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PESQUISA

O IMPACTO DA VOZ NA
IMAGEM PROFISSIONAL
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Introdução

A voz é uma das principais ferramentas de comunicação. Características


vocais como intensidade, frequência (pitch), volume (loudness), ataque vocal e
ressonância podem fornecer diferentes interpretações ao sentido da
mensagem. A ênfase, o uso das pausas, a curva melódica, a variação do ritmo
e velocidade da fala, a modificação na duração das palavras são algumas das
estratégias utilizadas para destacar a intenção do falante (Fernandes, Mendes,
Navas, 2009; Borrego e Behlau. 2012).
A influência da voz sobre a percepção da personalidade do indivíduo tem sido
investigada na área das ciências humanas (Scherer, 2003). Por exemplo,
homens com voz grave (grossa) são percebidos como fisicamente mais fortes,
e socialmente dominantes. Há indícios de que a voz pode influenciar até
mesmo a forma como os seres humanos selecionam seus líderes (Klofstad,
Anderson, Peters 2012; Anceaux, 2013).
Com o objetivo de verificar qual é o impacto da voz na imagem profissional, o
CPDEC realizou uma pesquisa entre 2013 e 2014, intitulada ‘O Impacto da
Voz na Imagem Profissional’.
400 profissionais de grandes empresas responderam a perguntas relacionadas
à voz sob três perspectivas: percepção da própria voz, da voz das outras
pessoas e da voz no ambiente corporativo.
64,7% dos participantes da pesquisa eram do sexo masculino; a idade média
foi de 31,3 anos, sendo que 61% tinham entre 26 e 40 anos. Os respondentes
exerciam profissões distintas, dentre elas: engenheiros (25,7%), analistas
(14%) e técnicos (11,2%).
Em relação à percepção da própria voz, a maioria (66,5%) afirmou não estar
totalmente satisfeita com a própria voz. 54,7 % afirmou que sua voz dificulta de
alguma forma o entendimento de sua fala (Tabela1).

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Tabela 1. Percepção da própria voz
Plenamente Parcialmente Não
satisfeito satisfeito satisfeito
Estou satisfeito com a minha
voz 33,5% 58,8% 7,7%

Concordo Concordo Não


plenamente parcialmente concordo
Considero que a minha voz
dificulta o entendimento daquilo 7,4% 47,3% 45,3%
que falo

Quando questionados sobre quais características da voz de outra pessoa


geram incômodo, 74,4% dos respondentes citaram ‘voz estridente’, seguida de
‘voz aguda’ (45,7%), ‘alta’ (36,7%) e ‘instável’ (34,5%) (Tabela 2).

Tabela 2. Porcentagem de pessoas que se sente incomodada pelas


características da voz do outro.
Porcentagem de respondentes (%)

Características vocais Pouco Nenhum


Muito Incômodo
da voz do outro Incômodo Incômodo

Estridente 74,4 1,2 ,4


Aguda (fina) 45,7 42,9 11,4
Forte (alta intensidade) 36,7 43 20,3
Instável (com falha) 34,5 54,3 11,2
Hipernasal 32,7 52,1 15,2
Fraca (baixa intensidade) 31,1 52,1 16,8
Rouca 14,3 49,4 36,3
Grave (grossa) 6,1 39,9 53,9

Por meio de análise discriminante, verificou-se quais características da voz de


outra pessoa causam maior grau de incômodo: voz instável (20,1%), estridente
(19,4%), aguda (18,8%), baixa (15,8%) e nasalada (15,3%) obtiveram maior
peso (Gráfico 1).

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Gráfico 1. Grau de incômodo em relação às características da voz do outro.

25  

20.1  
19.4  
20   18.8  

15.8   15.3  
15  

10  

5  

0  
Com  falha  (Instável)   Estridente   Fina  (Aguda)   Fraca  ("Baixa")   Nasalada  

Os sujeitos da pesquisa foram indagados se aspectos pessoais, emocionais e


psicológicos poderiam ser identificados por meio da voz. Observou-se que, na
opinião dos respondentes, quase todos os aspectos questionados podem ser
fortemente percebidos por meio da voz. No entanto, nervosismo (97,8%),
humor e cansaço (92,6%), passividade (79,9%) e liderança (77,5%) foram os
mais evidenciados, enquanto que inteligência foi referido como o menos
percebido (20,5%) (Tabela 3).
Tabela 3 – Aspectos pessoais, emocionais e psicológicos que podem ser
percebidos por meio da voz
Porcentagem de respondentes (%)
Aspectos pessoais,
emocionais e psicológicos Sim Não Não sei

Nervosismo 97,8 1,7 0,5


Humor 92,6 4,1 3,3

Cansaço 92,6 4,1 3,3

Passividade 79,9 11,0 9,1

Liderança 77,5 14,0 8,5

Sociabilidade 57,9 28,9 13,2

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Inteligência 20,5 69,5 10,0

Indagou-se também quais fatores pessoais poderiam ser inferidos por meio da
voz. Os itens mais mencionados pelos participantes da pesquisa foram: origem
cultural (96,4%) e gênero (95,3%). Apenas 13,2% das pessoas referiram poder
supor as características físicas (Tabela 4).
Tabela 4. Fatores pessoais que podem ser inferidos por meio da voz.
Porcentagem de respondentes
Fatores pessoais Sim (%)

Origem cultural (sotaque e regionalismo) 96,4


Gênero 95,3
Idade 62,1
Traços de personalidade 58,7
Características físicas 13,2

No que se refere à percepção da voz no ambiente corporativo, 90% das


pessoas concorda plenamente ou parcialmente que a voz pode transmitir uma
imagem profissional, positiva ou negativa.
Gráfico 2. Impacto da voz na imagem profissional

Não  Concordo   Concordo  Plenamente   Concordo  Parcialmente  

10%  

43%  

47%  

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Quando perguntados sobre quais aspectos do cotidiano profissional podem ser
influenciados pela voz, 82,6% dos participantes concordou plenamente que a
voz pode fortalecer o marketing pessoal, 81, 9% que a voz pode prender a
atenção do interlocutor, 64,6% que a voz pode facilitar as relações
interpessoais e 63,9 que a voz pode contar pontos em uma entrevista de
emprego (Tabela 5).

Tabela 5 – A influência da voz no cotidiano profissional:


Concordo Concordo Não
Na minha opinião a voz pode Plenamente Parcialmente Concordo
% % %

Fortalecer o marketing pessoal e 82,6 15,5 1,9


profissional
Prender a atenção do interlocutor 81,9 15,9 2,2
Facilitar as relações interpessoais 64,6 30,4 5,0
Contar pontos em uma entrevista de 63,9 33,6 2,5
emprego
Transmitir competência profissional 52,6 36,9 10,5
Atrapalhar os colegas no ambiente 47,5 38,4 14,1
profissional
Aumentar as chances de ascensão 33,5% 52,9% 13,6%
profissional

O gráfico abaixo mostra que, dentre todos os aspectos do cotidiano


profissional, ´transmitir competência profissional`, embora não tenha sido
mencionado pela maioria dos respondentes (tabela 4), mostrou-se ser o
aspecto mais fortemente inferido a partir da voz (Gráfico 3).

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Gráfico 3 – Aspectos do cotidiano profissional inferidos por meio da voz.
17.5  
17.1  
17  

16.5  

16  
15.6  
15.5   15.3   15.3  

15  

14.5  

14  
TransmiMr  competência   Facilitar  as  relações   Fortalecer  o  markeMng   Contar  pontos  em  uma  
profissional   interpessoais   pessoal  e  profissional   entrevista  de  emprego  

Aspectos  do  CoMdiano  Profissional  

Resultado obtido a partir de Análise Discriminante

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Discussão

Os parâmetros da voz conferem ao discurso diferentes interpretações e quando


impostos de modo incorreto, podem dificultar o entendimento da fala
(Berenstein, 2001). Essa afirmação confirma o resultado da maioria dos
sujeitos não estar totalmente satisfeita com a própria voz e considerar que o
entendimento de sua fala pode ser prejudicado por ela. Como mencionado por
Borrego e Behlau (2012), a voz é um importante instrumento tanto de
veiculação do sentido, como de interpretação e compreensão da fala.
Os resultados da pesquisa apontam que algumas características da voz
incomodam os sujeitos, o que é confirmado no estudo de Caraça (2003), que
mostra que vozes muito agudas, estridentes, hipernasais, trêmulas e roucas
podem provocar desconforto auditivo nos ouvintes, além de influenciarem
negativamente a transmissão da mensagem falada.
A influência da modulação e da qualidade vocal sobre a percepção de traços
de personalidade tem sido alvo de diversos estudos (Schroeder, 2001; Scherer,
2003, 2006, Mohammadi et al., 2012). Nessa pesquisa, os sujeitos relataram
que aspectos pessoais, emocionais e psicológicos podem ser fortemente
percebidos por meio da voz. De fato, os elementos vocais transmitem
emoções, sensações e intenções do falante, o que permite ao ouvinte deduzir
se o emissor está triste, alegre, cansado, nervoso, ansioso ou seguro. Uma voz
áspera, fraca, cansada ou ofegante transimite a imagem de um orador tenso,
passivo e negativo. Por outro lado, uma voz forte e calma transmite confiança e
garante ao orador uma melhor imagem profissional (Caraça 2003).
A qualidade vocal diferencia uma voz da outra; o modo como o indivíduo usa a
voz depende do contexto e ambiente onde ele se encontra e representa
diferentes significações e emoções (Borrego e Behlau, 2012). Alguns autores,
assim como Barrow et al. (2005) acreditam que os diferentes aspectos da voz
podem ainda revelar características relacionadas ao falante, como seu grupo
social, grupo profissional, personalidade e atitude. Assim, a voz pode ser
considerada uma das habilidades comunicativas mais importantes e
necessárias para a realização da fala. Ela sofre influências psicossociais que
marcam a personalidade e o estado de espírito do falante. Essas informações
foram confirmadas em nossa pesquisa, já que a maioria dos respondentes
concordou com a possibilidade de inferir a origem cultural, o gênero e alguns
traços da personalidade do falante por meio da voz.
Como pôde ser visto nos resultados, a maioria dos respondentes concorda que
a voz influencia a imagem profissional no ambiente corporativo. Pesquisas
recentes mostram que indivíduos que se apresentam com um tom de voz

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adequado, são vistos como pessoas bem-sucedidas, inteligentes, sociáveis e
atraentes (Jones et al, 2008).
Para Klofstad, Anderson, e Peters (2012), um tom de voz grave (grosso) prevê
percepções mais elevadas de dominação e de poder em relação a vozes
masculinas e femininas. Essa percepção é ainda maior quando o ouvinte não
possui um estímulo visual que lhe dê informações sobre o falante, como por
exemplo, ao telefone. Todas essas questões foram confirmadas nessa
pesquisa, por meio da opinião da maioria dos respondentes, que concordam
plenamente que a voz pode fortalecer o marketing pessoal, prender a atenção
do interlocutor, facilitar as relações interpessoais e transmitir competência
profissional.

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Conclusão

A voz pode ser concebida sob duas perspectivas: como um instrumento e,


dessa forma, merece cuidados específicos para que não venha sofrer
alterações negativas e como expressividade, por meio da qual as emoções se
manifestam. De qualquer maneira, a sonoridade vocal reforça a função social
do homem, desde o início de sua existência. Mas, não se aprende qual é a
melhor voz, o que fazer para preservá-la e nem como aprimorá-la na vida
pessoal ou profissional. Com os avanços científicos ocorridos nos últimos anos,
diversas técnicas foram desenvolvidas no sentido de otimizar o uso da voz,
melhorar sua qualidade, levando em consideração as necessidades
particulares de cada indivíduo e o ambiente em que ele está inserido.
A partir da década de 80, começou-se a dar mais importância à voz no
ambiente de trabalho, como uma maneira de tornar os discursos mais
inteligíveis e contagiantes. Desde então, vem crescendo a busca por
profissionais que se expressam com energia, vivacidade, sonoridade e
entusiasmo. Por isso, é essencial que as organizações valorizem a voz não só
como um importante veículo de comunicação entre colaboradores, mas
também como um espelho, a partir do qual sua própria imagem será refletida.

Instituto responsável: CPDEC (Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e


Educação Continuada)
Coordenadora: Dra. Rosângela Curvo Leite
Pesquisadora assistente: Karoline Kussik
Estatística: Sirlei Morais

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Referências Bibliográficas

Anceaux, CJ. The Effect of a Leader's Voice and Face on Leadership Perceptions,
Examining the Impact of Facial Dominance and Voice Pitch. Tese de Mestrado.
2013. https://openaccess.leidenuniv.nl/handle/1887/24365

Barrow IM, Givens G, Stuart A, Kalinowski J, Rastatter M. Influence of duration and


location of pauses on comprehension of a temporarily ambiguous utterance in
adults. Percept Mot Skills. 100(1):142-52, 2005.

Berenstein ALS. A prática fonoaudiológica no Telemarketing. São Paulo: PUC-SP,


2001. Dissertação (Mestrado)-Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2001.

Borrego MCM, Behlau M. Recursos de ênfase utilizados por indivíduos com e sem
treinamento de voz e fala. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 17(2):216-24, 2012.

Caraça EB. Acessoria Fonoaudiológica: análise de um processo de construção


entre o fonoaudiólogo e o operador de telemarketing. Dissertação (Mestrado) -
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2003.

Fernandes FDM, Mendes, BCA, Navas, ALPGP (org). Tratado de Fonoaudiologia. 2ª


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Jones CJ, Feinberg DR, DeBruine LM., Little AC, Vukovic J. Integrating cues of
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Klofstad, CA, Anderson, RC, and Peters, S. Sounds like a winner: Voice pitch
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Mohammadi G, Origlia A, Filippone, M, Vinciarelli A. From Speech to Personality:


Mapping Voice Quality and Intonation into Personality Differences. ACM-MM.
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Scherer KR, Personality inference from voice quality: The loud voice of
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Scherer, KR. Vocal communication of emotion: A review of research paradigms.


Speech communication 40(1): 227-256, 2003.

Schroeder, M. Emotional Speech Synthesis: A Review. Interspeech, 561-564, 2001.

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