
Porque os medicamentos podem ter preços di- Si, creo que si, que pueden tener la misma cali-
ferentes, uma vez que o preço é determinado por dad o el mismo efecto: son variables pero se pueden
vários fatores que não têm necessariamente a ver ser diferentes en peso sin embargo tener de la misma
com a qualidade do medicamento calidad, sale más barato pero es lo mismo, qué se yo,
(Porque los medicamentos pueden tener precios hace la misma acción, estos dos remedios iguales.
diferentes, una vez que el precio es determinado por El precio no es un indicador de calidad. La cre-
varios factores que no tienen necesariamente a ver encia habitual es a mayor precio mayor calidad. Sin
con la calidad del medicamento) embargo en muchos casos esto es engañoso, por ejem-
plo empresas que tienen una buena marca estableci-
Médicos e população da, abusan de la imagen de marca para posicionarse
en un precio alto y están ofreciendo, desde el punto
Sim, creio que sim, que podem ter a mesma de vista de la efectividad básica, exactamente lo mis-
qualidade ou o mesmo efeito: são variados mas se mo que otros de precio más bajo.
podem ser diferentes no peso, podem no entanto Seguramente hay medicamentos que por la mar-
ter a mesma qualidade; sai mas barato mas é a ca o por la antigüedad, o por lo que sea, se los cobra
mesma coisa, acho, produzem a mesma ação estes mucho más caros que otros medicamentos que son
dois remédios iguais nuevos en el mercado y pudieron entrar con precios
O preço não é um indicador de qualidade. A más económicos. Lo que pasas es que hay un aumen-
crença habitual é que maior preço, maior qualida- to desmedido del precio en las grandes empresas por
de. Isto, no entanto, em muitos casos, é um enga- el packaging, el marketing entonces creo que se pue-
no; por exemplo, empresas que têm uma boa mar- de conseguir drogas más baratas con menos inversi-
ca estabelecida abusam da imagem de marca para ón. Hay laboratorios que hacen investigación pero
posicionar-se com um preço mais alto e estão ofe- que tienen precios excesivos, aun utilizando la mis-
recendo, do ponto de vista da efetividade básica, ma monodroga hay mucha diferencia de precios.
exatamente o mesmo que outros remédios de pre- Le pongo un ejemplo claro: el dulce de leche. Hay
ço mais baixo. un dulce de leche de cierta marca y hay dulce de
Seguramente há medicamentos que, pela mar- leche de otras marcas pero que son elaborados por la
ca ou pela antiguidade, ou pelo que seja, têm pre- misma fábrica y por el sólo hecho de tener un nom-
ços mais caros que outros medicamentos que são bre, una marca, salen entre 2 ó 3 veces más caros,
novos no mercado e que podem entrar com pre- pero es el mismo dulce de leche, tiene el mismo gusto
ços mais econômicos. O que acontece é que há um y produce la misma necesidad, y bueno, por eso mis-
aumento desmedido do preço nas grandes empre- mo es por lo que considero sí que los medicamentos
sas devido ao empacotamento, o marketing; en- pueden ser de distinto precio y distinta marca y de
tão, acredito que se pode conseguir remédios mais distinto origen y pueden servir para lo mismo, y sí,
baratos com menos inversão. Há laboratórios que pueden servir.
fazem investigação mas que têm preços excessivos; En una palabra: es la misma droga, no tengas
ainda utilizando a mesma monodroga, há muita miedo de tomarla.
diferença de preços.
Coloco um exemplo claro: o doce de leite. Há Pode-se observar agora as diferenças entre os
um doce de leite de uma determinada marca e há estratos (médicos e população) quando os discur-
doces de leite de outras marcas, mas que são ela- sos são analisados isoladamente: vê-se com clare-
borados pela mesma fábrica e pelo simples fato de za que o discurso (favorável) da população é mais
ter um nome, uma marca, saem duas a três vezes enfático que o discurso (também favorável) dos
mais caro, mas é o mesmo doce de leite, tem o médicos.
1202
Lefevre F et al.

População tros laboratórios compram a droga para fabricá-


la, ou seja, que a diferença de preços às vezes não se
Seguramente há medicamentos que pela mar- justifica.
ca ou pela antiguidade, ou pelo que seja, têm pre-
ços mais caros que outros medicamentos que são Población
novos no mercado e que podem entrar com pre-
ços mais econômicos. Seguramente hay medicamentos que por la mar-
O preço não é um indicador de qualidade. A ca o por la antigüedad, o por lo que sea, se los cobra
crença habitual é que maior preço, maior qualida- mucho más caros que otros medicamentos que son
de. Isto, no entanto, em muitos casos é um enga- nuevos en el mercado y pudieron entrar con precios
no, por exemplo, empresas que têm uma boa mar- más económicos.
ca estabelecida abusam da imagem de marca para Así, el precio no es un indicador de calidad. La
posicionar-se com um preço mais alto e estão ofe- creencia habitual es a mayor precio mayor calidad.
recendo, do ponto de vista da efetividade básica, Sin embargo en muchos casos esto es engañoso, por
exatamente o mesmo que outros remédios de pre- ejemplo empresas que tienen una buena marca esta-
ço mais baixo. blecida, abusan de la imagen de marca para posicio-
Então sim, tranquilamente, os remédios po- narse en un precio alto y están ofreciendo, desde el
dem ter a mesma qualidade: são variados no peso, punto de vista de la efectividad básica exactamente
mas da mesma qualidade: estamos falando da lo mismo que otros de precio más bajo.
mesma droga si, o resto é estrutura e demais coi- Entonces si, tranquilamente, los remedios pue-
sas que se pagam e inclusive subornos aos médicos den tener la misma calidad: son variables en peso
(há muitíssimos subornos aos médicos). pero de la misma calidad; estamos hablando de la
Existem também laboratórios que fazem pes- misma droga si, el resto es estructura y demás cosas
quisa, mas que têm preços excessivos: ainda utili- que se pagan e incluso sobornos a los médicos ( hay
zando a mesma monodroga, há muita diferença muchísimos sobornos a los médicos).
de preço. Coloco um exemplo claro: o doce de lei- Hay también laboratorios que hacen investiga-
te. Há um doce de leite de uma determinada marca ción pero que tienen precios excesivos, aun utilizan-
e há doces de leite de outras marcas, mas que são do la misma monodroga hay mucha diferencia de
elaborados pela mesma fábrica e pelo simples fato precio.
de ter um nome, uma marca, saem duas a três Le pongo un ejemplo claro: el dulce de leche. Hay
vezes mais caro, mas é o mesmo doce de leite, tem un dulce de leche de cierta marca y hay dulce de
o mesmo gosto e produz a mesma necessidade e, leche de otras marcas pero que son elaborados por la
então, por isso mesmo é que considero que sim, misma fábrica y por el sólo hecho de tener un nom-
que os medicamentos podem ser de preços dife- bre, una marca, salen entre 2 ó 3 veces más caros,
rentes e marcas diferentes e origens distintas e po- pero es el mismo dulce de leche, tiene el mismo gusto
dem servir para a mesma coisa, sim podem servir. y produce la misma necesidad.
Por eso mismo es por lo que considero sí que los
Médicos medicamentos pueden ser de distinto precio y dis-
tinta marca y de distinto origen y pueden servir para
Sim, creio que sim, que podem ter a mesma lo mismo, y sí, pueden servir.
qualidade. O que acontece é que há um aumento
desmedido do preço nas grandes empresas pelo Médicos
empacotamento, pelo marketing; então; acredito
que se pode conseguir remédios mais baratos com Si, creo que si que pueden tener la misma cali-
menos inversão. dad. Lo que pasas es que hay un aumento desmedido
De fato, há medicamentos de diferentes labo- del precio en las grandes empresas por el packaging,
ratórios, tanto nacionais quanto internacionais, el marketing entonces creo que se puede conseguir
que têm variações nos preços e a qualidade, em drogas más baratas con menos inversión.
princípio, é a mesma porque clinicamente perce- De hecho hay medicamentos de distintos labora-
be-se que é a mesma. torios, tanto nacionales como internacionales que
Tudo depende da experiência pessoal, quer di- tienen variaciones en los precios y la calidad, en prin-
zer, há laboratórios que têm a droga original e tem- cipio, es la misma porque clínicamente uno lo ve que
se que pagar pela marca assim como pagamos a es la misma.
marca de um jeans ou a marca de outra coisa. Todo depende de la experiencia personal, es decir,
Sabemos positivamente que, por sua vez, ou- hay laboratorios que tienen la droga original y uno
1203

Ciência & Saúde Coletiva, 14(4):1193-1204, 2009


tiene que pagar la marca así como pagamos la marca Assim, entendendo-se, da perspectiva da semi-
de un jean o la marca de otra cosa. ótica, o “grau zero” do pensamento das coletivida-
Sabemos positivamente que a su vez otros labo- des como objeto do signo, referente ou virtualida-
ratorios compran la droga para fabricarla o sea que de, os discursos do sujeito coletivo, por serem de-
la diferencia de precios a veces no se justifica. poimentos coletivos, aparecem como explicações
descritivas deste referente que, assim, podem dia-
Estes resultados ilustram, a nosso ver, alguns logar com o metadiscurso teórico, que veicula ex-
elementos aqui discutidos da temática da comple- plicações interpretativas do mesmo referente, além
xidade na medida em que revelam: de poderem também – mas isso exigiria por certo
. como a pesquisa com o DSC pode gerar um uma discussão à parte que não cabe neste espaço –
painel de opiniões coletivas que, em conjunto e iso- “trialogarem”15 com outros modos ou modalida-
ladamente, apresentam alta densidade semântica; des de explicação descritiva como as que decorrem
. como uma mesma opinião adquire matizes de outras técnicas de geração de dados, como pes-
distintos na medida em que é gerada por atores quisa documental, a observação participante, a
sociais distintos (no caso, médicos e pacientes); abordagem etnográfica e outras.
. como resultados qualitativos (os discursos) e No campo da saúde (e, é claro, também fora
quantitativos podem se articular; dele), resultados inesperados deste diálogo ou “tri-
. como a empiria por si só pode, numa larga álogo” de explicações entre discurso e metadiscurso
medida, se auto-explicar. propiciado pelo DSC podem surgir, opondo, diale-
ticamente, sujeitos portadores de metadiscursos e
sujeitos portadores de discursos, ou seja, ciência
Conclusão (metadiscurso científico) e senso comum (discurso
do senso comum), perspectiva técnica e perspectiva
O DSC pode ser visto como um conjunto de artifí- leiga, médico e paciente16, usuário de serviço e pro-
cios destinados a permitir que o pensamento coleti- fissional, consumidor e sujeito de direito e tantas
vo, enquanto realidade empírica, se auto-expresse, outras oposições ou contradições, propiciando a
ou, usando o referencial da teoria da complexida- emergência da complexidade sob a forma de sínte-
de, se auto-organize, viabilizando o resgate e trazen- ses inéditas desta tensão epistemológica e socioló-
do à luz do dia as representações sociais sob a for- gica que apontem para o diferente e, consequente-
ma de discursos instituintes de sujeitos coletivos. mente, para a transformação social.

Colaboradores

Lefevre F, Lefevre AMC e Marques MCC partici-


param igualmente de todas as etapas de elabora-
ção do artigo.
1204
Lefevre F et al.

Referências

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ciales. Paris: Puf; 1989.
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10. Prefeitura de Itapecerica da Serra. Relatório de gestão. Artigo apresentado em 01/11/2006
Itapecerica da Serra: Prefeitura de Itapecerica da Ser- Aprovado em 26/02/2007
ra; 2000. Versão final apresentada em 05/04/2007