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PARECER JURÍDICO

Direcionado ao Sr. Gregório Duvivier


Ementa:
TRÁFICO DE ENTORPECENTES - CULTIVO DE MACONHA NO QUINTAL DA
RESIDÊNCIA - PROVA BASTANTE - DESCLASSIFICAÇÃO PARA O ARTIGO 28,
PARÁGRAFO 1º, DA LEI DE DROGAS INVIÁVEL - CONDENAÇÃO MANTIDA -
PRESSUPOSTOS DO ARTIGO 44, DO CÓDIGO PENAL ATENDIDOS - SUBSTITUIÇÃO,
DE OFÍCIO, DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE POR DUAS RESTRITIVAS DE
DIREITOS - APELAÇÃO DESPROVIDA. Os depoimentos de policiais participantes da
apreensão da droga são válidos para sustentar condenação, porquanto se harmonizam com os
demais elementos do conjunto probatório. O cultivo de maconha no quintal da residência
configura tráfico nos termos do artigo 33, parágrafo 1º, inciso II, da Lei nº 11.343/2006. Inviável
a pretendida desclassificação para o artigo 28, parágrafo 1º, da Lei nº 11.343/2006, porque não
há comprovação, nem mesmo simples indícios, de que a maconha cultivada se destinava para o
consumo pessoal do apelante. Defere-se, de ofício, a substituição da pena privativa de liberdade
por restritiva de direitos porque atendidos os pressupostos do artigo 44, incisos I e II, do Código
Penal. (TJPR - 3ª C.Criminal - AC - 1266554-0 - Goioerê - Rel.: Rogério Coelho - Unânime - -
J. 12.02.2015) (TJ-PR - APL: 12665540 PR 1266554-0 (Acórdão), Relator: Rogério Coelho, Data
de Julgamento: 12/02/2015, 3ª Câmara Criminal, Data de Publicação: DJ: 1518 04/03/2015)

RELATÓRIO.__________________________________________________________

Este Relatório está relacionado a hipótese de responsabilização diante do


consumo de drogas, bem como, o cultivo de drogas, de acordo com a Lei de Drogas.

Neste caso, leva-se em consideração o caso do Sr. Gregório Duvivier, em


razão de algumas declarações suas, em que admitia abertamente praticas esses dois tipos
penais citados.

Inicialmente, em 24 de novembro de 2015, o Sr. Gregório Duvivier declarou


abertamente em debate ocorrido no Instituto Singularidades, que possui dois pés (plantas
para cultivo) de maconha plantados em sua casa, bem como, intimou a polícia a prendê-
lo pelo crime.

Ainda, o mesmo argumentou o seguinte:

"Eu tenho pé de maconha em casa. Já estou falando isso há um ano,


esperando a polícia bater lá em casa e não bate. Já falei com todas letras!
Inclusive eu tenho dois hoje em dia já. Quem estiver no Rio, eu moro no
Jardim Botânico. Eu tenho lemon raze - não é o purple raze (tipos diferentes
de variedades da maconha), é uma cruza. Os dois são fêmeas, camarões
grandes. Já falei isso mil vezes. Me prendam! É proibido isso. Por que não
estão me prendendo? É porque sou branco, rico, moro no Rio de Janeiro, no
Sudeste, etc e tal. O debate não só comportamental, mas também financeiro.
A criminalização é da pobreza. Não é da maconha, do aborto. Crime no
Brasil é ser pobre", defendeu.1

Diante destas declarações, percebe-se claramente que o Sr. Gregório admitiu


possuir o cultivo de plantas cannabis sativa em sua residência para consumo próprio,
como se evidencia.

DO CULTIVO E CONSUMO DE DROGAS.________________________________

Neste ponto, a Lei de Drogas, de n° 11.343/06, é clara ao estabelecer o artigo


33, parágrafo 1° desta mencionada lei:

Art. 33. Importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar,


adquirir, vender, expor à venda, oferecer, ter em depósito, transportar,
trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar, entregar a consumo ou
fornecer drogas, ainda que gratuitamente, sem autorização ou em
desacordo com determinação legal ou regulamentar:
Pena - reclusão de 5 (cinco) a 15 (quinze) anos e pagamento de 500
(quinhentos) a 1.500 (mil e quinhentos) dias-multa.
§ 1o Nas mesmas penas incorre quem:
I - importa, exporta, remete, produz, fabrica, adquire, vende, expõe à
venda, oferece, fornece, tem em depósito, transporta, traz consigo ou
guarda, ainda que gratuitamente, sem autorização ou em desacordo
com determinação legal ou regulamentar, matéria-prima, insumo ou
produto químico destinado à preparação de drogas;
II - semeia, cultiva ou faz a colheita, sem autorização ou em desacordo
com determinação legal ou regulamentar, de plantas que se constituam
em matéria-prima para a preparação de drogas;

Sobre isso, sabe-se que o cultivo de drogas, em regra, é considerado crime de


Tráfico de Drogas, submetendo-se a pena do artigo 33 da Lei de Drogas. Ainda, como
caso exemplificativo contrário ao estabelecimento do tráfico, a 6ª Vara Criminal de
Santos inocentou da acusação de tráfico de drogas um médico ginecologista e obstetra
que plantava maconha em seu apartamento, em Santos, São Paulo. Além disso, para a
juíza Silvana Amneris Rôlo Pereira Borges, ficou comprovado no processo que o médico,
de 27 anos, plantou a erva para o próprio consumo e desclassificou o delito para porte de
drogas.

Apesar disso, acredita-se que o entendimento majoritário dos tribunais seria


a não desclassificação do crime de tráfico de drogas para o de consumo próprio. Isto

1
Notícia: http://ego.globo.com/famosos/noticia/2015/11/gregorio-duvivier-diz-que-tem-pe-de-maconha-
em-casa-em-debate.html
porque, para tal desclassificação ocorrer, faz-se mister que haja comprovação da
verdadeira utilização da cannabis cultivada para posterior consumo próprio.

Em relação a este consumo próprio, analisa-se o artigo 28 da Lei de Drogas:

Art. 28. Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou


trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em
desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às
seguintes penas:
I - advertência sobre os efeitos das drogas;
II - prestação de serviços à comunidade;
III - medida educativa de comparecimento a programa ou curso
educativo.
§ 1o Às mesmas medidas submete-se quem, para seu consumo pessoal,
semeia, cultiva ou colhe plantas destinadas à preparação de pequena
quantidade de substância ou produto capaz de causar dependência física
ou psíquica(...).

Sobre o artigo acima, observe-se que o mesmo em seu parágrafo 1°, entende
que as mesmas penas do consumo de drogas para uso próprio incorrem naquele que
“semeia, cultiva ou colhe plantas”, referindo-se estes atos, ao consumo pessoal, diferente
do parágrafo 1° do artigo 33 da mesma lei.

Por isso, a comprovação do efetivo plantio para consumo pessoal é de


extrema relevância, sendo cabal para a interpretação do juiz sobre a existência de crime
de Tráfico de Drogas ou Uso Próprio de Drogas. É bem verdade que, não havendo esta
mencionada comprovação, os entendimentos jurisprudenciais são no sentido de
reconhecer o crime de Tráfico de Drogas. É o que segue:

TRÁFICO DE ENTORPECENTES - CULTIVO DE MACONHA NO


QUINTAL DA RESIDÊNCIA - PROVA BASTANTE -
DESCLASSIFICAÇÃO PARA O ARTIGO 28, PARÁGRAFO 1º, DA
LEI DE DROGAS INVIÁVEL - CONDENAÇÃO MANTIDA -
PRESSUPOSTOS DO ARTIGO 44, DO CÓDIGO PENAL
ATENDIDOS - SUBSTITUIÇÃO, DE OFÍCIO, DA PENA
PRIVATIVA DE LIBERDADE POR DUAS RESTRITIVAS DE
DIREITOS - APELAÇÃO DESPROVIDA. Os depoimentos de
policiais participantes da apreensão da droga são válidos para sustentar
condenação, porquanto se harmonizam com os demais elementos do
conjunto probatório. O cultivo de maconha no quintal da residência
configura tráfico nos termos do artigo 33, parágrafo 1º, inciso II,
da Lei nº 11.343/2006. Inviável a pretendida desclassificação para
o artigo 28, parágrafo 1º, da Lei nº 11.343/2006, porque não há
comprovação, nem mesmo simples indícios, de que a maconha
cultivada se destinava para o consumo pessoal do apelante. Defere-
se, de ofício, a substituição da pena privativa de liberdade por restritiva
de direitos porque atendidos os pressupostos do artigo 44, incisos I e II,
do Código Penal. (TJPR - 3ª C.Criminal - AC - 1266554-0 - Goioerê -
Rel.: Rogério Coelho - Unânime - - J. 12.02.2015) (TJ-PR - APL:
12665540 PR 1266554-0 (Acórdão), Relator: Rogério Coelho, Data de
Julgamento: 12/02/2015, 3ª Câmara Criminal, Data de Publicação: DJ:
1518 04/03/2015)

Em relação ao julgado acima, entendeu-se que o cultivo de maconha no


quintal da residência configura tráfico nos termos do artigo 33, parágrafo 1º, inciso II, da
Lei nº 11.343/2006. Ainda, decidiu-se pela inviabilidade da pretendida desclassificação
para o artigo 28, parágrafo 1º, da Lei nº 11.343/2006, já que está ausente a comprovação,
nem mesmo simples indícios, de que a maconha cultivada se destinava para o consumo
pessoal do acusado.

DA CONCLUSÃO.______________________________________________________

Por isso, no caso concreto analisado referente as declarações prestadas pelo


Sr. Gregório Duvivier, entende-se que o mesmo precisaria comprovar de fato que possui
o cultivo de drogas (cannabis) para consumo pessoal visando a sua imputação no tipo
penal do artigo 28, parágrafo 1° da Lei de Drogas por ser menos gravoso, bem como, o
submeteria a penas como advertências, prestação de serviços e medidas educativas.

É o parecer.

Fortaleza, Ceará, dia 28 de março de 2018.

Anna Virginia Lemos Camila Vieira


OAB/CE n° 34.567 OAB/CE n° 35.458