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Venezuela:

UMA REBELIÃO POPULAR SITIADA E AGREDIDA PELA DIREITA E


PELO IMPERIALISMO

“Não queremos que o socialismo seja em nosso continente nem decalque nem cópia. Deve
ser uma criação heroica”. José Carlos Mariátegui.

No momento de escrever este texto, tomávamos conhecimento do resultado da votação para a


Assembleia Constituinte, convocada pelo governo de Nicolás Maduro na Venezuela. Mais de oito
milhões de votantes segundo as cifras oficiais fornecidas pelo Conselho Nacional Eleitoral. E vale
lembrar que na Venezuela existe um dos sistemas eleitorais mais confiáveis, onde os votos são
controlados duas vezes com cédula de votação e com a digital de cada votante.
Esses milhões de venezuelanos elegeram 364 delegados territoriais (algo assim como delegados
municipais) e 173 delegados setoriais ou temáticos (camponeses, pescadores, representantes das
comunas, aposentados, estudantes, pessoas com deficiências, trabalhadores, pequenos empresários,
etc.). A eles se somarão 8 representantes dos povos e comunidades Indígenas eleitos por
assembleias, totalizando assim 545 constituintes. E o fizeram desafiando todas as ameaças da
direita, com seus franco tiradores, incendiários, vândalos e sicários.
Esse foi o evento eleitoral número 21 nos últimos 18 anos da história de Venezuela.
Desde a primeira eleição - que Chávez ganhou em dezembro de 1998 com 57% dos votos - até
agora, vem se desenvolvendo nesse país uma das experiências contemporâneas mais ricas e
dinâmicas da luta de classes, e ao mesmo tempo extremamente complexa, não livre de contradições,
de avanços e retrocessos, de conquistas e derrotas. Devemos dizer também que poucas vezes uma
rebelião popular foi objeto de tantas polêmicas, controvérsias, visões encontradas e incompreensões
dentro das organizações populares e da esquerda em nosso continente.
A importância desse processo para nós é que em que pesem seus limites e problemas, o
chamado processo bolivariano tem componentes importantes de um processo de rebelião popular
com enfrentamentos ao imperialismo, à burguesia venezuelana e constituição de políticas sociais e
espaços de poder de base muito importantes e que devem ser defendidos perante a ofensiva
reacionária da direita que hoje tem seu centro na Venezuela mas abarca toda a América Latina. Ao
mesmo tempo, apenas a mobilização a partir da base e com viés socialista dos trabalhadores e do
povo pobre é que pode fazer o processo sair do impasse e avançar.
Por isso, ao final, apresentamos também alguns eixos programáticos para discussão.

Um pouco de história (*)


Para tentar ajudar a lançar para uma melhor análise da atual realidade venezuelana, achamos
útil começar relembrando fatos importantes com que foi se construindo sua história recente.

O “Caracazo”
El 27 de fevereiro de 1989 a capital venezuelana foi sacudida pelo estouro do “Caracazo”, uma
extraordinária rebelião popular que se levantou para protestar contra um pacote de medidas de
ajuste contra o povo, anunciada pelo governo do presidente Carlos Andrés Pérez.
Nos meses de janeiro e fevereiro desse ano os capitalistas donos das grandes empresas
alimentícias e os grandes comerciantes especularam e tiraram de circulação produtos de primeira
necessidade, o que provocou grave desabastecimento. Essa situação, somada à indignação
acumulada pela aplicação durante anos de uma política econômica que condenava a ampla maioria
dos trabalhadores e o povo à exclusão social e à pobreza, criou as condições para essa rebelião.
O governo de C.A.P. mandou reprimir de forma violentíssima e exagerada, deixando um saldo
de 1500 mortos, na sua maioria jovens.
Com o “Caracazo”, se abre uma crise de dominação dos dois grandes partidos (Ad e COPEI)
que vinham se alternando no poder durante quase quarenta anos.
A partir daí, nada seria mais igual na Venezuela. As classes subalternas, historicamente
esquecidas, haviam irrompido na cena política e social e começava a se escrever uma outra história
nesse país do Caribe.

Chávez e o MBR 200


Essa mobilização que, com a repressão, longe de se acalmar, continuou se desenvolvendo a
ritmo vertiginoso, se conectou com um movimento dentro do exército e as Forças Armadas de
características inéditas na América Latina desses anos. Diferentemente da maioria dos países do
continente, onde os que ingressam na academia militar provêm das classes médias acomodadas e
altas, na Venezuela as Forças Armadas se nutrem dos setores mais baixos e populares da sociedade.
Em 1983, tinha se formado o Movimento Bolivariano 200 (MBR 200), composto por grupos de
militares nacionalistas que se inspiravam nos ideais libertadores e patrióticos de Simón Bolívar.
Esses militares se indignaram com a brutal repressão desatada contra o povo que havia se levantado
no Caracazo, entendendo que não era esse o papel que deviam cumprir as Forças Armadas.
Em 4 de fevereiro de 1992 se produz a revolta que assaltou o Palácio do governo. Esse
movimento foi derrotado e seu líder, o Tenente Coronel Hugo Chávez Frias, foi parar na prisão.
Em 27 de novembro do mesmo ano se produz outro levante militar, desta vez protagonizado
por componentes da alta hierarquia, que foi apoiado por setores da esquerda. É importante aqui
ressaltar que essas sublevações militares nada tinham haver com os golpes de estado que sofremos
na maioria dos países de América Latina. Tratava-se de setores das forças militares com uma
formação e cultura ligada a ideais patrióticos, nacionalistas e de raiz popular, que visavam intervir
na realidade para acabar com a corrupção dos governos e entregar o poder ao povo por meio de uma
Assembleia Constituinte.
Em 1994 o governo de Rafael Caldera - surgido de uma aliança entre o PCV (Partido
Comunista) e o MAS- recentemente eleito, libera os militares que estavam cumprindo prisão.
Chávez começa uma campanha por uma Assembleia Nacional Constituinte. A situação econômica
do povo só piorava.
Com o tempo o MBR 200 se converte numa organização política de massas
E em coligação com forças de esquerda e centro-esquerda, leva à vitória o candidato Hugo
Chávez nas eleições presidenciais do 6 de dezembro de 1998,
Em 2000 Chávez vence novamente as eleições - desta vez com mais do 60 % dos votos -, e
sanciona uma Nova Constituição elaborada pela constituinte de 1999 e posteriormente referendada.
A partir da sanção dessa nova Constituição começa a se construir uma identidade e uma
subjetividade diferente nos trabalhadores e sectores populares. Os conceitos de Democracia
Participativa e a reafirmação de direitos populares vão alicerçando a percepção e a ideia nas classes
populares de que é possível intervir e modificar a realidade.
Frente a essa nova situação, começa a se conformar um bloco opositor de direita no qual se
confluem setores da Igreja Católica, militares opositores, os burocratas sindicais da CTV, grandes
empresários nucleados na FEDECAMARAS e claro, o imperialismo dos EUA que financiou e
definiu a estratégia a seguir por esse arco opositor.
“A estratégia desenhada pela CIA partia da necessidade de unir numa ferramenta comum os
sindicatos, empresários, ONG’s e partidos de oposição, que permitisse superar as diferenças de
todo tipo que cruzavam o bloco. Alcançada a unidade – papel que jogaria a chamada
Coordenadora Democrática (CD), organização na qual se agrupou a maioria das tendências anti
Chávez - tratava-se de iniciar uma ativa mobilização, que devia incluir paralisações, sabotagens,
marchas, e ações de todo tipo que aceleraram a reação das forças bolivarianas. A ideia era que as
respostas do governo facilitaram sua estigmatização internacional e local, para que aparecesse
como violador dos direitos humanos, o que permitiria o passo final: quebrar as Forças Armadas e
instalar o golpe de Estado. A receita foi seguida ao pé da letra. Para que sua aplicação fosse
possível, contou com o segundo fator, que deu consistência ao plano: uma sólida hegemonia
ideológica da classe dominante local sobre a maioria da classe media venezuelana”1
Em meados de 2001 o governo impulsiona um conjunto de medidas que irritaram e acenderam
todas as luzes de alarme da oligarquia e do imperialismo, como a Lei Orgânica de Hidrocarbonetos
que incrementava em cerca de 30 % os tributos das multinacionais na extração de petróleo, e fixava
em 51% a participação mínima do Estado nas sociedades mistas. Também a Lei de Pesca, pela qual
se restringia fortemente a pesca comercial dos grandes pesqueiros e beneficiava aos pescadores
artesanais. E também a Lei de Terras e Desenvolvimento Agrário, que permitia expropriar
latifúndios e facilitava o acesso à terra dos camponeses.
A resposta da oposição não se fez esperar e decidiu partir para o confronto nas ruas. Primeiro
foi um paralisação (lockout) patronal em dezembro de 2001. Outro de seus detonadores foi a
tentativa do governo de ter maior controle sobre a empresa petroleira PDVSA (Petróleos da
Veneuzela).
Em abril os setores de direita convocaram uma nova paralisação que se tornou por tempo
indeterminado e que derivou no golpe de Estado que depôs Chávez por dois dias. Assume como
presidente golpista o empresário Pedro Carmona, que de imediato anula todas as leis adotadas pelo
governo, incluindo a nova Constituição. Mas, uma fortíssima mobilização de massas de milhões de
trabalhadores, enfrenta a repressão e consegue derrotar o golpe, devolvendo Chávez ao poder.
Abre-se então um período onde, por um lado se radicaliza a ação das massas, e por outro, a
partir do poder, Chávez procura abrir um diálogo com a oposição, recuando inclusive das medidas
mais radicais contra a diretoria e os tecnocratas da PDVSA.
A resposta da direita foi a convocatória a uma nova paralisação por tempo indefinido com o
objetivo explícito de derrubar Chávez. A ação, convocada por FEDECAMARAS, a CTV, a CD e
apoiada amplamente pela mídia, foi conhecida como “Golpe Petroleiro” e se estendeu por dois
meses, de 2 de dezembro de 2002 até 3 de fevereiro de 2003. As consequências econômicas desta
paralisação foram enormes. Rapidamente se sentiu a falta de gasolina, alimentos e produtos de
primeira necessidade. Houve quebra de empresas e muitos trabalhadores despedidos.
Foram novamente as massas, desta vez com epicentro na classe trabalhadora que derrotaram a
ofensiva reacionária, ocupando as principais empresas para colocá-las para produzir.

1 Sergio Nicanoff e Fernando Stratta Apuntes para uma historia de La Revolución Bolivariana. O texto fala sobre a
estratégia da direita em 2001, e parece que estivéssemos descrevendo os fatos dos dias atuais.
“Dezembro-janeiro de 2003 mostrou assim a potencialidade e capacidade dos trabalhadores
já que, enfrentando os proprietários e diretores das empresas, ocuparam as instalações e foi
exercido de forma efetiva o controle operário sobre a produção, não apenas na PDVSA mas
também no sector elétrico e em numerosas empresas privadas, o qual encheu de orgulho e fez com
que milhares de ativistas e lutadores assumissem um compromisso ainda maior com o processo
revolucionário.”2
Nos meses seguintes dois fatos são dignos de destaque. Depois de retomar o controle da
empresa petroleira e das indústrias estratégicas, o governo começa a implementar as “Misiones
Sociales” (Missões Sociais) destinadas a responder às necessidades populares de educação, saúde,
alimentação, etc - iniciativa que procura criar e sustentar projetos que visem solucionar em parte as
deficiências de um estado burocrático, se apoiando cada vez mais na auto-atividade das massas.
“De uma forma totalmente diferenciada dos planos de ajuda neoliberais, já que não se trata de
planos focalizados, senão plenamente universais, entre suas conquistas se contam a alfabetização
de 1.300.000 analfabetos, o acesso de 2.000.000 de pessoas ao ensino médio e superior, e a
segurança alimentar de 17 milhões de pessoas. Entretanto, sua maior riqueza, não-isenta de
ambiguidades e conflitos, reside no enorme protagonismo popular que se gesta em volta desta
experiência potencializando os laços sociais e organizativos do povo venezuelano”3. O segundo
fato importante desse período foi o resultado do referendo de 15 de agosto de 2004, em que ganhou
com 60 % o “NÃO”, que assegurava a permanência de Chávez no governo até o fim do mandato.
Em dezembro de 2006 Chávez foi reeleito com 62% dos votos. Um ano depois sofre a primeira
derrota eleitoral num referendum para modificar a Constituição. Mas apesar dessa derrota, pouco
depois lança a iniciativa de criar as Comunas.
As Comunas são Conselhos Municipais para que a população possa interferir nas decisões de
governo das prefeituras. São órgãos de intervenção popular que visam aprofundar a democracia
direta e participativa. São uma experiência de poder popular, territorial, produtivo e autônomo. Foi
junto com a criação dessas estruturas de e para as classes subalternas que se afiançou a ideia do
“socialismo do século 21”.

As perspectivas e seus desafios


Não são poucos os analistas que se referem às contradições notórias do processo venezuelano,
entre elas, a existência de um Estado rentista, terreno fértil para que se acomode nele uma
quantidade de oportunistas burocratizados, a dependência econômica do petróleo, a escassa
acumulação de quadros formados para cumprir tarefas de direção no processo.
Todas essas questões colocadas são reais, como também muitas outras limitações e
ambiguidades do governo que qualquer analise sério poderá encontrar. A situação e o processo da
Venezuela não se apresentam como um processo puro.
Mas nós queremos insistir em que sua verdadeira riqueza reside na realidade que se desenvolve
nas ruas, nos bairros pobres, no interior das empresas, no campo e nas Comunas. Esse povo que é o
primeiro em sofrer as consequências nefastas da retração econômica, agravada pelo boicote e o
assédio internacional orquestrado pelo imperialismo, E também fruto da inoperância e as vacilações
dos sectores burocráticos que operam dentro do governo. Esse povo, esses milhões de homens e

2
Nora Ciapponi União Nacional de Trabalhadores (UNT) Mais do que uma central sindical

3
Documentos do grupo político argentino Cimientos, maio 2006.
mulheres são os que uma e outra vez defenderam e conseguiram manter de pé as importantes
conquistas políticas, sociais e de poder popular que se desenvolveram nos últimos anos desde a
rebelião popular contra a direita reacionária e o imperialismo que agora foram mais uma vez
derrotados na votação da Constituinte.
Com os dentes e os punhos apertados os trabalhadores venezuelanos resistem, se auto-
organizam, combatem, produzem e procuram caminhos alternativos para continuar construindo uma
alternativa que consiga dar volta por cima sobre a ofensiva reacionária dos capitalistas e o
imperialismo, que procuram desesperadamente fazer retroceder essa experiência.
Essa realidade, muitas vezes invisível ou até negligenciada por vários setores da esquerda
latino-americana é que temos que, de uma vez por todas, começar a olhar com olhos e mentes
abertos.
Muitos são os perigos e desafios enfrentados hoje em dia por esse processo de rebelião popular
e busca de alternativas. Além dos que virão do lado dos inimigos, está a necessidade de superar
qualquer tentativa de controle governamental ou estatal sobre o movimento. É vital e imprescindível
batalhar pela independência, auto-organização e soberania dos organismos e das estruturas de base,
como as Comunas.
Em definitiva, hoje na Venezuela se abre novamente a disjuntiva que sempre a história tem
colocado em frente das rebeliões sociais: Ou se avança no caminho iniciado na década dos ´90,
aprofundando num rumo revolucionário e socialista, ou se termina retrocedendo, o que
inevitavelmente constituiria uma derrota significativa, como mínimo para todo nosso continente.
Algumas propostas de eixos Programáticos:
- Partimos do posicionamento central no momento que é: Não ao Golpe e à Ofensiva
reacionária da Direita e do Imperialismo Estadunidense na Venezuela e na América Latina!
Unidade de ação nas ruas e nas lutas para derrotar a ofensiva reacionária!
- Avançar pela base na discussão dos rumos, na auto-organização, na retomada das terras e das
fábricas e sua gestão coletiva. Expropriação das empresas e grupos que sabotam a produção e a
distribuição dos bens de consumo dos trabalhadores e do povo pobre.
- Realizar e apoiar todos os esforços para que as Comunas municipais se fortaleçam e ampliem
seu poder, com autonomia frente ao governo, para tomar decisões e transformar a sociedade;
- Lutar e pressionar a Constituinte pela esquerda para que reconheçam as ocupações de terras as
fábricas recuperadas e outras medidas de interesse do povo Venezuelano.
- Avançar num rumo socialista é a única garantia de que o processo bolivariano não se perca.
- Construir instrumentos e organizações políticas independentes do governo

(*) Para elaborar este texto nos referenciamos, entre outros materiais, no trabalho de Sergio
Nicanoff e Fernando Stratta, “Apuntes para uma historia de La Revolución Bolivariana” Argentina
2006
Agosto/2017

“Para Um Novo Começo” - Centro Político Marxista