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Citações da Revista CULT Edição Especial n.6 jan.

2016 ano 19

TIBURI, Marcia. “Judith Butler: feminismo como provocação”

“Assim, a primeira coisa que devemos saber para entender do que Judith Butler está
falando é que as palavras provocam ações e atuações. Que as palavras agem. Que todas
as teorias existentes causam algo em sujeitos concretos. E que a teoria da própria Butler
faz o mesmo, mas não esconde que o faz.” (p.9)

“Tratar o histórico como natural sempre é estratégico do poder. O esforço da teoria de


Butler, neste contexto, foi o da desnaturalização como uma desmistificação do sexo e do
gênero, que seriam, em momentos diferentes, tratados como destino. A partir de então,
eles seriam construções discursivas entre as quais não haveria diferença.” (p.10)

“É impossível, neste sentido, ser “generificado”, ou seja, sofrer os efeitos do gênero fora
do discurso. Pois não há gênero sem discurso, e o discurso é, justamente, o que infunde,
como um dispositivo, aquilo que é o gênero. Se antes os corpos eram vítimas da ciência
da anatomia que legislava sobre eles, agora passaram a ser vítimas da generificação
como uma espécie de segunda natureza que se diz como verdade quanto ao “gênero”.”
(p.10)

“A cultura, em todas as formas de discurso, do jurídico ao científico, e dos meios de


comunicação, ajuda na produção do “abjeto” como um tipo de diferenciação na qual se
confina o excluído. O excluído é produzido no discurso: seu lugar é o silêncio que, em
termos sociais muito concretos, realiza-se na injustiça de não poder existir. Essa
diferenciação precisa ser analisada e desmontada. Somente aí é que algo como a
liberdade de existir como se é entrará em cena.” (p.11)

LOURO, Guacira Lopes. “Uma sequência de atos”

“É com apoio em Austin e Derrida que Butler desenvolve a noção de performatividade


de gênero. Em Austin, ela vai buscar inspiração na teoria dos atos de fala (que distingue
entre os enunciados constatativos, aqueles que descrevem um fato, uma situação, e os
performativos, aqueles que, ao serem proclamados, produzem, isto é, fazem acontecer
aquilo que proclamam). De Derrida (que desconstruíra em parte a teoria de Austin), ela
toma emprestadas noções como citacionalidade e reiteração.” (p.13)

“Performativos de gênero são repetidos constantemente. Citados e recitados em


contextos e circunstâncias distintas; no âmbito da família, da escola, da medicina; na
mídia, em suas mais diversas expressões; nas regulamentações da justiça ou da religião.
Não obterão, contudo, exatamente os mesmos resultados. Os efeitos dos performativos
são sempre imprevisíveis. A possibilidade de insucesso, que Derrida já demonstrara ao
analisar a teoria de Austin, é explorada por Butler em sua reflexão sobre o gênero. A
falha, que é intrínseca aos performativos, pode ser produtiva. É na possibilidade do
fracasso que reside o espaço para a ressignificação e para a subversão no terreno dos
gêneros e da sexualidade” (p.14)

“A possibilidade de agência é, portanto, sempre restringida. O sujeito pode, sim,


interpretar as normas existentes; pode, eventualmente, organizá-las de um jeito novo,
ainda que isso seja feito de modo constrangido e limitado. Efetivamente, estamos
sempre fazendo isso. Todos os sujeitos interpretam, de seu jeito, continuamente, as
normas regulatórias de sua cultura, de sua sociedade.” (p.15)

“Mas (e a adversativa é importante) aqueles e aquelas que não “fazem” seu gênero
“corretamente” são, muitas vezes, punidos. Os desvios, a depender das circunstâncias
em que acontecem, a depender de sua extensão ou intensidade, costumam implicar em
danos simbólicos e físicos, morais e sociais. As falhas e desvios podem, por outro lado,
se constituir em oportunidade para reconstruções subversivas da identidade; podem até
mesmo, aposta Butler, se prestar a uma política de ressignificação dos gêneros.” (p.15)

BENTO, Berenice. "Queer o quê? Ativismo e estudos transviados”

“Não existe um processo específico para a constituição das identidades de gênero para
as pessoas trans. O gênero só existe na prática, na experiência, e sua realização se dá
mediante reiterações cujos conteúdos são interpretações sobre o masculino e o feminino
em um jogo, muitas vezes contraditório e escorregadio, estabelecido com as normas de
gênero.” (p.22)

“Nossos corpos são fabricados por tecnologias precisas e sofisticadas que têm como um
dos mais poderosos resultados, nas subjetividades, a crença de que a determinação das
identidades está inscrita em alguma parte dos corpos.” (p.22)

“Os movimentos sociais (mulheres, gays, lésbicas e, podemos incluir, os negros)


hegemonicamente alimentam a máquina do biopoder do Estado ao demandar políticas
específicas para corpos específicos, retroalimentando a noção de identidades essenciais.
E a legitimidade da demanda só existe se são corpos essencializados que a proferem.”
(p. 24)

BESSA, Karla. “A teoria queer e os desafios às molduras do olhar”

“A diferença é política e não da ordem da natureza humana, o que nos leva a outro
importante raciocínio queer: afinal, o que é o humano em um mundo de buscas e
transformações que fazem da tecnologia subjetiva e corporal um diálogo com outras
tecnologias criadas a partir das intervenções humanas, no tempo/espaço de sua
condição?” (p. 26)
RODRIGUES, Carla. “A política do desejo”

“Voltamos ao pênis de borracha, agora na aproximação da noção de mais-valia no


pensamento marxista. Que não se enganem os críticos de Preciado ou da teoria queer – e
são muitos -, porque não há ingenuidade nessa analogia. Ao contrário, de fato a crítica
ao capitalismo e a sua força normalizadora de corpos, comportamentos e discursos será
o motor do pensamento da autora. Capitalismo aqui entendido como estrutura de
subordinação a um projeto heterossexual, normativo, de corpos a serviço da produção e
da reprodução, projeto fundamentado em um ideal de natureza questionado pelo pênis
de borracha como noção política mobilizadora. Contrassexualidade passa a ser, assim,
uma forma de repensar a naturalidade dos corpos, e por isso apresentada em forma de
um manifesto – a um exemplo dos manifestos das vanguardas artísticas do início do
século 20 -, que postula a inautenticidade da origem, a impropriedade do próprio.”
(p.34)

“Para vigiar o corpo, observa ela, já não há mais necessidade de hospital, quartel ou
prisão, porque, com os hormônios sintéticos, as técnicas de controle se instalam no
corpo, ferramenta definitiva da vigilância.” (p.34)

“Nesse contexto, Preciado chega para propor uma contrassexualidade que afirma o
desejo não mais limitado ao prazer sexual proporcionado aos órgãos reprodutores – que
fundamentariam a diferença sexual -, mas uma política do desejo capaz de sexualizar
todo o corpo, lugar de resistência a toda normatividade.” (p.34)

MISKOLCI, Richard. “Uma outra história da República”

“Ordem e progresso era um mote que afirmava o papel assumido pelas elites de guiar o
Brasil em direção ao branqueamento. A imigração europeia acelerada se dava em meio
a revoltas que ameaçavam o novo regime político. A ordem não era apenas mantida
pelas forças policiais já militarizadas desde o império e que lidavam com o povo como
inimigo, herança até hoje não superada. Ela estava também em algo menos óbvio, ainda
que não menos importante: uma ordenação do desejo. O agenciamento da sexualidade
para a reprodução branqueadora mostra que a “ideologia” do branqueamento não
permaneceu no campo das ideias, também permeou as práticas sociais.” (p.36)

“O ambiente das forças armadas visava criar uma masculinidade disciplinada, uma
forma culturalizada da branquitude a ser estendida aos homens do povo quer fossem
negros, pobres ou mestiços.” (p.37)

COLLING, Leandro. “O que perdemos com os preconceitos? ”

“A heterossexualidade compulsória consiste na exigência de que todos os sujeitos sejam


heterossexuais, isto é, se apresenta como única forma considerada normal de vivência
da sexualidade. Essa ordem social/sexual se estrutura através do dualismo
heterossexualidade versus homossexualidade, sendo que a heterossexualidade é
naturalizada e se torna compulsória.” (p.40)

“Enquanto na heterossexualidade compulsória todas as pessoas devem ser


heterossexuais para serem consideradas normais, na heteronormatividade todas devem
organizar suas vidas conforme o modelo heterossexual, tenham elas práticas sexuais
heterossexuais ou não. Como isso entendemos que a heterossexualidade não é apenas
uma orientação sexual, mas um modelo político que organiza as nossas vidas.” (p.41)

JUNQUEIRA, Rogério Diniz. “Pedagogia do armário”

“E, não por acaso, heterossexismo e homofobia instauram na escola um regime de


controle e vigilância da conduta sexual, do gênero e das identidades raciais.
Heterossexismo e homofobia são manifestações de sexismo associadas a diversos
regimes e arsenais normativos, normalizadores e estruturantes de corpos, sujeitos,
identidades, hierarquias e instituições” (p.43)

“Por força da pedagogia do armário, nas palavras de Deborah Britzman, a escola, lugar
do conhecimento, mantém-se, em relação à sexualidade, ao gênero e ao corpo, como um
lugar de censura, desconhecimento, ignorância, violência, medo e vergonha. Além
disso, a pedagogia do armário, ao ensejar o enquadramento, a desumanização, a
marginalização, opera no cerceamento da autonomia. Afinal, como diz Márcio Fonseca
em Foucault e a constituição do sujeito, processos disciplinares voltados à normalização
de indivíduos tendem a impossibilitá-los de se constituírem como sujeitos autônomos.
Se a educação de qualidade pressupõe a busca do sujeito autônomo, a pedagogia do
armário é um dos seus obstáculos.” (p.45)

RODRIGUES, Carla. “A filósofa que rejeita classificações”

BUTLER

“Quando falamos numa crítica da identidade, não significa que desejamos nos livrar de
toda e qualquer identidade. Pelo contrário, uma crítica da identidade interroga as
condições sob as quais elas se formam, as situações nas quais são afirmadas, e
avaliamos a promessa política e os limites que tais asserções implicam. Crítica não é
abolição.” (p.48)

“Minha visão é a de que as instituições sociais e médicas devem afirmar o transgênero


como uma importante realidade psíquica e social e fornecer assistência que permita a
transição livre da patologização. Considero muito doloroso que as pessoas tenham de se
submeter a essa patologização para obter assistência e reconhecimento.” (p.50)