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MULHERES NA REVOLUÇÃO RUSSA. CONFLITOS ENTRE LEI E VIDA.

Maria Orlanda Pinassi1

O princípio libertário foi poderoso nos primeiros dias da
revolução; a necessidade de liberdade de expressão revelava-se
imperiosa. Mas quando a primeira onda de entusiasmo recuou para
dar lugar às dificuldades prosaicas da vida cotidiana, eram necessárias
sólidas convicções para manter viva a chama da liberdade.
Emma Goldman2

Desde 1989, explicações políticas, econômicas, históricas, geográficas procuram dar
fundamento àquela experiência revolucionária genuinamente popular, que ousou libertar-se da
miséria opressiva de seus czares. Sem consciência real do papel que passaria a representar para
a humanidade, o povo russo, ainda que por um breve período, sentiu o gosto raro de romper e
abrir a própria história. Entretanto, a esperança de finalmente conduzir, com liberdade e
autonomia, a processualidade da revolução, foi arrebatada daquelas mulheres e homens que,
por longos e tormentosos anos, suspenderam suas vidas para construir um mundo melhor. De
todos os fatores explicativos, nenhum outro consegue ser mais esclarecedor do que o dramático
cotidiano vivido pelas camponesas e proletárias que, juntamente com seus filhos, foram do céu
ao inferno pela Revolução Russa. De um lado, a conquista de um ousado aporte de direitos
individuais que lhes prometia garantir os usos de uma nova moral sexual e a libertação das
tarefas domésticas. De outro, a realidade dramática de uma vida de misérias, abandono e
exploração do trabalho.

I. Uma breve contextualização

Uma profícua tendência evolucionista do marxismo do século XIX fez história na II
Internacional e tornou-se oficial na sequência pós-revolucionária. O evolucionismo,
entretanto, é muito mais promissor ao marxismo instrumental do que aquela tendência
de origem, seduzindo uma imensa legião de pensadores e ativistas revolucionários.
Partindo da ideia de Marx e Engels de que a revolução socialista explodiria nos países de
capitalismo avançado (Inglaterra e França), acreditava-se, e ainda se acredita, que a via
do desenvolvimento capitalista é um “fatalismo histórico”. Alegava-se que as
dificuldades do comunismo na Rússia se devia ao fato de ser um país atrasado, agrário
e composto de camponeses majoritariamente pobres e ignorantes. Entretanto, o

1
Pinassi, María Orlanda. Profesora de Sociología, FCL/UNESP, integra el Consejo Asesor de la revista
Herramienta y es autora del libro Da miséria ideológica à crise do capital: uma reconciliação histórica.
San Pablo: Boitempo Editorial, 2009. Colaboradora habitual de Herramienta.
2
O indivíduo, a sociedade e o Estado. São Paulo: Editora Hedra, 2007. (p. 87)

1

4 A derrota da revolução no ocidente. igualmente arruinado.próprio Marx. renta pagada a los grandes propietarios de tierras. precisaremos de dezenas incalculáveis de riquezas (. não constitui a causa da miséria. frio e doenças. 1975. se debe a los impuestos cobrados por el Estado y al OBROK. no entanto.. devido às suas características. (p.. Este aspecto do problema impõe a necessidade de uma transformação radical das formas de sociabilidade rumo à emancipação total. Habana: Editorial de Ciencias Sociales. no caso de uma transição socialista. trocou cartas com Vera Zassulich e Ludwig Kugelmann onde. se torna um imenso problema quando se põe foco nas formas tradicionais de exploração e opressão da mulher na sociedade agrária e patriarcal. justificariam a opção pela realpolitik – linha de menor resistência . 2 . política de desenvolvimento idealizada por Lenin para substituir o comunismo de guerra (1919-1920). Em duas passagens sobre a questão.) ao valor de centenas e até de milhões de rubros. Lejos de ser la causa de la miséria. principalmente. Mas não é possível manter o poder proletário num país incrivelmente arruinado com um gigantesco predomínio do campesinato. por fome.. 154). (. para receber ajuda dos grandes capitalistas avançados.. afirma que a comuna rural russa.. em seus últimos 15 anos de vida. diz o seguinte: (. a tragédia humana e social representada pelo envolvimento da Rússia na I Guerra Mundial. Cartas a Kugelmann. ao rever aquela ideia. Os caminhos abertos pela NEP (1921-1928).) É claro que tal medida é não apenas uma interrupção – em certo tempo e em certo grau – da ofensiva contra o 3 A questão do atraso. poderia ser sua solução3...) Tivemos que recorrer ao velho método burguês e aceitar um pagamento muito elevado dos ‘serviços” dos maiores especialistas burgueses (. mas.) la miséria del campesino ruso. Em carta de 1870. pelo qual logicamente cobrará juros exorbitantes. sem a ajuda do capital. a resignação ao “socialismo num só país” e. la propiedad comunitária es lo único que ha podido atenuarla. nos processos revolucionários e na Guerra Civil (1918-1921) que. al igual que la del campesino francês bajo Luis XIV. juntos resultaram na morte de 16 milhões de pessoas nos campos de batalha. Lenin argumentou que Enquanto não houver revolução noutros países.que converteu o que deveria ser uma transição socialista em transição para um capitalismo de Estado (Lenin). foram assumidos e radicalizados por Stalin mediante a industrialização forçada e a coletivização do campo (1928-1953). 4 Karl Marx..

os verdadeiros sujeitos da Revolução Russa. lutas salariais. ou seja. do controle social discriminatório e hierárquico. capital. São Paulo: Editora UNESP. à ação direta e à revolução social dos primeiros tempos. 7 Deste modo. soviético.org. Tragtenberg. p. 1989. transição para o comunismo e acabou sendo a finalidade última do processo. determinando os destinos da vida pública e privada das massas trabalhadoras. 2007. ao caráter popular e espontâneo das históricas greves na luta contra a fome. forte disciplina fabril com profunda hierarquização dos controles sobre o trabalho e assimetria salarial. pacíficas. Maurício Tragtenberg. contra a ausência de quaisquer direitos para camponeses e proletários. todos esses movimentos se entrecruzavam e caminhariam no sentido da educação revolucionária.br/coluna. a crítica mais contundente e que parece atingir o cerne do desvirtuamento que configurou a processualidade revolucionária atribui o fracasso ao caráter politicista8 imposto. entre outros. de 1918 e o massacre da “rebelião de Kronstadt.. A conversão do partido bolchevique em Estado. a consequente subsunção dos sovietes (conselhos) e o esmagamento das várias tendências libertárias e socialistas6 que tiveram papel decisivo nos êxitos da revolução de Outubro. A miséria da filosofia. políticas. que desde o primeiro momento proclamou uma política de redução dos altos ordenados 5 até o nível do salário do operário médio. “Os dilemas da Revolução Russa”. A revolução russa. a miséria. 7 Os episódios. op. dos 5 Lenin apud Augusto Buonicore. (p. Ver a respeito Karl Marx.9 A tragédia se confirma na permanência inabalável. 8 A política deveria ser mediação enquanto permanecesse latente a ameaça da luta de classes.vermelho. fossem elas parciais. à severa centralização econômica e à adoção do taylorismo como modelo de produção e de extração da mais- valia dos trabalhadores nas fábricas seguiram-se um rigoroso centralismo da política. como resposta das massas para uma organização sem a tutela de partidos ou autoridades carismáticas. 9 Ao analisar os movimentos de massa que antecedem a Revolução Russa. Trotski. Rosa Luxemburgo ressaltava a importância das greves. 111) 3 . fora um aviso da crise”. mas também é um passo atrás do nosso poder de Estado socialista. concorda com Rosa ao se referir aos sovietes. de Brest Litovsk (tratado de paz entre Rússia e Alemanha). em 1905. durante os 70 anos de história do pós-capitalismo. São Paulo: Global Editora. ensejaram a formação de uma burocracia partidária e estatal absoluta. econômicas. O resultado disso tudo é sobejamente conhecido. que reivindicava sovietes sem o controle do partido e liberdade ao camponês para produzir sem assalariados e vender seus produtos nos centros urbanos. cit. (p.php?id_coluna_texto=1183&id_coluna=10 6 Ver a respeito a enérgica luta da Oposição Operária pelo restabelecimento da democracia interna do Partido Bolchevique que teve Alexandra Kollontai entre suas lideranças mais expressivas. 159/160). 133). da propriedade privada na forma da exploração militarizada do trabalho. gerais. http://www. Para ela. de modo autoritário.

cujo potencial revolucionário se insurge em finais do século XV. É desse conceito que trata Hegel quando se refere ao período heroico da burguesia – a epopeia burguesa –.10 Isso explica o silenciamento das vozes mais radicais dos anos iniciais da onda revolucionária que sacudiu a Rússia já nas últimas décadas do século XIX e a repressão sobre os gestos e movimentos forjados na oportunidade mais explosiva de se construir uma verdadeira ética societária. No interior delas. Capítulo 17 “Formas mutantes de controle do capital” In: Para além do capital. São Paulo: Boitempo. 2002. e a verdadeira indisposição de se enfrentar as questões mais essenciais à superação da dominação de classe. As mulheres e as revoluções Muitos historiadores da Revolução Russa costumam comparar seus êxitos aos mesmos que resultaram na queda do Absolutismo na França de 1789. conforme ironizou Marx na Assim chamada 10 István Mészáros. despontam a acumulação originária com a fundação das classes sociais fundamentais do capitalismo futuro e a nova concepção de liberdade (os “homens livres como pássaros”. 216 a 346).imperativos alienantes e do princípio antagonista estruturador da sociedade regida pelo capital. permite entrar com precisão na particularidade objetiva de cada um deles. “a classe das mulheres atravessa todos os limites das classes sociais”. processo que põe em marcha a dissolução do velho e possibilita o vislumbre de um novo substantivo. pois. (p. já no início dos anos de 1920. No plano das ideias. há importantes pontos de convergência entre os dois episódios a partir dos quais o conceito de abertura radical da história. Explica também a insuperável contradição que. se estabelece entre o aporte jurídico fortemente libertário. desponta como a mais importante. De fato. como diz Mészáros. (p. No plano concreto. indivíduo. 4 . liderado pelo jovem jurista Pashukanis. o quadro se define mediante as várias fases do Renascimento com seus explosivos questionamentos filosóficos e artísticos acerca de humanidade. portadora das aspirações da emancipação humana. a emancipação feminina. 11 II. 701 a 786. 11 Consultar István Mészáros sobre a crise estrutural do capital e a essencialidade das questões feminina (igualdade substantiva) e ambiental (desenvolvimento sustentável emancipado do valor de troca) no capítulo 5 “A ativação dos limites absolutos do capital In Para além do capital. igualdade.

sobretudo Rousseau. protestaram. depois da Comuna de 1871. a empresa colonial que põe em marcha as ciências da navegação e da astronomia. Reivindicação dos direitos da mulher. a Revolução Francesa em seus desdobramentos internos e externos constitui a conclusão de um longo período de transformação social. de exploração do trabalho escravo e da monocultura para o mercado. Elas marcharam. Em 1848 todo aquele potencial revolucionário da burguesia se encerra abrindo a história para uma nova e ainda mais complexa luta de classes. 2016). Em que pesem as diferenças históricas entre as revoluções na França e na Rússia. o alto custo de vida e o desprezo de nobrezas perdulárias – uma absolutista. Não é coincidência que nas duas ocasiões ganhe destaque a presença massiva de mulheres do campo e das cidades em situação de pobreza. incontroláveis. no entanto. mas que permanecia no campo da estrita divisão do trabalho e na esfera da domesticidade da mulher. econômica. o desabastecimento. Essa autora é considerada precursora do feminismo liberal. a outra autocrática. essa participação se destacava do feminismo de talhe liberal que ganhava força já no século XVIII. a dominação do “novo mundo” e a larga aplicação de novas técnicas. ainda. cujas ideias refletem a influência crítica dos iluministas. política e cultural. ambas foram radicais e se originaram de graves crises sociais e explosivos levantes populares. se define com o liberalismo racional que aplica a centralidade da propriedade privada sobre todos os valores humanos. 12 As mulheres da Revolução Francesa foram essencialmente ativas como representantes de sua classe. contra a fome. e sim a primeira experiência concreta. em vez de seu sexo. O processo. desta nova luta de classes. 12 Ver Mary Wollstonecraft. (São Paulo: Boitempo. No caso francês. mais modernas.acumulação primitiva). As contradições entre o mundo das ideias humanistas e a realidade brutal do trabalho no eito e no chão de fábrica dão a tônica daquele ainda malparido padrão civilizatório de desenvolvimento. e. A Revolução Russa irrompe exatamente desta abertura histórica. 5 . mas ela não deveria ser conclusiva. consolidando-se através do Estado e das instituições liberais requeridas pela hegemonia societária da burguesia. a abolir a propriedade privada em todas as suas possíveis formas. Neste momento.

Mulher.. pouco obtiveram daquela revolução burguesa pautada nos lemas da igualdade. E. Nem mesmo a abstrata emancipação política que a caracterizou conseguiu contemplá-las.). (p. ainda era poderosamente condicionado por seu papel na família. A razão do enfrentamento tinha apelo prioritariamente econômico e. mas não como feministas com um claro programa para os direitos das mulheres. 40). liberdade.. Diferentemente das francesas. muito provavelmente. e sua participação nos protestos por pão era consequência direta de seu papel na aquisição e provisão de alimentos para suas famílias. para a maioria delas. Camponesas e proletárias russas também foram decisivas nas batalhas campais contra o velho regime. a participação das mulheres em assembleias populares. o reconhecimento de filhos ilegítimos e do direito de propriedade -. Mulheres urbanas há tempos eram responsáveis por complementar o salário de seus maridos. como seu trabalho. Estado e Revolução. não existia consciência política clara do gigantesco ato histórico que realizavam. sobretudo. fraternidade e na propriedade privada. Nas palavras de Olwen Hufton: ‘O protesto por pão foi um terreno materno’. As mulheres da classe trabalhadora apoiaram tremendamente a Revolução. (. São Paulo: Boitempo. mas tanto quanto aquelas continuaram em péssimas condições materiais. abrigo aos rigores do frio e o reconhecimento da sua existência social. Assim é que. fez com que se voltassem contra as forças da revolução. as mulheres do front exigiam emprego. A pulsão para a luta vinha do ódio ao regime e da necessidade de preservar suas próprias vidas.”13 Entretanto. 13 Wendy Goldman. as francesas pobres. 2016. pão. formaram clubes de mulheres e alistaram-se no exército. o recrudescimento da fome e os retrocessos do Código de Napoleão (1804) – que encerrou as atividades dos clubes independentes de mulheres (1793) e revogou direitos já adquiridos como a simplificação do divórcio e a oportunidade de se desfazer casamentos opressivos. 6 . De imediato. a história das revoluções de 1905 e 1917 não teria sido a mesma não fosse a ferocidade daquelas mulheres contra o desamparo reservado a elas e seus filhos pela autocracia czarista. as russas foram agraciadas com importantes direitos. mas seu ativismo.

Para se ter ideia do intenso ativismo do período. bem como trechos da Ideologia alemã e do Manifesto de 1848. a partir da difusão das ideias de Marx. Em 1913 foi realizado o I Dia Internacional das Trabalhadoras pelo Sufrágio Feminino. a pauta feminista vinha sendo amplamente discutida com a participação massiva de mulheres de todas as regiões do país em inúmeros congressos. da propriedade privada e do Estado. a questão adquire conotação social de classe. (p. Os estudos de Engels sobre o tema. “As vozes da revolução”. SP: Boitempo. 2017. os debates acompanhavam as feministas da Europa Ocidental girando em torno da conquista da cidadania. que escreveu com Marx. Bebel e Clara Zetkin sobre as mulheres. a União das Mulheres e o Jenotdiél (Departamento de Mulheres do Secretariado do Comitê Central do PC da URSS que foi criado por Kollontai e Inessa Armand e funcionou até 1930). o Partidos Progressista das Mulheres. Engels. Mas. Feminismo russo e leis revolucionárias O feminismo russo acumulava avanços desde os debates iniciados na década de 1850. o czarismo e o governo provisório que não havia incluído o sufrágio feminino na sua pauta”. surgiu em 1905) e a Liga da Igualdade de Direitos das Mulheres. durante a Conferência Internacional das Mulheres Comunistas foi instituído o dia 8 de março para se celebrar o Dia Internacional da Mulher a partir de 1922. como o sufrágio universal. elencamos aqui alguns dos seus encontros e organizações: I Congresso de Mulheres de Toda a Rússia (dezembro de 1908). Em 1921. III. Entre 1905 e a Revolução de Outubro. apresentação do livro A revolução das mulheres.). como a Sociedade Russa de Defesa das Mulheres. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra e A origem da família. responsável por organizar a histórica marcha das mulheres em 8 de março de 1917.14 De imediato. Outras ainda foram a União pela Igualdade das mulheres (a maior organização feminista da Rússia. 13) 7 . Esse episódio foi responsável pela Revolução de outubro quando “milhares de operárias têxteis iniciaram uma greve geral e se manifestaram contra a fome. a divisão social do 14 Ver Graziela Schneider (org. Órgãos associativos foram criados. trazem importantes e decisivas concepções sobre as mulheres. Congresso de Toda a Rússia para a Luta contra o Comércio de Mulheres (1910) e o I Congresso de toda a Rússia sobre a Educação de Mulheres (1913).

Clara parte da tese de Marx e Engels sobre a “inevitabilidade do trabalho feminino” sob o controle do capital. já citada aqui em suas correspondências com Marx. mais conhecida como a “mulher do Lenin”. cujo livro Mulheres e socialismo (1879). Numa sistematização inédita sobre gênero e classe. as necessidades específicas da questão feminina. do Partido Socialista Revolucionário. Na processualidade pós-revolucionária. entre outras. a hostilidade dos homens às mulheres decorria do receio de que a inserção delas no mercado de trabalho depreciasse as condições materiais e o poder de reivindicação da classe como um todo. Naquele momento inicial. para demonstrar que a luta de classes deveria uni-los e não antagonizá-los15. ainda nos prógonos da Revolução Francesa. deram contribuições fundamentais ao feminismo camponês e proletário. sobretudo. é preciso mencionar ainda os nomes da populista Vera Zassulich. da escritora de origem camponesa. Clara Zetkin manifestará sincero reconhecimento àquele estudo crítico e de intervenção numa situação muito adversa às mulheres no chão de fábrica e nas organizações operárias. Outra figura importante no debate foi August Bebel. 8 . de Maria Espiridonova. o empenho foi personificado. bolcheviques que ocuparam assento nos mais altos escalões do processo de consolidação da revolução. Depois de tanta luta e de tanto debate acumulado. se apresentavam como meta jurídica do Estado. da anarquista Emma Goldman. 55 e seguintes). pode ser considerado precursor no combate ao antifeminismo prevalecente no movimento operário europeu. que. por Alexandra Kollontai. Mas.trabalho e a desnaturalização da dominação patriarcal a partir da crítica radical à propriedade privada. Seguiram conquistando os direitos mais avançados da pauta feminista desde o início de sua história liberal. já na primeira hora. as mulheres russas pareciam ter a oportunidade real de sair de uma longa história de ostracismo e opressão. e por Inessa Armand. passando pelo sufragismo do século XIX até o obscurantismo 15 Ver o detalhamento dado à questão por Wendy Goldman no livro supracitado (p. Olga Chapír. Na passagem dos séculos XIX para XX. compreende-se porque. Bebel se opôs a essa tendência e se tornou grande defensor da unidade entre todas e todos pertencentes à classe trabalhadora. Krupskaia.

conseguiu a façanha de. Do ponto de vista do marxismo bolchevique. 79) Os bolcheviques enfatizavam fortemente o trabalho assalariado como pré- requisito para a libertação das mulheres justamente porque a luta para incorporar o trabalho feminino no movimento da classe trabalhadora era central para a igualdade da mulher trabalhadora no século XIX. no qual se destacou Pashukanis. São muitos os processos de transformação da lei. é preciso lembrar a tese da “inevitabilidade do trabalho feminino” tomada aqui. E. aprovar pautas tão fundamentais à mulher trabalhadora. que dissolve a família e obriga que a mulher integre o mercado de trabalho. pressupõe a abolição da propriedade privada a partir da Economia Política.atuante de nossos tempos. a primeira redação do Código da Família é já de 1918. bem como é muito acirrada a discussão até sua versão final. à propriedade e de participação nas decisões da vida na comunidade. com menos ousadia porque estrito ao velho direito consuetudinário da vida camponesa. Compreende-se isso. 3) dissolução da família tradicional. Seu comprometimento com a socialização do trabalho doméstico e o definhamento da família eram respostas diretas aos ataques do capitalismo sobre a família e os papeis de gênero tradicionais. em tão poucos anos (1917-1926). Os juristas que participaram do debate. mas foi retomado em 1923 e aprovado mesmo só em 192616. paradoxalmente. Conforme Wendy Goldman (p. por mais desenvolvido. quando Marx se refere ao processo de produção e reprodução capitalista. é importante considerar que se destinavam a um país com 84% de sua população vivendo no campo sob o peso da igreja e das tradições. procurou minimizar o peso do controle patriarcal ampliando os direitos materiais da mulher à terra. Por exemplo. 2) socialização do trabalho doméstico. Nenhum país capitalista. seriam quatro os elementos a orientar a liberdade feminina: 1) união livre e a formação de uma nova moral sexual revolucionária. a questão parece muito problemática no contexto de uma revolução que. Mas. na forma de trabalho assalariado. O trabalho assalariado feminino e as consequências que lhe seguiram forneceram o elo entre os vários componentes da visão bolchevique. tão ou mais importante. e 4) a libertação das mulheres pelo trabalho assalariado. como meta essencial à emancipação feminina. como já se disse 16 O Código de Terra foi aprovado em 1922 e. Sobre estes pontos. 9 .

anteriormente. recaía sobre a criação de centros de educação socializada das crianças e adolescentes. o Estado deveria incumbir-se de oferecer-lhes cozinhas. Procurou-se enfrentar. principalmente. abandonadas. para preservação do próprio poder e das tradições patriarcais do imenso Império Russo. Mas a proposta mais revolucionária. ainda.17 A fim de liberar as mulheres para o trabalho nas fábricas. Muitas vezes. e 2) pelo flagelo representado pelas crianças abandonadas e pelo enorme número de infanticídio cometido por trabalhadoras urbana. deu enorme incentivo ao casamento civil (em competição com Igreja que mantinha a hegemonia sobre os casamentos no país) e. algo ausente sob o despotismo czarista. promoveu importante ampliação aos processos de pensão alimentícia acionados por mulheres casadas. precisaram arbitrar acima da letra da lei – ainda indefinida . mesmo entre os revolucionários próximos dos centros de decisão. o código previa a construção inédita de direitos para a valorização dos indivíduos. De modo geral. aos filhos legítimos e naturais. e das mais controvertidas também. legislava com a mão de ferro do direito consuetudinário. provocou uma grande polêmica.para protegê-los. amplia a abrangência da lei ao dar proteção às mulheres em situação de casamento legal e casamento de fato. eram radicalmente libertários e tendiam a proteger sem questionamentos a causa da mulher e da criança. que. os imensos problemas representados 1) pela prostituição que se difundia assustadoramente. a dura realidade das mulheres e seus filhos submetidos a toda sorte de violências e opressões. uma atribuição exclusiva do Estado. lavanderias e restaurantes comunitários. Além disso. nos tribunais. solteiras. na sequência das discussões e das urgências da realidade. esses juristas enfrentavam. algo que deveria ser. principalmente entre mulheres da classe trabalhadora (60%). 17 Importante mencionar também a lei para a retirada do véu e o fim da poligamia em locais de tradição muçulmana com a alegação de que utilizavam as mulheres para fins de exploração do seu trabalho. Como era de se esperar. à mãe solteira. sem distinção. a partir de então. com a defesa da união livre. O código aprovou e colocou em prática a desburocratização do divórcio e fez o mesmo ao legalizar e dar suporte ao aborto. 10 . Num primeiro momento. tocados com o trabalho de funcionários e funcionárias pagos para isso. independentemente da sua condição civil e faixa etária.

eram imensos e cada vez mais intransponíveis os obstáculos que a realidade concreta opunha à objetivação plena daqueles ideais. ao desamparo. Durante a Guerra Civil. Os êxitos da Revolução de Outubro não foram acolhidos por um cenário economicamente favorável. Em 1921. De outro. enquanto que as famílias se desfaziam não da forma planejada em lei. longe de ser positivo a esses segmentos historicamente vulneráveis. de 1921. trabalho. mas pelas contingências das necessidades mais imediatas. Mulheres. as mulheres e as crianças assumem os trabalhos até então ocupados pelos homens convocados. na Guerra Civil (1919-21) e pela aplicação da NEP (Nova Política Econômica). escarlatina. uma seca severa na região do Volga extermina de 90 a 95% das crianças com menos de 3 anos e quase um terço das crianças com 3 anos ou mais. como ideal de liberdade. na Guerra Civil. IV. nos processos revolucionários. vai significar ainda mais desgraças. As condições climáticas tão pouco contribuíram para uma recuperação do colapso social. um milhão de vidas desperdiçadas. cólera. mas por uma realidade de muita miséria e mortes. pobreza Apesar dos avanços. Outros milhões pereceram de fome. A “paz” que se seguiu ao fim da guerra civil. por salários muito inferiores aos deles. de seca. 11 . trabalhadoras assalariadas e dos milhões de crianças jogadas numa situação de enorme pobreza decorrente de invernos rigorosos. Somente na I Guerra. De um lado.5 milhões de homens. a Rússia perdeu 2. retomam seus trabalhos nas fábricas enquanto as mulheres e as crianças são lançadas ao desemprego. particularmente das mulheres camponesas. ao desespero. O inverno de 1916/17 provocou desabastecimento das cidades e os preços subiram drasticamente. dos impactos provocados pelo envolvimento da Rússia na I Guerra Mundial. o debate teórico e a legislação ousada que a duras penas começava a ser implantada a partir de 1918. frio e epidemias como tifo. a situação real de toda a União Soviética. Os homens que retornam. As condições de vida decaíam de modo vertiginoso.

12 . um vácuo intransponível entre as grandes ideias de emancipação feminina – sobretudo daquela que acreditava na libertação pelo trabalho assalariado – e suas necessidades humanas mais primárias. promove-se uma redução dos lares de crianças abandonadas19. Nenhuma das orientações pedagógicas da revolução. sempre funcionaram de modo muito precário. continuavam a perder seus empregos e. 97) 19 Esses lares. No entanto. fugiam de suas famílias desfeitas e iam para as cidades em busca de comida. A realidade ameaçadora do desemprego exigia que as mulheres se submetessem aos trabalhos e aos salários mais degradantes na lógica hierárquica da produção taylorista das fábricas. sem ter onde deixar seus filhos. (p. acumulando toda sorte de humilhação e exploração. foi ainda pior para as mulheres e seus filhos. sozinhos ou em bandos. perto dos trilhos. Concentravam-se em grupos nas estações de trem e mercados. se teve impacto negativo sobre toda a classe trabalhadora. O número de abortos cresceu assustadoramente. Conhecidos como crianças sem lar viajavam ilegalmente em trens. embaixo de pontes. assim. criados em caráter de urgência. Viviam como criaturas selvagens.A NEP. Muitas. de uma ponta a outra do país. Para as crianças de rua a situação não foi muito diferente já que a solução do Estado foi destiná-las à adoção por famílias interessadas na exploração desta abundante e gratuita força de trabalho. As mães. ao perderem um ou os dois pais. abandonavam-nos quando não cometiam infanticídios. Dormiam nas ruas.18 Alegando um necessário corte das despesas do Estado. Viam a autoridade dos adultos com uma mistura de medo. Op. incapazes de sustentá-los. hostilidade e suspeita. roubando. O retrocesso foi inevitável. pedindo. ” Wendy Goldman. com a redução dos salários e das rações para sobreviverem. Ao mesmo tempo. com incentivo à pequena produção industrial. havia cerca de 7.5 milhões de crianças ‘famintas e moribundas’ na Rússia. criada por Lenin para revitalizar a economia através da reconstrução do mercado. arrebatando carteiras e prostituindo-se para sobreviver. creches e abrigos para mães solteiras. Abria-se. fora do alcance das instituições socializadoras da família. em prédios abandonados. e desafiavam constantemente os esforços dos educadores para desalojá-los em lares ou colônias de crianças. para contrair novo casamento. Cit. comercial e agrária. de tratar e educar com dignidade as crianças e os adolescentes da revolução conseguiram ser colocadas em prática. A revolução popular da Rússia de 1905 e 1917 ensejou uma abertura radical da história com a expectativa de superar a luta de classes revelada em 1848 na França. assim como o de divórcios requeridos por homens que queriam livrar-se do casamento e da prole. 18 “No começo de 1922. a situação em geral obrigava que regressassem para o espaço da reprodução e da dominação doméstica. escola ou comunidade.

junto com uma necessidade social real. os meios de satisfazê-la. Só a experiência é capaz de corrigir e de abrir novos caminhos. Compreende-se. No interior deste processo. exatamente como a natureza orgânica. A ditadura do proletariado se voltou contra o proletariado e se definiu como mais um salto necessário à expansão e acumulação do capital. Apenas uma vida fervilhante e sem entraves chega a mil formas novas. não pode ser outorgado nem introduzido por decreto. excluindo a democracia. em A revolução Russa. para a emancipação humana. é claro que o socialismo. enfim. a sua solução. as condições materiais objetivas das mulheres desafiaram a realização de um conjunto de leis revolucionárias e a postergaram para um futuro ainda incerto de transição para a emancipação feminina. Se a vida pública dos Estados de liberdade limitada é tão medíocre. então. porque o socialismo foi convertido num mero postulado moral por um Estado-partido que agigantava seu poder militarizado de controle interno sobre uma realidade social essencialmente desesperadora. E assim sendo. põe a nú o fracasso da revolução e da necessária transformação do sujeito revolucionário que não pode ser “instituída por decreto”. é justamente porque. resultando do fazer-se da história viva que. como disse Rosa Luxemburgo. ela obstrui a fonte viva de toda riqueza e de progresso intelectual.. Ou. O sistema social socialista não deve e não pode ser senão um produto histórico. ao mesmo tempo que a tarefa a realizar. tão miserável. nascido na hora da sua realização. corrige ela mesma todos os seus erros. tão infecunda. improvisações. tão esquemática. desta vez no atrasado leste europeu. da qual faz parte em última análise. tem o belo hábito de produzir sempre.. mantém a força criadora. por sua própria natureza. O quadro.a política pós-revolucionária do partido único contribui com o fechamento da história ampliando as estratégias de recriação da propriedade privada. 13 . na forma de extração do sobretrabalho pelo Estado. nascido da própria escola da experiência.