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Poder Judiciário da União
Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios

Órgão : 8ª TURMA CÍVEL


Classe : APELAÇÃO
N. Processo : 20150110536066APC
(0013196-89.2015.8.07.0018)
Apelante(s) : CODHAB/DF - COMPANHIA DE
DESENVOLVIMENTO HABITACIONAL DO
DISTRITO FEDERAL
Apelado(s) : AUREA MARIA PEREIRA ERVILHA
Relator : Desembargador LUÍS GUSTAVO B. DE
OLIVEIRA
Acórdão N. : 982902

EMENTA

APELAÇÃO CÍVEL. ADMINISTRATIVO. SERVIDOR PÚBLICO.


IMÓVEL FUNCIONAL. OCUPAÇÃO IRREGULAR.
RESSARCIMENTO DA TAXA DE USO E MULTA.
PRESCRIÇÃO. PRAZO QUINQUENAL. DECRETO Nº
20.910/1932. ARTIGO 37, § 5º DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL.
ALCANCE RESTRITO DA NORMA DE
IMPRESCRITIBILIDADE. RECURSO DESPROVIDO.
1. Aprescritibilidade das pretensões creditícias é regra no
direito pátrio. Diante disso, o Supremo Tribunal Federal, em
sede de repercussão geral no Recurso Extraordinário nº
669.069/MG, conferiu interpretação ao alcance da
imprescritibilidade da pretensão de ressarcimento ao erário
prevista no artigo 37, § 5º, da Constituição Federal para
estabelecer que o referido preceito é regra excepcional,
aplicável apenas em face de ilícitos praticados contra o erário
por agente público nos atos de improbidade administrativa.
2. Assim, o ressarcimento decorrente do inadimplemento da
taxa por ocupação irregular de imóvel funcional observa a regra
da prescrição quinquenal do art. 1º do Decreto nº 20.910/32.
3. RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO.

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ACÓRDÃO

Acordam os Senhores Desembargadores da 8ª TURMA CÍVEL do


Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios, LUÍS GUSTAVO B. DE
OLIVEIRA - Relator, MARIO-ZAM BELMIRO - 1º Vogal, NÍDIA CORRÊA LIMA - 2º
Vogal, sob a presidência do Senhor Desembargador MARIO-ZAM BELMIRO, em
proferir a seguinte decisão: CONHECIDO. NEGOU-SE PROVIMENTO. UNÂNIME,
de acordo com a ata do julgamento e notas taquigráficas.
Brasilia(DF), 24 de Novembro de 2016.

Documento Assinado Eletronicamente


LUÍS GUSTAVO B. DE OLIVEIRA
Relator

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RELATÓRIO

CODHAB/DF – COMPANHIA DE DESENVOLVIMENTO


HABITACIONAL DO DISTRITO FEDERAL ajuizou ação de ressarcimento em
desfavor de ÁUREA MARIA PEREIRA ERVILHA.
Aduziu que a ré ocupou imóvel funcional em decorrência do
exercício de cargo em comissão no período de 2003 a 2007. Houve sua exoneração
em 1º/01/2007, razão pela qual deveria restituir a unidade até 31/01/2007, conforme
termo de permissão de uso entabulado.
No entanto, não ocorreu a devolução no prazo estabelecido, por
isso a suplicada tornou-se devedora da taxa de ocupação pelo período de mora,
acrescida da multa correspondente a 10 (dez) vezes o valor do encargo, conforme
estabelece o artigo 15, inciso I, alínea “e” da Lei Distrital nº 128/1990.
Foi instaurada Tomada de Contas Especial, que imputou
responsabilidade do débito aos ocupantes dos imóveis funcionais, bem como o
Tribunal de Contas do Distrito Federal determinou a tomada de providências para a
cobrança dos débitos, a fim de evitar prejuízo ao erário.
Ao final, requereu a condenação da demandada ao pagamento de
R$ 11.886,44 (onze mil, oitocentos e oitenta e seis reais e quarenta e quatro
centavos).
A ré apresentou contestação (fls. 485/490).
Afirmou que o fato descrito na petição inicial ocorreu há mais de 9
(nove) anos, contados da data do ajuizamento da ação. Desse modo, a pretensão
estaria prescrita.
Aduziu que não houve imputação de responsabilidade de
pagamento na conclusão da tomada de contas especial, logo nada seria devido ao
autor.
Réplica às fls. 498/505.
A sentença rejeitou a prejudicial de prescrição, sob o fundamento de
que a pretensão seria imprescritível, porque se trata de ressarcimento de prejuízo ao
erário.
Concluiu que a requerente não demonstrou a responsabilidade da
ré pelo pagamento dos encargos relativos à ocupação do imóvel, desta forma, julgou
o pedido improcedente.
A suplicante interpôs apelação (fls. 514/523).
Relatou que a sentença deixou de considerar a causa de pedir, ou

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seja, a inadimplência no pagamento da taxa de ocupação do imóvel funcional e não


apenas na multa pelo atraso em sua devolução.
A isenção administrativa, em que se fundamentou a sentença,
consistiu em despacho de andamento interno do processo administrativo, e refere-se
apenas ao pagamento da multa.
Nas decisões administrativas, não foi afastada a responsabilidade
da suplicada, assim como o relatório final da comissão especial concluiu pela
responsabilização da servidora exonerada e encaminhamento à cobrança judicial
dos valores apurados.
Ao final, postulou a procedência do pedido.
Preparo regular (fl. 527).
A suplicada apresentou contrarrazões (fls. 531/536).

É o relatório.

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VOTOS

O Senhor Desembargador LUÍS GUSTAVO B. DE OLIVEIRA - Relator


Presentes os pressupostos intrínsecos e extrínsecos de
admissibilidade, conheço o recurso.
Versam os presentes autos sobre o ressarcimento de danos, em
decorrência da ocupação indevida de imóvel funcional, em que a suplicante pretende
o recebimento da taxa de ocupação acrescida da multa pela retenção indevida da
unidade.
A sentença rejeitou o pedido, sob o argumento de que estaria
demonstrada a responsabilidade da ex-servidora pelo pagamento de quaisquer
encargos relativos ao apartamento.
A apelante sustenta que não houve dispensa administrativa do
pagamento e após procedimento de tomada de contas, concluiu-se pelo ajuizamento
de ação para cobrança dos valores devidos.
Primeiramente, reanaliso a prejudicial de prescrição:
PREJUDICIAL DE MÉRITO
Trata-se de pretensão de recebimento de taxa por ocupação
indevida de imóvel funcional, após a exoneração da servidora do respectivo cargo
público, o qual lhe contemplava o direito à moradia em uma das unidades
habitacionais disponíveis à Administração Pública.
A sentença estabeleceu que a hipótese atrai a incidência da regra do
artigo 37, § 5.º, Constituição Federal, e impõe imprescritibilidade do direito vindicado.
Todavia, há de se estabelecer tempero à regra da imprescritibilidade
de pretensões de ressarcimento ao erário público.
Isto porque, o artigo 1º do Decreto nº 20.910/1932 estabelece que "
as dívidas passivas da União, dos Estados e dos Municípios, bem assim todo e
qualquer direito ou ação contra a Fazenda federal, estadual ou municipal, seja
qual for a sua natureza, prescrevem em cinco anos contados da data do ato ou
fato do qual se originarem".
Em razão do aparente conflito entre essa norma e o dispositivo
constitucional, instalou-se a discussão sobre o alcance da imprescritibilidade da
pretensão de ressarcimento ao erário, no âmbito do Supremo Tribunal Federal.
A matéria foi objeto de repercussão geral no Recurso Extraordinário
nº 669.069/MG, assim ementado:

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CONSTITUCIONAL E CIVIL. RESSARCIMENTO AO ERÁRIO.


IMPRESCRITIBILIDADE. SENTIDO E ALCANCE DO ART. 37,
§ 5º, DA CONSTITUIÇÃO. 1. É prescritível a ação de
reparação de danos à Fazenda Pública decorrente de ilícito
civil. 2. Recurso extraordinário a que se nega provimento.(RE
669069, Relator(a): Min. TEORI ZAVASCKI, Tribunal Pleno,
julgado em 03/02/2016, ACÓRDÃO ELETRÔNICO
REPERCUSSÃO GERAL - MÉRITO DJe-082 DIVULG 27-04-
2016 PUBLIC 28-04-2016)

Vale destacar trecho do voto do Ministro CÉSAR PELUSO, no qual


asseverou que a imprescritibilidade restringe-se às hipóteses atreladas a crimes:

"Isso significa, no meu entender, que em primeiro lugar, a


hipótese excepcional não é de qualquer ilícito, sobretudo não é
de ilícito civil. Aliás, o próprio Tribunal de Contas da União, ao
prestar informações, invoca acertada doutrina que,
provavelmente citada nos seus acórdãos, diz o seguinte:
"A Constituição Federal colocou fora do campo de
normatização da Lei o prazo prescricional da ação de
ressarcimento referente a prejuízos causados ao erário, só
podendo a lei estabelecer o prazo prescricional para os ilícitos,
como tal podendo-se entender os crimes."
Noutras palavras, as ações relativas a crimes são prescritíveis,
não, porém, as respectivas ações de ressarcimento.
Respectivas do quê? Dos crimes, isto é, as ações tendentes a
reparar os prejuízos oriundos da prática de crime danoso ao
Erário. Este o sentido lógico do adjetivo "respectivos". Não se
trata, portanto, de toda e qualquer ação de ressarcimento,
senão apenas das ações de ressarcimento de danos oriundos
de ilícito criminal. Aí se entende, então, o caráter excepcional
da regra da imprescritibilidade. Porquê? Porque é caso do

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ilícito mais grave da ordem jurídica. E a Constituição, por


razões soberanas, entendeu que, nesse caso, cuidando-se de
delitos, no sentido criminal da palavra, as respectivas ações de
ressarcimento não prescrevem, conquanto prescrevam as
demais ações nascidas do ilícito penal."

Conforme se vê nesse precedente, ficou consolidado que a


imprescritibilidade não atinge qualquer pretensão indenizatória do Estado.
Diante disso, o simples inadimplemento de toda e qualquer
obrigação não é atingido pela imprescritibilidade, exigindo-se a prática de ato ilícito
como origem do prejuízo ao erário.
No mesmo sentido consolidou-se o entendimento do Superior
Tribunal de Justiça:

EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA EM RECURSO ESPECIAL.


ADMINISTRATIVO. AÇÃO CIVIL DE RESSARCIMENTO DE
DANO AO ERÁRIO NÃO DECORRENTE DE IMPROBIDADE
ADMINISTRATIVA. PRESCRIÇÃO QUINQUENAL.
1. Apretensão de ressarcimento de danos ao erário não
decorrente de ato de improbidade prescreve em cinco
anos.
2. Embargos de divergência acolhidos.
(EREsp 662.844/SP, Rel. Ministro HAMILTON CARVALHIDO,
PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 13/12/2010, DJe 01/02/2011)

No caso dos autos, restou incontroversa a ausência da prática de


ato ilícito penal pela demandada. A origem do débito é por violação ao direito
administrativo, mais especificamente pela ocupação indevida de imóvel funcional. O
que se persegue, é a respectiva contraprestação e a multa prevista em lei.
Assim, a excepcional hipótese de imprescritibilidade não pode ser
aplicada ao presente feito, o que atrai a aplicação da regra da prescrição quinquenal
estabelecida no artigo 1º do Dec. nº 20.910/32.

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As taxas de ocupação postuladas referem-se aos meses de janeiro,


fevereiro e julho de 2007 (fl. 196).
Como a ação somente foi ajuizada em 15/05/2015, conclui-se que
houve a consumação da prescrição quinquenal, conforme previsto no Decreto
20.910/32.
Ante o exposto, CONHEÇO E NEGO PROVIMENTO ao recurso.
Em razão da sucumbência nesta instância recursal, atento aos
ditames do artigo 85, §11, do Código de Processo Civil, majoro os honorários
advocatícios para R$ 1.500,00 (mil e quinhentos reais).
É como voto.

O Senhor Desembargador MARIO-ZAM BELMIRO - Vogal


Com o relator

A Senhora Desembargadora NÍDIA CORRÊA LIMA - Vogal


Com o relator

DECISÃO

CONHECIDO. NEGOU-SE PROVIMENTO. UNÂNIME

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