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Teoria dos Números

:
um passeio com primos e outros números
familiares pelo mundo inteiro

Fabio E. Brochero Martinez
Carlos Gustavo T. de A. Moreira
Nicolau C. Saldanha
Eduardo Tengan

http://livrariavirtual.impa.br

Prefácio

O tema deste livro é a chamada Teoria dos Números, que é a parte da
Matemática que se dedica ao estudo dos números inteiros e seus amigos.
Não há dúvidas de que o conceito de inteiro é um dos mais antigos e
fundamentais da ciência em geral, tendo acompanhado o homem desde
os primórdios de sua história. Assim, é de certa forma surpreendente
que a Teoria dos Números seja atualmente uma das áreas de pesquisa
mais efervescentes da Matemática e que, mais do que nunca, continue a
fascinar e desafiar as atuais gerações de matemáticos.
Diferentemente de muitas outras áreas da Matemática, a Teoria dos
Números se distingue muito menos por seus métodos mas mais sim por
seus problemas, cujo tema comum subjacente é o de número inteiro. As-
sim, por exemplo, enquanto um analista utiliza-se de métodos analı́ticos
para resolver seus problemas e um algebrista empregue métodos algébri-
cos para atacar questões algébricas, em Teoria dos Números um mesmo
problema pode requerer para a sua solução a utilização simultânea de
métodos algébricos, analı́ticos, topológicos, geométricos e combinató-
rios, além de uma boa dose de imaginação! Talvez seja este aspecto
multidisciplinar, aliado à simplicidade de seus conceitos e ao seu caráter
fundamental, que torna a Teoria dos Números um dos ramos mais popu-
lares em toda a Matemática, cativando pessoas de formação totalmente
diversas. Em particular, os quatro autores são matemáticos de áreas di-
ferentes umas das outras e nenhum deles é propriamente um especialista
em teoria dos números.
A escolha dos temas abordados neste livro pretende justamente ilus-
trar esta personalidade múltipla da Teoria dos Números. Assim, o leitor
encontrará aqui, além dos tópicos já consagrados como próprios da Te-
oria dos Números, tais como divisibilidade, congruências, primos, raı́zes
primitivas e reciprocidade quadrática, diversos outros na interface com

PREFÁCIO

outras disciplinas como Análise, Álgebra e até mesmo Computação: por
exemplo, estudamos entre outros o comportamento assintótico de fun-
ções aritméticas, a aritmética do anel de inteiros algébricos bem como
alguns dos testes de primalidade mais eficientes atualmente conhecidos.
A grande maioria dos resultados são clássicos (= vistos em classe) e
nossa única contribuição original (além dos erros) é quanto à sua apresen-
tação. Naturalmente a escolha de quais temas foram abordados e quais
foram deixados de fora é mais um reflexo do gosto e da experiência pes-
soal de nós autores do que uma meticulosamente calculada amostragem
dos diversos aspectos da teoria. Ainda sim, acreditamos que cada um
dos aspectos mais relevantes tenha sido coberto em pelo menos algum
trecho do livro, de modo que o leitor não se sentirá frustrado, tenha ele
inclinações mais para uma área do que outra!

Devo ler este livro?
Bem, naturalmente esta é um questão que só você pode responder!
Mas vejamos algumas das “iguarias” que você estará perdendo se decidir
que não:
1. os teoremas caracterizando quais naturais são respectivamente so-
mas de dois, três e quatro quadrados perfeitos (capı́tulo 4);
2. duas demonstrações da famosa lei de reciprocidade quadrática, um
dos resultados favoritos de Gauß (capı́tulos 2 e 6);
3. o recentemente descoberto algoritmo AKS, que demonstrou que o
problema de decidir se um número inteiro é ou não primo pode ser
resolvido em tempo polinomial (capı́tulo 7);
4. o teorema de Lucas-Lehmer, que fornece uma condição necessária
e suficiente para que um número da forma 2p − 1 seja primo, e
cujo algoritmo correspondente é responsável pelos maiores primos
explicitamente conhecidos atualmente (capı́tulo 7);
5. a utilização de frações contı́nuas para a obtenção das melhores
aproximações racionais de números reais e os teoremas de Khint-
chine, que quantificam estas melhores aproximações para quase
todo número real (capı́tulos 3 e 8);
6. o teorema da fatoração única em ideais primos no anel de inteiros
algébricos de uma extensão finita de Q (capı́tulo 6);
7. uma introdução à teoria de curvas elı́pticas, que é um dos temas
centrais na Teoria dos Números contemporânea (capı́tulo 9).

PREFÁCIO

Este livro incorpora a maior parte de um livro anterior [105] sobre
números primos escrito por dois dos autores para o Colóquio Brasileiro
de Matemática de 1999.
Por falar em primos, incluı́mos o apêndice A, intitulado “O teorema
dos números primos”, escrito por Jorge Aarão. Este apêndice é basica-
mente a sua dissertação de mestrado, apresentada em 1988 no IMPA,
sob a orientação de José Felipe Voloch. Nele são provados o teorema
dos números primos e o teorema dos números primos em progressões
aritméticas (que implica o teorema de Dirichlet). Trata-se de uma das
melhores referências que conhecemos sobre o assunto. Somos muito gra-
tos ao Jorge por ter-nos permitido incluir esse texto em nosso livro.
Gostarı́amos também de agradecer ao Nivaldo Nunes de Medeiros
por suas ótimas sugestões de problemas.
Mas a quem exatamente se destina este livro? Na verdade, este livro
foi escrito tendo em mente leitores com bagagens técnicas diversas e
em diversos estágios de seu desenvolvimento matemático, seja o leitor
aluno de graduação, pós-graduação, matemático profissional ou apenas
um curioso aficcionado em Matemática. Assim, a exposição não segue
um tempo uniforme: ela pode variar desde um largo ou andante, nos
capı́tulos iniciais, até um prestı́ssimo em certos trechos da segunda parte.
Ainda sim, fizemos um genuı́no esforço para manter a exposição o mais
auto-contida possı́vel, mesmo quando fazemos uso de ferramentas um
pouco mais avançadas, que acreditamos porém acessı́veis à maioria dos
alunos de graduação em cursos de Ciências Exatas (por exemplo).
Para facilitar a adoção deste livro em cursos de graduação e pós-
graduação, dividimos o livro em duas partes: “Fundamentos” e “Tópicos
adicionais bacanas”. A primeira cobre o programa mais ou menos tra-
dicional em cursos de Teoria Elementar dos Números, incluindo temas
como divisibilidade, congruências, raı́zes primitivas, reciprocidade qua-
drática, equações diofantinas e frações contı́nuas. Na segunda parte, os
capı́tulos são mais ou menos independentes entre si, e vários trechos
podem ser utilizados em seminários, projetos de iniciação cientı́fica ou
como tópicos especiais em cursos. Em todo caso, excetuando-se os dois
primeiros capı́tulos, cujos resultados são utilizados constantemente ao
longo de todo o texto, a leitura não precisa ser “linear”: o leitor é com-
pletamente livre para excursionar pelos diversos temas que o atraı́rem e
apreciar a paisagem nesta, esperamos, agradável viagem.

PREFÁCIO

Exemplos e Problemas Propostos
Exemplos e exercı́cios são uma parte importante no aprendizado de
qualquer novo assunto e não poderia ser diferente neste livro. Mas,
como mencionamos no inı́cio, isto é ainda mais verdade em Teoria dos
Números, cujo pilar central unificador são exatamente os problemas. Há
mais de 80 exemplos e 200 exercı́cios, de dificuldades as mais variadas,
incluindo desde cálculos rotineiros até problemas desafiantes extraı́dos
de diversas Olimpı́adas de Matemática ao redor do mundo. Para estes,
utilizamos as seguintes abreviações:

• AusPol: Olimpı́ada Austro-Polaca de Matemática

• IMO: International Mathematical Olympiad

• OBM: Olimpı́ada Brasileira de Matemática

• OIbM: Olimpı́ada Ibero-americana de Matemática

O número razoavelmente grande de problemas de olimpı́adas neste
livro está provavelmente relacionado ao fato de todos os autores serem
ex-olı́mpicos. Exortamos veementemente o leitor a tentar resolver o
maior número possı́vel de problemas. Exercı́cios matemáticos são de
certa forma como exercı́cios fı́sicos: você não ficará em forma se só olhar
outros fazendo. . . E além disso, problemas matemáticos são como es-
porte amador: você não tem nada a perder ao tentar, além de serem
muito divertidos! Mas não se preocupe se não conseguir resolver alguns
problemas deste livro: muitos deles são (ou foram) difı́ceis para nós
também.
Confessamos que não resolvemos cada qual dos exercı́cios, assim pode
haver pequenos erros na maneira em que eles são apresentados, e neste
caso é parte do exercı́cio obter uma formulação correta. Caso o leitor
encare isto com um lapso da parte dos autores, queremos então lembrar
os seguintes versos de Goethe:

“Irrtum verläßt uns nie, doch ziehet ein höher Bedürfnis
Immer den strebenden Geist leise zur Wahrheit hinan.”1
1
Erros nunca nos abandonam, ainda sim uma necessidade maior empurra gentil-
mente nossos espı́ritos almejantes em direção da verdade.

PREFÁCIO

Terminologia Frequente e Notações
Utilizamos a já consagrada notação N, Z, Q, R, C para denotar os
conjuntos dos números naturais (incluindo o zero), inteiros, racionais,
reais e complexos. Além disso, ao longo de todo o livro utilizaremos a
seguinte terminologia:
1. Claramente: Nós não estamos com vontade de escrever todos
os passos intermediários.
2. Lembre: Nós não deverı́amos ter que dizer isto, mas. . .
3. Sem Perda de Generalidade: Nós não faremos todos os casos,
então vamos fazer só um e deixar você adivinhar o resto.
4. Verifique: Esta é a parte chata da prova, então você pode fazê-la
na privacidade do seu lar, quando ninguém estiver olhando.
5. Esboço de prova: Estamos com muita preguiça de fazer os de-
talhes, então só listamos alguns passos que fazem parte do argu-
mento.
6. Dica: A maneira mais difı́cil dentre as várias maneiras de se re-
solver um problema.
7. Analogamente: Pelo menos uma linha da prova acima é igual à
prova deste caso.
8. Por um teorema anterior: Nós não nos lembramos de como
era o enunciado (na verdade, não temos certeza se provamos isto
ou não), mas se o enunciado está correto, o resto da prova segue.
9. Prova omitida: Acredite, é verdade.

Julho de 2010 Fabio, Gugu, Nicolau e ET

“Young men should prove theorems, old men should write books.”
G. H. Hardy

“To get a book from these texts, only scissors and glue were needed.”
J.-P. Serre

(comentário ao receber o prêmio Steele por seu livro
“Cours d’Arithmétique”)

PREFÁCIO

Prefácio da segunda edição
Ficamos muito felizes com a boa recepção que nosso livro encontrou.
Aproveitamos a ocasião desta reimpressão para corrigir alguns pequenos
erros, vários deles apontados por leitores. Em particular, reescrevemos
a seção dedicada ao algoritmo de Agrawal-Kayal-Saxena para testar a
primalidade de um inteiro, atualizamos a lista de primos, incluı́mos uma
breve discussão sobre a relação entre frações contı́nuas e a dinâmica da
transformação de Gauss e adicionamos algumas figuras para facilitar a
compreensão do texto. Além disso, o ı́ndice remissivo foi revisado e
ampliado.

Outubro de 2011 Fabio, Gugu, Nicolau e ET

Prefácio da terceira edição
Novamente aproveitamos a ocasião da reimpressão para corrigir al-
guns pequenos erros e atualizar tabelas de primos. Entre outras mu-
danças, incluı́mos discussões sobre equações diofantinas lineares, sobre
a conjectura de Artin e sobre a solução negativa do décimo problema de
Hilbert, que mostra que não há um algoritmo geral que resolva qualquer
equação diofantina polinomial. A prova do Lema de Hensel foi trocada
por uma ligeiramente mais elementar; foi adicionada uma prova trigo-
nométrica da lei de reciprocidade quadrática; na seção sobre a equação
de Pell alguns enunciados e demonstrações foram reformulados, e final-
mente o capı́tulo sobre inteiros algébricos foi revisto - aproveitamos em
particular para incluir o célebre teorema de Pólya-Vinogradov.

Maio de 2013 Fabio, Gugu, Nicolau e ET

Conteúdo

I Fundamentos 1

0 Princı́pios 3
0.1 Princı́pio da Indução Finita . . . . . . . . . . . . . . . . . 3
0.2 Princı́pio da Casa dos Pombos . . . . . . . . . . . . . . . 10

1 Divisibilidade e Congruências 15
1.1 Divisibilidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
1.2 mdc, mmc e Algoritmo de Euclides . . . . . . . . . . . . . 18
1.3 O Teorema Fundamental da Aritmética . . . . . . . . . . 26
1.4 Congruências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34
1.5 Bases . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38
1.6 O Anel de Inteiros Módulo n . . . . . . . . . . . . . . . . 41
1.7 A Função de Euler e o Teorema de Euler-Fermat . . . . . 48
1.8 Polinômios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58
1.9 Ordem e Raı́zes Primitivas . . . . . . . . . . . . . . . . . . 68

2 Equações Módulo m 80
2.1 Equações Lineares Módulo m . . . . . . . . . . . . . . . . 80
2.2 Congruências de Grau 2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87
2.2.1 Resı́duos Quadráticos e Sı́mbolo de Legendre . . . 88
2.2.2 Lei de Reciprocidade Quadrática . . . . . . . . . . 90
2.2.3 Uma demonstração trigonométrica . . . . . . . . . 95
2.3 Congruências de Grau Superior . . . . . . . . . . . . . . . 100

3 Frações Contı́nuas 108
3.1 Reduzidas e Boas Aproximações . . . . . . . . . . . . . . 119
3.2 Boas Aproximações são Reduzidas . . . . . . . . . . . . . 121

CONTEÚDO

3.3 Frações Contı́nuas Periódicas . . . . . . . . . . . . . . . . 125
3.4 Os Espectros de Markov e Lagrange . . . . . . . . . . . . 126

4 Equações Diofantinas 133
4.1 Ternas Pitagóricas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 134
4.2 Equações Diofantinas Quadráticas e Somas de Quadrados 138
4.2.1 Somas de Dois Quadrados . . . . . . . . . . . . . . 142
4.2.2 Somas de Quatro Quadrados e
o Problema de Waring . . . . . . . . . . . . . . . . 145
4.2.3 Somas de Três Quadrados . . . . . . . . . . . . . . 148
4.2.4 Teorema de Minkowski . . . . . . . . . . . . . . . . 152
4.3 Descenso Infinito de Fermat . . . . . . . . . . . . . . . . . 155
4.3.1 Equação de Markov . . . . . . . . . . . . . . . . . 158
4.3.2 Último Teorema de Fermat . . . . . . . . . . . . . 159
4.4 Equação de Pell . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 166
4.4.1 Solução Inicial da Equação de Pell . . . . . . . . . 173
4.4.2 A Equação x2 − Ay 2 = −1 . . . . . . . . . . . . . 176
4.4.3 Soluções da Equação x2 − Ay 2 = c . . . . . . . . . 179
4.4.4 Soluções da Equação mx2 − ny 2 = ±1 . . . . . . . 181

5 Funções Aritméticas 188
5.1 Funções Multiplicativas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 188
5.2 Função de Möbius e Fórmula de Inversão . . . . . . . . . 193
5.3 Algumas Estimativas sobre Primos . . . . . . . . . . . . . 200
5.3.1 O Teorema de Chebyshev . . . . . . . . . . . . . . 200
5.3.2 O Postulado de Bertrand . . . . . . . . . . . . . . 204
5.3.3 Outras estimativas . . . . . . . . . . . . . . . . . . 206
5.4 A Função ϕ de Euler . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 212
5.5 A Função σ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 217
5.6 Números Livres de Quadrados . . . . . . . . . . . . . . . . 219
5.7 As Funções ω e Ω . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 219
5.8 A Função Número de Divisores d(n) . . . . . . . . . . . . 221
5.9 A Função Número de Partições p(n) . . . . . . . . . . . . 225
5.10 A Função Custo Aritmético τ (n) . . . . . . . . . . . . . . 231

II Tópicos adicionais bacanas 238

CONTEÚDO

6 Inteiros Algébricos 240
6.1 Inteiros de Gauß e Eisenstein . . . . . . . . . . . . . . . . 240
6.2 Extensões Quadráticas e Ciclotômicas . . . . . . . . . . . 254
6.3 Alguns Resultados de Álgebra . . . . . . . . . . . . . . . . 263
6.3.1 Polinômios Simétricos . . . . . . . . . . . . . . . . 263
6.3.2 Extensões de Corpos e Números Algébricos . . . . 264
6.3.3 Imersões, Traço e Norma . . . . . . . . . . . . . . 269
6.4 Inteiros Algébricos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 275
6.5 Ideais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 283
6.5.1 Fatoração Única em Ideais Primos . . . . . . . . . 292
6.6 Grupo de Classe e Unidades . . . . . . . . . . . . . . . . . 296

7 Primos 308
7.1 Sobre a Distribuição dos Números Primos . . . . . . . . . 308
7.1.1 O Teorema dos Números Primos . . . . . . . . . . 308
7.1.2 Primos Gêmeos e Primos de Sophie Germain . . . 310
7.1.3 Outros Resultados e Conjeturas sobre Primos . . . 319
7.2 Fórmulas para Primos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 324
7.3 Testes de Primalidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 329
7.3.1 O teste probabilı́stico de Miller-Rabin . . . . . . . 332
7.4 Testes determinı́sticos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 336
7.4.1 Testes de Primalidade Baseados em Fatorações de
n−1. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 337
7.4.2 Teste de Agrawal, Kayal e Saxena . . . . . . . . . 340
7.5 Primos de Mersenne . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 350
7.6 Sequências Recorrentes e Testes de Primalidade . . . . . . 355
7.7 Aspectos Computacionais . . . . . . . . . . . . . . . . . . 363
7.7.1 O Algoritmo de Multiplicação de Karatsuba . . . . 363
7.7.2 Multiplicação de Polinômios Usando FFT . . . . . 364
7.7.3 Multiplicação de Inteiros Usando FFT . . . . . . . 368
7.7.4 A Complexidade das Operações Aritméticas . . . . 372
7.8 Tabelas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 374

8 Aproximações Diofantinas 382
8.1 Teoria Métrica das Aproximações Diofantinas . . . . . . . 382
8.2 Aproximações Não-Homogêneas . . . . . . . . . . . . . . . 384
8.3 O Teorema de Khintchine . . . . . . . . . . . . . . . . . . 390
8.3.1 O Caso Unidimensional . . . . . . . . . . . . . . . 390
8.3.2 O Teorema de Khintchine Multidimensional . . . . 394

. . . . . . . . . . 449 B Sequências Recorrentes 451 B. . . .1 A Função Zeta de Riemann . .2 A Lei da Corda-Tangente .2 Leis de Reciprocidade . . . .2 Sugestões Bibliográficas . . . . . . . . . . . . . . . . . . .2 O Teorema dos Números Primos . .1.1 Curvas Elı́pticas como Curvas Projetivas Planas . . .1 Alguns comentários e sugestões .1. . .1 Teoremas Tauberianos . . . . . . . 408 III Apêndices 418 A O Teorema dos Números Primos (por Jorge Aarão) 420 A. . . . . . . . . . . . 474 C. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 431 A. . 448 A.4 Números de Liouville . . . . . . . . . . . . .1. . . . q. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 428 A. .1. . . . . . .3 Curvas Elı́pticas como Rosquinhas . . . .3 Inteiros p-ádicos . . . . .3. . . . . . . . 454 B. . . . 474 C. .1. 442 A. . . . . . . . . .2. . . 405 9. . .2 Teoremas Tauberianos e o Teorema dos Números Primos . . . 437 A. . . . . .2 A Função ψ(x) .2. L-Séries de Dirichlet e o Teorema em Progressões Aritméticas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 476 . . . . . . . . . . . . . . . . 473 C. 473 C. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 456 B. .4 O Lema de Landau . . 452 B. . . .3 A Recorrência xn+1 = x2n − 2 . . . . .4 Fórmulas Gerais para Recorrências Lineares . . . . . . . . . .1 Fundamentos . 422 A. . . . . . . . . .2 Caráteres .3 Caráteres de Grupos. . . . . . 437 A. . . . .2 A Sequência de Fibonacci . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 476 C.5 Bibliografia . . . . .3. .1 Os Conceitos Básicos . . . 431 A. .1 A Função ψ(x. . . . . .CONTEÚDO 8. . . . . . . . 439 A. .3 L-séries de Dirichlet . . . . . . . . . . . . . . 437 A. . . . . .1. . . . . 422 A. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .4 Geometria Diofantina . . . . .3. . . . . . . . . . . . . . . . 402 9. . . . . . . . . `) . . . . . .1 Sequências Recorrentes Lineares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 457 C Qual o próximo destino? 473 C. . 399 9 Introdução às Curvas Elı́pticas 402 9. . . . .

. . . . .5 Textos sobre Curvas Elı́pticas e Geometria Dio- fantina . . 477 C. . .2. . . . . . .2. 478 Bibliografia 480 Índice Remissivo 492 . . . . . . . . . . . . . . . . CONTEÚDO C. .1 Textos Gerais . . . . . . . .3 Textos sobre Aproximações Diofantinas . .4 Textos sobre Teoria Algébrica dos Números . 476 C.2. . . . . 477 C.2. . . . . . . .2.2 Textos sobre Teoria Analı́tica dos Números . . . . . . 476 C. .

.

Parte I Fundamentos .

.

1 Princı́pio da Indução Finita Seja P (n) uma propriedade do número natural n. (Passo Indutivo) Se P (n) é verdadeira para algum número natural n ≥ n0 . O PIF consiste em verificar duas coisas: 1. (Base da Indução) P (n0 ) é verdadeira e 2. então P (n + 1) também é verdadeira. 0. por exemplo: • n pode ser fatorado em um produto de números primos. • a equação 2x + 3y = n admite solução com x e y inteiros positivos. que é um dos axiomas que caracterizam o conjunto dos números naturais.Capı́tulo 0 Princı́pios Neste capı́tulo preliminar veremos duas propriedades básicas dos nú- meros naturais. o Princı́pio da Indução Finita e o Princı́pio da Casa dos Pombos. n(n+1) • 1 + 2 + ··· + n = 2 . O passo indutivo consiste em mostrar como utilizar a validade da propriedade para um dado n (a chamada hipótese de indução) para provar a validade da mesma propriedade para o inteiro . Uma maneira de provar que P (n) é verdadeira para todo natural n ≥ n0 é utilizar o chamado Princı́pio da Indução Finita (PIF). verificamos que a propriedade é válida para um valor inicial n = n0 . Na base da indução.

. 2 Solução: Observemos que 1 = 1·22 donde a igualdade vale para n = 1 (base da indução).2. Exemplo 0. Pelo PIF. de modo que P (n) é verdadeira para todo natural n ≥ n0 . . n(n + 1) 1 + 2 + ··· + n = ..1. Demonstrar que. 2 2 de modo que a igualdade também vale para n = k + 1. a igualdade vale para todo número natural n ≥ 1. 0: PRINCÍPIOS seguinte n + 1. 2 Somando k + 1 a ambos lados da igualdade. Exemplo 0. obtemos k(k + 1) (k + 1)(k + 2) 1 + 2 + · · · + k + (k + 1) = + (k + 1) = . Demonstrar que. Agora suponha que a igualdade valha para n = k (hipótese de indução): k(k + 1) 1 + 2 + ··· + k = . temos uma “cadeia de implicações” passo indutivo P (n0 ) é verdadeira (base) =⇒ P (n0 + 1) é verdadeira passo indutivo =⇒ P (n0 + 2) é verdadeira passo indutivo =⇒ P (n0 + 3) é verdadeira .4 [CAP. Mn = n(n2 − 1)(3n + 2) é múltiplo de 24. Uma vez verificados a base e o passo indutivo. Vejamos alguns exemplos. para todo inteiro positivo n. para todo número natural n.

0.1: PRINCÍPIO DA INDUÇÃO FINITA 5 Solução: Veja que se n = 0 então M0 = 0. Agora seja n ≥ 1 e suponha que Fk = α−β para todo k com . Mostre que αn − β n Fn = α−β √ √ 1+ 5 1− 5 onde α = 2 eβ= 2 são as raı́zes de x2 = x + 1. Uma variante do PIF é a seguinte versão (às vezes apelidada de princı́pio de indução forte ou princı́pio de indução completa). . F1 = 1. A sequência de Fibonacci Fn é a sequência definida re- cursivamente por F0 = 0. em que se deve mostrar 1. Agora. F4 = 3. Mk é divisı́vel por 24 e temos portanto que Mk+1 = Mk + 12k(k + 1)2 também é divisı́vel por 24. (Base da Indução) P (n0 ) é verdadeira e 2. α0 −β 0 α1 −β 1 Solução: Temos que F0 = α−β = 0 e F1 = α−β = 1 (base de αk −β k indução).3. F6 = 8. como se queria demonstrar. Exemplo 0. suponhamos que para certo inteiro k o número Mk é divisı́- vel por 24 (hipótese de indução) e vamos mostrar que Mk+1 também é divisı́vel por 24 (passo indutivo). F1 = 1 e Fn = Fn−1 + Fn−2 para n ≥ 2. Um dos números naturais consecutivos k e k + 1 é par donde k(k + 1)2 é sempre par e 12k(k + 1)2 é divisı́vel por 24. seus primeiros termos são F0 = 0. Por hipótese de indução.[SEC. Calculamos primeiramente a diferença Mk+1 − Mk = (k + 1) (k + 1)2 − 1 3(k + 1) + 2 − k(k 2 − 1)(3k + 2)   = k(k + 1)[(k + 2)(3k + 5) − (k − 1)(3k + 2)] = 12k(k + 1)2 . F3 = 2. Assim. F2 = 1. (Passo Indutivo) Se P (k) é verdadeira para todo natural k tal que n0 ≤ k ≤ n. . . então P (n + 1) também é verdadeira. que é um múltiplo de 24 (base da indução). F5 = 5.

neste exemplo. m!(n − m)! m n  Agora suponhamos que m é inteiro para m + n ≤ k (hipótese de indução). já que se n  m = n ou m = 0 temos m = 1 e o resultado vale trivialmente. Exemplo 0. Observe que. para quaisquer naturais n ≥ m. Note que podemos supor também que 0 < m < n. Assim. Demonstrar que. Se m+n = 0 0 então m = n = 0 e 0 = 1 é inteiro (base de indução).6 [CAP. a base requer veri- ficar a fórmula para os dois termos iniciais F0 e F1 e não apenas para o primeiro termo. n = n−1 n−1    se m + n = k + 1. observe primeiramente que para 0 < m < n temos a seguinte identidade de binomiais       n n−1 n−1 = + m m m−1 que segue diretamente das definições:     n−1 n−1 (n − 1)! (n − 1)! + = + m m−1 m!(n − m − 1)! (m − 1)!(n − m)!  (n − m) + m (n − 1)!   n = = . .4. Solução: Procederemos  por indução sobre a soma m+n. Para o passo indutivo. 0: PRINCÍPIOS 0 ≤ k ≤ n (hipótese de indução). temos que m m + m−1 é inteiro também pois cada somando da direita é inteiro pela hipótese de indução. como o passo indutivo utiliza os valores de dois termos anteriores da sequência de Fibonacci. o coe- ficiente binomial   n def n! = m m!(n − m)! é inteiro. Assim. Fn+1 = Fn + Fn−1 αn − β n αn−1 − β n−1 = + α−β α−β n (α + α n−1 ) − (β n + β n−1 ) αn+1 − β n+1 = = α−β α−β pois α2 = α + 1 =⇒ αn+1 = αn + αn−1 e analogamente β n+1 = β n + β n−1 .

Afirmamos que existe k ∈ B tal que k + 1 ∈ / B e nesse caso k será o menor elemento de A. 3. Exemplo 0. P (b − 1) é verdadeira. n ≤ m =⇒ f (n) ≥ f (m)) é constante a partir de um certo número natural. Trivialmente 0 ∈ B. Logo. devemos mostrar que B = ∅. o que é um absurdo. que afirma que todo subconjunto A não vazio de N tem um elemento mı́nimo. 0. Solução: Seja A ⊂ N a imagem de f . 2. Pelo PBO. se isto não acontecer. ou seja. como querı́amos demonstrar. Observação 0. . (Você sabe dizer por que o princı́pio da boa ordem não vale para o conjunto Z de todos os inteiros?) Vejamos a equivalência entre os dois princı́pios. pelo PIF. Seja n0 um natural tal que f (n0 ) = a0 . logo B = ∅.1: PRINCÍPIO DA INDUÇÃO FINITA 7 Um terceiro disfarce do PIF é o chamado princı́pio da boa ordena- ção (PBO) dos números naturais. Dado um conjunto S. B = N e A = ∅. Assuma agora o PIF e seja A ⊂ N um subconjunto não vazio. o que é absurdo. Demonstrar que toda função f : N → N monótona não- crescente (isto é. Seja B o conjunto dos n tais que P (n) é falsa. teremos que 0 ∈ B e k ∈ B implica que k + 1 ∈ B. Assuma primeira- mente o PBO e seja P (n) uma propriedade para a qual P (0) é verdadeira e P (n) verdadeira implica P (n + 1) verdadeira. Mas por hipótese temos então que P (b) também é verdadeira. Como 0 ∈ / B (pois P (0) é verdadeira por hipótese) temos que b ≥ 1 e assim b − 1 ∈ N e pela minimalidade de b temos que b − 1 ∈ / B. (Transitividade) se a ≺ b e b ≺ c então a ≺ c.[SEC. Suponha que não. uma relação ≺ em S é chamada de ordem parcial em S se ela satisfaz os seguintes axiomas: 1. Defina agora o conjunto B = {b ∈ N | a ∈ / A para todo a < b}.6. mas pela definição de a0 temos f (n) ≥ a0 . (Reflexividade) a ≺ a para todo a ∈ S. pelo PBO o conjunto B possui um menor elemento b. De fato. Como a função é monótona não-crescente então para todo n ≥ n0 temos que f (n) ≤ f (n0 ). (Anti-simetria) se a ≺ b e b ≺ a então a = b. tal conjunto possui elemento mı́nimo a0 .5. Logo f (n) = a0 para todo n ≥ n0 .

Problemas Propostos 0. Demonstrar que para todo natural n ≥ 1 temos (a) F1 + F2 + · · · + Fn = Fn+2 − 1. Demonstrar por indução que para n ≥ 1 natural n(n+1)(2n+1) (a) 12 + 22 + · · · + n2 = 6 . um elemento a ∈ A tal que a ≺ b para todo b ∈ A. sen x2 0. sen (n+1)x 2 · sen nx 2 (d) sen x + sen 2x + · · · + sen nx = .8 [CAP. (b) 5n − 1 é múltiplo de 24 para todo número natural n par. Este fato usa o axioma da escolha (e na verdade é equivalente a ele) e está fora do propósito deste livro. onde na soma interpretamos m k = 0 se k > m. (c) (15 + 25 + · · · + n5 ) + (17 + 27 + · · · + n7 ) = 2(1 + 2 + · · · + n)4 . (b) Fn+1 · Fn−1 − Fn2 = (−1)n . Uma ordem total ≺ em S é uma boa ordem se todo subconjunto A de S possui um elemento mı́nimo. (c) 2n + 1 é múltiplo de 3 para todo natural ı́mpar n. ou a ≺ b ou b ≺ a. É possı́vel demonstrar que para todo conjunto S podemos definir uma ordem total em S que é uma boa ordem. (b) 13 + 23 + · · · + n3 = (1 + 2 + · · · + n)2 .3. dados quaisquer a. Veja por exemplo [134]. Demonstrar que (a) n3 − n é um múltiplo de 6 para todo natural n. . isto é. 1 0 Fn Fn−1 (d) n0 + n−1   n−2 n−3 1 + 2 + 3 +· · · = Fn+1 .  n   1 1 Fn+1 Fn (c) = .1. 0: PRINCÍPIOS Dizemos que ≺ é uma ordem total se. b ∈ S. Seja Fn o n-ésimo termo da sequência de Fibonacci. 0.2.

definimos T (n. Dado um inteiro positivo n. 0. Determine o menor inteiro positivo c com essa propriedade. sem que haja duas retas paralelas ou três retas concorrentes em um mesmo ponto.1: PRINCÍPIO DA INDUÇÃO FINITA 9 0. Prove que existe c ∈ N tal que.11.7. Encontrar com demonstração uma expressão para o multinômio (x1 + x2 + · · · + xk )n em termos dos coeficientes multinomiais   n def n! = i1 . (a) Determine em função de n o número de regiões em que as retas dividem o plano. . k + c).[SEC.4.5. 1) = n e. . k) < T (2. isto é. . . Mostre que 72n − 48n − 1 é divisı́vel por 482 para todo valor n. para todo k ≥ 1. .10. Mostre que para todo natural n ≥ 4 (a) 2n < n!. Mostre que para todo n e k inteiros positivos           n n+1 n+2 n+k n+k+1 + + + ··· + = . Considere n retas em posição geral em um plano.k) . Definimos a sequência {an } por a1 = 2 e para n ≥ 2 o termo an é o produto dos termos anteriores mais um.9. para todo k ≥ 1. k + 1) = nT (n. a1 a2 an a1 a2 · · · an 0. 0 1 n−1 n 0.8. T (2010. 0. 0.6. Mostre que 1 1 1 1 + + ··· + =1− . i k i1 ! · · · ik ! onde i1 + · · · + ik = n. n n n n n+1 0. (b) 2n3 > 3n2 + 3n + 1. 0. Demonstre a fórmula do binômio de Newton para n natural:         n n n n−1 n n n (x + y)n = x + x y + ··· + xy n−1 + y . 0. T (n.

aplicando-a para x1 . . (a) Utilize o PIF para mostrar a desigualdade das médias para n = 2k . xn reais positivos fixados e A = x1 +···+x n n a média arit- mética destes números. . . (b) Sejam x1 . 0: PRINCÍPIOS (b) Demonstre que é possı́vel colorir essas regiões com duas cores sem que duas regiões vizinhas tenham a mesma cor (duas regiões são vizinhas se elas possuem um segmento de reta em comum). 0.13. Demonstrar que para cada número natural n existe um número natural M satisfazendo simultaneamente as seguintes duas condições: (i) M possui n dı́gitos pertencentes ao conjunto {1. . xn números reais positivos. A. . . Isto é exatamente o que afirma o chamado Princı́pio da Casa dos Pombos (PCP) ou Princı́pio das Gavetas de Dirichlet: se temos kn + 1 pombos e n casinhas. Mostre que não existe uma função f : N → N tal que f (f (n)) = n + 1987 para todo n ∈ N. prove a desigualdade para todo n natural. . então o número de pombos não poderia ultrapassar kn. 0. 2}. se em todas as casas houvesse no máximo k pombos. xn . então existirá uma casinha onde haverá pelo menos k + 1 pombos. n Tal desigualdade é conhecida como desigualdade das médias aritmética e geométrica. . (c) Combinando os itens anteriores. . . Sejam x1 . . Suponha que a desigualdade valha para n+1 números reais positivos quaisquer.2 Princı́pio da Casa dos Pombos É intuitivamente claro que se colocamos n + 1 objetos em n gavetas então haverá ao menos uma gaveta com mais de um objeto. . 0. conclua que a desigualdade vale também para quaisquer n números reais positivos. Neste exercı́cio vamos provar que x1 + · · · + xn √ ≥ n x1 · · · xn . . 0.12. (ii) M é divisı́vel por 2n . De fato.10 [CAP.14 (IMO1987).

vejamos alguns. 64. 100}. Exemplo 0. . . Mas em cada gaveta há no máximo 12 números (por exemplo. 37. dois números cuja diferença é 9. Do conjunto A = {1. . 4} {5. Distribuı́mos os números de A em 50 “gavetas” assim construı́das: {1. 28. 19. 2. . 2. Solução: Como no exemplo anterior o problema é descobrir como formar as gavetas. escolhemos ao acaso 55 números. .[SEC. 82. 100}.8. 10. 0. onde o número n é colocado na gaveta i se. 100} possui exatamente 12 elemen- tos). Segue.7. Solução: Para provar isto. . Como há 50 gavetas das quais retiramos 51 números. 91. como no problema anterior. serão consecutivos. primeiro escolhamos gavetas adequadas ao problema. mas tem muitas aplicações inte- ressantes. . . o conjunto {1. Como escolhemos 55 = 9 × 6 + 1 números. 55. 1. Consideremos as gavetas numeradas 0. . Do conjunto A = {1. Demonstrar que entre os números escolhidos sempre existem dois que são consecutivos. Como exemplos falam mais do que 103 palavras. 2n} e escolhendo dentre eles n + 1 nú- meros ao acaso. . . . e só se. . . escolhemos ao acaso 51 números. 73. 99. especialmente em argumentos de existência em que não se determina o objeto procurado explicitamente. graças à nossa construção. isto é. sempre existirá uma gaveta da qual escolhemos dois números e estes. 6} ··· {99.2: PRINCÍPIO DA CASA DOS POMBOS 11 O PCP parece bastante inocente. . 2. pelo PCP existirá uma gaveta j na qual há 7 ou mais números escolhidos. 8. o resto na divisão de n por 9 é i. . 2} {3. 100}. 2. 99. 46. Exemplo 0. que existirão dois números que serão “consecutivos” em tal conjunto. . Podemos generalizar este resultado con- siderando os números {1. Demonstrar que entre os números escolhidos sempre existem dois tais que sua diferença é 9.

.1 n n n n n n Se {kα} ∈ [0. n. . . Por exemplo. o problema acabou. 1). 2. . . Caso contrário. 2n+1. 1) em n partes de tamanho n1 : h 1 h1 2 h2 3 hn − 1  [0. Sendo x = (k − j)α. . 2. . Demonstrar que qualquer conjunto de n inteiros possui um subconjunto não vazio cuja soma dos elementos é divisı́vel por n. . . A = {1. para todo inteiro n ≥ 2. . Solução: Sejam a1 . . . . pelo PCP haverá duas partes fracio- nárias {jα} e {kα} com 1 ≤ j < k ≤ n − 1 pertencentes a um mesmo intervalinho dentre os n − 2 restantes. (n−2)n+1} é um destes conjuntos (verifique!). o único real que satisfaz 0 ≤ {x} < 1 e x = m + {x} para algum m ∈ Z. . . e definamos as “somas parciais” sj = a1 + · · · + aj para j = 1. n1 ) ou {x} ∈ [ n−1 n . . Exemplo 0. 0: PRINCÍPIOS Exemplo 0. . a2 . . . .12 [CAP. n+1. Se algum dos sj é divisı́vel por n o problema fica resolvido. ak } é o subconjunto procurado. no sentido em que existem conjuntos A com n − 1 elementos tais que a soma dos elementos de todo subconjunto não vazio de A não é divisı́vel por n. Particione o intervalo [0. . aj+2 . ∪ . Solução: Vamos denotar por {x} a parte fracionária do número real x. n − 1. . . Por outro lado. n − 1. Portanto sk − sj = aj+1 + · · · + ak é divisı́vel por n e {aj+1 . an os elementos do conjunto.9. ∪ .10. . . existe um inteiro 0 < k < n tal que o módulo da diferença entre kα e seu inteiro mais próximo é menor ou igual a n1 . Demonstrar que. n − 1 e como há n somas parciais pelo PCP existem duas sj e sk com j < k que deixam o mesmo. assim k−j satisfaz as condições do problema. n1 ) ou {kα} ∈ [ n−1 n . . Seja α um número real. teremos ( {kα} − {jα} se {kα} ≥ {jα} {x} = 1 + {kα} − {jα} se {kα} < {jα} e portanto {x} ∈ [0. então os possı́veis restos na divisão por n são 1. . isto é. Considere {kα} para k = 1. 1) para algum k = 1. ∪ ··· . Se nenhum é divisı́vel por n. . observemos que n é a quantidade mı́nima de ele- mentos para que se verifique tal condição. 1) = 0. .

de tal forma que . .19. De- monstrar que é possı́vel escolher 3 deles de tal forma que a área do triângulo que formam é menor ou igual a 18 . Do conjunto A = {1. Este é um caso particular do teorema de Ramsey.17. . 0.18. 0. Suponha que a relação de conhecer é simé- trica. veja por exemplo [106]. Escolhem-se 9 pontos no interior de um quadrado de lado 1. demonstrar que necessariamente existem 3 pessoas que se conhecem mutuamente ou 3 pessoas que não se conhecem mutuamente. 0. 0. 99. . entre os 51 números escolhidos. .16.[SEC. 0. De- monstrar que. demonstrar que sempre é possı́vel encontrar infinitos números racionais pq . p. q ∈ Z. 2. existem dois tais que um é múltiplo do outro. Dado um número irracional u. Escolhem-se 7 pontos no interior de um retângulo de dimensões 2 × 3. 100} escolhemos 51 números.15. Dadas 6 pessoas numa festa.2: PRINCÍPIO DA CASA DOS POMBOS 13 Problemas Propostos 0. Demonstrar que sempre é √ possı́vel encontrar dois pontos tal que sua distância é menor ou igual a 2.

.

.

.

u − p .

.

1 < . .

q .

q2 p Um problema mais difı́cil é demonstrar existem racionais q de tal forma que .

.

.

u − p .

. < √ 1 .

.

.

q.

999} com n elementos. c. 2. Dado um conjunto M com 1985 inteiros positivos dis- tintos. . 5q 2 Veja o teorema 3. 0.20 (IMO1985). b.21 (OIbM1998). nenhum dos quais tem divisores primos maiores do que 23. é possı́vel selecionar quatro inteiros diferentes a. mostre que há 4 elementos em M cujo produto é uma quarta potência.13 e a seção correspondente para este e outros resulta- dos relacionados à aproximação de números reais por números racionais. Determinar o mı́nimo valor de n para o qual. . . d tais que a + 2b + 3c = d. . 0. de todo subconjunto de {1. .

nm inteiros com m ı́mpar. .22. . e definamos f (x) = x1 n1 + · · · + xm nm .14 [CAP. . . m. 2. Deno- temos por x = (x1 . . . Demonstrar que de qualquer conjunto de 2n+1 −1 números inteiros positivos é possı́vel escolher 2n elementos de tal forma que sua soma é divisı́vel por 2n .23 (IMO2001). digamos a e b. . . Demonstre que existem duas permutações a e b tais que f (a) − f (b) é divisı́vel por m!. Sejam n1 . . . tais que . n2 .24. 0. Demonstrar que dados 7 números reais sempre é possı́vel escolher 2 deles. . xm ) uma permutação dos inteiros 1. 0: PRINCÍPIOS 0. . 0.

.

.

a−b .

1 .

1 + ab .

< √3 . .

.

0.29 (XII Vingança Olı́mpica). 280}. Encontrar o menor inteiro n para o qual todo subconjunto de S com n elementos contém cinco números que são dois a dois primos entre si. Seja S = {1. Mostre que exite um k tal que o produto dos números na k-ésima linha é diferente ao produto dos números da k-ésima coluna. para quaisquer I1 = [i1 . . 2. 0.27. 0. . Mostrar que toda a sequência com n2 + 1 números re- ais contém ou uma subsequência crescente com n + 1 termos ou uma subsequência decrescente com n + 1 termos. Em um tabuleiro 9 × 9 são colocados todos os números de 1 até 81. Seja n um número inteiro positivo.26 (Erdős). . Determine o maior número possı́vel de elementos de uma famı́lia unida.25 (IMO1991). j1 ] ∈ P e I2 = [i2 . . Pintamos todos os pontos do plano de azul.28. 0. j2 ] ∈ P tais que I1 ⊂ I2 . então i1 = i2 ou j1 = j2 . . 0. j] com 0 ≤ i < j ≤ n e i. Uma famı́lia P de intervalos [i. verde ou preto. Mos- trar que existe no plano um retângulo cujos vértices têm todos a mesma cor. j inteiros é dita unida se.

escrevemos d .1 Divisibilidade Dados dois inteiros d e a. então d | ax + by para qualquer combinação linear ax + by de a e b com coeficientes x. então podemos escrever a = dq1 e b = dq2 com q1 .Capı́tulo 1 Divisibilidade e Congruências Neste primeiro capı́tulo veremos os tópicos básicos de Teoria dos Números. d ∈ Z. y ∈ Z. (iii) (Transitividade) Se a | b e b | c. Demonstração: Se d | a e d | b. q2 ∈ Z. Como q1 x+q2 y ∈ Z. temos que −5 | 10 mas 10 . b. Por exemplo. c.a. como divisibilidade. . 1. (ii) (Limitação) Se d | a. congruências e aritmética módulo n.1.−5. logo ax+by = d(q1 x+q2 y). Sejam a. Eis algumas propriedades importantes da divisibilidade: Lema 1. dizemos que d divide a ou que d é um divisor de a ou ainda que a é um múltiplo de d e escrevemos d|a se existir q ∈ Z com a = qd. então a | c. Caso contrário. Temos (i) (“d divide”) Se d | a e d | b. então a = 0 ou |d| ≤ |a|.

Finalmente. logo c = aq1 q2 e portanto a | c. Destes candidatos.2. Da mesma forma. apenas n = 2 e n = 5 são soluções. a = dq com q 6= 0. Vejamos como utilizar estas propriedades para resolver alguns pro- blemas de divisibilidade. podemos utilizar a “limitação” para obter uma lista finita de candidatos a n. Temos 17n − 34 = 0 ⇐⇒ n = 2 ou |2n2 + 1| ≤ |17n − 34| ⇐⇒ n = 1. 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS temos d | ax + by. 4 ou 5. Para mostrar (ii). Solução: Vamos tentar reduzir o grau em n utilizando o “d divide”. Determine todos os pares (m.3 (IMO1994). Temos mn − 1 | n3 + 1 =⇒ mn − 1 | (n3 + 1) · m − (mn − 1) · n2 ⇐⇒ mn − 1 | n2 + m. Como o grau de 17n − 34 é menor do que o de 2n2 + 1. n) de inteiros n3 +1 positivos para os quais mn−1 é inteiro. então existem q1 . mn − 1 | n2 + m =⇒ mn − 1 | (n2 + m) · m − (mn − 1) · n ⇐⇒ mn − 1 | m2 + n .16 [CAP. assim |q| ≥ 1 e |a| = |d||q| ≥ |d|. se a | b e b | c. temos que ( 2n2 + 1 | n3 + 9n − 17 2n2 + 1 | 2n2 + 1 =⇒ 2n2 + 1 | (n3 + 9n − 17) · 2 + (2n2 + 1) · (−n) ⇐⇒ 2n2 + 1 | 17n − 34. suponha que d | a e a 6= 0. Exemplo 1. Exemplo 1. Solução: Utilizando o “2n2 + 1 divide” para reduzir o grau de n3 + 9n − 17. q2 ∈ Z tais que b = aq1 e c = bq2 . Neste caso. Encontre todos os inteiros positivos n tais que 2n2 + 1 | n3 + 9n − 17.

5) e (5. 2).1: DIVISIBILIDADE 17 e. ambos os casos fornecendo soluções. (3. Agora temos alguns casos a analisar.[SEC. 2). (2. • Se m = n + 1 ≥ 5 devemos ter (n + 1)n − 1 | n2 + (n + 1) ⇐⇒ n2 + n − 1 | (n2 + n + 1) − (n2 + n − 1) ⇐⇒ n2 + n − 1 | 2 o que novamente não é possı́vel pois n ≥ 4. que fornece uma solução. (1. (5. n) são (1. Utilizando a “limitação” temos mn − 1 | n2 + m =⇒ mn − 1 ≤ n2 + m ⇐⇒ m(n − 1) ≤ n2 + 1. (3. • Se m ≥ n = 3 devemos ter 3m − 1 | 32 + m =⇒ 3m − 1 | 3(m + 9) − (3m − 1) ⇐⇒ 3m − 1 | 28 ⇐⇒ m = 5. 1). 1). • Se m ≥ n = 1 devemos ter m − 1 | 12 + m =⇒ m − 1 | m + 1 − (m − 1) ⇐⇒ m − 1 | 2 e portanto m = 2 ou m = 3. 5). 3). Como estamos assumindo m ≥ n. . mn − 1 | m2 + n =⇒ mn − 1 | (m2 + n) · m − (mn − 1) ⇐⇒ mn − 1 | m3 + 1 que é a mesma expressão com que começamos. ambos os casos fornecendo soluções. trocando n por m. 2). 3). se n ≥ 4 temos apenas duas possibilidades: m = n ou m = n+1. Logo as soluções (m. Portanto podemos supor sem perda de generalidade que m ≥ n. (2. temos que a condição é simétrica em m e n e as divisibilidades acima são todas equivalentes entre si. Assim. • Se m = n ≥ 4 devemos ter n2 − 1 | n2 + n ⇐⇒ n − 1 | n =⇒ n − 1 | n − (n − 1) ⇐⇒ n − 1 | 1 o que não é possı́vel pois n ≥ 4. (2. 1. 2 Se n 6= 1 temos m ≤ nn−1+1 2 = n + 1 + n−1 . • Se m ≥ n = 2 devemos ter 2m − 1 | 22 + m =⇒ 2m − 1 | 2(m + 4) − (2m − 1) ⇐⇒ 2m − 1 | 9 ⇐⇒ m = 2 ou m = 5. finalmente.

b10c = d10e = 10. 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS 1. Podemos agora mostrar a existência de q e r satisfazendo as duas condições acima: basta tomar ( ba/bc se b > 0 q= e r = a − bq em ambos os casos da/be se b < 0 e é fácil verificar que 0 ≤ r < |b| a partir das definições das funções piso e teto. se a = bq1 + r1 = bq2 + r2 com 0 ≤ r1 . b]).2 mdc. r ∈ Z com a = bq + r e 0 ≤ r < |b|. . b) (alguns autores usam a notação (a. que é uma das quatro operações que toda criança aprende na escola. temos b 2c = 1. Por exemplo. Tal número é chamado mı́nimo múltiplo comum (mmc) de a e b e o denotaremos por mmc(a. Denotamos este número por mdc(a. b) = 1 dizemos que a e b são primos entre si. 0) = 0. d 2e = 2. r2 < |b|. Por ser finito. se denotamos por Mn o conjunto dos múltiplos po- sitivos de n. que é chamado de máximo divisor comum (mdc) dos números a e b. ou divisão com resto. Da ∩ Db possui elemento máximo. b) (alguns autores escrevem [a. Para calcularmos o mdc e o mmc de maneira eficiente. existem q. vamos descre- ver o chamado algoritmo de Euclides ou algoritmo das divisões sucessi- vas. Ma ∩ Mb possui elemento mı́nimo.18 [CAP. definimos o teto dxe de√x como o√único k ∈ Z tal que k − 1 < x ≤ k. Quando mdc(a. Primeiramente. mmc e Algoritmo de Euclides Dados dois números inteiros a e b com a 6= 0 ou b 6= 0. e a intersecção de tais conjuntos Da ∩ Db é finita (pela “limitação”) e não vazia (já que 1 pertence à intersecção). Por outro lado. Sua formulação precisa é: dados a. b)). b−πc = −4 e d−πe = −3. a cada um deles pode-se associar seu conjunto de divisores positivos. vamos relembrar o conceito de divisão euclidiana. Para a = b = 0 convencionamos mdc(0. dados dois números inteiros a e b com a 6= 0 e b 6= 0. O resto r é também denotado por a mod b. b ∈ Z com b 6= 0. Como os naturais são bem ordenados. Para x ∈ R. então a intersecção Ma ∩ Mb é não vazia (já que |ab| está na intersec- ção). Da e Db respectivamente. definimos o piso ou parte inteira bxc de x como sendo o único k ∈ Z tal que k ≤ x < k + 1. Por outro lado. Tais q e r estão unicamente determinados pelas duas condições acima (veja o argumento a seguir) e são chamados o quociente e resto da divisão de a por b.

109)= mdc(109. se d ∈ Db ∩ Dr temos d | b e d | r. Exemplo 1. r). temos 1001 = 109 · 9 + 20 109 = 20 · 5 + 9 20 = 9 · 2 + 2 9=2·4+1 2 = 1 · 2 + 0. então mdc(a. 109). 0) = 1. já que se estes conjuntos forem iguais em particular os seus máximos também serão iguais. Assim. Se a = bq + r.[SEC. que se baseia na seguinte simples observação: Lema 1. . o algoritmo eventualmente para quando atingimos o resto 0.6. Como os restos formam uma sequência estritamente decrescente. Solução: Realizando as divisões sucessivas. o que prova a unicidade. a + 1) = 2 se a é ı́mpar. 1. Se d ∈ Da ∩ Db temos d | a e d | b. Exemplo 1. 9)= mdc(9. b) = mdc(b. mdc(a + 1. 2) = mdc(2. Demonstração: Basta mostrar que Da ∩ Db = Db ∩ Dr . Calcule mdc(1001. Sejam m 6= n dois números naturais. Demonstrar que ( 2m 2n 1 se a é par. logo d | bq + r ⇐⇒ d | a e assim d ∈ Da ∩ Db . MMC E ALGORITMO DE EUCLIDES 19 então temos que r2 −r1 = b(q1 −q2 ) é um múltiplo de b com |r2 −r1 | < |b|. 1) = mdc(1. O algoritmo de Euclides consiste na aplicação reiterada do lema acima onde q e r são o quociente e o resto na divisão de a por b (note que o lema vale mesmo sem a condição 0 ≤ r < |b|). logo d | a − bq ⇐⇒ d | r e portanto d ∈ Db ∩ Dr . Podemos agora descrever o algoritmo de Euclides para calcular o mdc. temos mdc(1001.4 (Euclides).5.2: MDC. Da mesma forma. portanto r2 − r1 = 0 e assim q1 = q2 também. 20)= mdc(20.

Tomando c = mdc(a. b) temos que d | a e d | b. b). . y ∈ Z com ax + by = mdc(a. Nos outros casos. Demonstração: O caso a = b = 0 é trivial (temos x = y = 0). b). Além de servir de ferramenta computacional para o cálculo do mdc. Sejam a. isto é. dado m = ax + by ∈ I(a. b). b ∈ Z. Portanto se c ∈ Z é tal que c | a e c | b então c | mdc(a. a divisão euclidiana tem consequências teóricas importantes. . Seja d = ax0 + by0 o menor elemento positivo de I(a. O próximo teorema mostra que é sempre possı́vel escrever o mdc de dois números como combinação linear destes (com coeficientes inteiros). segue que r = 0 e portanto d | m. b). b) (há pelo menos um elemento positivo. mostra que d = mdc(a. a2 + 1) = mdc(a2 + 1. Afirmamos que d divide todos os elementos de I(a. b). b). e é igual a 1 caso contrário. Mas como r < d e d é o menor elemento positivo de I(a. b). 2) n que é igual a 2 se a2 + 1 for par. b) | d o que. logo d ≤ mdc(a. Teorema 1.7 (Bachet-Bézout). juntamente com a desigualdade d ≤ mdc(a. b) = {ax + by : x. (a2 + 1)(a2 − 1). 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS Solução: Suponha sem perda de generalidade que m > n e observe a fatoração m m−1 m−2 m−3 n n a2 − 1 = (a2 + 1)(a2 + 1)(a2 + 1) . m n Logo a2 + 1 = (a2 + 1) · q + 2 com q ∈ Z e assim m n n mdc(a2 + 1. se a for ı́mpar. De fato. b ∈ I(a. de modo que m = dq + r e 0 ≤ r < d. Temos r = m − dq = a(x − qx0 ) + b(y − qy0 ) ∈ I(a. . então c | ax0 + by0 ⇐⇒ c | d. Em particular. y ∈ Z}. r ∈ Z o quociente e o resto na divisão euclidiana de m por d. verifique!). b). como a. sejam q. Note ainda que se c | a e c | b.20 [CAP. b) temos que mdc(a. b). considere o conjunto de todas as combinações Z-lineares de a e b: def I(a. Então existem x.

. x2 . . . an ). . . . . . Reciproca- mente. . Dados um inteiro n > 2 e inteiros a1 . MMC E ALGORITMO DE EUCLIDES 21 Corolário 1. a2 . pelo teorema anterior. . a2 . . . an ). a2 . . xn tais que a1 x1 + a2 x2 + · · · + an xn = mdc(a1 . . an−1 ).8. . an−1 ). a equação a1 x1 + a2 x2 + · · · + an xn = c admite solução inteira em x1 . . . . . não todos nulos. digamos c = k · mdc(a. . então mdc(a. . . . a2 . an ) = mdc(mdc(a1 . . . . . an−1 )u + an v. . e somente se. . . a2 . . an−1 ). an ) = mdc(a1 . b. Também podemos provar por indução em n que existem inteiros x1 . . mdc(a1 . an ).[SEC. a2 . b) com k ∈ Z. e. . a2 . . O corolário anterior se generaliza então da seguinte forma: dado c ∈ Z. . . . De fato. se d é um divisor comum de a1 . . . . a2 . b) | c. . se existem inteiros y1 . . logo deve dividir o direito também. a2 . Em particular. an então d | mdc(a1 . x2 . . . . a2 . an ) = mdc(mdc(a1 . se mdc(a. an−1 )u + an v = a1 x1 + a2 x2 + · · · + an xn . . a2 . . onde xj = yj u para 1 ≤ j ≤ n − 1 e xn = v. . . mdc(a. . . . Temos uma outra importante consequência do teorema anterior: . . 1. temos mdc(a1 . . c ∈ Z. a2 . b) divide o lado esquerdo. . . . an . b) e multiplicando tudo por k obtemos que x = kx0 e y = ky0 são soluções da equação dada. . . definimos recursivamente mdc(a1 .2: MDC. existem u e v intei- ros tais que mdc(mdc(a1 . Sejam a. an ) | c. . . . yn−1 com a1 y1 + a2 y2 + · · · + an−1 yn−1 = mdc(a1 . e somente se. an−1 ). A equação ax + by = c admite solução inteira em x e y se. . . . pelo teorema acima existem inteiros x0 e y0 tais que ax0 + by0 = mdc(a. . y2 . xn se. an . Demonstração: Se a equação admite solução inteira. an ) = = mdc(a1 . b) | c. . a2 . É fácil mostrar por indução em n que este número é um divisor positivo comum de a1 . a2 . .

22 [CAP. 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS

Proposição 1.9. Se mdc(a, b) = 1 e a | bc, então a | c.

Demonstração: Como mdc(a, b) = 1, existem x, y ∈ Z tais que
ax + by = 1 =⇒ a · cx + (bc) · y = c. Do fato de a dividir cada termo
do lado esquerdo, temos que a | c.

Lembramos que um natural p > 1 é chamado primo se os únicos
divisores positivos de p são 1 e p e um natural n > 1 é chamado composto
se admite outros divisores além de 1 e n. Observemos que 1 não é nem
primo nem composto.
Claramente, se p é primo e p - a temos mdc(p, a) = 1. Usando a
proposição anterior e indução temos o seguinte resultado:

Corolário 1.10. Seja p um número primo e sejam a1 , . . . am ∈ Z. Se
p | a1 · · · am , então p | ai para algum i, 1 ≤ i ≤ m.

O próximo lema resume algumas propriedades úteis do mdc:

Lema 1.11. Temos

1. Se p é primo, então mdc(a, p) é 1 ou p.

2. Se k é um inteiro, então mdc(a, b) = mdc(a − kb, b).

3. Se a | c, então mdc(a, b) | mdc(c, b).

4. Se mdc(a, b) = 1, então mdc(ac, b) = mdc(c, b).

Demonstração: O primeiro item é claro e o segundo é apenas uma
reformulação do lema 1.4. Para provar o terceiro item, observe que
mdc(a, b) | a e a | c implicam que mdc(a, b) | c. Como também te-
mos mdc(a, b) | b, concluı́mos que mdc(a, b) | mdc(b, c) por Bachet-
Bézout. Finalmente, para mostrar o último item, note primeiro que
mdc(c, b) | mdc(ac, b) pois mdc(c, b) divide simultaneamente ac e b. Re-
ciprocamente, para mostrar que mdc(ac, b) | mdc(c, b), podemos escrever
ax + by = 1 com x, y ∈ Z por Bachet-Bézout. Assim, mdc(ac, b) divide
ac · x + b · cy = c e também divide b, logo divide mdc(c, b).

Vejamos como podemos usar as propriedades acima para solucionar
o seguinte

[SEC. 1.2: MDC, MMC E ALGORITMO DE EUCLIDES 23

Exemplo 1.12. Sejam an = 100 + n2 e dn = mdc(an , an+1 ). Calcular
dn para todo n.

Solução: Aplicando a propriedade 2 temos que

dn = mdc(100 + n2 , 100 + (n + 1)2 ) = mdc(100 + n2 , 2n + 1).

Como 2n + 1 é ı́mpar, mdc(4, 2n + 1) = 1 e pelas propriedades 4 e 2
temos que

dn = mdc(400 + 4n2 , 2n + 1)
= mdc(400 + 4n2 − (2n + 1)(2n − 1), 2n + 1)
= mdc(401, 2n + 1).

Como 401 é primo, então mdc(401, 2n + 1) = 401 se 2n + 1 = 401k (com
k = 2r + 1 inteiro ı́mpar) e mdc(401, 2n + 1) = 1 caso contrário, ou seja,
(
401 se n = 401r + 200 com r ∈ Z
dn =
1 caso contrário.

A próxima proposição conecta o mdc e o mmc de dois inteiros e pode
ser utilizada, juntamente com o algoritmo de Euclides, para o cálculo
eficiente do mmc.

Proposição 1.13. Sejam a e b dois números naturais, então

mdc(a, b) · mmc(a, b) = a · b.

Demonstração: Escreva d = mdc(a, b) e a = a1 d e b = b1 d onde
a1 , b1 ∈ Z são tais que mdc(a1 , b1 ) = 1. Temos mmc(a, b) = al para
algum l ∈ Z; além disso, b | mmc(a, b) ⇐⇒ b1 d | a1 dl ⇐⇒ b1 | a1 l.
Como mdc(a1 , b1 ) = 1, isto implica que b1 | l pela proposição 1.9.
Pela definição de mı́nimo múltiplo comum, temos que l deve ser o mı́-
nimo número divisı́vel por b1 , assim concluı́mos que l = b1 e portanto
mmc(a, b) = b1 a. Logo mdc(a, b) · mmc(a, b) = d · b1 a = a · b.

24 [CAP. 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS

Dados um inteiro n > 2 e inteiros a1 , a2 , . . . , an , não todos nulos,
definimos recursivamente

mmc(a1 , a2 , . . . , an ) = mmc(mmc(a1 , a2 , . . . , an−1 ), an ).

É fácil mostrar por indução em n que este número é um múltiplo po-
sitivo comum de a1 , a2 , . . . , an , e que, se m é um múltiplo comum de
a1 , a2 , . . . , an , então mmc(a1 , a2 , . . . , an ) | m.
A demonstração que demos do teorema de Bachet-Bézout não mostra
como efetivamente encontrar uma solução de ax + by = mdc(a, b). Po-
rém, isto pode ser feito utilizando-se o algoritmo de Euclides, como mos-
tra o exemplo a seguir. De fato, este exemplo pode servir como ponto de
partida para uma segunda demonstração do teorema de Bachet-Bézout
(veja os exercı́cios).

Exemplo 1.14. Encontre todos os x, y ∈ Z tais que

1001x + 109y = mdc(1001, 109).

Solução: Fazemos as divisões sucessivas para o cálculo de mdc(1001,
109) = 1 utilizando o algoritmo de Euclides (veja o exemplo 1.5). Em
seguida, isolamos os restos:

20 = 1001 − 109 · 9
9 = 109 − 20 · 5
2 = 20 − 9 · 2
1 = 9 − 2 ·4

Note que a última divisão permite expressar o mdc 1 como combinação
linear de 9 e 2:
9 · 1 − 2 · 4 = 1.
Mas da penúltima divisão, temos que 2 = 20 − 9 ·2, logo substituindo
esta expressão na combinação linear acima, temos

9 − ( 20 − 9 · 2) · 4 = 1 ⇐⇒ 9 · 9 − 20 · 4 = 1

e agora expressamos 1 como combinação linear de 20 e 9. Repetindo este
procedimento, eventualmente expressaremos 1 como combinação linear

[SEC. 1.2: MDC, MMC E ALGORITMO DE EUCLIDES 25

de 1001 e 109. Tomamos o cuidado de lembrar quais são os “coefici-
entes” a e b nas equações ax + by = mdc(a, b) durante as simplificações.
Continuando, obtemos
1 = ( 109 − 20 · 5) · 9 − 20 · 4 = 109 · 9 − 20 · 49
1 = 109 · 9 − ( 1001 − 109 · 9) · 49 = 1001 · (−49) + 109 · 450.
Logo uma solução da equação 1001x + 109y = 1 é (x0 , y0 ) = (−49, 450).
Para encontrar as demais, escrevemos o lado direito desta equação uti-
lizando a solução particular que acabamos de encontrar:
1001x + 109y = 1001x0 + 109y0 ⇐⇒ 1001(x − x0 ) = −109(y − y0 ).
Como mdc(1001, 109) = 1 temos pela proposição 1.9 que 1001 divide
y − y0 , ou seja, y − y0 = 1001t para algum t ∈ Z e, portanto, x − x0 =
−109t. Assim, as soluções da equação dada são todos os pontos da reta
1001x + 109y = 1 da forma
(x, y) = (x0 − 109t, y0 + 1001t) = (−49, 450) + (−109, 1001) · t
com t ∈ Z.
Em geral, o raciocı́nio do exemplo acima mostra que se mdc(a, b) = 1
e (x0 , y0 ) é uma solução da equação ax + by = c, então todas as soluções
inteiras são dadas por x = x0 − bk e y = y0 + ak com k ∈ Z.

Exemplo 1.15. Sejam a, b inteiros positivos com mdc(a, b) = 1. Mostre
que para todo c ∈ Z com c > ab − a − b, a equação ax + by = c admite
soluções inteiras com x, y ≥ 0.

Solução: Seja (x0 , y0 ) uma solução inteira (que existe pelo teorema
de Bachet-Bézout). Devemos mostrar a existência de um inteiro k tal
que
x = x0 − bk > −1 e y = y0 + ak > −1,
ou seja,
y0 + 1 x0 + 1
− <k< .
a b
Mas isto segue do fato de o intervalo (− y0a+1 , x0b+1 ) ter tamanho maior
do que 1:
x0 + 1  y0 + 1  ax0 + by0 + a + b c+a+b
− − = = > 1.
b a ab ab

26 [CAP. 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS

1.3 O Teorema Fundamental da Aritmética
Estamos agora prontos para enunciar o teorema que caracteriza todo
número natural em termos de seus “constituintes” primos.

Teorema 1.16 (Teorema Fundamental da Aritmética). Seja n ≥ 2 um
número natural. Podemos escrever n de uma única forma como um
produto
n = p1 · · · pm
onde m ≥ 1 é um natural e p1 ≤ . . . ≤ pm são primos.

Demonstração: Mostramos a existência da fatoração de n em primos
por indução. Se n é primo não há o que provar (escrevemos m = 1,
p1 = n). Se n é composto podemos escrever n = ab, a, b ∈ N, 1 < a < n,
1 < b < n. Por hipótese de indução, a e b se decompõem como produto
de primos. Juntando as fatorações de a e b (e reordenando os fatores)
obtemos uma fatoração de n.
Vamos agora mostrar a unicidade. Suponha por absurdo que n possui
duas fatorações diferentes

n = p1 · · · pm = q1 · · · qm0 ,

com p1 ≤ . . . ≤ pm , q1 ≤ . . . ≤ qm0 e que n é mı́nimo com tal propri-
edade. Como p1 | q1 · · · qm0 temos p1 | qi para algum valor de i pelo
corolário 1.10. Logo, como qi é primo, p1 = qi e p1 ≥ q1 . Analogamente
temos q1 ≤ p1 , donde p1 = q1 . Mas

n/p1 = p2 · · · pm = q2 · · · qm0

admite uma única fatoração, pela minimalidade de n, donde m = m0 e
pi = qi para todo i, o que contradiz o fato de n ter duas fatorações.

Outra forma de escrever a fatoração acima é

n = pe11 . . . pemm ,

com p1 < · · · < pm e ei > 0. Ainda outra formulação é escrever

n = 2e2 3e3 5e5 . . . pep . . .

[SEC. 1.3: O TEOREMA FUNDAMENTAL DA ARITMÉTICA 27

onde o produto é tomado sobre todos os primos mas apenas um número
finito de expoentes é maior do que zero. Vamos nos referir a qualquer
destas expressões como a fatoração canônica de n em primos.
A fatoração única em primos se aplica em contextos mais gerais,
como veremos mais tarde. Aqui, como aplicação imediata do Teorema
Fundamental da Aritmética, vamos mostrar a prova atribuı́da a Euclides
para a existência de infinitos primos (uma prova com mais de 2000 anos
e que ainda funciona!).

Teorema 1.17 (Euclides). Existem infinitos primos.

Demonstração: Suponha por absurdo que p1 , p2 , . . . , pm fossem to-
dos os primos. O número N = p1 p2 . . . pm + 1 > 1 não seria divisı́vel
por nenhum primo pi , o que contradiz o Teorema Fundamental da Arit-
mética.

Observe que não provamos que p1 p2 . . . pm + 1 é primo para algum
conjunto finito de primos (por exemplo, os m primeiros primos). Aliás,
2·3·5·7·11·13+1 = 30031 = 59·509 não é primo. Não se conhece nenhuma
fórmula simples que gere sempre números primos (veja a seção 7.2 para
uma discussão sobre este assunto).
Embora a quantidade de primos seja infinita, uma questão natural é
saber o quão “raros” ou “frequentes” eles são. Na segunda parte do livro,
discutiremos mais a fundo esta questão sobre a distribuição dos primos.
Por outro lado, é interessante notar que existem cadeias arbitrariamente
longas de números compostos consecutivos: na sequência

(k + 1)! + 2, (k + 1)! + 3, (k + 1)! + 4, . . . , (k + 1)! + (k + 1),

nenhum termo é primo, pois eles admitem fatores próprios 2, 3, 4, . . . , k+
1, respectivamente.
Uma interessante prova alternativa, devida a Erdős, de que existem
infinitos primos é a seguinte:
Suponha, por contradição, que existe um número finito de primos,
digamos p1 , p2 , . . . , pk . Seja n um número natural. Então podemos es-
crever qualquer número m ≤ n na forma m = m21 m2 , onde m21 ≤ n
e
m2 = pa11 · pa22 · · · pakk onde ak = 0 ou 1 para cada k.

28 [CAP. 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS

Assim, considerando todas as possı́veis maneiras de escrever os naturais

m ≤ n, temos: 2k escolhas para m2 e no máximo b nc escolhas para
m1 . Ou seja, para todo n natural, vale que

n ≤ 2k n

absurdo, pois esta desigualdade não vale para n suficientemente grande.

Exemplo 1.18 (OIbM1987). A sequência pn é definida da seguinte
forma:

(i) p1 = 2.

(ii) Para todo n ≥ 2, pn é o maior divisor primo da expressão

p1 p2 p3 · · · pn−1 + 1.

Demonstrar que pn é diferente de 5.

Solução: Dado que p1 = 2, p2 = 3, p3 = 7, segue-se que para qualquer
n ≥ 3, p1 p2 · · · pn−1 é múltiplo de 2 e de 3, portanto p1 p2 · · · pn−1 + 1
não é múltiplo nem de 2 nem de 3. Além disso, como p1 = 2, então pn
é ı́mpar para todo n ≥ 2, assim p1 p2 · · · pn−1 não é múltiplo de 4.
Suponhamos que exista n tal que pn = 5, isto é, o maior divisor
primo de p1 p2 · · · pn−1 + 1 é 5. Como 2 e 3 não dividem p1 p2 · · · pn−1 + 1,
temos que
p1 p2 · · · pn−1 + 1 = 5k .
Portanto

p1 p2 · · · pn−1 = 5k − 1 = (5 − 1)(5k−1 + 5k−2 + · · · + 5 + 1),

donde 4 | p1 p2 · · · pn−1 , uma contradição.

Exemplo 1.19. Determine todas as ternas (a, b, c) de inteiros positivos
tais que a2 = 2b + c4 .

Solução: Como a2 = 2b + c4 ⇐⇒ (a − c2 )(a + c2 ) = 2b , pelo Teorema
Fundamental da Aritmética existem dois naturais m > n tais que m +

[SEC. 1.3: O TEOREMA FUNDAMENTAL DA ARITMÉTICA 29

n = b, a − c2 = 2n e a + c2 = 2m . Subtraindo as duas últimas equações,
obtemos que 2c2 = 2m − 2n , assim c2 = 2n−1 (2m−n − 1). Como 2n−1 e
2m−n −1 são primos entre si e o seu produto é um quadrado perfeito (i.e.
os expoentes das potências de primos distintos são pares), novamente
pelo Teorema Fundamental da Aritmética 2n−1 e 2m−n − 1 devem ser
ambos quadrados perfeitos, logo n − 1 é par e 2m−n − 1 = (2k − 1)2 para
algum inteiro positivo k. Como 2m−n = (2k − 1)2 + 1 = 4k(k − 1) + 2 é
divisı́vel por 2 mas não por 4, temos m − n = 1. Assim, fazendo n − 1 =
2t, temos que todas as soluções são da forma (a, b, c) = (3 · 22t , 4t + 3, 2t )
com t ∈ N e é fácil verificar que todos os números desta forma são
soluções.

Segue do Teorema Fundamental da Aritmética que todo divisor de
n = pe11 . . . pemm é da forma
pd11 . . . pdmm
com 0 ≤ di ≤ ei . Assim, obtemos o outro algoritmo usual para cal-
cular o mdc de dois números: fatoramos os dois números em primos e
tomamos os fatores comuns com os menores expoentes. Este algoritmo é
bem menos eficiente do que o de Euclides para inteiros grandes (que em
geral não sabemos fatorar de forma eficiente computacionalmente) mas
é instrutivo saber que os dois algoritmos dão o mesmo resultado. Além
disso, este algoritmo tem consequências teóricas importantes, como por
exemplo o

Corolário 1.20. Se mdc(a, n) = mdc(b, n) = 1, então mdc(ab, n) = 1.

Demonstração: Evidente a partir do algoritmo descrito acima.

Para encerrar esta seção, vejamos ainda algumas outras aplicações
do Teorema Fundamental da Aritmética.

Proposição 1.21. Seja n = pe11 . . . pemm a fatoração de n em potências
def P
de primos distintos pi e seja σk (n) = d|n, d>0 dk a soma das k-ésimas
potências dos divisores positivos de n. Então
(e +1)k (e +1)k
p1 1 −1 pmm −1
σk (n) = k
· . . . · k
.
p1 − 1 pm − 1

30 [CAP. 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS

Para k = 0, a fórmula acima deve ser interpretada tomando-se o limite
k → 0, de modo que a quantidade de divisores positivos de n é σ0 (n) =
(e1 + 1) · · · (em + 1).

Demonstração: Como a soma na definição de σk (n) percorre todos os
números da forma dk = pd11 k . . . pdmm k com 0 ≤ di ≤ ei , temos a seguinte
fatoração:
e1 k
σk (n) = (1 + pk1 + p2k k 2k em k
1 + · · · + p1 ) · . . . · (1 + pm + pm + · · · + pm ).
(ei +1)k
ei k pi −1
Somando as progressões geométricas 1+pki +p2k
i +· · ·+pi = pki −1
,
o resultado segue.

Proposição 1.22 (Fatores do Fatorial). Seja p um primo. Então a
maior potência de p que divide n! é pα onde
     
n n n
α= + 2 + 3 + ···
p p p

Observe que a soma acima é finita pois os termos pni são eventualmente
 

zero.
Demonstração: No produto n! = 1 · 2 · . . . · n, apenas os múltiplos
de p contribuem com um fator p. Há np tais múltiplos entre 1 e n.
Destes, 2
 nos
 que são múltiplos de p contribuem com um fator p extra
e há p2 tais fatores. Dentre estes últimos, os que são múltiplos de
p3 contribuem com mais um fator p e assim por diante, resultando na
fórmula acima.

Exemplo 1.23. Determine com quantos zeros termina 1000!.

Solução: O problema é equivalente a determinar qual a maior potên-
cia de 10 que divide 1000! e como há muito mais fatores 2 do que 5 em
1000!, o expoente desta potência coincide com o da maior potência de 5
que divide 1000!, ou seja,
       
1000 1000 1000 1000
+ + + = 249.
5 52 53 54
Assim, 1000! termina com 249 zeros.

[SEC. 1.3: O TEOREMA FUNDAMENTAL DA ARITMÉTICA 31

Problemas Propostos
21n+4
1.1 (IMO1959). Mostre que a fração 14n+3 é irredutı́vel para todo n
natural.
1.2. Encontre todos os inteiros positivos tais que
(a) n + 1 | n3 − 1
(b) 2n − 1 | n3 + 1
1 1 1
(c) n + m = 143

(d) 2n3 + 5 | n4 + n + 1
1.3. Demonstre:
(a) se m | a − b, então m | ak − bk para todo natural k.
(b) se f (x) é um polinômio com coeficientes inteiros e a e b são inteiros
quaisquer, então a − b | f (a) − f (b).
(c) se k é um natural ı́mpar, então a + b | ak + bk .
1.4. Mostre que
(a) 215 − 1 e 210 + 1 são primos entre si.
(b) 232 + 1 e 24 + 1 são primos entre si.
1.5. Demonstrar que (n − 1)2 | nk − 1 se, e só se, n − 1 | k.
1.6 (IMO1992). Encontrar todos os inteiros a, b, c com 1 < a < b < c
tais que (a − 1)(b − 1)(c − 1) é divisor de abc − 1.
Dica: Mostrar primeiro que a ≤ 4 e considerar os possı́veis casos.
1.7 (IMO1998). Determine todos os pares de inteiros positivos (a, b) tais
que ab2 + b + 7 divide a2 b + a + b.
Dica: Mostre que ab2 + b + 7 | 7a − b2 e considerar três casos: 7a − b2
maior, menor ou igual a zero.
1.8. Mostre que, se n > 1, então
n
X 1 1 1
= 1 + + ··· +
k 2 n
k=1

não é um número inteiro.

32 [CAP. y ∈ Z. Demonstrar que existem dois inteiros positivos x e y tais que ax−by = d. (c) Determine xn e yn tais que Fn · xn + Fn+1 · yn = 1. 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS 1. cm + dn) = mdc(m.13. ab22 . n). 2n+1 ) = 2n e mdc(b. então ab22 = ab11 +a +b3 . Por exemplo a sequência de Farey de ordem 3 é 01 . f n+1 (x) = f (f n (x)). (b) Demonstrar que se ab11 .10. .15. então mdc(am + bn. Definimos f 0 (x) = x. 13 . f (x) = x2 + c. 2n+1 ) = 2n . então cb − ad = 1. ∀n ∈ N. b) admite solução com x. Dizemos que x ∈ R é pré-periódico se {f n (x). b. 1.11. Sejam c ∈ Q. (b) Mostre que mdc(Fn .12. Seja Fn o n-ésimo termo da sequência de Fibonacci. Sejam a e b dois inteiros positivos e d seu máximo divisor comum. 3 1.9 (OBM1997). b} e o algoritmo de Euclides para mos- trar que ax + by = mdc(a. ab33 são três termos consecutivos de uma sequência de Farey. 1. Utilize indução em min{a. 11 . Demonstrar que se mdc(a. d. 1. Fn+1 ) = 1 para todo n ≥ 0. c. 2n+1 ) = 2n+1 . 1 ≤ b ≤ n. 1. 12 . 1. então mdc(a + b. m e n são inteiros tais que ad−bc = 1 e mn 6= 0. Mostre que {x ∈ Q| x é pré-periódico} é finito.14. 32 . Definimos a sequência de frações de Farey de ordem n como o conjunto de frações reduzidas ab tais que 0 ≤ ab ≤ 1. Demonstrar que se a. obtendo uma nova demonstração do teorema de Bachet-Bézout. (a) Encontrar dois números inteiros a e b tais que 233a + 144b = 1 (observe que 233 e 144 são termos consecutivos da sequência de Fi- bonacci). n ∈ N} é finito. (a) Demonstrar que se ab e dc são dois termos consecutivos de uma sequência de Farey.

1. Prove que. 1. (ii) f (a. a (iii) Se a > b. dois a dois primos entre si.22 (IMO1989). b) = a−b f (a − b. Mostre que d < n2 e encontre todos os n para os quais d | n2 . 1.b) − 1 para todo a. para todo inteiro positivo n. Encontrar todos os n para os quais 1 + n1 + n2 + n3    divide 22000 . Demonstrar que mdc(2a − 1. b) = f (b.19. Encontrar todos os a. (b) Achar a quantidade de números inteiros positivos que não pertencem a C. b). y ∈ N}. nenhum dos quais é potência de primo. 1.16.3: O TEOREMA FUNDAMENTAL DA ARITMÉTICA 33 1.18 (IMO1977).21. Sejam a. o quociente é q e o resto é r. então f (a.[SEC.17 (IMO1984). demonstrar que 2abc − ab − bc − ca é o maior número inteiro que não pode expressar-se na forma xbc + yca + zab com x. . (a) Demonstre que o número ab − a − b não pertence a C.15 que todo número maior que ab − a − b pertence a C. 1. Mostre que se n é um número natural composto. b tais que q 2 + r = 1977. Seja d = d1 d2 + d2 d3 + · · · + dk−1 dk . y e z inteiros não negativos. b inteiros positivos. Dados os inteiros positivos a. Quando dividimos a2 +b2 por a + b. Sejam a e b números inteiros positivos. 1. 1. Encontrar todas as funções f : Z × Z −→ Z satisfazendo simulta- neamente as seguintes propriedades (i) f (a. existem n inteiros positivos consecutivos.24 (IMO2002). Lembre-se de que já mostramos no exemplo 1. a).23 (Chi1998). então n é divisı́vel √ por um primo p com p ≤ b nc. b e c. Sejam d1 < d2 < · · · < dk os divisores positivos de um inteiro n > 1. Considere o conjunto C = {ax + by | x. b ∈ N. a) = a. 1.20. 2b − 1) = 2mdc(a. 1.

. c. 1. y) de inteiros positivos 2 tais que xy = y x .34 [CAP. Para quaisquer a. onde x e y são inteiros positivos. se a e b deixam o mesmo resto na divisão por n.4 Congruências Sejam a. n ∈ Z. (Compatibilidade com a soma e diferença) Podemos somar e sub- trair “membro a membro”: ( ( a ≡ b (mod n) a + c ≡ b + d (mod n) =⇒ c ≡ d (mod n) a − c ≡ b − d (mod n) Em particular. então b ≡ a (mod n). então ka ≡ kb (mod n) para todo k ∈ Z. então a ≡ c (mod n). c.24. b. Generalizar o resultado anterior para xy = y x . Proposição 1. b. Encontrar todos os pares (x. (Transitividade) se a ≡ b (mod n) e b ≡ c (mod n).26. 2. Por exemplo. ou seja. Dica: Sejam x = pα1 1 . Sejam a. pαnn e y = pβ1 1 . se a ≡ b (mod n). n ∈ Z temos: 1. (Simetria) se a ≡ b (mod n). . . . 1.25 (IMO1997).27 (IMO1984). então a = 1. pβnn as fatorações canônicas de x e y. 3. Dizemos que a é congruente a b módulo n. e escrevemos a ≡ b (mod n) se n | a − b. 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS 1. b. d. . 4. (Reflexividade) a ≡ a (mod n). n 1. temos que 17 ≡ 3 (mod 7) e 10 ≡ −5 (mod 3). Mostre que αj = tβj e x = y t para algum t ∈ Q e limite os valores de t. Demonstre que se a + d = 2k e b + c = 2m para inteiros k e m. d inteiros ı́mpares tais que 0 < a < b < c < d e ad = bc.

9. Como 121 ≡ −3 (mod 31) temos 202 ≡ −3 (mod 31). n) = 1. se n | a − b e n | c − d. (Compatibilidade com o produto) Podemos multiplicar “membro a membro”: ( a ≡ b (mod n) =⇒ ac ≡ bd (mod n) c ≡ d (mod n) Em particular. Demonstrar que 31 | 2015 − 1.[SEC. 6. então n | −(a − b) ⇐⇒ n | b − a. Para isso observemos que 20 ≡ −11 (mod 31) (∗) e assim 202 ≡ (−11)2 (mod 31) ⇐⇒ 202 ≡ 121 (mod 31). então ac ≡ bc (mod n) ⇐⇒ a ≡ b (mod n). Demonstração: Para o item (1) basta observar que n | a − a = 0. Em (4) e (5). Vejamos alguns exemplos. (Cancelamento) Se mdc(c. n | (a − b) − (c − d) ⇐⇒ n | (a − c) − (b − d) e n | (a − b)c + (c − d)b ⇐⇒ n | ac − bd. Finalmente. Solução: Isto é equivalente a demonstrar que 2015 ≡ 1 (mod 31).25. São estas propriedades que tornam as congruências tão úteis em problemas de divisibilidade. n) = 1 temos que n | ac−bc ⇐⇒ n | (a−b)c ⇐⇒ n | a−b pela proposição 1. então n | (a − b) + (b − c) ⇐⇒ n | a − c. se n | a − b e n | b − c. Exemplo 1. Em (3). se n | a − b.4: CONGRUÊNCIAS 35 5. então n | (a − b) + (c − d) ⇐⇒ n | (a + c) − (b + d). As propriedades acima mostram que a relação ≡ (mod n) (“ser con- gruente módulo n”) tem um comportamento muito similar à relação de igualdade usual. então ak ≡ bk (mod n) para todo k ∈ N. 1. como mdc(c. Em (2). se a ≡ b (mod n). (∗∗) .

ou seja. Portanto 320 ≡ 1296 (mod 101) ⇐⇒ 320 ≡ −17 (mod 101) 40 40 3 ≡ 289 (mod 101) ⇐⇒ 3 ≡ −14 (mod 101) 80 80 3 ≡ 196 (mod 101) ⇐⇒ 3 ≡ −6 (mod 101) 80 20 100 3 ·3 ≡ (−6) · (−17) (mod 101) ⇐⇒ 3 ≡1 (mod 101). Encontre os restos das divisões de 1. 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS Multiplicando (∗) e (∗∗) membro a membro. Assim. 53 por 13 Solução: Como 34 ≡ −20 (mod 101). 53 ≡ 51 (mod 13). note que como 54 ≡ 1 (mod 13). obtemos 203 ≡ 33 (mod 31) e.26. elevando a última congruência a 10. isto é. obtemos 310 ≡ −36 (mod 101). 20 320 deixa resto 1 na divisão por 4. Elevando a 5. elevando ao quadrado obtemos 38 ≡ 400 (mod 101) ⇐⇒ 38 ≡ −4 (mod 101). 31000 por 101 20 2.36 [CAP. 20 53 deixa resto 5 na divisão por 13. 20 Para encontrar o resto da divisão de 53 por 13. temos 3 ≡ −1 (mod 4) =⇒ 320 ≡ 1 (mod 4). 31000 deixa resto 1 na divisão por 101. ou seja. Assim. como 33 ≡ 2 (mod 31). obtemos 31000 ≡1 (mod 101). Multiplicando por 32 . 203 ≡ 2 (mod 31). Exemplo 1. os restos de 5n por 13 se repetem com perı́odo 4: 50 ≡ 1 (mod 13) 54 ≡ 1 (mod 13) 51 ≡ 5 (mod 13) 55 ≡ 5 (mod 13) 52 ≡ −1 (mod 13) 56 ≡ −1 (mod 13) 53 ≡ −5 (mod 13) 57 ≡ −5 (mod 13) ··· Por outro lado. temos que 2015 ≡ 32 (mod 31) e como 32 ≡ 1 (mod 31). . obtemos 2015 ≡ 1 (mod 31). como desejado.

Solução: Observe que como 117 é múltiplo de 9. Porém. b0 < c temos que 2a + 2 b + 1 ≡ 0 (mod 2c − 1) 0 0 ⇐⇒ (2c )q1 · 2a + (2c )q2 · 2b + 1 ≡ 0 (mod 2c − 1) 0 0 ⇐⇒ 2a + 2b + 1 ≡ 0 (mod 2c − 1) que é o mesmo problema com a0 e b0 no lugar de a e b. Assim. Em um artigo publicado em 1969. . Udresco observaram independentemente que existe uma prova muito mais simples deste fato. ela não possui ne- nhuma. Analisando estes 9 casos. Exemplo 1. Lewis afirmava que a equação x3 − 117y 3 = 5 tem no máximo 18 soluções inteiras.4: CONGRUÊNCIAS 37 O problema a seguir tem uma história interessante. utilizando métodos de Teoria Algébrica dos Números. Şt. 1 ou 8 na divisão por 9. Finkelstein e H. b. escrevendo a = cq1 +a0 e b = cq2 + b0 com 0 ≤ a0 . c) de in- teiros não negativos tais que 2a + 2b + 1 é múltiplo de 2c − 1. 8 na divisão por 9. . temos x mod 9 0 1 2 3 4 5 6 7 8 x3 mod 9 0 1 8 0 1 8 0 1 8 Ou seja. F. como mostra o exemplo a seguir. 1. 1.28 (AusPol2002).[SEC. x só pode deixar resto 0. Exemplo 1. . Temos alguns casos a analisar. Em 1973. Note que como 2c ≡ 1 (mod 2c −1). basta resolver o problema supondo 0 ≤ a. Halter-Koch e V. qualquer solução inteira deve satisfazer x3 − 117y 3 ≡ 5 (mod 9) ⇐⇒ x3 ≡ 5 (mod 9). b < c. J. como foi provado dois anos mais tarde por R. x3 só pode deixar resto 0. Encontrar todas as ternas (a. London. . Na verdade.27. . D. Logo x3 ≡ 5 (mod 9) é impossı́vel e a equação não possui soluções inteiras. Mostre que a equação x3 − 117y 3 = 5 não possui solu- ções inteiras. Solução: O problema pede para determinar quando 2a + 2b + 1 ≡ 0 (mod 2c −1).

Neste caso devemos ter a = b = c − 1 e 2c−1 + 2c−1 + 1 ≡ 0 (mod 2c − 1) ⇐⇒ 2c + 1 ≡ 0 (mod 2c − 1) ⇐⇒ 2 ≡ 0 (mod 2c − 1). b. Seja n ≥ 0 e d > 1. 1. De fato. 0 ≤ ak < d. 1 + 3n. 3) são soluções com 0 ≤ a. 0 ≤ a0 < d. 3) e (2 + 3m. . Teorema 1. Isto significa. 1). que 196883 = 1 · 105 + 9 · 104 + 6 · 103 + 8 · 102 + 8 · 101 + 3 · 100 . b < c = 3. existe m tal que se k ≥ m. 3) e (2 + 3m. . 3) onde m e n são naturais arbitrários. 2n. . . O teorema abaixo mostra como escrever qualquer natural em qualquer base d. 2 + 3n. b < c = 2. 2n. o que nos fornece soluções (1 + 3m. n = k≥0 ak dk . 1) é solução para todos os a. as ternas pedidas são (m. para todo k. se . 1. com dı́gitos 0. 3) para todos os m e n naturais. 2. o que não ocorre pois 2c − 1 ≥ 15 não pode dividir 2.5 Bases A notação usual para naturais é a chamada base 10. 0 ≤ a1 < d e em geral nk = nk+1 d + ak . n. Finalmente.38 [CAP. 2) para todos os m e n naturais. b ≥ 0. 2. então 3 ≤ 2a + 2b + 1 ≤ 2c−1 + 2c−2 + 1 = 3 · 2c−2 + 1 < 2c − 1 e assim 2a + 2b + 1 não pode ser múltiplo de 2c − 1. 1 + 3n. P Demonstração: Escrevemos n = n0 = n1 d + a0 . 3) e (2. Nossa primeira afirmação é que nk = 0 para algum valor de k. 2). 0. por exemplo. . 0 ≤ ak < d. n1 = n2 d + a1 . ak . Logo não há soluções neste último caso. . 9. com as seguintes propriedades: 1. então ak = 0.29. . (2m. Resumindo. 2) é solução com 0 ≤ a. (1 + 3m. temos que apenas (1. Se c = 2. 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS Não há soluções com c = 0 e para c = 1 temos que (a. o que dá origem às soluções (2m. temos que se a < c − 1 ou b < c − 1. . para c ≥ 4. . Então existe uma única sequência (os “dı́gitos” de n na base d) a0 . . 3. . Se c = 3. temos que apenas (0. 2 + 3n.

por indução. e só se. 103 ≡ −1 (mod 13) e 103 ≡ 1 (mod 37)). Ignorando os dı́gitos 0’s iniciais. e só se. . denotamos por (an an−1 · · · a1 a0 )d o natural cuja representação na base d tem algarismos ak como no teorema acima: def X (an an−1 · · · a1 a0 )d = ak dk . a soma de seus dı́gitos a0 + · · · + an é divisı́vel por 9.5: BASES 39 n0 < dm . 0≤k≤n 0≤k≤n Segue que N e a soma de seus dı́gitos na base 10 possuem o mesmo resto na divisão por 9. Podemos escrever aj + k>j ak dk−j = bj + k>j bk dk−j donde aj ≡ bj (mod d). que deixamos como exercı́cio para o leitor enunciá-los e demonstrá-los (utilize o fato que 103 ≡ −1 (mod 7). fazendo k ≥ m temos nk < 1 donde nk = 0. observemos que 10 ≡ −1 (mod 11). Por exemplo. nk < dm−k . temos que 10k ≡ 1 (mod 9). se N = (an an−1 · · · a1 a0 )10 . digamos P j. A identidade do item 3 é facilmente demonstrada por indução. pois 0 < |aj − bj | < d e portanto aj − bj não pode ser um múltiplo de d. Para a unicidade. 13 e 37. podemos encontrar critérios de divisibilidade por 7. como 10 ≡ 1 (mod 9). logo X X N= ak 10k ≡ (−1)k ak (mod 11) 0≤k≤n 0≤k≤n e assim um número é divisı́vel por 11 se. 0≤k≤n Muitos dos famosos critérios de divisibilidade que aprendemos na escola decorrem diretamente da representação acima. suponha k≥0 ak dk = k≥0 bk dk . a soma dos dı́gitos em posição par menos a soma dos dı́gitos em posição ı́mpar é divisı́vel por 11. em particular N é divisı́vel por 9 se. donde X X N= ak 10k ≡ ak (mod 9). o que é uma contradição. De igual forma. 1. para o qual aj 6= bj . Se as sequên- P P cias ak e bk são distintas existe um P menor ı́ndice. para o critério de divisibilidade por 11.[SEC. Segue daı́ que ak = 0 para k ≥ m. então n1 = b nd0 c < dm−1 e mais geralmente. De forma similar.

Podemos utilizar o binômio de Newton para simplificar as contas: X 100 200 100 100 3 = 9 = (10 − 1) = 10100−k (−1)k . sn+2 − sn é divisı́vel por 5 · 4 · 5 = 100. Assim. Encontrar os últimos dois dı́gitos na representação de- cimal de 3200 . Como.30. a2 )10 + (a1 a0 )10 temos que o número formado pelos dois últimos dı́gitos de (an · · · a1 a0 )10 é o resto da divisão deste número por 100. 22 ≡ −1 (mod 5) =⇒ 22n ≡ −1 (mod 5) 2n+1 =⇒ 2 ≡ −2 (mod 5). que 100 | sn+2 − sn . logo o pro- blema se resume a calcular 3200 módulo 100. Demonstrar que. para todo n natural ı́mpar. .40 [CAP.31. 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS Exemplo 1. Exemplo 1. para n ı́mpar. Temos sn+2 − sn = 22(n+2) · (22(n+2)+1 − 1) − 22n · (22n+1 − 1) = 22n · (16 · 22n+5 − 16 − 22n+1 + 1) = 5 · 22n · (51 · 22n+1 − 3). k 0≤k≤100 100 100 3200 (mod 100) ⇐⇒ 3200 ≡ 1 (mod 100) e   logo ≡ − 10 + 99 100 assim os dois últimos dı́gitos de 3200 são 01. . Solução: Como (an an−1 · · · a1 a0 )10 = 102 · (an · 10n−2 + · · · + a2 ) + (10 · a1 + a0 ) = 100 · (an . sn = 22n · (22n+1 − 1) termina em 28 quando escrito em notação decimal. Suponhamos que para algum n ≥ 1 ı́mpar sn termina em 28 e vamos mostrar que sn+2 termina em 28 ou. Para n = 1 temos que s1 = 28. Solução: Vamos mostrar por indução em n que sn termina em 28. temos que 51 · 22n+1 − 3 ≡ 1 · (−2) − 3 (mod 5) ⇐⇒ 51 · 22n+1 − 3 ≡ 0 (mod 5). . equivalentemente.

Dar uma relação F de equivalência em X é o mesmo que dar uma partição X = λ∈Λ Xλ de X. O quociente de Z pela relação ≡ (mod n) é chamado de anel de inteiros módulo n e é denotado por uma das notações Z/(n). ambas são instâncias de relações de equivalência em Z. x e y pertencem a um mesmo Xλ .. uma coleção de subconjuntos Xλ 6= ∅. Intuitivamente. i. podemos definir uma relação de equivalência ∼ declarando que x ∼ y se. Reciprocamente.[SEC. cuja união é X. dois a dois disjuntos. Agora aplicamos esta construção geral ao nosso caso. Assim.e.6 O Anel de Inteiros Módulo n As semelhanças entre as relações de congruência módulo n e igual- dade não são mero fruto do acaso. temos que Z/2Z possui apenas dois elementos. 1. e somente se. X/∼ é o conjunto obtido “igualando-se” elementos equivalentes entre si. Z/n ou às vezes Zn . O conjunto {x | x ∈ X} das classes de equivalência de ∼ é chamado de quociente de X por ∼ e é denotado por X/∼. Se n > 0. a divisão euclidiana diz que todo inteiro a é côngruo a um único inteiro a0 com 0 ≤ a0 < n. as distintas classes de equivalência x formam uma partição de X. Observe que ou x ∩ y = ∅ (se x 6∼ y) ou x = y (se x ∼ y). De fato. uma relação ∼ sobre um conjunto X é dita de equivalência se ela é reflexiva (x ∼ x para todo x ∈ X). Em geral. podemos reescrever este fato na nossa . o importante é sabermos que a = a0 ⇐⇒ a ≡ a0 (mod n) 0 ⇐⇒ a e a deixam o mesmo resto na divisão por n. dado um elemento x ∈ X podemos definir a classe de equivalência x de x como o conjunto de todos os elementos equivalentes a x: x = {y ∈ X | y ∼ x}. para n = 2. se ∼ é uma relação de equivalência. sendo apenas uma maneira de formalizar o fato de que estamos “identificando” todos os inteiros que deixam o mesmo resto na divisão por n (como no exemplo dos pares e ı́mpares acima). simétrica (x ∼ y ⇐⇒ y ∼ x) e transitiva (x ∼ y e y ∼ z =⇒ x ∼ z). Por exemplo. 0 e 1 (popularmente conhecidos como conjunto dos pares e ı́mpares. A definição de a como um subconjunto de Z raramente será impor- tante. dada a partição acima. Z/nZ. respectivamente). Assim.6: O ANEL DE INTEIROS MÓDULO N 41 1.

isto ocorre se.32. de modo que as operações acima estão bem definidas. 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS nova linguagem como Z/(n) = {0. diferença e produto são compatı́veis com a relação de congruência. em Z/6Z temos as seguintes tabelas de soma e produto: + 0 1 2 3 4 5 · 0 1 2 3 4 5 0 0 1 2 3 4 5 0 0 0 0 0 0 0 1 1 2 3 4 5 0 1 0 1 2 3 4 5 2 2 3 4 5 0 1 e 2 0 2 4 0 2 4 3 3 4 5 0 1 2 3 0 3 0 3 0 3 4 4 5 0 1 2 3 4 0 4 2 0 4 2 5 5 0 1 2 3 4 5 0 5 4 3 2 1 A próxima proposição diz quando podemos “dividir” por a módulo n. n ∈ Z. isto é.e. quando o “inverso multiplicativo” de a módulo n está definido: Proposição 1. . n) = 1. n − 1}. e só se. mdc(a.42 [CAP. . Sejam a. n) = 1.24 dizem que as operações de soma. i. e somente se. Os itens (4) e (5) da proposição são exatamente o que precisamos: eles nos dizem que nestas condições a ± b = a0 ± b0 e a · b = a0 · b0 . . Demonstração: Temos que ab ≡ 1 (mod n) admite solução na va- riável b se. Então existe b ∈ Z com ab ≡ 1 (mod n) se. A dúvida à primeira vista seria se a escolha de a e b não afeta a resposta: afinal existem infinitos inteiros a0 e b0 com a = a0 e b = b0 . − e · passam ao quociente. mdc(a. existem b. Uma formulação mais abstrata da mesma ideia é dizer que as operações +. Pelo corolário 1. Por exemplo.. . . subtração e o produto de classes de congruência por a+b=a+b a−b=a−b a·b=a·b respectivamente. k ∈ Z tais que ab − 1 = nk ⇐⇒ ab−nk = 1. e somente se.8 do teorema de Bachet-Bézout. que podemos definir a soma. n > 0. 1. Os itens (4) e (5) da proposição 1.

Primeiramente precisamos de um lema. −1}. Assim. então x−1 6= x em Z/(p). Lema 1.14. n) = 1}. Observe que o produto de elementos de (Z/nZ)× é sempre um elemento de (Z/nZ)× . Definimos o grupo de unidades (Z/nZ)× ⊂ Z/nZ do anel de inteiros módulo n como o subconjunto formado pelos elementos invertı́veis de Z/nZ: (Z/nZ)× = {a ∈ Z/nZ | mdc(a. b está bem definido e. Se p é primo. Por exemplo.6: O ANEL DE INTEIROS MÓDULO N 43 Dizemos portanto que a é invertı́vel módulo n quando mdc(a. então as únicas soluções de x2 = 1 em Z/(p) são 1 e −1.[SEC.33. em termos de classes de congruência. temos a seguinte tabela de multiplicação em (Z/15Z)× : · 1 2 4 7 8 11 13 14 1 1 2 4 7 8 11 13 14 2 2 4 8 14 1 7 11 13 4 4 8 1 13 2 14 7 11 7 7 14 13 4 11 2 1 8 8 8 1 2 11 4 13 14 7 11 11 7 14 2 13 1 8 4 13 13 11 7 1 14 8 4 2 14 14 13 11 8 7 4 2 1 Uma aplicação do inverso multiplicativo é o famoso teorema de Wilson. Note que pela demonstração da proposição acima calcular (a)−1 é equivalente a resolver a equação diofantina linear ax + ny = 1 e para isto podemos utilizar o método do exemplo 1. se x ∈ (Z/(p))× − {1. 1. O inverso é sempre único módulo n: se ab ≡ ab0 ≡ 1 (mod n) temos b ≡ b · 1 ≡ b · (ab0 ) ≡ (ba) · b ≡ 1 · b0 ≡ b0 (mod n). Demonstração: Temos x2 ≡ 1 (mod p) ⇐⇒ p | (x2 − 1) ⇐⇒ p | (x − 1)(x + 1) ⇐⇒ p | x − 1 ou p | x + 1 ⇐⇒ x ≡ 1 (mod p) ou x ≡ −1 (mod p) . Em particular. temos que a · b = 1. denotamos b por (a)−1 . n) = 1 e chamamos b com ab ≡ 1 (mod n) de inverso multiplicativo de a módulo n.

( −1 (mod n) se n é primo (n − 1)! ≡ 0 (mod n) se n é composto e n 6= 4. Se n é primo podemos escrever (n − 1)! ≡ −2 · 3 · . Vejamos uma aplicação do teorema de Wilson.35 (Teorema de Wolstenholme). devemos mostrar que o inteiro def X (p − 1)! S = i(p − i) 1≤i≤ p−1 2 . p > 2. . então p e 2p são fatores de (n − 1)! e novamente (n − 1)! ≡ 0 (mod n). e só se. Teorema 1. Se n = p2 . Demonstração: Note que somando os “extremos” temos X 1 X 1 1  X 1 = + =p . mas pelo lema anterior podemos juntar os inversos aos pares no produto do lado direito. como p . . basta mostrar que o numerador da última soma é múltiplo de p. i p−1 i p−i p−1 i(p − i) 1≤i≤p−1 1≤i≤ 1≤i≤ 2 2 Como o mmc dos números de 1 a p−1 não é divisı́vel por p. donde (n − 1)! ≡ −1 (mod n).34 (Wilson). Então o numerador do número 1 1 1 1+ + + ··· + 2 3 p−1 é divisı́vel por p2 . Demonstração: Se n é composto mas não é o quadrado de um primo podemos escrever n = ab com 1 < a < b < n. Seja p > 3 um número primo. n é primo. Equivalentemente. Então n | (n − 1)! + 1 se. · (n − 2) (mod n). Seja n > 1.44 [CAP. Mais precisamente.(p − 1)!. Teorema 1. Neste caso tanto a quanto b são fatores de (n − 1)! e portanto (n − 1)! ≡ 0 (mod n). isto demonstra que para todo n 6= 4 composto temos (n−1)! ≡ 0 (mod n). 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS donde o resultado segue.

De fato. . assim X (p − 1)! S≡ · iri (p − i)rp−i i(p − i) 1≤i≤ p−1 2 X X ≡ (p − 1)!ri rp−i ≡ ri2 (mod p) 1≤i≤ p−1 2 1≤i≤ p−1 2 pelo teorema de Wilson. Portanto   p−1 h!k! ≡ (p − 1)! (mod p) k   k+1 p − 1 ⇐⇒ (−1) ≡ −1 (mod p) k   p−1 ⇐⇒ ≡ (−1)k (mod p). Note que como cada ri é congruente a um dos números ±1. Então h!k! ≡ (−1)h (p − 1)(p − 2) · · · (p − h)k! = (−1)k (p − 1)! ≡ (−1)k+1 (mod p). então p | (ri − rj )(ri + rj ).6: O ANEL DE INTEIROS MÓDULO N 45 é um múltiplo de p. j ≤ p−1 2 . ri ≡ ±rj (mod p). temos que os ri são congruentes a um p−1 dos números 12 . ± p−1 2 2 . . . isto é. se ri2 ≡ rj2 (mod p). . ( 2 )2 módulo p. O teorema de Wilson produz ainda resultados interessantes sobre os coeficientes binomiais. Para 1 ≤ i ≤ p − 1. temos . 2 Assim. .[SEC. Suponhamos que k e h são inteiros positivos tais que k + h = p − 1 onde p é primo. vamos relembrar algumas identidades com coeficientes binomiais bem conhecidas. 1. Para todo 1 ≤ i ≤ p − 1. S ≡ 1≤i≤ p−1 i (mod p) e como 1≤i≤ p−1 i2 = p(p24−1) é 2 P P 2 2 um múltiplo de p (pois mdc(p.36. . Vamos mostrar que todos eles aparecem. Note que rp−i ≡ −ri (mod p). . o resultado segue. Demonstrar que se p > 3 é primo. ±2. ou seja. temos que j ≡ ±i (mod p). k 2p Exemplo 1. denote por ri o inverso de i mod p. 22 . Multiplicando por ij. iri ≡ 1 (mod p). o implica i = j pois 1 ≤ i. 24) = 1). então p3 |  p − 2. Solução: Primeiramente. .

. 2. Assim. . p − 1. 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS p  p p−1 que i = i i−1 (basta utilizar a definição) enquanto que    2  2  2 2p p p p = + + ··· + p 0 1 p pois podemos escolher p objetos dentre 2p escolhendo i objetos dentre os p primeiros e p − i dos p últimos para todo i entre 0 e p. . logo   2p X p p  X p2 = = . Grupo é o nome emprestado a um conjunto G juntamente com uma operação binária · (produto) que satisfaz os seguintes três axiomas: . Pela unicidade de ri módulo p. seja ri tal que 1 ≤ ri ≤ p−1 e iri ≡ 1 (mod p). temos que  os ri ’s formam uma permutação de 1. i12 p−1 i−1 = 1 p 2 1 p−1 2  P  p2 i é inteiro e portanto a soma 1≤i≤p−1 i2 i−1 é inteira e devemos mostrar que ela é um múltiplo de p. p i p−i i 0≤i≤p 0≤i≤p Utilizando estas identidades.46 [CAP. como p−1 i−1 ≡ (−1) i−1 (mod p). 6) = 1). i2 i − 1 1≤i≤p−1 1≤i≤p−1 1≤i≤p−1 p(p−1)(2p−1) i2 = P Como 6 é um múltiplo de p (pois mdc(p. Assim. Para isto observemos que cada 1 ≤ i ≤ p−1 é invertı́vel módulo p. Os termos grupo e anel empregados nesta seção estão em conformi- dade com o jargão usualmente utilizado em Álgebra. . temos X 1 p − 12 X (iri )2 p − 12 ≡ (mod p) i2 i − 1 i2 i−1 1≤i≤p−1 1≤i≤p−1 X 1 p − 12 X X 2 ⇐⇒ ≡ ri = i2 (mod p). p i2 i − 1 i2 i − 1 1≤i≤p−1 1≤i≤p−1 p  p! Note que i = é um múltiplo de p para 1 ≤ i ≤ p − 1 pois i!(p−i)! 2 o denominador desta fração não é divisı́vel por p. temos que   2p X p2 p − 12 X 1 p−1 2   −2= = p2 . 1≤i≤p−1 a prova acaba.

n) = 1 para todo a com 0 < a < n.6: O ANEL DE INTEIROS MÓDULO N 47 1. n) = a 6= 1. 4. 3. (A\{0}. c ∈ A. mdc(a. dizemos que o anel A é comutativo. Um anel comutativo A 6= 0 (isto é. b. para a. (Associatividade do produto) (a·b)·c = a·(b·c) para todo a. c ∈ A. 3. para todo a ∈ G. b. 2. b ∈ G. (Associatividade) Para quaisquer a. ·) é um grupo) então dizemos que o anel A é um corpo. 0 6= 1 em A) é chamado de domı́nio se. (A. Um anel é um conjunto A com duas operações binárias + (soma) e · (produto) satisfazendo axiomas que abstraem as propriedades usuais dos inteiros (por exemplo). b ∈ A. O anel Z/nZ é um corpo se. então G é chamado de grupo abeliano. todo elemento a 6= 0 é invertı́vel.37. a · e = e · a = a. ou seja. então mdc(a. (a · b) · c = a · (b · c). (Elemento neutro do produto) Existe um elemento 1 ∈ A tal que 1 · a = a · 1 = a para todo a ∈ A. Se. Estes axiomas são 1. se e somente se. (Existência de elemento neutro) Existe um elemento e ∈ G tal que.[SEC. e somente se. c ∈ G. e só se. a · b = b · a. (Distributividade) a · (b + c) = a · b + a · c e (b + c) · a = b · a + c · a para todo a. além dos três axiomas acima. Demonstração: Temos que Z/nZ é um corpo se. +) é um grupo abeliano com elemento neutro 0. b. Por outro lado. o grupo G satisfaz 4. n é primo. Um importante resultado é a seguinte Proposição 1. b ∈ A. (Existência de inverso) Para qualquer elemento a ∈ G existe um elemento a−1 ∈ G tal que a · a−1 = a−1 · a = e. . Se a · b = b · a para todo a. a · b = 0 =⇒ a = 0 ou b = 0. se um anel comutativo A 6= 0 é tal que todo elemento não nulo possui inverso multiplicativo (ou seja. pois se n é composto e a | n com 1 < a < n. 1. Mas isto é equivalente a n ser primo. (Comutatividade) Para quaisquer a. 2.

a2 . . . . an formam um scr módulo n se. . . a2 . bϕ(n) for- mam um sistema completo de invertı́veis módulo n (sci) se {b1 . Equivalentemente.7 A Função de Euler e o Teorema de Euler- Fermat Dizemos que um conjunto de n números inteiros a1 . . b ∈ Z.38 (“Sonho de todo estudante”). 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS Um fato curioso e muito útil quando trabalhamos no corpo Z/pZ (p primo) é a seguinte Proposição 1. . utilizando o binômio de Newton. Por exemplo. 2. an } = Z/(n). . Seja p um primo. . n − 1 formam um scr módulo n. . 0. e somente se. . an forma um sistema completo de restos módulo n (scr) se {a1 . b2 . 1. De igual forma. b2 . . 1. Demonstração: Devemos mostrar que (a + b)p ≡ ap + bp (mod p) para todo a. Então em Z/pZ temos p (a + b)p = ap + b para quaisquer a. . . . . podemos dizer que a1 . se os ai representam todas as classes de congruência módulo n. Assim. . dizemos que os números inteiros b1 . Temos que se 0 < k < p   p p! = ≡ 0 (mod p) k k!(p − k)! pois há um fator p no numerador que não pode ser cancelado com nada que apareça no denominador. ai ≡ aj (mod n) implicar i = j. . isto é. . . temos X p p (a + b) = ap−k bk ≡ ap + bp (mod p) k 0≤k≤p como querı́amos mostrar.48 [CAP. . b ∈ Z/pZ. . . bϕ(n) } = (Z/(n))× . . .

Se p é primo.. . m) = 1. 1. . k) = 1} é um exemplo de sci módulo n. 2n . n) = 1 para todo i e bi ≡ bj (mod n) implica i = j. para n > 2. . Consideremos os números 1. . .e. 1 < ϕ(n) < n. a não é múltiplo de p e há pk−1 múltiplos de p no intervalo 1 ≤ a ≤ pk . . em cada coluna existem exatamente ϕ(m) números que são primos relativos com m e portanto o total de núme- ros nesta tabela que são simultaneamente primos relativos com m e n (i. como mdc(ni + j. representam todas as classes de congruência invertı́veis módulo n ou. n). toda coluna possui um conjunto completo de restos módulo m: se duas entradas são tais que ni1 + j ≡ ni2 + j (mod m). . mais geralmente ϕ(pk ) = pk − pk−1 pois mdc(a. n) = 1. Por outro lado. . Logo existem ϕ(n) colunas nas quais todos os núme- ros são primos relativos com n. n n+1 n+2 n+3 . Em outras palavras. i2 < m devemos ter i1 = i2 . se n = pα1 1 · · · pαk k é a fatoração de n em potências de primos . . e somente se.39. . Desta forma.. m) = 1 e os arrumamos em forma matricial assim: 1 2 3 . se um número nesta tabela é primo relativo com n. n(m − 1) + n Note que.. então i1 ≡ i2 (mod m) pois n é invertı́vel módulo m já que mdc(m. b1 . . ϕ(p) = p − 1. . vamos mostrar que se mdc(n.7: A FUNÇÃO DE EULER E O TEOREMA DE EULER-FERMAT 49 onde ϕ(n) representa o número de elementos de (Z/(n))× . 2. primos com nm) é ϕ(nm) = ϕ(n)ϕ(m). nm. Assim. . pk ) = 1 se. Para calcular a função ϕ no caso geral. . n(m − 1) + 1 n(m − 1) + 2 n(m − 1) + 3 . .. b2 .. mdc(bi . então ϕ(nm) = ϕ(n)ϕ(m). equivalentemente.. Definição 1. então todos os números nessa coluna são primos relativos com n...[SEC. . O conjunto {k ∈ Z | 1 ≤ k ≤ n e mdc(n. . onde mdc(n. . e somente se. logo como 0 ≤ i1 . A função def ϕ(n) = |(Z/nZ)× | é chamada de função phi de Euler. . n) = mdc(j.. bϕ(n) formam um sci módulo n se. Temos ϕ(1) = ϕ(2) = 1 e.

obtemos o resultado desejado. portanto.50 [CAP. . ar2 .41 (Pequeno Teorema de Fermat). De fato. r2 . logo multiplicando por a obtemos o resultado desejado. podemos supor que mdc(a. . . . então ar1 . Y Y (ari ) ≡ ri (mod m) 1≤i≤ϕ(m) 1≤i≤ϕ(m) Y Y ϕ(m) ⇐⇒ a · ri ≡ ri (mod m). então ri ≡ rj (mod m) pois a é invertı́vel módulo m. logo ri = rj e portanto i = j. 1≤i≤ϕ(m) Como caso particular do teorema anterior obtemos o Teorema 1. pi 1≤i≤k 1≤i≤k 1≤i≤k Agora estamos prontos para enunciar e provar o importante Teorema 1. . pelo teorema de Euler temos ap−1 ≡ 1 (mod p). Consequentemente cada ari deve ser congruente com algum rj e. temos que mdc(ari . Como ϕ(p) = p − 1. observemos que se p | a o resultado é evi- dente. Então. arϕ(m) também é um sistema com- pleto de invertı́veis módulo m. m) = 1 para todo i e se ari ≡ arj (mod m). . 1≤i≤ϕ(m) 1≤i≤ϕ(m) MasQ como cada ri é invertı́vel módulo m. m) = 1. . Seja a um inteiro posi- tivo e p um primo. m) = 1. temos que Y  1  pαi i −1 ) Y Y ϕ(n) = ϕ(pαi i ) = (pαi i − =n 1− . p) = 1. Demonstração: Observemos que se r1 . rϕ(m) é um sistema completo de invertı́veis módulo m e a é um número natural tal que mdc(a. Então aϕ(m) ≡ 1 (mod m). então ap ≡ a (mod p) Demonstração: De fato.40 (Euler-Fermat). 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS distintos pi . simplificando o fator ri . Sejam a e m dois inteiros com m > 0 e mdc(a. . .

como desejado. . . Aplicando este resultado para G = (Z/mZ)× . ϕ(pαk k )). . Elevando a M/ϕ(pj j ). Então aM ≡ 1 (mod n) onde M = mmc(ϕ(pα1 1 ). Assim. logo basta tomar k = ϕ(2009)t + 3. . ϕ(pα2 2 ). obtemos α α aM ≡ 1 (mod pj j ). . então g |G| = e (identidade). αj Demonstração: Pelo teorema de Euler-Fermat sabemos que aϕ(pj ) ≡ α α 1 (mod pj j ) para todo j = 1. Sejam a e n números inteiros tais que mdc(a. k. aM − 1 é múltiplo de pj j para todo j e como estes números são dois a dois primos entre si concluı́mos que n | aM − 1 ⇐⇒ aM ≡ 1 (mod n). Exemplo 1. . Vejamos agora algumas aplicações do teorema de Euler-Fermat. . O teorema de Euler-Fermat também pode ser pro- vado utilizando-se o seguinte corolário do teorema de Lagrange em Teoria dos Grupos: se G é um grupo finito e g ∈ G. pelo teorema de Euler-Fermat temos que 10ϕ(2009) ≡ 1 (mod 2009) =⇒ 10ϕ(2009)t ≡ 1 (mod 2009) para todo t ∈ N. n) = 1 e n se fatora como n = pα1 1 pα2 2 . Demonstração: O problema é equivalente a encontrar infinitos na- turais k tais que 2 · 10k + 9 ≡ 0 (mod 2009) ⇐⇒ 2 · 10k + 9 ≡ 2009 (mod 2009) ⇐⇒ 10k−3 ≡ 1 (mod 2009) pois 2000 é invertı́vel módulo 2009. . . . Como mdc(10.[SEC. .42. 1.7: A FUNÇÃO DE EULER E O TEOREMA DE EULER-FERMAT 51 Observação 1. 2009) = 1. Mostre que existem infinitos números da forma 20000 .44. que é uma formulação equivalente para o teorema de Euler-Fermat. temos que aϕ(m) = 1 para todo a ∈ (Z/mZ)× . . Observemos que o teorema de Euler-Fermat pode ser otimizado da seguinte forma: Proposição 1.43. 009 que são múltiplos de 2009. pαk k em potências de primos distintos.

fazendo as contas. 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS Exemplo 1.47. Solução: Note primeiramente que 103 é primo. como mostraremos no final deste capı́tulo. 2000 Solução: Sabemos que 2ϕ(5 ) ≡ 1 (mod 52000 ) pelo teorema de Euler-Fermat. pela existência de raı́zes primitivas módulo p. Elevando ambos os lados desta congruência a (103 − 1)/3 = 34. que tem no máximo 667 dı́gitos pois 22000 < (23 )667 < 10667 . Mostre que não existe inteiro x tal que 103 | x3 − 2. Logo não há inteiro x tal que 103 | x3 − 2.46. Solução: Pelo pequeno teorema de Fermat. temos que se p é um primo tal que p ≡ 1 (mod 3) e p .45. uma contradição. Desta forma. obtemos x102 ≡ 234 (mod 103) e sabemos pelo teorema de Euler-Fermat que x102 ≡ 1 (mod 103). Esta condição também é suficiente. Exemplo 1. há pelo menos 2000 − 667 = 1333 zeros 2000 consecutivos dentre as 2000 últimas casas decimais de 22000+ϕ(5 ) e assim n = ϕ(52000 ) + 2000 = 4 · 51999 + 2000 satisfaz as condições do enunciado. obtemos que 234 ≡ 46 (mod 103). Utilizando o mesmo raciocı́nio do exemplo anterior. Demonstrar que se p > 2 é primo. Assim. Agora suponha que x3 ≡ 2 (mod 103).x. isto é. sabemos que ip−1 ≡ 1 (mod p) para todo 1 ≤ i ≤ p − 1.52 [CAP. Portanto existe b ∈ N com 2000 ) 2000 ) 2ϕ(5 = 52000 b + 1 =⇒ 22000+ϕ(5 = 102000 b + 22000 . então 1p−1 + 2p−1 + 3p−1 + · · · + (p − 1)p−1 ≡ p + (p − 1)! (mod p2 ). 1p−1 +2p−1 +· · ·+(p−1)p−1 = (k1 +k2 +· · ·+kp−1 )p+p−1 . então uma condição necessária para que x3 ≡ a (mod p) tenha solução em x é que a(p−1)/3 ≡ 1 (mod p). 2000 Portanto os 2000 últimos dı́gitos de 22000+ϕ(5 ) coincidem com a repre- sentação decimal de 22000 . Encontre um número n ∈ N tal que 2n > 102000 e 2n tenha entre suas 2000 últimas casas decimais pelo menos 1000 zeros consecutivos. que ip−1 = ki p + 1 onde ki é um inteiro. Porém.a. Exemplo 1. de modo que 103 .

a encontrar os fatores primos p e q). calcular ϕ(N ) = (p − 1)(q − 1) dado N = pq é equivalente a fatorar N . O receptor também publica um expoente s (em geral não muito grande) com mdc(s. isto é.7: A FUNÇÃO DE EULER E O TEOREMA DE EULER-FERMAT 53 e portanto devemos mostrar que (k1 + k2 + · · · + kp−1 )p ≡ (p − 1)! + 1 (mod p2 ). pelo teorema de Wilson sabemos que (p − 1)! ≡ −1 (mod p). A sigla vem dos nomes de Ron Rivest.e. um natural r < (p − 1)(q − 1) com rs ≡ 1 (mod (p − 1)(q − 1)) (donde rs = 1 + kϕ(N ). O receptor calcula (usando o algoritmo de Euclides) o inverso de s mod (p − 1)(q − 1) = ϕ(N ). Segue que (k1 + k2 + · · · + kp−1 )p + 1 ≡ (Kp − 1)p−1 (mod p2 )   p−1 =⇒ (k1 + k2 + · · · + kp−1 )p + 1 ≡ 1 − Kp (mod p2 ) 1 =⇒ (k1 + k2 + · · · + kp−1 )p ≡ Kp (mod p2 ) =⇒ (k1 + k2 + · · · + kp−1 )p ≡ (p − 1)! + 1 (mod p2 ) o que encerra a prova. que pode ser monitorada por espiões) de modo que. pode recuperar a mensagem original. (p − 1)(q − 1)) = 1.[SEC. apenas o legı́timo destinatário. (k1 p+1)(k2 p+1) · · · (kp−1 p+1) ≡ (k1 +k2 +· · ·+kp−1 )p+1 (mod p2 ). Por outro. Por um lado. Trata-se de um método de criptografia com chave pública. isto é. um método que permite a qualquer pessoa transmitir mensagens por uma via insegura (ou seja. que conhece uma chave. Concluı́mos esta seção apresentando brevemente uma aplicação do Teorema de Euler que tem particular interesse prático: a Criptografia RSA.. na prática. Note que apesar de N e s serem públicos. (p − 1)! = Kp − 1 para algum K inteiro. não parece ser fácil calcular ϕ(N ) ou r (neste contexto. temos (k1 p+1)(k2 p+1) · · · (kp−1 p+1) = 1p−1 2p−1 · · · (p−1)p−1 = ((p−1)!)p−1 . ou seja. Multiplicando as equações ip−1 = ki p + 1. N é público mas a sua fatoração pq só é conhecida pelo receptor. e Leonard Adleman. o receptor publica um inteiro N que é o produto de dois primos razoavelmente grandes p e q (aproximadamente da mesma ordem de grandeza). Para isso. i. 1. para algum natural k). . Adi Shamir. que desenvolveram esse método.

donde m̃r ≡ m (mod N ). Kayal e Sa- xena que garante que testar primalidade de um número da ordem de N leva tempo no máximo polinomial em log N ). especialmente a seção sobre o teste de Agrawal. O receptor recupera m via m ≡ m̃r (mod N ). mp−1 ≡ 1 (mod p). note que. não é verdade que sejam conhecidos algoritmos polinomiais (e determinı́sti- cos) para obter primos “novos” de uma determinada ordem de grandeza. mas nada de tempo polinomial é conhecido. Es- sas tarefas são relativamente rápidas computacionalmente. Para verificar essa equivalência. Se ao invés de sortear números procurarmos o menor primo maior ou igual a N (testando um por um) então. Pode ser que outra estratégia permita encontrar primos sem demonstrar esta conjectura. novamente pelo teorema dos números primos. a probabilidade de algum deles ser primo é da ordem de 1 − exp(−C(1 + o(1))). Se existem algoritmos polinomiais para testar primalidade. há gaps bem maiores do que log N e sabe-se muito pouco sobre o tamanho dos gaps (para um primo p. analogamente m̃r ≡ m (mod q). a probabilidade de um número escolhido ao acaso entre N e 2N ser primo é (1 + o(1))/ log N .54 [CAP. para todo N grande. Há um projeto Polymath sobre este assunto: veja o preprint [117] e as páginas indicadas juntamente nas referências. com 0 < m̃ < N . Entretanto. Pelo teorema dos números primos (capı́tulo 5 e apêndice A). 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS Uma mensagem é um número natural m < N . [41]): se isto for verdade então o algoritmo proposto acima é realmente polinomial. Por exemplo. e. se p | m. que está muito perto de 1 para C grande. Harald Cramér conjectura que g(p) < C(log(p))2 (para algum C > 0. o que implica que. os dois lados são 0 mod p. podemos observar que m̃r ≡ (ms )r = mrs = m1+k(p−1)(q−1) = m · (mp−1 )k(q−1) ≡ m (mod p). se testarmos C log N números ao acaso entre N e 2N . Ainda assim. Mais precisa- mente. assim como para as demais operações necessárias (veja o capı́tulo 7. em média o número de tentativas será da ordem de log(n). o gap g(p) é igual a q − p onde q é o menor primo maior do que p). caso contrário. podemos considerar que o problema de obter primos é razoavelmente fácil e rápido para aplicações práticas pois aı́ devemos permitir algorit- mos que dependem de sorteios e que obtêm o que é pedido em tempo . veremos a seguir que existem algoritmos polinomiais para testar primalidade. O emissor envia (ou publica) m̃ := ms (mod N ).

Não é claro se será possı́vel construir computadores quânticos substancialmente maiores. Demonstrar que (a) 61 | 2015 − 1. Problemas Propostos 1.7: A FUNÇÃO DE EULER E O TEOREMA DE EULER-FERMAT 55 polinomial com probabilidade quase igual a 1. A maioria dos especialistas duvida que exista tal algoritmo mas é preciso enfatizar que a não-existência de um tal algoritmo não é um teorema. Kayal e Saxena. Não se conhecem algoritmos polinomiais para fatorar inteiros (gran- des). Em 2001 foi implementado tal algoritmo em um computador quântico nuclear de ressonância magnética com 7 qbit por um grupo da IBM. (b) 13 | 270 + 370 . a mecânica quântica parece per- mitir a construção de um computador quântico e Peter Shor encontrou um “algoritmo” que permite a um computador quântico fatorar inteiros em tempo polinomial [135]. a criptografia RSA é eficiente e segura pois é muito mais rápido achar primos grandes do que fatorar números grandes e ele é bastante utilizado para encriptar mensagens transmitidas pela internet. De fato. Para mais informações sobre a criptografia RSA. mas somente suficiente para fatorar o número 15 [116]. Em 2012 foi implementada uma modificação do algoritmo de Shor que tornou possı́vel fatorar o número 21 em um (pequeno) compu- tador quântico [99]. Resumindo. veja [40]. e em particular é apresentado um algoritmo que funciona em muitos casos e gera primos grandes cuja primalidade pode ser verificada por critérios bem mais simples que o teste de Agrawal.[SEC. Mais do que isso. Encontre os últimos três dı́gitos de 32009 (na representação deci- mal). . Existe ainda a possibilidade de que não exista um algoritmo rápido. a não-existência de tal algoritmo implica di- retamente em P 6= N P (um dos mais importantes problemas em aberto da matemática) mas P 6= N P não parece implicar a não existência do algoritmo. mas que ainda assim exista uma máquina (no sentido literal) capaz de fatorar inteiros rapidamente. como o teste de Pocklington (veja o capı́tulo 7). 1. No interessante artigo de divulgação [125] é discutido o problema de gerar primos grandes. 1.28.29.

14444.37. Demonstre que todo número capicua com um número par de dı́gitos é divisı́vel por 11. 2011 1. (P.38. Seja f : N>0 → N uma função definida do conjunto dos inteiros positivos no conjunto dos números naturais tal que (a) f (1) = 0. 1. Mostre que a12 ≡ b12 (mod 91) ⇐⇒ mdc(a. 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS 1. . Mostre que. (b) f (2n) = 2f (n) + 1. . 1. (c) f (2n + 1) = 2f (n). Encontre todos os números N de três dı́gitos (na representação decimal). 11. vale que 13 | 72n+1 + 62n+1 .32. 13. Utilize a representação em base 2 de n para encontrar uma fórmula não recursiva para f (n).39. 1. 1. Um inteiro positivo é capicua (ou palı́ndromo) se a sua represen- tação decimal é igual lida da direita para a esquerda ou da esquerda para a direita. o dı́gito das dezenas de 36 = 729 é 2).36. 1.56 [CAP. 17 ou 19.30.31. Sabini) Mostre que entre os números da forma 14. para todo n ≥ 0. Verifique se 987654321 é divisı́vel por 9. Mostre que o dı́gito das dezenas de qualquer potência de 3 é um número par (por exemplo.33.35. 1444. tais que N é divisı́vel por 11 e além disso N/11 é igual à soma dos quadrados dos dı́gitos de N . Determine um valor inteiro positivo de k tal que 5k ≡ 97 (mod 101).34. . . 1. 1. Calcule o resto da divisão de 22 por 97. os únicos quadrados perfeitos são 144 = 122 e 1444 = 382 . O que acontece com os números capicuas com um número ı́mpar de dı́gitos? 1. 144 · · · 44. 91). 91) = mdc(b. 144.

. .48.46 (AusPol1996). 0 < ak < k. n) de inteiros positivos tais que dm + 1 divide dn + 203. 99991.47. Seja p > 2 um número primo. Demonstre que X nϕ(n) k= . Encontre todas as ternas (d. 3 ou 5. Demonstre que (p − 1)! + 1 é uma potência de p se.k)=1 1. Demonstre que se mdc(a. todos menores que 105 . 1.44 (Chi2003). 2 1. 1. o número np  p −n é divisı́vel por p3+r onde pr é a maior potência de p que divide n.40. . 1.. 1. b) = 1 então todos os divisores primos ı́mpares de a2 + b2 são da forma 4k + 1. Demonstre que para todo número primo p > 3.41 (OBM1991).7: A FUNÇÃO DE EULER E O TEOREMA DE EULER-FERMAT 57 1. . Seja S(n) a soma dos dı́gitos de n. Mostre que não existem inteiros não negativos m. p = 2. 1. É possı́vel escolher 1983 inteiros positivos distintos. Seja p um número primo. m.. 5 1. 1≤k≤n 2 mdc(n.42 (IMO1983). 1. Encontrar S(S(S(22 + 1))). n tais que m! + 48 = 48(m + 1)n .43. e só se. tal que não existam três que sejam termos con- secutivos de uma progressão aritmética? Dica: Usar base 3.45.[SEC. 0 ≤ a2 < 2. 1. 1. Demonstre que existem infinitos múltiplos de 1991 que são da forma 19999 . Demonstre que   2 p−1 ! ≡ (−1)(p+1)/2 (mod p)..49.50. 0 ≤ a3 < 3. Mostre que todo número racional positivo pode ser escrito de ma- neira única na forma a1 a2 ak + + ··· + 1! 2! k! onde: 0 ≤ a1 .

A somaPe o produto emP K[x] são definidos da maneira usual: dados f (x) = i ai x e g(x) = i bi xi elementos de K[x] temos i def X f (x) + g(x) = (ai + bi )xi . Demonstre que para cada inteiro positivo n existe um inteiro m tal que 2m tem no mı́nimo 32 n − 1 zeros entre seus últimos n dı́gitos em notação base 10.52. o número np − p não é divisı́vel por q. Sejam m. 5 e 13. b tais que ab(a + b) não é divisı́vel por 7. De- monstrar que é possı́vel encontrar dois números diferentes a e b que pertençam ao conjunto {2. 5. Demonstrar que 4mn−m−n nunca pode ser o quadrado de um número inteiro. d} tais que ab − 1 não é um quadrado perfeito.53 (IMO1986). 13. mas (a + b)7 − a7 − b7 é divisı́vel por 77 . n inteiros positivos. 1. 1. Demonstre que existem infinitos primos da forma 4k + 1. Mostre que pk | an − bn ⇐⇒ pk | n(a − b). 1.54. i def X X f (x) · g(x) = ck xk onde ck = ai bj .51. 1. 1.58 (IMO1979). Encontre um par de inteiros positivos a. Demonstre que existe um primo q tal que para todo n. Seja p um número primo. 1. então p2 | (ap − bp ). Seja d um número positivo distinto de 2. 1.8 Polinômios Dado um anel comutativo K. 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS 1. Demonstre que se p | (ap − bp ). k i+j=k .55 (IMO1984).58 [CAP.56. chamados de polinômios com coeficientes em K. definimos o anel comutativo K[x] como sendo o conjunto das expressões da forma f (x) = a0 + a1 x + a2 x2 + · · · + an xn com ai ∈ K.59. Sejam m e n inteiros positivos tais que m 1 1 1 1 1 = 1 − + − + ··· − + .57 (IMO2003). 1. n 2 3 4 1318 1319 Mostre que m é divisı́vel por 1979. Seja p um número primo ı́mpar e sejam a e b inteiros não divisı́- veis por p tais que p | a − b. 1.

Demonstração: Sejam n = deg f (x) e m = deg g(x).[SEC. existe g(x) ∈ K[x] tal que f (x) = d(x) · g(x).8: POLINÔMIOS 59 Definimos o grau deg f (x) de um polinômio f (x) = a0 + a1 x + a2 x2 + · · · + an xn como sendo o maior i tal que ai 6= 0. A distinção entre um polinômio e uma função polinomial é bem ilustrada pelo polinômio f (x) = xp − x ∈ (Z/(p))[x]: este polinômio é não nulo pois seus coeficientes são não nulos. mas para todo c ∈ Z/(p) temos f (c) = 0 pelo pequeno teorema de Fermat.48 (Algoritmo da divisão). cada polinômio f (x) = a0 + a1 x + a2 x2 + · · · + an xn define uma função polinomial f: K →K c 7→ f (c) = a0 + a1 c + a2 c2 + · · · + an cn também chamada de f . podemos definir divisibilidade de polinômios de maneira completamente análoga: d(x) | f (x) em K[x] se. Temos também uma generalização da divisão euclidiana: Proposição 1. polinômios guardam muitas semelhanças com números inteiros. Dado um polinômio f (x) ∈ K[x]. deg g(x)}. Por exemplo. unicamente determinados. g(x) ∈ K[x]. 1. Tal convenção visa a tornar válidas as seguintes identidades para todos os polinômios f (x). O coeficiente do termo de maior grau de um polinômio é chamado de co- eficiente lı́der. qualquer c ∈ K tal que f (c) = 0 é chamado de raiz ou zero de f (x). Apesar disso. o grau do polinômio nulo 0 é definido como sendo −∞. Como veremos nesta seção. e só se. existem q(x). Para demons- trar a existência de q(x) e r(x). tais que f (x) = q(x) · g(x) + r(x) com deg r(x) < deg g(x). Note . Observe que nas definições acima x é um sı́mbolo formal e não um elemento de K. Dados polinômios f (x). Um polinômio cujo coeficiente lı́der é igual a 1 é chamado de mônico. g(x) ∈ K[x]:  deg f (x) · g(x) = deg f (x) + deg g(x) e  deg f (x) + g(x) ≤ max{deg f (x). r(x) ∈ K[x] (chamados respectivamente de quociente e resto da divisão de f (x) por g(x)). com g(x) 6= 0. Seja K um corpo. procederemos por indução sobre n.

an+1 . Escreva f (x) = an xn + f1 (x) e g(x) = bm xm + g1 (x) com an 6= 0. suponha que f (x) = q1 (x)g(x) + r1 (x) = q2 (x)g(x) + r2 (x) com q1 (x) 6= q2 (x) e deg r1 (x). que era o que se queria demonstrar. então basta tomar q(x) = 0 e r(x) = f (x).60 [CAP. Demonstração: A demonstração é feita por indução em n = deg f (x). . Demonstração: Como deg(x−a) = 1. logo basta tomar q(x) = a/b e r(x) = 0 neste caso. Um polinômio f (x) ∈ K[x] não nulo de grau n tem no máximo n raı́zes em K. .50. terı́amos 0 = f (ai ) = . o que é um absurdo. .49. f (x) ∈ K[x] e a ∈ K. . Então r2 (x) − r1 (x) = (q1 (x) − q2 (x))g(x) 6= 0 é um múltiplo de g(x) de grau estrita- mente menor do que deg g(x). temos que f (a) = r donde o resultado segue. Agora suponha que n ≥ 1. os casos n = 0 e n = 1 são triviais. Seja K um corpo. para i 6= n + 1. dividindo f (x) por x−a temos que f (x) = (x − a)q(x) + r com r ∈ K. logo podemos supor que m ≤ n. Assim. Seja K um corpo. bm Logo podemos escrever f (x) = ( bamn xn−m + q(x)) · g(x) + r(x). Corolário 1. 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS que se m > n. Proposição 1. Se n = m = 0. Observemos que o polinômio f (x)− bamn xn−m g(x) = f1 (x)− bamn xn−m g1 (x) é de grau menor que n. deg g1 (x) < m. substituindo x por a. Então x − a | f (x) ⇐⇒ f (a) = 0. deg r2 (x) < deg g(x). Para demonstrar que os polinômios q(x) e r(x) são únicos. então f (x) = a e g(x) = b são ambos constantes não nulas. bm 6= 0 e deg f1 (x) < n. Por hipótese de indução existem dois polinômios q(x) e r(x) tais que an n−m f (x) − x g(x) = q(x)g(x) + r(x) com deg r(x) < deg g(x). então f (x) = (x − an+1 )g(x) para algum g(x) ∈ K[x] pelo corolário anterior. Se f (x) tivesse n + 1 raı́zes distin- tas a1 . Assim.

p − 1: σ1 = 1 + 2 + · · · + (p − 1) σ2 = 1 · 2 + 1 · 3 + · · · + (p − 2)(p − 1) . Seja p um primo. . . . . Por exemplo. o polinômio f (x) = x2 − 1 ∈ Z/8Z[x] tem 4 raı́zes em Z/8Z.8: POLINÔMIOS 61 (ai − an+1 )g(ai ) =⇒ g(ai ) = 0 pois (ai − an+1 ) 6= 0 é invertı́vel em K. · (p − 1). . Demonstração: Pelo teorema de Fermat e pela proposição anterior. b(x). 7. As mesmas demonstrações do caso inteiro mostram que as congruências módulo m(x) definem uma relação de equivalência em K[x] compatı́vel . temos que 1. . Seja K um corpo. . Note que o teorema anterior é falso se K não é um corpo. σp−1 = 1 · 2 · . . · (x − p − 1). contradi- zendo a hipótese de indução. 2. 1. .[SEC. . . Logo aplicando o corolário e comparando coeficientes lı́deres obtemos a fato- ração xp−1 − 1 = (x − 1)(x − 2) · . . . Então σ1 . . . . m(x) ∈ K[x]. Vejamos uma aplicação dos resultados anteriores quando K = Z/(p). A primeira é uma nova demonstração do teorema de Wilson: Teorema 1. p − 1 dada pela soma de todos os p−1  i produtos de i termos distintos dentre 1. p − 1 são todas as raı́zes de xp−1 − 1 em Z/(p). 5. .51. . Logo g(x). 3. obtemos o resultado. p primo. Mas o polinômio do lado direito é igual a xp−1 − σ 1 xp−2 + σ 2 xp−3 − · · · + (−1)p−1 σ p−1 . . . an . escrevemos a(x) ≡ b(x) (mod m(x)) ⇐⇒ m(x) | a(x) − b(x). de grau n − 1. Comparando coeficientes. 2. . . teria n raı́zes distintas a1 . 2. . σp−2 são todos múltiplos de p e σp−1 = (p − 1)! ≡ −1 (mod p) (teorema de Wilson). .. . Podemos considerar também congruências de polinômios em K[x]: se a(x). Considere a função simétrica ele- mentar σi em 1. a saber 1.

Para evitar esta ambiguidade.62 [CAP. Assim. 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS com as operações de soma. pois qualquer múltiplo c · d(x) com c 6= 0 constante ainda satisfaz as condições acima. obtemos x3 ≡ 1 (mod x2 + x + 1). Se deg m(x) = n. um sistema completo de resı́duos módulo m(x) é dado pelos polinômios de grau menor do que n (os possı́veis restos na divisão euclidiana por m(x)): {a0 + a1 x + · · · + an xn−1 | ai ∈ K} K[x] Em particular. subtração e produto. podemos formar o anel quociente K[x]  m(x) cujos elementos são os conjuntos da forma def a(x) = {b(x) ∈ K[x] | b(x) ≡ a(x) (mod m(x))} e as operações no anel quociente são dadas por def def f (x) + g(x) = f (x) + g(x) e f (x) · g(x) = f (x) · g(x) sendo independentes das escolhas dos representantes de classe f (x) e g(x). temos (x + 1)2 ≡ x (mod x2 + x + 1) =⇒ (x + 1)2010 ≡ x1005 = (x3 )335 (mod x2 + x + 1) =⇒ (x + 1)2010 ≡ 1 (mod x2 + x + 1) Assim. Determine o resto da divisão de (x+1)2010 por x2 +x+1 em Q[x]. Podemos tentar definir o mdc d(x) de dois polinômios f (x) e g(x) (com f (x) 6= 0 ou g(x) 6= 0) de maneira análoga ao mdc de inteiros. (m(x)) é infinito se K também o é.52. Entretanto. Assim. Exemplo 1. Solução: Multiplicando por x − 1 a congruência x2 + x + 1 ≡ 0 (mod x2 + x + 1). definimos o mdc de f (x) e g(x) como . d(x) não está bem determinado. tomando o polinômio d(x) de maior grau que divide f (x) e g(x) simul- taneamente. o resto da divisão é 1.

Seja K um corpo. obtemos (c. A partir do teorema de Bachet-Bézout. temos Teorema 1. Isto mostra que irredutibilidade é um conceito que depende do anel de polinômios sobre o qual estamos trabalhando. Então existem dois polinômios m(x) e n(x) tais que f (x)m(x) + g(x)n(x) = d(x). Seja d(x) o máximo divisor comum de dois polinômios f (x) e g(x). g) = {f (x)m(x) + g(x)n(x) | m(x). A divisão euclidiana permite estender resultados de Z para K[x] de maneira quase trivial.10 e teorema 1. n(x) ∈ K[x]}. Analogamente. a ∈ K. Quando estes são os únicos polinômios irredutı́veis em K[x] dizemos que o corpo K é algebricamente fechado. Polinômios irredutı́veis fazem o papel de números primos para po- linômios. e somente se. Por exemplo..f.16): . x2 + 1 é redutı́vel em C[x] já que x2 + 1 = (x − i)(x + i).8: POLINÔMIOS 63 sendo o polinômio mônico de maior grau que divide f (x) e g(x) simulta- neamente.7. pois caso contrário ele poderia ser escrito como produto de polinômios de grau 1 em R[x].e. não têm raı́zes em K.[SEC. Demonstração: Análoga ao teorema 1. proposição 1. x2 + 1 ∈ R[x] é irredutı́vel em R[x]. como naquele teorema d(x) será o polinômio mônico de menor grau no conjunto def I(f. Dizemos que um polinômio não constante f (x) ∈ K[x] é irredutı́vel em K[x] se f (x) não é o produto de dois polinômios em K[x] de graus estritamente menores do que deg f (x). define-se o mmc de f (x) e g(x) (com f (x) 6= 0 e g(x) 6= 0) como o polinômio mônico de menor grau que é divisı́vel tanto por f (x) como por g(x). Definição 1. Observe que em geral polinômios de graus 2 ou 3 são irredutı́veis em K[x] se. i. os da forma x − a. contradizendo o fato de x2 + 1 = 0 não possuir raı́zes reais. Os exemplos mais evidentes de polinômios irredutı́veis em K[x] são os lineares mônicos.54. 1.53 (Bachet-Bézout). Por outro lado. como no caso dos inteiros. Por exemplo.

Outra importante consequência do teorema de Bachet-Bézout é o seguinte (c. pelo teorema de Bachet-Bézout. teorema 1. Seja K um corpo. existem r(x). Seja K um corpo e f (x) um polinômio irredutı́vel em K[x]. As tabelas de adição e multiplicação deste corpo são as seguintes: + 0 1 x x+1 0 0 1 x x+1 1 1 0 x+1 x x x x+1 0 1 x+1 x+1 x 1 0 . . am (x) ∈ K[x] com p(x) irredutı́vel em K[x]. · am (x). então p(x) | ai (x) para algum i.55. Logo. K[x]/(f (x)) é um corpo. 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS Proposição 1. Então K[x]/(f (x)) é um corpo. Demonstração: Assim como na demonstração de que Z/pZ é um corpo para p primo. Se p(x) | a1 (x) · . Todo polinômio não nulo em K[x] pode ser fatorado como um produto de polinômios ir- redutı́veis em K[x]. . Teorema 1.57. caso contrário terı́amos a(x) = 0. . Assim. que possui 4 elementos. f (x)) = 1 pois f (x) é irredutı́vel e f (x) não divide a(x). a1 (x). Seja K um corpo e sejam p(x). seja K = Z/(2) e f (x) = x2 + x + 1 ∈ K[x]. s(x) ∈ K[x] tais que a(x)r(x) + f (x)s(x) = 1 =⇒ a(x)r(x) ≡ 1 (mod f (x)) Portanto r(x) é o inverso multiplicativo de a(x). Por exemplo. . esta fatoração é única a menos da ordem dos fatores e multiplicação por constantes não nulas.56 (Fatoração Única).f.64 [CAP. Temos que f (x) é irredutı́vel pois ele tem grau 2 e não possui raı́zes em K. . a dificuldade aqui é mostrar que todo elemento a(x) 6= 0 é invertı́vel em K[x]/(f (x)).37) Teorema 1. Temos que mdc(a(x).

temos uma contradição pois Z/pZ[x] é um domı́nio. precisamos de uma Definição 1. suponha por contradi- ção que f (x) seja irredutı́vel sobre Z[x] mas que f (x) = g(x)h(x) com . onde a barra denota o polinômio obtido reduzindo-se seus coeficientes módulo p. O lema anterior é o passo essencial na prova do famoso lema de Gauß. Primeiro. já que por hipótese p não divide todos os coeficientes de g(x) e o mesmo para h(x). Demonstração: É claro que se f (x) é irredutı́vel sobre Q[x]. O produto de dois polinômios primitivos é primitivo. Seja f (x) ∈ Z[x] um polinômio primi- tivo não constante. em Z/pZ[x] terı́amos que g(x)h(x) = g(x)h(x) = 0. f (x) é irredutı́vel em Z[x] (isto é. Então f (x) é irredutı́vel em Q[x] se. Assim. olhe por exemplo para os coeficientes lı́deres e use o fato de que Z/pZ é um corpo). Demonstração: Sejam g(x) e h(x) dois polinômios primitivos. Seja p um primo e suponha por absurdo que p divida todos os coeficientes de g(x)h(x).60 (Lema de Gauß). Assim. então ele é irredutı́vel sobre Z[x]. não podemos escrever f (x) = g(x)h(x) com g(x).[SEC. isto é. Lema 1.58. Um polinômio não nulo f (x) ∈ Z[x] é dito primitivo se o mdc de seus coeficientes é 1. Por outro lado.8: POLINÔMIOS 65 · 0 1 x x+1 0 0 0 0 0 1 0 1 x x+1 x 0 x x+1 1 x+1 0 x+1 1 x Encerramos esta seção com um importante critério de irredutibili- dade para polinômios com coeficientes inteiros. Reciprocamente. e somente se. g(x) 6= 0 e h(x) 6= 0. Teorema 1. que permite reduzir a questão da irredutibilidade de um polinômio em Q[x] para a mesma questão em Z[x]. h(x) ∈ Z[x] não constantes). o produto de dois polinômios não nulos em Z/pZ[x] é diferente de zero (de fato. 1.59.

i + j = n e b · c = an . absurdo. Seja f (x) = an xn + · · · + a1 x + a0 ∈ Z[x] um polinômio primitivo não constante. para polinômios em Z[x].66 [CAP. sendo que o termo independente p−1 = p não é 2 múltiplo de p . Demonstração: Suponha por absurdo que f (x) é redutı́vel. uma contradição. Porém. todos os coeficientes deste  polinômio p são múltiplos de p. 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS g(x).. Pelo critério de Eisenstein. podemos aplicar o Proposição 1. devemos ter g(x) = bxi e h(x) = cxj com 0 < i. e como f (x) = g(x)h(x). onde a barra denota o polinômio obtido reduzindo-se os seus coeficientes módulo p. temos que f (x) = an xn e portanto. Observemos que p −1 f (x) = xx−1 . p | aj para todo 0 ≤ j < n e p2 .62. Suponha que exista um número primo p tal que p . enquanto que e é o mdc dos coeficientes de e·g0 (x)h0 (x). h(x) ∈ Q[x]. com exceção do coeficiente lı́der. Seja p um primo. Solução: Pelo lema de Gauß. Logo d = e e assim f (x) = g0 (x)h0 (x) é redutı́vel sobre Z[x]. Finalmente. h(x) ∈ Z[x] tais que f (x) = g(x)h(x) e 0 < deg g(x). pela fatoração única em Z/pZ[x] (teorema 1. deg h(x) < n. Demonstrar que o polinômio f (x) = xp−1 + xp−2 + · · · + x + 1 é irredutı́vel em Q[x]. Como f (x) e g0 (x)h0 (x) (pelo lema anterior) são primitivos.61 (Critério de Eisenstein). basta provar a irredutibilidade sobre Z[x] e para isto utilizaremos o critério de Eisenstein.56). Em Z/pZ[x]. podemos escrever d · f (x) = e · g0 (x)h0 (x) com g0 (x). Então f (x) é irredutı́vel em Z[x].a0 . Exemplo 1. h0 (x) ∈ Z[x] primitivos e e ∈ N. portanto. temos então f (x) = g(x)h(x). i. Mas isto significa que os coeficientes de x0 em g(x) e h(x) são múltiplos de p. que a0 é múltiplo de p2 . j < n. . temos que d é o mdc dos coeficientes de d·f (x). como p | aj para todo 0 ≤ j < n.e. f (x) também o é. Multiplicando esta última igualdade por um inteiro conveniente d > 0. ambos não constantes. logo (x + 1)p − 1     p−1 p p−2 p f (x + 1) = =x + x + ··· + x 1 p−1 e.an . f (x + 1) é irredutı́vel em Z[x] e. exis- tem g(x).

10). Mostre que se p/q é uma raiz racional de f (x). por exemplo f (x) = x4 − 10x2 + 1 (veja o exemplo 2. Mostre que imagem da função f : N × N → N dada por y−1 |a2 − 1| − (a2 − 1) + 2  f (x. 1. y ∈ N.60.8: POLINÔMIOS 67 Observação 1.63. se f (x) ∈ Z[x] admite raiz módulo p para todo primo p suficientemente grande. y) = 2 é exatamente o conjunto dos números primos. Seja f (x) ∈ C[x] um polinômio que deixa restos 10 e 1 quando dividido por x − 1 e x − 10 respectivamente. Encontrar todos os inteiros positivos n e m tais que todas as soluções de x3 − 17x2 + mx − n2 = 0 são inteiras. Encontrar todos os pares (c. Encontrar o resto de f (x) na divisão por (x − 1)(x − 10).66 (AusPol1998). 1. Demonstrar que f (x) não pode se expressar como produto de dois polinômios não constantes com coeficientes inteiros. . Dados x.61.63 (IMO1993). q) = 1. 1. 1. 1. Existem polinômios primitivos irredutı́veis f (x) ∈ Z[x] mas que são redutı́veis módulo p para todo primo p. Por outro lado. Mostre que α2 − 2 também é uma raiz deste polinômio. então p | a0 e q | an .67. 1. Seja α uma raiz de x3 − 3x + 1 = 0.62. Seja f (x) = an xn +· · ·+a0 ∈ Z[x] um polinômio de grau n. P (x)) onde c é um real e P (x) é um polinômio não nulo tal que P (x4 + x2 + x) = (x6 + x5 + x4 + x3 + x2 + x + 1)P (cx). 1. Problemas Propostos 1. com p. então f (x) possui raiz em Z! Veja o excelente artigo de Serre [132] para uma demonstração deste fato. Calcule o resto da divisão do polinômio (cos θ + x sin θ)n ∈ R[x] por x2 + 1.64. 1.[SEC.65. Seja θ ∈ R e n um inteiro positivo. q ∈ Z e mdc(p. defina a := x(y +1)−(y!+1). Seja f (x) = xn + 5xn−1 + 3 onde n > 1.

denotado por ord a. definimos a ordem de a módulo n. n ∈ Z com mdc(a. associe a ele um polinômio cujos coeficientes são os dı́gitos decimais desse primo (por exemplo. (Zagier) Dado um número primo. 22 = 4. para todo k ∈ N tem-se ak ordn a ≡ 1 (mod n).68. se at ≡ 1 (mod n). pois 21 = 2. definimos a ordem de a.9 Ordem e Raı́zes Primitivas Dado a ∈ (Z/nZ)× . Mostre que este polinômio é sempre irredutı́vel em Z[x]. 1.64. Encontrar todos os pares de inteiros m. Encontrar todos os valores de k para os quais o polinômio x2k+1 + x + 1 é divisı́vel por xk + x + 1. Se ordn a = ϕ(n). p | aj para todo 0 ≤ j < n e p2 . que é a primeira potência de 2 congruente a 1 módulo 5 e 4 = ϕ(5).69. Suponha que exista um número primo p tal que p . n) = 1. 9x3 +4x2 + 3 para o primo 9403). 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS 1.68 [CAP. 1. e só se. Prove a seguinte modificação do Critério de Eisenstein: seja f (x) = an xn + · · · + a1 x + a0 ∈ Z[x] um polinômio primitivo não cons- tante e sem raı́zes racionais. 1. Temos que at ≡ 1 (mod n) se. n > 2 tais que existam infinitos valores de k para os quais km + k − 1 kn + k2 − 1 é inteiro. ordn a | t.70. denotado por ordn a. como o menor inteiro t > 0 tal que at = 1 em Z/nZ. como a ordem de a ∈ (Z/nZ)× . Por exemplo. 23 = 8. O resultado básico mais importante sobre ordem é a seguinte Proposição 1. Demonstração: Como aordn a ≡ 1 (mod n). 2 é raiz primitiva módulo 5. temos que ordn a ≤ ϕ(n).an . Se a. pelo algoritmo da divisão existem inteiros q e r tais que 0 ≤ r < ordn a e t = q ordn a+r. dizemos que a é raiz primitiva módulo n. 1. Por outro lado. Note que pelo teorema de Euler- Fermat. 24 = 16. Portanto 1 ≡ at = aq ordn a+r = (aordn a )q · ar ≡ ar (mod n) . Então f (x) é irredutı́vel em Z[x].a1 .71 (IMO2002).

pelo teorema de Euler-Fermat n temos que aϕ(a −1) ≡ 1 (mod an − 1). Exemplo 1. temos que r = 0. isto é 21 ≡ 1 (mod p). por outro lado.. Mas mdc(n. Pela minimalidade de ordn a. temos portanto n | ϕ(an − 1). n) · m0 e n = mdc(m. donde p | 1. an + 1) = mdc (amdc(m. pelo teorema de Fermat.n) )n + 1 . Exemplo 1. ar ≡ 1 (mod n). 2p−1 ≡ 1 (mod p). m e n inteiros positivos. Demonstrar que não existe um inteiro n > 1 tal que n | 2n − 1. Corolário 1. i.at − 1.65. Sejam a. p−1) = 1 pois p é o menor divisor primo de n e assim os divisores primos de p − 1 são menores que os divisores primos de n.67. n0 ) = 1.n) )m + 1.  Solução: Como 0 0 mdc(am + 1. Exemplo 1. defina m0 e n0 por m = mdc(m. (amdc(m.e. Portanto r | n e r | p − 1. Mostre que  mdc(m. Solução: Já que mdc(a.9: ORDEM E RAÍZES PRIMITIVAS 69 Ou seja. Isto mostra que r = 1.66. n é a ordem de a módulo an − 1 já que an ≡ 1 (mod an − 1) e se 0 < t < n temos 0 < at − 1 < an − 1 e assim an − 1 . o que implica que r | mdc(n.[SEC.n) + 1 se m0 e n0 são ı́mpares.  1 se m0 + n0 é ı́mpar e a é par. Solução: Suponhamos o contrário. an − 1) = 1. Sabemos que 2n ≡ 1 (mod p) e além disso.68. p − 1). ordn a | t. an + 1) = 2 se m0 + n0 e a são ı́mpares. 1. uma contradição. seja p o menor divisor primo de n e r = ordp 2. de modo que mdc(m0 . n) · n0 . ordn a | ϕ(n). Demonstrar que n | ϕ(an − 1) para todo inteiro positivo a > 1. Pela proposição.  . a  mdc(am + 1.

Por outro lado. a. Temos ( ( an ≡ −1 (mod d) a2n ≡ 1 (mod d) =⇒ am ≡ −1 (mod d) a2m ≡ 1 (mod d) =⇒ ordd a | mdc(2n. Digamos que m seja ı́mpar (como estamos supondo mdc(m. ou seja. am + 1 e an + 1 são ambos pares. t ∈ N} = (Z/nZ)× se. aordn a−1 são distintos pois caso ai = aj com 0 ≤ i < j < ordn a. a2 ≡ 1 (mod d). a2 . Isto encerra a análise de casos e com isso o problema. n) = 1. não podemos ter m e n ambos pares).70 [CAP. t ∈ N} = {1. t ∈ N} ⊂ (Z/nZ)× . O número a é raiz primitiva módulo n se. 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS o resultado no caso geral seguirá do caso em que mdc(m. . quando a é ı́mpar. e somente se. vamos supor m e n são primos entre si e seja d = mdc(an + 1. {at . De fato. a é uma raiz primitiva módulo n. . . de modo que a · (a2 )(m−1)/2 = am ≡ −1 (mod d) =⇒ a ≡ −1 (mod d) ⇐⇒ d | a + 1. se n é par. n) = 1. t ∈ N} = (Z/nZ)× . por outro lado. . n) = 1 temos {at . a2 . os elementos 1. am + 1). então aj−i = 1 com 0 < j − i < ordn a. Se n é ı́mpar também. temos (a2 )n/2 = an ≡ −1 (mod d) =⇒ 1 ≡ −1 (mod d) =⇒ d = 1 ou d = 2. a. o que é absurdo. Assim. Assim. e só se. isto é. e só se. Assim. O caso d = 2 ocorre se. se. Demonstração: Para todo a ∈ Z com mdc(a. Uma outra caracterização de raiz primitiva é dada pela Proposição 1. . . . e só se. Note que {at . para qualquer t ∈ N temos at = ar onde r é o resto na divisão de t por ordn a. {at . mdc(a. 2m) = 2. n) = 1 e ordn a = ϕ(n). . então d = a+1 já que a+1 | am +1 e a+1 | an +1 neste caso (utilize a fatoração am + 1 = (a + 1)(am−1 − am−2 + am−3 − · · ·+1) ou a implicação a ≡ −1 (mod a+1) =⇒ am ≡ −1 (mod a+1)). . aordn a−1 } é um conjunto com ordn a elementos.69.

e isso segue do fato de que se mdc(a. Entretanto elas nem sempre existem para qualquer módulo n.71. então não existe nenhuma raiz primitiva módulo 2k . n = 2. então a é raiz primitiva módulo m. A demonstração deste teorema é longa e é composta de vários passos.73. Se n = ab. isto implica o corolário. então não existe raiz primitiva módulo n. n = pk ou n = 2pk onde p é primo ı́mpar. não há elemento de ordem ϕ(8) = 4 módulo 8. então as potências de a mod m tam- bém cobrem todo o (Z/mZ)× . Se mdc(k. a = 2r + 1. b) = 1. n = 4. Assim.9: ORDEM E RAÍZES PRIMITIVAS 71 Corolário 1. Se m divide n e a é raiz primitiva módulo n. Existe alguma raiz primitiva módulo n se. Raı́zes primitivas são muito úteis em diversas questões de Teoria dos Números. Pela proposição. k ϕ(n)/2 ≡ 1 (mod n) e portanto ordn k ≤ ϕ(n)/2 < ϕ(n) para todo k primo com n. então a2 = 4r(r + 1) + 1 ≡ 1 (mod 8) (sendo r(r+1) par. visto que é o produto de dois números consecutivos). Demonstração: Como ϕ(n) = ϕ(a)ϕ(b) e a ≥ 3 e b ≥ 3.70.[SEC. Demonstração: Pelo corolário anterior. basta provar que não existe raiz primitiva módulo 8. Demonstração: Como o mapa natural (Z/nZ)× → (Z/mZ)× que leva x mod n em x mod m é sobrejetor. Se k ≥ 3. com a ≥ 3 e b ≥ 3 inteiros tais que mdc(a. e só se.72. segue que ϕ(a) e ϕ(b) são pares (verifique!). Proposição 1. O resto desta seção é dedicado a provar o seguinte importante Teorema 1. Assim. 8) = 1. então temos k ϕ(n)/2 = (k ϕ(b)/2 )ϕ(a) ≡ 1 (mod a) e ϕ(n)/2 ϕ(a)/2 ϕ(b) k = (k ) ≡1 (mod b). isto é. temos que se as potências de a mod n cobrem todo o (Z/nZ)× . 1. . Começamos com a seguinte Proposição 1. r ∈ N. n) = 1.

onde p não divide bk . Portanto ap−1 ≡ 1 (mod p2 ) e assim     p−1 p−1 p − 1 p−2 p − 1 p−3 2 (a + p) =a + a p+ a p + ··· 1 2 ≡ 1 − pap−2 (mod p2 ).     pk (p−1) k p p k p 2 2k a = (1 + bk p ) = 1 + bk p + b p + ··· 1 2 k = 1 + pk+1 (bk + pt) para algum t ∈ Z e assim bk+1 = bk + pt também não é divisı́vel por p pois p . . Suponha que ordp2 a = p − 1.75. Proposição 1. Se p é um número primo ı́mpar e a é raiz primitiva módulo p2 . devemos ter ordp2 a = p − 1 ou ordp2 a = p(p − 1) = ϕ(p2 ). Vamos mostrar por indução que ap (p−1) = 1 + bk pk . 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS Proposição 1. mas ap−1 não é congruente a 1 módulo p2 (já que a é raiz primitiva módulo p2 ). então a é raiz primitiva módulo pk para todo k ∈ N. k−1 onde p não divide b1 .bk . temos ap−1 = 1+b1 p. Como ord a ord a a pk+1 ≡ 1 (mod pk+1 ) =⇒ a pk+1 ≡ 1 (mod pk ) temos pk−1 (p − 1) = ϕ(pk ) = ordpk a | ordpk+1 a | ϕ(pk+1 ) = pk (p − 1). pois p2 não divide pap−2 (lembre-se de que mdc(a. Demonstração: Por hipótese. Vamos agora mostrar por indução que a é raiz primitiva módulo pk para todo k ≥ 2. Além disso. donde ordp2 (a+p) 6= p−1. portanto. pois at ≡ 1 (mod p2 ) implica at ≡ 1 (mod p). Do mesmo modo. Se p é um número primo e a ∈ Z é uma raiz primi- tiva módulo p. Basta provar.74. então a ou a + p é raiz primitiva módulo p2 . De fato. como ordp2 a | ϕ(p2 ) = p(p − 1). Demonstração: Como ap−1 ≡ 1 (mod p).72 [CAP. ordp a = ordp (a + p) = ϕ(p) = p − 1. Suponha que a seja raiz primitiva módulo pk . ordp2 (a + p) = p − 1 ou ordp2 (a + p) = p(p − 1) = ϕ(p2 ). Portanto p − 1 | ordp2 a. p) = 1). Portanto (a + p)p−1 não é congruente a 1 módulo p2 . para todo k ≥ 1. que ordp2 a 6= p − 1 ou ordp2 (a + p) 6= p − 1. para k ≥ 1 e p > 2 primo.

Para completar a prova do teorema 1. Como ϕ( nd ) conta justamente a quantidade n n de P inteiros entre P 1 e d (inclusive) que são primos com d . logo ord2pk a = ϕ(2pk ). ad ). ϕ(pk ) = ordpk a | ord2pk a e ord2pk a | ϕ(2pk ) = ϕ(pk ). n). Se p é primo ı́mpar e a é um inteiro ı́mpar tal que a é raiz primitiva módulo pk . como 24 = 16 6≡ 1 (mod 25). 2 é raiz primitiva módulo 25 = 52 também. 2 é raiz primitiva módulo 5 e. Então N (d) ≤ ϕ(d). Lema 1. então a ou a + pk é raiz primitiva módulo 2pk (pois um deles é ı́mpar). Como (ak )d = 1 e a equação xd − 1 = 0 tem no . Logo ad = 1 e. De fato. k−1 mas o primeiro caso é impossı́vel pois ap (p−1) = 1 + bk pk com p . a) é igual a ϕ( nd ) pois d = mdc(n. Por exemplo 2 é raiz primitiva módulo 5k para todo k ≥ 1.78. Logo ordpk+1 a = ϕ(pk+1 ) e a é raiz primitiva módulo pk+1 . d|n ϕ(d) = n para todo n ∈ N.[SEC. como nas provas acima. Demonstração: Podemos supor que N (d) > 0. pela proposição anterior. então a é raiz primitiva módulo 2pk . Defina N (d) como a quantidade de elementos a ∈ (Z/pZ)× com ord a = d. Proposição 1. Em particular. particionados segundo os valores de mdc(a.71. Demonstração: Seja d um divisor de n. Portanto. a) ⇐⇒ d | a e 1 = mdc( nd . Demonstração: Temos. precisamos de dois lemas. Para isto. A quantidade de a’s tais que 1 ≤ a ≤ n e d = mdc(n. temos que n d|n ϕ( d ) = d|n ϕ(d) conta a quantidade de números a entre 1 e n (inclusive).77. se a é raiz primitiva qualquer módulo pk . Seja p um primo e d um divisor de p − 1. então existe raiz primitiva módulo p. P Lema 1.76. logo existe a tal que ordp a = d. 2 é raiz primitiva módulo 5k para todo k ≥ 1. 1.9: ORDEM E RAÍZES PRIMITIVAS 73 Portanto ordpk+1 a = pk−1 (p − 1) ou ordpk+1 a = pk (p − 1) = ϕ(pk+1 ).bk . as classes de ak são todas distintas módulo p. falta provar que se p é primo ı́mpar. para 0 ≤ k < d.

Por outro lado. . então existe uma raiz primitiva módulo p. Seja mk = 2k rk . 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS máximo d raı́zes distintas em Z/pZ (pois Z/pZ é um corpo). Para cada d | p − 1. 0 ≤ k < d. Se rk é par. m1 = 2 e m2 = 12 satisfazem o enunciado.71. p possui exatamente ϕ(p − 1) raı́zes primitivas. Por outro lado. existem exa- tamente ϕ(d) elementos em (Z/pZ)× com ordem d. como ficará claro a partir da demonstração da proposição abaixo). d) > 1. Seja p um primo. {b ∈ (Z/pZ)× | ordp b = d} ⊂ {ak | 0 ≤ k < d e mdc(k. logo ordp (ak ) ≤ d/r < d. Exemplo 1. se ordp ak = d. suas raı́zes são exatamente ak . divisı́vel por 2k . Em particular. rk ∈ N. d) = 1}.74 [CAP. Solução: Observamos inicialmente que para todo k ∈ N existe um número mk de k dı́gitos. Proposição 1. Em particular. Com isto. então mdc(k.81. Desta forma. então (ak )d/r = (ad )k/r ≡ 1 (mod p). e se rk é ı́mpar. todos 1 ou 2. tome mk+1 = 10k + mk = 2k+1 (5k + rk )/2. 2}. d|p−1 d|p−1 Logo devemos ter N (d) = ϕ(d) para todo d. pois caso r = mdc(k. Se p é um primo. tome mk+1 = 2×10k + mk = 2k+1 (5k + rk /2). Vejamos algumas aplicações. Corolário 1. logo existem raı́zes primitivas módulo p. temos pelos dois lemas acima que X X p−1= N (d) ≤ ϕ(d) = p − 1. portanto N (d) ≤ ϕ(d) (na verdade.79. Mostre que existe n natural tal que os mil últimos dı́- gitos de 2n pertencem a {1. encerramos a demonstração do teorema 1.80. N (p − 1) = ϕ(p − 1) > 0. d) = 1. De fato. os dois conjuntos acima são iguais. tem-se ordp a | p − 1 e portanto p − 1 = d|p−1 N (d). Demonstração: P Para cada a ∈ (Z/pZ)× .

. existe k inteiro positivo tal que n | 10k − 1.75. e as 1000 últimas casas de 2k+1000 são as 1000 casas de m1000 . 4. por exemplo. 5 não divide r1000 = m 1000 21000 . e portanto 142857 · 2 = 7 7 285714. admitirem raı́zes primitivas equivale a dizer que os grupos (Z/pn Z)× e (Z/2pn Z)× são cı́clicos. 2. . Um exercı́cio interessante que pode ser proposto a alunos muito jo- vens é pedir que calculem os seguntes produtos: 142857 · 2. Logo 2k = b51000 + r1000 para algum b ∈ N e assim 2k+1000 = b101000 + 21000 r1000 = b101000 + m1000 . 571428. .57) admite raiz primitiva. 142857 · 3. respectivamente. Um grupo G é chamado de cı́clico se existe um ele- mento g tal que G = {g n | n ∈ Z}. o que equivale a existir . o seu grupo de unidades K × = K \ {0} é um grupo cı́clico. 142857 · 5 e 142857 · 6. . isto é. 428571. Portanto. 285714. que são. como 2 é raiz primitiva módulo 5 1000 pela proposição 1. Os resultados. Observação 1. 5. para cada a ∈ {1. . 1 que é 999999. existe k ∈ N com 2k ≡ r1000 (mod 51000 ).9: ORDEM E RAÍZES PRIMITIVAS 75 Como m1000 ≡ 2 (mod 10). p primo ı́mpar. O leitor não deve ter dificuldades para adaptar a prova acima a fim de mostrar que todo corpo K com um número finito de elementos (tal como o construı́do no exemplo após o teorema 1. 285714285714285714 . Em geral. 142857142857 . . que pertencem todas a {1. . 2}. . 714285 e 857142 têm os mesmos dı́gitos que 142857. 1. = 14. ou ainda que há isomorfismos de grupos (Z/pn Z)× ∼ = Z/ϕ(pn ) e (Z/2pn Z)× ∼ = Z/ϕ(2pn ) onde a operação nos grupos da direita é a adição. 7 100 Temos então.82. 6}. Isso dá certo pois 10 é raiz primitiva módulo 7. donde 7 2 100 = − 14 = 0. A explicação para este fato está relacionada com o resultado de 142857 · 7. existe um inteiro k com 0 ≤ k ≤ 5 tal que 10k ≡ a (mod 7). e logo. De fato. na mesma ordem cı́clica. 142857 é o perı́odo de = 0. 142857 · 4. se n é um inteiro positivo relativamente primo com 10. 3. 285714285714285714 . O fato de pn e 2pn .[SEC. .

a0 . terá representações em base B que serão permutações uma da outra. 3. e com a mesma ordem cı́clica. O tamanho deste menor perı́odo é n − 1 se. 17. e π(x) denota o número total de primos p ≤ x. . 7.e. escrevemos a = a1 · b2 . 0. se Na (x) denota o número de tais primos que são menores ou iguais Na (x) a x. e o mesmo fenômeno do parágrafo anterior acontece com o perı́odo de 1 n . . e logo P existem a0 . . . ak−1 ∈ {0. O menor perı́odo da representação decimal de n1 tem ordn (10) dı́gitos. quando multiplicado por 1. o perı́odo de n1 na base B tem n − 1 algarismos se. n 10 − 1 10kj j=1 k−1 aj · 10j . 8. Nesse caso. 14. 12. . existe uma constante C(a) > 0 tal que. Por outro lado. existe um inteiro j com 0 ≤ j ≤ n−2 tal que 10j deixa resto r quando dividido por n. 6. 15. 23. n é primo e B é raiz primitiva módulo n. 29. Nesse caso. e. não se sabe se existem infinitos primos n tais que 10 é raiz primitiva módulo n. 59. Como M < 10k . Mais precisamente. dado inteiros B. o perı́odo de n1 é 0588235294117647 (sugerimos ao leitor que multiplique este número por 2. . . 47. então lim = x→+∞ π(x) C(a). a representação decimal de n1 é puramente periódica com perı́odo ak−1 ak−2 . para todo inteiro r com 1 ≤ r ≤ n − 1. .76 [CAP. . . dado qualquer inteiro a que não pertença a {−1. e somente se. . . a0 ak−1 ak−2 . mais ainda. .. . existem infinitos primos p tais que a é raiz primitiva módulo p. com b ≥ 1 máximo (a1 é a parte livre de quadrados de a: se n ≥ 1 e n2 | a então n = 1). 1. . Isso seria consequência da conjectura de Artin. n − 1. 5. 11. e somente se. por exemplo. . 4. . segundo a qual. 10. ak−1 ak−2 . 13. Os menores primos n com essa propriedade (i. . . 3. n ou seja. . tais que 10 é raiz primitiva módulo n) são 7. 19. 9. . sempre existem inteiros positivos B com essa propriedade (a qual só depende da classe de congruência de B módulo n−1 n). Para n = 17. Dado n primo. 61 e 97. o perı́odo de n1 na base B (que é o número B n −1 ). n > 1. Conjectura-se que essa constante Q C(a) seja sempre um múltiplo 1 racional da constante de Artin C = p primo (1 − p(p−1) ). 2. . Tomamos . a0 ak−1 ak−2 . 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS ∞ 1 M X M M inteiro positivo tal que = k = . 1} nem seja quadrado perfeito. 16 e 17 e relacione os resultados com a discussão acima). Mais geralmente. a1 . a0 . 9} tais que M = j=0 1 = 0. n é primo (pois devemos ter ϕ(n) ≥ n − 1) e 10 é raiz primitiva módulo n. .

75. Se os três últimos dı́gitos de 1978m são os mesmos que os três últimos dı́gitos de 1978n . q primo q − 2 q primo q 2 − q − 1 q|h. 1. Por outro lado. .q|a1 q-h. q primo q − 1 q primo q(q − 1) q|h q-h Temos então: • Se a1 6≡ 1 (mod 4) então C(a) = C̃(h). 1.77 (IMO1978).73. assumindo a chamada Hipótese de Riemann Estendida.76. Determine um gerador de (Z/242Z)× . 1. Heath-Brown provou incondicionalmente em [71] que há no máximo três inteiros po- sitivos livres de quadrados que são raiz primitiva módulo apenas um número finito de primos. Determine todos os valores de n para os quais |(Z/nZ)× | = 24.78. uma generali- zação da famosa Hipótese de Riemann. • Se a1 ≡ 1 (mod 4) então  Y 1 Y 1  C(a) = C̃(h) 1−(−1)|{p primo. Definimos Y  1  Y  1  C̃(h) = 1− 1− .p|a1 }| . 1.9: ORDEM E RAÍZES PRIMITIVAS 77 h ≥ 1 máximo tal que a = ch para algum c inteiro.72.[SEC. n 1. Problemas Propostos 1. 1. 1. Demonstre que existe um inteiro k tal que d = k · 2n+1 + 1. Encontrar as ordens de 2 e 5 módulo 101. Determine um elemento de (Z/99Z)× de ordem 30. Sejam m e n inteiros positivos com m < n. Encontrar também todos os elementos de ordem 20 em (Z/101Z)× .74. Demonstrar que 2n | ϕ(an + 1) para todo inteiro positivo a. Sejam d e n números naturais tais que d | 22 + 1. encontrar m e n tais que m + n assume o menor valor possı́vel.q|a1 Esta conjectura foi provada condicionalmente por Hooley em [72].

Encontrar um n no conjunto {100. Mostrar que x3 − x + 1 é irredutı́vel em Z/3Z[x]. i. Seja G um grupo com número finito de elementos. ou seja. nk ≥ 1 números naturais que tem a propriedade n2 | (2n1 − 1). (b) Mostre que |g1 ·H| = |g2 ·H| para quaisquer g1 . Encontrar todas as raı́zes primitivas do corpo finito (xZ/3Z[x] 3 −x+1) . .82 (APMO1997). Observe que isto fornece uma nova prova do teorema de Euler-Fermat no caso em que G = (Z/(n))× . 101. g2 ∈ G e que portanto |H| divide |G| (teorema de Lagrange). pelo teorema 1.e. Mostre que existe t > 0 tal que g t = e. Ob- serve que. 1. (d) Aplicando o teorema de Lagrange ao subgrupo do item anterior. Seja k ≥ 2 e n1 . . b ∈ H =⇒ a · b ∈ H e a ∈ H =⇒ a−1 ∈ H. . mostre que H = {g n | n ∈ N} é um subgrupo de G com ord g elementos. 1: DIVISIBILIDADE E CONGRUÊNCIAS 1. 1. Se ord g é o menor t positivo com esta propriedade. n2 . . (a) Mostre que os subconjuntos de G do tipo def g · H = {g · h | h ∈ H} formam uma partição de G. . (c) Seja g ∈ G. .. n3 | (2n2 − 1).71.78 [CAP. um subconjunto de G tal que a. nk | (2nk−1 − 1) e n1 | (2nk − 1) Demonstrar que n1 = n2 = · · · = nk = 1. de modo que o produto de G se restringe a H e faz de H um grupo também. 1. Seja H um subgrupo de G. . .83. .81 (Teorema de Lagrange).80.79. . então g1 · H = g2 · H. Mostrar que . Definimos a função de Carmichael λ : N → N como o menor in- teiro positivo tal que aλ(n) ≡ 1 (mod n) para todo a primo com n. todo elemento de G pertence a algum g · H e que se g1 · H ∩ g2 · H 6= ∅. 1997} tal que n divide 2n + 2. 1. . prove que g |G| = e para todo g ∈ G. λ(pl ) = pl−1 (p − 1) para todo p primo ı́mpar.

λ(4) = 2 e λ(2l ) = 2l−2 para todo l ≥ 3. Existe um inteiro N divisı́vel por exatamente 2000 primos diferentes e tal que N divide 2N + 1? 1. n ≤ 2p e (p − 1)n + 1 é divisı́vel por np−1 . . .88 (Banco-IMO2000). 1.84. m. n) de inteiros positivos tais que am + 1 | (a + 1)n .86 (IMO1990). 1. Encontrar todos os pares (n.9: ORDEM E RAÍZES PRIMITIVAS 79 (a) λ(2) = 1. p) de inteiros positivos tais que p é primo. 1. 1.85 (IMO2000). . (b) Se n = pα1 1 · . λ(pαk k )}. . Prove que existem infinitos inteiros positivos n tais que n | 4n + 1. então λ(n) = mmc{λ(pα1 1 ).[SEC. Encontrar todos os números naturais n tais que n2 | 2n + 1. 1.87 (IMO1999). . . Determine todas as triplas (a. Qual é o menor natural n para o qual existe k natural de modo que os 2012 últimos dı́gitos na representação decimal de nk são iguais a 1? . 1. · pαk k é a fatoração em primos de n.89 (OBM2012).

a equação ax ≡ b (mod m).1 Equações Lineares Módulo m Se mdc(a. b = db0 e m = dm0 . m0 ) = 1. m) = d > 1 temos que ax ≡ b (mod m) =⇒ ax ≡ b (mod d) ⇐⇒ b ≡ 0 (mod d). dada por x ≡ aϕ(m)−1 b (mod m) (uti- lizando o teorema de Euler-Fermat para encontrar o inverso de a ∈ Z/(m)). tem solução única módulo m. como a é invertı́vel módulo m. temos que ax ≡ b (mod m) ⇐⇒ a0 x ≡ b0 (mod m0 ). já que escrevendo a = da0 . a saber x ≡ (a0 )ϕ(m )−1 b0 + . há d soluções distintas módulo m. Assim.Capı́tulo 2 Equações Módulo m Neste capı́tulo estudaremos equações do tipo f (x) ≡ 0 (mod m) na variável x. Logo uma condição necessária para que a congruência linear ax ≡ b (mod m) tenha solução é que d | b. 0 isto é. m) = 1. Esta condição é também suficiente. se mdc(a. 0 Como mdc(a0 . onde f (x) é um polinômio com coeficientes inteiros. No caso geral. 2. há uma única solução (a0 )ϕ(m )−1 b0 módulo m0 . todas as soluções da equação acima são da forma x = aϕ(m)−1 b + km onde k ∈ Z.

então x0 ≡ x1 (mod ai ) ⇐⇒ ai | . b2 . . Note que se j 6= i então Mj é múltiplo de ai e portanto Mj Xj ≡ 0 (mod ai ). logo existe Xi tal que Mi Xi ≡ 1 (mod ai ). consideremos os números Mi = aAi . . A congruência linear ax ≡ b (mod m) admite solução se. m) | b. . . . . . . Assim. 2..1. pois x0 ≡ Mi Xi bi ≡ bi (mod ai ). Como mdc(ai . ak . Demonstração: Daremos duas provas do teorema chinês dos restos. Além disso. temos que x0 = M1 X1 b1 + M2 X2 b2 + · · · + Mk Xk bk é solução do sistema de equações. Mi ) = 1. há exata- mente mdc(a.14. se x1 é outra solução. e somente se.1: EQUAÇÕES LINEARES MÓDULO M 81 km0 (mod m) com 0 ≤ k < d. a2 . Teorema 2. o sistema de equações x ≡ b1 (mod a1 ) x ≡ b2 (mod a2 ) . Se b1 . Neste caso. poderı́amos também ter utilizado o teorema de Bachet-Bézout e o algoritmo de Euclides para encontrar as soluções desta congruência linear como no exemplo 1. x ≡ bk (mod ak ) admite solução. O seguinte teorema nos garante a exis- tência de tais soluções. Agora queremos encontrar condições para que um sistema de con- gruências lineares tenha solução.2 (Teorema Chinês dos Restos). . mdc(a. Note ainda que como resolver ax ≡ b (mod m) é equivalente a resolver a equação diofantina linear ax + my = b. que é única módulo A = a1 a2 . Resumimos esta discussão na seguinte Proposição 2. ak são primos relativos dois a dois. .[SEC. . Para a primeira. m) soluções distintas módulo m. bk são intei- ros quaisquer e a1 .

aj ) = 1) . . para cada i e j com 0 ≤ i < 3 e 0 ≤ j < 5. . . para k = 2. . o valor de f (b mod A) independe da escolha do representante da classe de b mod A. . . 0 mod ak ) no produto Z/(a1 ) × · · · × Z/(ak ). .. isso nos dá uma nova prova de que ϕ(a1 a2 . Como o domı́nio e o contradomı́- nio de f têm mesmo tamanho (ambos têm A elementos). e como os ai ’s são dois a dois primos. temos a seguinte tabela. mostrando a unicidade módulo A. para mostrar que f é uma bijeção basta mostrarmos que f é injetora.82 [CAP. a1 a2 . enquanto que o fato de f ser injetor corresponde à unicidade módulo A. que tem ima- gem (0 mod a1 . . Para a segunda prova. pois quais- quer dois representantes diferem de um múltiplo de A. Note que este mapa está bem definido. Em particular. Como mdc(b. . Por exemplo. e como na primeira demonstração temos que isto implica b1 ≡ b2 (mod A). considere o mapa natural f : Z/(A) → Z/(a1 ) × Z/(a2 ) × · · · × Z/(ak ) b mod A 7→ (b mod a1 . então b1 ≡ b2 (mod ai ) para todo i.. temos que A | x0 − x1 ⇐⇒ x0 ≡ x1 (mod A). b mod a2 . ak ) = ϕ(a1 )ϕ(a2 ) · · · ϕ(ak ) sempre que mdc(ai . a única solução x com 0 ≤ x < 3 · 5 = 15 tal que x ≡ i (mod 3) e x ≡ j (mod 5): . que mostra. aj ) = 1 para quaisquer i e j.ak ) = 1 ⇐⇒ (∀j ≤ k. Suponha que f (b1 mod A) = f (b2 mod A). Ob- servemos agora que o teorema chinês dos restos é equivalente a mos- trar que f é uma bijeção: o fato de f ser sobrejetor corresponde à existência da solução do sistema. 2: EQUAÇÕES MÓDULO M x0 − x1 para todo ai . mdc(b. b mod ak ). a1 = 3 e a2 = 5. a bijeção f definida na segunda prova do teorema anterior satisfaz f ((Z/(A))× ) = (Z/(a1 ))× × (Z/(a2 ))× × · · · × (Z/(ak ))× . o que encerra a prova. isto é. . Observação 2.3.

P (i + 2). existe um inteiro i tal que P (i). P (i + 1). então cada um dos números x0 + 1. . Sejam p1 . . O teorema chinês dos restos nos garante que o sistema x ≡ −1 (mod p21 ) x ≡ −2 (mod p22 ) . Se x0 é uma solução positiva do sistema. Demonstrar que existem intervalos arbitrariamente grandes de inteiros consecutivos. . . Solução: Seja n um número natural qualquer.1: EQUAÇÕES LINEARES MÓDULO M 83 0 mod 5 1 mod 5 2 mod 5 3 mod 5 4 mod 5 0 mod 3 0 6 12 3 9 1 mod 3 10 1 7 13 4 2 mod 3 5 11 2 8 14 Vejamos algumas aplicações. P (i + n) são números compostos. Exemplo 2. . . . Demonstrar que para todo inteiro n. Seja P (x) um polinômio não constante com coeficientes in- teiros. Exemplo 2.[SEC. tem-se que P (i) | P (k P (i) + i). Solução: Demonstraremos primeiro o seguinte Lema 2. pn pri- mos distintos. Demonstração: Dado que (kP (i) + i)n ≡ in (mod P (i)) para todo n inteiro não negativo. é fácil ver que P (kP (i)+i) ≡ P (i) ≡ 0 (mod P (i)). nenhum dos quais é livre de quadrados. 2. . i.6.5. . x ≡ −n (mod p2n ) tem solução. x0 + 2. Um inteiro é livre de quadrados se ele não é divisı́vel pelo quadrado de nenhum número inteiro maior do que 1. x0 + n é divisı́vel pelo quadrado de um inteiro maior do que 1. .4. . . . Seja P (x) um polinômio não constante com coeficientes inteiros. Para todo par de inteiros k. .. logo nenhum deles é livre de quadrados.

. .. B 6= ∅. P (i1 ). x1 + x2 + · · · + xn são potências não triviais. P (x + 1). Uma potência não trivial é um número da forma mk . x1 + x3 . . B 6= ∅. x ≡ in − n (mod P (in )) onde. então x = x0 + k(P (i0 ) · · · P (in )) também é solução para todo k ≥ 0. 16} é solução. pelo lema anterior. . . xn−1 + xn . . Então a sequência (P (i))i≥1 assume infinitos valores primos. P (in ). . A = {4} é solução e. cxn . . de forma que B1 6= B2 implica pB1 6= pB2 . P (i+1). x2 . Suponha agora que A = {x1 . o mı́nimo múltiplo comum de todos os expoentes kB . . xn } então todas as somas x1 . . . . x é uma potência não trivial. . . . x2 .7. Exemplo 2. se A = {x1 . . x1 + x2 . Para cada B ⊂ A. . . . Consideremos os n + 1 primos distintos P (i0 ). Em outras x∈B palavras. . xn } é um conjunto com n elementos e para todo B ⊂ A. . Vamos mostrar x∈B que existe c ∈ N tal que o conjunto à = {cx1 . . . . xn . para n = 2. onde m. . Pelo teorema chinês dos restos segue que existem infinitas soluções x do sistema de equações x ≡ i0 (mod P (i0 )) x ≡ i1 − 1 (mod P (i1 )) x ≡ i2 − 2 (mod P (i2 )) . prove que existe um conjunto A ⊂P N com n elementos tal que para todo sub- conjunto B ⊂ A não vazio.84 [CAP. associamos um número primo pB > λ. podemos dizer que P (x). A = {9. c} satisfaz o enunciado. Seja λ = mmc{kB | B ⊂ A. múltiplos respectivamente de P (i0 ). k são inteiros maiores do que ou iguais a 2. 2: EQUAÇÕES MÓDULO M Suponhamos por contradição que. P (x + n) são números compostos quando k é sufici- entemente grande. P . . . . . x = mkBB . . . . . P (i+n)} contenha um número primo. P (in ). . o conjunto {P (i). para cada i. . . B 6= ∅}. . . . . . Assim. Dado n ∈ N. se x0 é uma solução. Solução: Vamos provar a existência de um tal conjunto por indução em n. Para n = 1. cx2 . P (i1 ).

Problemas Propostos 2. x∈B 0 x = cmkBB será uma potência kB - ésima para todo B 0 6= ∅. Dado B 0 ⊂ {cx1 . para subconjuntos de à da forma B 0 ∪ {c}. Resolver as equações lineares (a) 7x ≡ 12 (mod 127) (b) 12x ≡ 5 (mod 122) (c) 40x ≡ 64 (mod 256) 2. x∈B 0 ∪{c} X⊂A X6=∅. (λ é invertı́vel módulo pB ). X 6= B λ · rB ≡ −1 (mod pB ). cx2 . portanto. Tomemos Y c= (1 + mkXX )λrX X⊂A X6=∅ e vamos mostrar que à = {cx1 .1.B que é uma potência pB -ésima. c também é uma potência kB -ésima. .1: EQUAÇÕES LINEARES MÓDULO M 85 Pelo teorema chinês dos restos existe um natural rB com rB ≡ 0 (mod pX ) para todo subconjunto X ⊂ A. . . . cxn . Resolver o sistema de congruências lineares x≡ 0 (mod 7) x≡ 1 (mod 12) x ≡ −5 (mod 17) . cxn }. . . cx2 . temos X  Y  x = c · (1 + mkBB ) = (1 + mkXX )λrX (1 + mkBB )λrB +1 .[SEC. pois λrB + 1 e rX (X 6= B) são múltiplos de pB .2. Além disso. c} continua a satisfazer as condições do enunciado. . 2. temos que B 0 = {cx | x ∈ B} para algum B ⊂ A. . Como c é uma P potência λ-ésima.

86 [CAP. x ≡ bk (mod ak ) tem solução se. e só se. É possı́vel escrever 100 números ı́m- pares numa fila de tal forma que a soma de cada 5 adjacentes seja um quadrado perfeito e que a soma de cada 9 números adjacentes também seja um quadrado perfeito . 2.10.3. é possı́vel encontrar k números consecutivos. Por exemplo. Demonstrar que o sistema de equações x ≡ b1 (mod a1 ) x ≡ b2 (mod a2 ) .7. mdc(ai . então exis- tem infinitos valores de n para os quais a + n. 2. cada um dos quais é primo relativo com m. o problema se reduz ao teorema chinês dos restos). este último pode ser escrito como a diferença de dois inteiros positivos. Demonstrar que se a. Demonstrar que. . aj ) | (bi − bj ). Demonstrar que existem progressões aritméticas de comprimento arbitrário formadas por inteiros positivos tais que cada termo é a potên- cia de um inteiro positivo com expoente maior do que 1. 2. n ∈ N>0 e considere a sequência (xk ) definida por x1 = a. 2. xk+1 = axk para todo k ∈ N.8. 2. Um inteiro positivo n é chamado de auto-replicante se os últimos dı́gitos de n2 formam o número n. 2.5. Sejam a. aj ) = 1. 2: EQUAÇÕES MÓDULO M 2. Determine um valor de s tal que 1024s ≡ 1 (mod 2011) e calcule o resto da divisão de 22000 por 2011. Demonstrar que existe N ∈ N tal que xk+1 ≡ xk (mod n) para todo k ≥ N . b + n e c + n são primos relativos. (No caso particular em que mdc(ai . Demonstrar que para todo inteiro positivo m e todo número par 2k. 2. 2.11 (Olimpı́ada de Maio 2013). cada um dos quais tem ao menos n divisores primos diferentes.6. b e c são três inteiros diferentes.4. para k e n números naturais.9.. Determine todos os números auto-replicantes com exa- tamente 4 dı́gitos. 25 é auto-replicante pois 252 = 625. para todo i e j.

Por exemplo..[SEC. Embora saibamos a lista completa dos resı́duos quadráticos.3 .2 Congruências de Grau 2 Seja p > 2 um número primo e a. de modo que x2 é congruente a um dos números da lista acima.1 .e. Se a equação acima admite solução (i. 2. Note que módulo p estes números são todos distintos: de fato. . b.. c ∈ Z com a não divisı́vel por p. Há exatamente (p + 1)/2 resı́duos quadráticos módulo p.. que permite responder estas questões de maneira bastante eficiente. você sabe dizer se 2 é resı́duo quadrático módulo 1019? Veremos a seguir o teorema da reciprocidade quadrática. Resolver a equação quadrática ax2 + bx + c ≡ 0 (mod p) é o mesmo que resolver (completando quadrados) (2ax + b)2 ≡ b2 − 4ac (mod p) (note que 2 e a são invertı́veis módulo p). temos que a única possibilidade é i ≡ j (mod p). se d é um “quadrado perfeito” em Z/pZ) então dizemos que d é um resı́duo ou resto quadrático módulo p.2 .2: CONGRUÊNCIAS DE GRAU 2 87 2. estamos interessados em encontrar critérios de existência de soluções da equação X 2 ≡ d (mod p). Assim. temos que i2 ≡ j 2 (mod p) =⇒ p | (i − j)(i + j) ⇐⇒ p | i − j ou p | i + j ⇐⇒ i ≡ ±j (mod p) Mas como 0 ≤ i. j ≤ (p − 1)/2 =⇒ 0 < i + j ≤ p − 1 ou i = j = 0.. mod p 2 já que todo inteiro x é congruente a ±i mod p para algum i tal que 0 ≤ i ≤ (p − 1)/2. a saber  2 2 2 2 2 p−1 0 . na prá- tica pode ser difı́cil reconhecer se um número é ou não resı́duo quadrá- tico.

. Pelo teorema de Fermat temos que ap−1 ≡ 1 (mod p).a e a é um resı́duo quadrático módulo p = 0 se p | a p  −1 caso contrário  Proposição 2.88 [CAP. Se a é um resı́duo quadrático.a. os resı́duos quadráticos 12 . portanto.1 Resı́duos Quadráticos e Sı́mbolo de Legendre Seja p > 2 um número primo e a um inteiro qualquer. p−1 Assim. devemos mostrar que a 2 ≡ 1 (mod p) se. a é um resı́duo quadrático módulo p. 2: EQUAÇÕES MÓDULO M 2. e só se. de modo que podemos supor p . . ( p−1 2 2 ) módulo p são raı́zes do p−1 polinômio f (x) = x 2 − 1 em Z/(p)[x]. 22 . Mas Z/(p) é corpo. Assim. e só se.8 (Critério de Euler). Então   a ≡ a(p−1)/2 (mod p). Para simpli- ficar cálculos e notações definiremos o chamado sı́mbolo de Legendre:     a  1 se p .2. . . donde p−1 p−1 p−1 p−1 (a 2 − 1)(a 2 + 1) ≡ 0 (mod p) ⇐⇒ p | a 2 − 1 ou p | a 2 +1 p−1 ⇐⇒ a 2 ≡ ±1 (mod p). a 2 ≡ 1 (mod p) se. Seja p > 2 um primo e a um inteiro qualquer. p Demonstração: Para a ≡ 0 (mod p) o resultado é claro. a é um resı́duo quadrático módulo p. Isto mostra que as raı́zes de f (x) são exatamente os resı́duos quadráticos não congruentes p−1 a zero módulo p e que. digamos a ≡ i2 (mod p). . novamente pelo teorema de Fermat temos que p−1 a 2 ≡ ip−1 ≡ 1 (mod p). logo f (x) pode ter no máximo deg f = (p − 1)/2 raı́zes em Z/(p).

p = 1 se p . se a ≡ b (mod p) então ap = pb . ou seja. Logo se f (x) for redutı́vel ele é o produto de dois polinômios de grau 2. que podemos supor mônicos. 2. 4. e só se. Exemplo 2. p ≡ 1 (mod 4). pois novamente ambos os lados da    p congruência são iguais a ±1. nenhuma das quais é raiz de f (x) q são primos entre√si. Solução: Vejamos que f (x) é irredutı́vel em Z[x]. aplicando o critério de Euler temos que      ab p−1 p−1 p−1 a b ≡ (ab) 2 ≡ a 2 b 2 ≡ (mod p).[SEC. Mostre que o polinômio f (x) = x4 − 10x2 + 1 é irredu- tı́vel em Z[x].9. O sı́mbolo de Legendre possui as seguintes propriedades: 1. p−1 −1  3. q) = 1 e f (p/q) = 0 ⇐⇒ p4 − 10p2 q 2 + q 4 = 0. q ∈ Z são tais que mdc(p. Como o produto dos coeficientes inde- pendentes destes dois fatores deve ser igual ao coeficiente independente de f (x). logo (cujos zeros são ± 2 ± 3). que é 1. temos da última igualdade que q | p4 =⇒ q = ±1 e p | q 4 =⇒ p = ±1 já que p e √ p/q = ±1. Demonstração: Os itens 1 e 2 são imediatos a partir da definição p−1 e 3 segue do critério de Euler: −1 ≡ (−1) 2 (mod p) =⇒ −1   p p = p−1 (−1) 2 já que p > 2 e ambos os lados da congruência são iguais a ±1.a. −1 é resı́duo quadrático módulo p se.10. temos apenas duas possibilidades: f (x) = (x2 + ax + 1)(x2 + bx + 1) ou 2 2 f (x) = (x + ax − 1)(x + bx − 1) .   a2  2. Da mesma forma. mas é redutı́vel módulo p para todo primo p. ab a b    p = p p . p = (−1) 2 .2: CONGRUÊNCIAS DE GRAU 2 89 Corolário 2. Observe inicial- mente que as raı́zes de f (x) são todas irracionais: se p. p p p o que mostra que ab = ap pb .

11 (Reciprocidade Quadrática).2 Lei de Reciprocidade Quadrática O critério de Euler já nos fornece uma maneira de identificar resı́duos quadráticos. Então    p q p−1 q−1 = (−1) 2 · 2 . o que é impossı́vel. Seja p um primo ı́mpar. se c2 ≡ 6 (mod p) temos f (x) ≡ (x2 + 2c − 5)(x2 − 2c − 5) (mod p). no último caso. Agora. para p = 2 e p = 3 temos f (x) ≡ (x + 1)4 (mod 2) e f (x) ≡ (x2 + 1)2 (mod 3). que é a famosa Teorema 2. O segundo caso é análogo. 2. q p 2. Logo. comparando o coeficiente de x2 temos ab + 2 = −10 ⇐⇒ a2 = 12. vamos provar um resultado muito mais forte. 1. Agora se p > 3 é um primo. Entretanto. ou p3 = 1 ou p6 = 1    já que p2 p3 = p6 . Sejam p e q primos ı́mpares distintos. se a2 ≡ 2 (mod p) temos    f (x) ≡ (x2 + 2ax − 1)(x2 − 2ax − 1) (mod p). 2: EQUAÇÕES MÓDULO M com a.90 [CAP. Então   ( 2 p2 −1 1 se p ≡ ±1 (mod 8) = (−1) 8 = p −1 se p ≡ ±3 (mod 8). no primeiro caso. temos que ou p2 = 1. se b2 ≡ 3 (mod p) temos f (x) ≡ (x2 + 2bx + 1)(x2 − 2bx + 1) (mod p). Finalmente. Isto mostra que f (x) é redutı́vel módulo p para todo primo p. No primeiro caso. b ∈ Z. Em ambos os casos. temos a + b = 0 (coeficiente de x3 ). Já no segundo caso.2. .

12.[SEC. como querı́amos demonstrar. p−1 p2 −1 mas 22n−1 = 2 2 ≡ (−1) 8 = (−1)n(2n−1) (mod p). Mostre que 1. . pelo critério de Euler e pela reciprocidade quadrática temos p−1 p2 −1 22n = 2 2 ≡ (−1) 8 ≡ (−1)n(2n+1) ≡ (−1)n (mod p). 2. No segundo item. se p é da forma 4n + 1 então p | nn − 1.2: CONGRUÊNCIAS DE GRAU 2 91 Antes de apresentar a prova. Solução:      2   −90 −1 2 3 5 = 1019 1019 1019 1019 1019   1019 = (−1) · (−1) · 1 · 5    2 4 2 = = = 1. 2. Por outro lado. donde 22n ≡ 2 · (−1)n (mod p). Concluı́mos que 2nn ≡ (−1)n (mod p) e multiplicando por 2n e utilizando 4n ≡ 1 (mod p) obtemos nn ≡ 2n · (−1)n (mod p). donde elevando a n obtemos (4n)n = 22n nn ≡ (−1)n (mod p). Portanto nn ≡ 1 (mod p). Seja p um número primo. vejamos algumas aplicações. −90 é resı́duo quadrático módulo 1019. se p é da forma 4n − 1 então p | nn + (−1)n+1 · 2n. Solução: No primeiro item. Exemplo 2. temos 4n ≡ 1 (mod p) e assim (4n)n = 22n nn ≡ 1 (mod p).13. como desejado. Exemplo 2. Determinar se −90 é resı́duo quadrático módulo 1019 ou não. 4n ≡ −1 (mod p). 5 5 Ou seja.

Se p ≡ 1  (mod 4). j ≤ (p − 1)/2. De fato. . para cada j = 1. . . . . ± p−12 } é um sistema completo de invertı́- veis módulo p. p−1 2 podemos escrever a · j ≡ j mj (mod p) com j ∈ {−1. . Seja s o número de elementos do conjunto a. . . digamos p = 4k + 1.  p−1 . .  p−1 (mod p). temos que a primeira possibi- lidade implica i = j e a segunda é impossı́vel. Sejam p > 2 um número primo e a um inteiro positivo primo relativo com p. . m2 . m p−1 } = {1. p−1  2 ·a p−1 tais que seu resto módulo p é maior do que 2 . temos p−1 2 = 2k. p−1 2 } tais que j = −1. 2 Assim. p Demonstração: A ideia é imitar a prova do teorema de Euler-Fermat. . Assim. 2: EQUAÇÕES MÓDULO M O primeiro passo da demonstração da lei de reciprocidade quadrática é o seguinte Lema 2. pois ambos os lados pertencem a {−1. . . se p ≡ 5 (mod 8). . . . . Como 1 ≤ 2j ≤ p−1 2 p−1 para j ≤ k e 2 < 2j ≤ p − 1 para k + 1 ≤ j ≤ 2k. p 2 donde ( ap ) = 1 2 . O lema de Gauß já nos permite provar a fórmula para p2 . . . . . . 1}. Como o conjunto {±1.14 (Gauß). 1} e mj ∈ {1. . como a é invertı́vel módulo p e 0 < i. 2. . 2.92 [CAP. . se p ≡ 1 (mod 8). p−1 2 }. . 3a. ( ap ) = (−1)s já s é o número de elementos j de {1. Então   a = (−1)s . obtemos (a · 1)(a · 2) · · · (a · p−1 2 ) ≡ 1 2 · · ·  p−1 m1 m2 · · · m p−1 (mod p) 2 2 p−1  p−1  p − 1 a 2 ! ≡ 1 2 · · ·  p−1 ! (mod p) 2  2 2 a ⇐⇒ ≡ 1 2 . se 2 mi = mj temos a · i ≡ a · j (mod p) ou a · i ≡ −a · j (mod p). Temos que se i 6= j então mi 6= mj donde {m1 . 2a. . . ±2. temos   ( 2 k 1. . p−1 2 }. = (−1) = p −1. 2. 2. . multiplicando as congruências a · j ≡ j mj (mod p). . . .

q/2). digamos p = 4k + 3. para provar o item 1 da lei de reciprocidade quadrática. 2. (0. se p ≡ 7 (mod 8). temos p−1 2 = 2k + 1. Agora. q/2) e (p/2. não há pontos com ambas as . = (−1) = p 1. (∗∗) q p A fórmula (∗) é apenas uma contagem: o lado esquerdo é o número de pontos com ambas as coordenadas inteiras no interior do retângulo de vértices (0. Para p−1 1 ≤ j ≤ k temos 1 ≤ 2j ≤ 2 e para k + 1 ≤ j ≤ 2k + 1 temos p−1 2 < 2j ≤ p − 1.2: CONGRUÊNCIAS DE GRAU 2 93 Se p ≡ 3 (mod 4). donde   ( 2 k+1 −1. 0) Por outro lado. q/2) s o nto p k j pi q X 1 q− s i≤ 2 onto 1≤ p k j qi p X 1 p− 2 i≤ 1≤ y (p/2. enquanto o segundo somatório conta o número de tais pontos abaixo desta dia- gonal (note que como p e q são primos. o primeiro somatório do lado direito conta o número de tais pontos que estão acima da diagonal x = pq y do retângulo. (p/2. x y = pq x (0. 0). 0). va- mos mostrar que p−1 q−1 X  ip  X  iq  · = + (∗) 2 2 q−1 q p−1 p 1≤i≤ 2 1≤i≤ 2 e que j k j k ip iq     p q P P q−1 q p−1 p = (−1) 1≤i≤ 2 e = (−1) 1≤i≤ 2 . se p ≡ 3 (mod 8).[SEC.

. que está definido  a  para a inteiro a α1 a α2  arbitrário a αk e n inteiro positivo ı́mpar por n = p1 p2 . Para uma terceira prova. . Não é  difı́cil provar as seguintes propriedades do sı́mbolo de Jacobi. veja a seção 6. obtemos X X  iq  X X q i=p + mi + (p − mi ). de modo que iq = p p + ri . . m p−1 } = {1. no primeiro somatório cada termo ip  q representa a quantidade de pontos na reta y = i acima p da diagonal x = q y. pk se n = α1 α2 αk a  p1 p2 . p−1 2 }. Finalmente. onde s é como no lema de Gauß aplicado  iq para  a = q. 2: EQUAÇÕES MÓDULO M coordenadasinteiras na diagonal). Se a ≡ b (mod n) então n = n . O sı́mbolo de Legendre ap pode ser estendido para  o sı́mbolo de Jacobi na . . Observação 2. 2. Na próxima subseção daremos uma demonstração alternativa da lei de reciprocidade quadrática. . basta checar que 1≤i≤ p−1 iqp ≡ s P   2 (mod 2). . . .94 [CAP. . Por exemplo. temos a1 = 1 para todo inteiro a. módulo 2 temos X X  iq  X X i≡ + mi + (1 + mi ) (mod 2). para mostrar (∗∗). . p−1 p−1 p 1≤i≤ 1≤i≤ ri <p/2 ri >p/2 2 2 Como p e q são ı́mpares. concluı́mos assim que 2   X X iq X X i≡ + i+ 1 (mod 2) p 1≤i≤ p−1 2 1≤i≤ p−1 2 1≤i≤ p−1 2 ri >p/2   X iq ⇐⇒ ≡s (mod 2) p 1≤i≤ p−1 2 o que encerra a prova.2. Somando e utilizando a notação da demonstração do lema de Gauß. . pk é a fatoração prima de n (onde os pj são dados pelo sı́mbolo de Legendre usual). Seja ri o resto da divisão de iq por p. p−1 p−1 p 1≤i≤ 1≤i≤ ri <p/2 ri >p/2 2 2 e como {m1 . .15. . m2 . que podem ser usadas para calcular rapidamente sı́mbolos de Legendre (e de Jacobi): a b   1.

  2. Como para o sı́mbolo de Legendre.[SEC. c(x) = cos(2πx). 1} se mdc(a.16. 2. podem ser provados  usando a multiplicatividade em a e em n do sı́m- bolo de Jacobi na e a lei de reciprocidade quadrática para o sı́mbolo de Legendre. Por exemplo. m−1 n−1 m · 2 n   5. que generalizam a lei de reciprocidade quadrática. n = (−1) 2 . então n = (−1) 2 m . p p p 1≤k≤(p−1)/2 1≤k≤(p−1)/2 Demonstração: Observe que para cada k entre 1 e (p − 1)/2 existe um único k 0 no mesmo intervalo com ak ≡ ±k 0 (mod p): assim os dois . 2. mas 2 e 3 não são resı́duos quadráticos    e 15 módulo 15. Os três últimos fatos. mas (diferentemente do que acontece para o sı́mbolo a  de Legendre) é possı́vel que n seja igual a 0 ou a1 sem  que a seja resı́- 2 2 2 duo quadrático módulo n. Lema 2. a a a a     4. em particular. Vejamos uma reformulação do Lema de Gauß. n−1 −1  6. n a2 3. Então       Y ak a Y k s = s . 1}. n2 ∈ {0. a não é resı́duo qua-  drático módulo n. Seja p > 2 primo e a inteiro. se na = −1. n2 −1 2  7. 1}. mn = m n .3 Uma demonstração trigonométrica Nesta subseção usaremos as abreviações s(x) = sen(2πx).2. em particular. n) = 1. n = (−1) 8 . Assim as funções s e c têm perı́odo 1. a primo com p. Por exemplo. n) 6= 1 e na ∈ {−1. 15 = 3 5 = (−1) · (−1) = 1 3 = 33 35 = 0 · (−1) = 0. n ∈ {0. Se m e n são positivos e ı́mpares. ab a b     n = n n .2: CONGRUÊNCIAS DE GRAU 2 95 a = 0 se mdc(a. s(x) = 0 se e somente se x é inteiro ou da forma inteiro mais meio.

Pelo Lema de Gauß.17. isto completa a demonstração. o número de termos negativos no primeiro produto é igual a s. q 0≤l<q Assim. 0≤l<q . Demonstraremos agora uma fórmula para um produto de senos. por exemplo. devemos portanto demonstrar que Y   z q − z −q = ζ l z − ζ −l z −1 .     1 2 s(3x) = −4s(x)s x + s x+ . Seja q > 0 um inteiro ı́mpar. Assim. c(x) = . Por outro lado. 3 3 Há muitas maneiras de demonstrar estas identidades: a demonstração abaixo usa números complexos e as fórmulas de Euler: e(x) = c(x) + is(x) = exp(2πix). Então   q−1 Y l s(qx) = (−4) 2 s x+ . temos   ak s <0 p se e somente se o resto de ak módulo p for maior do que p/2. O segundo produto é claramente positivo. Lema 2. s x+ = . temos z q − z −q ζ l z − ζ −l z −1   l s(qx) = . 0≤j<q Seja z = e(x). para s como no Lema de Gauß. 2i 2 Demonstração: Seja ζ = e(1/q) é uma raiz do polinômio wq − 1 e temos Y wq − 1 = w − ζj.96 [CAP. 2: EQUAÇÕES MÓDULO M grandes produtos acima têm o mesmo módulo. 2i q 2i Substituindo na identidade do enunciado. e(x) − e(−x) e(x) + e(−x) s(x) = .

(q − 1)/2 é inteiro e portanto ζ q(q−1)/2 = 1. quando l varia de 0 a q − 1 temos que −2l corre um sistema completo de resı́duos equivalente portanto a j correr de 0 a q − 1. p s(k/p) 1≤k≤(p−1)/2 . Então        q (p−1)(q−1) Y k l k l = (−4) 4 s + s − . Seja q > 0 um inteiro ı́mpar. esta é a primeira identidade da demonstração. Seja p > 2 primo e q inteiro ı́mpar. Devemos portanto provar que Y z 2q − 1 = z2 − ζ j .19.2: CONGRUÊNCIAS DE GRAU 2 97 Multiplicando o lado esquerdo por z q e cada fator do lado direito por z. temos Y   Y   ζ l z 2 − ζ −l = ζ q(q−1)/2 z 2 − ζ −2l .1≤l≤(q−1)/2 Demonstração: Pelo Lema 2.[SEC.  0≤j<q Fazendo z 2 = w.18. q primo com p. s(x) q q 1≤l≤(q−1)/2 Demonstração: Segue imediatamente do lema anterior. Lema 2. Então      s(qx) q−1 Y l l = (−4) 2 s x+ s x− . 2. 0≤l<q Ora.16 temos   q Y s(qk/p) = . Lema 2. colocando ζ l em evidência. passando s(x) para o denominador e juntando os termos correspondentes a l e q − l. devemos mostrar que Y   z 2q − 1 = ζ l z 2 − ζ −l . 0≤l<q 0≤l<q Como q é ı́mpar. p p q p q 1≤k≤(p−1)/2.

Problemas Propostos 44 −60 2010    2. p a=0 2.19 temos     q k l k l s p + q s p − q (p−1)(q−1) p Y p =  = (−1) . Demonstração: Se p e q são primos distintos e maiores do que 2 então usando duas vezes o Lema 2. Existem inteiros m e n tais que 5m2 − 6mn + 7n2 = 1985 ? 2. 2.    4 k l k l q 1≤k≤(p−1)/2. Prove que se 102n + 8 · 10n + 1 tem fator primo da forma 60k + 7 então n e k são pares.13.12. Sejam p um primo ı́mpar e c um inteiro que não é múltiplo de p. Prove que p−1   X a(a + c) = −1.18 a cada termo temos          q Y q−1 Y k l k l = (−4) 2 s + s − .1≤l≤(q−1)/2 s p + q s − p + q como querı́amos. .98 [CAP. 2. Estamos agora prontos para concluir a segunda demonstração da Lei de Reciprocidade Quadrática. p p q p q 1≤k≤(p−1)/2 1≤l≤(q−1)/2 Passando as potências de −4 para fora do produtório e juntando os dois produtórios temos a fórmula do enunciado. 2: EQUAÇÕES MÓDULO M Aplicando o Lema 2.15. Determine todas as soluções de x10 ≡ 1 (mod 49).14. Demonstrar que a congruência 6x2 + 5x + 1 ≡ 0 (mod m) tem solução para todo valor natural de m. Calcular 103 . 1019 e 1019 .17 (OBM2010). 2.16.

(b) Suponha que p > 5 e que −1 seja resı́duo quadrático módulo p: mostre que p > 2s2 − s. Encontre o menor valor que pode tomar o menor destes quadrados. Que podemos dizer sobre os fatores primos de a2 + pb2 onde p é um primo? 2. n 2.19. b) = 1 o número a2 + b2 não pode ter fatores primos da forma 4k − 1 e se além disso mdc(a. . Seja p um primo ı́mpar. 2. 2. n ≥ 0.26 (Putnam 1991). Demonstrar que. se n ≥ 2. Prove que todo fator primo de Fn é da forma k·2n+1 + 1. Quantos elementos tem o conjunto {x2 | x ∈ Z/pZ} ∩ {y 2 + 1 | y ∈ Z/pZ}? 2. Mostre √ que a sequência M.18 (Ibero2003). para p = 1093. em particular.2: CONGRUÊNCIAS DE GRAU 2 99 2. 3) = 1 então o número a2 + 3b2 não pode ter fatores da forma 6k − 1. Definem-se as sucessões (an )n≥0 . M + 2b pc contém um elemento que não é resı́duo quadrático módulo p (e portanto.23 (IMO1996). 2. Seja s o menor inteiro positivo que não é resı́duo quadrático módulo p. M + 1.21. bn+1 = b2001 n + an . Seja p um número primo ı́mpar. (a) Mostre que p > s2 − s. 2. . Prove que existe um número infinito de inteiros√posi- tivos n tais que n2 + 1 tem um divisor primo maior do que 2n + 2n.22. . Sejam M um número inteiro e p um número primo ı́mpar.24. 2. b0 = 4.[SEC. p−1 2 2 ≡ −1 (mod p2 ). Demonstre que 2003 não divide nenhum dos termos destas sucessões. (bn )n≥0 por a0 = 1. .27 (IMO2008).25. Os inteiros positivos a e b são tais que 15a + 16b e 16a − 15b são ambos quadrados perfeitos positivos. a) (Euler) Seja Fn = 22 + 1 o n-ésimo número de Fermat. Demonstrar que existem infinitos primos da forma 3k +1 e 3k −1. 5 c) Mostre que 22 + 1 é composto. Demonstrar que se mdc(a. b) (Lucas) Prove que. 2. . não é múltiplo de p). 2.20. então todo fator primo de Fn é da forma k·2n+2 + 1. an+1 = a2001 n + bn .

o que demonstra a equivalência. O primeiro resultado diz que basta considerar o caso em que n = pk é a potência de um primo p. k temos que n divide um inteiro M se. Suponhamos que n = pk11 · · · pkl l onde os pj são pri- mos distintos. de modo que f (a) ≡ f (aj ) ≡ 0 (mod pj j ) para todo j e logo f (a) ≡ 0 (mod n) pela equivalência acima. vamos estudar condições para que a congruência f (x) ≡ 0 (mod n) tenha solução.100 [CAP. 2: EQUAÇÕES MÓDULO M 2. a partir de uma solução de f (x) ≡ 0 (mod pk0 ).  f (x) ≡ 0 (mod pkl )  l de modo que f (x) ≡ 0 (mod n) admite solução se. k Demonstração: Como as potências pj j são coprimas duas a duas. f (x) ≡ k 0 (mod pj j ) tem solução para cada j. Temos uma equivalência  k1 f (x) ≡ 0 (mod p1 )  . A próxima proposição indica como. Para isso. obter soluções para f (x) ≡ 0 (mod pk ) para todo k ≥ k0 . pj j | M para cada j. a existência de solução para f (x) ≡ 0 (mod n) implica a existência de solução para o sistema acima. pelo teorema chinês dos restos existe a tal que a ≡ aj k k (mod pj j ) para todo j. Note em particular que o número de soluções distintas módulo n de f (x) ≡ 0 k (mod n) é igual ao produto do número de soluções módulo pj j de f (x) ≡ k 0 (mod pj j ). e somente se. k Reciprocamente. precisamos da noção de derivada Pn de um polinômio: n se p(x) = an x + an−1 x n−1 + · · · + a1 x + a0 = j=0 aj xj .3 Congruências de Grau Superior Dado um polinômio f (x) ∈ Z[x] e um número natural n. se cada f (x) ≡ 0 (mod pj j ) tem uma solução x ≡ k aj (mod pj j ).. definimos sua . Assim. e só se. Proposição 2.20.  f (x) ≡ 0 (mod n) ⇐⇒ .

pois Pn a hipótese 0 ≤ 2l0 < k0 implica 2(k − l0 ) ≥ k + 1. Proposição 2. ou seja. f (ak ) = rk pk para um certo rk ∈ Z e pl0 | f 0 (ak ) mas pl0 +1 . Se f (x) = c x r . Para cada r ∈ N. então p0 (x) ∈ Z[x].[SEC. ak+1 ≡ ak (mod pk−l0 ) e f (ak ) ≡ 0 (mod pk ) para todo k ≥ k0 . p um número primo.21 (Lema de Hensel). de r=0 r r r = 0 até n.3: CONGRUÊNCIAS DE GRAU SUPERIOR 101 derivada p0 (x) como sendo o polinômio n X p0 (x) = nan xn−1 + (n − 1)an−1 xn−2 + · · · + a1 = jaj xj−1 . pl0 | f 0 (ak+1 ) mas pl0 +1 - f 0 (ak+1 ). se p(x) ∈ Z[x]. obtemos n X n X f (ak+1 ) = f (ak + tk pk−l0 ) = cr ark + tk rar−1 k p k−l0 = r=0 r=0 . multiplicando a congruência acima por c e somando. Seja k ≥ k0 e suponha por indução que pk | f (ak ). Seja a ∈ Z tal que f (a) ≡ 0 (mod pk0 ) e cuja maior potência pl0 de p com pl0 | f 0 (a) satisfaz 0 ≤ 2l0 < k0 . Então existe uma sequência de inteiros (ak )k≥k0 com ak0 = a. ou seja. Demonstração: Construı́mos a sequência indutivamente. Em particular. Estamos procurando um número da forma ak+1 = ak + tk pk−l0 . se existe um inteiro a tal que f (a) ≡ 0 (mod p) mas f 0 (a) 6≡ 0 (mod p) então f (x) ≡ 0 (mod pk ) admite solução para todo k ∈ N. f 0 (ak ) = sk pl0 onde p .sk .f 0 (ak ). j=1 Note que. temos k   X r r−j j(k−l0 ) (ak + tk p k−l0 r ) = ark + tk rar−1 k p k−l0 + a p ≡ j k j=2 ≡ ark + tk rar−1 k p k−l0 (mod pk+1 ). Seja f (x) ∈ Z[x] um polinômio. que satisfaz pk+1 | f (ak+1 ). 2. com tk ∈ Z.

102 [CAP. Temos portanto 1k + 2k + · · · + (p − 1)k ≡ 1 + g k + g 2k + · · · + g (p−2)k (mod p) Sendo S = 1 + g k + g 2k + · · · + g (p−2)k .k e seja g uma raiz primitiva módulo p. Seja p um primo.22. temos que cada termo da soma acima é congruente a 1 módulo p e o resultado segue. E de fato. consideremos f (x) = xm + 3 com m ≥ 2. mas f 0 (0) = 0 é divisı́vel por potências arbitrariamente grandes de 3.k temos que g k − 1 6≡ 0 (mod p). temos que f (0) = 3 ≡ 0 (mod 3). o que encerra a prova. Suponha agora que (p − 1) . . Assim. necessitamos de um Lema 2.k. 2: EQUAÇÕES MÓDULO M = f (ak ) + tk f 0 (ak )pk−l0 = rk pk + sk tk pk (mod pk+1 ). Logo para que pk+1 | f (ak+1 ) devemos encontrar tk tal que rk + sk tk ≡ 0 (mod p). Demonstração: Se (p − 1) | k. Para o próximo resultado. donde bm ≡ 0 (mod 9) e f (b) = bm + 3 ≡ 3 (mod 9). se b ∈ Z e f (b) = bm + 3 ≡ 0 (mod 3) então b ≡ 0 (mod 3). Finalmente. temos que f 0 (ak+1 ) ≡ f 0 (ak ) = sk pl0 (mod pk−l0 ) ( f 0 (ak+1 ) ≡ 0 (mod pl0 ) =⇒ f 0 (ak+1 ) 6≡ 0 (mod pl0 +1 ) o que completa a indução. g k − 1 é invertı́vel módulo p e portanto S ≡ 0 (mod p). Para isto. Observemos que a condição sobre a derivada de f no lema de Hensel é necessária. o que mostra que nenhuma raiz módulo 3 “levanta” para uma raiz módulo 9. Agora vamos nos concentrar em equações módulo p. ou seja. 1k + 2k + · · · + (p − 1)k mod p = p−1 se (p − 1) | k. o que é possı́vel pois sk é invertı́vel módulo p. a = 0 e p = 3. Então ( 0 se (p − 1) . logo f (x) não satisfaz a segunda hipótese da proposição. multiplicando por gk e observando que g (p−1)k ≡ 1 (mod p) temos g k S ≡ g k + g 2k + · · · + g (p−1)k (mod p) ⇐⇒ g k S ≡ S (mod p) ⇐⇒ (g k − 1)S ≡ 0 (mod p) Como g é uma raiz primitiva e (p − 1) .

. k} é um múltiplo de p.. por- tanto. . . . .. . . . 0. . . . .[SEC. . . . Portanto cada monômio cxi11 xi22 · · · xinn de g é tal que 1≤j≤n ij < (p − 1)n.. . Demonstração: Usaremos o lema anterior para determinar |A| mod p. . . . . xn ) 6≡ 0 (mod p). xn ) ≡ |A| (mod p). . xn ) = 0 ∀i = 1. .. . . existem pontos (x1 . |A| é múltiplo de p. .3: CONGRUÊNCIAS DE GRAU SUPERIOR 103 Teorema 2. . 0) ≡ 0 (mod p) para todo i≤k. . . fk (x1 . . 0) ∈ A. . . Definamos Y 1 − fj (x1 . xn )p−1 . . xn ) = 1≤j≤k Observemos que g(x1 . Em particular. . . . xn ). xn ) 6= (0. portanto X g(x1 . xn ) ≡ 0 (mod p) e. xn ) ∈ (Z/pZ)n | fi (x1 . xr ∈Z/pZ xirr ≡ 0 (mod p) donde X X X X cxi11 xi22 · · · xinn ≡ c xi11 xi22 · · · xinn (x1 . pelo lema anterior. xn ) ≡ 0 (mod p) se. . . .xn )∈(Z/pZ)n g(x1 .. . . existe j tal que fj (x1 . . Assim. . xn ) ∈ Z[x1 . 1≤i≤k Então a quantidade de “pontos” em A = {(x1 . . Para isso. xn ) 6≡ 0 (mod p) ⇐⇒ fj (x1 . . . se fj (x1 .xn )∈(Z/pZ)n P Notemos agora que deg(g) ≤ 1≤j≤k (p−1) deg(fj ) < (p−1)n. . . o que prova o teorema. donde P pelo Princı́pio da Casa dos Pombos Psempre existe algum r com 0 ≤ ir < p − 1. . Por outro lado. . . Suponha que deg(fi )<n. . Como (0. 2. . . .23 (Chevalley-Warning). . . . . .  g(x1 . . . . . . notemos que pelo teorema de Euler-Fermat fj (x1 . Seja p um primo e sejam f1 (x1 . . há pelo menos p − 1 outros pontos nesse conjunto. . .. .. . . . . (x1 . . .. xn )p−1 ≡ 1 (mod p). .. . .. . . . . . . .xn )∈(Z/pZ)n x1 ∈Z/pZ x2 ∈Z/pZ xn ∈Z/pZ ≡0 (mod p) P Isso mostra que (x1 .. . 0) em (Z/pZ)n tais que fi (x1 . xn ] polinômios em n variáveis com coeficientes inteiros P tais que fi (0. xn ) = 0 para todo i. . . .. xn ) ≡ 1 (mod p). e somente se. xn ) ≡ 0 (mod p) para todo j então g(x1 . .

x2n−1 existem 1 ≤ i1 < i2 < · · · < in ≤ 2n − 1 tais que xi1 + xi2 + · · · + xin é divisı́vel por n. .104 [CAP. Assim. 2: EQUAÇÕES MÓDULO M Como aplicação. . Seja n um inteiro positivo. . . 2. . • P De Aj escolhemos um subconjunto Bj com n elementos tal que i∈Bj xi é divisı́vel por n. seguindo os seguintes passos S • Escolhemos um subconjunto Aj de {1. x2 . .24. . . 2mn − 1} com 2n P − 1 elementos. 2. Proposição 2. existe um subconjunto B ⊂ A com n elementos tal que i∈B xi é divisı́vel por n. . construı́mos Bj indutivamente para todo 1 ≤ j ≤ 2m − 1. Demonstração: Mostremos primeiro que se o resultado vale para m e para n então vale para mn. . . 2mn−1}\ Bk com k<j 2n − 1 elementos. . . . Dados inteiros x1 . devido a Erdős. x2mn−1 ∈ Z. . para cada subconjunto A de {1. Observemos que se j ≤ 2m − 1 então . . Sejam x1 . provemos o seguinte resultado. Ginzburg e Ziv. Por hipótese temos que.

[ .

.

.

.{1. 2. . 2mn − 1} \ Bj . . .

= 2mn − 1 − (j − 1)n

k<j

≥ 2mn − 1 − (2m − 2)n = 2n − 1,

o que garante a construção até j = 2m − 1. Definamos agora os inteiros
yj = n1 i∈Bj xi para 1 ≤ j ≤ 2m − 1. De novo por hipótese, existe um
P

subconjunto de ı́ndices C ⊂ {1, . . . , 2m − 1} com m elementos tal que
P
j∈C yj é divisı́vel por m e portanto
XX X
xi = n yj
j∈C i∈Bj j∈C

é uma soma com |C||Bj | = mn somandos que é divisı́vel por mn.
Assim, basta provar a proposição para n primo. Para isso, conside-
remos os polinômios

f1 (x1 , . . . , x2n−1 ) = xn−1
1 + xn−1
2 + · · · + xn−1
2n−1 e
f2 (x1 , . . . , x2n−1 ) = a1 xn−1
1 + a2 xn−1
2 + · · · + a2n−1 xn−1
2n−1

[SEC. 2.3: CONGRUÊNCIAS DE GRAU SUPERIOR 105

onde a1 , . . . , a2n−1 são os inteiros dados. A soma dos graus de f1 e
f2 é 2(n − 1) < 2n − 1. Pelo teorema de Chevalley-Warning, existem
x1 , . . . , x2n−1 ∈ Z/(n) não todos nulos com

f1 (x1 , . . . , x2n−1 ) ≡ f2 (x1 , . . . , x2n−1 ) ≡ 0 (mod n).

Como xn−1 ≡ 1 (mod n) para todo x ∈ (Z/(n))× , f1 (x1 , . . . , x2n−1 ) ≡ 0
(mod n) implica que existem exatamente n valores i ≤ 2n−1 com xi 6≡ 0
(mod n). Sejam 1 ≤ i1 < i2 < · · · < in ≤ 2n − 1 tais valores de i, como
xn−1
is ≡ 1 (mod n) para todo s ≤ n temos que

a1 xn−1
1 + a2 x2n−1 + · · · + a2n−1 xn−1
2n−1 ≡ ai1 + ai2 + · · · + ain (mod n),

pois xj ≡ 0 (mod n) se j 6= is para todo s ≤ n. Assim, ai1 +ai2 +· · ·+ain
é divisı́vel por n, o que prova o resultado.

Problemas Propostos
2.28 (OBM2007). Para quantos inteiros c, −2007 ≤ c ≤ 2007, existe
um inteiro x tal que x2 + c é múltiplo de 22007 ?

2.29. Seja p um primo e seja n tal que pk - n. Demonstrar: se a equação
y n ≡ a (mod pk ) tem solução com mdc(y, p) = 1, então para todo m > k
a equação y n ≡ a (mod pm ) possui solução.

2.30. Seja f (x) ∈ Z[x] um polinômio, p um número primo, a um inteiro
tal que f (a) ≡ 0 (mod p) mas f 0 (a) 6≡ 0 (mod p) e k um inteiro positivo.
Prove que, se ak é um inteiro tal que ak ≡ a (mod p) e f (ak ) ≡ 0
(mod pk ), então, tomando b tal que b ≡ ak − f (ak ) · f 0 (ak )−1 (mod p2k ),
então f (b) ≡ 0 (mod p2k ).

2.31. Seja p um primo ı́mpar, a um inteiro e n um inteiro positivo.
Sejam α e β inteiros não negativos, com α > 0. Prove:

(a) Se pβ e pα são as maiores potências de p que dividem n e a − 1
respectivamente então pα+β é a maior potência de p que divide an −1
(atenção, p deve dividir a−1 pois α > 0! Mas note que p não precisa
dividir n)

106 [CAP. 2: EQUAÇÕES MÓDULO M

(b) Se n é ı́mpar e pβ e pα são as maiores potências de p que dividem
n e a + 1 respectivamente então pα+β é a maior potência de p que
divide an + 1 (mesma ressalva do item (i)).

2.32. Sejam a um inteiro e n um inteiro positivo. Sejam α e β inteiros
não negativos, com α, β > 0. Prove:

(a) Se n é ı́mpar e 2α é a maior potência de 2 que divide a − 1 então
2α é também a maior potência de 2 que divide an − 1.

(b) Se a ≡ 1 (mod 4) e 2β e 2α são as maiores potências de 2 que
dividem n e a − 1 respectivamente então 2α+β é a maior potência de
2 que divide an − 1.

(c) Se a ≡ 3 (mod 4) e 2β e 2α são as maiores potências de 2 que
dividem n e a + 1 respectivamente então 2α+β é a maior potência de
2 que divide an − 1.

(d) Se n é ı́mpar e 2α é a maior potência de 2 que divide a + 1 então
2α é também a maior potência de 2 que divide an + 1.

2.33. Encontre todos os inteiros não negativos x e y tais que

7y − 2 · 3x = 1

2.34. Encontre todas as ternas (a, m, n) de inteiros positivos tais que
am + 1 divide (a + 1)n .

2.35. Seja p um número primo e n, k e a = pt a1 números naturais tais
que mdc(p, a1 ) = 1. Prove: a congruência xn ≡ a (mod pk ) tem solução
se, e só se, k ≤ t ou
pk−1 (p−1)
mdc(n,pk−1 (p−1))
k > t, n|t e a1 ≡1 (mod pk−t ).

2.36 (Irlanda 1997). Seja A um subconjunto de {1, 2, . . . 2n − 1} com n
elementos. Prove que A contém uma potência de 2 ou dois elementos
distintos cuja soma é uma potência de 2.

2.37 (Romênia 1996). Determinar o maior inteiro positivo n com a
seguinte propriedade: existem inteiros não negativos x1 , . . . , xn tais que,

[SEC. 2.3: CONGRUÊNCIAS DE GRAU SUPERIOR 107

para toda sequência 1 , 2 , . . . , n de elementos de {−1, 0, 1}, não todos
zero, o número
1 x1 + 2 x2 + · · · + n xn
não é divisı́vel por n3 .

2.38 (Erdős). Mostrar que todo número inteiro positivo pode ser ex-
presso como soma de números da forma 2a 3b de modo que nenhum termo
é divisı́vel por outro.

2.39 (Romênia 1998). Mostrar que para todo n ≥ 2 existe um subcon-

junto S de {1, 2, . . . , n} com no máximo 2b nc+1 elementos tal que todo
número natural menor do que n pode ser representado como diferença
de dois elementos de S.

2.40 (IMO2007). Seja n um inteiro positivo. Considere

S = {(x, y, z) | x, y, z ∈ {0, 1, . . . , n}, x + y + z > 0}

como um conjunto de (n + 1)3 − 1 pontos no espaço tridimensional.
Determine o menor número de planos, a união dos quais contém S mas
não inclui (0, 0, 0).

Capı́tulo 3

Frações Contı́nuas

A teoria de frações contı́nuas é um dos mais belos assuntos da Ma-
temática elementar, sendo ainda hoje tema de pesquisa.
Nas inclusões N ⊂ Z ⊂ Q ⊂ R, a passagem de Q para R é sem dúvida
a mais complicada conceitualmente e a representação de um número real
está diretamente ligada à própria noção de número real.
De fato, o conceito de número natural é quase um conceito primitivo.
Já um número inteiro é um número natural com um sinal que pode ser
+ ou −, e um número racional é a razão entre um número inteiro e
um natural não nulo. Por outro lado, dizer o que é um número real é
tarefa bem mais complicada, mas há coisas que podemos dizer sobre eles.
Uma propriedade essencial de R é que todo número real pode ser bem
aproximado por números racionais. Efetivamente, dado x ∈ R, existe
k = bxc ∈ Z tal que 0 ≤ x − k < 1. Podemos escrever a representação
decimal de

x − k = 0, a1 a2 . . . an . . . , ai ∈ {0, 1, . . . , 9},

o que significa que se rn = an + 10 · an−1 + 100 · an−2 + · · · + 10n−1 · a1 ,
rn rn +1 rn
então 10 n ≤ x − k < 10n , e portanto k

+ 10n é uma boa aproximação
rn



racional de x, no sentido de que o erro

x − k + 10 n é menor do que
1
10n , que é um número bem pequeno se n for grande. A representação
decimal de um número real fornece pois uma sequência de aproximações
por racionais cujos denominadores são potências de 10.
Dado qualquer x ∈ R e q natural não nulo existe p ∈ Z tal que pq ≤

.

.

.

e portanto x − p. x < p+1 (basta tomar p = bqxc).

< 1 .

e x − p+1 .

q .

1 . ≤ q.

q .

q .

q .

.

109 Em particular há aproximações de x por racionais com denominador q com erro menor do que 1q . Por exemplo. e oculta frequentemente aproximações racionais de x muito mais eficientes do que as que exibe. Por outro lado. . A representação decimal de x equivale a dar essas aproximações para os denominadores q que são potências de 10. envolve a escolha arbitrária da base 10. e tem méritos como sua praticidade para efetuar cálculos que a fazem a mais popular das representações dos números reais.

.

.

.

.

.

.

.

.

22 .

π − .

< .

1 .

314 .

.

355 .

1 .

3141592 .

< .

.

π − .

e .

π − .

< < .

.

π − .

.

7 .

700 100 .

.

113 .

3000000 1000000 .

αn − an Se. . a2 . mostram que 22 355 7 e 113 são melhores aproximações de π que aproximações decimais com denominadores muito maiores. que sempre fornece aproximações racionais surpreendentemente boas. e de fato são aproximações muito mais espetaculares do que se podia esperar. . O sentido dessa última notação ficará claro mais tarde. . . Boa parte desta exposição é baseada em [17]. e de fato for- nece todas as aproximações excepcionalmente boas. a2 . an = bαn c 1 e. 1 a1 + a2 + . se αn ∈ / Z. . 1 + an Se não denotamos def 1 x = [a0 . . 1 a1 + a2 + . . . a1 . A representação acima se chama representação por frações contı́nuas de x. Definimos recursivamente α0 = x. a1 . a representação por frações contı́nuas. além de ser natural e conceitualmente simples. . an ] = a0 + . ] = a0 + . . αn+1 = para todo n ∈ N. . . αn = an temos def 1 x = α0 = [a0 . para algum n. O objetivo desta seção é apresentar uma outra maneira de represen- tar números reais.

Note que. Os coeficientes a0 . Deixamos a verificação de que esta descrição geométrica corresponde à descrição algébrica acima a cargo do leitor. a3 = 1 quadrados ainda ainda menores. e seus co- eficientes an vêm do algoritmo de Euclides: se x = p/q (com q > 0) temos p = a0 q + r1 0 ≤ r1 < q q = a1 r1 + r2 0 ≤ r2 < r1 r1 = a2 r2 + r3 0 ≤ r3 < r2 . Reciprocamente. a1 .. isto é... se a representação por frações contı́nuas de x for finita então x é claramente racional.. rn−1 = an rn . sempre colocando o maior quadrado possı́vel dentro do espaço ainda livre. indi- cam o número de quadrados de cada tamanho.110 [CAP. a2 . a1 = 2 quadrados menores. a2 = 2 quadrados ainda menores. 3: FRAÇÕES CONTÍNUAS A figura dá uma interpretação geométrica para a representação de um número por frações contı́nuas. sua representação será finita. . . se os lados do retangulo são c < d então d = [1. . Enchemos um retângulo 1 × x com quadrados de forma “gulosa”. . 2. se x ∈ Q. e um número grande não desenhado de quadrados ainda ainda ainda menores (a4 é grande). . . Na figura. 2.] c pois temos a0 = 1 quadrado grande. 1. .

1) dada por f (x) = {10x} = 10x − b10xc. . . pois sua representação decimal não será periódica a partir de nenhum dı́gito. 121212 . 1). a2 . Já a representação em frações contı́nuas está intimamenteligada da função g : (0. . 1) → [0. mais precisamente. à dinâmica da função f . . . an+3 . estamos interessados na sequência x. definindo f 1 = f e f n+1 = f ◦ f n . f (f (x)). a1 . . . 1). A representação decimal de números reais está intimamente ligada à função f : [0. . definindo. para todo n ≥ 1. . temos f n (x) = 0. a1 . an+1 an+2 an+3 . Assim. ] ∈ (0. an+1 . para todo n ≥ 1. se x ∈ [0. an ]. a2 a3 a4 . os seus iterados por f serão todos distintos. . . . ]. 1). . Mais informações sobre a relação entre frações contı́nuas e a dinâmica da transformação de Gauss pode ser encontrada em [46]. a2 . 1) tem representação decimal 0. 333 · · · = x (nesse caso. . Assim. . a1 a2 a3 . pois o reconhecimento de racionais é mais simples que na representação decimal. 121212 · · · = x (nesse caso dizemos que x = 4/33 é um ponto periódico de perı́odo 2 de f ) e. . 1). 1 a1 + a2 + . . Por dinâmica da função f que- remos dizer o estudo de suas composições sucessivas: para cada ponto x ∈ [0. 111 Temos então 1 1 x = p/q = a0 + r1 /q = a0 + = a0 + a1 + r2 /r1 1 a1 + a2 + r3 /r2 1 = · · · = a0 + = [a0 . dada por g(x) = x1 = à dinâmica 1 1   x − x . cujos termos são os chamados iterados sucessivos da f . a3 . se x ∈ [0. e f (f (x)) = 0. . dize- mos que x = 1/3 é um ponto fixo de f ). 333 . 1 + an Isso já é uma vantagem da representação por frações contı́nuas (além de não depender de escolhas artificiais de base). . . como antes g 1 = g e g n+1 = g ◦ g n para todo n ≥ 1. 212121 . a3 . 1) → [0. temos g n (α) = [0. se x = 1/3 = 0. · · · ∈ [0. . . Assim. a2 . . . . temos f (x) = 0. 1] é irracional. . . se x = 4/33 = 0. De fato. então a1 = b α1 c e g(α) = [0. . f (x). por exemplo. então a1 = b10xc e f (x) = 0. an+2 . ]. . . . a4 . . temos f (x) = 0. também conhecida como transformação de Gauss: se α = [0.

temos [t0 . Para n = 0 temos [t0 ] = t0 = t0 /1 = x0 /y0 . . 3: FRAÇÕES CONTÍNUAS Representamos abaixo os gráficos de f (x) = {10x} e g(x) = { x1 }. . x1 = t0 t1 + 1. t1 . n ≥ 0. qn ∈ N>0 primos entre si tais que pqnn = [a0 . a1 . tn ] = t0 + = . Sejam pn ∈ Z. . para n = 2. an ]. t1 . 1 y = g(x) = x y = f (x) = {10x} 1 Seja x = [a0 . . a2 . definimos sequências (xm ) e (ym ) por x0 = t0 .1. . a1 . . t2 t1 + 1 t2 y1 + y0 y2 . t1 . a2 . para todo n ≥ 0. 1 + tn Além disso. · · · ∈ R tal que tk > 0. temos 1 t2 t0 t1 t2 + t0 + t2 [t0 . t1 ] = t0 + 1/t1 = t0 t1 +1 t1 = x1 /y1 e. Para n = 1. . ∀n ≥ 0. t2 ] = t0 + = t0 + = t1 + 1/t2 t1 t2 + 1 t1 t2 + 1 t2 (t0 t1 + 1) + t0 t 2 x1 + x0 x2 = = = . y1 = t1 . ]. para todo k ≥ 1. t2 . Temos então 1 xn [t0 . Proposição 3. Dada uma sequência (finita ou infinita) t0 . . 1 yn t1 + t2 + .112 [CAP. xm+2 = tm+2 xm+1 + xm . . . . t2 . O seguinte resultado será fundamental no que seguirá. . y0 = 1. xn+1 yn − xn yn+1 = (−1)n . ym+2 = tm+2 ym+1 + ym . . para todo m ≥ 0. Demonstração: A prova será por indução em n. Esta fração pqnn é chamada de n-ésima reduzida ou convergente da fração contı́nua de x.

. . Corolário 3. 113 Suponha que a afirmação seja válida para n. por indução. t1 . Além disso. a2 . Temos x1 y0 − x0 y1 = (t0 t1 + 1) − t0 t1 = 1 = (−1)0 e. tn+1 ] = [t0 . pqnn = [a0 . a2 . . . qn . . an ] e pn+1 qn − pn qn+1 = (−1)n . . . a1 . pn+1 qn − pn qn+1 = (−1)n para todo n ≥ 0. a3 . . com p0 = a0 . . . tn . an ] será a sequência de reduzidas da fração contı́nua de x. . Nos próximos resultados. . p1 = a0 a1 + 1. a2 . as igualdades pn = [a0 . . então xn+2 yn+1 − xn+1 yn+2 = (tn+2 xn+1 + xn )yn+1 − (tn+2 yn+1 + yn )xn+1 = −(xn+1 yn − xn yn+1 ) = −(−1)n = (−1)n+1 . t1 . . . As sequências (pn ) e (qn ) satisfazem as recorrências pn+2 = an+2 pn+1 + pn e qn+2 = an+2 qn+1 + qn para todo n ≥ 0. Demonstração: As sequências (pn ) e (qn ) definidas pelas recorrências acima satisfazem. a1 . se xn+1 yn − xn yn+1 = (−1)n para algum valor de n. . Para n + 1 em lugar de n temos 1 [t0 . .2. . x = [a0 . pela proposição anterior. ] será um número real. t2 . a segunda afirmação. q0 = 1 e q1 = a1 . ∀n ≥ 0. e ( pqnn )n∈N . . t2 . a1 . tn + ] tn+1 1  tn + tn+1 xn−1 + xn−2 = 1  tn + tn+1 yn−1 + yn−2 tn+1 (tn xn−1 + xn−2 ) + xn−1 = tn+1 (tn yn−1 + yn−2 ) + yn−1 tn+1 xn + xn−1 xn+1 = = · tn+1 yn + yn−1 yn+1 Vamos agora mostrar.

temos que os pn . a1 . Esses fatos implicam que ( pqnn )n∈N é a sequência de reduzidas da fração contı́nua de x.114 [CAP. Proposição 3. ∀n ≥ 0. an−2 . qn dados pelas recorrências acima são primos entre si. . . . an . an−1 . para todo n ∈ N. para todo n ∈ N. a1 ]. qn Em particular. an−1 . αn pn−1 + pn−2 pn−2 − qn−2 x x= e αn = αn qn−1 + qn−2 qn−1 x − pn−1 Demonstração: A primeira igualdade segue da proposição anterior pois x = [a0 . Corolário 3.3. . . 3: FRAÇÕES CONTÍNUAS Como pn+1 qn − pn qn+1 = (−1)n .4. αn ] e a segunda é consequência direta da primeira. também segue da recorrência que qn > 0. . Além disso. Temos pn (−1)n x− = qn (αn+1 + βn+1 )qn2 onde qn−1 βn+1 = = [0. . . Temos. a2 . .

.

1 .

pn .

.

1 1 < .

x − .

= .

(αn+1 qn + qn−1 )qn (αn+1 + qn−1 /qn )qn2 (αn+1 + βn+1 )qn2 Em particular. (an+1 + 2)qn2 qn (αn+1 + βn+1 )qn2 an+1 qn2 Demonstração: Pelo corolário anterior temos pn αn+1 pn + pn−1 pn pn−1 qn − pn qn−1 x− = − = qn αn+1 qn + qn−1 qn (αn+1 qn + qn−1 )qn −(pn qn−1 − pn−1 qn ) −(−1)n−1 = = (αn+1 qn + qn−1 )qn (αn+1 qn + qn−1 )qn (−1)n (−1)n (−1)n = = = . . < .

.

.

p n .

x − .

= .

. 1 .

qn .

(αn+1 + βn+1 )qn2 .

Além disso todos os convergentes ı́mpares são maiores do que todos os convergentes pares.5. se α = r/s ∈ Q. De fato. A proposição anterior implica que. como bαn+1 c = an+1 e 0 < βn+1 < 1. . . o que implica a última afirmação. |r/s − p/q| < 1/q 2 equivale a |qr − ps| < s/q. a2 . . Para . a1 .. É interessante notar que. e dá sentido à igualdade x = [a0 . a1 . A expansão de βn+1 como fração contı́nua segue de qn−1 qn−1 qn−1 1 = =⇒ = qn an qn−1 + qn−2 qn an + qqn−1 n−2 aplicado recursivamente.e. Observação 3. e que os convergentes ı́mpares formam uma sequên- cia decrescente. para todo α irra- cional. temos p2k p2k+2 p2k+3 p2k+1 ≤ ≤x≤ ≤ . n→∞ qn o que permite recuperar x a partir de a0 . q2k q2k+2 q2k+3 q2k+1 Demonstração: O resultado segue dos seguintes fatos gerais. Como limn→∞ qn = +∞ (pois (qn ) é estritamente crescente).7. . ] quando a fração contı́nua de x é infinita (i. .6. Este fato é conhecido como o Teorema de Dirichlet. a desigualdade |α − p/q| < 1/q 2 tem infinitas soluções racionais p/q. Proposição 3. o que implica que q ≤ s. 115 e. a desigualdade |α −p/q| < 1/q 2 tem apenas um número finito de soluções racionais p/q. segue desta proposição que pn lim = x. segue que an+1 < αn+1 +βn+1 < an+1 + 2. Para todo k ≥ 0. . quando x é irracional). Observação 3. A seguinte proposição mostra que os convergentes pares formam uma sequência crescente. . a2 .

qnn +qn−1 n−1 ) se n é par G((1. para todo n ≥ 0. . e seja (pk /qk )k≥0 a sequência de reduzidas da fração contı́nua [a0 . 3: FRAÇÕES CONTÍNUAS todo n ≥ 0. . +∞) → I(a0 . a1 . a1 . . e portanto G é crescente para n ı́mpar e decrescente para n par. G(α) = [a0 . ∀k ≥ 1. a2 . Demonstração: É suficiente notar que. temos que x − pqnn = (αn+1 q(−1) n +qn−1 )qn é positivo para n par e negativo para n ı́mpar. Sejam a0 . temos que pn+2 pn an+2 pn+1 + pn pn − = − qn+2 qn an+2 qn+1 + qn qn an+2 (pn+1 qn − pn qn+1 ) (−1)n an+2 = = qn (an+2 qn+1 + qn ) qn+2 qn é positivo para n par e negativo para nn ı́mpar. a1 .8. . a2 . an ) = ∪ {[a0 . . a2 . temos α→+∞ ( p p +p ( qnn . . . . . . . α]. α > 1} qn h   pn . . Assim. pn +pn−1 se n é par q q +q =  pn +pn n−1 p i  n n−1 . an . sendo crescente para n ı́mpar e decres- cente para n par. . an . a1 . . . an . n se n é ı́mpar. Então o conjunto dos números reais cuja representa- ção por frações contı́nuas começa com a0 . a função G : (1. a1 . . como na prova do corolário (−1)n anterior. an inteiros com ak > 0. . +∞)) = ( pqnn +pn−1 pn +qn−1 . . a1 . . . como G(1) = pqnn +q +pn−1 n−1 e lim G(α) = pqnn . . . . . . an é o intervalo   pn I(a0 . . . a1 . α] = αp n +pn−1 pn αqn +qn−1 = qn + (αqn +qn−1 )qn . . α] é monótona.116 [CAP. qn +qn−1 qn Além disso. Além disso. an ]. . . qn ) se n é ı́mpar. an ) dada por G(α) = [a0 . . . a1 . Proposição 3. .

. . . q0 = 1 e q1 = a1 . p1 = a0 a1 + 1. como na proposição 3. Demonstração: Considere as sequências (pn ) e (qn ) definidas pelas recorrências pn+2 = an+2 pn+1 + pn e qn+2 = an+2 qn+1 + qn para todo n ≥ 0. p2k p2k+2 p2k+3 p2k+1 ≤ ≤ ≤ . ∀k ≥ 0. a2 . a1 . a1 . . com p0 = a0 . pn se n é ı́mpar. .7. ∀k ≥ 1. e portanto. an ) = ∪ {[a0 . an . . ∀k ≥ 0. . existe um único número real α (que é irracional) cuja representação por frações contı́nuas é [a0 . qn +qn−1 qn Proposição 3. +∞)) q hn   pn . como p2k+1 p2k p2k+1 q2k − p2k q2k+1 (−1)2k 1 |Ik | = − = = = q2k+1 q2k q2k+1 q2k q2k+1 q2k q2k+1 q2k tende a 0 quando k tende a infinito. ]. .9. . α]. . pn +pn−1 se n é par q q +q =  pn +pn n−1 i  n n−1 . k≥0 . q2k q2k+2 q2k+3 q2k+1 Assim. Dados inteiros a0 . q2k q2k+1 temos Ik+1 ⊂ Ik . com ak > 0.   pn I(a0 . . Temos. a2 . . considerando os intervalos fechados   p2k p2k+1 Ik = . . α > 1} qn   pn = ∪ G((1. a1 . . a1 . existe α ∈ R tal que \ Ik = {α}. 117 Portanto. . .

= . . a2k ). a1 . . p2k p2k+1 [a0 . 2. a2k . . . 1. . 15. . ] são pontos fixos da transformação de Gauss g. . 2 . a1 . . . 1. . . a1 . pois suas frações √ contı́nuas √ são infinitas. . portanto p0 p1 22 p2 333 p3 355 = 3. . 4. . a2 . 3. . 1. Exemplo 3. . a1 . 1. 1. 1. e portanto a fração contı́nua de α começa com a0 . 2n. . a2k ] e [a0 . 1. . 1. 2. . 1. a2k+1 ] q2k q2k+1 e. . a1 . 2. . α é irracional. Note que. 1. ] (veja o exerc. . a2 . como a representação por frações contı́nuas de α é infinita. . ] pois √ 1+ 5 1 1 =1+ √ =1+ = ··· 2 1+ 5 1 2 1+ √ 1+ 5 2 √ √ Isto prova em particular que 2 e 1+2 5 são irracionais. . . para todo k ≥ 0. 3. ] e 5−1 2 = [0. q0 q1 7 q2 106 q3 113 • e = [2. a1 . 1. ]. [a0 .9). . a2k . a1 .. . 2. .10. a2k . . . a2 . 3: FRAÇÕES CONTÍNUAS Como. 1. . a1 . a2 . ]. 1. . 6. .. . da proposição anterior. donde a representação por frações contı́nuas de α é [a0 . . . 8. . 2. a2k ). 1. Daı́ segue também que 2 − 1 = [0. a2 . . a2k+1 ] pertencem a I(a0 . ] pois √ 1 1 1 2=1+ √ =1+ =1+ = ··· 2+1 1 1 2+ √ 2+ 2+1 1 2+ √ 2+1 √ 1+ 5 • 2 = [1. 2. = . 14. 1. 1. a2 . 2.118 [CAP. que é um intervalo. 292. . . a2 . a2k ] = ≤α≤ = [a0 . 1. 1. 1. √ • 2 = [1. 1. . . para todo k ≥ 0. . . . . Temos • π = [3. . 7. 1. . . . 1. 2. . . . segue que α ∈ I(a0 . = .

11.[SEC.1: REDUZIDAS E BOAS APROXIMAÇÕES 119 3. para todo n ∈ N.1 Reduzidas e Boas Aproximações Teorema 3. Temos. 3. .

.

.

x − pn .

≤ 1 1 .

.

< 2 .

qn .

qn qn+1 qn Além disso. .

.

.

.

.

x − pn .

< 1 .

x − pn+1 .

< 1 . .

.

.

.

ou 2 .

qn .

2qn2 .

qn+1 .

2qn+1 Demonstração: O número x sempre pertence ao segmento de extre- mos pqnn e pqn+1 n+1 cujo comprimento é .

pn+1 pn .

.

(−1)n .

.

.

.

.

.

.

1 .

pn .

.

1 1 .

qn+1 − qn .

= .

qn qn+1 .

= qn qn+1 =⇒ .

x − qn .

≤ qn qn+1 < q 2 · .

.

.

.

.

se . n Além disso.

.

.

.

.

x − pn .

≥ 1 .

x − pn+1 .

≥ 1 . .

.

.

.

e 2 .

qn .

2qn2 .

qn+1 .

2qn+1 então .

.

.

.

1 .

pn .

.

.

.

pn+1 .

.

1 1 = .

x − .

+ .

x − .

qn qn+1 qn qn+1 . ≥ 2 + 2 =⇒ qn+1 = qn .

2qn 2qn+1 absurdo. Observação 3.12. De fato .

x − pqnn .

< qn q1n+1 < 1 .

.

Markov). temos . Para todo α irracional e todo inteiro n ≥ 1. Teorema 3. 2.13 (Hurwitz. an+1 qn Quanto maior for an+1 melhor será a aproximação pqnn de x.

.

.

α − p .

< √ 1 .

.

.

q.

5q 2 .

14.120 [CAP. n + 2. Devemos portanto ter an+1 = an+2 = 1 já que claramente ak ≤ 2 para k = n. Demonstração: Suponha que o teorema seja falso. Por outro lado temos √ 1 1 1 1 x ≤ 5 − 1 − y =⇒ + ≥√ + x 1+y 5−1−y 1+y √ 5 = √ (1 + y)( 5 − 1 − y) √ √ e portanto (1 + y)( 5 − 1 − y) ≥ 1 =⇒ y ≤ 5−12 . q qn−1 qn qn+1 Em particular. As desigualdades acima se traduzem em 1 1 √ √ 1 1 √ + ≤ 5. absurdo. terı́amos ak + βk ≥ 2 + 31 > 5. e portanto devemos √ 5−1 qn−1 ter y = 2 . existe α irracional. Observação 3. Sejam x = 1/αn+2 e y = βn+1 . √ Então. 3: FRAÇÕES CONTÍNUAS para pelo menos um racional   p pn−1 pn pn+1 ∈ . √ √ n ≥ 1 com αn + βn ≤ 5. 1+x+y ≤ 5 e + ≤ 5. αn+1 + βn+1 ≤ 5 e αn+2 + βn+2 ≤ 5.4. n +√2 e se algum ak = 2 com k = n + 1. 1+x y x 1+y Temos √ √ 1+x+y ≤ 5 =⇒ 1 + x ≤ 5 − y √ 1 1 1 1 5 =⇒ + ≥√ + = √ 1+x y 5−y y y( 5 − y) √ √ e portanto y( 5 − y) ≥ 1 =⇒ y ≥ 5−1 2 . o que é absurdo pois y = βn+1 = qn ∈ Q. n + 1. Em particular provamos que . . a desigualdade acima tem infinitas soluções racionais p/q. . pela pro- posição 3.

α − pq .

< √1 .

.

O número 5 é o maior com essa propriedade. se √ . 5q 2 tem √ infinitas soluções racionais pq . para todo α irracional. De fato.

.

1+ 5 .

p .

.

α = e . 1 ε > 0.

α − q .

. < (√5 + ε)q 2 .

2 .

3.[SEC.2: BOAS APROXIMAÇÕES SÃO REDUZIDAS 121 temos .

1 + √5  .

 .

.

1 .

q − p.

< √ .

.

.

2 .

( 5 + ε)q .

.

.

1−√5 p .

.

.

1 + √5  .

.

1 − √5  .

 .

.

 .

.

2 − q.

=⇒ .

q − p.

.

q − p.

< √ . .

.

.

.

.

2 .

.

2 .

5+ε ou seja. .

1 + √5 p √ .

 √ .

.

2 2 |p − pq − q | < .

− − 5.

( 5 + ε). .

.

.

2 q .

de fato se p − pq − q = 0 terı́amos  2    √ √  p p p 1+ 5 1− 5 − − 1 = 0 =⇒ ∈ . absurdo. q q q 2 2 p o que é absurdo. √ Se q é grande. . donde √ 5 o lado direito da desigualdade é muito próximo de √5+ε < 1. 1/q 2 é pequeno. e 1+ 5 2 − pq é muito próximo de 0. . 2 2 2 2 pois |p − pq − q | ≥ 1. pois q ∈ Q.

√ .

para todo ε > 0. . Outra maneira de ver que.

1+2 5 − pq .

< (√5+ε)q 1 .

.

2 tem apenas um número finito de soluções pq ∈ Q é observar que as me- √ lhores aproximações racionais de 1+2 5 são as reduzidas pqnn de sua fra- ção .

√contı́nua .

1. . 1. para as quais temos . . . 1. [1. ] (ver próxima seção).

1+ 5 pn .

1 .

2 − qn .

. 1. |qx−p|. . o qual é. 2 2 3. com αn+1 + βn+1 se aproximando cada vez n+1 )qn mais de √ √ 1+ 5 5−1 √ [1. . 1. . = (αn+1 +β 2 . a razão entre |x−p/q| e o erro máximo da aproximação . 1. . . por definição. 1. ] = + = 5.2 Boas Aproximações são Reduzidas O próximo teorema (e seu corolário 3. 1. ] + [0.17) caracteriza as reduzidas em termos do erro reduzido da aproximação de x por p/q. 1.

3: FRAÇÕES CONTÍNUAS por falta com denominador q. Além disso.122 [CAP.15. que é 1/q. Teorema 3. se 0 < q < qn a desigualdade acima é estrita. Demonstração: Como mdc(pn . Para todo p. temos que se pq = pqnn então p = kpn e q = kqn para algum inteiro k 6= 0 e neste caso o resultado é claro. q ∈ Z. com 0 < q < qn+1 temos |qn x − pn | ≤ |qx − p|. Assim. podemos supor que pq 6= pqnn de modo que . qn ) = 1.

.

.

p pn .

.

− .

≥ 1 > 1 .

q qn .

Assim. qqn qn qn+1 pn+1 já que q < qn+1 . pq está fora do intervalo de extremos pn qn e qn+1 e portanto .

.

.

.

.

.

 .

x − p .

≥ min .

p − pn .

. .

p − pn+1 .

≥ 1 .

.

.

.

.

.

.

q .

.

q qn .

.

q qn+1 .

se q < qn . pois numa fração contı́nua finita. o último coeficiente an é sempre maior que 1. Nesse caso. e qn+1 > 2qn . a igualdade só pode ocorrer se x = pqn+1 n+1 . como no algoritmo de Euclides. donde an+1 ≥ 2. teremos . qqn+1 o que implica 1 |qx − p| ≥ ≥ |qn x − pn |. qn+1 Além disso.

.

.

.

.

.

.

x − p .

≥ .

p − pn .

− .

pn+1 − pn .

.

.

.

.

.

.

.

q.

.

q qn .

.

qn+1 qn .

1 1 qn+1 − q 1 ≥ − = > qqn qn qn+1 qqn qn+1 qqn+1 o que implica 1 |qx − p| > ≥ |qn x − pn |. qn+1 .

16.[SEC. Para todo q < qn . . 3.2: BOAS APROXIMAÇÕES SÃO REDUZIDAS 123 Corolário 3.

.

.

p n

x −

<

x − p

qn

q

Corolário 3.17. Se |qx − p| < |q 0 x − p0 |, para todo p0 e q 0 ≤ q tais que
p p0
q 6= q 0 , então p/q é uma reduzida da fração contı́nua de x.

Demonstração: Tome n tal que qn ≤ q < qn+1 . Pelo teorema,
|qn x − pn | ≤ |qx − p|, e portanto p/q = pn /qn .

Teorema 3.18. Se

x − pq

< 1 p

.

Suponha que pq 6= pqnn . Demonstração: Seja n tal que qn ≤ q < qn+1 . 2q 2 então q é uma reduzida da fração contı́nua de x. . Como na demonstração do teorema anterior.

x − pq .

≥ qqn+1 1 e assim pq .

.

pn pn+1 está fora do intervalo de extremos qn e qn+1 . Temos duas possibilidades: (a) Se q ≥ qn+1 p.

1 1 .

.

2 então x − q ≥ qqn+1 ≥ 2q 2 . absurdo. .

qn+1 (b) Se q < 2 . .

.

.

.

.

.

.

.

x − p .

.

.

.

pn p .

.

.

.

pn+1 pn .

.

≥ − .

−.

− .

.

q .

.

definimos a ordem de α por def n . qn q qn+1 qn 1 1 qn+1 − q ≥ − = qqn qn qn+1 qqn qn+1 1 1 > ≥ 2 2qqn 2q o que também é um absurdo. Dado α ∈ R.

.

p .

.

1 p o ord α = sup ν > 0 .

.

α − .

. < ν tem infinitas soluções ∈ Q .

.

. q q q Observemos que a ordem de todo número irracional pode ser calcu- lada a partir de sua fração contı́nua.

. a1 . .19.] sua fração contı́nua e { pqnn } suas convergentes. basta calcular a ordem . Então ln qn+1 ln an+1 ord α = 1 + lim sup = 2 + lim sup . a3 . Seja α um número irracional. assim para calcular a ordem. n→∞ ln qn n→∞ ln qn Demonstração: Sabemos que as melhores aproximações por raci- onais são obtidas a partir das convergentes da fração contı́nua.124 [CAP. a2 . 3: FRAÇÕES CONTÍNUAS Teorema 3. e sejam [a0 .

gerada .

pelos convergen- pn .

Seja sn > 0 um número real tal que . 1 tes.

α − qn .

= qsn . Pelo teorema .

.

.

n pn .

1 3.11 sabemos que .

α − qn .

< qn qn+1 e .

.

.

.

.

.

.

 .

.

.

α − pn .

> 1 .

α − pn .

+ .

α − pn+1 .

= 1 .

pn+1 − pn .

= 1 .

.

.

.

.

.

.

.

. .

qn .

2 .

qn .

.

qn+1 .

2 qn+1 .

qn .

2qn qn+1 qn qn qn+1 e tomando o logaritmo obtemos ln 2 + ln qn + ln qn+1 ≥ sn ln qn ≥ ln qn + ln qn+1 . Para mostrar a se- n→∞ n→∞ ln qn gunda igualdade. assim an+1 qn < qn+1 < (an+1 + 1)qn . 2qn qn+1 Logo temos que 1 1 1 ≤ sn ≤ . n→∞ ln qn n→∞ ln qn Observe que usando a fração contı́nua de e (ver exercı́cios). é possı́vel provar que ord(e) = 2. agora tomando o logaritmo e dividindo por ln qn obtemos ln an+1 ln qn+1 ln(an+1 + 1) +1< < + 1. ln qn+1 Portanto ord α = lim sup sn = 1 + lim sup . ln qn ln qn ln qn ln qn+1 ln an+1 portanto lim sup = 1 + lim sup . observemos que qn+1 = an+1 qn + qn−1 . .

existem n ∈ N e k ∈ N>0 com αn+k = αn . i. De fato. . s > 0. c inteiros tais que ax2 + bx + c = 0. logo qn−1 qn+k−2 − qn−2 qn+k−1 6= 0. pois qqn−2 n−1 é uma fração irredutı́vel qn+k−1 de denominador qn−2 . r. se x é um irracional do √ tipo r ± s. αn são definidos por recursão por 1 α0 = x. então a fração contı́nua de x é periódica. 3. isto é. Como x = pqn−1 αn +pn−2 n−1 αn +qn−2 . b.[SEC. n ∈ N. qn−1 x − pn−1 qn+k−1 x − pn+k−1 então Ax2 + Bx + C = 0. se αn+k = αn . Lembramos que na representação de x por fração contı́nua.e. an = bαn c. existem √ a. Neste caso. então x é raiz de uma equação do segundo grau com coeficientes inteiros. qn−1 x − pn−1 Isso dá uma prova explı́cita do fato de que se a fração contı́nua de x é periódica. k ∈ N>0 segue que pn−2 − qn−2 x pn+k−2 − qn+k−2 x = . temos ax2 + bx + c = 0 pn−1 αn + pn−2 2     pn−1 αn + pn−2 =⇒ a +b +c=0 qn−1 αn + qn−2 qn−1 αn + qn−2 =⇒ An αn2 + Bn αn + Cn = 0. Vamos provar agora um resultado devido a Lagrange segundo o qual se x é uma irracionalidade quadrática. ∀n ∈ N.. Note que o coeficiente de x2 é não-nulo.3 Frações Contı́nuas Periódicas Nesta seção provaremos que os números reais com fração contı́nua periódica são exatamente as raı́zes de equações do segundo grau com coeficientes inteiros. αn+1 = αn − an e temos pn−2 − qn−2 x αn = . s ∈ Q. pois pn−1 qn−2 −pn−2 qn−1 = (−1)n . com b2 − 4ac > 0 e b2 − 4ac irracional. donde qn−2 6= qn+k−2 .3: FRAÇÕES CONTÍNUAS PERIÓDICAS 125 3. e qn+k−2 é uma qn−1 qn+k−1 fração irredutı́vel de denominador qn+k−2 > qn−2 . onde A = qn−1 qn+k−2 − qn−2 qn+k−1 B = pn+k−1 qn−2 + pn−2 qn+k−1 − pn+k−2 qn−1 − pn−1 qn+k−2 C = pn−1 pn+k−2 − pn−2 pn+k−1 . an .

126 [CAP. Note que Cn = An−1 . e portanto 0 < |Cn | ≤ M . mas . 3: FRAÇÕES CONTÍNUAS onde An = ap2n−1 + bpn−1 qn−1 + cqn−1 2 Bn = 2apn−1 pn−2 + b(pn−1 qn−2 + pn−2 qn−1 ) + 2cqn−1 qn−2 Cn = ap2n−2 + bpn−2 qn−2 + cqn−2 2 . ∀n ∈ N:    pn−1 pn−1 An = ap2n−1 + bpn−1 qn−1 + cqn−1 2 2 = aqn−1 x− x̄ − . Vamos provar que existe M > 0 tal que 0 < |An | ≤ M para todo n ∈ N. qn−1 qn−1 onde x e x̄ são as raı́zes de aX 2 + bX + c = 0.

.

.

.

.

.

.

x − pn−1 .

< 1 ≤ 1 =⇒ |An | = aqn−1 2 .

x − pn−1 .

.

x̄ − pn−1 .

.

.

.

.

.

.

.

qn−1 .

qn−1 2 .

qn−1 .

.

qn−1 .

 .

.

 .

pn−1 .

.

≤ a |x̄ − x| + .

.

x − qn−1 .

3. necessariamente αn+k = αn para alguma escolha de n ∈ N. donde há apenas um número finito de possı́veis equações An X 2 +Bn X + Cn = 0. Assim. e portanto de possı́veis valores de αn . k ∈ N>0 .4 Os Espectros de Markov e Lagrange Seja α um número . Portanto Bn2 ≤ 4An Cn + b2 − 4ac ≤ 4M 2 + b2 − 4ac def p =⇒ Bn ≤ M 0 = 4M 2 + b2 − 4ac. para qualquer n ∈ N. def ≤ M = a(|x̄ − x| + 1). Provamos assim que An . Bn2 − 4An Cn = (pn−1 qn−2 − pn−2 qn−1 )2 (b2 − 4ac) = b2 − 4ac. Bn e Cn estão uniformemente limitados. Notemos agora que.

.

irracional. De acordo com o teorema de Dirichlet. .

p .

1 a desigualdade .

.

α − .

.

< 2 tem uma infinidade de soluções racionais q q .

Markov e Hurwitz melhoraram. 3.4: OS ESPECTROS DE MARKOV E LAGRANGE 127 p/q.[SEC.

. este resultado.

provando que. para .

p .

a desigualdade . 1 todo irracional α.

.

α − .

.

< √ tem uma infini- √ q 5 · q2 dade de soluções racionais. a desigualdade . √e que 5 é a melhor constante com esta 1+ 5 propriedade: para α = . e para qualquer ε > 0.

.

2 .

α − p .

< √ 1 .

.

tem apenas um número finito de soluções (veja o .

q .

pode-se esperar resul- tados melhores. ( 5 + ε)q 2 Teorema 3.13). o que nos leva a associar a cada α a sua constante de melhor aproximação  . fixado α irracional. Entretanto.

.

 .

p .

1 k(α) = sup k>0 | .

.

α − .

.

Em particular. k(α) < ∞ ⇐⇒ (an ) é limitado. para n ∈ N. mais particularmente. an−2 . . e √  √  1+ 5 k = 5.q∈Z. a1 ]. ] e βn = [0. Temos então k(α) = lim supn→∞ (αn + βn ). αn = [an . . an−1 . . α = [a0 . na imagem da função k.q→∞ √ Nossa discussão inicial mostra que k(α) ≥ 5 para todo α ∈ R. Estaremos interessados nos α ∈ R tais que k(α) < +∞. . . . 2 Não é difı́cil provar que k(α) = +∞ para quase todo α ∈ R. ] e definimos. É interessante observar que se mudássemos um pouco as funções en- volvidas na definição do espectro de Lagrange ele passaria a ser um con- junto bem menos interessante: se para f : R → R+ decrescente conside- rarmos o conjunto kf (α) definido por  . p. no conjunto L = {k(α) | α ∈ R\Q e k(α) < +∞}. . e. isto é. a1 . Segue da proposição 3. Este conjunto é conhecido como o espectro de Lagrange. < 2 tem infinitas soluções racionais p/q q kq = lim sup |q(qα − p)|−1 ) ∈ R ∪ {+∞}.4 (e do Teorema 3.18) uma fórmula para k(α): escrevemos α em fração contı́nua. an+2 . . an+1 . . . a2 .

.

 .

p .

.

f (q) p sup k > 1 | .

α − .

< .

então a imagem de kf seria {+∞}. se consideramos sup(∅) = 0 neste contexto) e. +∞]. caso lim q 2 f (q) = +∞. +∞] q→+∞ (ou [0. q→+∞ . a imagem de kf seria (0. tem infinitas soluções racionais q k q então. caso tenhamos lim q 2 f (q) = 0.

. 4( 2 − 1)]. e G. que é o conjunto M = . +∞) usando a fórmula para k(α). o “começo” do espectro de Lagrange é discreto. z) é uma solução da equação de Markov x2 + y 2 + z 2 = 3xyz .128 [CAP. y. . 5 onde (kn ) é uma sequência convergente a 3 tal que kn ∈ / Q mas kn2 ∈ Q para todo n (na verdade q Markov provou que os kn são exatamente os 4 números da forma 9 − z 2 . Marshall Hall provou em 1947 ([64]) que L contém toda uma semi-reta (por exemplo [6. a2 .veja a seção 4. . cuja relação com o espectro de Lagrange tem origem na fórmula que apresentamos para k(α). que provou em 1879 (ver [96] e [97]) que ( √ ) √ √ 221 L ∩ (−∞. a1 . a−1 . . e σ : Σ → Σ o shift definido por σ((an )n∈Z ) = (an+1 )n∈Z . Por exemplo. a−2 . e vem sendo estudado há bastante tempo. 3 e 4 então C(4) + C(4) = [ 2 − 1. 2. De k(α) = lim supn→∞ (αn + βn ) podemos obter a seguinte carac- terização do espectro de Lagrange: seja Σ = N∗ .3. Assim. Outro conjunto de números reais de nosso interesse é o espectro de Markov. o resultado que M. onde z é um inteiro positivo tal que existem inteiros positivos x. o conjunto das N sequências bi-infinitas de inteiros positivos. Talvez o pri- meiro resultado não-trivial sobre ele se deva a Markov. do qual não é difı́cil deduzir que L ⊃ [6. . que é " √ ! 2221564096 + 283748 462 . Se f : Σ → R é definida por f ((an )n∈Z ) = α0 + β0 = [a0 . 1] em cuja fração contı́nua √ aparecem√ apenas os coeficientes 1. 3: FRAÇÕES CONTÍNUAS O conjunto L encodifica uma série de propriedades diofantinas de números reais. Freiman determinou em 1975 a maior semi-reta que está contida em L. ] + [0. 491993569 Estes dois últimos resulados baseam-se fortemente no estudo de somas de conjuntos de Cantor regulares. +∞)). +∞ . 3) = k1 = 5 < k2 = 2 2 < k3 = < ··· . y de modo que (x. Hall enuncia em seu artigo [64] é o seguinte: se C(4) é o conjunto de Cantor regular dos reais de [0. θ ∈ Σ}. Essa afirmação não é verdadeira para todo o conjunto L. . ] então L = {lim supn→+∞ f (σ n θ).1 e o excelente artigo [21]).

y)| . . 3. . b2 −4ac = 1 .[SEC.2+ 2 a n-ésima convergente da fração contı́nua 1 12 1+ 32 2+ 52 2+ 72 2+ . . pn 1 1 1 1 Demonstrar que qn =1− 3 + 5 − 7 + · · · + (−1)n−1 2n−1 . x]. .y)∈Z2 \(0.0) São fatos conhecidos que L e M são subconjuntos fechados da reta e que L ⊂ M (ver [45]). .. Seja n um número natural. Seja pn 1 = qn 12 1+ 32 2+ 52 2+ . 1.1. . y) = ax2 +bxy+cy 2 . θ ∈ Σ}. f (x.2. onde aparecem n uns na fração contı́nua. Demonstre que. Na referência [108] são provados resultados sobre propriedades geométricas (relativas a geometria fractal) dos espectros de Markov e Lagrange. Determine os possı́veis valores de x tais que x1 = [1.3. para todo inteiro positivo a.. 3. (2n − 3)2 . 2a]. (x. 1.4: OS ESPECTROS DE MARKOV E LAGRANGE 129 {supn→∞ f (σ n θ). Problemas Propostos 3. 3. temos as seguintes expansões em frações contı́nuas periódicas: √ (a) a2 + 1 = [a. que envolvem resultados delicados sobre somas de conjuntos de Cantor regulares. O espectro de Markov M tem a seguinte interpretação aritmética: ( )  −1 inf |f (x.

3.6. se qn ≤q<qn+1 . log log(an +1) (b) Prove que ord α ≥ 1 + exp(lim supn→∞ n ). para todo c ≥ 2. p pn +pn−1 (ii) an+1 ≥ 2. Encontre as frações contı́nuas de a2 + 4 e a2 − 4. ] um número real. pq = pn+1 −rpn qn+1 −rqn . q = qn+1 −qn e an+1 − 2 + βn+1 < αn+2 . 2. . . (c) Mostre que. 1. Seja α=[a0 . 3: FRAÇÕES CONTÍNUAS √ (b) a2 − 1 = [a − 1. Prove que. a − 2. (d) Determine ord α se an = 2n . √ (c) a2 − 2 = [a − 1. existe α ∈ R tal que ord α = 1 + exp(lim supn→∞ log log(a n n +1) ) = c.130 [CAP. 3. 2a − 2]. (a) Prove que. baseado em [36]. ]∈R. a2 . . a2 .8. . ]∈R. 2a − 2]. . Este exercı́cio.9. Seja α = [a0 . 3. ∀n ≥ 0. mdc(p. Prove que. .7. 1. tem como objetivo calcular a fração contı́nua de e. a1 . para infinitos inteiros positivos n. √ (d) a2 − a = [a − 1. √ √ 3. lim supn→+∞ cosn (nα) = 1. se qn ≤q<qn+1 .4. . q)=1 e p/q 6= pn /qn então |α − p/q| ≤ |α − pn /qn | se. . e somente se vale pelo menos uma das seguintes condições: p pn+1 −pn (i) an+1 ≥ 2. 3. para todo α ∈ R. . Seja α=[a0 .5. q)=1 e p/q 6= pn /qn então |α − p/q| < 1/q 2 se. a1 . mdc(p. e somente se. q = qn +qn−1 e (αn+1 − 2)βn+1 < 1. (ii) r = an+1 /2 e αn+2 βn+1 ≥ 1. temos an ≥ λn . se ord α > 2 então existe λ > 1 tal que. 3. 1. Prove que. onde r ∈ N é tal que vale uma das seguintes condições: (i) 0 < r < an+1 /2. a1 . 2a − 2]. a2 . .

. (b) Dadas as sequências {pn } e {qn } definidas recursivamente como p0 = q0 = p1 = 1. q3n+1 = 2nq3n + q3n−1 p3n+2 = p3n+1 + p3n . Bn = p3n+1 − q3n+1 e. 3. . 0 n! Z 1 n x (x − 1)n+1 x Cn = e dx. 0 n! Mostrar que para todo n ≥ 1 se cumprem as relações (i) An + Bn−1 + Cn−1 = 0. Prove que . 1. 0 n! Z 1 n+1 x (x − 1)n x Bn = e dx. q3n+2 = q3n+1 + q3n Mostrar por indução que para todo n ≥ 0 se cumprem as relações An = q3n e − p3n . 1. 1. . 1. . (iii) An − Bn + Cn = 0. 4.4: OS ESPECTROS DE MARKOV E LAGRANGE 131 (a) São dadas as sequências {An }. (c) Mostrar que pn e = lim = [2. 2. . e Cn = p3n+2 − q3n+2 e. 1. 1. . 1. . 6.[SEC. ]. (ii) Bn − 2nAn + Cn−1 = 0. {Bn } e {Cn } definidas por Z 1 n x (x − 1)n x An = e dx. 1. n→∞ qn 3. q3n = q3n−1 + q3n−2 p3n+1 = 2np3n + p3n−1 . q1 = 0 e p3n = p3n−1 + p3n−2 .10. 8. 1. 2n.

p .

.

log log q p .

e − .

mas. para todo ε > 0. < 2 tem infinitas soluções ∈ Q. .

q 2q log q q .

p.

log log q p .

e− .

.< tem apenas um número finito de soluções ∈Q.

.

Seja {an }n∈N a sequência definida por an = n 5 − bn 5c.11. Deter- mine os valores de n ≤ 2011 tais que an seja respectivamente máximo e mı́nimo. . 2 q (2 + ε)q log q q √ √ 3.

12. 3: FRAÇÕES CONTÍNUAS 3.132 [CAP. Mostre que se f : R → R+ decrescente e  .

.

 .

.

p .

.

f (q) p kf (α):= sup k>0 .

.

.

α− .

b2 . e somente se. . 4( 2 − 1)] e a fórmula para k(α) para mostrar que L ⊃ [6. ] então α e β são GL2 (Z)-equivalentes se. então a imagem de kf é {+∞}. caso tenhamos limq→+∞ q 2 f (q) = 0. . √ √ 3. Mostre que. . Dizemos que dois números irracionais α e β são GL2 (Z)-equiva- lentes se existem inteiros a. ] e β = [b0 . a2 . se as frações contı́nuas de α e β são α = [a0 . Conclua que k(α) = k(β) sempre que α e β são GL2 (Z)-equivalentes. . +∞). c. ∀n ≥ n0 . a imagem de kf é (0. a1 . d com |ad − bc| = 1 tais que β = aα+b cα+d . caso limq→+∞ q 2 f (q) = +∞. b. . existem r ∈ Z e n0 ∈ N tais que bn = an+r . se consideramos sup(∅) = 0 neste contexto) e. +∞].14. 3. Use o fato de que C(4) + C(4) = [ 2 − 1. +∞] (ou [0. . .13. b1 .< tem infinitas soluções racionais q k q então.

Este é essencialmente o décimo problema de Hilbert: dada uma equação di- ofantina com qualquer número de variáveis e com coeficientes inteiros. não por eles terem descrito um tal processo mas por eles terem demonstrado que não existe um algoritmo que. até sua demons- . y) que satis- fazem a equação). descrever um processo que determine.Capı́tulo 4 Equações Diofantinas Uma equação diofantina é uma equação polinomial para a qual pro- curamos soluções inteiras ou racionais. Nos capı́tulos anteriores estuda- mos equações diofantinas de grau 1. Hilary Putnam e Ju- lia Robinson. se a equação admite solução inteira. decida se a equação admite solução inteira. O décimo problema de Hilbert é um caso raro em que a solução de um famoso problema de matemática é acessı́vel a um público bastante amplo: uma excelente exposição está em [49]. O leitor deve naturalmente se perguntar se não existe uma teoria mais geral. O mais famoso é provavelmente aquele foi durante séculos conhecido como o último teorema de Fermat. começando com x2 + y 2 = z 2 (ternas pitagóricas). O leitor deve observar que existem muitos problemas famosos em equações diofantinas. em um número finito de passos. pode-se considerar que estudamos de forma bastante com- pleta equações diofantinas de grau 2 com duas variáveis. Com isso. Neste capı́tulo estudaremos várias outras equações diofantinas. Considera-se que este problema foi resolvido por Martin Davis. como ax + by = c (onde a. dada uma equa- ção diofantina. Yuri Matiyasevich. b e c são inteiros dados e queremos identificar todos os pares (x. passando por vários outros polinômios particulares e concluindo com a equação de Pell x2 − Ay 2 = 1.

obtemos portanto . n) = 1.1 Ternas Pitagóricas As triplas de números inteiros positivos (a. Além disso. Assim. b). por exemplo. Temos mdc(c − a. c + a) = 2 pois mdc(a. 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS tração ser completada por Andrew Wiles e seu aluno Richard Taylor: provar que para n ≥ 3 qualquer solução inteira de xn + y n = z n é trivial (no sentido de que xyz = 0). então p | a2 + b2 = c2 =⇒ p | c. um absurdo. já que correspondem aos comprimentos dos lados de um triângulo retângulo de lados inteiros pelo teorema de Pitágoras. c + a) = mdc(2c. b = 2mn. Podemos supor que a. c+a) = 1 e c+a é par. c em termos de m e n. b. = n2 . logo ( ap . 4. pois se houver um primo p tal que p | mdc(a. como (2k + 1)2 = 4k 2 + 4k + 1 ≡ 1 (mod 4) e (2k)2 ≡ 0 (mod 4). discutiremos abaixo alguns casos fáceis deste teorema. cada um destes fatores deve ser o quadrado de um número natural. Por outro lado. 2 2 com mdc(m. pc ) também é tripla pitagórica. c). Resumindo. Portanto b não pode ser ı́mpar pois caso contrário c2 ≡ a2 + b2 ≡ 2 (mod 4). portanto podemos supor sem perda de generalidade que a é ı́mpar. b. c) que satisfazem a equação a2 + b2 = c2 são denominadas triplas ou ternas pitagóricas. c+a c−a = m2 . Vamos encontrar todas as ternas pitagóricas (a. Escrevendo a. c são primos relativos dois a dois. b. quadrados perfeitos são congruentes ou a 0 ou a 1 módulo 4. b. pb . Uma tripla pitagórica cujos termos são primos relativos dois a dois se denomina tripla pitagórica primitiva.134 [CAP. b2 = c2 − a2 = (c − a)(c + a). Daqui a e b não podem ser pares ao mesmo tempo. temos que b é par e c é ı́mpar. Logo c+a c−a 2 e 2 são coprimos e seu produto é um quadrado perfeito. Pelo teorema Fundamental da Aritmética. c) = 1 =⇒ mdc(c.

m2 + n2 ). A condição de m + n ser ı́mpar garante a primitividade da tripla: como mdc(m. que é primitiva pois qualquer di- visor comum de r e s é um divisor comum de a e c. como no caso das ternas pitagóricas. Substituindo temos que a2 + c2 = (r − s)2 + (r + s)2 = 2(r2 + s2 ) = 2b2 .1. basta considerar o caso em que a. b) é uma tripla pitagórica. se m e n têm paridades distintas. c = m 2 + n2 com mdc(m. s. m2 + n2 é ı́mpar. b2 e c2 estão em progressão aritmética. As ternas pitagóricas primitivas (a. e é fácil verificar que tal tripla cumpre o pedido. n) = 1 temos mdc(m2 .2. b. consideremos o seguinte Exemplo 4. b = m2 + n2 . c) tais que a2 . Logo (r. b = 2mn.[SEC.1: TERNAS PITAGÓRICAS 135 Proposição 4. Temos que a e c têm igual paridade (logo são ı́mpares pois mdc(a. Conclui-se que a = m2 − n2 − 2mn. Portanto existem inteiros m e n tais que r = m2 − n2 . que fornecerá uma outra solução simétrica). m2 + n2 ) = mdc(2. que é igual a 1 se. s = 2mn e b = m2 + n2 (ou r = 2mn e s = m2 − n2 . Solução: O problema se reduz a encontrar todas as triplas (a. n) = 1 e m + n ı́mpar. Encontrar todas as triplas de inteiros positivos (a. b. multiplicando seus termos por uma constante. m2 + n2 ) = mdc(2m2 . Todas as demais triplas pitagóricas podem ser obtidas a partir de uma tripla pitagórica primitiva. c = m2 − n2 + 2mn. c) são da forma a = m2 − n2 . e só se. c são dois a dois primos entre si. 4. Como uma aplicação do resultado anterior. m2 +n2 ) = 1 e portanto mdc(a. c) tais que a2 + c2 = 2b2 e. b. . isto é. c) = 1 por hipótese) e portanto existem inteiros r e s tais que c = r + s e a = r − s (é só fazer r = c+a c−a 2 e s = 2 ). b. c) = mdc(m2 − n2 .

via (x. a reta de equação y = −t(x−1). com t ∈ Q. De fato. 0) da circunferência. 2t ) estabelece uma bijeção entre +1 t2 +1 os pontos racionais do eixo y e os pontos racionais P da circunferência x2 + y 2 = 1. Reciprocamente. z) 7→ (x/z. ou seja. y. dado um ponto racional P 6= (1. Esta reta intercepta 2 −1 a circunferência em dois pontos: (1. Estas. y/z). Isto completa a demonstração. t) 7→ ( tt2 −1 . temos que a reta que une P a (1. n) = 1. Os pontos racionais (x.136 [CAP. t22t+1 ). 0) e (x. t)   t2 −1 . é claro que se t ∈ Q então 2 −1 ( tt2 +1 . por sua vez. y) = (1. com ambas as coorde- nadas x. y) (isto é. 0) e (0. y) = 2 . 2t t2 +1 t2 +1 (1. logo intercepta o eixo y em um ponto (0. t) com t ∈ Q. 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS As soluções inteiras primitivas da equação x2 + y 2 = z 2 estão clara- mente em bijeção. m2mn 2 +n2 ).3. 0) 2 Agora observe que (0. podem ser facilmente obtidas através do seguinte método geométrico: Teorema 4. como mostra a figura: (0. com as soluções racionais da equação x2 +y 2 = 1. substituindo t = m n com m. 0). menos o ponto (1. t) com t ∈ Q. Assim. 0) e ( tt2 +1 . obte- m2 −n2 mos as soluções racionais ( m2 +n2 . 0) admite uma equação com coeficientes racionais. que correspondem às ternas . n ∈ Z e mdc(m. t22t+1 ) é um ponto racional da circunferência. y ∈ Q) da circunferência de equação x2 + y 2 = 1 são todos os pontos da forma  2  t − 1 2t (x. t + 1 t2 + 1 Demonstração: Considere a reta passando pelos pontos (1.

4.2. 4. 4. Demonstrar que todas as soluções inteiras de x2 + y 2 + z 2 = t2 são dadas por x = d(m2 − n2 − p2 + q 2 ) y = d(2mn − 2pq) z = d(2mp + 2nq) t = d(m2 + n2 + p2 + q 2 ). b. Demonstrar que a equação x2 + y 2 = 3z 2 não tem soluções inteiras positivas.[SEC. 4.6. Encontrar todos os pares m. Encontrar infinitas triplas primitivas de números (a. Se no problema anterior fixamos b = n. de quantos triângulos retângulos com lados inteiros é n o comprimento da hipotenusa? 4. c) tais que a4 . 4. Dado um número inteiro n. n de inteiros tais que m2 + 4n e n2 + 4m são ambos quadrados perfeitos. b. de quantos triângulos retângulos com lados inteiros é n o comprimento de um cateto? 4. Dica: Mostre que |m − n| ≤ 1.9.5. 4. b4 e c4 estão em progressão aritmética. 4. Encontrar todas as soluções inteiras da equação x2 + y 2 = 5z 2 .11 (APMO1999). m2 + n2 ). c) tais que a3 . Dado um número inteiro n. b e c são inteiros.7.4. n de inteiros positivos tais que m2 − n divide m + n2 e n2 − m divide m2 + n. Encontrar infinitas triplas primitivas de números (a.8. Encontrar todos os pares m. Encontrar todos os triângulos ABC tais que ∠A = 2∠B e seus lados a. b3 e c3 estão em progressão aritmética. 2mn. quantos triângulos satisfa- zem as condições acima? 4. .10 (APMO2002). Problemas Propostos 4. Dica: Mostre que n e m não podem ser simultaneamente positivos.1: TERNAS PITAGÓRICAS 137 pitagóricas (m2 − n2 .3.1. 4.

primos entre si. Teorema 4. z) 6= (0. dois a dois. Agora como by 2 + cz 2 ≡ 0 (mod a) segue que b2 y 2 ≡ −bcz 2 . 4. mas c é livre de quadrados. y inteiros. 4. b. Encontrar todas as soluções inteiras de (a + b)(b + c)(c + a) + (a + b + c)3 = 1 − abc. 0) com x. Demonstre que se n é um inteiro positivo tal que a equação x3 − 3xy 2 + y 3 = n tem uma solução com x. 2 4. Mostre que esta equação não possui soluções inteiras para n = 2891. Seja n um inteiro positivo. De fato. então ela tem ao menos três soluções inteiras. y) da equação x2 − xy + y 2 = n é finita múltiplo de 6.12 (AusPol1994). 0.13 (IMO1982). −bc é quadrado módulo a. e não todos do mesmo sinal. −ac é quadrado módulo b e −ab é quadrado módulo c. 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS 4. y. Basta ver pela simetria da equação que −bc é quadrado módulo a. Demonstrar que o número de soluções inteiras (x.138 [CAP. e somente se. Demonstração: Vamos primeiro mostrar a necessidade. Dica: Considerar a equação módulo 7.14 (OIbM2001).4 (Legendre). c inteiros livres de quadrados. y e z inteiros se. pois se d | mdc(x. A equação ax2 + by 2 + cz 2 = 0 tem solução (x. y e z são primos relativos dois a dois. portanto d | z. Sejam a.2 Equações Diofantinas Quadráticas e Somas de Quadrados Vamos provar um resultado devido a Legendre que fornece um cri- tério para determinar quando uma equação do tipo ax2 + by 2 + cz 2 = 0 tem solução não nula e que dá uma generalização natural das triplas pitagóricas. y) então d2 divide cz 2 . podemos supor que x.

y. z) (mod b) e ax2 + by 2 + cz 2 ≡ L3 (x. com d1 = g1 = 0. z) (mod c). podemos pelo teorema chinês dos restos encontrar duas formas lineares L(x. z2 ). y. z1 ) e (x2 . z2 ) (mod abc) ⇐⇒ L(x1 − x2 . fazendo x̃ = x1 −x2 . Assim. e M ≡ M1 (mod a). onde Lk (x. Note que z deve ser primo com a. módulo a. e1 = 1. h1 = b e i1 = u. z)M1 (x. e logo (byz −1 )2 ≡ −bc (mod a). y1 . b) = 1. ỹ = y1 −y2 e z̃ = z1 − z2 . M ≡ M2 (mod b) e M ≡ M3 (mod c) (basta resolver o sistema de congruências coeficiente a coeficiente). z)M (x. Podemos supor. z̃) ≡ 0 (mod abc). z1 −z2 ) ≡ 0 (mod abc). existe u ∈ Z tal que u2 ≡ −bc (mod a). z)M2 (x. Logo ax2 + by 2 + cz 2 ≡ L(x.[SEC. b e c são primos entre si dois a dois. y2 . donde pelo Princı́pio da Casa dos Pombos existem duas triplas distintas dentre elas. z)M3 (x. ỹ. Provemos agora a suficiência. y1 −y2 . Mk (x. temos que ax2 + by 2 + cz 2 ≡ by 2 + cz 2 ≡ b−1 ((by)2 + bcz 2 ) ≡ b−1 ((by)2 − u2 z 2 ) ≡ b−1 (by − uz)(by + uz) ≡ (y − b−1 uz)(by + uz) ≡ L1 (x. 3. z) = gx + hy + iz tais que L ≡ L1 (mod a). z) = d1 x + e1 y + f1 z. y. z é invertı́vel módulo a. . z1 ) ≡ L(x2 . f1 = −b−1 u. y. z) = g1 x + h1 y + i1 z. ỹ. y. k = 2. y. z) ∈ Zp p |bc|. y1 . 3 com 0 ≤ x ≤ p Consideremos p agora todas a triplas p (x. z̃)M (x̃. com L(x1 . Assim. (x1 .2: EQUAÇÕES DIOFANTINAS QUADRÁTICAS E SOMAS DE QUADRADOS 139 (mod a). y. 0 ≤py ≤ |ac| e 0 ≤ z ≤ |ab|. mas mdc(a. y. M1 (x. z) = gk x + hk y + ik z. y. y. Do mesmo modo. y. teremos que p | by 2 . y. y. ax2 + by 2 + cz 2 ≡ L2 (x. Temos (b |bc|c + 1)(b |ac|c + 1)(b |ab|c + 1) > abc de tais triplas. z) = dk x + ek y + fk z. z) (mod abc). y2 . z) = dx + ey + f z. y. 4. segue que p | y o que contradiz o fato de y e z serem primos entre si. temos ax̃2 + bỹ 2 + cz̃ 2 ≡ L(x̃. b < 0 e c > 0. que a < 0. L ≡ L2 (mod b) e L ≡ L3 (mod c). Por hipótese. M (x. pois se p é primo tal que p | a e p | z. donde. z) onde L1 (x. Como a. sem perda de gene- ralidade. y.

F̂ d livres de quadrados e . a curva fica da forma Ax2 + Cy 2 + F = 0. E ∈ Q. De fato. Ĉ e F̂ k livre de quadrados. a curva fica da forma Ãx̃2 + C̃ ỹ 2 + D̃x̃ + Ẽ ỹ + F̃ = 0. ou ax̃2 + bỹ 2 + cz̃ 2 = −abc. Ĉ) = d devemos ter d | F̂ q 2 . 0. |x̃| < |bc|. donde q = dq 0 . escrevendo A = k 2 Â. c são dois a dois coprimos e livre de quadrados. o que nos dá a solução (x̃z̃ + bỹ. e. Ĉ. b. O teorema de Legendre permite determinar quando uma curva al- gébrica plana de grau 2. D. se não fazemos uma mudança de coordenadas como y = ỹ + x). e. |ỹ| < |ac| e |z̃| < |ab| (de fato. podemos supor que A. se mdc(Â. mas. 0). q) = 1. F̂ )) e que mdc(p. C. Além disso. C e F são inteiros. Assim fazendo x̂ = pq e ŷ = qr . o que resolve o problema. F̂ ) = 1 (se não dividimos por mdc(Â. B. com Â. z̃ 2 + ab) com z̃ 2 + ab 6= 0. devemos então ter ax̃2 + bỹ 2 + cz̃ 2 = 0.140 [CAP. como a. fazendo x = x̃ + 2D̃à e y = ỹ + 2ẼC̃ . e logo d | q (pois d é livre de quadrados). nesse caso. B fazendo x̃ = x + 2A y (podemos supor que A 6= 0. 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS p p p Note que (x̃. possui algum ponto racional (x. obtemos fazendo x̂ = m x e ŷ = ml y a expressão Âx̂2 + Ĉ ŷ 2 + F̂ = 0. Podemos supor mdc(Â. ỹ. obtemos a equação Âp2 + Ĉr2 + F̂ q 2 = 0. Multiplicando pelo mmc dos denominadores dos coeficientes. Ax2 + Bxy + Cy 2 + Dx + Ey + F = 0 com A. e obtemos a equação  2 Ĉ 2 2 p + r + (F̂ d)q 0 = 0 d d  Ĉ com d . temos 0 = (ax̃2 + bỹ 2 + cz̃ 2 + abc)(z̃ 2 + ab) = a(x̃z̃ + bỹ)2 + b(ỹz̃ − ax̃)2 + c(z̃ 2 + ab)2 . r. Como abc | ax̃2 + bỹ 2 + cz̃ 2 . não pode ocorrer a igualdade). d . Ĉ. b < 0 e c > 0 temos que −2abc = a|bc| + b|ac| < ax̃2 + bỹ 2 ≤ ax̃2 + bỹ 2 + cz̃ 2 ≤ cz̃ 2 < |ab|c = abc. y) ∈ Q2 . C = l2 Ĉ e F = m2 F̂ . Como a. z̃) 6= (0. ỹz̃ − ax̃.

 Ĉ .

.

ÂĈ F̂ .

F̂ d.

= .

.

< |ÂĈ F̂ | se d > 1. .

.

.

.

d d d .

.

c não terem o mesmo sinal no teorema de Legendre equivale à existência de pontos reais não triviais na curva. temos que r e s determinam um ponto Q. 1). Derivando a equação da elipse em relação à x. Portanto podemos tomar (por exemplo) a reta r de equação y = − 23 x − 2. Exemplo 4. seja s a reta que liga P a P0 = (1. Agora. como na figura a seguir. 1). Para encontrar os demais.5.2: EQUAÇÕES DIOFANTINAS QUADRÁTICAS E SOMAS DE QUADRADOS 141 Após algumas reduções deste tipo. para um ponto P 6= P0 da elipse.[SEC. começamos traçando uma reta r de coeficientes racionais paralela à reta tangente à elipse no ponto P0 = (1. 1). Note que a hipótese sobre a. digamos (x. obtemos 2x 2yy 0 0 5/2 + 5/3 = 0 e assim y = −2/3 para (x. 5/2 5/3 Solução: É fácil encontrar um destes pontos racionais. y) = (1. como esta reta não é paralela a r. que ilustra o método geométrico que permite encontrar todos os pontos racionais explicitamente. Se há algum ponto racional (x0 . y0 ) numa tal curva. 4. que pode então ser usado para decidir a existência de um ponto racional na curva. então há in- finitos. y) = (1. 1). Isto pode ser visto a partir do exemplo a seguir. obtemos uma equação equivalente como nas hipóteses do teorema de Legendre. s P0 r P Q . b. Encontre todos os pontos racionais da elipse x2 y2 + = 1.

Então a equação da reta s. 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS Vamos mostrar que a associação P 7→ Q define uma bijeção entre os pontos racionais da elipse. 4. Veja mais detalhes na seção 9. Em primeiro lugar. terá coeficientes racionais: y − 1 = a−1 · (x − 1). i. possui coeficientes racionais. P será um ponto racional. que liga dois pontos racionais P e P0 . b) é um ponto racional de r.. ou seja. caracterizamos os números que são somas de dois qua- drados. os pontos racionais P da elipse são obtidos fazendo a percorrer todos os racionais a ∈ Q juntamente com a = ∞. 5 5 a−1 Sabemos que a abscissa x = 1 de P0 é uma das raı́zes. se P é um ponto racional da elipse então a equa- ção da reta s. Logo Q será um ponto racional. intersecção de r com a reta s tangente à elipse no ponto P0 (no plano projetivo. 10a2 + 24a + 87 10a2 + 24a + 87 Assim. sendo a intersecção de duas retas r e s cujas equações têm coeficientes racionais. a ordenada de P também será racional. . que fornece o ponto inicial P0 = (1. e os pontos racionais da reta r. . obtemos a seguinte fórmula para P em função de Q = (a. Como a equação da elipse também tem coeficientes racionais.1 Somas de Dois Quadrados Nesta seção. 1). Como P pertence à reta s cuja equação tem coeficientes racionais. b):  10a2 + 90a + 21 10a2 − 20a − 111  P = . Reciprocamente. excetuando o ponto P0 . é claro!).2.1. a intersecção P 6= P0 de s com a elipse será um ponto racional. que corresponde ao “ponto no infinito” de r. logo a outra raiz (que é a abscissa de P ) é racional também pelas relações de Girard.e. determinada pelos pontos racionais P0 e b−1 Q. suponha que Q = (a. já que isolando y na equação de s e substituindo na equação da elipse obtemos uma equação quadrática com coeficientes racionais 2 2 3 b−1 2 x + 1+ · (x − 1) − 1 = 0. Após algumas contas.142 [CAP. o limite para a → ∞ na expressão acima.

se isto não ocorresse. √ √ Demonstração: Seja q = b mc. b seria invertı́vel módulo p.6.2: EQUAÇÕES DIOFANTINAS QUADRÁTICAS E SOMAS DE QUADRADOS 143 Teorema 4. Para o outro caso. De fato. para mostrar que todo n da forma descrita no teorema é soma de dois quadrados. Assim. o que é absurdo pois p = (−1)(p−1)/2 =  −1 já que p ≡ 3 (mod 4). então a seguinte identidade de números complexos mn = (a2 + b2 )(c2 + d2 ) = |a + bi|2 · |c + di|2 = |(a + bi)(c + di)|2 = |(ac − bd) + (ad + bc)i|2 = (ac − bd)2 + (ad + bc)2 mostra que seu produto também será soma de dois quadrados. digamos m = a2 + b2 e n = c2 + d2 . Consideremos todos os (q + 1)2 números da forma ax − y . então q + 1 > m e portanto (q + 1)2 > m. Agora todo natural n pode se expressar como n = k 2 m onde k e m são inteiros positivos e m é livre de quadrados.[SEC. Se m > 1 é um número natural e a é um inteiro primo relativo com m então existem números naturais x e y não √ nulos menores do que ou iguais a m e tais que algum dos números ax ± y é divisı́vel por m. então p | a e p | b. Se p = 2 temos que 2 = 12 + 12 é soma de dois quadrados. se temos dois números que são soma de dois quadrados. Assim. concluı́mos que todo primo da forma 4k + 3 aparece com expoente par na fatoração canônica de n. Além disso. apenas os números da forma descrita no teorema podem ser soma de dois quadrados. Começamos observando que se p é um primo da forma 4k + 3 que divide n = a2 + b2 . Os únicos números que podem se expressar como soma de dois quadrados são os da forma n = 2s d2 l onde s é um natural e l é um número livre de quadrados tais que seus fatores primos são da forma 4k + 1. 4.7 (Lema de Thue). donde se m pode se escrever como soma de dois quadrados m = a2 +b2 então o mesmo ocorre para n = (ak)2 + (bk)2 . Logo p2 | n e repetindo o processo com n p2 = ( ap )2 + ( pb )2 no lugar de n. logo de a2 ≡ −b2 (mod p) terı́amos que −1 é −1 resı́duo quadrático módulo p. basta mostrar que 2 e todo primo da forma 4k + 1 são somas de dois quadrados. precisamos do seguinte Lema 4.

logo existe a tal que p |  p = (−1) √ a2 + 1. são congruentes módulo m. o que implica y1 = y2 . Consideremos agora os outros valores de d: . se y1 −y2 = 0 então a(x1 −x2 ) será divisı́vel por m. y1 ) e (x2 . Daqui x2 + y 2 = x2 + a2 x2 − a2 x2 + y 2 = x2 (a2 + 1) − (a2 x2 − y 2 ) √ é divisı́vel por p. De igual forma. Observemos que se k = d. portanto p = x2 + y 2 . y < p então 0 < x2 + y 2 < 2p. mas a e m são primos relativos. logo m | x1 − x2 e assim x1 = x2 . veja os teoremas 4. Temos √ √ 0 ≤ xi .8. mas como 0 < x. Para outras demonstrações. outra contradição. 7} e p é primo ı́mpar tal que −d p = 1. Assim podemos desconsiderar este caso e se d = 1 ou d = 2 o problema está resolvido. q. 2. O método anterior pode ser aplicado para obter outras representações de números primos. 1. portanto o número (ax + y)(ax − y) = a2 x2 − y 2 é divisı́vel por p. y tais que (x + ay)(x − ay) ≡ 0 (mod p) ⇐⇒ p | x2 + dy 2 e 0 < x2 + dy 2 < (d + 1)p. yi ≤ m =⇒ |x1 − x2 |. . Retomando o nosso problema inicial. Aplicando o lema anterior. d}. Sejam d ∈ {1. Isto encerra a prova do teorema. existem inteiros 0 < x. existem inteiros x. pelo Princı́pio da Casa dos Pombos dois dos números anteriores. x é múltiplo de d e fazendo x = dz temos que dz 2 + y 2 = p. 3.12. Se x1 − x2 = 0 então y1 − y2 será divisı́vel por m.   Exemplo 4. . Pelo lema de Thue. Portanto a diferença a(x1 − x2 ) − (y1 − y2 ) é divisı́vel por m. 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS onde x e y tomam os valores 0. digamos ax1 − y1 e ax2 − y2 . então −1 (p−1)/2 = 1. se p é um número primo da forma 4k + 1. f ∈ N tais que p = e2 + df 2 . uma contradição.144 [CAP. Solução: Seja a ∈ N tal que a2 ≡ −d (mod p). então existem e. Logo x = |x1 − x2 | e y = |y1 − y2 | satisfazem as condições do enunciado. Como só existem m restos ao se dividir um número por m. . mas os pares (x1 . . 2. y2 ) são diferentes. · · · . Assim. |y1 − y2 | ≤ m.19 e 6. temos x2 + dy 2 = kp com k ∈ {1. y < p tais que algum dos números ax ± y é divisı́vel por p.

−β α −δ γ −(αδ + βγ) αγ − βδ . como x2 ≡ y 2 ≡ 1 (mod 8). Lema 4. o que é contraditório. 3. y ı́mpares temos que x2 ≡ y 2 ≡ 1 (mod 8).2. dividimos toda a expressão por 4. y. Se d = 7 então x2 + 7y 2 = ip com i ∈ {1. y são pares. que também é contraditório. 4. Para a prova vamos precisar dos seguintes lemas. Para todo a. Mas −7 não é resto quadrático módulo 3 nem 5. 2. Se d = 3 então x2 + 3y 2 = p ou 2p. que é contraditório. No caso x2 + 3y 2 = 2p temos que x e y têm a mesma paridade. 5. y são ı́mpares. 2. x. temos que x2 +7y 2 ≡ 0 (mod 8). logo podemos supor que i é ı́mpar. Demonstração: Por comprovação direta. Esta conjectura foi primeiramente provada por Fermat usando a técnica de descenso infinito. 6}. portanto x2 + 7y 2 = p. Assim concluı́mos que x2 + 3y 2 = p. d.2 Somas de Quatro Quadrados e o Problema de Waring Uma pergunta natural é: quantos quadrados precisamos somar para se obter qualquer inteiro positivo? Foi conjecturado por Bachet que todo número natural pode ser escrito como soma de 4 quadrados. 4.[SEC. portanto 2p = x2 +3y 2 ≡ 4 (mod 8). 4. assim se x. e no caso em que x. No caso que x. e no caso em que x.2: EQUAÇÕES DIOFANTINAS QUADRÁTICAS E SOMAS DE QUADRADOS 145 1. mas a primeira prova publicada é devida a Lagrange (1770) e usa a identidade dos quatro quadrados de Euler. z temos que (a2 + b2 + c2 + d2 )(w2 + x2 + y 2 + z 2 ) = (aw + bx + cy + dz)2 + (ax − bw − cz + dy)2 + (ay + bz − cw − dx)2 + (az − by + cx − dw)2 . c. Assim resta considerar os casos em que i = 3 ou 5. b. y são pares temos que 4 | x2 + 3y 2 = 2p.9 (Identidade de Euler). Uma outra maneira é uti- lizar a seguinte identidade de matrizes complexas (a barra denota con- jugado): ! αγ − βδ αδ + βγ    α β γ δ = . w.

c. γ = w + xi e δ = y + zi. b. Se identificarmos a + bi + cj + dk com a matriz   a + bi c + di −c + di a − bi obtemos uma identificação entre quatérnios e as matrizes da demonstra- ção acima. Demonstração: Como 2m = x2 + y 2 então x e y têm a mesma paridade. ki = −ik = j. ij = −ji = k.146 [CAP. jk = −kj = i. O conjunto dos quatérnios é R4 (com a soma e a norma euclidiana) onde escrevemos (a. Substituindo α = a − bi.10. Se p é primo ı́mpar. Portanto m = ( x+y 2 x−y 2 2 ) +( 2 ) . Lema 4. b. Demonstração: Considere os conjuntos n . 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS Calculando determinantes. Se 2m é soma de dois quadrados.11. obtemos (|α|2 + |β|2 )(|γ|2 + |δ|2 ) = |αγ − βδ|2 + |αδ + βγ|2 . então existem inteiros a. Lema 4. d) = a + bi + cj + dk e definimos a multiplicação por i2 = j 2 = k 2 = −1. Esta identidade fica mais natural (e pode ser demonstrada) usando quatérnios: ela se traduz em dizer que |zw| = |z||w| se z e w são quatér- nios. obtemos a identidade acima. β = −c − di. então m também é soma de dois quadrados. k tais que a2 + b2 + 1 = kp.

p − 1o A = a2 ∈ Z/pZ .

0 ≤ a ≤ e .

2 n .

p − 1o B = −b2 − 1 ∈ Z/pZ .

0 ≤ b ≤ .

isto é. 2 Como cada conjunto possui p+1 2 elementos de Z/(p) então A ∩ B 6= ∅. . existem a e b tais que a2 ≡ −b2 − 1 (mod p).

10 basta tomar n = m 2 .9. b. Assim. y. ay + bz − cw − dx e az−by+cx−dw são divisı́veis por m e aw+bx+cy+dz ≡ a2 +b2 +c2 +d2 ≡ 0 (mod m). logo m2 w 2 + x2 + y 2 + z 2 < 4 · = m2 e w 2 + x2 + y 2 + z 2 ≡ 0 (mod m).11 sabemos que existem a. Sejam w. y. Em geral. Pela escolha de w. c. y. b. z temos que os números ax − bw − cz + dy. basta provar que se m > 1 então existe um 0 < n < m tal que np pode se escrever como soma de 4 quadrados.12. para terminar a demonstração.9 temos que 1 1 np = (mp)(nm) = 2 (a2 + b2 + c2 + d2 )(w2 + x2 + y 2 + z 2 ) m2 m  aw + bx + cy + dz 2  ax − bw − cz + dy 2 = + m m  ay + bz − cw − dx 2  az − by + cx − dw 2 + + m m é soma de 4 quadrados. De fato se m é par. portanto pelo lema 4. assim aplicando apropri- adamente o lema 4. Todo inteiro positivo n pode se escrever como soma de 4 quadrados. Este problema é conhecido como problema de Waring e foi respondido afirmativamente por Hilbert em .2: EQUAÇÕES DIOFANTINAS QUADRÁTICAS E SOMAS DE QUADRADOS 147 Teorema 4. x. Demonstração: Pelo lema 4. dois ou quatro dos números a. x. x. 4. z inteiros tais que w ≡ a (mod m) x ≡ b (mod m) y ≡ c (mod m) z ≡ d (mod m) onde w. 4 Portanto w2 + x2 + y 2 + z 2 = nm com 0 < n < m. Como 2 = 12 + 12 podemos supor p primo ı́mpar. d e m inteiros com m > 0 tais que mp = a2 + b2 + c2 + d2 . c. Portanto podemos supor que m é ı́mpar maior que 1. d são pares. 2 ).[SEC. como desejado. z ∈ (− m m 2 . para n ∈ N podemos nos perguntar se existe um inteiro positivo s (dependendo de n) tal que qualquer número natural se escreve como soma de s n-ésimas potências. então nenhum. Pelo lema 4. basta provar o resultado para os nú- meros primos.

Para todo n ≥ 2 temos que  n  3 g(n) = 2n + − 2. Denote por g(n) o menor destes números s. 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS 1909. Sabe-se que g(3) = 9 (Wieferich e Kempner). .2. logo  n   n   3 3 m − (2n − 1)k ≥ 2n − 1 − (2n − 1) −1 2 2  n  3 = 2n + − 2. Se k é o número de potências de 2 nesta soma. então nesta soma só podem aparecer potências de 1 e 2. n k ≤ 32 − 1. temos a seguinte Conjetura 4. mostra quando um número é soma de três quadrados. Como m < 3 . 2  n  Demonstração: Consideremos o número m = 2n 32 −1 e escreva- n mo-lo como soma de n-ésimas potências.3 Somas de Três Quadrados O seguinte teorema. Dress e Deshouillers).  n  n 3 g(n) ≥ 2 + − 2. temos que m − 2n k termos são iguais a 1. assim há (m − 2nk)+ k = m − (2n − 1)k termos nesta soma.148 [CAP. 2 4. provado por Gauß. 2 De fato podemos provar que Teorema 4.14 (Euler). Por outra parte.13 (Euler). O teorema anterior prova que g(2) ≤ 4 e de fato g(2) = 4 já que mostraremos na próxima seção que nenhum número da forma 4k (8s + 7) pode se escrever como soma de três quadrados. Em geral. g(5) = 37 (Jingrun) e g(6) = 73 (Pillai). g(4) = 19 (Balasubramanian.

uma soma de três quadrados não pode ser con- gruente a 7 mod 8. 1. como k 2 mod 8 ∈ {0.2: EQUAÇÕES DIOFANTINAS QUADRÁTICAS E SOMAS DE QUADRADOS 149 Teorema 4. Seja d > 0 o menor inteiro positivo para o qual existem y1 . 4} para todo k ∈ N.15 (Teorema dos Três Quadrados de Gauß). o que é um absurdo pelo já provado. com a. x2 .[SEC. se x. y2 .16. Queremos mostrar que d = 1. com yi0 . i = 1. x3 temos que q 2 n = p21 + p22 + p23 . Demonstração: Notemos inicialmente que. e somente se. y. onde p1 = qx1 . Demonstração: Se n = x21 +x22 +x23 com x1 . z devem ser pares o que. mostrando a necessidade da condição. Um inteiro n ≥ 0 é soma de três quadrados se. y2 = dy20 + z2 e y3 = dy30 + z3 . então n é soma de três quadrados de inteiros. n não é da forma 4a (8b + 7). z) e logo ( 2xa )2 + ( 2ya )2 + ( 2za )2 = 8b + 7. |zi | ≤ d/2. y. Suponhamos por absurdo que d > 1. b = 2(nd − y1 y10 − y2 y20 − y3 y30 ) d0 = ad + b yi00 = ayi + byi0 i = 1. zi ∈ Z. z ∈ Z e x2 + y 2 + z 2 ≡ 0 (mod 4) então x. 3. mos- tra que se x2 + y 2 + z 2 = 4a (8b + 7) então 2a | mdc(x. Definimos 2 2 2 a = y10 + y20 + y30 − n. 3 Temos então 2 2 X X X X yi00 = a2 yi2 + 2ab yi yi0 + b2 yi0 1≤i≤3 1≤i≤3 1≤i≤3 1≤i≤3 2 2 2 = a d n + ab(2nd − b) + b (a + n) 2 = (ad + b)2 n = d0 n . x2 . Para provar a suficiência vamos primeiro mostrar o seguinte Lema 4. y. 2. y3 ∈ N com y12 + y22 + y32 = d2 n. Além disso. x3 ∈ Q e sendo q ∈ N um denominador comum para x1 . Se n ∈ N é soma de 3 quadrados de números racionais. Escrevemos y1 = dy10 + z1 . p2 = qx2 e p3 = qx3 são inteiros. usado repetidamente. 4. b ∈ N. 2.

isso equivale a n ser quadrado módulo m e −m ser quadrado módulo n. existe um a com a ≡ 1 (mod 4) e a ≡ −1 (mod n) e pelo teorema de Dirichlet (ver apêndice A) existem infinitos primos congruentes com a mod 4n. 5. Como m ≡ 1 (mod 4) e m é primo. Pelo teorema de Legendre. Além disso.150 [CAP. 2. então 1≤i≤3 zi2 = dd0 = 0. donde z1 = z2 = z3 = 0 e logo y10 2 + y20 2 + y30 2 = n. existem x. usando o fato que m ≡ 1 (mod 4) e pela lei de reciprocidade quadrática . existem t e z racionais com nt2 − z 2 = m se. Se n ≡ 1 (mod 4) ou seja n mod 8 ∈ {1. e se ñ = x2 + y 2 + z 2 então n = (ax)2 + (ay)2 + (az)2 . Podemos supor que n é livre de quadrados: sempre podemos escrever n = a2 · ñ. a é ı́mpar. absurdo. soma de 3 quadrados de inteiros. 5}. pelo lema. Temos agora alguns casos: 1. Para concluir a prova do teorema dos 3 quadrados. Tal primo existe pois. e somente se. Além disso. mas −m ≡ 1 = 12 (mod n). pelo teorema chinês dos restos. o que contradiz a minimalidade de d. 3. v e w inteiros não nulos tais que nu2 − v 2 − mw2 = 0. dado n ∈ N que não seja da forma 4a (8b + 7). Por outro lado. como n não é múltiplo de 4. 4 1≤i≤3 donde 0 ≤ d0 ≤ 34 P d < d. z. pois n = ( xt )2 + ( yt )2 + ( zt )2 será soma de 3 quadrados de racionais e. y tais que x2 + y 2 = m. t com t 6= 0 tais que x2 + y 2 = m e nt2 − z 2 = m. 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS e  X    2 X dd0 = ad2 + bd = d2 yi0 − n + 2d nd − yi yi0 1≤i≤3 1≤i≤3 2 X X X X = yi2 − 2d yi yi0 2 +d yi0 = (yi − dyi0 )2 1≤i≤3 1≤i≤3 1≤i≤3 1≤i≤3 X 3 = zi2 ≤ d2 . 6}. Basta provar então que existem um inteiro m > 0 e racionais x. y. existem u. onde ñ é livre de quadrados. Note que se d0 = 0. dividindo-o por uma potência de 4 conveniente podemos supor n mod 8 ∈ {1. tomamos m primo m ≡ 1 (mod 4) e m ≡ −1 (mod n). e logo a2 ≡ 1 (mod 8). donde n = a2 ñ ≡ ñ (mod 8). se n = p1 p2 · · · pk com os pi primos.

com pi primos. Vamos mostrar que n é quadrado módulo m.2: EQUAÇÕES DIOFANTINAS QUADRÁTICAS E SOMAS DE QUADRADOS 151 obtemos   n Y  pi  Y m = = . tomamos m = 2q com q primo. em particular m ≡ −1 (mod pi ). assim pi −1 m −1   pi = pi = (−1) 2 . Temos como antes −m ≡ 1 (mod n). Sendo n = p1 · · · pk . Lembramos que se m ≡ 1 (mod 8) então m = 1 e se m ≡ 5 2 (mod 8) então m = −1. portanto m = 1. 3} = pi pi −1 se pi mod 8 ∈ {5. Basta mostrar que m pode ser escolhido de modo que n seja quadrado módulo m. Temos     Y     Y   n 2 pi 2 m = = m m m m pi 1≤i≤k 1≤i≤k   Y   2 −1 = . temos   Y pi  Y q n = = q q pi 1≤i≤k 1≤i≤k    Y  2 −1 Y 2 2q = = pi pi pi pi 1≤i≤k 1≤i≤k e    ( 2 −1 1 se pi mod 8 ∈ {1. 2. donde −m é um quadrado módulo n. q ≡ 1 (mod 4) e 2q ≡ −1 (mod n). m ≡ 1 (mod 4) e m ≡ −1 (mod n/2). 7} . Se n ≡ 3 (mod 8). onde os pi são primos ı́mpares distintos. basta mostrar que é quadrado módulo q. 3.[SEC. donde −m é um quadrado módulo n. Mas o número de fatores pi de n congru- n  entes com 3 (mod 4) é par pois n ≡ 1 (mod 4). Se n é par. que pode ser 1 ou 2 5. ainda temos o direito de escolher a classe de congruência de m módulo 8. Tomemos como antes m primo. como querı́amos. 4. como n é quadrado módulo 2. ou seja n mod 8 ∈ {2. Temos como antes −m ≡ 1 (mod n). m m pi 1≤i≤k 1≤i≤k Mas m ≡ −1 (mod n). 6}. m pi 1≤i≤k Basta então escolher  Q a classe de congruência de m nmódulo 8 de 2 = 1≤i≤k −1  modo que m pi para que tenhamos m = 1. temos que n = 2p1 · · · pk .

.2. 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS Como 1·1 ≡ 3·3 ≡ 5·5 ≡ 7·7 ≡ 1 (mod 8). 0 ≤ ri < 1} chamado de paralelogramo fundamental associado à base ω1 . ωn . 7} mod 8. . . . 1·3 ≡ 5·7 ≡ 3 (mod 8). ωn )|. 7}. . . .152 [CAP. 1 · 5 ≡ 3 · 7 ≡ 5 (mod 8) e 1 · 7 ≡ 3 · 5 ≡ 7 (mod 8). pois quaisquer duas destas bases estão relacionadas por uma matriz de mudança de base de determinante ±1. Note que vol(Λ) independe da escolha da base que gera Λ.17. . . Assim temos nq = 1. pois caso contrário n mod 8 ∈ {5. Um reticulado Λ em Rn é um conjunto da forma Λ = Zω1 + · · · + Zωn = {a1 ω1 + · · · + an ωn | ai ∈ Z} para alguma base ω1 . como o volume do conjunto P = {r1 ω1 + · · · + rn ωn | ri ∈ R. ω1 ω2 . 4. Definimos o volume deste reticulado como vol(Λ) = | det(ω1 . Por exemplo. . Com isto. a figura a seguir mostra um reticulado em R2 . encerramos a prova do teorema dos três quadrados. ou seja.4 Teorema de Minkowski Nesta seção veremos como algumas técnicas geométricas podem ser utilizadas no estudo de somas de quadrados. n deve ter uma quantidade par de fatores pertencentes a {5. ωn de Rn . Começamos com uma Definição 4. . .

Considere o reticulado em R2 def Λ = {(a. 4.[SEC. Como vol( 12 V ) = 21n vol(V ) > vol(Λ) = vol(P ). Conside- rando o quociente 21 V /Λ. escrevemos a ≡ b (mod Λ) ⇐⇒ a − b ∈ Λ (a. 0 6= v−w 2 ∈Λ∩V. −w ∈ V =⇒ 2 ∈ V pelas hipóteses 1 e 2. pelo princı́pio da casa dos pombos contı́nuo existem i 6= j tais que (τi + 21 Ui ) ∩ (τj + 21 Uj ) 6= ∅. podemos particionar 12 V em uma quantidade enumerável de subconjuntos mensuráveis Ui tais que existam τi ∈ Λ com τi + Ui ⊂ P . Assim. 2. Demonstração: Seja P o paralelogramo fundamental determinado 1 v por uma base ω1 .e. Todo primo p da forma 4k+1 é soma de dois quadrados. Teorema 4. . Mas 2 ∈ V v−w v−w também. w ∈ V tais que v2 ≡ w2 (mod Λ) ⇐⇒ v−w v−w 2 ∈ Λ com 2 6= 0. isto é. b) ∈ Z2 | a ≡ bx (mod p)}. V é convexo. 3. ωn de Λ e seja 2 V = 2 | v ∈ V . vol(V ) > 2n vol(Λ). V é simétrico com relação à origem (i. . temos que existe um inteiro x tal que x2 ≡ −1 (mod p) pois −1 p = (−1)(p−1)/2 = 1. existem dois pontos distintos v. pois w ∈ V =⇒ −w ∈ V e v. Seja Λ ⊂ Rn um reticulado e V ⊂ Rn é um subconjunto mensurável tal que 1. Demonstração: Como antes.19. . . O principal resultado desta seção é o seguinte Teorema 4. v ∈ V =⇒ −v ∈ V ). respectivamente. . Então existe um ponto em V ∩ Λ diferente da origem.2: EQUAÇÕES DIOFANTINAS QUADRÁTICAS E SOMAS DE QUADRADOS 153 Dado um reticulado Λ ⊂ Rn .18 (Minkowski). Agora podemos apresentar duas novas provas curtas dos teoremas que caracterizam primos que são soma de dois e quatro quadrados. b ∈ Rn ) Esta relação define uma relação de equivalência em Rn e um conjunto de representantes do quociente Rn /Λ é dado justamente pelo paralelogramo fundamental.

Problemas Propostos 4. logo Λ contém um a cada p2 pontos 4 p em Z ). Todo primo p é soma de quatro quadrados. Temos que Λ tem volume p2 (fixados c e d. v tais que u2 + v 2 + 1 ≡ 0 (mod p). a e b ficam determinados módulo p. b) 6= (0.15. p 0) em Λ que pertence ao cı́rculo com centro na origem e cujo raio é 3p/2 pois a área deste cı́rculo é 3pπ/2 > 22 p = 22 vol(Λ). Demonstração: Pelo lema 4. c.11. d) ∈ Λ tal que 0 < a2 + b2 + c2 + d2 ≤ 19p/10 < 2p. d) ∈ Z4 | a ≡ cu + dv (mod p) e b ≡ cv − du (mod p)}. Considere o reticulado em R4 dado por def Λ = {(a. 0 < a2 + b2 < 3p/2 e a2 + b2 ≡ b2 (x2 + 1) (mod p) ⇐⇒ a2 + b2 ≡ 0 (mod p) Ou seja.154 [CAP. temos que existem inteiros u. Portanto. Teorema 4. b. Porém a2 + b2 + c2 + d2 ≡ (c2 + d2 )(u2 + v 2 + 1) (mod p) 2 2 2 2 ⇐⇒ a + b + c + d ≡ 0 (mod p) Logo a2 + b2 + c2 + d2 = p. Assim. c.20. A esfera de raio r em R tem volume π r /2. b. 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS Temos que o volume de Λ é p (fixado b. pelo teorema de Minkowski. a é determinado módulo p. logo Λ contém um em cada p pontos de Z2 ). (a) x2 + 2y 2 = 3 (b) x2 − y 2 = 1 (c) x2 + xy + y 2 = 2 (d) 13x2 − xy − y 2 = 1 . a2 + b2 = p. Encontre todos os pontos racionais das seguintes cônicas. existe um ponto (a. como π 2 ( 19p 4 2 4 2 10 ) /2 > 24 vol(Λ) = 16p2 pelo teorema de Minkowski existe um ponto (a. Tomando r = 19p/10.

. . . . sob certas condi- ções. r + q < 2n . Seja n um inteiro positivo.3 Descenso Infinito de Fermat Dada uma equação f (x1 . 2 3 Observe que a conjectura de Euler implica que. até mesmo encontrar todas as suas soluções inteiras. xn ) ∈ Zn | f (x1 . . . f números naturais tais que ef > n com e > 1 e f < n. para todo k ≤ S(n).18. Então para todo a com mdc(a. Então  n   n  n 3 4 g(n) ≥ 2 + + − 3. o método do descenso infinito (quando aplicável) permite mostrar que esta equação não possui soluções inteiras positivas ou. Seja n um número natural positivo e e. Suponha que 3n = q2n + r com r < 2n e r + q ≥ 2n . para todo n. 4.16. então tal número é primo. Se o conjunto de soluções de f A = {(x1 . . Mostre que S(n) ≤ n2 − 14 para cada n ≥ 4. Demonstrar que se um número pode ser escrito como soma de dois quadrados de forma única. xn ) = 0. Demonstre que existem infinitos inteiros n tais que S(n) = n2 −14. . 4. . Seja p > 5 um número primo. 4. 3. 4. 4. xn ) = 0} . a menos da ordem dos somandos. 2. n) = 1 a congruência ay ≡ ±x (mod n) tem solução com 0 < x < e e 0 < y < f . . Prove a seguinte generalização do lema de Thue. Encontre um inteiro n tal que S(n) = n2 − 14. 4.[SEC.3: DESCENSO INFINITO DE FERMAT 155 (e) x2 + y 2 + 2xy + x − y = 20 (f ) 3x2 − 7y 2 = 1 4.19. n2 pode se escrever como soma de k quadrados positivos. 1. Mostrar que p = x2 + 5y 2 tem soluções inteiras se e somente se p ≡ 1 ou 9 (mod 20). Denotemos por S(n) o maior inteiro tal que. .17 (Scholz).20 (IMO1992). .

primos entre si. c) na qual c é mı́nimo. . Portanto s2 = n2 = ij. xn ) ∈ A com φ(x1 .21 (Fermat). então gostarı́amos de considerar a solução “mı́nima” em certo sentido. donde podemos encontrar inteiros positivos s e t tais que 2n = 4s2 e m = t2 . uma ainda menor. dc2 ) e obter uma solução com c menor. de b2 = 2mn concluı́mos que b. Demonstrar que a equação x4 + y 4 = z 2 não possui soluções inteiras positivas. . m) = 1. Assim. o que nos conduz claramente a uma contradição. Em outras palavras. Solução: Suponhamos que x4 + y 4 = z 2 possui uma solução inteira com x. b2 = 2mn e c = m2 + n2 . De (a2 )2 + (b2 )2 = c2 temos portanto que (a2 . Logo existe uma solução (a. z > 0. y.156 [CAP. Por outra parte. O descenso consiste em obter. e portanto n. então existirão inteiros positivos i e j. Observando ainda que b2 = (2n)m é um quadrado perfeito e mdc(2n. b. . concluı́mos que tanto 2n como m são qua- drados perfeitos. . . j = v 2 e m = t2 . db . provando que A é de fato vazio. . Para ilustrar este método consideremos o seguinte Exemplo 4. Em particular. xn ) mı́nimo. é par. tais que a = i2 − j 2 . m) é uma tripla pitagórica primi- tiva e portanto m é ı́mpar. . dado que a2 +n2 = m2 . c) é uma tripla pitagórica primitiva e assim existem inteiros positivos m e n primos relativos tais que a2 = m2 − n2 . b2 . queremos construir uma função φ : A → N e considerar a solução (x1 . a partir desta solução mı́nima. n. Temos da primeira equação que (a. temos que a e b são primos entre si. . . pois se d = mdc(a. i = u2 . Logo temos que m = i2 + j 2 . b. 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS é diferente de vazio. digamos i = u2 e j = v 2 . n = 2ij e m = i2 + j 2 . assim t2 = u4 + v 4 . logo i e j serão quadrados perfeitos. c) por ( ad . b) > 1 poderı́amos substituir (a.

(u. Determine todos os pares de inteiros posi- tivos (a. Isto contradiz a minimalidade de c. . Fn ). b) com a = b. Porém t ≤ t2 = m ≤ m2 < m2 + n2 = c e t 6= 0 porque m é diferente de 0. v. Invertendo o processo. . 1). 1). Encontrar todas as soluções inteiras posi- tivas da equação m2 − mn − n2 = ±1. . mais geralmente x4n + y 4n = z 4n .23 (IMO2003). Para isto observemos que n2 − n(m − n) − (m − n)2 = n2 − nm + n2 − m2 + 2mn − n2 = n2 + nm − m2 = −(m2 − nm − n2 ) = ∓1. m−n) também é solução. com igualdade se. (m. e só se. n). . n) é solução então (m + n.[SEC. . se (m. onde Fn representa o n-ésimo termo da sequência de Fibonacci.3: DESCENSO INFINITO DE FERMAT 157 isto é. isto é. Exemplo 4. e este processo parará quando atingirmos uma solução (a. encontraremos portanto todas as soluções. uma vez que esta equação não possui so- luções inteiras positivas. se temos uma solução (m. Assim. 1). 4. ou seja. n) = (1. . Exemplo 4. m) é solução. . Portanto todas as soluções positivas são (1. podemos encontrar uma cadeia descendente de soluções. b) para os quais a2 2ab2 − b3 + 1 é um inteiro positivo. Solução: Note que m2 = n2 + mn ± 1 ≥ n2 =⇒ m ≥ n. então a equação x4 +y 4 = z 4 e.22 (IMO1981). n) uma solução com m > n. (3. (Fn+1 . . Demonstremos que (n. a solução (1. que é claramente uma solução. o que conclui a demonstração. Agora seja (m. 2). t) é outra solução da equação original. não possuem soluções inteiras positivas. (2. Observemos além disso que. 1).

isto é. b) = (l. z) é uma solução com x ≤ y ≤ z com z > 1. somente as soluções com as coordenadas x ≤ y ≤ z ordenadas de forma não decrescente. Segue que 5y 2 ≥ y 2 + z 2 = 3xyz − x2 = x(3yz − x) ≥ xy(3z − 1). suponhamos 2 2 por contradição que x +yz = z 0 ≥ y. a kb2 2 Desta forma. 1) e (1. 3 Mas este polinômio possui outra solução inteira a1 = 2kb2 −a = k(b a−1) ≥ 0. ou b = 1 ou a1 = 2b e neste último caso k = b4 e a = b4 b 2 − 2 . e assim (z 0 . . 2l). (2l. assim (a1 . com l ∈ N. assim a outra é z 0 = 3xy − z = x2 +y 2 z ∈ Z \ {0}. podemos considerar. 1. e portanto a ≥ 2b . O polinômio quadrático T 2 − 3xyT + (x2 + y 2 ) = 0 possui duas soluções. Para isto. É óbvio que (1. Logo 2ab2 −b3 +1 ≥ 1. Vejamos que se y > 1 então z 0 < y. 1) ou 4 (8l − l. 4.1 Equação de Markov A equação de Markov é a equação diofantina em inteiros positivos x2 + y 2 + z 2 = 3xyz. sem perda de generalidade. 1. como a equação é simétrica. Supondo que a é a maior raiz. b) uma solução inteira positiva. 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS Solução: Seja (a. yz ≤ x2 + y 2 ≤ 2y 2 . No caso a = 2b . em particular z ≤ 2y. b) também é solução do problema se b > 1. y. Para qualquer outra solução. y) é também solução (menor) da equação de Markov. 2) são soluções da equação. 2l). então a é raiz do polinômio com coefi- cientes inteiros x2 − 2kb2 x + k(b3 − 1) = 0. x. é claro que obtemos uma solução.3. Portanto as soluções do problema são (a. Assim suponhamos que (x. a2 Agora se 2ab2 −b 3 +1 = k ∈ N. a > 2b e nesse caso a2 ≥ 2ab2 − b3 + 1 = b2 (2a − b) + 1 > b2 =⇒ a > b. Além disso. e uma dela é z. de a ≥ a1 teremos que a ≥ kb2 e assim k(b3 − 1) k(b3 − 1) a1 = ≤ < b.158 [CAP.

ou y = z e substituindo na equação original temos que 1 + y 2 + y 2 = 3y 2 . z) e (x2 . 4. o que contradiz o fato de z > 1. z) são soluções da equação de Markov temos necessariamente (x1 . o que contradiz y > 1. o que é 2 contraditório. Observemos que se x ≥ 2. 5. Logo x = 1 e 1+y y ≥ z. 13. 13) (2.2 Último Teorema de Fermat Um dos mais famosos problemas na história da Matemática e tal- vez um dos que mais inspirou o desenvolvimento de novas teorias é o . 29) (1. y. 29. para cada t real.3: DESCENSO INFINITO DE FERMAT 159 e portanto 5y ≥ x(3z − 1). 2. 1) (1. 5) (1. 433) Um importante problema em aberto relacionado com a equação de Markov é o problema da unicidade. y2 ) ? Se o problema da unicidade admitir uma solução afirmativa. y1 . sua pré-imagem k −1 (t) pela função k definida na seção 3. que não é solução. y) e este processo somente para quando chegamos à solução (1. 13. 4. estamos gerando uma árvore de soluções da seguinte forma: (1. x. temos que dada uma solução da equação de Mar- kov (x. y1 . Portanto ou temos y1 + y = z. 1.[SEC. isto é. x2 . z) com z ≥ 2 é sempre possı́vel encontrar uma solução me- nor (z 0 . 169) (5. o que implica que z = y = 1.10). 29. y2 . Do fato anterior. 1. e neste caso y = 1 e z = 2. assim y1 + y ≥ z ≥ y. 34) (5. 194) (2. y1 ) = (x2 . z com x1 ≤ y1 ≤ z e x2 ≤ y2 ≤ z tais que (x1 . 1. 1). então 5y ≥ 2(3z − 1) ≥ 5z e portanto x = y = z = 2. y2 . 2) (1.4 consistirá de uma única classe de GL2 (Z)-equivalência (veja o exercı́cio 3. 5. proposto por Frobenius há cerca de 100 anos em [55] (veja também [28]): para quaisquer inteiros positivos x1 .3.

como conjecturado por G. que tinha o costume de fazer anotações nas mar- gens de sua cópia do livro de Diofanto.160 [CAP. quando p | xyz. provou o último teorema de Fermat para todo p < 100. Mirimanoff e Vandiver provaram respectivamente que p deve satisfazer 3p−1 ≡ 1 (mod p2 ) e 5p−1 ≡ 1 (mod p2 ). insere-se no contexto mais geral da chamada conjectura de Taniyama-Shimura-Weil sobre curvas elı́pticas (veja o capı́tulo 9 para uma introdução a curvas elı́pticas). Legendre provou o teorema para p primo quando 4p + 1. Começamos com um . A demonstração original dada por Euler para o caso n = 3 é incompleta já que supõe a fatoração única em irredutı́veis para extensões de Z (veja mais detalhes sobre este ponto no teorema 6. Ribet em 1986. Para mostrar a inexistência de soluções de (∗).2). que implica a solução do último teorema de Fermat. com isto. 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS chamado último teorema de Fermat. quando p - xyz. mas a margem é demasiado pe- quena para contê-la”. De fato. z tais que xn + y n = z n (∗) quando n é um inteiro maior do que 2: “encontrei uma demonstração verdadeiramente maravilhosa para isto. Muitos casos particulares foram mostrados ao longo da história. Em 1909 Wieferich provou que se a equação de Fermat tem solução para p. Esta demonstração envolve ideias bastante avançadas e está muito longe do escopo deste livro. então 2p−1 ≡ 1 (mod p2 ). Para uma introdução às técnicas utilizadas na prova. e o segundo. tais primos são chamados primos de Wieferich. os quais se dividem em dois tipos: o primeiro. y. basta considerar os expoentes primos. Em 1849. Tal demonstração.17). Kummer obteve uma prova para todos os chamados primos regulares. Para dar uma ideia da dificuldade deste problema. 10p + 1. devida a Andrew Wiles e Richard Taylor ([151] e [146]). 8p + 1. Frey em 1985 e provado por K. Sophie Germain provou o primeiro caso para todo primo p tal que 2p + 1 também é primo (veja a proposição 7. enunciou o teorema que afirma ser impossı́vel encontrar inteiros positivos x. veja [39]. e Frobenius provou este mesmo resultado para 11 e 17 no lugar de 3 e 5. A demonstração do último teorema de Fermat somente foi obtida depois de mais de trezentos anos após sua formulação. Pierre de Fermat. vejamos uma prova baseada na de Leonhard Euler para o caso n = 3. mais difı́cil. 14p + 1 ou 16p + 1 é primo.

[SEC. d) = 1. O caso em que s tem um divisor primo é exatamente o resultado anterior. 3n) = 1. Então a2 ≡ −3b2 (mod p) e como b é invertı́vel módulo p temos     −3 p = 1 ⇐⇒ = 1 ⇐⇒ p ≡ 1 (mod 6) p 3 pela lei de reciprocidade quadrática. Seja p um número primo tal que p | s. m1 ) = mdc(p. Pelo exemplo 4. Demonstração: É fácil verificar que tais números fornecem uma so- lução da equação e. b) = 1 e s é ı́mpar. Procederemos por indução sobre o número de divisores primos de s.3: DESCENSO INFINITO DE FERMAT 161 Lema 4. b. Agora. Todas as soluções de s3 = a2 + 3b2 em inteiros positivos tais que mdc(a. como mdc(a. e tere- mos que p3 = c2 + 3d2 onde c = m31 − 9m1 n21 e d = 3m21 n1 − 3n31 .8 (ou teorema 6.17) sabemos que existem inteiros m1 e n1 tais que p = m21 + 3n21 . suponhamos que o resultado valha para todo s que tenha k fatores primos (não necessariamente dis- tintos). m2 − n2 ) = mdc(8n2 . 3n(m2 − n2 )) = mdc(m2 − 9n2 . além disso. Reciprocamente. p . suponhamos que (a. observemos que t3 p6 = s3 p3 = (a2 + 3b2 )(c2 + 3d2 ) = (ac ± 3bd)2 + 3(ad ∓ bc)2 . Se s = 1 o resultado é evidente. Note que. m2 − n2 ) = 1. a = m3 − 9mn2 . b) = mdc(m(m2 − 9n2 ). b = 3m2 n − 3n3 . Além disso como (ad + bc)(ad − bc) = (ad)2 − (bc)2 = d2 (a2 + 3b2 ) − b2 (c2 + 3d2 ) = p3 (t3 d2 − b2 ). Se s tem k + 1 fatores primos. digamos s = pt com p primo (p > 3). mdc(a.24. Note que mdc(p.b e p > 3. . b) = 1. n1 ) = 1 e p > 3 e portanto mdc(p. como na demonstração acima de que mdc(a. 4. s) é solução da equação. com m + n ı́mpar e mdc(m. p . c) = mdc(p. b) = 1 e s é ı́mpar são dadas por s = m2 + 3n2 .a.

podemos assumir que x > y. y. Como t tem k fatores primos segue por hipótese de indução que t = m22 + 3n22 . d) = 1. teremos que p | ad e p | bc. Note que x = y é impossı́vel pois caso contrário 2x3 = z 3 e o expoente da maior potência de 2 do lado direito seria múltiplo de 3. . dado que a = uc+3vd e b = ±(ud−vc). 2) em s. enquanto que do lado esquerdo não. e tomando adequadamente os sinais teremos que ac ± 3bd ad ∓ bc u= 3 . A equação diofantina x3 + y 3 = z 3 não possui solu- ções inteiras com xyz 6= 0. Assim.162 [CAP. c e d em termos de mi e ni (i = 1. v = 3m22 n2 − 3n32 . o que implica que p | a e p | b. a e b e fazendo m = m1 m2 +3n1 n2 . v. y. podemos escrever x = p + q e y = p − q com p > 0 e q > 0 primos relativos (pois x e y são primos relativos) e de diferente paridade. obteremos o que querı́amos demonstrar. substituindo t. n = m1 n2 − m2 n1 . Como qualquer fator comum de dois destes números é tam- bém fator do terceiro. 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS então p3 | (ad + bc)(ad − bc). Lembre que mdc(p. Agora. Suponha primeiro que x e y são ı́mpares e z par. Se p divide os dois fatores. z são primos relativos dois a dois. Demonstração: Suponhamos que a equação x3 + y 3 = z 3 possui uma solução com x. u = m32 − 9m2 n22 . Proposição 4. o que contradiz a hipótese mdc(a. p3 divide exatamente um dos fatores. podemos afirmar que x. c) = mdc(p. assim x3 + y 3 = (x + y)(x2 − xy + y 2 ) = 2p((p + q)2 − (p + q)(p − q) + (p − q)2 ) = 2p(p2 + 3q 2 ). O método utilizado por Euler para demonstrar o caso n = 3 é basi- camente o método de descenso infinito. b) = 1. sem perda de generalidade. Em particular um de tais números será par. Assim. v= p p3 são inteiros tais que t3 = u2 + 3v 2 . z > 0 e escolhemos está solução de tal forma que xyz seja mı́nimo. u.25.

y.3: DESCENSO INFINITO DE FERMAT 163 Portanto 2p(p2 + 3q 2 ) é um cubo perfeito.[SEC. p = m3 − 9mn2 . m − 3n = f 3 e m + 3n = g 3 .24. então p = 3r com mdc(r. . r = 3m2 n − 3n3 . teremos que f 3 + g 3 = e3 . q = 3m2 n − 3n3 . o que contradiz a escolha de x. z. y. existiriam inteiros m e n tais que b = m2 + 3n2 . logo existem inteiros e. Segue que e3 +f 3 = g 3 . De novo. Em particular. 3). Como p2 + 3q 2 é ı́mpar e 2p(p2 + 3q 2 ) é um cubo perfeito temos que p será par. f e g tais que 2m = e3 . obtemos mdc(p. No primeiro. q) = 1. f e g tais que 2n = e3 . Daqui segue que a3 = 27(2n)(m − n)(m + n). q = m3 − 9mn2 . De igual forma. no caso em que z é ı́mpar e x ou y é par. m − n = f 3. teremos uma solução menor. p2 + 3q 2 ) = mdc(p. e substituindo z = q + p e y = q − p obteremos x3 = z 3 − y 3 = 2p((p + q)2 + (p + q)(q − p) + (q − p)2 ) = 2p(p2 + 3q 2 ). que também contradiz a minimalidade da solução (x. m − 3n e m + 3n são primos relativos. existem naturais a e b tais que a3 = 2p e b3 = p2 + 2 3q . 4. podemos supor sem perda de generalidade que y é ı́mpar. Calculando o máximo comum divisor entre p e p2 + 3q 3 . z). logo z 3 = 18r(3r2 + q 2 ) ou x3 = 18r(3r2 + q 2 ) e portanto existem inteiros positivos a e b tais que 18r = a3 e 3r2 + q 2 = b3 . 3) = 1 e mdc(p. Observemos que os números 2m. que existem inteiros m e n de diferente paridade e primos relativos tais que b = m2 + 3n2 . Como ef g = a3 = 2p ≤ x + y < xyz. Portanto há dois casos: mdc(p. Logo a3 = 2m(m − 3n)(m + 3n). m + n = g3. pelo lema 4. No caso em que 3 | p. m−n e m+n são primos relativos. portanto existem inteiros positivos e. 3q 2 ) = mdc(p. Neste caso sabemos. 3) = 3. De igual forma teremos que os números 2n.

Mostre que se 2 2 k + k + n é primo para todo k tal que 0 ≤ k ≤ 3 . 4. 4.164 [CAP. 63 63 216 o que gera uma solução não trivial da equação x3 +y 3 = z 3 . Seja n um inteiro maior ou igual p n a 2.21. Demonstrar que a equação x2 + 432 = y 3 não tem soluções racionais diferentes de (±36. substituindo temos n3 a2 n3 b3 n3 u3 + v 3 − w3 = 2n3 + − = (432 + a2 − b3 ) = 0.25 (IMO1988).27.26. v = n − k 6= 0 e w = 2m. Prove que se a e b são inteiros positivos tais que 4ab − 1 | (4a2 − 1)2 então a = b. m. Seja u = n + k 6= 0. 12). 4. 4. ab + 1 4. Como a e b são racionais. demonstrar que é um quadrado perfeito. Dados inteiros a e b tais que o número ab + 1 divide a2 + b2 a2 + b2 . m) de números inteiros tais que n | m2 + 1 e m | n2 + 1. 4.26 (IMO2007). um absurdo. b) com a b 6= 12. então 36 = nk 6= ±1 e 12 b =m n 6= 1 com k.22. Encontrar todos os pares (n. 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS Exemplo 4. Solução: Suponhamos que a equação possui uma solução (a. . Problemas Propostos 4. Demonstrar que não existe um triângulo retângulo com lados in- teiros tal que sua área seja um quadrado perfeito. Demonstrar que a equação 3x2 +1 = y 3 não tem soluções racionais diferentes de x = ±1 e y = 1. então k + k + n é primo para todo k tal que 0 ≤ k ≤ n − 2.24 (IMO1987). n ∈ Z. Como u3 + v 3 − w3 = 2n3 + 6nk 2 − 8m3 an bn ek= 36 . y e z são inteiros com x3 + py 3 + p2 z 3 = 0 então x = y = z = 0. Prove que se x.23. m = 12 . Seja p um primo.

4. os únicos valores de n menores que 100 para os quais não se sabia se existe ou não solução inteira eram 33. Demonstrar que a equação x3 +y 3 +z 3 = 1 possui infinitas soluções inteiras. t) = 1). com mdc(x. e 74. −2218888517.e. Se mdc(m. −61922712865) para n = 52 (ver [9]). y são de igual paridade então x = m + n. y. 4. 4.29. Demonstrar que a equação x3 + y 3 + z 3 = n com n = 9k ± 4 não possui soluções inteiras. Usar a caracterização das soluções da equação s3 = m2 + 3n2 para chegar a uma solução menor que a inicial. z. y = m − n. 23961292454. para n = 30 e em 2000 foi encontrada a solução (60702901317.30. Dica: Como x.31.[SEC. m2 + 3n2 ) = 1 e cada um deles é um cubo. Demonstrar que a equação x3 + y 3 + z 3 = t3 possui infinitas solu- ções inteiras positivas primitivas (i.e.3: DESCENSO INFINITO DE FERMAT 165 4.28. além das com x = y = z). 2220422932). 4. Demonstrar que a equação x3 + y 3 = 2z 3 não possui soluções inteiras positivas não triviais (i. Em maio de 2013. 3) = 1 concluir que mdc(m. .. 42. Observação: Em 1999 foi encontrada a solução (−283059965.

q) = 1 =⇒ mdc(p2 . donde p2 /q 2 não pode ser inteiro). com mdc(p.√O caso interessante é quando A √ não épum quadrado perfeito. q) = 1 e q > 1. x = ±1. Estamos interessados na equação x2 − Ay 2 = 1. 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS 4. Nesse caso. temos que x2 − Ay 2 = (x − ky)(x + ky) = 1 admite apenas as soluções triviais y = 0. Como veremos. Outro ponto de vista é o de que estamos procurando pontos de uma hipérbole sobre um reticulado. . a e b inteiros. Na próxima figura. que está fora da figura. terı́amos 2 A = pq2 o que é um absurdo. com x e y inteiros. pois mdc(p. 12). 5) está próximo à hipérbole mas não pertence a ela pois 72 − 2 · 52 = −1 6= 1.166 [CAP. Na figura. √ a hipérbole é u2 −v 2 = 1 e o reticulado consiste nos pontos da forma (a. se A = q . a hipérbole é x2 − 2y 2 = 1: o ponto (3. 2) é um exemplo de ponto inteiro sobre a hipérbole pois 32 − 2 · 22 = 1 mas o ponto (7. q 2 ) = 1. b 2). a equação x2 − Ay 2 = 1 é conhecida como uma equação de Pell . o próximo ponto de coordenadas inteiras positivas sobre esta hipérbole é (17. pois terı́amos x − ky = x + ky = ±1. As duas figuras só diferem por uma transformação linear. y 1 2 = 2y 2 − x x As soluções da equação de Pell correspondem a pontos inteiros sobre uma hipérbole.4 Equação de Pell Seja A um inteiro positivo. digamos A = k 2 . Se A é um quadrado perfeito. e portanto A é um irracional (de fato.

√ Um fato muito importante sobre a norma é que N : Q[ A] → Q é uma função multiplicativa. De fato. isto é. e sua norma N (γ) = γγ̂ = x2 − Ay 2 . x. absurdo. . y) da equação de Pell correspondem √ a elemen- tos x+y A ∈ Z[ A] (com x. √ Uma √ observação relevante é que. z. e se y 6= w. podemos definir seu conjugado γ̂ = x − y A. Não é difı́cil √ ver √que Z[ A] é um anel e Q[ A] é um corpo. y ∈ Q). y ∈ Q} ⊃ Z[ A]. 4.4: EQUAÇÃO DE PELL 167 y x Um terceiro ponto de vista. se y = w então claramente z−x x = z. y ∈ Z}√e Q[ A] = {x + y√ A. v ∈ Q. Com efeito. √ √  √ √ N (x + y A)(u + v A) = N (x + y A)N (u + v A) ∀x. y. Dado γ = x + y A√∈ Q[ A] (com x. γ = αγ ˆ = α̂γ̂ √ (o conjugado de αγ = (x +√y A)(u + v√ A) = (xu √ + Ayv) + (xv + yu) A é (xu + Ayv) − (xv + yu) A = (x − y A)(u − v A) = α̂γ̂). w ∈ Q e x + y A = z + w A então x = z e y = √ w.[SEC. As soluções √ inteiras √ (x. se x. y. dados α = x√ √ u + v A ∈ Q[ A]. terı́amos A = y−w ∈ Q. √ √ √ Isto segue do fato de que. u. x. que será particularmente √ útil √ no que segue tem √ um caráter mais √ algébrico: sejam √Z[ A] = {x + y A. + y A. N (αγ) = αγ αγ ˆ = αα̂γγ̂ = N (α)N (γ). y ∈ Z) cuja norma N (x+y A) = x2 −Ay 2 é igual a 1.

168 [CAP. Mais geralmente. podemos dizer que se (x1 . 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS Alternativamente. y1 ) é solução então a transformação linear  √  x√1 y1 A y1 A x1 preserva tanto a hipérbole√u2 − v 2 = 1 quanto o reticulado que consiste nos pontos da forma (a. A equação x2 − Ay 2 = 1. com A diferente de um qua- drado√perfeito.. De maneira mais ou menos equivalente. b A). se x21 − Ay12 = ±1. Fazendo a substituição √ √ n   √ i i X n xn + Ayn = (x1 + n Ay1 ) = xn−i 1 ( A) y1 i i=0 onde n b2c   b n−1 2 c  X n n−2i i 2i X n xn = x A y1 e yn = xn−2i−1 Ai y12i+1 2i 1 2i + 1 1 i=0 i=0 obtemos x2n − Ayn2 = (±1)n para todo n ∈ N. Teorema 4. podemos provar este fato diretamente: √ √  √ N (x + y A)(u + v A) = N ((xu + Ayv) + (xv + yu) A) = (xu + Ayv)2 − A(xv + yu)2 = x2 u2 + A2 y 2 v 2 − A(x2 v 2 + y 2 u2 ) = (x2 − Ay 2 )(u2 − Av 2 ). i. temos √ √ √ N ((x1 + Ay1 )n ) = (x1 − Ay1 )n (x1 + Ay1 )n = (x21 − Ay12 )n = (±1)n . .e.27. com x + y A > 1. Vejamos agora que a equação de Pell sempre possui solução. É fácil ver (a partir da multiplicatividade da norma) que se a equação tem alguma solução (x1 . possui solução não trivial em inteiros positivos. y1 ) com y1 6= 0 então possui infinitas.

4: EQUAÇÃO DE PELL 169 √ √ Demonstração: Como A é irracional. a desigualdade | A− pq | < q12 √ tem infinitas soluções racionais p/q. 4.[SEC. Note que se | A − pq | < q12 então .

√ p .

.

.

.

p √ .

.

.

.

p √ .

.

|p2 − Aq 2 | = q 2 .

A − .

.

+ A.

< .

+ A.

.

q q q √ .

√ p .

.

√ ≤ 2 A + .

A − .

≤ 2 A + 1. .

√ (x + y A)(u + v r √ r A) = us + v s A. portanto temos um número finito de possibilidades para o valor (inteiro) de p2n −Aqn2 . us + vs A > ur + vr A. donde x + y A = u +v A > 1. Tomamos então r < s com as propriedades acima. Seja √ √ √ √ us + vs A (us + vs A)(ur − vr A) x+y A= √ = ur + vr A u2r − Avr2 ur vs − us vr √   us ur − Avs vr = + A.. r ∈ N tais que u2r − Avr2 = k para todo r. √ Se. q √ Considerando infinitos pares de inteiros positivos √ (pn . √ donde N (x + y √ A)N (ur + vr A) = N (us +√vs A). y) ∈ N2 da equação de Pell x2 − y 2 A = 1 com x + y A > 1. k k Temos us ur − Avs vr ≡ u2r − Avr2 = k ≡ 0 (mod k) e ur vs − us vr ≡ ab − ab = 0 (mod k) e portanto x = us ur −Av s vr e y = ur vs −u s vr são √ k√ √k inteiros. segue que N (x + y A) = x2 − Ay 2 = 1.e. qn ) com | A − pn 1 2 2 qn | < qn2 . yn ). Além disso. existe um inteiro k 6= 0 tal que p2n − Aqn2 = k para infinitos valores de n. já vimos que (xn . yn ) ∈ N2 pela relação xn + n yn A = (x1 + y1 A) . Como N (ur + vr A) = N (us + vs A) = k. vr mod k). Obtemos portanto duas sequências crescentes de pares de inteiros positivos (ur ). yn ) são . (vr ). Denote por (x1 . existem inteiros a e b e infinitos valores de r tais que ur ≡ a (mod k) e vr ≡ b (mod k). y1 ) esta solução mı́nima. como √ antes. √Por outro lado. existe√uma solução mı́nima ou fundamental. i. r r Dentre√todas as soluções (x. temos que (xn . definimos (xn . Conse- quentemente. teremos sempre |pn − Aqn | < 2 A + 1. n ≥ 1. √ √ √ √ us +vs √A como s > r. são todas as soluções inteiras positivas da equação de Pell: de fato. com x e portanto y e x + y A mı́nimos. Como há apenas |k|2 possibilidades para os pares (ur mod k.

4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS √ soluções. y 0 ) = (xn . ou seja. o que contradiz xy0 xynn < A. √ √  √ √ Como N (x0 + y 0 A)(xn − yn A) = N (x0 + y 0 A)N (xn − yn A) = 1. √ √ Multiplicando por xn − yn A = (x1 + y1 A)−n > 0. Resumindo. temos que (x0 xn − y 0 yn A. √ logo x0 xn −y 0 yn A = 1√e y 0 xn −x0 yn √ = 0. (x + y A)(x1 − y1 A) = 1 ⇐⇒ x0 + y 0 A = xn + yn A. 0 0 −n donde (x0 . Da mesma forma. e se (x0 . temos que (x0 xn − y 0 yn A. para todo n. y 0 xn − x0 yn ≥ 0 pois caso contrário xn x0 1  x 2  x 0 2 n 1 < 0 =⇒ A + 2 = < 0 = A + 02 yn y yn yn y y =⇒ y 0 < yn =⇒ x0 < xn √ √ √ o que contradiz o fato de xn + yn A = (x1 + y1 A)n ≤ x0 + y 0 A. xn +yn A = (x1 +y1 A)n e portanto √ √ (x1 + y1 A)n + (x1 − y1 A)n xn = e √ n 2 √ n (x1 + y1 A) − (x1 − y1 A) yn = √ . n ≥ 0 de modo que. yn ). yn ). . Temos que x0 xn − y 0 yn A ≥ 0. y 0 xn − x0 yn ) ∈ N2 é uma solução menor do que a √ solução mı́nima. Assim. 2 A Observe que as sequências (xn ) e (yn ) acima satisfazem a recorrência un+2 = 2x1 un+1 − un . menor que a solução mı́nima. y 0 ) é uma outra solução. como querı́amos.170 [CAP. as soluções com x e y inteiros positivos podem √ ser enumeradas√ por (xn . ∀n ≥ 1. então como x1 + y1 A > 1 existe n ≥ 1 tal que √ √ √ (x1 + y1 A)n ≤ x0 + y 0 A < (x1 + y1 A)n+1 . obtemos √ √ √ 1 ≤ (x0 + y 0 A)(xn − yn A) = (x0 xn − y 0 yn A) + (y 0 xn − x0 yn ) A √ < x1 + y1 A. y 0 xn − x0 yn ) também é uma solução da equação de Pell. pois 0 caso contrário x0 xn − y 0 yn A < 0 ⇐⇒ xy0 xynn < A. porém  x 2 n 1 xn √ x2n − yn2 A = 1 =⇒ =A+ > A =⇒ > A yn yn2 yn 0 √ 0 e analogamente xy0 > A.

ou seja. 4. 2 4 2 . então a equação x2 − y p = 1 não possui solução com x e y inteiros não nulos. Com isto a única solução é t = 1 e s = −1. fazendo y p = x2 − 1 = (x − 1)(x + 1). t ∈ Z e p ≥ 5.4: EQUAÇÃO DE PELL 171 A conjectura de Catalan afirma que as únicas potências perfeitas consecutivas são 8 e 9 e foi resolvida completamente em 2003 por Mihăi- lescu. existem inteiros w e z tais que x−1 x+1 = wp . 2z) = 1. como mdc(x + 1. mas isso implica que x = 0. Por outro lado 2 2 x2 + 6x + 9 − 8(x + 1)   2p x−1 x+3 w = = = − (2z)p . Agora. Daqui podemos dividir o problema em dois subcasos: No caso em que x−1 2 é ı́mpar. x−1) = 2.28 (Ko Chao). no caso em que x é ı́mpar e y é par. 2 isto é. z portanto w > z. Demonstração: Suponhamos por contradição que a equação possui solução inteira não nula e sem perda de generalidade podemos supor x > 0 e y > 0. = 2p−2 z p e y = 2wz com mdc(w. Seja p um número primo com p ≥ 5. 2 2 Assim x+1 wp = − 1 = 2p−2 z p − 1 ≥ (2p−2 − 1)z p . temos que x+1 e x−1 são pares e mdc(x+1. No caso em que x é par e y é ı́mpar. existem inteiros s e t tais que x − 1 = sp e x + 1 = tp =⇒ tp − sp = 2 com s. Teorema 4. Vejamos uma aplicação da equação de Pell em um caso particular. o que foi descartado nas hipóteses. segue que x − 1 e x + 1 são potências p-ésimas.[SEC. x − 1) = 1.  w p ≥ 2p−2 − 1 > 1.

w2 + 2z logo se p . . no caso que x+1 p x−1 2 = w e 2 = 2 p−2 z p . = mdc(w2 + 2z.x e p +1 (como antes) mdc y + 1. Observe que (s. assim y ≡ −1 (mod s) e elevando a p−1 2 obtemos p−1 p−1 0≡y 2 ≡ (−1) 2 (mod s). 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS Assim obtemos a equação (w2 )p + (2z)p = ( x+3 2 2 ) . Voltando à equação  original temos que x2 = y p + 1p . Como y é par e s é ı́mpar segue que m é par.x. Logo (s. y 2 ) são soluções da equação de Pell u2 − yv 2 = 1. Mas y + 1 = s2 .172 [CAP. Desenvolvendo a anterior identidade obtemos     m m m−2 m m−4 2 x=s + s y+ s y + ··· 2 4     p−1 m m−3 m m−5 2 y 2 = msm−1 + s y+ s y + ··· 3 5 Desta segunda equação temos que y divide o termo msm−1 . 2z) = 1 temos (w2 )p + (2z)p   2 mdc w + 2z. 1) é uma solução fundamental pela minimalidade da segunda coordenada. concluı́mos analogamente que p | 2 x−3 e portanto p . yy+1 | p temos que y + 1 = s2 . temos que s | y 2 .x+3 2 2 2 temos que w + 2z é um quadrado. ou seja. De forma similar. usando a equação (w2 )p − (2z)p = ( x−3 2 2 ) . Mas w < w + 2z < 2 w2 + 2w < (w + 1)2 assim w2 + 2z não pode ser um quadrado. Como (w2 )p + (2z)p = (w2 )p−1 − (w2 )p−2 (2z) + (w2 )p−3 (2z)2 − · · · + (2z)p−1 w2 + 2z ≡ p(w2 )p−1 (mod w2 + 2z) e mdc(w. 1) e p−1 (x. logo p | x+3 2 e além disso do fato que p > 3 segue que p . p(w2 )p−1 ) | p. como s em cada somando à direita p−1 está elevado a uma potência ı́mpar. Como p . donde existe um natural m ∈ N tal que p−1 √ √ x + y 2 y = (s + y)m . msm−1 ≡ 0 (mod y).x. No- vamente usando a segunda equação.

[SEC. 4. se x e y são inteiros positivos tais que x2 − Ay 2 = ±1. que é o que faremos nesta seção. 4. temos .4. pois. Isso é natural. Para determinar uma solução √ da equação x2 − Ay 2 = 1. Portanto a única solução de x2 = y p + 1 é x = ±1 e y = 0. vamos consi- derar a fração contı́nua de A. não mostra- mos um procedimento para encontrar explicitamente uma solução.4: EQUAÇÃO DE PELL 173 mas isto implica que s = 1 e neste caso y = 0.1 Solução Inicial da Equação de Pell Na prova da existência de soluções da equação de Pell.

x √ .

.

x √ .

.

.

.

.

.

− A.

.

+ A.

= 1 .

x2 − Ay 2 .

= 1 . .

.

.

y .

.

y .

se A=2. donde | xy + A |> 2 A− y12 ≥ 2 A− 14 = √ 2 2 − 41 > 2. y ≥ 2. segue que | xy + A |> 2 A − y12 ≥ 2 A − 1 ≥ √ √ √ √ 2 3−1 > 2. Portanto. De fato. | xy + A |≥ 2 A− | xy − A |> √ √ √ √ 2 A − y12 : Se A ≥ 3. . y2 y2 √ √ √ √ Por outro lado | xy + A| > 2. e.

x √ .

.

.

1 1 .

| x + √A | y 2 < 2y 2 . .

− A.

= .

. .y y e logo. Começamos definindo b0 = 1 e c0 = b Ac. a1 . xy é uma reduzida pqnn da fração contı́nua de √ A.] (∗) bi bi √ para todo i ≥ 0. . pelo teorema 3. Note que √ √ √ 0 < A − b Ac = A−c b0 0 =< 1. definimos recursivamente ci+1 = ai bi − ci e bi+1 = (A − c2i+1 )/bi . que na fração contı́nua de A é igual a b Ac = a0 /2). Vamos mostrar que existem duas sequências de inteiros positivos bi e ci de modo que √ √ A − ci A + ci 0< <1 e = [ai . vamos considerar a fração contı́nua√de A + b Ac = [a0 . .18.] (a qual √ difere da fração contı́nua de √A apenas pelo √ primeiro termo a 0 = 2b Ac. a2 . . . ai+2 . ai+1 . √ √ Mais precisamente. Em geral.

temos √ √ A − ci+1 A − ci+1 bi = =√ = bi+1 (A − c2i+1 )/bi A + ci+1 bi 1 =√ = √ ∈ (0.174 [CAP. mas como A > ci por hipótese de indução. . 1). Portanto ci+1 > 0. A + ai bi − ci ai + ( A − ci )/bi . bi bi A + ci+1 A + ci+1 bi+1 de modo que (∗) será válida para todo i.] < ai + 1 bi √ donde obtemos ai bi < A + ci < ai bi + bi (já que bi > 0 por hipótese de indução) e portanto √ ci+1 = ai bi − ci < A < ai bi − ci + bi = ci+1 + bi √ e assim ci+1 < A. o que é uma contradição. completando a indução. Isto é claramente verdade para i = 0. temos √ √ A + ci A − ci+1 bi+1 1 = ai + = ai + √ = ai + √ . ai+2 . vamos provar por indução √ que bi > 0 e 0 < ci < A. Neste caso terı́amos bi > suponha A − ci+1 ≥ A. Por hipótese de indução. 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS Mostremos inicialmente por indução que bi e ci são inteiros com bi 6= 0 e tais que bi | A − c2i para todo i. Além disso. √ Para isto. Além disso. Agora √ √ por absurdo √que ci+1 ≤ 0. logo ci+1 = ai bi − ci também será inteiro e A − c2i+1 6= 0 já que A não é quadrado perfeito. Finalmente. donde ci+1 = ai bi − ci ≥ bi − ci > 0. o que implica bi+1 = (A − c2i+1 )/bi > 0 também. Assim bi+1 = (A − c2i+1 )/bi será um inteiro não nulo tal que bi+1 | A − c2i+1 . Desta forma. pela definição de ai temos √ A + ci ai < = [ai . ai+1 . temos que bi e ci são inteiros. Vamos provar agora que bi e ci são positivos. o que é verdadeiro para i = 0 pois c0 = b Ac e A não é quadrado perfeito. terı́amos bi > ci . . A − c2i+1 = A − (ai bi − ci )2 = A − c2i − bi (a2i bi − 2ai ci ) será múltiplo de bi já que bi | A − c2i por hipótese de indução.

são periódicas puras. assim como a fração contı́nua A + b Ac = [a0 . como 0 < A−c bi i < 1. Se k é o perı́odo teremos que bk = 1 e portanto a equação x2 − Ay 2 = −1 tem solução se k é ı́mpar. Portanto estas sequências. Note√que como a0 = 2b Ac. . temos que a expansão em fração contı́- nua de A é [a0 /2. . temos √ A+ci+1 √ bi+1 pi + pi−1 A= √ . Como 0 < ci < A e bi | A − c2i . bi = (A − c2i+1 )/bi+1 . . . Isolando ci+1 nas equações anteriores e igualando obtemos Aqi − bi+1 pi−1 pi − bi+1 qi−1 = pi qi 2 2 ⇐⇒ Aqi − bi+1 pi−1 qi = pi − bi+1 qi−1 pi ⇐⇒ p2i − Aqi2 = bi+1 (pi qi−1 − pi−1 qi ) ⇐⇒ p2i − Aqi2 = (−1)i+1 bi+1 donde obtemos uma solução da equação x2 − Ay 2 = (−1)i+1 bi+1 . podemos recuperar os valores de bi e ci a partir dos de bi+1 e ci+1 . De fato.4: EQUAÇÃO DE PELL 175 √ pois ai ≥ 1 e ( A − √ ci )/bi > 0. digamos de perı́odo √ k. 4.]. Em particular bk = 1 e ck = a0 . temos √ √ A − ci A + ci+1 ai = bai + c=b c. temos ci = a √i bi − ci+1 √ . bi bi Finalmente. . Logo. para i ≥ 1. . √para todo i ≥ 0. Além disso. .].[SEC. a1 . temos que as sequências {ci } e {bi } só assumem um número finito de valores. enquanto que x2 − Ay 2 = 1 sempre tem solução (tomando i + 1 = 2k). a2 . Separando parte racional da parte irracional obtemos as equações Aqi = ci+1 pi + bi+1 pi−1 e pi = ci+1 qi + bi+1 qi−1 . a1 . Além disso. a2 . denotando por pi /qi a i-ésima convergente desta fração contı́nua. A+ci+1 bi+1 qi + qi−1 e portanto √ √ √ Aqi + ci+1 Aqi + Abi+1 qi−1 = Api + ci+1 pi + bi+1 pi−1 .

que A não é quadrado perfeito. a solução fundamental de x2 − Ay 2 = −1. 1. 1. e portanto n + 1 é necessariamente múltiplo de perı́odo k. . 8] onde a barra denota o perı́odo.29. segue que bn+1 = 1. 2 2 Proposição 4. temos que p5 1 55 =4+ = q5 1 12 1+ 1 1+ 1 2+ 1 e 552 − 21 × 122 = 3025 − 3024 = 1. Seja c + d A a solução fundamental da equação x2 − Ay 2 = 1.] = √ bn+1 √ √ A+cn+1 bn+1 = A + b Ac. assim uma condição necessária para a existência de solução é que todo divisor primo de A seja 2 ou da forma 4k + 1. vimos que xy é uma reduzida pqnn da fração contı́nua de A.176 [CAP. 1. an+2 . . an+3 . de fato se p é um divisor primo de A temos que x2 − Ay 2 ≡ x2 ≡ −1 (mod p). 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS Por outro lado. a equação x2 − Ay 2 = −1 nem sempre possui solução. 1. Em contrapartida. Como p2n − 2 = (−1)n+1 b √ Aq √ n n+1 . quando √ esta equação tem solução inteira. Porém. como sempre.4. 1. se x e y são inteiros positivos tais que√x2 −Ay 2 = ±1. 1. como 0 < A − cn+1 = A−cn+1 √ < 1. esta condição ainda não é suficiente. 2. se queremos encontrar uma solução da equação x2 − 2 21y = 1. 2 . Suponha √ que a equação x − Ay = −1 admita √ so- lução inteira e seja a + b A sua solução fundamental.2 A Equação x2 − Ay 2 = −1 Suponha. Então √ √ c−1 (a + b A)2 = c + d A. mas. Por exemplo. 1. a2 = . como √ √ 4 + 21 = [8. segue que cn+1 = b Ac. donde [an+1 . 4. Na seção anterior mostramos que a equação de Pell sempre possui solução. é o menor número da forma a + b A com a e b inteiros positivos tais que a2 − Ab2 = −1). O seguinte teorema dá uma relação entre as soluções fundamentais da equações x2 − Ay 2 = 1 e x2 − Ay 2 = −1 (como antes. 1] e 21 = [4. 2.

Por último. obtemos √ √ √ √ (a + b A) > (c + d A)(−a + b A) = (−ac + bdA) + (cb − ad) A √ > −a + b A > 0. pelo teorema anterior. 4. ad > cb. multiplicando a primeira desigualdade por d e a segunda por c obtemos bd2 A > acd > c2 b. de fato −a + b A é a maior solução positiva que tem x √ negativo e y positivo. cb−ad não podem ser simultaneamente positivos. Vejamos agora que a condição sobre os fatores primos de A não é suficiente para garantir a existência de solução. cb − ad > 0 porque −a + b A é a maior solução positiva de x2 − Ay 2 = −1 com x negativo e y positivo. Observemos que −ac+bdA. a solução fundamental de x2 − 34y 2 = 1 é 35 + 6 34. . Mais geralmente. Seja A produto de no máximo três primos distintos da forma 4k + 1 tais que pq = −1 para todo p 6= q divisores primos de A. Temos que (−ac+bdA. Também √ não podemos ter que −ac + bdA < 0. Como 1 = x20 − Ay02 ≡ x20 − y02 (mod 4). Como a2 − Ab2 = −1.[SEC. assim 0 > b(c2 −√Ad2 ) = b. x2 − 34y 2 = −1 não possui solução √ inteira. isto é. mas 35−1 2 = 17 não é quadrado.4: EQUAÇÃO DE PELL 177 √ Demonstração: Observemos que (a + b A)2 é solução da equação x2 − Ay 2 = 1. porque isto contradiz a escolha da solução fundamental. logo. devido a Dirichlet. √ Demonstração: Seja x0 + Ay0 a solução fundamental de x2 −Ay 2 = 1. Por exemplo. De fato. o √ que também é contraditório. temos o seguinte resultado. somando 2 as igualdades temos c − 1 = 2a2 logo a2 = (c − 1)/2. cb−ad < 0.30 (Dirichlet). Proposição 4. a equação x2 −Ay 2 = −1 sempre possui solução. cb−ad) é solução de x2 −Ay 2 = −1. No caso em que A é um primo da forma 4k +1. Suponhamos por contradição que não é a solução funda- mental. Multiplicando a desigualdade anterior por −a + b A. x2 − 34y 2 = −1 não possui soluções. Então a equação x2 − Ay 2 = −1 possui solução. no caso −ac+bdA > 0. isto é suponhamos que √ √ (a + b A)2 > c + d A > 1 √ √ √ Como (a + b A)(a √ − b A) = −1 < 0 temos que 1 > −a + b A > 0. bdA > ac. Assim concluı́mos que (a + b A) = c + d A.

mas p é da forma 4k + 1 a  e portanto isto implica p = 1. o que de novo contradiz a hipótese do teorema. j. assim pb = 1. pp21 = −1. Para isto. ∀j ≥ 2. Logo −a p = 1. Tano e outros. k tais que ppji =  pj  2 2 pk = 1. Sejam p1 .178 [CAP.  Demonstração: Ver [147] ou [111]. . s) seria uma solução menor do que a solução mı́nima (x0 . então x − Ay = −1 possui solução. j. • Se n é par. pn números primos dis- tintos congruentes a 1 módulo 4 e A = p1 p2 . • Se n é ı́mpar e não existem ı́ndices diferentes i. se 1 < a < A temos dois possı́veis casos: 1. ∀j > 2 e não existem ı́ndices   p  diferentes i. . . O seguinte teorema contém essencialmente todos estes resultados. . Teorema 4.31 (Nagell-Trotter). b com A = ab tais que y0 = 2st. k ≥ 2  p  tais que ppji = pkj = −1. O resultado anterior foi generalizado por Richaud. e não existem ı́ndices diferentes i. o que contradiz a hipótese do teorema. j. pn . 2. neste caso se  p é um divisor primo de a temos que bt2 ≡ 1 (mod p). Por outro lado. 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS então x0 é ı́mpar e y0 é par. observemos que a 6= A porque caso contrário b = 1 e (t. Basta portanto mostrar que a = 1 (de modo que b = A). a é primo. . segue que existem inteiros s e t primos relativos e inteiros a. k ≥ 2 tais que ppji = pkj = 1. y0 ) de x2 − Ay 2 = 1. pp1j = 1. do fato de que (x0 −1)(x0 +1) = Ay02 e x0 + 1 e x0 − 1 só tem fator comum 2. Além disso. neste caso tomamos um divisor primo p de b e temos que as2 ≡ −1 (mod p). então x2 − Ay 2 = −1  possui solução. a é produto de dois primos e b é primo. . então x2 − Ay 2 = −1 possui solução. • Se pp1j = −1. . x0 − 1 = 2as2 e x0 + 1 = 2bt2 e assim as2 − bt2 = −1.

com r = −k. se existem √ x.4: EQUAÇÃO DE PELL 179 4. Entretanto 11 4   7 = 7 = 1. √ Proposição 4.3 Soluções da Equação x2 − Ay 2 = c Novamente assumimos que A não é quadrado perfeito.32. donde √ |c| |c| p √ |u − v A| = √ ≤ p = |c| ≤ u + v A. 4. y ∈ p N com x2 − Ay 2 = c. u+v A |c| √ √ assim u − v√ A ≤ u + v A. nem sempre existe uma tal solução. vamos √ verificar √ que u. Seja β = x+y A > 0 com N (β) = x2 − Ay 2 = c. y) ∈ N2 . Então p N (β · αk ) = c parap todo k ∈ Z. Uma condição necessária para a existência de soluções é a seguinte: se p é um divisor primo de A.4. v ∈√Z e logo p x + y A =√ β= γαr = (u + v A)αr . y1 ) é a solução mı́nima de x2 − Ay 2 = 1. temos x2 ≡ c (mod p). Suponhamos então que x+y A ≥ α |c|. Finalmente. √ Definimos γ = β · αk . As seguintes proposições ajudam a reduzir o trabalho necessário para decidir se x2 − Ay 2 = c tem alguma solução (x. Seja (x1 . o que é impossı́vel. v são naturais: temos c = N (γ) = 2 2 u − Av = (u + v A)(u − v A). √ p Demonstração: Se x + y A < α√ |c|. Seja α = x1 + y1 A > 1 onde (x1 .[SEC. donde r ∈ N. . y) ∈ N2 . se existe alguma solução de x√ 2 − Ay 2 = c com (x. então existem √ √ infinitas: de fato. Como x + y A ≥ α |c| ≥ u + v A. Por outro lado. v√∈ N com u + v A < α |c| e u2 − Av 2 = c tais que x + y A = (u + v A)αr . v) √ = (x. y1 ) ∈ (N>0 )2 a solução mı́nima de x2 − Ay 2 = 1. Dado c ∈ N não nulo. donde v ≥ 0 e simultaneamente Temos √ −u + v A ≤ u + v A. Temos √ que γ = u + v A com u. Dado c ∈ Z não nulo. por exemplo a equação x2 − 7y 2 = 11 não possui solução já que olhando módulo 4 x2 + y 2 ≡ x2 − 7y 2 = 11 ≡ −1 (mod 4). y) e r = 0. Podemos escolher um k ∈ Z tal √ k que |c| ≤ β · α < α |c|. Infelizmente esta condição não é suficiente. segue que r ≥ 0. se u + v A = (x + y A)(x1 + y1 A)n com n ∈ Z. e logo u ≥ 0. assim para que exista solução c deve ser resı́duo quadrático módulo p para todo divisor primo p de A. então u2 − Av 2 = c. podemos p tomar (u. então existem√r ∈ N e u.

e logo u ≥ 0. v) = (x. yp∈ N com x2 − Ay 2 = c. Seja α = x1 + y1 A > 1 onde (x1 . Podemos para p escolher um k ≤ p k ∈ Z tal que |c| ≤ β ·k α < α |c|. u+v A |c| √ √ assim u − v√ A ≤ u + v A. y1 ) é a solução mı́nima de x2 − Ay 2 = 1. Dado c ∈ Z não nulo.33. donde v ≥ 0 e simultaneamente Temos √ −u + v A ≤ u + v A. existem r ∈ √ x. No segundo caso. Seja β = x+y A > 0 com N (β) = x2 −Ay 2 = c. . podemos supor √ que |c| ≤ γ ≤ α|c|. 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS √ Proposição 4. sem perda de generalidade. com r = k − 2 ∈ Z. como √ p β = x + y A ≥ α|c| ≥ γ. donde r ∈ N. Temos então √ |c| |c| p √ |u − v A| = √ ≤ p = |c| ≤ u + v A. podemos definir · αk ) =| 1−k p γ = α · |c|/(β p β̂ | α . √ Se γ = r + s A com r. temos β = |β| =|√γ̂ | αr+1 r+1 p =| u −pv A | α .180 [CAP. No p caso que |c| ≤p β · α α|c| definimos γ = β · α e no k caso que α|c| < β · α ≤ α |c|. s ∈ Q lembramos que γ̂ = r − s A. para esta solução 0 ≤ u ≤ α|c| e 0 ≤ v ≤ α|c|/A). v ∈ √N com u + v A√≤ α|c| e√u2 − Av 2 = c tais que x + y A = (u + v A)αr ou x + y A =| u − v A | αr+1 . e. Ainda precisamos verificar que u. Suponhamos√ então que x + y A ≥ α|c|. v ∈ Z. √ p Demonstração: Se x + y A < α|c|. v ∈ N com u + v A ≤p α|c| e u2 − Av 2 p = c (em particular. e. se existem √ x.√temos r ∈ N. e N (γ) = N (γ̂) = γ√· γ̂ = r2 − As2 . então existem u. √ Temos que γ = u + v A com u. √ podemos p tomar (u. Além disso. Então k p N (β·α ) k= c p todo k ∈ Z. com r = −k ∈ Z. temos r + 1 > 0. p Logo. y p √N e u. como β = x + y A ≥ α|c| > |c| ≥ |c|/γ = |γ̂|. No primeiro caso temos β = γα r = (u + v A)αr . dados ∈ N com x2 − Ay 2 = c. y) e r = 0. v são naturais. mas √ √ c = N (γ) = u2 − Av 2 = (u + v A)(u − v A). assim N (γ) = N (β) = N (β̂) = c e |c| p < γ ≤ α|c|.

assim só precisamos testar 12 valores para y.35. e portanto a equação possui solução. mas esta relação somente é possı́vel quando x e y são ı́mpares. y0 ) então possui infinitas soluções. Como 39(19 + 6 10) < 39 e 10 < 13. uma das soluções deve satisfazer 4 ≤ x ≤ 20. Mostre que a equação x2 −10y 2 = 11 não possui solução inteira. w) é uma delas. Solução: Pelo mesmo processo anterior temos que s √ q √ 11(19 + 6 10) 11(19 + 6 10) < 21 e < 7. Exemplo 4. concluı́mos que a equação não possui soluções inteiras. pela 2 proposição anterior. 4.4: EQUAÇÃO DE PELL 181 Exemplo 4. e do fato que x > 39. 3. . 11 + 90 = 101 e 11 + 250 = 261 é um quadrado perfeito. 4. Vejamos que se mx20 − ny02 = ±1 possui uma solução (x0 . 2 2 Solução: A equação √ q x − 10y√ = 1 possui como q solução√ fundamental 39(19+6 10) 19 + 6 10. Como nenhum dos números 11 + 10 = 21. 10 Considerando a equação módulo 4 obtemos x2 + 2y 2 ≡ 3 (mod 4). temos que uma possı́vel solução satisfaz 7 ≤ x ≤ 39 com x ı́mpar e y ≤ 12.34.4 Soluções da Equação mx2 − ny 2 = ±1 Suponha que mn não seja quadrado perfeito. obtemos x = 7. Como mn não é um quadrado perfeito.[SEC. se (z. 5. Determine se a equação x2 − 10y 2 = 39 possui solução.4. De fato com y = 1. a equação de Pell X 2 −mnY 2 = 1 possui infinitas soluções. Temos √ √ √ √ ( mx0 + ny0 )( mx0 − ny0 ) = ±1. portanto. y ≤ 6 com x e y ı́mpares. assim só precisamos testar y = 1. se a equação tem solução. temos √ √ (z + mnw)(z − mnw) = 1.

Além disso. com m0 . Teorema 4.182 [CAP. 2ab) é solução da equação x2 − mny 2 = 1. então não existe nenhum par de inteiros positivos (m. n). n0 inteiros positivos tais que A = m0 n0 possui solução apenas para (m0 . n) 6= (1. caso m seja ı́mpar (o que implica n par). n0 ) = (2. Além disso. para toda solução (a. 2n). Seja A ∈ Z livre de quadrados e (x1 . tal que a equação mx2 − ny 2 = 1 possui solução. A). com m0 . tal que a equação mx2 −ny 2 = 1 possui solução. y1 ) a solução fundamental de x2 − Ay 2 = 1. a equação m0 x2 −n0 y 2 = 2. então existe um único par de inteiros positivos (m. n) 6= (1. 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS Multiplicando estas duas equações obtemos √ √ √ √ √ √ ( mx0 + ny0 )(z + mnw)(z − mnw)( mx0 − ny0 ) = ±1. √ √ √ √ 1 = (ma2 − nb2 )2 = ( ma + nb)2 ( ma − nb)2 √ √ = (ma2 + nb2 + 2 mnab)(ma2 + nb2 − 2 mnab) = (2ma2 ∓ 1)2 − mn(2ab)2 . com A = mn e (m. e existe um único par de inteiros positivos (m. n). n) 6= (1. caso m seja par ou (m0 . • Se A e x1 são ı́mpares.36. com A = mn e (m. n/2). fixando A = mn. n0 ) = (2m. então x1 é ı́mpar. • Se A é par. n0 ) = (m/2. a equação m0 x2 − n0 y 2 = 2. A/2) e para (m0 . A). Assim (2ma2 ∓ 1. n0 inteiros positivos tais que A = m0 n0 não possui solução. com A = mn e (m. • Se A é ı́mpar e x1 é par. o seguinte resultado mostra que nem para todo valor de m e n a equação mx2 − ny 2 = 1 possui solução. b) de mx2 − ny 2 = ±1. n). que é equivalente a √ √ ( m(zx0 + ny0 w) + n(y0 z + mx0 w)) √ √ × ( m(zx0 + ny0 w) − n(y0 z + mx0 w)) = ±1 portanto x0 = zx0 + ny0 w e y 0 = y0 z + mx0 w geram uma nova solução da equação mx2 − ny 2 = ±1. Reciprocamente. Por outra parte. A). tal que a equação .

b) tais que A = m0 n0 e m0 a2 − n0 b2 = e com e = 1 ou e = 2. temos então (x1 − 1)(x1 + 1) = x21 − 1 = Ay12 . Definamos m = mdc( x1d+1 . n). mas existe um único par de inteiros positivos (m. Mas A é livre de quadrados. e assim m e n satisfazem A = mn e x1 + 1 x1 − 1  y1 2 = . n) é diferente de (1. Vamos considerar inicialmente o caso em que e = 1. O par (2m0 a2 − 1. Segue que x1d−1 e x1d+1 são primos relativos. 4. t primos relativos tais que y1 = dst e x1 + 1 x1 − 1 = ms2 e = nt2 . e d2 | Ay12 . e a única possibilidade é m0 = 1 e n0 = A. 2) = d.[SEC. x1 + 1) = mdc(x1 − 1. Na outra direção. temos d2 =1). Além disso. tal que a equação mx2 − ny 2 = 2 possui solução. Se k é par. Além disso. y1 ) é a solução fundamental de x2 − Ay 2 = 1. temos (como consequência da recorrência xr+2 = 2x1 xr+1 − xr .4: EQUAÇÃO DE PELL 183 mx2 − ny 2 = 1 possui solução. A) e n = mdc( x1d−1 . no caso em que d = 2 (que equivale a termos x1 ı́mpar). d d donde subtraindo as equações obtemos d2 = ms2 − nt2 . isto é. No caso k ı́mpar. donde concluı́mos que d | y1 . A) já que t < y1 e (x1 . n0 ) e (a. Demonstração: Como (x1 . √ √ √ √ √ ( m0 a + n0 b)2 = (2m0 a2 − 1) + 2ab A = (x1 + y1 A)k = xk + yk A √ √ para algum inteiro k ∈ N. A). y1 ) solução fundamental de x2 − Ay 2 = 1. 2ab) é solução de x2 − Ay 2 = 1. o que garante a existência de m e n como no enenciado. ∀r ≥ 0) x1 ≡ xk = 2m0 a2 − 1 ≡ 1 (mod 2). Observemos que mdc(x1 − 1. e o par (m. onde d = 1 (se x1 é par) ou d = 2 (se x1 é ı́mpar). dm dn d logo existem s. com A = mn. do fato que (k−1)/2   k xk−2j Aj y12j ≡ xk1 X xk = (mod A) 2j 1 j=0 . vemos que m0 a + n0 b = xk/2 + √ yk/2 A. suponhamos que existam (m0 .

184 [CAP. 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS temos que .

 .

    m .

A . mdc x1 + 1.

A = mdc xk + 1. mdc xk1 + 1. A .

.

.

A) . = mdc(2a2 m0 .

2m0 .

e .

 .

    n .

mdc x1 − 1. A .

A . mdc xk1 − 1. A = mdc xk − 1.

.

.

A) . = mdc(2b2 n0 .

. 2n0 .

temos m0 e n0 ı́mpares. A) | mdc(n0 b2 . e. pois. seriam ambos pares. vemos que m0 a + n0 b = xk/2 2 + √ yk/2 2A. como antes. A) | 2n0 . Se k é par. como m0 a2 − n0 b2 = 2. temos √ √ √ m0 a2 − 1 + ab A = (a m0 + b n0 )2 /2 √ √ = (x1 + y1 A)k = xk + yk A. e portanto m̃ = m0 e ñ = n0 . Quando A é ı́mpar. temos. Se m0 a2 − n0 b2 = 2 e m̃a2 − ñb2 = 2 com m0 e m̃ distintos de 2 e m n0 = m̃ñ = A.r−k y1 A) . as soluções de mx2 −ny 2 = 1 e mx2 − ny 2 = 2 estão relacionadas da seguinte forma: . os argumentos acima mostram que m | 2m0 e n | 2n0 . ab) é solução de x2 − Ay 2 = 1. como eles têm a mesma paridade. √ √ √ √ com Assim. No caso e = 2 temos que (m0 a2 − 1. caso contrário. A) | 2m0 e n | mdc(xk − 1. onde as últimas afirmações seguem do fato de que m0 (a2 m0 ) − Ab2 = m0 e Aa2 − n0 (n0 b2 ) = n0 . De fato. donde m | m0 . No caso em que A é par (e portanto x1 é ı́mpar). temos a e b ı́mpares. m e n são ı́mpares. m | mdc(xk + 1. A) = mdc(m0 a2 . Assim. absurdo. x1 ≡ xk = m0 a2 − 1 ≡ 0 (mod 2). e como A = mn | m0 n0 = A devemos ter m = m0 e n = n0 . e a única possibilidade é m0 = 2 e n0 = A/2 (e logo A é par). se m0 n0 = A e m0 a2 − n0 b2 = 2. nesse caso. teremos a m̃ + b ñ = (a m0 + b n0 )(x1 + √ k te r ı́mpares. Nesse caso. temos 0 √ √ √ √ m0 a2 − 1 + ab A = (a m0 + b n0 )2 /2 = (x1 + y1 A)k e √ √ √ √ m̃a2 − 1 + ab A = (a m̃ + b ñ)2 /2 = (x1 + y1 A)r . onde t = 2 ∈ Z. Se e = 2 e A = m0 n0 é ı́mpar. √ √ √ para algum k ∈ N. e n | n0 . e terı́amos 4 | 2. No caso k ı́mpar.

Reciprocamente. y) = (s. t). Demonstração: Vimos acima que. y1 ) de x2 − mny 2 = 1. então (m/2)(2x)2 − 2ny 2 = 2. Corolário 4. Substituindo z = 4x − 3 e w = 6y + 1. Dedos inteiros positivos livres de quadrados m e n com mdc(m. o que prova que o sistema do enunciado tem a solução inteira (x. de 2mx2 − 1 = x1 x2 −1 A y1 2 y1 2 segue que x1 + 1 = 2mx2 . n) = 1 e m 6= 1. então 2mx2 − (n/2)(2y)2 = 2. o sistema de equações 2mx2 − 1 = x1 2xy = y1 tem solução inteira. donde x1 − 1 = x11 +1 = 2 m ( 2x ) = 2n( 2x ) = 2ny 2 . se n é par. e só se. então 2m(x/2)2 − (n/2)y 2 = 2. Solução: Completando quadrados e fatorando temos que a equação original é equivalente a 3(4x − 3)2 − 2(6y + 1)2 = 1. e logo mx2 − ny 2 = 21 ((x1 + 1) − (x1 − 1)) = 1. 4. t primos relativos tais que y1 = 2st e x12+1 = ms2 . e. a equação mx2 − ny 2 = 1 possui uma solução se. e. y) de números naturais tais que 2x2 − 3x − 3y 2 − y + 1 = 0. . Exemplo 4.37.4: EQUAÇÃO DE PELL 185 • se mx2 − ny 2 = 1 e m é par.38 (OIbM1989). x1 deve ser ı́mpar e existem s. como x21 − 1 = Ay12 . se a equação possui solução. dada a solução fundamental (x1 . se n é par. Demonstrar que existe uma infinidade de pares (x.[SEC. o problema inicial se transforma em encontrar infinitas soluções da equação 3z 2 − 2w2 = 1 com z≡1 (mod 4) e w≡1 (mod 6). • se mx2 − ny 2 = 2 e m é par. então (m/2)x2 − 2n(y/2)2 = 1.

para todo n par. zn ≡ 1 (mod 4) e wn ≡ 1 (mod 6) Temos que s2 = 49 e t2 = 20 cumprem as condições pedidas. Encontrar todos os triângulos retângulos com lados inteiros tais que a diferença entre os catetos é 1. Problemas Propostos √ 4. só nos falta mostrar que existem infinitos pares (zn .33. sn = 5sn−1 + 12tn−1 e tn = 2sn−1 + 5tn−1 . ou seja. por hipótese de indução. 4. que possui solução mı́nima (5. consideremos a equação de Pell auxiliar s2 −6t2 = 1.32. A partir de uma solução de s2 − 6t2 = 1 obtemos uma solução de 3z 2 − 2w2 = 1 da seguinte forma √ √ √ √ √ 3zn + 2wn = ( 3 + 2)(sn + 6tn ). assim todas as soluções positivas são dadas por √ √ √ √ sn + 6tn = (5 + 2 6)n = (5 + 2 6)(sn−1 + 6tn−1 ). sn+2 ≡ 5sn+1 ≡ 52 sn ≡ sn (mod 12) tn+2 ≡ 5tn+1 ≡ 52 tn ≡ tn (mod 2) o que encerra a prova. 2). Demonstrar que b(1 + 3)2n−1 c é divisı́vel por 2n .186 [CAP. ou seja. wn ) tais que zn ≡ 1 (mod 4) e wn ≡ 1 (mod 6). Vamos provar por indução que para todo n par sn ≡ 1 (mod 12) e tn ≡ 0 (mod 2) donde concluiremos que. zn = sn + 2tn e wn = sn + 3tn . Assim. . 4: EQUAÇÕES DIOFANTINAS Para isto. Agora se n ≥ 2 é par temos.

y1 = −28x + 293y. Seja p um primo. 4. Demonstrar que a equação x(x + 1) = p2 y(y + 1) não tem soluções inteiras positivas. Demonstrar que 2x2 − 219y 2 = −1 não tem soluções inteiras. mas 2x2 − 219y 2 ≡ −1 (mod m) tem soluções para todo inteiro positivo m. 4. (OBM2010) Encontre todos os pares (a.35. 4. . A equação pode ter soluções inteiras? 4. b) de inteiros positivos tais que 3a = 2b2 + 1.34.[SEC.4: EQUAÇÃO DE PELL 187 4.37.36. Dica: Considere a “nova solução” x1 = |293x − 3066y|. Demonstrar que a equação 7x2 − 13y 2 = 1 não tem soluções in- teiras.

divisor de um número natural significará divisor positivo.1 Funções Multiplicativas Uma função f definida sobre N>0 é dita multiplicativa se dados dois números naturais a e b tais que mdc(a. que é fortemente inspirado nos capı́tulos XVIII e XXII de [67]. 5. muitas delas já introduzidas em capı́tulos anteriores. log denota o loga- ritmo natural. Neste capı́tulo. Frequentemente resultados mais precisos sobre o crescimento dessas funções dependem de estimativas precisas sobre números primos. escrevemos f (n) f = o(g) se lim =0e n→∞ g(n) f = O(g) se existe C > 0 com |f (n)| < Cg(n) para n  0. . b) = 1 então f (ab) = f (a)f (b). algumas das quais desenvolveremos neste capı́tulo. Vejamos algumas funções multiplicativas importantes. +∞). Em todo o livro. e totalmente multiplicativa se f (ab) = f (a)f (b) para todo a e b.Capı́tulo 5 Funções Aritméticas Neste capı́tulo estudaremos o comportamento assintótico de algumas das mais importantes funções aritméticas. a menos que se afirme o contrário. Notação: dadas duas funções f : N → R e g : N → (0.

. Uma função totalmente multiplicativa f fica completamente determi- nada por seus valores nos números primos.1: FUNÇÕES MULTIPLICATIVAS 189 Proposição 5. as funções def d(n) = σ0 (n) = número de divisores de n def σ(n) = σ1 (n) = soma dos divisores de n são multiplicativas. · k . pαmm é a fatoração canônica de n em primos então temos uma fórmula explı́cita (α1 +1)k (α +1)k p1 −1 pm m −1 σk (n) = k · . Vejamos que f (n) = nα . se n = pα1 1 pα2 2 . 5.1. p1 − 1 pm − 1 donde é fácil provar que σk é multiplicativa. Demonstração: Trocando f por 1/f . Para isto observemos que. As funções def X σk (n) = dk e ϕ(n) = função ϕ de Euler d|n são multiplicativas. e definamos α = log2 f (2). . pela proposição 1. temos o seguinte resultado Teorema 5. Em particular. Seja n um número inteiro positivo e k um real qual- quer. Impondo algumas restrições adicionais. αbm log2 nc α(bm log2 nc+1) 2 m ≤ f (n) ≤ 2 m para todo m ∈ N>0 .7 que ϕ é multiplicativa. Demonstração: Já vimos na seção 1. podemos supor sem perda de generalidade que f é crescente. então existe α ∈ R tal que f (n) = nα .2. .[SEC.21. Por outro lado. . para todo m ∈ N>0 temos 2bm log2 nc ≤ nm < 2bm log2 nc+1 =⇒ 2αbm log2 nc ≤ (f (n))m ≤ 2α(bm log2 nc+1) Assim. . Seja f : N>0 → R>0 uma função totalmente multiplica- tiva e monótona. aplicando f .

Solução: Se nϕ(m) = mϕ(n) então Y  1 Y  1 nϕ(m) = mn 1− = mn 1− = mϕ(n). p|m p q|n q p primo q primo Daı́ temos que n e m devem ter os mesmos divisores primos.3.190 [CAP. como pi . concluı́mos que Y . veja o exercı́cio 5. Encontrar condições necessárias e suficientes sobre m e n para que nϕ(m) = mϕ(n). então Y Y Y Y (pi − 1) qj = (qj − 1) pi .qj e qj .pi para todos os fatores primos. m→∞ m m→∞ m donde concluı́mos que f (n) = 2α log2 n = nα . Exemplo 5. 5: FUNÇÕES ARITMÉTICAS Mas αbm log2 nc α(bm log2 nc + 1) lim = lim = α log2 n. Mas.19. caso contrá- rio. consideremos {pi } e {qj } os fatores primos de n e m respectivamente que não são comuns aos dois números. Para uma extensão desse resultado para funções multiplicativas.

.

Y Y .

.

Y pi .

(pi − 1) e qj .

O seguinte teorema nos mostra uma forma de construir funções mul- tiplicativas. o que é impossı́vel. Teorema 5. Se f é uma função multiplicativa então a função X F (n) = f (d) d|n é também multiplicativa. Agora. (qj − 1). se n e m tem os mesmos fatores primos prova-se diretamente da fórmula acima que nϕ(m) = mϕ(n).4. .

Exemplo 5.5. Então. Solução: Se p ≥ 3 é um primo. b) = 1 então X X X F (ab) = f (d) = f (d1 d2 ) = f (d1 )f (d2 ) d|ab d1 |a.[SEC. Com o resultado anterior obtemos outro método para demonstrar que σk (n) é multiplicativa. para α = 3 obtemos as soluções n = 1 · 8 = 8 e n = 3 · 8 = 24. Exemplo 5. Demonstrar que ϕ(n)d(n) ≥ n. temos que ϕ(pα ) = (p − 1)pα−1 ≥ 2(1 + 2)α−1 ≥ 2 1 + 2(α − 1) ≥ α + 1 = d(pα ). se α > 3 temos ϕ(2α ) = 2α−1 > α + 1 = d(2α ). Temos . Solução: Se α ≥ β ≥ 0 então para qualquer primo p temos ϕ(pα ) ≥ ϕ(pβ ). já que f (n) = nk é claramente uma função multiplicativa.6. Por outro lado.  onde a igualdade só se dá quando p = 3 e α = 1. Assim.77. pela multiplicatividade das funções ϕ(n) e d(n). pelo lema 1. 5.d2 |b d1 |a. d|n d|n como querı́amos demonstrar. Encontrar todos os inteiros n para os quais ϕ(n) = d(n). X X ϕ(n)d(n) = ϕ(n) ≥ ϕ(d) = n. os únicos ı́mpares que sa- tisfazem ϕ(n) = d(n) são n = 1 e n = 3. só nos falta resolver os casos ϕ(2n) = d(2n) ⇐⇒ ϕ(n) = 2d(n) e ϕ(4n) = d(4n) ⇐⇒ 2ϕ(n) = 3d(n) onde n é ı́mpar. logo como ϕ é multiplicativa temos que ϕ(n) ≥ ϕ(d) para todo divisor d de n. Portanto. Note que a igualdade só se obtém quando n = 1 ou n = 2. Segue que F também é multiplicativa.d2 |b XX X X = f (d1 )f (d2 ) = f (d1 ) f (d2 ) d1 |a d2 |b d1 |a d2 |b = F (a)F (b).1: FUNÇÕES MULTIPLICATIVAS 191 Demonstração: Sejam a e b inteiros tais que mdc(a.

ou para p ≥ 7. então ϕ(n) > 2d(n) > 32 d(n) e analisando os casos restantes obtemos apenas as soluções apresentadas anteriormente. Teorema 5. já sabemos que ϕ(n) ≥ d(n) para todo n ı́mpar.192 [CAP. 2 Por outro lado. Assim. . então 2n n   X X 2n d(k) − = n. Portanto para i ≥ 2 temos X  2i   2i − 2   2i − 2  f (i) − f (i − 1) = b2ic−b2i − 2c+ − + k k i 2≤k≤i = 2 + (d(2i) − 2) + (d(2i − 1) − 2) + 1 = d(2i) + d(2i − 1) − 1. 18. 3. k > 1     ( 2i 2i − 2 1 se k | 2i ou k | 2i − 1 − = k k 0 caso contrário. Seja n um inteiro positivo. 8. obtemos que se n é divi- sı́vel por 33 .7. as únicas soluções de ϕ(n) = d(n) são 1. 5: FUNÇÕES ARITMÉTICAS ϕ(5) = 4 = 2d(5). Em conclusão. donde 2 · 5 = 10. Se n = pα é potência de um primo ı́mpar p então para p = 3 e α ≥ 3. da multiplicatividade das funções ϕ(n) e d(n). k k=1 k=1 Demonstração: Seja X  2i  def f (i) = . O seguinte teorema relaciona a função d(n) com a função bxc. 52 ou por algum primo p ≥ 7. 30. 24. 2 · 9 = 18 e 2 · 15 = 30 também são soluções da equação inicial. ou para para p = 5 e α ≥ 2. temos como acima que 3 ϕ(n) = pα−1 (p − 1) > 2α + 2 = 2d(n) > d(n). 10. ϕ(15) = 8 = 2d(15) e ϕ(9) = 6 = 2d(9). Demonstremos agora que não existem mais soluções. k 1≤k≤i Observemos que para i.

2: FUNÇÃO DE MÖBIUS E FÓRMULA DE INVERSÃO 193 donde 2n X n X  d(k) = d(2) + d(1) + f (i) − f (i − 1) + 1 k=1 i=2 = 3 + f (n) − f (1) + n − 1 = f (n) + n que era o que querı́amos demonstrar.4. . Além disso Lema 5.2 Função de Möbius e Fórmula de Inversão Definimos a função de Möbius µ : N>0 → Z por  1  se n = 1 µ(n) = 0 se a2 | n para algum a > 1  (−1)k se n é produto de k primos distintos.  Facilmente se comprova que a função de Möbius é multiplicativa. 5. Como a função d|n µ(d) é multiplicativa pelo teorema 5.8. 5. X k X µ(d) = µ(pj ) = 1 − 1 = 0 d|pk j=0 como querı́amos demonstrar.[SEC. Demonstraç P ão: No caso n = 1 não temos nada para provar. basta mostra o lema para n = pk onde p é um número primo. Para todo inteiro positivo n temos ( X 1 se n = 1 µ(d) = d|n 0 se n > 1. De fato.

77 e assim m m(m + 1) X jmk = ϕ(n) .194 [CAP. m X m X X m X X F (n) = f (d) = f (d) n=1 n=1 d|n d=1 d|n 1≤n≤m m Como f (d) é somado d vezes. X n f (n) = µ(d)F . Agora. d n=1 d=1 No caso particular em que f (n) = ϕ(n) temos que F (n) = n pelo lema 1. f e F definidas como antes.9 (Fórmula de inversãoP de Möbius). observemos que para todo número natural m. então para todo n inteiro positivo. 2 n n=1 . então m X m X jmk F (n) = f (d) . 5: FUNÇÕES ARITMÉTICAS Teorema 5. d d|n Demonstração: Vejamos que X n X X µ(d)F = µ(d) f (d1 ) d n d|n d|n d1 | d XX = µ(d)f (d1 ) d|n d1 | n d XX = µ(d)f (d1 ) d1 |n d| dn 1 X X = f (d1 ) µ(d) = f (n)µ(1) = f (n). Seja f (n) uma função sobre os inteiros positivos e F (n) = d|n f (d). d1 |n d| dn 1 como querı́amos demonstrar.

portanto Xm jmk 1= µ(n) . 5.10. Demonstrar que. para todo inteiro m > 1. então F (n) = 0 se n > 1 e F (1) = 1 pelo lema 5.[SEC.8. .2: FUNÇÃO DE MÖBIUS E FÓRMULA DE INVERSÃO 195 Se f (n) = µ(n). n n=1 A igualdade anterior nos permite resolver o seguinte Exemplo 5.

m .

.

X µ(k) .

.

< 1. .

.

k .

.

.

m. k=1 Solução: Como −1 < µ(k) m   m m m k − k < 1 e k − k = 0 quando k = 1. então .

.

m jmk m .

X X µ(k) .

.

µ(k) −m .

<m−1 .

k k .

.

.

k=1 k=1 Usando a identidade acima provada temos que .

.

m .

X µ(k) .

.

.

1 − m .

. < m − 1.

.

k .

k=1 .

P .

µ(k) .

logo .

m m < m e simplificando m obtemos o que querı́amos .

k=1 k .

Sejam f. É conhecido (Mangoldt 1897) que se m tende para infinito. Teorema 5.11 (Segunda fórmula de inversão de Möbius). então a soma anterior converge para 0. +∞) tais que ∞ X x g(x) = f k k=1 para todo x. demonstrar. g funções reais com domı́nio (0. então ∞ X x f (x) = µ(k)g . k k=1 .

um dos problemas em aberto mais importantes da Matemática. Conjetura 5. f (t) lim = 0. . t→∞ tα De fato. kr m k=1 r=1 m=1 k|m como querı́amos demonstrar. Encontrar todos os inteiros positivos n tais que n = d26 + d27 − 1. temos btc X f (t) = µ(m). para todo α > 1/2. m=1 Problemas Propostos 5. Se α > 1/2. onde 1 = d1 < d2 < · · · < dk = n são todos os divisores positivos do número n. n→∞ nα m=1 Podemos reenunciar esta conjectura assim: seja f : (0.claymath.12 (Hipótese de Riemann).org/millennium/).1. então n 1 X lim µ(m) = 0. O Clay Mathematics Institute oferece um prêmio de 1 milhão de dólares para a a primeira demonstração da Hipótese de Riemann (ver a página web http://www. pela segunda fórmula de inversão de Möbius.196 [CAP. +∞) → R definida por ( f (t) = 0 se t < 1 P∞ k=1 f (t/k) = 1 se t ≥ 1. 5: FUNÇÕES ARITMÉTICAS Demonstração: Observemos que ∞ X ∞ X  x  X∞ X  x f (x) = µ(k) f = µ(k) f = f (x). A seguinte é uma das formulações da famosa hipótese de Riemann. Então.

.6.2: FUNÇÃO DE MÖBIUS E FÓRMULA DE INVERSÃO 197 5. . e só se. Seja m um inteiro positivo. 5. 2. Demonstrar que σ(n) √ ≥ n.10. Dados dois números reais α e β tais que 0 ≤ α < β ≤ 1. Demonstrar que n possui ao menos quatro fatores primos distintos. Encontrar todos os valores de n para os quais ϕ(n) | n.[SEC.4. 3.5. Seja r o número de fatores primos diferentes de n. Demonstrar que existem infinitos números naturais n para os quais σ(x) = n não tem solução.9. . 6. 5. d|n 5. Dizemos que um inteiro m ≥ 1 é “superabundante” se σ(m) σ(k) ∀k ∈ {1. Dois números a e b são amigos se σ(a) = b e σ(b) = a. Por exemplo 1184 e 1210 são amigos (verificar!).7. 5. Demonstrar que σ(n!) 1 1 > 1 + + ··· + . m k Demonstrar que existe um número infinito de números superabundantes.2. √ 5.8. m − 1} > . . Encontrar outra dupla de números amigos. Seja n um inteiro positivo que não é primo e tal que ϕ(n) | n − 1. 8. Demonstrar que m | σ(mn − 1) para todo n se. . demonstrar que X |µ(d)| = 2r . 5. n! 2 n 5. demonstrar que existe um número natural m tal que ϕ(m) α< < β. Poderia melhorar esta cota? 5.11.3. d(n) 5. 12 ou 24. Demonstrar que d(n) < 2 n. 4. 5. m = 2.12. m 5.

13. 5: FUNÇÕES ARITMÉTICAS 5. Demonstrar que para todo m > 1 .198 [CAP.

.

m .

X µ(k) .

2 .

< . .

.

k .

3 .

.

suas configu- rações de pedras coincidem por uma rotação. Seja f uma função multiplicativa tal que para todo número primo p. Determine todos os inteiros positivos k tais que d(n2 ) = kd(n) para algum n. d(n) denota o número de divisores de n.16.17. Uma pulseira é formada por pedras coloridas. n d|n 5. f (M n+1 − 1) ≥ f (M n − 1)f (M ) e f (M n+1 + 1) ≤ f (M n + 1)f (M ).14 (IMO1998).15. mostre que o número de pulseiras diferentes possı́veis com n pedras é dado pela expressão 1X ϕ(d) · k n/d . pregadas em volta de um cı́rculo de modo a ficarem igualmente espaçadas. 5. Duas pulseiras são consideradas iguais se.19. Conclua que p n lim f (M n ) = f (M ). 5. √ 5.18. ( 1 se k = 2s para algum s ∈ N f (pk ) = 0 caso contrário. e somente se. Se há pedras disponı́veis de k ≥ 1 cores distintas. mas não é totalmente multiplicativa. de mesmo tamanho. para todo inteiro M > 1 e todo inteiro positivo n. Seja f : N+ → R+ uma função multiplicativa e crescente. Para cada inteiro positivo n. 5. n→∞ . Mostre que f é uma função tal que f (n2 ) = f (n)2 para todo n ∈ N. mostre que ϕ(n) ≤ n − n. k=1 5. (a) Prove que. Se n é composto. Determinar todos os números inteiros positivos n tais que n = d(n)2 .

então existe uma única função f (−1) : N>0 → C tal que f ∗ f (−1) = f (−1) ∗ f = I. a qual é dada recursivamente por f (−1) (1) = 1/f (1) e. se s ∈ R (ou s ∈ C) e as séries ns e ns n≥1 n≥1 convergem absolutamente então X f (n) X g(n) X f ∗ g(n) · = . (d) Prove que. então a função f (−1) definida no item anterior também é multiplicativa. h : N>0 → C. f (1) d d|n. se f : N>0 → C é tal que f (1) 6= 0. d d|n d1 d2 =n P f (n) P g(n) (a) Prove que.. (c) Conclua que f é totalmente multiplicativa. temos f ∗ g = g ∗ f e f ∗ (g ∗ h) = (f ∗ g) ∗ h (isto é. para n > 1. o produto de Dirichlet é comutativo(e associativo). e que a função I : N>0 → C dada 1 se n = 1 por I(n) = é o elemento neutro do produto ∗. definimos o produto de Diri- chlet (ou convolução de Dirichlet) f ∗ g : N>0 → C de f e g por n def X X f ∗ g(n) = f (d)g = f (d1 )g(d2 ). i. 0 se n > 1 I ∗ f = f ∗ I = f . g : N>0 → C. 5. ∀f : N>0 → C. 1 X n f (−1) (n) = − f f (−1) (d). e portanto existe α > 0 tal que f (n) = nα para todo inteiro positivo n. 5. g.d<n (e) Prove que.[SEC. 5.e. Dadas duas funções f. (c) Prove que se f e g são multiplicativas então f ∗ g é multiplicativa.20. Mostrar que ϕ(n) + σ(n) ≥ 2n para todo inteiro positivo n. para quaisquer funções f. ns ns ns n≥1 n≥1 n≥1 (b) Prove que. se f é multiplicativa.21.2: FUNÇÃO DE MÖBIUS E FÓRMULA DE INVERSÃO 199 (b) Utilize o item anterior para M potência de primo para concluir que f (pk ) = f (p)k para todo primo p. .

i=1 2n Além disso. pi p i=1 Mas como       2n 2n 2n n n n i ≥ i > i −1 e −2 −1 > −2 i ≥ −2 . se 32 n < p < n então p não divide 2nn . pi p Portanto esta última expressão só pode tomar os valores 1 e 0. p p p pi p pi somando teremos que     2n n 2> − 2 i > −1. Concluı́- mos que θp X α − 2β ≤ 1 = θp . Sejam n um número natural e p um número primo. Demonstração: Sejam α e β os expoentes das maiores potências de p que dividem (2n)! e n! respectivamente. Então o expoente da maior potência √ de p que divide 2n n é menor ou igual a θp . 5. precisaremos de algumas estimativas sobre o crescimento dos primos.13. 5: FUNÇÕES ARITMÉTICAS 5. se p > 2n então o expoente desta máxima potência de p é menor do que ou igual a 1. Além disso. p p p p  (2n)! Portanto o expoente da máxima potência de p que divide 2n n = n!n! é θp     X 2n n α − 2β = −2 i . Seja θp o inteiro tal que pθp ≤ 2n < pθp +1 . . Em particular.22 que         2n 2n n n α= + 2 + ··· e β= + 2 + ··· .3.3 Algumas Estimativas sobre Primos Para estudar o comportamento assintótico das funções aritméticas da seção anterior. logo α − 2β = 0. Sabemos da proposição 1. se 3 < p < n então α = 2 e β = 1.1 O Teorema de Chebyshev Começamos com um Lema 5.200 [CAP.

Para todo inteiro positivo n. . n p<2n . que 5 · 2k π(2k+1 ) ≤ k (começando com k = 5. Vamos agora provar a outra desigualdade. Se 2n n = p<2n p αp é a fatoração canônica de 2n αp ≤ 2n ⇐⇒  n então pelo lema 5. log n Isso implica facilmente. (2n)! Demonstração: Observemos inicialmente que 2n  n = n!n! é múltiplo de todos os primos p que satisfazem n < p ≤ 2n. 5. por indução.13 temos p αp log p ≤ log 2n e portanto   2n X log = αp log p ≤ π(2n) log(2n). .15 (Chebyshev). 2. .3: ALGUMAS ESTIMATIVAS SOBRE PRIMOS 201 Corolário 5. Como   X 2n 2n < = 22n . . donde (π(2n) − π(n)) log n < 2n log 2 e 2n log 2 π(2n) − π(n) < . o mı́nimo múltiplo comum dos números 1. Podemos agora mostrar a seguinte Proposição 5. Daı́ segue que se 2k < x ≤ 2k+1 então 5 · 2k 5x log 2 π(x) ≤ ≤ k log x pois f (x) = x log 2/ log x é uma função crescente para x ≥Q3.14. Existem constantes positivas c < C tais que x x c < π(x) < C log x log x para todo x ≥ 2. 2n é maior ou igual a 2n n . n k 0≤k≤2n segue que o produto dos primos entre n e 2n é menor do que 22n . até k = 5 segue de π(n) ≤ n/2 para n ≥ 4). Seja π(x) a quantidade de primos me- nores do que ou iguais a x. Como há π(2n) − π(n) primos como esses segue que nπ(2n)−π(n) < 22n (pois todos esses primos são maiores que n).[SEC.

que dei- xamos como exercı́cio para o leitor. 5: FUNÇÕES ARITMÉTICAS donde log 2n  n n log 2 π(2n) ≥ ≥ log(2n) log(2n) pois   2n 2n 2n − 1 n+1 = · ··· ≥ 2n . temos que existe C 0 tal que pn < C 0 n log n para todo n ≥ 2. pn 0 Demonstração: Se lim sup n log n > C .17.202 [CAP. pois π(2k − 1) = π(2k). Corolário 5. A série X f (p) p primo . Analogamente se prova a existência de c0 . Seja f : N → [0. +∞) uma função decrescente. Seja pn o n-ésimo número primo. Existem constantes C 0 > c0 > 0 tais que c0 n log n < pn < C 0 n log n para todo n ≥ 2. x log 2 π(x) ≥ 2 log x para todo x par. n n n−1 1 assim. Assim. Temos ainda o seguinte corolário do teorema de Chebyshev. então n→∞ π(x) π(pn ) lim inf ≤ lim inf x→∞ x/ log x n→∞ pn / log pn n(log C 0 + log n + log log n) 1 ≤ lim inf 0 = 0 n→∞ C n log n C π(x) já que x/ log x é crescente para x ≥ 3. o que implica na mesma estimativa para todo x inteiro.16. Corolário 5. como lim inf >0 x→∞ x/ log x pelo teorema anterior.

Sejam p1 . M ]| + |B ∩ [1. então n se fatora como pα1 1 pα2 2 . . Se n ∈ A e n ≤ M . p primo p 2 p≥N Vamos considerar a decomposição N = A ∪ B em que A = {n ∈ N | todos os fatores primos de n são menores que N } e B = N \ A. Fixe- mos M ∈ N. ∀j ≤ k. . |A ∩ [1. o que é absurdo. p p primo Observação 5. M ]| = |A ∩ [1.3: ALGUMAS ESTIMATIVAS SOBRE PRIMOS 203 converge se. M →+∞ M log 2 . 5. p2 . pαk k . X 1 = +∞. e somente se. Em particular. onde αj ≤ log M log M k log 2 . M log M k temos 2 < (1 + log 2 ) para todo M ∈ N. M ]| < (1 + log M k M log 2 ) + 2 . .18. p primo p p primo p 2 p≥N p≥N Como M = |N ∩ [1. todo elemento de B tem um fator primo maior ou igual a N . M ]| ≤ ≤M < . existe N ∈ N tal que p primo X 1 1 < . Por outro lado. donde X M  X 1 M |B ∩ [1. M ]| ≤ (1 + log 2 ) . . pk todos os primos menores que N . .[SEC. a série ∞ X f (n) log n n=2 converge. Assim. . pois log M k   1 lim 1+ = 0. Um interessante argumento devido a Erdős dá uma outra P prova da divergência da série dos inversos dos primos: supondo 1 que p < +∞.

. Ele é chamado de “postulado” por razões históricas. também devido a Chebyshev. m+1 m+1 m m+1<p≤2m+1 Portanto da hipótese de indução temos que Y Y Y p= p p < 4m+1 4m = 42m+1 .204 [CAP. Logo basta provar a desigualdade para um valor ı́mpar n = 2m + 1. . vemos que para n pequeno tal desigualdade é válida. . se o resultado vale para n = 2m+1 então também vale para n = 2m+2 pois não agregamos novos primos ao produto quando passamos de 2m + 1 para 2m + 2. Então sempre existe um primo p tal que n ≤ p ≤ 2n. Seja n um inteiro positivo. Lema 5. k! + 4. Dado que para todo primo p tal que m + 1 < p ≤ 2m + 1 tem-se que p divide (2m + 1)! mas não divide (m + 1)! nem m! então       Y 2m + 1 2m 2m p≤ = + < (1 + 1)2m = 4m . 5: FUNÇÕES ARITMÉTICAS 5. Teorema 5. p≤2m+1 p≤m+1 m+1<p≤2m+1 como querı́amos demonstrar. p≤n p primo Demonstração: A prova é por indução em n.19 (Postulado de Bertrand). que afirma que os primos não são tão “esparsos” assim. . por exemplo k! + 2. temos Y p < 4n . Para isso. k! + 3. Demonstração: (do postulado de Bertrand) Suponhamos que esta afirmação é falsa para algum valor de n e mostraremos que n não pode ser muito grande. . Além disso.2 O Postulado de Bertrand Sabemos que há sequências arbitrariamente grandes de números con- secutivos que não contém primos. k! + k Nosso próximo resultado é o seguinte teorema.20.3. Para todo n ≥ 2.

temos n = pi ≤ 2n pi . pi ≤ 2n e αj ≤ 1 para pj > 2n. Para terminar a demonstração só falta mostrar um primo que cumpra as condições do teorema para todo inteiro menor que 100: tome . obtemos a desigualdade 3 n < log2 n+ 1. n √ 2 2√ Tomando logaritmo na base 2. e supondo que √ n é suficientemente p grande de modo que o número de primos entre 1 e 2n é menor que n/2 − 1 (n = 100 é suficiente e a partir deste valor esta hipótese se cumpre já que metade dos números neste intervalo são pares). logo   2n Y Y Y Y ≤ pαi i pj ≤ 2n pj . Como estamos supondo que não há primos entre n e 2n e como Q nenhum primo entre 2 2n 2n αi 3 n e n divide n pelo lema 5.3: ALGUMAS ESTIMATIVAS SOBRE PRIMOS 205 Seja pi o i-ésimo primo e αi máximo tal que pαi i | 2n  n . og 2 x+1 6 y=l 4 √ 2√ x 2 3 y= 2 10 20 30 40 50 Portanto. Ainda pelo αi √ 3 lema 5. 5.13. n 2n 2n−1 2n−1 > (1 + 1)2n−1 = 22n−1 e    n = n n +n n−1 assim a desigualdade anterior implica 22n−1 √ √ < (2n) n/2−1 42n/3 =⇒ 22n/3 < (2n) n/2 . que é falsa para todo n ≥ 50. temos   2n √ < (2n) n/2−1 42n/3 . este deve ser menor do que 100. n √ √ √ pi ≤ 2n 2n<pj ≤ 2n 3 pi ≤ 2n pj ≤ 2n 3 Utilizando o lema anterior.13.[SEC. n Por outra parte. se existe um contra-exemplo do postulado de Bertrand.

j=2 . . 4n. o que contradiz o fato de que n! e l são primos relativos. Então entre dois termos consecutivos da sequência n.21. 5.206 [CAP. n 1 P  2. .3. Portanto. . os k primeiros números maiores que n que são primos relativos com n! estarão entre n e n2 . . Se um de tais números não fora primo.3 Outras estimativas Precisaremos também das seguintes estimativas: 1 = log n + γ + O( n1 ) = log n + O(1). supondo a ≤ b. . 1. onde P Lema 5. 2n. digamos l = ab. . Demonstrar que os k primeiros números que são maiores do que n e primos relativos com n! são primos. logo a ≤ n. Solução: Como n > 2k então n2 > 2k n. entre n e n2 existem ao menos k primos. Em particular.22. n→∞ j 1≤j≤n é a constante de Euler-Mascheroni (ver [38] por exemplo). teremos que a2 ≤ l ≤ n2 . 577215664901532860606512 . Seja n > 2k . 2k n existe ao menos um primo. 5: FUNÇÕES ARITMÉTICAS p=2 para 1≤n≤2 p=5 para 3≤n≤5 p = 11 para 6 ≤ n ≤ 11 p = 23 para 12 ≤ n ≤ 23 p = 47 para 24 ≤ n ≤ 47 p = 79 para 48 ≤ n ≤ 79 p = 101 para 80 ≤ n ≤ 100 Exemplo 5. log j = n + 2 log n − n + O(1). j 1≤j≤n  X 1   γ = lim − log n = 0. j=1 n P 1 3. j log j = log log n + O(1).

temos que para todo inteiro j > 1.   n n 1 X 1 1X1 n+ log n − n + 1 > log j > n log n − n + + . veja por exemplo [60]. que nos será suficiente na maioria das aplicações. no intervalo [j − 1. Como antes.3: ALGUMAS ESTIMATIVAS SOBRE PRIMOS 207 Demonstração: Para estimativa mais precisa da primeira soma. 5. j] a reta que contém o ponto (j. 1j ). assim para todo inteiro j > 1. Para isto. 2 2 j=2 j=2 Ou seja. log(j − 1)). j j−1 x 2 j−1 j Somando todas estas desigualdades desde 2 até n temos que n Z n n   n X 1 1 X 1 1 1 1 1 X 1 < dx < + = − + j 1 x 2 j−1 j 2 2n j j=2 j=2 j=2 e assim n 1 1 X1 + + log n < < 1 + log n. j−1 ) e (j. observemos que a função g(x) = x1 é estritamente decrescente e côncava para cima. que por sua vez fica embaixo da reta que passa pelos pontos 1 (j − 1. (j. 2 2n j j=1 Para estimar o segundo somatório. log j). no intervalo [j − 1. 2 2 2 j j=1 j=1 . log j) e tem inclinação mj = h0 (j) = 1j fica por cima de y = h(x). j] a reta y = 1j fica embaixo de y = g(x).[SEC. Logo Z j 1 1 log j − > log x dx > (log(j − 1) + log j). 2j j−1 2 Somando estas desigualdades desde 2 até n temos que n n Z n X X 1 log j − > log x dx 2j 1 j=2 j=2 n n X 1 X 1 > (log(j − 1) + log j) = log j − log n. observemos que a função h(x) = log x é estritamente crescente e côncava para baixo. que por sua vez fica acima da reta que passa pelos pontos (j − 1. Aqui provaremos apenas a segunda estimativa. Portanto calculando as áreas sob as curvas temos que Z j   1 1 1 1 1 < dx < + .

concluı́mos que   n   1 X 1 1 3 n+ log n − n + 1 > log j > n + log n − n + + 2 2 4n 4 j=1 e o resultado segue. e como p −1 < k=1 p primo p≤n ∞ b np c ≤ vp < n n P pk = p−1 . temos log p ≤ π(n) log n = O(n).208 [CAP. p primo p≤n Demonstração: Pela proposição 1. P log p Proposição 5. p = log n + O(1). p primo p p primo p − 1 k=1 p≤n p≤n Ou seja. O resultado segue. p primo p≤n P log p P 1 Por outro lado. Agora. n p primo n p primo p p primo p(p − 1) k=1 p≤n p≤n p≤n P Pelo teorema de Chebyshev 5.22. 5: FUNÇÕES ARITMÉTICAS Assim. temos ∞   Y vp X n n! = p onde vp = . . mostremos algumas estimativas sobre números primos. Rn dx A terceira soma é estimada comparando-a com a integral 2 x log x = log log n − log log 2. n 1 X 1X X log p X log p − log p ≤ log k − ≤ . temos log k = vp log p.15. p primo p≤n 1 Pn pois n k=1 log k = log n + O(1) pelo lema anterior. e é deixada como exercı́cio para o leitor. k=1 X n  n X X n − 1 log p ≤ log k ≤ log p.23. p(p−1) ≤ n≥1 n3/2 = O(1). p primo pk k=1 p≤n n P P n Tomando logaritmos.

temos por “integração por partes” discreta n n X 1 X ak X Sk − Sk−1 = = p primo p log k log k k=2 k=2 p≤n n   X 1 1 Sn = Sk − + log k log(k + 1) log(n + 1) k=2 n   X 1 1 = log k − + O(1) log k log(k + 1) k=2 n X log(k + 1) − log k = + O(1) log(k + 1) k=2 n X 1 = + O(1) (k + 1) log(k + 1) k=2 onde a última igualdade segue de Z k+1 1 dx 1 ≤ ≤ k+1 k x k 1 log(k + 1) − log k 1 =⇒ ≤ ≤ (k + 1) log(k + 1) log(k + 1) k log(k + 1) e .3: ALGUMAS ESTIMATIVAS SOBRE PRIMOS 209 A proposição anterior nos permite estimar a ordem de crescimento da soma dos inversos dos primos.24.[SEC. 5. p primo p≤k Assim. p primo p≤n Demonstração: Defina n ( log k k se k é primo X ak = e Sn = ak . P 1 Teorema 5. 0 caso contrário k=1 P log p Pela proposição anterior. p = log log n + O(1). temos que Sk = p = log k + O(1).

n n .

n   .

X 1 X 1 .

X 1 1 − .

≤ − = O(1). .

.

k log(k + 1) (k + 1) log(k + 1) .

k k+1 .

.

k=2 k=2 k=2 .

Lan- dau. p − log log n − c) atinge valores positivos e p primo p≤n negativos de módulos arbitrariamente grandes. Mais P recentemente. Deixamos os detalhes como exercı́cio paraP o leitor. . É possı́vel obter estimativas mais precisas para o termo de erro. temos ∞  z2 Y  sen z = z 1− 2 2 . para alguma constante positiva a. O coeficiente de z 3 neste produto é − ∞ 1 k=1 π 2 k2 . 5: FUNÇÕES ARITMÉTICAS n P 1 O resultado segue do lema anterior. e Vinogradov ([149]) provou que é possı́vel trocar o termo de erro por O(exp(−a(log n)3/5 (log log n)−1/5 )).Pvejamos como terminar a prova. . Não é difı́cil mostrar que a prova acima fornece um termo de erro do tipo c + O( log1 n ) (em lugar de O(1)) para uma certa constante c (a constante de Mertens). n=1 Demonstração: No plano complexo. . que vale aproximadamente 0. já que (k+1) log(k+1) = k=2 log log n + O(1). Mais preci- p primo p≤n 1 n1/2 log n( P samente. é ∞ P 1 π2 Proposição 5. por exemplo. mas como z3 z5 sen z = z − + − ··· 3! 5! .25.210 [CAP. 2614972128476427837554268386 . onde γ é p primo a constante de Euler-Mascheroni. que será usado nas seções seguintes. π k k=1 Assumindo esta fórmula. Um outro resultado importante. É possı́vel provar que a constante de Mertens c é igual a γ + (log(1 − p1 ) + p1 ). n2 = 6 .26. Diamond e Pintz ([50]) provaram que o 1 erro p − log log n − c troca de sinal infinitas vezes. Observação 5. provou em [84] que é possı́vel trocar o termo de erro O( log1 n ) por O(exp(−(log n)1/14 )).

2k + 1 2k + 1 2k + 1 4r sen ( 2k+1 ) Assim. temos x  x  Y  sen2 ( 2k+1 ) sen x = (2k + 1) sen 1− πr . temos Y   πr  sen((2k + 1)y) = (−4)k sen y sen2 y − sen2 2k + 1 1≤r≤k Y  sen2 y  = ck sen y 1− πr sen2 ( 2k+1 ) 1≤r≤k sen((2k+1)y) para alguma constante ck . sen((2k + 1)y) pode ser escrito como Pk (sen y). para todo x real e 1 ≤ r ≤ k. 5. obtendo a fórmula Y x2  sen x = x 1− 2 2 . temos que y→0 ck = 2k + 1. sen y = sen y. Para provar a fórmula acima. Fazendo agora y = x/(2k + 1). onde r é inteiro com −k ≤ r ≤ k. De fato. x 2r  πr  πr x2 sen2 ( 2k+1 ) ≤ sen ≤ =⇒ 1 − 2 ≤ 1 − 2 πr ≤ 1. basta fazê-lo para z real. Pk+1 (sen y) + Pk−1 (sen y) = sen((2k + 3)y) + sen((2k − 1)y) = sen((2k + 1)y + 2y) + sen((2k + 1)y − 2y) =2 sen((2k + 1)y) cos(2y) =2Pk (sen y)(1 − 2 sen2 (y)). com Pk+1 (t) = 2(1 − 2t2 )Pk (t) − Pk−1 (t). Note que para todo k ≥ 1. As raı́zes de Pk (t) são os 2k + 1 números sen(πr/(2k + 1)). 2k + 1 sen2 ( 2k+1 ) 1≤r≤k Como 2t/π ≤ sen t ≤ t para todo t entre 0 e π/2. Como lim sen y = 2k + 1. π r r≥1 . sen(3y) = 3 sen y − 4 sen3 (y) e. donde o resultado segue. o que implica o resultado por indução. uma vez que o resultado geral segue por continuação analı́tica. o produto converge uniformemente em compactos. temos. para todo k ≥ 1. Assim. onde Pk é um polinômio de grau 2k + 1 (e coeficiente lı́der (−4)k ).[SEC. e podemos passar ao limite k → ∞ termo a termo.3: ALGUMAS ESTIMATIVAS SOBRE PRIMOS 211 concluı́mos que ∞ 1 1 P k=1 π 2 k2 = 3! .

5. Uma fração egı́pcia é uma fração da forma n1 . com 0 ≤ a ≤ b − 1. Prove que todo racional positivo pode ser escrito como soma de frações egı́pcias distintas. seja Xa. 5.b n1 converge.23. 5: FUNÇÕES ARITMÉTICAS No seguinte desenho se ilustram os gráficos y = fk (x). Seja ζ(s) = n=1 n1s a função zeta de Riemann. Prove que n∈Xa.22. (b) Prove que qualquer sequência finita de dı́gitos aparece como uma sequência de dı́gitos consecutivos na representação decimal de infinitos números primos.25. y = f2 (x) y = sen x y = f1 (x) y = f3 (x) Problemas Propostos P∞ 5.4 A Função ϕ de Euler As seguintes proposições mostram algumas estimativas da função ϕ de Euler. . onde n é um inteiro positivo (parece que os egı́pcios não gostavam de frações com numerador maior que 1). ζ(2k) 5. dos primeiros Y  x2  três termos da sequência fk (x) := x 1− que converge em π2 r2 1≤r≤k compactos à função sen x.b o conjunto dos inteiros positivosPn em cuja representação na base b o dı́gito a não aparece. Mostrar indutivamente que π 2k é sempre racional.212 [CAP. Mostrar usando 4 a proposição anterior que ζ(4) = π90 . 5.24 (Frações egı́pcias). (a) Dados inteiros b ≥ 2 e a.

Observemos que a proposição anterior mostra que a “probabilidade” de que dois números naturais sejam primos entre si. logo P n n X n X X k X X k ϕ(k) = µ(d) · = µ(d) · d d k=1 k=1 d|k d|kd=1 1≤k≤n n bn c n X Xd X b nd c(b nd c + 1) = µ(d) r= µ(d) 2 d=1 r=1 d=1 k n onde fizemos a substituição r = ≤ Por outro lado. k=1 ϕ(k) = π2 + O(n log n). logo = O( n1 ) e assim P e k2 d2 k>n d>n n n n ∞ X n2 X µ(d)  X 1  n2 X µ(d) ϕ(k) = + O n = + O(n log n). d d. j n kj n k   n 2 n +1 = + O( ) d d d d P 1 R ∞ dx µ(d) = O( n x2 ) = O( n1 ). 2 d2 d 2 d2 k=1 d=1 d=1 d=1 Além disso.79%.[SEC.9) e o lema 1. Este resultado pode ser generalizado da seguinte forma: . 5.27. n) = 1} N →∞ N 2 6 é igual a π2 ≈ 60. mα nα kα m=1 n=1 k=1 P∞ µ(d) 1 −1 P∞ Em particular d=1 d2 = ( d=1 d2 ) = π62 pela proposição 5. 1 lim #{(m. note que para todo α > 1 temos que ∞ ∞ ∞ P X 1 X µ(n) X d|k µ(d) = = 1. assim substituindo este valor na expressão acima temos o resultado de- sejado. m ≤ N e mdc(m. ou seja.26. n) ∈ N2 | 1 ≤ n.4: A FUNÇÃO ϕ DE EULER 213 Pn 3n2 Proposição 5. Demonstração: Observemos que pela fórmula de inversão de Möbius (teorema 5.77 temos ϕ(k) = d|k µ(d) kd .

m2 . e. rk ). k = π2 + O(log n).(r1 . n P ϕ(k) 6n Proposição 5... . . = + O xk−1 . . r2 . mk ∈ N é 1 ζ(k) . m2 . rk ) = 1. Em particular. . . . bxc]k se escreve de maneira única como d. m2 ... . . mk ) ∈ [1. Dados k ≥ 2 um inteiro e x ∈ (0. . . . para k = 2. m2 . . . r2 . . para k > 2. m2 . d≥1 f (x/d) = bxc . +∞). f (x) = ζ(2) + O(x log x) e.29. mk ≤ x}. . Em outras palavras. para m1 . P P f (x) = d≥1 d=1 Como bx/dck = xk /dk + O(xk−1 /dk−1 ). Demonstração: P Temos f (x) =k 0 para todo x ∈ (0. +∞). . com (r1 . . mk ) = 1} e f (x) = #{(m1 . onde d (que é igual a mdc(m1 . 1).28. . . . rk ) ∈ [1. lim f (x) k = 1 ζ(k) . n=1 x2 Então.. . . ∞ P 1 Seja ainda ζ a função zeta de Riemann dada por ζ(k) = nk . mk )) é um inteiro positivo e mdc(r1 . r2 .214 [CAP. . m2 . Portanto. mk ) ∈ Nk | mdc(m1 . . temos bxc µ(d)bx/dck = µ(d)bx/dck . 5: FUNÇÕES ARITMÉTICAS Proposição 5. pois cada um dos bxc pontos in- teiros (m1 . . . .. d dk−1 ζ(k) dk−1 d=1 d=1 d=1 o que implica o resultado desejado. pela segunda fórmula de inversão de Möbius. . . temos bxc  x k bxc k−1  bxc bxc k−1  X X x X x k X x f (x) = µ(d) +O k−1 = µ(d) + O = d d d dk−1 d=1 d=1 d=1 d=1 ∞ bxc bxc X µ(d)  X 1  xk  X 1  = xk k + O xk−1 . . . mk ) ∈ X | 1 ≤ m1 . mk ) = 1. . bx/dc]k . k para todo x ∈ (0. . sejam X = {(m1 . k=1 . . m2 . m2 . . . . . a “probabili- x→+∞ x dade” de termos mdc(m1 . xk f (x) = ζ(k) + O(xk−1 ). .

n→∞ Demonstração: Seja pi o i-ésimo número primo. mas k   ϕ(nk ) log log nk X 1 log = log 1 − + log log log nk . basta verificar que k→∞ lim sup(log log k − log log log nk ) = 0. ϕ(k) = d|k portanto n n X n j k X ϕ(k) X µ(d) X n µ(d) = = · k d d d k=1 k=1 d|k d=1 n n X µ(d) X 1  6 =n 2 + O = 2 n + O(log n). ∞). n p primo p p i nk 1≤i≤k p|n ϕ(n) log log n ϕ(nk ) log log nk ϕ(nk ) log log nk logo n ≥ nk . d d π d=1 d=1 ϕ(n) log log n Proposição 5. então n > nk onde nk = p1 ·p2 · · · pk é o produto dos k primeiros números primos. pela proposição 5. ϕ(n) Y  1  Y  1  ϕ(nk ) = 1− ≥ 1− = . 0 < lim inf n < +∞. ∞). Assim. para mostrar que lim inf ϕ(nk ) log nk log nk ∈ (0. pj pj j=1 j=1 Mas pelo corolário 5.4: A FUNÇÃO ϕ DE EULER 215 µ(d) kd e P Demonstração: Como na proposição anterior.[SEC.30. Desta maneira. Basta mostrar que lim inf nk ∈ k→∞ (0. nk pj j=1 1 = − p1j + O( p12 ). temos que k ≤ pk ≤ Ck log k para algum C. 5. o que implica log log pk = log log k + O(1).24 obtemos  Como log 1 − pj j k k X  1 X 1 log 1 − =− + O(1) = − log log pk + O(1).16. Se n tem k fatores distintos. k→∞ .

É possı́vel provar que lim inf n = e−γ . k→∞ Por outro lado. certamente temos nk >2k . ϕ(n) log log n Observação 5. Portanto lim sup(log log k − log log log nk ) ≥ 0. k→∞ Logo este lim sup é zero. mα mα−1 mα m=1 m=1 m=1 5. 5: FUNÇÕES ARITMÉTICAS k pk ≤ (Ck log k)k .26. log log nk > log k + log log 2. Prove que se a parte real de α é maior ou igual a 2 então ∞ ∞ . a ordem máxima de ϕ(n) é n e−γ n e a ordem mı́nima de ϕ(n) é log log n . Problemas Propostos 5. completando a prova. e assim lim sup(log log k − log log log nk ) ≤ 0.31. donde Q Temos que nk = j=1 log nk ≤ k(log k + log(C log k)) < 2k log k para k grande. e assim log log nk < log k + log log k + log 2. assim fica claro que lim sup ϕ(n) n = 1. para todo p primo.27 (Sierpiński). logo log nk >k log 2. n→∞ Resumindo os vários tipos de resultados que obtivemos sobre ϕ(n) dizemos que a ordem média de ϕ(n) é 6n π2 . ∞ X ϕ(m) X 1 X 1 = . n→∞ Observe que outro tipo de estimativa trivial pode ser obtida do fato que ϕ(p) = p−1. Mostrar que o conjunto n ϕ(n + 1) .216 [CAP.

o .

n∈N .

n .

existe é denso em [0. a ∈ [0. que . 1] e todo  > 0. 1]. isto é.

para todo ..

ϕ(n) um inteiro positivo n tal que .

n − a.

< . .

.

Mostrar que o conjunto n ϕ(n + 1) .[SEC.5: A FUNÇÃO σ 217 5.28 (Schinzel). 5.

o n ∈ .

N ϕ(n) .

pj n2 j=1 mas ∞ Y 1 Y  1 1 1  X 1 π2 1 = 1 + 2 + 4 + 6 + · · · = 2 = 1 − p2 p p p k 6 p primo p primo k=1 já que expandindo o produto. é denso no conjunto dos números reais positivos.5 A Função σ P Lembramos que σ(n) = d|n d é uma função multiplicativa.30. se n = pα1 1 pα2 2 · · · pαk k é a fatoração canônica de n.29. kα π 2 (2 − α) k=1 5. Juntamente com a proposição 5. Mostar que para todo α ≤ 1 e n  0 n X ϕ(k) 6 = n2−α + O(n1−α log n). cada natural k aparece exatamente uma vez pelo teorema fundamental da aritmética.30 isso implica a . 5. Logo temos que π62 < ϕ(n)σ(n) n2 < 1 para todo n > 1. Mostrar que n X ϕ(k) 6  log n  = log n + C + O . Assim. 5. k2 π2 n k=1 6γ P µ(d) log d onde C = π2 − d≥1 d2 . então k k α +1 k −α ! Y αj Y pj j − 1 Y αj 1 − pj j σ(n) = (1+pj +· · ·+pj ) = = pj 1+ pj − 1 pj − 1 j=1 j=1 j=1 Qk Qk p donde n j=1 (1 + p1j ) ≤ σ(n) < n j=1 pj −1 j . Usando a fórmula de ϕ(n) temos que k  Y 1  ϕ(n)σ(n) 1− 2 ≤ < 1.

218 [CAP. k=1 Demonstração: Observemos que σ(k) d 1 P P k = d|k k = d0 |k d0 . k=1 σ(k) = 12 n + O(n log n) Demonstração: Da definição de σ temos que Xn Xn X X n jnk σ(k) = d= d d k=1 k=1 d|k d=1 n XX XX X b n c(b n c + 1) k k = d= d= 2 d≥1 k≥1 k≥1 d≥1 k=1 kd≤n kd≤n n n2 X 1 = + O(n log n) 2 k2 k=1 π2 2 = n + O(n log n). d0 =1 d0 2 6 . se n é n→∞ σ(n) primo. 5: FUNÇÕES ARITMÉTICAS σ(n) Proposição 5. assim por um procedimento similar ao anterior temos n n n X σ(k) X X 1 X 1 jnk = = k 0 d0 0 d0 d0 k=1 k=1 d |k d =1 n X 1 π2 =n + O(log n) = n + O(log n).33.32.35. 12 1 R∞ π2 = O( n dx ) = O( n1 ) e P P 1 pois k2 x2 k2 = 6 . n→∞ σ(n) γ Observação 5. k>n k≥1 n P σ(k) π2 Proposição 5. ∞). σ(n) = n + 1. donde lim inf n = 1. k = 6 n + O(log n).34. lim sup n log log n ∈ (0. É possı́vel provar que lim sup n log log n = e . Naturalmente. n→∞ Temos também a Pn π2 2 Proposição 5.

lim |µ(k)| = π2 . Notemos inicialmente que ω(n) ≤ Ω(n) para todo n e que X X X Ω(n) = 1 e ω(n) = 1.11). P já que k2 = π2 k≥1 √ temos que f (y) = π62 y + O( y). ou seja.6: NÚMEROS LIVRES DE QUADRADOS 219 5.7 As Funções ω e Ω Se n = pα1 1 pα2 2 · · · pαk k com p1 < p2 < · · · < pk primos é a fatoração canônica de n. temos X x X j x2 k f (x2 ) = µ(k)g = µ(k) k k2 k≤x k≤x X µ(k)x2 6 2 = + O(x) = x + O(x). ω(n) e Ω(n) são da ordem log log n.[SEC. 5. Vamos provar que.36. k2 π2 k≤x µ(k) 6 (ver a demonstração da proposição 5. Assim. então ω(n) = k e Ω(n) = kj=1 αj são respectivamente o P número de fatores primos distintos de n e o número de fatores primos de n com multiplicidade. Observemos P que como um natural nP se escreve unicamente como n = r2 l com l livre de 2 quadrados. vamos calcular o limite n 1 1X lim #{1 ≤ k ≤ n | k é livre de quadrados} = lim |µ(k)|.6 Números Livres de Quadrados Vamos nesta seção a estimar a “probabilidade” de um número natural dado ser livre de quadrados.27). Se y = x2 . temos que r≥1 f ( xr2 ) = g(x). 5. para a “maioria” dos valores de n. o que implica o resultado. pela segunda fórmula de inversão de Möbius (teorema 5. n→∞ n k=1 Demonstração: Seja g(x) = bx2 c e f (x) = k≤x |µ(k)|. n→∞ n n→∞ n k=1 n 1 P 6 Proposição 5. k≥1 p primo p primo pk |n p|n .

.24.220 [CAP. p pq pq p primo p. para isso observemos que n X n  X X 2 ω(r)2 = 1 r=1 r=1 p primo p|r n X X X X j n k = 1= mmc(p. k−1 k k≥2 Para mostrar que ω(n) Pn é da ordem de log log n para a maioria dos n.q primos pq p.q primos p≤n p6=q p6=q n 1 2 = n(log log n)2 + O(n log log n). P P  Note que b pq c ≤ n p p. q) r=1 p1 . 2 vamos estimar a soma r=1 (ω(r) − log log n) .q primos r=1 p.pq≤n  X 1 2 √ ≥n + O(n) = n(log log n + O(1))2 + O(n) p primos p √ p≤ n = n(log log n)2 + O(n log log n). temos Xn X n X 1 ω(r) = =n + O(n) = n log log n + O(n). 5: FUNÇÕES ARITMÉTICAS donde n X n X X X X X n Ω(r) − ω(r) = 1= pk r=1 r=1 k≥2 p primo k≥2 p primo pk |r X X n X n ≤ k = p p(p − 1) p primo k≥2 p primo X  1 1  ≤n − = O(n). Começamos estimando P n r=1 ω(r).q primos p primo p6=q p≤n Por outro lado.p2 primos p primo q primo p1 |r.q primos pq p6=q p6=q. X n X n = + O(n) p. p p r=1 p primo p primo p≤n p≤n Pn 2 Vamos agora estimar r=1 ω(r) . Pelo teorema 5.p2 |r p≤n q≤n X jnk X jnk X n X jnk = + = ω(r) + .

Dizemos que a ordem normal de f (n) é g(n) se podemos decompor N = A ∪ B de modo que #{k ∈ B | k ≤ n} f (n) lim =0 e lim = 1. n ∈ N. Erdős e Kac provaram em [52] que a distribuição de probabilidade de ω(n)−log log n √ log log n . Mais precisamente. Temos assim que a ordem normal de ω(n) (e de Ω(n) pois k≤n |Ω(k) − ω(k)| = O(n)) é log log n. Proposição 5. Em particular.8: A FUNÇÃO NÚMERO DE DIVISORES D(N ) 221 Portanto nr=1 ω(r)2 = n(log log n)2 + O(n log log n).38. n→∞ 2(1+) log n/ log log n n→∞ 2(1−) log n/ log log n .8 A Função Número de Divisores d(n) P A função d(n) = d|n 1 tem um comportamento bastante irregular. temos que n X n X n X (ω(r) − log log n)2 = ω(r)2 − 2 log log n ω(r) + n(log log n)2 r=1 r=1 r=1 2 = n(log log n) + O(n log log n) − 2 log log n · n log log n + O(n) + n(log log n)2  = O(n log log n). g : N → R. temos   Z b 1 ω(k) − log log k 1 2 lim # k ≤ n | a ≤ √ ≤b = √ e−t /2 dt. Seja f.37. é a distribuição normal usual. Definição 5. B(n) = {r ≤ n | |ω(r) − log log n| ≥ 1 (log log n) 2 +α } é tal que #B(n) = O(n/(log 2α P log n) ). donde lim inf d(n) = 2.[SEC. dado α > 0. n→∞ n n→∞ n∈A g(n) Observe que esta partição de N implica que A contém quase todos os números naturais. b ∈ R com a < b. 5. dados a. P Assim. Se  > 0 então d(n) d(n) lim =0 e lim sup = +∞. Temos que d(p) = 2 para todo primo p. Por n→∞ outro lado podemos estimar a ordem máxima de d(n). n→∞ n log log k 2π a 5.

considereQa fatoração canônica em primos n=pα1 1 pα2 2 · · · pαk k . temos log pi ≥ (1 − δ) log log n. log log n o que implica nossa afirmação para n  0 e δ suficientemente pequeno. 5: FUNÇÕES ARITMÉTICAS Demonstração: Para a primeira afirmação. Para a segunda afirmação. considere o produto nk = p1 p2 · · · pk dos k primeiros primos. de modo que d(n)= ki=1 (1+αi ). log log n Segundo. como 2αi ≤ n =⇒ αi ≤ log n/ log 2 =⇒ log(1 + αi ) ≤ 2 log log n para n  0. Temos k X k X log d(n) = log(1 + αi ) e log n = αi log pi . se pi < (log n)1−δ . i=1 i=1 Seja δ > 0. temos portanto X log d(n) = log(1 + αi ) 1≤i≤k P log 2 · αi log pi   −1 1≤i≤k log n ≤ (1 − δ) +o log log n log log n  log 2 · log n ≤ (1 − δ)−1 + δ . Basta mostrar que log 2 log nk log d(nk ) − (1 − ) →∞ log log nk .222 [CAP. log 2 · αi log pi log(1 + αi ) ≤ αi log 2 ≤ (1 − δ)−1 . Dividimos em dois casos: primeiro. basta mostrar que log 2 log n log d(n) ≤ (1 + 0 ) log log n para algum 0 tal que 0 < 0 < . log log n pi <(log n)1−δ Somando sobre todos os primos. temos   X 1−δ log n log(1 + αi ) ≤ 2(log n) log log n = o . Para isto. se pi ≥ (log n)1−δ . e como 2αi ≥ 1 + αi ⇐⇒ αi log 2 ≥ log(1 + αi ).

Temos d(nk ) = 2k donde log d(nk ) = k log 2.  Vamos agora calcular a ordem média de d(n). n1 nk=1 d(k) = log n + 2γ − 1 + O √1 P  n onde γ é a constante de Euler-Mascheroni Demonstração: Temos n n X n j k n X X X n X 1 d(k) = 1= =n + O(n) = n log n + O(n). log log nk = 1 + o(1) log k e assim logloglognknk = 1 + o(1) k.8: A FUNÇÃO NÚMERO DE DIVISORES D(N ) 223 quando k → ∞. o que implica o resultado. contando os pontos de coordenadas inteiras sob o gráfico de y = n/x.[SEC. Proposição 5. 5. Por outro lado.39.16. temos k X k X log nk = log pj = log O(j log j) = k log k + O(k log log k) j=1 j=1   de modo que log nk = 1 + o(1) k log k. pelo corolário 5. conforme a . d d k=1 k=1 d|k d=1 d=1 y xy = n x Podemos estimar o termo de erro de forma mais precisa.

apesar de a ordem média . y) ∈ N>0 × N>0 | xy ≤ n} d d=1 √ = #{(x. ω(n) e Ω(n) são da ordem de log log n pela seção anterior. Seja ∆(n) := nk=1 d(k) − n(log n + 2γ − 1). para outros valores arbitrariamente grandes de n. xy ≤ n} √ + #{(x. d(n) = (log n)log 2  log n para quase todo n. se n = pα1 1 pα2 2 · · · pαk k é a fatoração canônica de n. . Conjetura-se que θ = 1/4.40. xy ≤ n} √ √ − #{(x. donde. ∆(n) < −cn1/4 . É possı́vel dar estimativas P mais precisas para o termo de erro nesta proposição. ele mostrou que existe c > 0 tal que. . para quase todo n ∈ N. y ≤ n} √ √ b nc j  bX nc X nk √ 1 √  √ 2 2 =2 −b nc =2 n +O( n) − n + O(1) d d d=1 d=1  √  1  √ = 2n log n + γ + O √ − n + O( n) n √ = n log n + (2γ − 1)n + O( n) P 1 1 utilizando a estimativa mais precisa j = log n + γ + O( n ). ou seja.224 [CAP. j=1 j=1 Assim. 1≤j≤n Observação 5. Por outro lado. y) ∈ N>0 × N>0 | y ≤ n. O problema dos divisores de Dirichlet consiste em de- terminar o menor θ ∈ R tal que ∆(n) = O(nθ+ε ). 31490384615384615384615 . para cer- tos valores arbitrariamente grandes de n. . y) ∈ N>0 × N>0 | x ≤ n. Hardy provou em [66] que θ ≥ 41 : de fato. 5: FUNÇÕES ARITMÉTICAS figura: n j k X n = #{(x. k Y k Y 2ω(n) = 2k ≤ (1 + αj ) = d(n) ≤ 2αj = 2Ω(n) . y) ∈ N>0 × N>0 | x ≤ n. Huxley provou em [75] que θ ≤ 131 416 = 0. e. log d(n) é da ordem de log 2 · log log n para quase todo n. ∀ε > 0. A proposição anterior (que é devida a Dirichlet) diz que ∆(n) = O(n1/2 ). Finalmente. ∆(n) > cn1/4 .

onde k. 7 5 4 4 3 2 1 1 1 Não é muito fácil estimar com precisão a ordem de magnitude da fun- ção p(n). 5. . a2 . De P fato. a2 . . para alguns poucos valores de n. ak são inteiros positivos. Isso se deve ao fato de. . . esse efeito faz com que nk=1 (d(k))r seja da r ordem C(r)n(log n)2 −1 para uma certa constante C(r) ∈ (0. não importando a ordem.9: A FUNÇÃO NÚMERO DE PARTIÇÕES P (N ) 225 de d(n) ser log n.9 A Função Número de Partições p(n) Uma partição de um inteiro positivo n é uma forma de escrever n como soma de inteiros positivos. a1 . . Na figura mostramos a partição 7 + 5 + 4 + 4 + 3 + 2 + 1 + 1 + 1 de 28. lembrando que a ordem máxima de d(n) é 2(1+o(1)) log n/ log log n  log n. Uma partição pode ser representada por uma pilha de quadradinhos onde a altura de cada coluna da pilha é monótona não crescente da esquerda para a direita. Começamos mostrando as seguintes estimativas elementares.[SEC. Ramanujam mostrou que. . . temos p(6) = 11. Uma convenção é de que as alturas das colunas são os inteiros a1 ≥ a2 ≥ · · · ≥ ak . análogas às estimativas mostradas em [73]: . ak ). Assim. denotamos por p(n) o número de partições distintas de n. a1 ≥ a2 ≥ · · · ≥ ak e a1 + a2 + · · · + ak = n. para r ≥ 1. Por exemplo. . para todo n ∈ N. d(n) ser muito maior que log n. ∞). como as formas de escrever 6 como soma de inteiros positivos são 6 = 5 + 1 = 4 + 2 = 4+1+1 = 3+3 = 3+2+1 = 3+1+1+1 = 2+2+2 = 2+2+1+1 = 2 + 1 + 1 + 1 + 1 = 1 + 1 + 1 + 1 + 1 + 1. Para cada inteiro positivo n. podemos identificar uma partição de n com um vetor (a1 . 5.

. . . 5: FUNÇÕES ARITMÉTICAS √ √ √ Proposição 5. .41. . . k} correspondem partições distintas. Em outras palavras. . Para cada conjunto A = {a1 . √ 1≤q≤b nc . Assim. os aj . a2 . uma vez determinado q(π). associamos o maior inteiro positivo q = q(π) tal que aq ≥ q. ∀n ≥ 1. para j > q(π) estão unicamente determinados pelos números bi . . 1 ≤ i ≤ q(π) da- dos por Pbi = |{j P > q(π). a2 . aq(π) ≥ q(π) satisfazem as desigualdades 0 ≤ ai < n. e como √ há 2k = 2b 2nc−2 subconjuntos de {1. ak ) de n. o que mostra que. k}. . temos que a1 . . j > q(π). há no máximo i≤q(π) j>q(π) √ nq(π) ≤ nb nc possibilidades para os bi . . A primeira desigualdade pode ser mostrada considerando as partições obtidas da seguinte forma: Escolhemos k um número natural √ tal que 1 + 2 + · · · + k + (k + 1) ≤ n (para isto basta tomar k = b 2nc − 2 para n ≥ 2). . . ∀j > q(π). Além disso. 2. . . que têm (es- quecendo o√ fato de que os ai estão em ordem decrescente) no máximo nq(π) ≤ nb nc soluções (pois há no máximo n possibilidades para cada ai ). Assim. . como aj ≤ q(π). segue que p(n) ≥ 2b 2nc−2 para n ≥ 2. . 2. Note que n − (a1 + a2 + · · · + ar ) ≥ n − (1 + 2 + · · · + k) ≥ k + 1 é o maior termo da partição. . 2b 2nc−2 ≤ p(n) ≤ b ncn2b nc . há b nc possibilidades para q(π). Note que q(π)2 ≤ n. aj ≥ i}|. . 1 ≤ i ≤ q(π) e portanto para os aj . a subconjuntos distintos √ de {1. Já para a segunda desigualdade. 1 ≤ i ≤ q(π). ∀i ≤ q(π). e a primeira desigualdade está provada.226 [CAP. com a1 ≥ a2 ≥ · · · ≥ ak . k}. . q(π) é o lado do maior quadrado contido no diagrama da partição: no exemplo da figura anterior. . q(π) = √ 4 (e o quadrado está sombreado). 2. e assim. podemos associar a partição n = a1 + a2 + · · · + ar + (n − a1 − a2 − · · · − ar ). ar } ⊂ {1. Vamos supor a partir de agora que n > 1. temos X √ √ √ √ p(n) ≤ (nq )2 ≤ b nc(nb nc )2 = b nc · n2b nc . . como antes. Por outro lado. Demonstração: Essas desigualdades são claramente válidas para n = 1. a cada partição π = (a1 . para n ≥ 3. os quais satisfa- zem bi = aj < n. . .

. para todo N ∈ N. temos que. . convencionando p(0) = 1. n→+∞ Demonstração: Da discussão anterior. 5. Note que p(n) é o número P de soluções (m1 . donde Q k≥1 − log(1 − e−εk ). . N N X N  X Y  Y 1  p(n)xn ≤ xkm = .9: A FUNÇÃO NÚMERO DE PARTIÇÕES P (N ) 227 Para estimativas um pouco mais precisas.42. 2ε. temos p(N ) ≤ e Teorema 5. N N  N X n Y 1  Y 1  p(N )x ≤ p(n)x ≤ ≤ . para todo x > 0. m2 . obtemos p(N )e−εN ≤ ( 1−e1−εk ). Para . P termos serem todos positivos). temos a igualdade seguinte: X Y X  Y 1  p(n)xn = xkm = . Assim. Assim. . . e logo ε k≥1 . . ε. } para R∞ 2 a integral 0 − log(1 − e−t )dt = π6 (essa última igualdade segue de Z ∞ Z ∞ X  −t − log(1 − e )dt = e−nt /n dt 0 0 n≥1 X1Z ∞ X 1 π2 = e−nt dt = = . 1 − xk n≥0 k≥1 m≥0 k≥1 A igualdade em princı́pio é formal mas a estimativa acima garante a convergência se |x| < 1. n 0 n2 6 n≥1 n≥1 sendo a troca da ordem da soma e da integral justificada pelo fato de os 2 − log(1 − e−εk ) ≤ π6 . Além disso. m3 . lim log√p(n) n = π 23 . vamos usar a função gera- triz de p(n). com ε > 0. 1 − xk n≥0 k=1 m≥0 k=1 Usaremos esses fatos para provar o seguinte √ π 2N/3 q todo N ∈ N. Temos que ε − log(1 − e−εk ) é P P log p(N ) − εN ≤ k≥1 k≥1 a soma inferior de Riemann associada à partição {0. e todo x ∈ [0. 3ε. ) com os mk inteiros não negativos de k≥1 kmk = n. 1). 1 − xk 1 − xk n≥0 k≥1 k≥1 Tomando x=e−ε .[SEC.

k ≥ 0. . onde ε = √π6m (m  1 vai ser escolhido posteriormente). p p(n)xn = p(n) exp(−εn) ≤ exp −εn + π 2n/3    n p   π  √  = exp π − √ + 2n/3 = exp √ 2 mn − n 6m 6m  π √ √ 2  = exp √ m− n− m . a série p(n)x converge e vale a igualdade p(n)x = ( 1−xk ). para cada n ∈ N. } para a integral ∞ π2 Z − log(1 − e−t )dt = − O(ε log ε−1 ). 6m Tomando m = N − N 5/6 e n = N + k. como acima. sobre a função geratriz de p(n) 1 1). Da estimativa da proposição 5. Vamos n≥0 n≥0 k≥1 tomar x = e−ε . n≥0 Por outro lado. Escolhendo ε = 6N obtemos r r N 2N log p(N ) ≤ 2π =π . 3ε. temos. 6 3 o que prova a primeira parte do teorema.Q∀x∈[0. ε 6 temos π2 r Y 1  m log = − O(log ε−1 ) = π − O(log m). r √ √ n−m N 5/6 + k N 1/3 1 k n− m= √ √ > √ > + . 2ε.41 (ou da primeira parte do teorema) e da P discussão n P seguen que.228 [CAP. 1 − e−εk 6ε 6 k≥1 pm p(n)xn = exp π P  e portanto 6 − O(log m) . donde log p(N ) ≤ k≥1 π2 √π . e. para todo ε > 0. como ε − log(1 − e−εk ) é a soma superior de Riemann k≥1 associada à partição {ε. 5: FUNÇÕES ARITMÉTICAS π2 − log(1 − e−εk ) ≤ P Assim. . εN + 6ε . . por Q P Temos log k≥1 P k≥1 outro lado. n+ m 2 N +k 2 3 N . log p(N ) − εN ≤ 6ε . 2 ( 1−e1−εk ) = − log(1 − e−εk ) ≤ π6ε .

n+ m 2 N 2 2 donde !! ! m2/3 πm1/6  r  n π m p(n)x ≤ exp √ m− = exp π exp − √ . ! 1/6  r    X n m πm X πk p(n)x < exp π exp − √ exp − √ 6 4 6 9N 6m n≥N k≥0 ! ! πm1/6 √  r  m = O exp π exp − √ N m 6 4 6 !! m πm1/6 r = o exp π − . 6m 4 9N Assim. √ √ m−n N 5/6 N 1/3 m1/3 m− n= √ √ > √ = > . p(n)xn = o p(n)xn . X  r  m  πm1/6  n p(n)x < N exp π exp − √ 6 4 6 n≤N −2N 5/6 !! m πm1/6 r = o exp π − . se n ≤ N − 2N 5/6 = m − N 5/6 . temos n≥0 X X  X X  p(n)xn = o p(n)xn . como 6 − O(log m)). 5. 6m 4 6 4 6 Assim. n≥N n≥0 n≤N −2N 5/6 n≥0 .[SEC. 6 10 pm p(n)xn = exp(π P Portanto. 6 10 Analogamente.9: A FUNÇÃO NÚMERO DE PARTIÇÕES P (N ) 229 e logo r !2 !! n π N 1/3 1 k p(n)x ≤ exp √ m− + 6m 2 3 N !!! π N 2/3 k < exp √ m− + .

pHardy e Ramanujan provaram em [70] que limn→∞ 4n 3 · p(n) exp(−π 2n/3) = 1. uma série que converge a p(n). seja   X nh Ak (n) = exp πis(h. Com métodos mais √ sofisticados. 5: FUNÇÕES ARITMÉTICAS −1 NP 1 p(n)xn > p(n)xn . 6 n≥0 e portanto r m kπ log p(k) > π − O(log m) + √ 6 6m r m  π =π − O(log m) + m − O m5/6 √ 6 6m r 2m =π − O(m1/3 ). Para cada inteiro positivo k. 3 Como p(n) é crescente.   log p(N ) ≥ log p(k) > π 3 3 Junto com a estimativa da primeira parte do teorema. Posteriormente.k)=1 . 4N n≥0 donde kπ log p(k) − √ = log p(k) + k log x 6m r X n 5/6 m > log p(n)x − log(4N ) = π − O(log m). que fornece. e portanto existe k com P donde 2 n=N −2N 5/6 n≥0 1 X N − 2N 5/6 ≤ k ≤ N − 1. r r 2m 2N − O m1/3 = π − O N 1/3 . isto implica a segunda afirmação do teorema. p(k)xk > 5/6 p(n)xn . para cada inteiro positivo n.230 [CAP. Rademacher provou em [122] um resultado ainda mais preciso. k) − 2πi 1≤h≤k k mdc(h.

definimos τ (k) como o menor m ∈ N para o qual existe uma sequência (s0 . j com 0 ≤ i. . para todo n ≥ 576.43. Proposição 5. considerando a expressão acima definida para todo número real n ≥ 1.  p dn  π 2 k=1 n − 1/24 d Aqui a notação dn significa derivada em relação a n. sm ) onde s0 = 1. onde ∗ ∈ {+. . Não é difı́cil ver que |τ (n) − τ (−n)| ≤ 2 para todo n ∈ Z. . Estimativas cuidadosas mostram que este resultado implica que. log2 log2 n + 1 ≤ τ (n) ≤ 2 log2 n. e queremos dar estimativas assintóticas para τ (n). Vamos nos restringir ao caso n ∈ N. 5. . p(n) é o inteiro mais próximo a √   q  b2 n/3c 2 1 X √ d  exp π 3 (n − 1/24)/k √ Ak (n) k . Demonstração: Dada a sequência (s0 . .[SEC. Essa função tem um papel importante em [136]. j < l com sl = si ∗ sj . k) = − k k 2 j=1 (lembre que {x} = x − bxc). existem i. . Esta seção é baseada em [107]. s1 . isso segue por . ·}.10: A FUNÇÃO CUSTO ARITMÉTICO τ (N ) 231 onde k−1    X j hj 1 s(h. . sm ) como na definição de k−1 τ (n) temos que sk ≤ 22 para todo k ≥ 1. Mais precisamente. n ∈ N. . dado k ∈ N. Então   q  ∞ 2 1 X √ d  sinh π 3 (n − 1/24)/k p(n) = √ Ak (n) k . e também é estudada em [100]. −. 5.  p dn  2π 2 k=1 n − 1/24 É possı́vel mostrar que o erro da aproximação acima de p(n) é O(n−3/8 ) (veja o capı́tulo 14 de [123]). sm = k e para cada l ≥ 1. de fato.10 A Função Custo Aritmético τ (n) O custo de um número inteiro é definido como o número mı́nimo de operações aritméticas necessárias para obter esse inteiro a partir de 1.

. jl < l tais que sl = sil ∗tl sjl .232 [CAP. Na verdade o mesmo resultado vale se tivéssemos um número arbi- trário de operações binárias. . j1 . se (r1 . Além disso.44. podemos supor que existe uma sequência 1 ≤ l1 < l2 < · · · < lk ≤ 2k tal que rli = i − 1. Dado  > 0 temos que log n 1. ∀j < m} máximo. . ·. . . para 0 ≤ i ≤ k − 1. jl com 0 ≤ il . temos Teorema 5. . Vamos dividir a prova do teorema acima nos seguintes resultados Proposição 5. Se τ (n) = k então existe (s0 . . log n Vamos provar que τ (n) > log log n para quase todo n ∈ N. e logo τ (n) < k. . então sj não é usado para criar sj+1 . A primeira desigualdade não pode ser melhorada k para todo n ∈ N grande já que τ (22 ) = k + 1 para todo k ∈ N. . assim temos a segunda desigualdade. . trocando as posições de sM +1 e sM . . se P (j) > P (j + 1). . Devemos ter {i1 . onde s = max{|sj | : j < k}. . como τ (2n) ≤ τ (n) + 1 e τ (2n + 1) ≤ τ (n) + 2 para todo n ∈ N. τ (n) ≥ log log n + (1 − ) log(log n·log log log n log n)2 para quase todo n ∈ N 2. ik . jk ). por indução segue que τ (n) ≤ 2 log2 n para todo n ≥ 1. j1 . se P (j) = min{i | ri = j} podemos supor sem perda de generalidade que P (0) < P (1) < · · · < P (k − 1). pois. il . ∗s } o conjunto de operações. já que caso contrário. 5: FUNÇÕES ARITMÉTICAS indução de sk ≤ max{2s. ik . . para uma certa constante A = A(s) > 0. sk ) com s0 = 1. jk } = {0. . . escolhendo (s0 . Mas precisamente. caso contrário. . Suponha que temos s operações binárias na definição de τ . para 1 ≤ i ≤ k. Podemos então tomar li = P (i). sk ) com M = max{m ≥ 1 | P (j) < P (j + 1). . e para cada l ≥ 1 existem tl ≤ s. Então N (k) = #{n ∈ N | τ (n) ≤ k} satisfaz N (k) ≤ Ak · k k . 1. k − 1}. Assim. j2 . i2 . devemos ter M = k − 1. e portanto sj+1 pode ser criado antes de sj .45. . Por outro lado. P (M ) > P (M + 1) e. . De fato. . o que é uma contradição. incluindo +. sk = n. . τ (n) ≤ logloglogn n + (3 + ) log(log n·log log log n log n)2 para n ∈ N suficientemente grande. . . . . Demonstração: Seja Λ = {∗1 . aumentarı́amos o valor de M . s2 }. se não terı́amos criado um si desnecessário. . s1 . . r2k ) = (i1 . .

onde  .[SEC. Pelos argumentos acima.10: A FUNÇÃO CUSTO ARITMÉTICO τ (N ) 233 Seja N 0 (k) = #{n ∈ N | τ (n) = k}. 5. segue que N 0 (k) ≤ sk N 00 (k).

. . . k − 1} e existe uma se-  .r ∈ {0. . 1.

i  00 .

. . .quência 1 ≤ l < · · · < l ≤ 2k com N (k) = # (r1 . . r2k ).

1 k rlj = j − 1 para j = 1. . . k  . .

pela proposição acima. τ (n) ≥ f (n) onde log n log n · log log log n f (n) = + (1 − ) log log n (log log n)2 Demonstração: Vamos estimar B(n) = #{k ≤ n | τ (k) ≤ f (k)}. #B(n) é menor ou igual a (Af (n))f (n) = exp f (n) log(Af (n))     log n < exp f (n) log (log log n)1−/2  log n  (1 − ) log log log n  = exp 1+ × log log n log log n    × log log n − 1− log log log n  2   log n · log log log n ≤ exp log n − 2 log log n    log n · log log log n = n · exp − = o(n). usando somente as operações + e · . P Corolário 5. 2 log log n Se tivermos operações p-árias em vez de operações binárias (p ≥ 2) temos um resultado análogo trocando N (k) ≤ Ak · k k por N (k) ≤ Ak · k (p−1)k no enunciado da proposição 5. Dado  > 0.  Por outro lado. e. Portanto N (k) ≤ kr=0 N 0 (r) ≤ (4s + 1)k · k k . donde N 0 (k) ≤  k k (4sk)k .46. para quase todo n ∈ N. Se k ∈ B(n) então τ (k) ≤ f (k) ≤ f (n). onde A = 4s + 1. N 00 (k) ≤ 2k k < 22k · k k = (4k)k .45 e f (n) por fp−1 (n) no corolário. Vamos agora obter a estimativa superior do teorema. temos. temos no máximo N (f (n)) ≤ (Af (n))f (n) naturais k com essa propriedade. mas então para n grande. .

s2B−3 = (B − 1)B . log C (log log n)2 e as representações dos ai na base B ai = bi1 + bi2 B + · · · + bik B k−1 onde 0 ≤ bij ≤ B − 1. Nos cálculos a seguir vamos omitir as partes inteiras.47. sB−1 = B. Tome s0 = 1.. log log n (log log n)2 Demonstração: Sejam B=b (loglog n log n)3 c e C=B k .. para n suficientemente grande.. gastamos no total (k − 1)(r + 1) operações para gerar todos os ai . Uma vez gerados os ai . s(k−1)(B−1)+1 =2B k−1 . s(k−1)(B−1) =B k−1 . τ (n) ≤ g(n) onde log n log n · log log log n g(n) = + (3 + ) . isto é n = a0 + a1 C + · · · + ar C r .234 [CAP.   log n log n r= ∼ . podemos gerar n com os seguintes 2r passos: ar → ar C → ar C + ar−1 → (ar C + ar−1 )C → · · · → ar C r + · · · + a1 C + a0 = N. Dado  > 0. 5: FUNÇÕES ARITMÉTICAS Proposição 5. O número total de passos que usamos é no máximo k(B − 1) + . temos. sB−2 = B − 1.. onde k = blog log nc. . . Como temos r + 1 coeficientes ai . Observe agora que já construı́mos os números bij B j−1 e logo podemos construir cada ai fazendo k − 1 somas. sk(B−1)−1 =(B−1)B k−1 sk(B−1) = B k Considere agora a representação de n na base C. . 0 ≤ ai ≤ C − 1. . . sB = 2B.. s1 = 2.

. x2 .10: A FUNÇÃO CUSTO ARITMÉTICO τ (N ) 235 (k − 1)(r − 1) + 2r. . podemos trocar g(n) por g(n) p−1 se tivermos o produto binário e a soma p-ária ⊕(x1 . definimos  .[SEC. assim   log n τ (n) ≤ k(B − 1) + (k − 1)(r − 1) + 2r = rk + O (log log n)2     log n log C log n = · +O log C log B (log log n)2   log n log n = +O log B (log log n)2   log n log n = +O log log n − 3 log log log n (log log n)2   log n 3 log n · log log log n log n = + +O < g(n). Vamos agora considerar o caso em que temos apenas a operação soma: dado n ∈ N>0 . log log n (log log n)2 (log log n)2 Usando a prova acima. . 5. . xp ) = x1 + · · · + xp .

  .

sm = n e. .∃(s0 . . para  . . sm ) com s0 = 1. .

τ+ (n) = min m ∈ N .

.

existem i. j < l e  .cada l ≥ 1. j com 0 ≤ i.

. . s1 = 2. s2 = 3. . . Dado n ∈ N∗ . lim = 1. s2k −1 = 2k . temos n = sm ≤ 2m = 2τ+ (n) donde τ+ (n) ≥ log2 n para todo n ∈ N>0 . n→∞ log2 n Demonstração: Se (s0 . . . fixamos k = k(n) ≥ 1 e começamos gerando os números s0 = 1.48. Escrevemos agora n na base B = 2k n = a0 + a1 B + · · · + ar B r . Em particular. se m = τ+ (n). sm ) é uma sequência como na definição de τ+ (n) então sj ≤ 2j para todo j ≤ m. . .sl = si + sj  Nesse caso podemos provar o seguinte resultado devido a Erdős τ+ (n) Teorema 5.

. s2k +k+1 =2(Bar + ar−1 ). ak são inteiros positivos e a1 + a2 + · · · + ak = n. kα (1 − α) 36 k=1 5. . . s2k +k−1 =2k ar =Bar s2k +k =Bar + ar−1 . assim fazemos agora s2k =ar + ar =2ar . s2k +1 =2ar + 2ar =4ar . k log 2 k Escolhendo k = dlog2 ( (loglog n log n)2 )e = dlog2 log n − 2 log2 log log ne. onde k.31. para todo inteiro positivo n.34. . Mostrar que n X d(k) 1 = log2 n + 2 log n + O(1). temos que τ+ (n) ≤ (1 + o(1)) log2 n o que prova o resultado. s2k −1+(k+1)r =B r ar + B r−1 ar−1 + · · · + Ba1 + a0 =n Temos (k + 1) log n log2 n 2k − 1 + (k + 1)r ≤ 2k + = log2 n + 2k + .236 [CAP.. . ak ). . 5: FUNÇÕES ARITMÉTICAS onde   log n r= e 0 ≤ aj ≤ B − 1. . a1 .33. a2 . . Prove que. . .32. a2 . ∀j ≤ r. log B Observemos que os aj já foram gerados. . Mostrar que para todo α ≤ 0 e n  0 n X d(k) 1 π4 = n1−α log n + + O(n1−α ). . s2k +2k =B 2 ar + Bar−1 . . Problemas Propostos 5. existem exatamente 2n−1 vetores (a1 . . k 2 k=1 5. k 6 k=1 5. Mostrar que para todo n  0 n X σ(k) π2n = + O(n log n). . .

n→+∞ n2 . s < i e xi = xr + xs . . o número de termos iguais a 1 na partição π e b(π) = |{a1 . (4). x1 . por causa da 0-upla (). . (2. Seja f (n) o número de inteiros entre 1 e n2 que podem ser escritos como um produto de dois inteiros entre 1 e n. isto é. k. X n X n · p(n) = ` · p(n − `k) = σ(v)p(n − v). a) Prove que existe uma constante K > 0 tal que f (n) ≤ K · nα para todo inteiro positivo n. a2 . a2 . existem r.) 5. 2. f (1) = 1. . .38 (OBM2009). Prove que. .36. Para n inteiro positivo seja f (n) o número de produ- tos de inteiros maiores que 1 cujo resultado é no máximo n. (5) e (6) e das 2-uplas (2. 5. existe uma sequência finita de números naturais tais que x0 . P P Prove que. . Assim.39. Demostrar que todo número natural n ≤ 21 000 000 pode ser obtido a partir de 1 fazendo menos do que 1 100 000 de somas. o número de termos distintos na partição π. . por exemplo. `k≤n v=1 (Sugestão: use a função geratriz de p(n). Prove que f (n) lim = 0. 2). 5. . . . ai ≥ 2 é inteiro para todo i e a1 · a2 · · · · · ak ≤ n (contando a 0-upla vazia (). . . f (n) é o número de k-uplas (a1 . e para cada i = 1. xk = n. π∈Pn a(π) = π∈Pn b(π). a2 .35.[SEC. . 5. cujo produto dos termos é 1). xk com k ≤ 1 100 000. das 1-uplas (2). b) Prove que existe uma constante c > 0 tal que f (n) ≥ c · nα para todo inteiro positivo n. com 0 ≤ r. 3) e (3. . ar }|. . . definimos a(π) = |{j ≤ r|aj = 1}|. . ak ) onde k é algum natural. . Seja Pn o conjunto das partições de n. (3).37 (OIbM1994). tais que x0 = 1. Dada π = (a1 . . ar ) ∈ Pn . s.10: A FUNÇÃO CUSTO ARITMÉTICO τ (N ) 237 5. para todo n ∈ N. 2). por causa da 0-upla () e f (6) = 9. 5. para todo n ≥ 1. isto é. P Seja α > 1 tal que ∞ 1 m=1 mα = 2.

Parte II Tópicos adicionais bacanas .

.

podemos definir divisibilidade exatamente da mesma forma: α | β ⇐⇒ existe γ ∈ Z[i] tal que β = αγ. z ∈ Z[i]. ajuda também a resolver e compreender melhor vários problemas envolvendo números inteiros. b ∈ Z} O mapa norma é definido por N : Z[i] → Z z = a + bi 7→ |z|2 = zz = a2 + b2 . 6.1 Inteiros de Gauß e Eisenstein O anel dos inteiros de Gauß é o subanel de C def Z[i] = Z + Z · i = {a + bi ∈ C | a. estenderemos o estudo das propriedades √ aritméti- 1+ 5 cas dos inteiros a domı́nios mais gerais. temos que o mesmo vale para a norma: N (wz) = N (w)N (z) para todo w. além do interesse próprio. Inteiros de Gauß possuem propriedades aritméticas muito similares às dos inteiros. . Como o valor absoluto em C é uma função multiplicativa. como Z[i] e Z[ 2 ].Capı́tulo 6 Inteiros Algébricos Neste capı́tulo. Veremos que entender a aritmética destes anéis. Por exemplo.

3). Estes elementos correspondem aos pontos no interior do paralelogramo fundamental de Λ de base (3. temos que 1 + i | 5 + 3i pois 5 + 3i = (1 + i)(4 − i). da multiplicatividade da norma. Logo (1 + i)2009 ≡ (−1)2009 (mod 2 + i) ⇐⇒ (1 + i)2009 + 1 ≡ 0 (mod 2 + i). As mesmas demonstrações do caso Z mostram que congruências módulo γ definem uma relação de equivalência em Z[i] compatı́vel com a soma. como mostra a figura a seguir: . 6. 0) e (0. quantas são as classes de congruência módulo γ? Escrevendo γ = a + bi com a.1. o conjunto dos múltiplos de γ em Z[i] é dado por Z[i] · γ = Z · γ + Z · iγ = Z · (a + bi) + Z · (−b + ai) de modo que o número de classes de congruência módulo γ é igual ao ı́ndice em Z2 do subgrupo gerado pelos vetores (a. temos i ≡ −2 (mod 2 + i) ⇐⇒ 1 + i ≡ −1 (mod 2 + i). γ 6= 0. a) e do reticulado Z2 (ver seção 4. Podemos portanto formar o anel quociente Z[i]/(γ). que conta quantas vezes o subre- ticulado Λ “cabe” dentro de Z2 . Intuiti- vamente. A razão entre estas áreas é igual ao módulo do determinante   a b det = a2 + b2 = N (γ) −b a Por exemplo. a). b ∈ Z. Note que. este ı́ndice é igual à razão entre as áreas dos “paralelogramos fundamentais” do reticulado def Λ = Z · (a. por exemplo. cujos elementos são as classes de congruência módulo γ. Podemos definir congruências para inteiros de Gauß: α≡β (mod γ) ⇐⇒ γ | α − β. Mostre que (1 + i)2009 + 1 é divisı́vel por 2 + i em Z[i]. a subtração e o produto.2. Exemplo 6. Solução: Da “congruência tautológica” 2 + i ≡ 0 (mod 2 + i). Dado γ ∈ Z[i]. b) + Z · (−b.[SEC. para γ = 3. b) e (−b. 1. s = 0. temos que α | β em Z[i] implica N (α) | N (β) em Z. 2} formam um sistema completo de restos módulo γ = 3. temos que os N (3) = 9 elementos de Z[i] {r + si | r.1: INTEIROS DE GAUSS E EISENSTEIN 241 Assim.4).

temos Lema 6. 1 + i. Então há exatamente N (γ) classes de congruência módulo γ: .2. i.242 [CAP. 1 + 2i} Em geral. 2i. Seja γ ∈ Z[i]. 6: INTEIROS ALGÉBRICOS A próxima figura mostra outro exemplo. γ 6= 0. em que os múltiplos de γ = 2 + i correpondem a 1 em cada N (2 + i) = 5 pontos do reticulado Z[i]. Um conjunto de representantes de classe módulo γ = 2 + i é {0.

.

.

Z[i] .

.

(γ) .

= N (γ) .

.

.

s0 ) são dois elementos de R tais que (r. r0 < |a| temos que r = r0 e portanto u = 0. obtemos resto s com 0 ≤ s ≤ |d| − 1 e portanto subtraindo um múltiplo adequado de (0. linearmente independentes sobre R. s − s0 ) = u · (a. então existem inteiros u. . y − qb) (mod Λ) Analogamente. d). o ı́ndice do subreticulado def Λ = Z · (a. temos s = s0 . dados dois vetores (a. b) + (r. s0 ) (mod Λ) ⇐⇒ (r−r0 . s−s0 ) ∈ Λ = Z·(a. d) ⇐⇒ s − s0 = ub + vd Assim. 0 ≤ s ≤ |d| − 1} é um sistema completo de classes de congruência módulo Λ. y) ≡ (r. provemos o caso particular em que c = 0. y) ∈ Z2 é congruente a um elemento de R módulo Λ: podemos dividir x por a 6= 0. e como 0 ≤ r. s0 < |d|. y − qb) ≡ (r. obtendo quociente q e resto r: x = aq + r. que possui exatamente o número desejado |ad| de elementos. d) são linearmente independentes sobre R) e def R = {(r. Desta forma. 0 ≤ r ≤ |a| − 1 Assim.1: INTEIROS DE GAUSS E EISENSTEIN 243 Demonstração: Da discussão acima. s) (mod Λ) como desejado. basta mostrarmos que. d | s − s0 e como 0 ≤ s. 6. b) + Z · (c.[SEC. temos a 6= 0 (pois (a. dividindo y − qb por d. Neste caso. b) e (c. b) e (c. d) em Z2 . • Os elementos de R são dois a dois não congruentes entre si: se (r. v tais que ( r − r0 = ua (r − r0 . y − qb) ≡ (r. b)+Z·(0. d) de Z2 é igual ao módulo do determinante   a b det c d Inicialmente. d) obtemos (x. a | r − r0 . s) ∈ Z2 | 0 ≤ r ≤ |a| − 1. s) e (r0 . y) = q · (a. De fato: • Todo elemento (x. b) + v · (0. s) ≡ (r0 . (x.

dentre todos os conjuntos de geradores ω = (a. Agora basta tomar q = m+ni e r = α−βq. r ∈ Z[i] (quociente e resto da divisão. Sejam α. β ∈ Z[i] com β 6= 0. o que contraria a minimalidade de |c|. b) e τ = (c. d) de Λ (sobre Z). b − qd) é um conjunto de geradores com |r| < |c|.244 [CAP. 0 ≤ r < |c| Mas agora τ e ω − qτ = (r. Assim. respectivamente) tais que α = βq + r com N (r) < N (β). ou seja. escolha um tal que |c| seja mı́nimo. Se c 6= 0. y ∈ Q. Temos também Lema 6. sejam m e n tais que |x−m| ≤ 12 e |y−n| ≤ 12 . Agora sejam m. pois temos . Demonstração: Escreva αβ = x + yi com x. n ∈ Z os inteiros mais próximos de x e y. c = 0 e caı́mos no caso anterior. 6: INTEIROS ALGÉBRICOS Para obter o caso geral.3 (Divisão Euclidiana). En- tão existem inteiros de Gauß q. podemos dividir a por c obtendo quociente q e resto r: a = cq + r.

α .

2 1 1 .

− q .

= |(x − m) + (y − n)i|2 = (x − m)2 + (y − n)2 ≤ + < 1. .

.

Felizmente. ao contrário da divisão euclidiana em inteiros. poucas provas em Z utilizaram a unicidade da divisão eucli- diana. Note que. temos portanto N (r) = |α − βq|2 < |β|2 = N (β). de modo que os resultados se generalizam para Z[i] sem maiores problemas. β 4 4 Multiplicando por |β|2 . Por exemplo. temos mais de uma possibilidade: 5 = (1 + i)(2 − 2i) + 1 com 1 = N (1) < N (1 + i) = 2 5 = (1 + i)(2 − 3i) + i com 1 = N (i) < N (1 + i) = 2. . o quociente e o resto na divisão em Z[i] nem sempre estão unicamente determinados. dividindo-se α = 5 por β = 1 + i.

O conjunto de todas as unidades de A com a operação de produto é um grupo multiplicativo. 2. isto é. existe v ∈ A tal que uv = 1. Por exemplo. Inicialmente. temos N (u) = N (v) = 1. ±i}. então existe v ∈ Z[i] tal que uv = 1. Por exem- plo. ±i são unidades. Em particular u ∈ Z[i]× ⇐⇒ N (u) = 1.[SEC.6. Intuitivamente. 3. se u ∈ Z[i]× . 1. 2 + i e 2 − i possuem norma N (2 ± i) = 5 prima e logo são irredutı́veis pelo seguinte Lema 6. as unidades são ±1 e os elementos irre- dutı́veis são os da forma ±p. logo N (u)N (v) = 1.4. p e −p são associados. Definição 6. que denotamos por A× . então π é irredu- tı́vel. o grupo de unidades de A. temos que 5 = (2 + i)(2 − i). isto é. π 6= 0 e π ∈ / A× . Demonstração: É fácil verificar que ±1. Se π ∈ Z[i] é tal que N (π) é um número primo.1: INTEIROS DE GAUSS E EISENSTEIN 245 Nosso próximo passo será obter o teorema fundamental da aritmética para inteiros de Gauß. Como N (u). Seja A um domı́nio e seja π ∈ A. elementos associados devem ser vistos não como primos distintos mas como um “único primo” para efeitos de fato- ração. Dizemos que π é irredutı́vel se toda fatoração de π em A é trivial. onde p é um número primo. N (v) são inteiros positivos. em A = Z. Definição 6. . Dizemos que um elemento u ∈ A é uma unidade se ele possui inverso multiplicativo em A. Z[i]× = {±1. Se p ∈ Z é um primo p ≡ 3 (mod 4) então p é irredutı́vel em Z[i]. Por outro lado. precisamos generalizar o conceito de primo. π não pode ser escrito como produto de dois elementos em A \ A× : π = αβ =⇒ α ∈ A× ou β ∈ A× Dois irredutı́veis π1 e π2 são ditos associados se eles diferem de uma unidade: π1 = uπ2 com u ∈ A× . Primos em Z não necessariamente são irredutı́veis em Z[i]. Por outro lado.5. 6. Seja A um domı́nio.

β ∈ Z[i] \ Z[i]× . logo N (α) = N (β) = p.7 (Bachet-Bézout). visto que um quadrado perfeito é congruente a 0 ou a 1 módulo 4. y ∈ Z[i] tais que αx + βy = 1. b) = (0. 0) ou (a. fazendo as divisões sucessivas. ou α ou β é uma unidade e portanto π é irredutı́vel. seja p ≡ 3 (mod 4). 13) = 1 temos N (δ) = 1. obtemos 20 + 13i = 2 + 3i · (6 − 3i) + −1 + i 2 + 3i = −1 + i · (−2i) + i . δ é unidade. Se p pode ser fatorado como p = αβ com α. ±i}. Porém. escrevendo α = a + bi com a.246 [CAP. isto é. b) = (±1. b ∈ Z. Sejam α e β dois elementos em Z[i] primos entre si. Então existem x. temos N (δ) | N (20 + 13i) = 569 e N (δ) | N (2 + 3i) = 13 e como mdc(569. mas nunca a 3 módulo 4. Podemos aplicar agora o algoritmo de Euclides. ou seja. ou seja. temos que N (u) = 1 ⇐⇒ a2 + b2 = 1 ⇐⇒ (a.8. dois elementos cujos únicos divisores comuns são unidades. Se π = αβ com α. Agora suponha que N (π) seja primo. Como N (π) é primo. b ∈ Z. Como α e β não são unidades. temos que a2 + b2 = p ≡ 3 (mod 4). ±1). u ∈ {±1. Encontre x. Finalmente. Solução: Observe inicialmente que 20 + 13i e 2 + 3i são primos entre si: se δ é um divisor comum. Exemplo 6. logo a2 + b2 é congruente a 0. y ∈ Z[i] tais que (20 + 13i) · x + (2 + 3i) · y = 1. ou seja. ou N (α) = 1 ou N (β) = 1. N (α) 6= 1 e N (β) 6= 1. β ∈ Z[i] então N (π) = N (α)N (β). o que é impossı́vel. 6: INTEIROS ALGÉBRICOS Escrevendo u = a + bi com a. Exatamente a mesma demonstração do caso Z fornece Teorema 6. temos p2 = N (p) = N (α)N (β). 1 ou 2 módulo 4.

πn em elementos irredutı́veis πi . obtemos a fatoração única: Teorema 6. o teorema de Bachet-Bézout implica Lema 6.[SEC. N (β) 6= 1 e N (γ) 6= 1. como no caso de Z. utilizando o lema anterior. A prova da existência da fatoração é também similar. existe uma fatoração α = βγ onde nem β nem γ são unidades. obtemos finalmente 20 + 13i · 2 + 2 + 3i · (−12 + 5i) = 1 de modo que podemos tomar x = 2 e y = −12 + 5i. . Como “corolário”. obtemos uma fatoração de α.1: INTEIROS DE GAUSS E EISENSTEIN 247 Assim. Tal fatoração é única a menos da ordem dos fatores e de multiplicação por unidades (isto é. β e γ podem ser fatorados em irredutı́veis e. temos que β e γ possuem norma estritamente menor do que N (α).9. combinando as duas fatorações. β ∈ Z[i]. caso contrário. . mas agora utilizamos indução em N (α): se N (α) = 2 (base) então α é irredutı́vel (ver lema) e se α é irredutı́vel. não há nada a fazer. Qualquer elemento α 6= 0 de Z[i] admite uma fatoração α = π1 π2 . isto é. a menos de associa- dos). Como N (α) = N (β)N (γ). 6. Então π | αβ =⇒ π | α ou π|β para α. Demonstração: A prova da unicidade da fatoração é idêntica à dos inteiros. Note que. i = 2 + 3i − −1 + i · (−2i)  = 2 + 3i − 20 + 13i − 2 + 3i · (6 − 3i) · (−2i) = 20 + 13i · (2i) + 2 + 3i · (−5 − 12i) e dividindo por i (que é uma unidade). Por hipótese de indução.10 (Fatoração única). Seja π ∈ Z[i] um elemento irredutı́vel. .

isto é.1 e teorema 4. Agora podemos novamente provar que todo primo da forma 4k + 1 é soma de dois quadrados (c. Temos que 2 = (1 + i)(1 − i) = i(1 − i)2 e 1 − i é irredutı́vel pois sua norma N (1 − i) = 2 é prima. 6: INTEIROS ALGÉBRICOS Exemplo 6.19). γ ∈ que p = N (β) = a2 + b2 . Tomando normas. Mas isto é impossı́vel: um múltiplo de p em Z[i] é da forma p(a + bi) = pa + pbi com a.248 [CAP. Qualquer primo p ≡ 1 (mod 4) fatora-se como p = (a + bi)(a − bi) com a. Como 5 = (2 + i)(2 − i) e 17 = (4 + i)(4 − i) são as fatorações em irredutı́veis de 5 e 17 em Z[i] e como π | N (π) = ππ. Agora suponha que p seja irredutı́vel em Z[i]. temos que p | x + i ou p | x − i. b ∈ Z. Escreva 50 e 6 + 7i como produto de irredutı́veis em Z[i]. temos que p é redutı́vel e existem β. de p | x2 + 1 = (x + i)(x − i). p pode ser escrito como soma de dois quadrados perfeitos em Z. Então. basta agora fatorar 2. Como 2 = i(1 − i)2 . γ ∈ Z[i] \ Z[i]× tais que p = βγ. Teorema 6. seção 4. Testando. de modo que 6 + 7i = i(2 − i)(4 − i) é a fatoração procurada. obtemos que 2 − i e 4 − i dividem 6 + 7i. existe x ∈ Z tal que x2 + 1 ≡ 0 (mod p).12. ou seja. temos que N (π) | N (6 + 7i) = 85 = 5 · 17. Solução: Como 50 = 2 · 52 e já sabemos fatorar 5 = (2 + i)(2 − i) em irredutı́veis. temos p2 = N (β)N (γ) =⇒ N (β) = N (γ) = / Z[i]× . combinando os resultados anteriores temos uma caracterização completa dos irredutı́veis em Z[i]: . b ∈ Z.f.11. temos que π | 85 =⇒ π ∈ {2 ± i. o que não é o caso para x ± i. 4 ± i}. donde obtemos a fatoração p = (a + bi)(a − bi) desejada.2. Logo 50 = i(1 − i)2 (2 + i)2 (2 − i)2 é a fatoração em irredutı́veis de 50. Em particular. b ∈ Z. temos portanto p já que β. possui parte real e imaginária múltiplos de p. Escrevendo β = a+bi com a. Note que a ± bi são ambos irredutı́veis pois possuem norma prima. Se π é um fator irredutı́vel de 6 + 7i. Assim. temos −1  p = (−1) 2 = 1. p−1 Demonstração: Como p ≡ 1 (mod 4).

ou seja. a menos de as- sociados. −2) e (a. Observe primeiramente que se π é um irredutı́vel que divide x + 2i e x − 2i.14. podemos escrever x + 2i = u · π1e1 · π2e2 · .13. Os elementos irredutı́veis de Z[i] são. Podemos utilizar ainda inteiros de Gauß na resolução de problemas sobre Z: Exemplo 6. b) = (±1. Mas como π 1 e π1 são associados. . temos pela fatoração única que πj e π j são os irredutı́veis que aparecem na fatoração de y e que portanto 3 | ej . temos que 2e1 deve ser divisı́vel por 3. toda unidade em Z[i] é um cubo perfeito em Z[i].[SEC. ν ∈ Z[i] não nulos e primos entre si. logo 3 | e1 também. Por exemplo. . o mapa . π é associado a 1 − i. Resolva a equação diofantina y 3 = x2 + 4. Agora escrevendo x + 2i = (a + bi)3 com a. b) = (±1. temos b | 2. Da última equação. . Solução: Temos a fatoração y 3 = (x + 2i)(x − 2i) em Z[i] e queremos concluir a partir dela que x + 2i e x − 2i são cubos perfeitos em Z[i]. y) = (±2. . 2). · πnen x − 2i = u · π e11 · π e22 · . Assim. com a possı́vel exceção de j = 1. Por outro lado. 6. • números primos p ∈ Z tais que p ≡ 3 (mod 4). · π enn onde u ∈ Z[i]× e os πj são irredutı́veis dois a dois não associados e π1 = 1 − i. ou seja. 1). Como (x + 2i)(x − 2i) = y 3 . (x. então π deve dividir a diferença 4i = −i(1 − i)4 . b ∈ Z e expandindo.1: INTEIROS DE GAUSS E EISENSTEIN 249 Teorema 6. y) = (±11. dados µ. • números da forma a + bi onde N (a + bi) é primo (necessariamente igual a 2 ou congruente a 1 módulo 4). πj não é associado a nenhum π k . e testando as possibilidades obtemos as soluções (a. Note que π j também são irredutı́veis dois a dois não associados e que. 5) ou (x. assim concluı́mos que x + 2i e x − 2i são cubos perfeitos em Z[i]. com exceção de j = 1. obtemos x = a3 − 3ab2 e 2 = 3a2 b − b3 . Outros resultados sobre Z também são facilmente estendidos para Z[i].

Seja µ ∈ Z[i] não nulo e seja . então µ | γ e ν | γ. logo µν | γ já que µ. modν) é injetor.250 [CAP. γ. este mapa é um isomorfismo e assim como no caso Z obtemos o teorema chinês dos restos para inteiros de Gauß! Igualmente fácil é obter o Teorema 6. pois se γ mod µν está no kernel.15. ν são primos entre si (utilizando a fatoração única em Z[i]). Como ambos os anéis possuem a mesma quantidade de elementos N (µν) = N (µ)N (ν). 6: INTEIROS ALGÉBRICOS natural de anéis Z[i] Z[i] Z[i] → × (µν) (µ) (ν) γ mod µν 7→ (γ mod µ.

 .

.

Z[i] × .

ξ(µ) = .

.

= número de inversı́veis módulo µ .

.

.

(µ) .

Note que por Bachet-Bézout ξ(µ) é a quantidade de elementos módulo µ que são primos com µ. 3. para µ 6= 0 em Z[i]. 1. podemos tanto copiar a demonstração do teorema de Euler-Fermat . ν ∈ Z[i] são primos entre si. µ ∈ Z[i] são primos entre si então αξ(µ) ≡ 1 (mod µ). então   e e 1 ξ(π ) = N (π) 1− N (π) Portanto. A função ξ é multiplicativa: se µ. temos   Y 1 ξ(µ) = N (µ) 1− π|µ N (π) π irredutı́vel Demonstração: As provas de 1 e 2 são análogas ao caso Z: para 1. 2. Se π ∈ Z[i] é irredutı́vel. então ξ(µν) = ξ(µ)ξ(ν). (Euler-Fermat-Gauß) Se α.

Novamente. z ∈ Z[ω]. b ∈ Z}. que é uma raiz cúbica da unidade. As provas são idênticas aos casos anteriores Z e Z[i]. como o valor absoluto em C é uma função multiplicativa. enquanto que 2 segue olhando para o grupo de unidades no isomorfismo do teorema chinês dos restos acima. Definimos a norma de um inteiro de Eisenstein via N : Z[ω] → Z z = a + bω 7→ |z|2 = zz = a2 − ab + b2 (utilize o fato de que ω e ω 2 = ω são as raı́zes da equação x2 +x+1 = 0). é justamente o con- junto dos elementos que não são primos com π e . Assim. logo ξ(π e ) 1 ξ(π e ) 1 e = 1 − ⇐⇒ e =1− |Z[i]/(π )| N (π) N (π ) N (π) e o resultado segue.1: INTEIROS DE GAUSS E EISENSTEIN 251 como aplicar diretamente o teorema de Lagrange. 6. Do mesmo modo. como N (π) = |Z[i]/(π)|. como π é irredutı́vel.[SEC. graças ao . o kernel deste morfismo. Além disso. temos que a norma também é multiplicativa: N (wz) = N (w)N (z) para todo w. para mostrar 3. Seja ω = 2 . temos a fatoração única em irredutı́veis de Z[ω]. O anel em questão é definido como o subanel dos complexos dado por def Z[ω] = {a + bω ∈ C | a. Outro anel com propriedades aritméticas √ interessantes é o anel de −1+i 3 inteiros de Eisenstein. Finalmente. o conjunto dos múltiplos de π. a razão entre a quantidade de elementos não inversı́veis mó- dulo π e e o total de elementos em Z[i]/(π e ) é 1/N (π). note que temos um morfismo natural de anéis Z[i] Z[i] → (π e ) (π) e γ mod π 7→ γ mod π que é claramente sobrejetor.

ω formam uma base do corpo Q(ω) = Q + Qω sobre Q. y ∈ Q. Sejam m e n os inteiros mais próximos de x e y respectivamente. 6: INTEIROS ALGÉBRICOS Lema 6. podemos escrever αβ = x + yω com x. Tome q = m + nω e r = α − βq. Pela desigualdade triangular temos . de modo que |x − m| ≤ 21 e |y − n| ≤ 12 . r ∈ Z[ω] tais que α = βq + r com N (r) < N (β).252 [CAP. Demonstração: Como 1. Sejam α.16 (Divisão Euclidiana). β ∈ Z[ω] com β 6= 0. Então existem q.

α .

1 1 .

− q .

= |(x − m) + (y − n)ω| ≤ |x − m| + |y − n| ≤ + = 1. .

.

Vejamos uma aplicação: Exemplo 6. ±ω.17. a primeira desigualdade é estrita. a menos que x − m = 0 ou y − n = 0. Então δ | (ω−ω 2 ). β 2 2 Note que como 1. é natural trabalhar em Z[ω]. Assim. 2. Z[ω]× = {±1. como ω é unidade e 1 − ω é irredutı́vel (N (1 − ω) = 3 é primo). multiplicando por |β|. Solução: Como y 5 = (x − ω)(x − ω 2 ) = N (x − ω). mas nestes dois casos a segunda desigualdade é estrita. obtemos |r| < |β| =⇒ N (r) < N (β). Resolver a equação diofantina y 5 = x2 + x + 1. (b) a + bω onde N (a + bω) é um número primo (necessariamente 3 ou da forma 6k + 1). 1. temos que x − ω e x − ω 2 têm no máximo 1 − ω como fator comum. Os irredutı́veis em Z[ω] são da forma (a) p ∈ Z primo tal que p ≡ 5 (mod 6). ±ω 2 }. Como o produto de x−ω e x−ω 2 é uma quinta potência e os elementos de Z[ω]× . ω são linearmente independentes sobre R. Deixamos como exercı́cio ao leitor verificar a seguinte caracterização de unidades e irredutı́veis em Z[ω]: Teorema 6.18. Seja δ ∈ Z[ω] tal que δ | (x−ω) e δ | (x−ω 2 ).

n ∈ Z e usando ω 2 = −1 − ω. m. 1). −7. 5. 1) e (x. 3. 19.1: INTEIROS DE GAUSS E EISENSTEIN 253 também são quintas potências perfeitas. −11. 29. 7. No jargão da Álgebra.[SEC. 2. e assim k também é um múltiplo de 5. y) = (−1. podemos concluir utilizando a fatoração única que x−ω = (1−ω)k α5 com α ∈ Z[ω]. −11. 21. n) = (0. 37. 2. −7. −2. b ∈ Z} se d ≡ 2 ou 3 (mod 4) e  √  def √  √ Z 1+2 d = Z + Z · 1+ d 2 = a+b· 1+ d 2 | a. d = −1. Sabe-se (ver [87]) que estes anéis são domı́nios euclidianos com o módulo da função norma se. 1) ou (m. Concluı́mos portanto que x − ω = β 5 para algum β ∈ Z[ω]. obtemos que x − ω = β 5 é igual a (m5 − 10m3 n2 + 10m2 n3 − n5 ) + (5m4 n − 10m3 n2 + 5mn4 − n5 )ω. definida por √ def √ √ N (a + b d) = (a + b d)(a − b d) = a2 − b2 d se d ≡ 2 ou 3 (mod 4) e √  def √ √ = a2 + ab + b2 ·   N a+b· 1+ d 2 = a+b· 1+ d 2 a+b· 1− d 2 1−d 4 se d ≡ 1 (mod 4). onde agora a comparação do “tamanho” entre β e o resto r é feita utilizando-se o módulo da função norma. −2. 1). dizemos que estes anéis são domı́nios euclidianos. Observação 6. obtemos (m. −3. 57 ou 73 . Considere os subanéis de C (ver próxima seção) √ def √ √ Z[ d] = Z + Z · d = {a + b d | a. 13. É fácil modificar as provas acima para mostrar que também temos divisão euclidiana para estes anéis se d = −1. b ∈ Z se d ≡ 1 (mod 4). que correspondem às soluções (x. Agora escrevendo β = m + nω.19. 41. y) = (0. Tomando normas. 6. Portanto n(5m4 − 10m3 n + 5mn3 − n4 ) = −1 e assim n = ±1. 6. e só se. −3. temos y 5 = 3k N (α)5 . 5. 17. n) = (1. Seja d um inteiro livre de quadrados. 33. 11. verifi- cando as possibilidades.

o “sonho de todo estudante”) p √ p X p √ √ α = (a + b d) = ap−i (b d)i ≡ ap + bp ( d)p (mod p) i 0≤i≤p pois p | pi para i = 1.2 Extensões Quadráticas e Ciclotômicas Seja d um inteiro que não é um quadrado perfeito. temos a seguinte generalização do pequeno teorema de Fermat: Teorema 6. proposição 1. Seja p ∈ √ Z um número primo tal que p 6= 2 e p . Da mesma forma. Como no caso dos inteiros de Gauß e Eisenstein. √ Demonstração: Escrevendo α = a + b d com a. temos (c. pelo pequeno teorema de  √ Fermat. definimos a relação de congruência α ≡ β (mod δ) ⇐⇒ δ | α − β √ e o anel quociente Z[ d]/(δ).f. já que √ √ √ (a1 + b1 d)(a2 + b2 d) = (a1 a2 + b1 b2 d) + (a1 b2 + a2 b1 ) d. . O conjunto √ def √ Z[ d] = {a + b d | a. cujos elementos são as classes de congruên- cia módulo δ.20. p | ap − a e p | bp − b em Z (e portanto em Z[ d] também). Por exemplo. Porém. √ α | β ⇐⇒ existe γ ∈ Z[ d] tal que β = αγ. √ podemos definir divisibilidade da maneira usual: dados α. Alguns conceitos se estendem de forma imediata. √ αp ≡ a + b · ( d)p (mod p). Por exemplo. 6: INTEIROS ALGÉBRICOS 6. . Para todo elemento α ∈ Z[ d]. Assim. .38. 2. b ∈ Z} é um subanel de C: este conjunto é claramente fechado por soma e subtração e também por produto. p − 1.254 [CAP. 2 αp ≡ α (mod p). podemos tentar esten- der o estudo de propriedades aritméticas a este anel também. . . b ∈ Z. β ∈ Z[ d].d.

b ∈ Z. Logo √ √ a−b d (a + b d) · 2 ≡ 1 (mod p) a − b2 d √ √ mostra que a + b d também é invertı́vel módulo p. ou a ou b não é divisı́vel por p. e se b 6≡ 0 (mod p) então a2 − b2 d ≡ 0 a 2 d  (mod p) =⇒ ( b ) ≡ d (mod p). então a ±  √ √ d mod p seriam não nulos em Z[ d]/(p) mas não teriam inversos pois √ √ (a + d)(a − d) ≡ 0 (mod p). αp ≡ α (mod p). temos que (p+1)/2 é inteiro e pelo pequeno teorema 2 de Fermat (dp−1 )(p+1)/2 ≡ 1 (mod p). b = 0. Temos que a2 − b2 d é invertı́vel módulo p: isto é claro se b ≡ 0 (mod p) (pois neste caso a 6≡ 0 (mod p)). n − 1 . 6. 2. ou seja. √ Se n é um inteiro positivo.d.2: EXTENSÕES QUADRÁTICAS E CICLOTÔMICAS 255 Elevando novamente a p. Como p 6= 2 e p . . Seja p um primo tal que p .[SEC. dp = −1. e somente se. logo Z[ d]/(p) é corpo.d. temos que o anel Z[ d]/(n) possui n2 elementos: √ n √ o Z[ d]/(n) = a + b d | a. Reciprocamente. A seguinte proposição fornece um critério para decidir quando este anel é um corpo: √ Proposição 6. . a ∈ Z.21. 1. obtemos portanto 2 √ αp ≡ a + b · (dp−1 )(p+1)/2 d (mod p). a. Assim. o que contradiz p = −1. Quando d ≡ 1 (mod 4). . se dp = 1 e a2 ≡ d (mod p). podemos definir também o subanel de C h 1 + √d i n √ 1 + d .  √ Demonstração: Suponha inicialmente que dp = −1 e seja a+b d 6≡  0 (mod p). . Então Z[ d]/(p) é um corpo (com p2 elementos) se.

.

o def Z = a+b· .

a. b ∈ Z 2 2 .

basta mostrar que 2 −1 2 −1 αp − βp Fp2 −1 = ≡0 (mod p) α−β pois se Fp2 −1 é múltiplo de p em Z[α]. então Fp2 −1 é múltiplo de p em Z: se a. β p −1 ≡ 1 (mod p). Trabalhando no anel Z[α]. mas também produto: note que θ = 1+2 d satisfaz a equação mônica com coeficientes inteiros 1−d d−1 θ2 − θ + = 0 ⇐⇒ θ2 = θ + 4 4 de modo que  d − 1 (a1 + b1 θ)(a2 + b2 θ) = a1 a2 + b1 b2 · + (a1 b2 + a2 b1 + b1 b2 ) · θ. Mas como na demonstração do teorema anterior.e. Analogamente.256 [CAP. Note ainda que α − β = 5 é invertı́vel módulo p pois ( 5)2(p−1) ≡ 1 (mod p) pelo pequeno teorema de Fermat. Solução: O resultado√é claro para√p = 2. Seja Fn o n-ésimo número de Fibonacci e p 6= 5 um número primo. Assim. então b = 0 e Fp2 −1 = pa pois 1 e α são linearmente √ independentes sobre Q √ (i. Mostre que p | Fp2 −1 . 5 por hipótese). 6: INTEIROS ALGÉBRICOS que é claramente√ fechado por soma e subtração. 5. aplicando o “sonho de todo estudante” e o pequeno teorema de Fermat (p 6= 2. 2p2 2 2 Como α é invertı́vel em Z[α] (αβ = −1). 4 Exemplo 6. obtemos portanto αp −1 ≡ 1 2 (mod p). Sejam α = 1+2 5 e β = 1−2 5 = 1 − α as raı́zes do polinômio x2 − x − 1. α ∈ / Q). logo podemos assumir que p 6= 2.22. o problema se resume a mostrar que 2 2 αp −1 ≡ β p −1 (mod p). .. b ∈ Z são tais que Fp2 −1 = p·(a+bα). o que completa a prova. obtemos 2 √ 2 √ p2 1p + ( 5)p p2 1+ 5 α ≡ (mod p) ⇐⇒ α ≡ = α (mod p).

. isto é. O conjunto Z[ζp ] é claramente fechado por soma e subtração.2: EXTENSÕES QUADRÁTICAS E CICLOTÔMICAS 257 Um outro subanel de C que é particularmente interessante do ponto de vista aritmético é o anel de inteiros ciclotômicos. Seja p um primo e ζp = e2πi/p . denotemos por ζ8 uma raiz oitava primitiva da unidade.  Observe que neste caso ω é uma raiz quadrada de 2. pois 2 é invertı́vel. O caso p2 com p primo ı́mpar será o primeiro a ser analisado. a1 . Vamos mostrar uma aplicação dos inteiros ciclotômicos fornecendo uma nova demonstração da lei de reciprocidade quadrática. para mostrar que ele também é fechado por produto. e portanto ζ82 + ζ8−2 = 0. isto é. Portanto   2 2 ≡ 2(p−1)/2 = ω p−1 ≡ (−1)(p −1)/8 (mod p). Se denotamos por ω = ζ8 + ζ8−1 . p 2 donde concluı́mos que p2 = (−1)(p −1)/8 . Pelo “sonho de todo estudante” sabemos que ( ζ8 + ζ8−1 se p ≡ ±1 (mod 8) p ω = (ζ8 +ζ8−1 )p ≡ ζ8p +ζ8−p (mod p) ≡ −ζ8 − ζ8−1 se p ≡ ±3 (mod 8). 6. determinar “explicitamente” uma fórmula para a raiz quadrada de ±p: . uma p-ésima raiz primitiva da unidade. . . ζ8 é raiz do polinômio x4 + 1 = 0. .[SEC. Definimos def Z[ζp ] = {a0 + a1 ζp + a2 ζp2 + · · · + ap−2 ζpp−2 | a0 . Para isso. ap−2 ∈ Z}. Por exemplo. e como ω é invertı́vel módulo p. segue que ω p−1 ≡ 2 (−1)(p −1)/8 (mod p). Este é o ponto chave da demonstração do caso geral. quando p = 3. segue que ω 2 = 2. basta utilizar a relação ζpp−1 + ζpp−2 + ζpp−3 + · · · + 1 = 0 =⇒ ζpp−1+j = −ζpp−2+j − ζpp−3+j − · · · − ζpj (j ≥ 0) que permite expressar qualquer potência de ζp de expoente maior ou igual a p − 1 em função de potências com expoente menor. temos que o anel acima é o anel de inteiros de Eisenstein.

p p × p n∈(Z/(p)) . assim a expressão na−1 percorre todos os elementos de (Z/(p))× quando a percorre (Z/(p))× . Demonstração: Observe que X a X b X ab 2 a b S = ζ · ζ = ζ a+b p p p p p p a∈Z/(p) b∈Z/(p) a. Seja p um primo e seja ζp uma p-ésima raiz primitiva da unidade.23 (Soma de Gauß). como há o mesmo número de resı́duos e não resı́duos quadráticos. para n 6= 0. 6: INTEIROS ALGÉBRICOS Proposição 6. na−1 = nb−1 ⇐⇒ a = b.b∈Z/(p) X X a(n − a) = ζpn p n∈Z/(p) a∈Z/(p) X X a2 na−1 − 1 n = ζp · p p n∈Z/(p) a∈(Z/(p))× X X na−1 − 1 n = ζp · . como ζpp−1 + ζpp−2 + ζpp−3 + · · · + 1 = 0. × p n∈Z/(p) a∈(Z/(p)) Para n 6= 0 fixo. Logo. Seja X a S= ζ a. × p p p a∈(Z/(p)) a∈(Z/(p))× Portanto. temos       2 −1 −1 X n −1 p−1 S = (p − 1) − ζp = p = p · (−1) 2 . p p a∈Z/(p) Então S 2 = (−1)(p−1)/2 p. temos que.258 [CAP. X na−1 − 1   −1 X a   −1 =− + =− × p p p p a∈(Z/(p)) a∈Z/(p) enquanto que para n = 0 temos X na−1 − 1 X  −1    −1 = = (p − 1) .

logo a congruência acima é uma igualdade.2: EXTENSÕES QUADRÁTICAS E CICLOTÔMICAS 259 Agora podemos completar a demonstração da lei de reciprocidade quadrática. q dois primos ı́mpares distintos. já que ambos os lados da expressão são ±1.[SEC. 6. p já que aq mod p percorre um sistema completo de resı́duos módulo p (q é invertı́vel módulo p). basta calcular S q−1 mod q. Módulo q. temos X aq X a Sq ≡ ζpaq = ζ aq p p p a∈Z/(p) a∈Z/(p)   X   q aq aq = ζ p p p a∈Z/(p)   q = S (mod q). Pelo “sonho de todo estudante”. Sejam p. Como S 2 = ±p. p p Substituindo na primeira expressão temos     p p−1 q−1 · 2 q (−1) 2 ≡ (mod q) q p    p q p−1 q−1 ⇐⇒ ≡ (−1) 2 · 2 (mod q) q p o que completa a demonstração. A proposição anterior também é importante para a demonstração do seguinte resultado: . q Assim. pelo critério de Euler e pela proposição anterior temos  p−1  p · (−1) 2 p−1 q−1 ≡ (p · (−1) 2 ) 2 (mod q) q   p p−1 q−1 ⇐⇒ (−1) 2 · 2 ≡ S q−1 (mod q). temos que S é invertı́vel módulo q e portanto     q q q−1 q S ≡ S (mod q) ⇐⇒ S ≡ (mod q).

24 (Pólya-Vinogradov). temos . Seja p primo. 6: INTEIROS ALGÉBRICOS Teorema 6. Para quaisquer 0 ≤ m ≤ m + n < p.260 [CAP.

 .

.

.

m+n .

X k .

√ .

< p log p. p .

.

.

k=0 p−1 ( X 2jsπi/p p se j = 0 ou s = 0 e = s=0 0 caso contrário temos m+n X  p−1 m+n p−1   k 1 X X X k 2(r−k)sπi/p = e = p p r=m p k=m k=0 s=0 p−1 m+n p−1   1 X X 2rsπi/p X k −2ksπi/p = e e . e p k=0 k=0 não depende de r. k=m p−1 k P  Demonstração: Como p = 0 e. | p p. segue que . p p s=1 r=m k=0 p−1 p−1 √ k e−2ksπi/p |= k e−2ksπi/p P  P  Como. para 1 ≤ s ≤ p − 1. para 0 ≤ s < p e −p < j < p.

.

m+n  .

.

√ X p−1 .

m+n .

.

√ p−1 .

n .

X k p X .

p X .

X .

.

≤ e2rsπi/p .

= e2rsπi/p .

= .

.

.

.

.

.

p .

p p .

.

.

.

.

r=m .

.

.

k=m s=1 s=1 r=0 √ X p−1 .

2(n+1)sπi/p .

.

√ p−1 .

.

p .

e − 1 .

.

p X .

.

sen((n + 1)sπ/p) .

.

= p .

e2sπi/p − 1 .

.

.

= p .

sen(sπ/p) .

≤ s=1 s=1 p−1p−1 p−1 √ Xp−1 .

.

2√p X .

.

.

.

√ X 2 2 2 p .

1 1 .

p p √ X 1 ≤ .

.

= .

.

p .≤ = p .

sen(sπ/p) .

p .

sen(sπ/p) .

válida para 0 ≤ x ≤ π/2). Para x > 1. temos Z 2x+1 Z 1  dt 1 1 log(2x + 1) − log(2x − 1) = = + dt = 2x−1 t 0 2x − t 2x + t Z 1 Z 1 4x dt 1 = 2 2 dt > = . 0 4x − t 0 x x . p s s s=1 s=1 s=1 s=1 (usamos na penúltima passagem a desigualdade sen(x) ≥ 2x/π.

2. (b) (1 − 3i)2009 por 13 + 2i.4.5. 6. Mostrar que o números de soluções inteiras de x2 + y 2 = n com x ≤ y é   (α1 + 1) · · · (αk + 1) + 1 . 6. 6. 2 6. Seja n um número inteiro maior que 1. Sejam n um número inteiro positivo com todos seus fatores primos da forma 4k + 1 e n = pα1 1 · · · pαk k sua fatoração em fatores primos. . Utilize o algoritmo de Euclides para calcular o mdc de 5 + 12i e 7 − 10i em Z[i]. b tais que 3a = 2b2 + 1.2: EXTENSÕES QUADRÁTICAS E CICLOTÔMICAS 261 p−1 p−1 2 2 √ X 1 √ X √ donde p < p (log(2s + 1) − log(2s − 1)) = p log p. 6. expresse este mdc como combinação linear destes dois números. 7 + 4i e 11 + 2i em Z[i]. 6. Determine os possı́veis restos da divisão em Z[i] de (a) (2 + 7i)1000 por 3 + 5i. Em seguida.6. Encontre todos os inteiros positivos a. Mostre que xn − y 2 = 1 não possui soluções inteiras não nulas.7. s s=1 s=1 Problemas Propostos 6.[SEC. 6.3. Encontre as fatorações em irredutı́veis de 50. Prove que existem duas sequências estritamente crescentes (an ) e (bn ) tais que an (an + 1) | b2n + 1 para todo n.8 (OBM2010).1. 6. Resolva a equação diofantina y 3 = x2 + 9.

Suponha que ac + bd = (b + d + a − c)(b + d − a + c). 6. tais que existe um triângulo T √ √ √ de lados a.13. √ √ (b) Mostre que Z[ 3]× = {±(2 + 3)n | n ∈ Z}. b. 6: INTEIROS ALGÉBRICOS d  √ 6. (b) se p é um primo da forma 5k ± 2 então p | Fp+1 . Utilize este fato para resolver a equação diofantina de Ramanujan-Nagell 2n = x2 + 7. b e c inteiros positivos. Mostre que a fatoração única em irredutı́veis vale em Z[ 1+i2 7 ].262 [CAP. Prove que são equivalentes: (a) Existe um triângulo congruente a T cujos vértices têm coordenadas inteiras em R2 . N (xy) = N (x)N (y) para todo x. Sejam a. b ∈ Z. Demonstrar que (a) se p é um número primo da forma 5k ± 1 então p | Fp−1 . √ def √ √ 6. (c) T tem área racional e existem u e v inteiros com mdc(a. d inteiros com a > b > c > d > 0. Considere o anel Z[ 3]√= {a+b 3 | a. Y α = −1 α √ onde α percorre todos os elementos não nulos de Z[ d]/(p). c) = u2 + v 2 . mostre que (a) α9 − α é múltiplo de 3 para todo α ∈ Z[i].10 (IMO2001). (b) T tem área racional e existem x e y inteiros com a = x2 + y 2 .9. Sejam a. √ 6. . isto é. Suponha que p = −1.11. Prove que ab + cd não é um número primo 6. b ∈ Z} e seja N : Z[ 3] → Z a função dada por N (a + b 3) = a2 − 3b2 para a. b e c.15. Em Z[i]. Você consegue generalizar estes resultados? 6. b. Seja Fn a sequência de Fibonacci.14. (a) Mostre N√ é multiplicativa. y ∈ Z[ 3]. c. (b) α5 − α é múltiplo de 2 + i para todo α ∈ Z[i]. Demonstrar que. em Z[ d]/(p).12. 6.

6. . .1 Polinômios Simétricos Um polinômio p(x1 . . . . xenn  bxf11 . .3 Alguns Resultados de Álgebra Nesta seção. . . . O principal resultado sobre polinômios simétricos diz que esta é a única maneira de obtermos polinômios simétricos. . xn . . xn . sn (x1 .. os seguintes polinômios si . temos que o polinômio simétrico x21 + · · · + x2n pode ser escrito como s21 − 2s2 . Por exemplo. . Demonstração: Vamos definir uma relação de ordem total nos po- linômios simétricos em n variáveis.[SEC. e1 + · · · + en > f1 + · · · + fn . xfnn se 1. xn ) = x1 x2 + x1 x3 + · · · + xn−1 xn . . . É claro que um produto e uma soma de polinômios simétricos também é um po- linômio simétrico.25. xn ) pode ser escrito como um polinômio nos si (x1 .3. xn ) é chamado de polinômio simétrico se ele é invariante por qualquer permutação das variáveis x1 . . . então a partir dos polinômios simétricos elementares podemos construir uma infinidade de polinômios simétricos. . . . . Todo polinômio simétrico p(x1 . . xn ). . . . . Teorema 6. . Estes são os chamados polinômios simétricos elementares. são simétricos: s1 (x1 . xn ) = x1 + x2 + · · · + xn s2 (x1 . . . somas de todos os produtos de i variáveis. Por exemplo. . Primeiro. xn ) = x1 x2 . . 6. comparamos monômios: escrevemos axe11 . . faremos um breve resumo de alguns resultados algébri- cos clássicos que serão utilizados nas seções subsequentes. . . . . .3: ALGUNS RESULTADOS DE ÁLGEBRA 263 6.

. existe um i tal que e1 = f1 . . então [M : K] = [M : L] · [L : K]. . . . xn ) com termo inicial axe11 . xn−1 )en−1 −en (x1 x2 . . . [C : R] = 2 pois 1 e i formam uma base de C sobre R. . . O grau é multiplicativo: se M ⊃ L ⊃ K são exten- sões de corpos. Note que em um polinômio simétrico. . ou seja. xn ). . 6: INTEIROS ALGÉBRICOS 2. ou e1 + · · · + en = f1 + · · · + fn e (e1 . . . en ) é lexicografica- mente maior que (f1 . . Por exemplo. xn )  q(x1 . sn−1 n−1 sn . . xn )en =axe11 . xn ) se o maior monômio de p(x1 . . . . que pode ser efetivamente utilizado para escrever polinômios simétricos em função de polinômios simétricos elementares. como desejado. . . . seu termo inicial axe11 . A demonstração do teorema é por indução com relação à ordem to- tal acima definida. . . Proposição 6. . . xenn é tal que e1 ≥ e2 ≥ · · · ≥ en . . .26. . fn ). ei−1 = fi−1 mas ei > fi . (x1 x2 . sendo a base constituı́da pelos polinômios constantes (que são simétricos!). . . e −e Como o polinômio p−ase11 −e2 se22 −e3 . . . Assim. . . . . . 6. para os quais a proposição é trivialmente verda- deira. por hipó- tese de indução ele pode ser escrito em função de polinômios simétricos elementares. xenn . o mesmo de p. . considere o polinômio simétrico e −en en ase11 −e2 se22 −e3 . . e −en en p  p − ase11 −e2 se22 −e3 . sn−1 n−1 n en sn é simétrico. . . . xn ) (seu termo inicial ) é maior do que o maior monômio de q(x1 . . . . .264 [CAP.3. Agora. dado um polinômio simétrico p(x1 .2 Extensões de Corpos e Números Algébricos Dada uma extensão de corpos L ⊃ K. xenn ou seja. Para polinômios. . Logo o mesmo vale para p. sn−1 n−1 sn cujo termo inicial é axe11 −e2 (x1 x2 )e2 −e3 . . Observe que a demonstração acima fornece um algoritmo. . . escrevemos p(x1 . . definimos o grau [L : K] de L sobre K como a dimensão de L visto como K-espaço vetorial.

. 2. existem aij ∈ K tais que bi = ai1 τ1 + · · · + ain τn . Primeiramente temos que ωi τj são linearmente independentes sobre K. . α = 1≤i≤m 1≤j≤n aij ωi τj . n. . para cada i fixo. . Definição 6. Da mesma forma. Se α ∈ L é algébrico. formam uma base de M sobre K. Seja L ⊃ K uma extensão de corpos.[SEC. . ou seja. . . 2. . Agora vamos mostrar que todo elemento α ∈ M é uma K-combinação linear dos ωi τj . então um polinômio mônico f (x) ∈ K[x] de grau mı́nimo que admite α como raiz é chamado de polinômio minimal de α sobre K. respectivamente. 6. 1. . . pois se aij ∈ K são tais que X X X  X  aij ωi τj = 0 ⇐⇒ aij τj ωi = 0 1≤i≤m 1≤j≤n 1≤i≤m 1≤j≤n P então 1≤j≤n aij τj = 0 para i = 1. . Basta então mostrar que os mn elementos ωi τj . como desejado.27. . √ Por exemplo. τn respectivamente bases de M sobre L e de L sobre K. Agora. 1 ≤ i ≤ m e 1 ≤ j ≤ n. . i. Um elemento α ∈ L é dito algébrico sobre K se existe um polinô- mio não nulo f (x) ∈ K[x] tal que f (α) = 0. existem bi ∈ L tais que α = b1 ω1 + · · · + bm ωm . m pois os ωi são linearmente independentes sobre L. P P Assim. . . . temos também que aij = 0 para j = 1. pela independência linear dos τj sobre K. 2 são números algébricos com polinômios minimais sobre Q dados por x2 + 1 e x2 − 2.3: ALGUNS RESULTADOS DE ÁLGEBRA 265 Demonstração: Sejam m = [M : L] e n = [L : K] e sejam ω1 . ωm e τ1 . para cada i fixo. Pode-se demonstrar que π e e não são algébricos. não satisfazem nenhum polinômio não nulo com coeficientes racionais. . Como os ωi formam uma base de M sobre L. Um número α ∈ C é algébrico se ele é algébrico sobre Q.

√ √ Q os complexos i e −i são conjugados entre si. f (α) = 0 ⇐⇒ p(x) | f (x). temos portanto que r(x) é o polinômio nulo. Seja L ⊃ K uma extensão de corpos e α ∈ L um número algébrico sobre K com polinômio minimal p(x) ∈ K[x]. ou seja. se houvesse dois polinômios minimais p1 (x) e p2 (x) de α. uma contradição. Demonstração: É claro que se p(x) | f (x) então f (α) = 0. Definição 6. obtemos r(α) = 0. logo ele é o polinômio minimal de ζp = e2πi/p sobre Q. ou seja. o teorema implica que se f (x) é um polinômio mônico e irredutı́vel em K[x] tal que f (α) = 0.29. terı́amos que p1 (x) | p2 (x) e p2 (x) | p1 (x). f (x) é o polinômio minimal de α. Por exemplo. Substituindo x = α.266 [CAP. Para a última asserção. então p(x) | f (x) =⇒ p(x) = f (x). . Mas como p1 (x) e p2 (x) são mônicos por definição temos que isto implica p1 (x) = p2 (x). Pela minimalidade do grau de p(x). Por outro lado. Note que o polinômio minimal p(x) ∈ K[x] de um número algébrico α é sempre irredutı́vel em K[x]. Agora suponha que f (α) = 0 e sejam q(x) e r(x) o quociente e o resto na divisão euclidiana de f (x) por p(x): f (x) = q(x)p(x) + r(x). p(x) | f (x). para p primo o polinômio xp−1 + xp−2 + · · · + x + 1 é irredutı́vel sobre Q[x]. isto mostra que α possui um único polinômio minimal. A importância dos conjugados é que eles são. Então se f (x) ∈ K[x]. Seja L ⊃ K uma extensão de corpos e seja α ∈ L um número algébrico sobre K com polinômio minimal p(x) ∈ K[x].28. Por exemplo. As raı́zes de p(x) em L são chamadas de conjugados de α. pois caso ele pudesse ser escrito como produto de dois fatores de graus menores do que deg p(x). 6: INTEIROS ALGÉBRICOS Teorema 6. vimos que pelo critério de Eisenstein e pelo lema de Gauß. α seria raiz de algum desses fatores. deg r(x) < deg p(x). Em particular. sobre bem como 2 e − 2.

Mais precisamente. .[SEC. denotamos por K[α] o menor subanel de L que contém K e α. onde f (x). αn ] e K(α1 . Seja L ⊃ K uma extensão de corpos e seja α ∈ L um número algébrico sobre K com polinômio minimal p(x) ∈ K[x] de grau n. ou seja. K(α) consiste em todas as expressões da forma f (α)/g(α). então f (αi ) = 0 para todo i. Para mostrar que todo elemento não nulo a0 + a1 α + · · · + an−1 αn−1 de K[α] é invertı́vel. quando α é algébrico. denotamos por K[α1 . Demonstração: Observe que se p(x) = xn + cn−1 xn−1 + · · · + c0 . . 6. Por outro lado. Analogamente. para j ≥ 0. Se L ⊃ K é uma extensão de corpos e α ∈ L. αn ∈ L. g(x) ∈ K[x] e g(α) 6= 0. .3: ALGUNS RESULTADOS DE ÁLGEBRA 267 do ponto de vista algébrico.30. temos. Sejam αi seus conjugados. . . indistinguı́veis.31. diremos que L é uma extensão simples de K. . Então K(α) = K[α] = {a0 + a1 α + · · · + an−1 αn−1 | ai ∈ K}. . para α1 . αn ) os menores subanel e sub- corpo de L contendo K e α1 . pois neste caso ele será claramente o menor subcorpo de L contendo K e α. . . O fato notável é que. considere o polinômio (não nulo) correspondente g(x) = a0 +a1 x+· · ·+an−1 xn−1 . temos o seguinte corolário do teorema anterior: Corolário 6. es- crevemos K(α) para o menor subcorpo de L que contém K e α. K[α] con- siste nos polinômios em α com coeficientes em K. Assim. αn = −cn−1 αn−1 − · · · − c0 =⇒ αn+j = −cn−1 αn−1+j − · · · − c0 αj e utilizando repetidamente esta relação podemos expressar qualquer ele- mento de K[α] como um polinômio em α de grau menor ou igual a n−1. Em particular. basta agora mostrar que o anel K[α] é um corpo. podemos nos livrar do “denominador” nas expressões f (α)/g(α) ∈ K(α): Proposição 6. [K(α) : K] = n. Se existe α tal que L = K(α). Note que g(x) e p(x) são primos entre si. Se f (x) ∈ K[x] é um polinômio tal que f (α) = 0. . Seja L ⊃ K uma extensão de corpos e seja α ∈ L um número algébrico sobre K. . . . . . . . αn . isto é.

pois caso contrário α seria raiz de um polinômio de grau no máximo n − 1. α per- tence a uma subextensão finita L de M ⊃ K. α. então os n+1 elementos 1. 2. αβ ∈ K(α. é linearmente independente sobre K. já vimos que se α é algébrico sobre K e seu polinômio minimal tem grau n então [K(α) : K] = n. β) (com β 6= 0 no último caso). Demonstração: Para provar (1). . Agora podemos dar uma caracterização mais intrı́nseca de um nú- mero algébrico: Proposição 6. α. pelo teorema de Bachet-Bézout. temos que K(α. α2 . . O subconjunto de M formado por todos os números algébricos sobre K é um subcorpo de M . que α é algébrico sobre K. β) = K(α)(β) é extensão simples de K(α). logo sobre K(α) também. Como α ± β. . .268 [CAP. αn−1 : este conjunto claramente gera K[α] e.32. s(x) ∈ K[x] tais que r(x)g(x) + s(x)p(x) = 1. Substituindo x = α. já que deg g(x) ≤ n − 1. β) possui dimensão finita sobre K. além disso. e K(α. β) : K] = [K(α. β) : K(α)] < ∞ pois β é algébrico sobre K. αn são linearmente dependentes so- bre K. M ⊃ L ⊃ K e [L : K] é finito. Um número α ∈ M é algébrico sobre K se. 1. . αβ. o resultado segue do item (1). Finalmente. . se α ∈ L com n = [L : K] finito. obtemos r(α)g(α) = 1 com r(α) ∈ K[α]. contrariando a minimalidade de n = deg p(x). Assim. ou seja. logo pode- mos tomar L = K(α). . note que dados dois números α. De fato. [K(α) : K] = n pois K[α] é um K-espaço vetorial de dimensão n com base 1. temos [K(α. . Reciprocamente. . existem polinômios r(x). 6: INTEIROS ALGÉBRICOS pois p(x) é irredutı́vel e não divide g(x). Para provar (2). Seja M ⊃ K uma extensão de corpos. como querı́amos. e somente se. ou seja. Mas isto é o mesmo que dizer que α satisfaz um polinômio não nulo com coeficientes em K. β) : K(α)][K(α) : K] e ambos os fatores são finitos: [K(α) : K] < ∞ pois α é algébrico sobre K e [K(α. β ∈ M algébricos sobre K.

→ C é a identidade quando restrita a Q. pois neste caso α = θ − cβ ∈ Q(θ) e portanto Q(α. β2 . Seja K ⊃ Q uma extensão finita de corpos. .33 (Elemento Primitivo). β) ⊂ Q(θ). Demonstração: Como K é finitamente gerado sobre Q (por exemplo.e. .34. . e θ − cβj 6= αi a não ser que i = j = 1. β então existe θ tal que Q(α. Definição 6. Vamos tomar θ = α + cβ para algum c ∈ Q conveniente. b ∈ K. sejam dois a dois distintos. . Então existe um elemento θ ∈ K tal que K = Q(θ). por uma base de K sobre Q). Seja K ⊃ Q uma extensão finita de corpos (i. logo a única raiz comum de p(θ − cx) e q(x) é β.3. Traço e Norma O seguinte teorema permite reduzir o estudo de extensões finitas de Q ao estudo de extensões simples (o que já foi feito no final da subseção anterior): Teorema 6. β) = Q(θ). 1 ≤ j ≤ n. 1 ≤ i ≤ m.3: ALGUNS RESULTADOS DE ÁLGEBRA 269 6. . Observe que qualquer imersão σ : K . . logo o polinômio minimal de β sobre Q(θ) divide mdc(p(θ − cx). β) é gerado por dois elementos α. Sejam α1 = α. Temos que β é raiz de p(θ − cx) ∈ Q(θ)[x]. Mas as raı́zes de q(x) são os βj . temos que σ(0 + 0) = σ(0) + σ(0) =⇒ σ(0) = 0 e . Escolha c ∈ Q de modo que os elementos αi + cβj . mas há uma infinidade de possı́veis escolhas de c ∈ Q. q(x) ∈ Q[x] respectivamente os polinômios minimais de α e β (que são números algébricos pois pertencem a uma extensão finita de Q). α2 .[SEC. Uma imersão σ : K . . αm e β1 = β. Assim. De fato.→ C é uma função injetora que preserva soma e produto de elementos em K: σ(a + b) = σ(a) + σ(b) e σ(a · b) = σ(a) · σ(b) para todo a. Isto é possı́vel pois há apenas um número finito de restrições. 6. por indução no número de geradores bastará mostrar que se K = Q(α. q(x)). βn os conjugados de α e β. bastará mostrar que β ∈ Q(θ). sendo a outra inclusão trivial.3 Imersões. logo este polinômio minimal é x − β e portanto β ∈ Q(θ). Sejam p(x). . Mas toda raiz do polinômio minimal de β sobre Q(θ) é uma raiz comum destes dois polinômios. [K : Q] é finito).

logo há no máximo n = deg p(x) = [K : Q] imersões σ : K . Se [K : Q]=n. De fato. Note que para qualquer polinômio p(x) ∈ Q[x] e qualquer imersão σ : K . θn−1 é uma base de K sobre Q. temos σ p(θ) = σ(am θm + am−1 θm−1 + · · · + a0 )  = am σ(θ)m + am−1 σ(θ)m−1 + · · · + a0 = p σ(θ)  Como qualquer elemento de K = Q(θ) escreve-se como um polinômio em θ com coeficientes racionais. cj ∈ Q. . cada elemento de K = Q(θ) pode ser unica- mente escrito como a0 + a1 θ + · · · + an−1 θn−1 . Assim. .→ C. σ(θ) só pode ser uma das raı́zes de p(x). ai ∈ Q. e basta definir σi (a0 + a1 θ + · · · + an−1 θn−1 ) = a0 + a1 θi + · · · + an−1 θin−1 e é imediato verificar que σi preserva somas. então p(θ) = 0 =⇒ 0 = σ p(θ) = p σ(θ) . para cada conjugado θi de θ so- bre Q. bj . . vamos mostrar que. . Mas se p(x)é o polinômio  minimal de θ sobre Q. se p(x) = am xm +   am−1 xm−1 + · · · + a0 . temos σ(n) = n para todo n ∈ N. Analogamente.→ C temos σ p(θ) = p σ(θ) . θ. podemos definir uma imersão com σi (θ) = θi . 6: INTEIROS ALGÉBRICOS σ(1 · 1) = σ(1) · σ(1) =⇒ σ(1) = 1 (σ(1) 6= 0 pois σ é injetora). Teorema 6. ou seja.30 aplicado ao polinômio f (x) = (a0 +· · ·+an−1 xn−1 )·(b0 +· · ·+bn−1 xn−1 )−(c0 +· · ·+cn−1 xn−1 ). se (a0 + · · · + an−1 θn−1 ) · (b0 + · · · + bn−1 θn−1 ) = c0 + · · · + cn−1 θn−1 com aj . Por outro lado. concluı́mos finalmente que σ(q) = q para todo q ∈ Q.35. Reciprocamente. Demonstração: Escreva K = Q(θ) para algum elemento primitivo. .→C. Como 1. existem exatamente n imersões σ :K. e da relação σ(−n) + σ(n) = σ(0) = 0. de σ(r) · σ(r−1 ) = σ(1) = 1 para todo r ∈ Z não nulo. temos (a0 + · · · + an−1 θin−1 ) · (b0 + · · · + bn−1 θin−1 ) = c0 + · · · + cn−1 θin−1 para todo i pelo corolário 6. utilizando repetidamente a compatibilidade com a adição.270 [CAP. temos que σ(n) = n para todo n ∈ Z. a conta acima mostra que σ está unicamente determinado pelo valor de σ(θ). ai ∈ Q.

  Assim. as imersões são a identidade e a con- jugação complexa. n todas as n = [K : Q] imersões de K em C. Ou seja. . tais que σ̃|K = σ. Sejam σi : K . Seja K ⊃ Q uma extensão finita de corpos e α ∈ K. a norma definida acima coincide com a norma dos inteiros de Gauß. cuja prova deixamos como exercı́cio para o leitor. b ∈ Q. para a. Uma variação da demonstração acima fornece a seguinte generaliza- ção.→ C. existem exatamente [L : K] imersões σ̃ : L . De fato. .. de modo que. . i.→ C. . TrK/Q (a + bi) = a + bi + a − bi = 2a e 2 2 NK/Q (a + bi) = (a + bi)(a − bi) = a + b . Dada uma imersão σ : K . para K = Q(i). quando restrita a Z[i].3: ALGUNS RESULTADOS DE ÁLGEBRA 271 Portanto σi (a0 + a1 θ + · · · + an−1 θn−1 )(b0 + b1 θ + · · · + bn−1 θn−1 )  = σi c0 + c1 θ + · · · + cn−1 θn−1 = c0 + c1 θi + · · · + cn−1 θin−1  = (a0 + a1 θi + · · · + an−1 θin−1 ) · (b0 + b1 θi + · · · + bn−1 θin−1 ) = σi a0 + a1 θ + · · · + an−1 θn−1 · σi b0 + b1 θ + · · · + bn−1 θn−1 . O traço TrK/Q (α) e a norma NK/Q (α) de α são definidos respectivamente por X Y TrK/Q (α) = σi (α) e NK/Q (α) = σi (α).→ C que estendem σ.e. para concluir a prova basta mostrar que há n = deg p(x) conjugados θi em C. . Proposição 6. p0 (x)) = 1. Sejam L ⊃ K ⊃ Q extensões finitas de corpos. Definição 6. ou seja.[SEC.36. p(x) é irredutı́vel em Q[x]. que p(x) não tem raı́zes múltiplas ou ainda que mdc(p(x). 1≤i≤n 1≤i≤n Por exemplo. i = 1.37. 6. logo p(x) e p0 (x) são primos entre si pois a derivada p0 (x) possui grau estritamente menor do que o grau de p(x).

. Mas os coeficientes do polinômio minimal de θ são racionais. .25 pode ser escrita em termos dos coeficientes do polinômio minimal de θ. ωn . α2 ω2 . Demonstração: O primeiro item é consequência direta das definições. . O segundo item é consequência imediata do terceiro. . se Tα : K → K denota a transformação Q-linear dada pela mul- tiplicação por α. . Nesta base. ω2 . Podemos escrever α = p(θ) para algum polinômio p(x) ∈ Q[x].. αm−1 ωn é uma base de K sobre Q. αm−1 ω2 . que são polinômios simétricos elementares em θi .38. αω2 .272 [CAP. . . multiplicativa: TrK/Q (α + β) = TrK/Q (α) + TrK/Q (β) e NK/Q (αβ) = NK/Q (α)NK/Q (β). α2 . . A prova de que NK/Q (α) ∈ Q é análoga. αm−1 ω2 . . Com a notação acima. então TrK/Q (α) e NK/Q (α) são respectivamente iguais ao traço e ao determinante de Tα . . α. . n = [K : Q(α)] e ω1 = 1. . 1≤i≤n 1≤i≤n 1≤i≤n 1≤i≤n Assim. Finalmente. ωn uma base de K sobre Q(α). O traço é aditivo e a norma. θn = σn (θ) os seus n conjugados. TrK/Q (α) é uma expressão simétrica dos conjugados θi de θ. 3. 2. seja m = [Q(α) : Q] o grau do polinômio minimal de α p(x) = xm + cm−1 xm−1 + · · · + c0 . TrK/Q (α) e NK/Q (α) são números racionais. . αωn . . Temos portanto X X X X TrK/Q (α) = σi (α) = σi (p(θ)) = p(σi (θ)) = p(θi ). . Uma outra prova é a seguinte: escreva K = Q(θ) para algum elemento primitivo θ e sejam θ1 = σ1 (θ). . Temos 1. . . . ci ∈ Q. logo TrK/Q (α) ∈ Q. α2 ωn . Então 1. β ∈ K. logo pelo teorema 6. θ2 = σ2 (θ). . a matriz de Tα é dada por n . 6: INTEIROS ALGÉBRICOS Proposição 6. . sejam α.

o polinômio caracterı́stico de Tα é p(x)n e temos Tr(Tα ) = −ncm−1 e det(Tα ) = (−1)mn cn0 . Calcule os graus das seguintes extensões: √ (a) [Q( 3 2) : Q] √ √ (b) [Q( 2.3: ALGUNS RESULTADOS DE ÁLGEBRA 273 blocos na diagonal compostos por matrizes m × m da forma   0 0 ··· 0 −c0 1 0  ··· 0 −c1   0 1  ··· 0 −c2  . pela proposição anterior. 3) : Q] (c) [Q(e2πi/n ) : Q] para n = 3.   . 6.18.  0 0 · · · 1 −cm−1 Assim. das relações entre coeficientes e raı́zes de p(x). Mostre que sen 2π 2π n e cos n são números algébricos sobre Q para todo inteiro positivo n (Dica: use a fórmula de Moivre eiθ = cos θ + i sen θ). cada um n vezes. temos TrK/Q (α) = −ncm−1 = Tr(Tα ) e NK/Q (α) = (−1)mn cn0 = det(Tα ). 6. σ(α) percorre todos os m conjugados de α. 5.  .17. portanto. Problemas Propostos 6. 6. . 8 (d) [Q(cos 36◦ ) : Q] 6. quando σ percorre todas as imersões de K em C. então Q(α) = Q(α2 ). existem n imersões σ de K em C tais que σ(α) = α0 e. te- mos que dado um conjugado α0 de α.16. 4. 7.[SEC. Assim. Mostre que se [Q(α) : Q] é ı́mpar. Portanto.. Seja α ∈ C um número algébrico sobre Q.

| {z } n vezes 6. Prove que se p(x) admite duas raı́zes r e s cujo produto é 1 então o grau de p(x) é par. Prove que na verdade p(x)2 divide q(x)2 + q(x) · r(x) + r(x)2 . 6. Prove que. n) = 1. . f (α))). Sejam p(x).  3 f (n) (α) − 21 · f (n) (α) = 7. Seja f (x) um polinômio de coeficientes racionais e α tal que α3 − 21α = (f (α))3 − 21f (α) = 7. . 6. . Prove que o polinômio p(x)2 − q(x)2 possui uma raiz racional. 6. por exemplo. . Mostre que p(x2 ) também é irredutı́vel em Z[x]. . Seja p(x) um polinômio irredutı́vel em Q[x] de grau maior do que 1. 6.24. . .23. . Seja p(x) ∈ Z[x] um polinômio mônico irredutı́vel tal que |p(0)| não é um quadrado perfeito. r(x) ∈ Q[x] tais que p(x) divide q(x)2 + q(x) · r(x) + r(x)2 . . Sejam q(x). . Seja si o i-ésimo polinômio simétrico elementar e ti (x1 . i=1 Conclua que os polinômios simétricos podem também ser escritos como polinômios em ti . . .19. xn )ti (x1 . para todo k ≥ 1. k X ksk (x1 .274 [CAP. .25. . xn ) = (−1)i−1 sk−i (x1 .22.26. .20. Mostre que todo fator irredutı́vel de f (g(X)) tem grau divisı́vel por n. para todo n ≥ 1. podemos tomar f (x) = (x2 − 2x − 14)/3 (verifique!). onde f (n) (α) = f (f (. xn ) = xi1 + xi2 + · · · + xin . Seja f (X) um polinômio irredutı́vel em Q[X] de grau n e seja g(X) ∈ Q[X] um polinômio qualquer. Prove que p(X) também é irredutı́vel em L[X]. xn ). . 6: INTEIROS ALGÉBRICOS 6. 6. . . Prove que. Seja p(x) um polinômio irredutı́vel em Q[x] de grau ı́mpar. q(x) ∈ Q[x] polinômios mônicos irredutı́veis e sejam a e b tais que p(a) = q(b) = 0 e a + b ∈ Q.21 (Identidades de Newton). 6. . Seja p(X) ∈ Q[X] um polinômio irredutı́vel de grau n e seja L ⊃ Q uma extensão de grau m onde mdc(m.

b ∈ Z primos entre si. Seja B ⊃ A uma extensão de anéis. Mas como a e b são primos entre si temos que isto só ocorre se b = ±1. Como b divide todos os termos a partir do segundo. Um elemento θ ∈ B é dito integral sobre A se ele é raiz de um polinômio mônico em A[x]: θn + an−1 · θn−1 + an−2 · θn−2 + · · · + a0 = 0 (ai ∈ A). que caracteriza os elementos de Z como sendo exatamente os inteiros algébricos que moram dentro de Q: Lema 6. 6. qualquer inteiro n ∈ Z é um√inteiro algébrico √ (pois n é 1+ 5 1− 5 raiz do polinômio x−n). Temos f (θ) = 0 ⇐⇒ an + cn−1 an−1 b + cn−2 an−2 b2 + · · · + c0 bn = 0. Uma das principais motivações para esta definição é o seguinte lema.4 Inteiros Algébricos Queremos estender o estudo anterior para outros subanéis de C. Se θ ∈ Q é um inteiro algébrico.40.[SEC. temos que b divide an também. então θ ∈ Z. O próximo lema permite “limpar os denominadores” de um número algébrico arbitrário: .39. Os números α = 2 e β = 2 também são inteiros algébricos pois são raı́zes do polinômio mônico com coeficientes inteiros x2 − x − 1 = 0. Definição 6. Por exemplo. Demonstração: Seja f (x) = xn + cn−1 xn−1 + · · · + c0 ∈ Z[x] um polinômio mônico tal que f (θ) = 0 e escreva θ = a/b com a. logo θ = ±a ∈ Z. O primeiro passo é identificar os elementos que assumirão o papel de “in- teiros” neste contexto mais geral.4: INTEIROS ALGÉBRICOS 275 6. Um número complexo θ que é integral sobre Z é chamado de inteiro algébrico.

Assim como no teorema 6. logo podemos tomar a = an . . denotamos por A[θ1 . . Demonstração: Suponha que an θn + an−1 θn−1 + · · · + a0 = 0 com ai ∈ Z.276 [CAP. θn ∈ B são elementos quaisquer. . . . θn .32. . De fato. raiz de um polinômio mônico f (x) = xn + cn−1 xn−1 + · · · + c0 ∈ Z[x] de grau n. Se θ é um número algébrico. an 6= 0. ωn ∈ B tais que qualquer elemento de B se escreve como combinação A-linear dos ωi : def B = Aω1 + · · · + Aωn = {a1 ω1 + · · · + an ωn | ai ∈ A}. os ωi não precisam ser “linearmente independentes” sobre A). . Uma extensão de anéis B ⊃ A é dita finita se existem elementos ω1 . Se B ⊃ A é uma extensão de anéis e θ1 . . . temos que Z[θ] = {a0 + a1 θ + · · · + an−1 θn−1 | ai ∈ Z}. . .. o que dispensa a necessidade de dividir a relação acima pelo coeficiente lı́der de f (x). Se θ é um inteiro algébrico. única (i. . precisamos de uma Definição 6. Multiplicando por an−1 n obtemos (an θ)n +an−1 (an θ)n−1 + n−1 · · · + an a0 = 0. aplicando várias vezes a relação f (θ) = 0 ⇐⇒ θn = −cn−1 θn−1 − · · · − c0 =⇒ θn+i = −cn−1 θn+i−1 − · · · − c0 θi para i ≥ 0 podemos escrever qualquer potência em θ de grau maior ou igual a n em termos de potências de grau menor do que n.41. a observação anterior permitirá obter uma caracterização mais intrı́nseca dos inteiros algébricos. . temos que se θ é um inteiro algébrico então Z[θ] é finito sobre Z. Observe que a representação acima como combinação linear dos ωi não é. . necessariamente. Primeiro. existe um inteiro a ∈ Z \ {0} tal que aθ é um inteiro algébrico. 6: INTEIROS ALGÉBRICOS Lema 6. .42. Por exemplo. . .e. θn ] o menor subanel de B que con- tém A e θ1 . com a qual poderemos provar que o conjunto de todos os inteiros algébricos forma um anel. Note a importância do fato de f (x) ser mônico.

Em particular. que é mônico e com coeficientes em A. 2. Demonstração: (1) Se θ ∈ C é integral sobre A. θωn = an1 ω1 + · · · + ann ωn Seja M = (aij ) a matriz n×n formada pelos aij e In a matriz identidade de ordem n. Se ω é o vetor coluna formado pelos ωi . ou seja. . θ é raiz do polinômio caracterı́stico de M . 1. Então. Em outras palavras. digamos. θ pertence a uma subextensão finita B de C ⊃ A. θ ∈ B onde B é um subanel de C tal que B ⊃ A é uma extensão finita de anéis. 6. Seja C ⊃ A uma extensão de anéis. (2) Sejam α e β dois elementos integrais sobre A. 2. Então o subanel de C n X X . temos que det(In θ − M ) = 0 (multiplique (In θ − M ) · ω = 0 pela matriz adjunta de (In θ − M )). como B é um anel. o conjunto de todos os inteiros algébricos é um subanel de C. Como o sistema homogêneo na variável ω possui solução não trivial. . Suponha que θ ∈ B. basta tomar C = A[θ]. . vamos aplicar o chamado “truque do determinante”. e somente se. isto é. .43. logo θ é um integral sobre A. raı́zes de polinômios mônicos em A[x] de graus m e n respectivamente. Um elemento θ ∈ C é integral sobre A se.4: INTEIROS ALGÉBRICOS 277 Teorema 6. n. existem aij ∈ A tais que θω1 = a11 ω1 + · · · + a1n ωn θω2 = a21 ω1 + · · · + a2n ωn . Para mostrar a recı́proca. temos que θωi ∈ B para i = 1. onde B é uma extensão finita de A: B = Aω1 + · · · + Aωn com ω1 = 1..[SEC. . podemos reescrever o “sistema” acima em forma matricial como (In θ − M ) · ω = 0. O subconjunto de C formado por todos os elementos integrais sobre A é um subanel de C.

β] = aij αi β j . o def A[α.

aij ∈ A .

como é fácil ver utilizando as relações mônicas satisfeitas por α e β. αβ ∈ A[α. β]. 1≤i<m 1≤j<n é finito sobre A. Como α ± β. o resultado segue do critério já provado acima. .

Afirmamos que sn = αn + β n + γ n . s1 = 0. De fato. Mas Fn /Fm ∈ Q também. .278 [CAP. Suponha que m | n. γ as suas raı́zes. ou seja. Mas isto é claro a partir das relações entre coeficientes e raı́zes: α 0 + β 0 + γ 0 = 3 = s0 α 1 + β 1 + γ 1 = 0 = s1 α2 +β 2 +γ 2 = (α+β+γ)2 −2(αβ+βγ+αγ) = 02 −2 · (−1) = 2 = s2 Como α. s2 = 2 e sn+3 = sn+1 + sn para todo n ≥ 0. Solução: Seja f (x) = x3 −x−1 o polinômio caracterı́stico da recursão (ver apêndice) e sejam α. para todo p primo. Temos Fn Fkm αkm − β km = = m Fm Fm α − βm m k−1 = (α ) + (αm )k−2 (β m ) + (αm )k−3 (β m )2 + · · · + (β m )k−1 Como α e β são inteiros algébricos e os inteiros algébricos formam um anel. digamos n = mk com k ∈ Z. assim basta verificar que os valores iniciais coincidem. γ] seria um inteiro algébrico racional. temos que esta última expressão satisfaz a relação sn+3 = sn+1 + sn . Mas pelo “sonho de todo estudante” temos sp = αp + β p + γ p ≡ (α + β + γ)p = 0 (mod p) e o resultado segue. Seja Fn o n-ésimo número de Fibonacci. Exemplo 6. já que neste caso sp /p ∈ Z[α. β. Fm | Fn . β. portanto inteiro. basta mostrar que sp ≡ 0 (mod p) no anel Z[α. A sequência de Perrin é definida por s0 = 3. γ são inteiros algébricos. γ]. β. logo Fn /Fm ∈ Z.44. β. Mostre que m | n =⇒ Fm | Fn . √ √ Solução: Sejam α = 1+2 5 e β = 1−2 5 as raı́zes da equação x2 − x − 1 = 0. temos da expressão acima que Fn /Fm é um inteiro algébrico.45. 6: INTEIROS ALGÉBRICOS Exemplo 6. Prove que p | sp .

. logo os θi também são inteiros algébricos. Então TrK/Q (θ) ∈ Z e NK/Q (θ) ∈ Z. Assim. Se p(x) ∈ Z[x] é um polinômio mônico tal que p(θ) = 0. . Temos a seguinte propriedade. Os naturais n não primos tais que n | sn são os chamados pseudoprimos de Perrin. Este conjunto é um subanel de K. . então σi (p(θ)) = 0 ⇐⇒ p(θi ) = 0 também.47. Mas como TrK/Q (θ) ∈ Q. n. i = 1. 6. Há infinitos pseudoprimos de Perrin [61].[SEC. Além disso.4: INTEIROS ALGÉBRICOS 279 Observação 6. temos portanto que TrK/Q (θ) ∈ Z. A recı́proca do resultado acima não é verdadeira.46. chamado de anel de inteiros de K. Um corolário imediato do fato de OK ser um anel é o seguinte Corolário 6. . Seja K ⊃ Q uma extensão finita de corpos e θ ∈ OK . o polinômio minimal de θ sobre Q também possui coeficientes inteiros. Este anel OK está para K assim como Z está para Q e é o ambiente para o qual queremos estender os resultados obtidos em Z. sendo soma de inteiros algébricos. O mesmo raciocı́nio mostra que NK/Q (θ) ∈ Z e também que os coeficientes do polinômio minimal de θ estão em Z.→ C. as n imersões de K em C e sejam θi = σi (θ). TrK/Q (θ) é um inteiro algébrico. . Demonstração: Sejam σi : K . Denotamos por OK o conjunto dos inteiros algébricos pertencentes a K. que generaliza o fato de os inteiros algébricos racionais serem inteiros e que será importante no desenvolvi- mento a seguir. Os primeiros são: 271441 = 521 · 521 904631 = 7 · 13 · 9941 16532714 = 2 · 11 · 11 · 53 · 1289 24658561 = 19 · 271 · 4789 27422714 = 2 · 11 · 11 · 47 · 2411 27664033 = 3037 · 9109 46672291 = 4831 · 9661 102690901 = 5851 · 17551 130944133 = 6607 · 19819 196075949 = 5717 · 34297 Agora seja K ⊃ Q uma extensão finita de corpos.

. an−1 . admite uma chamada base integral : existe uma base ω1 . Como os ωi são algébricos (pois pertencem a uma extensão finita de Q).280 [CAP. an−1 . . . . é finito sobre Z. Va- mos aplicar novamente o “truque do determinante” (c. Por outro lado. .49 (“Sanduı́che”). . . . θ]. podemos multiplicá-los por um inteiro conveniente de modo a torná-los inteiros al- gébricos. Como os ωi formam uma base de K sobre Q. . teorema 6. . . . Demonstração: Seja p(x) = xn + an−1 xn−1 + · · · + a0 um polinômio mônico com coeficientes em OK e tal que p(θ) = 0. ωn de K sobre Q e um inteiro D ∈ Z não nulo tal que ω1 ωn Z · ω1 + · · · + Z · ωn ⊂ OK ⊂ Z · + ··· + Z · D D (isto é. . o menor subanel de C que contém a0 . logo podemos assumir sem perda de generalidade que ωi ∈ OK para i = 1. qualquer inteiro algébrico é combinação Z-linear dos ωi /D e qualquer combinação Z-linear dos ωi é um inteiro algébrico) Demonstração: Seja ω1 . Seja n = [K : Q]. O primeiro resultado interessante sobre OK é que este anel é finito sobre Z e. . 6: INTEIROS ALGÉBRICOS Proposição 6. ωn ∈ OK de K sobre Q tal que qualquer elemento de OK se escreve (de maneira única) como combinação linear dos ωi com coeficientes em Z. . obtemos o . . Assim. O passo essencial nesta demonstração é o seguinte lema. um limitante uniforme para todos os elementos de OK ) para os “denominadores” dos elementos de OK : Lema 6. n. Do fato de os ai serem inteiros algébricos e da relação mônica satisfeita por θ. então θ ∈ OK . .43): multiplicando a relação anterior por ωj e tomando traços. . seja α ∈ OK . ωn uma base de K sobre Q. Então existe uma base ω1 . . θ]. .f. . . podemos escrever α = a1 ω1 + · · · + an ωn com ai ∈ Q. ou seja. já temos automatica- mente que Z · ω1 + · · · + Z · ωn ⊂ OK . Como θ ∈ Z[a0 . an−1 . como OK é um anel. O anel OK é integralmente fechado em K: se θ é integral sobre OK . . temos que o anel Z[a0 . . temos que θ é inteiro algébrico e está em K. pertence a OK .48. . . ainda melhor. . . que fornece um limitante global (isto é. θ.

. . . . ωn )T = σk (ωi )σk (ωj ) = TrK/Q (ωi ωj ) . logo OK ⊂ Z · ωD1 + · · · + Z · ωDn . . τn ) = (TrK/Q (τi τj )) os discriminantes das duas bases. 1≤k≤n . . . . .  X  δ(ω1 . . todos os traços são inteiros. τn ). TrK/Q (αωn ) = a1 TrK/Q (ω1 ωn ) + · · · + an TrK/Q (ωn ωn ) Note que como αωi e ωi ωj são todos inteiros algébricos. ωn ) = cik σj (τk ) = C · δ(τ1 . Demonstração: Sejam σi : K . O lema a seguir mostra que D 6= 0. . . . .→ C as imersões de K em C e considere a matriz δ(ω1 . . . .4: INTEIROS ALGÉBRICOS 281 “sistema linear” nos ai : TrK/Q (αω1 ) = a1 TrK/Q (ω1 ω1 ) + · · · + an TrK/Q (ωn ω1 ) TrK/Q (αω2 ) = a1 TrK/Q (ω1 ω2 ) + · · · + an TrK/Q (ωn ω2 ) . . . . . . ωn e τ1 . . Assim.. Pela regra de Cramer temos que ai ∈ Z · D−1 . . . τn bases de K sobre Q e seja C = (cij ) a matriz de mudança de base: ωi = ci1 τ1 + · · · + cin τn i = 1. . τn ) · (det C)2 e ambos os discriminantes são não nulos. . n. Sejam ω1 . 6.50. . . temos  X    δ(ω1 . . . 1≤k≤n Por outro lado. . Lema 6. . o determinante D = det(TrK/k (ωi ωj )) (chamado de discriminante da base ωi ) pertence a Z. . . . . . . Sejam ∆(ω1 . . ωn ) = ∆(τ1 .[SEC. Então ∆(ω1 . . . Multiplicando pela transposta. . . . . ωn )·δ(ω1 . . ωn ) = (TrK/Q (ωi ωj )) e ∆(τ1 . . . O seguinte lema sobre discriminantes termina a prova do lema ante- rior. ωn ) = (σj (ωi )).

θn−1 é uma base de K sobre Q. . basta mostrar isto para uma base especı́fica. para i = 1.33). . . 1≤i<j≤n Este determinante. . . ωn ) = (det δ(ω1 . θn−1 ) = det δ(1. θ. . θn−1 ) = det(θji−1 ) = (θi − θj ) 6= 0. θ. .282 [CAP. temos que 1. . . . . . .35). . para mostrar que estes discriminantes são não nulos. . . . n. Agora podemos completar a prova do Teorema 6. τn ∈ OK de K sobre Q e um inteiro positivo D tal que τ1 τn Z · τ1 + · · · + Z · τn ⊂ OK ⊂ Z · + ··· + Z · . θ. τn ))2 = (det C)2 · ∆(τ1 . . 2.51 (Base Integral). . . . temos o determinante de Vandermonde Y det δ(1. . . . θ. e portanto ∆(1. 6: INTEIROS ALGÉBRICOS Assim. . . . . são não nulos pois os conjugados θi são dois a dois distintos (ver final da demonstração do teorema 6. . . Escrevendo K = Q(θ) (teorema do elemento primitivo 6. . ωn ))2 = (det C)2 · (det δ(τ1 . . . . ωn ∈ OK tal que qualquer inteiro algébrico em OK se escreve (de maneira única) como combinação linear dos ωi com coeficientes em Z: OK = Zω1 + · · · + Zωn . defina n τ τn . θn−1 )2 . Então existe uma base de K sobre Q ω1 . . . . . . . τn ) Como det C 6= 0. D D Agora. . Demonstração: Já sabemos que existe uma base τ1 . Seja n = [K : Q]. . ∆(ω1 . θ2 . . Sendo θi = σi (θ) os conjugados de θ. .

o i Ni = ai + · · · + an ∈ OK .

. an ∈ Z . . . ai . . . ai+1 .

D D τi Note que como τi = D · D ∈ Ni . Escolha ωi ∈ Ni τi tal que o coeficiente ai > 0 de D seja mı́nimo. Vamos mostrar que os elementos ωi assim obtidos geram OK sobre Z. temos que Ni 6= {0}. Seja β um elemento qualquer de OK e escreva β = b1 τD1 + · · · + bn τDn ∈ .

temos OQ(√5) ⊃ Z + Zω. d ∈ Z e sem fatores comuns. Se p | a. que não possui solução. b. e assim sucessivamente até que finalmente tenhamos β − q1 ω1 − · · · − qn ωn = 0. os ωi formam portanto uma base de K sobre Q. Mostre que 1. donde obtemos 5a2 ≡ 0 (mod p).a e 5 . mostrando que β é uma combinação Z-linear dos ωi . 6. Temos b ≡ −2a (mod p) e a2 + ab − b2 ≡ 0 (mod p).b. Como qualquer elemento de K é o quociente de um elemento de OK e um inteiro. temos que os ωi geram K sobre Q. então de b ≡ −2a (mod p) temos que p | b. Um dos prin- cipais empecilhos é a falta de fatoração única em elementos irredutı́veis. √ Exemplo 6. Procedendo analogamente. Suponha que não e seja p um fator primo de d. β − q1 ω1 ∈ OK e como o coeficiente de τD1 neste elemento é r1 . Como há n elementos. temos que ( ab )2 + ab − 1 ≡ 0 (mod 25). 1+2 5 é uma base integral do anel de in- √ teiros em Q( 5). pela minimalidade de a1 devemos ter r1 = 0. OK = Zω1 + · · · + Zωn . √ √ Solução: Temos que 1 e ω = 1+2 5 formam uma base de Q( 5) sobre Q. Mas de a2 + ab − b2 ≡ 0 (mod 25). uma contradição.[SEC. Temos 2a + b a2 + ab − b2 TrQ(√5)/Q (α) = ∈Z e NQ(√5)/Q (α) = ∈ Z. Como são inteiros algébricos. Seja a1 o coeficiente de τD1 em ω1 . Como OK é um anel. obtemos q2 ∈ Z tal que β − q1 ω1 − q2 ω2 ∈ N3 . Logo a única possibilidade é p = 5 com 5 . Recipro- a+bω camente. d não terem fatores comuns.52. Podemos escrever α como α = d para a. o que contradiz o fato de a.5 Ideais A aritmética do anel de inteiros de extensões finitas de Q não é tão simples como os casos estudados no inı́cio deste capı́tulo. obtemos quociente q1 e resto r1 : b1 = a1 q1 + r1 com 0 ≤ r1 < a1 . b. 6. seja α ∈ OQ(√5) . .5: IDEAIS 283 OK . bi ∈ Z. Dividindo b1 por a1 . d d2 Queremos mostrar que d = ±1. de modo que β − q1 ω1 ∈ N2 . Assim.

o que é impossı́vel. Temos √ √ 3 · 7 = (1 + 2i 5)(1 − 2i 5) √ √ e todos os fatores 3. 3 e 1 + 2i 5 não são “relativamente√primos”: se este fosse o caso. O que deu errado? O problema é que os elementos irredutı́veis ainda não são os “blocos atômicos”. √7. 7 ou 21 e checando as possibilidades concluı́mos √ que α ou β é igual a ±1. . Seja A um anel comutativo. 3. o que não ocorre: se α = a + bi 5 e β = c + di 5 com a.√ a fatoração acima ainda pode ser refinada. b.. Escrevendo α = m + ni 5 com m. 1±2i 5 são irredutı́veis √ em Z[i 5]! Por exemplo. 6: INTEIROS ALGÉBRICOS √ Considere por exemplo K = Q(i 5). obtemos 21 = N (1+2i √ 5) = N (α)N (β) e portanto N (α) ∈ {1. Por exemplo. a. Da mesma forma. . temos m2 + 5n2 = 1. Mas multiplicando a primeira equação do sistema por 2. a é um subgrupo aditivo de A. 1 − 2i 5 são também irredutı́veis. o conjunto de suas . β ∈ Z[i 5]. i. cujo anel de inteiros é OK = √ Z[i 5]. Um subconjunto a ⊂ A é chamado de ideal se 1. suponha que 1+2i 5 =√αβ com α. c. No exemplo acima. a é fechado por multiplicação por elementos arbitrários de A: se a ∈ a e r ∈ A então ra ∈ a. ou seja. que são subconjuntos de OK que generalizam a noção múltiplos. dados elementos a1 . Então. obtemos 2c+d ≡ 2 (mod 3). β ∈ Z[i 5]. temos √ √ √ 1 = 3(a + bi 5) + (1 + 2i 5)(c + di 5) √ =⇒ 1 ≡ (c − 10d) + (2c + d)i 5 (mod 3) ( c − d ≡ 1 (mod 3) ⇐⇒ 2c + d ≡ 0 (mod 3). a − b ∈ a. mostra-se que 3. 2. n ∈ Z. 7. 21}. esperarı́amos √ que a equação 3α + (1 + 2i 5)β√= 1 tivesse solução √ em α. tomando normas. β ∈ Z[i 5]} tomará o papel de “mdc” entre 3 e 1 + 2i 5 e assim poderemos recuperar a tão preciosa fatoração única.e. an ∈ A. O “conserto” se dá considerando-se fatorações não em elementos mas sim nos chamados ideais. o conjunto {3α√+ √ de conjunto de √ (1 + 2i 5)β | α. . d ∈ Z.284 [CAP. Por exemplo. 3. . b ∈ a =⇒ a + b. Definição 6.53. 7.

6. am ) · (b1 . . Ideais que podem ser gerados por um único elemento são chamados de ideais principais. . bn ) = (a1 b1 . ai bj . Z[i]. . . xn ∈ A} é um ideal de A. chamado ideal gerado por a1 . . . b1 . . estas operações com ideais generalizam operações numéricas usuais. . am . . Nos anéis Z. bi ∈ b} Por exemplo. Assim. . em Z temos que o ideal (12. . an ) = {a1 · x1 + · · · + an · xn | x1 .[SEC. . dizemos que todo domı́nio euclidiano é domı́nio de ideais principais. an . . . pois ele é igual ao ideal (3). . . . . . Em particular. . . .79) que o contrário não√é necessariamente verdadeiro. todos os ideais são principais. . . . Veremos mais tarde (teorema 6. . . . Por exemplo. . Em jargão algébrico. . bn ) Observe que (1) funciona como identidade para multiplicação de ideais. Z[ω] e K[x]. em Z temos que (a) + (b) = (a. 21) = 3. temos que (d) é o conjunto dos múltiplos de d. am ) + (b1 . bn ) = (a1 . . já que o conjunto das combinações Z-lineares de 12 e 21 é o conjunto dos múltiplos de mdc(12. . Por outro lado.5: IDEAIS 285 combinações A-lineares def (a1 .54. Por exemplo. Ideais não são muito diferentes de números. para ideais finitamente gerados temos (a1 . b) a+b a·b a·b . K um corpo. . a mesma demonstração do teorema de Bachet-Bézout mostra que Proposição 6. Por exemplo. . . . . b ∈ b} def ab = {a1 b1 + · · · + an bn | ai ∈ a. Mais geralmente. a1 b2 . . . . . por exemplo o anel de inteiros de Q(i 19) é principal mas não euclidiano. e é bom ter em mente o seguinte “dicionário”: números ideais a|b a⊃b mdc(a. . podemos somar e multiplicar ideais: dados dois ideais a e b. am bn ) (a1 . (a) ⊃ (b) ⇐⇒ a | b. 21) é principal. definimos def a + b = {a + b | a ∈ a. b) = (mdc(a. . . b)) pelo teorema de Bachet-Bézout e que (a) · (b) = (ab).

Naturalmente. b ∈ A. As operações são definidas de maneira natural a+b=a+b e a · b = ab e não dependem da escolha dos representantes a e b pelas propriedades de congruência módulo a acima. p 6= A) e ab ∈ p ⇐⇒ a ∈ p ou b ∈ p. multiplicando a primeira relação por c e a segunda por b. 2. 1.e. Logo. Somando as duas relações. como querı́amos. a definição acima nada mais é do que a nossa velha congruência módulo c. Um ideal p ⊂ A é dito primo se p é um ideal próprio (i. podemos formar o anel quociente A/a. Dois candidatos surgem naturalmente: Definição 6. obtemos ac − bd ∈ a ⇐⇒ ac ≡ bd (mod a). obtemos ac − bc ∈ a e bc − bd ∈ a. Como a relação de congruência é compatı́vel com a soma e o produto. Por exemplo. Um ideal m ⊂ A é dito maximal se m é maximal dentre os ideais próprios de A. mas a nova definição se aplica a mais casos e sem dificuldades adicionais.286 [CAP. Por hipótese. A ) a ⊃ m =⇒ a = m. ordenados por inclusão. ou seja. 6: INTEIROS ALGÉBRICOS Podemos ainda definir congruências para ideais: se a é um ideal do anel A. Z é um domı́nio e Z/n é . c ≡ d (mod a)  ac ≡ bd (mod a)  Por exemplo. Agora precisamos decidir quais ideais farão o papel dos “blocos atô- micos”. escrevemos a ≡ b (mod a) ⇐⇒ a − b ∈ a para a. Seja A um anel comutativo. Temos ainda as mesmas propriedades bem conhecidas:  a + c ≡ b + d (mod a) (  a ≡ b (mod a) =⇒ a − c ≡ b − d (mod a) .55. temos a − b ∈ a e c − d ∈ a. vamos provar a última congruência. cujos elementos são as classes de congruência a = {b ∈ A | b ≡ a (mod a)} para a ∈ A. se a = (c) é principal. Lembre que um anel comutativo A é chamado de domı́nio se A 6= 0 e ab = 0 =⇒ a = 0 ou b = 0.

n é um número primo. A/p é um domı́nio. Suponha que m seja maximal e seja a ∈ / m. A recı́- proca também é verdadeira: se A/m é corpo e a é um ideal que contém propriamente m. ou que A/m é um corpo. ideal primo e ideal maximal. Um ideal m é maximal se.” como os anéis de inteiros OK de uma extensão finita K de Q. uma contradição. e somente se.56. que Q p não contém nenhum ai e sejam ai ∈ a i \ p. e somente se. existe b tal que ab ≡ 1 (mod m). . Um ideal p é primo se. todo ideal maximal é primo.5: IDEAIS 287 um domı́nio se. Na próxima subseção. . Seja A um anel comutativo. 2. e só se. para anéis “aritméticos. an são ideais arbitrários e p é um ideal primo então p ⊃ a1 · · · an =⇒ p ⊃ ai para algum i (ou seja. A/p é um domı́nio. tome a ∈ a \ m e seja b tal que ab ≡ 1 (mod m). . então ele “divide” um destes ideais) Demonstração: Temos só que provar (2). pois se n = ab com a. que é primo mas não maximal. Assim. b > 1 então a 6= 0 e b 6= 0 mas a · b = 0 em Z/n. Se a1 . n = 0 ou n é um número primo. mostramos que todo a 6≡ 0 (mod m) pos- sui inverso multiplicativo módulo m. coincidem a menos do ideal (0). Mas então 1≤i≤n ai ∈ a 1≤i≤n i ⊂ p embora nenhum ai pertença a p. 6. temos que um ideal (n) de Z é maximal se. . A/m é um corpo. Como provaremos no final desta seção.[SEC. então a = A. os dois conceitos. Assim. e só se. Em particular. ab − 1 ∈ m ⊂ a =⇒ −1 ∈ a pois a ∈ a. Utilizando este critério. Mas então todo elemento de A pertence a a. como todo corpo é domı́nio. Assim. pois o ideal (a) + m contém propriamente m. mostraremos que todo ideal não nulo em OK se fatora de maneira única (a menos da ordem dos fatores) em um produto de ideais primos. n é um número primo. que existe pois a não é zero em A/m. Suponha. Lema 6. De fato. um ideal (n) de Z é primo se. Podemos também caracterizar um ideal maximal em termos de quo- cientes. . Então (a) + m = (1). e só se. e só se. temos portanto que um ideal p de A é primo se. por Q absurdo. 1. se um ideal primo p “divide” um produto de ideais. Em termos de anel quociente. ou seja.

1 + 2i 5)(3. 1 + 2i 5)(7. 1 − 2i 5)(7. 1 + 2i 5)(3. de modo que o mapa √ Z/(3) → Z[i 5]/(3. √ 1∈ / (3. 1 + 2i 5. 1 + 2i 5) =⇒ 1 = 3 − 2 ∈ (3. Em Z[i 5]. e 2 ∈ (3. 1 + 2i 5) dado por a mod (3) 7→ a mod (3. 1 + 2i 5)) Assim. Ele também √ é injetor. √ √ Solução: De 3 · 7 = (1 − 2i 5)(1 + 2i √ 5). 1 − 2i 5) · (7. √ √ Isto mostra que todo elemento de Z[i 5]/(3. 1 + 2i 5)(7. 1 + 2i 5) pode ser re- presentado √ por um √ inteiro módulo 3. 1 − 2i 5) = (7). 1 ± 2i 5) (o “mdc” de 3 e 1 ± 2i 5) e (7. 1 − 2i 5) = (9. 3 − 6i 5.57. 1 + 2i 5) · (3. Logo este mapa é um isomorfismo. para a. pois. 1 + 2i 5)) =⇒ 1 ≡ i 5 (mod (3. 1 ± 2i 5). 1 + 2i 5) é um corpo. como √ já vimos no começo desta seção. temos que uma fatoração de (7) em ideais maximais é √ √ (7. Temos √ √ √ √ 1 ≡ −2i 5 (mod (3. vamos mostrar que Z[i 5]/(3. 1 + 2i 5. √Todos estes ideais √ são maximais. 21) √ √ = (3) · (3. Temos agora √ √ √ √ (3. 1 − 2i 5. Por exemplo. isomorfo a Z/(3). 1 − 2i 5) √ √ √ √ = (3. Isto “explica” √ √ da fatoração única em irredutı́veis dada por 3 · 7 = a falha (1 − 2i 5)(1 + 2i 5). encontre uma fatoração dos ideais (3) e (7) em ideais maximais. temos que um bom inı́cio √ é tentar olhar √ para os ideais (3. 1 + 2i 5). 1 + 2i 5)(7. 7) = (3) √ √ pois (3. 1 − 2i 5) √ √ = (1 + 2i 5) · (1 − 2i 5) . 1 − 2i 5.288 [CAP. Da mesma forma. b ∈ Z temos √ √ a + bi 5 ≡ a + b (mod (3. 1 + 2i 5)). 7) = (1) já que 1 = 7 − 2 · 3. pois rearranjando os fatores obtemos √ √ √ √ (3) · (7) = (3. 6: INTEIROS ALGÉBRICOS √ Exemplo 6. 1 + 2i 5) é sobre- jetor. 3 + 6i 5. que também é impossı́vel. 1 + 2i 5).

Então existe a1 ∈ I tal que a0 ( a1 . todo ideal a de A é finitamente gerado. . tome a2 ∈ a \ (a1 ). . Tradu- zindo isto em termos de ideais.e. . an ∈ A geradores de a. . di = di+1 para todo i suficientemente grande. que é um ideal de A: dados a. d3 | d2 . a2 ) 6= a. b ∈ I e b ⊇ a =⇒ b = a. • (3) =⇒ (2) Dada uma cadeia ascendente a0 ⊂ a1 ⊂ a2 ⊂ · · · . logo a = ai0 e portanto ai = ai+1 para todo i ≥ i0 . a menos que a sequência estabilize. . temos que a = (a1 . Observe que em inteiros positivos. an ∈ ai0 . não podemos ter uma sequência infinita d2 | d1 . b ∈ ai . toda cadeia ascendente de ideais estabiliza. • (2) =⇒ (3) Suponha que I não possua elemento maximal e seja a0 ∈ I. d4 | d3 . . Como a cadeia (a1 ) ⊂ (a1 . . i. . que servirá de substituto para o PIF e para o princı́pio da boa ordem quando estivermos trabalhando com ideais. Se (a1 ) 6= a. isto é. 3. isto é. As equivalências entre as condições acima são simples: S • (1) =⇒ (2) Tome a = i≥0 ai . . Se (a1 . dada uma cadeia de ideais a0 ⊂ a1 ⊂ a2 ⊂ a3 ⊂ · · · então ai = ai+1 para i suficientemente grande. a2 . obtemos uma cadeia ascendente estrita a0 ( a1 ( a2 ( · · · . • (2) =⇒ (1) Seja a um ideal e tome a1 ∈ a. . . a2 ) ⊂ (a1 . Repetindo este procedimento. tome a3 ∈ a \ (a1 . . de modo que a + b ∈ ai ⊂ a e ra ∈ ai ⊂ a. Se ai0 é um elemento maximal de I então devemos ter ai = ai+1 para todo i ≥ i0 . an ) para algum n. b ∈ a e r ∈ A. Um anel comutativo A é noetheriano se satisfaz qual- quer uma das seguintes propriedades equivalentes: 1. Sejam a1 . a2 ). tome I = {ai | i ≥ 0}. . 2.5: IDEAIS 289 Precisamos só de mais um conceito.[SEC. a3 ) ⊂ · · · estabiliza.58. temos a Definição 6.. . . o que é um absurdo. 6. escolha i grande o suficiente para que a. E assim por diante. todo conjunto não vazio I de ideais possui um ideal a que é maxi- mal em I com relação à inclusão. Então existe um i0 grande suficiente tal que a1 . .

Da prova do teorema 6. . Seja OK o anel de inteiros de uma extensão finita K de Q. b não é primo. b ∈ / b tais que ab ∈ b. temos que b ⊃ (a) + b · (b) + b e. . Isto mostra em particular que todo ideal de OK é finitamente gerado.51. . Demonstração: Suponha que isto seja falso e seja I o conjunto dos ideais não nulos que violam o enunciado. i. podemos supor que a matriz (aij ) é uma matriz triangular P superior. . Seja A um domı́nio noetheriano. Mas neste caso. a 6= 0. . como ab ∈ b. 6: INTEIROS ALGÉBRICOS O PIF pode ser utilizado para demonstrar que todo inteiro positivo pode ser fatorado como produto de primos. τn de K sobre Q tal que a = Zτ1 + · · · + Zτn . i = 1.. pela maximalidade de b em I temos que ambos os ideais (a) + b e (b) + b contêm produtos de ideais primos não  nulos. Seja b um elemento maximal em I. ωn uma base integral de OK . . ou seja.e. . vamos mostrar que todo ideal não nulo “divide” um produto de ideais primos não nulos: Lema 6. 1≤i≤n . . Seja ω1 . . temos Zaω1 + · · · + Zaωn ⊂ a ⊂ Zω1 + · · · Zωn e portanto a mesma prova do teorema 6. n. Por hipótese. obtemos X τi = aij ωj . Observe que dado um ideal não nulo a e um elemento a ∈ a. . . b também contêm um produto de ideais primos não nulos.290 [CAP. Como ilustração do “prin- cı́pio de indução noetheriana”. . n.59. Escrevendo os τi em função dos ωj . . uma contradição. . aij ∈ Z 1≤i≤n para i = 1. assim. . uma base τ1 . logo existem a. de modo que é fácil ver que os elementos da forma 1≤i≤n ri ωi com 0 ≤ ri < |aii |. Então todo ideal a 6= (0) contém um produto de ideais primos não nulos.51 mostra a existência de uma base integral para a. que OK é noetheriano. . Como (a) + b ) b e (b) + b ) b. formam um sistema completo de restos módulo a e assim Y |OK /a| = |aii | = | det(aij )|.

A seguinte proposição será fundamental na demonstração da fatora- ção única em ideais primos: Proposição 6. . . Resumimos a discussão acima em um Lema 6. ωn e τ1 . . as potências 1. logo existe i > j tal que di = dj ⇐⇒ dj (di−j − 1) = 0 e como D é domı́nio. temos di−j = 1 com i − j > 0.[SEC. logo d é invertı́vel em D. se ω1 . . OK é integralmente fechado. respectivamente. logo det B = det C = ±1 e assim a fórmula |OK /a| = | det(aij )| é válida para todas as bases integrais de a (e não só para a base “triangular superior” da prova do teorema 6. τn são bases integrais de OK e a.61.48 e o segundo decorre da discussão acima. Para o terceiro item. escrevendo B e C para as matrizes (com entradas inteiras) de mudança de base de τj0 para τj e vice-versa. e aij ∈ Z são tais que X τi = aij ωj 1≤j≤n então |OK /a| = | det(aij )|. Seja K uma extensão finita de Q e seja a um ideal não nulo de OK . 2.60. Demonstração: O primeiro item é o conteúdo da proposição 6. Então 1. . todo ideal primo não nulo de OK é maximal. 6. OK é noetheriano. Seja K uma extensão finita de Q. Além disso. . . pois um domı́nio finito D = OK /p é sempre um corpo: se d ∈ D e d 6= 0.51). . d. . Então ele é maximal. formam um conjunto finito. temos que BC = I =⇒ det B det C = 1. . seja p 6= (0) um ideal primo. os anéis quociente OK /a são sempre finitos! Note ainda que se temos outra base integral τj0 para a. tendo sido repetidos aqui apenas por conveniência. 3. . d2 . . Então o anel quociente OK /a é finito.5: IDEAIS 291 Em particular.

. Ideais fracionários podem ser somados e multiplicados da mesma forma que ideais comuns. o mesmo vale para seus ideais fracionários. Sejam f um ideal fracionário de OK .43).63. . 6.62. an ∈ K temos que def (a1 . Como veremos a seguir. Um domı́nio que satisfaz as três condições da propo- sição anterior é chamado de domı́nio de Dedekind. . Se a ∈ K é um elemento tal que af ⊂ f. Demonstração: Vamos novamente utilizar o “truque do determi- nante” (c. . ωn ). . . então a ∈ OK . Para isto. Como todo ideal de OK é finitamente gerado.292 [CAP. temos o “sistema” linear nas “variáveis” ωi : X aωi = mij ωj mij ∈ OK . 1≤j≤n . Lema 6. .5. dados elementos arbitrários a1 .f. an ) = {a1 x1 + · · · + an xn | xi ∈ OK } é um ideal fracionário de OK . ωi ∈ K Como af ⊂ f.64. por exemplo. . Pode-se mostrar. 6: INTEIROS ALGÉBRICOS Observação 6. vamos provar a existência e unicidade da fatoração em ideais primos. que vale em qualquer domı́nio de Dedekind. d d Por exemplo. que o anel de polinômios K[x] com coeficientes em um corpo K é um domı́nio de Dedekind. . Um subconjunto f ⊂ K é chamado de ideal fracionário de OK se existe um ideal a ⊂ OK e um elemento não nulo d ∈ OK tal que 1 def na o f= ·a = |a∈a . é con- veniente estendermos ligeiramente o conceito de ideal: Definição 6. . teorema 6. Nesta seção. . de modo que podemos escre- ver f = (ω1 . os três axiomas acima são exatamente os ingredientes necessários à prova da fatoração única em ideais primos.1 Fatoração Única em Ideais Primos Seja K uma extensão finita de Q. .

temos que a é uma raiz do polinômio mônico caracterı́stico p(x) = det(x · I − M ) com coeficientes em OK . −1 Teorema 6. existe b ∈ p2 . temos que a ∈ OK . temos (b/a) · p ⊂ OK . Como (a) ⊃ b · p. logo para provar que pp−1 = (1). podemos assumir que k é minimal com esta propriedade. . logo p−1 é de fato um ideal fracionário. e como ambos os ideais são maximais. pk tal que b ∈ / (a). Agora.65. Seja p−1 o ideal fracionário def p−1 = {a ∈ K | ap ⊂ OK }. basta mostrar que pp−1 6= p. Demonstração: Observe primeiramente que para qualquer d ∈ p. Observe que p ⊃ (a) logo p ⊃ p1 . isto implica que p−1 = OK . Tome qualquer elemento não nulo a ∈ p. . 6. assim existe um ideal maximal p ⊃ a (utilize novamente indução . que permite “inverter” ideais primos: Proposição 6. temos p1 = p. O passo essencial na prova da fatoração única é a seguinte proposição.[SEC. i. . pela minimalidade de k. Seja p um ideal primo não nulo de OK . Pelo lema 6. Mas então b/a ∈ p . contradizendo p−1 = OK . b/a ∈ / OK . Qualquer ideal não nulo de OK es- creve-se como produto de ideais primos. pk . Demonstração: Primeiramente vamos mostrar a existência desta fa- toração por indução noetheriana. Pelo lema. Vamos mostrar que isto leva a uma contradição. Então pp−1 = (1). Então a não pode ser um ideal maximal em OK . logo a é integral sobre OK . Suponha por absurdo que pp−1 = p. .5: IDEAIS 293 Sendo M a matriz (mij ). existem ideais primos não nulos pi tais que (a) ⊃ p1 .. Suponha que o conjunto S dos ideais não nulos que não admitem tal fatoração seja não vazio e seja a um elemento maximal de S.59. temos que dp−1 é um ideal ordinário de OK . Note também que p−1 ⊃ OK e que pp−1 é um ideal ordinário de OK que contém o ideal maximal p. Esta fatoração é única a menos da ordem dos fatores. Como OK é integralmente fechado. digamos.e.66 (Fatoração Única).

294 [CAP.67. qs . . Por indução no número de fatores. . como ambos os ideais são maximais. . Logo S = ∅. logo p−1 a é um ideal ordinário de OK . pr = q1 . Então a ⊃ b =⇒ OK ⊃ p−1 a ⊃ p−1 b. temos que existe um ideal c tal que p−1 b = p−1 ac =⇒ b = ac. Assim. podemos portanto concluir que r = s e (após reordenamento dos fatores) que pi = qi para i = 2. . Porém. 6: INTEIROS ALGÉBRICOS noetheriana. Para a outra implicação. temos que ele contém o produto da direita e portanto contém algum dos fatores. Se n = 0. Dados ideais ordinários a e b de OK . . Além disso. pois caso contrário o lema afirma que p−1 = OK . . . multiplicando a igualdade acima por p−11 . Como p−1 a tem n − 1 fatores primos. pr o que contradiz a definição de a. . obtemos p2 . então a = (1) e podemos tomar c = b. devemos ter p1 = q1 . temos que a ⊃ b ⇐⇒ existe um ideal ordinário c de OK tal que b = ac. Agora suponha n > 0 e seja p um fator primo de a. pr =⇒ a = pp−1 a = pp1 . Pela escolha de a. . pr = q2 . . Temos que p−1 p ⊃ p−1 a. digamos p1 ⊃ q1 . . Suponha que tenhamos duas fatora- ções p1 . . Isto conclui a prova. . temos portanto que p−1 a ∈/ S. desta vez no conjunto dos ideais próprios de OK que con- têm a). O seguinte corolário conecta os dois sentidos de divisibilidade para ideais: Corolário 6. Agora provaremos a unicidade. r = s. como p−1 ⊃ OK . o que não ocorre pela prova da proposição anterior. . . Como p1 contém o lado esquerdo. Obtemos ainda o seguinte corolário para ideais fracionários: . p−1 a ⊃ a e esta inclusão é própria. faremos uma indução no número n de fatores primos de a. existem ideais primos pi tais que p−1 a = p1 . isto é. qs com pi e qi ideais primos não nulos. Demonstração: A implicação ⇐= é clara. .

2. N (a) ∈ a Demonstração: Pela fatoração única. que está bem definido pois se a ∈ p então aω ∈ ap.60). N ((α)) = |N (α)| para todo α ∈ OK . Então 1. mas a última possibilidade não ocorre pela escolha de ω. ω é um elemento de a tal que (ω) é divisı́vel pela mesma potência de p que divide a.5: IDEAIS 295 Corolário 6. Por outro lado. concluı́mos que (ω)+ap = a ou (ω)+ap = ap. Qualquer ideal fracionário f 6= 0 de OK se escreve. 3. (ω) + ap ⊃ ap ⇐⇒ (ω) + ap | ap. E como |OK /ap| = |OK /a|·|a/ap| basta mostrar o isomorfismo de grupos abelianos OK /p ∼= a/ap. Em outras palavras. 6. N (ab) = N (a)N (b). de modo que a | (ω) + ap. Proposição 6.[SEC. como Y e f= pi i ei ∈ Z 1≤i≤n onde pi ⊂ OK são ideais primos distintos. Lembre-se de que o anel quociente OK /a é sempre finito para um ideal a 6= 0 (lema 6. Das duas relações de divisibilidade. Sejam a e b ideais ordinários de OK . Pela fatoração única. De fato. Seja a um ideal não nulo de OK . Agora considere o mapa φ : OK /p → a/ap dado por a mod p 7→ aω mod ap. temos a 6= ap e assim existe um elemento ω ∈ a \ ap. Note que isto implica (pense no mdc de (ω) e ap) a = (ω) + ap. para mostrar (1) é suficiente mostrar que N (a)N (p) = N (ap) para um ideal primo p e um ideal a qualquer.68. A norma N (a) de a é definida como o número de elementos do anel quociente OK /a. a ∈ OK .70. Vamos encerrar esta seção com uma discussão sobre normas de ideais.69. Definição 6. de maneira única. . a inclusão ⊃ é clara.

temos três√imersões √ em C. .→ C é dita real se a imagem de K está contida em R. σr . αωn é uma base integral do Pideal principal (α). . temos N ((α)) = |OK /(α)| = | det(aij )| = | det Tα | = |N (α)|. utilizaremos r para denotar o número de imer- sões reais de K e 2s para o número de imersões complexas. De agora em diante. Seja K uma extensão finita de Q de grau n = [K : Q]. e es- crevendo αωi em função dos ωj . Assim. seja ω1 .√sendo r = √ 1 3 3 3 3 real e 2s = 2 complexas. σ2 ( 2) = ω 2 . σ2 . Convencionaremos a seguinte enumeração destas imersões σ1 . ωn uma base integral de OK . 6. | {z } | r+1 r+1 r+2 {zr+2 } imersões reais pares de imersões complexas conjugadas √ Por exemplo. temos αωi = 1≤i≤n aij ωj com aij ∈ Z.38. então como (ω) é divisı́vel pela mesma potência de p que divide a. . . Uma imersão σ : K . Mas a matriz (aij ) é a matriz da transformação linear Tα com relação à base ωi .60. . Temos então que αω1 .6 Grupo de Classe e Unidades Começamos com uma Definição 6. Mas se φ(a + p) é zero. de modo que r + 2s = n = [K : Q]. . . σ . σ .296 [CAP. . para (3) basta notar que como N (a) é a quantidade de elementos em OK /a. σ. σ . . . em particular para x = 1 obtemos N (a) ∈ a. . σr+s . . 6: INTEIROS ALGÉBRICOS Pelo provado acima. devemos ter p | (a) ⇐⇒ a ∈ p. isto é. φ é sobrejetor. temos que N (a) · x ≡ 0 (mod a) para qualquer x ∈ OK pelo teorema de Lagrange. Isto completa a prova de (1).71. aω ∈ ap. . Para provar (2). para K = Q( 3 2). σ r+s . caso contrário σ é dita complexa. assim para mostrar que φ é um isomorfismo basta mostrar que ele é injetor. Finalmente. pois podemos compor σ com a conjugação complexa para obter uma nova imersão complexa. . σ . dadas por σ1 ( 2) = 2. . Imersões complexas sempre vêm aos pares σ. na notação da proposição 6. . por esta última propo- sição e pelo lema 6.

σr (a). . . 2s − 1.72. . cujo volume é N (a) = |OK /a| vezes maior do que o do reticulado ψ(OK ). Vamos agora definir um mapa ψ : K → Rn a 7→ (σ1 (a). <σr+s (a). =σr+s (a)) onde <z e =z denotam a parte real e imaginária do número complexo z. vamos mostrar o seguinte Lema 6. x2r+1 + x2r+2 ≤ c2 . . <σr+1 (a). na notação da prova do lema 6. . . . ψ(a + b) = ψ(a) + ψ(b) para quaisquer a. . . . 3. 6. De fato. . 2 De quebra. isto é. onde ω = −1+i 2 3 é uma raiz cúbica primitiva da unidade. Queremos aplicar o teorema de Minkowski 4. . seja ω1 . obtemos que vol ψ(OK ) = 2−s |∆(ω1 . vamos mostrar que os vetores coluna ψ(ωi ) são line- armente independentes sobre R. ψ(ωn )) 6= 0. . . |xr | ≤ c. multiplicando a (r + j)-ésima linha por − 21 e somando com a (r + j + 1)-ésima linha. ψ(ωn )) = − · det δ(ω1 . . ωn uma base integral de OK . =σr+1 (a). . . . Como aplicação. . . ωn )|. . . b ∈ K. Seja a um ideal de OK . a 6= 0. Observe que ψ é injetor e é um morfismo de grupos abelianos. . . tal que  2 s p |NK/Q (a)| ≤ NK/Q (a) |∆(ω1 . x2r+2s−1 + x2r+2s ≤ c2 . . Recombinamos <σr+j com =σr+j para reobter σr+j : multiplicando a (r + j + 1)-ésima linha por i e somando com a (r + j)-ésima linha e. ωn ) 6= 0. Afirmamos que a ima- gem de OK por ψ é um reticulado em Rn . . . . . . ou seja. π Demonstração: Observe que ψ(a) também é um reticulado. . . em seguida. para j = 1. . . . ωn )|  p é o volume deste reticulado. .6: GRUPO DE CLASSE E UNIDADES 297 √ √ √ e σ 2 ( 3 2) = ω 3 2. que det(ψ(ω1 ). . . obtemos. .50. .[SEC. . Então existe um elemento a ∈ a. . .18 com o reticulado ψ(a) e o conjunto convexo e simétrico V ⊂ Rn definido pelas desigualdades |x1 | ≤ c.  1 s det(ψ(ω1 ). .

. . Esta operação nas classes de ideais torna este conjunto um grupo. . . dxn |x1 |≤c |xr |≤c x2r+1 +x2r+2 ≤c2 x2r+1 +x2r+2 ≤c2 Z c r Z s = dx dx dy −c x2 +y 2 ≤c2 r 2 s r s n = (2c) (πc ) = 2 π c Como 2r π s cn ≥ 2n · NK/Q (a)2−s |∆(ω1 . ωn )|. O volume de V é Z Z Z Z . Logo |NK/Q (a)| = |σ1 (a) · · · σr (a) · σr+1 (a)σ r+1 (a) · · · σr+s (a)σ r+s (a)| ≤ cn o que termina a prova. . . dx1 . pois todos os ideais são principais. O grupo de classe de OK é o grupo cujos elementos são classes de equivalência [a] de ideais fracionários a 6= (0) de OK . s. . isto é. . . . . 6: INTEIROS ALGÉBRICOS p onde cn = (2/π)s NK/Q (a) |∆(ω1 . ωn )| = 2n vol ψ(a) pela p  escolha de c. . a identidade é a classe [(1)] (ou de qualquer ideal principal) e [a]−1 = [a−1 ]. para Z e Z[i]. . Um resultado importante é que para o anel de inteiros OK esta “falha” é limitada: .. de modo que podemos definir def [a] · [b] = [a · b]. Definição 6. . É fácil checar que a relação acima é uma relação de equivalência no grupo multiplicativo dos ideais fracionários. . r e σr+j (a) · σ r+j (a) = |σr+j (a)|2 ≤ c2 para j = 1. . |σi (a)| ≤ c para i = 1. sendo dois ideais a e b equivalentes se eles diferem entre si por um ideal principal: [a] = [b] ⇐⇒ a = b · (c) para algum c ∈ K × . . pelo teorema de Minkowski existe a ∈ a tal que a 6= 0 e ψ(a) ∈ V .. Por exemplo.298 [CAP. compatı́vel com o produto deste último grupo.73. . O grupo de classe é uma medida da “falha da fatoração única” em elementos irredutı́veis. o grupo de classe é trivial.

ωn )|. N (a)N (b) = |N (a)| =⇒ N (b) ≤ C. isto é. Seja S este conjunto de ideais com norma menor ou igual a C.74 (Finitude do Grupo de Classe). 6. √ Demonstração: O discriminante da base integral 1 e i 5 é √ . . pela propo- sição 6. pois há apenas um número finito de inteiros m entre 1 e C e se um ideal tem norma m. [a] = [b−1 ].6: GRUPO DE CLASSE E UNIDADES 299 Teorema 6. Porém pelo lema anterior existe a 6= 0 em a tal que |N (a)| ≤ C · N (a). existe um ideal b de OK tal que ab = (a). Mostre que o grupo de classe do anel Z[i 5] possui dois elementos.70 ele divide o ideal principal (m). Por outro lado. .75. Como a ∈ a ⇐⇒ a | (a). . Demonstração: Há uma quantidade finita de ideais com norma me- sp nor ou igual a C = π2 |∆(ω1 . ou seja. como querı́amos mostrar.[SEC. √ Exemplo 6. Basta mostrar que qualquer ideal a de OK é equivalente ao inverso de um ideal em S. b ∈ S. . O grupo de classe do anel de inteiros OK é finito. que possui um número finito de divisores.

.

√ .

.

.

Tr(1) Tr(i 5).

.

2 0 √ .

∆(1. i 5) = .

.

.

=.

.

Tr(i 5) Tr(−5) . = −20.

.

0 −10.

Como há apenas s = 1 par de imersões complexas. ou seja. √ basta olhar para os ideais com norma menor ou igual a C = 2 20 < 2. pela demonstração acima. 1 + i 5)]2 = [(1)] e [(2. √ devemos mostrar que (2. N (a + bi 5) = a2 + 5b√ 2 =2 não possui solução com a.85. 1 + i 5) = (d). Porém. Assim. 1 + i 5)]. Mas se √ (2. Temos que (2) = π √ 2 √ √ (2. 1 + i 5)] √ é possivelmente o único elemento não trivial do √grupo de classe de Z[i 5]. N (d) = 2. terı́amos √ que d | 2 =⇒ N (d) | N (2) = 4 e d | 1 + √ i 5 =⇒ N (d) | N (1 + i 5) = 6. Vejamos como aplicar os conceitos acima na resolução de equações diofantinas: . b ∈ Z. com norma menor ou igual a 2. Para terminar. 1 + i 5) . 1 + i 5) não é principal. √ o grupo de classe de Z[i 5] é constituı́do das classes [(1)] e [(2. logo [(2. ou seja.

Analogamente d é principal também. Da mesma forma. é fácil mostrar √ que y não é um √ múltiplo de 5 também. pois caso contrário terı́amos y par. Sejam √ a = (x + i 5) e b = (x − i 5) os ideais principais gerados por x ± i 5. Como dois elementos geram o mesmo ideal principal√ se. temos que N (a+bi 5) = a2 +5b2 = 1. logo a = ±1 e b = 0. pois se a+bi 5 ∈ Z[i 5] . pois caso contrário de (∗) temos p | (y) =⇒ 2 = N (p) | N (y) = y 2 e y é ı́mpar. Já vimos que o grupo de √ classe deste anel possui apenas √ dois √ ×elementos. √ Exemplo 6. Reescrevendo a fatoração acima em termos de ideais. o quadrado de qualquer classe é trivial. e somente se. Logo a equação y 3 = x2 + 5 não possui soluções inteiras. 163 são domı́nio de ideais principais. 1 + i 5) (i 5). existem a. vemos que não há solução inteira para a. temos que a = c3 =⇒ [(1)] = [c]. temos que √ Z[i 5]× = ±1. Assim. . b ∈ Z. Resolva a equação diofantina y 3 = x2 + 5. um absurdo. e como a é principal. 1 + i 5) ou p = (i 5). a. Mostre que os anéis de inteiros OK de K = Q( −n) para n = 19.76. logo y 3 ≡ 0 (mod 8). Observe ainda que x deve ser par e y.77.y. 43. então p divide √ x+i 5−(x−i √ 2 √ 5) = 2i 5 e temos a fatoração √ em ideais√primos (2i 5) = (2. logo x2 ≡ 1 (mod 8) =⇒ x2 + 5 ≡ 6 (mod 8). d de Z[i 5].300 [CAP. de (∗) temos pela fatoração √ única em ideais primos que a = c3 e b = d3 para ideais c. ı́mpar. (∗) √ √ Se√p é um ideal primo que divide a e b. √ Demonstração: √ Trabalhamos √ em Z[i 5]. 6: INTEIROS ALGÉBRICOS Exemplo 6. e x ı́mpar. temos que x + i 5 = ± (a3 − 15ab2 ) + √  (3a2 b − 5b3 )i 5 . Além disso. Daqui temos 3a2 b − 5b3 = ±1 =⇒ b = ±1. Como o grupo de classe só possui dois elementos. c é principal. a e b são primos entre si. b ∈ Z tais que temos a igualdade de ideais √ √ √ a = (a + bi 5)3 ⇐⇒ (x + i 5) = (a + bi 5)3 . eles diferem de uma unidade. analogamente o segundo caso não ocorre pois 5 . Logo p = (2. 67. Testando os valores. Resumindo. pois neste anel temos a fatoração y 3 = (x + i 5)(x − i 5). Mas o primeiro caso não pode ocorrer. isto é. temos (y)3 = ab.

Os anéis acima são exemplos de domı́nios de ideais principais que não são euclidianos. O seguinte teorema completa a prova da afirmação de que os anéis do exemplo anterior são principais mas não euclidianos. Para mostrar isto. seja D um domı́nio e denotemos por D̃ o conjunto das unidades de D juntamente com o elemento zero. b 6= 0. como há apenas s = 1 par de imersões complexas. basta mostrar que os ideais (p) são maximais.21 utilizando o fato que np = −1. Seja u ∈ D \ D̃ tal que d(u) é mı́nimo em S. Como D não é um corpo. Para cada x ∈ D existem q. r ∈ D tais que x = uq + r onde r = 0 ou d(r) < d(u). u é um divisor universal.[SEC. existem q e r com a = bq + r e r = 0 ou d(r) < d(b)). 2 e 3 são divisores universais em Z. Então D não é um domı́nio euclidiano.6: GRUPO DE CLASSE E UNIDADES 301 Solução: Devemos mostrar que o grupo de classe é trivial para √ estes 1+ −n anéis. Definamos S = {d(v) | v ∈ D \ D̃} ⊂ N. logo possui mı́nimo. o que pode ser feito exatamente como na proposição 6. b ∈ D. pelo exercı́cio 6. . d : D \ {0} → N e para todo a. Assim. o que é absurdo. Temos. Seja D um domı́nio que não é um corpo e tal que D não possui divisores universais. Um elemento u ∈ D \ D̃ é chamado um divisor universal se para todo x ∈ D existe z ∈ D̃ tal que u | x − z. Note que p | N (p) (proposição 6. D 6= D̃ e S é não vazio.78. Pela mini- malidade de d(u) sabemos que r ∈ D̃ e como u | x − r. ω) = −n. basta mostrar que os ideais primos p √ com norma menor que C = π2 n são principais. que OK = Z + Zω onde ω = 2 .70) e como OK /p é um corpo finito.27. assim p deve dividir (p) para algum número primo p < C. Por exemplo. Demonstração: Suponhamos por contradição que D é euclidiano com função euclidiana d (isto é. de modo que o discriminante é dado por ∆(1. então N (p) é potência de algum número primo. 6. pela demonstração do teorema de finitude do grupo de classe. Lema 6. Assim.

isto é. 1}. 6: INTEIROS ALGÉBRICOS √ Teorema 6. logo u = ±2 ou u = ±3. nenhum destes números divide quaisquer dos números √ √ √ 3 + −n 1 + −n −1 + −n ω+1= . temos √ que o anel de inteiros √ 1+ −n de K = Q( −n) é Dn = Z + Zω onde ω = 2 . Os anéis de inteiros de Q( −n) onde n ≡ −5 (mod 24) não são euclidianos.79. ω−1= 2 2 2 já que nem 2 nem 3 dividem as normas √ . Como D̃n = {−1. segue que u que divide um dos números 2 − 1. Demonstração: Como −n ≡ 1 (mod 4). Porém. Suponhamos que Dn possui um divisor universal u. 0.302 [CAP. Mas 2 e 3 são irredutı́veis em Dn (verifique!). 2 + 0 ou 2 + 1. u divide 2 ou 3. ω= .

.

3 + −n .

2 9 + n .

.

.

= ≡1 (mod 6) .

2 .

4 e √ .

.

±1 + −n .

2 1 + n .

.

.

= ≡ −1 (mod 6). .

2 .

Vamos agora definir uma versão “multi- plicativa” do mapa ψ anterior. 4 logo tal divisor universal não pode existir. porém o seu kernel é finito: . Queremos utilizar os métodos geométricos acima para estudar o grupo de unidades de OK . Seja × µ : OK → Rr+s a 7→ (log |σ1 (a)|. . . . log |σr (a)|. . . b ∈ OK . a imagem de µ está contida no hiperplano x1 + x2 + · · · + xr+s = 0 pois NK/Q (a) = ±1 (a é unidade) e assim log |σ1 (a)| + · · · + log |σr (a)| + 2 log |σr+1 (a)| + · · · + 2 log |σr+s (a)| = log |σ1 (a) · · · σr (a)σr+1 (a)σ r+1 (a) · · · σr+s (a)σ r+s (a)| = log |NK/Q (a)| = log 1 = 0 O mapa µ não é injetivo como ψ. . 2 log |σr+1 (a)|. assim pelo lema Dn não é euclidiano. . Além disso. . 2 log |σr+s (a)|) Temos que µ é um morfismo de grupos: µ(ab) = µ(a) + µ(b) para todo × a.

Como ψ(OK ) é um reticulado. isto é. pelo princı́pio da casa dos pombos. |σ(a)| = 1 para toda imersão σ : K . demonstração da proposição 6. . 6. Note que só há um número finito de raı́zes da unidade em uma ex- tensão finita K de Q pois como ψ(OK ) é um reticulado. xr+s ) ∈ Rr+s | x1 + · · · + xr+s = 0}. cobrem todo o H.80 (Kronecker). .[SEC. temos que os coeficientes ci são todos inteiros (c. Então a é uma raiz da unidade.→ C. existem m1 > m2 tais que am1 = am2 ⇐⇒ am1 −m2 = 1. isto é. . a é uma raiz da unidade. e é deixada como exercı́cio para o leitor. que são todos inteiros algébricos de módulo 1. Demonstração: Para m ≥ 1. é suficiente mostrar que a imagem de µ é discreta e que existe um conjunto limitado B ⊂ H × tal que os transladados µ(u) + B. . am satisfaz o polinômio Y (x − σ(a)m ) = xn + c1 xn−1 + · · · + cn σ onde σ percorre todas as imersões de K em C. × O fato de que µ(OK ) é discreto é simples: se kµ(u)k < R. temos que há apenas um número finito de tais u’s.f. × Como já sabemos que µ(OK ) é um subgrupo de H. existe uma raiz da unidade ζt em K tal que todas as demais se escrevem como potências ζti desta. a demonstração deste fato é idêntica à demonstração da existência de raı́zes primitivas para um primo p.38) e satisfazem a desigualdade |ci | ≤ ni . Note que como os coefi- cientes ci deste polinômio são funções simétricas elementares em σ(am ). há apenas um número finito de elementos a ∈ OK com |σi (a)| = 1 para todo i. logo a intersecção da imagem × de µ com cada bola aberta é finita e portanto µ(OK ) é um conjunto discreto. × Vamos agora mostrar que µ(OK ) é um reticulado no hiperplano def H = {(x1 . Seja a ∈ OK tal que µ(a) = 0. Portanto só há um número finito de tais po- linômios! Assim. então |σi (u)| é limitado para todo i. .6: GRUPO DE CLASSE E UNIDADES 303 × Proposição 6. Note ainda que o grupo de todas as raı́zes da unidade contidas em K é cı́clico. isto é. u ∈ OK .

digamos (α1 ). temos que (α) = (αi ) para algum i e portanto α = uαi para alguma unidade u. (αh ). . xr (x2r+1 +x2r+2 ) . ar+2s−1 xr+2s−1 − ar+2s xr+2s . . 6: INTEIROS ALGÉBRICOS Para mostrar a existência de B. isto é. .81. . xn )∈Rn | x1 . o determinante × desta transformação linear é exatamente N (a). . Assim. . . αh em OK tais que × se NK/Q (α) ≤ C então α é associado a algum αi . . Vamos reescrever nosso problema em notação “multiplicativa”. existem elementos α1 . . existe u ∈ OK para o qual α = uαi . Já sabemos como produzir elementos de norma pequena pelo lema 6. . . Para mostrar a existência do conjunto B é suficiente mostrar a existência de um conjunto limitado B 0 ⊂ H 0 tal que [ H0 = ψ(u)B 0 . Dado C > 0. de modo que se a ∈ OK . esta transformação preserva volumes. . . . an ) ∈ Rn . . . utilizaremos a seguinte notação: para a = (a1 . . aplicado ao ideal a = (1). . . × u∈OK Precisamos de um Lema 6. em particular há um número finito de ideais principais com norma igual a C. . dado α com N (α) ≤ C.304 [CAP. . . . .72. . . Note que ψ(u) ∈ H 0 e × ψ(u)H 0 ⊂ H 0 para todo u ∈ OK . ar+2s xr+2s−1 + ar+2s−1 xr+2s ) de modo que ψ(ab) = ψ(a)ψ(b) = ψ(b)ψ(a) (vistos como transformações lineares) para todo a. (x2r+2s−1 +x2r+2s )= ± 1} a “hiperfı́cie dos elementos de norma ±1”. denotaremos pelo mesmo sı́mbolo a trans- formação linear dada por a : Rn → Rn (x1 . ar xr . Seja H 0 ={(x1 . b ∈ K. . . Demonstração: Há um número finito de ideais com norma menor ou igual a C. . Na notação da prova daquele lema. Note que quando a = ψ(a). . . . ar+1 xr+1 − ar+2 xr+2 . . xn ) 7→ (a1 x1 . ar+2 xr+1 + + ar+1 xr+2 .

. ψ(uαi ) ∈ x−1 V ⇐⇒ x ∈ ψ(u−1 )ψ(αi−1 )V ⊂ ψ(u−1 )B 0 . . logo exis- tem unidades u1 . que possui mesmo volume que V e ainda é convexo e simétrico. . Agora podemos dar a caracterização completa do grupo de unidades do anel de inteiros de uma extensão finita de Q: Teorema 6. Sejam αi como no lema anterior. existem unidades u1 . . . ur+s−1 tais que × µ(OK ) = Z · µ(u1 ) + · · · + Z · µ(ur+s−1 ). unicamente determinados. × Demonstração: Temos que µ(OK ) é um reticulado de H. Seja K uma extensão finita de Q. . existem inteiros ei ∈ Z. existe α ∈ OK . × Assim. Considere o conjunto x V . ur+s−1 )=1 −e e agora existe um único a ∈ Z/t tal que uu−e 1 1 r+s−1 . Assim. Definimos [ B0 = H 0 ∩ ψ(αi−1 )V. . E de fato. 1≤i≤h × Vamos agora mostrar que os conjuntos ψ(u)B 0 . e o resultado segue. temos que o grupo √ de unidades √ de Z[ 2] tem posto r − 1 = 1. ur+s−1 = ζta . cobrem H 0 . . . como há duas √ imersões reais de Q( 2) em C. dada uma unidade u ∈ OK . ωn )|.82 (Dirichlet). . Assim. tal que ψ(α) ∈ x−1 V . .6: GRUPO DE CLASSE E UNIDADES 305 considere o conjunto V ⊂Rn lá definido e seja C=( π2 )s p |∆(ω1 . . . α 6= 0. tais que −e µ(u) = e1 µ(u1 ) + · · · + er+s−1 µ(ur+s−1 ) ⇐⇒ µ(uu−e 1 1 r+s−1 . . ur+s−1 a ∈ Z/t e ei ∈ Z. r o nú- mero de imersões reais de K e s igual à metade do número de imersões × complexas de K.[SEC. existe uma t-ésima raiz da unidade ζt que gera o kernel de µ. . ur+s−1 e uma raiz da unidade ζt ∈ K tal que toda unidade de OK se escreve de maneira única como er+s−1 ζta ue11 . . . Então o grupo de unidades OK é finitamente gerado de posto r + s − 1. isto é. Além disso. √ Por exemplo. u ∈ OK . . . temos que Z[ 2]× = {±(1 + 2)n | n ∈ Z}√pois as unidades correspondem às soluções da equação de Pell N (x + y 2) = x2 − 2y 2 = ±1. 6. Isto implica que N (α) ≤ C e portanto existem × u ∈ OK e αi tais que α = uαi . 0 −1 Tome x ∈ H .

onde (√ d se d ≡ 2. Seja ζ5 uma raiz quinta primitiva da unidade. · an a1 ∩ · · · ∩ an a1 an dado pelo mapa natural a mod a1 ∩ · · · ∩ an 7→ (a mod a1 . . . √ 6.31 (Teorema Chinês dos Restos).306 [CAP.27. (11). . ai + aj = (1) para i 6= j (esta condição é por exemplo satisfeita se os ai são todos maximais distintos). .30. 6. 6. Dica: Utilize a base (1 − ζ5 )i e analise módulo (1 − ζ5 ). . √ Seja d um inteiro livre de quadrados. . Seja A um anel comutativo qualquer e sejam a1 . Mostre que (a) a1 ∩ · · · ∩ an = a1 · . 6: INTEIROS ALGÉBRICOS Problemas Propostos 6.28. (3). . . isto é. Mostre que o anel de inteiros de Q( d) é Z + Zω. (b) Mostre que o anel de inteiros algébricos de Q(ζ5 ) é Z[ζ5 ] = Z+Zζ5 + Zζ52 + Zζ53 . (3) e (7 + ζ5 ). 1 + ζ5 + ζ52 e 1 + ζ5 + ζ52 + ζ53 são unidades em Z[ζ5 ]. . 3 (mod 4) ω = 1+√d . (c) Fatore em ideais primos de Z[ζ5 ]: (2). . . 2 se d ≡ 1 (mod 4) √ 6. . (23).29. (5). Fatore os seguintes ideais de Z[i√ 5] em produto de ideais primos: (2). an ideais dois a dois coprimos. a mod an ). (a) Mostre que 1 + ζ5 . (d) Determine o grupo de classe de Z[ζ5 ]. . (7). Mostre que (1 − ζ5 ) é um ideal maximal em Z[ζ5 ] e que (5) = (1 − ζ5 )4 . · an (b) Temos um isomorfismo A A A A = → × ··· × a1 · . Determine o anel de inteiros de Q( 3 2). (7 + 3i 5).

. 2 1 = |NQ( √ 3 2)/Q (u)| = |u| · |σ1 (u)| para mostrar que se 21 < u < 1 então kuk2 < 5. temos √ √ √ √  a + b 3 2 + c 3 4 2 = 3 · a2 + (b 3 2)2 + (c 3 4)2 √ (d) Utilize o fato que. 6.6: GRUPO DE CLASSE E UNIDADES 307 6. c ∈ Q.34. Determine √ o grupo de unidades e o grupo de classe do anel de inteiros de Q( 14). para a. Determine todas as soluções inteiras (x. b. 1. √ √ (e) Conclua que Z[ 3 2]× = {±( 3 2 − 1)n | n ∈ Z}. Mostre que qualquer ideal a no anel de inteiros OK de uma ex- tensão finita K de Q pode ser gerado por 2 elementos. √ √ (a) Verifique que 3 2 − 1 ∈ Z[ 3 2]× .→ C as três imersões de Q( 2) em C dadas por σj ( 3 2) = ω j 3 2 para j = 0.35. y. n) da equação 5x2 +1 = y 2n+1 com n ≥ 1. mostraremos que √ √ Z[ 2]× = {±( 2 − 1)n | n ∈ Z} 3 3 Para isto. 1).33. 6. Encontre todas as soluções da equação diofantina x2 − 14y 2 = 22. seja √ ω = e2πi/3 (uma raiz cúbica primitiva √ da unidade) e 3 3 sejam √ σ j : Q( √ 2) . √ (c) Defina o “tamanho” kαk ∈ R≥0 de um elemento α ∈ Q( 3 2) por def kαk2 = |σ0 (α)|2 + |σ1 (α)|2 + |σ2 (α)|2 = |α|2 + 2|σ1 (α)|2 Verifique que. Conclua que u = ±1. Neste exercı́cio. √ (b) Seja u ∈ Z[ 3 2]× . 2. 6.[SEC. 6.32. Mostre que existe k ∈ Z de modo que uma das seguintes unidades √ √ 3 u · (√ 2 − 1)k u−1 · ( √ 3 2 − 1)k −u · ( 2 − 1)k 3 −u−1 · ( 2 − 1)k 3 pertença ao intervalo aberto ( 21 . para todo u ∈ Z[ 3 2]× .

o al- gébrico e até mesmo o computacional. 7. . Este capı́tulo aborda primos sob diversos aspectos: o analı́tico. Veremos algumas conjecturas e problemas em aberto sobre primos que ainda hoje desafiam os matemá- ticos profissionais. Já sabemos pelo teorema de Chebyshev 5. De fato. . problemas concernentes a números primos têm fascinado os matemáticos.15 .1 Sobre a Distribuição dos Números Primos Nesta seção estudaremos alguns resultados sobre a distribuição dos números primos. . .Capı́tulo 7 Primos Desde tempos remotos. a dignidade da própria ciência parece requerer que todos os meios possı́veis sejam explorados para a solução de um problema tão elegante e tão celebrado” (traduzido de Knuth [83]). Defina π(x) como sendo o número de primos p com 2 ≤ p ≤ x.1 O Teorema dos Números Primos Já vimos que existem infinitos primos. 7. o teorema dos números primos dá uma estimativa de quantos primos existem até um inteiro x.1. ou seja. descreve a distribuição dos primos. Karl Friedrich Gauß (1777– 1855) chegou a afirmar em seu Disquisitiones Arithmeticae (1801): “O problema de distinguir números primos de compostos e de decompor esses últimos em seus fatores primos é conhecido como sendo um dos mais importantes e úteis na aritmética. .

inclusive por Legendre e Gauß. ε→0 ε log t 1+ε log t claramente Li(x) lim = 1. a dissertação de mestrado de Jorge Aarão. que reproduz. encontra-se no apêndice A deste livro. x |π(x) − Li(x)| ≤ C . temos um resultado muito mais preciso: Teorema 7. que utiliza ferramentas de Análise Complexa. π(x) lim = 1.1 (Teorema dos Números Primos). para todo x. com pequenas modificações. para qualquer k > 0 existe C > 0 tal que. por de la Vallée Poussin e Hadamard (independentemente). Uma demonstração deste teorema. Não demonstraremos este teorema aqui: as demonstrações elementares co- nhecidas são todas bastante difı́ceis (lembramos que uma demonstração é dita elementar quando não usa ferramentas avançadas: muitas de- monstrações elementares são longas e sofisticadas). Na verdade. ou seja. Em parti- cular.1: SOBRE A DISTRIBUIÇÃO DOS NÚMEROS PRIMOS 309 que π(x) está entre cx/ log x e Cx/ log x para duas constantes c < C.[SEC. x→∞ log(x)/x Sabe-se entretanto que 3/5 (log log x)−1/5 |π(x) − Li(x)| ≤ Cxe−a(log x) para algum valor das constantes a e C (independente de x). 0 log t onde tomamos o valor principal desta integral. mas a demonstração completa só foi encontrada em 1896. Uma aproximação mais precisa para π(x) é dada por Z x dt Li(x) = . 7. (log x)k . x→∞ x/ log x Este resultado foi conjecturado por vários matemáticos. Z 1−ε Z x dt dt Li(x) = lim + .

equivale a dizer que para todo ε > 0 existe C com |π(x) − Li(x)| ≤ Cx1/2+ε . p p primo gêmeo . por outro lado. o que daria uma estimativa para o tamanho deste erro muito melhor do que as que se sabe demonstrar. ninguém sabe demonstrar que esta estimativa seja correta sequer para algum valor de ε < 1/2.1. existem inteiros x1 > M e x2 > M com √ 1 x1 log log log x1 π(x1 ) − Li(x1 ) < − . Por outro lado. já mencio- nada. Conjetura-se. que têm 100355 dı́gitos cada. São conhecidos pares de primos gêmeos bastante grandes.2 Primos Gêmeos e Primos de Sophie Germain Dizemos que p e q são primos gêmeos se p e q são primos e |p−q| = 2. que existem infinitos pares de primos gêmeos. provou em [23] que primos gêmeos são escassos no seguinte sentido: se π2 (x) = #{p ≤ x | p e p + 2 são primos} é o número de pares de primos gêmeos até x então x(log log x)2   π2 (x) = O . sabe-se demonstrar que não pode existir nenhuma estimativa muito melhor do que esta para |π(x) − Li(x)|: Littlewood provou em 1914 que. 3 log x2 7. 7: PRIMOS o que mostra que Li(x) (e mesmo x/(log x − 1)) é uma aproximação de π(x) bem melhor do que x/ log x. A hipótese de Riemann também implica que existe C com |π(x) − Li(x)| ≤ Cx1/2 log x. para todo M > 0. Brun. (log x)2 Em particular. 3 log x1 √ 1 x2 log log log x2 π(x2 ) − Li(x2 ) > . Em 1901 von Koch mostrou que a hipótese de Riemann. isto implica que X 1 < +∞. como 65516468355 · 2333333 ± 1.310 [CAP. mas não se sabe demonstrar.

z. z) = 1. contrariando a hipótese mdc(x. Assim. y. então não existem inteiros x. temos q 6= p pois q | x. x2p ≡ 1 (mod 2p + 1). z) = 1 e p . que π2 (x) seja assintótico a Cx/(log x)2 para alguma constante positiva C. 7. Mas xp + y p + z p ≡ ±1 ± 1 ± 1 6≡ 0 (mod 2p + 1). e somente se. temos que xp ≡ ±1 (mod 2p + 1) e analogamente y p ≡ ±1 (mod 2p + 1) e z p ≡ ±1 (mod 2p + 1). 4((n − 1)! + 1) + n ≡ 0 (mod n(n + 2)). mas não se sabe demonstrar. Proposição 7. o que equivale a (xp − 1)(xp + 1) ≡ 0 (mod 2p + 1). pelo pequeno teorema de Fermat. z com mdc(x. os inteiros n e n + 2 são ambos primos se. Por outro lado. mas então z ≡ −y ≡ 0 (mod q) e q dividiria simultaneamente x. Seja n ≥ 2.[SEC. pela fatoração única em primos existem inteiros a. um absurdo. y. y. então y ≡ −z (mod q) e portanto 0 ≡ y p−1 − y p−2 z + · · · + z p−1 ≡ py p−1 (mod q).24). Este nome é usado porque Sophie Germain provou o chamado primeiro caso do Último teorema de Fermat (demonstrado completamente por Wiles e Taylor) para primos p desta forma. temos (−x)p = (y + z)(y p−1 − y p−2 z + · · · − yz p−2 + z p−1 ) Vamos mostrar que os dois fatores da direita são primos entre si.2 (Sophie Germain). assim q | py p−1 =⇒ q | y. Demonstração: Observe inicialmente que 2p + 1 | xyz: caso con- trário. Brun provou posteriormente em [24] que 100x π2 (x) < (log x)2 para x suficientemente grande. y. Se q é um primo que divide ambos os termos. Assim. d tais que ap = y + z e dp = y p−1 − y p−2 z + · · · − yz p−2 + z p−1 . Se p e 2p+1 são primos com p > 2.xyz tais que xp + y p + z p = 0. Os primos p para os quais 2p + 1 é primo são chamados de primos de Sophie Germain.1: SOBRE A DISTRIBUIÇÃO DOS NÚMEROS PRIMOS 311 P 1 enquanto sabemos que a soma sobre todos os primos p primo p diverge (teorema 5. Deixamos como exercı́cio provar a seguinte caracterização de primos gêmeos devida a Clement. Acredita-se.

como 183027 · 2265440 − 1. mas não se sabe demonstrar sequer que existem infinitos primos de Sophie Germain. Alguns primos de Sophie Germain bastante grandes são conhecidos. Sabe-se também que se πSG (x) denota o número de primos de Sophie Germain menores do que x então existe C tal que para todo x x πSG (x) < C .c (x) ∼ .c (x): Conjetura 7.c (x) a quantidade de pares de números primos (p.b. b. que tem 79911 dı́gitos. (log x)2 Acredita-se que πSG (x) seja assintótico a cx/(log x)2 para algum c > 0. dois a dois pri- mos entre si e com exatamente um de tais números par. temos que 2p + 1 | bp + cp − ap e o mesmo argumento no inı́cio da demonstração mostra que 2p + 1 | abc também.d e y ≡ −z (mod 2p + 1) =⇒ dp ≡ py p−1 (mod 2p + 1). q) que satisfazem a condição aq − bp = c com p ≤ x. c.b.312 [CAP. Hardy e Littlewood conjecturaram em [69] a seguinte estimativa assintótica para πa. Assim. temos f p ≡ y p−1 (mod 2p + 1) e se 2p + 1 | a. p primo p>2 . o que é impossı́vel já que mdc(x.b.   2C x Y p−1 πa. Assim. 7: PRIMOS e analogamente bp = x + z e ep = xp−1 − xp−2 z + · · · − xz p−2 + z p−1 cp = x + y e f p = xp−1 − xp−2 y + · · · − xy p−2 + y p−1 para b. dados a. de 2x = bp + cp − ap . e.3 (Hardy. Por outro lado. como 2p + 1 | x e xp + y p + z p = 0 terı́amos que 2p + 1 | mdc(x. completando a prova. Littlewood). a (log x)2 p|abc p−2 p primo>2 Q  1  onde C = 1− (p−1)2 . pois caso contrário terı́amos ±p ≡ pf p ≡ py p−1 ≡ dp ≡ ±1 (mod 2p + 1). então 2p + 1 . Mas neste caso. f inteiros. denotamos por πa. c números inteiros positivos. podemos supor sem perda de generalidade que 2p + 1 | x. y. 2p + 1 | f . Como 2p + 1 | xyz. um absurdo. 2p + 1 | z também. z) = 1. z) = 1. Em geral. um absurdo. Mas se 2p + 1 | b = x + z ou 2p + 1 | c = x + y. y.

2. e se a = 1. para todo s temos que s s   X X X X k µ(d) = µ(d) = (−1)j j d|m j=0 d|m j=0 ω(d)≤s ω(d)=j pois j k  se d é produto de j primos distintos então µ(d) = (−1) e existem j produtos de j primos distintos que dividem m. b = 1 e c = 2 temos que π1.[SEC. Se m > 1.4. como querı́amos demonstrar. Agora seja k = ω(m). Lema 7. e se s é ı́mpar (−1)j ≤ P  P  em particular.8. . assim como os primos de Sophie Germain. Antes de enunciar a proposição fundamental desta seção. Demonstração: Se m = 1. precisamos dos seguintes lemas. j j j−1 s j=0 j=1 s s k k (−1)j ≥ 0. Como µ(d) 6= 0 implica que d é produto de primos distintos. Nesta seção. Sejam m e l números naturais com l ≥ 1. b = 2 e c = 1 temos que π1. 7. o termo do meio é igual a 0 pelo lema 5.1 (x) é o número de primos de Sophie Germain menores do que ou iguais a x. se s é par j j j=0 j=0 0.1: SOBRE A DISTRIBUIÇÃO DOS NÚMEROS PRIMOS 313 Em particular. s   s       X k X k−1 k−1 k−1 (−1)j = 1 + + (−1)j = (−1)s . o que mostra que os primos gêmeos. Pelo mesmo argu- mento se prova que a soma dos inversos dos primos de Sophie Germain converge. se a = 1. d|m d|m d|m ω(d)≤2l−1 ω(d)≤2l onde ω(d) denota o número de fatores primos distintos de d. Por outro lado.2 = π2 .1. são bem mais raros que os primos. provaremos o corolário do teorema de Brun. segundo o qual a série dos inversos dos primos gêmeos converge. Então X X X µ(d) ≤ µ(d) ≤ µ(d). os três termos são iguais a 1.

utilizando a multiplicatividade de d(n). Temos que t = mmc(r. ou nenhuma caso contrário. respectivamente. Assim. Assim. b) | r.bc)) d(mdc(m. Motohashi [109] sobre o chamado método do crivo. para cada r|m.s) mdc(r. b) | r. bc)) onde d(n) e ω(n) denotam o número de divisores de n e o número de fatores primos distintos de n. a solução correspondente xs é tal que xs ≡ xr (mod p) para todo primo p | m. b) e suponha xs ≡ xr (mod m).t) . assim pelo teorema chinês dos restos o sistema acima possui uma única solução xr módulo m se mdc(b. Ela implica que π2 (x)=O x( logloglogx x )2 .bc)) d(mdc(m. Reciproca- mente. devemos contar o número de soluções xr distintas módulo m quando r percorre os divisores de m tais que mdc(m. podemos definir s = mmc(r.  . Sejam r e s dois divisores de m que são múltiplos de mdc(m. uma vez que mdc(b. m). m r ) = 1 ⇐⇒ mdc(m. de modo que mdc(m.t) mdc(r.314 [CAP. Por outro lado. b)) d(m) 2ω(m) = = ω(mdc(m. b) | s | m. dado r como antes e um divisor t de mdc(m. c) = 1.s) (a “diferença si- métrica” dos primos que dividem r e s) divide simultaneamente xs e bxs + c. Demonstração: Note que toda solução de x(bx + c) ≡ 0 (mod m) é solução do sistema de congruências x≡ 0 (mod r) bx ≡ −c (mod m r ) para algum r | m. s | m temos que t | mdc(c. temos que mdc(r. logo t | c e como r. O número de soluções de x(bx + c) ≡ 0 (mod m) contadas módulo m é def d(m) fbc (m) = = 2ω(m)−ω(mdc(m. ou seja. 7: PRIMOS Lema 7.bc)) = 2ω(m)−ω(mdc(m.5. c). bc)) 2 A seguinte proposição é baseada na exposição de Y. c)) d(mdc(m. c inteiros pri- mos entre si. temos que o número de soluções é d(m/ mdc(m. m r )=1 pois m é um produto de primos distintos. temos xs ≡ xr (mod m). Sejam m um produto de primos distintos e b.

c inteiros positivos.c (x) = O x log x px Demonstração: Seja z ≤ b e defina def Pa (z) = produto dos primos menores ou iguais a z que não dividem a e def A = {k(bk + c) | 1 ≤ k ≤ x}. como veremos no final desta seção.[SEC. Assim. observemos que pelos lemas 5.b. logo p basta limitar o tamanho da primeira parcela. b De fato. b. Para isso. A proposição seguinte. e já é suficiente para garantir que a série dos inversos dos primos gêmeos converge. Pa (z)) = 1} + z.b.b. no entanto. temos.c ( z) b a < #{y ∈ A | mdc(y. Pa (z)) = 1} + πa. para todo l ≥ 1. m|Pa (z) ω(m)≤2l . esta última parcela z ≤ ab xb não afeta nossa estimativa. Proposição 7. X X #{y ∈ A | mdc(y. a saber π2 (x) = O (logxx)2 .Pa (z)) X X ≤ µ(m) y∈A m|mdc(y. Pa (z)) = 1.1: SOBRE A DISTRIBUIÇÃO DOS NÚMEROS PRIMOS 315 Brun provou um resultado mais forte para primos gêmeos. Sejam a. primos relativos dois a dois e com exatamente um deles par. Pa (z)) = 1} = µ(m) y∈A m|mdc(y. bk + c Observemos que se y = k(bk + c) ∈ A com k e primos e k > ab z a bk + c b então > k > z e portanto mdc(y. Então   log log x 2  πa.8 e 7.4. temos que a a a πa.Pa (z)) ω(m)≤2l X = µ(m)|Am |.c (x) ≤ #{y ∈ A | mdc(y. tem uma prova mais simples.6. 7.

7: PRIMOS def onde Am = {y ∈ A | m divide y}.316 [CAP. Mas do lema 7.5 segue que .

x .

.

Am − fbc (m).

< fbc (m). .

.

Pa (z)) = 1} ≤ X µ(m)fbc (m)  X  ≤x +O fbc (m) . m|P (z) m m|P (z) a a ω(m)≤2l ω(m)≤2l Como m | Pa (z) e ω(m) ≤ 2l implica que m é produto de no máximo 2l primos distintos menores ou iguais a z. temos que dar valores a z e l de tal forma que cada um destes log log x 2  termos seja dominado por O ( log x ) . Tal escolha será feita mais para frente e dependerá também da limitação do somando principal X µ(m)fbc (m) X µ(m)fbc (m) X µ(m)fbc (m) = − . m pois de cada conjunto de m inteiros consecutivos k. de tal forma que o termo limitado por z 2l log(z 2l ) seja pequeno comparado com o outro.4). o propósito é escolher z e l adequados. logo podemos m|n . observemos que a função µ(n)fnbc (n) é multiplicativa. Assim #{y ∈ A | mdc(y. segue que m ≤ z 2l e o último somando pode ser limitado como X X X X fbc (m) ≤ d(r) = 1 m|Pa (z) 1≤r≤z 2l 1≤r≤z 2l d|r ω(m)≤2l 2l z  2l  z2l X z 2l X 1 = ≤z d d d=1 d=1 = O(z 2l log(z 2l )) Portanto. e as- P µ(m)fbc (m) sim m também é multiplicativa (teorema 5. exatamente fbc (m) deles são tais que m | k(bk + c). m|P (z) m m m|Pa (z) m a m|Pa (z) ω(m)≤2l ω(m)≥2l+1 assim. Para isto.

[SEC.24 de onde temos que X µ(m)fbc (m) Y  µ(q)fbc (q)  Y  2  = 1+ =A 1− m q primo q q primo q m|Pa (z) q|Pa (z) 3≤q≤z  ! X 2 = A exp log 1 − q primo q 3≤q≤z ! X 1 = exp O(1) − 2 q primo q q≤z = exp(O(1) − 2 log log z) = O((log z)−2 ) onde    −1  21 1 1 − 2q Q    1− q se A é ı́mpar  q primo 3≤q≤z. 22 bc . q primo   3≤q≤z.q|bc A=   −1 1 1 − 2q Q    1− q se A é par. observe que ω(m) ≥ 2l + 1 implica 2l+1 fbc (m) ≥ 2 bc . donde fbc (m) ≤ bc −2l f (m)2 .1: SOBRE A DISTRIBUIÇÃO DOS NÚMEROS PRIMOS 317 utilizar o teorema 5. 7. Assim.q|bc Para estimar o termo restante.

.

.

X µ(m)fbc (m) .

.

bc −2l X (fbc (m))2 .

.≤ 2 .

m 2 m .

.

m|Pa (z) .

segue que n é multiplicativa e m|n . m|Pa (z) ω(m)≥2l+1 (fbc (n))2 P (fbc (n))2 Como n é multiplicativa.

fazendo    log x  log x z = exp e l= = b5 log log xc . 20 log log x 4 log z temos que 2 ! √  2l 2l −2 log log x z log(z ) = O( x log x). q primo   3≤q≤z. Precisamos escolher z e l de tal forma que a ordem de grandeza dos somandos à direita sejam simultaneamente “pequenos”.q|bc Desta forma obtemos que #{y ∈ A | mdc(y. x(log z) =O x log x .318 [CAP. Pa (z)) = 1} = = O(x(log z)−2 ) + O(x2−2l log4 z) + O(z 2l log(z 2l )).q|bc B=   −1 1 1 + 4q Q    1+ q se a é par. De fato. onde    −1 3 1 1 + 4q Q   1+ se a é ı́mpar 2 q   q primo 3≤q≤z. 7: PRIMOS portanto X (fbc (m))2 Y  (fbc (q))2  Y  4  = 1+ =B 1+ m q primo q q primo q m|Pa (z) q|Pa (z) 3≤q≤z  ! X 4 = B exp log 1 + q primo q 3≤q≤z ! X 1 = exp O(1) + 4 = exp(O(1) + 4 log log z) q primo q q≤z 4 = O(log z).

usa va- riáveis complexas. 7. Também veremos vários problemas em aberto famosos. (log log x)4 log2 x √ pois 10 log 2 > 6. d) = 1.p+2 primos n=0 p. pois as funções x log x e  2 x log log x 4 2 (log log x) log x são dominadas pela função x log x .8 (Dirichlet). p.7.1. dada no apêndice A. Dados naturais a. d com mdc(a. Muitos casos particulares admitem demonstrações .3 Outros Resultados e Conjeturas sobre Primos Nesta seção veremos o enunciado de alguns resultados clássicos sobre números primos.[SEC.1: SOBRE A DISTRIBUIÇÃO DOS NÚMEROS PRIMOS 319 e O(x2−2l log4 z) = O(x exp(−10 log 2 log log x) · log4 z)  4 ! log x = O x log−6 x · log log x   x =O . Isto completa a prova.p+2 primos Demonstração: ∞ ∞ X 1 X X 1 X π2 (2n+1 ) = ≤ p p 2n p. A demonstração usual deste teorema. Teorema 7.p+2 primos n=0 2n ≤p<2n+1 ∞ 2n+1 ( log(n+1) ! 2 n+1 ) X =O 2n n=0 ∞  ! X log(n + 1) 2 =O < ∞. exis- tem infinitos primos da forma a + dn (com n natural). n+1 n=0 7. P 1 Corolário 7. p < ∞.

Para todo inteiro positivo d. isto é. .a. Portanto d = ordq a e assim d | q − 1. A seguir mostramos um caso particular do teorema de Dirichlet. 7: PRIMOS elementares mais ou menos simples.3 (x) − π4. . Por outro lado. φm (x) ∈ Z[x]. Teorema 7.320 [CAP. Um teorema de . Demonstração: Suponhamos que em S existe apenas um número finito de primos p1 . por exemplo. logo q 6∈ S. Seja q um divisor primo de φd (a).9. o que é uma contradição. De fato. `|m Verifica-se facilmente que φm (x) é o polinômio mônico de grau φ(m) cujas raı́zes são exp(2kπi/m). Além disso.1 (x) são positivos. assim todas as raı́zes de xd − 1 são simples porque sua derivada dxd−1 só é nula em x ≡ 0 (mod q). Mostremos que d = ordq a.a (x) como sendo o número de primos da forma a + dn no intervalo [2.1 (x) e π4. q = nd + 1 ∈ S. Mas q | ad − 1 e d | a implica q . m) = 1. De la Vallée Poussin provou que πd. que existem infinitos primos da forma 4n + 3 ou 6n + 5. De- finimos πd. O leitor não deve ter dificuldade em demonstrar. x→+∞ π(x) ϕ(d) isto é. . temos que ad ≡ 1 (mod q). utilizando variáveis complexas. como o polinômio (xe − 1)φd (x) divide xd − 1 então a mod q será raiz dupla de xd − 1 ∈ Z/(q)[x]. existem infinitos primos na progressão aritmética S = {dn + 1}n∈N . se e = ordq a é um divisor próprio de d. mdc(k. Dado que q | φd (a) | ad − 1. encontra-se no apêndice. no qual usaremos ferramentas elementares para sua prova. pl e definamos a = 2dp1 · · · pl . Uma prova deste resultado. 0 ≤ k < m. Tchebychev observou que para valores pequenos de x. que não é raiz de xd − 1. Existem vários refinamentos conhecidos do teorema de Dirichlet. mas q 6= pj pois q | ad − 1 =⇒ q . . Usaremos o polinômio ciclotômico φm (x) definido indutivamente pela fórmula Y φ` (x) = xm − 1.d. todas as possı́veis classes módulo d têm aproximadamente a mesma proporção de primos. π3.a (x) 1 lim = . x].2 (x) − π3.

Por exemplo. 4. n inteiro e p(d) = max{p(d. a conjectura de que existem infinitos . mdc(a. que também conjecturou que p(d) ≤ Cd(log d)2 .12).6. Friedlander e Iwaniec provaram um resultado muito mais difı́cil: que existem infinitos primos da forma a2 + b4 . aliás. Linnik (1944) provou que existe L > 1 com p(d) < dL para todo d suficientemente grande.f.19 e 6.1 (x) = −1 é 608981813029. Mais recentemente. 7.16) pn lim = 1. Em 1957. 5. Recentemente. Leech demonstrou que o menor valor de x para o qual π4. não se sabe demonstrar que existam infinitos primos da forma n2 + 1. n ∈ Z. a) | 0 < a < d. a. demonstra que estas funções mudam de sinal infinitas vezes. Seja pn o n-ésimo número primo. prova-se facilmente que todo primo da forma 4n + 1 pode ser escrito também na forma a2 + b2 . Vinogradov demonstrou que todo ı́mpar suficientemente 15 grande (por exemplo. existem muitos polinômios em mais de uma variável que assumem infinitos valores primos: por exemplo.[SEC. não existe nenhum polinômio P em uma variável e de grau maior que 1 para o qual se saiba demonstrar que existem infinitos primos da forma P (n). entretanto. Um dos problemas em aberto mais famosos da Matemática é a con- jectura de Goldbach: todo número par maior ou igual a 4 é a soma de dois primos.1: SOBRE A DISTRIBUIÇÃO DOS NÚMEROS PRIMOS 321 Littlewood.3 (x) − π4. Por outro lado. O teorema dos números primos equivale a dizer que (c. d) = 1}.1 (x) = −1 é 26861 e em 1978 Bays e Hudson demonstraram que o menor valor de x para o qual π3. n→∞ n log n Por outro lado. Chen demonstrou que todo número par suficientemente grande é a soma de um primo com um número com no máximo dois fatores primos. A melhor estimativa conhecida para L é L ≤ 5. sabe-se muito pouco sobre o comportamento da função dn = pn+1 − pn . b ∈ Z (ver teoremas 4. Seja p(d. H. devida a Heath-Brown (1992). Mas. corolário 5. a) o menor primo da forma a + dn.2 (x)−π3. Helfgott anunciou ([68]) uma demonstração de que todo ı́mpar maior do que 5 é soma de três primos. maior do que 33 ) é uma soma de três primos.

Ben Green e Terence Tao provaram em [62] que existem progres- sões aritméticas arbitrariamente grandes formadas exclusivamente por . Seja dn L = lim inf . Goldston. De fato eles provaram bem mais (ver [58]): por exemplo. Este resultado foi melhorado por Pomerance e posteriormente por Pintz. Y. quando dn = 1132. Nyman. o que foi descoberto recentemente por T. 78107 log pn · log log pn · log log log log pn onde γ é a já mencionada constante de Euler-Mascheroni. mostrou que dn (log log log pn )2 lim sup ≥ eγ ≈ 1. completando um trabalho de Erdős. Nicely e D. sempre existe um primo no intervalo (x. Conjetura-se que dn lim sup =C (log pn )2 para alguma constante positiva C. para x suficientemente grande. provando que lim inf dn < 70000000 (ver [155]). log pn Erdős provou que L < 1 e Maier que L ≤ 0. Por outro lado. J. sempre existe pelo menos um primo entre m e 2m. sabe-se que existe um primo entre n3 e 2 15 (n+1)3 para todo n > ee (ver [33]). x + xw ) onde w = 0. A. Y. dn < pn .322 [CAP. 248. 7: PRIMOS primos gêmeos equivale a dizer que lim inf dn = 2. que provou que o lado esquerdo é maior do que ou igual a 2eγ (ver [115]). Zhang realizou um avanço muito importante. em 2013. log pn (log log pn )2 E. ou seja. Em 1931. D. pelo postulado de Bertrand. Observamos que a primeira vez que dn > 1000 ocorre para pn = 1693182318746371. Yıldırım provaram que L = 0 (ver [57]). Erdős também provou que o conjunto dos pontos de acumulação de dn / log pn tem medida positiva. Apenas em 2005. Outra conjectura famosa é que sempre há pelo menos um primo entre n e (n + 1)2 .525 (ver [11]). Por outro lado. log pn e em 1963 Rankin. Mais ainda. temos dn lim inf √ < ∞. Westzynthius provou que dn lim sup = ∞. Pintz e C.

. 25. que consiste em procurar primos grandes. O projeto Seventeen or Bust tem obtido resultados particularmente bons nos últimos anos.com/ e http://www. Também existem infinitos naturais ı́mpares k que são simultanea- mente números de Sierpinski e de Riesel.org/A076335 e as páginas e referências lá mencionadas para mais informações.net/ Projetos ativos que pretendem provar que 78557 e 509203 são os menores números de Sierpinski e Riesel podem ser encontrados respectivamente em http://www.1: SOBRE A DISTRIBUIÇÃO DOS NÚMEROS PRIMOS 323 números primos (veja [7] para um texto expositório sobre este teorema e outros resultados relacionados).primegrid. Observação 7. Um sumário de vários projetos cooperativos para en- contrar primos grandes pode ser visto em http://www. para n = 0. . 1. para demonstrar estas conjecturas (veja observação a seguir). .prothsearch.seventeenorbust. . Conjetura-se que os menores valores de k com as propriedades acima são respectivamente 78557 e 509203. que é um projeto cooperativo para procu- rar primos grandes de diversos tipos . O fato de que 78557 é um número de Sierpinski foi . O leitor interessado em aprender mais sobre problemas em aberto em teoria dos números pode consultar [63]. que tem 26 termos. onde n# denota o produto dos primos menores do que ou iguais a n.10. 7. Esta progressão aritmética foi descoberta em 12 de abril de 2010 por Benoãt Perichon usando um programa desen- volvido por Jaroslaw Wroblewski em Geoff Reynolds.com/ para mais informações.com/. em um projeto distribuı́do do PrimeGrid. A maior progressão aritmética conhe- cida formada exclusivamente por números primos.rieselsieve.veja http://www. Sierpinski provou que existem infinitos números naturais k tais que k · 2n + 1 é composto para todo natural n e Riesel provou o mesmo resultado para k · 2n − 1. Veja http://oeis. os chamados números de Brier . Há um projeto cooperativo. é 43142746595714191 + 5283234035979900 · n = 43142746595714191 + 23681770 · 23# · n. O menor número de Brier conhecido é 143665583045350793098657.[SEC.

7. 27653. Existem fórmulas que geram números primos. 28433. 33661. 7: PRIMOS provado em 1962 por John Selfridge (veja o exercı́cio 7. 54767. Gordon 8/06/2005 4847 · 23321063 + 1 R. Hassler 15/10/2005 19249 · 213018586 + 1 K. Uma palavra imprecisa mas importante nesta frase é “simples”. 24737. 55459 e 67607. 22699. Desde então. 24737. 19249. 55459.seventeenorbust. Sundquist 6/12/2003 28433 · 27830457 + 1 equipe TeamPrimeRib 30/11/2004 27653 · 29167433 + 1 D.2 Fórmulas para Primos Não se conhece nenhuma fórmula simples para gerar primos arbitra- riamente grandes. 21181. 65567. mas que são tão complicadas que não ajudam muito nem a gerar números primos explicitamente nem a responder perguntas teóricas sobre a distribuição dos primos. Sunde 17/10/2007 Sobraram portanto os 6 números 10223.com/ para mais informa- ções (em particular sobre como participar do projeto). Um exemplo de fórmula para pn . 46157.4). log 2 2 2d − 1 d|Pn−1 . 10223. Agafonov 5/05/2007 33661 · 27031232 + 1 S. 5359. em 2002. 67607 e 69109. Veja http://www. Gibson 27/11/2002 65567 · 21013803 + 1 J. Burt 3/12/2002 44131 · 2995972 + 1 equipe deviced 6/12/2002 69109 · 21157446 + 1 S. 22699. Quando o projeto começou. DiMichele 7/12/2002 54767 · 21337287 + 1 P. 21181. 44131. Coels 22/12/2002 5359 · 25054502 + 1 R. havia 17 números menores que 78557 sobre os quais não se sabia se eram números de Sierpinski ou não: 4847. é       1 1 X µ(d)  pn = 1 − log − + .324 [CAP. os participantes do projeto encontraram os seguintes primos Primo Descubridor Data 46157 · 2698207 + 1 S. o n-ésimo primo.

. tais que para todo x > x0 o intervalo aberto (x. o que parece muito improvável. 2}. 2.2: FÓRMULAS PARA PRIMOS 325 onde Pn−1 = p1 p2 · · · pn−1 . Teorema 7. . bn+1 o menor elemento de S que satisfaz bcn < bn+1 < bcn + bwc n . Mills provou que existem números reais A > 1 tal n que bA3 c é primo para todo n ∈ N. 102n n=1 A inutilidade desta última fórmula vem do fato que para calcular c deve- mos encontrar todos os primos. deixamos a demonstração a cargo do leitor. b1 o menor elemento de S tal que bc1 ≥ x0 . Mais geral ainda. . 1 Como c ≥ 1−w e c ≥ 2. . a fórmula se tornaria mais interessante se existisse outra interpretação para o número real c.0203000500000007 . n n Segue que bn < Ac < 1 + bn e portanto bn = bAc c. Então para todo número real c > min{1/(1 − w). x + xw ) contém um elemento de S. −n o que mostra que a sequência {bcn } converge para um número real A. tomando a c−(n+1) -ésima potência na desigualdade anterior temos que −n −(n+1) −(n+1) −n bcn < bcn+1 < (1 + bn+1 )c ≤ (1 + bn )c . segue que bcn < bn+1 < 1 + bn+1 < 1 + bcn + bwc c c−1 n < 1 + bn + bn ≤ (1 + bn )c . onde ∞ X pn c= = 0. 7. Outra fórmula é n n−1 n−1 pn = b102 cc − 102 b102 cc. Por outro lado. existe um número A tal n que bAc c é uma subsequência de S.11. Se S = {an } ⊂ N é uma sequência com a propriedade que: existem números reais x0 e w com 0 < w < 1.[SEC. Demonstração: Definamos uma subsequência {bn } de S recursiva- mente por 1.

Demonstração: Pelo teorema anterior tomando S a sequência de primos.12 (Mills). E = e3 (e + 2)(a + 1)2 + 1 − o2 . o valor do polinômio neste ponto quase certamente será negativo. A tı́tulo de curiosidade. . N são expressões auxiliares: P = (k + 2)(1 − A2 − B 2 − C 2 − · · · − N 2 ). . . I = (a2 − 1)l2 + 1 − m2 . A = wz + h + j − q. H = ((a + u2 (u2 − a))2 − 1)(n + 4dy)2 + 1 − (x + cu)2 .326 [CAP. aqui S = 26. neste caso seu valor será k + 2. M = q + y(a − p − 1) + s(2ap + 2a − p2 − 2p − 2) − x. são polinômios de coeficientes inteiros em S variáveis com a seguinte propriedade quase mágica: a intersecção da imagem de NS com N é exatamente o conjunto dos números primos. assim. B = (gk + 2g + k + 1)(h + j) + h − z. . J = ai + k + 1 − l − i. . G = 16r2 y 4 (a2 − 1) + 1 − u2 . 7: PRIMOS n Corolário 7.525. Algumas observações simples: a única forma de P ser positivo é se A = B = · · · = N = 0. Note que se tomarmos um ponto de NS “ao acaso”. C = 16(k + 1)3 (k + 2)(n + 1)2 + 1 − f 2 . L = p + l(a − n − 1) + b(2an + 2a − n2 − 2n − 2) − m. x + xw ) sempre existe um primo com x suficientemente grande e w = 0. . Um tipo de fórmula para primos. Existe uma constante A tal que bA3 c é primo para todo n ∈ N. K = n + l + v − y. . é difı́cil usar o polinômio para gerar primos. as variáveis chamam-se a. o valor do polinômio é P . z e A. B. de certa forma mais intrigante. Vemos assim que para . vejamos um exemplo de polinômio com estas propriedades. b. . N = z + pl(a − p) + t(2ap − p2 − 1) − pm. F = (a2 − 1)y 2 + 1 − x2 . D = 2n + p + q + z − e. é conhecido (ver [11]) que entre (x.

n→∞ n log n onde pn denota o n-ésimo número primo. precisamos procurar valores para as outras letras que satisfaçam estas equações.2. P (x) 7. dado k para o qual k + 2 é primo. . Prove que p ≡ ±1 (mod 10). Mostre que o teorema do número primo é de fato equivalente a pn lim = 1.1.3. e que existem infinitos números de Sierpinski a partir das congruências 78557 · 20 + 1 ≡ 0 (mod 3) 78557 · 21 + 1 ≡ 0 (mod 5) 78557 · 27 + 1 ≡ 0 (mod 7) 78557 · 211 + 1 ≡ 0 (mod 13) 78557 · 23 + 1 ≡ 78557 · 239 + 1 ≡ 0 (mod 73) 78557 · 215 + 1 ≡ 0 (mod 19) 78557 · 227 + 1 ≡ 0 (mod 37). Estes valores de certa forma codificam uma demonstração de que P = k + 2 é primo. 7. a) Sejam x inteiro e p um divisor primo de 20x2 −1. Problemas Propostos 7. Assim. As expressões auxiliares viram equações: como A = 0 temos q = wz + h + j. 7. Mostrar que existe um intervalo de 1000 números inteiros positivos consecutivos contendo exatamente cinco números primos. Prove que 78557 é um número de Sierpinski.4. Mostrar que não existem polinômios P e Q tais que π(x) = Q(x) para todo x ∈ N.2: FÓRMULAS PARA PRIMOS 327 produzir um número primo P com este polinômio devemos antes de mais nada tomar k = P − 2. 7.5. 7.[SEC. b) Mostrar que existem infinitos primos que terminam no dı́gito 9.

16. 7. 4n  3 . Prove que. Mostrar que para cada primo p no intervalo n. todo número natural pode ser escrito como uma soma de primos distintos. todos menores que 20000 e em progressão aritmética. então pp − 1 tem um fator primo que é congruente a 1 módulo p.12. Seja Φ(x. sua razão deve ser um múltiplo de n#. Obs.9.8. y) = #{n ≤ x | todo divisor primo de n é maior que y}. j j=0 .: Lembramos que m# denota o produto dos primos menores do que ou iguais a m. 4. 7. se y ≤ exp(log x/10 log log x) então   x Φ(x. Mostrar que existem dois quadrados consecutivos tais que existem ao menos 1000 primos entre eles. e 6. y) = O . Mostrar que não existem 11 primos. Mostrar que. Mostrar que para cada n > 1 o intervalo [tn . Prove que numa progressão aritmética formada por n primos. a menos que n seja primo e o menor termo da progressão seja n. 7.328 [CAP.10. Mostrar que para todo n ≥ 9 entre n e 2n − 7 sempre existe um número primo.11. tn+1 ] contém quadrados perfeitos. 7: PRIMOS 7. Seja pn o n-ésimo número primo. 7. e.14. Mostrar que para todo n ≥ 6 √ π ( p1 p2 · · · pn ) > 2n.15. Seja tn a soma dos primeiros n primos. 7. 7. 7. 7.13. log y Sugestão: Adapte a prova da proposição 7. 7.6. Mostrar que o número de primos entre n e 2n é menor do que 2n log n .7.6. p divide n  4 X n . a razão deve ser um múltiplo de (n − 1)#. 2 7. Mostrar que se p é um número primo. salvo os números 1.

e uma medida da eficiência do algoritmo.3 Testes de Primalidade Uma questão relacionada com a de gerar números primos é a de testar se um determinado número é primo. 1 Bem. n é primo. Portanto. espaço ou memória utilizada) em função do tamanho da entrada do problema para a obtenção da solução. o algoritmo tem complexidade de tempo exponencial no tamanho da entrada. A relevância desse problema tem crescido imensamente em anos recentes devido à utilização intensa de números primos em algoritmos de criptografia. O tamanho da entrada do algoritmo para um dado número n é o tamanho da sua codificação em bits. 240 A. Existe um algoritmo bastante simples para testar se qualquer inteiro positivo n é primo. a partir da década de 60. temos que o número de operações √ é O( n) = O(2k/2 ).): calcule o resto da divisão de n por cada inteiro m com 2 ≤ m ≤ √ n. esta frase parecia verdadeira há uns dez anos atrás mas hoje suspeita-se que alguns aspectos da Fı́sica quântica possam ser explorados para colocar um compu- tador especial em um estado de superposição em que ele faz várias contas diferentes em paralelo. Dessa forma o problema do teste de primalidade se tornou um importante problema para a ciência da computação teórica.[SEC. isto é. de fatorar . Assim. Se o resto for 0 em algum caso então n é composto e encontramos um divisor. surgiram inúmeras tentativas de se obter um algoritmo eficiente para o teste de primalidade de um nú- mero. o que não só está fora do alcance da tecnologia atual mas fora do alcance de qualquer tecnologia plausı́vel de acordo com o que se conhece de Fı́sica1 . 7.3: TESTES DE PRIMALIDADE 329 7. como os algoritmos RSA e El Gamal para criptografia pública. ou seja. que é aproximadamente k = log2 n pois 2k ≤ n < 2k+1 .C. mesmo para um inteiro de 200 dı́gitos. Com o advento dos com- putadores. devido ao matemático grego Eratóstenes (ca. O inconveniente deste algoritmo é que ele é muito lento. Desta forma seria possı́vel não apenas testar primalidade rapidamente mas até fatorar rapidamente inteiros muito grandes. se isto nunca ocorrer. Sobre esse ponto de vista duas coisas são requeridas: um certificado de prova de que o algoritmo realmente produz a resposta correta. Alguns computadores quânticos (é assim que são chamadas estas máquinas) extremamente rudimentares (com uns poucos q-bits de memória) já foram construı́dos mas não se sabe com certeza se é re- almente possı́vel construir computadores quânticos capazes. terı́amos que fazer aproximadamente 10100 divisões. em termos do tamanho da entrada k. por exemplo. quão bem o algoritmo faz uso dos recursos computacionais (como o tempo ou número de passos executados.

Por outro lado. como o de verificar se um grafo pode ser pintado com três cores de modo que não haja vértices adjacentes de mesma cor. qualquer outro resultado indica que n é composto mesmo sem termos encontrado um fator de n. tomar o resto da divisão por n. não demonstramos que n é primo. se isto for possı́vel. Se n for primo teremos an−1 ≡ 1 (mod n). Pomerance (melhorando um resultado anterior de Erdős) provou que se P πa (x) é o número de pseudoprimos até x na base a temos − log x2 log log log log x P πa (x) ≤ x · e log x para x suficientemente grande. podemos testar a primalidade de n calculando (n − 1)! mod n. não se sabe exatamente quais tarefas seriam rápidas para um computador quântico. n − 1 vezes. 5 · 1010 (contra 1 091 987 405 primos). Uma ideia mais bem sucedida é a de usar o pequeno teorema de Fermat: tomamos a. e calculamos an−1 mod n. Se an−1 ≡ 1 (mod n). Pelo teorema de Wilson. assim a simples verificação an−1 ≡ 1 (mod n) não demonstra a primalidade de n. por outro lado. suspeita-se que alguns problemas. se n for composto satisfazendo an−1 ≡ 1 (mod n) dizemos que n é um pseudoprimo na base a. pN = an−1 mod n. possivelmente multiplicar por a e novamente de tomar o resto da divisão por n. e podemos calcular pk+1 a partir de pk com uma operação de elevar ao quadrado. por exemplo. N = blog2 (n − 1)c. . esta conta parece ser tão difı́cil de efetuar quanto a busca de divisores pelo algoritmo anterior. Observe que para calcular an−1 mod n não precisamos calcular a · a · · · a. 1 < a < n.330 [CAP. seriam difı́ceis mesmo para este novo tipo de equipamento. A proposição abaixo exibe uma famı́lia infinita de pseudoprimos na base a (para qualquer a > 1 dado). 7: PRIMOS Alguns teoremas de Teoria dos Números podem ser usados para tes- tar a primalidade de um inteiro positivo n. Podemos fazer esta conta com menos de P 4 log2 n operações envolvendo 2 i inteiros menores do que n : se n − 1 = 0≤i<N bi 2 . Observe que dizemos apenas que a conta parece difı́cil: não está excluı́da a possibilidade de alguém inventar um algoritmo rápido para calcular (n − 1)! mod n. então definimos i P pk = a 0≤i<k bN −k+i 2 mod n e temos p0 = 1. o impacto cientı́fico e tecnológico será imenso. Pseudoprimos existem mas são raros (ver [34]): o menor pseudoprimo na base 2 é 341 = 11 · 31 e existem apenas 21 853 pseudoprimos na base 2 menores do que 2. rapidamente inteiros grandes. infelizmente.

1729. 15841. com a propriedade de que se 0 < a < n e mdc(a. ou n = 2kp + 1 para k inteiro. Assim. 2465. 41041. n) > 1. entretanto. Seja a > 1 e p primo. ap − 1 ap + 1 ≡ ≡1 (mod p) a−1 a+1 e verifica-se facilmente que estes números são ı́mpares (considere a maior potência de 2 que divide a ± 1 e proceda como na prova da proposi- ção 1. 52633. 29341. teremos an−1 6≡ 1 (mod n). 62745. 1105. n) = 1 então an−1 ≡ 1 (mod n). Então a2p − 1 ap − 1 ap + 1 n= 2 = · a −1 a−1 a+1 é um pseudoprimo na base a. 8911. 46657. se n for um produto de uns poucos primos grandes os valores de a para os quais mdc(a. 2821.dpmms. o que nos dá uma fatoração (par- cial) de n. Granville e Pomerance que se CN (x) é a quantidade de números de Carmichael menores do que x então CN (x) ≥ x2/7 para x suficientemente grande. p não divide a2 − 1. Claramente. se mdc(a. 5 · 1010 e os primeiros são 561.uk/pub/Carmichael para a lista dos números de Carmichael menores do que 1016 . como a2p ≡ 1 (mod n) temos an = a2kp+1 = (a2p )k · a ≡ a (mod n). É um fato interessante que existam alguns raros números compostos n. n) > 1 é fácil encontrar mdc(a.13. Aliás. p > 2. . o que implica na existência de infinitos números de Carmichael.cam. n) pelo algoritmo de Euclides.75). 7. 6601. 2 Veja ftp://ftp.3: TESTES DE PRIMALIDADE 331 Proposição 7. donde n ≡ 1 (mod 2p).[SEC. Uma ideia natural é a de testar vários valores de a. Há apenas 2163 números de Carmichael meno- res do que 2. chamados números de Carmichael . 10585. Foi até demonstrado recentemente por Alford. Demonstração: Como a ± 1 são inversı́veis módulo p e ap ≡ a (mod p) pelo pequeno teorema de Fermat. n) > 1 são raros e se formos obrigados a encontrar um tal valor de a teremos feito muito pouco progresso em relação aos primeiros algo- ritmos.ac. uma vez encontrado a com mdc(a. 63973 e 753612 .

p2 . 7: PRIMOS 7. pi ≡ 3 (mod 4). Melhor ainda. Assim. A igualdade vale exatamente para os compostos n das seguintes formas: n=p1 p2 . c − 1) · mdc(n.3. com b ı́mpar. n é um pseudoprimo forte na base a} . Teorema 7. n = mdc(n. caso contrário temos (ab )2 ≡ −1 (mod n) já que −1 é o único valor de x diferente de 1 (módulo n) para o qual x2 ≡ 1 (mod n). Assim. Não existem “números de Carmichael fortes”: para todo número composto ı́mpar n existe 0 < a < n com mdc(a. p1 . Se j = 0 isto significa j−1 que ab ≡ 1 (mod n). temos c − 1 6≡ 0 (mod n). seja c = (ab )2 .1 O teste probabilı́stico de Miller-Rabin Podemos refinar o conceito de pseudoprimo para definir pseudopri- mos fortes na base a. então o teste acima não apenas demonstra que n é composto mas j−1 produz uma fatoração parcial de n. p3 primos. p1 . c + 1 6≡ 0 (mod n) mas (c − 1)(c + 1) = c2 − 1 ≡ 0 (mod n). . n) = 1 e tal que n não é um pseudoprimo forte na base a. n=p1 p2 p3 . c + 1). p2 primos. Para definir quando n é um pseudoprimo forte na base a inicialmente escrevemos n − 1 = 2k · b. os valores de a que servem de testemunha para a não-primalidade de n são sempre relativamente frequentes. se SP πa (x) é o número de pseudoprimos fortes na base a menores ou iguais a x então 5/14 SP πa (x) ≥ e(log x) para todo x suficientemente grande (ver [118]).14. p2 = 2p1 − 1.332 [CAP. Seja 1 α(n) = {a | 0 < a < n. De fato. dizemos que n composto ı́mpar é um pseu- doprimo forte na base a se ou ab ≡ 1 (mod n) ou existe j 0 < k com j0 (ab )2 ≡ −1 (mod n). Se n > 2 é j primo deve existir um menor valor de j para o qual (ab )2 ≡ 1 (mod n) k (observe que por Fermat (ab )2 ≡ 1 (mod n)). Observe que se n for pseudoprimo mas não pseudoprimo forte na base a. ϕ(n) Então para todo número composto ı́mpar n > 9 temos α(n) ≤ 1/4. Claramente todo pseudoprimo forte na base a é um pseudoprimo na base a mas pseudoprimos fortes são mais raros do que pseudoprimos. n número de Carmichael. p1 ≡ 3 (mod 4). Existem infinitos pseudoprimos fortes em qualquer base a > 1: Po- merance provou que.

. . mdc(b. .m ) = 1 é igual a 2−K . a probabilidade de que ord(a2. bab1 . Devemos contar para quantos a ∈ (Z/(n))∗ valem as condições acima. . . . a imagem de a(2 b) nesta soma direta é (2j ba2. Dado a ∈ (Z/(n))∗ . . bapm ) = (s1 . . . . . . . .1 . 1/pe11 −1 . n é pseu- doprimo forte na base a se e somente se ord(a2. . .1 ) = · · · = ord(a2. . . 1/pemm −1 (note que mdc(b. assim. .m ) é igual a 2−K (1 + 1 + 2m + 2(2m) + · · · + 2((kmin −1)m) ) ≤ 2−(m−1) 2−(K−mkmin ) ≤ 2−(m−1) . . j ≤ k. . .[SEC. ap1 . abm .3: TESTES DE PRIMALIDADE 333 Demonstração: Como acima. . . K = k1 + · · · + km . km . Pelo teorema chinês dos restos e pela existência de raı́zes primitivas módulo pei i . . b1 )/b1 .1 ) = · · · = ord(a2. temos um isomorfismos de grupos abelianos (Z/(n))∗ = G = G2 ⊕ Gb ⊕ Gp onde G2 = Z/(2k1 ) ⊕ · · · ⊕ Z/(2km ).1 ) = · · · = ord(a2. ord(ap1 )|b. 0. . bap1 . ord(apm )|b. . . pi ) = 1). bi ı́mpar. . . . 2j ba2. . . . babm . . apm ) a ima- j gem de a em G2 ⊕ Gb ⊕ Gp . b ı́mpar. Assim. . . . . . Escreva pi − 1 = 2ki bi . . bm )/bm . Em outras palavras. .1 ) = · · · = ord(a2. .m . . . . j ≤ k. Convem usar a linguagem de probabilidades: α(n) é a probabilidade de que n seja pseudoprimo forte na base a. . . pemm a fatoração canônica de n. . ord(abm )|b. . . escreve n − 1 = 2k b. . . . . 0. a probabilidade de que ord(a2. . . 0) onde ord(s1 ) = · · · = ord(sm ) = 2j . .m . . ab1 . 2j bap1 . . . 2j bab1 . A probabilidade de que ord(a2. 0. . . . . ord(ap1 )|b. Gp = Z/(pe11 −1 ) ⊕ · · · ⊕ Z/(pemm −1 ). . . . k). . . Seja n = pe11 . ord(apm )|b são independentes e têm probabilidades mdc(b. ord(ab1 )|b. sm .1 . . . . 7. .1 . . Seja kmin = min(k1 . ba2. 2j babm . Gb = Z/(b1 ) ⊕ · · · ⊕ Z/(bm ).m .m ) = 2j é igual a 2−K+m(j−1) se 0 < j ≤ kmin . 2j bapm ) e n é pseudoprimo forte na base a se e somente se (ba2. a2.m ) = 2j . . . ord(abm )|b. seja (a2. Os eventos ord(ab1 )|b. . .

Em particular. n−1) > 1. Neste caso temos α(n) = 2−2k1 −l (1 + 1 + 4 + · · · + 4(k1 −1) ) = 1/2l (1/4 + 1/16 + · · · + 1/4k1 + 1/4k1 ) que é menor ou igual a 1/4. k1 = 1 que equivale a p1 ≡ 3 (mod 4). (p2 −1)/ mdc(p2 −1. n − 1). n − 1) = 2k1 −k e portanto que k = k1 < k2 donde p2 − 1 = 2l (p1 − 1). p2 = 2p1 − 1. O menor exemplo de número composto da segunda forma . bm ) 1 1 α(n) ≤ 2−(m−1) 2−(K−mkmin ) ··· e −1 · · · em −1 . Para que α(n) = 1/4 devemos ter k1 = k2 = k3 = 1 e b1 |b. b1 bm p11 pm Vamos agora considerar vários casos de n composto e verificar em quais deles vale α(n) ≥ 1/4. Se existir um primo ı́mpar q com q|(p2 − 1)/ mdc(p2 − 1. n − 1) = 2k2 −k . podemos portanto nos restringir aos casos n = p1 p2 e n = p1 p2 p3 . podemos supor que (p1 − 1)/ mdc(p1 − 1. O único caso em que esta estimativa não implica α < 1/4 é para n = 9. b3 ) α(n) ≤ . b1 ) mdc(b. (p2 − 1)|(n − 1). n − 1) = mdc(p1 − 1. Finalmente. n − 1) temos α(n) ≤ 1/2q < 1/4. b1 ) mdc(b. Os menores exemplos de números compostos n da primeira forma para a qual α(n) = 1/4 são n = 15 = 3 · 5. 4 b1 b2 b3 temos portanto α(n) ≤ 1/4. mdc(b. considere n = p1 p2 . b2 |b. Se m ≥ 4 temos α(n) ≤ 1/8. Podemos portanto supor que (p2 − 1)/ mdc(p2 − 1. (p1 − 1)p2 + p2 − 1) = mdc(p1 − 1. p1 < p2 . Observe que mdc(p1 − 1. b2 ) mdc(b. l = k2 − k1 > 0. p2 − 1) = mdc(p2 − 1. 7: PRIMOS Resumindo. Analogamente. n = 91 = 7 · 13 e n = 703 = 19 · 37.334 [CAP. Se m ≥ 2 e ei > 1 temos α(n) ≤ 1/(2pi ) < 1/4. (p3 − 1)|(n − 1) e n = p1 p2 p3 é um número de Carmichael com p1 ≡ p2 ≡ p3 ≡ 3 (mod 4). com igualdade apenas no caso l = 1. b3 |b donde (p1 − 1)|(n − 1). Se n = p1 p2 p3 temos 1 mdc(b. (e −1) Se m = 1 e n = pe11 então α(n) ≤ 1/p1 1 . podemos portanto nos restringir ao caso em que n é livre de quadrados.

t de que n seja composto: a idéia é que esta probabilidade seja pequena e que possamos declarar que n é “provavelmente primo”(ver [47]). Temos claramente cp − 1 = (cp−1 + · · · + c + 1)(c − 1) ≡ 0 (mod n) e c − 1 6≡ 0 (mod n). . . Supo- nhamos que n − 1 = pk · b.3: TESTES DE PRIMALIDADE 335 é n = 8911 = 7 · 19 · 67. Na verdade. assim.b. p . que agora descrevemos. Se n for ı́mpar composto. O k pequeno teorema de Fermat diz que se n é primo devemos ter (ab )p ≡ 1 (mod n). que demons- tram matematicamente a primalidade) na próxima seção.t é muito menor do que este valor e tende a decrescer quando k cresce. a probabilidade de que n escape a t testes é menor do que 4−t . pk. Sabe-se que existem menos do que CN (1/2+) números compostos n destas formas menores do que N . conjectura-se que o número de compostos n da primeira forma seja maior do que CN (1/2−) . O teorema acima serve de base para certos testes de primalidade probabilı́sticos. Queremos estimar a probabilidade pk. a probabilidade de que um dado a acuse a não-primalidade de a é maior do que 3/4 (pelo teorema). Na maioria dos casos α(n) é muito menor. (ab )p . Podemos daı́ estimar que pk. 7. Como vimos no parágrafo anterior. . (ab )p .[SEC. . como o chamado o algoritmo Miller-Rabin. a probabilidade de que um n composto passe por t testes é menor do que 4−t .e. Dado n. tomamos t valores de a ao acaso no intervalo 1 < a < n e verificamos para cada a se n passa no teste de primalidade na base a. Seja a um inteiro. o que já é bem pequeno.. 0 < a < n. Um problema relacionado é aquele em que escolhemos um inteiro ı́mpar com k bits ao acaso e aplicamos o teste de Miller-Rabin t vezes: se o inteiro falhar descartamos e sorteamos outro até obtermos um inteiro n que tenha passado em t testes. O teorema dos números primos nos diz que há pelo menos C1 2k /k primos na faixa acima (onde C1 é uma constante positiva). Existe uma variação do conceito de pseudoprimalidade forte. Este tipo de teste é extremamente útil em aplicações (como em crip- tografia) onde é importante criar primos relativamente grandes mas não existe a preocupação com demonstrações ou com perfeição absoluta. Isto se deve ao fato de pseudoprimos serem muito mais raros do que primos e α(n) ser em geral muito menor do que 1/4.t < C2 k4−t (para algum C2 > 0). se n for . Suponhamos que isto ocorra: nosso teste refinado consiste em considerar o último termo não côngruo a 1 módulo n da sequência 2 k ab . Trataremos de testes de primalidade determinı́sticos (i. (ab )p : chamemos este termo de c (se ocorrer ab ≡ 1 (mod n) não podemos aplicar o teste).

Solovay e Strassen obtiveram um outro algoritmo proba- bilı́stico em tempo polinomial utilizando resı́duos quadráticos. de um teste determinı́stico criado anteriormente por Miller que dependia de uma famosa generalização da hipótese de Riemann. 7: PRIMOS primo devemos obrigatoriamente ter cp−1 + · · · + c + 1 ≡ 0 (mod n). devida a Rabin ([121]). Pomerance e Rumely [1]. Em [144]. cp−1 +· · ·+c+1). se n for pseudo- primo na base a mas falhar este teste para algum primo p acabamos de obter uma fatoração para n: n = mdc(n. Em 1986. que obtiveram um algoritmo determinı́stico e incondicional em tempo sub-exponencial (log n)O(log log log n) (enquanto todos os outros algoritmos determinı́sticos e incondicionais anteriores re- queriam tempo exponencial). todos os algoritmos probabilı́sticos produziam certificados apenas de que o número era composto). 7. c−1)·mdc(n. Um grande avanço ocorreu em 1983 com o trabalho de Adleman. Este algoritmo é rápido e geral. apesar de ser muito menos eficiente que o algoritmo de Miller-Rabin. Desde então. Uma maneira de modificar o algoritmo de Miller- Rabin para torná-lo determinı́stico é testar todos os valores da base a em um intervalo suficientemente grande: essa generalização da hipótese de Riemann implica que o intervalo de 1 até 2(log n)2 já é grande o bastante ([8]). Assim como no caso de pseudoprimos fortes. mas infelizmente depende de uma conjectura.4 Testes determinı́sticos Nosso principal ponto de vista neste livro é o de um matemático: queremos não apenas um teste probabilı́stico mas uma demonstração da primalidade de n. se cp−1 + · · · + c + 1 6≡ 0 (mod n) sabemos que n é composto. Goldwasser e Kilian [59] propuse- ram um algoritmo probabilı́stico baseado em curvas elı́pticas com tempo esperado polinomial em quase qualquer entrada (ou qualquer entrada as- sumindo uma hipótese que se acredita ser verdadeira) e que produz um certificado de primalidade (até então. vários algoritmos probabilı́sticos têm sido propostos. Mas foi somente em agosto de 2002 que um grupo de pesquisadores .336 [CAP. Adleman e Huang [2] modificaram o algoritmo de Goldwasser-Kilian obtendo um algoritmo probabilı́stico em tempo polinomial que sempre produz um certificado de primalidade. Em outras palavras. O teste de Miller-Rabin apresentado na seção anterior é uma variação probabilı́stica.

Dentre essas variantes.15. para os quais uma fatoração (talvez incompleta) de n − 1 é conhecida. pode-se destacar as de Lenstra [88]. Proposição 7. que agora são mencionados como pertencentes à classe AKS. formado por um professor (Manindra Agrawal) e dois alunos de graduação (Neeraj Kayal e Nitin Saxena).4. não apenas esse algoritmo resolve um problema de longa data. acarretando no surgimento de diversas varian- tes. 7. A tendência geral é a redução do expoente de complexidade k. Em particular o algoritmo não executa nenhuma escolha ale- atória como fazem todos os algoritmos eficientes conhecidos até então.[SEC. Bernstein [14] e Lenstra e Pomerance [89].4: TESTES DETERMINÍSTICOS 337 do Indian Institute of Technology. A ordem de aq em (Z/(n))× é um múltiplo de q kq . O algoritmo AKS será explicado mais tarde nesta seção. Pomerance [119]. Demonstração: Seja q kq a maior potência de q que divide n − 1. donde ϕ(n) é um . 7. provou que o problema de teste de primalidade pertence à classe P ao obterem o primeiro algoritmo determinı́stico polinomial para tal pro- blema: o algoritmo decide se N é ou não primo em tempo que é da ordem de um polinômio com relação ao número de bits k = log2 N da entrada. cujo valor rigoroso é atualmente k = 6 + . embora valo- res de até k = 4 +  tenham sido obtidos para determinados valores de entrada. Berrizbeitia [16]. Fica no ar a pergunta sobre o que mais tem sido deixado passar de forma semelhante. Seja n > 1. resultado obtido por [89]. ele também o faz de uma maneira brilhantemente simples. Esta descoberta deixou a comunidade de cientistas da área surpresos pelo fato de que. Se para cada fator primo q de n − 1 (n−1)/q existe um inteiro aq tal que an−1 q ≡ 1 (mod n) e aq 6≡ 1 (mod n) então n é primo. esforços têm sido feitos para implementar o algo- ritmo de forma eficiente. A partir de então. ou para qualquer valor de entrada assumindo hipóteses como a HGR e/ou heurı́sticas.1 Testes de Primalidade Baseados em Fatorações de n−1 Veremos inicialmente alguns algoritmos determinı́sticos que funcio- nam para valores especiais de n. Cheng [32].

Como isto vale para todo fator primo q de n − 1. com F > R e para todo fator primo q de F existe a > 1 tal que an−1 ≡ 1 (mod n) e mdc(a(n−1)/q − 1. isto implica que n é primo. Os seguintes critérios clássicos são consequências diretas das proposições acima. ϕ(n) é um múltiplo de n − 1 e n é primo.16 (Pocklington). Até outubro de 2011 o menor número de Fermat que se desconhece se é primo ou composto é F33 . donde ordp a. De fato.338 [CAP. 7: PRIMOS múltiplo de q kq . Euler mostraria mais tarde que F5 não é primo (temos F5 = 4294967297 = 641·6700417) e já se demonstrou que Fn é composto para vários outros valores de n. n) = 1 então n é primo.17. Se n − 1 = q k R onde q é primo e existe um inteiro a tal que an−1 ≡ 1 (mod n) e mdc(a(n−1)/q − 1. podemos escrever an + 1 = bp + 1 = (b + 1)(bp−1 − bp−2 + · · · + b2 − b + 1) onde b = an/p . nenhum n outro primo da forma Fn = 22 + 1 é conhecido. Proposição 7. basta conhecer um conjunto de fatores primos cujo produto seja maior do que (n − 1)1/3 para. Assim. n) = 1 então qualquer fator primo de n é côngruo a 1 módulo q k . donde p ≡ 1 (mod q k ). usando o resultado de Pocklington. Demonstração: Se p é um fator primo de n então an−1 ≡ 1 (mod p) e p não divide a(n−1)/q − 1. a ordem de a módulo p. Se n − 1 = F R. segue que qualquer fator primo de n deve ser côngruo a 1 módulo √ F . todo fator primo de n deve ser côngruo a 1 módulo q k . Observe que 2n + 1 (e em geral an + 1 com a ≥ 2) não é primo se n não é uma potência de 2: se p é um fator primo ı́mpar de n. mas se conhecem muitos primos (alguns bastante grandes) da forma . q k | ordp a | p − 1. divide n − 1 mas não divide (n − 1)/q. Como F > n. Corolário 7. tentar demonstrar a primalidade de n (o que deixamos como exercı́cio). n Fermat conjecturou que todo número da forma Fn = 22 + 1 fosse primo e verificou a conjectura para n ≤ 4. pela proposição anterior. Como isto vale para qualquer fator primo de F . Demonstração: Seja q um fator primo de F e q k a maior potência de q que divide F .

Se n = h · q k + 1 com q primo e q k > h. A recı́proca segue do corolário 7. por exemplo. e somente se. metade dos inteiros entre 1 e n−1 serve como a. 3(Fn −1)/2 ≡ −1 (mod Fn ).20. uma proporção de (q − 1)/q dentre inteiros entre 1 e n − 1 serve como a. se Fn é primo então pelo critério de Euler e a lei de reciprocidade quadrática temos       (Fn −1)/2 3 Fn 2 3 ≡ = = = −1 (mod Fn ) Fn 3 3 Teorema 7.18 (Teste de Pépin).4: TESTES DETERMINÍSTICOS 339 n a2 + 1. primos de Mersenne) e que sua primalidade é facilmente demonstrada usando este resultado. Demonstração: Se n é primo. A recı́proca segue do corolário 7. Corolário 7.19 (Proth (1878)).17 com F = 2k . ou seja. .[SEC. O teste a seguir mostra como testar eficientemente a primalidade de Fn . Isto se deve ao fato de primos desta forma serem frequentes (mais frequentes do que. Então n é primo se. podemos tomar a qualquer com na =  −1. e somente se. e somente se. Então n é primo se. Muitos dentre os maiores primos conhecidos estão nas condições do teorema de Proth (ver tabelas).17 com F = q k . n) = 1. Fn é primo se. existe um inteiro a com an−1 ≡ 1 (mod n) e mdc(a(n−1)/q − 1. 7. existe um inteiro a com a(n−1)/2 ≡ −1 (mod n). podemos tomar a qualquer que não seja da forma xq módulo n (que existe pois n admite raiz primitiva). Por outro lado. Demonstração: Se 3(Fn −1)/2 ≡ −1 (mod Fn ) então a primalidade de Fn segue da Proposição 7. n Corolário 7. Seja Fn = 22 + 1.15. Demonstração: Se n é primo. que são conhecidos como primos de Fermat generalizados. Seja n = h · 2k + 1 com 2k > h. ou seja.

baseiam-se no pequeno teorema de Fer- mat: um número p é um número primo se. a um inteiro e p um número primo. o coeficiente binomial pj é  divisı́vel por p. j j=0 mas nos casos em que j é diferente de 1 e p. k k N  assim se qN é a maior potência de q que divide N . Kayal e Saxena Todos os algoritmos eficientes conhecidos até o momento. basta observar que se p é composto.q . . para todo número natural 1 ≤ a < p temos que ap−1 − 1 é divisı́vel por p. . . Se N fosse composto e q é um fator primo de N . isto é. Usando o binômio de Newton temos que p   p X p p−j j (x + a) = x a . q q(q − 1) . se (x + a)N ≡ xN + a (mod N ) para todo a < N . Desta forma obtemos o seguinte critério de primalidade: N é primo ⇐⇒ (x + a)N ≡ xN + a (mod N ). com mdc(a. Assim. assim (x + a)p ≡ xp + ap ≡ xp + a (mod p) onde na última igualdade usamos o teorema de Fermat. 1 Vemos que os únicos termos que são múltiplos de q nesta expressão são o N no numerador e o q no denominador. logo N . então   N N (N − 1) . N é primo. para algum a<N . para todo a < N ⇐⇒ (x+a)N ≡xN +a (mod N). . 7: PRIMOS 7.340 [CAP. No algoritmo AKS. Para a recı́proca. absurdo. N )=1. então  tomando a = 1 N vemos que N divide todos os coeficientes binomiais j com 0 < j < N . o fundamento matemático de fato não é diferente: Suponhamos que x é uma variável. (N − q + 1) = . logo todos os termos intermediários desta expansão são divisı́veis por p.q . e somente se.2 Teste de Agrawal. temos que q . então a congruên- cia acima é falsa para todo divisor a de p com 1 < a < p. . Reciprocamente. p é primo ⇐⇒ ap−1 ≡ 1 (mod p) para todo 1 ≤ a < p. sejam de- terminı́sticos ou probabilı́sticos.4.

Então N é potência de um primo. 4. Saxena. na versão original do AKS [3] se mostra. Por hipótese. (x + a)N ≡ xN + a (mod xr − 1. é que para garantir a primalidade de N só precisamos testar que esta congruência é válida para um valor especial de r (na versão original um r primo para √ o qual r − 1 tem um fator primo q ≥ 4 r log N . r e v inteiros maiores que 1. Mostraremos o seguinte resultado (o qual aparece na versão final [3] do artigo de Agrawal. Suponhamos que 1. a 6= b. se dividimos por xr − 1 temos que (x+a)N ≡ xN +a (mod xr −1. 2. Em particular. é ineficiente. mdc(N. v é o mı́nimo tal que N v ≡ 1 (mod r). r ∈ N O fato importante. Teorema 7. (x + a)N = xN + a no anel Fp [x]/(xr − 1) para todo a ∈ S (aqui Fp = Z/(p) denota o corpo com . podemos escolher um divisor primo p de N tal que ordr p > 1. √ 3. i. N e r são primos relativos e a ordem de N módulo r é v.e. Demonstração: Pela condição 1. que é uma simplificação do AKS obtida por H.4: TESTES DETERMINÍSTICOS 341 Este critério. Seja S um conjunto finito com s elementos. a − b) = 1 para quaisquer elementos a. então eles deixam o mesmo resto módulo N quando divididos por qualquer polinômio. Kayal e Saxena. N ) N é primo =⇒ para todo a < N. Outra observação importante é que se os polinômios (x+a)N e xN +a são iguais módulo N . Kayal e Saxena). o qual divide a ordem de n módulo r) que depende polinomialmente de log N e alguns poucos valores de a. Lenstra). por enquanto. Kayal. Lenstra. usando um teorema não elementar devido a Fouvry (ver [54]).21 (Agrawal. porque temos que calcular todos os coeficiente de (x + a)N e mostrar que todos os coeficientes intermediários são divisı́veis por N . N ) para todo a ∈ S. a existência de um tal r da ordem O((log2 N )6 ). mostrado por Agrawal. b ∈ S. Assim.[SEC.. Sejam N . com r potência de primo. 7. s+t−1 t/2  s ≥ N para todo t divisor de ϕ(r) que seja múltiplo de v. no qual não é preciso usar o teorema de Fouvry.

existem pares (i. Isso prova a nossa afirmação. que. j) e G = hN. Mostraremos √ que existem mais do que t pares i. j)6=(k. de fato. e seja t = |G|. Note que t | ϕ(r) e que v | t (pois G contém o grupo gerado pela classe de congruência módulo r de N em Z/(r). y) com x. Seja G o subgrupo multiplicativo de (Z/(r))× gerado pelas classes de congruência de N e de p módulo r.342 [CAP. x y t log2 (N ) que é 4 log(N/p) log p ≥ t. elevando os dois lados a pi temos igualdade. y (N /p )x py = N √ t/ 2 x Como temos mais do que |G| tais pares (i. Substituindo x por xN temos que (xN + a)N = xN + i a no anel Fp [x]/(xrN − 1) para todo a ∈ S. 7: PRIMOS i i i+1 p elementos). A área de T . ≥ 0 tais que (N/p) p ≤ N t/2 . Pelo teorema de Fermat obtemos i j i j i j (x + a)N p = (xN + a)p = xN p + a no anel Fp [x]/(xr − 1) para todo i j i j a ∈ S. y ∈ R. tem v elementos). j ≥ 0 inteiros tais que (N/p)i pj ≤ N t/2 . pi (mod r) = hN/p. l) tais que (N/p)i pj ≡(N/p)k pl (mod r). Escrevendo w = (N/p)i pj e u = (N/p)k pl temos que |w − u| < . e logo também no anel i i Fp [x]/(xr − 1). é menor que o número de quadrados √ da forma [i. j + 1] com i. indutivamente obtemos que (x + a)N = xN + a no anel Fp [x]/(xr −1) para todo a ∈ S. x. i + 1] × [j. y. Assim. e elevar um polinômio em Fp [x] a pi é uma função injetora. j ≥ 0 tais que (N/p) p ≤ N t/2 . pi (mod r) . pois esses quadrados cobrem T . Considere o triângulo T formado i j √ pelos pontos (x. por definição. Daı́ segue que temos também (x + a)(N/p) p = x(N/p) p + a no anel Fp [x]/(xr − 1).

logo (x + a)w = xw + a = xu + a = (x + a)u em Fp [x]/(xr − 1). j) e (k. satisfazendo a∈S ea ≤ t − 1. para cada tal E seja PE (y) = a∈S (y + a)ea ∈ Fp [y]. Note que se a condição 2 é falsa. Assim.[SEC. xqd−1 − 1 O corpo K = Fp [x]/(h(x)) possui pdeg h(x) elementos. 7. suponha PE1 (x) = PE2 (x). temos i 6= k e portanto de (N/p)i pj = (N/p)k pl concluı́mos que N tem que ser uma potência de p. Logo w = u. Assim. que portanto não seria primo. Como discutido acima. mas i = k =⇒ j = l. Seja G o subgrupo de K × gerado pelos elementos x+a. Dizemos que um polinômio f ∈ Fp [y] é introspectivo se valerem em Fp [y] as congruências f (y p ) ≡ (f (y))p (mod y r − 1) e f (y (N/p) ) ≡ (f (y))N/p (mod y r − 1). uma contradição. q primo. Considere os multi-ı́ndices P E = (ea )a∈S . estes polinômios também são introspectivos. mas se w 6= u esta equação pode ter no máximo |w − u| so- luções não nulas num corpo. significa que foi encontrado um fator de N . G tem no mı́nimo s+t−1 ≥ N t/2 > |w − u|  s elementos. Seja r = q d . r | p deg h(x) − 1 pelo teorema de Lagrange e portanto ordr p | deg h(x). onde G ⊆ (Z/(r))× é gerado por N/p e p. e como (i. já vimos que para todo g ∈ G temos que g w = g u . Por outro lado. l) são diferentes. (N/p)i pj = (N/p)k pl . Concluı́mos que deg h > 1. Pela fatoração única em irredutı́veis temos que os polinô- mios PE são todos distintos: afirmamos que os elementos PE (x) ∈ K também são todos distintos. .4: TESTES DETERMINÍSTICOS 343 √ N t/2 e xw = xu em Fp [x]/(xr − 1). a ∈ S. isto é. Seja h(x) um polinômio irredutı́vel em Fp [x] que divide d d −q d−1 d −2q d−1 d−1 d−1 xq − 1 xq + xq + · · · + x2q + xq +1= . O produto de polinômios introspectivos é introspectivo e já vimos que y + a é in- trospectivo para a ∈ S. e em seu grupo d−1 multiplicativo x tem ordem r = q d pois xq = 1 implica em q = 0 em Fp . logo H = 0 e E1 = E2 . seja H(y) = PE1 (y) − PE2 (y) ∈ Fp [y] ⊂ K[y]: o grau de H é menor do que t e para m ∈ G temos H(xm ) = PE1 (xm ) − PE2 (xm ) = (PE1 (x))m − (PE2 (x))m = 0 e portanto H tem t raı́zes distintas em√K. com ea ∈ N para todoQa ∈ S. A con- dição 2 acima garante que os elementos x + a são todos distintos em K. De fato. temos f (y m ) ≡ (f (y))m para todo m ∈ G.

Como r log2 N não divide N j − 1 para todo j com 1 ≤ j ≤ b 22 c. temos pque r e s satisfazem a condição 3 do teorema.22. Existe uma potência de primo r menor do que (log2 N )5 tal que v = ordr N > 21 (log2 N )2 . Pelo corolário 5. Demonstração: Considere o número log2 2N M = N b5 log2 log2 N c (N − 1)(N 2 − 1) · · · (N b 2 c − 1) e tome r como o menor número que não divide M . De fato. `}. pois. o mı́nimo múltiplo comum dos números menores que 2k é maior que 2k . Temos mdc(r. N ) = 1. como t ≥ v > 12 (log2 N )2 . Temos log2 2N log5 2N c) M < N (5 log2 log2 N +1+2+···+b 2 <2 2 . tomando `˜ := b t/2 log2 N c ≤ `. . temos `˜ = b t/2 log2 N c < t. O pseudo-código associado a este teorema com estas escolhas de r e S fica da seguinte forma.344 [CAP. . . absurdo. temos     ˜  ˜  s+t−1 `+t `+t `+t = ≥ = ˜ s t−1 t−1 `+1  ˜  2` + 1 ˜ ≥ ˜ > 2`+1 `+1 √ > N t/2 . . 1. se v > 12 (log2 N )2 . tomando S = {0. temos ordr N > 1 2 2 (log2 N ) . Seja N ≥ 9 um inteiro. Note que r é uma potência de primo. Note que. e então r > 25 log2 log2 N = (log2 N )5 . onde p ` := b ϕ(r)/2 log2 N c elementos. p Lema 7.14. 7: PRIMOS Observemos que. se r é uma potência de um primo que divide N . Portanto r < (log2 N )5 . sabemos que. . para todo k ≥ 2. o expoente deve ser maior que 5 log2 log2 N (senão r dividiria M ).

Implementação e Complexidade Nesta seção mostraremos uma possı́vel implementação de cada passo do algoritmo anterior. portanto b ≤ log N .4: TESTES DETERMINÍSTICOS 345 Algoritmo AKSL 1. Retorna 0. retorna COMPOSTO. 3. No que segue Õ(k n ) significa O(k n P (log k)). Existem várias formas de implementar o passo 2. 2. encontraremos um inteiro positivo r menor do que (log2 N )5 com mdc(r. retorna COMPOSTO. como a ≥ 2 então N = ab ≥ 2b . Para a = 1 até b ϕ(r)/2 log2 N c faça Se (x+a)N 6≡ xN +a (mod xr −1. Õ(k n ) < O(k n+ ). Se N < r. retorna COM- POSTO. Pode ser que antes disso encontremos um divisor primo próprio de n. onde P é um po- linômio. o que gera o seguinte algoritmo que retorna 1 caso seja potência perfeita e 0 caso contrário. e nesse caso podemos encerrar a busca e retornar COMPOSTO. Algoritmo PotenciaPerfeita Entrada N 1. isto é N = ab com b > 2. 6. N ) = 1 tal que ordr N > 21 (log2 N )2 . 7. N ). 4. Determinar se N = ab Observemos que se N é uma potência perfeita. Observe que para todo  > 0.√ 5. Se S b = N retorna 1} 4. Retorna PRIMO. Uma das mas simples é usando o método de Newton encontrado em qualquer livro de Cál- . Observação 7. Em relação ao passo 3. retornap PRIMO. Se mdc(a. Encontrar o menor r tal que ordr N > 12 (log2 N )2 .[SEC. para todo N ≥ 9.23. N ) > 1 para algum primo a ≤ r. Se N = ab com b > 1. Para b = 2 até log N faça { 2. o lema anterior garante que. 7. assim como analisaremos a complexidade de cada passo. Entrada N > 6. S ← bN 1/b c 3.

Isso sig- nifica que tal loop se repete no máximo log(dB(N )/be) = O(log(log N )) vezes para obter a raiz.346 [CAP. o algoritmo fica da seguinte forma: Algoritmo RaizInteira Entrada N. Dado que para calcular AB preciso no má- ximo de 2 log B multiplicações e uma divisão inteira tem complexidade equivalente à multiplicação. em cada passo do loop obtemos o dobro de dı́gitos (em base dois) significativos. temos que a complexidade de determinar se um número é raiz perfeita é O((log N )3 (log log N )2 ) = Õ((log N )3 ). quase linear. mas com complexidade p log N exp(O( log log N log log log N ) = Õ(log N ). b 1. Bernstein mostra um algoritmo não elementar. tem complexidade (k 2 ) usando o método clássico. Portanto podemos determinar se um número N é potência perfeita com complexidade O((log N )2 log log N ) no número de multiplicações de inteiros com no máximo log N dı́gitos. P = 2dB(N )/be // aqui B(N ) denota o número de bits de N 2. que verifica passo a passo qual é o menor inteiro j tal que . Como a multi- plicação de inteiros com k bits. em [15]. usando aritmética de ponto flutuante. e nosso ponto inicial é um valor à direita da raiz. Ordem N módulo r O seguinte é um algoritmo simples para determinar a ordem de N módulo r. além disso a velocidade de conver- gência é quadrática. Dado que estamos interessados somente em raı́zes inteiras. o algoritmo anterior tem complexidade O(log N log log N ). P ← Q} Dada que a convergência do método de Newton é quadrática. ou (k log k) usando Transformada Rápida de Fourier (FFT). De fato. Se Q ≥ P retorna P 5. Este valor está longe do ótimo. Faça{ j k b−1 c 3. isto é. Q ← (b−1)P +bN/P b 4. 7: PRIMOS culo elementar: “a sequência {xn } definida recorrentemente por xn+1 = xn − ff0(x n) (xn ) converge para uma raiz de f (x) = 0 para todo ponto inicial suficientemente próximo dessa raiz”. e no segundo passo já temos no mı́nimo um dı́gito significativo. Em nosso caso f (x) = xb − N .

assim o passo 5 se repete no máximo r vezes. i ← i + 1} 8. Assim como no passo 3 do algoritmo AKSL testamos todos os valores desde 12 (log N )2 até o menor r que cumpre a condição. r 1. i ← 1 5. logo a complexidade do algoritmo Ordemmódulo usando FFT para multiplicar é O(r log r log log r) = Õ(r). e está baseado no algoritmo de Eucli- des do capı́tulo 1: “seja r o resto ao dividir A por B. r) 6= 1 retorna −1. Se mdc(N.[SEC. 2. R ← A − Bb B c 2.4: TESTES DETERMINÍSTICOS 347 N j ≡ 1 (mod r). Enquanto B 6= 1 faça{ 6. B A 1. Retorna B. B ← A 4. É fácil provar que o ciclo do algoritmo tem no máximo logφ min{A. Retorna i Pelo teorema de Euler-Fermat sabemos que a ordem de N módulo r é um divisor de ϕ(r) < r. R ← A − Bb B c} 6. ob- temos o seguinte algoritmo. B) = mdc(B. r)”. Usando iterativamente este algoritmo até obter resto 0. B} √ 1+ 5 passos. que mostramos ser menor do que (log2 N )5 . A ← N (mod r) 3. B ← R A 5. Temos que a complexidade é no má- ximo O(r2 log r log log r) = Õ(r2 ) para determinar r. A ← B 4. onde φ = 2 é a razão áurea. Enquanto R 6= 0 faça { 3. então mdc(A. 7. B ← A · B (mod r) 7. Algoritmo Ordemmódulo Entrada N. e este número é obtido exata- . Cálculo de MDC O seguinte algoritmo é clássico. Algoritmo MDC Entrada A. No passo 6 temos que fazer um produto de números com log r dı́gitos e redu- zir módulo r.

Se bi = 1 faça 5. portanto. se P (x) é um polinômio de grau menor ou igual a r − 1 então (PP(x))2 é um polinômio de grau menor ou igual 2r − 2. logo a complexidade usando FFT para multiplicar é O(r(log r)2 log log r) = Õ(r). 5 e 6 do algoritmo é O(r log r log N log log N ) = Õ(r log N ) e. a multiplicação de polinômios de grau r pode ser feita usando o método clássico com r2 multiplicações e r somas. de fato. P [x] ← 1 2. Agora. N ) cada polinômio pode ser implementado como um vetor com r entradas meno- res do que N . 6. N ) Este passo é. P [x] ← P [x]2 4. 4. Retorna P [x] Como estamos interessados em polinômios módulo (xr − 1. Para i = l até 0 faça{ 3. . Algoritmo PotenciaPolinomio Entrada N. . (P (x))2 = 2r−2 j j=0 aj x . 7: PRIMOS mente quando tomamos dois termos consecutivos da sequência de Fi- bonacci (ver por exemplo [113]). Assim a complexidade dos passos 3. ou r log r multipli- cações usando FFT. assim aplicar mó- dulo xr − 1 é uma operação com complexidade linear com relação a r. P [x] ← P [x] · (x + a). Observemos que r−1 X r−1 X 2 j r (P (x)) = (aj + aj+r )x + (x − 1) aj+r xj j=0 j=0 Pr−1 logo (P (x))2 ≡ j r j=0 (aj + aj+r )x (mod x − 1). assim a complexidade do passo 4 do algoritmo AKSL é O(r log r) em número de multiplicações de números com log r dı́gitos. Assim. onde estamos multiplicando números com log N bits. Cálculo de (x + a)N módulo (xr − 1.348 [CAP. N )} 7. isto é. o mais complicado de implementar e também tem a maior complexidade algorı́tmica. b0 em base 2 1. a complexidade do . P [x] ← P [x] (mod xr − 1. r onde N = bl bl−1 . a. que ilustramos no seguinte algo- ritmo.

Esta conjectura seguiria. 7.4: TESTES DETERMINÍSTICOS 349 algoritmo PotenciaPolinomio é O(r log r(log N )2 log log N ) = Õ(r(log N )2 ). De fato. Para um tal primo q. da ordem de C log2 N 2(log log N )2  log N primos q tais que 2q + 1 também é primo. Posteriormente ao trabalho original de Agrawal. . De fato. o teste de Miller- Rabin torna-se um teste determinı́stico. temos que a probabilidade do número escolhido não ser primo é menor do que 9 · 10−13 .1. caso a Hipótese de Riemann Generalizada seja verdadeira. a complexidade do algoritmo fica igual a Õ((log N )6 ).[SEC. temos que ord2q+1 (N ) ≤ 2 ou ord2q+1 (N ) ≥ q > log2 N . Lenstra e Pomerance obtiveram uma algoritmo inspirado nas idéias do AKS que trabalha com polinômios mais gerais e tem complexidade Õ((log N )6 ) (ver [89]). já que mostrou que o problema de determinar a primalidade de um número está na classe P . Ela é uma generalização da Hipótese de Riemann clássica (cujo enunciado. que são altamente eficientes e amplamente usados nos métodos de criptografia. Kayal e Saxena. em duas versões equivalentes. que é considerada um dos problemas mais difı́ceis e importantes da Matemática. da conjectura 7. mas na prática o tempo de processamento é muito inferior com relação aos algoritmos probabilı́sticos clássicos. O algoritmo AKS é interessante do ponto de vista teórico. conjectura-se que na verdade r = O((log N )2 ). Como ord2q+1 (N ) ≤ 2 =⇒ 2q+1 | N 2 −1. Se esta conjectura estiver correta. entre log2 N e 2 log2 N (estritamente). por exemplo. Dado que a complexidade máxima do algoritmo AKSL ocorre no passo 6 temos que a complexidade do algoritmo é Õ(r3/2 (log N )3 ) = Õ((log N )21/2 ). escolhendo aleatoriamente 20 primos que validam os testes. Com isto concluı́mos que a complexidade do passo 6 do algoritmo AKSL é O(r3/2 log r(log N )3 log log N ) = Õ(r3/2 (log N )3 ). tais como Miller- Rabin e Solovay-Strassen. o número de tais primos 2q+1 C log2 N é O(log N )  2(log log N )2 . para o qual ord2q+1 (N ) ≥ q > log2 N ). mas esta conjectura ainda está em aberto. terı́amos. e portanto existe um primo r = O(log2 N ) com ordr (N ) > log2 N (r será um dos primos da forma 2q + 1 que consideramos acima.3 (no caso par- ticular de primos de Sophie Germain).2 e 6.2). se valer essa conjec- tura. Por outro lado. já foi apresentado nas seções 4.

Euler mostrou que 229 − 1 é composto e em 1750. 89. 17. 17. 13. com p primo. 25964951. 13. 20996011. Lucas desenvolveu um algoritmo para testar a primalidade de números de Mersenne e em 1876 verificou que 2127 − 1 é primo. 29. o monge Marin Mersenne (1588-1648) afirmou por sua vez (também incorretamente) que 2p − 1 era primo para p = 2. 30402457. . 31. 3. 5. Em 1640. Estes são os únicos primos conhecidos com mais de 4000000 de dı́gitos. 31 e 37. verificou que 231 − 1 é primo. Pietro Cataldi tinha corretamente verificado a primalidade de 217 − 1 e 219 − 1 e afirmou (incorretamente) que 2p − 1 também era primo para p = 23. 32582657. 127 e 257 e composto para os demais valores de p ≤ 257. 19. 13466917. Em 1644. Em 1738. Parte do interesse em primos de Mersenne deve-se à sua estreita ligação com números perfeitos. 19.350 [CAP. 37156667. 107 e 127. não é difı́cil demonstrar que 2p −1 só pode ser primo quando p é primo. Um número perfeito é um inteiro positivo que é igual à soma de seus divisores próprios (como 6 = 1 + 2 + 3 e 28 = 1 + 2 + 4 + 7 + 14). Talvez o primeiro resultado não trivial sobre primos de Mersenne seja devido a Hudalricus Regius que em 1536 mostrou que 2p − 1 não precisa ser primo sempre que p for primo: 211 − 1 = 2047 = 23 · 89. 7. Primos da forma 2p − 1. 31. 5. 7: PRIMOS Vários dos resultados desta seção e diversos outros aspectos algorı́t- micos e computacionais de números primos são apresentados na referên- cia [44]. 61. Fermat mostrou que 223 − 1 e 237 − 1 são compostos. Em 1603. 24036583. os números perfeitos pares são precisamente os números da forma 2p−1 (2p − 1) onde 2p − 1 é primo (um primo de Mersenne). 42643801. Só em 1947 a lista dos primos até 257 foi varrida: os valores de p nesta faixa para os quais 2p − 1 é primo são p = 2. este número permaneceria por muito tempo como o maior primo conhecido (ver [94]). 67. Esta afirmação demoraria séculos para ser completamente corrigida.5 Primos de Mersenne Em abril de 2010. 7. os nove maiores primos conhecidos são da forma Mp =2p −1 para p = 43112609. têm sido estudados há séculos e são conhecidos como primos de Mersenne. 3. 7.

3217. 2p − 1 é primo se e somente se Sp−2 é múltiplo de 2p − 1. 24036583. 111 em outra base. . 7. 4423. Não se conhece um critério análogo ao de Lucas-Lehmer para testar a primalidade de números deste tipo quando B > 2. 756839. dado p > 2. isto é. 859433. 37156667. com p dı́gitos. 42643801.mersenne. 9689. É fácil ver que um tal número só pode ser primo se p for primo. Desde então foram encontrados os seguintes valores de p para os quais Mp é primo: 521. O maior primo conhecido desta forma é (288398317 − 1)/28838. i. Esta sequência cresce muito rápido. Os maiores números primos conhecidos atualmente são primos de Mersenne. 9941. Note que um número de Mersenne Mp é escrito na base 2 como 111 . mas basta fazer as contas módulo 2p − 1: temos assim o chamado critério de Lucas-Lehmer (ver [86]). Sk+1 = Sk2 − 2. 86243. Os únicos repunits (comprovadamente) primos conhecidos são para p = 2. O critério de Lucas-Lehmer. 1031. 57885161. . Em 1951. qualquer outro repunit primo deve ter mais de 400000 dı́gitos. 20996011. 1257787. 43112609. 23.[SEC. 32582657. 11213. 2976221. 132049. .5: PRIMOS DE MERSENNE 351 O algoritmo de Lucas foi posteriormente melhorado por Lehmer para dar o seguinte critério: sejam S0 = 4. 44497. 317. Uma tabela contendo os recordes atuais encontra-se no final deste capı́- tulo. De acordo com os testes já realizados. . Em todos os casos foi usado o critério de Lucas-Lehmer. que tem 37090 dı́gitos. computadores eletrônicos começaram a ser usados para procurar grandes números primos. passam por diversos testes probabilı́sticos de primalidade: 49081. 109297 e 270343. 111. 4253. Os últimos doze foram encontrados com a ajuda de computadores pessoais: se você tem um computador você também pode participar da busca do próximo número de Mersenne (veja as instruções em www.org). 30402457. 21701.e. . 1279. 607. 2203. 3021377. . S1 = 42 − 2 = 14. 19. . 25964951. onde B é a base. 13466917.. Um número de Mersenne é um número da forma Mp = 2p − 1. 86453. Uma generalização natural seriam os núme- ros escritos como 111 . . que apresentaremos nesta seção. Recentemente (entre 1999 e 2007). 216091. foram descobertos os seguintes valores de p para os quais os repu- nits correspondentes são provavelmente primos. No caso B = 10 estes números são conhecidos como repunits. 6972593. números da forma (B p − 1)/(B − 1). é um . 110503. 1398269. 19937. 2281. 23209.

352 [CAP. Wagstaff por outro lado conjectura que o limite seja −γ 2e ≈ 1. 7: PRIMOS dos fatores para que isso ocorra pois fornece um teste de primalidade bastante rápido para números de Mersenne. Os primeiros números perfeitos são 6. Proposição 7. onde σ(n) é a soma dos divisores de n. Primos de Mersenne são interessantes também por causa de números perfeitos. Vejamos primeiramente que 2p − 1 só tem chance de ser primo quando p é primo. sendo Mp um primo de Mersenne.24. Existem algumas conjecturas mais precisas quanto ao valor de √ lim n pn . todo número perfeito par é da forma 2p−1 Mp para algum primo p. se pn é o n-ésimo primo deste tipo.25. conjectura-se. n→∞ Eberhart conjectura que este limite exista e seja igual a 3/2. que existam infinitos primos p para os quais Mp é primo e que. não se sabe demonstrar nem que existam infinitos primos de Mersenne nem que existem infinitos primos p para os quais Mp é composto. Demonstração: Se Mp é primo então σ(2p−1 Mp ) = σ(2p−1 ) · σ(Mp ) = (2p − 1)(Mp + 1) = 2 · 2p−1 Mp . 4757613971 onde γ é a já mencionada constante de Euler-Mascheroni. . Além disso. Nosso próximo resultado caracteriza os números perfeitos pares. b ≥ 2 então 1 < 2a − 1 < 2n − 1 e 2n − 1 = 2ab − 1 = (2a )b − 1 ≡ 1b − 1 = 0 (mod 2a − 1) e 2n − 1 é composto. entretanto. Se Mp é um primo de Mersenne então 2p−1 Mp é perfeito. Um inteiro positivo n é dito perfeito se σ(n) = 2n. Demonstração: Se n = ab com a. 28 e 496. Por outro lado. temos log pn 0<A< < B < +∞ n para constantes A e B. Se 2n − 1 é primo então n é primo. Proposição 7.

deve ser muito grande (mais de 300 dı́gitos) e satisfazer simultaneamente várias condições complicadas. temos b = (2k+1 − 1)c para algum inteiro c e assim σ(b) = 2k+1 c. 2k+1 ) = 1. mas neste caso σ(b) = 2k+1 c ≥ 1 + 2k+1 − 1 + b + c. Como mdc(2k+1 − 1. Mn = 2n − 1 é primo se. se existir. o que implica c ≥ 2k+1 . Seja n > 2. um absurdo. Conjetura 7. Pela proposição 7. p = k + 1 é primo. no grupo multiplicativo .26. um número perfeito par.√com um fator primo q com q 2 ≤ Mn . Temos σ(n) = 2n = σ(2k )σ(b) donde 2k+1 b = (2k+1 −1)σ(b). Sn−2 é múltiplo de Mn .5: PRIMOS DE MERSENNE 353 Por outro lado seja n = 2k b. a base dos algoritmos que testam para grandes valores de p se 2p − 1 é ou não primo: Teorema 7. Demonstração: Observemos inicialmente que √ n √ n Sn = (2 + 3)2 + (2 − 3)2 para todo natural √ n. e somente se. Seja Sk a sequência definida por S0 = 4. b = Mp e n = 2p−1 Mp . Não existe nenhum número perfeito ı́mpar. um dos problemas em aberto mais antigos da Mate- mática é o da existência de números perfeitos ı́mpares. A demonstração √ 20 por indução é simples: claramente 20 S0 = 4 = (2 + 3) + (2 − 3) e √ k √ k Sk+1 = Sk2 − 2 = ((2 + 3)2 + (2 − 3)2 )2 − 2 √ k √ k √ k √ k = ((2 + 3)2 )2 + 2 · (2 + 3)2 · (2 − 3)2 + ((2 − 3)2 )2 − 2 √ k+1 √ k+1 = (2 + 3)2 + (2 − 3)2 . Logo c = 1 e b = 2k+1 − 1 é primo pois σ(b) = 2k+1 . Nosso próximo resultado é o critério de Lucas-Lehmer. Sk+1 = Sk2 − 2 para todo natural k.24.[SEC. Sabe-se apenas que um número perfeito ı́mpar. √ n−2 √ n−2 Suponha por absurdo que Mn | (2 + 3)2 + (2 − 3)2 e que Mn √ seja composto. Teremos n−2 n−2 (2 + 3)2 + (2 − 3)2 ≡ 0 (mod q) donde. 2k+1 − 1. se c > 1 então σ(b) = 2k+1 c ≥ 1 + 2k+1 − 1 + b. b são divisores de b = (2k+1 − 1)c.27. Mas 1. 7. Por outro lado. c. com k > 0 e b ı́mpar.

Suponha agora Mn primo. isto implica que 22 −1 ≡ 1 (mod Mn ) também. 7: PRIMOS √ √ n−2 √ n−2 √ G = (Z[ √ −1 3]/(q))× . mais pre- cisamente. pois o número de elementos de G é no máximo q 2 − 1 < 2n . devemos agora provar que √ √ n−1 n−1 (1 − 3)(1 + 3) ≡ −22 (mod Mn ) ⇐⇒ 22 −1 ≡ 1 (mod Mn ) Como n é primo. pois neste caso Sn−2 /Mn será um inteiro algébrico racional. √ Basta provar que. em Z[ 3]. o que significa que a ordem de 2 + 3 em G é exatamente 2n . temos √ √ √ (1 + 3)Mn ≡ 1 + ( 3)Mn ≡ 1 + 3(Mn −1)/2 3 3 √ √   ≡1+ 3 ≡ 1 − 3 (mod Mn ) Mn já que por reciprocidade quadrática temos M3n = − M3n = − −2    3 = −1. Lembramos que neste√caso n é n−2 primo. Mn divide Sn−2 = (2 + 3)2 + n−2 (2− 3)2 . Isto é muito útil quando procuramos primos de Mersenne pois podemos eliminar alguns expoen- tes encontrando fatores primos de Mp . Isto também pode ser útil para conjecturarmos quanto à “probabilidade” de Mp ser primo.40. como 2n ≡ 1 (mod Mn ). o que encerra a prova. Isto é um absurdo. quanto à distribuição dos primos de Mersenne. . Substituindo na expressão acima. Assim. Porém. devemos mostrar que √ n−2 √ n−2 (2 + 3)2 ≡ −(2 − 3)2 (mod Mn ) √ 2n−1 ⇐⇒ (2 + 3) ≡ −1 (mod Mn ) √ √ utilizando √ novamente √ 2 o fato que (2 + 3)(2 − 3) = 1. Mesmo quando Mp não é primo. portanto inteiro pelo lema 6. Note ainda que 2 + 3 = (1 + 3) /2 e que 2 é invertı́vel módulo Mn . Fica portanto demonstrado que se Sn−2 é múltiplo de Mn então Mn é primo. n√> 2.354 [CAP. logo temos que provar que √ n−1 (1 + 3)Mn +1 ≡ −22 (mod Mn ) Como Mn é primo. podemos garantir que seus fato- res primos serão de certas formas especiais. ou. temos (2+ 3)2 = −(2− 3)2 . Como √ 2n−12− 3 = (2 + 3) esta equação pode ser reescrita como √ (2 + 3) = −1 (ainda em G). 2n−1 − 1 é um múltiplo de n pelo pequeno teorema de n−1 Fermat.

que q ≡ 1 (mod p).6: SEQUÊNCIAS RECORRENTES E TESTES DE PRIMALIDADE 355 Proposição 7. Demonstraç ão: Se q = 2p+1 é primo então Mp = 2p −1 = 2(q−1)/2 − 2  1 ≡ q − 1 (mod q). Assim. Mp não é primo. contrariando a proposição anterior.[SEC. Mp não é primo. Seja √ P+ D α= . P e Q tais que D = P 2 − 4Q não é um quadrado módulo n. Para uma exposição mais geral sobre sequências recorrentes lineares. Isto é apenas uma conjectura: não se sabe demonstrar sequer que existem infinitos primos p para os quais Mp seja composto. Então q ≡ 1 (mod p) e q ≡ ±1 (mod 8). donde 2q = 1.e. Mas p ≡ 3 (mod 4) significa que q ≡ 7 (mod 8). Proposição 7. o que demonstra uma das  implicações da proposição. ele tem fatores primos r com r 6≡ 1 (mod p) (pois r < p). Por outro lado. Sejam p > 2 e q primos com q um divisor de Mp . ou seja. alguns muito grandes. Suponha dados inteiros n > 1. 2 . p ≡ 3 (mod 4). Demonstração: Se q divide Mp então 2p ≡ 1 (mod q). 2 ≡ 2p+1 = (2(p+1)/2 )2 (mod q). Os vários valores de p para os quais a primalidade de Mp foi testada sugerem que para a ampla maioria dos valores de p. r seria um fator primo de Mp . Vamos agora ver uma proposição que serve para garantir que para certos valores especiais de p. e somente se. Então 2p + 1 é primo (i. veja o Apêndice B. o que significa que a ordem de 2 módulo q é p (pois p é primo). Seja p primo. Se 2p + 1 dividisse Mp . Por outro lado. Mp ≡ 0 (mod q).28. donde 2q = 1. 2p + 1 divide Mp . Isto significa que p é um divisor de q − 1. o que significa que q ≡ ±1 (mod 8). se 2p + 1 não é primo. p é primo de Sophie Germain) se. 7.29. 7.6 Sequências Recorrentes e Testes de Prima- lidade Nesta seção veremos aplicações de certas sequências recorrentes li- neares a testes de primalidade.

. UmM = Um .  . D como se demonstra facilmente por indução. . b ∈ K já que p divide todos os coeficientes binomiais pj com 0 < j < p. . Vm1 . . Vm+1 = 2 2 e U2m = Um Vm . . Tais sequências são denominadas sequências de Lucas. em K temos pela fórmula do binômio que (a + b)p = ap + bp a. Vm+2 = P Vm+1 − QVm . podemos também escrever αm − αm Um = √ . É fácil provar por indução que √ m V m + Um D α = 2 para todo natural m onde Um e Vm são definidos recursivamente por U0 = 0. Um+2 = P Um+1 − QUm .356 [CAP. . V2m = Vm2 − 2Qm . . 7: PRIMOS raiz da equação X 2 − P X + Q = 0.21)√que se p > 2 é primo e d não é um quadrado módulo p então K = Z[ d]/(p) é um corpo com p2 elementos. 1}. Vm = αm + αm . Estas fórmulas nos permitem calcular Um e Vm módulo n em CPlog m operações (para alguma constante positiva C): escrevemos m = ai 2i com ai ∈ {0. V1 = P. Lembramos (proposição 6. definimos 0≤i<M X mk = ai+M −k 2i 0≤i<k e calculamos sucessivamente Um1 . Se √ P− D α= 2 é a segunda raiz da equação X 2 −P X +Q = 0. Segue destas fórmulas que P Um + Vm DUm + P Vm Um+1 = . V0 = 2. . U1 = 1. Umk . Além disso. VmM = Vm . Vmk .

temos αn = α em K. 1 Un−1 = √ (αn−1 − αn−1 ) = 0. Procla- mamos este resultado como uma proposição: Proposição 7. D  n = −1 e as sequências Um e Vm são definidas pelas recorrências U0 = 0.32. Demonstração: Acima. n . n . 2n 2 pois P n ≡P (mod n). αn−1 = 1 em K e portanto temos. então Un+1 ≡ 0 (mod n).31. ainda em K. Se n é primo ı́mpar. Do mesmo modo.[SEC.6: SEQUÊNCIAS RECORRENTES E TESTES DE PRIMALIDADE 357 Proposição 7. Assim. V1 = P. . Vm+2 = P Vm+1 − QVm . que é invertı́vel em K). assim como D e D. V0 = 2. Em K temos. Se n √é primo e D não é um quadrado módulo n então αn = α em K = Z[ D]/(n). D ou seja. Um+2 = P Um+1 − QUm . Esta proposição nos dá mais um algoritmo para testar a primalidade de n. Un−1 ≡ 0 (mod n).D e D é quadrado módulo n então Un−1 ≡ 0 (mod n). 7. 2n ≡2 (mod n) e D(n−1)/2 ≡ D  n ≡ − 1 (mod n). Demonstração: Temos em K √ √ nP n + D(n−1)/2 D P− D α = = = α. em K. αn+1 = αn+1 = αα. n−1 √ √ n Pn + D 2 D P+ D α = = =α 2n 2 donde αn−1 = 1 em K (pois α é invertı́vel em K: de fato. αα = Q. Segue da fórmula para Um que Un+1 ≡ 0 (mod n). 2 é invertı́vel. Se n 6= 2 é primo. Analogamente.30. Proposição 7.Q. U1 = 1. portanto. √ Demonstraç √ ão: No anel K = Z[ D]/(n).

e portanto é inteiro. o que implica que rk+1 ∈ Q ∩ Z[ D] pelo lema 6. e somente se. Um+0 = Um · U1 − QUm−1 · U0 (pois U1 = 1 e U0 = 0). Proposição 7. onde m = n − D n . U1 = 1 e Um+1 = P Um − QUn−1 ). n . Vamos usar este fato para mostrar por indução o seguinte resultado. que αm·n = αm·n + nk rk D. rk ∈ Z.Q. Observemos agora que se α = α em K então existe um inteiro r tal que √ αm = αm + nr D m m pois α √−α D ∈ Z.33. Se Ar = {k ∈ N∗ | Uk é múltiplo de r} é não vazio então existe a ∈ N∗ tal que r | Uk se. Proposição 7. o que implica a igualdade para todo n ∈ N. n 6= 0 temos Um+n = Um Un+1 − QUm−1 Un . k−1 k−1 Demonstraç √ ão: Vamos supor. que equivale ao enunciado. Sejam r ≥ 1 com mdc(r. o que se deve ao fato de αm ser igual a αm se m = n − D  no √ m m n anel K = Z[ D]/(n). para m = 1. e por outro √ n rk+1 = Um·nk é um inteiro. e.40. se n 6= 2 é primo.358 [CAP. por indução. para todo natural k ≥ 1. 7: PRIMOS Em suma. o que conclui a prova da afirmação. Um·nk−1 é múltiplo de nk . Um+1 = Um · U2 − QUm−1 · U1 (pois U2 = P . n ∈ N. Elevando os dois lados da equação à n-ésima potência temos k k−1 √ k √ αm·n = (αm·n + nk rk D)n = αm·n + nk+1 rk+1 D √ k+1 onde rk+1 pertence a Z[ D] por um lado. para n = 0. n . Demonstração: Observemos inicialmente que para todo m. os dois lados da igualdade satisfazem a mesma recorrência de segunda ordem Xk+2 = P Xk+1 − QXk . De fato. Q) = 1. Se n 6= 2 é primo. n .Q e n .D então. e temos. considerando m fixo e n variável.34. Tal a será denotado por ordr U . a | k. .D então Un−(D) é múltiplo n de n. ∀k ∈ N.

e portanto riαi | ordn U (ri ) | M para 1 ≤ i ≤ k. donde mdc(r. (r ) Isso implica que n = `β1 1 . . Por outro lado. n ∈ Ar ⇒ m + n ∈ Ar . . Assim. como mdc(n. e `. Se existe um inteiro d primo com n tal que para todo fator primo r de n+1 existem P (r) . se n = `β1 1 `β2 2 . e terı́amos Uk i ≡ (P (ri ) )k−1 (r ) (mod `j ) para todo k ≥ 1. para 1 ≤ j ≤ s. ` < s ⇒ s − ` ∈ Ar .6: SEQUÊNCIAS RECORRENTES E TESTES DE PRIMALIDADE 359 Como consequência. o que implica β1 = 1. logo r | Us−` . como (fazendo m = `. m. . se r | Um e r | Un então r | Um+n . e se  d  β1 β1 −1 `1 = −1 temos que `1 + 1 divide `1 (`1 + 1). o que implica que Ar é da forma descrita. `βs s é a fatoração prima de n. 0 < c < a.[SEC.33 que ord βj U (ri ) divide `j j (`j − `dj ) (A hipótese  `j `j -Q(ri )é satisfeita. se M = mmc{`j j (`j − d  βj (ri ) `j ). n = s − `) Us = U` Us−`+1 − QU`−1 Us−` temos que r divide QU`−1 Us−` . r Demonstração: Seja n+1 = r1α1 r2α2 . `j não divide D(ri ) . como a ∈ Ar . . e `j não dividiria Uk i para nenhum k ≥ 1. . Q(r) e m(r) inteiros com mdc(m(r) . mas k ∈ Ar e. 2. De fato. 7. Temos agora duas possibilidades: 1. `βs s divide UMi para 1 ≤ i ≤ k. k. s ∈ Ar . d) = 1. r) = 1 e mdc(U`−1 . Por ou- tro lado.35. U`−1 ) também é igual a 1. existiriam b e c naturais com k = ab + c. Assim. com a = min Ar (de fato. se r | U` e r | Us . . n é primo. ou seja. `j não dividiria P (ri ) . n) = 1 e D(r) = (P (r) )2 − 4Q(r) ≡ d(m(r) )2 (r) (r) (mod n) tais que a sequência de Lucas associada (Uk ) satisfaz Un+1 ≡ 0 (r) (mod n) e U n+1 6≡ 0 (mod n) então n é primo. se existe k ∈ Ar que não seja múltiplo de a. . Seja n > 1 um inteiro ı́mpar. (ri ) β −1 contradizendo o fato de n dividir Un+1 ). ab ∈ Ar . logo c = k − ab pertenceria a Ar . Teorema 7. . (r ) se `j dividisse Q(ri ) . s = 1. e. rkαk a fatoração prima de n+1. Nesse caso temos que n + 1 divide M = `β1 1 −1 (`1 − `d1 )  o que é absurdo se `d1 = 1. pois terı́amos M < `β1 1 = n. com ` < s então. 1 ≤ j ≤ s} temos que `j divide UM . . As hipóteses implicam que riαi divide ordn U (ri ) para i = 1. U` ) divide Q`−1 (o que pode ser facil- mente provado por indução a partir de U`+1 = P U` − QU`−1 ). contradizendo a definição de a). mas mdc(Q. donde n + 1 divide M . segue β −1 da Proposição 7. . 1 ≤ i ≤ k. .

37. 1≤j≤s 2 s `βj −1 (` − d )  s Y j j `j Y `j + 1 ≤2 ≤ 2n . . (ri ) também temos ord` U (ri ) | N + 1. donde ord` U (ri ) . Nas condições da proposição. s ≥ 2. N ) = 1 então cada fator primo ` de N r satisfaz ` ≡ d` (mod F ). Se ` é um fator primo de N . Se existe um inteiro d primo com N tal que para todo fator primo r de F (r) existe uma sequência de Lucas Un associada a inteiros P (r) .  Demonstração: Se F = r1α1 r2α2 . ord` U (ri ) divide ` − d` . N +1 ri . donde riαi divide  `− d` para 1 ≤ i ≤ k =⇒ F divide `− d` =⇒ ` ≡ d` (mod F ).    Corolário 7. Como mdc(N. 7: PRIMOS 2. devida a Morrison. . Q(r) e um inteiro m(r) primo com N e D(r) = (P (r) )2 − 4Q(r) ≡ d(m(r) )2 (mod N ) (r) (r) tal que N | UN +1 e mdc(U N +1 . 1≤j≤s `j ( βj −1 (`j − `dj )  ) `j = 2 mmc . Seja N > 1 um inteiro ı́mpar e N + 1 = F R.U N +1 . se F > R então N é primo. Nesse caso (   ) β −1 d M = mmc `j j `j − .360 [CAP. A seguinte proposição. e portanto riαi divide ord` U (ri ) para ri 1 ≤ i ≤ k. Por outro lado. rkαk é a fatoração canônica de F então ordN U (ri ) | N + 1 para 1 ≤ i ≤ k. . é análoga ao resultado de Pocklington: Proposição 7.36. U N +1 ) = 1 segue que ri (ri ) ` . 2 2`j j=1 j=1 4 6 que é sempre menor que n (pois 2 · 6 · 10 < 1) e portanto é um absurdo que n + 1 divida M .

logo também divide UMn +1 = U2n = U2n−1 V2n−1 . menor ou igual Como F > N + 1. que deve. o que implica na primalidade de n pois n não tem nenhum fator primo menor ou igual à sua raiz quadrada. Q(r) inteiros com mdc(D(r) . F 2 − 1 > N . Assim. Além disso. e Vk2 − 12Uk2 = 4(−2)k . Para r ≥ 1 temos √ r √ r √ r−1 √ r−1 V2r = (1 + 3)2 + (1 − 3)2 = (4 + 2 3)2 + (4 − 2 3)2 r−1 √ r−1 √ r−1  r−1 = 22 (2 + 3)2 + (2 − 3)2 = 22 Sr−1 (onde S0 = 4. donde o outro fator primo de N também deve ser igual a F − 1. Proposição 7. se algum fator de Mn divide U Mn +1 . pois. donde √ n + 1 divide `2 − 1. Sm+1 = Sm 2 − 2. U2k = Uk Vk para todo k ∈ N. se r (r  rαr é a maior potência de r que divide n + 1. r Demonstração: Seja ` um fator primo de n. rαr divide `2 − 1 = (` − 1)(` + 1). Assim. Vamos agora dar outra prova do critério de Lucas-Lehmer usando os resultados anteriores. Para cada fator primo (r) (r) r de n + 1 temos que Un+1 ≡ 0 (mod `) e U n+1 6≡ 0 (mod `). ser igual a F − 1. então rαr divide ` − D` ). ∀m ∈ N). absurdo. se N é composto. é a P = 2. 7.38. como U Mn +1 = U2n−1 .6: SEQUÊNCIAS RECORRENTES E TESTES DE PRIMALIDADE 361 Demonstração: Qualquer fator primo de N deve ser congruente a 1 ou a −1 módulo F . e F − 1 igual a 1. segue que 2 n−1 +2 V22n−1 −12U22n−1 = 22 . e. onde Vk = (1 + 3)k + (1 − 3)k . divide 2 . Seja n > 1 um inteiro ı́mpar. mas.[SEC. Se para todo fator primo r de n + 1 existem P (r) . e terı́amos N = (F − 1)2 ⇒ N + 1 = F 2 − 2F + 2. Temos (1 + 3)k = dada pela fórmula Uk = 2√ ((1 3√ + 3) Vk √ √ 2 + Uk 3. n) = 1 então n é primo. deve ter um fator primo √ à sua raiz quadrada. Em particular. logo FN−1 < F + 1. Demonstração: A sequência de 1 √ Lucas associada √ √ −2. e. `2 − 1 ≥ n + 1 donde ` > n. Q = k − (1 − 3)k ). Se n > 2 e M = 2n − 1 n divide Sn−2 então Mn divide V2n−1 . como acima. n) = 1 onde (r) D(r) = (P (r) )2 − 4Q(r) tais que a sequência de Lucas associada (Uk ) (r) (r) satisfaz Un+1 ≡ 0 (mod n) e mdc(U n+1 . que só seria múltiplo de F se F fosse igual a 2.

o que conclui nossa nova demonstração do critério de Lucas-Lehmer. se Mn é primo.a = a·2n −1 números primos que 2n > a. pela proposição anterior. logo Mn divide UMn +1 = U2n . Isto fornece recı́procas para os resultados desta seção. donde terı́amos em K. pois ordK x = N 2 − 1 = (N − 1)(N + 1) > (N − 1)m. Assim.a é primo se. e. . Mn n+1 pois 2 ≡ 2n+1 ≡ (2 2 )2 (mod Mn ) (já sabemos que n deve ser um primo ı́mpar).31. logo é igual a 1. √ senão x pertenceria a Z/(M ) ⊂ K e ordK x dividiria N − 1.362 [CAP. UN +1 ≡ 0 (mod N ). se P = 2a. Problemas Propostos 7. logo x(N −1)m = 1. Mostre que Mn. Assim. √Se N é um primo ı́mpar e d não é quadrado módulo N . ordN U = N + 1. Temos ainda b 6= 0 em K. Sn−2 é divisı́vel por Mn. Assim. Temos √ n √ n √ √ V2n = (1 + 3)2 + (1 − 3)2 = (1 + 3)Mn +1 + (1 − 3)Mn +1 . se m é menor que N + 1. √ √ √ √ √ é igual a (1 − 3 3)(1 que  + 3) + (1 +2 3)(1 − 3) = −4 em K = Z[ 3]/(Mn ) (pois Mn = −1) donde V2n−1 = V2n + 4 ≡ 0 (mod Mn ) e n−2 portanto Mn | V2n−1 = 22 Sn−2 . Assim. Mn é primo. Temos U0 = 0. M n = Mn = − M3n = 1. caso N divida Um terı́amos xm = xm em K.30.17 (Lucas-Lehmer-Riesel). Pela proposição 7. U1 = 1 e Um+2 = 2aUm+1 − (a2 − db2 )Um para todo m ∈ N. absurdo. como D = 12. para m ∈ N. x = xN . Sejam a e Mn. Q = a2 − db2 D então D = P 2 − 4Q = 4db2 satisfaz N = −1. 7: PRIMOS n−1 também 22 +2 . Mn divide Sn−2 . b e d são invertı́veis em K e. 12 3   Por outro lado. Um = (xm − xm )/2b d. e somente se. √ com 6 tais √ Definimos recursivamente a sequência {Sj } onde S0 = (2 + 3)a + (2 − 3)a e Sj+1 = Sj2 − 2. como  n−1 Mn +1 V22n−1 = V2n + 2(−2)2 = V2n + 2 · 2 2   Mn −1 2 = V2n + 4 · 2 2 ≡ V2n + 4 ≡ V2n + 4 (mod Mn ). então K = 2 elementos e portanto existem Z[ d]/(N ) é um corpo finito com √ N inteiros a √ e b tais que x = a + b d é uma raiz primitiva √ de K.a . Sejam x = a − b d e. Por outro lado. Pela proposição 7. (x/x)m = 1.

mat. Baum [35]. o algoritmo de Karatsuba. No endereço ftp://ftp. Estes programas são de cunho puramente pedagógico. . Para multiplicar dois inteiros de n dı́gitos na base d procedemos basica- mente a partir da fórmula: X X X ( ai di )( bj dj ) = ai bj di+j : i j i. principalmente em termos de velocidade. e têm apenas o propósito de ilustrar os principais aspectos matemáticos de uma boa implementação dos testes de primalidade.7.puc-rio. Efetuamos no processo n2 multiplicações e um número comparável de somas. muito além do ideal.br/pub/users/nicolau/mersenne/mersenne. Aqui faremos várias considerações quanto ao valor prático destes cri- térios.j calculamos (ou olhamos na tabuada) todos os produtos de um dı́gito de um dos inteiros com um dı́gito do outro. Se isto fosse o melhor que pudéssemos fazer. 7. assim. sendo nosso objetivo dar uma ideia geral do funcionamento dos programas que encontraram os maiores números primos conhecidos.7: ASPECTOS COMPUTACIONAIS 363 7.7 Aspectos Computacionais Nas seções anteriores demonstramos vários critérios de primalidade.1 O Algoritmo de Multiplicação de Karatsuba A forma de multiplicar inteiros ensinada na escola é simples e con- veniente para inteiros relativamente pequenos. usado pela biblioteca gmp (e portanto por nossos programas acima). A parte deste capı́- tulo referente a este tema está fortemente baseada no livro de M. Clausen e U. 7.[SEC. Existem entretanto outros algoritmos de multiplicação: examinemos primeiro um algoritmo relativamente sim- ples. Ve- remos que uma das nossas principais preocupações será a de saber mul- tiplicar inteiros rapidamente e os melhores algoritmos para esta tarefa estão baseados na transformada de Fourier discreta. mas vejamos seu custo. o tempo gasto com este algoritmo é aproximadamente An2 para alguma constante positiva A. multiplicamos pela potência de d apropriada (o que equivale a acrescentar zeros à direita) e somamos as n2 parcelas obtidas.tgz encontram-se implementações de alguns destes algoritmos escritas na linguagem C. o tempo para checar a primalidade de Mp seria aproximadamente Ap3 .

representados pelos seus coeficientes: X P (x) = aj xj = a0 + a1 x + · · · + an−1 xn−1 . 0≤j<n . calcuları́amos os quatro produtos de inteiros com m dı́gitos. os produtos A1 B0 e A0 B1 não são necessários individualmente. Mais precisamente. onde α = (log 3)/(log 2). Entretanto. Mesmo que o número de somas aumente. 7: PRIMOS Sejam A e B dois inteiros com n dı́gitos cada um. Assim.364 [CAP. 0≤j<n X Q(x) = bj xj = b0 + b1 x + · · · + bn−1 xn−1 . e podemos calcular sua soma da seguinte forma: A1 B0 + A0 B1 = (A1 − A0 )(B0 − B1 ) + A1 B1 + A0 B0 . Em outras palavras. podemos escrever AB = A1 B1 (d2m + dm ) + (A1 − A0 )(B0 − B1 )dm + A0 B0 (dm + 1). podemos escrever A = A1 dm + A0 . podemos calcular os três coeficientes com apenas três multipli- cações (ao invés de quatro) e algumas somas. se denotarmos por f (n) o tempo necessário para multiplicar inteiros de n dı́gitos temos f (n) ≈ 3f (dn/2e) + An e provamos facilmente que f (n) ≈ Anα . Assim. repetimos este processo para diminuirmos o ta- manho dos inteiros. 7. B = B1 dm + B0 e 2m AB = A1 B1 d + (A1 B0 + A0 B1 )dm + A0 B0 . Pelo algoritmo anterior. Q ∈ C[x]. de grau menor do que n.7. já sabemos que somas são rápidas e portanto pode- mos esperar que este algoritmo represente uma melhora substancial em relação ao anterior.2 Multiplicação de Polinômios Usando FFT Suponha que queiramos multiplicar dois polinômios P. Se m = dn/2e.

reduzimos o problema de calcular um polinômio de grau n em dois pontos ao problemas de calcular dois polinômios de grau n/2 em um mesmo ponto. onde ω = e2πi/n é uma raiz da unidade de ordem n.7: ASPECTOS COMPUTACIONAIS 365 O método aprendido na escola exige n2 multiplicações. . . P (ξn ) reduz-se ao cálculo de P+ (ξ02 ). . . o cálculo de P (ξ0 ). . P+ (ξ(n/2)−1 2 ). 0≤j<n/2 X P− (x) = a2j+1 xj . . Se os valores ξj forem escolhidos sem critério este método pode acabar sendo mais lento do que os outros que já apresentamos. o método de Ka- ratsuba pode ser adaptado para este problema e exige aproximadamente nα multiplicações. com α = (log 3)/(log 2). . P− (ξ02 ). ξn−1 e em recuperar P Q a partir de seu valor nestes mesmos pontos. podemos escrever P (ξj ) = P+ (ξj2 ) + ξj P− (ξj2 ). . P− (ξ(n/2)−1 2 ) seguido de 3n/2 operações. Veremos agora como efetuar esta multiplicação com um número muito menor de operações. com por exemplo ξj+(n/2) = −ξj . . onde X P+ (x) = a2j xj . . . 0≤j<n/2 Ou seja. P (−ξj ) = P+ (ξj2 ) − ξj P− (ξj2 ). . A dificuldade em usar este método está em calcular os valores de P e Q nos n pontos ξ0 . uma soma e uma subtração. .[SEC. . Suponha que ξk = −ξj 6= 0 então as potências pares de ξj e ξk coincidem. . enquanto as potências ı́mpares diferem pelo sinal. Veremos que certas escolhas de n e ξj tornam o algoritmo rápido: uma das mais simples é tomar n uma potência de 2 e ξj = ω j . . . ξn−1 . Temos evidentemente (P · Q)(ξj ) = P (ξj ) · Q(ξj ): se o produto P Q tem grau menor do que n então P Q é o único polinômio que assume estes n valores. . . . Se n é par. Se os ξj sempre ocorrerem aos pares. 7. . Isto nos permite economizar multiplicações quando calculamos P (ξj ) e P (ξk ) = P (−ξj ) simultaneamente. Uma ideia é a de considerar os polinômios como representados não pelos seus coeficientes e sim pelos seus valores em n pontos distintos ξ0 . . seguido de uma multiplicação.

. podemos reformular esta condição como ξj+(n/4)2 = −ξj2 .. Façamos agora uma estimativa de T (n). P (ω n−1 ).. sem perda de generalidade.. T (4) = 12 e. Devemos assim tomar ξj = ω j ξ0 e a escolha ξ0 = 1 parece particularmente simples. . a multiplicar (DF Tn )−1 por um vetor. . .. .. 7: PRIMOS O ideal é que pudéssemos repetir o processo acima. é possı́vel calcular P (1). . .366 [CAP. ω 2(n−1)   a2 . .  . .   . O que aprendemos nos pa- rágrafos acima foi a multiplicar DF Tn por um vetor rapidamente (pelo menos quando n é uma potência de 2). que n seja múltiplo de 4 e que também no conjunto ξ02 . ω n−1    a1     P (ω 2 )  1 = ω2 ω4 . j < n. . .  . . Mas para isto basta . apren- demos a escrever DF Tn como um produto de log2 n matrizes esparsas cujos coeficientes não nulos são potências de ω. como ξj+(n/4) = iξj . Reordenando os termos. ou seja. .   . cada matriz esparsa correspondendo a uma etapa do algoritmo FFT. a transformada de Fourier discreta . . ou seja.. P (ω n−1 ) muito rapidamente.. Daı́ temos T (2) = 3. Para podermos repetir este processo um número máximo de vezes. . .   . . devemos tomar n como uma potência de 2 e ξj+k = ω k ξj .  2 P (ω n−1 ) 1 ω n−1 ω 2(n−1) . . onde ω = e2πi/n . Temos      P (1) 1 1 1 .. . T (2k ) = 3k · 2k−1 . . ω (n−1) an−1 a matriz de ordem n e coeficientes ω ij . ou. o número de operações usadas neste algoritmo para calcular P (ξ0 ). . Reformulemos este problema na linguagem de álgebra linear. Já vimos que T (n) = 2T (n/2) + 3n/2. claramente T (1) = 0. é chamada de DF Tn . . P (ξn ). . Em termos algébricos. ξ(n/2)−1 2 os núme- ros ocorressem em pares diferindo apenas por sinal. .. 0 ≤ i. . Assim. Falta aprender a recuperar os coeficientes de um polinômio P a partir de P (1). . 1 a0   P (ω)  1   ω ω2 . por uma indução simples.   ..

ω −1 j Assim. 0 0 0 1 0 .7: ASPECTOS COMPUTACIONAIS 367 observar que   1 0 0 . ... . an−1 )t . .[SEC. . 0 0 pois o coeficiente (i. .. . An−1 ). Output: O vetor (A0 . a0 . an−1 . ω ` 6= 1 e X ω `n − 1 ω `j = ` = 0.. . . ω 2 . . . . a2 .. Ak+n/2 = Ek − ω k Ok .. . . A0 . . .. . ω 2 .. . . . a1 . o coeficiente (i. . . . . . begin if n = 1 then A0 = a0 . A1 . On/2−1 ).. E0 . Reproduzimos abaixo o pseudo-código de [35] para este algoritmo: Input: O comprimento n (uma potência de 2). an−1 ) de coeficientes complexos. . uma raiz primitiva da unidade ω de ordem n. . ω. else F F T (n/2. ..  ..  . O0 . .. 7. F F T (n/2. a0 . j) de (DF Tn )−1 é (1/n)ω −ij e este processo de FFT inversa (ou interpolação) é tão fácil e rápido quanto FFT (ou eva- luação). a3 . 0 0 0 0 0 . . 1 0 2 (DF Tn ) = n ·  . .   0 0 1 . . En/2−1 ). .. . end . k) de (DF Tn )2 é X X ω ij ω jk = ω (i+k)j j j que é igual a n se i + k ≡ 0 (mod n) e 0 caso contrário pois se n .   . . um vetor (a0 . 0 1   0 0 0 . . .. . an−1 . an−2 . An−1 )t = (DF Tn )(a0 . a1 . Temos portanto um algoritmo para multiplicar polinômios de grau n fazendo aproximadamente Cn log n operações (onde C é uma constante positiva)..`. . . . . . for k = 0 to n/2 − 1 do Ak = Ek + ω k Ok . procedure F F T (n. .

ξn−1 . . 3. Um exemplo de corpo onde existe um tal ω é Z/(p) se p ≡ 1 (mod n). k Se desejarmos calcular ab onde X b = Q(d). 2.7. Na verdade não é sequer necessário que os coeficientes estejam em um corpo: podemos trabalhar sobre qualquer anel A onde exista ω com as seguintes propriedades: 1. se 0 < ` < n então ω ` − 1 é invertı́vel em A. X a= ak d k . Lembramos que este algoritmo calcula corretamente o produto dos polinômios P e Q desde que este produto tenha grau menor do que n. Como estamos tomando sempre ξj = ω j ξ0 temos (x − ξ0 )(x − ξ1 ) · · · (x − ξn−1 ) = xn − ξ0n e nosso algoritmo calcula P Q mod (xn − ξ0n ). n é invertı́vel em A.368 [CAP. . ω n = 1. k podemos pensar que estamos escrevendo X a = P (d). Q(x) = bk xk k . P (x) = ak xk . . estaremos encontrando o único polinômio de grau menor que n que coincide com P Q em ξ0 .3 Multiplicação de Inteiros Usando FFT Quando escrevemos um inteiro a na base d. ξ1 . 7: PRIMOS Até agora consideramos polinômios com coeficientes em C mas o leitor atento já deve ter percebido que podemos usar o mesmo algoritmo para multiplicar polinômios sobre qualquer corpo K desde que exista em K um elemento ω que seja uma raiz da unidade de ordem n. Na próxima seção veremos uma situação onde será interessante trabalhar com A = Z/(2K + 1). Mais geralmente. 7. .

.7: ASPECTOS COMPUTACIONAIS 369 podemos usar o algoritmo da seção anterior para calcular os coeficientes ck do produto X X (P Q)(x) = ck xk . Uma segunda alternativa é escolher um primo p e fazer a multiplica- ção de polinômios considerando os coeficientes como elementos de Z/(p). c0k = ck − ek−1 + dek . . teremos X ab = c0k dk . ele é usado pelo programa mprime-prime95. e as partes real e imaginária des- tes números complexos são irracionais. o que evita que os coeficientes ck sejam grandes demais.[SEC. . . um dos mais rápidos para multi- plicar inteiros grandes (em parte porque a maioria dos computadores é capaz de multiplicar doubles com grande rapidez). Os ck em geral não serão dı́gitos aceitáveis para uma expansão na base d do inteiro ab mas isto pode facilmente ser corrigido: escrevemos c00 = c0 + de0 . que encontrou os últimos 4 primos de Mersenne. também ajuda muito tomar o con- junto dos dı́gitos aceitáveis simétrico em relação ao zero. ck = aj bk−j k j e temos ab = (P Q)(d). A dificuldade maior reside no fato que as contas descritas na seção anterior envolvem números complexos. . . Para recuperarmos os verdadeiros coeficientes do produto (que são in- teiros). o que implica em uma transformada de Fourier de comprimento maior). Por isso. Esta possibilidade desastrosa pode ser evitada tomando d pequeno (e portanto grau grande. 7. Ao final. pois assim os produtos aj bk−j serão menores e terão sinais diferentes. onde a cada passo tomamos c0k como sendo um dı́gito aceitável. É claro que precisamos ter o cuidado de evitar que os erros de truncamento somem mais do que 0. c01 = c1 − e0 + de1 . precisamos ter o cuidado de garantir que |ck | < p/2 onde ck = . k a expansão de ab na base d. Uma alternativa é fazer as contas usando variáveis do tipo double. teremos inevitavelmente erros de trun- camento mas o fato de sabermos que a resposta final é um inteiro nos dá uma oportunidade de corrigir estes erros. . . 5: neste caso acabarı́amos arredondando a resposta final para o in- teiro errado. Mesmo para inteiros bem mai- ores do que o maior primo conhecido existem valores de d que garantem o bom funcionamento deste método.

Um primo usado em alguns programas3 é p = 264 − 232 + 1. b = bj dj . 0≤i<2m −1 0≤j<2m −1 m m onde m = bn/2c + 1 e d = 2N/2 . Consideraremos apenas valores de N ≥ 320 da forma N = ν · 2n . apesar de computacionalmente atraentes. X X a= ai di . mas não será fácil provar que existem sempre primos com as propriedades desejadas. podemos fazer FFTs de comprimento 232 com d = 216 .e. Se N for tomado suficientemente grande este algoritmo multiplica inteiros. P que tem aliás várias propriedades especiais que o tornam particularmente apropriado para nossa tarefa. n ≥ 4.demon. o que permite 32 (em princı́pio) multiplicar inteiros de módulo menor do que 216·2 −1 . estes valores de N serão chamados de aceitáveis. escrevemos os inteiros a e b a serem multiplicados na base d. não satisfazem ao matemático puro pois funcionam para inteiros menores do que um certo tamanho fixo (apesar de muito grande). Mais precisamente. mostraremos como multiplicar inteiros (dados por suas expansões binárias) módulo 2N + 1. cµ = ai bj − ai bj . Uma outra vantagem deste método é que será muito fácil multiplicar por potências de ω (assim tornando rápidas as FFTs). ou seja.. como 232 | p − 1. podemos escrever c ≡ ab (mod 2N + 1) com X X X c= bµ dµ . 7: PRIMOS aj bk−j . inteiros com alguns bilhões de dı́gitos. Supomos que já sabe- mos multiplicar módulo 2K + 1. n − 1 ≤ ν ≤ 2n. Com este valor de p.co. 0≤µ<2m −1 i+j=µ i+j=µ+2m 3 Em particular no StrongARM. mas em Z/(2K + 1) (mesmo 2K + 1 não sendo primo) e assim evitaremos esta dificuldade. bj < d.370 [CAP. onde K = κ · 2k < N também é um valor aceitável (a ser escolhido). Para usar a multiplicação de polinômios. Temos d2 = 2N ≡ −1 (mod 2N + 1). Assim. Veremos agora como multiplicar inteiros de tamanho arbitrário em tempo baixo fazendo as contas não em Z/(p). 0 ≤ ai . esta é a versão simplificada de Schönhage de um algoritmo devido a Schönhage e Strassen. Mas estas alternativas. veja http://www. A segunda alternativa apresentada acima pode ser levada adiante tomando primos cada vez maiores.uk/armprime/ .axis. i. o simples armazenamento de um tal inteiro exige memória maior do que a que tem a maioria dos computadores atuais.

i+j≡µ (mod 2m ) Note que podemos efetuar tanto FFT quanto FFT inversa pois 2m e ω i − 1 são inversı́veis módulo 2K + 1 (o que deixamos como exercı́cio). mencionamos ainda que existem alternativas assintoti- camente mais eficientes para multiplicar inteiros. note que por operação aqui queremos dizer uma operação sobre bits. Finalmente. mais precisamente. log∗ n = ∗ 1 + log (log n) se n > 1 ∗ Na vida real. 2m multiplicações ponto a ponto (também sobre Z/(2K +1)) e uma FFT inversa de comprimento 2m . exigem no máximo CK operações cada uma (para alguma constante po- sitiva C). É fácil verificar que podemos escolher κ = d(ν + 1)/2e e k = dn/2e + 1. efetuamos duas FFTs de comprimento 2m sobre Z/(2K +1). Assim. Em todo o algoritmo.[SEC. observe que K = κ · 2k é de fato aceitável. O número total T (N ) de operações satisfaz assim a recorrência T (N ) ≤ 2m T (K) + Cm · 2m K donde podemos demonstrar que. ou seja. entretanto. sabemos efetuar estas contas módulo 2K + 1 mas novamente precisamos do valor de cada cµ como inteiro. Falta apenas estimar o número de operações gasto por este algoritmo. temos X cµ ≡ ω̃ −µ (ω̃ i ai )(ω̃ j bj ) (mod 2K + 1). O algoritmo de Fürer ∗ (ver [56]) tem complexidade n log n 2O(log n) . Observe que como ω é uma po- tência de 2. T (n) ≤ CN log N log log N. as multiplicações por potências de ω que ocorrem nas FFTs são rápidas pois são apenas translações dos dı́gitos. 7. a diferença entre log log n e 2log n é tão pequena que apenas se faz sentir para números astronomicamente gigantes. para alguma constante positiva C. onde log∗ n denota a fun- ção definida recursivamente por ( 0 se n ≤ 1. cada FFT exige no máximo Cm · 2m K operações. . Como ω 2 ≡ −1 (mod 2K + 1) temos que ω é uma raiz da unidade em Z/(2 + 1) de ordem 2m : este valor de K ω pode ser usado para fazer FFT como na seção anterior. m m−1 Sejam ω̃ = 2K/2 e ω = ω̃ 2 . precisamos escolher K de tal forma que possamos garantir que |cµ | ≤ 2K−1 .7: ASPECTOS COMPUTACIONAIS 371 Pela seção anterior e por indução.

difere por uma constante multiplicativa).. Elevar ao quadrado um inteiro de N dı́gitos. calcular bQ2N /nc (se trabalharmos na base Q). 1. Faremos isto da seguinte forma: (a) Quem sabe multiplicar sabe elevar ao quadrado. ou seja.e.372 [CAP.e. (e) e (f) são triviais. Note que adições e subtrações são mais rápidas e desprezaremos o tempo exi- gido por essas operações. 0 ≤ r < m. O item (b) segue de mn = ((m+n)2 −(m−n)2 )/4. ou ainda. O item (d) segue de x2 = (x−1 −(x+1)−1 )−1 −x. 7: PRIMOS 7. encontrar os primeiros 2N dı́gitos depois da vı́r- gula de 1/n. 3. Fazer a divisão com resto de dois inteiros de N dı́gitos. Os itens (a). (e) Quem sabe multiplicar e inverter sabe dividir com resto. multiplicando o tempo necessário por uma constante. Inverter. onde n tem N dı́gitos.7. (d) Quem sabe inverter sabe elevar ao quadrado. i. (f) Quem sabe dividir com resto sabe inverter. 4. Mostraremos nesta seção que o tempo necessário para realizar qualquer uma das operações abaixo é assintoti- camente o mesmo (isto é. Não se conhece nenhum algoritmo que seja assintoticamente mais rápido mas também não se sabe demonstrar que não existe um tal algoritmo. Multiplicar inteiros de N dı́gitos.. (c) Quem sabe multiplicar sabe inverter. 2. 1] (x um número real .4 A Complexidade das Operações Aritméticas Vimos na seção anterior que o número de operações (e portanto o tempo) necessário para multiplicar inteiros de N dı́gitos é aproximada- mente (a menos de um fator constante) N log N log log N se utilizarmos um dos algoritmos descritos. dados n e m encontrar q e r com n = qm + r. Estas operações podem ser reduzidas uma às outras com a mesma ordem de grandeza de tempo. i. (b) Quem sabe elevar ao quadrado sabe multiplicar. O item (c) segue do fato que se x = n/QN ∈ (1/Q.

De fato temos y 0 − 1/x = −x(y − 1/x)2 donde |y 0 − 1/x| ≤ |y − 1/x|2 . Este algoritmo pode ser visto como uma aplicação do método de Newton para a função f (t) = −x + 1/t. Q) é uma aproximação para 1/x com k casas de precisão então y 0 = y(2 − xy) é uma aproximação para 1/x com aproximadamente 2k casas de precisão.[SEC.7: ASPECTOS COMPUTACIONAIS 373 dado com uma certa precisão) e se y ∈ [1. . isto garante que o tempo total para obter N dı́gitos de 1/x é comparável ao tempo de uma multiplicação de inteiros com N dı́gitos. donde as primeiras multiplicações podem ser feitas com poucos dı́gitos. Note que as primeiras aproximações para 1/x po- dem ser calculadas com poucos dı́gitos de precisão. 7.

Estas tabelas se tornam obsoletas rapidamente.utm. então ao leitor recomendamos consultar a página http://primes.374 [CAP.8 Tabelas Nesta última seção apresentaremos algumas tabelas indicando alguns dos maiores primos conhecidos no momento da conclusão do livro (24 de Junho de 2013).html para uma lista mais atualizada contendo os recordes de primos. Maiores pares de primos gêmeos conhecidos Primo Número de dı́gitos Data 3756801695685 · 2666669 ± 1 200700 2011 65516468355 · 2333333 ± 1 100355 2009 2003663613 · 2195000 ± 1 58711 2007 194772106074315 · 2171960 ± 1 51780 2007 100314512544015 · 2171960 ± 1 51780 2006 16869987339975 · 2171960 ± 1 51779 2005 33218925 · 2169690 ± 1 51090 2002 22835841624 · 754321 ± 1 45917 2010 1679081223 · 2151618 ± 1 45651 2012 84966861 · 2140219 ± 1 42219 2012 12378188145 · 2140002 ± 1 42155 2010 23272426305 · 2140001 ± 1 42155 2010 8151728061 · 2125987 ± 1 37936 2010 . 7: PRIMOS 7.edu/largest.

8: TABELAS 375 Maiores primos de Sophie Germain conhecidos Primo Número de dı́gitos Data 18543637900515 · 2666667 − 1 200701 2012 183027 · 2265440 − 1 79911 2010 648621027630345 · 2253824 − 1 76424 2009 620366307356565 · 2253824 − 1 76424 2009 607095 · 2176311 − 1 53081 2009 48047305725 · 2172403 − 1 51910 2007 137211941292195 · 2171960 − 1 51780 2006 31737014565 · 2140003 − 1 42156 2010 14962863771 · 2140001 − 1 42155 2010 33759183 · 2123458 − 1 37173 2009 7068555 · 2121301 − 1 36523 2005 2540041185 · 2114729 − 1 34547 2003 1124044292325 · 2107999 − 1 32523 2006 Maiores primos de Mersenne conhecidos Primo Número de dı́gitos Data 257885161 − 1 17425170 2013 243112609 − 1 12978189 2008 242643801 − 1 12837064 2009 237156667 − 1 11185272 2008 232582657 − 1 9808358 2006 230402457 − 1 9152052 2005 225964951 − 1 7816230 2005 224036583 − 1 7235733 2004 220996011 − 1 6320430 2003 213466917 − 1 4053946 2001 Denote por n# o produto dos primos menores do que ou iguais a n. 7. enquanto que os . Primos da forma n# ± 1 são chamdos de primoriais.[SEC.

Maiores primos primoriais conhecidos Primo Número de dı́gitos Data 1098133# − 1 476311 2012 843301# − 1 365851 2010 392113# + 1 169966 2001 366439# + 1 158936 2001 145823# + 1 63142 2000 42209# + 1 18241 1999 24029# + 1 10387 1993 23801# + 1 10273 1993 18523# + 1 8002 1989 15877# − 1 6845 1992 13649# + 1 5862 1987 Maiores primos fatoriais conhecidos Primo Número de dı́gitos Data 150209! + 1 712355 2011 110059! + 1 507082 2011 103040! − 1 471794 2010 94550! − 1 429390 2010 34790! − 1 142891 2002 26951! + 1 107707 2002 21480! − 1 83727 2001 6917! − 1 23560 1998 6380! + 1 21507 1998 3610! − 1 11277 1993 3507! − 1 10912 1992 1963! − 1 5614 1992 1477! + 1 4042 1984 . 7: PRIMOS da forma n! ± 1 são chamados de fatoriais.376 [CAP.

.8: TABELAS 377 O maior primo conhecido ao longo da história Primo Algarismos Data Descobridores 217 − 1 6 1588 Cataldi 219 − 1 6 1588 Cataldi 231 − 1 10 1772 Euler 999999000001 12 1851 Loof (259 − 1)/179951 13 1867 Landry (253 + 1)/(3 · 107) 14 1867 Landry 2127 − 1 39 1876 Lucas (2148 + 1)/17 44 1951 Ferrier 180(2127 − 1)2 + 1 79 1951 Miller & Wheeler 2521 − 1 157 1952 Robinson 2607 − 1 183 1952 Robinson 21279 − 1 386 1952 Robinson 22203 − 1 664 1952 Robinson 22281 − 1 687 1952 Robinson 23217 − 1 969 1957 Riesel 24423 − 1 1332 1961 Hurwitz 29689 − 1 2917 1963 Gillies 29941 − 1 2993 1963 Gillies 211213 − 1 3376 1963 Gillies 219937 − 1 6002 1971 Tuckerman 221701 − 1 6533 1978 Noll & Nickel 223209 − 1 6987 1979 Noll 244497 − 1 13395 1979 Nelson & Slowinski 286243 − 1 25962 1982 Slowinski 2132049 − 1 39751 1983 Slowinski 2216091 − 1 65050 1985 Slowinski 91581 · 2216193 − 1 65087 1989 Amdahl Six(∗) 2756839 − 1 227832 1992 Slowinski & Gage 2859433 − 1 258716 1994 Slowinski & Gage 21257787 − 1 378632 1996 Slowinski & Gage 21398269 − 1 420921 1996 Armengaud.[SEC. Woltman. 7. et al.

et al. et al. 257885161 − 1 17425170 2013 Cooper. Woltman. 26972593 − 1 2098960 1999 Hajratwala. 7: PRIMOS Primo Algarismos Data Descobridores 22976221 − 1 895932 1997 Spence. et al. (∗) O grupo Amdahl Six é formado por J. 224036583 − 1 7235733 2004 Findley. Woltman. Smith. Boone. et al. Kurowski. Woltman. Boone. 213466917 − 1 4053946 2001 Cameron. Kurowski. Kurowski. G. Woltman. Woltman. Kurowski. Woltman. 232582657 − 1 9808358 2006 Cooper. Parady. Kurowski. Kurowski. et al. 23021377 − 1 909526 1998 Clarkson. Brown. B. 243112609 − 1 12978189 2008 E. Woltman. Woltman. et al. Kurowski. et al. et al. 237156667 − 1 11185272 2008 Elvenich. Kurowski. Noll. et al. Smith. 230402457 − 1 9152052 2005 Cooper. Woltman.378 [CAP. Kurowski. et al. 225964951 − 1 7816230 2005 Nowak. Woltman. Zarantonello . 220996011 − 1 6320430 2003 Shafer. Smith e S. Woltman. et al. et al. Kurowski. J. Kurowski. C. Woltman.

7.8: TABELAS 379 Maiores primos conhecidos Primo Número de dı́gitos Data 257885161 − 1 17425170 2013 243112609 − 1 12978189 2008 242643801 − 1 12837064 2009 237156667 − 1 11185272 2008 232582657 − 1 9808358 2006 230402457 − 1 9152052 2005 225964951 − 1 7816230 2005 224036583 − 1 7235733 2004 220996011 − 1 6320430 2003 213466917 − 1 4053946 2001 19249 · 213018586 + 1 3918990 2007 475856524288 + 1 2976633 2012 356926524288 + 1 2911151 2012 341112524288 + 1 2900832 2012 27653 · 29167433 + 1 2759677 2005 90527 · 29162167 + 1 2758093 2010 75898524288 + 1 2558647 2011 28433 · 27830457 + 1 2357207 2004 3 · 27033641 + 1 2117338 2011 33661 · 27031232 + 1 2116617 2007 26972593 − 1 2098960 1999 6679881 · 26679881 + 1 2010852 2009 1582137 · 26328550 + 1 1905090 2009 3 · 26090515 − 1 1833429 2010 7 · 25775996 + 1 1738749 2012 252191 · 25497878 − 1 1655032 2012 258317 · 25450519 + 1 1640776 2008 773620262144 + 1 1543643 2012 3 · 25082306 + 1 1529928 2009 676754262144 + 1 1528413 2012 5359 · 25054502 + 1 1521561 2003 525094262144 + 1 1499526 2012 265711 · 24858008 + 1 1462412 2008 1271 · 24850526 − 1 1460157 2012 361658262144 + 1 1457075 2011 .[SEC.

380 [CAP. 7: PRIMOS Primo Número de dı́gitos Data 9 · 24683555 − 1 1409892 2012 121 · 24553899 − 1 1370863 2012 145310262144 + 1 1353265 2011 353159 · 24331116 − 1 1303802 2011 141941 · 24299438 − 1 1294265 2011 15 · 24246384 + 1 1278291 2013 3 · 24235414 − 1 1274988 2008 191 · 24203426 − 1 1265360 2012 40734262144 + 1 1208473 2011 9 · 24005979 − 1 1205921 2012 27 · 23855094 − 1 1160501 2012 24518262144 + 1 1150678 2008 123547 · 23804809 − 1 1145367 2011 415267 · 23771929 − 1 1135470 2011 11 · 23771821 + 1 1135433 2013 938237 · 23752950 − 1 1129757 2007 65531 · 23629342 − 1 1092546 2011 485767 · 23609357 − 1 1086531 2008 5 · 23569154 − 1 1074424 2009 1019 · 23536312 − 1 1064539 2012 7 · 23511774 + 1 1057151 2008 428639 · 23506452 − 1 1055553 2011 9 · 23497442 + 1 1052836 2012 1273 · 23448551 − 1 1038121 2012 191249 · 23417696 − 1 1028835 2010 59 · 23408416 − 1 1026038 2010 81 · 23352924 + 1 1009333 2012 1087 · 23336385 − 1 1004355 2012 464253 · 23321908 − 1 1000000 2013 191273 · 23321908 − 1 1000000 2013 3139 · 23321905 − 1 999997 2008 4847 · 23321063 + 1 999744 2005 223 · 23264459 − 1 982703 2012 9 · 23259381 − 1 981173 2011 211195 · 23224974 + 1 970820 2013 94373 · 23206717 + 1 965323 2013 113983 · 23201175 − 1 963655 2008 1087 · 23164677 − 1 952666 2012 .

7.[SEC.8: TABELAS 381 Primo Número de dı́gitos Data 15 · 23162659 + 1 952057 2012 19 · 23155009 − 1 949754 2012 3 · 23136255 − 1 944108 2007 1019 · 23103680 − 1 934304 2012 5 · 23090860 − 1 930443 2012 21 · 23065701 + 1 922870 2012 5 · 23059698 − 1 921062 2008 383731 · 23021377 − 1 909531 2011 23021377 − 1 909526 1998 7 · 23015762 + 1 907836 2008 43 · 22994958 + 1 901574 2013 1095 · 22992587 − 1 900862 2011 15 · 22988834 + 1 899730 2012 39 · 22978894 + 1 896739 2013 4348099 · 22976221 − 1 895939 2008 22976221 − 1 895932 1997 198677 · 22950515 + 1 888199 2012 17 · 22946584 − 1 887012 2013 25 · 22927222 + 1 881184 2013 7 · 22915954 + 1 877791 2008 427194 · 113427194 + 1 877069 2012 63 · 22898957 + 1 872675 2013 11 · 22897409 + 1 872209 2013 51 · 22881227 + 1 867338 2013 1207 · 22861901 − 1 861522 2011 222361 · 22854840 + 1 859398 2006 177 · 22816050 + 1 847718 2012 96 · 10846519 − 1 846521 2011 63 · 22807130 + 1 845033 2013 43 · 22795582 + 1 841556 2013 15 · 22785940 + 1 838653 2012 57 · 22765963 + 1 832640 2013 57 · 22747499 + 1 827082 2013 17 · 22721830 − 1 819354 2010 165 · 22717378 − 1 818015 2012 45 · 22711732 + 1 816315 2012 .

Os resultados deste capı́tulo complemen- tam aquele estudo.11) afirma que existem infinitos racionais pq tais que |α − pq | < q12 .f. ver o teorema 3. Como [0. 1) = k=0 N .10): dado N ∈ N. N . digamos {j1 α} e {j2 α} num mesmo intervalo Nk . consideramos os N + 1 def elementos de [0. exemplo 0. q = j2 − j1 e p = bj2 αc − bj1 αc. existemdois desses elementos. que fornecem todas as boas aproximações de um irracional α por racionais. portanto. k+1  N e. um resultado clássico de Dirichlet (que já provamos usando frações contı́nuas. A principal técnica utilizada são as frações contı́nuas. temos . veremos alguns resultados da chamada teoria de apro- ximações diofantinas. com 0 ≤ j ≤ N . 8. Dado um número irracional α. se j1 < j2 .1 Teoria Métrica das Aproximações Diofanti- nas O problema básico da teoria de aproximações diofantinas é o de es- tudar boas aproximações de números reais por números racionais. Já vimos alguns resultados desta teoria quando estudamos frações contı́nuas.Capı́tulo 8 Aproximações Diofantinas Neste capı́tulo. 1) da forma {jα} S = jα − bjαc (parte fracionária de N −1 k k+1 jα). Vejamos outra prova simples (c.

.

1 .

p .

.

1 1 0 < |qα − p| < =⇒ .

α − .

< .

N q qN q Hurwitz e Markov provaram (teorema 3. ≤ 2.13) que de fato |α− pq | < √1 5q 2 .

o conjunto dos α ∈ R tais que |α − pq | < cq12 tem apenas um número finito de soluções pq ∈ Q é enumerável. Markov provou que. para todo irracional α. Nosso propósito é estudar desigualdades do tipo .[SEC. mas o conjunto dos α ∈ R tais que |α − pq | < 3q12 tem apenas um número finito de soluções tem o mesmo cardinal que R. para todo c > 3. 8.1: TEORIA MÉTRICA DAS APROXIMAÇÕES DIOFANTINAS 383 √ tem infinitas soluções pq ∈ Q. e que 5 é a maior constante com essa propriedade.

.

.

α − p .

. < f (q) .

.

(1) .

q.

. para todo i ≤ n. teremos |αi − pqi | < N1q ≤ q1+1/n 1 . . . . Infelizmente não há um substituto satisfatório para a teoria de fra- ções contı́nuas em dimensão maior que um. Para maiores informações sobre aproximações diofantinas. . para quase todo α ∈ R. Dividimos [0.e. se j1 < j2 . mas é possı́vel provar uma versão n-dimensional do teorema de Khintchine (provada originalmente em [79]). . q onde f : N → R+ é uma função decrescente. Vamos provar o teorema de Khintchine. sempre é possı́vel encontrar racionais tais que |αi − pqi | < q1+1/n 1 . onde Rf é um conjunto residual. . Em geral. pi = bj2 αi c − bj1 αi c. . Ha- verá necessariamente dois pontos xj1 e xj2 num mesmo cubo dessa de- composição. i. 1)n .. do ponto de vista da teoria da P∞medida. αn j − bαn jc). . αn ∈ R queremos encontrar números ra- cionais pq1 . 1)n em N n cubos de lado N1 .o que estende o teorema de Dirichlet e pode ser provado de modo análogo: dado N ∈ N consideramos os N n + 1 pontos xj = (α1 j − bα1 jc. para quase P∞ todo α ∈ R. α2 . . 0 ≤ j ≤ Nn no hipercubo [0. q = j2 − j1 . (1) tem infinitas soluções pq ∈ Q para α ∈ Rf . pqn tais que |αi − pqi | seja pequeno para todo i ≤ n. α2 j − bα2 jc. . Note que do ponto de vista topológico a situação é diferente: qual- quer que seja a função positiva f . contém (de fato é) uma interseção enumerável de abertos densos. veja [28] e [128]. psegundo o qual. e. mas se q=1 f (q) < +∞ então (1) tem apenas um número finito de soluções pq ∈ Q. Uma extensão natural dos problemas acima é o estudo de aproxima- ções simultâneas de n números reais por números racionais com o mesmo denominador: dados α1 . o que faremos mais adiante. pq2 . . . se q=1 f (q) = +∞ então (1) tem infinitas soluções q ∈ Q.

donde |x − k(qα − p)| ≤ ε. q > 1/ε tais que |α − pq | < q12 =⇒ 0 < |qα − p| < 1q < ε. Isto é pos- sı́vel pelo teorema anterior pois log10 2 é irracional: se p. Vamos provar inicialmente que X é denso em R. Seja agora β ∈ R. Demonstração: Seja X = {m + nα | m.1. Como X é denso em R. obtemos n + 3 + log10 2. |q| > |n| e |qα − p| < ε/2. existem p. Solução: Temos que 2k começa com 2009 se existe n natural tal que 2009 · 10n ≤ 2k < 2010 · 10n . 010. n + q ∈ N e |β −((m−p)+(n+q)α)| < |β −(m+nα)|+|qα−p| < ε/2+ε/2 = ε. O primeiro destes resultados é a seguinte Proposição 8.2 Aproximações Não-Homogêneas Vejamos alguns resultados sobre a distribuição das partes fracioná- rias de um múltiplo de um irracional α. n ∈ Z}. q inteiros com q > |n| tais que |qα − p| < ε/2 (note que. o resultado está provado. 010 O problema portanto se reduz a encontrar um k inteiro tal que a parte fracionária de k log10 2 esteja entre log10 2. se q é negativo.384 [CAP. Tomando logaritmos na base 10. n ∈ Z com |β − (m + nα)| < ε/2. . Dado x ∈ R existe k ∈ Z tal que x está entre k(qα − p) e (k + 1)(qα − p). Dado ε > 0 existem p. podemos trocar q por −q e p por −p: teremos −q = |q| > |n| e |(−q)α − (−p)| = |qα − p| < ε/2). Assim. o que é impossı́vel pelo teorema fun- damental da aritmética. Por outro lado. Como k(qα − p) = −pk + qkα ∈ X. q inteiros com p. 009 ≤ k log10 2 < n + 3 + log10 2. q ∈ N são tais que p/q = log10 2 então 10p = 2q . dado ε > 0 existem m. Mostre que existe uma potência de 2 que se inicia com 2009 quando escrito na base decimal.2. 009 e log10 2. 8: APROXIMAÇÕES DIOFANTINAS 8. Exemplo 8. n ∈ N} é denso em R. Se α ∈ R \ Q então Y = {m + nα | m ∈ Z.

. p2m . . . Suponha que 1. m1 . Suponhamos por absudo que V 6= Rn . . . 0. senão podemos definir um funcional P linear f da seguinte forma: dado x ∈ Rn escrevemos π(x) como kj=1 βj π(eij ). . . . Se λi1 = f (ei ) ∈ Q para todo i. . π(x) ∈ X. . . α2 . eik de tal maneira que π(ei1 ). m1 . αn sejam linearmente independentes sobre Q. existem xm = qm γ − (p1m . . . . mn ∈ Z} e seja X ⊂ Rn o fecho de X. .2: APROXIMAÇÕES NÃO-HOMOGÊNEAS 385 O próximo resultado. . terı́amos n X n X λ01 = f (α) = αi f (ei ) = λi1 αi ∈ Q. i=1 i=1 contradizendo a hipótese da proposição. Seja α = (α1 . mn ∈ Z} é denso em Rn . .3 (Kronecker). . . . . Seja k = dim V ⊥ . . Se fizermos e0 = α. . e seja π : Rn → V ⊥ a projeção ortogonal sobre V ⊥ . . Tomamos γ = (λi0 1 . α1 . . 0. . . k + m1 α1 + m2 α2 + · · · + mn αn = 0 com k. . . . 1) são os elementos da base canônica de Rn . devido a Kronecker. Então Y = {kα + m1 e1 + m2 e2 + · · · + mn en | k ∈ N. . isto é. Seja V ⊥ o complemento ortogonal de V . . 8. . . π(eik ) geram V ⊥ . . 1. . e tomamos f (x) = β1 . Seja então i0 tal que λi0 1 ∈ Pelo teorema de Dirichlet multidimensional. λi0 k ) ∈ Rk . . . e V ⊂ X um subespaço vetorial maximal de Rn contido em X. . / Q. . . . n escrevemos π(ei ) = j=1 λij π(eij ). Proposição 8. . mn ∈ Z implica k = m1 = · · · = mn = 0. . onde e1 = (1. . Para todo x ∈ X. . estende a proposição an- terior para dimensão qualquer.[SEC. m1 . . ei2 . . 0). π(x) − x ∈ V ⊂ X e X é invariante por adição (pois X também é). Não podemos ter λi1 ∈ Q para todo i. αn ) ∈ Rn . en = (0. pkm ) 6= 0 . . pois π(x) = x + (π(x) − x). . . Escolhemos vetores ei1 . para todo Pk i = 0. Demonstração: Seja X = {kα + m1 e1 + m2 e2 + · · · + mn en | k. π(ei2 ). .

m→∞ m→∞ se k def X wm = qm π(ei0 ) − pjm π(eij ) ∈ X ∩ V ⊥ . . . . Finalmente. . m1 . A hipótese da proposição 8. Antes necessitamos de uma . . . existem k. . .386 [CAP. . mn não todos nulos tais que k + m1 α1 + · · · + mn αn = 0 então X ⊂ {(x1 . Para todo t ∈ R.3 é necessária. . . . como X é invariante por adição. m1 . passando a uma subsequência. xn ) ∈ Rn | m1 x1 + m2 x2 + · · · + mn xn ∈ Z}. . temos que m→∞ j t k tw̃ = lim wm ∈ X ∀m ∈ N. pkm ∈ Z e lim |xm | ≤ lim |qm |−1/k = 0. . Como a esfera unitária S n−1 = {x ∈ m→∞ Rn | kxk = 1} é compacta. βn ) ∈ Rn e ε > 0. Temos então q + k ∈ N e |β − ((q + k)α + (p1 + m1 )e1 + (p2 + m2 )e2 + · · · + (pn + mn )en )| < |β − (kα + m1 e1 + m2 e2 + · · · + mn en )| + |qα + p1 e1 + p2 e2 + · · · + pn en | < ε ε 2 + 2 = ε. dados β = (β1 . . p1m . Observação 8. p1 . β2 . p2 . O teorema de Kronecker possui a seguinte generalização. devida a Weyl. .4. j=1 lim wm = 0 (e wm 6= 0. 8: APROXIMAÇÕES DIOFANTINAS com qm . Também existem q > ||k|. . m→∞ |wm | Portanto. . que é um fechado com interior vazio. pn inteiros tais que |qα+p1 e1 +p2 e2 +· · ·+pn en | < ε/2. . wm podemos supor que lim |w m| = w̃ ∈ S n−1 . mn ∈ Z com |β − (kα + m1 e1 + m2 e2 + · · · + mn en )| < ε/2. . . . e portanto. absurdo. . ∀m). para concluir que Y é denso a partir do fato de que X é denso. se necessário. t ∈ R} é tal que Ṽ ⊂ X e Ṽ contém propriamente V . pois se existem inteiros k. o subespaço Ṽ = {v + tw̃ | v ∈ V. .

tomando um tal ṽ de modo que sua distância a v seja menor que a distância de C 2 à fronteira de C1 + v. 1)d dois cubos abertos tais que o lado de C2 é menor que o lado de C1 . 1]d é dita uni- formemente distribuı́da se para qualquer paralelepı́pedo retangular C ⊂ [0. 1]d . p1 . Observação 8. 8. ∃v ∈ Rd ).7 (Weyl). αd são linearmente independentes sobre Q. C2 ) ≤ N (n. então a propriedade da definição valerá não somente para paralelepı́pedos retangulares. Demonstração: Sejam C1 . Teorema 8.. . C1 )+ |q| para todo n ∈ N. que sua fronteira tenha medida nula). Seja α = (α1 . nαd − bnαd c) é uniformemente distribuı́da no cubo [0. Uma sequência (an )n≥0 com an ∈ [0. . . temos #{j | 1 ≤ j ≤ n e aj ∈ C} lim = m(C).[SEC. N (n. k+1 k=0 N +1 N +1 como . 1)d = k . Então a sequência def {nα} = (nα1 − bnα1 c. α. . Considere a decomposição [0.2: APROXIMAÇÕES NÃO-HOMOGÊNEAS 387 Definição 8. Como existem vetores ṽ arbitrariamente próximos de v. α. Então o fecho C 2 de C2 está contido em um transladado de C1 (C 2 ⊂ C1 +v. com ṽ = (qα1 + p1 . pd ∈ Z. . para cada paralelepı́pedo retangular C. Se definirmos. .e. . Seja então N um número natural grande dado e C um cubo dado de S h d N lado N1 . . . teremos então N (n. temos que {mα} ∈ C 2 =⇒ {(m − q)α} ∈ C 2 − ṽ ⊂ C1 . 1]d . . . qαd + pd ). C2 ⊂ [0. . α1 . C) := #{j | 1 ≤ j ≤ n e {jα ∈ C}. . i. 1]d seja uniformemente distribuı́da. α.5.6. . q. Caso uma seqüência (an )n≥0 com an ∈ [0. n→∞ n onde m(C) é o volume de C. mas também para qualquer conjunto C ⊂ [0. . αd ) ∈ Rd onde as coordenadas são tais que 1. . . . . . 1]d com volume (à la Riemann) bem definido (o que requer que o conjunto seja J-mensurável.

8: APROXIMAÇÕES DIOFANTINAS 1 a união de (N + 1)d cubos de lado N +1 . obtemos d N (n. B contém uma união disjunta de i=1 bN (bi − ai )c cubos de lado 1/N . podemos provar que 1 lim sup N (n. Seja C a coleção desses cubos. 1) = . ∀n ∈ N. pela discussão acima. α. bi ) um paralelepı́pedo retangular dado. n→∞ n i=1 Qd Por outro lado. α. existe um inteiro q (C̃) tal que N (n. B) 1 Y lim inf ≥ bN (bi − ai )c n→∞ n (N + 1)d i=1 d   N d Y 1 ≥ bi − ai − . C̃) ≥ (N +1) d para concluir que N (n. de onde obtemos lim inf N (n. existe um n cubo C̃ ∈ C com N (n. C)/n ≤ (N −1) d. C) + |q (C̃) | para todo n ∈ N. α. N −1 i=1 . N −1 N −1 k=0 como a união de (N − 1)d cubos de lado N 1−1 . N +1 N i=1 e. B) 1 Y lim sup ≥ dN (bi − ai )e n→∞ n (N − 1)d i=1 d N Y ≥( )d (bi − ai + 1/N ). n→∞ Analogamente. C̃) ≤ N (n. α. para todo n ∈ N. donde. fazendo N tender a infinito. α. Assim. d N (n. C)/n ≥ (N +1)d (N +1)d . podemos usar o fato de que. Se q̂ é o máximo dos números |q (C̃) |. segue que d N (n. B está contido numa união de i=1 dN (bi − ai )e cubos de lado 1/N . da discussão acima. ParaQdcada número natural grande N . C) ≥ n 1 − q̂. α. α. n→∞ Qd Seja agora B = i=1 [ai . α.388 [CAP. Para cada cubo C̃ ∈ C dessa coleção. B) Y lim inf ≥ (bi − ai ) = m(B). considerando a decomposição −2  N[  d k k + 1 d [0. α.

Dizemos que uma sequência (wn )n≥0 com wn ∈ Rd é dita uniformemente distribuı́da módulo 1 se ({wn })n≥0 é uniformemente distribuı́da em [0. . por sua vez. fazendo N tender a infinito. . Este fato. e somente se. vi) = 0 n→∞ n 1≤j≤n (onde hu. . a sequência (wn+h −wn )n∈N seja uniformemente distribuı́da. para w = (w1 . 1 X lim exp(2πihwn . . B)/n = i=1 (bi − ai ) = m(B). {wd }). É possı́vel provar que (wn )n≥0 é uniformemente distribuı́da módulo 1 se. . w2 . Veja o capı́tulo IV de [28] ou [145]. a sequência (p(n))n∈N é uniformemente distribuı́da módulo 1. n→∞ Observação 8. n→∞ i=1 Qd Portanto lim N (n. para todo vetor v ∈ Zd com v 6= (0. α. . . . 1]d . para todo polinômio p(x) = αd xd + αd−1 xd−1 + · · · + α0 que tenha algum coeficiente não constante αj . .8. vi denota o produto interno dos vetores u e v). 0. . . . .2: APROXIMAÇÕES NÃO-HOMOGÊNEAS 389 e. . . B)/n ≤ (bi − ai ) = m(B). {w} := ({w1 }. . 8. onde. . αd ) ∈ Rd é tal que 1. Esta caracterização de sequências uniformemente distribuı́das mó- dulo 1 pode ser usada para provar o seguinte fato: uma condição sufici- ente (mas não necessária) para que uma sequência (wn )n≥0 com wn ∈ R seja uniformemente distribuı́da módulo 1 é que. obtemos d Y lim sup N (n. .[SEC. 0). α1 . páginas 105-113 para mais de- talhes. pode ser usado para provar (por indução no grau) que. . É possı́vel provar o teorema anterior com técnicas de análise de Fourier. αd são linearmente independentes sobre Q. onde α = (α1 . j ≥ 1 irracional. para todo inteiro posi- tivo h. {w2 }. α. wd ) ∈ Rd . Não é difı́cil ve- rificar esta condição para a sequência wn = nα. . .

k ∈ N. qn (qn +qn−1 ) e (kqn +qn−1 )((k+1)qn +qn−1 ) (pois |pn qn−1 −pn−1 qn | = 1) . . . . a2 . precisamos dos seguintes lemas. . a2 = k2 . an−1 ] e = [0.9 (Khintchine). A probabilidade de um termo an+1 ser igual a k dado que a1 = k1 .3 O Teorema de Khintchine 8. A condição de nf (n) ser decrescente não é de fato necessária. (b) Se ∞ p f (q) P n=1 f (n) = +∞ então a equação |α− q | < q tem um número infinito de soluções racionais p/q. ∀k1 . . 8: APROXIMAÇÕES DIOFANTINAS 8. . an = kn está entre 1/(k + 1)(k + 2) e 2/k(k + 1). . h escrevendo α = [0.1 O Caso Unidimensional Teorema 8. a1 . a1 . não podemos retirar a hipótese de f ser decrescente (veja [29]). (a) Se ∞ p f (q) P n=1 f (n) < +∞ então a equação |α − q | < q tem apenas um número finito de soluções racionais p/q. respectiva- 1 1 mente. para quase todo α ∈ R \ Q. . e seja α = [0. Sejam n. a2 . .11. Seja f : N → R+ uma função decrescente tal que h(n) = nf (n) : N → R+ também seja decrescente. kqn + qn−1 (k + 1)qn + qn−1 e valem as recı́procas (as ordens dos extremos dos intervalos podem es- tar trocadas). αn+1 ] com αn+1 ∈ [1.390 [CAP. . a2 . Por outro lado. . an−1 . mas simplifica a prova. Antes de proceder com a demonstração do teorema de Khintchine. como veremos mais adiante. an . a1 . . an ] qn−1 qn Se α ∈ [0. . . . Observação 8. k2 . a1 . +∞) então α ∈ pqnn +q +pn−1 pn . . . 1) como fração contı́nua. e além disso   kpn + pn−1 (k + 1)pn + pn−1 an+1 = k =⇒ α ∈ .3. . n−1 qn . . Demonstração: Considere as convergentes pn−1 pn = [0. Lema 8. . . .10. . a2 . . para quase todo α ∈ R \ Q. kn ∈ N>0 . 1).] a expansão de um número α ∈ [0. Os comprimentos dos referidos intervalos são.

obtemos o seguinte P P Como j≥k (j+1)(j+2) = k+1 e j≥k j(j+1) Corolário 8. Portanto a razão pertence a [1/(k + 1)(k + 2). 2/k(k + 1)]. Lema 8. para todo n ∈ N. 1].12. existem infinitas convergentes pn /qn de α tais que |α − pqnn | < f (qn) p qn . 8.[SEC. Demonstração: (do Teorema de Khintchine) Observe inicialmente que podemos supor sem perda de generalidade que α ∈ [0. pertence a [1/(k + 1). 1 1 2 = k2 . nos termos do lema acima. se q satisfaz a desigualdade acima e qn ≤ q < qn+1 então pelo teorema 3. 1). 2/k]. e somente se. Note ainda que |α − pq | < f (q) q tem infinitas soluções racionais p/q se. De fato. (kqn + qn−1 )((k + 1)qn + qn−1 ) (k + α)(k + 1 + α) onde α = qn−1 /qn ∈ [0.3: O TEOREMA DE KHINTCHINE 391 e portanto a razão entre seus comprimentos é qn (qn + qn−1 ) 1+α = .13. Antes de provar o lema vamos mostrar como termina a prova do teorema de Khintchine.15 temos . A probabilidade de an+1 ≥ k. Para quase todo α ∈ R existe c ∈ R tal que qn ≤ cn .

pn .

.

q .

.

p .

.

q f (q) f (qn ) .

α − .

≤ .

α − .

.< · ≤ .

qn qn q qn q qn √ f (n) < ∞ e seja γ = 1+2 5 . Se a aproxi- P (a) Suponhamos agora que mação pn /qn de α é tal que |α − pqnn | < f (qn) qn então pela proposição 3.4 temos (na notação da proposição) 1 .

pn .

.

f (qn ) = α − .

< .

(αn+1 + βn+1 )qn2 qn qn .

∀n ∈ N. temos portanto que an+1 + 2 > γ n−1 f1(γ n−1 ) . 1 =⇒ an+1 + 2 > αn+1 + βn+1 > . Como nf (n) é de- crescente. qn f (qn ) Por outro lado. logo an+1 > A(n) . temos que qn = an qn−1 + qn−2 ≥ qn−1 + qn−2 e por indução temos facilmente que qn ≥ γ n−1 .

pelo lema anterior).392 [CAP. Pelo corolário 8. . Assim. Como ε > 0 é arbitrário. e a hipótese de ∞ n=1 f (n) < ∞ implica que P∞ 2 n=1 A(n) < ∞. Vamos mostrar que com probabilidade total temos an+1 ≥ 1 cn f (cn ) para infinitos valores de n ∈ N. fixemos c > 0 e vamos nos restringir ao conjunto Xc dos α ∈ [0. basta mostrar que com probabilidade total an+1 ≤ A(n) para todo n suficientemente grande. logo para cada ε > 0 existe Q∞ 2 n0 ∈ N tal que n=n0 (1 − A(n) ) > 1 − ε. temos n=n0 1− B(n)+1 = 0. Se an+1 > qn f1(qn ) então α pertence ao intervalo cujos extremos são 1 pn p +pn−1 qn f (qn ) n pn f (qn ) 1 qn e 1 q +qn−1 donde |α − qn | < qn . 8: APROXIMAÇÕES DIOFANTINAS 1 onde A(n) = γ n−1 f (γ n+1 ) − 2. para mostrar que há somente um número finito de convergentes tais que |α − pqnn | < f (qn) qn para quase todo α. 1] tais que qn < cn para todo n ∈ N (a união dos conjuntos Xc para todo c ∈ N tem probabilidade total em [0. qn f (qn ) < qn f (qn ) n 1 cn f (cn ) . e. n=1 n=1 n=1 Q∞   1 Portanto. onde B(n) = cn f1(cn ) . para todo n0 ∈ N. P (b) Suponhamos agora que f (n) = +∞. o resultado segue. donde a equação f (qn ) |α− pqnn | < qn é satisfeita com probabilidade total para infinitos valores de n ∈ N. por comparação com ∞ ∞ ∞ X γ X k+1 γ X γ k f (γ k ) = (γ − γ k )f (γ k+1 ) ≤ f (n) < +∞. 1]. Isso segue do corolário 8.12. que por sua vez segue de ∞ X ∞ X ∞ X n n −1 n+1 n n −1 c f (c ) ≥ c (c − c )f (c ) ≥ c f (n) = +∞. com 1 probabilidade total. existe n ≥ n0 com an+1 ≥ cn f (cn ) . Como qn < cn . γ−1 γ−1 k=1 k=0 n=1 Temos portanto ∞ 2 Q n=1 (1 − A(n) ) > 0. a probabilidade dePan+1 ≤ A(n) é pelo menos 2 1 − A(n) .12 Q∞  1 e de n=1 1 − B(n)+1 = 0. donde a proporção dos números α para os quais an+1 ≤ A(n) para todo n suficientemente grande é maior do que 1 − . para todo n ∈ N.

8. . . onde  n 4 s = k(k+1) . a2 . Este número. an é no máximo 3 n·( 34 ) n . a2 . . temos com probabilidade total n→∞ ∞ √ n X 4 log(r + 1)  lim sup qn ≤ exp < +∞. . j ( 2 ) (1 − 2 ) j+1 2−s 3s 2−s 6 − 3s 3 Pn n s j s n−j n s j = 1. k apareça √ √ 3 pelo menos 4n/k(k+1) vezes entre a1 . . n→∞ r(r + 1) r=1 . . k ∈ N. . Assim. donde aplicando reiteradamente a desigualdade acima obte- n  s sn mos sn ( 2 ) (1 − 2s )(1−s)n ≤ ( 23 )sn/4 e n     ∞ X n s j s n−j  2 sn/4 X 2 k  2 sn/4 1− ≤ =3 j 2 2 3 3 3 j=sn k=0  2 n/k(k+1)  3 n/k(k+1) =3 < . para j = 3sn   logo. com probabilidade total. com probabilidade total. . se j ≥ 3sn 4 . an é no máximo 4n/ 3 n. 3 4 se n/k(k + 1) é suficientemente grande.[SEC. Um cálculo similar ao acima. Por outro lado.3: O TEOREMA DE KHINTCHINE 393 Demonstração: (do lema) Sejam n. mostra que também com probabilidade total o número de termos √ √ maiores ou iguais a 3 n entre a1 . . an é limitada por j=sn j ( 2 ) (1− 2s )n−j . por sua vez. que deixamos como exercı́cio para o leitor. procedendo P 1 como na demonstração anterior e utilizando o fato de que n2 converge. temos. como j=0 j ( 2 ) (1 − 2 ) 4 . para algum k < b 3 nc. . . para todo n grande. para n suficientemente grande. A probabilidade de que k P apareça pelo menos 4n/k(k + n n s j 1) vezes entre a1 . a2 . √ Portanto a probabilidade de que. n s j+1 (1 − 2s )n−j−1  j+1 ( 2 ) n−j s 4 − 3s s 4 − 3s 2 n s j  s n−j = · < · = < . j ( 2 ) (1 − s n−j 2) ≤ 1. que converge a zero quando n → +∞. que an < n2 para todo n suficientemente grande. é menor que ( 34 ) k(k+1) para k(k+1) n grande: de fato. . √ 3 n Y  Yn 4n  √ 3 qn < (ak + 1) < (r + 1) r(r+1) · (n2 )4n/ n k=1 r=1 √ 3 Como lim (8 log n)/ n = 0.

. 8: APROXIMAÇÕES DIOFANTINAS Observação 8. (i) Para quase todo α ∈ R. 2758229 . Pode-se provar com métodos de teoria ergódica que para quase todo α ∈ R vale √ 2 /12 ln 2 lim n qn = eπ ≈ 3. Em particular ord α = 2 para quase todo α ∈ R onde n .15.394 [CAP. . n→∞ Corolário 8. e portanto |α − q | < 1 q 2+ε tem apenas um número finito de soluções racionais pq .14. para todo ε > 0. |α − pq | < q2 log1 2 q tem p p apenas um número finito de soluções q ∈ Q.

.

p .

.

1 p o ord α = sup ν > 0 .

.

α − .

< ν tem infinitas soluções ∈ Q .

.

|α − pq | < q2 log 1 q tem infinitas soluções racionais p/q. Seja α = (α1 . .16 (Khintchine). . . . O sistema de aproximações simultâneas . . . e portanto. . αn ) ∈ Rn .3. fn : N → R+ funções decrescentes e F : N → R+ dada por F (k) = f1 (k)f2 (k) . |α − pq | < kq12 tem infinitas soluções pq ∈ Q. . 8. . Sejam f1 .2 O Teorema de Khintchine Multidimensional Teorema 8. f2 . q q q (ii) Para quase todo α ∈ R. fn (k). . para todo k ∈ R.

pi .

.

fi (q) α − .

1 ≤ i ≤ n.< . (∗) .

.

pqn ∈ Qn . . i q q é tal que (a) Se ∞ α ∈ Rn . .  Antes de provar o teorema acima. vamos demonstrar primeiro o se- guinte resultado auxiliar sobre a função ϕ de Euler. . para quase todo um número finito de soluções pq1 . (∗) tem infi- P q=1 F (q) = +∞ então. . . . (∗) tem apenas P q=1 F (q) < +∞ então. . . . pqn ∈ Qn  (b) Se ∞ para quase todo α ∈ Rn . nitas soluções pq1 .

17. q→∞ q=1 . q q q q q≥q0 0≤p1 . n j n j j=1 j=1 donde segue o resultado no caso geral.[SEC. . . consideremos o conjunto n   [ [ Y pi fi (q) pi fi (q) S(q0 ) = − .. q=q0 qn q=q0 P∞ que tende a 0 quando q0 → ∞.pn <q i=1 que é o conjunto dos α ∈ [0.3: O TEOREMA DE KHINTCHINE 395  k Pn ϕ(j) Lema 8. . que implica n 1 X ϕ(j) 6 lim = 2 n→∞ n j π j=1 Como h(x) = xk é convexa para k ≥ 1. (b) Em primeiro lugar. Demonstração: O caso k = 1 segue da proposição 5. Temos ∞ ∞ X 2n F (q) X