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Plataforma

Relógio D'Água Editores


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© Flammarion, Paris, 2001

Título: Plataforma
Título original: Plateforme (2001)
Autor: Michel Houellebecq
Tradução: Carlos Vieira da Silva
Revisão de texto: Júlia Ferreira
Capa: Carlos César Vasconcelos (www.cvasconcelos.com)

©Relógio D'Água Editores, julho de 2014

Esta tradução segue o novo Acordo Ortográfico.

Encomende os seus livros em:


www. relogiodagua pt
.

ISBN 978-989-64 I -442-9

Composição e paginação: Relógio D' Á gua Editores


Impressão: Guide Artes Gráficas, Lda.
Depósito Legal n.": 378183/14
Michel Houellebecq

Plataforma
Tradução de
Carlos Vieira da Silva

Ficções
Quanto mais infame é a sua vida, mais o homem se agarra a ela;
a infâmia surge então como uma forma de protesto , uma vingança
de todas as horas .

Honoré de B alzac
Primeira Parte

TROPIC THAi
1

O meu pai morreu há um ano . Não acredito na teoria segundo a


qual só nos tornamos realmente adultos com a morte dos nossos
pais; nunca nos tornamos realmente adultos .
Diante do caixão do velho , ocorreram-me pensamentos desagra­
dáveis . O sacana tinha aproveitado bem a vida; safara-se à grande .
«Fizeste filhos , meu cretino . . . » , disse vivamente para comigo; «en­
fiaste a tua piça grossa na rata da minha mãe .» A verdade é que es­
tava um bocado tenso; não é todos os dias que temos um morto na
família . Recusei-me a ver o cadáver. Tenho quarenta anos , já tive
várias oportunidades de ver cadáveres; agora, prefiro evitar. É isso
que me tem impedido de comprar um animal doméstico .
Também nunca me quis casar. Tive oportunidade de o fazer, por
várias vezes; mas acabei sempre por recusar. E no entanto , gosto
muito de mulheres . Na minha vida, ser solteiro é um bocado chato .
Sobretudo durante as férias . Nas férias , as pessoas desconfiam dos
homens sozinhos quando atingem uma certa idade ; imaginam-nos
muito egoístas e talvez um pouco libertinos ; não posso deixar de lhes
dar razão .
Depois do enterro , entrei na casa onde o meu pai vivera os seus
últimos anos . O corpo tinha sido descoberto uma semana antes . Na­
quela altura , havia alguma acumulação de poeira junto aos móveis e
nos cantos da casa; no vão de uma j anela, apercebi-me da existência
de uma teia de aranha. O tempo , a entropia e todas essas coisas to­
mavam já lentamente conta do lugar. O frigorífico estava vazio . Nos
armários da cozinha havia sobretudo pacotes de refeições individuais
12 Michel Houellebecq

Weight Watchers , caixas de proteínas aromatizadas e barras de suple­


mentos energéticos . Deambulei pelo rés do chão enquanto roía um
biscoito de magnésio . Na casa da caldeira, fiz um bocado de bicicle­
ta de ginásio . Com mais de setenta anos , o meu pai tinha uma prepa­
ração física superior à minha. Fazia todos os dias uma hora de ginás­
tica intensiva e uma série de «piscinas» duas vezes por semana . Ao
fim de semana, jogava ténis e andava de bicicleta com pessoas da sua
idade ; encontrei algumas delas no velório . «Ele é que puxava por
nós ! . . . » exclamara um ginecologista . «Tinha mais dez anos do que
nós , mas dava-nos um minuto de àvanço numa subida de dois quiló­
metros.» Meu pai , disse eu para comigo , como era grande a tua
vaidade . À esquerda do meu campo de visão estavam halteres e um
banco de musculação . Visualizei imediatamente um cretino em cal­
ções - de cara enrugada , mas muito parecida com a minha - a
encher os peitorais com uma energia sem esperança . Pai , disse eu
novamente , andaste a fazer castelos na areia. Por mim continuava a
pedalar, mas começava a perder o fôlego e as coxas doíam-me um
bocado ; mas não tinha passado do nível um . Pensando novamente na
cerimónia fúnebre , tinha consciência de ter causado uma excelente
impressão . Sou estreito de ombros e todos os dias me escanhoo bem;
como me surgiu um princípio de calvície por volta dos trinta , resolvi
usar o cabelo muito curto . Uso habitualmente fatos cinzentos e gra­
vatas discretas , e não tenho um ar muito alegre . De cabelo muito
curto , óculos de aros finos e expressão carregada , enquanto baixava
ligeiramente a cabeça para ouvir um mix de cânticos funerários cris­
tão s , sentia-me completamente à vontade na situação - muito mais
à vontade do que , por exemplo , num casamento . Decididamente , os
enterros são a minha especialidade . Deixei de pedalar, tossi ligeira­
mente . A noite caía sobre os prados em volta . Junto à estrutura de
betão onde está encastrada a caldeira , distinguia-se uma mancha
acastanhada mal limpa . Foi aqui que encontraram o meu pai , com a
cabeça aberta, envergando uns calções e uma T-shirt com a frase I
!ove New York. Segundo o médico legista, a morte acontecera há três
dias . Em rigor, era possível pensar-se em acidente , poderia ter escor­
regado numa poça de óleo ou noutra coisa qualquer. Mas o pavimen­
to estava completamente seco ; e o crânio estava fraturado em vários
pontos , havendo mesmo um bocado de cérebro derramado no chão;
Plataforma 13

muito provavelmente , estava-se perante u m caso de homicídio . O


capitão Chaumont , do comissariado de Cherbourg , devia vir
encontrar-se comigo naquela noite .

Quando voltei à sala liguei o televisor, um Sony de 1 6/9 com ecrã


de 82 cm, som surround e leitor DVD incorporado . A TFl estava a
dar um episódio de Xena, a Guerreira , uma das minhas séries prefe­
ridas ; duas mulheres bem musculadas , envergando minissaias em
pele e coletes metálicos , desafiavam-se de sabres em punho . «0 teu
reino já durou tempo de mais , Tagrathâ ! » , exclamava a loira; «eu sou
Xena, a guerreira das Planícies do Oeste ! » B ateram à porta; baixei o
som .
Lá fora, a noite caira . O vento abanava levemente os ramos en­
charcados pela água da chuva. Na entrada estava uma rapariga de
cerca de vinte e cinco anos , com ar norte-africano . «Chamo-me
Aicha» , disse ela. «Era eu que fazia a limpeza em casa do Sr. Re­
nault, duas vezes por semana. Venho buscar as minhas coisas .»
«Faça favor . . . » , disse eu , «faça favor. . . » E fiz um gesto que pre­
tendia ser de acolhimento , o esboço de um gesto . A rapariga entrou
e olhou de relance para o ecrã: as duas guerreiras lutavam agora
corpo a corpo , mesmo junto a um vulcão ; suponho que , para certas
lésbicas , o espetáculo tem o seu quê de excitante . «Não quero inco­
modar» , disse Aicha, «bastam-me cinco minutos .»
«Não incomoda nada» , disse eu ; «aliás , nada me incomoda .» A
rapariga acenou com a cabeça como se compreendesse , e os seus
olhos demoraram-se um pouco na minha cara; talvez quisesse ver se
eu era parecido com o meu pai , ou então avaliar as semelhanças
morais . Depois de alguns segundos de observação , voltou-se e subiu
as escadas que dão para os quartos. «Fique o tempo que quiser» ,
disse-lhe eu com uma voz abafada , «fique o tempo que quiser. . . »
A rapariga não respondeu nem parou de subir; provavelmente não
tinha percebido . Voltei a sentar-me no sofá, esgotado pelo confronto .
Podia ter-lhe dito que tirasse o casaco ; normalmente dizemos às pes­
soas para tirarem o casaco . Nessa altura, tomei consciência do frio
horrível que estava na sala - um frio húmido e penetrante , um frio
de jazigo . Não sabia ligar o aquecimento , nem tinha vontade de ten-
14 Michel Houel lebecq

tar, agora o meu pai estava morto e eu tinha de sair dali rapidamente .
Mudei para a FR3 a tempo de ver a última parte de Questions pour
un champion . No momento em que Nadege , de Val-Fourré , informa­
va Julien Lepers de que punha o seu lugar em jogo pela terceira vez ,
a rapariga surgiu na escada com um saco pequeno ao ombro . Desli­
guei a televisão e dirigi-me rapidamente para ela. «Sempre tive uma
grande admiração por Julien Lepers» , disse eu . «Mesmo quando não
sabe nada de especial sobre a cidade ou a aldeia de onde o candidato
é natural , consegue sempre dizer alguma coisa sobre a região ou a
zona mais próxima; pelo menos , tem um certo conhecimento do cli­
ma e das belezas naturais . Mas , sobretudo , conhece a vida das pes­
soas : para ele , os candidatos são seres humanos , sabe das suas difi­
culdades e das suas alegrias . Nada da realidade humana dessas
pessoas lhe passa ao lado ou lhe é hostil . Seja qual for o candidato ,
Julien Lepers consegue pô-lo a falar do trabalho , da família, das
coisas de que gosta - enfim de tudo aquilo que , aos seus olhos ,
pode constituir uma vida. Muitas vezes os candidatos fazem parte de
uma banda, de um grupo coral ; esforçam-se para organizar festas da
terra , ou dedicam-se a causas humanitárias . Os filhos estão quase
sempre na sala com eles . De um modo geral , ficamos com a impres­
são de que são pessoas felizes , e nós próprios nos sentimos também
mais felizes e melhores . Não acha?»
Ela olhou-me sem sorrir; tinha os cabelos apanhados na nuca, a
cara quase sem pintura, e roupas muito discretas ; uma rapariga séria.
Depois de alguns segundos de hesitação , disse numa voz baixa , ligei­
ramente enrouquecia pela timidez: «Eu gostava muito do seu pai .»
Não encontrei palavras para lhe responder; parecia-me estranho , mas
apesar de tudo possível . O velho devia ter muitas histórias para con­
tar: fizera viagens à Colômbia, ao Quénia e a mais não sei onde ;
chegara a observar rinoceronte s , com a ajuda de binóculos . De cada
vez que nos encontrávamos , limitava-se a fazer ironia sobre o meu
estatuto de funcionário e a segurança que isso dava. «Arranjaste um
bom tacho . . . » , dizia ele sem esconder um certo desprezo; em algu­
mas famílias , é sempre uma coisa difícil de aceitar. A rapariga conti­
nuou a falar: «Andei no curso de enfermagem, mas como saí de casa
dos meus pais tenho de trabalhar a dias .» Esforcei-me por dar segui­
mento à conversa: talvez devesse fazer-lhe perguntas sobre o preço
Plataforma 15

das rendas de casa em Cherbourg . . . Por fim, optei por um «Ah ,


sim . . . », tentando transmitir um certo conhecimento das coisas da
vida . Para Aicha foi o suficiente , e dirigiu-se para a porta. Pela minha
parte , encostei a cara à vidraça para observar o Volkswagen Polo
dela a dar meia volta na estrada enlameada. Na ER3 havia um tele­
filme rural cuj a ação se desenrolava no século xrx, com Tchéky Ka­
ryo no papel de trabalhador agrícola. Entre duas lições de piano , a
filha do proprietário - interpretado por Jean-Pierre Marielle - era
pródiga em intimidades com o seu rústico sedutor. Os encontros ti­
nham lugar num estábulo ; caí no sono no momento em que , cheio de
energia, Tchéky Karyo lhe tirava as calcinhas de organza . A última
coisa de que tive consciência foi a imagem de um pequeno grupo de
porcos .

......

Acordei com frio e por sentir uma dor; devia ter adormecido em
má posição , tinha as vértebras cervicais paralisadas . Tossi com toda
a força quando me levantei , e o bafo da minha respiração encheu de
vapor de água o ar gélido da sala. Estranhamente , a televisão estava
a dar Tres pêche , um programa da TFl ; sendo assim , acordara a cer­
ta altura, ou pelo menos atingira o nível de conhecimento suficiente
para acionar o telecomando; mas não me lembrava de nada . Agora,
a emissão noturna era dedicada aos siluros , uns peixes gigantes des­
providos de escamas , mais frequentes nos rios franceses depois do
aquecimento do clima, que preferem sobretudo as proximidades das
centrais nucleares . A reportagem pretendia desmontar determinados
mitos: é verdade que os siluros adultos chegam a atingir três ou qua­
tro metros de comprimento ; no Drôme , foram vistos especímenes
com mais de cinco metros; tudo isso é perfeitamente verosímil . Em
contrapartida , era completamente falso que pudessem ter instintos
carnívoros ou que atacassem quem nadasse junto deles . Fosse como
fosse , a auréola de suspeição existente em torno dos peixes abrangia
também as pessoas que os pescavam; a pequena confraria de pesca­
dores de siluros era mal aceite pelo conjunto dos outros colegas . E
como isso os desgostava , aproveitavam o programa para desfazer
essa imagem negativa. É verdade que não podiam invocar razões
gastronómicas : a carne de siluro é absolutamente incomestível . Mas
16 Michel Houellebecq

tratava-se de uma pesca belíssima, ao mesmo tempo inteligente e


desportiva, com algumas semelhanças com a dos lúcios , e que ia
ganhando cada vez mais adeptos . Dei uns quantos passos na sala sem
conseguir aquecer; não suportava a ideia de me deitar na cama do
meu pai . Por fim , fui buscar almofadas e cobertores e, conforme
pude , instalei-me no sofá . Desliguei a televisão no exato momento
em que terminava o genérico de Silure démystifié. A noite estava
opaca; o silêncio também .
2

Tudo tem um fim, e a noite não foge à regra . Fui arrancado da


minha profunda letargia pela voz clara e sonora do capitão Chau­
mont . Pedia desculpa, mas não tinha podido vir na véspera . Ofereci­
-lhe um café . Enquanto a água aquecia, o capitão instalou o compu­
tador portátil na mesa da cozinha e ligou a impressora . Dessa forma ,
eu poderia ler e assinar o testemunho antes de ele sair; respondi com
um murmúrio de aprovação . Na polícia havia uma grande pressão de
tarefas administrativas , daí a falta de tempo para a investigação , a
sua verdadeira missão ; pelo menos , era o que se podia deduzir do
conteúdo de diversos programas de atualidades na televisão . Desta
vez , o capitão concordou inteiramente . Aí estava um interrogatório
que partia de bases sólidas , numa atmosfera de confiança recíproca.
O Windows arrancou com um barulhinho jovial .
A morte de meu pai dera-se no início ou durante a noite de 1 4 de
novembro . Nesse dia, estive a trabalhar; no dia 1 5 a mesma coisa. É
claro que poderia ter vindo de automóvel , matava o meu pai e volta­
va na mesma noite . O que fizera eu ao serão e na noite de 1 4 de
novembro? Que eu soubesse , nada; nada de especial . De qualquer
modo , não conservava nenhuma recordação especial dessa noite ; e
no entanto , tudo acontecera há menos de uma semana . Mas não te­
nho amante certa nem , verdadeiramente , nenhum amigo íntimo;
sendo assim, como poderia lembrar-me do que fizera? Os dias vão
passando , nada mais . Desapontado , olhei para o capitão Chaumont;
gostaria muito de o ajudar, ou pelo menos de orientar o seu trabalho
numa determinada direção . «Vou consultar a agenda . . . » disse eu .
18 Michel Houellebecq

Não esperava nada dessa diligência; curiosamente , porém , encontrei


o número de um telemóvel no quadradinho do dia 1 4 , por baixo de
um nome : «Coralie» . Quem seria? Uma pessoa qualquer, uma mar­
cação .
- Tenho a cabeça em água . . . - comentei com um sorriso de
desolação . - Mas não sei , talvez estivesse numa inauguração .
- Uma inauguração? - O capitão esperava pacientemente , com
os dedos suspensos a poucos centímetros do teclado .
- Sim, trabalho no Ministério da Cultura . Trato dos processos de
financiamento de exposições , e às vezes de espetáculos .
- Espetáculos?
- Sim . . . de dança contemporânea . . . - Sentia-me completamen-
te desesperado , envergonhado da cabeça aos pés .
- Em resumo , o senhor trabalha na ação cultural .
- Sim, é isso . . . Pode chamar-se assim . . . - O capitão fixava-me
com um misto de simpatia e gravidade . Tinha consciência da exis­
tência de um setor cultural , uma consciência vaga mas real . Na sua
profissão contactava com todo o tipo de gente ; nenhum meio social
lhe era completamente estranho . A polícia é uma escola de humanis­
mo .
O resto da entrevista decorreu quase normalmente ; pela minha
parte , vira já muitos telefilmes , estava preparado para diálogos da­
queles . Sabia da existência de inimigos do meu pai ? Não , mas tam­
bém não lhe conhecia amigos , para dizer a verdade . De qualquer
modo , o meu pai não era suficientemente importante para ter inimi­
gos . Quem poderia ganhar com a morte dele? Bem . . . talvez eu .
Quando o visitara pela última vez? Provavelmente em agosto . No
serviço não há grande coisa para fazer em agosto , os meus colegas
são obrigados a ir de férias por causa dos filhos . Costumo ficar em
Paris , faço jogos de solitário no computador e tiro um fim de semana
prolongado por volta do dia 1 5 ; eram assim as minhas visitas ao meu
pai . Se tinha , de facto , boas relações com ele? Sim e não . Talvez
mais não do que sim, mas ia vê-lo uma ou duas vezes por ano , já não
era mau .
O homem abanou a cabeça. Eu sentia que o meu testemunho esta­
va a chegar ao fim; gostaria de ter dito mais coisas . Sentia uma sim­
patia estranha, anormal , pelo capitão Chaumont . Entretanto , ele
Plataforma 19

preparava-se para imprimir o texto . « 0 meu pai era muito desporti­


vo ! » , disse-lhe eu bruscamente . O capitão olhou para mim com ar de
interrogação . «Não sei» , exclamei abrindo os braços em sinal de
desespero , «SÓ queria dizer que era muito desportivo ! » Com um
gesto de enfado , o capitão clicou para mandar imprimir.
Depois de assinar o depoimento , acompanhei-o à porta. Disse-lhe
que tinha consciência de ter prestado um testemunho dececionante .
«Todos os testemunhos são dececionantes . . . » , respondeu ele . Fiquei
algum tempo a meditar no aforismo . Diante de nós estendia-se o
infinito tédio dos campos . O capitão entrou no seu Peugeot 305;
manter-me-ia ao corrente do seguimento do processo . Em caso de
falecimento de um ascendente direto , dispõe-se na função pública de
três dias de folga. Por essa razão , poderia ter regressado calmamente ,
passeando e comprando os camemberts da região ; mas apanhei ime­
diatamente a autoestrada em direção a Paris .
Passei o último dia de folga em diferentes agências de viagem .
Gostava muito de catálogos de férias , da sua abstração , da forma
como reduzem os lugares deste mundo a uma sequência restrita de
tarifas e prazeres potenciais; apreciava especialmente o sistema das
estrelas , que indicava a intensidade do prazer que se pode esperar de
cada sítio. Não era feliz mas dava valor à felicidade , e mantinha a
aspiração de ser feliz. Segundo o modelo de Marshall , o comprador
é um indivíduo racional que procura maximizar a sua satisfação ten­
do em conta o preço que pagou ; em contrapartida, o modelo de Ve­
blen analisa a influência do grupo sobre o processo da compra ( con­
forme o indivíduo se queira identificar com o grupo ou , pelo
contrário , fugir à sua influência) . O modelo de Copeland demonstra
que o processo de compra difere de acordo com a categoria do pro­
duto/serviço (compra simples , compra refletida, compra especializa­
da) ; mas o modelo de B audrillard-Becker considera que consumir é
também produzir sinai s . No fundo , sentia-me mais próximo do mo­
delo de Marshall .
Quando voltei ao trabalho , informei Marie-Jeanne de que tinha
necessidade de férias . Marie-Jeanne é a minha colega do serviço; em
conjunto , somos nós que preparamos os processos das exposições ,
laborando em prol da cultura contemporânea. Trata-se de uma mu­
lher de trinta e cinco anos , com cabelos louros e lisos e olhos de um
20 Michel Houellebecq

azul muito claro ; não sei nada sobre a vida íntima dela. No plano
hierárquico , está numa posição ligeiramente superior à minha; mas
esse é um aspeto que prefere iludir, preocupando-se mais com a im­
portância do trabalho de equipa. De cada vez que recebemos a visita
de uma personalidade realmente importante - um delegado da
Direção-Geral de Artes Plásticas , ou um membro do gabinete do
ministro - insiste nesta noção do trabalho de equipa . «Aqui está o
homem mais importante do serviço ! » , exclama ela ao entrar no meu
gabinete , «O homem que faz malabarismos com números e orçamen­
tos . . . Sem ele , estaria completamente perdida.» A seguir ri-se ; os
visitantes ilustres riem-se também , ou pelo menos sorriem com ar
encantado . Eu rio-me igualmente , na medida das minhas possibilida­
des . Tento então visualizar-me como um malabarista; mas a verdade
é que me limito a fazer operações aritméticas simples . Embora
Marie-Jeanne dê pouco nas vistas , o seu trabalho é efetivamente
mais complexo: tem de estar ao corrente de movimentos e tendên­
cias ; cabendo-lhe a responsabilidade cultural , pode a qualquer altura
ser acusada de imobilismo , ou mesmo de obscurantismo; tem de
estar precavida contra esse risco e precaver desse risco a instituição .
Do mesmo modo , é ela que mantém o contacto com artistas , galeris­
tas e diretores de revistas para mim totalmente obscuras ; mas esses
telefonemas alimentam-lhe a alegria, porque a sua paixão pela arte
contemporânea é mesmo verdadeira . Pessoalmente , também não
hostilizo esse tipo de arte ; mas de modo algum sou um defensor do
ramo , assim como do retomo à pintura tradicional ; conservo a atitu­
de reservada que convém a um gestor orçamental . As questões esté­
ticas e políticas não me dizem respeito; não sou eu que tenho de in­
ventar ou adotar novas atitudes , novos contactos com o mundo ; ao
mesmo tempo que renunciei a essa aspiração , o meu rosto foi fican­
do mais triste . Assisti a muitas exposições , muitas inaugurações ,
muitos acontecimentos memoráveis. A partir dai , adquiri uma certe­
za: a arte não consegue mudar a vida . Pelo menos a minha não , de
certeza absoluta.

Tinha informado Marie-Jeanne do meu luto; recebeu-me com sim­


patia, e até me pôs a mão no ombro . O meu pedido de férias parecia-
Plataforma 21

-lhe inteiramente natural . «Tens necessidade de parar para pensar,


Michel» , considerou ela, «de te voltares para ti mesmo .» Tentei ima­
ginar o movimento que a minha colega sugeria e concluí que talvez
tivesse razão . «A Cécilia pode substituir-te na elaboração do orça­
mento» , continuou Marie-Jeanne , «eu própria lhe vou falar sobre
isso .» A que se referia ela exatamente , e quem seria a tal Cécilia?
Olhando em volta vi o anteprojeto de um cartaz e recordei-me . A
Cécilia era uma rapariga ruiva e gorda que não parava de comer
Cadbury e tinha entrado para o serviço há dois mese s : uma contrata­
da a prazo , ou mesmo tarefeira , alguém insignificante , em suma. De
facto , antes da morte do meu pai , eu estava a trabalhar na previsão
do orçamento da exposição «Haut les mains , galopins ! » , a inaugurar
em Bourg-la-Reine no mês de janeiro . Tratava-se de uma série de
fotografias de brutalidades policiai s , captadas com teleobjetiva na
região de Yvelines ; a intenção não era pôr de pé um trabalho docu­
mental , mas sim a teatralização de um espaço , acompanhada de vá­
rias piscadelas de olho às diferentes séries policiais em que entra o
grupo Los Angeles Police Department. O artista privilegiara a abor­
dagem jun, em alternativa à, mais previsível , denúncia social . Em
resumo , um projeto interessante , nem demasiado caro nem demasia­
do complicado ; mesmo uma atrasadinha como a Cécilia era capaz de
terminar a previsão do orçamento .

De um modo geral , quando saía do serviço ia dar uma volta por


um peep-show . Ficava-me em cinquenta francos , às vezes sessenta
se a ejaculação fosse mais demorada. Ver ratas em movimento
limpava-me as ideias . Orientações contraditórias da divulgação da
arte contemporânea, equilíbrio entre conservação do património e
manutenção da iniciativa criadora . . . tudo isso depressa desaparecia
diante da magia fácil das ratas em movimento . Então , despejava
calmamente os testículos . Por seu lado , Cécilia empanturrava-se a
essa hora de bolos de chocolate , numa pastelaria próxima do minis­
tério ; as nossas motivações eram praticamente as mesmas .
Muito raramente , deslocava-me a um salão privado de quinhentos
francos ; acontecia isso quando a piça não me parecia em bom estado ,
mais se assemelhando a um pequeno apêndice exigente e inútil , a
22 Michel Houellebecq

cheirar a queijo; nessa altura, precisava que uma rapariga tomasse


conta dela , extasiando-se ainda que falsamente ante o vigor do mem­
bro e a abundância do seu sémen . Fosse como fosse , chegava a casa
antes das sete e meia da noite . Começava por ver Questions pour un
champion , já programado no vídeo; em seguida, mudava para as
notícias de âmbito nacional . A crise das vacas loucas interessava-me
pouco; alimentava-me quase exclusivamente de puré Mousline com
sabor a queijo. Depois , o serão continuava. Não tinha problemas ,
dispunha de cento e vinte e oito canai s . Por volta das duas da manhã,
encerrava a sessão com comédias musicais da Turquia .
E assim se passaram alguns dias , relativamente sossegados , até
que recebi um novo telefonema do capitão Chaumont . As coisas ti­
nham avançado muito , o presumível assassino estava detido , na
verdade era mais do que uma presunção , o homem já confessara . A
reconstituição do crime iria ter lugar daí a dois dias ; seria que eu
queria estar presente? Ah , sim , respondi , claro que sim.
Marie-Jeanne deu-me os parabéns pela coragem da decisão . Falou
do mecanismo do luto , do enigma da filiação; servia-se de palavras
socialmente aceitáveis , tiradas de um catálogo restrito , mas isso não
era muito importante ; eu sentia o afeto dela, era surpreendente e era
bom . Sej a como for, as mulheres são seres afetivos , disse para comi­
go enquanto tomava o comboio para Cherbourg ; até no trabalho têm
tendência para estabelecer relações afetivas , é-lhes difícil
movimentarem-se num universo despojado de contactos afetivos ;
trata-se de uma atmosfera onde têm dificuldade em florescer. É essa
a sua fraqueza, as páginas «psicológicas» da Marie-Claire recordam­
-nos isso constantemente: seria preferível que fizessem uma separa­
ção clara entre os aspetos profissionais e os afetivos ; mas não conse­
guem , e as páginas de «testemunhos» da Marie-Claire atestam-no
com idêntica regularidade . Por alturas de Rouen , voltei a pensar nos
dados do processo policial . A grande descoberta do capitão Chau­
mont dizia respeito a «contactos íntimos» entre Aicha e o meu pai .
Com que frequência e em que grau ? Isso não sabia ele , mas era um
aspeto inútil para a continuação do inquérito . Um dos irmãos dela
confessara rapidamente ter vindo «pedir explicações» ao velhote ,
depois a discussão degenerara e deixara-o como morto no chão da
casa da caldeira.
Plataforma 23

Em princípio , a reconstituição era presidida pelo juiz de instrução ,


um homem baixo e austero , de calças de flanela e polo escuro , com
a cara crispada por um perpétuo esgar de irritação; mas o capitão
Chaumont impôs-se como verdadeiro mestre-de-cerimónias . Cheio
de vivacidade e alegria, era ele que recebia os intervenientes e tinha
para cada um uma palavra de boas-vindas , acompanhando-os aos
seus lugares: estava com um ar feliz . Era o seu primeiro caso de
homicídio , e conseguira resolvê-lo em menos de uma semana; em
toda esta história sórdida e banal , era ele o único e verdadeiro herói .
Enterrada numa cadeira, visivelmente abatida, com uma fita preta à
volta da cara, Aicha mal levantou os olhos quando eu cheguei ; tinha
o olhar ostensivamente virado no sentido oposto ao lugar em que o
irmão se encontrava. Este , enquadrado por dois polícias , olhava para
o chão com um ar obstinado . Efetivamente , parecia um bruto qual­
quer; pela minha parte , não sentia a mais pequena simpatia por ele .
Quando levantou os olhos e me viu , identificou-me com toda a cer­
teza. Conhecia a minha posição , deviam tê-lo prevenido : de acordo
com as suas alvares conceções , eu tinha direito a vingar-me , era cre­
dor do sangue do meu pai . Consciente da relação criada entre nós ,
fixei-o sem desviar a vista; lentamente , deixei-me invadir pelo ódio ,
sentindo-me a respirar com mais facilidade , e isso provocava-me
uma sensação agradável e forte . Se tivesse uma arma, tê-lo-ia abati­
do sem hesitação . Matar aquela merda afigurava-se-me não apenas
como um ato banal , mas também uma iniciativa benéfica e positiva.
Um polícia fez marcas a giz no pavimento , e a reconstituição come­
çou . Segundo o acusado , tinha sido tudo muito simples ; enervara-se
durante a discussão e empurrara violentamente o meu pai ; este caíra
para trás e rebentara a cabeça contra o chão; desvairado , o bruto
pusera-se imediatamente em fuga.
É claro que estava a mentir, e o capitão não teve dificuldade em
prová-lo . O exame ao crânio da vítima tinha marcas evidentes de
uma ação obstinada; era possível observar contusões múltiplas , pro­
vavelmente resultantes de uma série de pontapés na cabeça . A cara
do meu pai fora esfregada contra o chão , até quase fazer saltar um
olho da órbita . «Não sei . . . » , disse o acusado , «tive muita raiva.»
Olhando os seus braços nervosos , a sua cara pequena e maldosa, não
era difícil acreditar nele : agira sem premeditação , talvez excitado
24 Michel Houellebecq

pelo embate da cabeça contra o chão e a visão do sangue a começar


a sair. O método de defesa que escolhera era claro e credível , daria
certamente resultado perante o tribunal : ia apanhar uns anos de pena
suspensa, nada mais . Satisfeito com o desenrolar dos trabalhos da
tarde , o capitão Chaumont apressava-se a acabar a sessão . Levantei­
-me da cadeira e encaminhei-me para uma porta envidraçada . A
noite caía: uns quantos carneiros terminavam o seu dia . Também eles
eram estúpidos , talvez ainda mais estúpidos do que o irmão de
Aicha; mas não havia nenhuma reação de violência programada nos
seus genes . Nos derradeiros instantes de vida berrariam de aflição , o
seu ritmo cardíaco acelerar-se-ia, as patas agitar-se-iam desesperada­
mente; depois do tiro de pistola a sua vida escapar-se-ia, e o corpo
transformar-se-ia em carne . Despedimo-nos com vários apertos de
mão ; o capitão Chaumont agradeceu a minha presença.
Voltei a ver Aicha no dia seguinte ; a conselho do homem da imo­
biliária, eu decidira mandar limpar a casa a fundo , antes de começar
a ser visitada. Entreguei-lhe as chaves , e depois ela acompanhou-me
até à estação de Cherbourg . O inverno estava a tomar conta da mata,
havia manchas de bruma por cima dos renques das árvores. Entre
mim e ela, as coisas não eram fácei s . Aicha conhecera os órgãos
sexuais do meu pai , o que tendia a criar entre nós uma intimidade
algo deslocada. Tudo aquilo era inteiramente espantoso: ela parecia
uma rapariga séria, e o meu pai não era propriamente um sedutor.
Claro que teria alguns traços e características interessantes de que eu
não me apercebera; mas a verdade é que sentia uma certa dificuldade
em recordar-me da cara dele . Os homens são como bois que vivem
encostados uns aos outros; quando muito , partilham de vez em quan­
do uma garrafa de vinho .
O Volkswagen dela parou na praça da estação ; por mim , tinha
consciência de que seria conveniente pronunciar algumas palavras
antes de nos separarmos . «Pois bem . . . » , disse então . Ao fim de al­
guns segundos , Aicha dirigiu-se-me com a voz rouca: «Vou deixar
esta região . Tenho um amigo que consegue arranjar-me um lugar de
empregada de mesa em Paris; vou continuar a estudar depois de lá
estar. De qualquer modo , a minha família considera-me uma puta .»
Emiti um murmúrio de compreensão . «Em Paris , há mais gente . . . » ,
arrisquei-me finalmente a dizer de forma sentida; não valia a pena
Plataforma 25

pensar muito , aquilo era tudo o que me ocorria dizer sobre Paris . A
extrema pobreza da réplica não pareceu desencorajá-la. «Não tenho
nada a esperar da família» , prosseguiu Aicha num assomo de raiva .
«Não se limitam a ser pobre s , ainda por cima são idiotas . Há dois
anos , o meu pai fez a sua peregrinação a Meca. Depois disso , não
espera mais nada da vida. Os meus irmãos ainda são piores:
entretêm-se mutuamente com as suas cretinices , emborcam copos
enquanto se assumem como depositários da verdadeira fé , e chegam
ao ponto de me chamarem galdéria por eu preferir trabalhar em vez
de me casar com um bardino igual a eles .»
«É verdade , em conjunto os muçulmanos não são grande coisa . . . » ,
disse eu embaraçado . Agarrei no saco , abri a porta do carro . «Acho
que você se vai safar. . . » , sussurrei sem convicção . Nesse momento ,
tive uma espécie de visão sobre os fluxos migratórios , como vasos
sanguíneos que atravessassem a Europa; os muçulmanos tomavam a
forma de coágulos lentamente absorvidos . A rapariga olhava para
mim com uma expressão de dúvida . O frio entranhava-se no automó­
vel . Intelectualmente , eu começava a sentir uma certa atração pela
vagina das muçulmanas . Sorri de um modo ligeiramente forçado . Por
sua vez , ela sorriu também mais francamente . Apertei-lhe a mão du­
rante muito tempo , senti-lhe o calor dos dedos , e continuei até dar
pelo sangue dela a bater baixinho na parte côncava do pulso . Quando
me afastara já alguns metros do carro , voltei-me para lhe fazer um
sinal . Ainda assim , tinha havido ali um encontro; ainda assim, acon­
tecera qualquer coisa no final .
Quando me instalei na carruagem Corail, disse para comigo que de­
veria ter dado algum dinheiro à rapariga. Ou talvez não , talvez fosse
mal interpretado . Curiosamente , foi nesse momento que , pela primeira
vez , tomei consciência de que me ia tomar um homem rico; enfim, re­
lativamente rico . O dinheiro do meu pai já tinha sido transferido para a
minha conta. Quanto ao resto , encarregara o garagista de me vender o
carro do velho , passando-se o mesmo com a casa entregue a uma agên­
cia imobiliária; tudo isso correra de uma forma simples . Os bens foram
avaliados em função dos valores do mercado . É claro que havia uma
margem de negociação: I O % para cada parte e mais nada. Os impostos
também não tinham nada que saber: bastava consultar as brochuras ,
muito bem feitas , enviadas pela Direção-Geral dos Impostos .
26 Michel Houellebecq

Provavelmente , o meu pai pensara várias vezes em deserdar-me;


por fim , fora obrigado a desistir; concluíra que era um assunto dema­
siadamente complicado , seriam precisas várias diligências , e o resul­
tado era incerto (porque as pessoas não conseguem deserdar facil­
mente os filhos , as hipóteses constantes da lei são muito restritas : os
sacaninhas não se limitam a moer a cabeça aos pais , aproveitam-se
mais tarde de tudo o que eles amealharam , à custa de muitos sacrifí­
cios) . O meu pai concluíra certamente que não valia a pena
incomodar-se - porque não haveria de se estar nas tintas para o que
acontecesse depois da sua morte? Na minha opinião , tinha sido esse
o raciocínio dele . A verdade é que o velho cretino morrera , e eu ia
agora vender a casa onde ele passara os últimos anos de vida; do
mesmo modo , ia vender o Toyota Land Cruiser que ele utilizava
para trazer, do Casino Géant de Cherbourg , as embalagens de água
de Évian . Vivendo junto do Jardin des Plantes , o que poderia eu fazer
com o Toyota Land Cruiser? Talvez trazer do mercado Mouffetard
os meus raviolis à la ricotta , e pouco mais . Quando se trata de uma
herança em linha direta , os direitos de transmissão não são muito
elevados - mesmo quando os laços afetivos também não são muito
fortes . Impostos deduzidos , poderia sacar cerca de três milhões de
francos . Um valor que representava quase quinze vezes o meu salá­
rio de um ano de trabalho . Ou então tudo o que um operário não
qualificado poderia aspirar, na Europa Ocidental , durante uma vida
inteira de labor; nada mal , como se vê . Assim sendo , podia começar
a desenrascar-me ; podia tentar.
Dentro de algumas semanas , receberia certamente uma carta do
meu banco. Com o comboio a aproximar-se de B ayeux , era capaz de
imaginar o que se iria passar de seguida. Verificando a existência de
um saldo significativo na minha conta à ordem , um funcionário es­
pecializado da minha agência bancária gostaria de ter uma conversa
comigo - qual é a pessoa que , numa ou noutra altura da sua vida ,
não tem necessidade de um gestor de aplicações? Um pouco descon­
fiado , eu teria optado por soluções seguras ; o homem acolheria essa
reação - tão frequente - com um breve sorriso . Sabia bem como a
maior parte dos investidores novatos privilegiam a segurança das
aplicações ; entre colegas , chegavam a brincar com isso . Não devia
levar a mal a utilização do termo: em matéria de gestão do patrimó-
Plataforma 27

nio , certas pessoas mais velhas comportam-se como verdadeiros


novatos . Pela sua parte , iria tentar chamar-me a atenção para opções
ligeiramente diferentes - dando-me sempre , como é evidente , tem­
po para pensar. Na verdade , porque não investir dois terços daquela
importância numa aplicação sem sobressaltos , embora de baixo ren­
dimento? E porque não consagrar o outro terço a um investimento
um pouco mais ousado , mas com efetivas possibilidades de valoriza­
ção? Por mim , sabia bem que , após alguns dias de reflexão , me iria
render aos seus argumentos . O homem sentir-se-ia confortado com a
minha adesão à sua ideia, trataria dos documentos com uma centelha
de entusiasmo - e, à despedida , o nosso aperto de mão seria franca­
mente caloroso .
Eu vivia num país marcado por um socialismo amansado , onde a
posse de bens materiais estava garantida por uma legislação rigorosa
e o sistema bancário se encontrava protegido por fortes garantias es­
tatais . Exceto se me aventurasse a ultrapassar os limites da legalidade ,
não me arriscava a sofrer os efeitos de um desfalque ou de uma falên­
cia fraudulenta. Em suma, deixara de ter dificuldades na minha vida.
De resto , nunca as tivera verdadeiramente: depois de estudos aplica­
dos embora nada fascinante s , depressa me decidira pelo setor público .
Estava-se em meados dos anos oitenta, no início da modernização
socialista, a época em que o ilustre Jack Lang derramava fausto e
glória sobre as instituições culturais do Estado; ao tomar posse , o meu
salário era inteiramente adequado . E depois envelhecera , enquanto
assistia sem inquietação a sucessivas mudanças políticas . Era uma
pessoa delicada, correta , apreciada por colegas e superiores; de tem­
peramento pouco caloroso , porém, não conseguira fazer verdadeiros
amigos . A noite caía rapidamente sobre a região de Lisieux . Por que
razão nunca teria sentido , pelo meu trabalho , uma paixão comparável
à de Marie-Jeanne? Por que motivo não tivera eu , de um modo mais
geral , uma verdadeira paixão em toda a minha vida?
Passaram ainda algumas semanas sem ter encontrado resposta;
depois , na manhã do dia 23 de dezembro , apanhei um táxi para o
aeroporto de Roissy.
3

E agora ali estava eu , sozinho como um perfeito idiota, a poucos


metros do balcão de atendimento da agência Nouvelles Frontieres .
Era um sábado de manhã do período das festas , e , como de costume ,
Roissy estava cheio de gente . Logo que dispõem de alguns dias de
liberdade , os habitantes da Europa Ocidental precipitam-se para o
outro lado do mundo , atravessam metade do globo num avião e , li­
teralmente , comportam-se como presidiários em fuga. Não os censu­
ro; estou a preparar-me para fazer exatamente a mesma coisa.
Os meus sonhos são medíocres . Como toda a gente na Europa
Ocidental , tenho a aspiração de viajar. Mas há que contar com algu­
mas dificuldades , a barreira da língua, a má organização dos trans­
portes coletivos , os riscos de se ser roubado ou vigarizado; dizendo
as coisas mais cruamente , aquilo a que aspiro , no fundo , é jazer tu­
rismo . Cada um contenta-se com os sonhos que tem; e o meu sonho
é percorrer indefinidamente os vários «Circuits passion» , «Séjours
couleur» e «Plaisirs à la carte» - só para utilizar os temas de três
catálogos da Nouvelles Frontieres .
Decidira imediatamente fazer um circuito turístico , mas hesitava
entre «Rhum et Salsa» (ref. CUB CO 033 , 1 6 dias/ 1 4 noite s , 1 1 250
francos em quarto duplo , suplemento de 1 350 francos para quarto
individual) e « Tropic Thai" » (ref. THA CA 006 , 1 5 dias/ 1 3 noites ,
9950 francos em quarto duplo , suplemento de 1 1 75 francos para
quarto individual) . Na verdade , estava mais atraído pela Tailândia;
mas Cuba tinha a vantagem de ser um dos últimos países comunistas ,
talvez por pouco tempo , com o aspeto positivo de se tratar de um
Plataforma 29

regime em vias de extinção , uma espécie de exotismo político , em


suma. Por fim , optei pela Tailândia. É preciso reconhecer a qualidade
do texto de apresentação da brochura, destinado a seduzir almas
medianas :

«Um circuito organizado, com um toque de aventura, que vos le­


vará dos bambus do rio Kwai, na ilha de Koh Samui, até Koh Phi
Phi, ao largo de Phuket, depois da magnífica travessia do istmo de
Kra . Uma viagem "cool " pelos trópicos .»

Às 8h30 em ponto , Jacques Maillot fecha a porta de casa no Bou­


levard B lanqui , no XIII B airro de Pari s , monta-se na scooter e em­
preende a travessia da capital , de leste para oeste . Destino: a sede da
Nouvelles Frontieres, no Boulevard de Grenelle . De dois em dois
dias , para em três ou quatro das suas agências : «Levo-lhes os catálo­
gos mais recentes , recolho a correspondência e vej o como estão as
coisas» , explica este dinâmico empresário , eternamente enfeitado
com a sua espampanante gravata pintalgada. É preciso espicaçar os
vendedores: «Nos dias seguintes , as agências duplicam os contra­
tos . . . » , explica ele com um sorriso . Visivelmente encantada, a jorna­
lista da Capital vai mais longe na sua admiração : quem poderia
prever, em 1 967 , que a pequena associação criada por um punhado
de estudantes contestatários teria um tal desenvolvimento? Os milha­
res de manifestantes que , em 1 968 , desfilaram em frente da primeira
agência da Nouvelles Frontieres, na Place Denfert-Rochereau , em
Paris , certamente não pensaram nisso . «Fomos apanhados mesmo de
frente pelas câmaras da televisão . . . » , recorda Jacques Maillot , anti­
go escuteiro e católico de esquerda com passagem pela União Nacio­
nal dos Estudantes Franceses . Foi esse o primeiro golpe publicitário
da empresa, cuj o nome se tinha inspirado num discurso de John
Kennedy sobre as <<novas fronteiras» da América .
Liberal fervoroso , Jacques Maillot batera-se com êxito contra o
monopólio da Air France , lutando pela democratização dos transpor­
tes aéreos . A odisseia da sua empresa, transformada , em pouco mais
de trinta anos , na principal agência de viagens francesa, fascinava as
revistas de economia. À semelhança da FNAC e do Club Med , a
Nouvelles Frontieres - nascida com a civilização dos tempos livres
30 Michel Houellebecq

- simbolizava, de certa forma , uma nova face do capitalismo mo­


derno . No ano 2000 , a indústria turística tornara-se a maior atividade
económica do mundo em volume de negócios . Apesar de se limitar
a exigir dos seus clientes uma forma física razoável , o Tropic Thai"
inscrevia-se no grupo «circuitos de aventura» ; alojamentos de dife­
rentes categorias (simples , standard e de primeira) ; limite de vinte
inscrições em cada grupo , por razões de coesão . A certa altura , vi
chegar duas blacks engraçadinhas , de saco às costas , e dei comigo a
desejar que tivessem escolhido o mesmo circuito que eu; depois bai­
xei os olhos e fui levantar a minha documentação . O voo durava
pouco mais de onze horas .

Hoje em dia, fazer uma viagem de avião equivale a ser tratado


como uma merda qualquer, seja qual for a companhia e seja qual for
o destino . Encarquilhados num espaço ridículo e apertado de onde é
impossível sair sem incomodar os vizinhos de fila, somos presen­
teados com uma série de proibições , enunciadas por hospedeiras de
sorriso falso. Uma vez a bordo, a primeira coisa que fazem é
apoderar-se da nossa bagagem de mão para a fechar em cacifos pró­
prios - a que nunca mais temos acesso , seja por que pretexto for,
até à aterragem . Durante toda a viagem, tentam a todo o custo , por
meio de um conjunto de múltiplas regras , impedir que nos movimen­
temos , e , de um modo geral , que tomemos qualquer iniciativa , exce­
to as constantes do seu restrito catálogo: engolir bebidas gasosas e
vídeos americanos , e comprar produtos duty-jree . A permanente sen­
sação de perigo , alimentada por imagens mentais de crashs aéreos , e
a imobilidade forçada num espaço limitado provocam um stress tão
forte que , em certos voos de longa distância, tem havido casos de
passageiros mortos por crises cardíacas . Quanto ao stress , a própria
tripulação tenta de todas as maneiras mantê-lo ao mais alto nível ,
proibindo os passageiros de o combater com os seus próprios meios .
Privados de cigarros e de leitura, somos também , muitas vezes , pri­
vados de álcool . Pela graça de Deus , os grandes sacanas ainda não
praticam técnicas de palpação ; passageiro experimentado , eu conse­
guira munir-me de uma bolsa contendo material de sobrevivência:
pastilhas de nicotina , comprimidos para dormir e uma garrafinha de
Plataforma 31

Southern Comfort . Na altura em que sobrevoávamos a ex-Alemanha


de Leste , afundei-me num sono pastoso .
Fui acordado por uma pressão no ombro e uma respiração morna.
Sem grandes manobras , voltei a pôr o meu vizinho da esquerda no
seu lugar: o homem emitiu um grunhido suave , mas não abriu os
olhos . Era um tipo grande , na casa dos trinta, de cabelos castanho­
-claros cortados à tigela; não tinha ar de estúpido nem de antipático .
Era até uma pessoa enternecedora, enrolado no cobertor azul forne­
cido pela companhia, com as suas grandes mãos de trabalhador ma­
nual poisadas nos joelhos . Apanhei o livro caído aos seus pés : um
best-seller anglo-saxónico merdoso , de um tal Frederic Forsyth . Ti­
nha lido já a primeira obra deste idiota , cheia de elogios a Margaret
Thatcher e de referências superirritantes à URSS como império do
mal. Perguntei a mim próprio como fará ele agora , depois da queda
do Muro de Berlim. Folheei este seu novo livro : aparentemente , o
papel dos maus era nessa altura assegurado pelos vermelho-castanhos
e outros nacionalistas sérvios ; aqui está um homem que se mantém
ao corrente da atualidade . Quanto ao seu herói favorito , o enfadonho
Jason Monk, estava novamente ao serviço da CIA , circunstancial­
mente aliado da máfia chechena . Ora bem , disse para comigo voltan­
do a pôr o livro nos joelho do vizinho , eis os grandes critérios morais
dos autores dos best-sellers anglo-saxões ! A página estava marcada
com uma folha dobrada em três , onde se lia a convocatória daNou ­

velles Frontieres: acabava então de travar conhecimento com o meu


primeiro companheiro de viagem . Uma bom rapaz , parecia-me , se­
guramente menos egocêntrico e nervoso do que eu . Deitei o olho
para o monitor do vídeo onde se podia acompanhar a progressão do
voo: atendendo ao tempo decorrido , provavelmente tínhamos atra­
vessado já a Chechénia; no exterior, a temperatura era de - 5 3 °C , a
altitude de 1 0 I 43 metros , a hora local 00 : 27 . Entretanto , um mapa
veio substituir essas indicações: começávamos a sobrevoar o Afega­
nistão . Obviamente , através da vigia só se via o negrume da noite .
De qualquer modo , os talibãs deviam estar deitados , a marinar na sua
própria sujidade . «Boa noite , talibãs , boa noite e bons sonhos . . »,
.

murmurei antes de engolir o segundo comprimido para dormir.


4

O avião aterrou por volta das cinco horas da manhã no aeroporto


de Don Muang . Acordei com dificuldade . O meu vizinho do lado j á
estava levantado e marcava passo na fila d e espera para sair d o apa­
relho . Depressa o perdi de vista no corredor que ia dar ao hall de
chegada . Pela minha parte , tinha as pernas trôpegas e a boca pastosa;
e nos ouvidos um enorme zumbido .
Assim que as portas automáticas se abriram , senti-me engolido
pelo calor: 35 oc, pelo menos . O calor de Banguecoque tem a carac­
terística especial de parecer gorduroso , talvez devido à poluição;
depois de andar muito tempo ao ar livre , a pessoa admira-se de não
ficar coberta de uma fina película de resíduos industriais . Levei cer­
ca de trinta segundos para adaptar a respiração àquela atmosfera.
Tentava não perder de vista a acompanhante tailandesa, que não
chegara a ver como devia ser, parecendo-me apenas que seria reser­
vada e bem-educada - embora muitas tailandesas produzam a mes­
ma impressão . A mochila dilacerava-me os ombros; era da marca
Lowe Pro Himalaya Trekking , o modelo mais caro à venda no esta­
belecimento Vieux Campeur; aparentemente , era um produto garan­
tido para o resto da vida . Tratava-se de um objeto impressionante ,
cinzento-metálico , com grandes presilhas , velcros especiais - de
fabrico assegurado pela firma - e fechos de correr capazes de fun­
cionar a uma temperatura de - 65 °C . Infelizmente , o conteúdo era
bastante limitado: alguns shorts e T-shirts , um fato de banho , sapatos
especiais para andar nos corais ( 1 25 francos no Vieux Campeur) ,
bolsa com os medicamentos descritos como indispensáveis no Guia
Plataforma 33

do Caminheiro , câmara de vídeo JVC HDR-9600 MS com pilhas e


cassetes de reserva, e dois best-sellers americanos que comprara um
bocado ao calhas no aeroporto .
O autocarro da Nouvelles Frontieres encontrava-se estacionado a
cerca de cem metros dali . No interior da possante viatura - um
Mercedes M-800 de 64 lugares - o ar condicionado estava no má­
ximo; ficava-se com a impressão de se entrar num congelador.
Instalei-me do lado esquerdo , junto a uma j anela, no meio do auto­
carro ; distingui com dificuldade uma dezena de outros passageiros ,
entre os quais o meu vizinho do avião . Ninguém veio sentar-se ao pé
de mim . Manifestamente , falhara a primeira oportunidade de integra­
ção no grupo ; e estava também muito bem encaminhado para apa­
nhar uma rica constipação .

O dia não nascera ainda, mas , na autoestrada de seis vias que ia


dar ao centro de Banguecoque , o trânsito era já intenso . Passámos
alternadamente por grandes edifícios de ferro e aço , e por uma ou
outra construção de betão maciço fazendo lembrar a arquitetura so­
viética. Viam-se sedes sociais de bancos , grandes hotéis e empresas
de eletrónica - quase todos japonesas . Depois do cruzamento de
Chatuchak, o autocarro circulou acima das vias radiais que rodeiam
o centro da cidade . Por entre os edifícios iluminados dos hotéis , co­
meçavam a distinguir-se grupos de casas pequenas , com o teto em
colmo , no meio dos espaços vazios . Iluminadas pelas lâmpadas de
néon , havia tendas ambulantes onde se vendia sopa e arroz; e via-se
o fumo a sair das marmitas de folha de Flandres . O autocarro afrou­
xou ligeiramente para apanhar a saída de New Petchaburi Road . Por
um momento , vislumbrámos uma placa distribuidora de tráfego com
contornos fantasmagóricos , cujos pavimentos pareciam suspensos
no meio dos céu s , por causa da luz dos holofotes do aeroporto; a
seguir, após uma longa curva , a viatura voltou à via rápida .
O Bangkok Palace Hotel pertencia a uma cadeia ligada aos hotéis
Mercure , orientando-se pelos mesmos padrões no serviço do restau­
rante e na qualidade do acolhimento; foi o que aprendi numa brochu­
ra retirada no hall de entrada, enquanto se procedia à receção do
grupo . Eram agora pouco mais de seis da manhã - meia-noite em
34 Michel Houellebecq

Pari s , pensei eu sem razão alguma - , mas havia já uma grande ani­
mação e a sala dos pequenos-almoços tinha acabado de abrir. Sentei­
-me num banco estofado ; sentia-me aturdido , os ouvidos continuavam-
-me a zumbir violentamente e começava a ter dores de barriga. Pela
atitude de expectativa, conseguia reconhecer alguns membros do
grupo . Havia duas raparigas de cerca de vinte e cinco ano s , bastante
embonecadas - embora bem feitas , em todo o caso - , que passea­
vam um olhar de desprezo pelas pessoas . Em contrapartida, um casal
de reformados - ele com um ar que se poderia classificar como vi­
vaço , ela um pouco mais triste - observava, maravilhado , a decora­
ção interior do hotel , constituída por espelhos , lustres e dourados . Em
regra, durante as primeiras horas de vida de um grupo regista-se ape­
nas uma sociabilidade fática , caracterizada pelo emprego de frases
feitas e por um restrito envolvimento emocional . Segundo Edmunds
e White1 a constituição de minigrupos só é assinalável durante a pri­
meira excursão ou por vezes durante a primeira.refeição em conjunto .
Sentia-me sobressaltado , quase a perder a consciência, e acendi
um cigarro para me reanimar: aqueles soníferos eram de facto muito
fortes , deixavam-me doente ; mas com os anteriores não conseguia
dormir: não havia grande solução . Os reformados voltavam lenta­
mente para dentro de si mesmos , e eu tive a impressão de que o ho­
mem se pavoneava um pouco; na expectativa de encontrarem uma
pessoa concreta com quem trocar um sorriso , ambos tinham um sor­
riso potencial para o mundo em seu redor. Tinham sido pequenos
comerciantes numa vida passada, era a única hipótese . Pouco a pou­
co , os membros do grupo dirigiam-se à acompanhante quando eram
chamados e recebiam as chaves do quarto - dispersando-se depois
em várias direçõe s . Se quiséssemos , lembrava a acompanhante com
uma voz bem timbrada, podíamos tomar desde já o pequeno-almoço ;
podíamos também ir para os quartos; éramos inteiramente livres .
Fosse como fosse , o encontro para a visita dos klongs , os canais da
cidade , estava marcado para as 1 4 horas , no hall do hotel .
O vão envidraçado do meu quarto dava diretamente para a via
rápida. Eram seis e meia da manhã . A circulação fazia-se já intensa­
mente , mas o vidro duplo deixava passar somente um ronco ligeiro .
As iluminações noturnas estavam apagadas , mas o aço e o ferro ain­
da não brilhavam ao sol ; a esta hora do dia, a cidade era cinzenta .
Plataforma 35

Encomendei ao roam service um café duplo , que engoli com um


comprimido de E.fferalgan , outro de Doliprane e uma dose reforçada
de Oscillococcinum; a seguir deitei-me e tentei fechar os olhos .
Havia vultos a mexerem-se lentamente num espaço restrito ; des­
sas formas saía um sussurro grave; tratava-se talvez de maquinaria
da manutenção do hotel , ou de insetos gigantes . Lá em baixo , ao
fundo , um homem armado com uma cimitarra pequena experimentava­
-lhe cuidadosamente o gume afiado ; estava vestido com um turbante
e umas calças brancas largas em baixo . De repente , a atmosfera
tornou-se vermelha e poeirenta , quase líquida; devido à acumulação
de pequenas gotas de condensação diante dos meus olhos , tive cons­
ciência da existência de um vidro a separar-me da cena . O homem
estava agora deitado no chão , imobilizado por uma força invisível .
As máquinas reagrupavam-se à sua volta; havia cortadores de relva
e um pequeno bulldozer de lagartas . Os cortadores de relva ergueram
os braços articulados e abateram-se em conjunto sobre o homem ,
dividindo-lhe o corpo em sete ou oito bocados; a cabeça , porém,
parecia animada de uma vitalidade demoníaca, e um sorriso maléfico
marcava-lhe ainda o rosto barbudo . Foi a vez de o bulldozer avançar
sobre ele , rebentando-lhe a cabeça como se fosse um ovo ; um j ato de
cérebro e ossos partidos foi projetado para o vidro , a poucos centí­
metros da minha cara .
5

No fundo, o turismo enquanto busca dos sen­


tidos, com as sociabilidades lúdicas que favo­
rece, as imagens que gera, é um dispositivo
gradual de apreensão, codificado e não trau­
matizante do exterior e da alteridade.
Rachid Amirou

Levantei-me cerca do meio-dia, o ar condicionado fazia um zum­


bido grave; a cabeça doía-me um bocado menos . Atravessado na ca­
ma king size , tomei consciência do seguimento que a excursão iria ter
e dos riscos daí resultantes . O grupo , até agora informe , iria transfor­
mar-se numa comunidade viva; a partir dessa tarde , eu tinha de mar­
car uma atitude , começando já a escolher os shorts para o passeio
pelos klongs . Decidi-me por um modelo de meia-perna , em tecido de
blue jeans , não muito justo , combinando com uma T-shirt Radiohead;
a seguir, enfiei mais umas coisas para dentro da mochila. Observei­
-me com preocupação no espelho da casa de banho: uma crispada
face de burocrata ficava extremamente mal com o conjunto ; no fun­
do , ficava parecido com aquilo que efetivamente era: um funcionário
público quarentão tentando mascarar-se de jovem durante o período
de férias ; era desolador. Dirigi-me à janela e puxei as cortinas de par
em par. O imponente volume do Hotel Mariott erguia-se à esquerda
como uma falésia branca , riscada pelos traços pretos e horizontais das
janelas em fila, escondidas atrás das varandas . A luz do Sol , àquela
hora no zénite , acentuava fortemente as superfícies planas e as arestas
Plataforma 37

da fachada. Para a frente , havia infinitas reflexões luminosas por cima


de uma complexa estrutura de cones e pirâmides de vidro azulado . Na
linha do horizonte , os gigantescos cones de betão do Grand Plaza
President dispunham-se em forma de pirâmides com degrau s . À di­
reita , ultrapassando a superfície verde e arrepiante do Lumphini Park ,
distinguiam-se as torres angulares do Dusit Thani , como uma cidade­
la ocre . O céu era de um azul integral . Bebi lentamente um Singha
Gold enquanto refletia sobre o conceito de irremediável .
No átrio, a guia procedia a uma espécie de chamada para distribuir
os talões do pequeno-almoço . Foi assim que percebi que as duas
embonecadas se chamavam Babette e Léa. Babette tinha cabelos
loiros encaracolados , caracóis artificiais, claro está , talvez mai s exa­
tamente ondulados; possuía umas belas mamas , a cabra , bem visí­
veis por baixo da túnica translúcida - provavelmente um estampado
étnico da marca Trais Suisses . As calças , do mesmo tecido , eram
igualmente translúcidas ; por baixo , distinguia-se perfeitamente a
renda branca das calcinhas . De cabelo acastanhado , Léa era mais
filiforme; mas compensava com um bom par de coxas , bem acentu­
adas por calções pretos muito justos , além de uns peitos agressivos ,
cujos bicos despontavam por baixo do corpete amarelo-vivo . Tinha
um diamante minúsculo a enfeitar-lhe o umbigo pequeno . Fixei aten­
tamente aquelas duas putéfias , para nunca mais me esquecer delas .
A distribuição dos cupões continuava. Sôn , a guia, chamava toda a
gente pelo nome próprio; aquilo punha-me doente . Éramos pessoas
adultas , porra. Tive um lampejo de esperança quando se referiu aos
reformados como «monsieur e madame Lobligeois» , mas depois acres­
centou com um sorriso radiante: «Josette e René» . «Chamo-me René» ,
confirmou o homem sem se dirigir a ninguém em particular. «Não tem
muita sorte . . . » , resmunguei . A mulher deitou-lhe um olhar cansado ,
como quem diz «Cala-te , René , estás a chatear as pessoas» . Percebi
imediatamente em quem o homem me fazia pensar: na figura de Mon­
sieur Plus , dos anúncios de biscoitos Bahlsen . Podia ser mesmo ele ,
aliás . Dirigi-me diretamente à mulher: por acaso não teriam participado
já numas rábulas , em papéis secundários ou alguma coisa dessas? De
modo nenhum, respondeu ela, eram donos de uma salsicharia. Pois ,
também batia certo . Este divertido compincha era então um antigo
salsicheiro (em Clamart, explicou a mulher) ; e fora nesse modesto es-
38 Michel Houellebecq

tabelecimento , consagrado à alimentação dos mais humildes , que exi­


bira no passado toda a sua preciosa coleção de chalaças e piadinhas .
Havia ainda outros dois casais , mais indistinto s , que pareciam uni­
dos por uma fraternidade sombria. Teriam vindo juntos desde o iní­
cio? Ou ter-se-iam conhecido durante o brealifast? Nesta altura da
viagem , tudo era possível . O primeiro desses casais era também o
mais desinteressante . O homem assemelhava-se ligeiramente a Antoi­
ne Waechter em novo , se tal coisa fosse possível ; mas tinha o cabelo
mais castanho , além da barba bem aparada; vendo bem , não seria
assim tão parecido com Antoine Waechter, talvez mais com o Robin
dos Bosques , embora em versão suíça, ou mais precisamente com um
toque de habitante do Jura. Para dizer a verdade , não se parecia ver­
dadeiramente com ninguém , tinha sobretudo ar de cretino . Sem falar
da mulher, do tipo cabra, séria e mamalhuda . Era absolutamente ini­
maginável que uns seres assim não deixassem descendência, pensei
eu . Talvez tivessem deixado a criancinha em casa de pessoas de famí­
lia, em Lons-le-Saulnier. O segundo casal , de pessoas mais velhas ,
não dava a impressão de uma serenidade tão profunda. Magro , nervo­
so e de bigode farfalhudo , o homem apresentou-se-me como natura­
pata; vendo a minha ignorância, explicou que fazia tratamentos por
meio de plantas , ou de outros produtos naturais , se possível . A mu­
lher, seca e mirrada, trabalhava em ação social , na inserção de não sei
que delinquentes primários da Alsácia; davam a impressão de não
foderem há mais de trinta anos . O homem parecia disposto a pôr-me
ao corrente das virtudes da medicina natural ; mas eu , vagamente atur­
dido por este primeiro contacto , fui sentar-me num local ligeiramente
afastado . De onde estava, distinguia mal os últimos três elementos do
grupo , meio tapados pelo casal da salsicharia. Um canastrão de cerca
de cinquenta anos , chamado Robert , com uma expressão estranha­
mente dura; uma mulher da mesma idade , de cabelos negros encara­
colados e cara ao mesmo tempo má, indolente e sabidona, chamada
Josiane; e finalmente uma mulher mais nova , quase incaracterística,
de não mais de 27 anos , que seguia atrás de Josiane com uma atitude
de submissão canina e se chamava Valérie . Muito bem , teria certa­
mente ocasião de voltar a vê-los; não me faltariam oportunidades de
o fazer, disse sombriamente para comigo enquanto caminhava em
direção ao autocarro . Reparei que Sôn olhava fixamente para a lista
Plataforma 39

de passageiros . A sua expressão estava carregada e nos seus lábios


formavam-se palavras involuntárias ; percebia-se que estava apreensi­
va, quase desorientada . Contando com ela, o grupo tinha treze pesso­
as ; e os tailandeses são muito supersticiosos , ainda mais supersticio­
sos do que os chineses : a indicação dos andares e a numeração das
portas passam frequentemente do doze para o catorze , pura e simples­
mente para evitar o número treze . No autocarro , instalei-me do lado
esquerdo , quase a meio . Nestas deslocações em grupo , as pessoas
procuram rapidamente deixar as suas marcas ; por uma questão de
tranquilidade , trata-se de ocupar depressa o nosso lugar, e de o con­
servar, recorrendo às vezes a objetos pessoais; de uma maneira ou de
outra, há que habitar ativamente o espaço .
Para grande surpresa minha, vi que Valérie se instalava ao pé de
mim , apesar de o autocarro ter mais de três quartos de lugares vazios .
Duas filas atrás , B abette e Léa diziam qualquer coisa uma à outra em
ar de troça . Melhor seria que se calassem , as cabras . Discretamente ,
dirigi a minha atenção para a jovem Valérie : tinha longos cabelos
pretos e uma cara, como direi? , uma cara que se podia classificar
como modesta; nem bonita nem feia, para dizer a verdade . Após uma
intensa e breve reflexão , consegui dizer penosamente : «Não sente
calor a mais?» «Não , não , no autocarro está-se bem» , respondeu ela
muito depressa, sem sorrir, nitidamente aliviada por eu ter metido
conversa. No entanto , a pergunta era completamente estúpida: na
verdade , gelava-se dentro do autocarro . «Já tinha vindo alguma vez
à Tailândia?» , retorquiu ela aproveitando a deixa. «Sim, vim uma
vez .» Ficou imóvel , numa atitude expectante , preparada para ouvir
uma descrição de algum interesse . Seria o momento de lhe contar a
minha estada anterior? Talvez noutra altura. «Foi bom . . . » , disse-lhe
por fim , usando uma voz quente para compensar a banalidade da
frase . Ela acenou com a cabeça em sinal de satisfação . Percebi então
que não era apenas submissa perante a sua amiga Josiane: era sub­
missa em geral, e talvez tivesse necessidade de encontrar um novo
dono; provavelmente estaria farta de Josiane que , sentada duas filas
à nossa frente , folheava furiosamente o seu Guia do Caminheiro ,
enquanto nos olhava com ar de má. Romance , vai haver romance . . .

* * *
40 Michel Houellebecq

Logo a seguir a Payab Ferry Pier, o barco voltou à direita no


Klong Samsen , e penetrámos num mundo diferente . Aqui , a vida
pouco mudou desde o século passado . Ao longo do canal , sucediam­
-se as casas em madeira de teca, assentes em estacaria; nos alpen­
dre s , havia roupa branca a secar. Algumas mulheres aproximavam-se
das janelas para nos verem passar; outras suspendiam a barrela que
estavam a fazer. Por entre as estacas , viam-se crianças a nadar e a
tomar banho; faziam-nos grandes gestos com as mãos . A vegetação
estava presente em todo o lado; a nossa piroga abria caminho por
entre lótus e nenúfares ; por toda a parte , brotava uma vida fervilhan­
te e intensa. Cada espaço livre da terra, do ar ou da água parecia
estar ao mesmo tempo coberto de borboletas , carpas e lagartos . Es­
távamos , disse Sôn , em plena estação seca; apesar disso , o ar era
inteiramente húmido , irremediavelmente húmido .
Valérie vinha sentada a meu lado; parecia envolta numa grande
paz . Respondia com pequenos sinais de mãos às saudações de velhos
a fumar cachimbo , de crianças a tomar banho , de mulheres a lavar
roupa. Os ecologistas do Jura pareciam também estar tranquilos ; e
até os naturopatas tinham um ar mais calmo . À nossa volta, havia
somente sorrisos e sons ligeiros . Valérie virou-se para mim . Estive
tentado a pegar-lhe na mão; mas , sem nenhuma razão aparente ,
abstive-me de o fazer. O barco não se mexia; permanecíamos na
eternidade breve de uma tarde feliz; até B abette e Léa se aquietavam .
Estavam um pouco nas nuvens , para empregar a expressão de que
Léa se serviu mais tarde , quando desembarcámos .
Enquanto visitávamos o Templo d a Aurora , anotei mentalmente a
necessidade de comprar Viagra numa farmácia. No regresso ao ho­
tel , soube que Valérie era da Bretanha e que os pais tinham sido do­
nos de uma quinta em Trégorrois ; pela minha parte , não sabia o que
lhe havia de dizer. Tinha ar de pessoa inteligente , mas não me apete­
cia manter conversas inteligentes. la apreciando a sua voz doce , o
seu ardor católico e miudinho , o movimento dos lábios quando fala­
va; devia ter uma boca quentinha, pronta para engolir o esperma de
um amigo verdadeiro . «Foi muita boa, a tarde . . . », disse eu por fim ,
e m desespero . Sentia-me muito afastado das pessoas , tinha vivido
sempre sozinho , não sabia como havia de proceder agora . «É verda­
de , foi muito boa . . . », respondeu ela; não era exigente , de facto era
Plataforma 41

verdadeiramente uma boa rapariga . Mas assim que o autocarro che­


gou , precipitei-me diretamente para o bar.
Três cocktails depois , comecei a lamentar a atitude que tomara .
Fui dar uma volta pelo hall. Eram dezanove horas ; ainda não tinha
chegado ninguém do grupo . Mediante o pagamento de quatrocentos
baths , quem quisesse podia assistir a um j antar-festa , com «danças
tradicionais tailandesas» ; o encontro estava marcado para as vinte
horas . Valérie estaria presente com toda a certeza . Pela minha parte ,
tivera j á uns lampejos dessas danças tradicionais tailandesas há três
anos , num circuito clássico tailandês , desde a «Rosa do Norte» à
«Cidade dos Anjos» , numa iniciativa da Kuoni . Nada mau , de resto ,
embora um pouco caro e com um nível cultural espantoso , todos os
participantes tinham pelo menos uma licenciatura . As trinta e duas
posições do B uda na estatuária Ratanakosin , os estilos tailandeses­
-birmaneses , tailandeses-kmers ou tailandeses propriamente ditos ,
nada lhes escapava. Ficara esgotado e sentira-me ridículo sem o
meu Guide Bleu . Agora , tinha uma grande necessidade de foder.
Possuído por uma indecisão crescente , dei uma volta pelo hall do
hotel e foi nessa altura que vi o letreiro Health Club a apontar para
o andar de baixo .
A entrada estava iluminada por néons vermelhos e uma grinalda
de lâmpadas de várias cores . Num painel luminoso com fundo bran­
co , três sereias de biquíni e seios um pouco exagerados estendiam
taças de champanhe aos visitantes potenciai s ; ao longe via-se uma
torre Eiffel muito estilizada; pensando bem , não era de facto a mes­
ma conceção dos e::.paces forme da cadeia de hotéis Mercure . Entrei
no bar e mandei vir um bourbon . Atrás do vidro , doze raparigas vol­
taram a cabeça na minha direção ; algumas delas tinham um sorriso
provocante , outras não . Eu era o único cliente . Apesar da pequena
dimensão do estabelecimento , todas elas usavam distintivos numera­
dos . A minha escolha incidiu rapidamente sobre a número 7 ; em
primeiro lugar porque era pequenina, depois porque não parecia es­
tar especialmente atenta ao programa de televisão , nem muito enfro­
nhada numa conversa apaixonante com a vizinha do lado . Efetiva­
mente , quando ouviu chamar, levantou-se com visível satisfação .
Ofereci-lhe uma Coca-Cola no bar, e fomos rapidamente para o
quarto . Chamava-se Oôn , ou pelo menos foi o que eu percebi , e era
42 Michel Houellebecq

natural do Norte do país , de uma pequena aldeia próxima de Chiang


Mai . Tinha dezanove anos .
Depois do banho em conjunto , deitei-me sobre o colchão de espu­
ma; depressa compreendi que tinha feito boa escolha. Oôn mexia-se
muito bem, com muita agilidade; e tinha utilizado a quantidade certa
de sabão . Em dado momento , acariciou-me longamente as coxas
com os seios; era uma iniciativa sua , nem todas as raparigas o fa­
ziam . Como uma pequena escova áspera, a sua rata cheia de sabão
friccionava-me os gémeos . Para surpresa minha, tive ereção quase
imediatamente ; e quando a rapariga se virou e começou a acariciar­
-me o sexo com os pés , pensei que não me ia aguentar. A muito
custo , contraindo com toda a força os adutores das coxas , consegui
suster-me .
Quando ela se deitou na cama por cima de mim , ainda pensei
aguentar-me algum tempo ; mas depressa me desiludi . Oôn tinha a
juventude a seu favor e sabia muito bem servir-se da ratinha. Come­
çou muito devagar, fazendo pequenas contrações sobre a minha
glande ; depois enterrou-se alguns centímetros em mim , contraindo­
-se com mais intensidade . «Üh não , Oôn , não ! . . » , gritei . Começou
.

a rir, satisfeita com o seu poder, a seguir continuou a enterrar-se em


mim , enquanto as paredes da vagina se contraíam forte e pausada­
mente; ao mesmo tempo , olhava-me nos olhos , visivelmente satisfei­
ta . Vim-me muito antes de ela atingir a base do meu sexo .
Em seguida cavaqueámos um bocado , abraçados um ao outro na
cama; não parecia ter pressa de voltar para o seu lugar. Não tinha
muitos clientes , disse-me; o hotel era destinado sobretudo a grupos
de idosos , pessoas sem história, quase todas de poucos rendimentos .
Havia muitos franceses , mas poucos apreciavam body massage . Os
que apareciam eram simpáticos , mas eram quase todos alemães e
australianos . Também alguns japoneses , mas não gostava deles ,
achava-os esquisitos , estavam mais interessados em bater ou amarrar
as raparigas ; ou então ficavam ali a masturbar-se e a olhar-lhes para
os sapatos; não tinha piada nenhuma.
E sobre mim , o que pensava ela de mim? Não era mau , mas espe­
rava que eu me tivesse aguentado mais tempo . «Much need . . . »,
disse enquanto me segurava atenciosamente o sexo entre os dedos .
De resto , eu dava-lhe a impressão de ser um homem simpático . « You
Plataforma 43

look quiet . . . » , disse ela . Estava ligeiramente enganada, mas real­


mente fora ela que me acalmara . Dei-lhe três mil baths , o que , tanto
quanto me lembrava, era um bom preço . Pela sua reação vi que sim ,
era de facto um bom preço . «Krôp khun khât ! » , disse ela então com
um grande sorriso e as mãos juntas na testa . A seguir, acompanhou­
-me à saída levando-me pela mão ; diante da porta, beijámo-nos re­
petidamente na cara um do outro .
Na altura em que subia a escada , encontrei-me de frente com Jo­
siane , que , aparentemente , não sabia se havia ou não de descer. Tinha
posto uma túnica preta debruada a ouro para usar ao serão , mas nem
assim parecia mais interessante . A sua cara gorda e inteligente
fixava-me sem pestanejar. Reparei que lavara o cabelo . Não era feia
de todo , não senhor; poderia mesmo ter sido bonita, eu próprio vira
libanesas parecidas com ela; mas , no essencial , a sua expressão era
claramente a de uma pessoa má. Pessoalmente , eu era capaz de a
imaginar a defender determinadas posições políticas ; mas não via
nela qualquer sinal de piedade . Também não tinha nada para lhe di­
zer. B aixei a cabeça. Talvez ligeiramente contrariada, dirigiu-me a
palavra: «Há alguma coisa interessante aí em baixo?» A mulher
enervou-me tanto , que estive para dizer: «Um bar de putas» , mas
acabei por mentir, era muito mais simples: «Não , não sei bem , talvez
uma espécie de salão de beleza . . . »
- Não vai ao jantar-festa desta noite . . . - disse a grande cabra .
- Você também não vai . . . - respondi-lhe eu taco a taco . Segui-
damente , demorou a responder, armada em parva . - Oh , não , não
aprecio muito essas coisas . . . - prosseguiu então , fazendo um gesto
com o braço quase digno do teatro de Racine . É excessivamente tu­
rístico . . . - O que quereria ela dizer com aquilo? Tudo é turístico .
Mais uma vez , tive de me controlar para não lhe ir à cara . Em pé no
meio da escada, a mulher impedia-me a passagem; obrigava-me a
dar mostras de grande paciência. Circunstancialmente grande escri­
tor de epístolas , S . Jerónimo soube também dar mostras de paciência
cristã. Eis a explicação para ser conhecido como santo e Doutor da
Igrej a .
Segundo Josiane , esse espetáculo d e «danças tradicionais tailan­
desas» era mais indicado para gente como Josette e René , pessoas
que , bem lá no fundo , classificava como simplórios; nessa altura ,
44 Michel Houellebecq

percebi enfastiado que a mulher procurava em mim um aliado . É


verdade que , quando viajássemos para fora de B anguecoque , o cir­
cuito iria dividir-se , passando a haver dois grupos diferentes às refei­
ções; estava-se na altura de escolher as pessoas . «Pois é . . . » , disse eu
apôs um grande silêncio . Nesse momento , Robert surgiu milagrosa­
mente nas escadas , por cima de nós . Preparava-se para descer.
Raspei-me num ápice , subindo os degraus a quatro e quatro . Antes
de me precipitar para o restaurante , voltei-me : Josiane continuava
parada e olhava fixamente para Robert que , em grandes passadas ,
caminhava em direção ao salão de massagem .
Babette e Léa estavam junto aos tabuleiros dos vegetais . Baixei a
cabeça num simples sinal de deferência e servi-me de salada de
agrião . Também elas deveriam considerar as danças tradicionais tai­
landesas desatualizadas . Ao voltar para a mesa, apercebi-me de que
os dois coirões estavam sentados a poucos metros de mim . Léa trazia
uma T-shirt Rage against the machine e umas bermudas de sarja azul
muito justas ; Babette tinha uma espécie de coisa desestruturada onde
alternavam zonas transparentes e fitas de seda de várias cores. Taga­
relavam animadamente e pareciam referir-se a diversos hotéis de
Nova Iorque . Casar com uma destas manas , disse para comigo , seria
certamente uma coisa pavorosamente radical . Será que poderia ainda
mudar de mesa? Não , era falta de educação . Sentei-me na cadeira da
frente para , pelo menos , ficar de costas viradas , despachei-me a co­
mer e subi para o quarto .
Quando estava prestes a entrar na banheira, vi uma barata e tive
um acesso de neura2 • Logo havia de ser agora, um acesso de neura;
não podia chegar em melhor altura. A idiota da barata corria rápida
pelos azulejos , procurei um chinelo com o olhar, mas sabia bem que ,
no fundo , tinha poucas hipóteses de a esborrachar. Então para quê
lutar. Mesmo a tailandesa Oôn , apesar da sua vagina maravilhosa­
mente elástica, também pouco poderia fazer. Estamos todos conde­
nados à partida. As baratas copulam sem graça nem alegria aparente ;
mas copulam furiosamente , e as suas mutações genéticas são rápi­
das ; contra elas , somos completamente impotentes.
Antes de me despir, rendi mais uma vez homenagem a Oôn e a
todas as prostitutas tailandesas . Não tinham um trabalho fácil essas
belas meninas ; nem sempre lhes calhava em sorte um rapaz honesto ,
Plataforma 45

dotado de um físico aceitável , interessado simplesmente em vir-se de


forma adequada . Para não falar dos japoneses - só de pensar neles
dava-me calafrios - tive de agarrar no meu Guia do Caminheiro .
Babette e Léa , pensava eu , não conseguiriam ser prostitutas tailande­
sas ; não tinham dignidade para uma coisa dessas . Valérie , talvez;
havia nela um certo dom, ao mesmo tempo de puta e mãe de família,
duas valências potenciais , de resto , mas até agora era sobretudo um
rapariga simpática, séria e amável . Inteligente , também. Decidida­
mente , gostava muito dela. Masturbei-me ao de leve , para abordar
mais serenamente a leitura; saíram apenas umas gotas .
Apesar de , em princípio , nos poder ajudar a preparar a viagem à
Tailândia, o Guia do Caminheiro acabava por apresentar uma série
de reservas , sentindo-se obrigado a encher o prefácio de denúncias
ao turismo sexual , essa odiosa escravatura . Resumindo , os cami­
nheiros eram rezingões , e o seu único objetivo consistia na liquida­
ção de toda e qualquer alegria dos turistas , algo que odiavam profun­
damente . De resto , não havia nada de que gostassem tanto como de
si mesmo s , a julgar pelas frases sarcásticas disseminadas no meio do
livro , do género: «Ai , minha santa , se tivesse conhecido o tempo dos
hippies ! . . . » Mas a coisa mais penosa era talvez o tom incisivo , cal­
mo e severo que utilizavam , a palpitar de indignação contida; «Não
se trata de excesso de pudor, mas , para nós , uma coisa como a cida­
de de Pattaya é de mais , francamente de mais .» Seguidamente ,
referiam-se «aos ocidentais barrigudos» que se pavoneavam ao lado
de rapariguinhas tailandesas ; para estes caminheiros , era caso para se
sentirem «francamente enojados» . Uma súcia de cabrões e protestan­
tes humanitários é o que os gajos eram , eles e o «simpático grupo de
companheiros que deram os seus contributos para a presente edição»
e cujas bocas foleiras ali surgiam alegremente escarrapachadas na
contracapa. Atirei o livro com toda a força pelo ar, falhando por pou­
co o televisor Sony , e peguei resignado em A Firma , de John
Grisham . Trata-se de um best-seller americano , um dos melhores;
um dos mais vendidos , entenda-se . O herói era um j ovem advogado
com um futuro brilhante à sua frente , um rapaz sério e desenxova­
lhado que trabalhava noventa horas por semana; e esta merda não se
limitava a sugerir descaradamente o argumento de um filme : ia ao
ponto de o autor ter já o casting em mente , a personagem tinha sido
46 Michel Houellebecq

feita à medida de Tom Cruise . A mulher do herói também não era má


de todo , embora trabalhasse só oitenta horas por semana; mas neste
caso o papel não poderia ser para Nicole Kidman , o cabelo frisado
não ajudava; era preciso uma coisa mais para o brushing . Por inter­
venção divina, os dois pombinhos não tinham criancinhas , o que nos
poupava a várias cenas lancinantes. O enredo jogava no suspense ,
um suspense moderado , diga-se : a partir do segundo capítulo
percebia-se perfeitamente quem eram os maus , e estava fora de ques­
tão que o herói morresse no final ; nem a mulher, de resto . Pelo meio ,
e para mostrar que não brincava em serviço , o romancista preparava­
-se para sacrificar algumas simpáticas personagens de segundo pla­
no; restava saber quai s , o que podia justificar a leitura . Talvez o pai
do herói: os negócios corriam-lhe mal , era-lhe difícil adaptar-se à
gestão dos fluxos de produção ; pela minha parte , tinha a impressão
de que estávamos a um passo de assistir ao seu derradeiro Thanksgi­
ving .
6

Valérie passara os primeiros anos de vida em Tréméven , um lugare­


jo a poucos quilómetros a norte de Guingamp . Nos anos 70 e início
dos anos 80 , o governo e as autoridades locais tinham ambicionado
formar na Bretanha um centro produtor de carne de porco , capaz de
rivalizar com a Dinamarca e a Grã-Bretanha. Incentivado a formar
unidades de proteção intensiva, um grupo de jovens criadores - entre
os quais o pai de Valérie - endividou-se até ao pescoço junto dos
serviços de crédito agrícola. Em 1 984 , as cotações da carne de porco
começaram a cair; Valérie tinha onze anos . Era então uma raparigui­
nha ajuizada, praticamente solitária, boa aluna; preparava-se para en­
trar no sexto ano numa escola de Guingamp . O seu irmão mais velho ,
também ele bom aluno , tinha acabado o ensino secundário; estava
inscrito no curso propedêutico de Agronomia, no Liceu de Rennes .
Valérie recordava-se bem do final do ano de 1 984 ; o pai passara o
dia com o contabilista da federação dos sindicatos da agricultura.
Durante o jantar de Natal , estivera quase sempre calado . Na altura da
sobremesa, depois de beber duas taças de champanhe , dirigiu-se ao
filho . «Não te aconselho a ficares na quinta» , disse . «Há vinte anos
que me levanto ao nascer do Sol , e acabo o dia entre as oito e as
nove da noite ; a tua mãe e eu quase nunca tivemos férias . Agora,
bastava-me vender tudo , incluindo maquinaria e sistemas de estabi­
lização , e investir em apartamentos de férias : dava para passar o
resto dos meus dias a apanhar sol de barriga para o ar.»
Nos anos seguintes , as cotações da carne de porco continuaram a
descer. Deram-se então manifestações de agricultores , caracterizadas
48 Michel Houellebecq

por uma violência sem esperança; nessa altura , houve toneladas de


esterco derramadas junto aos Invalides e vários porcos degolados em
frente do Palais-Bourbon . No final de 1 986, o governo decretou a
tomada de medidas urgentes , anunciando depois um projeto de recu­
peração dedicado aos criadores de porcos . Em abril de 1 987 , o pai de
Valérie vendeu a exploração por pouco mais de quatro milhões de
francos. Com esse dinheiro comprou um grande apartamento em
S aint-Quay-Portrieux , para habitar, e três estúdios em Torremolinos ;
ficou ainda com um milhão de francos , que aplicou em fundos de
investimento ; e conseguiu mesmo - era o seu sonho de infância -
adquirir um pequeno veleiro . Assinou a escritura de venda da quinta
com alguma tristeza e desgosto . O novo proprietário era um jovem
de vinte e três anos , solteiro , originário de Lannion , que tinha acaba­
do os seus estudos de agricultura; era dos que acreditavam nos pro­
jetas de recuperação do setor. Quanto ao pai de Valérie , tinha quaren­
ta e oito anos de idade , e a mulher quarenta e sete ; os melhores anos
das suas vidas haviam sido consagrados a uma ocupação sem futuro .
Viviam num país onde o investimento produtivo não apresentava
nenhuma vantagem relativamente ao investimento especulativo; al­
go que , agora, o pai de Valérie era capaz de perceber muito bem .
Logo a partir do primeiro ano , o aluguer dos estúdios deu-lhe um
lucro superior ao que ganhava anteriormente . Passou a fazer palavras
cruzadas , saía da baía a bordo do seu veleiro e às vezes ia fazer uma
pescaria. A mulher habituou-se mais depressa à nova vida do casal ,
o que ajudou muito o marido: voltou a ter vontade de ler, de ir ao
cinema, de sair.
Na altura da venda , Valérie tinha catorze anos e estava a começar
a pintar-se; no espelho da casa de banho , vigiava a forma como os
seios lhe iam crescendo . Na véspera da mudança, passeou durante
muito tempo pelas instalações da quinta . No estábulo principal res­
tava uma dezena de porcos , que se aproximaram dela grunhindo de
mansinho . Nessa mesma noite , iam ser levados pelo vendedor e de­
viam ser abatidos em breve .
O verão seguinte foi um tempo esquisito . Comparativamente a
Tréméven , Saint-Quay-Portrieux era quase uma pequena cidade . Já
não lhe era possível , ao sair de casa, deitar-se na relva, deixar os
pensamentos flutuarem com as nuvens , partir com eles nas águas da
Plataforma 49

ribeira . Entre os veraneantes , havia rapazes que se viravam quando


ela passava; mas Valérie nunca chegava a afrouxar o passo . Por vol­
ta do mês de agosto , encontrou Bérénice , uma aluna da escola secun­
dária, que ia entrar com ela no 1 0 .0 ano do liceu de Saint-Brieuc .
Berenice tinha mais um ano do que Valérie ; pintava-se com regula­
ridade e usava saias de marca; tinha uma linda cara afilada e cabelos
muito compridos , de um extraordinário loiro-acinzentado . As duas
ganharam o hábito de ir em conjunto à praia de S aint-Marguerite ;
trocavam de roupa no quarto de Valérie antes de saírem . Uma tarde ,
no momento em que tirava o soutien , Valérie viu o olhar de Berenice
pousado no seu peito . Sabia perfeitamente que tinha uns seios es­
plêndidos, redondos, apontados para cima, de tal modo cheios e fir­
mes que pareciam artificiai s . Berenice estendeu a mão e roçou-lhe ao
de leve um mamilo e a curva de um deles . Valérie abriu a boca, fe­
chando os olhos no momento em que os lábios da amiga se aproxi­
mavam dos seus; a seguir, abandonou-se completamente a esse bei­
jo. Quando a mão de Bérénice lhe deslizou por baixo das calcinhas ,
já tinha o sexo húmido . Impaciente , livrou-se da roupa, deitou-se na
cama e abriu as coxas . Berenice ajoelhou-se diante dela e pousou a
boca na rata da amiga . O ventre de Valérie foi percorrido por contra­
ções quentes , e tinha a impressão de que o seu espírito deslizava
pelos espaços infinitos do céu ; nunca suspeitara da existência de um
prazer assim.
Até ao início do ano escolar, voltaram a fazer o mesmo todos os
dias . Primeiro , ao princípio da tarde , antes de irem para a praia; a
seguir, deitavam-se ao sol lado a lado . Valérie sentia depois o desejo
a aflorar-lhe na pele , levantava a parte de cima do fato de banho e
oferecia os seios ao olhar de Bérénice . Voltavam quase a correr para
casa, entravam no quarto e faziam amor novamente .

A partir da primeira semana de aulas , Bérénice afastou-se de Va­


lérie , evitando chegar ao liceu à mesma hora que ela; pouco depois ,
começou a andar com um rapaz . Valérie aceitou a separação sem
grande tristeza; era uma saída normal . Tinha ganho o hábito de se
masturbar todas as manhãs ao acordar. De todas as vezes , atingia o
orgasmo em poucos minutos; era um processo maravilhoso , fácil ,
50 Michel Houellebecq

que se lhe adaptava lindamente e trazia alegria à sua vida. Relativa­


mente aos rapazes , era muito mais reservada; depois de ter comprado
algumas cassetes Hot Video no quiosque da estação , sabia tudo sobre
a anatomia dele s , sobre todos os seus órgãos , assim como as diferen­
tes atividades sexuais ; mas chegava a sentir uma certa relutância ao
ver tantos pelos e tantos músculos juntos; a pele dos homens parecia­
-lhe áspera e espessa. A superfície acastanhada e rugosa dos tomates ,
o aspeto violentamente anatómico da glande destapada, vermelha e
luzidia . . . nada disso a atraía grandemente . Mas acabou por ir para a
cama com um finalista , um rapaz grande e loiro , depois da ida a uma
bofte , em Paimpol; não sentiu um prazer por aí além. Voltou a fazer
o mesmo várias vezes com outros jovens , durante os primeiros tem­
pos e na fase final do liceu ; era-lhe fácil seduzir os rapazes , bastava
usar uma saia curta, cruzar as pernas , ter um camiseiro decotado ou
transparente , para valorizar os seios; nenhuma dessas experiências
foi realmente concludente . Intelectualmente , era capaz de compreen­
der a sensação , ao mesmo tempo doce e triunfal , sentida por certas
raparigas quando uma piça se lhes enfiava nas profundezas da rata;
mas , pessoalmente , não experimentava nada de semelhante . É verda­
de que o preservativo complicava as coisas ; o barulhinho arrastado e
repetitivo do látex chamava-a constantemente à realidade , impedindo­
-lhe o espírito de deslizar pelo infinito e isentando-a de sensações
voluptuosas . Ao terminar o liceu , tinha praticamente acabado com
aquilo .
Dez anos depois , nunca mais voltara a fazê-lo verdadeiramente ,
pensava ela agora tristemente ao levantar-se da cama do Bangkok
Palace . O dia ainda não nascera . Acendeu a luz do teto , apreciou o
corpo ao espelho . Os seios ainda eram firme s , mantinham-se como
quando tinha dezassete anos . As nádegas eram também redondas ,
sem sinais de gordura; indiscutivelmente , tinha um belo corpo . E no
entanto , enfiou uma sweat-shirt larga e umas bermudas informes ,
descendo depois para tomar o pequeno-almoço . Antes de fechar a
porta, olhou-se uma última vez no espelho: a cara não tinha nada de
especial ; passava-se o mesmo com os cabelos lisos e negros , caídos
desordenadamente sobre os ombros , ou com os olhos castanhos , que
não lhe acrescentavam nenhum atrativo particular. É claro que podia
tirar mais partido de si própria , caprichar na pintura, pentear-se de
Plataforma 51

outra maneira , consultar uma esteticista. A maior parte das mulheres


da sua idade dedicava umas horas por semana, pelo menos , a essas
atividades ; no seu caso , tinha a impressão de que não mudaria gran­
de coisa. No fundo , o que lhe faltava era o desejo de seduzir.

Saímos do hotel às sete horas ; o trânsito era já intenso . Valérie


fez-me um pequeno sinal com a cabeça e instalou-se em posição
paralela à minha, do outro lado do corredor. No autocarro ninguém
falava. A grande metrópole cinzenta acordava lentamente; havia
scooters transportando casais , em fila por entre os autocarros apinha­
dos , por vezes com filhos ao colo das mães. Uma bruma ligeira
encontrava-se ainda estagnada em algumas ruelas j unto ao rio . Em
breve o Sol ia furar as nuvens matinais , e começava a fazer calor. Por
alturas de Nonthaburi , o tecido urbano desfez-se , e apercebemo-nos
da existência dos primeiros arrozais . Imóveis dentro da lama, havia
búfalos que seguiam o autocarro com o olhar, como se fossem vacas .
Senti uma pateada vinda do lado dos ecologistas do Jura; talvez ti­
vessem gostado de tirar duas ou três fotografias aos búfalos .
A primeira paragem foi em Kanchanarubi , cidade sobre a qual os
guias coincidem na apreciação do caráter, considerando-a alegre e
divertida. Para o Guia Michelin , trata-se de um «maravilhoso ponto
de partida para visitar as paragens circundantes» ; o Guia do Cami­
nheiro , por sua vez , classifica a cidade «como boa para servir de
base para excursões» . Seguidamente , o programa continuava com
um percurso de vários quilómetros no caminho de ferro da morte ,
que serpenteava ao longo do rio Kwai . Pela minha parte , nunca tinha
percebido bem esse enredo do rio Kwai , pelo que tentei ouvir as
explicações da guia. Afortunadamente , o bom René empunhava o
seu Michelin e acompanhava passo a passo a explanação , pronto a
corrigir um ou outro aspeto concreto . Resumindo : depois de entra­
rem na guerra em 1 94 1 , os japoneses tinham decidido construir uma
linha de caminho de ferro para ligar a Birmânia a S ingapura - com
o objetivo , a longo prazo , de invadir a Í ndia. Esse caminho de ferro
tinha de atravessar a Malásia e a Tailândia . Mas , pergunta-se: qual
seria o papel dos tailandeses nessa altura , durante a Segunda Guerra
Mundial? A verdade é que não tinham feito nada de especial . Tinham
52 Michel Houellebecq

sido «neutros» , disse-me pudicamente Sôn , a guia. Na realidade ,


completou René , fizeram um acordo militar com os japoneses , em­
bora sem declararem guerra aos Aliados . Era, no fundo , a verdadeira
via da sabedoria. Desse modo , tinham mais uma vez sabido dar mos­
tras da sua famosa subtileza de espírito , o que lhes permitira, duran­
te muitos séculos , não ceder à pressão da França e da Inglaterra ,
apesar de entalados entre os respetivos impérios coloniais , e
manterem-se como o único país do Sudeste da Ásia a resistir à colo­
nização .
Fosse como fosse , em 1 942 tinham começado os trabalhos num
troço do rio Kwai , o que mobilizou sessenta mil prisioneiros de guer­
ra ingleses , australianos , neozelandeses e americanos , assim como
um número «incalculável» de trabalhadores asiáticos , condenados a
trabalhos forçados . O caminho de ferro foi concluído em 1 943 , à
custa da morte de dezasseis mil prisioneiros de guerra - devido à
má nutrição , ao mau clima e à maldade natural dos japoneses . Pouco
tempo depois , um bombardeamento aliado destruiu a ponte do rio
Kwai , um elemento essencial de toda a infraestrutura , o que veio
inutilizar o caminho de ferro . Em resumo , muita gente morta para
um resultado quase nulo . Mais tarde , a situação não sofreu grande
alteração , continuando a não existir uma ligação ferroviária adequa­
da entre Singapura e Deli .

Foi com uma ligeira angústia que iniciei a visita ao JEATH Mu­
seum , construído para evocar os pavorosos sofrimentos dos prisio­
neiros de guerra aliados . É verdade , disse para comigo , que tudo isto
fora lamentável , embora tenha havido coisas bem piores durante a
Segunda Guerra Mundial . Mas não conseguia deixar de pensar que ,
se os prisioneiros tivessem sido russos ou polacos , ninguém falaria
tanto do caso .
Passado um bocado , foi a vez de suportarmos a visita ao cemitério
dos prisioneiros aliados - aqueles que , de uma forma ou de outra ,
ali tinham sofri do até ao último suspiro . Viam-se cruzes brancas ,
todas bem alinhadas , idênticas umas às outras ; o lugar exalava um
desconsolo profundo . Fazia-me lembrar Omaha Beach \ apesar de
não me ter emocionado tanto; para dizer a verdade , achara aquilo
Plataforma 53

mais parecido com uma instalação d e arte contemporânea . «Aqui» ,


dissera eu nessa altura para comigo , com um sentimento de tristeza
que se me afigurava insuficiente , «houve uma cambada de imbecis
que morreram pela democracia.» Quanto ao cemitério do rio K wai ,
era bastante mais pequeno , podiam contar-se as campas uma a uma;
depressa desisti . «É impossível haver aqui dezasseis mil mortos . . . » ,
concluí em voz alta . «É isso mesmo ! » , disse-me René , sempre de
Michelin em punho . «Ü número total de mortos é estimado em de­
zasseis mil ; mas , no cemitério , existem apenas quinhentas e oitenta
e duas campas . São considerados (e lia apontando as linhas com o
dedo) os quinhentos e oitenta e dois mártires da democracia .»
Quando , com a idade de dez ano s , consegui as minhas «três estre­
las» no esqui , fui a uma pastelaria e enchi a pança de crepes au
Grand Marnier. Era uma pequena comemoração solitária; não tinha
colegas com quem partilhar essa alegria. Como todos os anos por
essa altura , estava a passar uns dias na casa do meu pai , em Chamo­
nix . Ele próprio era guia de alta montanha e alpinista de créditos
firmados . Havia também outros homens como ele , corajosos e viri s ;
não m e sentia bem entre eles . Nunca m e senti muito bem entre os
homens . Tinha onze anos quando uma rapariga me mostrou a rata
pela primeira vez; nesse momento fiquei imediatamente maravilha­
do , adorei aquele pequeno órgão fendido , estranho . Tinha ainda
poucos pelos , ela era da minha idade , chamava-se Martine . Ficou um
bom bocado de coxas abertas , com as cuecas fora do sítio , para que
eu pudesse ver; mas quando quis aproximar a mão , a rapariga, cheia
de medo , fugiu . Tudo isso me parecia agora recente , não tinha a im­
pressão de ter mudado por aí além . O meu entusiasmo pelas ratas não
diminuíra; era mesmo aí que encontrava um dos meus últimos traços
inteiramente humanos , inteiramente identificáveis; quanto ao resto ,
já não sabia muito bem .

Pouco depois d e entrarmos n o autocarro , Sôn tomou a palavra.


Estávamos agora a dirigir-nos para o albergue onde passaríamos a
noite , e que teria, fazia ela questão de sublinhar, uma qualidade ver­
dadeiramente excecional . Não havia vídeo nem TV. Nada de eletri­
cidade nem de velas . Água do rio em vez de casa de banho . Nada de
54 Michel Houellebecq

redes ou colchões . Regresso total à natureza. Este regresso à nature­


za, observava eu mentalmente , começava por manifestar-se com
uma série de privações ; os ecologistas do Jura - de quem soubera
involuntariamente , durante a viagem de comboio , que se chamavam
Éric e Sylvie - babavam-se de impaciência. «Cozinha francesa esta
noite» , concluiu Sôn , aparentemente fora de propósito . «Nós agora
comida tailandesa. Pequeno restaurante também , na margem do rio .»
O lugar era encantador. Havia árvores a dar sombra sobre as me­
sas . Junto à entrada via-se um pequeno lago banhado pelo sol , com
rãs e tartarugas . Fiquei ali muito tempo a observar as rãs ; mais uma
vez , impressionava-me a extraordinária proliferação de vida nestas
regiões climáticas . Peixes esbranquiçados nadavam debaixo de água.
Mais acima , havia nenúfares e pulgas-d ' água. Viam-se insetos a
pousar continuamente sobre os nenúfares . As tartarugas observavam
a cena com a placidez típica da sua espécie .
Sôn veio prevenir-me de que a refeição tinha começado . Dirigi-me
à sala junto do rio . Tinham posto duas mesas de seis pessoas ; todos
os lugares estavam ocupados . Olhei em volta ligeiramente apavora­
do , mas René depressa chegou em meu socorro . «Não há problema,
venha para a nossa mesa ! » , exclamou cheio de generosidade ,
«acrescenta-se já um talher nesta ponta.» E assim me instalei na
mesa onde , aparentemente , se encontravam os casais constituídos:
os ecologistas do Jura , os naturopatas - que , conforme fui informa­
do nessa altura , respondiam pelos nomes próprios de Albert e Suzan­
ne - e os dois reformados da salsicharia. Cedo percebi que a distri­
buição das mesas não correspondia a nenhuma afinidade real , mas
sim à situação de urgência surgida quando as pessoas se sentaram; os
casais juntaram-se instintivamente uns aos outros , como sempre
acontece em todas as situações de urgência; assim, este almoço não
passava de um round de observação .
A conversa girou em tomo das massagens , aparentemente uma
questão do agrado dos naturopatas . No noite do dia anterior, Albert
e S uzanne tinham preferido uma excelente massagem nas costas em
vez das danças tradicionais . René fez um leve sorriso de galhofa; a
expressão de Albert depressa o obrigou a concluir que se precipitara .
A massagem tradicional tailandesa, disse Albert com a voz inflama­
da, não tinha nada a ver com coisas esquisitas ; era a manifestação de
Plataforma 55

uma civilização secular, ou mesmo milenar, que aliás seguia de per­


to a sabedoria chinesa dos pontos da acupuntura . Ele e mulher fa­
ziam massagens do mesmo tipo , no seu consultório de Montbéliard ,
embora sem atingirem a destreza dos terapeutas tailandeses ; na noite
anterior, tinham recebido uma esplêndida lição . Éric e Sylvie
olhavam-nos , fascinados . Embaraçado , René tossicou ; de facto , o
casal de Montbéliard não sugeria a mais pequena lubricidade . Quem
poderia ter acreditado na ideia de que a França era um país de gra­
çolas e libertinagens? A França era um país sinistro , inteiramente
sinistro e administrativo .
«A mim também me massajaram as costas , mas a rapariga acabou
por me massajar os tomates . . . », disse eu sem grande convicção . Mas
como estava a mastigar castanhas de caj u , ninguém percebeu , à ex­
ceção de Sylvie , que me deitou um olhar horrorizado . Tomei um
gole de cerveja e aguentei o olhar dela sem dificuldade: esta gaja
seria ao menos capaz de tomar corretamente conta de uma piça?
Ainda estava por provar. Entretanto , decidi-me a esperar pelo café .
« É verdade que são muito queridas , a s miúdas . . . », observou Jo­
sette enquanto se servia de uma talhada de papaia, fazendo assim
aumentar o mal-estar reinante . O café nunca mais vinha . O que se
poderá fazer depois de comer quando não se tem o direito de fumar
um cigarro? Assisti tranquilamente ao aumento do tédio entre as
pessoas . Depois concluímos dificilmente a conversa, com algumas
considerações sobre o estado do tempo .
Voltava agora a ver o meu pai afundado na cama , abatido por uma
súbita depressão - uma coisa terrível num homem tão ativo; preo­
cupados , os amigos alpinistas andavam à volta dele sem saber o que
fazer. Ele próprio me explicara uma vez que fazia todo aquele des­
porto para embrutecer, para não pensar. E resultou ; eu estava persua­
dido de que o meu pai atravessara toda a sua vida sem nunca se in­
terrogar verdadeiramente sobre a condição humana.
7

No autocarro , Sô voltou a tomar a palavra. A região fronteiriça que


íamos percorrer agora era parcialmente povoada por refugiados da
Birmânia, de origem karen; mas não havia problema. Segundo ela,
karens muito corajosos , crianças boas alunas , tudo bem . Não tinham
semelhança com algumas tribos do Norte , com quem , aliás , não nos
iríamos cruzar durante a excursão; na opinião dela, não perdíamos
grande coisa. Em especial no caso dos akkhas , relativamente a quem
parecia ter uma certa má vontade . Apesar dos esforços do governo ,
mostravam-se incapazes de abdicar do cultivo da papoila de ópio , a
sua atividade tradicional . Eram vagamente animistas e comiam cães .
«Akkhas maus» , acrescentou Sôn energicamente , «SÓ cultivar papoilas
e apanhar frutos , sabem fazer nada; filhos maus alunos na escola. Com
eles muito dinheiro gasto , resultado nenhum . São grande nulidade» ,
concluiu ela finalmente , dando mostras de um belo poder de síntese .
Quando cheguei ao hotel observei com atenção estes famosos ka­
rens , afadigados à beira do rio . Vistos de perto , isto é , a uma distân­
cia em que não era preciso levar pistola-metralhadora, não tinham
um ar nada mau ; o aspeto mais evidente era a sua adoração por ele­
fantes . Tomar banho no rio e esfregar o dorso dos elefantes parecia
ser a sua maior alegria. É verdade que não se tratava de rebeldes
karens mas sim de karens vulgares -justamente aqueles que tinham
fugido das zonas de combate , porque , fartos daquilo tudo , a causa da
independência passava-lhes praticamente ao lado .
No quarto , vi um prospeto onde havia algumas indicações sobre
os antecedentes daquele resort, uma história que seguia a par e passo
Plataforma 57

outra grande aventura humana: a de Bertrand Le Moal , caminheiro


antes de tempo , um homem que se apaixonara pelo lugar onde «pou­
sara a mochila» em finais dos anos 60 . Com grande obstinação , mas
também com a ajuda dos seus amigos karens , construíra pouco a
pouco este «paraíso ecológico» , de que agora tirava partido uma
vasta clientela internacional .
É verdade que o lugar era esplêndido . Pequenas vivendas feitas de
ripas em teca muito finas , ligadas entre si por um passadiço florido ,
erguiam-se acima do rio que sentíamos correr por baixo dos pés . O
hotel localizava-se no fundo de um vale muito cavado , cujas verten­
tes se cobriam de floresta densa . Na altura em que me desloquei ao
terraço , fez-se um silêncio profundo . Levei alguns segundos a perce­
ber a razão : todas as aves tinham parado de cantar ao mesmo tempo .
Era a hora em que a selva se preparava para o período da noite . Que
predadores poderia haver numa floresta assim? Talvez pouca coisa ,
dois ou três leopardos ; embora certamente não houvesse falta de
aranhas e de serpentes . A luz do dia desaparecia rapidamente . Na
outra margem do rio , um macaco isolado saltava por entre as árvo­
res ; o animal deu um grito breve . Percebia-se que estava ansioso ,
cheio de pressa de se juntar ao grupo .
Voltei ao quarto , acendi as velas . O mobiliário era parco : uma
mesa em teca, dois catres em madeira tosca , redes e sacos de dormir.
Passei um quarto de hora a friccionar-me escrupulosamente com
creme Cinq sur Cinq . Os rios são lugares simpáticos , mas sabe-se
como é, atraem mosquitos . No quarto havia também uma barra de
plantas aromáticas que se podia derreter; não me pareceu que vales­
se a pena .
Quando saí para jantar, a noite tinha caído completamente ; entre
as casas , viam-se grinaldas de lâmpadas de cores . Sendo assim, ha­
via eletricidade na aldeia, pensei; simplesmente , tinham achado que
não valia a pena instalá-la nos quartos . Parei por uns instante e
apoiei-me a uma balaustrada para olhar o rio ; a Lua nascera e
espelhava-se nas águas . Em frente , distinguia-se confusamente o
sombrio volume da floresta; de vez em quando , erguia-se o grito
rouco de uma ave noturna.

* * *
58 Michel Houellebecq

Os grupos humanos formados por três pessoas ou mais têm uma


tendência aparentemente espontânea para se dividirem em dois sub­
grupos hostis . O jantar estava a ser servido em cima de um pontão
montado no meio do rio; desta vez , tinham posto duas mesas de oito
pessoas cada. Os ecologistas e os naturopatas estavam já sentados
numa delas ; os ex-salsicheiros , momentaneamente isolados ,
encontravam-se na segunda. O que teria provocado a rotura? Talvez a
discussão desta tarde sobre as massagens , que , no fundo , não correra
bem . De resto , desde manhã que Suzanne , vestida discretamente com
uma túnica e calças de linho brancas - bem desenhadas para acentuar
a estreiteza das suas formas - , tinha rebentado a rir ao ver o floreado
vestido de Josette . Fosse como fosse , a separação começara. Intencio­
nalmente , abrandei o passo para me deixar ultrapassar por Lionel , o
meu vizinho do avião - e agora de bungalow . Pela sua parte , a esco­
lha de mesa foi rápida, quase inconsciente ; não me pareceu uma sele­
ção por afinidades , antes uma espécie de solidariedade de classe , ou
mais propriamente uma solidariedade de nível educacional (Lionel
trabalhava na GDF, a companhia do gás , um funcionário público , por­
tanto , e os outros eram ex-pequenos comerciantes) . René recebeu-nos
com visível alívio . Mas , na presente fase de instalação , a nossa decisão
não tinha nada de crucial : se nos tivéssemos sentado na outra mesa,
confirmávamos claramente o isolamento dos ex-salsicheiros , embora,
no fundo , nos limitássemos a equilibrar a distribuição dos lugares .
Babette e Léa chegaram pouco depois e , sem a mais pequena he­
sitação , instalaram-se na outra mesa.
Passado algum tempo - já as entradas tinham sido servidas - ,
Valérie surgiu na extremidade do pontão; olhou à volta com ar inde­
ciso . Na outra mesa, havia dois lugares vagos ao lado de Babette e
Léa. Ainda hesitou um pouco , teve um ligeiro sobressalto , e veio
sentar-se à minha esquerda.
Josiane levara mais tempo do que o costume a arranjar-se; devia
ter tido dificuldade em pintar-se à luz de velas . O seu vestido de
veludo preto não lhe ficava mal , talvez um pouco decotado , mas sem
exagero . Também ela fez um pausa quando chegou , vindo depois
sentar-se em frente de Valérie .
Robert chegou em último lugar, num passo ligeiramente hesitante
- eu tinha-o visto a bebericar antes do jantar, sempre acompanhado
Plataforma 59

por uma garrafa de mékong . Chegou e sentou-se pesadamente ao


lado de Valérie . Vindo da selva, ouviu-se um grito rápido mas afliti­
vo; talvez um pequeno mamífero nos últimos instantes de vida.
Sôn veio junto das mesas ver se não faltava nada, se estávamos
bem instalados . Pela sua parte , estava sentada ao lado do motorista
- uma distribuição pouco democrática que , desde o almoço , era
criticada por Josiane . Por mim , acho que lhe daria mais jeito , embo­
ra não tivesse nada contra nós ; era já um grande esforço , as longas
conversas em francês pareciam fatigá-la um pouco .
Na mesa ao lado , ronronava-se alegremente sobre a beleza do lugar,
a alegria de estarmos em plena natureza, longe da civilização , os valo­
res essenciais da vida, etc . «Sim, sim, é o máximo» , confirmou Léa.
«E , como viram , estamos em plena selva . . . Nem posso acreditar.»
No nossa mesa estávamos com mais dificuldade em encontrar um
terreno comum. Defronte de mim , Lionel comia calmamente , sem
fazer o mais pequeno esforço nesse sentido . Pela minha parte , ia
olhando nervosamente para o lado . A dado momento , avistei um
homem gordo e de barba a sair da cozinha e a ralhar asperamente
com os criados ; não podia ser outro senão o célebre Bertrand Le
Moal . Até aquela altura, para mim o seu mérito mais evidente era ter
ensinado aos karens a receita do gratin dauphinois . Estava delicioso;
e a carne de porco assada estava também muito bem feita , ao mesmo
tempo tenra e estaladiça . «Só é pena não se poder beber uma pingui­
nha . . . » , opinou melancolicamente René . Josiane crispou os lábios
com desprezo . Nem valia a pena perguntar-lhe o que pensava sobre
os turistas franceses que não passam sem a sua pinguinha . Desajei­
tadamente , Valérie tomou a defesa de René . Com a comida tailande­
sa, disse ela, não se dava pela falta , mas com comida daquela , um
copo de vinho j ustificava-se inteiramente . De qualquer modo , ela
bebia apenas água.
- Quando estamos no estrangeiro - insistia Josiane - , devemos
comer a comida local e seguir os costumes locais ! . . . De outro modo ,
é melhor ficarmos em casa.
- Concordo plenamente ! - berrou Robert . Perdendo o impulso ,
Josiane olhou para ele cheia de raiva .
- Bem, mas , apesar de tudo , às vezes, tem talvez um bocadinho
de condimento a mais . . . - confessou Josette timidamente . - A si ,
60 Michel Houellebecq

não lhe parece fazer grande diferença - disse virando-se para mim ,
talvez para aliviar o ambiente .
- Não , não adoro . Quanto mais condimentado , melhor. Em Paris
escolho muitas vezes comida chinesa - respondi prontamente .
A conversa pôde mudar então para os restaurantes chineses , muito
frequentes em Paris nos últimos anos . Valérie gostava de os frequen­
tar ao almoço: não eram caros , e tinham grandes vantagens sobre os
de jast-food, além de serem certamente mais saudáveis . Josiane não
tinha nada a dizer sobre o assunto , costumava ir ao restaurante da
empresa onde trabalhava; quanto a Robert , talvez não quisesse
rebaixar-se a falar sobre o assunto . Em resumo , as coisas passaram a
correr quase serenamente até à altura da sobremesa.

Tudo se precipitou quando veio o arroz-doce . Era um arroz ligei­


ramente dourado , com perfume de canela - uma receita original ,
pelo que me parecia. Decidida a pegar o touro pelos corno s , Josiane
abordou então a questão do turismo sexual. Para ela , era absoluta­
mente «vergonhoso» , não havia outra palavra senão aquela . Tratava­
-se de um verdadeiro escândalo que o governo tailandês tolerasse
esse estado de coisas , e a comunidade internacional tinha obrigação
de intervir. Reparei que Robert ouvia tudo aquilo com um sorriso
sardónico , o que não augurava nada de bom . Era escandaloso mas
não surpreendente , prosseguiu Josiane ; ora, uma grande parte dos
proprietários desses estabelecimentos (destes bordéis , não lhes podia
chamar outra coisa) eram generais; eis a explicação para a proteção
de que beneficiavam .
- Eu sou general - interveio Robert . A mulher ficou atrapalha­
da, de queixo descaído e boca aberta. - Estou a brincar - desmen­
tiu ele com um ligeiro tique . - Nem sequer fui à tropa .
Josiane não pareceu achar graça nenhuma. Demorou algum tempo
a recompor-se , mas arrancou novamente com o dobro da energia:
- É absolutamente vergonhoso que uma série de broncos venha
aproveitar-se , com toda a impunidade , da miséria dessas raparigas . É
bom que se saiba que todas elas são originárias das províncias do
Norte ou do Nordeste , as regiões mais pobres do país .
- Nem todas . . . - objetou ele . - Algumas são de B anguecoque .
Plataforma 61

- É uma autêntica escravatura sexual ! berrou Josiane , sem


conseguir ouvir nada . - Não há outra palavra ! . . .
Nessa altura, bocejei ligeiramente . Ela censurou-me com o olhar,
mas continuou , e dirigia-se agora a toda a gente em geral :
- Não acham escandaloso que um bronco qualquer possa vir
para aqui servir-se das pobres raparigas ao preço da chuva?
- Ao preço da chuva , não - protestei humildemente . - Eu , por
exemplo , paguei três mil baths , pouco menos do que em França .
Valérie voltou-se e olhou-me surpreendida .
- Você pagou um pouco de mais - observou Robert . - Bom ,
mas s e a rapariga valia a pena . . .
Josiane tremia dos pés à cabeça, o que começava a preocupar-me .
- Pois bem ! - disse ela com um guincho estridente - , dá-me
vontade de vomitar que um porcalhão possa pagar para enfiar a piça
numa miúda !
- Mas ninguém a obriga a assistir, minha senhora - respondeu
ele calmamente .
A mulher levantou-se a tremer, com o prato de arroz na mão . Na
mesa ao lado , toda a gente parou de falar. Pensei que ela ia mandar­
-lhe aquilo tudo à cara, e acho que não o fez por um ínfimo resquício
de cagaço . Robert ficou a olhá-la com um ar muito sério , mas viam­
-se-lhe os músculos tensos por baixo do polo . Não tinha ar de se ficar,
era bem capaz de lhe dar uma estalada . Josiane pousou violentamen­
te o prato , que se partiu em três bocados , virou as costas e desapare­
ceu na escuridão , caminhando a toda a pressa para os bungalows .
- Tsss . . . - disse Robert discretamente .
Valérie estava entalada entre Robert e eu; levantou-se delicada­
mente , deu a volta à mesa e veio sentar-se no lugar de Josiane , para
o caso de também querer sair. Mas ficou quieta; nessa altura , o cria­
do estava a servir os cafés . Depois de dois golinhos , Valérie voltou­
-se de novo para mim e perguntou tranquilamente:
- É mesmo verdade , você pagou para estar com uma rapariga? . . .
- falava com um tom intrigado , mas sem censurar abertamente .
- Olhe que as raparigas não são assim tão pobres - acrescentou
Robert - , quase todas têm scooters e roupas de marca. Algumas
fazem operações estéticas aos seios , o que não é nada barato . Tam­
bém ajudam os pais, é verdade - concluiu com ar pensativo .
62 Michel Houellebecq

* * *

Na mesa do lado , as pessoas separaram-se rapidamente depois de


algumas frases trocadas em voz baixa, talvez por solidariedade . De
certa maneira , ficámos ali sozinhos . A Lua iluminava agora a totali­
dade do pontão , que brilhava vagamente .
- Diga-me uma coisa - disse René com ar sonhador - , as miú­
das das massagens são assim tão boas? . . .
- Ai , meu caro senhor ! - exclamou Robert em tom de proposi­
tada grandiloquência , embora me parecesse sincero . - São uma
maravilha, uma verdadeira maravilha ! Já para não falar de Pattaya .
Pattaya é uma estância d a costa leste inteiramente consagrada ao
deboche e ao estupro . Começou com os americanos , durante a Guer­
ra do Vietname; a seguir, vieram ingleses e alemães; e atualmente já
se veem russos e polacos . Ali toda a gente encontra aquilo que quer,
há de tudo para todos os gostos: homossexuais , heterossexuais, tra­
vesti s , etc . É Sodoma e Gomorra reunidas numa única cidade . Ou até
melhor, visto que também há lésbicas .
- Ah , ah - disse , pensativo , o antigo salsicheiro . Mas a mulher
bocejou ligeiramente , pediu licença e virou-se para o marido; mani­
festamente , precisava mesmo de ir dormir.
- Na Tailândia - concluiu Robert - toda a gente consegue o
que pretende , e toda a gente encontra qualquer coisa de bom . Podem
falar de brasileiras ou das raparigas de Cuba. Já corri mundo , meu
caro senhor, viajei em busca de prazer, e digo sem qualquer hesita­
ção: para mim , as tailandesas são as melhores de todas .
Sentada na frente dele , Valérie ouvia com ar muito sério . Pouco de­
pois eclipsou-se fazendo um pequeno sorriso , seguida de Josette e de
René . Lionel , que não dissera uma única palavra durante toda a noite ,
levantou-se igualmente . Pela minha parte , não me apetecia manter uma
conversa com Robert. Deixei-o então sozinho no meio da noite , como
uma estátua visível da lucidez, a pedir o seu segundo conhaque. Parecia
possuído por um pensamento complexo , um pensamento matizado . A
menos que se desse o caso de não relativizar, o que dá sempre a aparên­
cia de outra complexidade , de outro matiz. Diante do bungalow, desejei
boa-noite a Lionel . A atmosfera estava saturada pelo zumbido dos inse­
tos; tinha quase a certeza de que não seria capaz de fechar os olhos .
Plataforma 63

Mais ou menos resignado a prosseguir a leitura de A Firma , em­


purrei a porta e acendi uma vela. Os mosquitos aproximaram-se e
alguns carbonizaram as asas na chama da vela, caindo os corpos
para dentro da cera derretida; nenhum deles pousava em cima de
mim . E no entanto eu estava cheio de sangue até à derme , um sangue
nutritivo e facilmente detetável ; os mosquitos , porém , arrepiavam
caminho automaticamente , incapazes de ultrapassar a barreira olfati­
va do dimetilperóxido carbónico . Era caso para felicitar os laborató­
rios Roche-Nicolas , criadores do Cinq sur Cinq Tropic . Dei um so­
pro na vela , voltei a acendê-Ia e assisti ao bailado cada vez mais
concorrido destas sórdidas maquinetas voadoras . Do outro lado da
divisória ouvia o som de Lionel , cujo ronco ecoava de mansinho na
noite . Levantei-me , pus outra barra aromática a derreter e fui mijar.
No pavimento da casa de banho havia um buraco redondo que dava
diretamente para o rio . Ouvia-se o marulhar da água e sons de bar­
batanas ; tentei não pensar no que estaria lá em baixo . Na altura em
que me voltei a deitar, Lionel deu uma série de peidos . «Tens toda a
razão , meu velho ! » , disse eu aprovando energicamente . «Como dizia
Martinho Lutero , não há nada como dar uns bons pares de peidos
dentro do nosso saco de dormir ! » A minha voz ecoava de um modo
estranho no meio da noite , por cima do marulhar das águas e do
persistente zumbido dos insetos . O simples ato de ouvir o mundo
real era já em si mesmo um sofrimento . «Mesmo no reino dos céus ,
as palavras de Lutero ainda servem para limpar ouvidos entupidos ! » ,
uivei e u então novamente no meio da noite . «Quem tiver ouvidos
para ouvir, que oiça ! » Lionel virou-se no catre e resmungou baixi­
nho , sem se levantar. Pela minha parte , não havia outra solução: ti­
nha de tomar mais um comprimido para dormir.
8

Trazidos pela corrente , havia tufos de erva a descer o rio . Voltava


a ouvir-se o canto das aves , vindo da floresta vagamente coberta
pela bruma. Mais para sul , à saída do vale , observavam-se ao longe
os contornos das montanhas da B irmânia. Eu tinha visto já estas
formas azuladas e redondas , embora cortadas por súbitas desconti­
nuidades . Talvez nas paisagens dos primitivos italianos , durante a
visita a algum museu , nos tempos do liceu . O grupo não estava acor­
dado; àquela hora, a temperatura ainda era agradável . Quanto a mim ,
tinha dormido muito mal .

Depois da crise da véspera, havia uma certa benevolência a pairar


em torno das mesas do pequeno-almoço . Josette e René estavam
bem-dispostos; em contrapartida, os ecologistas do Jura encontravam­
-se num estado lamentável , dei logo por isso pela maneira como
chegaram , a coxear. Os proletários da geração anterior, que são des­
complexados apreciadores de todo o conforto possível , encaram o
desconforto com muito mais resistência do que os filhos , justamente
aqueles que se assumem agora como «ecologistas» . Éric e Sylvie
não tinham pregado olho durante toda a noite ; além disso , Sylvie
estava literalmente coberta de borbulhões encarnados .
- Sim, sim, os mosquitos não falharam o alvo - confirmou ela
em tom azedo .
- Tenho um creme bom , se quiser. Dá muito bom resultado ; pos­
so ir buscá-lo .
Plataforma 65

- Então agradeço , é muito simpático da sua parte ; mas vamos


primeiro tomar o café .
O café era uma porcaria , aguado , praticamente imbebível ; pelo
menos desse ponto de vista , estávamos a seguir as normas america­
nas . Este jovem casal tinha ar de cretino chapado , quase me metia dó
ver o seu «paraíso ecológico» esboroar-se-lhe à frente dos olhos;
embora eu sentisse que , num dia assim, praticamente todas as coisas
me iam meter dó . Olhei de novo para sul . «Tenho a impressão de que
a Birmânia é muito bonita» , disse a meia-voz , quase para comigo .
Sylvie concordou com ar sério: era de facto muito bonita, a B irmâ­
nia, tinha ouvido falar disso mesmo; dito isto , considerava-se proibi­
da de ir à Birmânia. Não aceitava ser cúmplice , ajudando com as
suas divisas a manutenção de uma ditadura como aquela . Pois é ,
pensei eu ; as divisas . «Os direitos do homem são uma coisa extrema­
mente importante ! » , exclamou ela , quase em desespero . Quando as
pessoas falam dos «direitos do homem» , fico sempre com a impres­
são de que não sabem o que estão a dizer; mas não era esse o caso,
pelo menos não me parecia.
«Cá por mim , deixei de ir a Espanha depois da morte do Franco» ,
disse Robert quando se sentou à mesa. Nem o tinha visto chegar.
Estava em plena forma , com todas as suas capacidades de chatear o
parceiro inteiramente reconstituídas . Disse-nos que se deitara perdi­
do de bêbedo , daí que tivesse dormido muitíssimo bem . Mas antes ,
no caminho para o bungalow , esteve várias vezes quase a cair ao rio;
ao fim e ao cabo , não lhe aconteceu nada. «Inch Alá» , concluiu ele
com voz forte .

Depois desta caricatura de pequeno-almoço , Sylvie acompanhou­


-me até à porta do meu quarto . Pelo caminho , encontrámos Josiane .
Estava com um ar fechado , sombrio , nem olhou para nós ; também
ela se encontrava longe da via do perdão . Eu tinha sabido que era
professora de Letras na vida civil , como René gostava de dizer; por
mim , não me admirava nada . Era exatamente por causa de coirões
assim que , muitos anos antes , eu desistira dos estudos literários .
Entreguei o tubo do creme a Sylvie . «Trago-lho já daqui a um ins­
tante» , disse ela. «Não , pode ficar com ele , daqui para a frente não
66 Michel Houellebecq

vamos ter mais mosquitos; tenho a impressão de que detestam o lito­


ral .» Agradeceu-me , dirigiu-se para a porta, hesitou e voltou-se para
trás : «Não me diga que concorda mesmo com a exploração sexual das
crianças ! . . . » , exclamou angustiada. Já estava preparado para qual­
quer coisa deste género; abanei a cabeça e respondi com ar cansado:
«Não há assim muita prostituição infantil na Tailândia. Na minha
opinião , não há tanta como na Europa.» Sylvie abanou a cabeça, não
parecia convencida, e saiu . A verdade é que eu tinha informações
concretas , obtidas num curioso livro intitulado The White Book, com­
prado na viagem anterior. Era uma publicação onde não constava o
nome do autor nem do editor, numa iniciativa da autodesignada «ln­
quisition 2000» . A pretexto de denunciar o turismo sexual , forneciam
todos os endereços , país a país ; cada capítulo informativo era prece­
dido de um curto parágrafo que apelava veementemente ao respeito
pelas coisas divinas e ao restabelecimento da pena de morte para os
delitos sexuais . Sobre a questão da pedofilia, The White Book não
podia ser mais claro : desaconselhava formalmente a Tailândia, consi­
derada atualmente sem qualquer interesse , se acaso alguma vez o ti­
vera . Era preferível ir às Filipinas , ou , melhor ainda, ao Camboja - a
viagem podia ser perigosa, mas valia a pena.

O apogeu do reino khmer deu-se no século XII , na época da cons­


trução de Angkor Vât. Depois disso , quase não parou de apanhar
pancada; o principal inimigo da Tailândia era então a Birmânia. Em
1 5 3 1 , o rei Ramathibodi I funda a cidade de Ayutthaya. Em 1 402 , o
seu filho Ramathibodi II invade o império de Angkor, na altura em
declínio . Os trinta e seis soberanos que se sucedem em Ayutthaya
assinalam os seus reinados construindo palácios e templos budistas .
De acordo com descrições de navegadores portugueses e franceses ,
nos séculos xvr e xvrr a cidade era a mais maravilhosa da Ásia. Mas
prosseguiam as guerras com os povos da Birmânia e, em 1 767 , Ayut­
thaya cai nas mãos do inimigo , depois de quinze meses de cerco .
Durante a pilhagem , os birmaneses fundem o ouro das estátuas e
deixam tudo em ruínas .
O local era agora sossegado , com uma ligeira brisa a arrastar po­
eira por entre os templos . Do rei Ramathibodi não restava grande
Plataforma 67

coisa, exceto umas quantas linhas no Guia Michelin . Em contrapar­


tida, a imagem do Buda estava presente em todo o lado , conservando
todo o seu sentido . No passado , os birmaneses obrigaram artesãos
tailandeses a virem construir outros templos idênticos , a algumas
centenas de quilómetros dali . Atualmente , persiste a intenção de
mostrar algum poder, manifestado sob a forma de história, uma coi­
sa radicalmente improdutiva em si mesma . Por cima das ruínas ,
continuava a pairar o sorriso do B uda. Eram três horas da tarde . Se­
gundo o Guia Michelin , eram necessários três dias para uma visita
completa ao local , e um dia para uma visita rápida . Nós dispúnhamos
apenas de três horas ; era o momento apropriado para sacar das câma­
ras de vídeo . Imaginei então Chateaubriand no Coliseu de Roma ,
empunhando uma câmara Panasonic , a fumar os seus cigarros; tal­
vez Benson em vez de Gauloises Légeres . Confrontado com uma
religião tão radical , as suas posições seriam provavelmente um pou­
co diferentes ; não teria tido tanta admiração por Napoleão . Acho até
que teria sido capaz de escrever um excelente Génie du boudhisme4 .
Josette e René enfastiaram-se um pouco durante esta visita; tive a
impressão de que estavam a ficar fartos . Passava-se o mesmo com
Babette e Léa . Inversamente , os ecologistas do Jura estavam nas
suas sete quintas ; fizeram uma impressionante cobertura fotográfica .
Valérie ia pensativa, caminhando ao longo das áleas , sobre as lajes ,
entre as ervas . A cultura é isto , dizia eu para comigo , um bocado
chata , mas é bom assim; cada um de nós é remetido para o nada de
si mesmo . Dito isto , como teriam jeito os escultores nesse tempo em
Ayutthaya? Como teriam dado às estátuas de Buda uma tão lumino­
sa expressão de compreensão?

Depois da queda de Ayutthaya , o reino da Tailândia entrou num


período de grande acalmia. A capital instalou-se em Banguecoque ,
iniciando-se a dinastia Rama . Durante dois séculos (e , em boa ver­
dade , até aos nossos dias) , o reino não passou por nenhuma guerra
com origem no exterior, nem por lutas de índole civil ou religiosa;
do mesmo modo , conseguiu escapar a todas as formas de coloniza­
ção . Não sofreu fomes nem grandes epidemias . Em tais circunstân­
cias , quando a terra é fértil e dá colheitas abundantes , quando as
68 Michel Houellebecq

doenças não fazem sentir grandemente os seus efeitos , quando uma


religião pacífica lança a sua lei sobre as consciências , os seres huma­
nos crescem e reproduzem-se; vivem felizes , de um modo geral .
Atualmente não era assim; a Tailândia estava inserida no mundo li­
vre , isto é, na economia de mercado ; tivera já cinco anos de uma
fulgurante crise económica, em que a moeda perdera metade do va­
lor e as mais prósperas empresas tinham ficado à beira da ruína. Em
dois séculos, era o primeiro drama que atingia verdadeiramente o
país .
Um a um , num silêncio impressionante , voltámos ao autocarro .
Partimos ao pôr do sol . Tínhamos de apanhar o comboio da noite em
B anguecoque , com destino a Surat Thani .
9

Surat Thani - 8 1 6 000 habitantes - é referida em todos os guias


turísticos como não tendo um interesse especial . O mais que se pode
dizer é que constitui um ponto de passagem obrigatória do ferry de
Koh Samui . Apesar disso , há pessoas que lá vivem , e o Michelin
assinala o facto de a cidade ser de há muito um centro importante
para as indústrias metalúrgicas - tendo , mais recentemente , adqui­
rido uma certa importância no mundo das construções metálicas .
Ora, o que seria de nós sem as construções metálicas? O minério
de ferro é extraído em regiões perdidas e transportado depois por
barco . A seguir, serve para fazer máquinas e ferramentas , produzidas
algures , muitas vezes sob a direção de empresas j aponesas . Esses
trabalhos têm lugar em cidades como Surat Thani ; mais tarde , resul­
tam daí autocarros , vagões de caminhos de ferro ou jerry-boats; tudo
sob licença da NEC (Nippon Electronic Company, Ltd) , da General
Motors ou da Fujimori . Parte disso serve para transportar turistas
ocidentai s , homens como eu , ou mulheres como Babette e Léa.
Podia agora dirigir-lhes a palavra, era membro da mesma viagem
em que elas participavam ; não poderia ser um seu amante potencial ,
o que , à partida, limitava o âmbito das conversas ; no entanto , adqui­
rira um ticket de partida igual ao delas ; em certa medida, podia esta­
belecer contacto com elas . Babette e Léa trabalhavam ambas na
mesma agência; essencialmente , organizavam iniciativas . Iniciati­
vas? Sim . Com entidades institucionais ou empresas interessadas em
desenvolver os seus departamentos de mecenato . Era coisa que dava
muita massa, pensava eu . Sim e não . Nos últimos tempos , as empre-
70 Michel Houellebecq

sas estavam mais preocupadas com os «direitos do homem» , os in­


vestimentos tinham diminuído um pouco . Em todo o caso , as coisas
não lhes corriam mal . Quis saber quanto ganhariam: ganhavam bem .
Podia ser melhor, mas ganhavam bem . Quase vinte e cinco vezes
mais do que um operário das indústrias metalúrgicas de Surat Thani .
A economia é um mistério .

Depois da chegada ao hotel , o grupo dispersou-se , ou pelo menos


foi o que eu pensei ; não me apetecia almoçar com os outros; estava
farto deles . Fechei as cortinas e deitei-me . Curiosamente adormeci
de imediato , e sonhei com uma mulatinha do Magrebe a dançar no
metropolitano . Não tinha os traços de Aicha, pelo que eu percebia.
Agarrava-se ao varão da carruagem , como as raparigas dos go-go
bars . Tinha um pano minúsculo sobre os seios , um pano que ia pu­
xando lentamente . Com um sorriso , destapou-os completamente :
eram seios magníficos - grandes , redondos , castanhos . Em seguida,
lambeu os dedos e começou a acariciar os mamilos . Depois , pôs-me
a mão nas calças , abriu-me a braguilha , tirou-me o sexo para fora e
começou a masturbar-me . As pessoas passavam por nós e desciam
nas suas estações . A rapariga pôs-se de gatas no chão e levantou a
saia; não trazia nada por baixo . Tinha uma vulva acolhedora, rodeada
de pelos negros , como uma prenda; comecei a penetrá-la. O pau es­
tava já meio metido , mas ninguém ligava ao que se passava connos­
co . Nada daquilo podia acontecer realmente . Era um sonho de fome ,
o ridículo sonho de um homem já entrado na idade .
Acordei por volta das cinco horas e vi que os lençóis tinham uma
grande mancha de esperma. Uma polução noturna . . era enternece­
.

dor. Para grande surpresa, verifiquei que ·ainda estava de pau feito ;
devia ser do clima. Deitada de costas , havia uma barata , mesmo ao
meio da mesinha de cabeceira; viam-se-lhe nitidamente os contornos
das patas . Esta já não voltava a chatear ninguém , para empregar as
palavras do meu pai . Quanto a este , tinha morrido no ano 2000 ; fez
muito bem . A sua existência estava inteiramente incluída no século
xx , de que ele próprio era um elemento horrorosamente emblemáti­

co . No meu caso , sobrevivia em situação mediana. Estava na casa


dos quarenta , isto é, no início da casa dos quarenta , ainda não tinha
Plataforma 71

chegado mesmo aos quarenta; estava a meio caminho . O falecimen­


to de meu pai deixava-me uma certa liberdade ; ainda não tinha dito
a minha última palavra .

Situado na costa leste de Koh Samui , o hotel dava perfeitamente a


imagem de paraíso tropical, tal como é apresentado nos folhetos da
agência de viagens . Em volta , as colinas estavam cobertas de uma
floresta densa. Os edifícios baixo s , cercados pela folhagem,
dispunham-se em patamares até uma imensa piscina oval , com um
jacuzzi em cada ponta. Podia nadar-se até ao bar, implantado numa
ilha, a meio da piscina. Alguns metros mais abaixo havia uma praia
de areia branca, e depois o mar. Olhei discretamente o espaço à mi­
nha volta; reconheci Lionel ao longe , embrulhado nas ondas como
um golfinho aleijado . A seguir, arrepiei caminho e voltei ao bar por
um passadiço estreito erigido sobre a piscina . Com uma descontra­
ção estudada, tomei conhecimento da lista dos cocktails: a happy
hour estava a começar.
Acabara de escolher uma Singapore Sling quando B abette fez a sua
aparição . «Ora aí está, disse eu , ora aí está . . . » Trazia um biquíni mui­
to subido , short justo e um lenço grande em cima, numa harmoniosa
combinação de azul-claro e azul-escuro . O tecido parecia ter uma tex­
tura excecionalmente fina; era um fato de banho que devia encolher
um pouco quando estivesse molhado . «Não vai tomar banho?» ,
perguntou-me ela. «Hum . . . » , disse eu . Foi a vez de Léa aparecer, com
uma apresentação se.xy mais para o clássico , um fato de banho inteiro ,
em vinil encarnado-vivo , atravessado por fechos de correr que se
abriam sobre a pele (um deles, sobre o seio esquerdo , deixava ver o
mamilo) , e bastante cavado em baixo . Fez-me um sinal com a cabeça
e foi juntar-se à amiga, à beira da água; quando se virou , apercebi-me
de que tinha nádegas perfeitas . Ao princípio , tanto uma como outra
pareciam desconfiar de mim; mas , depois de lhes ter dirigido a palavra
no ferry , tinham concluído que seria um ser humano inofensivo , rela­
tivamente distraído . Tinham toda a razão: era quase isso .
Mergulharam ao mesmo tempo . Virei a cabeça para me acalmar.
Na mesa do lado , estava um sósia de Robert Hue . Depois de molha­
do, o fato de banho de Babette era verdadeiramente espetacular:
72 Michel Houellebecq

viam-se perfeitamente os mamilos e o rego das nádegas ; distinguia­


-se claramente a espessura dos pelos do púbi s , apesar de os usar
quase rente s . Durante todo este tempo , havia gente que trabalhava ,
que fazia coisas úteis ; ou algumas vezes inúteis . Mas produziam . E
eu , o que produzira eu durante os meus quarenta anos de existência?
Para dizer a verdade , não fizera grande coisa. Tinha organizado do­
cumentação , facilitado a sua consulta e o seu transporte ; por vezes ,
tratara também de transferências de verbas (numa escala modesta:
limitava-me a pagar faturas quase sempre de baixo valor) . Numa
palavra, trabalhara no terciário . Podia-se passar perfeitamente sem
pessoas como eu . Mesmo assim , a minha inutilidade era menos fla­
mejante do que a de Babette e Léa; como um modesto parasita,
nunca dera nas vistas no emprego , nem sentira a mais leve vontade
de fingir uma coisa dessas .

Ao final da noite , voltei para o hall do hotel e cruzei-me com Lio­


nel ; estava queimado do sol e encantado com o dia que tivera. Tinha
tomado muitos banhos ; nem sequer sonhara que fosse tão bom . «Ti­
ve de me encolher para juntar dinheiro para a viagem» , disse ele ;
«mas não estou arrependido .» Sentou-se na borda do sofá; começou
a pensar na vida que tinha. Trabalhava na companhia do gás , no setor
sudeste dos arredores de Paris; vivia em Juvisy. Era muitas vezes
chamado para intervenções em casas de pessoas extremamente po­
bres, casas de velhos onde a instalação não obedecia às normas re­
gulamentares . Quando não podiam pagar as alterações que era preci­
so fazer, ele era obrigado a cortar-lhes o gás . «Há pessoas que vivem
numas condições que ninguém imagina . . . », disse . «Às vezes , vê-se
cada coisa . . . », continuou , abanando a cabeça. Com ele pessoalmen­
te , nunca tinha havido problema. A zona não era famosa, para dizer
a verdade era das mais perigosas . «Há sítios onde é melhor não ir» ,
acrescentou ainda. Mas , no conjunto , as coisas iam . «Estamos em
férias» , concluiu antes de se dirigir à sala de j antar. Apanhei uma
série de prospetos de informação e fui lê-los para o quarto . Nunca me
apetecia j antar ao pé das outras pessoas do grupo . É no contacto com
o outro que temos consciência de nós próprios ; é isso mesmo que
torna insuportável o contacto com o outro .
Plataforma 73

Através de Léa , eu tinha sabido que Koh Samui não era apenas um
paraíso tropical , mas também um sítio muito hype 5 . Nas noites de lua
cheia realizava-se uma rave gigantesca, na pequena ilha de Koh
Lanta , ali mesmo ao lado ; uma rave em que participava gente vinda
da Alemanha e da Austrália. «Um pouco como em Goa . . . » , disse eu .
«Muito melhor do que em Goa» , interrompeu ela. Goa estava com­
pletamente em baixo; para uma rave como devia ser, era preciso ir a
Koh S amui ou a Lombok !
Por mim, não queria tanto . Neste momento , tudo o que queria era
uma boa body massage , seguida de um broche ou de uma boa foda .
Aparentemente , uma aspiração nada complicada; contudo , percor­
rendo agora os meus prospetos , apercebia-me com uma crescente
tristeza de que não era essa a especialidade do sítio . Havia muitas
coisas como acupuntura , massagem com óleos aromáticos essen­
ciais , alimentação vegetariana e tai-chi-chuan ; mas quanto a body
massages ou go-go bars , nada de nada . Além disso , parecia estar
tudo mergulhado numa atmosfera penosamente americana , ou mes­
mo californiana, centrada em healthy life e meditation activities . Li
com atenção a carta de Guy Hopkins , um leitor da What 's on Samui;
definia-se como um health addict, e há vinte anos que tinha o hábito
de vir para ali . «The aura that backpackers spread on the island is
unlikely to be erased quickly by upmarket tourists» , concluía ele; era
caso para desistir. Nem sequer podia partir à aventura , dado que o
hotel estava afastado de tudo ; embora, para dizer a verdade , tudo
estivesse longe de tudo , visto não haver nada de nada. O mapa da
ilha não mostrava a existência de um centro urbano : havia apenas
algumas áreas com bungalows , iguais à nossa, junto a praias tranqui­
las . Apavorado , lembrei-me então que a ilha era elogiosamente des­
crita no Guia do Caminheiro . Visto isso , não havia safa: estava
completamente feito . Mesmo assim , consegui uma vaga satisfação ,
ligeiramente teórica, quando pensei que continuava com tesão . Re­
signado , voltei a pegar em A Firma , saltei duzentas páginas e dei
uma volta pelas últimas cinquenta; por sorte , encontrei uma cena de
sexo . O enredo evoluíra relativamente bem: Tom Cruise encontrava­
-se agora nas ilhas Caimãs numa altura em que punha em marcha
não sei que dispositivo de evasão fiscal - ou então denunciava a
existência desse tal dispositivo , não se chegava a perceber bem . Fos-
74 Michel Houellebecq

se como fosse , travava conhecimento com uma esplêndida mulata , e


a rapariga não era pessoa de grandes reservas . «Mitch ouviu um ba­
rulho seco e viu a saia cair aos pés de Eilene , que ficou apenas com
um string amarrado com dois nós .» Nessa altura , abri o fecho de
correr da braguilha. Havia depois uma passagem esquisita, psicolo­
gicamente pouco compreensível: «Vai-te embora, dizia-lhe baixinho
uma voz interior. Deita ao mar a garrafa de cerveja e deixa a saia na
areia. Raspa-te daqui , corre para casa. Vai-te embora ! » Felizmente ,
Eilene fazia ouvidos de mercador: «Com gestos muito lentos , pôs a
mão atrás das costas e abriu o fecho da parte de cima do biquíni , que
caiu descobrindo-lhe as mamas , agora maiores na sua nudez . -
Importa-se de segurar? - perguntou ela, estendendo-lhe uma peça
de tecido macia e branca, tão leve como uma pluma .» Masturbei-me
então escrupulosamente , tentando imaginar, no meio da noite , mula­
tas com fatos de banho minúsculos . Com um suspiro de satisfação ,
ejaculei para cima de duas páginas do livro . Iam ficar coladas ; não
fazia mal , não era obra que se lesse duas vezes .

De manhã, a praia estava deserta . Fiquei a tomar banho até à hora


do pequeno-almoço ; a atmosfera estava morna. Bem depressa o Sol
iria começar a levantar-se nos céus , aumentando os riscos de cancro
de pele nos indivíduos de raça branca . A minha intenção era esperar
o tempo suficiente para que as mulheres da limpeza me arrumassem
o quarto , ferrando o galho logo a seguir, para aproveitar ao máximo
os lençóis lavados ; encarava este dia livre com toda a calma .
Quanto a Tom Cruise , continuava metido em sarilhos por causa da
história com a mulata; preparava-se até para contar o incidente à sua
própria mulher (a quem , e era esse o problema, não bastava ser ama­
da; pretendia continuar a ser a mais sexy , a mais desejável de todas
as mulheres) . O grande idiota comportava-se como se o futuro do seu
casamento estivesse em jogo . «Se a mulher desse mostras de sangue­
-frio e se mostrasse magnânima , dir-lhe-ia que lamentava, lamentava
profundamente , e prometia-lhe que não voltaria a acontecer. Mas se
ela começasse a soluçar, pedir-lhe-ia perdão - de joelhos , se preciso
fosse - , jurando sobre a B íblia que nunca mais voltaria a fazer o
mesmo .» Com toda a evidência, acabava por dar o mesmo resultado;
Plataforma 75

mas os permanentes remorsos do herói , embora sem interesse ne­


nhum, acabavam por interferir com o desenvolvimento da história
- já de si muito complicada: havia mafiosos muito maus , o FBI e
talvez também uns russos . O leitor começava por ficar enfastiado e ,
para o fim , profundamente maldisposto .
Fiz então uma tentativa com outro best-seller americano , Total
Control, de David G . Balducci; mas ainda era pior. Desta vez o herói
não era advogado , era um jovem informático que trabalhava cento e
dez horas por semana. Pelo contrário , a mulher era advogada e tra­
balhava noventa horas por semana; tinham uma criancinha . O papel
dos maus estava agora a cargo de uma empresa «europeia» , especia­
lizada em operações fraudulentas destinadas a apropriar-se de um
setor do mercado . Em princípio , o setor em causa pertencia à empre­
sa americana em que o herói trabalhava . Durante uma reunião com
os maus da empresa europeia, estes acendiam cigarros «sem a mais
pequena preocupação» ; a atmosfera estava literalmente empestada,
mas o herói conseguia resistir. Fiz um buraco na areia para enterrar
os dois livros; agora, a questão era encontrar alguma coisa que se
lesse . Viver sem leitura é perigoso , obriga a pessoa a viver a sua vi­
da, o que comporta realmente muitos riscos . Aos catorze anos , numa
tarde em que havia um nevoeiro particularmente cerrado , perdi-me
enquanto fazia esqui ; fui então obrigado a passar por uma zona de
avalanches . Lembro-me sobretudo das nuvens cor de chumbo , muito
baixas , e do silêncio absoluto da montanha . Nessa altura, sabia que
a neve podia começar a desprender-se de um momento para o outro ,
por um movimento brusco que eu próprio fizesse , ou sem nenhuma
razão aparente , por ação de um aumento ínfimo da temperatura ou
de uma simples rajada de vento . Nesse caso , seria arrastado pela
avalanche e projetado a muitas centenas de metros de distância, con­
tra uma grande parede de rochas ; provavelmente , morreria de ime­
diato . E no entanto não tinha medo . Sentia-me enfastiado com o
modo como as coisas estavam a correr, enfastiado comigo e com os
outros . Teria preferido uma morte com mais antecedentes , qualquer
coisa de mais oficial , precedida de uma doença e contendo depois
uma cerimónia e lágrimas . Em boa verdade , lamentava sobretudo
não ter conhecido o corpo da mulher. Durante os meses de inverno ,
o meu pai alugava o primeiro andar da sua casa; nesse ano , os inqui-
76 Michel Houellebecq

linos eram um casal de arquitetos . Sylvie , a filha, tinha também ca­


torze anos; parecia atraída por mim , pelo menos procurava a minha
presença. Era miudinha e graciosa, tinha cabelos negros e encaraco­
lados . O sexo seria também assim , preto e encaracolado? Enquanto
caminhava penosamente pelo flanco da montanha, eram esses os
pensamentos que me vinham à mente . Depois disso , interroguei-me
várias vezes sobre este aspeto concreto: face ao perigo , ou até à pro­
ximidade da morte , não sinto nenhuma emoção especial , nenhuma
descarga de adrenalina . Em vão , procurei várias vezes as sensações
que tanto atraem os praticantes de «desportos radicais» . Não sou
mesmo nada corajoso , fujo do perigo sempre que posso; mas , se o
perigo chega, recebo-o com a placidez de um ruminante . Talvez não
haja grande explicação para isso , é uma simples questão técnica,
uma questão hormonal ; outros seres humanos , aparentemente pare­
cidos comigo , não experimentam nenhuma sensação perante o corpo
feminino , algo que me maravilhava nesse tempo e ainda hoje me faz
mergulhar em arrebatamentos impossíveis de dominar. Na maior
parte das circunstâncias da minha vida, tenho-me sentido quase tão
livre como um aspirador.

O Sol começava a aquecer. Apercebi-me de que B abette e Léa


tinham chegado à praia; estavam instaladas a cerca de dez metros
de mim . Encontravam-se agora de seios nus e vestidas de uma ma­
neira mais simples , quase de igual , ambas com uma pequena tanga
branca brasileira . Pareciam ter encontrado uns rapazes , mas não me
parecia que fossem dormir com eles: os tipos não eram grande coi­
sa, talvez bem musculados , mas nada de especial ; mais para o
mediano , em suma.
Levantei-me e peguei nas minhas coisas ; B abette tinha posto a sua
Elle ao lado da toalha de praia . Olhei na direção do mar: estavam as
duas divertidas , a tomar banho com os rapazes . B aixei-me rapida­
mente e enfiei a revista no saco que trazia; depois , continuei a andar
ao longo da praia.
O mar estava calmo ; para leste , o horizonte espraiava-se para lon­
ge . Do outro lado devia ser o Camboja, ou talvez o Vietname . A meio
caminho , distinguia-se um iate; provavelmente , havia milionários
Plataforma 77

que passavam assim o seu tempo , a percorrer os mares deste mundo ;


era uma vida ao mesmo tempo monótona e romântica.
Valérie aproximava-se , caminhava à beira-mar e , de vez em quando ,
divertia-se dando uns passos de lado , para fugir às ondas mais fortes .
Finquei o s cotovelos e ergui-me rapidamente , ao mesmo tempo que
tomava uma dolorosa consciência da beleza do corpo dela, muitíssimo
atraente no seu sóbrio biquíni; os seios preenchiam completamente a
parte de cima do fato de banho . Fiz-lhe um pequeno gesto com a mão ,
pensando que não me tivesse visto , mas a verdade é que vinha já na
minha direção; não é fácil apanhar as mulheres desprevenidas .
- Você lê a Elle?- perguntou com ar de surpresa e um sorrisinho
de gozo .
- Hum . . . - disse eu .
- Posso? - e instalou-se a meu lado . Com o à-vontade de quem
está habituada, deu uma vista de olhos à revista: viu as páginas de
moda e as do princípio . Percebia-se que era uma pessoa interessada
em conhecer, interessada em sair. . .
- Então ontem à noite , voltou a ir ao salão de massagens? - per­
guntou olhando-me de lado .
- Hum . . . não . Não encontrei nenhum .
Abanou ligeiramente a cabeça e mergulhou a fundo no tema de
capa da edição , intitulado: «Está preparada para amar durante muito
tempo?»
- Isso é sobre quê? - perguntei depois de algum silêncio .
- Não estou apaixonada - respondeu ela simplesmente .
Esta rapariga desestabilizava-me completamente .
- Não chego a perceber esta revista - continuou ela sem inter­
rupção . - Não fala de mais nada senão de moda , de novas tendên­
cias : o que se deve ver, o que se deve ler, as causas por que se deve
militar, os novos assuntos para conversar. . . Mas as leitoras não con­
seguem vestir roupas iguais às destes manequins; além disso porque
se hão de elas interessar pelas novas tendências? Em geral , são pes­
soas mais velhas .
- Acha que sim?
- Tenho a certeza. A minha mãe é isto que lê .
- Talvez os jornalistas falem do que lhes interessa, não do que
interessa às leitoras .
78 Michel Houellebecq

- Do ponto de vista económico , não seria viável: habitualmente ,


as coisas são feitas para satisfazer o gosto dos clientes .
- Talvez assim satisfaçam o gosto dos clientes .
Ela ficou a pensar e respondeu:
- Pode ser que sim . . . - com alguma hesitação .
- Ou você acha - insisti eu - que quando tiver sessenta anos
deixa de se interessar pelas novas tendências ?
- Espero que não - respondeu com sinceridade .
Acendi um cigarro .
- Bom, se continuar aqui tenho de pôr creme na pele - comen­
tei com melancolia.
- Vamos tomar banho ! Põe o creme depois . - E, levantando-se
rapidamente , puxou-me para dentro de água.
Nadava muito bem . No meu caso , não se pode dizer que saiba
nadar; consigo boiar um bocado de costas , mas canso-me depressa.
«Você cansa-se depressa» , disse ela . «É por causa de fumar tanto . É
preciso fazer exercício . Eu é que vou tratar de si ! . . . » E torceu-me o
bíceps . Oh não , pensei eu , não . . . Mas acabou por se acalmar e por
se voltar a bronzear ao Sol , depois de friccionar vigorosamente a
cabeça. Ficava bonita assim, com os seus longos cabelos pretos a
escorrerem água. Mas não tirou a parte de cima do biquíni ; foi pena;
bem gostaria de a ver sem a parte de cima. Naquele momento , gos­
taria muito de lhe ver as mamas .
Surpreendendo o meu olhar na direção do peito , sorriu ao de leve .
- Diga-me uma coisa, Michel - disse após um curto silêncio .
Senti um sobressalto ao ouvir o meu nome próprio. - Porque se
sente tão velho? - perguntou olhando-me diretamente nos olhos .
Era uma boa pergunta; sentia-me ligeiramente sufocado .
- Não é obrigado a responder depressa - disse com ar simpáti­
co . - Tenho aqui um livro para si - prosseguiu tirando-o de dentro
do saco . Com surpresa, reconheci a habitual capa amarela da Masque
e um título de Agatha Christie , Le Vallon .
- Agatha Christie? - perguntei eu com ar de parvo .
- Não deixe de o ler. Acho que lhe vai interessar.
Abanei estupidamente a cabeça.
- Não vai almoçar? - perguntou ao fim de um minuto . - Já é
uma hora .
Plataforma 79

- Não . . . Não , penso que não .


- Não gosta assim muito de estar em grupo , pois não?
Era inútil responder; sorri . Pegámos nas nossas coisas e saímos
juntos da praia . No caminho , encontrámos Lionel , que parecia va­
guear como uma alma penada; fez-nos um leve sinal amigável , mas
já não tinha ar de se divertir assim tanto . Não é por acaso que há
sempre tão poucos homens sozinhos nos clubes de férias . É frequen­
te vê-los com um ar muito tenso, próximo dos locais onde há ativi­
dades de diversão . A maior parte das vezes , arrepiam caminho; em
certas alturas , avançam e participam . Despedi-me de Valérie em
frente às mesas do restaurante .

É certo que , em todos os livros de Sherlock Holme s , reconhecemos


os traços característicos da personagem; mas acontece também que o
autor nunca deixa de introduzir um elemento novo (a cocaína, o vio­
lino , a existência de Mycroft, o irmão mais velho , o interesse pela
ópera italiana . . . certos serviços prestados outrora às famílias reinan­
tes da Europa. . . o primeiro caso resolvido por Sherlock , quando
ainda era adolescente) . E ao conhecermos cada novo pormenor, a
personagem fica mais bem desenhada, acabando por aparecer efetiva­
mente fascinante ; Conan Doyle tinha conseguido obter uma síntese
perfeita entre o prazer da descoberta e o prazer da identificação . Em
contrapartida, sempre me quis parecer que Agatha Christie dava mais
importância ao prazer da identificação . Nas suas descrições iniciais
de Poirot, tinha tendência a servir-se apenas de algumas frases-chave ,
respeitantes somente às características mais evidentes da personagem
(a obsessão pela simetria, as botinas envernizadas , o cuidado com que
tratava os bigodes) ; nas suas obras mais medíocres , ficava-se até com
a impressão de que algumas frases de apresentação da personagem
eram integralmente copiadas de uns livros para os outros .
Dito isto , não era esse o interesse de Le Vallon . Nem sequer a
existência da ambiciosa personagem Henrietta, a escultora através da
qual Agatha Christie procurara mostrar, não apenas o tormento da
criação (na cena onde a artista destruía uma das suas estátuas , no
exato momento em que a terminara em grandes dificuldades , por
sentir que faltava ali qualquer coisa) , mas também o sofrimento es-
80 Michel Houellebecq

pecífico decorrente da condição de artista: essa incapacidade de ser


verdadeiramente feliz ou infeliz; de , verdadeiramente , poder sentir
raiva, desespero , júbilo ou amor; essa espécie de filtro estético que ,
sem remissão possível , se interpunha entre a artista e o mundo . A
romancista tinha posto muito dela própria nesta personagem , pelo
que a sua sinceridade era evidente . Lamentavelmente , porém, a artis­
ta, de certa forma colocada à margem do mundo , não tomando con­
tacto com as coisas senão de uma forma dúplice , ambígua, e por
consequência menos violenta , acabava por tomar-se uma persona­
gem menos interessante .
Estruturalmente conservadora, hostil a toda a ideia de distribuição
social da riqueza, Agatha Christie tomara, ao longo de toda a sua
carreira, posições ideológicas muito claras . Na prática, esse seu en­
volvimento teórico-radical permitia-lhe muitas vezes ser cruel na
descrição da aristocracia inglesa, cujos privilégios defendia. Lady
Angkatell era uma personagem burlesca, a roçar o inverosímil , e , em
certas alturas , quase aterradora . A romancista mostrava-se fascinada
pela sua criatura e a quem fizera esquecer as regras aplicáveis aos
seres humanos normais ; devia divertir-se imenso ao escrever frases
como: «É extremamente difícil travar conhecimento com alguém
quando há um assassínio em casa» ; mas a simpatia da escritora não
ia certamente para Lady Angkatell . Em contrapartida , descrevia ca­
lorosamente a personagem de Midge , obrigada a trabalhar durante a
semana como caixeira e passando os fins de semana no meio de
pessoas incapazes da mais pequena ideia do que seria trabalhar. Ati­
va e corajosa, Midge amava Edward com um amor sem esperança .
Por seu lado , Edward considerava-se um falhado: nunca fizera nada
na vida, nem sequer chegara a ser escritor; fazia pequenas crónicas
repletas de uma ironia desencantada, publicadas em obscuras revis­
tas de bibliófilos . Sem o conseguir, propusera por três vezes casa­
mento a Henrietta . Henrietta tinha sido amante de John , admirava
muito a sua personalidade radiosa, a sua força; mas John era casado .
O seu assassínio tinha vindo abalar o instável equilíbrio de desejos
insatisfeitos que ligava as personagens : Edward compreendia final­
mente que Henrietta nunca o poderia querer, por não se poder com­
parar com John; apesar disso , não se aproximava de Midge , e a sua
vida parecia definitivamente estragada . É a partir dessa altura que Le
Plataforma 81

Vallon se transforma num livro comovente , e estranho também; é


como se estivéssemos em frente de águas profundas em movimento .
Na cena em que Midge salva Edward do suicídio , e na qual este lhe
propõe casamento , Agatha Christie consegue qualquer coisa de mui­
to belo , uma espécie de encantamento à maneira de Dickens .

Ela apertou-o nos braços . Ele sorriu-lhe:


« És tão quente, Midge . . . tão quente . . . »
Sim, pensou Midge, o desespero é isso . Alguma coisa de glacial,
um frio infinito e uma infinita solidão . Até aquele momento , nunca
percebera como o desespero era frio; costumava imaginá-lo escal­
dante, violento, veemente . Mas não . Eis então a verdadeira face do
desespero: um abismo sem fundo, de uma gelada obscuridade, de
uma intolerável solidão . Ao passo que o pecado do desespero, esse
de que os padres falavam, era um pecado frio, que consistia em cor­
tar os laços com todo o contacto humano, vivo e caloroso .

Terminei a minha leitura cerca das vinte e uma horas ; levantei-me


e fui à janela. O mar estava calmo , miríades de pequenas marcas
luminosas dançavam à superfície das águas ; havia um ligeiro halo
em volta do disco lunar. Eu sabia que , nesta noite , ia haver uma full
moon rave party em Koh Lanta; provavelmente , B abette e Léa iriam
até lá, juntamente com boa parte da clientela. É fácil renunciarmos a
viver, pormos de lado a nossa própria vida. Na altura em que o serão
se organizava , em que os táxis chegavam ao hotel , em que toda a
gente começava a agitar-se pelos corredores , eu não sentia nada mais
do que uma triste consolação .
10

Com a forma de uma estreita faixa de terra montanhosa que sepa­


ra o golfo da Tailândia do mar de Andamão , o istmo de Kra é atra­
vessado , na sua zona norte , pela fronteira entre a Tailândia e a B ir­
mânia. À latitude de Ranong , no extremo sul da Birmânia, não mede
mais do que vinte e dois quilómetros; depois , vai-se alargando pro­
gressivamente até formar a península da Malásia.
Das centenas de ilhas que se distribuem por todo o mar de Anda­
mão , quase todas estão desabitadas e nenhumas das que pertencem ao
território da Birmânia se encontram exploradas turisticamente . Em
contrapartida, as ilhas da baía de Phang Nga, em território tailandês ,
são responsáveis por 4 3 por cento das receitas turísticas anuais do
país . A mais importante é a de Phuket, onde se instalaram resorts
desde meados dos anos 80 , sobretudo com capitais chineses e france­
ses (o grupo de empreendimentos Aurore depressa considerou o Su­
deste da Ásia como um setor-chave da sua expansão) . Ora, é talvez
no capítulo dedicado a Phuket que o Guia do Caminheiro atinge o seu
nível máximo de ódio , de elitismo ordinário e de masoquismo agres­
sivo . Aí se lê , logo de entrada que «Para algumas pessoas , Phuket é
uma ilha em ascensão ; para nós , encontra-se já em decadência.»
«É preciso ver essa "pérola do oceano Índico" com olhos de
ver. . . » , prossegue o guia. «Ainda há uns anos havia quem incensas­
se Phuket: sol , praias de sonho , boa vida. Arriscando-nos a desafinar
uma tão bela sinfonia, é preciso dizer a verdade : Não gostamos nada
de Phuket ! Patong Beach , a sua praia mais célebre , está coberta de
betão . Por todo o lado a clientela se masculiniza, se multiplicam
Plataforma 83

"bares de meninas" , se compram sorrisos . Quanto aos bungalows


para caminheiros , foram objeto de uma lifting version de retroesca­
vadoras , dando lugar a hotéis destinados a europeus solitários e
barrigudos .»
Í amos passar duas noites em Patong Beach ; tomei descontraida­
mente lugar no autocarro , disposto a assumir o meu papel de europeu
solitário e barrigudo . O circuito acabaria em beleza, com três dias
livres em Koh Phi Phi , um destino habitualmente considerado para­
disíaco . «Que dizer de Koh Phi Phi?» , lamentava-se o guia , «é um
pouco como se nos pedissem para falar de uma desilusão de amor. . .
temos vontade de dizer bem , mas sentimos uma bola na garganta.»
Para estes masoquistas manipuladore s , não lhes chega serem infeli­
zes ; precisam que os outros o sej am também . Após trinta quilóme­
tros de viagem , o autocarro parou para meter gasolina; deitei o meu
Guia do Caminheiro no caixote do lixo da estação de serviço . É o
nosso masoquismo ocidental , disse para comigo . Dois quilómetros
depois , tomei consciência de que , desta vez , não tinha mais nada
para ler; assim sendo , tinha de enfrentar a parte final do circuito sem
um simples texto que me impedisse de pensar. Olhei em volta , sentia
o coração a bater aceleradamente , o mundo exterior surgia-me subi­
tamente muito mais perto . Do outro lado do corredor, Valérie incli­
nara o banco onde se sentava; parecia dormir ou matutar, com a cara
virada para a janela. Tentei seguir-lhe o exemplo . Cá fora ia desfilan­
do a paisagem, formada por vegetação diversa. Em desespero de
causa, pedi a René para me emprestar o Guia Michelin ; fiquei então
a saber que as plantações de hévea e látex são de uma importância
capital na economia da região: a Tailândia é o terceiro produtor mun­
dial de borracha. Assim, esta confusa vegetação servia para fabricar
pneus e preservativos ; o engenho humano era verdadeiramente notá­
vel . Podia criticar-se o homem por muitas razões , mas há uma coisa
que tem de ser dita: decididamente , está-se perante um mamífero
engenhoso .

A seguir ao que aconteceu durante a noite no rio Kwai , a divisão


das mesas concretizara-se de forma definitiva. Valérie juntara-se ao
grupo a que chamava «dos labregos» , e Josiane refugiara-se junto
84 Michel Houellebecq

dos naturopatas , com quem partilhava determinados valores - co­


mo era o caso das práticas baseadas na serenidade de espírito . Ao
almoço , tive oportunidade de assistir de longe a uma autêntica com­
petição de serenidade entre Albert e Josiane , sob o olhar atento dos
ecologistas - que , vivendo num buraco perdido do Franco­
-Condado , tinham claramente menos acesso a estas práticas . Quanto
a B abette e Léa, apesar de morarem próximo de Paris , na Íle-de­
-France , não tinham grande coisa a dizer, exceto um «É bestial» , de
vez em quando; para elas , a serenidade não passava de um objetivo
a médio prazo . No conjunto , tratava-se de uma mesa equilibrada,
provida de dois «líderes naturais» de sexo diferente , que podiam
desenvolver uma cumplicidade ativa. No nosso lado , as coisas tive­
ram mais dificuldade em arrancar. Josette e René falavam quase
sempre sobre a comida, estavam habituados a cozinhar, ela estava até
interessada em levar consigo algumas receitas . De vez em quando ,
criticavam a outra mesa, considerando as pessoas exibicionistas e
pretensiosas ; nada daquilo podia dar bom resultado e , pela minha
parte , eu esperava ansiosamente a chegada da sobremesa.
Devolvi o guia que René me emprestara; tínhamos ainda quatro
horas na estrada até Phuket. No bar do restaurante , comprei uma
garrafa de mékong . Passei as quatro horas seguintes a lutar contra a
vergonha que me impedia de tirar a garrafa do saco e emborcar uns
goles com toda a calma; por fim , a vergonha foi mais forte . A entra­
da do Beach Resortel estava enfeitada com uma bandeirola onde se
lia: BOAS-VINDAS AO GRUPO DE BOMBEIROS DE CHAZAY . «Que engraça­
do . . . » , comentou Josette , «Chazay é onde mora a tua irmã . . . » René
não se lembrava. «É, sim . . . » , insistia a mulher. Antes de receber a
chave do quarto , tive ainda oportunidade de a ouvir dizer: «Afinal de
contas , perde-se um dia inteiro a atravessar o istmo de Kra» ; o pior
era que tinha toda a razão . Deixei-me cair em cima da cama king
size e servi-me de uma boa golada de álcool; depois repeti a dose .
Acordei com uma dor de cabeça horrível , e vomitei durante muito
tempo para dentro da sanita. Eram cinco horas da manhã: tarde de
mais para «bares de meninas» , cedo de mais para o pequeno-almoço .
Na gaveta da mesinha de cabeceira havia uma B íblia em inglês , as­
sim como um livro com ensinamentos do Buda. Nele se lia que ,
«Because of their ignorance, people are always thinking wrong
Plataforma 85

thoughts and always losing de right viewpoint and, clinging to their


egos, they take wrong actions . As a result, they became attached to
a delusive existence .» Não tinha a certeza de ter percebido tudo , mas
a última frase ilustrava lindamente o meu atual estado de espírito; foi
o que valeu para me confortar até à hora do pequeno-almoço . Na
mesa ao lado da minha , havia um grupo de negros americanos gigan­
tescos , com aspeto de pertencerem a uma equipa de basquetebol .
Mais longe , estavam chineses de Hong Kong - facilmente identifi­
cados por causa do seu ar porco, já de si dificilmente suportável
para um ocidental , mas cuja presença deixava os criados tailandeses
verdadeiramente em pânico , apesar da prática que tinham . Contraria­
mente aos tailandeses , que se comportam em todas as circunstâncias
com um asseio irrepreensível , para não dizer maníaco , os chineses
devoram a comida, riem à gargalhada de boca aberta deitando peda­
ços de comida para todo o lado , escarram para o chão e assoam-se
com os dedos - comportando-se autenticamente como porcos . Para
piorar as coisas , são uns porcos numerosos .

Depois de caminhar durante alguns minutos nas ruas de Patong


Beach , dei-me conta de que tudo o que o mundo civilizado produzi­
ra com a forma de turistas estava ali reunido , naqueles dois quilóme­
tros de frente de mar. Em poucas dezenas de metros , cruzei-me com
japoneses , italianos, alemães e americanos , sem contar com alguns
escandinavos e sul-americanos ricos . «Somos todos iguais , andamos
à procura do sol» , como me dizia a rapariga da agência de viagens .
Comportei-me então como um cliente exemplar, de tipo médio: alu­
guei uma cadeira de praia com colchão incorporado , um chapéu de
sol , e bebi umas quantas Sprite ; fui ao mar com moderação . As ondas
eram inofensivas . Voltei para o hotel por volta das cinco da tarde ,
medianamente satisfeito com o meu dia livre , embora decidido a
continuar. I was attached to a delusive existence . Restavam-me os
«bares de meninas»; antes de me dirigir ao bairro em causa, passeei
ao acaso pela entrada de vários restaurantes . Diante do Royal Savoey
Seafood, vi um casal de americanos a fixar um lavagante com uma
atenção exagerada. «Dois mamíferos diante de um crustáceo» , disse
para comigo . Entretanto , talvez para exaltar a frescura do produto ,
86 Michel Houellebecq

juntou-se ao casal um criado todo sorridente . «Já são três» , disse eu


automaticamente . Formada por homens isolados , famílias e casais , a
multidão ia afluindo continuamente; e tudo aquilo dava uma grande
sensação de inocência.

Por vezes , quando estão bem bebidos , os reformados alemães


juntam-se em grupo e cantam canções lentíssimas , de uma tristeza
infinita. Quando isso acontece , os criados tailandeses ficam muito
contentes , andando à volta dos alemães e dando gritinhos .
Foi seguindo a peugada de três bonacheirões quinquagenários
alemães , que emitiam vigorosamente os seus «Ach» e os seus «Ya» ,
que , sem ter de procurar, me encontrei na rua dos «bares de meni­
nas» . Aí, uma série de raparigas de saias curtas rivalizavam em arru­
lhos , tentando que eu entrasse nos vários Blue Nights , Naughty Girl,
Classroom , Marilyn , Venus . Por fim, optei pelo Naughty Girl. Ainda
não havia muita gente : cerca de dez ocidentais sentados nas suas
mesas - sobretudo ingleses e americanos muito novos , entre vinte
e cinco e trinta anos de idade . Na pista de dança, umas dez raparigas
ondulavam lentamente a um ritmo um pouco retro . Umas estavam
em biquíni branco , outras tinham tirado a parte de cima e andavam
só com uma tanga . Todas elas tinham cerca de vinte anos , pele
castanho-dourada , corpo flexível e excitante . À minha esquerda es­
tava um alemão velho , sentado em frente de uma Carlsberg: de
barriga grande , óculos e barba branca, fazia lembrar um professor
universitário reformado . Literalmente hipnotizado , fixava os corpos
jovens que se mexiam diante dos seus olhos; estava tão imóvel que ,
por um momento , julguei que estivesse morto .
Com a entrada em ação de várias máquinas de fumo , a música
mudou para um slow da Polinésia. As raparigas foram substituídas
por uma dezena de outras envergando colares de flores na cintura e
no peito . Rodando lentamente sobre si próprias , mostravam alterna­
damente os seios e a zona alta das coxas . O velho alemão não parava
de as olhar fixamente ; a certa altura, tirou os óculos para os limpar,
e via-se que tinha os olhos húmidos . Estava no paraíso .
Em boa verdade , as raparigas não engatavam diretamente ; mas era
possível convidar uma delas para a mesa , combinar as coisas , em
Plataforma 87

certos casos pagar ao estabelecimento um bar jee de quinhentos


baths , e levá-la para um hotel depois de ter ajustado o preço . Creio
que , para uma noite inteira , a tarifa era de quatro ou cinco mil baths ,
mais ou menos o salário mensal de um operário não qualificado , na
Tailândia; mas Pukhet é uma zona cara . O velho alemão fez um dis­
creto sinal a uma das raparigas que , de tanga branca, esperava a sua
vez de entrar na pista . A jovem aproximou-se dele imediatamente e
instalou-se-lhe familiarmente entre as coxas . Os seus seios jovens e
redondos ficavam à altura da cara do velhote , que corava de prazer.
Ouvia-a chamar-lhe «papá» . Vagamente incomodado , paguei a mi­
nha tequila com limão e saí; tinha a impressão de estar a assistir a
uma das últimas alegrias de um velho; era demasiadamente íntimo e
comovente .

Mesmo ao lado do bar, encontrei um restaurante ao ar livre e


sentei-me para comer um prato de arroz de caranguejo. Praticamente
todas as mesas estavam ocupadas por casais formados por tailande­
sas e ocidentais - a maior parte dos quais se assemelhavam a cali­
fornianos , ou à ideia que temos dos californianos , todos de sandálias .
Na realidade , tratava-se talvez de australianos - é fácil a confusão;
fosse como fosse , todos eles tinham um ar sadio , desportivo e bem
alimentado . Eram o futuro do mundo . Foi nesse momento , ao ver
todos aqueles anglo-saxões jovens , irrepreensíveis e plenos de futu­
ro , que compreendi até que ponto o turismo sexual era o futuro do
mundo . Na mesa ao lado , duas tailandesas , trintonas e de formas
generosas , tagarelavam animadamente ; batiam-se a dois jovens in­
gleses de cabeça rapada e look de condenados pós-modernos , que
engoliam dificilmente as suas cervejas sem pronunciar uma única
palavra. Um pouco mais afastadas , duas fufas alemãs em fato­
-macaco , bastante rechonchudas , de cabelos muito curtos e verme­
lhos , ofereciam a si mesmas a companhia de uma deliciosa adoles­
cente de longos cabelos pretos e cara muito pura, vestida com um
sarong de várias cores . Havia também dois árabes isolados , de na­
cionalidade indefinível - com a cabeça enrolada por aquela espécie
de pano de cozinha que Yasser Arafat costuma trazer quando aparece
na televisão . Em resumo , estava aqui o mundo rico e semirrico , res-
88 Michel Houellebecq

pondendo ao apelo imutável e doce das ratas asiáticas . O mais estra­


nho era que , assim que olhávamos atentamente para esses casais ,
tinha-se a impressão de saber imediatamente se as coisas entre eles
resultavam ou não resultavam . Na maior parte dos casos , as rapari­
gas enfastiavam-se , exibiam uma expressão resignada ou contrafeita ,
olhando de lado para as mesas em volta. Mas outras olhavam o com­
panheiro com uma expressão de amorosa expectativa, presas ao que
eles diziam e respondendo-lhes animadamente; nesses casos , era
fácil prever que as coisas fossem longe , que nascesse entre eles uma
relação mais duradoura: eu sabia que não era raro haver casamentos
assim , em especial com alemães .
Cá por mim , não tinha vontade alguma de encetar conversa com
uma rapariga num bar; demasiadamente centrados no custo e natu­
reza da eventual prestação sexual , estes contactos são geralmente
dececionantes . Preferia os salões de massagem, onde se começa
pelo sexo; às vezes , desencadeia-se uma certa intimidade , outras
não . Em alguns caso s , encara-se a possibilidade de um prolonga­
mento , num hotel , e é então que se percebe que a rapariga nem
sempre está interessada: por vezes é divorciada, tem de tomar conta
dos filhos; é triste , e está bem . Quando acabei de comer o arroz ,
comecei a lançar as bases de um filme pornográfico de aventuras ,
intitulado O Salão de Massagem . Sirien , uma j ovem tailandesa do
Norte , estava perdidamente apaixonada por Bob , um estudante ame­
ricano que ali tinha ido parar por acaso depois de uma noite de co­
pos , arrastado por companheiros de estroina. Bob não chegara a to­
car em Sirien , limitando-se a olhar os belos olhos azuis da rapariga
enquanto lhe falava da sua terra - a Carolina do Norte ou qualquer
coisa semelhante . Depois disso , tinham-se encontrado várias vezes
fora do local de trabalho dela, mas , infelizmente , Bob era obrigado
a regressar ao seu país , para acabar o último ano do curso na Uni­
versidade de Yale . Elipse na narrativa. Carregada de esperança, Si­
rien esperava por ele enquanto ia satisfazendo as exigências dos seus
numerosos clientes . Embora pura no interior do seu coração , mastur­
bava e mamava ardentemente franceses de bigodes e barrigas gran­
des (papel secundário para Gérard Jugnot) , e alemães gordos e care­
cas (papel secundário para um ator alemão) . Finalmente B ob
regressava e tentava tirá-la daquele inferno ; mas a máfia chinesa
Plataforma 89

fazia de conta que não percebia. Bob conseguia a intervenção do


embaixador dos Estados Unidos e da presidente de uma associação
humanitária em luta contra o tráfego de menores (papel secundário
para Jane Fonda) . Devido à reação da máfia chinesa (referência às
Tríades) e dos generais tailandeses (aspeto político , com apelo aos
valores democráticos) , seguiam-se lutas e perseguições variadas
pelas ruas de B anguecoque . Ao cabo e ao resto , Bob salvava a rapa­
riga. Numa cena quase no final do filme , Sirien tinha finalmente
oportunidade de exibir a totalidade das suas artes sexuais , pela pri­
meira vez com sinceridade . Na qualidade de humilde funcionária do
salão de massagem, todas as piças que tinha chupado não eram mais
que uma forma de esperar pela piça de Bob , que representava todas
as outras - enfim, faltava ainda tratar dos diálogos . Enquadramen­
to de fundo com imagens de dois rios (Chao Phraya e Delaware) .
Genérico no final . Em termos de exploração na Europa, eu imagina­
va já uma publicidade especial , do género: «Se gostou de O Salão
de Música , vai adorar O Salão de Massagem .» Por enquanto estava
tudo muito vago , nem sequer havia participantes . Levantei-me de­
pois de pagar a conta , caminhei cento e cinquenta metros , sempre a
evitar propostas várias , e achei-me defronte do Pussy Paradise . Em­
purrei a porta e entrei . Três metros à frente reconheci Robert e Lio­
nel , sentados diante de irish coffees . Ao fundo , por detrás de um
vidro , cerca de cinquenta raparigas estavam sentadas em degrau s ,
com os seus distintivos numerados . U m criado aproximou-se rapida­
mente de mim . Vendo-me ao virar a cabeça, Lionel teve uma expres­
são envergonhada que lhe apanhou a cara inteira . Virando-se tam­
bém , Robert fez um gesto lento convidando-me para a mesa. Lionel
mordia os lábios , sem saber onde se havia de meter. O criado tomou
nota do meu pedido . «Eu sou de direita . . . » , disse Robert sem razão
aparente ; «mas cuidado . » Sacudiu o dedo indicador por cima da
. .

mesa, como se quisesse avisar-me . Desde o princípio da viagem ,


tinha-me já apercebido de que o homem me catalogara como de es­
querda , daí que esperasse a altura favorável para se meter comigo;
por mim , não tinha intenção de me deixar arrastar para um joguinho
desse género . Acendi um cigarro . Robert olhou-me criticamente , de
alto a baixo . «A felicidade é coisa delicada» , pronunciou com voz
sentenciosa; «é difícil encontrá-la em nós , e impossível encontrá-la
90 Michel Houellebecq

em algum lugar.» Ao fim de alguns segundos , acrescentou com ar


severo : «Chamfort6» . Lionel olhava admirado , maravilhado com a
atitude do outro . A frase citada parecia-me discutível: se invertêsse­
mos a ordem dos termos «difícil» e «impossível» , talvez fosse mais
fácil aproximarmo-nos da realidade; mas não me apetecia continuar
o diálogo , era imperioso regressarmos a uma postura turística nor­
mal . Além disso , começava a agradar-me a número 47 , uma tailan­
desa pequenina e esbelta , talvez um bocado magra , de lábios carnu­
dos e aspeto simpático; trazia uma minissaia vermelha e meias
pretas . Consciente da dispersão da minha atenção , Robert virou-se
para Lionel . «Acredito na verdade» , disse em voz baixa; «acredito
na verdade e no princípio da prova .» Ouvindo-o distraidamente ,
surpreendi-me quando percebi que era professor agregado de Mate­
mática, e que , na sua juventude , fora autor de prometedores traba­
lhos sobre a teoria algébrica dos Grupos de Lie . Por isso , reagi com
grande vivacidade : quer dizer que , sobre certos aspetos , sobre deter­
minados setores da inteligência humana, fora ele a primeira pessoa
a compreender claramente a verdade , adquirindo sobre isso uma
certeza absoluta , demonstrável? «Sim . . .» , admitiu Robert quase a
desculpar-se . «Evidentemente que tudo isso tinha sido redemonstra­
do num âmbito mais geral .» Seguidamente , dedicara-se a dar aulas ,
sobretudo em classes do Propedêutico; sem nenhum prazer especial ,
dedicara os seus anos de homem maduro a preparar alunos cretinos ,
cuja obsessão era entrar na Polytechnique ou na Centrale - e já não
era mau , no caso dos melhores de entre eles . «De qualquer modo» ,
acrescentou Robert , «faltava-me estofo para ser um matemático
criativo . Não deu para mais .» Por volta dos anos 70 , participara nu­
ma comissão ministerial sobre a reforma do ensino da Matemática
- uma boa porcaria, na sua opinião . Estava agora com cinquenta e
três anos; reformara-se há três anos, e dedicava-se a fazer turismo
sexual . Tinha casado três vezes . «Sou racista . . .» , disse alegremente .
«Tornei-me racista . . . Um dos primeiros efeitos das viagens» , acres­
centou , «consiste no reforço ou na criação de preconceitos raciai s ;
como poderemos imaginar os outros antes d e os conhecer? É claro
que pensamos neles como sendo parecidos connosco; só muito len­
tamente tomamos consciência de que a realidade é ligeiramente di­
ferente . Desde que o possa fazer, o ocidental trabalha; muitas vezes
Plataforma 91

o trabalho aborrece-o o u exaspera-o , mas ele finge que está interes­


sado : vê-se isso muitas vezes . Aos cinquenta anos , farto do ensino ,
da Matemática e dessas coisas todas , decidi-me a descobrir o mun­
do . Acabara de me divorciar, pela terceira vez ; do ponto de vista
sexual , não tinha nenhuma expectativa especial . A minha primeira
viagem foi à Tailândia; logo de seguida , fui a Madagáscar. Depois
disso , nunca mais fodi com uma branca; nem nunca mais tive desejo
de o fazer. Acredite em mim» , acrescentou Robert apertando com
mão firme o antebraço de Lionel , «uma boa rata, meiga, dócil , macia
e musculada , é coisa que as brancas não têm; tudo isso desapareceu
há muito tempo .» A 47 apercebeu-se de que eu a fixava com insis­
tência; sorriu-me e cruzou as pernas num movimento amplo , para
mostrar o cinto de ligas escarlate . Robert continuava a expor as suas
conceções . «No tempo em que os brancos se consideravam superio­
res» , disse ele «então , o racismo não era perigoso . Para colonos ,
missionários e professores laicos do século XIX , o negro era um ani­
mal corpulento sem grande maldade , de hábitos interessantes , uma
espécie de macaco um bocado mais evoluído . Na pior das hipóteses ,
consideravam-no uma besta de carga com utilidade , capaz de efetu­
ar algumas tarefas mais complicadas ; na melhor das hipótese s , era
tido como uma alma rude , mal desenvolvida, embora capaz de , pela
educação , se elevar até Deus - ou até ao nível de raciocínio dos
ocidentais . De qualquer modo , encaravam-no como um "irmão infe­
rior" , e ninguém pode sentir ódio por um ser inferior, quando muito ,
uma certa bonomia desdenhosa. Esse racismo benevolente , quase
humanista , tinha agora desaparecido completamente . A partir do
momento em que os brancos começaram a tratar os pretos como
iguais , tornou-se claro que , mais tarde ou mais cedo , iriam considerá­
-los superiores . A noção de igualdade não tem qualquer fundamento
entre os homens» , continuou ele , sempre de dedo indicador em riste .
Pensei que chegara a altura de Robert começar a citar as suas refe­
rências teóricas - La Rochefoucauld7 e mais não sei quem - , mas
isso não aconteceu . Lionel franziu a testa . «Üs brancos consideram­
-se a si próprios inferiores» , prosseguiu Robert , desejoso de ser
compreendido , «falta pouco para surgir um racismo de tipo novo ,
baseado no masoquismo : historicamente é nestas condições que se
chega à violência, às guerras raciais e aos massacres . Todos os an-
92 Michel Houellebecq

tissemitas , por exemplo , estão de acordo em atribuir aos judeus uma


superioridade de um certo tipo : se você ler antigos textos antissemi­
tas , vai certamente admirar-se com a circunstância de os judeus se­
rem considerados mais inteligentes, mais espertos, que lhes atribu­
am qualidades especiais em questões de finanças - e, por outro
lado , uma grande solidariedade comunitária. Resultado: seis milhões
de mortos.»
Voltei a olhar para a 47 : esta expectativa constitui um momento
excitante , algo que gostaríamos de fazer durar muito mais tempo;
mas há sempre o risco de a rapariga ser apanhada por outro cliente .
Fiz um gesto com a mão na direção do criado . «Não sou judeu ! » ,
exclamou Robert , julgando que eu me preparava para fazer alguma
objeção . De facto , poderia objetar de várias maneiras : em primeiro
lugar, estávamos na Tailândia , e os indivíduos de raça amarela nunca
tinham sido considerados «irmãos» inferiores pelos brancos , mas
seres evoluídos , pertencentes a civilizações diferentes , complexas ,
eventualmente perigosas ; poderia também recordar-lhe que estáva­
mos ali para foder, e que estas discussões faziam perder muito tem­
po; no fundo , era essa a minha objeção principal . O criado chegou
junto da nossa mesa; com um gesto rápido , Robert fez-lhe sinal para
trazer mais bebidas . «I need a girl» , pronunciei com uma voz aguda ,
«the girl forty seven» . O homem estendeu a cara inquieta e interro­
gativa na minha direção ; um grupo de chineses tinha acabado de se
instalar na mesa ao lado , faziam um barulho medonho . « The girl
number four seven!» , berrei , separando as sílabas . Desta vez o criado
percebeu , fez um grande sorriso e dirigiu-se a um microfone coloca­
do diante do vidro , onde articulou algumas palavras . A rapariga
levantou-se , desceu os degraus e dirigiu-se para uma saída lateral
enquanto alisava o cabelo . «0 racismo» , prosseguiu Robert olhando­
-me de lado , «parece caracterizar-se primeiramente por uma antipa­
tia acrescida, um sentido de competição entre machos de espécie
diferente ; mas tem como corolário o aumento do desejo sexual pelas
mulheres da outra raça. A verdadeira razão das lutas raciais» , disse
ele acentuando bem as palavras , «não é nem económica nem cultu­
ral , é biológica e animal : é a competição pela vagina das mulheres
mais novas .» Parecia-me que não faltava muito para o homem passar
às teorias de Darwin; nessa altura, o criado voltou à nossa mesa tra-
Plataforma 93

zendo a número 47 com ele . Robert ergueu os olhos para a rapariga


e apreciou-a longamente .
- Escolheu muito bem - concluiu com ar sombrio - , tem ar de
cabra . - A rapariga sorriu timidamente . Enfiei a mão por baixo da
saia dela e afaguei-lhe as coxas , como se a quisesse proteger. Ela
encostou-se toda a mim .
- Bem, a verdade é que , no meu bairro , os brancos já não man­
dam nada - interveio Lionel , um pouco a despropósito .
- É isso mesmo ! - concordou Robert energicamente . - Você
tem medo e tem boas razões para ter medo . Por mim , prevejo um
aumento de violência racial na Europa nos próximos anos; tudo isso
redundará em guerra civil - disse j á com espuma na boca - , de­
pois , tudo se irá decidir com Kalashnikovs . - Bebeu o cocktail de
um só trago; Lionel começava a olhá-lo com uma certa apreensão .
- Não tenho nada a temer ! - acrescentou enquanto batia com o
copo na mesa. - Sou um ocidental mas posso viver onde quiser, e
por enquanto o bago está aqui para o meu lado . Já estive no Senegal ,
no Quénia, na Tanzânia e na Costa do Marfim. É verdade que nesses
sítios as raparigas não são tão sabidas como as tailandesas , são me­
nos meigas , mas em contrapartida são mais bem feitas e têm uma
rata perfumada. Talvez por causa de certas reminiscências que o
percorriam , calou-se subitamente . « What is your name ?» , aproveitei
eu para perguntar à 47 . «I am Sim> , disse a rapariga . Os chineses da
mesa ao lado tinham feito também a sua escolha e dirigiam-se ao
andar de cima, por entre risos e cacarejos ; fez-se um silêncio relati­
vo . «Essas negrinhas põem-se de gatas e mostram-nos a rata e o
cuzinho» , prosseguiu Robert com ar pensativo ; «lá dentro , a ratinha
delas é toda cor-de-rosa . . . » , acrescentou num murmúrio . Foi a vez
de eu me levantar. Lionel olhou-me com uma expressão de agrade­
cimento ; estava visivelmente satisfeito por ser eu o primeiro a ir com
uma rapariga; era menos embaraçoso para ele . Baixei a cabeça na
direção de Robert , para me despedir. A sua cara de traços duros ,
crispada por um esgar azedo , percorria toda a sala - e , para além
dela , a humanidade inteira - sem a mais pequena afabilidade . Ao
menos , tinha tido oportunidade de se exprimir; por mim, sentia que
o iria esquecer rapidamente . Parecia-me estar em presença de um
homem derrotado , completamente acabado ; tive a impressão de que
94 Michel Houellebecq

nem sequer lhe apetecia deitar-se com uma destas raparigas . Pode­
mos caracterizar a vida como um processo que conduz à imobiliza­
ção , algo bem visível nos buldogues franceses - tão irrequietos em
novos , tão apáticos na idade madura . No caso de Robert, o processo
j á estava muito avançado; talvez tivesse ainda ereções , mas não era
certo que assim fosse; pode sempre armar-se em esperto , dar a im­
pressão de ter compreendido alguma coisa com a vida , mas é sempre
a vida que acaba com tudo . O meu destino era semelhante ao de
Robert; tínhamos em comum o mesmo defeito; apesar disso , não
sentia nenhuma solidariedade com ele . Quando falta o amor, nada
pode ser santificado . Por debaixo das pálpebras , há sinais luminosos
que aparecem; há também sonhos , há também visões . Nada disso diz
respeito ao homem, que espera pela noite ; e a noite chega. Paguei
dois mil baths ao criado , que foi à minha frente até à dupla porta que
dava para o andar de cima. Sin levava-me pela mão; durante uma ou
duas horas , ia tentar fazer-me feliz .

É óbvio que , num salão de massagem, só muito raramente se en­


contra uma rapariga que esteja com vontade de fazer amor. Assim
que entrou no quarto , Sin ajoelhou-se diante de mim , baixou-me as
calças e o slip , e segurou-me o sexo entre os lábio s . Fiquei imedia­
tamente com ereção . A rapariga esticou os lábios e, com pequenos
movimentos da língua, começou a destapar-me a glande . Fechei os
olhos, fui percorrido por uma vertigem e tive a impressão de que ia
vir-me na boca dela. Sin parou repentinamente , despiu-se sempre a
sorrir, dobrou as roupas e pô-las em cima de uma cadeira . «Massage
/ater . . .» , disse estendendo-se na cama; a seguir abriu as coxas . Esta­
va já dentro dela, abaixo e acima com toda a força, quando percebi
que me tinha esquecido do preservativo . De acordo com os relatórios
dos Médicos do Mundo , um terço das prostitutas tailandesas são se­
ropositivas . No entanto , não se pode dizer que sentisse um grande
temor; estava apenas ligeiramente contrariado . Decididamente , estas
campanhas de prevenção da sida tinham sido um falhanço total .
Mesmo assim , perdi alguma ereção . «Something wrong ? » , preocupou­
-se ela erguendo-se pelos cotovelos . «Maybe . . . a condom» , disse eu
embaraçado . «No problem, no condom . . . I 'm OK!» , disparou Sin
Plataforma 95

com ar jovial . Segurou-me os tomates no côncavo da mão e passou­


-me a palma da outra mão por cima da piça. Deitei-me de costas e
abandonei-me às suas carícias . O movimento da palma da mão au­
mentou , e então senti que o sangue afluía novamente ao meu sexo .
Bem vistas as coisas , talvez houvesse inspeções sanitárias ou coisas
assim . A partir do momento em que fiquei de costas , ela pôs-se em
cima de mim e enterrou-se num ápice . Passei as mãos por detrás dos
seus rins; sentia-me invulnerável . A rapariga começou então a mexer
devagarinho as ancas , ia tendo cada vez mais prazer, e eu abri com­
pletamente as pernas para a penetrar mais profundamente . Sentia um
prazer intenso , quase inebriante , respirava muito lentamente para me
conter, sentia-me reconciliado . A rapariga estendeu-se toda por cima
de mim , esfregando o púbis energicamente contra o meu e dando
gritinhos de prazer; levantei as mãos para lhe acariciar a nuca . No
momento em que atingiu o orgasmo , imobilizou-se , teve um longo
estertor, e caiu sobre o meu peito . Depois , teve um segundo orgasmo ,
uma contração extremamente profunda , vinda de dentro de si .
Apertei-a involuntariamente entre os braços e ejaculei com um grito .
Sin continuou imóvel , com a cabeça em cima do meu peito , durante
quase dez minutos; a seguir levantou-se e propôs que tomássemos
um duche . Secou-me delicadamente , batendo-me com a toalha como
se faz aos bebés . Instalei-me num sofá e ofereci-lhe um cigarro . « We
have time . . » , disse ela, «we have a little time .» Soube depois que
.

tinha trinta e dois anos . Não gostava daquele trabalho , mas o marido
deixara-a sozinha com dois filhos . «Bad man» , disse ela; «Thai" men ,
bad men .» Perguntei-lhe se era amiga de alguma das outras . «Nem
por isso» , disse ; « são quase todas novas e têm pouco juízo , gastam
tudo o que ganham em roupas e perfumes .» O caso dela era diferen­
te , era mais séria, punha o dinheiro no banco . Dali por alguns anos
poderia acabar com aquilo e voltar para a aldeia; os pais eram pesso­
as de uma certa idade , precisavam de ser ajudados .
Quando saí, dei-lhe uma gorjeta de dois mil baths; era ridículo ,
era francamente demasiado . Segurou nas notas com ar incrédulo e
saudou-me uma série de vezes, juntando as mãos à altura do peito .
« You good man» , disse então . Vestiu a saia e pôs as meias ; faltavam­
-lhe duas horas até à hora de encerramento . Acompanhou-me à por­
ta , voltando a juntar as mãos . «Take care» , disse ainda; «be happy.»
96 Michel Houellebecq

S aí para a rua um pouco pensativo . Na manhã seguinte , a partida


para a derradeira etapa da viagem estava marcada para as oito ho­
ras . Dei comigo a pensar em como teria Valérie passado o seu dia
livre .
11

«Comprei prendas para a farru1ia» , disse ela. «Encontrei umas con­


chas esplêndidas .» O barco sulcava as águas azul-turquesa, por entre
falésias de calcário cobertas de floresta densa; era exatamente assim
que eu imaginava o cenário de A Ilha do Tesouro . «Realmente , é preci­
so reconhecer que não há nada que se compare à natureza . . . » , respon­
di eu . Valérie virou a cara para mim e teve uma expressão atenta; tinha
os cabelos apanhados na nuca, mas alguns caracóis voavam ao vento ,
de um lado e de outro da cara. «Não há dúvida, às vezes a natureza . . . » ,
prossegui eu com pouca coragem. Deveria haver aulas de conversação ,
da mesma maneira que há aulas de danças de salão; por mim, tinha-me
talvez dedicado de mais à contabilidade , perdera o contacto com as
outras coisas . «Não sei se já reparou , mas estamos a 3 1 de dezem­
bro . . . » , observou ela calmamente . Lancei um olhar circular sobre o
azul imutável , o oceano azul-turquesa; não , não tinha dado por isso.
Era preciso coragem para haver seres humanos a viver em regiões frias .
Sôn levantou-se para falar ao grupo: «Nós agora próximo Koh Phi
Phi . Como disse já, impossível ir. Têm fato de banho vestido para ir?
Ir a pé , pouco fundo , andar. Andar na água. Malas não , malas mais
tarde .» O piloto dobrou um cabo , desligou o motor, o barco conti­
nuou embalado até uma pequena enseada que se arredondava no
meio de falésias tapadas pela selva . A água de um verde transparen­
te vinha bater numa praia de areia de um branco perfeito , irreal . No
meio da floresta , antes das primeiras vertentes , viam-se bungalows
em madeira, construídos sobre estacas , com telhados de folhas de
palmeira . Houve um momento de silêncio no grupo . «0 paraíso ter-
98 Michel Houellebecq

restre . . . » , disse tranquilamente Sylvie , com a garganta apertada por


uma emoção real . Mas havia ali um certo exagero . Sylvie não era a
Eva . E eu muito menos o Adão .
Os membros do grupo levantaram-se uns a seguir aos outros e sal­
taram para o casco do barco . Ajudei Josette a descer e a juntar-se ao
marido . Estava com a saia arregaçada até à cintura e tinha dificuldade
em levantar as pernas , mas sentia-se radiante e espirrava de entusias­
mo . Voltei-me para trás ; apoiado a um remo , o marinheiro tailandês
aguardava que todos os passageiros descessem . Valérie estava com as
mãos cruzadas em cima dos joelhos , olhou-me de lá de cima e sorriu
embaraçada. «Esqueci-me de vestir o fato de banho . . . » , disse por fim.
Levantei os braços devagar, em sinal de impotência. «Posso ir aí. . . » ,
disse eu estupidamente . Mordeu contrariada o s lábios , pôs-se de pé e
tirou as calças num ápice . Tinha umas calcinhas de renda, muito finas ,
nada conformes ao espírito do circuito . Os pelos do púbis saíam-lhe
dos lados , eram abundantes e escuros . Não virei a cara, foi uma coisa
estúpida, mas o meu olhar também não foi demasiadamente insistente .
Desci do barco pelo lado esquerdo e estendi a mão para a ajudar; Va­
lérie saltou também do barco . Tínhamos água até à cintura.

Antes de ir à praia , Valérie observou novamente os colares de


conchas que tinha escolhido para as sobrinhas . Imediatamente de­
pois de se formar, o irmão arranjara emprego na Elf, como engenhei­
ro de prospeções . Após alguns meses de formação interna, partira
para a Venezuela - a sua primeira missão . Um ano depois , casara
com uma rapariga venezuelana. Valérie tinha a impressão de que o
irmão não tinha tido grande experiência sexual antes disso; fosse
como fosse , nunca tinha levado nenhuma rapariga a casa dos país . É
uma situação muito frequente com os rapazes que estudam engenha­
ria; não têm tempo de sair nem de namorar. Dedicam os tempos li­
vres a distrações inconsequentes , tipo jogos de inteligência e partidas
de xadrez na Internet . Sacam o diploma , encontram o primeiro em­
prego e descobrem tudo ao mesmo tempo; dinheiro , responsabilida­
des profissionais e sexo; quando são colocados em países tropicai s ,
raramente resistem . Bertrand tinha casado com uma mulher nitida­
mente mestiça, com um corpo magnífico . De férias em casa dos pais ,
Plataforma 99

na praia de Saint-Quay-Portrieux , muitas foram as vezes em que


Valérie sentira um acesso de desejo pela cunhada. Tinha dificuldade
em imaginar o irmão a fazer amor. A verdade é que tinham já dois
filhos e pareciam formar um casal feliz . Não era difícil comprar uma
prenda para Juana: adorava joias , e as pedras claras sobressaíam-lhe
esplendidamente na pele castanha . Em contrapartida, Valérie não ti­
nha encontrado nada para Bertrand , o irmão . Quando os homens não
têm vícios , disse ela, é muito difícil adivinhar o que lhes dá prazer.

Estava a folhear o Phuket Weekly, que tinha encontrado no salão do


hotel , quando vi Valérie a caminhar ao longo da praia. Um pouco mais
ao longe havia um grupo de alemães a tomarem banho despidos . A
rapariga hesitou um instante , mas depois veio na minha direção . O Sol
era resplandecente; era quase meio-dia. De uma maneira ou de outra,
eu era obrigado a entrar no jogo . Babette e Léa passaram diante de nós ;
levavam uns sacos a tiracolo , e só por isso é que não iam completamen­
te nuas . Registei a informação , mas não reagi . Mas Valérie seguiu-as
durante algum tempo com os olhos , curiosa e sem constrangimento . As
raparigas instalaram-se próximo dos alemães. «Acho que vou tomar
banho . . . » , disse eu . «Vou mais tarde . . . » , respondeu ela. Entrei na água
sem o mais pequeno esforço . O mar estava quente , transparente , deli­
ciosamente calmo; havia pequenos peixes prateados a nadarem muito
próximo da superfície . A praia era pouco profunda, havia pé durante
quase cem metros . Puxei o calção de banho para baixo , fechei os olhos
e tentei visualizar o sexo de Valérie tal como o vira de manhã, meio
encoberto pelas calcinhas de renda. Fiquei com tesão , o que já não era
mau ; podia constituir uma boa motivação . Além disso , é preciso viver
e ter contactos humanos . Em geral , andava demasiadamente contraído ,
e há muito tempo já. Deveria talvez sair à noite , jogar badminton , fazer
canto coral ou outra coisa qualquer. As únicas mulheres de quem tinha
alguma recordação eram aquelas com quem tinha fodido . Não era nada,
não era praticamente nada; precisamos de recordações para estarmos
menos sós quando a morte chega. Mas não valia a pena pensar nisso
agora. «Think positive» , disse apavorado para comigo , «think diffe­
rent» . Voltei lentamente para terra, parando de dez em dez braçadas e
respirando fundo para me descontrair. Quando pisei novamente a areia,
1 00 Michel Houellebecq

a primeira coisa de que tive consciência foi que Valérie tinha tirado a
parte de cima do fato de banho . Naquele momento estava deitada de
barriga para baixo , mas iria certamente virar-se para cima, era uma
coisa tão inevitável como o movimento dos planetas . E eu , onde estava
eu exatamente? Sentei-me em cima da toalha de banho e arqueei-me
um pouco . «Think dif.ferent>> , dizia repetidamente para mim próprio . Já
tinha visto muitas mamas , já as tinha lambido e acariciado; mas , desta
vez , fiquei em estado de choque . Não duvidava que ela tivesse umas
mamas magníficas , mas a realidade ultrapassava todas as expectativas .
Não conseguia afastar a vista daqueles mamilos , daquelas grandes aré­
olas; Valérie não podia ignorar a forma como eu olhava para ela; apesar
disso , ficou calada durante alguns segundos , uma verdadeira eternida­
de . O que se passará exatamente na cabeça das mulheres? As mulheres
aceitam com toda a facilidade as regras do jogo . Muitas vezes , quando
se veem nuas , em pé diante de um espelho , observa-se no seu olhar um
certo tipo de objetividade , uma fria avaliação das suas próprias capaci­
dades de sedução , algo que um homem nunca conseguirá alcançar. Fui
eu que baixei os olhos em primeiro lugar.
Seguidamente , houve um lapso de tempo de difícil definição ; o
Sol estava ainda na vertical , a luminosidade era extremamente forte .
O meu olhar fixava-se na areia branca e poeirenta . «Michel . . . » , dis­
se Valérie com ar meigo . Levantei bruscamente a cabeça , como se
tivesse levado uma cacetada . Os seus olhos castanhos mergulharam
nos meus . «0 que é que as tailandesas têm a mais do que as ociden­
tais?» , perguntou com toda a clareza . Mais uma vez , não consegui
aguentar o olhar dela; o seu peito mexia-se ao ritmo da respiração ;
os mamilos pareciam-me mais espetados . Nesse preciso momento ,
tive vontade de dizer: «Nada» . Mas depois ocorreu-me uma ideia;
uma ideia não muito boa .
«Há um artigo aí dentro , uma espécie de reportagem publicitá-
ria . . . »; e estendi-lhe o Phuket Weekly . «Find your longlife compa-
nion . . . Well educated Thai" !adies , é isto?» Sim , mais à frente há uma
entrevista .» Sorridente , de fato preto e gravata escura , Cham Sawa­
nasee respondia a dez perguntas que quisessem fazer-lhe («Ten ques­
tions you could ask») sobre o funcionamento da agência Heart to
Heart, que ele dirigia.
Plataforma 101

« There seems to be» , observava M r Sawanasee , « a near-perfect


match between the Western men, who are unappreciated and get no
respect in their own countries, and the Thai women, who would be
happy to find someone who simply does his job and hopes to come
home to a pleasant family life after work. Most Western women do
not want such a boring husband.»
«One easy way to see this» , continuava ele , «is to look at any pu­
blication containing "personal " ads . The Western women want so­
meone who looks a certain way, and who has certain "social skills ",
such as dancing and clever conversation, someone who is interesting
and exciting and seductive . Now go to my catalogue, and look at
what the girls say they want. It 's all pretty simple, really. Over and
over they state that they are happy to settle down FOREVER with a man
who is willing to hold down a steady job and be a loving and unders­
tanding HUSBAND and FATHER . That will get you exactly nowhere with
an American girll»
«As Western women» , concluía Mr Sawanasee com algum desca­
ramento , «do not appreciate men, as they do not value traditional
jamily life, marriage is not the right thing for them to do . I 'm helping
modem Western women to avoid they despise .»

« É interessante o que o homem diz . . . » , comentou Valérie com ar


triste . «Tem um bom mercado , isso é garantido . . . » Largou o jornal e
ficou pensativa . Nessa altura , Robert passou diante de nós ; caminha­
va ao longo da praia, de mãos atrás das costas e olhar sombrio . Va­
lérie voltou-se bruscamente para o ver depois de ele passar.
- Não gosto nada deste tipo - disse agastada.
- Não é má pessoa - e fiz um gesto de indiferença.
- Não é má pessoa, mas não gosto dele . Faz tudo o que pode
para chocar os outros , para se tornar antipático; não gosto dele . Você ,
ao menos , tenta adaptar-se .
- Ah , sim ! ? - disse eu com uma expressão de surpresa.
- Sim. É claro que se percebe que se sente mal , não é o estilo de
pessoa adequada a umas férias assim ; mas ao menos faz um esforço .
Bem vistas as coisas , acho-o um rapaz simpático .
Nesse momento eu poderia, e deveria, ter-lhe dado um abraço ,
acariciado os seio s , beijado os lábios; estupidamente , abstive-me .
1 02 Michel Houellebecq

A tarde avançava, o Sol estava já por cima das palmeiras ; pronunciá­


mos palavras insignificantes .

Para o jantar da passagem do ano , Valérie trazia um vestido com­


prido de um tecido verde muito leve , ligeiramente transparente , com
um corpete em que os seios se expandiam livremente . Depois da
sobremesa, uma orquestra começou a tocar na esplanada do hotel ,
com um velho cantor esquisito a nasalar adaptações slow rock de
canções de Bob Dylan . Babette e Léa pareciam bem integradas no
grupo dos alemães, e eu ouvia distintamente as exclamações vindas
desse lado . Josette e René dançavam agarrados um ao outro , como
dois namorados . A noite estava quente ; as borboletas juntavam-se
em volta dos lampiões de várias cores pendurados na balaustrada. Eu
sentia-me oprimido , e ia bebendo uísques atrás uns dos outros .
- O que esse tipo dizia , na entrevista àquele jornal . . .
- Sim. - Valérie ergueu os olhos para mim; estávamos os dois
sentados lado a lado , num banco de bambu . Os seios dela estavam
arredondados por baixo do vestido , como prendas dentro de duas
cascas de ovo . Tinha-se maquilhado; e os longos cabelos soltos
flutuavam-lhe sobre os ombros .
- Aplica-se mais aos americanos , acho eu . No caso dos europeus ,
não é bem assim .
Teve depois uma expressão de dúvida , e calou-se . Inequivocamen­
te , a única coisa que eu tinha a fazer era convidá-la para dançar. Mas
bebi outro uísque , encostei-me para trás e inspirei profundamente .
Quando acordei , a sala estava quase deserta . O cantor continuava
a cantarolar em tailandês , vagamente acompanhado pela bateria; mas
ninguém o ouvia. Os alemães tinham desaparecido , mas Babette e
Léa conversavam animadamente com dois italianos surgidos não se
sabe de onde . Valérie tinha-se ido embora . Eram três horas da ma­
nhã , hora local ; o ano 200 1 estava a começar. Em Paris , a passagem
do ano só acontecia daí a três horas ; era exatamente meia-noite em
Teerão e cinco horas da manhã em Tóquio. Nas suas variadas for­
mas , a humanidade iniciava o terceiro milénio ; pela minha parte , ti­
nha falhado redondamente a entrada .
12

Foi coberto de vergonha que voltei para o bungalow; no jardim,


ouviam-se risos . No meio do caminho arenoso , caí em cima de um
pequeno sapo cinzento , completamente imóvel . O bicho não fugiu ,
não esboçou o mais pequeno gesto d e defesa. Mais tarde ou mais cedo
alguém haveria de lhe passar por cima, sem dar por isso; a sua coluna
vertebral partir-se-ia e o corpo esmagado misturar-se-ia com a areia.
Quem passasse sentiria qualquer coisa mole debaixo da sola do sapa­
to , soltaria um palavrão e Iimpar-se-ia esfregando os pés no pavimen­
to . Empurrei o sapo com o pé: sem pressa, o bicho avançou para a
berma. Empurrei-o novamente: atingiu uma zona de relativa seguran­
ça, sobre a relva; talvez eu tenha prolongado em algumas horas a sua
vida. Sentia-me numa posição não muito superior à dele: não crescera
em nenhum casulo familiar, nem noutro qualquer onde alguém velas­
se por mim ou me ajudasse em caso de necessidade , extasiando-se
perante as minhas aventuras ou os meus sucessos . Para mais , também
não formara nenhuma entidade desse género: era solteiro e não tinha
filhos; ninguém pensaria vir alguma vez apoiar-se no meu ombro . Tal
como um animal , tinha vivido sozinho e ia morrer sozinho . Durante
alguns minutos , afundei-me numa compaixão sem sentido .
Visto de outro ângulo , eu era uma rocha resistente , compacta, de
uma envergadura superior à média das espécies animais; a minha espe­
rança de vida era análoga à de um elefante ou de um corvo; no fundo ,
era alguma coisa mais difícil de destruir do que um pequeno batráquio .

* * *
1 04 Michel Houellebecq

Nos dois dias a seguir, permaneci encerrado no bungalow . De vez


em quando , saía encostado às paredes e ia ao minimercado comprar
pistácios e garrafas de mékong . Não me conseguia imaginar a passar
novamente por Valérie , no bu.ffet do almoço ou na praia. Há coisas
que se podem fazer e outras que parecem muito difíceis . Lentamente ,
tudo se vai tornando difícil; a vida resume-se a isso .
Na tarde do dia 2 de janeiro , encontrei debaixo da porta o questio­
nário sobre a apreciação do circuito da Nouvelles Frontieres . Preen­
chi-o escrupulosamente , assinalando quase sempre o quadradinho do
«Bom» . Era verdade , num certo sentido tinha sido tudo bom . As
minhas férias tinham-se desenrolado de forma normal . O circuito
tinha sido cool, embora com um toque de aventura; correspondia à
descrição divulgada pela agência. Na rubrica «observações pes­
soais» , inscrevi a seguinte quadra:

Pouco depois de acordar, senti-me transportado


A outro universo de uma perfeita quadrícula
Conheço bem a vida e as suas modalidades,
É como um questionário em que assinalamos quadradinhos .

Na manhã de 3 de janeiro , fiz a mala. Quando me viu no barco ,


Valérie abafou uma exclamação; virei a cara para o lado . Sôn
despediu-se de nós no aeroporto de Pukhet; estávamos adiantados , o
avião só partia dali a três horas . Depois das formalidades de embar­
que , vagueei pelo centro comercial . Apesar de o hall do aeroporto ser
totalmente coberto , as lojas têm a forma de cabanas , com prumos em
teca e telhados de folhas de palmeira. Os produtos expostos eram uma
mistura de artigos internacionais (lenços Hermes , perfumes Yves
Saint Laurent, malas Vuitton) com bens produzidos localmente (con­
chas , bibelôs , gravatas de seda tailandesa) ; mas todos eles dispunham
de códigos de barras . Em resumo , as lojas do aeroporto constituíam
ainda um espaço de vida nacional , mas de vida nacional normalizada,
debilitada, inteiramente adaptada aos padrões de consumo internacio­
nal . Para o viajante em final de jornada, tratava-se de um espaço in­
termédio , ao mesmo tempo interessante e menos assustador do que o
resto do país . Por mim , parecia-me que o conjunto do mundo ia ten­
dendo , cada vez mais , para se assemelhar a um aeroporto .
Plataforma 1 05

* * *

Ao passar defronte do Coral Emporium , senti uma súbita vontade


de comprar uma prenda para Marie-Jeanne ; afinal , era a única pessoa
que eu tinha no mundo . Um colar, uma pregadeira? Quando me en­
contrava a procurar alguma coisa num expositor, vi Valérie a dois
metros de mim .
- Estou a tentar escolher um colar - disse hesitante .
- Loira ou morena? - e na sua voz havia uma ponta de azedume .
- Loira de olhos azuis .
- Nesse caso , é preferível escolher um coral de cores claras .
Mostrei o cartão de embarque à menina do balcão . Na altura em
que fiz o pagamento , disse para Valérie com ar compungido: «É para
uma colega de trabalho . . . » Ela olhou para mim com um ar indefini­
do , como se hesitasse entre dar-me uma estalada ou começar a rir;
mas fez-me companhia durante alguns metros depois de sairmos da
loja. Quase todos os membros do grupo estavam sentados no hall; já
deviam ter acabado as suas compras . Parei , inspirei profundamente
e virei-me para Valérie .

- Talvez nos pudéssemos encontrar em Paris - disse-lhe final­


mente .
- Acha que sim? - retorquiu ela asperamente .
Não respondi , limitei-me a olhá-la de novo . Em dado momento ,
tive a intenção de dizer: «Seria uma pena . . . »; mas não tenho a cer­
teza de ter pronunciado essas palavras .
Valérie olhou em volta, viu Babette e Léa sentadas ali perto e vi­
rou a cabeça com ar agastado . Depois , tirou um cademinho de dentro
do saco , arrancou uma folha e escreveu rapidamente qualquer coisa.
Ao estender-me o papel , ia para falar mas desistiu , virando-se nova­
mente e juntando-se ao resto do grupo . Antes de o meter no bolso ,
dei uma olhadela ao que estava escrito no papel: era o número de um
telemóvel .
Segunda Parte

VANTAGEM CONCORRENCIAL
1

O avião aterrou em Roissy às onze horas ; fui uma das primeiras


pessoas a recolher a mala. Ao meio-dia e meia hora estava em casa.
Era sábado ; podia sair para fazer compras , comprar bibelôs , etc .
A Rue Mouffetard estava a ser varrida por um vento glacial , e não
encontrei nada que valesse a pena . Dois militantes dos direitos dos
animais vendiam autocolantes amarelos . Depois do período das Fes­
tas , há sempre uma ligeira diminuição nas aquisições de produtos
alimentares . Trouxe um frango assado , duas garrafas de vinho Gra­
ves e a última cassete de Hot Video . A minha escolha para o fim de
semana não era muito ambiciosa; tinha a impressão de não merecer
muito mai s . Devorei metade do frango , com a pele queimada , vaga­
mente enjoativa. Pouco depois das três horas , telefonei a Valérie .
Atendeu ao segundo toque . Estava livre à noite , sim; para jantar,
claro que sim . Podia passar em casa dela às oito horas ; morava na
Avenue Reille , junto ao Pare Montsouris . Veio abrir-me a porta ves­
tida com uns calções brancos e uma T-shirt curtinha . «Estou quase
pronta . . . » disse-me enquanto apanhava o cabelo atrás . O movimento
fez-lhe subir os seios; não tinha soutien . Pus-lhe as mãos na cintura
e aproximei a minha cara da dela. Abriu os lábios e meteu-me ime­
diatamente a língua na boca. Fui atravessado por uma excitação
violenta, quase de desfalecimento , e fiquei imediatamente com te­
são . Sem desencostar o púbis do meu , Valérie empurrou a porta de
entrada, que se fechou com um som abafado .
A sala, iluminada apenas por u m pequeno candeeiro , parecia enor­
me . Segurou-me pela cintura e levou-me às apalpadelas até ao quarto .
1 10 Michel Houellebecq

Junto da cama, beijou-me novamente . Tirei-lhe a T-shirt para lhe


acariciar os seios ; murmurou qualquer coisa que não percebi .
Ajoelhei-me em frente dela para lhe puxar os calções e as cuequinhas
para baixo , e pousei o meu olhar sobre o seu sexo . Tinha a fenda hú­
mida , aberta, bem cheirosa. Deu um gemido e caiu em cima da cama.
Despi-me rapidamente e entrei nela. Sentia o meu sexo quente a ser
percorrido por intensos arrebatamentos de prazer. «Yalérie . . . » , disse
eu , «não vou aguentar-me muito mais , estou muito excitado .» Puxou­
-me contra si e murmurou-me ao ouvido: «Vem . . . » Nesse momento ,
senti que as paredes da ratinha dela se fechavam sobre o meu sexo .
Tive a sensação de me dissipar no espaço , de apenas o meu sexo estar
vivo , atravessado por uma onda de prazer incrivelmente forte . Ejacu­
lei profundamente , de forma repetida; quase no final , apercebi-me de
que dera um berro . Seria capaz de morrer por um momento assim .
Havia peixes azuis e amarelos a nadar à minha volta . Eu estava de
pé dentro de água, em equilíbrio , a poucos metros da superfície ilu­
minada pela luz do Sol . Valérie estava um pouco mais longe , tam­
bém ela de pé dentro de água, diante de um recife de coral ; tinha as
costas viradas para mim . Estávamos ambos completamente nus . S a­
bia que esse estado de imponderabilidade resultava da modificação
da densidade dos oceanos , mas admirava-me de conseguir respirar.
Com uns quantos movimentos de mãos , fui para junto dela. O recife
estava cravejado de organismos fosforescentes , prateados e estrela­
dos . Pus-lhe uma mão nos seios e a outra no baixo-ventre . Arqueou­
-se e esfregou as coxas no meu sexo .
Acordei na mesma posição ; ainda era noite . Devagarinho , abri-lhe
as coxas para a penetrar. Ao mesmo tempo , molhei os dedos para lhe
acariciar o clítoris . Ao ouvi-la gemer, percebi que estava acordada.
Levantou-se e ajoelhou-se na cama . Comecei a entrar nela cada vez
com mais força, sentindo que se estava a vir e que respirava cada vez
mais depressa. No momento do orgasmo , ergueu-se ligeiramente e
deu um grito estridente ; a seguir ficou imóvel , quase aniquilada. Saí
de dentro dela e deitei-me a seu lado . Então , distendeu-se e abraçou­
-me ; estávamos alagados em suor. «É bom ser-se acordada pelo
prazer. . . » , disse ela, pondo-me a mão no peito .
Quando voltei a acordar, já era dia; estava sozinho na cama.
Levantei-me e saí do quarto . A outra sala era efetivamente muito
Plataforma lll

grande e tinha tetos altos . Viam-se estantes com livros ao longo do


mezanino , por cima de um sofá. Valérie não estava; em cima da me­
sa da cozinha, tinha posto pão , queij o , compotas e manteiga . Servi­
-me de uma chávena de café e voltei a deitar-me . Voltou dez minutos
depois com croissants e pãezinhos com chocolate , e veio para o
quarto com um tabuleiro na mão . «Está um frio louco lá fora . . . » ,
disse enquanto s e despia. Eu pensava n a Tailândia .
«Valérie . . . » , disse eu com uma certa hesitação , «O que podes tu
encontrar em mim? Não sou bonito nem divertido ; tenho dificuldade
em perceber o que te pode atrair em mim .» Olhou-me sem dizer uma
palavra; estava quase nua, só com as calcinhas . «Estou a falar a sé­
rio» , insisti . «Aqui estou eu , um fulano já gasto , pouco comunicati­
vo , praticamente resignado a uma vida sem sentido . E aqui estás tu ,
ao pé de mim , meiga e afetuosa, a dar-me imenso prazer. Não perce­
bo . Dá a impressão de que procuras alguma coisa em mim , alguma
coisa que eu não tenho . Vais certamente ficar desiludida.» Ela sorriu ,
e pareceu-me que não sabia se havia de falar; depois pôs-me uma
mão em cima dos testículos e aproximou a cara. Voltei a ficar ime­
diatamente com tesão . Enrolou a base do meu sexo com uma mecha
dos seus cabelos e começou a masturbar-me com as pontas dos de­
dos . «Não sei responder. . . » , murmurou ela sem interromper os mo­
vimentos . «É bom que não tenhas muita confiança em ti próprio .
Desejei-te muito durante a viagem . Foi horrível , pensava nisso todos
os dias .» Apertou-me os testículos com mais força , envolvendo-os na
palma de uma das mãos . Com a outra , pegou num pouco de compo­
ta de framboesas e barrou-me o sexo ; a seguir começou a lambê-lo
cuidadosamente , com grandes movimentos da língua . O meu prazer
aumentava cada vez mai s , e abri as pernas num esforço desesperado
para me conter. Como se fosse um jogo , passou a masturbar-me um
pouco mais depressa, ao mesmo tempo que pressionava a boca con­
tra a minha piça. No momento em que a língua me afagou o freio da
glande , ejaculei violentamente na sua boca semiaberta . Engoliu emi­
tindo um pequeno ronco , rodeando depois com os lábios a parte de
cima do meu sexo , para apanhar o resto que faltava . Fui invadido por
uma incrível onda de descompressão , uma onda que se insinuava em
todas as minhas veias . Valérie retirou a boca , estendeu-se a meu lado
e enroscou-se em mim .
1 12 Michel Houellebecq

- Na noite de 3 1 de dezembro , estive para ir bater à porta do teu


quarto ; mas não fui capaz . Estava convencida de que , a seguir, não
iria acontecer nada entre nós ; o pior é que nem sequer consegui ficar
ressentida contigo . Nas viagens organizadas , as pessoas falam muito
umas com as outras , mas não passam daí, de uma camaradagem ar­
tificial ; sabem bem que , depois disso , nunca mais se vão ver. É mui­
to raro terem relações sexuais .
- Achas isso?
- Sei isso perfeitamente; já houve estudos a esse respeito . Acon-
tece o mesmo com os clubes de férias . É um problema que eles têm ,
de resto , porque , no fundo , era essa a principal motivação da moda­
lidade . Por isso a frequência foi diminuindo nos últimos dez anos ,
apesar de os preços tenderem a baixar. A verdadeira explicação está
no facto de que , nos períodos de férias , as relações sexuais se tomam
praticamente impossíveis . Os únicos destinos em que as coisas fo­
gem ligeiramente a essa regra são os que dispõem de muita clientela
homossexual , como Corfu ou Ibiza .
- Estás muito bem informada sobre o assunto - disse eu surpre­
endido .
- É natural , trabalho em turismo . - Valérie sorriu . - Aí está
outra constante das viagens organizadas : as pessoas falam muito
pouco sobre as suas vidas profissionais . Como se houvesse uma es­
pécie de parêntesis lúdico , integralmente centrado naquilo que os
organizadores chamam «O prazer da descoberta» . Tacitamente , os
participantes concordam em fugir de assuntos sério s , como o sexo ou
o trabalho .
- Onde trabalhas , Valérie?
- Na Nouvelles Frontieres .
- Quer dizer que estavas lá a título profissional? Para fazer um
relatório ou qualquer coisa assim?
- Não . Estava mesmo de férias . Claro que tive um desconto gran­
de , mas fui durante o meu tempo de férias . Trabalho lá há cinco ano s ,
e foi a primeira vez que fiz um circuito dele s .

Enquanto preparava uma salada d e tomate à la mozzarella ,


contou-me a sua vida profissional . Em março de 1 990 , três meses
Plataforma 1 13

antes de acabar o liceu , começou a interrogar-se sobre a orientação a


dar aos estudos - e à sua vida em geral . Depois de muitas dificul­
dade s , o irmão mais velho conseguira matricular-se em Nancy, no
curso de Geologia; estava prestes a obter o diploma . Provavelmente ,
a sua carreira iria decorrer em explorações mineiras ou em platafor­
mas petrolíferas , de qualquer modo sempre fora da França . Mas o
irmão gostava muito de viajar. Passava-se o mesmo , ou quase o mes­
mo , com ela; por fim , decidiu-se por um bacharelato8 em Turismo .
A tenacidade intelectual necessária para fazer um curso demorado
não lhe parecia adequada à sua natureza.
Foi um erro de que não tardou a aperceber-se . Considerava o nível
do curso extremamente baixo; conseguia bons resultados sem grande
esforço , pelo que lhe seria muito fácil obter o diploma final . Paralela­
mente , matriculou-se em cadeiras que lhe permitiam a equivalência
de um diploma em «Letras e Ciências Humanas» . Depois disso ,
inscreveu-se numa licenciatura de Sociologia. E também aí depressa
se desiludiu . A matéria era interessante e havia muitas coisas a desco­
brir; mas os métodos de trabalho e as teorias do curso pareciam-lhe
de um simplismo ridículo: tudo aquilo lhe cheirava a ideologia, ama­
dorismo , falta de rigor. Deixou de ir às aulas a meio do ano , sem ter­
minar as avaliações , e encontrou emprego como agente de vendas
numa sucursal da agência de viagens Kuoni , em Rennes . Ao fim de
duas semanas , quando encarou a possibilidade de alugar um estúdio ,
teve consciência do que lhe estava a acontecer: a armadilha fechara-se
completamente ; daí em diante , estava inserida no mundo do trabalho .
Permaneceu um ano na Kuoni de Rennes , onde mostrou ser boa
vendedora. «Não foi difícil» , disse Valérie , «bastava-me ouvir os
clientes , interessar-me por eles . Afinal de contas , é tão raro as pesso­
as interessarem-se umas pelas outras . . . » Entretanto , a administração
tinha-lhe oferecido o lugar de assistente de viagens organizadas , na
sede da empresa, em Pari s . Tratava-se de participar na conceção de
circuitos , organizar itinerários e visitas , e negociar preços com hotéis
e operadores locais . Mais uma vez , as coisas correram-lhe bem . Seis
meses mais tarde respondeu a um anúncio da Nouvelles Frontieres ,
onde lhe ofereceram um lugar idêntico . Foi então que começou a
fazer carreira . Puseram-na a trabalhar em equipa com Jean-Yves
Frochot , um jovem diplomado em gestão comercial9 , que não sabia
1 14 Michel Houellebecq

quase nada de turismo . Jean-Yves gostou imenso dela, tinha toda a


confiança no seu trabalho e , apesar de ser teoricamente o seu chefe ,
dera-lhe uma grande margem de manobra .
- O interessante em Jean-Yves é que ele tem tido ambições pela
minha carreira profissional . Sempre que tem sido preciso negociar
uma promoção ou um aumento , é ele que o tem feito . Atualmente , é
o responsável de produção para todo o mundo: assegura a supervisão
do conjunto de todos os nossos circuitos; e eu continuo a ser assis­
tente dele .
- Deves ganhar bem . . .
- Quarenta mil francos por mês . Bem, agora temos de fazer a
conta em euros . Um pouco mais de seis mil euros .
Olhei para ela admirado .
- Não estava à espera de uma informação dessas - disse eu .
- É porque nunca me viste de saia-casaco .
- Tens um fato de saia-casaco?
- Não tem grande utilidade , estou quase todo o dia ao telefone .
Mas , quando é preciso , visto um saia-casaco . Tenho até um cinto de
ligas . Podemos experimentar uma vez , se tu quiseres .

Foi então que , com uma doce incredulidade , tomei consciência de


que ia voltar a encontrar-me com Valérie, e que , provavelmente , ía­
mos ser felizes. Era uma alegria imprevisível , e eu sentia vontade de
chorar; precisava de mudar de assunto .
- Que tipo de pessoa é Jean-Yves?
- É uma pessoa normal . Casado e pai de dois filhos . Trabalha que
nem um doido , leva coisas para fazer aos fins de semana. É um jo­
vem quadro técnico normal , bastante inteligente e ambicioso; mas é
simpático , tem bom feitio . Dou-me muito bem com ele .
- Não sei bem porquê , mas estou contente por seres rica. Não
tem grande importância, mas é uma coisa que me agrada.
- É verdade , vivo bem, tenho um bom ordenado; mas pago 40 %
de impostos e o aluguer custa-me dez mil francos por mês . Não tenho
a certeza absoluta do que me pode acontecer: se os resultados baixa­
rem, a administração despede-me sem a mais pequena hesitação; já
aconteceu isso a muita gente . Se tivesse ações da empresa, aí sim ,
Plataforma 115

seria rica de verdade . No início , a Nouvelles Frontieres era sobretudo


uma agência que fazia descontos nas viagens de avião . Depois , graças
à qualidade e à relação qualidade/preço dos seus produtos , tomou-se
o principal operador francês de circuitos turísticos ; em grande parte ,
graças ao trabalho de Jean-Yves e ao meu . Em dez anos , a empresa
passou a valer vinte vezes mais; e como Jacques Maillot detém ainda
trinta por cento das açõe s , posso dizer que enriqueceu à minha custa.
- Já o viste alguma vez?
- Muitas , mas não gosto dele . À primeira vista , parece um cató-
lico demagógico e armado em parvo , com as suas gravatas pintalga­
das e as suas scooters; mas , no fundo , é um sacana intransigente e
hipócrita. Antes do Natal , Jean-Yves foi contactado por um «caçador
de cérebros» ; ficaram de se encontrar por estes dias , agora já deve
saber mais coisas , fiquei de lhe telefonar quando chegasse .
- Então telefona-lhe , é importante .
- Achas ? - Valérie não parecia ter a certeza , a conversa sobre
Jacques Maillot tinha-a deixado preocupada. - A minha vida tam­
bém é importante . E a verdade é que me apetece fazer amor.
- Não sei se consigo ficar teso assim tão depressa.
- Nesse caso , lambe-me . Vai saber-me muito bem .

Levantou-se , tirou as calcinhas e instalou-se confortavelmente no


sofá . Ajoelhei-me na sua frente , afastei-lhe os grandes lábios e come­
cei a lamber-lhe o clítoris . «Mais depressa . . . » , murmurou . Meti-lhe
um dedo no ânu s , aproximei mais a boca e beijei-lhe o botãozinho ,
chupando-o com os lábios . «Oh , sim» , disse ela. Aumentei a intensi­
dade . Valérie veio-se instantaneamente , sem que eu estivesse à espe­
ra, com um estremecimento de todo o corpo .
- Vem para o pé de mim - disse ela. Sentei-me no sofá . Enros­
cou-se toda em mim , com a cabeça nas minhas coxas . - Quando te
perguntei o que tinham as tailandesas a mais do que as outras , não
respondeste como deve ser; mostraste-me a entrevista do diretor de
uma agência matrimonial .
- O que ele dizia é verdade: há muitos homens que têm medo das
mulheres modernas ; preferem claramente uma esposa simpática que
tome conta dos fi lhos e da casa. É verdade que ainda há pessoas as-
1 16 Michel Houellebecq

sim , mas no Ocidente tomou-se impossível confessar desejos desses ;


é por isso que há homens que casam com mulheres asiáticas .
- Estou de acordo - disse ela . Ficou a pensar durante um certo
tempo . - Sim, mas tu não és assim; vejo perfeitamente que não te
incomodas por eu ter um lugar de responsabilidade e ganhar bem;
não me parece que tenhas medo disso . E no entanto foste meter-te
num salão de massagens e nem sequer tentaste engatar-me . É isso
que eu não percebo . Afinal , o que é que essas raparigas têm a mais?
Fazem amor melhor do que nós? - Estava com a voz ligeiramente
alterada quando pronunciou as últimas palavras ; comovi-me , tive de
esperar algum tempo antes de responder.
- Valérie - disse eu finalmente - , nunca encontrei ninguém que
faça amor tão bem como tu ; o que comecei a sentir desde ontem à
noite é uma coisa quase inacreditável . - Calei-me novamente e
acrescentei : - Tu não dás por isso , mas és uma autêntica exceção .
Atualmente , é muito raro que as mulheres tenham prazer e gostem de
dar prazer. Seduzir uma mulher desconhecida, dormir com ela, é an­
tes de mais arranjar uma série de problemas . Quando se pensa na
«conversa de chacha» que é preciso para levar uma miúda para a ca­
ma, e na forma como quase todas elas se revelam verdadeiras dece­
ções , chateando-nos com os seus problemas , falando dos antigos na­
morados , dando-nos , ao mesmo tempo , a impressão de não estarmos
à altura - e obrigando-nos a passar a noite inteira com elas , percebe­
-se perfeitamente que os homens prefiram evitar chatices e não se
importem de gastar dinheiro . Os mais novos ou com pouca experiên­
cia preferem evitar o amor; acham mais simples ir às putas . Não estou
a falar das putas do Ocidente ; essas não valem a pena, são autênticos
despojos humanos ; seja como for, durante o ano os tipos não têm
tempo , trabalham de mai s . Por isso , a maior parte não faz coisa ne­
nhuma; de vez em quando , alguns deles participam num circuito de
turismo sexual . E esses são os que não estão mal de todo: ir às putas
sempre tem algum contacto humano . Há muitos outros que acham
mais simples masturbarem-se em frente à Internet, ou então a verem
filmes pornográficos . Desde que descarreguem a piça, ficam em paz .
- Compreendo - disse ela depois de um longo silêncio . - Per­
cebo o que queres dizer. Mas não achas que os homens e as mulheres
podem mudar?
Plataforma 1 17

- Não , não me parece que as coisas possam voltar atrás . Prova­


velmente , o que se vai passar é que as mulheres irão ficar cada vez
mais parecidas com os homens ; por enquanto , estão ainda muito li­
gadas à sedução ; ao passo que , no fundo , os homens não têm interes­
se em seduzir, querem é foder. A sedução é um assunto que interessa
apenas a alguns fulanos cuja vida profissional não tem piada nenhu­
ma , nem têm mais interesses na vida . À medida que as mulheres se
forem ligando mais à sua vida profissional , aos seus projetas pes­
soais , mais natural acharão pagar para foder; e virar-se-ão para o
turismo sexual . As mulheres adaptam-se facilmente aos valores mas­
culinos ; às vezes é-lhes difícil , mas são capazes de o fazer; a História
tem mostrado isso .
- Portanto , é mais fácil que tudo corra mal .
- Muito mais - confirmei eu com uma satisfação sombria.
- Quer dizer que tivemos sorte .
- Sim , tive sorte em te encontrar.
- Também eu - disse ela a olhar para os meus olhos . - Tam-
bém eu tive sorte . Os homens que conheci eram uma verdadeira
desgraça, não havia um único que desse valor a contactos físicos; era
tudo uma encenação na base da amizade , da cumplicidade , de todas
essas baleias que não levam a lado nenhum . Cheguei a um ponto em
que não suporto a palavra «amizade» , fico completamente doente .
Depois , há também homens de outro género , os que se casam , que
casam o mais cedo possível e não pensam em mais nada senão na
carreira . Não é o teu caso , claro está; logo de entrada, achei que
nunca me irias falar de «amizade» , que não descerias a um nível tão
baixo . Achei imediatamente que iríamos dormir juntos , e que se iria
passar algo muito forte; mas podia também não acontecer absoluta­
mente nada , era até o mais provável . - Parou de falar e suspirou
contrariada. - Bem - disse resignada - , tenho mesmo de telefo­
nar a Jean- Yves .
Vesti-me no quarto enquanto ela telefonava. «Sim, foram umas
boas férias . . . » , ouvi-a dizer. Um pouco depois, exclamou : «Quan­
to? . . . » Quando voltei à sala, Valérie estava com o telefone na mão e
parecia pensativa; ainda não voltara a vestir-se .
- O Jean-Yves esteve com o tal tipo que anda a recrutar pessoas ;
oferecem-lhe cento e vinte mil francos por mês . Estão dispostos a
118 Michel Houellebecq

contratar-me também; segundo diz , podem pagar-me até oitenta mil .


Têm uma reunião amanhã para discutir tudo isso .
- É para trabalhar aonde?
- Na divisão de tempos livres do grupo Aurore .
- É uma empresa importante?
- Sem dúvida; é o principal grupo de hotelaria do mundo .
2

Compreender o comportamento do consumidor


afim de o poder assediar, propor-lhe o produto
adequado em cada momento, mas sobretudo
convencê-lo de que o produto que lhe é propos­
to se adapta às suas necessidades - eis o sonho
de todas as empresas .
Jean-Loui s B arma- O sonho das empresas

Jean-Yves acordou às cinco da manhã e olhou para a mulher, que


ainda dormia . Tinham passado um péssimo fim de semana em casa
dos pais dele ; Audrey não gostava nada do campo . Nicolas , o filho
de dez anos de idade , também detestava Loiret, para onde não podia
levar o computador; além disso , não gostava dos avós , dizia que
cheiravam mal . É verdade que o avô estava um bocado em baixo ,
desleixava-se cada vez mai s , só se interessava pelos seus coelhos .
O único elemento suportável desses fins de semana era Angélique , a
filha do casal : com três anos de idade , ainda era capaz de se extasiar
perante vacas e galinhas ; mas naquela altura estava doente , tinha
passado uma grande parte das noites a gemer e chorar. Quando che­
garam a casa, depois de três horas de engarrafamento , Audrey deci­
dira sair com amigos . Jean-Yves descongelou umas coisas para co­
merem e viu um medíocre filme americano que contava a história de
um serial killer autista; parece que o argumento se inspirava no
acontecimento real , de um homem que tinha sido o primeiro doente
mental executado no Nebrasca, há mais de sessenta anos . O filho não
1 20 Michel Houellebecq

tinha querido jantar, mergulhando imediatamente num jogo de Total


Annihilation - ou talvez de Mortal Kombat II - Jean- Yves não
sabia bem . De vez em quando , ia ao quarto da filha , tentando
confortá-la. Angélique adormecera por volta da uma hora da manhã;
Audrey ainda não tinha chegado .
Em todo o caso , sempre acabaria por vir, pensou Jean-Yves en­
quanto tirava um café expresso; pelo menos, desta vez . O escritório
de advogados onde a mulher trabalhava tinha Libération e Le Monde
entre os seus clientes; Audrey passara a conviver com jornalistas ,
políticos e apresentadores de televisão . Eram pessoas que saíam
muito , por vezes iam a locais estranhos ; um dia , ao folhear um livro
dela, Jean-Yves descobriu o cartão de um bar fetichista . Achava ele
que a mulher talvez se deitasse de vez em quando com alguém;
fosse como fosse , o casal já não tinha relações . Curiosamente , por
seu lado , Jean-Yves não tinha aventuras . No entanto , sabia que era
um bonitão , loiro e de olhos azuis , como um americano ; a verdade
é que nunca lhe apetecera aproveitar as oportunidades que tivera ,
muito raras , de resto ; trabalhava entre doze a catorze horas por dia
e , ao seu nível de responsabilidade , não contactava com muitas mu­
lheres . É verdade que havia Valérie ; mas sempre olhara para ela
como colega de trabalho . Em certa medida , seria interessante enca­
rar tudo isso de outra maneira; mas sabia bem que era um devaneio
totalmente inconsequente : trabalhava com ela há cinco anos e , em
assuntos destes , as coisas ou acontecem imediatamente ou nunca
chegam a acontecer. Jean-Yves tinha muita consideração por Valé­
rie , pela sua espantosa capacidade de organização , pela sua memó­
ria infalível ; sabia que , sem ela, não teria chegado tão longe - nem
tão depressa. Presentemente , talvez fosse enfrentar uma etapa deci­
siva. Lavou os dentes e barbeou-se cuidadosamente , escolhendo
depois um impecável fato completo . Seguidamente , empurrou a
porta do quarto da filha: loira como ele , estava a dormir, no seu
pij ama com pintainhos .
Foi a pé até ao Gymnase-Club République , aberto desde as sete da
manhã; morava na Rue Faubourg-du-Temple , um bairro chique de
que não gostava nada . A reunião na sede do grupo Aurore era só às
dez horas . Ao menos uma vez , Audrey podia encarregar-se dos fi­
lhos , vesti-los e levá-los à escola. Mas Jean-Yves sabia que , quando
Plataforma 121

voltasse a casa à noite , i a ter meia hora d e recriminações; enquanto


caminhava no passeio húmido , por entre caixas de cartão vazias e
cascas de fruta , teve consciência de que se estava nas tintas . Ao mes­
mo tempo , teve igualmente consciência de que o seu casamento ti­
nha sido um erro . Mas também sabia que , em média , essas tomadas
de consciência aconteciam dois ou três anos antes do divórcio -
uma decisão sempre muito difícil .
O black grandalhão da portaria atirou-lhe um «Tudo em forma ,
chefe?» pouco convincente . Jean-Yves estendeu-lhe o cartão do gi­
násio , recebeu uma toalha e disse-lhe que sim . Conhecera Audrey
antes de completar vinte e três anos . Tinham casado dois anos de­
poi s , em parte - apenas em parte - por ela estar grávida. Era uma
mulher bonita, elegante , vestia-se bem - e, quando queria, sabia ser
sexy . Além disso, tinha ideias . O desenvolvimento , em França , de
processos judiciários ao estilo americano não lhe parecia uma regres­
são , antes um progresso na proteção dos cidadãos e das liberdades
individuais . Audrey era capaz de argumentar longamente sobre o
assunto , acabara de chegar de um estágio nos Estados Unidos . Resu­
mindo: tinha feito o seu blu.ff. Era curioso , disse Jean-Yves para
consigo , como sempre tivera necessidade de se sentir intelectual­
mente interessado pelas mulheres .
Começou por fazer meia hora de cardiotraining em diferentes ní­
veis , e depois cerca de vinte «piscinas» . Na sauna , sem ninguém
àquela hora, começou a descontrair-se - e aproveitou para recapitu­
lar a informação de que dispunha sobre o grupo Aurore . A empresa
Novotel-SIEH tinha sido fundada em finais de 1 966 por Gérard Pé­
lisson e Paul Dubrule - engenheiro técnico um e autodidata outro
- graças unicamente a capitais obtidos junto da família e dos ami­
gos . Em agosto de 1 967 , abria em Lille o primeiro Novotel ; já nessa
altura , a unidade possuía as características que viriam a marcar a
identidade dos hotéis do grupo: uniformidade na qualidade dos quar­
tos , localização na periferia das cidades - mais precisamente , junto
à primeira saída das autoestradas , antes dos centros urbanos - e
níveis de conforto elevados para a época; além disso , a Novotel foi
uma das primeiras cadeias a dispor de casa de banho em todos os
quartos . Com os homens de negócio , o sucesso foi imediato : em
1 972, a cadeia tinha já trinta e cinco unidades. Depois disso , dá-se
1 22 Michel Houellebecq

em 1 973 a criação da lbis , seguindo-se a compra da Mercure em


1 975 e da Sofitel em 1 98 1 . Paralelamente , o grupo inicia uma cuida­
dosa diversificação na exploração de restaurantes - através da
compra da cadeia Courtepaille e do grupo Jacques Borel Internatio­
nal , muito bem implantado no setor dos restaurantes de empresas e
no sistema ticket-restaurante . Em 1 983 , o grupo Novotel muda a
designação para Aurore . Segue-se em 1 985 a criação das unidades
Formule 1 - os primeiros hotéis sem pessoal , um dos maiores su­
cessos da história da hotelaria. Com uma boa implantação em África
e no Médio Oriente , a empresa expande-se na Ásia e cria o seu pró­
prio centro de formação: a Academia Aurore . Em 1 990 , a aquisição
da Motel 6 , com as suas seiscentas e cinquenta unidades espalhadas
no território americano , conduz o grupo ao topo do setor, ao nível
mundial ; seguidamente , a Wagons Lits não resiste a uma OPA lança­
da pelo Aurore em 1 99 1 . Estas aquisições foram caras , e em 1 993 o
grupo atravessou uma crise: os acionistas não concordaram com ta­
manho endividamento , abortando a compra da cadeia Méridien .
Graças à cessão de alguns ativos e à recuperação financeira da Eu­
ropcar, assim como da Lenôtre e da Société des Casinos Lucien
B arriere , a situação equilibrou-se a partir de 1 995 . Em janeiro de
1 997 , Paul Dubrule e Gérard Pélisson abandonaram a presidência do
grupo , entregando-a a Jean-Luc Espitalier, ex-aluno da École Natio­
nale de Administration , com currículo tido como «atípico» pelas re­
vistas de economia. Mas Paul e Gérard passaram a integrar o Conse­
lho Fiscal do grupo . A transição concretizou-se de forma satisfatória,
e em finais do ano 2000 o grupo tinha reforçado a sua posição de
líder mundial , conseguindo aumentar o avanço sobre os concorrentes
Mariott e Hyatt , em segundo e terceiro lugares , respetivamente . En­
tre as dez primeiras cadeias hoteleiras mundiais , havia nove grupos
americanos e um francês - o grupo Aurore .
Às nove e meia, Jean-Yves estacionou o carro no parque da sede
do grupo , em Évry. Para se distender, deu alguns passos no frio gla­
cial da manhã e aguardou a hora da entrevista . Às dez horas exatas
foi introduzido no gabinete de Éric Leguen , vice-presidente executi­
vo para a hotelaria e membro da administração . Com quarenta e
cinco anos , tinha o curso da École Centrale e um diploma de Stan­
ford . Alto e robusto , de cabelos loiros e olhos azuis , era ligeiramente
Plataforma 1 23

parecido com Jean-Yves , embora dez anos mais velho e com uma
atitude um pouco mais afirmativa.
- O presidente Espitalier vai recebê-lo dentro de um quarto de
hora - começou ele por dizer. - Entretanto , vou explicar-lhe por
que está aqui . Há dois meses , adquirimos a cadeia Eldorador ao gru­
po Jet Tours . Trata-se de uma pequena cadeia com uma dezena de
clubes de férias implantados no Magrebe , na África negra e nas An­
tilhas .
- É uma cadeia deficitária, creio .
- Não mais do que o resto do setor. - E sorriu bruscamente . -
Bem , um pouco mais do que o conjunto , é verdade . Para falar fran­
camente , o preço de aquisição foi razoável ; mas também não foi ir­
risório , havia outros grupos interessados : ainda há muita gente do
meio a achar que o mercado vai arrancar novamente . É verdade que ,
presentemente , o Club Méditerranée foi o único a tirar a corda da
garganta; posso informá-lo confidencialmente de que chegámos a
pensar numa OPA sobre eles . Mas era caça demasiadamente grossa
e os acioni stas não estiveram de acordo . Além disso, não era uma
atitude amistosa para com Philippe Bourguignon , um nosso ex­
-empregado . - Desta vez teve um sorriso ligeiramente falso , como
se quisesse dizer que poderia estar a brincar. - Em resumo - acres­
centou - , a nossa proposta é de que aceite a direção do conjunto das
unidades Eldorador. Naturalmente , o objetivo consiste em equilibrar
rapidamente a situação e começar a apresentar lucros .
- Não é tarefa fácil .
- Temos consciência disso; mas achamos que a remuneração
proposta é bastante convidativa. Sem falar das possibilidades de
carreira no seio do grupo , que são enormes: trabalhamos atualmente
em cento e quarenta e dois países e empregamos mais de cento e
trinta mil pessoas . De resto , quase todos os nossos quadros superio­
res se tornam rapidamente acionistas do grupo : é um método em que
acreditamos , tem aí um memorando com alguns exemplos concretos .
- Precisava também de informações mais pormenorizadas sobre
a situação de cada uma das unidades .
- É evidente : vou enviar-lhe documentação pormenorizada de
imediato . O que fizemos não foi uma aquisição estritamente tática.
Acreditamos nas possibilidades estruturais da cadeia: a implantação
1 24 Michel Houellebecq

geográfica das unidades é boa e o seu estado geral é excelente . Não


há muitos trabalhos de recuperação a fazer. Pelo menos , é o que me
parece ; mas não tenho experiência pessoal na área da hotelaria de
tempos livres . É óbvio que iremos trabalhar de forma concertada;
mas , sobre todas essas coisas , as decisões serão suas . Se o senhor
achar que deve alienar uma determinada unidade , ou adquirir uma
outra, a decisão final é inteiramente sua. É assim que trabalhamos no
grupo Aurore . - Refletiu antes de continuar. - É evidente que não
está aqui por acaso . O seu percurso no interior da Nouvelles Frontie­
res foi atentamente seguido pelo nosso setor profissional ; em certa
medida, podemos mesmo dizer que fez escola . Nem tentou oferecer,
por sistema, os preços mais baixos , nem os melhores serviços ; para
cada caso , praticou preços aceitáveis para um certo tipo de clientela
e um certo nível de serviço; é exatamente essa a filosofia que procu­
ramos em cada uma das cadeias do grupo . Por outro lado , e isso é
também importante para nós , participou na criação de uma marca
dotada de uma imagem forte ; uma coisa que ainda não conseguimos
fazer aqui.
O telefone tocou no gabinete de Leguen . A conversa foi rápida .
Leguen levantou-se e acompanhou Jean-Yves por um corredor de
pavimento bege . O gabinete de Jean-Luc Espitalier era enorme , tinha
talvez vinte metros de comprimento ; à esquerda, havia uma mesa de
reuniões com quinze cadeiras à volta . Espitalier levantou-se quando
os viu e recebeu-os com um sorriso . Era um homem baixo e ainda
novo - certamente com menos de quarenta e cinco anos - com
algumas entradas na testa e um aspeto estranhamente modesto , qua­
se apagado , como se assumisse com ironia a importância da sua
função . Era preciso desconfiar, pensou Jean-Yves ; os antigos alunos
da École Nationale d' Administration são quase sempre assim , o seu
humor é por vezes enganador. Sentaram-se os três em sofás , à volta
de uma mesa baixa . Antes de tomar a palavra, Espitalier olhou para
Jean-Yves com o seu interessante sorriso tímido , e só depois come­
çou a falar.
- Tenho muita admiração por Jacques Maillot - disse finalmen­
te . - Construiu uma bela empresa, original , com uma cultura pró­
pria. Não é nada frequente . Dito isto , e não pretendo fazer o papel de
ave agoirenta, acho que , em França , os operadores de viagens orga-
Pl ataforma 1 25

nizadas têm de se preparar para uma fase extremamente dura. Muito


em breve , é absolutamente inevitável ; na minha opinião será uma
questão de meses , os operadores alemães e britânicos vão entrar no
nosso mercado . Dispõem de um poderio financeiro duas a três vezes
mais forte , e vão oferecer circuitos de entre vinte a trinta por cento
mais baratos , para um nível de serviços comparável ou superior. A
competição vai ser dura, extremamente dura . Falando francamente ,
vai haver mortes . Não quero dizer que a Nouvelles Frontieres faça
parte desse grupo; a empresa dispõe de uma identidade forte e de
acionistas unidos , será capaz de resistir. Mas , seja como for, os pró­
ximos anos vão ser difíceis para toda a gente .
- No grupo Aurore , não temos esses problemas - continuou
suspirando ligeiramente . - Somos líderes mundiais incontestados
no setor da hotelaria de negócios , um mercado com poucas flutua­
ções; mas continuamos mal implantados no setor da hotelaria de
tempos livres , mais volátil e mais sensível às flutuações económicas
e políticas .
- Exatamente por essa razão - interveio Jean-Yves - , surpre­
ende-me a vossa aquisição . Pensava que o vosso eixo de desenvolvi­
mento prioritário fosse a hotelaria de negócios , sobretudo na Ásia.
- E é esse o nosso eixo de desenvolvimento prioritário . Embora
na China, o setor da hotelaria económica disponha de potencialida­
des extraordinárias . Pela nossa parte , temos experiência e potencia­
lidades técnicas : imagine o que seria se conseguíssemos implantar os
modelos lbis ou Formule 1 em todo o território chinês . Dito isto . . .
como é que eu hei de explicar? - Refletiu durante um momento ,
olhou para o teto , para a mesa de reuniões à sua direita, e fixou no­
vamente o olhar em Jean-Yves . - O Aurore é um grupo discreto
- disse finalmente . - Paul Dubrule dizia muitas vezes que o gran­
de segredo é chegar a tempo ao mercado . A tempo , não quer dizer
cedo de mais: é raro que os verdadeiros inovadores tirem grande
proveito das suas invenções; foi o que aconteceu com a Apple rela­
tivamente à Microsoft. Mas também não podemos chegar tarde de
mai s . Ora, é aqui que entra a utilidade da nossa discrição . Vamos
crescendo na sombra , sem grandes ondas e, quando os nossos con­
correntes acordam e pensam acometer contra nós , vêm demasiado
tarde : nessa altura já ocupámos o terreno , dispomos de uma decisiva
1 26 Michel Houellebecq

vantagem concorrencial . O nosso nível de notoriedade não está à


altura da nossa importância real ; em grande parte , trata-se de uma
opção .
- Contudo , esse tempo passou - prosseguiu Espitalier depois de
voltar a respirar fundo . - Atualmente , toda a gente sabe que somos
os primeiros a nível mundial . A partir deste momento , toma-se inútil ,
e até perigoso , apostar numa atitude excessivamente discreta. Um
grupo com a importância do Aurore deve ter uma boa imagem públi­
ca. A hotelaria de negócios é um setor extremamente seguro , que
garante lucros altos e sistemáticos . Mas não será, como hei de dizer? ,
especialmente fim . Raramente falamos dos nossos problemas empre­
sariai s , não temos prazer em falar disso . Para desenvolver uma ima­
gem positiva junto do grande público, dispúnhamos de duas hipóte­
ses : viagens organizadas , ou clubes de férias . As viagens organizadas
estão mais afastadas do nosso setor principal , mas como havia boas
empresas prestes a mudar de mãos tivemos de encarar essa possibi­
lidade . Surgiu então a oportunidade do Eldorador e decidimos
aproveitá-la.
- Gostava de perceber melhor os vossos objetivos - disse Jean-
-Yves . - Atribuem mais importância aos resultados ou à imagem?
- É uma questão complicada . . . - Espitalier hesitou , mexendo-se
um pouco na cadeira . - O problema do Aurore é a pulverização dos
acionistas . De resto , foi isso mesmo que provocou , em 1 994 , os ru­
mores de uma OPA sobre o grupo . Hoje em dia posso garantir que
não tinham qualquer fundamento - prosseguiu com um gesto con­
vincente . - Atualmente , ainda menos: o nosso endividamento é nu­
lo , e nenhum outro grupo no mundo , mesmo fora do setor da hotela­
ria, teria arcaboiço para uma tal iniciativa. Mas acontece que ,
contrariamente por exemplo à empresa Nouvelles Frontieres , os nos­
sos acionistas não formam um grupo homogéneo . No fundo , Paul
Dubrule e Gérard Pélisson eram mais empresários , grandes empresá­
rios , na minha opinião , entre os maiores do século , do que capitalis­
tas . Mas não procuraram manter o controlo pessoal sobre os acionis­
tas ; e isso coloca-nos agora numa posição algo delicada. O senhor e
eu sabemos que , às vezes , é preciso investir em ações de prestígio que
melhorem a posição estratégica do grupo , embora , a curto prazo , não
tenham um impacto financeiro positivo . Sabemos também que , às
Plataforma 1 27

vezes , é preciso segurar, durante algum tempo, um setor deficitário ,


quando o mercado não se encontra ainda maduro ou atravessa uma
crise passageira. Ora, é isso mesmo que os acionistas da nova geração
têm cada vez mais dificuldades em aceitar; a teoria do retomo rápido
do investimento provocou grandes abanões nas mentalidades .
Vendo que Jean-Yves se preparava para intervir, Espitalier levan­
tou discretamente a mão .
- Mas atenção - explicou - , os nossos acionistas não são par­
vos . Sabem muito bem que , nesta fase , uma cadeia como a Eldorador
não tem possibilidades de se equilibrar logo no primeiro ano da nova
gestão . . . talvez nem mesmo nos próximos dois anos . Contudo , a
partir do terceiro ano , vão olhar com mais atenção para os números
e não vão levar muito tempo a tirar conclusõe s . A partir desse mo­
mento , mesmo que o seu projeto seja magnífico e tenha imensas
potencialidades , não poderei fazer nada.
Houve uns momentos de silêncio . Leguen estava imóvel e de ca­
beça baixa. Espitalier passava um dedo pelo queixo , com uma certa
expressão de dúvida .
- Estou a ver - disse Jean- Yves por fim . E, depois de alguns
segundos , acrescentou calmamente : - Dou-vos uma resposta dentro
de três dias .
3

Encontrei-me várias vezes com Valérie durante os dois meses que


se seguiram . Em boa verdade , exceto num fim de semana que passou
em casa dos pais , acho mesmo que estive todos os dias com ela.
Jean-Yves decidira aceitar a proposta do grupo Aurore ; Valérie resol­
vera ir com ele . Lembro-me bem da primeira observação que me fez
sobre o caso : «Vou passar para o escalão de 60 % nos impostos» . De
facto , o ordenado mensal subia dos quarenta mil para os setenta e
cinco mil francos; impostos deduzidos , não era uma diferença por aí
além . Valérie sabia que a sua integração no grupo , a partir de março ,
lhe iria exigir um esforço enorme . Naquela altura, as coisas corriam
bem na Nouvelles Frontieres; ela e Jean-Yves tinham apresentado a
demissão e estavam calmamente a passar o trabalho aos seus suces­
sores . Aconselhei-a a poupar algum dinheiro , abrindo uma conta
poupança-habitação ou qualquer coisa assim; mas a verdade é que
não pensámos muito no caso . A primavera tardava a chegar, mas
nada disso tinha importância. Mais tarde , ao recordar esse tempo
feliz com Valérie , do qual , paradoxalmente , não guardava muitas
lembranças , disse para comigo que , decididamente , o homem não é
feito para ser feliz . Para aceder, de facto , à possibilidade prática da
felicidade , o homem teria talvez de transformar-se , de transformar-se
fisicamente . A que é que poderíamos comparar Deus? Primeiro que
tudo , sem dúvida, à rata das mulheres; mas talvez também aos vapo­
res de um banho turco . De qualquer maneira, a alguma coisa em que
haja um certo espírito , porque , nesses casos , o corpo fica saturado de
alegria e de prazer, e toda a inquietação desaparece . Presentemente ,
Plataforma 1 29

tenho a convicção de que o espírito é algo que não nasce , antes pede
para nascer, e que o seu nascimento será sempre difícil ; até agora, a
nossa ideia sobre tudo isso é insuficiente e perniciosa. De cada vez
que eu levava Valérie a atingir o orgasmo , sentindo o seu corpo vi­
brar por baixo do meu , ficava com a impressão , fugaz mas irresistí­
vel , de aceder a um nível de consciência inteiramente diferente , em
que todo o mal tinha sido abolido . Nesses momentos suspensos ,
praticamente imóveis , em que o corpo dela ascendia em direção ao
prazer, sentia-me como um Deus de quem dependessem serenidades
e tempestades . Foi essa a primeira alegria; perfeita, indiscutível .
A segunda alegria que Valérie me deu foi a extraordinária doçura,
a bondade natural do seu caráter. Às vezes , quando os seus dias de
trabalho tinham sido longos - e , à medida que o tempo passava,
eram-no cada vez mais - , sentia-a tensa, esgotada do ponto de vista
nervoso . Mas nunca se virou contra mim , nunca se encolerizou , nun­
ca teve uma dessas imprevisíveis crises de nervos que por vezes
tomam tão patético e tão asfixiante o contacto com as mulheres .
«Não sou ambiciosa, Michel» , dizia-me ela em certas ocasiões .
«Sinto-me bem contigo , acho que és o homem da minha vida , e no
fundo isso basta-me . Mas a verdade é que não me chega: tenho sem­
pre de pedir mai s . Estou presa a um sistema que não me traz nada
por aí além, e que , bem vistas as coisas , é completamente inútil; mas
não tenho maneira de fugir. É preciso , ao menos uma vez , termos
tempo para pensar; mas não sei quando o poderemos fazer.»
Quanto a mim , trabalhava cada vez menos; embora fizesse o meu
trabalho , no sentido mais restrito do termo . Chegava a casa sempre
a horas de ver Questions pour un champion e de fazer as compras do
jantar; nesse tempo , dormia todas as noites em casa de Valérie .
Curiosamente , Marie-Jeanne não parecia preocupada com a minha
crescente falta de zelo profissional . É verdade que ela gostava muito
do seu trabalho e estava sempre disponível para assumir pessoalmen­
te cada vez mais tarefas . Julgo que , antes de mais , esperava que eu
fosse simpático com ela - e , durante todas essas semanas , fui sem­
pre simpático e afável . Marie-Jeanne tinha gostado muito do colar de
coral que eu lhe trouxera da Tailândia, e usava-o todos os dias . Quan­
do estávamos a trabalhar na preparação das exposições , olhava-me
às vezes de um forma invulgar, difícil de interpretar. Numa manhã de
1 30 Michel Houellebecq

fevereiro - lembro-me muito bem, era o dia do meu aniversário - ,


disse-me com uma grande franqueza: «Estás diferente , Michel . . .
Não sei porquê , mas tens um ar feliz.»
Tinha toda a razão ; era feliz , lembro-me muito bem . É verdade
que há muitas outras coisas , uma série de problemas inelutáveis , o
declínio e a morte , claro está . No entanto , recordando agora esses
poucos meses , posso dar o meu testemunho : sei que a felicidade
existe .

Era evidente que Jean-Yves não era feliz . Lembro-me de termos


ido jantar os três , Valérie , ele e eu , a um restaurante italiano , mais
propriamente veneziano , enfim um sítio bastante chique . Pela sua
parte , Jean-Yves sabia perfeitamente que Valérie e eu iríamos a se­
guir para casa e teríamos relações, e que tudo isso aconteceria com
muito amor. Eu não sabia bem o que lhe havia de dizer - o que ele
próprio dissera fora demasiadamente evidente , demasiadamente cla­
ro . Era óbvio que a mulher não o amava; e parecia claro que talvez
nunca tivesse amado ninguém , e que jamais o faria alguma vez .
Jean-Yves não tinha tido sorte : era tudo . As relações humanas nem
sempre são tão complicadas como parecem; muitas vezes são inso­
lúveis , embora raramente sejam complicadas . Naquela altura, era
óbvio que ele teria de se divorciar. Que outra coisa poderia fazer?
Antes dos antipasti , já o assunto estava completamente arrumado .
A seguir, falou-se do futuro profissional deles dentro do grupo
Aurore: tanto um como o outro tinham já as suas ideias e algumas
pistas de reflexão sobre a nova fase do Eldorador; eram pessoas in­
teligentes, competentes e profissionalmente bem cotadas; mas , na­
quele momento , não podiam errar. Um falhanço nesta nova situação
laboral não significaria o fim das suas carreiras ; Jean-Yves estava
com trinta e cinco anos , Valérie com vinte e oito; haveria sempre
uma segunda oportunidade . Mas o setor não esqueceria esse primei­
ro passo em falso, pelo que regressariam certamente a um nível um
pouco mais baixo . Na sociedade em que vivíamos, o principal inte­
resse do trabalho residia no salário e , de um modo mais geral , nas
vantagens financeiras ; daqui em diante , o prestígio e a boa imagem
da função tenderiam a ocupar um lugar bastante menos importante .
Plataforma 131

Por outro lado , existia u m evoluído sistema de redistribuição fiscal


que permitia sustentar a vida dos inúteis , dos incompetentes e dos
nocivo s , entre os quai s , de uma certa maneira� eu me incluía . Vivía­
mos então , em resumo , numa economia mista que evoluía lentamen­
te para um liberalismo mais acentuado , uma economia que , pouco a
pouco , ia ultrapassando os preconceitos contra a especulação finan­
ceira - e, de um modo mais geral , contra o dinheiro - , preconcei­
tos ainda presentes em países onde a tradição católica está mais
presente . Nesses casos , ninguém tira partido da presente evolução .
Alguns jovens diplomados em gestão comercial , parte deles mais
novos do que Jean-Yves - e até simples estudantes - , atiravam-se
de cabeça para atividades de especulação na Bolsa , sem o mais pe­
queno interesse em procurar emprego por conta de outrem . Todos
eles dispunham de computadores ligados à Internet e de sofisticados
programas que acompanhavam a evolução dos mercados . Muitas
veze s , reuniam-se em grupo para poderem fazer grandes investimen­
tos . Viviam agarrados aos computadores , ligados entre si durante
todo o dia, sem tempo para férias . O seu objetivo comum era extre­
mamente simples : tornarem-se milionários antes dos trinta ano s .
Jean-Yves e Valérie faziam parte d e uma geração intermédia, para
a qual era difícil conceber a carreira fora de qualquer empresa - ou ,
eventualmente , do setor público ; um pouco mais velho do que ele s ,
e u próprio m e encontrava n a mesma situação . Cada um d e nós esta­
va totalmente dependente de um determinado sistema social , como
um inseto agarrado a um pedaço de âmbar; não tínhamos a mais
pequena possibilidade de voltar atrás .

Na manhã do dia 1 de março , Valérie e Jean-Yves iniciaram ofi­


cialmente funções no grupo Aurore . Para dia 4 , uma segunda-feira ,
estava prevista uma reunião com os principais executivos ligados ao
projeto Eldorador. A direção-geral da empresa encomendara à Profi­
les , um conhecido gabinete especializado em sociologia de compor­
tamentos , um estudo prospetivo sobre o futuro dos clubes de férias .
Ao entrar pela primeira vez na sala de reuniões do 23 .0 andar,
Jean-Yves não deixou de se sentir impressionado . Havia cerca de
vinte pessoas na sala, todas elas a trabalhar há vários anos na empre-
1 32 Michel Houellebecq

sa; e era exatamente sobre ele que recaía agora a tarefa de dirigir o
grupo . Valérie estava sentada logo a seguir à sua esquerda. Jean-Yves
passara todo o fim de semana a estudar a documentação : sabia j á o
nome , as funções concretas e o passado profissional de cada uma das
pessoas que estavam à volta da mesa; mas não deixava de sentir uma
certa angústia. Uma luz acinzentada ia surgindo sobre os problemá­
ticos subúrbios de Essonne . No passado , quando Paul Dubrule e
Gérard Pélisson tinham decidido instalar a sede social da empresa
em Évry, entraram em linha de conta com o baixo preço dos terrenos
e a proximidade à autoestrada do Sul e ao Aeroporto de Orly; nessa
altura, o local inseria-se numa sossegada zona dos arredores de Paris .
Atualmente , os aglomerados da região registavam as mais altas taxas
de delinquência de toda a França . Todas as semanas eram atacados
autocarros , veículos da polícia e carros de bombeiros; ninguém dis­
punha de estatísticas exatas quanto a roubos e agressões; mas , segun­
do certas estimativas , era preciso multiplicar por cinco o número de
queixas apresentadas às autoridades . Os locais de trabalho da empre­
sa estavam guardados dia e noite por uma equipa de vigilantes arma­
dos . Uma nota interna recomendava que se evitasse viajar em trans­
portes coletivos a partir de uma certa hora . A pensar no pessoal que
tinha de trabalhar até tarde e não dispunha de carro próprio , o grupo
Aurore fizera um acordo com uma empresa de táxis .

Quando Jean-Yves viu chegar Lindsay Lagarrigue , o sociólogo do


comportamento , teve a impressão de estar em terreno conhecido .
O homem tinha uns trinta anos , grandes entradas na testa e cabelos
apanhados em rabo-de-cavalo ; trazia fato de treino Adidas , T-shirt
Prada e uns Nike em mau estado ; de facto , assemelhava-se exata­
mente a um sociólogo do comportamento . Começou por entregar às
pessoas uma pasta fininha, composta sobretudo de gráficos com cír­
culos e setas ; na mala que trazia , não havia mais nada . O primeiro
documento era a fotocópia de um artigo do Nouvel Observateur,
mais exatamente do editorial do suplemento de férias do jornal , inti­
tulado «Partir de modo diferente» .
«No ano 2000» , começou Lagarrigue a ler em voz alta, «O turismo
de massas chegou ao fim . As viagens são agora uma espécie de rea-
Plataforma 1 33

lização individual , embora num quadro de preocupações éticas .»


Esta passagem , que abria o editorial , parecia-lhe sintomática das
mutações em curso. Discorreu durante algum tempo sobre o assunto
e convidou depois as pessoas a ler as frases que vinham a seguir:
«No ano 2000 , interrogamo-nos sobre um turismo respeitador do
outro . Também nós , os abastados , gostaríamos de não partir apenas
em busca de um prazer egoísta, mas sim exercendo uma certa forma
de solidariedade .»
- Quanto é que terão pago a este gajo pelo estudo? - perguntou
discretamente Jean-Yves a Valérie .
- Cento e cinquenta mil francos .
- Não posso acreditar. . . E o grande cabrão limita-se a recitar
uma fotocópia do Nouvel Obs?
Lindsay Lagarrigue continuou a parafrasear vagamente os concei­
tos do artigo , lendo depois , em tom absurdamente enfático , uma
terceira passagem: «No ano 2000 , as pessoas pretendem ser nóma­
das . Viajam de comboio ou de cruzeiro , por rios e mares: na era da
velocidade , descobrem as delícias da lentidão . Perdem-se no silêncio
infinito dos desertos; e depois , sem transição , vêm mergulhar na
efervescência das grandes capitais . Mas sempre com idêntica pai­
xão . . . » Ética, realização individual , paixão , solidariedade : segundo
ele , eis as palavras-chave . Neste novo contexto , não era de estranhar
que os clubes de férias , assentes na viragem das pessoas para o seu
lado egoísta e na uniformização de desejos e necessidades , tivessem
agora uma série de dificuldades . O tempo dos Bronzeados estava
definitivamente ultrapassado ; os novos veraneantes andavam em
busca de autenticidade , de descoberta , de sentimentos de partilha . De
um modo mais genérico , o modelo fordista dos tempos livres massi­
ficados , caracterizado pelos famosos «4 S » : Sea, Sand, Sun . . . and
Sex, passara à história. Era isso mesmo que mostravam claramente
os trabalhos de Michky e Braun , pelo que o setor do turismo tinha
desde já de preparar-se para encarar a sua atividade numa perspetiva
mais atualizada.
O sociólogo do comportamento sabia do seu ofício; seria capaz de
continuar assim durante horas .
- Desculpe lá. . . - , interrompeu-o Jean-Yves , e na sua voz
notava-se uma certa irritação .
1 34 Michel Houellebecq

- Sim - e o sociólogo do comportamento dirigiu-lhe um sorriso


encantador.
- Parece-me que toda a gente que está à volta desta mesa, toda a
gente sem exceção , tem consciência de que o setor dos clubes de
férias atravessa neste momento uma série de dificuldades . O que
estávamos à espera não era que o senhor nos expusesse , até à exaus­
tão , as características do problema; em vez disso , gostaríamos de
tentar conhecer, pelo menos , o esboço de uma solução .
Lindsay Lagarrigue ficou de boca aberta; não lhe passara pela
cabeça uma objeção daquela ordem .
- Bem, eu penso - disse por fim atabalhoadamente - , penso
que para resolver uma questão é já muito importante a sua identifi­
cação , e ter uma ideia sobre as suas causas .
Mais uma frase oca , pensou Jean-Yves muito irritado ; não só oca
como , na circunstância presente , completamente falsa. Era evidente
que as causas do problema se integravam num movimento generali­
zado que não era possível modificar. Tínhamos de nos adaptar, pon­
to final . Mas como poderíamos fazê-lo? Era claro que aquele imbecil
não fazia a mais pequena ideia.
- Em resumo , o que o senhor diz - voltou Jean-Yves a intervir
- é que o sistema em que assentam os campos de férias está ultra-
passado .
- Não , não , de modo nenhum - O sociólogo do comportamento
começava a vacilar. - Creio . . . creio apenas que é preciso refletir.
«E para que é que te pagam , cabrão?» , lançou Jean-Yves a meia
voz , antes de se dirigir a toda a gente :
- Muito bem , vamos então tentar refletir. Monsieur Lagarrigue ,
muito obrigado pela sua comunicação ; julgo que não vamos precisar
mais de si hoje . Proponho uma interrupção de dez minutos, o tempo
de tomarmos um café .

Despeitado , o sociólogo do comportamento arrumou os diagra­


mas . Quando a reunião recomeçou , Jean-Yves juntou as notas que
tinha tirado e tomou a palavra:
«Entre 1 993 e 1 997 , o Club Mediterranée atravessou , como os
senhores sabem , a mais grave crise da sua história. Nesse intervalo ,
Plataforma 1 35

registou-se o aparecimento de um grande número de concorrentes e


imitadores que copiaram a totalidade dos ingredientes da fórmula,
daí resultando um abaixamento considerável dos preços e a queda
livre da frequência dos nossos clube s . E como fez o Club Med para
inverter a situação? Fundamentalmente , através de uma redução de
preços . Mas não até aos níveis praticados pela concorrência: sabia
que poderia beneficiar da sua antiguidade no mercado , da sua repu­
tação , da sua imagem; sabia que a sua clientela aceitaria facilmente
que o grupo mantivesse um certo diferencial de preços - o qual ,
segundo os diversos destinos e depois de inquéritos rigorosos , foi
fixado entre vinte e trinta por cento - , continuando a beneficiar da
autenticidade da fórmula Club Med , no fundo , da "versão original" .
Eis então o primeiro ponto de reflexão que deixo à vossa considera­
ção durante as próximas semanas : haverá ainda lugar, no mercado
dos clubes de férias , para uma fórmula diferente do Club Med? E
existindo , seremos capazes de imaginar os respetivos contornos e de
ter uma ideia do seu público-alvo? A questão não é fácil de resolver.»
«Como sabem , trabalhei na Nouvelles Frontieres . Apesar de não
se tratar de uma frente de trabalho muito conhecida , também aí cri­
ámos clubes de férias , os Paladiens . Mais ou menos ao mesmo tempo
que o Club Mediterranée , tivemos também algumas dificuldades
nessa área; mas resolvemo-las rapidamente . Porquê? Porque éramos
o principal operador francês no setor das viagens organizadas . No
final dos circuitos , quase todos os nossos clientes se mostravam in­
teressados em prolongar a estada numa estância balnear. Os nossos
circuitos tinham a reputação , aliás justíssima, de comportarem algu­
mas dificuldades , de exigirem uma boa forma física. Ora , depois de
terem ganho os galões de "viajantes" , os nossos clientes ficavam
quase sempre encantados por vestirem a pele de simples turistas .
Face ao sucesso da fórmula, decidimo-nos pelo prolongamento bal­
near na maior parte dos circuitos - o que nos permitia aumentar o
tempo global dos nossos produtos . Como sabem , a permanência bal­
near é menos cara do que as viagens . Nesses casos , era obviamente
muito fácil darmos prioridade aos nossos próprios hotéis . Ora , é esse
o segundo motivo de reflexão que deixo à vossa consideração : será
possível que a salvação dos clubes de férias passe por uma estreita
colaboração com o setor das viagens organizadas? Também aqui os
1 36 Michel Houellebecq

senhores precisam de puxar pela imaginação , não se limitando a


pensar nos operadores do mercado francês . Eis um novo campo de
ação que gostaria de ver explorado ; provavelmente , temos tudo a
ganhar se nos aliarmos às grandes agências de viagens do Norte da
Europa.»

No final da reunião , uma mulher de uns trinta anos , loira e bonita ,


aproximou-se de Jean-Yves . Chamava-se Marylise Le François e era
responsável pela área da comunicação . «Gostava que soubesse que
gostei muito da sua intervenção . . . » , disse ela. «Foi muito produtiva.
Julgo que o senhor conseguiu motivar as pessoas . Neste momento ,
toda a gente tem consciência de que há alguém a comandar; agora ,
podemos começar a trabalhar como deve ser.» .
4

Mas , como Valérie e Jean-Yves depressa se aperceberam , a tarefa


não era fácil . Quase todos os operadores britânicos de circuitos turís­
ticos , e sobretudo os alemães , possuíam já as suas próprias cadeias
de clubes de férias ; não tinham qualquer interesse em associar-se a
um grupo diferente . Todos os contactos encetados nesse sentido fra­
cassaram completamente . Por outro lado , o Club Mediterranée pare­
cia ter encontrado o formato ideal para os seus clubes de férias ;
desde a sua criação nenhum outro concorrente fora capaz de apresen­
tar uma verdadeira inovação .
Duas semanas mais tarde , Valérie acabou por ter uma ideia. Eram
quase dez da noite; afundada num maple no gabinete de Jean-Yves ,
encontrava-se nessa altura a tomar u m chocolate <lOtes de ir para casa.
Depois de um dia de trabalho inteiramente dedicado ao orçamento
dos clubes de férias , estavam ambos completamente esgotados .
- Bem vistas as coisas - disse ela respirando fundo - , talvez
façamos mal em separar os circuitos das estadas nos clubes .
- O que queres dizer com isso?
- Lembra-te do que acontecia na Nouvelles Frontieres: assim
que , no meio de um circuito , havia um dia de descanso numa praia,
as pessoas davam-lhe muito valor, mesmo quando não se tratava de
um prolongamento em estâncias balneares . Ora, são exatamente es­
sas pessoas que muitas vezes se lamentam de andar sempre a mudar
de hotel . Por isso , seria preciso alternar sistematicamente as excur­
sões e as estadas na praia: um dia de excursão , um dia de descanso ,
e assim sucessivamente . Com as pessoas a voltarem todos as noites
1 38 Michel Houellebecq

para o mesmo hotel , ou dois dias depois no caso das excursões maio­
res ; de qualquer modo , sem precisarem de arrumar e desarrumar a
mala, nem de deixarem o quarto livre .
- Mas alguns clubes de férias organizam também as suas excur­
sões; e não tenho a certeza de que isso corra assim tão bem.
- É verdade; mas trata-se de suplementos pagos à parte , e os fran­
ceses detestam pagar suplementos . Além disso , para aderirem a essas
excursões as pessoas são obrigadas a inscrever-se: a certa altura têm
dúvidas , hesitam , e acabam por não escolher nenhuma. A verdade é
que são grandes apreciadores das descobertas desde que alguém faça
o trabalho por elas ; e , sobretudo , adoram o «tudo incluído» .

Jean-Yves ficou a pensar durante algum tempo . «Sabes uma coi­


sa? Não é nada má a tua ideia . . . E mai s , acho que devíamos começar
a tratar disso imediatamente : a partir do próximo verão , julgo que
poderemos introduzir a fórmula e complementar dessa maneira as
estadas normais nos clube s . Poder-lhe-íamos chamar "Eldorador
Descoberta" ou coisa parecida.»
Antes de pôr a ideia em prática, Jean-Yves consultou Leguen ;
mas depressa s e apercebeu d e que o vice-presidente não estava in­
teressado em pronunciar-se sobre o caso . «A responsabilidade é
sua» , disse-lhe simplesmente . Por mim , ao ouvir Valérie falar das
suas ideias , compreendi a extensão da minha ignorância sobre o
universo dos quadros superiores das empresas . Contudo , o modo
como ela e Jean-Yves trabalhavam em conjunto era excecional .
«Numa situação normal» , explicou-me Valérie , «Jean-Yves teria
como assistente uma mulher que sonhava ocupar o lugar dele . Nas
empresas , é daí que resultam situações muito complicadas : por ve­
zes , quem está em cima prefere falhar determinados objetivos , des­
de que possa assacar as responsabilidades a alguém .» Naquele caso ,
eles estavam numa situação bastante favorável; internamente , nin­
guém aspirava aos lugares que ocupavam; a maior parte dos qua­
dros técnicos do grupo achava que a compra da cadeia Eldorador
tinha sido um erro .
Até ao fim do mês , Valérie trabalhou muito com Marylise Le
François . Os catálogos para as férias de verão tinham de estar impre-
Plataforma 1 39

terivelmente prontos em finais de abril; era essa a data limite , e


mesmo assim talvez tarde de mai s . Por outro lado , descobriu que , na
revista Jet Tours , os textos sobre os clubes Eldorador eram deplorá­
veis . «As férias no Eldorador são uma espécie de momentos mági­
cos , em África, quando o calor começa a cair e toda a aldeia se junta
em volta da árvore das palavras , para ouvir a sabedoria dos ve­
lhos . . . » , leu Valérie a Jean-Yves .
- Mas será possível? Uma coisa destas , ainda por cima com fo­
tografias de animadores aos saltos , vestidos de amarelo e com ar de
parvos . Isto não vale absolutamente nada .
- E o que achas do slogan «Com Eldorador, viva com mais ardor» ?
- Não sei , já não sei o que hei de dizer . . .
- Bem, para o setor dos clubes é demasiado tarde , a distribuição
dos catálogos já foi feita . A nossa única certeza é que , para o catálo­
go «Descoberta» , vamos partir do zero .
- Eu acho que é preciso jogar com a fruição simultânea do luxo
e da rusticidade - disse Marylise . - Chá de menta em pleno deser­
to , mas sobre tapetes preciosos . . .
- Sim , sim . . . Momentos de magia - disse Jean-Yves sem gran­
de entusiasmo . E levantando-se com algum esforço , acrescentou :
- Não se esqueçam de pôr «momentos de magia» num sítio qual­
quer; não sei porquê , mas resulta sempre . E agora deixo-vos; volto
para os meus encargos permanentes . . .
Sem dúvida alguma , era sobre ele que recaía a parte mais ingrata
do trabalho . Valérie tinha consciência disso. Ela própria quase não
sabia nada de gestão hoteleira, exceto uma vaga recordação de quan­
do estudara a matéria no curso de Turismo . «Édouard Yang , proprie­
tário de um hotel de três estrelas , acha que tem a obrigação de satis­
fazer o melhor possível a sua clientela; por isso , procura
constantemente inovar e responder às necessidades dos clientes . A
experiência ensina-lhe que o pequeno-almoço é um momento impor­
tante , que faz parte do equilíbrio alimentar de todo o dia e contribui
decisivamente para a criação da imagem do hotel.» Valérie estudara
este caso num trabalho escrito do primeiro ano . O hoteleiro decidia­
-se por uma análise estatística à clientela, agrupada de acordo com a
ocupação dos quartos (solteiros , casais , famílias) . Os alunos tinham
de analisar os inquéritos , calcular o X2 e responder à seguinte ques-
!40 Michel Houellebecq

tão : «Haverá alguma relação , ou critério explicativo , entre a situação


familiar de cada cliente e o consumo de fruta fresca ao pequeno­
-almoço?»
Ao folhear esses dossiês , Valérie encontrou um caso concreto que
correspondia inteiramente à situação do Eldorador. «Imagine que foi
nomeado(a) responsável de marketing do corpo diretivo do grupo
South America , que acaba de comprar o Hotel Les Antilles , uma
unidade de quatro estrelas , com cento e dez quartos em Guadalupe ,
junto ao mar. Construído em 1 988 e renovado em 1 996, o hotel pas­
sa agora por dificuldades graves . Com efeito , a taxa de ocupação
média é de apenas 45 % , o que está longe do nível de rentabilidade
inicialmente previsto .» Nessa prova , Valérie tinha obtido 1 8 valores ,
o que parecia ser um bom presságio . Se bem se lembrava, tudo aqui­
lo , lhe parecera na altura uma história inventada e pouco credível .
Tinha sido incapaz de s e imaginar como responsável d o grupo South
America ou de outro grupo qualquer. No fundo , não passava de um
jogo , um jogo intelectual sem qualquer interesse ou dificuldade .
Agora não havia jogo nenhum; ou melhor, havia: Valérie e Jean-Yves
tinham as suas carreiras em jogo .
Nessa noite , chegou a casa tão esgotada que não teve forças para
fazer amor; limitou-se a mamar-me um bocadinho ; mas adormeceu
entretanto , com o meu sexo na boca. Nesse tempo costumava
penetrá-la de manhã, quando acordávamos . Valérie tinha então uns
orgasmos mais calmos e contidos , como se atravessassem uma cor­
tina de cansaço; julgo que a amava cada vez mais .

Em finais de abril , os catálogos foram impressos e distribuídos em


cinco mil balcões de agências de viagens - a quase totalidade dos
postos de venda em França. Era preciso começar a tratar da prepara­
ção das excursões , para que tudo estivesse pronto no mês de julho .
Nestes produtos novos , a informação de boca em boca tinha um papel
fundamental: uma excursão anulada ou mal organizada poderia repre­
sentar a perda de muitos clientes . Decidiram não gastar dinheiro numa
grande campanha publicitária. Curiosamente , apesar de ter uma espe­
cialização em marketing , Jean-Yves não acreditava muito na publici­
dade . «A publicidade pode ser útil para modificar determinada ima-
Plataforma 141

gem» , dizia ele; «mas não estamos nessa fase . Agora, o mais
importante é dispormos de uma boa distribuição e darmos ao produto
uma reputação de fiabilidade .» Em contrapartida, investiram bastante
na divulgação junto das agências de viagens; era fundamental que o
produto fosse rapidamente oferecido e espontaneamente apresentado
a todos os clientes nos balcões das agências . Como dispunha de bons
conhecimentos no meio , Valérie encarregou-se da tarefa. Lembrava­
-se bem da argumentação CVP I SONCDS que tinha aprendido no
curso (características , vantagens e provas versus segurança, orgulho ,
novidade , conforto , dinheiro e simpatia) ; mas lembrava-se igualmente
da realidade , infinitamente mais simples . Quase todas as vendedoras ,
porém , eram muito novas e formadas há pouco tempo; era preferível
falar-lhes numa linguagem que estavam preparadas para entender. Ao
contactar com essas jovens , Valérie apercebia-se de que as escolas
ainda ensinavam a tipologia de Barma. (O comprador técnico: preo­
cupado com o produto , sensível aos aspetos quantitativos , privilegian­
do novidades e aspetos técnicos. O comprador reverente: inferioriza­
do relativamente ao produto e confiando cegamente no vendedor. O
comprador cúmplice: interessado em encontrar pontos de interesse
mútuo com o vendedor, desde que este último saiba criar uma boa
comunicação interpessoal . O comprador interesseiro: manipulador
cuja estratégia consiste em contactar diretamente o fornecedor do
serviço , a fim de tirar daí todas as vantagens . O comprador qualifica­
do: atencioso , respeitador do vendedor e do produto em si , consciente
das suas necessidades , com quem é fácil comunicar.) Valérie tinha
mais cinco ou seis anos do que essas jovens; começara como elas , mas
atingira um nível profissional com que a maior parte nem se atrevia a
sonhar. Por isso a olhavam com uma admiração um pouco ridículo .
Agora , eu tinha a chave da casa de Valérie ; à noite , quando estava
à espera dela, costumava ler o Curso de Filosofia Positiva , de Au­
guste Comte . Apreciava muito aquele texto monótono e denso; fre­
quentemente , lia a mesma página quatro e cinco vezes seguidas .
Faltavam-me apenas três semanas para chegar à lição número cin­
quenta , «Considerações preliminares sobre a estatística social , ou a
teoria da ordem natural espontânea nas sociedades humanas» . Sem
dúvida nenhuma , estava a precisar de uma teoria que me ajudasse a
esclarecer a minha própria situação social .
1 42 Michel Houellebecq

* * *

«Tu trabalhas de mais , Valérie» , disse-lhe eu numa noite de maio


ao vê-la derreada de cansaço , encolhida no sofá da sala. «É preciso
que , pelo menos , isso sirva para alguma coisa. Devias pôr algum
dinheiro de lado , senão acabas por gastá-lo estupidamente de uma
maneira qualquer.» Ela concordou comigo . No dia seguinte , foi tra­
balhar duas horas mais tarde para podermos abrir uma conta conjun­
ta no Crédit Agricole da Porte d ' Orléans . Entregou-me uma procura­
ção e , dois dias depois , voltei lá para discutir melhor a questão .
Decidi-me por um depósito mensal de vinte mil francos , tirados do
ordenado dela, metade dos quais a aplicar num plano de reforma , e
a outra metade numa conta poupança-habitação . Nesse tempo estava
quase sempre em casa de Valérie , pelo que não fazia sentido manter
o meu apartamento .
A proposta partira dela, durante uma conversa no princípio de ju­
nho . Tínhamos estado a fazer amor durante quase toda a tarde: agarra­
dos um ao outro debaixo dos lençóis , íamos intervalando; Valérie
masturbava-me ou chupava-me um bocado , e eu começava a penetrá­
-la; nem um nem outro chegávamos a vir-nos; de cada vez que me
tocava, entesava-me rapidamente , e a ratinha dela mantinha-se cons­
tantemente húmida. Por mim , achava que ela se sentia bem, havia uma
grande calma no seu olhar. Por volta das nove horas , propôs que fôs­
semos jantar a um restaurante italiano próximo do Pare Montsouri s .
Ainda não era noite ; respirava-se uma atmosfera d e paz . E u tinha ain­
da de ir a casa, se quisesse ir trabalhar de fato e gravata como de cos­
tume . O empregado do restaurante trouxe-nos dois cocktails da casa.
«Sabes uma coisa, Michel . . . » , disse-me Valérie antes de nos sepa­
rarmos . «Podias muito bem instalar-te lá em casa. Não vale a pena
fazer durante muito mais tempo a rábula da independência. Ou en­
tão , se preferires , podemos alugar os dois outro apartamento .»

Sim, num certo sentido , era isso o que eu queria; digamos que ,
sobretudo , tinha a impressão de partir para outra viagem . Ou , melhor
dizendo , pela minha parte , de partir pela primeira vez; no fundo ,
seria também o caso dela . As pessoas habituam-se ao isolamento , à
Plataforma 1 43

independência; mas não é certo que seja um bom hábito . No meu


caso , se estava mesmo interessado em alguma coisa parecida com
uma experiência conjugal , era obviamente aquela a melhor altura .
É claro que não desconhecia os inconvenientes da solução ; sabia
bem que o desejo se dilui no seio de um casal normalmente consti­
tuído . Mas , sej a como for, o desejo acaba sempre por se diluir, é a lei
da vida; de qualquer modo , pode sempre esperar-se por uma ligação
de outro tipo; antes de nós , já muitas pessoas tinham pensado da
mesma maneira . Fosse como fosse , nessa noite o meu desejo por
Valérie estava longe de se desvanecer. Antes de me despedir, beijei-a
na boca; ela abriu os lábios e abandonou-se inteiramente . Passei as
mãos por baixo da roupa dela e segurei-lhe nas nádegas . Valérie
afastou a cara e olhou para a esquerda e para a direita: a rua estava
completamente sossegada. Ajoelhou-se então no passeio , abriu-me a
braguilha e abocou o meu sexo . Encostei-me às grades do parque ;
estava quase a vir-me . Valérie retirou a boca e continuou a masturbar­
-me com dois dedo s , enquanto me passava a outra mão pelas calças
para me acariciar os tomates . Fechou os olhos ; ejaculei na cara dela.
Nesse momento , julguei que iria começar a chorar; mas não , limitou­
-se a lamber o esperma que lhe corria pela cara abaixo .
Na manhã do dia seguinte , comecei a procurar casa em anúncios
de jornal ; devido ao trabalho de Valérie , era preferível a zona sul da
cidade . Uma semana depois já tinha encontrado o que queria: quatro
grandes divisões assoalhadas no trigésimo andar da torre Opale , pró­
ximo da Porte de Choisy. Antes disso , nunca desfrutara de uma vista
tão bela de Pari s , embora, para dizer a verdade , também nunca a ti­
vesse procurado . Ao tratar da mudança, tomei consciência de que
não sentia nenhuma ligação às coisas que tinha no meu apartamento .
Poderia ter tirado daí uma certa alegria, alguma coisa parecida com
a febre da independência; em vez disso , sentia-me vagamente assus­
tado . No fundo , vivera quarenta anos sem estabelecer o mais peque­
no contacto pessoal , por ínfimo que fosse , com um único objeto . Por
junto , tinha dois fatos que usava alternadamente . É verdade que tinha
livros; mas não me faria diferença desfazer-me deles , não encontrara
em nenhum alguma coisa rara ou especial . Várias mulheres se ti­
nham cruzado no meu caminho , mas não conservava delas uma
simples carta ou qualquer fotografia. Também não tinha fotografias
1 44 Michel Houellebecq

minhas : não guardava a mais leve recordação daquilo que eu próprio


podia ter sido há quinze , vinte ou trinta anos . Do mesmo modo , não
dispunha verdadeiramente de papéis pessoai s : a minha identidade
cabia numas quantas pastas , arrumadas num vulgar arquivador de
cartolina. É falso considerar que os seres humanos são únicos , que
dispõem de uma dada singularidade insubstituível ; pelo menos no
que me diz respeito , não encontrava nenhum sinal dessa singularida­
de . Muitas vezes , é em vão que tentamos encontrar destinos e carac­
terísticas individuais . No fundo , a ideia da unicidade da pessoa hu­
mana não passa de um disparate pretensioso . Schopenhauer escreveu
algures que nos lembramos apenas um pouco mais da nossa vida do
que de um romance que lemos há muito tempo . Sim, é isso mesmo:
apenas um pouco mais .
5

Na segunda quinzena de junho , Valérie teve um novo acréscimo


de trabalho; devido às diferenças horárias , quem trabalha com países
muito diferentes é praticamente obrigado a estar em atividade duran­
te as vinte e quatro horas do dia . Estava cada vez mais calor, o verão
prometia ser esplêndido ; mas , para já, nem eu nem ela tirávamos daí
grande proveito . Por mim , gostaria muito de passar pelo restaurante
Tang Freres , depois do trabalho; andava com um certo interesse pela
cozinha asiática . Mas era muito complicada, obrigava a um equilí­
brio diferente entre os vários ingrediente s , a outra maneira de cortar
os vegetais , quase a uma nova estrutura mental . Virei-me então para
a cozinha italiana, que sempre estava mais ao meu alcance . Em toda
a minha vida, nunca me passara pela cabeça vir a encontrar algum
prazer em cozinhar. O amor santifica.
Na sua quinquagésima lição de sociologia, Auguste Comte escre­
ve contra essa «estranha aberração metafísica» que concebe a família
em função da sociedade . «Assente sobretudo na afeição e no reco­
nhecimento» , escreve Comte , «a união doméstica está sobretudo
destinada a satisfazer diretamente , pela sua existência, o conjunto
dos nossos instintos simpáticos , independentemente de qualquer
pensamento de cooperação ativa e contínua na direção de um objeti­
vo comum, e isto para não dizer que é essa a sua única função . Quan­
do , por infelicidade , a coordenação dos trabalhos permanece como
único princípio da ligação , a união doméstica tende obrigatoriamen­
te a degenerar em simples associação , e, na maior parte dos casos ,
não tarda a dissolver-se .» Na repartição , eu continuava a trabalhar o
1 46 Michel Houellebecq

mtmmo possível; mesmo assim , preparei sem grande dificuldade


duas ou três exposições importantes . Não é difícil trabalhar em as­
suntos administrativos , basta ser meticuloso , tomar decisões rápidas
e aguentar a pressão . Pessoalmente , compreendera há muito que não
era obrigatório tomar a melhor decisão; na maior parte dos casos ,
bastava tomar uma decisão qualquer, desde que fosse rápida; é claro
que estou a falar do setor público . No meu trabalho , optava por de­
terminados projetas artísticos em detrimento de outros: mas fazia-o
com base em critérios insuficientes , e, em dez anos de atividade , nem
uma única vez pedi informações complementares; de um modo ge­
ral , não sentia remorsos . No fundo , tinha muito pouca consideração
pelos meios da arte contemporânea. Quase todos os artistas que co­
nhecia comportavam-se exatamente como empresários: estudavam
atentamente os novos «nichos do mercado» e posicionavam-se o
mais rapidamente possível . Tal como os empresários , saíam em for­
nadas das mesmas escolas , eram fabricados em moldes idênticos .
Em todo o caso , havia algumas diferenças : na arte , o primado da
inovação é mais forte do que na maior parte dos outros setores pro­
fissionais; além disso , os artistas funcionam muitas vezes em mati­
lhas , ou ligados em rede , ao contrário dos empresários , sempre iso­
lados e cercados de inimigos - acionistas dispostos a deixá-los cair
e quadros superiores dispostos a traí-los . Mas , no caso dos artistas
com quem trabalhei , era raro sentir neles uma verdadeira necessida­
de interior. Em finais de junho teve lugar a exposição de Bertrand
Bredane , que apoiei afincadamente desde o princípio - para grande
surpresa de Marie-Jeanne , habituada à minha dócil indiferença, e a
quem as obras do artista revoltavam profundamente . Bertrand não
era propriamente um jovem artista, tinha quarenta e três anos e aspe­
to de pessoa gasta - fazia lembrar a figura do poeta alcoólico de O
Gendarme de Saint-Tropez . Tornara-se conhecido por obras onde
havia carne podre dentro de cuecas femininas , ou viveiros de moscas
nos seus próprios excrementos , que deixava depois nas salas de ex­
posição . Nunca tivera grande sucesso; não estava ligado a boas re­
des , mas obstinava-se numa orientação trash , um pouco ultrapassa­
da. Eu sentia nele uma certa autenticidade , mas talvez fosse , pura e
simplesmente , a autenticidade do falhanço . Naquela altura, Bertrand
não parecia muito bem . O seu último projeto era pior do que os an-
Plataforma 1 47

teriores , ou então melhor, conforme o ponto de vista. Tinha realizado


um vídeo sobre o trajeto dos cadáveres das pessoas que aceitam ,
depois de morrerem, oferecer o corpo à ciência, isto é , para ser utili­
zado , por exemplo , nas escolas em dissecações de Medicina . Duran­
te a exposição , alguns estudantes de Medicina misturavam-se com o
público e , de vez em quando , exibiam mãos decepadas ou olhos tira­
dos de órbitas - no fundo , pregando as partidas que , segundo a
tradição , são habituais entre eles . Cometi o erro de levar Valérie à
inauguração , esgotada depois de um dia inteiro de trabalho .
Surpreendi-me por haver muitas pessoas , algumas bem conhecidas
do grande público: estaríamos em presença do início do estado de
graça de Bertrand Bredane? Valérie fartou-se ao fim de meia hora e
pediu-me para sairmos dali . Nessa altura , um estudante de Medicina
ficou parado diante dela, estendendo-lhe a palma da mão onde se via
uma piça cortada e um par de testículos ainda com pelos agarrados .
Enoj ada, virou a cara e puxou-me para a porta . Fomo-nos refugiar no
café do Beaubourg .
Meia hora depois , Bertrand Bredane também lá entrou , acompa­
nhado de duas ou três raparigas que eu conhecia, além de outras
pessoas entre as quais reconheci o diretor do mecenato da Caisse des
Dêpots et Consignations . Sentaram-se na mesa ao lado da nossa; não
pude deixar de os ir cumprimentar. Bertrand mostrava-se visivel­
mente satisfeito por me ver; eu tinha-lhe dado , sem dúvida alguma ,
uma grande ajuda nessa noite . A conversa continuou indefinidamen­
te , e Valérie veio sentar-se ao pé de nós . Depois , um dos presentes ,
talvez o próprio artista , sugeriu que fôssemos beber um copo ao Bar­
-bar. Cometi o erro de aceitar. Em Paris , quase todos os clubes no­
turnos especializados na troca de parceiros sexuais tentaram , sem
resultado , integrar nos seus programas de animação uma sessão se­
manal de sadomasoquismo; mas o Bar-bar, desde sempre exclusiva­
mente dedicado a práticas sadomasoquistas , apesar de não exigir, à
entrada, um dress-code genuíno - a não ser em algumas noites -
estava sempre cheio . Tanto quanto julgava saber, o meio sadomaso­
quista , muito específico , de resto , era formado por pessoas sem inte­
resse algum por práticas sexuais normais e , consequentemente , a
quem a entrada numa clássica bofte à partouzes repugnava profun­
damente .
1 48 Michel Houellebecq

Junto da entrada, uma mulher de uns cinquenta anos de idade , com


cara de boneca, algemada e amordaçada, andava às voltas dentro de
uma gaiola. Depois de a ver melhor, verifiquei que estava amarrada e
que os tornozelos se encontravam ligados à estrutura da gaiola por
correntes metálicas ; em cima da pele tinha apenas um espartilho em
napa preta, sobre o qual lhe caíam os seios flácidos . De acordo com o
costume do bar, tratava-se de uma escrava cujo dono a iria leiloar
durante a noite . A mulher não parecia especialmente divertida, e
apercebi-me de que que se ia virando em todos os sentidos , na tenta­
tiva de esconder as coxas cheias de celulite; mas não conseguia, a
gaiola era completamente aberta dos quatro lados. Talvez fizesse aqui­
lo para ganhar a vida; tinham-me falado de pessoas que se ofereciam
como «escravas» , por mil ou dois mil francos por noite . A impressão
que eu tinha era de que se trataria de uma empregada subalterna, ou
com a reforma mínima da Segurança Social , que fazia aquilo para
ganhar mais uns cobres . No bar, havia apenas uma mesa livre , junto
da entrada da primeira sala de tortura. Assim que nos sentámos, vimos
um homem completamente careca e de barriga grande , vestido com
um fato completo , levado à trela por uma dominadora negra de náde­
gas nuas . Quando chegaram à nossa mesa, a mulher parou e mandou­
-o pôr-se em tronco nu . Ele obedeceu . A mulher tirou umas pinças
metálicas do saco; para homem, tinha mamas grandes e gordas de
mai s . A mulher aplicou-lhe as pinças nos mamilos , que estavam pen­
durados e vermelhos . O homem teve um esgar de dor. A dominadora
voltou a puxá-lo pela trela: ele pôs-se de gatas e , a custo , lá foi atrás
dela; via-se-lhe a barriga cheia de refegos , que estremeciam macilen­
tos na luz difusa da sala. Pedi um uísque , e Valérie um sumo de laran­
ja. O olhar dela continuava fixo na mesa; não via nada do que se
passava à volta, nem sequer participava na conversa. Em contraparti­
da, Marjorie e Géraldine , as duas jovens que eu conhecia da Delega­
ção de Artes Plásticas , pareciam excitadíssimas . Desiludido , Bredane
ia murmurando: «Isto hoje está muito sossegado . . . » Em seguida,
explicou-nos que , em certas noites, havia clientes que punham agu­
lhas na glande e nos tomates ; uma vez , uma dominadora tinha arran­
cado a unha a um fulano com uma tenaz . Valérie ficou arrepiada.
- Acho tudo isto completamente asqueroso - disse ela, incapaz
de se conter por mais tempo .
Plataforma 1 49

- Porquê asqueroso? - protestou Géraldine . - Desde que haja


livre consentimento dos intervenientes, não sei qual é o problema .
Estão de acordo em fazer isto , e é tudo .
- Não me parece que possa haver livre consentimento para a
humilhação e o sofrimento . E mesmo que assim seja, não me parece
uma razão suficiente .
Valérie estava realmente muito nervosa, e eu aguardava a oportu­
nidade de mudar a conversa para o conflito israelo-palestino , mas
depois pensei que me estava nas tintas para o que as gajas pensavam;
de resto , se deixassem de me telefonar, era da maneira que me davam
menos trabalho .
- Também acho , esta gente enoja-me um bocado - disse eu com
desdém . - E vocês também . . . - acrescentei em voz mais baixa.
Géraldine não percebeu , ou fingiu que não percebeu .
- Desde que a pessoa seja adulta - voltou ela à carga - e que
a sua fantasia sej a sofrer, explorando a dimensão masoquista da sua
sexualidade , não vejo razão para qualquer impedimento . Vivemos
em democracia . . .
Estava também muito nervosa; e eu preparava-me já para a ouvir
invocar os direitos do homem . Ao ouvir a palavra «democracia» ,
Bredane olhou-a com ar de desprezo; depois , virou-se para Valérie .
- Você tem razão - disse ele , é completamente asqueroso . -
Quando vejo alguém deixar que lhe arranquem as unhas com uma
tenaz , borrar-se pelas pernas abaixo e, a seguir, comer a merda do
próprio carrasco , acho isso asqueroso . Mas é exatamente essa parte
asquerosa do ser humano que me interessa.
Uns segundos depois , Valérie perguntou com ar magoado:
- Porquê? . . .
- Não sei - respondeu Bredane com simplicidade . - Não acre-
dito na parte maldita , porque não acredito em nenhuma forma de
maldição , nem de bendição , aliás . Mas tenho a impressão de que ,
quando nos aproximamos do sofrimento e da crueldade , do mando e
da servidão , chegamos ao essencial , à natureza íntima da sexualida­
de . Não lhe parece?
Agora a pergunta era para mim . Não , de facto , não me parecia.
A crueldade é uma atitude muito antiga no homem , esteve sempre
presente nas sociedades primitivas : logo nas primeiras lutas entre
1 50 Michel Houellebecq

clãs , os vencedores depressa se habituaram a poupar a vida de certos


prisioneiro s , para os poderem submeter depois às torturas mais abo­
mináveis . Essa tendência manteve-se constante ao longo da História
e chegou intacta aos nossos dias : no decurso de uma guerra civil , ou
entre países diferentes , assim que as restrições morais mais corri­
queiras perdem valor - seja qual a for a raça , a cultura ou o grupo
étnico - surgem imediatamente seres humanos dispostos a atos de
barbárie e de massacre . S ão factos provados, permanentes e indiscu­
tíveis , que nada têm que ver com a procura do prazer sexual - tam­
bém ele antigo e igualmente muito forte . Resumindo , não estava de
acordo; mas , como de costume , tinha consciência de que não valia a
pena discutir.
- Vamos dar uma volta por aí - disse Bredane quando acabou
de beber a cerveja.
Eu e os outros fomos atrás dele , e entrámos na primeira sala de
torturas . Era uma cave com os tetos em abóbada , com as pedras à
vista. A música ambiente constava de acordes de órgão extremamen­
te graves , sobre os quais se ouviam os berros dos supliciados . Veri­
fiquei que os amplificadores eram enormes; e por toda a parte havia
projetores vermelhos , máscaras e aparelhos de tortura pendurados
em armações ; só o arranjo da sala devia ter custado uma fortuna.
Numa alcova, um homem calvo e quase descarnado tinha as pernas
e os braços presos , com os pés enfiados num dispositivo de madeira
que o mantinha a uns cinquenta centímetros do chão , e as mãos me­
tidas em algemas penduradas do teto . Uma dominadora vestida com
um fato de látex preto , de luvas e botas , andava em volta dele , arma­
da com um chicote de tiras muito finas , com incrustações de pedras
preciosas . Começou por fustigar longamente as nádegas do homem ,
batendo-lhe insistentemente ; o tipo estava de frente para nós , com­
pletamente nu , e gritava de dor. Em volta deles havia um pequeno
magote de gente . «Esta dominadora deve ser do nível 2 . . . » , disse-me
Bredane em surdina . «Ü nível 1 é quando a sessão termina após o
aparecimento das primeiras gotas de sangue .» A piça e os tomates do
homem pendiam no vazio, compridos e como que distorcidos .
A dominadora andou em volta dele , remexeu numa sacola que trazia
à cintura e tirou de lá diversos anzóis , que enfiou no escroto do ho­
mem; umas gotas de sangue vieram à superfície . A seguir, começou
Plataforma 151

a chicotear-lhe , mais brandamente , os órgãos genitais . A situação


estava a atingir o limite: se uma das tiras ficasse presa a um dos an­
zóis , a pele dos testículos podia ficar desfeita. Valérie virou a cara
para o lado , encolhendo-se toda contra mim . «Vamo-nos embora . . . » ,
disse e m tom de súplica; «depois explico-te porquê .» Regressámos
ao bar; os outros estavam tão encantados com o espetáculo que não
deram pela nossa saída. «Reconheci a mulher do chicote . . . » , disse­
-me Valérie a meia-voz . «Vi-a apenas uma vez , mas tenho a certeza
de que é ela . . . Audrey, a mulher de Jean-Yves.»
S aímos logo de seguida. No táxi , Valérie continuava imóvel e
prostrada. Mesmo no elevador, foi sempre calada até entrar em casa .
Só depois de fechar a porta se virou para mim:
- Achas-me muito convencional , Michel ?
- Não . Também achei aquilo horrível .
- Sou capaz de compreender o papel dos carrascos : desagrada-
-me a sua existência, mas sei que há pessoas que têm prazer em
torturar os outros; o que não percebo é a existência das vítimas . Não
sou capaz de perceber a razão que leva um ser humano a ter prazer
no seu próprio sofrimento . Não sei , acho que era preciso reeducá-los ,
amá-los e ensiná-los a ter prazer.
Levantei os ombros , como quem diz que se tratava de um assunto
fora das minhas competências - algo que , ultimamente , me aconte­
cia em quase todas as circunstâncias da minha vida . Todas as coisas
que as pessoas fazem , tudo o que aceitam fazer. . . não havia nada a
dizer sobre tudo isso , nenhuma conclusão geral , nenhum sentido .
Despi-me em silêncio . Valérie sentou-se na cama ao pé de mim . Vi
que ainda estava tensa, preocupada com o assunto .
- O que me mete mais impressão - disse ela - é a inexistência
de contacto físico . Toda a gente usa luvas e se serve de utensílios .
Nunca tocam uns nos outros , não há um beijo, um encosto , uma
simples carícia. Para mim , é exatamente o contrário da sexualidade .

Tinha toda a razão , mas creio que os adeptos do sadomasoquismo


encontrarão ali a verdadeira apoteose , a forma última da sexualidade .
Cada um deles permanecia encerrado dentro de si mesmo , plena­
mente entregue às suas sensações de ser único ; era uma maneira de
1 52 Michel Houellebecq

ver as coisas . Do que não havia dúvida era que sítios como aquele
estavam cada vez mais em voga . Por mim, imaginava facilmente que
pessoas como Marjorie e Géraldine , por exemplo , os frequentassem;
mas não as imaginava com a capacidade de abandono necessária
para aceitar a penetração , ou mesmo qualquer outra forma de contac­
to sexual .
- É mais simples do que parece . . . - disse eu por fim . - Há a
sexualidade das pessoas que se amam e a sexualidade das pessoas
que não se amam . Quando já não existe hipótese alguma de identifi­
cação com o outro , a única modalidade que resta é o sofrimento . . . e
a crueldade .
Valérie enroscou-se em mim . «Vivemos num mundo estranho . . . » ,
disse ela. Num certo sentido , continuava a ser ingénua, protegendo­
-se da realidade humana por um horário de trabalho descomunal que
só lhe dava tempo de ir às compras , descansar e voltar a ir trabalhar.
Por fim , foi ela que acrescentou: «Não gosto nada do mundo em que
vivemos .»
6

Os três grandes desejos dos consumidores que o


nosso inquérito evidenciou são : desejo de segu­
rança, desejo de afetividade e desejo de beleza .
Bernard Guilbaud

A 30 de junho , começaram a aparecer os resultados das reservas


feitas nas agências de viagens . O produto «Eldorador Descoberta»
era um sucesso , tinha conseguido um conjunto de marcações supe­
rior ao Eldorador «fórmula normal» - que , por seu lado , continuava
em baixa. Valérie resolveu tirar uma semana de férias; fomos para
casa dos pais dela, em Saint-Quay-Portrieux . Eu sentia-me um boca­
do velho no papel de noivo apresentado à família; bem vistas as
coisas , tinha mais treze anos do que ela, e era a primeira vez que me
encontrava em semelhante situação . Quando o comboio parou em
Saint-Brieuc , o pai de Valérie estava à nossa espera na estação . Bei­
jou afetuosamente a filha apertando-a muito tempo contra o peito ,
via-se que tinha saudades dela. «Estás um bocado mais magra . . . » ,
disse-lhe . A seguir voltou-se e estendeu-me a mão sem olhar muito
para mim . Julgo que também se sentia intimidado: sabia que eu tra­
balhava no Ministério da Cultura, ao passo que ele não passava de
um camponês . A mãe foi muito mais expansiva, perguntando-me
muitas coisas sobre a minha vida , o meu trabalho e os meus tempos
livre s . No fundo , não foi muito difícil , Valérie estava ali a meu lado;
de vez em quando respondia em meu lugar, e olhávamos um para o
outro . Não me conseguia imaginar naquela situação , se alguma vez
1 54 Michel Houellebecq

tivesse filhos; quando penso no futuro , nunca consigo imaginar gran­


de coisa .
A refeição da noite foi uma verdadeiro jantar de festa , com lava­
gante , lombo de borrego , queijos , tarte de morango e café . No que
me dizia respeito , tentei interpretar a qualidade da refeição como
sinal de boa aceitação por parte dele s , embora não ignorasse que o
j antar fora preparado anteriormente . Valérie fez as despesas da con­
versa, falando sobretudo do seu novo trabalho - um assunto de que
eu conhecia praticamente tudo . Deixei flutuar o olhar sobre o tecido
das cortinas , os bibelôs , os quadros com fotografias de família. Ali
estava eu numafa m ília , o que me provocava alguma comoção e uma
certa angústia .
Valérie quis dormir no seu quarto de adolescente . «Era melhor
dormirem no quarto de hóspedes» , protestou a mãe , «vão ficar muito
apertados .» A cama era de facto um pouco estreita, mas causou-me
uma enorme emoção puxar-lhe as calcinhas para baixo , acariciando­
-lhe depois a rata , enquanto pensava que ela dormia ali quando tinha
treze ou catorze anos . Tanto tempo perdido , pensei . Ajoelhei-me aos
pés da cama , despi-lhe completamente as calcinhas e puxei-a para
mim . Valérie apertou-me a cabeça do sexo com a vagina . Entretive­
-me a meter e tirar com movimentos curtos , uns centímetros só de
cada vez , ao mesmo tempo que lhe apertava as mamas com as mãos .
Valérie veio-se com um grito abafado , e em seguida desatou a rir.
«Üs meus pais ainda não estão a dormir. . . » , disse-me ao ouvido .
Então , entrei nela com mais força, para me vir também . Ficou a
olhar-me enquanto isso acontecia e pôs-me uma mão na boca no
momento em que , com um ronco abafado , ej aculei dentro dela .
Mais tarde , observei interessado a mobília do quarto . Mesmo por
cima dos livros da coleção Cor-de-Rosa, numa prateleira , havia vá­
rios caderninhos cuidadosamente arrumados .
- Eram coisas que eu fazia quando tinha doze anos - disse-me .
- Podes ver. São histórias dos Cinco .
- Não percebo . . .
- Histórias dos Cinco inéditas , escritas por mim , utilizando as
mesmas personagens .
Puxei os ditos caderninhos: lá estavam Os Cinco no Espaço , Os
Cinco no Canadá, etc . Fiquei a imaginar uma rapariguinha criativa,
Plataforma 1 55

com tendência para a solidão , alguém que eu nunca teria oportunida­


de de conhecer.
Nos dias seguintes não fizemos nada de especial , para além de ir
à praia . Estava bom tempo , mas a água estava fria de mais para ba­
nhos prolongados . Valérie ficava deitada ao sol durante horas ; pouco
a pouco , ia recuperando forças ; os três últimos meses tinham sido os
mais duros de toda a sua vida profissional . Uma tarde , três dias de­
pois de chegarmos , falei-lhe do trabalho . Estávamos no Oceanic Bar
e tínhamos mandado vir dois cocktails .
- Agora que a fórmula foi lançada, talvez possas trabalhar me­
nos . . .
- Numa primeira fase , sim . - Fez um sorriso desiludido e acres­
centou : - Mas depois é preciso encontrar imediatamente outra coisa
qualquer.
- Porquê? Não será possível parar?
- São as regras do jogo . Se Jean- Yves aqui estivesse , dir-te-ia
que é uma regra central do capitalismo: se não avanças , morre s . Ex­
ceto quando se consegue uma vantagem concorrencial decisiva , em
nenhuma outra situação se pode ficar parado durante muito tempo;
no nosso caso , ainda não chegámos lá. O princípio em que assenta o
«Eldorador Descoberta» é bom , a ideia é engenhosa, ou astuciosa , se
lhe quiseres chamar assim, mas não contém nenhuma inovação ,
trata-se simplesmente de uma mistura equilibrada de dois conceitos
já existentes . A concorrência vai ver que o método funciona , e de­
pressa aparecerá alguém a copiar a ideia . Não é nada difícil de fazer;
difícil foi pô-la em prática em tão pouco tempo . Mas tenho a certeza
de que a Nouvelles Frontieres , por exemplo , é capaz de lançar um
produto parecido no próximo verão . Se quisermos manter a nossa
vantagem , temos de voltar a inovar.
- E depois , nunca mais param?
- Creio que não , Michel . Sou bem paga e estou integrada num
sistema que conheço bem; são as regras do jogo que eu aceitei .
Devo ter ficado com ar pensativo; Valérie pôs-me uma mão à vol­
ta do pescoço .
- Vamos comer - disse ela. - Os meus pais estão à nossa espera.

* * *
156 Michel Houellebecq

Voltámos a Paris num domingo à noite . Logo na segunda-feira de


manhã , Valérie e Jean-Yves tinham uma reunião com Éric Leguen . O
vice-presidente iria certamente exprimir a satisfação do grupo pelos
resultados conseguidos . Por unanimidade , a administração tinha de­
cidido atribuir-lhes um prémio em ações - uma situação excecional
para executivos com menos de um ano de casa .
À noite , jantámos os três num restaurante marroquino da Rue des
Écoles . Jean-Yves tinha a barba por fazer, mexia muito a cabeça e
parecia inchado . «Tenho a impressão de que começou a beber» , tinha
dito Valérie dentro do táxi . «Passou umas férias horríveis com a mu­
lher e os filhos na ilha de Ré . Devia estar quinze dias , mas voltou ao
fim de uma semana. Disse-me que não conseguia suportar os amigos
de Audrey.»
Efetivamente , as coisas com ele não andavam bem: não tocou no
prato de guisado , mas serviu-se várias vezes de vinho . «E pronto ! » ,
disse e m tom sardónico , «aí está, estamos a ficar cada vez mais lin-
dos ! . . . » Abanou a cabeça e bebeu outro copo de vinho . «Peço des-
culpa . . . » , disse com ar abatido , «não tenho o direito de estar com
estas coisas .» Pôs as mãos ligeiramente trémulas sobre a mesa e
aguardou uns segundos; o tremor diminuiu um pouco . Depois , olhou
Valérie diretamente nos olhos .
- Soubeste o que aconteceu a Marylise?
- Marylise Le François? Não , nem sequer a vi . Está doente?
- Doente propriamente , não . Esteve três dias hospitalizada sob o
efeito de calmantes , mas não está doente . Acontece que , ao regressar
a casa na quarta-feira passada, foi agredida e violada, no comboio
para Paris .
Marylise voltou ao trabalho na segunda-feira a seguir ao inciden­
te . Era óbvio que o seu sistema nervoso tinha sido muito afetado ; os
seus gestos eram mais lentos , quase mecânicos . Contava sem dificul­
dade o que lhe acontecera, de uma forma demasiado fácil , pouco
natural : tinha um ar neutro , uma expressão rígida e inexpressiva,
dando a impressão de falar maquinalmente de tudo aquilo . Nesse dia,
ao sair do trabalho às 22 horas e 15 minutos , decidira apanhar o
comboio das 22: 2 1 , por lhe parecer mais rápido do que ficar à espe­
ra de um táxi . A carruagem ia quase vazia. Apareceram quatro tipos ,
vieram para junto dela e começaram imediatamente a insultá-la.
Plataforma 1 57

Tanto quanto percebeu , seriam originários das Antilhas . Tentou argu­


mentar e gracejar um pouco com eles; em resposta, levou um par de
estaladas que a deixaram meio zonza . Depois atiraram-se a ela e dois
deles imobilizaram-na no chão . A seguir, começaram a penetrá-la à
bruta, em todos os orifícios do corpo . De cada vez que tentava emitir
algum pequeno som , levava mais um murro ou mais um par de esta­
ladas . Tudo isto durante muito tempo , entre várias paragens do com­
boio; os passageiros desciam e, cautelosamente , mudavam de com­
partimento . Entretanto , os tipos revezavam-se para a violar, por entre
chacotas e insultos , chamando-lhe cabrona e puta de merda. Na par­
te final , já não havia ninguém na carruagem . Acabaram por lhe es­
carrar e mijar para cima, reunidos em círculo à sua volta, empur­
rando-a depois a pontapé para debaixo de um banco , e descendo
calmamente na estação de Lyon . Dois minutos depois , os primeiros
passageiros que apareceram chamaram a polícia, que surgiu quase de
seguida. O comissário não parecia muito surpreendido ; segundo ele ,
Marylise tinha tido sorte . Acontecia muitas vezes que , depois de se
servirem das mulheres , os tipos acabavam por lhes enfiar um sarrafo
com pregos na vagina ou no ânus . Aquela linha férrea era considera­
da muito perigosa .
No grupo Aurore , uma nota interna aconselhou os empregados a
tomarem as precauções habituais , insistindo na possibilidade de uti­
lizarem os táxis postos à sua disposição quando trabalhavam até
tarde , sendo essas despesas suportadas pela empresa. E a patrulha de
«seguranças» que vigiava os locais de trabalho e o parque de estacio­
namento foi reforçada .
À noitinha , Jean-Yves deu boleia a Valérie , que tinha o carro na
oficina . Ao sair do escritório , olhou atentamente para a caótica dis­
posição de moradias , centros comerciais , vias e rotundas existentes
em redor. No horizonte , ao longe , uma nuvem de poluição tingia
estranhamente o pôr do sol com tons verdes e violeta. «É curioso» ,
disse ele , «estamos aqui dentro da empresa como animais de carga
bem alimentados . Lá fora, há predadores e vida selvagem . Quando
fui a S ão Paulo , compreendi como tudo isto pode chegar ao extremo .
Em S ão Paulo não existe propriamente uma cidade ; é mais uma es­
pécie de território urbano que se estende a perder de vista, com fave­
las , edifícios gigantescos e residências luxuosas rodeadas de guardas
158 Michel Houellebecq

armados até aos dentes . Em toda a cidade , há mais de vinte milhões


de habitantes, a maior parte dos quais nasce , vive e morre sem nunca
sair dos limites do seu território . As ruas são de tal modo perigosas
que , mesmo dentro de um automóvel , se pode ser assaltado num si­
nal vermelho ou ser apanhado por um bando motorizado: entre estes,
os mais bem equipados têm metralhadoras e lança-granadas . Para se
deslocarem , os homens de negócios e as pessoas ricas servem-se
quase exclusivamente de helicópteros ; há pistas de aterragem prati­
camente em toda a parte , no topo dos edifícios dos bancos ou dos
prédios de habitação . Ao nível do solo , a rua é abandonada aos po­
bres - e aos gangsters .»
E ao entrar na autoestrada do Sul , acrescentou : «Neste momento ,
tenho muitas dúvidas . Tenho cada vez mais dúvidas sobre o mundo
que estamos a construir.»

Alguns dias depois , Jean-Yves veio com uma conversa seme­


lhante . Depois de parar o carro na Avenue Choisy, acendeu um ci­
garro , ficou calado durante algum tempo , após o que se virou para
Valérie:
- Estou muito preocupado com a Marylise . . . Os médicos
disseram-lhe que podia voltar ao trabalho , e é verdade que , num
certo sentido , está normal e não tem crises . Mas não toma a mais
pequena iniciativa, está completamente bloqueada . De cada vez que
tem de tomar uma decisão , vem falar comigo; e se eu não estiver, é
capaz de ficar horas à espera, sem mexer uma palha . Para uma res­
ponsável da área da comunicação , não pode ser; não podemos conti­
nuar assim .
- Não a vais despedir? !
Jean-Yves esmagou o cigarro e ficou a olhar durante muito tempo
para rua e a apertar o volante com as mãos . Estava cada vez mais
tenso e perturbado; Valérie reparou que tinha algumas nódoas no
fato .
- Não sei - disse por fim, suspirando fundo . - Nunca tive de
fazer uma coisa dessas . Despedi-la não , era muito desagradável ; mas
é preciso pô-la noutro lugar, onde tenha de tomar menos decisões e
contactar com menos pessoas . Para mais , depois do que lhe aconte-
Plataforma 1 59

ceu , ficou com tendência para atitudes racistas . É normal ,


compreende-se perfeitamente , mas em turismo não pode ser. Na
nossa publicidade , nos catálogos , em tudo o que está relacionado
com comunicação , os nativos são sempre apresentados como pesso­
as calorosas , abertas e acolhedoras . Não pode ser de outra maneira:
é uma questão de dever profissional .
No dia seguinte Jean-Yves abordou o assunto com Leguen , um
homem menos dado a contemplações ; uma semana depois , Marylise
foi transferida para os serviços de contabilidade , em substituição de
uma empregada que acabara de se reformar. Agora era preciso en­
contrar um novo responsável para a área da comunicação . Jean-Yves
e Valérie encarregaram-se de entrevistar os candidatos . Depois de
uma dezena de entrevistas , jantaram juntos no restaurante da empre­
sa para falarem sobre o assunto .
- Estava tentada a contratar o Noureddine - disse Valérie . -
Tem muito talento e já trabalhou em muitos projetas diferente s .
- S i m , é o melhor; mas tenho a impressão d e que tem qualifica­
ções a mais para o lugar. Não o imagino na área da comunicação de
uma empresa de viagens ; talvez antes numa coisa mais prestigiada ,
mais arty . Vai aborrecer-se num trabalho destes, não se consegue
aguentar. Para nós , a pessoa ideal deve estar no meio da tabela. Além
disso , Noureddine é filho de emigrantes do Norte de África , o que
pode levantar problemas . No nosso trabalho , utilizamos muitos
lugares-comuns e frases feitas sobre os países árabes : hospitalidade ,
chá de hortelã, cavalgadas no deserto , beduínos , etc . Já percebi que
estes jovens não gostam de ouvir falar dessas coisas ; têm uma certa
dificuldade em aceitar os países árabes em geral .
- Sendo assim, temos discriminação nas contratações - disse
Valérie em ar de troça.
- Não sejas idiota ! - disse Jean-Yves meio zangado ; efetiva­
mente , depois das férias estava cada vez mais tenso , começava a
perder o sentido de humor. - Toda a gente faz discriminação ! -
prosseguiu em voz forte; as pessoas da mesa ao lado viraram-se para
ele . - As origens das pessoas fazem parte das suas personalidades,
é óbvio que têm de ser levadas em conta . Se fosse para negociar com
operadores dos locais onde trabalhamos , era perfeitamente capaz de
empregar aqui um tunisino ou um marroquino - mesmo mais recen-
1 60 Michel Houellebecq

te do que Noureddine . No fundo , são tipos que pertencem a dois


mundos , e por isso são mais fortes , o interlocutor está sempre em
desvantagem. Para mais , gozam da fama de ter triunfado em França ,
os operadores africanos e asiáticos respeitam-nos logo ao primeiro
contacto , têm a impressão de que não vão ser enganados . Os melho­
res negociadores que tive até hoje foram sempre pessoas dessas . Mas
para este lugar, estou mais tentado em admitir a Brigit .
- A dinamarquesa?
- Sim. Tem também muito bons conhecimentos de artes gráficas .
E é antirracista . . . julgo que vive com um tipo da Jamaica, é uma
fulana meio tonta, entusiasta por tudo o que cheire a exotismo . Pare­
ce não estar interessada em ter filhos para já. Em suma, tenho a im­
pressão de que é a pessoa com o perfil adequado .
Talvez houvesse outra explicação , e Valérie percebeu tudo me­
lhor quando , alguns dias mais tarde , surpreendeu um gesto de ternu­
ra de Brigit para Jean-Yves , pondo-lhe a mão em cima do ombro .
«Sim é verdade , tens toda a razão , o meu caso está cada vez mais
complicado . . . » , confirmou ele quando estavam a tomar um café .
«Agora também faço assédio sexual n o local de trabalho . . . Bem,
houve coisas que aconteceram , mas só duas ou três vezes , de qual­
quer modo ela tem outra pessoa .» Valérie olhou rapidamente para
ele . Estava a precisar de cortar o cabelo , sentia-se que andava des­
cuidado . «Não te censuro . . . » disse-lhe . Intelectualmente , Jean-Yves
não perdera o vigor, continuava a ser capaz de captar o essencial das
questões e do comportamento das pessoas , mantendo uma fina in­
tuição em matéria de finanças ; mas parecia cada vez mais um ho­
mem infeliz e à deriva.

Os questionários preenchidos pelos primeiros clientes começaram


a ser analisados; a percentagem de retorno tinha sido elevada, graças
ao anúncio do sorteio de uma semana de férias entre os cinquenta
primeiros a responder. À primeira vista, as razões para a quebra do
Eldorador «fórmula normal» eram difíceis de interpretar. Os clientes
diziam-se satisfeitos com os locais e os alojamentos , satisfeitos com
os restaurantes , satisfeitos com as atividades e com os desportos
existentes: contudo , voltavam cada vez em menor número .
Plataforma 161

Por sorte , Valérie deu de caras com u m artigo da Tourisme Hebdo


em que se analisavam os novos interesses dos consumidores . O autor
seguia o modelo de Holbrook e Hirschman , assente na emoção senti­
da pelo consumidor face a um produto ou serviço; mas as conclusões
não traziam novidade nenhuma. Os novos consumidores eram descri­
tos como menos previsíveis , mais ecléticos , mais lúdicos e com mais
preocupações humanitárias . Já não consumiam para «parecer» mas
para «ser» ; logo , com mais serenidade . Comiam de uma forma mais
equilibrada, tinham mais atenção com a saúde ; preocupavam-se um
pouco mais com os outros e com o futuro . Exigiam o direito à infide­
lidade , por curiosidade e espírito eclético; preferiam o sólido , o durá­
vel , o autêntico . Manifestavam exigências éticas: logo , mais solida­
riedade , etc . Tudo aquilo já ela lera centenas de vezes , sociólogos e
psicólogos do comportamento repetiam as mesmas palavras em todos
os artigos e em todos os órgãos de informação . De resto , tudo aquilo
fora tido em conta. As aldeias Eldorador eram construídas com mate­
riais tradicionais e obedeciam à arquitetura das regiões . As ementas
dos self-services eram equilibradas , continham uma grande quantida­
de de fruta e vegetais crus , acompanhando a dieta mediterrânica.
Entre as atividades existente s , havia ioga, sofrologia e tai-chi-chuan .
O grupo Aurore assinara a Carta do Turismo Ético e fazia doações
regulares ao World Wide Fund for Nature . Nada do que constava do
artigo era suficiente para justificar o declínio das marcações .
- O que e u acho é que as pessoas mentem - disse Jean-Yves
depois de ler pela segunda vez o relatório-síntese da análise aos
questionários . - As pessoas afirmam-se satisfeitas , põem a cruzinha
no quadradinho do «Bom» , mas a verdade é que se aborrecem duran­
te as férias , e sentem-se demasiado culpadas para o admitir. Vou
acabar por vender todos os clubes que não possam ser adaptados à
fórmula «Descoberta» e não tenham possibilidades de fazer parte do
grupo das férias ativas , com viagens em jipes 4x4 , passeios de balão ,
churrascos de carneiro no deserto , cruzeiros em catamarãs , mergu­
lho , rafting , etc .
- Olha que já há muito oferta nesse mercado . . .
- Pois há - admitiu ele desanimado .
- Devíamos passar uma semana num desses clubes , mas incóg-
nitos e sem nenhum objetivo concreto . Só para apreciar o ambiente .
1 62 Michel Houellebecq

- De acordo . Jean- Yves endireitou-se na poltrona e pegou


numa série de folhas . - É preciso ver os que apresentam os piores
resultados . - Foi passando rapidamente as folhas . - Olha, Djerba
e Monastir são uma desgraça; em todo o caso , acho que vou deixar
cair a Tunísia. Existem j á muitas construções , e a concorrência
prepara-se para baixar os preços até níveis impensávei s ; tendo em
conta a nossa posição , nunca poderemos acompanhar os preços
deles .
- Tens alguma oferta de compra?
- Tenho . Curiosamente , a empresa Neckermann está interessada .
Querem lançar-se junto da clientela dos ex-países de Leste : Checos­
lováquia, Hungria, Polónia . . . Pensam trabalhar um turismo de gama
mais baixa , mas a Costa Brava encontra-se completamente saturada.
Também estão interessados no nosso clube em Agadir, oferecem um
preço razoável . Estou tentado a fazer negócio com eles; apesar de
estar no Sul de Marrocos , Agadir não tem avançado nada, parece-me
que as pessoas continuam a preferir Marraquexe .
- E no entanto , Marraquexe não vale nada.
- Também é a minha opinião . . . O curioso é que em Sharm-el-
-Sheik as coisas também não correm bem . Apesar de haver atóis , os
mais belos fundos de coral em todo o mundo , passeios no deserto do
Sinai . . .
- Está bem , mas é no Egito .
- E depois? . . .
- Tenho a impressão de que ainda ninguém se esqueceu do aten-
tado em Luxor, em 1 997 . Houve cinquenta e oito morto s . A única
maneira de vender Sharm-el-Sheik é retirar-lhe a menção «Egito» .
- E que nome lhe queres pôr?
- Não sei , «Mar Vermelho» , por exemplo .
- OK , pode ser «Mar Vermelho» . - Depois de tomar nota, reco-
meçou a ver as folhas . - A África vai andando bem . . . Tem piada.
Cuba corre muito mal . Apesar da moda da música cubana, da cultura
latina , etc . São Domingos , por exemplo , está sempre cheio . - De­
pois de consultar a descrição do clube cubano , Jean-Yves acrescen­
tou : - O hotel de Guardalavaca é recente e pratica os preços nor­
mais do mercado . Não é informal nem familiar em demasia. «Ao
ritmo frenético da salsa, venha viver a magia das noites cubanas . . . »
Plataforma 1 63

A verdade é que apresenta uma quebra de quinze por cento . Acho


que poderíamos ir até lá; ou então ao Egito .
- Vamos onde quisere s , Jean-Yves - respondeu Valérie calma­
mente . - Mas , seja como for, fazia-te bem ires sem a tua mulher.

O mês de agosto acabara de instalar-se em Paris; os dias estavam


quentes , às vezes quase escaldante s , mas o bom tempo não se aguen­
tava: ao fim de um dia ou dois , vinha uma tempestade e o ar arrefecia
de um momento para o outro . Em seguida brilhava novamente o Sol ,
fazendo subir o mercúrio dos termómetros e os índices de poluição .
Em boa verdade , nada disso me interessava especialmente . Depois
de travar conhecimento com Valérie , deixara de frequentar peep­
-shows ; por outro lado , há muito que renunciara também à aventura
urbana . Para mim , Paris nunca tinha sido uma festa , e não havia
nenhuma razão para que viesse a sê-lo . Há dez ou quinze anos , po­
rém , quando da minha entrada para o Ministério da Cultura, tinha
frequentado bares e boftes altamente conceituados; mas , desse tem­
po , apenas conservava uma angústia ligeira e persistente . Não tinha
nada para dizer e sentia-me absolutamente incapaz de manter uma
conversa com alguém; também não sabia dançar. Foi assim que co­
mecei a tornar-me alcoólico . Nessa altura, só o álcool não me desi­
ludia, era o grande apoio da minha vida fosse em que circunstâncias
fosse . Ao fim de uma dezena de copos de gin tónico , cheguei a con­
seguir - embora raramente , umas quatro ou cinco vezes ao todo
- a energia necessária para convencer uma mulher a ir comigo para
a cama . Regra geral , dava mau resultado: perdia o tesão e adormecia
quase imediatamente . Mais tarde , descobri a existência do Viagra ;
combinado com o álcool , perdia muito da sua eficácia; mas reforçan­
do as doses chegava a dar resultado . Fosse como fosse , era gastar
cera para ruim defunto . A verdade é que , antes de Valérie , nunca ti­
nha encontrado ninguém que chegasse aos calcanhares das prostitu­
tas tailandesas ; ou talvez tivesse chegado a sentir alguma coisa nos
tempos de juventude , com raparigas de dezasseis ou dezassete anos
de idade . Mas nos meios intelectuais que frequentava em adulto , era
uma desgraça completa . Aí, as mulheres não têm o mais pequeno
interesse pelo sexo , só lhes interessa seduzir - e, mesmo assim ,
1 64 Michel Houellebecq

fazem-no de uma forma elitista, trash , deslocada, sem erotismo ne­


nhum . Na cama, eram absolutamente incapazes do que quer que
fosse . Ou então era preciso aturar-lhes as fantasias , as suas encena­
ções fastidiosas e kitsch , cuj a lembrança era suficiente para me de­
sencorajar. É verdade que adoravam falar de sexo , quase não eram
capazes de falar de outra coisa, aliás ; mas não havia nelas a verda­
deira inocência da sensualidade . Os homens , de resto , também não
eram melhores: de qualquer maneira, trata-se de uma tradição fran­
cesa - falar de sexo a toda a hora e não fazer sexo nenhum; mas a
situação começava a perturbar-me seriamente .

Na vida tudo pode acontecer, mas também pode não acontecer


absolutamente nada. Mas desta vez acontecera uma coisa real na
minha vida: tinha encontrado uma amante , e essa amante fazia-me
feliz . O nosso mês de agosto foi muito tranquilo . Espitalier, Leguen
e quase todos os administradores do grupo Aurore estavam de férias .
Valérie e Jean-Yves tinham concordado em adiar as decisões impor­
tantes para depois da viagem a Cuba, em princípios de setembro ;
naquele momento , vivia-se uma pausa, um período de acalmia . Jean­
-Yves andava um pouco melhor.
- Decidiu-se finalmente a ir às putas - disse-me Valérie . - Já
devia ter ido há mais tempo . Agora bebe menos e anda mais calmo .
- Mas olha que , tanto quanto eu me lembro , as putas também não
são grande solução .
- Sim, mas aqui o caso é diferente , são contactos feitos através
da Internet . Raparigas novas , estudantes na maior parte dos casos .
Vão com pouca gente , fazem a sua escolha, não o fazem só por di­
nheiro . Segundo ele , é um esquema que funciona bem . Se quiseres ,
podemos experimentar. Uma rapariga bissexual para nós os doi s ,
acho que qualquer tipo gosta; e e u também, também gosto muito de
raparigas .
Nesse verão , nunca o chegámos a fazer; mas o facto de ser ela a
falar nisso era muitíssimo excitante . Por mim , sentia-me cheio de
sorte . Valérie conhecia as diferentes formas de manter o desejo de
um homem, embora não indefinidamente , isso é impossível , mas
digamos que conseguia manter o desejo num nível suficiente para se
Plataforma 1 65

poder fazer amor de vez em quando , até que tudo terminasse . Em


boa verdade , as coisas que sabia nem sequer eram difíceis , eram até
muito fáceis , muito fáceis e simples; mas adorava fazê-las , tinha
prazer nisso , gozava quando via crescer o desejo nos meus olhos . Em
pleno restaurante , acontecia muitas vezes voltar da casa de banho e
pôr em cima da mesa as calcinhas acabadas de tirar. Nessas alturas ,
metia-me a mão entre as pernas para se aproveitar da minha ereção .
Às vezes , desabotoava-me a braguilha e masturbava-me por debaixo
da mesa. Fazia a mesma coisa de manhã, acordando-me com uma
felação , enquanto me dava uma chávena de café e voltava a mamar­
-me um bocadinho , e eu sentia-me percorrido por vertiginosos im­
pulsos de doçura e de reconhecimento . Depois , sabia parar antes da
minha ejaculação , mantendo-me assim durante muito tempo . Eu vi­
via então no interior desse jogo , um jogo excitante e temo , o único
jogo que resta quando se é adulto ; e assim atravessei um universo
cheio de desejos simples e momentos de prazer ilimitado .
7

Em finais de agosto , o agente imobiliário de Cherbourg telefonou


a dizer que tinha encontrado um comprador para a casa do meu pai .
A pessoa em causa queria um pequeno abatimento no preço , mas
estava disposta a pagar a pronto . Aceitei imediatamente . Muito em
breve , ia ficar com mais de um milhão de francos . Nessa altura , es­
tava a trabalhar no orçamento de uma exposição itinerante , consti­
tuída por rãs em cima de cartas de jogar expostas num espaço fecha­
do e pavimentado com mosaicos - em alguns dos quais se
encontravam gravados os nomes de grandes figuras históricas , como
Dürer, Einstein ou Miguel Ângelo . A verba mais importante do orça­
mento dizia respeito à aquisição das cartas , que era preciso substituir
frequentemente ; de vez em quando , havia também que substituir as
rãs . Pelo menos em Pari s , o artista pretendia que as cartas fossem do
tarot; na província , dispunha-se a aceitar cartas normais . No princí­
pio de setembro , decidi passar uma semana em Cuba com Jean-Yves
e Valérie . Tinha a intenção de pagar a minha viagem , mas Valérie
disse-me que tratava disso com a empresa.
- Por mim , não quero perturbar o vosso trabalho . . . - prometi eu .
- A verdade é que não vamos propriamente trabalhar, temos de
nos comportar como turistas normais . Vamos fazer uma coisa sim­
ples mas muito importante : tentar ver o que não funciona, qual a
razão para a falta de ambiente no clube e para o facto de as pessoas ,
no regresso , não virem satisfeitas com as férias . Não incomodas na­
da; antes pelo contrário , podes até ser muito útil .
Plataforma 1 67

* * *

Apanhámos o avião para Santiago de Cuba a 5 de setembro , uma


quarta-feira a meio da tarde . Jean-Yves não tinha sido capaz de pres­
cindir do computador portátil ; apesar disso , tinha um ar repousado
no seu polo azul-claro e estava disposto a gozar férias . Pouco depois
da descolagem , Valérie pôs-me a mão na coxa; descontraiu-se e fe­
chou os olhos . «Não me vou preocupar; vamos acabar por descobrir
alguma coisa . . . » tinha-me dito ela na altura do embarque .
Depois de sairmos do aeroporto , o transfert durou duas horas e
meia. «Primeiro ponto negativo» , observou Valérie , «é preciso ver se
não haverá um voo até Holguin.» No autocarro , duas senhoras pe­
queninas sexagenárias de cabelo cinzento-azulado que iam à nossa
frente tagarelavam incessantemente , apontando uma à outra os por­
menores mais interessantes do percurso: homens a cortar cana-de­
-açúcar, um abutre a planar sobre a pradaria , dois bois a entrar no
estábulo . . . Tinham ar de pessoas dispostas a interessar-se por tudo ,
e pareciam rijas e resistentes; fiquei com a impressão de que não
seriam clientes fáceis . Efetivamente , na altura da distribuição dos
quartos , a tagarela A queria à viva força ficar no quarto ao lado da
tagarela B . Como o pedido não estava previsto e a rececionista não
compreendia nada, foi preciso chamar o responsável do aldeamento .
Quando chegou , viu-se que era um homem de trinta anos , com cabe­
ça de carneiro , ar obstinado , rugas de preocupação na testa pequena,
parecidíssimo com Nagui 1 0 . «Calma , não problema» , disse ele assim
que lhe explicaram a questão , «calma , não há problema, minha cara
senhora . Para esta noite é impossível , mas amanhã há gente a sair,
mudamos de quarto , tudo bem .»
Um bagageiro foi connosco até ao bungalow com vista para a
praia, ligou o ar condicionado e retirou-se com um dólar de gorjeta
no bolso . «E pronto . . . » , disse Valérie sentando-se na cama . «As re­
feições são servidas em buffet, na modalidade de tudo incluído , que
engloba snacks e cocktails . A discoteca abre às 23 horas . Paga-se um
suplemento para as massagens e as iluminações noturnas dos campos
de ténis .» O objetivo das empresas ligadas ao turismo consiste em
dar felicidade às pessoas , mediante uma certa tarifa , durante um cer­
to tempo . A tarefa pode revelar-se fácil ou difícil , de acordo com a
1 68 Michel Houellebecq

natureza das pessoas , os serviços prestados e uma série de outros


fatores . Valérie tirou as calças e a camisa. Eu deitei-me na cama do
lado . Os órgãos sexuais existem como fonte permanente e disponível
de prazer. O deus que tratou da nossa infelicidade , que nos fez assim
efémeros , vãos e cruéis , previu igualmente esta frágil compensação .
S e , de vez em quando , não houvesse um pouco de sexo , para que
serviria a vida? Um inútil combate contra a formação de anquiloses
nas articulações e de cáries nos dentes . Ainda por cima , tudo coisas
sem o mais pequeno interesse - o endurecimento das fibras de co­
lagénio , a formação de cavidades microbianas nas gengivas . Valérie
abriu as coxas mesmo em frente da minha cara . Trazia uma tanga
pequena, uma espécie de «fio dental» cor de malva . Afastei-lhe o slip
e molhei os dedos para lhe acariciar os grandes lábios . Por seu lado ,
ela abriu-me as calças e pegou-me no sexo com a mão . Depois , co­
meçou a acariciar-me os tomates devagarinho , sem precipitações .
Puxei uma almofada para ficar com a boca à altura d a ratinha dela.
Nesse momento , vi uma empregada de quarto a varrer a areia do
terraço . As cortinas estavam abertas , tal como a grande varanda en­
vidraçada. Ao cruzar o seu olhar com o meu , a rapariga desatou a rir.
Valérie levantou a cabeça e fez-lhe sinal para se aproximar. A rapa­
riga ficou no mesmo sítio , hesitante , encostada à vassoura. Valérie
levantou-se , aproximou-se dela e estendeu as mãos na sua direção .
Logo que entrou , a jovem começou a desabotoar a bata: com exceção
de umas cuequinhas brancas , não tinha nada por baixo; teria talvez
uns vinte anos , e o corpo era castanho , quase negro , com um peito
pequeno e firme , e coxas redondas . Valérie fechou as cortinas ;
levantei-me também . A rapariga chamava-se Margarita . A minha
companheira pegou-lhe na mão e pô-la em cima do meu sexo . Mar­
garita riu-se novamente , mas começou a masturbar-me . Valérie
libertou-se rapidamente das cuecas e do soutien , deitou-se na cama e
começou a acariciar-se . Margarita teve ainda um instante de hesita­
ção , depois tirou também as calcinhas e ajoelhou-se entre as coxas
da outra . Começou por olhar-lhe para a ratinha , acariciando-a com a
mão , depois aproximou a boca e começou a lambê-la. Valérie
segurou-lhe a cabeça com uma mão , para a encaminhar, ao mesmo
tempo que me masturbava com a outra. Senti que me ia vir; afastei­
-me e fui procurar um preservativo no meu estojo de toilette . Estava
Plataforma 1 69

tão excitado que não conseguia encontrá-lo nem enfiá-lo convenien­


temente , como se tivesse a vista embaciada. O traseiro da negrinha
ondulava à medida que se debruçava e se erguia sobre o púbis de
Valérie . Penetrei-a então até ao fundo de uma só vez; tinha a ratinha
aberta como um fruto . A negra ia gemendo baixinho e empurrando
as coxas contra mim . Nessa altura, comecei a andar para baixo e
para cima doidamente dentro dela, enquanto sentia a cabeça à roda e
o corpo atravessado por espasmos de prazer. A noite caía, já quase
não se via nada dentro da sala. Cada vez mais fundos , como se vies­
sem de muito longe , de outro mundo , ouviam-se os arquejos de Va­
lérie que iam aumentando . Puxei as ancas de Margarita para mim
com toda a força e penetrei-a loucamente , sem tentar controlar a
ejaculação . E quando Valérie se veio soltando um grito , vim-me
também nesse mesmo instante . Durante uns segundos , julguei flutu­
ar no espaço , liberto do meu próprio peso . A seguir, voltei a sentir o
peso do meu corpo e fiquei prostrado instantaneamente . Depois , caí
redondo na cama entre os braços delas .

Mais tarde , apercebi-me confusamente de Margarita a vestir-se e


de Valérie a remexer num saco , em busca de alguma coisa para lhe
dar. Beijaram-se à saída da porta; lá fora , era noite cerrada . «Dei-lhe
quarenta dólares . . . » , disse Valérie quando se deitou outra vez a meu
lado . «É o preço habitual para os ocidentais . Para ela, representa o
salário de um mês de trabalho .» Acendeu a luz da mesa de cabeceira .
Havia silhuetas que sobressaíam nas cortinas das janelas , como som­
bras chinesas , e o som de gente a falar lá fora . Pus a mão no ombro
de Valérie .
- Foi bom - disse eu , entre maravilhado e incrédulo . - Foi
muito bom .
- Pois foi , a rapariga era muito sensual . Também me lambeu
muito bem .
- É estranha, esta coisa do preço do sexo - continuei ainda he­
sitante . - Tenho a impressão de que não depende assim tanto do
nível de vida de cada terra. É óbvio que em cada país se obtêm coisas
diferentes; mas o preço-base é quase sempre o mesmo: aquele que os
ocidentais estão dispostos a pagar.
- Achas que é a isso que chamam de economia da oferta?
1 70 Michel Houellebecq

- Não sei nada sobre isso - disse eu abanando a cabeça .


Nunca percebi nada d e economia; é uma espécie d e bloqueio .

Sentia-me com fome , mas o restaurante só abria às oito horas da


noite ; enquanto assistia a uma sessão de jogos de aperitivos, bebi três
pifíacolada no bar; o efeito do orgasmo ia-se dissipando lentamente ,
estava um bocado partido e tinha a vaga sensação de que , vistos as­
sim ao longe , os animadores eram todos parecidos com Nagui . Mas
não , havia uns bastante mais novos , embora todos eles tivessem
qualquer coisa esquisita: cabeça rapada, barbichas ou tranças no ca­
belo . Davam berros pavorosos e, de vez em quando , iam buscar al­
guém da assistência para subir ao palco . Felizmente , estava longe de
mais para isso me poder acontecer.
O gerente do bar era uma desgraça completa , não estava ali para
fazer nada de nada: de cada vez que eu precisava de alguma coisa,
remetia-me simplesmente para os empregados , num gesto de despre­
zo; com as suas cicatrizes e a sua barriguinha redonda, assemelhava­
-se vagamente a um antigo torero . Tinha uma tanga de banho ama­
rela que lhe moldava completamente o sexo; era bem abonado e
fazia questão de o mostrar. Quando voltei à mesa, depois de conse­
guir, com extrema dificuldade , o meu quarto cocktail, vi que o ho­
mem se aproximava de uma das mesas ao lado , ocupada por um
compacto grupo de cinquentonas do Quebeque . Eu tinha reparado
nelas à chegada , eram atarracadas e resistentes , todas dentes e gor­
dura , e falavam incrivelmente alto; percebia-se facilmente que ti­
nham enterrado os maridos cedo . Por mim , sentia que não seria bom
passar-lhes à frente na bicha do self-service ou escolher uma taça de
cereais de que tivessem gostado . Assim que o antigo matador se
aproximou , deitaram-lhe olhares derretidos , quase passando a
comportar-se como mulheres normais . O homem pavoneou-se um
bom bocado em frente delas , enquanto acentuava a sua obscenidade
puxando e repuxando a tanga para cima e para baixo , para que se
assegurassem da materialidade do seu instrumento de três peças . As
cinquentonas estavam literalmente maravilhadas ; os seus velhos
corpos usados tinham ainda necessidade de algum calor. O homem
representava na perfeição , falando-lhes ao ouvido em voz baixa e
Plataforma 171

chamando-lhes «mi corazón» ou «mi amor» , à maneira cubana. É


verdade que não passava daí; limitava-se a suscitar uns derradeiros
estremecimentos naquelas velhas ratas ; mas era talvez o bastante
para ficarem com a impressão de ter passado umas férias excelentes ,
e recomendarem depois o clube às amigas ; num sítio assim , teriam
ainda uns bons vinte anos de boa vida. Foi nessa altura que lancei as
bases de um filme de pornografia social intitulado A Ponta dos Re­
formados . No argumento , havia dois gangs que operavam em clubes
de férias: um de reformados italianos e outro de reformadas quebe­
quenses . Armados com bastões de karaté e picadores de gelo , cada
um dos grupos cometia as maiores atrocidades sobre uma série de
jovens adolescentes , nus e bronzeados . Com a maior naturalidade ,
acabavam por se encontrar num veleiro do Club Med ; rapidamente
dominados, os membros da tripulação eram violados uns a seguir aos
outros e deitados depois pela borda fora, numa operação a cargo das
velhas quebequenses , ébrias de sangue . O filme acabava com velhos
e velhas numa gigantesca orgia, enquanto o barco , de amarras que­
bradas , vogava em direção ao polo Sul .

Por fim , Valérie veio ter comigo: estava maquilhada e trazia um


vestido branco , curto e transparente; senti que continuava a desejá­
-la. Encontrámos Jean-Yves no buffet. Tinha um ar mais repousado ,
quase lânguido ; com uma certa lassidão , transmitiu-nos as suas pri­
meiras impressões . O quarto não era mau , mas a animação parecia­
-lhe exagerada. A instalação sonora era quase insuportável . A comida
também não era grande coisa, acrescentou olhando criticamente para
o seu pedaço de frango assado . No entanto , toda a gente se servia e
repetia mais do que uma vez; especialmente os reformados , cuja
espantosa voracidade dava a impressão de que teriam passado a tarde
a praticar desportos náuticos ou beach volley . «Comem ininterrupta­
mente . . . » , comentou Jean- Yves resignado . «Mas também que outra
coisa é que poderão fazer?»
Depois do jantar houve um espetáculo em que o público era outra
vez chamado a participar. Uma mulher dos seus cinquenta anos
lançou-se numa interpretação , em karaoke , da canção Bang-bang , de
Sheila. Era preciso ter coragem; no final , recebeu uns quantos aplau-
1 72 Michel Houellebecq

sos . No conjunto , o show era também praticamente assegurado pelos


animadores . Jean-Yves parecia prestes a adormecer; Valérie sorvia
calmamente o seu cocktail. Olhei para a mesa do lado . As pessoas
tinham ar de se enfadarem um pouco , mas , delicadamente , não dei­
xavam de aplaudir no final de cada atuação . As causas das quebras
nestes clubes não me pareciam difíceis de perceber; estavam à vista
de toda a gente . A clientela era maioritariamente formada por sénio­
res e adultos de uma certa idade , mas a equipa de animação tentava
conduzi-los a uma felicidade que eles já não conseguiam sentir, pelo
menos , daquela maneira . Valérie , Jean-Yves e eu próprio , todos nós
tínhamos responsabilidades profissionais na vida real; éramos em­
pregados respeitados e sérios , todos nós tínhamos os nossos proble­
mas - sem falar em impostos, questões de saúde e muitas outras
coisas . Quase todas as pessoas sentadas nas mesas em volta estavam
na mesma situação: havia quadros técnicos , professores , médicos ,
engenheiro s , economistas , etc . ; ou então reformados que tinham
exercido essas mesmas atividades profissionais . Por isso , não me era
fácil entender a razão por que os animadores esperavam que reagís­
semos entusiasticamente a coisas como noites de contacto ou festi­
vais da canção . Não via como , na nossa idade e na nossa posição ,
poderíamos ter dentro de nós um espírito de festa . Quando muito ,
tratava-se de formas de animação concebidas para menores de cator­
ze anos .
Tentei transmitir a Valérie algumas dessas reflexões , mas o anima­
dor recomeçou a falar com o microfone encostado à boca, e fazia
uma barulheira pavorosa. Naquela altura, tentava uma improvisação
inspirada em Lagaf, ou talvez em Laurent Baffie ; fosse como fosse ,
marchava ao som de palmas e era acompanhado por uma rapariga
mascarada de pinguim , que se ria de tudo o que ele dizia. O espetá­
colo terminou com a dança típica do clube , seguida dos crazy signs;
na primeira fila, algumas pessoas levantaram-se e balancearam-se
sem grande convicção . A meu lado , Jean-Yves disfarçou um bocejo
de enfado e propôs : «Vamos até à discoteca?»

Embora houvesse cerca de cinquenta pessoas na discoteca, apenas


os animadores estavam a dançar. O DJ ia passando alternadamente
Plataforma 1 73

salsas e música tecno . Por fim , alguns casais de meia-idade tentaram


dançar a salsa. Batendo palmas , o animador andava por entre eles , na
pista, a gritar: «Caliente! Caliente!» ; pessoalmente , fiquei com a
impressão de que as pessoas se incomodavam com a intromissão do
jovem. Sentei-me no bar e pedi uma pifiacolada . Dois cocktails mais
tarde , Valérie deu-me uma cotovelada e disse-me ao ouvido ,
referindo-se a Jean-Yves : «Acho que o podemos deixar por aqui . . . . »
De facto , estava a falar com uma bela rapariga de uns trinta anos ,
provavelmente italiana . Ombro contra ombro , encostadinhos e de
olhos nos olhos .
A noite estava húmida e cálida . Valérie deu-me o braço . A música
da discoteca ia desaparecendo ao longe . Ouvia-se o zumbido dos
walkies-talkies dos guardas que patrulhavam a área. Deixámos a
piscina para trás e encaminhámo-nos em direção ao oceano . A praia
estava deserta. A poucos metros de nós , as ondas vinham beijar a
areia; não se ouvia mais nada. Quando chegámos ao bungalow ,
despi-me e deitei-me à espera de Valérie . Ela lavou os dentes ,
despiu-se também e veio para junto de mim . Enrosquei-me no seu
corpo nu . Pus-lhe uma mão nos seios e outra no baixo-ventre . Era
maCIO .
8

Quando acordei , estava sozinho no quarto e sentia uma ligeira dor


de cabeça. Levantei-me a titubear, e acendi um cigarro ; ao fim de
umas fumaças , senti-me um pouco melhor. Enfiei as calças e saí
para o terraço coberto de areia - devia ter havido muito vento du­
rante a noite . O dia mal despontara; o céu parecia nublado . Andei
alguns metros em direção ao mar, e foi então que vi Valérie . Mergu­
lhava para furar as ondas , dava umas braçadas , levantava-se e mer­
gulhava novamente .
Fiquei parado a puxar umas fumaças ; o vento era um pouco frio , e
não sabia se havia de ir para junto dela . Valérie virou-se dentro de
água, viu-me e gritou «Vem para aqui ! » enquanto me fazia sinais com
as mãos . Nessa altura, o Sol apareceu por entre as nuvens e iluminou­
-lhe o rosto . Depois , a luz iluminou-lhe também as ancas e os seios ,
fazendo cintilar a espuma sobre os seus cabelos e os pelos do púbis .
Continuei imóvel durante uns segundos , com a consciência de estar
perante uma imagem de que nunca mais me poderia esquecer, daque­
las que , segundo se diz , vemos desfilar nos últimos instantes de vida.
A ponta do cigarro queimou-me os dedos; deitei-a para a areia,
despi-me e entrei no mar. A água era fresca e salgada; senti-me a
tomar um banho de juventude . Vinda diretamente do horizonte , ha­
via uma tira de luz do Sol à superfície das águas ; enchi o peito de ar
e mergulhei por baixo dessa onda de luz .
Mais tarde , esfregámo-nos com uma toalha e vimos o dia a nascer
sobre o mar. As nuvens iam desaparecendo lentamente , até que tudo
ficou coberto de luz . Há manhãs assim , em que tudo é simples . Va-
Plataforma 1 75

lérie prescindiu da toalha e ofereceu o corpo ao sol . «Não preciso de


nada que me tape . . . » , disse . «Não exageres . . . » , arrisquei-me a dizer.
Havia uma ave a planar a meia altura, observando atentamente a
superfície das águas . «Adoro nadar, adoro fazer amor. . . » , disse ela
ainda. «Mas não gosto de dançar, não sou capaz de me distrair, e
sempre detestei noitadas . Será normal?»
Hesitei muito tempo antes de responder. «Não sei . . . » , disse final­
mente . «Só sei que também sou assim.»

Não havia muita gente nas mesas do pequeno-almoço , mas Jean­


-Yves já lá estava, a tomar café e a fumar um cigarro . Tinha a barba
por fazer e dava a impressão de ter dormido mal ; fez-nos um gesto
com a mão . Sentámo-nos na sua frente .
- Então , como é que correram as coisas com a italiana? - per­
guntou Valérie atacando o prato de ovos mexidos .
- Nada de especial . Começou a contar-me que trabalhava em
marketing , tinha problemas com o namorado , e por isso é que tinha
vindo sozinha de férias . Fartei-me e fui-me deitar.
- Devias experimentar as empregadas dos quartos . . .
Jean-Yves sorriu vagamente e apagou o cigarro no cinzeiro .
- O que é que fazemos hoje? - perguntei eu . - Bem . . . quer
dizer, em principio deve haver uma «descoberta» .
- Ah , sim . . . - Jean-Yves teve uma expressão de cansaço . -
Enfim, não propriamente . . . A verdade é que , neste caso , ainda não
tivemos tempo de fazer nada de especial . É a primeira vez que traba­
lho com um país socialista; nos países socialistas é mais complicado
fazer coisas à última hora . Em resumo , para esta tarde está prevista
uma cena com golfinhos . . . - Calou-se e tentou explicar melhor.
- Bem, a menos que eu tenha percebido mal , é um espetáculo com
golfinhos em que se pode nadar com eles , na parte final . Calculo que
as pessoas lhes saltam para o lombo , ou qualquer coisa assi m .
- Já sei como é - disse Valérie - , não vale absolutamente nada.
Toda a gente acredita que os golfinhos são mamíferos meigos , sim­
páticos , etc . A verdade é que não se pode confiar neles , organizam-se
em grupos muito hierarquizados, com um macho dominante e até
são agressivos: muitas vezes , entre eles , combatem até morrer. Na
1 76 Michel Houellebecq

única vez em que tentei nadar com golfinhos , fui mordida por uma
fêmea .
- Está bem , está bem - interveio Jean-Yves, fazendo um gesto
a aconselhar calma . - Seja como for, vai haver golfinhos à tarde
para quem quiser. Amanhã e depois de amanhã fazemos uma excur­
são de dois dias a Baracoa; não deve ser mau , espero eu . A seguir a
isso . . . a seguir. . . não há mais nada - disse depois de pensar duran­
te algum tempo . - Ah , é verdade : no último dia, antes de irmos
para o avião , há uma refeição de marisco e uma visita ao cemitério
de Santiago .
Depois destas palavras , ficámos um bocado em silêncio .
- É verdade - voltou Jean-Yves a dizer - , tenho a impressão
de que as coisas não vão nada bem por aqui . Não estou a falar de
mim . . . Por exemplo , ontem na discoteca fiquei com a impressão de
que não se formavam muitos casais , mesmo entre as pessoas mais
novas . - E, depois de se calar novamente durante algum tempo ,
disse com um gesto de resignação: - «Ecco . . . »
- Afinal de contas , o tal sociólogo é que tinha razão - disse
pensativamente Valérie .
- Qual sociólogo?
- Lagarrigue , o da sociologia do comportamento . Tinha toda a
razão quando dizia que já não estávamos na idade do bronze .
Jean-Yves acabou de tomar o café e abanou amargamente a cabeça.
- Quem havia de dizer que chegaria o dia em que íamos ter sau­
dades da idade do bronze?

Para chegar à praia, era preciso resistir ao assalto dos vendedores de


artesanato de terceira categoria; mas lá conseguimos , não eram assim
tantos nem tão chatos , safámo-nos por entre sorrisos e gestos a pedir
desculpa. Durante o dia, os cubanos tinham acesso à praia do clube .
Mas não dispunham de quase nada para vender ou de serviços para
oferecer, explicou Valérie; mas tentam, fazem tudo o podem. À pri­
meira vista, ninguém neste país vive do que ganha no emprego . E não
há nada que funcione como deve ser: falta gasolina para os motores e
faltam peças para as máquinas . Dai a utopia agrária que se observa nos
campos em volta: camponeses a lavrar a terra com juntas de bois ,
Plataforma 1 77

pessoas que se deslocam de carroça . . . Afinal de contas , nem utopia


nem atitude ecológica: tratava-se apenas da realidade de um país que
não entrara na era industrial . Cuba ainda conseguia exportar alguns
produtos agrícolas , como café , cacau e cana-de-açúcar; mas a produ­
ção industrial andava próxima do zero . Era muito difícil encontrar ar­
tigos de primeira necessidade , como sabão , papel , esferográficas , etc .
As únicas lojas bem abastecidas eram as que vendiam produtos impor­
tados , mas só aceitavam dólares . Deste modo , todos os cubanos de­
viam a sua sobrevivência a uma segunda atividade ligada ao turismo .
O s mais privilegiados trabalhavam diretamente n a indústria turística;
de uma forma ou de outra, todos os restantes tentavam arranjar uns
dólares através do contrabando ou de serviços ligados ao turismo .
Deitei-me na areia a pensar naquilo . Aqueles homens e mulheres
bronzeados que percorriam o areal por entre os grupos de turistas
consideravam-nos pura e simplesmente uma espécie de porta-moedas
com pernas - não podíamos ter qualquer ilusão a esse respeito , acon­
tecia o mesmo em todos os países do Terceiro Mundo . Em Cuba, a
diferença estava na total incapacidade do país para assegurar a produ­
ção industrial . Ora, era isso mesmo o que acontecia comigo: também
eu era absolutamente incompetente em matérias ligadas à produção
industrial . Encontrava-me totalmente integrado na era da informação ,
portanto não sabia nada de nada. Tal como eu , Valérie e Jean-Yves
eram apenas simples utilizadores de capitais e de informação; no caso
deles , faziam-no de uma maneira inteligente e competitiva, ao passo
que , para mim , as coisas eram mais burocráticas e rotineiras . Mas
nenhum de nós os três , ou alguma pessoa que eu conhecesse , seria
capaz , por exemplo , em caso de bloqueio económico , por parte de
uma potência estrangeira, de participar no arranque de uma nova fase
de produção industrial . Nenhum de nós tinha a mais pálida ideia sobre
a fundição de metais, o fabrico de peças , a síntese de matérias plásti­
cas , etc . Já para não falar de coisas mais recentes , como as fibras
óticas e os microprocessadores . Vivíamos num mundo formado por
objetos cujo fabrico e manutenção nos eram inteiramente estranhos .
Angustiado ao tomar consciência disso , olhei as coisas à minha volta:
vi uma toalha, uma mala, óculos de sol , creme solar, um livro de Mi­
lan Kundera. Papel , vidro e algodão: tudo dependente de máquinas
sofisticadas e de complexos métodos de fabrico . O fato de banho de
178 Michel Houellebecq

Valérie , por exemplo , era algo cuja feitura eu seria incapaz de com­
preender: na sua composição , havia 80 % de látex e 20 % de poliure­
tano . Passei dois dedos pelo soutien: por baixo do emaranhado de
fibras industriais , senti a sua carne jovem . Introduzi os dedos um
pouco mais para baixo e senti que o mamilo estava mais duro . Aí
estava uma coisa que eu podia fazer, que eu sabia fazer. O Sol quei­
mava cada vez mais . Quando entrámos na água, ela tirou a parte de
baixo do biquíni e escarranchou-se em mim com as pernas à altura da
minha cintura, esticando-se toda para trás . A rata abriu-se . Penetrei-a
devagarinho , entrando e saindo ao ritmo das ondas . Não havia outra
alternativa. Parei no momento exato antes de me vir. Saímos do mar
e fomo-nos secar ao Sol .
Junto de nós passou um casal formado por um negro grandalhão e
uma rapariga de pele muito branca, com ar nervoso e cabelos curto s ,
que falava enquanto o olhava e ria muito alto . Ela era nitidamente
americana, talvez jornalista do New York Times ou qualquer coisa
assim. De facto , havia uns quantos casais mistos na praia. Não longe
dali , viam-se dois loiros altos , um bocado fanhosos e balofos , que
riam e brincavam com duas esplêndidas jovens de pele acobreada.
- Não podem é levá-las para os quartos do hotel - disse Valérie
vendo para onde eu estava a olhar. - Mas alugam quartos na aldeia
aqui ao lado .
- Julgava que os americanos não podiam vir a Cuba . . .
- Em princípio , não; mas vêm pelo Canadá ou pelo México .
A verdade é que estão furiosos por ter perdido Cuba. Compreende-se
perfeitamente - disse ela com ar pensativo . - Se há um país neste
mundo que precise do turismo sexual , esse país é os Estados Unidos .
Mas nesta altura as empresas americanas têm de obedecer ao blo­
queio , estão impedidas de investir em Cuba . Seja como for, Cuba
acabará por tomar-se capitalista , é uma questão de tempo; até lá, os
europeus têm o caminho livre . É exatamente por essa razão que o
grupo Aurore não pode desistir de Cuba, apesar dos problemas com
este clube : é agora que temos de superar a concorrência. Cuba é uma
oportunidade única na zona das Caraíbas . - Aqui tens - prosse­
guiu Valérie em tom ligeiro , depois de um silêncio . - É assim que
nos exprimimos neste meio profissional . . . neste nosso mundo da
economia global .
9

O miniautocarro para B aracoa partia às oito da manhã; a essa hora,


havia umas quinze pessoas lá dentro . Quase todas se conheciam já,
e desfaziam-se em elogios aos golfinhos . Naturalmente que o entu­
siasmo dos reformados (em maioria) , dos dois terapeutas da fala que
viaj avam juntos e do casal de estudantes não se traduzia pela utiliza­
ção do mesmo léxico; mas todos eles estavam de acordo quanto à
seguinte expressão : «uma experiência única» .
Em seguida, a conversa incidiu sobre as características do clube .
Olhei para Jean-Yves: estava sentado na parte de trás do autocarro e
tinha posto uma esferográfica e um bloco de notas no banco ao lado .
Inclinado para a frente e de olhos semicerrados , tentava concentrar­
-se para ouvir tudo o que pudesse . Era chegado o momento em que
contava registar um amplo conjunto de impressões e de observações
úteis .
No respeitante ao clube , parecia haver também u m certo consenso
entre os participantes no circuito . Os animadores foram unanime­
mente classificados como «simpáticos» , embora as atividades não
fossem consideradas especialmente interessantes . Os quartos eram
bons , exceto os que estavam próximo da instalação sonora , e por
isso muito barulhentos . Quanto à comida , não era nada por aí além .
Nenhum dos presentes tinha participado em atividades de muscu­
lação , de aeróbica, de iniciação à salsa ou de aprendizagem de espa­
nhol . Por fim , a coisa melhor para todos eles era a praia; ainda por
cima, uma praia calma. «Animação e amplificação sonora com nota
negativa» , escreveu Jean-Yves no seu bloco de notas .
1 80 Michel Houellebecq

De um modo geral , os bungalows mereciam a aprovação de toda


a gente , desde que estivessem longe da discoteca. «Na próxima vez ,
exigimos um bungalow ! » , disse claramente um reformado bem
constituído , ainda cheio de força, que parecia habituado a mandar; na
verdade , passara a vida a trabalhar na comercialização de vinhos de
B ordéus . Os dois estudantes eram da mesma opinião . «Discoteca
inútil» , anotou Jean-Yves melancolicamente , pensando na inutilida­
de de alguns desses investimentos .

Depois do cruzamento de Cayo Saetia, a estrada era cada vez pior.


Estava cheia de covas e buracos que ocupavam por vezes metade da
via. O motorista era obrigado a andar aos ziguezagues , e nós seguía­
mos também aos saltos nos bancos , projetados de um lado para o
outro . As pessoas riam e falavam em voz alta. «Vá lá, sentem-se
bem-dispostos . . . » , disse-me Valérie em voz baixa. «Aí está uma
coisa boa nestes circuitos de "descoberta" : mesmo quando as condi­
ções não são boas , para eles faz tudo parte da aventura . Neste caso ,
por exemplo , a falta é nossa: para um trajeto assim, devíamos ter ji­
pes todo-o-terreno .»
Pouco antes de Moa, o motorista guinou à direita para evitar um
buraco enorme . O veículo derrapou lentamente e imobilizou-se de­
pois numa grande cova. O homem acelerou a fundo: as rodas patina­
ram num lamaçal acastanhado , e o miniautocarro ficou no mesmo
sítio . Voltou a tentar, mas o resultado foi o mesmo . «Bem . . . » , disse
o comerciante de vinhos cruzando os braços com ar divertido , «te­
mos de sair e empurrar.»
Saltámos lá para fora. Diante de nós estendia-se uma planície
enorme , coberta de lama seca e quebradiça, de aspeto insalubre . Er­
vas altas secas e esbranquiçadas rodeavam algumas poças de água
estagnada de cor quase negra . Ao fundo , uma gigantesca fábrica de
tijolos dominava a paisagem , com as suas duas chaminés a vomita­
rem rolos de fumo grosso . Da fábrica saíam tubos enormes , meio
enferrujados , que ziguezagueavam em várias direções no meio da
planície . Na berma da estrada, um painel metálico , onde Che Gueva­
ra exortava os trabalhadores ao desenvolvimento revolucionário das
forças produtivas , começava, também ele , a enferrujar. A atmosfera
Plataforma 181

estava impregnada de um cheiro horrível , que parecia vir da própria


lama acastanhada, mais do que dos pântanos em volta.
Dado que a cova não era especialmente funda, o miniautocarro saiu
dali graças à conjugação dos nossos esforços . Depois , toda a gente
ficou contente e voltou a ocupar os seus lugares . Um pouco mais tar­
de , almoçámos num restaurante de mariscos . Preocupado , Jean-Yves
consultava os seus apontamentos ; não tinha tocado na comida.
- Para estadas do tipo «descoberta» - concluiu depois de uma
longa reflexão - parece haver algumas condições; mas para clube
normal , não acredito que possa resultar.
Valérie olhava-o calmamente enquanto sorvia uma taça de café
gelado ; estava com ar de quem não queria saber daquilo para nada.
- É óbvio que podemos despedir os animadores em qualquer al­
tura; é uma boa maneira de reduzir a massa salarial - continuou
Jean-Yves .
- Sim, já não era mau .
- Não te parece uma medida drástica? - perguntou inquieto .
- Não te preocupes com isso . Assim como assim , ser animador
num clube de férias não é uma profissão formativa para os jovens .
Faz deles uns perfeitos idiotas e uns mandriões e é uma coisa sem
futuro . O máximo a que podem aspirar é chegarem a responsável do
aldeamento , ou animadores de televisão .
- Está bem . . . Sendo assim , reduzo a massa salarial ; mas também
é verdade que ganham pouco . Muito me admirava se a redução che­
gasse para competirmos com os clubes alemães . Esta noite faço
umas simulações com o computador, mas não acredito muito .
Valérie fez-lhe um sinal de concordância, como quem diz: «Podes
experimentar, não faz mal nenhum .» Eu estava a ficar admirado com
o comportamento dela, achava-a demasiadamente calma. É verdade
que fodíamos bastante , e foder, como toda a gente sabe , dá uma cer­
ta calma e ajuda a relativizar as coisas . Quanto a Jean- Yves , estava
prestes a saltar para as suas simulações ; cheguei a pensar que ia pedir
ao motorista que parasse , para poder tirar o portátil da bagageira .
- Não te preocupes , há de haver uma solução . . . - disse-lhe ela
batendo-lhe afetuosamente no ombro . A verdade é que resultou , pelo
menos por uns tempos ; Jean-Yves voltou a sentar-se calmamente no
seu lugar.
1 82 Michel Houellebecq

* * *

Durante a última parte do percurso , os passageiros falaram sobretu­


do de Baracoa, o nosso destino final; e pareciam conhecer quase tudo
sobre a cidade . Cristóvão Colombo ancorara a 28 de outubro de 1 492
nesta baía, cuja forma perfeitamente circular o impressionara imenso .
«Um dos mais belos espetáculos que é possível apreciar» , anotara o
navegador no diário de bordo . Nesse tempo, os índios Tainos eram os
únicos habitantes da região . Mais tarde , em 1 5 1 1 , Diego Velázquez
fundou Baracoa, a primeira cidade espanhola no continente americano .
Durante mais de quatro séculos , Baracoa esteve isolada do resto da
ilha, com acesso unicamente por mar. Em 1 963 , a construção do viadu­
to de Farola permitiu a ligação rodoviária entre B aracoa e Guantânamo .
Chegámos pouco depois das três horas ; a cidade estendia-se ao
longo de uma baía que formava um círculo quase perfeito . De um
modo geral , toda a gente gostou do que viu e expressou-o com excla­
mações de admiração . No fundo , o que os apreciadores das viagens
«descoberta» procuravam essencialmente era a confirmação das in­
formações constantes dos seus guias . Um público de sonho , portanto .
Com uma única estrela no Guia Michelin , B aracoa não os podia de­
cecionar. O Hotel El Castillo , situado na antiga fortaleza espanhola,
dominava a cidade , que , vista de cima, parecia muito bela, embora,
na verdade , não mais do que a maior parte das outras . Bem vistas as
coisas , chegava a ser medíocre , com as suas pindéricas habitações
sociais , de um cinzento enegrecido , tão sórdidas que mais pareciam
desabitadas . Resolvi ficar à beira da piscina, tal como Valérie . No
hotel havia cerca de trinta quartos , integralmente ocupados por turis­
tas do Norte da Europa, com aspeto de terem vindo todos por idênti­
cas razões . Comecei por reparar em duas quarentonas inglesas , gran­
dalhonas e gordas , uma das quais com óculos . Faziam-se acompanhar
por dois mestiços de ar despreocupado e menos de vinte e cinco anos
de idade . Os rapazes estavam completamente descontraídos , falando
e gracejando com elas , dando-lhes as mãos ou agarrando-lhes as cin­
turas . Pela minha parte , seria incapaz de ter uma profissão assim; e
perguntava para comigo como seria aquilo , em que pensariam eles
para conseguirem ter ereção . A certa altura, as duas inglesas foram
para os quartos , enquanto os rapazes continuaram a conversar ao pé
Plataforma 1 83

da piscina; se tivesse um verdadeiro interesse pela humanidade , podia


ter metido conversa com eles para tentar saber mais alguma coisa. No
fundo , talvez se limitassem a masturbar-se corretamente , a natureza
da ereção talvez seja puramente mecânica; e se me desse ao trabalho
de ler biografias de prostitutos , conseguiria certamente mais informa­
ções; mas , naquela altura, só dispunha do Discurso sobre o Espírito
Positivo . Enquanto folheava o subcapítulo intitulado «A política po­
pular, sempre de caráter social , deve ser sobretudo moral» , vi uma
jovem alemã a sair do quarto , acompanhada de um negro matulão .
Era uma alemã típica, tal como as imaginamos , de cabelos loiros e
compridos , olhos azuis , corpo agradável e firme , mamas grandes .
Como é sabido , trata-se de um tipo físico muito atraente , o problema
é que não se aguentam assim durante muito tempo; a partir dos trinta,
há uma série de trabalhos a ter em conta: lipossucções , implantes de
silicone , etc . ; no caso desta, ainda estava tudo bem com ela; era mui­
to excitante , o macho estava cheio de sorte . Perguntei a mim mesmo
se pagaria o mesmo que as inglesas e se haveria uma tarifa única
para homens e mulheres; eis mais uma coisa que era preciso investi­
gar, interrogar. Mas para mim, era demasiado cansativo , pelo que
decidi ir até ao quarto . Mandei vir um cocktail e bebi-o lentamente na
varanda. Valérie estava a bronzear-se ao Sol , mergulhando de vez em
quando na piscina; no momento em que voltei para o quarto para me
estender um bocado , vi-a a falar com a tal alemã.
Por volta das seis horas , Valérie veio fazer-me uma visita; eu tinha
adormecido a meio do livro . Ela tirou o fato de banho , tomou um
duche e veio para ao pé de mim , com uma toalha em volta da cintu­
ra; tinha os cabelos ligeiramente húmidos .
- Vais dizer que é uma obsessão minha, mas estive a perguntar à
alemã o que é que os pretos têm a mais do que os brancos . É impres­
sionante : as brancas preferem deitar-se com africanos , os brancos
gostam mais das asiáticas . Preciso de saber porquê , é importante
para o meu trabalho .
- Há também brancos que gostam muito de pretas . . . - obser­
vei eu .
- É menos habitual ; há muito menos turismo sexual em África
do que na Ásia. Bem, para dizer a verdade , em África também há
muito menos turismo .
1 84 Michel Houellebecq

- Qual foi a resposta da alemã?


- O costume: os negros são mais descontraídos , viris , têm o sen-
tido da festa; sabem divertir-se sem perder a cabeça , não há proble­
ma nenhum com ele s .
Efetivamente , a resposta d a jovem alemã era banal , mas fornecia
os traços gerais de uma teoria sobre o assunto: em resumo , os brancos
eram negros inibidos , que andavam em busca da sua perdida inocên­
cia sexual . Como era óbvio , nada disso explicava a misteriosa atração
pelas mulheres asiáticas ; nem o prestígio que , de acordo com alguns
testemunhos , os brancos gozavam na África negra . Foi então que
lancei as bases de uma teoria mais complicada mas também mais
difícil de provar: em resumo , os brancos queriam bronzear-se e apren­
der a dançar como os pretos ; os pretos queriam ter cabelo claro e
desfrisar o cabelo . Assim , a humanidade inteira ia-se encaminhando
instintivamente para a mestiçagem , a indiferenciação generalizada; e
fazia-o através da sexualidade , o mais elementar de todos os proces­
sos . Até agora, porém , apenas Michael Jackson levara essa metodolo­
gia até às últimas consequências : não era branco nem preto , não era
novo nem velho; e mai s , num certo sentido , não era nem homem nem
mulher. Ninguém seria capaz de imaginar a sua vida íntima; depois
de ter compreendido as diversas formas da vulgar condição humana,
Michael Jackson tentara ultrapassá-las . Eis a razão por que era reco­
nhecido como uma verdadeira estrela, a maior - na verdade , a mais
importante de todas - na história do mundo . Todos os outros - Ru­
dolfo Valentino . Greta Garbo , Marlene Dietrich , Marilyn Monroe ,
James Dean , Humphrey Bogart - podiam ser considerados , quando
muito , artistas de talento , apesar de se limitarem a imitar a condição
humana e a dar-lhe uma outra dimensão estética; Michael Jackson
fora o primeiro a tentar ir um pouco mais além .
Era uma teoria interessante , e Valérie ouviu-me com toda a aten­
ção ; no entanto , eu próprio continuava com algumas dúvidas . Seria
possível concluir que o primeiro cyborg , a primeira pessoa a aceitar
que lhe implantassem no cérebro um elemento de inteligência artifi­
cial , de origem extra-humana, se pudesse tomar, também ela, uma
dessas grandes estrelas? Provavelmente , sim; mas nada disso vinha
para o caso . Michael Jackson bem podia ser uma estrela, mas , com
toda a certeza, não era um símbolo sexual ; se quiséssemos provocar
Plataforma 1 85

o aparecimento de grandes movimentações turísticas , capazes de


rendibilizar grandes investimentos , teríamos de encarar a utilização
de forças de atração mais elementare s .

Pouco tempo depois , Jean-Yves e o s outros voltaram d a visita à


cidade . O Museu de História que viram era dedicado sobretudo aos
costumes dos Tainos , os primeiros habitantes da região . Pareciam ter
sido um povo com uma existência pacífica , que pescava e trabalhava
a terra; praticamente não se registavam conflitos entre eles e as outras
tribos da região ; os espanhóis não tiveram a mais pequena dificuldade
em exterminar estes seres tão mal preparados para a guerra. Atual­
mente quase não resta nada deles , exceção feita a certos traços gené­
ticos no aspeto físico de alguns habitantes da cidade; como se nunca
tivesse existido , a cultura dos tainos desaparecera completamente .
Em desenhos deixados por eclesiásticos espanhóis que haviam tenta­
do - quase sempre em vão - sensibilizá-los para a mensagem do
Evangelho , viam-se pessoas a trabalhar ou a cozinhar à volta de fo­
gueiras , e mulheres de seios nus a amamentar os filhos . Tudo aquilo
sugeria uma vivência não propriamente paradisíaca mas , pelo menos ,
de uma certa lentidão histórica; nitidamente , a chegada dos espanhóis
acelerara as coisas . Depois dos clássicos conflitos entre potências
coloniais que , nessa época, eram senhoras da região , Cuba conseguiu
a independência em 1 898 , após o que passou imediatamente para as
mãos dos americanos . Nos princípios de 1 95 9 , na sequência de vários
anos de guerra civil , as forças revolucionárias comandadas por Fidel
Castro venceram as tropas regulares de Fulgêncio Batista, obrigando­
-o a fugir. E uma vez que o mundo se encontrava separado em dois
grandes blocos , Cuba optara imediatamente pela aproximação ao
bloco soviético , instaurando na ilha um regime de inspiração marxis­
ta. Privado de apoio logístico depois do afundamento da União Sovi­
ética, o regime estava agora a chegar ao fim . Valérie vestiu uma saia
curta, com uma racha de lado , e pôs um top de renda preta; tínhamos
ainda tempo para tomar um cocktail antes do jantar.
Toda a gente estava reunida à volta da piscina , contemplando o
pôr do sol sobre a baía. Junto à margem , viam-se os destroços de um
navio mercante a apodrecerem lentamente . Outros barcos mais pe-
1 86 Michel Houellebecq

quenos flutuavam sobre as águas quase imóveis; e tudo aquilo exa­


lava uma enorme sensação de abandono . Das ruas da cidade , em
baixo , não chegava o mais pequeno som; hesitantes , apenas os can­
deeiros de iluminação começavam a acender-se devagar. Na mesa de
Jean-Yves estava um homem dos seus sessenta anos , de cara magra
e enrugada e aspeto miserável ; havia também outro homem muito
mais novo , de cerca de trinta anos , em quem reconheci o gerente do
hotel . Tinha-o visto várias vezes durante a tarde; circulava nervosa­
mente por entre as mesas e corria de um lado para o outro para ver
se toda a gente já estava servida; tinha no rosto uma expressão de
ansiedade permanente e sem sentido . Levantou-se com vivacidade
assim que nos viu chegar, puxou duas cadeiras , chamou um criado e
quis que o homem viesse imediatamente; depois , dirigiu-se rapida­
mente para a zona das cozinhas . Quanto ao velhote , ia olhando desi­
ludido para a piscina , para os casais sentados nas mesas , e, aparente­
mente , a sua desilusão abrangia a generalidade deste mundo . «Pobre
povo cubano . . . » , disse depois de um longo silêncio . «À exceção do
seu próprio corpo , j á não tem nada para vender.» Jean-Yves explicou­
-nos que o homem morava próximo dali e era pai do gerente do ho­
tel . Há mais de quarenta anos , participara na revolução integrado
num dos primeiros batalhões que aderiram à insurreição comandada
por Fidel Castro . Depois da vitória, trabalhara na fábrica de níquel
de Moa , primeiro como operário , a seguir como contramestre e final­
mente - depois de andar na universidade - como engenheiro . O
seu estatuto de herói revolucionário permitira ao filho a obtenção de
um lugar importante na indústria de turismo de Cuba .
«Falhámos redondamente . . . » , disse em voz baixa; «e merecemos
esse falhanço . Tínhamos dirigentes de grande valor, homens extraor­
dinários , idealistas , para quem a Pátria estava acima dos interesses
pessoais . Lembro-me do dia em que o comandante Che Guevara
aqui veio inaugurar a fábrica de tratamento de cacau ; revejo ainda a
sua expressão corajosa, honesta. Nunca ninguém foi capaz de dizer
que o comandante estava a enriquecer ou que procurava privilégios
para si ou para a família. Já não se podia dizer o mesmo de Camilo
Cienfuego s , nem de outros dirigentes revolucionários , nem mesmo
de Fidel - Fidel adora o poder, não há dúvida nenhuma sobre isso,
quer mandar em tudo ; embora seja desinteressado; a verdade é que
Plataforma 1 87

não tem grandes propriedades nem contas na Suíça . Então quando


esteve aqui a inaugurar a fábrica, o Che fez um discurso em que
exortava o povo cubano a ganhar a batalha pacífica da produção
depois de ter ganho , pela luta armada, o combate pela independên­
cia; foi pouco antes de partir para o Congo . E a verdade é que podí­
amos perfeitamente ter ganho essa batalha. A nossa região é fértil , a
terra é boa, há água com fartura, e tudo cresce como deve ser: café ,
cacau , cana-de-açúcar, frutas exóticas de todas as qualidades . O sub­
solo está saturado de níquel . Dispúnhamos de uma fábrica ultramo­
derna, construída com a ajuda dos russos . Ao fim de seis meses, a
produção caiu para metade; todos os operários roubavam chocolate ,
em bruto ou em barras , para dar à família ou vender aos estrangeiros .
Passava-se o mesmo nas outras fábricas , em todo o país . Quando não
tinham nada para roubar, os operários trabalhavam pouco , eram pre­
guiçosos , estavam sempre doentes , faltavam ao mínimo pretexto .
Passei anos a falar com eles , tentando convencê-los a dar um pouco
mai s , no interesse do país : mas só tive falhanços e deceções.»
Calou-se; uma réstia de luz flutuava ainda por cima do Yunque ,
uma montanha cujo cimo tem um aspeto estranho , um tronco de
cone em forma de mesa, que dominava as colinas em volta e tanto
impressionara Cristóvão Colombo . Da sala de jantar, chegava o som
dos talhere s . E eu pensava se haveria alguma coisa que levasse os
seres humanos a aceitarem a realização de tarefas penosas e difíceis .
Do meu ponto de vista , tratava-se de uma questão política da maior
importância . O testemunho do velho operário era inteiramente de­
molidor: segundo ele , só o dinheiro contava; sem sombra de dúvida ,
a revolução não conseguira criar o homem novo , capaz de se organi­
zar em função de razões altruístas . Por isso , a sociedade cubana era
exatamente igual a todas as outras : um laborioso dispositivo destina­
do a libertar algumas pessoas de tarefas e trabalhos penosos e difí­
ceis . Assim que esse dispositivo entrara em colapso , nunca mais
houve ninguém disponível para enfrentar um dia normal de trabalho .
Resultado : nada funcionava como devia ser, ninguém trabalhava ou
produzia o que quer que fosse , e a sociedade cubana tornara-se inca­
paz de assegurar a sobrevivência dos seus próprios membros .
Os outros participantes da excursão levantaram-se e dirigiram-se
para as mesas . Tentei desesperadamente encontrar alguma coisa oti-
1 88 Michel Houellebecq

mista para dizer ao homem , uma simples mensagem de esperança;


mas não , não havia nada a dizer. Tal como ele amargamente pressen­
tia, Cuba iria em breve tomar-se capitalista , e então nada restaria das
antigas esperanças revolucionárias que o velho combatente acalenta­
ra. Em vez disso , restariam apenas sentimentos de falhanço , inutili­
dade e desonra. O seu exemplo nunca mais seria seguido ou respei­
tado , e, para as gerações futuras , poderia mesmo constituir um
motivo de desgosto . A sua luta e o seu trabalho de uma vida inteira
não tinham servido rigorosamente para nada.
Durante a refeição fui bebendo bastante; no final , estava com um
pifo monumental e Valérie olhava para mim com alguma preocupa­
ção . As bailarinas da salsa preparavam-se para atuar; tinham saias
plissadas e saiotes de várias cores. Instalámo-nos no terraço . Por
mim , tinha quase a certeza do que queria dizer a Jean-Yves; só não
sabia se seria aquela a melhor altura . Achava-o ligeiramente desam­
parado , embora menos tenso . Pedi mais uma bebida , acendi um ci­
garro e virei-me para ele :
- Estás mesmo interessado numa nova fórmula que te permita
salvar os clubes?
- Claro , estou aqui para isso .
- Arranja clubes onde as pessoas possam foder. É o mais impor-
tante . Quando não têm a sua aventurazinha durante as férias , as
pessoas não ficam satisfeitas . Embora não consigam falar no caso , e
haja alguns que não cheguem a perceber isso , a verdade é que , quan­
do não acontece nada, mudam de operador e de produto .
- Mas as pessoas podem foder perfeitamente , está tudo montado
com essa finalidade , o princípio em que assentam os clubes é preci­
samente esse; não sei por que razão não o fazem .
Com um gesto , tentei eliminar a objeção de Jean-Yves .
- Também não sei , mas não é esse o problema; não vale a pena
procurar as causas do fenómeno , mesmo que se lhe possa chamar
assim . Passa-se com certeza alguma coisa para que os ocidentais não
consigam deitar-se uns com os outros; talvez haj a razões de narcisis­
mo , individualismo , culto da perfeição ou outra coisa qualquer.
A verdade é que , a partir dos vinte e cinco ou trinta anos, as pessoas
passam a ter dificuldade em encontrar novos parceiros sexuais; e no
entanto sentem uma grande necessidade deles , embora se trate de um
Plataforma 1 89

desejo que se vai dissipando lentamente . Assim, passam trinta anos


das suas vidas , a quase totalidade do seu tempo de adultos , num es­
tado de permanente carência sexual .
No meio de uma impregnação alcoólica, exatamente antes da fase
de embrutecimento , as pessoas são percorridas por momentos de
uma penetrante lucidez . O enfraquecimento da sexualidade no Oci­
dente era obviamente um fenómeno sociológico , massificado , que
era inútil tentar explicar por meio de um ou outro aspeto psicológico
individual ; olhando para Jean-Yves , apercebi-me de que ele próprio
ilustrava perfeitamente a minha tese , o que era quase embaraçoso .
Não se limitava a ter deixado de foder; na verdade , não só não tinha
tempo para resolver a questão , como , ainda por cima, não sentia
vontade alguma de o fazer; e pior ainda: deixava que esse desperdí­
cio se inscrevesse no interior da sua carne , daí que começasse a
cheirar a morte .
- Mas ouvi dizer que os clubes noturnos em que há troca de ca­
sais têm um certo sucesso . . . - objetou ele , depois de uma longa
hesitação .
- É exatamente o contrário , estão cada vez pior. Muitos abrem e
fecham quase de seguida, por falta de clientes . Na realidade , há ape­
nas dois sítios desses que se têm aguentado em Pari s , Chris et Manu
e 2 + 2 , e mesmo assim só enchem aos sábados à noite ; para uma ci­
dade de dez milhões de habitantes é pouco , e bastante menos do que
no princípio dos anos noventa . São clubes simpáticos , mas baseiam­
-se numa fórmula ultrapassada, porque hoje as pessoas já não sentem
necessidade de trocar coisa nenhuma, nada disso faz parte da menta­
lidade moderna. Na minha opinião , trata-se de um esquema com
tantas hipóteses de sobrevivência como a moda de andar à boleia,
que fez furor nos anos setenta. Neste momento , a única prática com
algum significado é o sadomasoquismo .
Nessa altura, Valérie olhou-me apavorada e deu-me u m pontapé
nas canelas , por baixo da mesa. Olhei-a com surpresa, mas depois
percebi : é claro que não ia falar de Audrey, ela podia estar descansa­
da. Quanto a Jean-Yves , não tinha dado pela interrupção .
- Sendo assim - prossegui - temos o seguinte cenário. De um
lado , centenas de milhões de ocidentais que têm tudo o que querem
mas não dispõem de satisfação sexual: procuram-na, procuram-na
1 90 Michel Houellebecq

incessantemente , mas não a encontram e são profundamente infeli­


zes . Do outro lado , há milhares de milhões de pessoas que não têm
nada, que morrem de fome na flor da idade e vivem em condições de
total insalubridade , mas que vendem a única coisa de que dispõem:
o seu próprio corpo , a sua sexualidade intacta . Eis então uma coisa
simples , muitíssimo simples de entender: estamos perante uma situ­
ação ideal para a realização de trocas . A massa que se pode ganhar
com isso é praticamente inimaginável . Mais do que a informática,
mais do que as biotecnologias , mais do que a indústria da comunica­
ção; não há um único setor da vida económica que se lhe possa
comparar.
Jean- Yves estava calado; nesse momento a orquestra começou a
tocar. As dançarinas eram bonitas e sorridentes , as suas saias plissa­
das rodopiavam , e viam-se-lhes, à vontade , as coxas bronzeadas ; eis
um bom exemplo de tudo que eu tinha estado a dizer. Pensei que
Jean-Yves ia continuar calado , que se limitaria a digerir a ideia . Mas ,
ao fim de uns cinco minutos , retomou a conversa:
- O teu método não se pode aplicar nos países muçulmanos . . .
- Não faz mal , nesses casos usas a fórmula do «Eldorador Des-
coberta» . Podes até implementar um esquema mais duro , com
trekking e experiências ecológicas , uma espécie de survivor em gran­
de estilo , a que podes chamar «Eldorador Aventura» ; algo que se
possa vender bem em França e nos países anglo-saxões . Em contra­
partida, os clubes orientados para o sexo podem ter mais saída na
Alemanha e nos países mediterrânicos .
Desta vez , sorriu abertamente .
- Podias ter feito carreira nos negócios - disse-me meio a sério
meio a brincar. - Tens umas ideias . . .
- Sim, tenho umas ideias . . . - Sentia a cabeça a andar à roda,
mal distinguia as dançarinas ; de um trago , acabei o meu cocktail.
- Provavelmente , tenho mesmo boas ideias , mas sou incapaz de
mergulhar a fundo numa previsão orçamental e de calcular os custos
de uma exploração . Mas , de facto , tenho umas ideias . . .

Não me lembro bem da continuação da noite , devo ter adormeci­


do . Quando acordei , estava deitado na cama; deitada nua a meu lado ,
Plataforma 191

Valérie respirava a um ritmo regular. Acordei-a quando procurava


um maço de cigarros .
- Ainda há bocadinho estavas muito bem bebido . . .
- Sim , mas quando disse aquilo a Jean-Yves não estava a brin-
car. . .
- Claro , e ele percebeu isso muito bem . . . - E fazendo-me festas
na barriga, acrescentou : - Além do mai s , acho que tens razão . No
Ocidente , deixou de haver revolução sexual .
- E sabes porquê?
- Não . - Teve uma ligeira hesitação e depois disse : - Não , não
sei mesmo .
Acendi um cigarro , deitei-me para baixo e pedi :
- Chupa-me um bocadinho . - Valérie ficou a olhar-me , surpre­
endida , mas pousou-me a mão nos tomates e aproximou a boca . -
Estás a ver, eu digo «Chupa-me» e tu chupas-me . Em princípio , não
te estava a apetecer.
- Não , não estava a pensar nisso; mas sei que é uma coisa que te
dá prazer.
- Mas é exatamente isso que é surpreendente em ti : tu gostas de
dar prazer. Gostas de oferecer o teu corpo como um objeto agradá­
vel , gostas de dar prazer gratuitamente com o teu corpo: é precisa­
mente isso o que os ocidentais já não conseguem fazer. Perderam
completamente o sentimento da dádiva . Mesmo esforçando-se , não
conseguem assumir o sexo como uma coisa natural. Além de terem
vergonha do seu corpo , muito diferente do corpo das estrelas porno­
gráficas , também não sentem uma verdadeira atração pelo corpo dos
outro s . Ora, é impossível fazer amor sem um certo abandono , sem a
aceitação , pelo menos temporária, de um certo estado de fraqueza e
de dependência. Tanto a exaltação sentimental como a obsessão se­
xual têm a mesma origem , resultam ambas do esquecimento parcial
do eu ; é algo que não pode acontecer sem que a pessoa perca alguma
coisa de si mesma . E nós tomámo-nos frios , racionais , extremamen­
te conscientes dos nossos direitos e da nossa existência individual ;
primeiro que tudo , queremos evitar a alienação e a dependência;
além disso, vivemos obcecados com a saúde e com a higiene : e não
são essas as condições ideais para fazer amor. No Ocidente , chegá­
mos a um ponto em que a profissionalização da sexualidade se tor-
1 92 Michel Houellebecq

nou imprescindível . É claro que há também o sadomasoquismo . Mas


esse é um universo puramente cerebral , com regras concretas e acor­
dos preestabelecidos . Os masoquistas só se interessam pelas suas
próprias sensações , tentam ver até aonde podem chegar com a dor
que sentem , um pouco como os praticantes de desportos radicais . Os
sádicos são diferentes , pretendem ir o mais longe possível , desej am
apenas a destruição : se pudessem matar ou mutilar, certamente que
o fariam .
- Nem consigo pensar nisso - disse Valérie com um arrepio - ,
é uma coisa que me desgosta muito .
- Mas isso acontece porque conservaste a tua sexualidade , a tua
animalidade . O que se passa é que és uma pessoa normal , tens pouco
a ver com os ocidentais . Com todas as suas regras e toda a sua orga­
nização , o sadomasoquismo diz unicamente respeito a gente culta e
cerebral , gente que perdeu todo o interesse pelo sexo . A todos os
outros resta uma única solução : produtos pornográficos , a cargo de
profissionais; e se pretenderem sexo real , terão de recorrer aos países
do Terceiro Mundo .
- Bem - disse Valérie a sorrir. - Mesmo assim , posso continu­
ar a chupar-te?
Encostei-me para trás e deixei-me estar. Nesse momento , tinha a
vaga consciência de estar na origem de algo muito importante : no
plano económico , a razão estava do meu lado , calculava que a clien­
tela potencial representava, pelo menos , 80 % dos adultos ocidentais ;
mas também sabia que a s pessoas têm , estranhamente , dificuldade
em aceitar ideias simples .
10

Tomámos o pequeno-almoço no terraço do hotel , à beira da pisci­


na. Na altura em que estava a acabar de tomar café , vi Jean-Yves a
sair do quarto acompanhado por uma rapariga em quem reconheci
uma das dançarinas da noite anterior. Era uma negra bem feita , de
pernas compridas e elegantes , de pouco mais de vinte anos . Jean­
-Yves mostrou-se ligeiramente contrariado , mas abeirou-se da nossa
mesa com um meio sorriso e apresentou-nos a jovem Angelina.
- Estive a pensar na tua ideia - disse-me ele imediatamente .
- Mas tenho algum receio da reação das feministas .
- Olha que vai haver mulheres entre a clientela - retorquiu
Valérie .
- Achas?
- Sim, sim , tenho a certeza absoluta - disse ela em tom amargo .
- Olha bem à tua volta .
Jean-Yves observou as mesas em redor da piscina: efetivamente ,
não eram poucas as mulheres que ali se encontravam acompanhadas
por cubanos; quase tantas como os homens em idêntica situação .
Depois , fez uma pergunta em espanhol a Angelina e traduziu-nos a
resposta:
- Vai para três anos que é jinetera , trabalha sobretudo com clien­
tes espanhóis e italianos . Acha que é por ser negra: os alemães e os
anglo-saxões contentam-se com raparigas de tipo latino , para eles
são já suficientemente exóticas . Há também muitos amigos dela que
são jineteros: têm sobretudo clientes inglesas e americanas , com al­
gumas alemãs à mistura.
1 94 Michel Houellebecq

Jean-Yves bebeu um gole de café e ficou uns momentos a pensar:


- E então que nome iríamos dar a esses clubes? Precisamos de
uma designação sugestiva , completamente distinta de «Eldorador
Aventura» , uma coisa muito mais explícita .
- Eu tinha pensado em «Eldorador Afrodite» - disse Valérie .
- «Afrodite» - disse ele para consigo várias vezes . - Não está
mal , não senhor; é menos ordinário do que «Vénus» . Erótico , culto ,
um pouco exótico : gosto bastante , sim .

Uma hora depoi s , partimos em direção a Guardalavaca. A uns


metros do miniautocarro , Jean-Yves despediu-se da jinetera ; nesse
momento , parecia mais triste . Assim que entrou no autocarro , reparei
que o casal de estudantes o olhava de forma hostil; ao contrário do
negociante de vinhos , que se estava completamente nas tintas .
A viagem de regresso foi bastante triste . É verdade que havia a re­
cordação dos mergulhos , das aulas de karaoke , de tiro ao arco; os
músculos começam por cansar-se mas distendem-se pouco depois; o
sono vem logo a seguir. Por mim , não conservo nenhuma recordação
especial desses dois últimos dias , nem mesmo da última excursão ,
exceção feita à textura da lagosta, que parecia borracha , e da deceção
da visita ao cemitério . E no entanto era ali que se encontrava o túmulo
de José Martí, pai da Pátria, poeta, político , polemista e pensador cuba­
no . Estava representado num baixo-relevo , ornamentado de bigode .
Coberta de flores , a urna repousava no fundo de uma cavidade circular
em cujas paredes estavam gravados os seus pensamentos mais impor­
tantes - sobre a independência nacional , a resistência à tirania, o
sentimento de justiça. Apesar disso , os espaços em volta não pareciam
impregnados do espírito de José Martí; o pobre homem era apenas um
morto igual aos outros. Dito isto , tratava-se de um morto simpático;
ficava-se com vontade de o ter conhecido em vida e até de gozar um
pouco com o seu humanismo de vistas curtas ; de qualquer maneira,
nada disso podia acontecer agora: José Martí estava morto e enterrado .
Acaso poderia erguer-se novamente e galvanizar a Pátria, elevando-a
mais uma vez aos novos ideais do espírito humano? De modo nenhum .
O que visitámos nesse dia não passava de um local deprimente , tão
deprimente como os restantes cemitérios republicanos . Por outro lado ,
Plataforma 1 95

não deixava de ser irritante constatar que os católicos eram os únicos


a manter em funcionamento uma certa liturgia funerária. Apesar disso ,
o método que empregam para transformar a morte em algo tocante e
elevado consiste na negação da sua existência. Com argumentos iguais
aos que ali existiam . Neste caso , porém, em vez de um Cristo ressus­
citado seria preciso haver ninfas e pastoras , em suma, umas quantas
nádegas femininas . Assim como estava, não era possível imaginar o
pobre José Martí a divertir-se em terras do Além; dava mais a impres­
são de ter mergulhado nas cinzas de um desconsolo perpétuo .

No dia seguinte ao da chegada, encontrámo-nos no gabinete de


Jean- Yves . Quase não tínhamos dormido durante a viagem de avião;
a recordação que guardo é de um ambiente de jovial boa disposição ,
estranhíssimo num edifício enorme , quase sem ninguém . Durante a
semana, trabalhavam ali cerca de três mil pessoas ; mas nesse sábado
estávamos unicamente nós os três , sem contar com o pessoal da segu­
rança. Bem próximo dali , no átrio do Centro Comercial de Évry, dois
bandos rivais lutavam empunhando navalhas , tacos de basebol e gar­
rafões de ácido sulfúrico ; na noite desse dia, havia já sete mortos a
registar, entre os quais duas pessoas que iam a passar e um elemento
da polícia de intervenção . O incidente foi depois amplamente divul­
gado pelas estações de rádio e de televisão; mas , na altura, não demos
por nada. Possuídos de uma excitação quase irreal , organizámos uma
plataforma programática para a partilha do mundo . O resultado das
sugestões que eu ia fazendo talvez se cifrasse em milhões de francos
de investimento ou em empregos para centenas de pessoas ; para mim ,
era uma sensação nova e alucinante . Na verdade , delirei a tarde intei­
ra, mas Jean-Yves ouviu-me com toda a atenção . Segundo confiden­
ciou mais tarde a Valérie , estava convencido de que , se me dessem
liberdade de movimentos , eu poderia ter ideias luminosas . Vistas por
Jean-Yves , as coisas passavam-se mais ou menos assim: eu introduzia
inovações na discussão , e ele tomava a decisão final .
O primeiro caso a ser tratado foi o dos países árabes . Tendo em
conta a sua religião irracional , parecia excluída toda e qualquer ativi­
dade sexual . Assim sendo , os turi stas que escolhessem esses países
teriam de contentar-se com os duvidosos prazeres da aventura . De
1 96 Michel Houellebecq

qualquer modo , Jean-Yves decidira vender os clubes de Agadir, Mo­


nastir e Djerba, claramente deficitários . Havia apenas dois destinos
que , de uma forma razoável , se podiam classificar «de aventura» . Em
Marraquexe , os turistas poderiam andar de camelo . Quanto aos vera­
neantes de Sharm-el-Sheikh , poderiam observar peixes vermelhos , ou
fazer excursões no deserto do Sinai , visitando a sarça-ardente onde
- para empregar as palavras de um egípcio que eu encontrara há
mais de três anos numa excursão a bordo de uma falua no Vale dos
Reis - Moisés «se tinha passado dos carretas» . «É verdade que exis­
te no local uma infinidade de cascalho , mas dai a concluir pela exis­
tência de um Deus único , vai uma grande distância ! . . . » Esse homem ,
inteligente e por vezes divertido , demonstrava uma grande afeição
por mim , talvez por eu ser o único francês do grupo , e dado que , por
obscuras razões culturais e sentimentais , nutria pela França uma anti­
ga paixão , embora inteiramente teórica. Ao dirigir-me a palavra ,
salvara-me literalmente as férias . Era um homem de cerca de cin­
quenta anos, impecavelmente vestido , bronzeado , e com um pequeno
bigode . Formado em Bioquímica , emigrara para Inglaterra assim que
acabara o curso, conseguindo posteriormente triunfar na área da en­
genharia genética . De visita ao país natal , pelo qual dizia manter
grande afeto , não se cansava, pelo contrário , de dizer mal do Islão . E ,
a o abordar o assunto , fazia questão d e frisar que os egípcios não eram
árabes . «Quando penso em todas as coisas inventadas no Egito ! . . . » ,
exclamava abarcando o Vale do Nilo num único gesto . « A arquitetura,
a astronomia, as matemáticas , a agricultura, a medicina . . . (é claro que
exagerava um pouco, mas o homem era oriental , sentia que tinha de
me convencer rapidamente) . Depois da chegada do Islão , não houve
mais nada. Uma absoluta negação intelectual , um vazio total . A partir
daí, tornámo-nos um país de mendigos piolhosos . Mendigos infesta­
dos de piolhos , eis o que somos hoj e . Escória , uma verdadeira escó­
ria ! (e , com um gesto , afastava uns miúdos que nos pediam umas
moedas) . Não nos podemos esquecer, cher monsieur (falava fluente­
mente cinco línguas estrangeiras: francês , alemão , inglês , espanhol e
russo) , que o Islão nasceu em pleno deserto , ao pé de camelos , escor­
piões e animais ferozes de todas as espécies . Sabe como é que eu
chamo aos muçulmanos? Os miseráveis do Sara . É esse o nome que
merecem . Alguém acredita que o Islão poderia ter nascido numa re-
Plataforma 1 97

gião tão magnífica como esta? (E , sinceramente emocionado , aponta­


va de novo para o Vale do Nilo) . Não , monsieur. O Islão só podia ter
nascido no meio de um estúpido deserto , entre beduínos sebosos que
não faziam outra coisa senão - peço desculpa da palavra - enrabar
camelos . Quanto mais uma religião se aproxima do monoteísmo -
nunca se esqueça disso , cher monsieur - , mais ela é cruel e desuma­
na; e , de todas as religiões , o Islão é a que impõe um monoteísmo
mais radical . O seu aparecimento foi assinalado por uma ininterrupta
sucessão de massacres e incursões guerreiras ; enquanto o Islão se
mantiver, nunca haverá concórdia neste mundo . Do mesmo modo ,
jamais a inteligência e o talento poderão existir em terras muçulma­
nas ; nessas regiõe s , a única explicação para a existência de matemá­
ticos , sábios e poetas árabes reside no facto de terem perdido a fé .
Basta ler o Corão para ficarmos chocados com o seu lamentável pen­
dor tautológico: "Não há outro Deus senão o Deus único" , etc . Con­
venhamos que , dessa maneira, não podem ir muito longe . Em vez de
resultar de um esforço de abstração , como os muçulmanos às vezes
sugerem , a passagem para o monoteísmo não passa de um impulso no
sentido do embrutecimento . Repare o senhor como o catolicismo ,
uma subtil religião que eu respeito , uma religião que sabia o que con­
vinha à natureza humana, se afastou tão rapidamente do monoteísmo
imposto pela doutrina oficial . Por meio do dogma da Santíssima Trin­
dade , do culto da Virgem e dos Santo s , do reconhecimento dos pode­
res do Inferno e da admirável invenção dos Anjos , acabou por recons­
tituir um autêntico politeísmo; só dessa maneira conseguiu cobrir a
terra inteira de um tão grande número de tesouros artísticos . Um deus
único? ! Que absurdo ! Que absurdo tão monstruoso e tão destrui­
dor ! . . . Um deus de pedra, cher monsieur, um deus ciumento e cruel
que nunca deveria ter saído das fronteiras do Sinai . E, ao pensarmos
hoje na nossa religião egípcia, vemos como era bem mais profunda ,
mais humana e mais equilibrada . . . E as nossas mulheres ! Como eram
belas , as nossas mulheres ! Basta que nos lembremos de Cleópatra,
que enfeitiçou o grande Júlio César. . . Repare o senhor no estado a
que chegaram . . . (e apontava ao acaso para duas mulheres de cara
tapada, que caminhavam penosamente arrastando os seus sacos de
compras) . Uns potes ! Autênticos potes de banha, enrodilhados numa
quantidade de panos . Assim que casam , só pensam em comer. E vão
1 98 Michel Houel lebecq

inchando , inchando , inchando ! . . . (e enchia as bochechas , numa mí­


mica à Louis de Funes) . Acredite , cher monsieur, o deserto limita-se
a produzir gente cretina e desequilibrada . Na vossa nobre cultura
ocidental , que eu admiro e respeito bastante , de resto , quem foram as
pessoas atraídas pelo deserto? Somente crápulas , aventureiros e pede­
rastas . Como esse ridículo coronel Lawrence da Arábia, um homos­
sexual decadente e um triste exibicionista. Ou o vosso miserável
Henry de Monfreid , disposto a aceitar todas as concessões , um trafi­
cante sem escrúpulos . Ninguém com dignidade e nobreza, autentici­
dade e generosidade; ninguém com capacidade para colaborar no
progresso da humanidade , nem de a elevar acima de si mesma .»

- Bem , uma aventura no Egito - concluiu Jean-Yves em tom


moderado . Pediu-me desculpa por ter de interromper a minha histó­
ria, mas precisávamos de abordar o caso do clube do Quénia. Um
assunto complicado . - Estava tentado a incluí-lo no setor «Aventu­
ra» - sugeriu depois de consultar as fichas .
- É pena - disse Valérie respirando fundo - , as mulheres que­
nianas são esplêndidas .
- Como é que sabes isso?
- Bem , não só as quenianas , refiro-me às africanas de um modo
geral .
- Sim, mas há mulheres em toda a parte . No Quénia há também
zebras , rinocerontes , gnus , elefantes , búfalos , etc . A minha proposta
consiste em pôr o Senegal e a Costa do Marfim no grupo «Afrodite» ,
deixando o Quénia para a «Aventura» . Além do mais , o Quénia é
uma antiga colónia inglesa, o que é mau em termos de imagem eró­
tica; para a aventura , vá que não vá . . .
- Cheiram muito bem , as mulheres da Costa do Marfim - ob-
servei em tom sonhador.
- O que é que queres dizer com isso?
- Quero dizer que cheiram a sexo .
- Sim? ! - Jean-Yves mordiscou maquinalmente a caneta de fel-
tro . - Aí está uma boa dica para uma frase publicitária, do género
«Costa do Marfim , costa dos odores» . Com uma rapariga a transpirar
e de cabelos em desalinho . É preciso tomar nota disso .
Plataforma 1 99

- E «escravos nus com todos os seus odores» . . . B audelaire está


em domínio público .
- Não , essa não dá .
- Também acho .

Com os outros países africanos havia menos problemas .


- Aliás , nunca há problemas com os africanos - observou Jean-
-Yves . - Esses fodem sem levar dinheiro , incluindo as gordas . Em
África, basta que os clubes estejam abastecidos de preservativos ;
desse ponto de vista, são às vezes um bocado teimosos .
Dito isto , escreveu e sublinhou no caderno: PROV IDENCIAR PRESER­
VATIV OS .

O caso d e Tenerife ocupou-nos ainda durante algum tempo .


Tratava-se de um destino que registava resultados medíocres , mas ,
na opinião de Jean-Yves , era estratégico para o mercado anglo­
-saxónico . Podia perfeitamente engendrar-se ali um bom circuito «de
aventura» , com uma subida ao pico de Teide e uma excursão em
hidroplano até Lanzarote . Quanto à infraestrutura hoteleira, era fiá­
vel e adequada .
Seguidamente , analisámos dois clubes que deviam ser os melho­
res trunfos da cadeia: Boca Chica em São Domingos , e Guardalava­
ca em Cuba.
- Esses podiam ter camas king size - sugeriu Valérie .
- Concordo - disse Jean-Yves imediatamente .
- E jacuzzis em cada suite - sugeri eu .
- Não - disse ele . - Temos de nos manter numa gama inter-
média .
Todas as coisas se articulavam com naturalidade , sem dúvidas
nem hesitações ; era preciso falar com os gerentes de cada unidade ,
para llniformizar os preços da prostituição em cada zona .
Fizemos uma breve pausa para almoçar. Nessa altura , a menos
de um quilómetro dali , dois adolescentes do bairro operário de
Courtilieres rebentavam a cabeça de uma sexagenária servindo-se
de tacos de basebol . À mesa, optei por uma entrada de cavala em
vinho branco .
- Têm alguma coisa prevista para a Tailândia? - quis eu saber.
200 Michel Houellebecq

- Sim, estamos a construir um hotel em Krabi . É o novo destino


mais em voga , a seguir a Phuket . Mas podemos mandar acelerar os
trabalhos de maneira a estar tudo pronto no dia um de j aneiro; tinha
piada fazer uma inauguração em grande estilo .

A parte da tarde foi dedicada ao desenvolvimento dos aspetos


inovadores dos clubes Afrodite . A questão principal era a autorização
de acesso das prostitutas e dos prostitutos locai s . Estava fora de
questão a existência de uma estrutura de apoio para os filhos dos
turistas ; talvez fosse preferível proibir a entrada no clube a menores
de dezasseis anos . Foi então que Valérie teve uma ideia brilhante : pôr
no catálogo um preço-base para os quartos individuais superior em
1 0 % ao valor dos quartos ocupados por duas pessoas ; no fundo , o
contrário do que seria normal . Creio que fui eu a propor a implemen­
tação de uma política gay friendly , e de pôr a circular o boato segun­
do o qual a taxa de ocupação da clientela homossexual era superior
a 20 %: em regra , uma informação destas era suficiente para chamar
mais homossexuais; quanto à criação de um certo ambiente , eles
próprios se encarregariam disso . A questão do slogan de suporte à
campanha publicitária obrigou-nos a perder muito tempo . Jean-Yves
tinha-se lembrado de uma fórmula simples mas eficaz: «As férias
são feitas para gozar» ; mas a minha proposta acabou por ser mais
bem aceite : «Eldorador Afrodite : o prazer a que temos direito .» De­
pois da intervenção da NATO no Kosovo , a noção de direito voltava
a ter sentido , explicou-me Jean-Yves , num tom meio a rir meio a
brincar, mas de facto estava a falar a sério : tinha lido um artigo sobre
isso na revista Stratégies . A totalidade das mais recentes campanhas
apoiadas na noção de «direito» tinha saído vitoriosa: direito à inova­
ção , direito à qualidade , etc . «Ü direito ao prazer» , concluiu ele
tristemente , «era completamente novo .» Mas estávamos já um boca­
do cansados; deixou-nos na bofte 2+2 , e foi para casa. Era sábado à
noite e havia bastante gente . Travámos então conhecimento com um
simpático casal de negros: ela era enfermeira, ele baterista de jazz ­
as coisas corriam-lhe bem, ia gravando uns discos de vez em quando .
É verdade que tinha de ensaiar muito , ensaiava sem parar. «No fun­
do» , disse eu um pouco sem jeito , «não há segredo nenhum» ; estra-
Plataforma 20 1

nhamente , o homem concordou ; sem o saber, eu atingira o cerne da


questão , a verdade profunda . «0 segredo consiste em não haver se­
gredo nenhum» , repetia ele convictamente . Depois de bebermos uns
copos , dirigimo-nos para a zona dos quartos . O baterista propôs a
Valérie uma dupla penetração . Ela aceitou , desde que fosse eu a
sodomizá-la - era preciso uma certa meiguice e eu estava mais
habituado . Jérôme concordou e estendeu-se na cama, enquanto Ni­
cole o masturbava para lhe manter a ereção ; a seguir, pôs-lhe um
preservativo . Arregacei a saia de Valérie até à cintura; não tinha nada
por baixo . Com um único movimento , ela enfiou-se na verga do
homem , deitando-se depois em cima dele . Eu abri as nádegas dela ,
lubrifiquei-a cuidadosamente e comecei a enrabá-la aos poucos . E
quando a minha glande estava completamente metida, senti que Va­
lérie contraía os músculos do reto . Retesei-me imediatamente e res­
pirei fundo; era preciso aguentar. Ao fim de uns segundos , enfiei-me
mais nela . Ainda antes de chegar ao fim , Valérie começou a mexer-se
para trás e para a frente ao mesmo tempo que esfregava o púbis no
púbis de Jérôme . Não precisei de fazer mais nada; começou a dar um
longo gemido modulado , o ânus abriu-se e eu entrei completamente
até aos tomates , como se deslizasse num plano inclinado , enquanto
ela atingia instantaneamente o orgasmo . A seguir, ficou imóve l , pal­
pitante e feliz . Conforme me explicou mais tarde , não era propria­
mente um prazer mais forte; mas , quando corria bem , havia um
momento em que as duas sensações se fundiam, provocando um
orgasmo mais doce e mais intenso , como uma grande onda de calor.
Entretanto , Nicole ia-se masturbando a olhar para nós e dava mos­
tras de uma grande excitação; assim que acabámos , ocupou o lugar
de Valérie . Nem tive tempo de mudar de preservativo . «Comigo po­
des estar à vontade» , disse-me ela ao ouvido , «gosto muito de ser
enrabada com toda a força.» Foi isso mesmo que fiz , fechando os
olhos para evitar excitar-me em demasia, e tentando concentrar-me
naquela única sensação . As coisas corriam bem , e eu próprio estava
admirado com a minha resistência . Nicole veio-se também muito
depressa, soltando gritos fortes e roucos .
Em seguida, Valérie e Nicole ajoelharam-se para nos chuparem,
enquanto eu e Jérôme íamos falando um com o outro . O baterista
ainda participava em tournées , mas , segundo dizia, gostava cada vez
202 Michel Houellebecq

menos de o fazer. À medida que ia ficando mais velho sentia neces­


sidade de ficar em casa, de cuidar da família - o casal tinha dois
filhos - e de treinar-se a tocar bateria. Falou-me então de um novo
ritmo , de 4/3 e de 7/9 , embora sem eu perceber grande coisa. Mas , a
meio de uma frase , gritou surpreendido e revirou os olhos: veio-se
instantaneamente , ejaculando com toda a força na boca de Valérie .
«Oh . . . esta arrumou comigo» , disse com ar de riso , «arrumou com­
pletamente comigo .» Pela minha parte , sentia que também não me ia
aguentar muito mais: Nicole tinha uma língua especial , mole e com­
prida, uma língua untuosa; lambia devagar, e o meu prazer ia aumen­
tando de forma insidiosa e praticamente irresistível . Fiz sinal a Valé­
rie para se aproximar e explicar a Nicole aquilo que eu queria:
Nicole tinha apenas de me apertar a glande com os lábios , pôr-lhe a
língua em cima e ficar assim enquanto Valérie me masturbava e lam­
bia os tomates . A enfermeira concordou , e fechou os olhos à espera
da descarga. Valérie entrou imediatamente em funções , tinha os de­
dos ágeis e nervosos , estava novamente em grande forma. Abri com­
pletamente as pernas e os braços , e fechei os olhos . O meu orgasmo
aproximava-se na forma de espasmos , como clarões, que explodiram
no exato momento em que me vim na boca de Nicole . Depois , fiquei
quase em estado de choque , vendo pontos luminosos por baixo das
pálpebras ; mais tarde , apercebi-me de que tinha estado quase a des­
maiar. Abri os olhos com dificuldade . Nicole tinha ainda o meu sexo
dentro da boca . Valérie pusera-me um braço à volta do pescoço e
olhava-me com uma expressão atenta e misteriosa; depois , disse-me
que eu tinha gritado muito alto .
Passado um bocado , o casal acompanhou-nos quando saímos .
Dentro do carro , Nicole teve um novo acesso de excitação . Tirou as
mamas para fora, levantou a saia e deitou-se no banco de trás com a
cabeça entre as minhas coxas . Masturbei-a pausadamente , seguro do
que fazia; conseguia controlar perfeitamente as suas sensações ,
sentia-lhe o s mamilos endurecidos e a rata cada vez mais molhada .
O cheiro do sexo dela impregnava completamente o automóvel .
Jérôme guiava com toda a calma , parando nos sinais vermelhos;
através dos vidro s , eu ia distinguindo as luzes da Concorde , o Obe­
lisco e depois a Ponte Alexandre III e os Invalides . Sentia-me bem ,
estava sereno mas ainda um pouco ativo . Nicole veio-se quando es-
Plataforma 203

távamos quase a chegar à Place d ' Italie . Despedimo-nos depois de


trocarmos os números de telefone .

Por seu lado , Jean-Yves tivera um ligeiro assomo de tristeza de­


pois de nos deixar, enquanto estacionava o carro na Avenue de la
République . A excitação do dia terminara; sabia perfeitamente que
Audrey não estava em casa, embora se congratulasse com isso . Iria
vê-la vagamente na manhã seguinte , quando ela saísse para a sua
sessão de patinagem; depois do regresso das férias , dormiam em
quartos separados .
Nesse caso , o que iria fazer para casa? Acomodou-se no banco do
carro , tentou sintonizar uma estação de rádio e deixou-se ficar. Havia
grupos de rapazes e raparigas a passear por ali ; pareciam divertidos,
a avaliar pelos gritos que davam . Alguns tinham latas de cervej a nas
mãos . Jean-Yves podia sair do carro , meter-se com eles , armar uma
cena de pancadaria; ou fazer outra coisa qualquer. Mas não , ia acabar
por entrar em casa. Num certo sentido , gostava muito da filha, pelo
menos pensava que sim; sentia por ela qualquer coisa orgânica, poten­
cialmente ligada ao sangue , à noção que a própria designação imedia­
tamente sugeria. Relativamente ao filho , não sentia nada semelhante .
No fundo , talvez nem fosse seu filho; o casamento com Audrey assen­
tara em bases muito pouco sólidas . Fosse como fosse , a única coisa
que sentia por ela era desprezo e desgosto ; um desgosto excessivo ,
seria bem melhor que fosse apenas indiferença. Talvez estivesse à
espera disso para se divorciar, desse estado de indiferença; sentia que ,
nessa altura , seria a vez de ela pagar. Mas a verdade é que serei eu a
pagar, disse rapidamente em tom amargo para consigo . A mulher iria
ficar certamente com os filhos , e ele teria de suportar uma pensão
elevada . A menos que tentasse ficar com as crianças , fazendo alguma
coisa por isso; mas não , não valia a pena . Tanto pior para Angélique .
Sozinho ficaria melhor, poderia tentar refazer a vida , isto é , pelo me­
nos tentar encontrar outra companheira. Obrigada a tratar de dois fi­
lhos , a cabra da Audrey ficaria em má situação . Consolava-o pensar
que lhe seria difícil encontrar alguém pior do que ela e que seria a
mulher quem acabaria por sair prejudicada com o divórcio . Audrey já
não era tão bela como quando se conheceram; tinha bom aspeto ,
204 Michel Houellebecq

vestia-se de acordo com a moda, mas , tendo-lhe conhecido o corpo


anteriormente , Jean-Yves sabia que ela estava na curva descendente.
Por outro lado , a sua carreira de advogada estava longe do brilhantis­
mo de que ela falava; e ele tinha o pressentimento de que nada disso
iria melhorar quando Audrey tivesse de tomar conta dos filhos. As
crianças são um fardo para a vida das pessoas , um peso terrível que
lhes entrava todos os movimentos - e que , na maior parte dos casos ,
acaba mesmo por liquidá-las. Jean-Yves iria gozar uma vingança algo
tardia; mas , naquele momento , isso era-lhe completamente indiferen­
te. Então , durante alguns minutos , abrigado pelos edifícios da avenida
agora deserta, dedicou-se a treinar a indiferença.
Assim que entrou em casa, começaram as complicações. Afunda­
da num sofá , Johanna, a baby sitter, estava a ver o MTV. Jean-Yves
detestava esta pré-adolescente molengona, estupidamente groove ; de
cada vez que a via, tinha vontade de lhe dar um par de estalos; talvez
assim ficasse com uma expressão menos idiota e menos displicente.
A rapariga era filha de uma amiga de Audrey.
- Que tal ? - berrou ele. Ela respondeu sem lhe ligar importân­
cia. - Não te importas de baixar o som? - A rapariga procurou o
telecomando com os olhos. Exasperado , Jean-Yves desligou o tele­
visor; Johanna olhou-o com ar ofendido.
- Os meninos estão bem? - perguntou ainda aos gritos , apesar
de a casa estar agora em silêncio.
- Sim, acho que estão a dormir.
E enroscou-se toda, um pouco assustada.
Jean-Yves subiu ao primeiro andar e empurrou a porta do quarto
do filho. Nicolas olhou-o com ar ausente e continuou a sua partida
de Tomb Raider. Angélique estava a dormir de puni1os fechados. O
pai desceu um pouco mais calmo.
- Deu banho à menina?
- Dei... Não , esqueci-me.
Jean-Yves foi à cozinha beber água. Tinha as mãos a tremer. Viu
um martelo em cima da bancada. Não valia de nada dar uns pares de
estalos à baby sitter; seria bem melhor rebentar-lhe a cabeça à mar­
telada. Acalentou a ideia durante algum tempo; pelo seu espírito
passavam-lhe agora pensamentos diversos , um pouco descontrola­
dos. No vestíbulo , assustou-se quando percebeu que ainda estava
Plataforma 205

com o martelo na mão . Deixou-o ficar em cima de uma mesa baixa


e procurou na carteira algum dinheiro par<} o táxi de Johanna . A ra­
pariga segurou a nota e esboçou um agradecimento . E , num movi­
mento de violência descontrolada, bateu a porta atrás de si; o barulho
ecoou por toda a casa . Sem sombra de dúvida, não havia nada que
corresse bem na vida dele . Na sala, o bar estava sem bebidas ; Audrey
nem sequer era capaz de tratar de uma coisa tão simples . Ao pensar
na mulher, sentiu-se atravessado por um arrepio de ódio cuja inten­
sidade o surpreendeu . Encontrou na cozinha uma garrafa de rum já
aberta; talvez lhe fizesse bem . Quando chegou ao quarto , marcou ,
um a seguir ao outro , o número de telefone de três raparigas , que
conhecera na Internet: de todas as vezes , foi recebido pelo atendedor
automático . Deviam ter saído , para foderem por iniciativa própria. É
verdade que eram simpáticas , sexy e modernas ; mas recebiam dois
mil francos de cada vez , o que acabava por ser humilhante . Como era
possível ter chegado àquela situação? Deveria ter saído mais vezes ,
fazer amigos , não pensar unicamente no trabalho . E ao pensar agora
nos clubes Afrodite , apercebeu-se pela primeira vez de que talvez
tivesse dificuldade na aceitação da ideia por parte da administração;
naquela altura , havia em França um estado de espírito hostil ao turis­
mo sexual . É claro que podia mostrar a Leguen uma versão mais
branda do projeto ; mas Espitalier era mais esperto , Jean-Yves sentia
nesse homem uma argúcia mais perigosa. Fosse como fosse , não
havia escolha . Com o posicionamento do grupo na gama média não
fazia nenhum sentido compará-lo com o Club Med , e a administra­
ção do Aurore tinha de compreender isso mesmo . Ao remexer nas
gavetas do escritório , encontrou a carta de intenções do grupo Auro­
re , redigida há mais de dez anos pelos fundadores , e que costumava
estar exposta nos hotéis . «0 espírito do grupo Aurore consiste na
arte de conjugar o savoir-faire, a meio caminho entre a tradição e a
modernidade, entre a imaginação e o humanismo, de maneira a
atingir a mais alta qualidade . Os homens e as mulheres do grupo
Aurore são depositários de um invulgar património cultural: a sua
maneira de receber. Conhecem os ritos e os costumes que transfor­
mam a vida em arte de viver, e o mais simples dos serviços num
momento privilegiado . Arte e trabalho são os seus talentos . Criar o
melhor e partilhá-lo, renová-lo através do contacto com aquilo que
206 Michel Houellebecq

é essencial e inventar espaços de prazer: eis a quilo que fez de Auro­


re um perfume de França em todo o mundo .» Subitamente, Jean­
-Yves teve consciência de que esta treta infeta poderia muito bem
aplicar-se a uma bem organizada rede de bordéis; provavelmente,
seria um trunfo importante junto dos operadores turísticos alemães .
Embora sem qualquer fundamento, alguns deles continuavam a en­
carar a França como o país da galanterie e do savoir-aimer. Ora, se
um grande operador turístico alemão aceitasse incluir os clubes
Afrodite nos seus catálogos, o grupo conquistava uma posição deci­
siva; até ali, ninguém na profissão conseguira nada parecido . Por
causa da venda dos clubes do Magrebe, Jean-Yves tinha tido contac­
tos com os alemães da Neckermann ; mas, nessa altura, contactara
também o grupo TUI , que se desinteressou do negócio devido à boa
implantação que detinha no setor mais popular do mercado; talvez
agora estivessem interessados num projeto mais específico .
11

Jean-Yves tentou fazer os primeiros contactos na segunda-feira de


manhã. Por sorte , acertou imediatamente em cheio: Gottfried Rem­
bke , o presidente da administração do TUI , vinha passar uns dias a
França no princípio do mês seguinte ; e estava disponível para um
almoço de negócios. Entretanto , sugeria que lhe fizessem chegar o
projeto por escrito , que teria todo o prazer em analisá-lo. Jean-Yves
entrou no gabinete de Valérie para lhe dar a novidade ; ela ficou side­
rada. O volume de vendas do TUI cifrava-se em vinte e cinco mil
milhões de francos , o triplo da Neckermann e seis vezes mais do que
a Nouvelles Frontieres ; o grupo TUI era o mais importante operador
turístico do mundo.
Durante o resto da semana, Jean-Yves e Valérie elaboraram um
documento com a totalidade dos argumentos disponíveis. Do ponto
de vista financeiro , o projeto não exigia grandes investimentos: algu­
mas substituições de mobiliário e, sobretudo , a reformulação parcial
da decoração , no sentido de lhe dar um ambiente mais «erótico» : a
designação «turismo de charme» tinha obtido o consenso geral e seria
utilizada no conjunto da documentação da empresa. Mas o mais im­
portante era a expectativa de uma significativa redução das despesas
fixas : acabavam-se as atividades desportivas e o clube para entreter
as criancinhas. Acontecia o mesmo com o ordenado das puericultoras
diplomadas , bem como o dos monitores de vela, tiro ao alvo , aeróbi­
ca e mergulho; passava-se o mesmo com os especialistas de esmalta­
gem , arte floral japonesa ou pintura na seda. Após a primeira simula­
ção, Jean-Yves ficou estupefacto ao verificar que , depois de todas
20 8 Michel Houellebecq

essas deduções , o preço de custo anual dos quartos baixava 25 %.


Voltou a fazer as contas por três vezes , e chegou sempre ao mesmo
valor. Era um resultado impressionante para quem tinha pensado pro­
por a inclusão em catálogo de preços superiores em 25 % à média dos
produtos da mesma gama - isto é , grosso modo , acompanhar os
preços médios do Club Med. Mas deste modo , a taxa de lucro daria
um salto de cerca de 50 % . «Esse teu parceiro é um verdadeiro gé­
nio...» , disse Jean-Yves a Valérie ao vê-la entrar no gabinete.

Por essa altura, havia um ambiente estranho em redor das instala­


ções da empresa. Os conflitos registados no último fim de semana no
átrio do Centro Comercial de Évry não constituíam grande novidade ;
mas , desta vez , o balanço de sete mortos tinha sido bastante mais
grave. Muitos dos funcionários da empresa, sobretudo os mais anti­
gos , moravam próximo dali. Tinham começado por viver em cons­
truções improvisadas , erguidas na mesma altura da construção da
sede da empresa; mais tarde , muitos deles pediram empréstimos
bancários e mandaram fazer as suas moradias. «Tenho pena deles» ,
disse-me Valérie ; «sinceramente , tenho muita pena deles. Sonham
todos com a ida para a província, para um sítio mais calmo ; mas , por
causa da contagem do tempo para a reforma , ainda não o podem
fazer, porque teriam uma grande penalização na pensão. Falei nisso
à telefonista; faltam-lhe três anos para poder sair. Sonhava comprar
uma casa na Dordonha, na região onde nasceu. Mas ultimamente há
muitos ingleses a instalarem-se por lá, e os preços subiram em fle­
cha, nem os casebres escapam. Por outro lado , uma moradia como a
dela vale cada vez menos , toda a gente tem conhecimento da falta de
segurança da zona, daí que vá ser obrigada a vendê-la por um terço
do valor.
«Ü que me surpreendeu também» , continuou Valérie , «foi o com­
portamento das secretárias do segundo piso. Entrei na sala delas às
cinco e meia para pedir que me batessem um texto e vi que estavam
todas a navegar na Internet. Explicaram-me então que , por razões de
segurança , era a melhor maneira de fazerem as compras : quando
voltam para casa depois do trabalho , fecham-se a sete chaves e espe­
ram pela entrega das encomendas.»
Plataforma 209

* * *

Durante as semanas seguintes , esta psicose não diminuiu; pelo


contrário , teve tendência a aumentar. Nos jornais era um nunca mais
acabar de notícias sobre professores esmurrados , professoras viola­
das , carros de bombeiros atacados com cocktails Molotov, ou defi­
cientes atirados pela janela do comboio por terem «olhado de lado»
para o chefe de um gang . Le Figaro , por exemplo , parecia divertir-se
à grande; todos os dias dava a impressão de que a guerra civil era
absolutamente inevitável. É verdade que íamos entrar em campanha
pré-eleitoral , pelo que a segurança parecia ser a única questão a pre­
ocupar Lionel Jospin. De qualquer modo , não era provável que os
franceses votassem novamente em Jacques Chirac : estava cada vez
mais parvo , o que constituía um verdadeiro atentado à imagem do
país. De cada vez que víamos este pobre pateta, de mãos atrás das
costas , a aparecer numa reunião de grandes agricultores ou num en­
contro de chefes de Estado , sentíamos um certo mal-estar e chegáva­
mos a ter pena dele. A esquerda, objetivamente incapaz de impedir a
escalada da violência, aguentava-se bem: tinha posições moderadas ,
achava que as estatísticas eram assustadoras , para não dizer muito
assustadoras , mas alijava as responsabilidades e lembrava que , no seu
tempo , a direita não fizera melhor. Só houve uma pequena derrapa­
gem , com um ridículo editorial de um tal Jacques Attali. Segundo ele ,
a violência dos jovens dos bairros pobres representava um «pedido de
socorro». As luxuosas montras dos Halles ou dos Champs-Elysées
constituíam , escrevia o articulista, «exibições obscenas face aos olhos
dos miseráveis». Mas era bom não esquecer que os subúrbios forma­
vam também «um mosaico de vários povos e raças que , com as suas
crenças e as suas tradições , poderiam forjar novas formas de cultura
e reinventar a arte de viver em conjunto». Valérie olhou-me admirada:
era a primeira vez que me via rir à gargalhada enquanto lia L' Express .
- Se Jospin quiser ser eleito - disse eu dando-lhe o jornal -
tem de mandar calar este gajo até à segunda volta.
- Decididamente , as questões de estratégia interessam-te cada
vez mms...

* * *
2 10 Michel Houellebecq

Mas a verdade é que eu próprio começava a sentir-me preocupado.


Valérie voltara a trabalhar até tarde e era raro chegar a casa antes das
nove da noite; parecia aconselhável comprar-lhe uma arma. Eu dis­
punha de um contacto , o irmão de um artista a quem eu tinha orga­
nizado uma exposição há uns dois anos. Não era propriamente um
marginal , mas participara já numas quantas vigarices. Tratava-se
sobretudo de um inventor, uma espécie de faz-tudo. Por essa altura,
informara o irmão de que tinha descoberto uma maneira para falsifi­
car bilhetes de identidade , habitualmente considerados impossíveis
de falsificar.
- Não quero nada disso - respondeu Valérie imediatamente. -
Não corro risco nenhum: durante o dia, não saio das instalações da
empresa, e à noite venho para casa de carro , seja a que horas for.
- E as paragens nos sinais vermelhos...
- Entre a empresa e o acesso à autoestrada, só há um sinal ver-
melho. Depois , venho pela Porte d' ltalie e chego a casa num instan­
te. Por outro lado , o nosso bairro não é perigoso.
Era verdade ; no próprio bairro de Chinatown não havia roubos
nem agressões. Por mim , não sabia como é que eles faziam aquilo:
teriam um sistema especial de vigilância? Fosse como fosse , tinham
dado pela nossa chegada; no prédio , havia pelo menos umas vinte
pessoas que nos cumprimentavam. Os europeus eram muito raros
ali , Valérie e eu éramos dos poucos que ali morávamos. Por vezes ,
viam-se anúncios escritos em carateres chineses que pareciam
convidá-los para festas ou reuniões ; mas nunca soubemos o que
seriam essas festas e essas reuniões. A verdade é que podemos viver
durante muitos anos entre chineses sem nunca compreender a sua
forma de vida.
Apesar da negativa de Valérie , não deixei de telefonar à tal pessoa,
que me ligou dois dias depois. Conseguia arranjar-me um esplêndida
«fusca» , por dez mil francos - com uma boa quantidade de muni­
ções incluída no preço. Bastava limpá-la regularmente , para evitar
que se avariasse na altura em que fosse precisa. Falei nisso a Valérie ,
que voltou a recusar. «Não era capaz» , disse ela, «não era capaz de
disparar.» «Mesmo se estivesses em risco de vida?» Abanou a cabe­
ça e voltou a dizer: «Não , não sou capaz.» Não valia a pena insistir.
«Quando era pequena» , explicou-me Valérie algum tempo depois ,
Plataforma 2 11

«nem conseguia matar uma galinha.» Nem eu , para dizer a verdade;


mas matar um homem parecia-me bastante mais fácil.
Pessoalmente , por estranho que pareça , não sentia medo nenhum.
É verdade que não tinha qualquer contacto com hordas bárbaras ,
exceto ocasionalmente durante o intervalo do almoço , quando dava
uma volta pelos Halles; mas aí, a cuidadosa articulação entre as di­
versas forças de segurança (polícias do Corpo de Intervenção , agen­
tes fardados e elementos das empresas de segurança pagos pelas as­
sociações de comerciantes) eliminava teoricamente todos os perigos.
Assim , limitava-me a circular nos locais onde havia mais gente far­
dada; sentia-me um pouco como se estivesse na reserva de animais
selvagens de Thoiry. Sabia perfeitamente que , sem a presença das
forças da ordem , eu próprio constituiria uma presa fácil , embora sem
grande interesse; demasiadamente convencional , a minha roupa de
quadro médio era muito pouco atrativa. Por mim, também não sentia
nenhum interesse especial por esses jovens em risco ; não os compre­
endia, mas também não me esforçava nada para isso. E não nutria a
mais pequena simpatia pelas suas predileções nem pelos seus valo­
res. Por outro lado , seria incapaz de levantar um dedo para ter um
Rolex, uns Nike ou um BMW Z3; nunca me dera ao trabalho de co­
nhecer as diferenças entre os produtos de marca e os outros produtos.
É claro que , aos olhos das pessoas , estava completamente errado.
Tinha consciência disso: a minha posição era minoritária e , por isso
mesmo , o erro seria certamente meu. Tinha de haver alguma diferen­
ça entre as camisas Yves Saint Laurent e as outras camisas , entre os
sapatos Gucci e os outros sapatos. Eu era o único a não perceber
essa diferença; tratava-se certamente de uma deficiência de que não
me poderia servir para condenar as outras pessoas. Não se podia
pedir a um cego que se tornasse perito em pintura pós-impressionista.
A verdade é que a minha certamente involuntária cegueira me colo­
cava à margem de uma vivificante realidade humana, suficientemen­
te forte para provocar crimes e servidões. Através do seu instinto
semisselvagem , esses jovens tinham talvez uma sensibilidade espe­
cial para tudo o que era belo ; afinal de contas , as suas aspirações
eram inteiramente louváveis e conformes às normas sociais em vi­
gor; só lhes faltava retificar a maneira desadequada como manifesta­
vam as suas preferências.
2 12 Michel Houellebecq

Em todo o caso , não me podia esquecer de que , tanto Valérie como


Marie-Jeanne , as únicas duas presenças femininas com alguma con­
sistência na minha vida, manifestavam um solene indiferença por
camiseiros Kenzo e malas Prada; na verdade , segundo julgava saber,
não davam qualquer importância à marca da roupa que compravam.
Mas , Jean-Yves , o homem mais bem pago que eu conhecia, preferia
usar pólos Lacoste , embora o fizesse de uma forma automática, por
uma questão de hábito , sem se preocupar com a possibilidade de a
sua marca favorita ser ultrapassada por um concorrente mais recente.
Certas funcionárias do Ministério da Cultura que eu apenas conhecia
de vista se assim se pode dizer, porque (a verdade é que nunca me
lembrava do nome delas , da função que tinham e mesmo das respe­
tivas fisionomias) compravam roupa de estilistas; mas tratava-se
quase sempre de criadores jovens e desconhecidos cujas roupas eram
vendidas numa única boutique de Paris , e eu não duvidava de que o
deixariam de fazer se porventura os ditos estilistas se tornassem mais
conhecidos.
Quanto à importância de marcas como Nike , Adidas , Armani e
Vuitton , era um facto absolutamente indiscutível ; eu próprio me
apercebia disso de cada vez que folheava Le Figaro e o seu caderno
cor de salmão. E ficava na dúvida: Quem seria responsável pelo su­
cesso destas marcas entre os jovens dos subúrbios de Paris? A verda­
de é que havia setores inteiros da sociedade que eu desconhecia
completamente ; a menos que se tratasse , pura e simplesmente , de
classes enriquecidas , vindas do Terceiro Mundo. Tendo viajado pou­
co e vivido pouco , era cada vez mais óbvio que não percebia grande
coisa do que se passava no mundo moderno.

A 27 de setembro houve uma reunião com os onze gerentes das


unidades Eldorador, que se deslocaram nessa altura a Évry. Tratava­
-se de uma reunião habitual , que era realizada todos os anos nessa
época , destinava-se a fazer o balanço dos resultados obtidos no verão
e a lançar medidas para os melhorar. Desta vez , a reunião assumia
um significado especial. Em primeiro lugar, iam ser vendidas três
unidades - o contrato com a Neckermann acabara de ser assinado.
Além disso , nas quatro restantes - que passariam a chamar-se
Plataforma 2 13

«Afrodite» - os respetivos gerentes tinham de se preparar para des­


pedir metade do pessoal.
Valérie não participou na reunião: tinha uma entrevista com um
representante do ltaltrav para lhe apresentar o projeto. O mercado
italiano estava bastante mais pulverizado do que o da Europa do
Norte: mesmo na sua qualidade de principal operador turístico italia­
no , o Italtrav tinha dez vezes menos movimento do que os alemães
do TUI ; apesar disso , um acordo com os italianos poderia trazer um
certo acréscimo de clientela.
Valérie acabou a entrevista por volta das sete da noite. Jean-Yves
estava sozinho no gabinete. A reunião com os gerentes das unidades
também já terminara.
- Qual foi a reação deles ?
- Foi má, claro. D e resto , compreendo-os perfeitamente; também
se devem sentir na corda bamba.
- Estás a pensar substituí-los?
- Trata-se de um projeto novo ; é preferível arrancar com equipas
novas.
Jean-Yves falava com tranquilidade. Valérie olhou-o surpreendi­
da: nos últimos tempos , aparentava mais segurança - e mais dureza.
- Neste momento , tenho a certeza de que vamos ganhar. Durante
o intervalo que fizemos , chamei o gerente de Boca Chica , em São
Domingos , para falar comigo a sós e tirarmos uma coisa a limpo:
queria saber como é que ele conseguia uma taxa de ocupação de
90 % , fosse em que época fosse. Começou por hesitar, via-se que não
estava à vontade , falou muito do trabalho de equipa, etc. Acabei por
lhe perguntar diretamente se autorizava a entrada de raparigas nos
quartos dos clientes; não foi fácil convencê-lo a responder franca­
mente , parecia ter um certo receio. Fui obrigado a dizer-lhe que não
achava nenhum mal nisso , antes pelo contrário, considerava que era
uma boa iniciativa. Foi então que o homem contou tudo. Segundo
ele , era completamente disparatado obrigar os clientes a alugar quar­
tos a dois quilómetros de distância, muitas vezes sem água corrente ,
arriscando-se a serem enganados , quando podiam perfeitamente go­
zar de todo o conforto nas instalações do clube. Dei-lhe os meus
parabéns e garanti-lhe que iria manter o seu lugar de chefia, mesmo
que fosse o único.
2 14 Michel Houellebecq

A noite caía; Jean-Yves acendeu a luz do gabinete e ficou em si­


lêncio durante algum tempo.
- Relativamente aos outros , não sinto remorsos de qualquer espé­
cie. São todos mais ou menos iguais: antigos animadores que entra­
ram em boa altura e se puseram nas miúdas que quiseram sem mexer
uma palha; pensavam que , depois de passarem a chefes , podiam con­
tinuar de costas direitas até à idade da reforma. Tiveram a sua época,
tanto pior para eles. Agora , preciso de verdadeiros profissionais.
Valérie cruzou as pernas e olhou-o sem dizer uma palavra.
- E então o teu encontro com o homem da Italtrav?
- Correu bem , sem qualquer problema. Compreendeu imediata-
mente o que eu queria dizer com «turismo de charme» e chegou
mesmo a tentar engatar-me... Por isso é que as coisas correm bem
com os italianos , pelo menos não são imprevisíveis... Por fim , pro­
meteu inscrever os nossos clubes no catálogo , mas disse-me que não
tivéssemos muitas ilusões: a grande dimensão da empresa italiana
resulta da sua associação com múltiplos operadores especializados ,
a marca Italtrav não tem uma identidade especialmente forte. Em
boa verdade , a empresa funciona mais como canal de distribuição:
podemos fazer parte das listas deles , mas teremos de ser nós a criar
uma boa imagem no mercado italiano.
- E como vão as coisas em Espanha?
- Temos um bom contacto com a Marsans. Não são diferentes
dos italianos , embora com outras ambições , e têm tentado implantar­
-se em França. Eu tinha um certo receio de que os nossos produtos
concorressem diretamente com os dele s , mas não , acham que nos
podemos complementar uns aos outros.
Antes de prosseguir, Valérie refletiu um pouco e perguntou :
- E em França, o que vamos fazer aqui em França?
- Ainda não sei bem... Talvez seja estupidez minha , mas tenho
receio de alguma campanha moralizadora por parte da imprensa. É
claro que podemos encomendar um estudo de mercado e testar o
conceito...
- Mas tu nunca acreditaste em coisas dessas...
- É verdade que não ... - Hesitou uns instantes. - De facto ,
estou tentado a fazer um lançamento pouco ambicioso em França,
servindo-me unicamente dos canais de divulgação da Auroretour e
Plataforma 2 15

de uma campanha publicitária em determinadas revistas especializa­


das , como a FHM e L' Écho des Savanes . Mas , numa primeira fase ,
vou centrar todos os esforços no mercado da Europa do Norte .

O encontro com Gottfried Rembke realizava-se na sexta-feira se­


guinte . Na véspera à noite , Valérie pós uma mascara descongestio­
nante na cara e deitou-se muito cedo . Quando acordei , às oito horas ,
já ela estava arranjada. O resultado era impressionante . Tinha um
saia-casaco preto , com uma saia tão curta que lhe moldava maravi­
lhosamente as nádegas; por baixo , vestira um camiseiro muito justo
em renda cor de violeta , parcialmente transparente , e um soutien
escarlate que lhe levantava os seios , deixando-os quase totalmente a
descoberto . Assim que se sentou em frente da cama, vi que calçara
meias pretas , progressivamente mais escuras de baixo para cima,
presas a um cinto de ligas. Tinha os lábios pintados de vermelho­
-escuro e os cabelos apanhados atrás.
- Achas que resulta? - perguntou em tom de malícia.
- Acho que resulta mesmo . Não há dúvida de que as mulheres ,
quando querem . . . - disse eu num suspiro.
- É a minha farda de sedutora institucional . Também me vesti
assim para tu veres; sabia que ias gostar.
- Dar mais erotismo ao trabalho . . . - murmurei eu. Valérie
estendeu-me uma chávena de café .
Depoi s , até vê-la sair não fiz outra coisa senão olhá-la enquanto
andava de um lado para o outro , sentando-se e levantando-se. No
fundo , não era nada do outro mundo , mas resultava mesmo , sobre
isso é que não havia dúvida. Quando cruzava as pernas , via-se-lhe
uma zona mais escura no alto das coxas , acentuada pela finíssima
textura do nylon . Se as cruzava mais acima , vislumbrava-se uma
faixa preta na parte superior, junto ao cinto de ligas e um pedaço de
pele branca e nua , antes da base das nádegas. Quando as descruza­
va, desaparecia tudo novamente . Ao debruçar-se na mesa , eu sentia­
-lhe os seios a palpitar por baixo das roupas . Por mim , não me im­
portava de ficar a vê-la assim horas a fio . Era uma alegria fácil e
inocente , eternamente bem-aventurada; uma elementar promessa de
felicidade .
216 Michel Houellebecq

* * *

O encontro estava marcado para a uma da tarde , no Restaurante Le


Divellec , na Rue de 1 ' Université ; Jean-Yves e Valérie chegaram cin­
co minutos antes .
- Como é que vamos abordar o assunto? - perguntou ela quan­
do saíram do táxi .
- Olha, só tens de lhe dizer que vamos abrir bordéis para os bo­
ches . - Jean-Yves teve uma expressão de cansaço . - Deixa lá, não
te preocupes , as perguntas ficam por conta dele .
Gottfried Rembke chegou à uma hora em ponto . Assim que entrou
no restaurante e deu o sobretudo ao empregado , percebeu-se que era
ele . De corpo sólido e forte , crânio luzidio , olhar franco e aperto de
mão enérgico , respirava dinamismo e naturalidade , correspondendo
inteiramente à imagem de um grande patrão , mais precisamente de
um grande patrão alemão . Era fácil imaginá-lo a iniciar o dia cheio
de entusiasmo , saindo da cama de um salto e fazendo meia hora de
bicicleta de ginásio , antes de ir para o escritório no flamejante Mer­
cedes onde ouvia as primeiras informações do mundo dos negócios .
«Tem muito bom aspeto , o tipo . . . » , disse Jean-Yves entredentes ,
levantando-se todo sorridente para o cumprimentar.
Depois , durante os primeiros dez minutos , Herr Rembke limitou­
-se a falar de culinária. Mostrava conhecer bem a França , bem como
a cultura e os restaurantes franceses; além disso, possuía uma casa
na Provença. «É impecável , este tipo , absolutamente impecável . . . » ,
pensava Jean-Yves enquanto olhava para o seu prato de consommé
de lagostins . «Rock and rol!, Gotty » , acrescentou então mentalmente
ao pegar na colher. Valérie estava muito bem , de olhar brilhante ,
ouvia tudo com a maior atenção , preocupada em agradar ao alemão .
A certa altura, quis saber em que zona da Provença se situava a casa,
se Rembke conseguia ir até lá com frequência, etc . Mandou vir um
creme de navalheiras com frutos vermelhos e disse no mesmo tom :
- Calculo que esteja interessado n o nosso projeto .
- Vejamos - disse o alemão em tom calmo - , todos nós sabe-
mos perfeitamente que o «turismo de charme» - e teve uma ligeira
hesitação na utilização do termo - é uma das principais motivações
que levam os nossos compatriotas a ir de férias para o estrangeiro .
Plataforma 217

De resto, toda a gente compreende isso perfeitamente, trata-se de um


delicioso pretexto para viajar. Apesar disso , é bastante curioso que ,
até agora, nenhuma grande empresa do ramo se tenha debruçado a
sério sobre o caso - exceção feita a umas quantas tentativas , bastan­
te tímidas , aliás , junto da clientela homossexual. Assim, e por estra­
nho que pareça, estamos perante um mercado ainda por explorar.
- Vamos ver se será assim , primeiramente tem de haver alguma
evolução nas mentalidades - disse Jean-Yves nessa altura, ao mesmo
tempo que se apercebia de ter dito uma parvoíce. - Dos dois lados
do Reno - acrescentou piorando um pouco mais as coisas.
O alemão olhou-o friamente , como se achasse que estava a gozar
com ele; Jean-Yves meteu o nariz no prato e pensou que era melhor
não dizer mais nada até ao final da refeição. Mas Valérie estava em
grande forma.
- Bom, não vale a pena transferir os problemas franceses para a
realidade alemã - disse cruzando as pernas com naturalidade . Rem­
bke virou-se imediatamente para ela.
- Os nossos compatriotas - prosseguiu ele - ficam muitas
vezes entregues a si próprios e são obrigados a recorrer a intermediá­
rios de honestidade duvidosa. De um modo geral , o setor caracteriza­
-se por um grande amadorismo... o que constitui um enorme desafio
profissional.
Valérie apressou-se a concordar. O empregado trouxe um peixe­
-galo assado acompanhado de figos lampos.
- O vosso projeto - disse o alemão depois de dar uma espreita-
dela ao prato - mereceu o nosso interesse porque representa tam­
bém uma mudança radical na abordagem destas questões. De facto ,
os produtos pensados para a década de setenta não correspondem às
expectativas atuais do consumidor moderno. No Ocidente , as rela­
ções entre as pessoas tornaram-se cada vez mais difíceis , um facto
que , como é óbvio, lamentamos profundamente - prosseguiu en­
quanto voltava a olhar para Valérie no momento em que , com um
sorriso , ela descruzava as pernas.

Nesse dia, quando voltei do trabalho , às seis e um quarto , já ela


estava em casa. Fiquei admirado : desde que vivíamos juntos , era a
218 Michel Houellebecq

primeira vez que isso acontecia. Estava enterrada no sofá, ainda de


saia-casaco , com as pernas ligeiramente abertas. Olhando o vazio ,
parecia sonhar com alguma coisa agradável e doce. Embora nesse
momento não me tivesse apercebido , a verdade é que estava a assis­
tir a um orgasmo de raiz profissional.
- Como é que correu? - perguntei.
- O melhor possível. Vim para casa logo a seguir ao almoço , sem
passar pelo escritório; numa semana assim , é impossível fazer mais
e melhor. O alemão não se limitou a interessar-se pelo projeto : está
disposto a dar-lhe toda a divulgação , a partir da próxima época de
inverno. Além disso , dispôs-se a financiar a edição do catálogo e
uma campanha publicitária dirigida ao público alemão. Achou que
conseguia assegurar integralmente a totalidade das ocupações dispo­
níveis ; e quis saber se não teríamos outros projetos em carteira. Em
troca, exige apenas exclusividade nos países onde trabalha - Ale­
manha, Áustria, Suíça e conjunto do Benelux; de resto , tinha conhe­
cimento dos nossos contactos com a Neckermann. Marquei um fim
de semana fora - acrescentou Valérie - num centro de talassotera­
pia, em Dinard. Acho que me vai fazer bem. E podemos também dar
um pulo a casa dos meus pais.

Uma hora depois , estávamos a partir da Gare de Montparnasse .


À medida que o comboio galgava quilómetros , a tensão acumulada
por Valérie ia baixando - até que reencontrou o estado normal , isto
é , a sua alegria e a sua sexualidade. Os últimos edifícios dos subúr­
bios de Paris desapareciam ao longe; antes de chegarmos à planície
de Hurepoix , já o TGV atingia a velocidade máxima. Para oeste da
linha do horizonte , via-se ainda uma última réstia de luz sobre a mas­
sa escura de silos de cereais. Tínhamos tirado bilhetes de primeira
classe e viajávamos numa carruagem de pequenos compartimentos;
sobre as mesas que separavam os lugares , havia pequenas lâmpadas
amarelas já acesas. Do outro lado do corredor, uma senhora na casa
dos quarenta, «chiquérrima» , classe média-alta ou superior, de cabe­
los loiros puxados para trás , folheava a Madame Figaro . Pela minha
parte , eu também tinha comprado Le Figaro e, embora sem grande
resultado , ia tentando interessar-me pelo caderno cor de salmão. De
Plataforma 2 19

há uns anos a esta parte , tenho vindo a alimentar uma teoria segundo
a qual me é possível decifrar o mundo e compreender a sua evolução
se me abstrair da atualidade política e das informações sobre a cultu­
ra e a sociedade ; o conhecimento dos indicadores económicos e das
operações das Bolsas mundiais seria nesse caso suficiente para a
compreensão das movimentações históricas. Assim limito-me a ler o
caderno salmão do Le Figaro , embora recorra por vezes a outras pu­
blicações mais rebarbativas , caso deLes Échos e La Tribune Desfos­
sés . Até agora, trata-se de uma tese de impossível comprovação. Na
verdade , é admissível que algumas informações históricas importan­
tes se dissimulem por entre simples e moderados editoriais e listagens
de indicadores económicos ; mas também pode acontecer o contrário.
Por isso , a única conclusão certa a que eu cheguei foi que , decidida­
mente , a economia é uma coisa pavorosamente aborrecida. Ao erguer
os olhos de um artigo onde se tentava explicar a queda do índice
Nikkei, apercebi-me de que Valérie começara a cruzar e descruzar as
pernas ; ao mesmo tempo , a sua cara ia-se abrindo num sorriso. Antes
de pôr o jornal de lado , ainda li: «Bolsa de Milão desce aos infernos.»
De seguida, tive uma súbita ereção quando vi que ela arranjara ma­
neira de tirar as calcinhas , sentando-se a meu lado e enroscando-se
em mim. Depois , despiu a parte de cima do fato e pô-lo em cima dos
meus joelhos. Olhei apressadamente para o lado direito: a nossa vizi­
nha de compartimento parecia absorvida na leitura, no caso um artigo
sobre jardins de inverno. Reparei que também ela tinha saia travada
e meias pretas ; era aquilo a que se costuma chamar uma burguesa
boazona. Com uma mão a deslizar por baixo do casaco , Valérie
segurou-me o sexo; eu trazia umas calças de algodão fino , daí que
tenha experimentado imediatamente uma sensação muito forte. En­
tretanto , a noite caía. Afundei-me mais no meu lugar e introduzi a
mão no camiseiro dela. Afastei o soutien , segurei-lhe o seio direito
com a palma da mão e comecei a acariciar-lhe o mamilo, com o po­
legar e o indicador. Por alturas de Le Mans , Valérie abriu-me a bra­
guilha. Os seus movimentos eram agora tão explícitos que eu estava
convencido de que a vizinha se apercebia de tudo o que se passava.
Por mim , era-me completamente impossível resistir por mais tempo
a uma masturbação tão bem feita. Ejaculei pouco antes de Rennes ,
não conseguindo evitar um grito abafado. «Não posso esquecer-me
220 Michel Houellebecq

de mandar limpar o fato... » , disse Valérie calmamente. Sem esconder


um ar divertido , a vizinha da frente olhou diretamente para nós.
Na estação de Saint-Maio fiquei ligeiramente contrariado ao
aperceber-me de que a senhora em causa seguia na mesma navette a
caminho do centro de talassoterapia; em contrapartida, Valérie enta­
bulou imediatamente conversa com ela, a propósito dos vários trata­
mentos disponíveis no local. Eu pouco ou nada sabia sobre banhos
de lama , duches de jatos frios e quentes e máscaras de algas ; no dia
seguinte , limitei-me a nadiscar na piscina. Estava a tentar boiar, va­
gamente consciente da existência de umas correntes submarinas que ,
supostamente , serviam para massajar as costas , quando Valérie se
aproximou. «A nossa vizinha do comboio... » , disse excitadíssima,
«atirou-se a mim quando estávamos no jacuzzi.» Registei a informa­
ção sem reagir. Mas Valérie acrescentou. «Neste momento , está so­
zinha no banho turco.» Vesti um roupão e fui imediatamente atrás
dela. À entrada do banho turco , tirei os calções de banho; a minha
ereção via-se à distância. Entrámos ao mesmo tempo , mas deixei-a
avançar por entre um vapor tão denso que não se via nada a doi s
metros de distância. O ar estava impregnado de um cheiro intenso a
eucalipto , quase embriagante. Durante uns segundos , fiquei parado
naquele vazio esbranquiçado e quente; depois , ouvi um gemido vin­
do do fundo da sala. Desapertei o roupão e aproximei-me; na minha
pele , iam-se formando gotículas de transpiração. Ajoelhada na sua
frente e segurando-lhe as nádegas com as mãos , Valérie lambia a
rata da quarentona. Era de facto uma bela mulher, de seios arredon­
dados e tratados a silicone , rosto harmonioso , boca grande e sensual.
Virou-se para mim sem manifestar a mínima surpresa e segurou-me
o sexo com a mão. Aproximei-me mai s , passei por detrás dela e
apalpei-lhe as mamas enquanto lhe esfregava a piça nas nádegas .
A mulher abriu as coxas e inclinou-se para a frente , encostando-se à
parede. Valérie meteu a mão no roupão e deu-me um preservativo;
com a outra mão , continuava a acariciar o clítoris da mulher, que
estava já completamente aberta. Então , penetrei-a num único movi­
mento e ela inclinou-se um pouco mais para a frente. Enquanto ia e
vinha , senti a mão de Valérie a insinuar-se entre as minhas coxas ,
acariciando-me os tomates. Depois , recomeçou a lamber a rata da
mulher, pelo que , enquanto eu ia e vinha sentia a piça a deslizar con-
Plataforma 221

tra a língua dela. Depoi s , quando a outra começou a vir-se por entre
gemidos de prazer, contraí os músculos pélvicos e saí muito lenta­
mente. Nessa altura, tinha o corpo coberto de transpiração , respirava
aceleradamente e senti-me a vacilar, sendo obrigado a sentar-me num
banco. Entretanto , as massas de vapor de água continuavam a ondu­
lar por cima de mim. Ouvi então o som de beijos e levantei a cabeça:
estavam as duas enlaçadas , roçando-se uma na outra com as mamas.

Mais tarde , eu e Valérie voltámos a fazer amor, no final do dia, e


depois à noite , e novamente no outro dia de manhã. Era um frenesim
pouco habitual ; no fundo , tínhamos consciência de que íamos entrar
num período difícil , com Valérie de novo cheia de trabalho e dificul­
dades profissionai s diversas. O céu tinha um azul imaculado e a
temperatura era amena; sem dúvida alguma, era um dos mais belos
fins de semana antes da chegada do outono. No domingo de manhã,
depois de fazermos amor, demos um longo passeio na praia. Com
surpresa, eu ia observando os edifícios dos hotéis , num estilo neo­
clássico um pouco kitsch . Quando chegámos ao final da praia,
sentámo-nos numas rochas.
- Calculo que esse encontro com o alemão era muito importante
- disse eu. - Provavelmente , será o início de um novo desafio...
- É a última vez , Michel. Se resultar, vamos ficar sossegados
durante uns tempos.
Olhei-a incrédulo e com ar triste. Não acreditava nem um bocadi­
nho na sua argumentação ; fazia-me lembrar certos livros de História
com as declarações de políticos sobre a der des ders 11 , a partir da
qual teríamos a paz definitiva.
- Em todo o caso , tu própria me explicaste um dia - disse eu
com doçura - que o capitalismo exigia um estado de guerra perma­
nente , uma luta perpétua sem um final à vista.
- E é verdade - confirmou sem hesitação - , mas não é obriga­
tório que sejam sempre os mesmos a entrar em combate.

Uma gaivota levantou voo , ganhou altura e dirigiu-se para o mar.


Estávamos praticamente sozinhos naquele lado da praia. Sem som-
222 Michel Houellebecq

bra de dúvida , Dinard era uma estância tranquila naquela altura do


ano. Um cão de raça labrador aproximou-se de nós , cheirou-nos e
seguiu o seu caminho ; não consegui ver se vinha com alguém.
- Posso-te garantir - insistiu Valérie. - Se correr como eu es­
pero , podemos aplicar o conceito de uma forma generalizada. Só na
América Latina, temos hipóteses de lançar clubes no Brasil, naVe­
nezuela e na Costa Rica. De resto , podemos fazer o mesmo nos Ca­
marões , em Moçambique e nas Seychelles. E na Ásia, também pode­
mos começar imediatamente: na China, no Vietname e no Camboja.
Em dois ou três anos , poderemos ser uma referência obrigatória. E
ninguém ousará competir connosco: desta vez , a vantagem concor­
rencial será nossa.
Fiquei calado , incapaz de lhe responder; afinal de contas , a ideia
inicial tinha sido minha. No mar, a maré ia subindo ; e na areia
cruzavam-se regos de água que vinham morrer aos nossos pés.
- Além disso - continuou Valérie - , desta vez vamos exigir um
bom lote de ações. Se tivermos êxito , não nos podem dizer que não.
E quem é acionista não precisa de ir à luta; nessa altura, são os outros
que têm de o fazer.
Valérie parou e olhou-me hesitante. O que ela dizia fazia sentido ,
tudo aquilo tinha a sua lógica. Começou a levantar-se vento ; e eu
comecei a sentir fome. O restaurante do hotel era ótimo : tinha maris­
co fresquíssimo e pratos de peixe saborosos e requintados. Saímos
da praia caminhando pela areia húmida.
- Tenho dinheiro - disse eu subitamente - , é preciso não es­
quecer que tenho dinheiro. - Ela parou e olhou-me surpreendida; eu
próprio não pensara dizer aquilo. - Sei muito bem que não és do
género de «ficar por conta» - continuei ligeiramente embaraçado
- , mas ninguém nos obriga a proceder como as outras pessoas.
Valérie olhou-me calmamente nos olhos.
- Quando receberes o dinheiro da casa do teu pai , ficas , no má­
ximo , com três milhões de francos...
- Sim, é mais ou menos isso...
- Mas não chega; a verdade é que não chega. Precisamos de al-
guma coisa mais. - Calou-se durante um tempo e recomeçou a an­
dar. - Acredita em mim - disse quando entrámos na porta envidra­
çada do restaurante.
Plataforma 223

Depois do almoço , pouco antes da ida para a estação , fomos a


casa dos pais dela. Valérie explicou-lhes que ia ter novamente um
grande acréscimo de trabalho ; talvez não pudesse visitá-los antes do
Natal. O pai olhou-a com um sorriso resignado. Era uma boa filha,
disse eu para comigo , uma filha afetuosa e terna; mas também uma
amante sensual , audaciosa e meiga; e, se fosse caso disso , uma mãe
atenta e extremosa. «Os seus pés são de ouro fino, as suas pernas
são como as colunas do Templo de Jerusalém .» Por mim , continuava
sem saber o que fizera para merecer uma mulher como ela. Prova­
velmente , nada. O esplendor do Universo , disse de mim para mim , é
algo de que me limito a verificar a existência; e faço-o empiricamen­
te , com toda a minha boa-fé; não posso fazer outra coisa senão isso .
12

O pai de Jean-Yves morreu no final de outubro. Audrey recusou-se


a ir ao enterro ; de resto , o marido não esperava outra coisa, falara-lhe
nisso por uma questão de princípio. Foi um enterro com pouca gente :
Jean-Yves era filho único , tinha pouca família e poucos amigos. O
falecido teve direito a uma breve notícia necrológica no boletim dos
antigos alunos da ESAT12; depois disso , ponto final ; nos últimos
tempos , não se dava com ninguém. O filho nunca percebera a razão
que o levara a ir, depois de reformado , para uma região sem qualquer
interesse , provinciana no pior sentido do termo , a que não estava li­
gado por laços de nenhuma espécie. Talvez um derradeiro assomo de
masoquismo , algo que sempre o acompanhara ao longo da vida. De­
pois de bons resultados nos estudos , desbaratara o talento numa
apagada carreira de engenheiro fabril. E, apesar de sempre ter dese­
jado ter uma filha, conformara-se com aquele único filho - na in­
tenção , segundo dizia, de lhe proporcionar uma boa educação; mas o
argumento não colhia: ganhava bastante bem como engenheiro. No
casamento , dava mais a impressão de ter-se habituado à mulher do
que a amá-la verdadeiramente ; talvez sentisse orgulho na carreira
profissional do filho - embora nunca falasse disso. Exceção feita à
criação de coelhos e às palavras cruzadas de La République du
Centre-Oueste , não se lhe conhecia qualquer outro hobby ou diverti­
mento. Muito provavelmente enganamo-nos quando imaginamos em
todas as pessoas uma paixão secreta, um mistério escondido ou uma
simples madureza; se o pai de Jean-Yves se dispusesse a falar das
suas convicções íntimas , do sentido profundo da sua vida, talvez se
Plataforma 225

referisse apenas a uma ligeira deceção. De facto , a frase que o filho


mais vezes se lembrava de lhe ouvir sintetizava na perfeição o seu
pensamento sobre a condição humana: «Vamos ficando velhos. . » .

A mulher estava relativamente afetada pelo sucedido - afinal de


contas , tratava-se do companheiro de toda a sua vida - , mas não
parecia muito admirada. «Tinha decaído muito... » comentou ela.
Quanto às causas da morte , eram tão indefinidas que se poderia falar
de cansaço geral , ou mesmo de desânimo. «Tinha perdido o interes­
se por tudo...», disse ainda a viúva. Uma frase que , de certa maneira ,
assumia a forma de oração fúnebre.
É claro que a ausência de Audrey não passou despercebida, mas a
mãe de Jean-Yves absteve-se de falar nisso durante a cerimónia. À
noite , fizeram uma refeição ligeira - a senhora nunca tinha sido boa
cozinheira. O filho sabia bem que o assunto viria à baila de um mo­
mento para o outro. Naquelas circunstâncias , não lhe seria fácil
esquivar-se , ligando a televisão , por exemplo , como costumava fazer
às vezes. Depois de arrumar a loiça, a mãe sentou-se em frente dele ,
com os cotovelos em cima da mesa.
- Como é que estão as coisas com a tua mulher?
- Não estão famosas...
Durante uns minutos , Jean-Yves foi-se enredando em explicações ,
ao mesmo tempo que se afundava no seu próprio mal-estar; por fim,
acabou por dizer que pensava divorciar-se. Sabia bem que a mãe de­
testava Audrey, a quem acusava de lhe privar o contacto com os netos;
o que , aliás , era verdade , embora os miúdos também não sentissem
grande necessidade de estar com a avó. Se as condições fossem outras ,
poderiam ter-se habituado; pelo menos no caso de Angélique talvez
ainda fosse possível. Mas num quadro de vida diferente , em condições
diferentes , tudo coisas muito difíceis de conceber. Jean-Yves fixou a
cara da mãe , os seus cabelos grisalhos , a sua expressão de dureza: era
difícil sentir um impulso de afeto ou de ternura por aquela mulher;
tanto quanto se recordava, nunca lhe conhecera um acesso de carinho;
do mesmo modo , não conseguia imaginá-la no papel de amante sen­
sual e atrevida. Nesse momento , teve consciência de como o pai se
chateara durante uma vida inteira. Chocado com a descoberta, crispou
as mãos sobre a mesa: mas já não havia remédio , era tarde de mais.
Desesperado , tentou recordar-se de uma ocasião qualquer em que o
226 Michel Houellebecq

tivesse visto alegre , descontraído e feliz. Sim, talvez uma vez , quando
ele tinha cinco anos de idade , na altura em que o pai lhe mostrara o
funcionamento de um Meccano . O pai adorava coisas de mecânica
- Jean-Yves lembrava-se muito bem da deceção dele quando lhe co­
municou a intenção de escolher a área dos estudos comerciais; afinal
de contas , não era preciso muita coisa para preencher uma vida.

No dia seguinte , Jean-Yves deu uma volta rápida pelo quintal da


casa; achou-o incaracterístico , incapaz de lhe evocar uma única re­
cordação de infância. Sem ninguém para os alimentar, os coelhos
agitavam-se nervosamente nas coelheiras : a mãe iria vendê-los ime­
diatamente , não gostava de tratar deles. No fundo , eram os grandes
prejudicados , as verdadeiras vítimas daquela morte. Jean-Yves pe­
gou num saco de ração e deitou-lhes umas mancheias nas manjedou­
ras : um gesto em memória do pai.
Saiu cedo , antes do programa da manhã de Michel Drucker; ape­
sar disso , antes de Fontainebleau apanhou um engarrafamento mo­
numental. Tentou sintonizar diferentes estações , mas acabou por
desligar o rádio. De vez em quando , a fila avançava alguns metros;
só se ouvia o ronronar dos motores e o barulho das gotas de chuva
contra o para-brisas. Conformou-se com essa melancólica vacuida­
de. O único aspeto positivo do fim de semana , pensava ele , era não
voltar a encontrar-se com Johanna; finalmente , decidira despedi-la.
Eucharistie , a nova baby sitter, fora-lhe recomendada por uma vizi­
nha; originária do Benim , era séria e tinha boas notas ; com quinze
anos , estava já no 11.0 ano de escolaridade da área científica. Preten­
dia ser médica, talvez pediatra; a verdade é que tratava muito bem
das crianças. Conseguira arrancar o Nicolas aos jogos de vídeo ,
obrigando-o a deitar-se antes das dez da noite - uma coisa impen­
sável até ali. Era simpática com Angélique , dava-lhe banho e de co­
mer, e brincava com ela; a menina gostava imenso da baby sitter.
Chegou a casa por volta das dez e meia da manhã, muito cansado
da viagem; segundo sabia, Audrey tinha ido passar o fim de semana
a Milão ; na segunda-feira de manhã seguia diretamente do aeroporto
para o trabalho. Com uma certa satisfação , Jean-Yves pensou que ,
depois de se divorciar, a mulher não poderia fazer a mesma vida; daí
Plataforma 22 7

que ela não se apressasse a abordar o assunto. Em todo o caso , não


chegava ao extremo de simular afeto ou fingir acessos de ternura; o
que era um ponto que podia usar a seu favor.
Eucharistie estava sentada a ler A Vida Modo de Usar, de Georges
Perec , numa edição de bolso , e correu tudo bem. Jean-Yves deu-lhe
um copo de sumo de laranja e tomou um conhaque. De um modo
geral , quando ele voltava para casa, Eucharistie contava-lhe o que se
passara com os miúdos e o que fizera com eles ; algum tempo depois ,
a rapariga saía. Dessa vez ela fez o mesmo; mas , enquanto bebia mais
um conhaque Jean-Yves apercebeu-se de que não ouvira nada do que
ela dissera. «Ü meu pai morreu... », disse ele , ao mesmo tempo que
tomava consciência disso. Eucharistie calou-se e olhou-o hesitante ;
não sabia o que havia de dizer, mas via-se que prestava atenção às
suas palavras. «Üs meus pais nunca foram felizes... », continuou
Jean-Yves , e esta segunda constatação era pior do que a primeira:
parecia negar-lhe a própria existência e, de certo modo , privá-lo do
direito à vida. Sentia-se fruto de uma união infeliz , sem harmonia,
algo que seria preferível não ter acontecido. Inquieto , olhou em re­
dor: dentro de alguns meses , no máximo , teria de sair daquela casa,
deixaria de ver aqueles móveis e aqueles cortinados ; parecia que tudo
começava já a desfazer-se , a perder consistência. Era como se esti­
vesse no átrio de um grande armazém depois da hora de encerramen­
to; ou então no interior da fotografia de um catálogo , em alguma
coisa sem existência real. Levantou-se a cambalear, aproximou-se da
rapariga e apertou-a entre os braços com toda a força. Depois , meteu­
-lhe a mão por baixo do pulôver e encontrou carne com vida , carne
verdadeira. De repente , caiu em si e , incomodado , imobilizou-se.
Mas Eucharistie tinha deixado de o empurrar e também ela ficara
imóvel. Jean-Yves olhou-a diretamente nos olhos e beijou-a na boca.
A jovem correspondeu e empurrou a língua contra a língua dele. A
mão dele subiu por baixo do pulôver até aos seios dela.
Fizeram amor, no quarto , sem uma palavra; Eucharistie despiu-se
rapidamente e agachou-se na cama para que ele a possuísse. Mesmo
após o orgasmo , ficaram algum tempo sem falar; depois , evitaram
abordar o assunto. A jovem falou-lhe novamente das crianças e do
que tinham feito durante o dia; depois disse-lhe que não podia ficar
durante a noite.
228 Michel Houellebecq

Nos outros dias voltou a acontecer a mesma coisa, durante uma


série de semanas. Jean-Yves tinha quase a certeza de que , em algum
momento , a rapariga abordaria a questão da legitimidade das rela­
ções entre eles : a verdade é que ela só tinha quinze anos e ele trinta
e cinco; em termos teóricos , podia ser pai dela. Mas Eucharistie não
parecia inclinada para ver as coisas por esse prisma. Nesse caso ,
como seria então? Um dia , emocionado e agradecido , percebeu tudo :
a rapariga estava com ele por prazer! Sem sombra de dúvida, o ca­
samento obrigara-o a perder o contacto com coisas importantes; pura
e simplesmente , esquecera-se de que havia mulheres que , em certas
situações , faziam amor por prazer. Jean-Yves não tinha sido o pri­
meiro homem na vida de Eucharistie; no ano anterior, a rapariga ti­
vera relações com um colega mais velho , mas perdera-o de vista;
apesar disso , havia coisas que desconhecia, como era o caso da fela­
ção. Da primeira vez , Jean-Yves conteve-se , hesitando em vir-se na
boca dela; mas depressa se apercebeu de que a rapariga não se im­
portava, parecendo divertir-se quando o sémen saía. Por outro lado ,
atingia o orgasmo com facilidade ; e ele experimentava um enorme
prazer ao sentir-lhe o corpo firme e maleável. Eucharistie era uma
pessoa interessada e inteligente; queria saber coisas do trabalho dele
e fazia-lhe muitas perguntas : tinha quase tudo o que faltava a Au­
drey. O universo das empresas era-lhe completamente estranho e
desconhecido , e por isso tentava sempre obter mais informações; o
que seria impossível com o pai dela, que , a trabalhar num hospital do
Estado , não lhe saberia responder. Em suma , tratava-se , conforme o
próprio Jean-Yves considerava, embora com uma estranha sensação
de relativismo , de uma relação equilibrada . Era mesmo uma sorte
que o seu primeiro filho tivesse sido um rapaz; se não tivesse sido
esse o caso , não via como teria conseguido - nem , sobretudo , por­
quê - evitar o incesto.
Três semanas depois da primeira vez , Eucharistie informou-o de
que andava novamente com um rapaz ; por isso , seria melhor acabar
com tudo , de outro modo as coisas seriam muito difíceis. Jean-Yves
mostrou-se tão desapontado que , na ocasião seguinte , ela ofereceu-se
para lhe continuar a fazer broche. Para dizer a verdade , ele não per­
cebia a razão de isso ser menos grave; fosse com fosse , não se lem­
brava bem do que se sentia aos quinze anos de idade. Mas continua-
Plataforma 229

vam a falar muito um com o outro , sobre todas as coisas e mais


alguma; a certa altura, era ela que tomava a decisão. Despia-se da
cintura para cima e deixava que ele lhe apalpasse os seios ; a seguir,
Jean-Yves encostava-se à parede e Eucharistie ajoelhava-se na sua
frente. Pelos gemidos dele , pressentia o momento exato em que se ia
vir. Então , afastava a cara; e, com movimentos bem ajustados , orien­
tava a ejaculação na direção dos seios e às vezes da boca. Nessas
alturas , ficava com uma expressão alegre , quase infantil ; quando
pensava nisso , Jean-Yves dizia melancolicamente para consigo que
Eucharistie estava apenas no princípio da sua vida amorosa e que iria
fazer a felicidade de muitos homens pela vida fora; as suas vidas
tinham-se cruzado , o que fora já uma grande sorte.
No segundo sábado , quando a jovem , de boca aberta e olhos se­
micerrados , recomeçava a masturbá-lo energicamente , Jean-Yves
viu , num relance , a cabeça do filho a passar em frente da porta da
sala. Teve um sobressalto e desviou o olhar; quando olhou novamen­
te , Nicolas já lá não estava. A rapariga não deu por nada; pôs-lhe a
mão entre as coxas e afagou-lhe os tomates de mansinho. Nesse
instante , Jean-Yves teve uma estranha sensação de imobilidade. Co­
mo se alguma coisa lhe houvesse produzido a revelação de um im­
passe. A confusão de gerações era grande , e a filiação perdera o
sentido. Então , puxou a boca de Eucharistie na direção do seu sexo ;
sem saber porquê , sentia que era a última vez , e tinha uma grande
necessidade da boca dela. Assim que a rapariga voltou a fechar os
lábios , veio-se longamente , em jatos sucessivos , enquanto lhe em­
purrava o pénis até ao fundo da garganta e sentia o corpo percorrido
por uma série de espasmos. Depois Eucharistie levantou os olhos
para ele; Jean-Yves conservou as mãos sobre a cabeça dela. A jovem
manteve o sexo dele na boca durante dois ou três minutos , ao mesmo
tempo que , de olhos fechados , lhe passava lentamente a língua pela
glande . Pouco tempo antes de ela se ir embora , Jean-Yves disse-lhe
que não voltaria a haver mais nada entre eles. Não sabia bem porquê ;
se o filho falasse do que vira, isso não jogaria a seu favor na altura
do divórcio ; mas havia ainda outra razão , algo que não chegara a
analisar profundamente. Uma semana mais tarde , contou-me tudo
aquilo , num lamentável tom de autoacusação , e pediu-me que não
dissesse nada a Valérie. Para dizer a verdade , o assunto não me agra-
230 Michel Houellebecq

dava, não via onde estava o problema; mas , por pura amabilidade ,
mostrei-me interessado em analisar os prós e os contras , embora não
acreditasse em nada do que ouvia: sentia-me um pouco quase num
programa de Mireille Dumas.

Em contrapartida, no plano profissional as coisas iam muito bem ,


disse-me Jean-Yves todo satisfeito. Umas semanas antes , surgira um
problema com o clube tailandês : para poder responder às expectati­
vas dos interessados , tomava-se imperiosa a existência de um «bar
com acompanhantes» e de um salão de massagens ; mas , naquele
momento , era difícil incluir esse equipamento no orçamento do hotel.
Jean-Yves telefonou a Gottfried Rembke. O homem forte do grupo
TUI depressa achou uma solução: entre os seus contactos dispunha
de um investidor chinês instalado em Phuket e a operar na zona, daí
que pudesse pedir-lhe para construir um centro de tempos livres jun­
to ao hotel. O alemão parecia de bom humor, aparentemente as coisas
estavam bem encaminhadas. No início de novembro , Jean-Yves rece­
beu um exemplar do catálogo destinado ao público alemão; não ha­
via dúvida de que tinham apostado forte. As fotografias mostravam
raparigas nativas de seios à mostra , envergando tangas ou saias trans­
parentes; fotografadas na praia ou mesmo nos quartos do hotel , sor­
riam com ar atrevido e passavam a língua pelos lábios : não havia
nada mais explícito. Uma coisa assim, disse ele a Valérie , seria im­
possível em França. Era interessante verificar como , à medida que a
união da Europa se aproximava e que a ideia de uma federação de
Estados parecia cada vez mais plausível , não se notava qualquer uni­
formização na legislação sobre usos e costumes. Enquanto a prosti­
tuição era reconhecida na Holanda e na Alemanha, onde detinha um
certo estatuto , havia muita gente em França a pedir a sua abolição , e
mesmo sanções contra os clientes , como acontecia na Suécia. Valérie
olhava surpreendida para Jean-Yves , que lhe parecia progressiva­
mente mais estranho , perdendo tempo com coisas improdutivas e
inúteis. Quanto a ela, trabalhava cada vez mais e mais metodicamen­
te , animada por uma determinação fria; e, frequentemente , tomava
decisões sem o consultar. Como estava pouco habituada a fazê-lo , eu
sentia-a às vezes perturbada e hesitante ; entretanto , a administração
Plataforma 231

não intervinha, deixando-lhes toda a iniciativa. «Ü que acontece é


que estão numa atitude de expectativa, esperam para ver se o projeto
resulta ou se dá com os burros na água» , confidenciou-me ela um dia,
num acesso de raiva acumulada. Era impossível dizer-lhe que estava
errada, tinha toda a razão; mas eram essas as regras do jogo.
Por mim , não via qualquer razão para que a sexualidade ficasse de
fora da economia de mercado. Havia muitas maneiras de conseguir
dinheiro , honestas ou desonestas , cerebrais ou puramente físicas .
Podia arranjar-se dinheiro através da inteligência, do talento , da for­
ça ou da coragem , e através da própria beleza; ou então por um
vulgar golpe de sorte. O mais habitual era o dinheiro chegar por he­
rança, como acontecera comigo; nesses casos , a explicação tinha de
ser encontrada na geração anterior. Entre nós , muitas tinham sido as
pessoas que haviam ganho dinheiro; antigos desportistas de alto ga­
barito , gangsters , artistas , manequins , atores , etc.; um grande núme­
ro de investidores e financeiros hábeis; alguns técnicos também ,
embora mais raramente , e certos inventores. Às vezes , o dinheiro
obtinha-se de uma maneira mecânica, por simples acumulação ; ou ,
inversamente , por um bem sucedido golpe de audácia. Nada disso
fazia grande sentido , embora traduzisse uma grande diversidade. Em
contrapartida , os critérios de escolha sexual eram exageradamente
simples: incidiam unicamente na juventude e na beleza física. É ver­
dade que essas qualidades tinham um determinado preço , mas não
um preço infinito . É claro que , há uns séculos atrás , quando a sexua­
lidade se encontrava intimamente ligada à reprodução , a situação era
muito diferente. Para assegurar o valor genético da espécie , a huma­
nidade tinha de valorizar critérios de saúde , força, juventude e vigor
físico - critérios esses cuja síntese prática se encontra reunida na
beleza. Atualmente , os dados são diferentes : é verdade que a beleza
conserva o seu valor, mas trata-se de um valor narcisista, passível de
funcionar como moeda. Se, decididamente , a sexualidade ia entrar
no setor dos bens transacionáveis , a melhor solução seria certamente
fazer apelo à intervenção do dinheiro , o grande mediador universal
capaz de assegurar uma equivalência precisa face a valores como a
inteligência, o talento e a capacidade técnica; algo que já tinha per­
mitido assegurar uma normalização perfeita de opiniões , gostos e
modos de vida. Ao contrário dos aristocratas , os ricos não preten-
232 Michel Houellebecq

diam ser diferentes do resto das pessoas : queriam simplesmente ser


ricos. Embora abstrato na sua essência, o dinheiro era uma noção em
que não intervinham critérios de raça, aparência física , idade , inteli­
gência ou distinção , na realidade , mais nada , a não ser o próprio di­
nheiro. Os meus antepassados europeus tinham trabalhado ardua­
mente durante muitos séculos ; tinham começado por tentar dominar
e por transformar o mundo , conseguindo-o , em certa medida.
Haviam-no feito por razões económicas e amor ao trabalho , mas
também por acreditarem na superioridade da sua civilização: era
deles a invenção do sonho , do progresso , da utopia e do futuro. Ao
longo de todo o século xx , evaporara-se essa consciência de uma
missão civilizadora. Os europeus , ou pelo menos alguns entre eles ,
continuavam a trabalhar, e às vezes arduamente , mas faziam-no por
interesse ou ligação neurótica às suas tarefas profissionais; a inocen­
te consciência do seu direito natural a dominar o mundo , e a orientar
a sua história, desaparecera completamente. Em resultado da acumu­
lação de muito trabalho , a Europa continuava a ser um continente
rico; mas eu tinha perdido as qualidades de inteligência e obstinação
dos meus antepassados. Enquanto europeu abastado , poderia obter,
por baixo preço e noutros países , bens alimentares , serviços e mulhe­
res ; enquanto europeu decadente , consciente da proximidade da
morte e inteiramente dominado pelo egoísmo , não via qualquer ra­
zão para me privar de tudo isso. Contudo , estava consciente de que
a situação era insustentável , e de que as pessoas como eu seriam
incapazes de garantir a sobrevivência de uma sociedade , ou então ,
pura e simplesmente , seriam indignas de viver. Entretanto , surgia já
um conjunto de mutações , mas , por mim, não estava interessado
nelas ; a minha única motivação autêntica consistia em sair deste
atoleiro o mais depressa possível. O mês de novembro estava desa­
gradável e frio; e, nos últimos tempos , já não lia tanto as obras de
Auguste Comte. A minha grande distração , enquanto Valérie não
chegava, consistia em observar o movimento das nuvens no céu
através da varanda envidraçada. Nos finais de tarde , formavam-se
grandes bandos de estorninhos sobre a região de Gentilly, que voa­
vam desenhando nos ares uma série de espirais e planos inclinados;
e eu sentia a tentação de dar um sentido a todas essas coisas , de as
interpretar como o prenúncio de um apocalipse.
13

Uma tarde , encontrei Lionel à saída d o meu trabalho ; não o via


quase há um ano , desde o nosso circuito Tropic Thai". Apesar disso ,
reconheci-o imediatamente. Curiosamente até me admirei que o ho­
mem me tivesse causado uma impressão tão forte; naquele momen­
to , nem sequer me lembrava de lhe ter falado durante a viagem.
Lionel disse-me que ia andando bem. Tinha um grande penso de
algodão no olho direito. Tinha tido um acidente de trabalho , a explo­
são de uma coisa qualquer; mas ia andando , estava a fazer tratamen­
to e pensava recuperar 50 % da visão daquele olho. Convidei-o a
tomar um copo num café próximo do Palais-Royal. E pensava para
comigo se seria igualmente capaz de reconhecer Robert , Josiane e as
outras pessoas do grupo , caso os encontrasse algum dia; provavel­
mente , sim. Era um pensamento um pouco aflitivo; tinha a memória
quase sempre ocupada com informações praticamente inúteis. En­
quanto ser humano , era especialmente competente no reconhecimen­
to e no armazenamento de imagens de outros seres humanos. Nada
é mais útil ao homem do que o próprio homem . A razão por que
convidara Lionel não me parecia muito clara; muito provavelmente ,
não teríamos grande assunto de conversa. Para evitar isso , perguntei­
-lhe se tinha voltado à Tailândia. Não , mas não por falta de interesse,
infelizmente a viagem era muito cara. E as outras pessoas , tinha vis­
to alguma delas ? Não , nenhuma. Nessa altura contei-lhe que voltara
a encontrar-me com Valérie , talvez se lembrasse dela, e que estáva­
mos a viver juntos. Lionel pareceu ter ficado contente com a notícia;
não havia dúvida de que lhe tínhamos causado boa impressão. Em
234 Michel Houellebecq

seguida, disse-me que não tinha muitas oportunidades de viajar; de


um modo geral , essas férias na Tailândia constituíam uma das suas
melhores recordações . Por mim , começava a sentir-me emocionado
com a sua simplicidade , o seu ingénuo desejo de ser feliz . Foi então
que tive um impulso , algo que pensando agora nisso , sou tentado a
classificar de «bom» . Habitualmente , não sou uma pessoa boa , não é
esse o traço fundamental do meu caráter. A humanidade desgosta-me
e, em geral , a sorte dos outros é-me indiferente , não me lembro de
alguma vez ter tido qualquer sentimento de solidariedade . Mas nes­
sa tarde expliquei a Lionel que Valérie trabalhava em turismo , que a
empresa dela ia abrir um clube de férias em Krabi e que eu conseguia
arranjar-lhe uma semana de férias com uma redução de 50 %. É cla­
ro que se tratava de uma pura invenção , mas eu estava disposto a
pagar a diferença. Em certa medida , talvez estivesse a armar-me em
fino; mas não deixava de desejar sinceramente que Lionel voltasse a
experimentar o prazer de se entregar às mãos sábias das jovens pros­
titutas tailandesas , nem que fosse uma única semana da sua vida .
Quando falei nisso a Valérie , ela olhou-me com uma certa perple­
xidade ; nem sequer se recordava de Lionel . Mas a culpa era dele ;
embora bom tipo , faltava-lhe personalidade : demasiado humilde e
reservado , ninguém se lembrava dele . «Mas se tens gosto nisso» ,
disse , «ele nem precisa de pagar a diferença dos 50 % , aliás ia falar­
-te nisso , tenho convites para a inauguração , marcada para o dia 1 de
janeiro .» No dia seguinte telefonei a Lionel e informei-o de que era
tudo à borla; dessa vez foi de mais: o homem não queria acreditar e
tive até uma certa dificuldade em convencê-lo a aceitar.
Nesse mesmo dia, recebi a visita de uma jovem artista que veio
apresentar-me o seu trabalho . Chamava-se Sandra Heksjtovoian ou
coisa parecida , de qualquer forma um nome que eu nunca seria capaz
de fixar; se fosse seu agente , tê-la-ia aconselhado a mudar para S an­
dra Hallyday. Era uma rapariga muito nova , de calças e de T-shirt,
uma pessoa com ar banal , de cara redonda e cabelos curtos encara­
colados; tinha acabado o curso de Belas-Artes em Caen . Conforme
me explicou , o seu trabalho incidia apenas no seu próprio corpo ; fi­
quei a olhá-Ia inquieto enquanto ela abria a pasta . Esperava que não
saíssem dali fotografias de cirurgia estética aos dedos do pé , ou al­
guma coisa assim; andava a ficar farto dessas histórias . Mas não , a
Plataforma 235

jovem estendeu-me uma série de postais que fizera e nos quais im­
primira a rata, pintada de cores diversas . Escolhi uma turquesa e
outra cor de malva, e pedi-lhe desculpa por não dispor de fotografias
da minha piça para a troca. A ideia parecia-me boa mas , tanto quan­
to me lembrava, Yves Klein já tinha feito algo semelhante há mais de
quarenta anos ; não me seria fácil defender as pretensões dela. Claro ,
claro , concordou a jovem, era preciso entender tudo aquilo como um
exercício de estilo . Nessa altura tirou de uma embalagem de cartão
uma peça mais trabalhada, constituída por duas rodas de tamanho
médio ligadas por uma tirinha de borracha; o dispositivo funcionava
com o auxílio de uma manivela. A borracha estava coberta por umas
pequenas protuberâncias em plástico , de forma mais ou menos pira­
midal . Rodei a manivela e passei um dedo pela tirinha em movimen­
to ; sentia-se uma espécie de fricção nada desagradável . «São os
moldes do meu clítoris» , explicou a jovem; tirei imediatamente o
dedo daquilo . «Fiz isso a partir de fotografias tiradas com um apare­
lho de endoscopia , durante a fase da ereção , e tratadas depois no
computador. Reconstituí o volume num programa de 3D, fiz um
modelo em ray-tracing e mandei os dados da peça para a oficina.»
Pareceu-me que a artista se estaria a deixar dominar pelo aspeto téc­
nico da questão . Voltei a acionar a manivela, agora maquinalmente .
«Dá vontade de mexer, não é? ! » , prosseguiu ela cheia de satisfação .
«Cheguei a pensar em pôr aí uma resistência elétrica que permitisse
acender uma lâmpada . Achava bem?» Na verdade não me parecia
boa ideia, poderia interferir com a simplicidade do conceito . Para
artista contemporânea, a jovem era muito simpática; estive tentado a
convidá-la para uma sessão de orgia em minha casa, tinha a certeza
de que se ia entender lindamente com Valérie . Mas depressa me
apercebi de que , na minha posição , me arriscava a ser acusado de
assédio sexual. Olhei descoroçoado para o dispositivo e disse-lhe;
«Sabe , eu trato sobretudo dos aspetos orçamentais dos projetas . Para
os aspetos estéticos , é melhor falar com a minha colega Durry.» Dei­
-lhe um cartão com o nome e o número de telefone de Marie-Jeanne;
bem vistas as coisas , ela devia ser mais competente em assuntos de
clítori s . A jovem pareceu um pouco desapontada; ainda assim ,
entregou-me um saquinho cheio de moldes em plástico . «Pode ficar
com alguns» , disse-me , «a oficina fez muitos .» Agradeci-lhe e
236 Michel Houellebecq

acompanhei-a à porta. À despedida , perguntei-lhe se os moldes eram


em tamanho natural. «Claro que sim» , disse-me ela, «isso faz parte
do projeto.»

Nessa noite , examinei atentamente o clítoris de Valérie. No fundo ,


nunca lhe tinha prestado grande atenção; quando a lambia ou acari­
ciava fazia-o em função de um esquema global , sabia de cor as po­
sições , os ângulos e o ritmo dos movimentos a adotar, mas naquele
momento examinava minuciosamente o pequeno órgão que palpita­
va por baixo dos meus olhos. «Ü que é que estás aí fazer?» , pergun­
tou Valérie muito admirada , depois de cinco minutos com as pernas
abertas. «É uma iniciativa artística...» , disse eu , e, para acalmar a
sua impaciência, dei-lhe ali um pequeno toque com a língua. Como
não podia deixar de ser, o molde oferecido pela jovem não tinha
cheiro nem gosto; tirando isso, era de facto muito parecido. Quando
terminei a observação , abri a rata de Valérie com as duas mãos e
lambi-lhe o clítoris com pequenos movimentos bem dirigidos. A
expectativa ter-lhe-ia aumentado o desejo? Ou seriam os movimen­
tos da minha língua , executados de uma forma mais concentrada e
mais incisiva? A verdade é que Valérie se veio imediatamente. E eu
disse para comigo que , no fundo , a jovem Sandra era uma verdadei­
ra artista: o seu trabalho incitava-nos a olhar o mundo de uma ma­
neira diferente .
14

A partir do início de dezembro tornou-se evidente que os clubes


Afrodite iam ter um enorme sucesso, um sucesso histórico . Em turis­
mo , novembro é tradicionalmente o mês mais difícil. Em outubro ,
registam-se ainda algumas marcações de fim de estação; em dezem­
bro , o período das festas ajuda a compor as coisas ; mas , exceção
feita a alguns reformados especialmente rijos e temerários , raras são
as pessoas que decidem tirar férias em novembro. Ora , os primeiros
resultados recebidos do conjunto dos clubes eram excelentes : a fór­
mula conhecera um sucesso imediato , podendo mesmo falar-se de
uma verdadeira enchente. Na tarde em que chegaram os primeiros
resultados , jantei com Jean-Yves e Valérie; os números eram de tal
forma elucidativos que Jean-Yves olhava para mim com ar espantado:
em todos os destinos , as taxas de ocupação tinham ultrapassado os
95 %. «Não há dúvida de que o sexo... » , disse eu embaraçado. «A
verdade é que as pessoas sentem necessidade de sexo , embora não
tenham coragem de falar disso.» Tudo aquilo convidava à reflexão ,
quase ao silêncio; o empregado trouxe os antipasti . «A inauguração
do clube de Krabi vai ser uma coisa em grande... » , continuou Jean­
-Yves. «Recebi um telefonema de Rembke , há três semanas que está
tudo esgotado. O mais espantoso é que a comunicação social não fa­
lou de nada, nem uma linha. Eis um sucesso discreto , ao mesmo
tempo enorme e confidencial ; exatamente aquilo que nós queríamos.»
Finalmente , Jean-Yves tinha decidido alugar um estúdio e deixar a
mulher; só ia ter as chaves no dia 1 de janeiro , mas estava muito me­
lhor, parecia-me menos tenso. Era relativamente novo , tinha boa figu-
23 8 Michel Houellebecq

ra e bastante dinheiro; embora nada disso seja decisivo , conforme


constatei receoso na altura, pode em todo o caso suscitar desejo nas
outras pessoas. Por mim , não compreendia a ambição e o apego ao
trabalho que Jean-Yves demonstrava. Penso que não seria por razões
de dinheiro: pagava impostos altos e não pensava em luxos. Por outro
lado , também não seria por amor à empresa, muito menos por altruís­
mo: era extremamente difícil encarar o desenvolvimento do turismo
mundial como uma causa nobre. A ambição de Jean-Yves tinha exis­
tência autónoma, não era explicável por uma causa exterior: talvez
residisse no desejo de construir alguma coisa, mais do que o desejo
de poder ou a vontade de competir - nunca o ouvira falar da carrei­
ra dos seus antigos colegas de curso e não acreditava que se preocu­
passe muito com isso. Em resumo: tratava-se de uma motivação res­
peitável , a mesma que explicava o conjunto do desenvolvimento da
civilização humana. Neste caso , a gratificação social assumia a forma
de um salário elevado; noutros regimes poderia materializar-se num
título nobiliário ou em privilégios semelhantes aos dos membros da
nomenklatura; não me parecia que fossem coisas muitos diferentes.
Na verdade , Jean-Yves trabalhava porque gostava de trabalhar: uma
explicação ao mesmo tempo cristalina e misteriosa.

A 15 de dezembro , duas semanas antes da inauguração , o grupo


TUI enviou um apelo urgente. Um turista alemão tinha acabado de
ser raptado , juntamente com a rapariga tailandesa que o acompanha­
va; o caso passara-se em Hat Yai , na extremidade sul do país. A po­
lícia da zona tinha recebido uma mensagem confusa, escrita num
inglês macarrónico , onde não constava qualquer reivindicação -
embora dissesse que os dois jovens iam ser executados devido ao seu
comportamento , contrário à lei islâmica. Efetivamente , nos últimos
meses verificara-se na região uma certa atividade de grupos islâmi­
cos apoiados pela Líbia, na zona de fronteira com a Malásia; mas era
a primeira vez que se registava um ataque a pessoas.
A 18 de dezembro , os cadáveres nus e mutilados dos dois jovens
foram atirados de uma camioneta, em pleno largo principal da cida­
de. A rapariga tinha sido apedrejada até à morte e exibia marcas de
uma extrema violência; tinha a pela arrancada e o corpo transforma-
Plataforma 239

do numa massa informe , praticamente irreconhecível. O alemão fora


degolado e castrado , e tinha a verga e os testículos enfiados na boca.
Desta vez , toda a imprensa alemã falou do caso , e em França a notí­
cia apareceu também em alguns jornais. Mas , apesar de a imprensa
escrita ter decido não publicar fotografias das vítimas , essas imagens
ficaram imediatamente disponíveis na Internet. Jean-Yves passou a
telefonar diariamente para o grupo TUI: até ao momento , a situação
não era alarmante ; tinham-se registado poucas anulações , as pessoas
mantinham-se interessadas nas marcações. Entretanto , o primeiro­
-ministro tailandês fez uma série de intervenções tranquilizadoras :
tratava-se certamente de uma ação isolada , todos os grupos terroris­
tas conhecidos condenavam o duplo rapto e assassínio.
Apesar disso , desde a nossa chegada a Banguecoque que eu sentia
uma certa tensão , especialmente no Bairro de Sukhumvit, onde resi­
dia a maior parte dos turistas vindos do Médio Oriente. Tratava-se
sobretudo de pessoas vindas do Egito e da Turquia, mas por vezes
também de países muçulmanos mais duros , como o Paquistão e a
Arábia Saudita. E eu apercebia-me de que , no meio da multidão , eram
olhados com hostilidade. Por outro lado , à porta de vários bares de
meninas , vi letreiros que diziam: «NO MUSLIM HERE» ; em Pat­
pong , o proprietário de um bar tinha explicitado melhor a sua ideia,
servindo-se da seguinte mensagem: « We respect your Muslim faith:
we don 't want you to drink whisky and enjoy Thai" girls .» No entanto ,
os pobres coitados não se importavam , mas era evidente que seriam
as primeiras vítimas em caso de atentado. Logo na minha primeira
viagem à Tailândia, eu próprio me admirara com a presença de tanta
gente vinda dos países árabes ; a verdade é que chegavam pelas mes­
mas razões dos ocidentais e tiravam partido do deboche de uma forma
ainda mais entusiástica. Muitas vezes , nos bares dos hotéis , era fácil
encontrá-los a partir das dez da manhã com um copo de uísque na
mão; e, à hora de abertura dos salões de massagem , eram sempre os
primeiros a aparecer. Em clara rotura com a lei islâmica, sentiam-se
culpados e, regra geral , mostravam-se delicados e atenciosos.
B anguecoque continuava extremamente poluída, barulhenta , ir­
respirável ; apesar disso , sentia-me feliz por ter regressado. Jean­
-Yves preparava-se para fazer dois ou três contactos com gente da
banca e dos ministérios , assuntos que eu ia acompanhando vagamen-
240 Michel Houellebecq

te. Dois dias depois , disse-nos que os resultados tinham sido bons: as
autoridades locais mostravam uma grande disponibilidade e estavam
dispostas a tudo para atraírem investimentos ocidentais. A Tailândia
vivia há muitos anos em crise , a Bolsa e a moeda tinham batido no
fundo , e a dívida pública atingia 70 % do produto interno bruto.
«Estão tão afundados na merda que não temos necessidade de os
corromper... », explicou ele. «Fui obrigado a largar umas massas ,
mas nada parecido com o que era preciso há cinco anos.»
Na manhã do dia 3 1 de dezembro , tomámos o avião para Krabi.
À saída do autocarro dei de caras com Lionel, que chegara no dia
anterior. Disse-me que estava encantado , completamente encantado;
depois , tive muita dificuldade em conter a torrente dos seus agradeci­
mentos. Mas , ao chegar em frente do meu bungalow, eu próprio senti­
-me deslumbrado com a beleza da paisagem. A praia era enorme ,
imaculada , uma bela praia de areia fina. Em poucos metros, a cor da
água do mar mudava de azul para turquesa e de turquesa para esme­
ralda. Gigantescos picos calcários , cobertos de florestas de um verde
intenso , erguiam-se das águas até à linha do horizonte e perdiam-se
por entre a luz e a lonjura, conferindo à baía uma amplitude cósmica
e irreal.
- Não foi aqui que fizeram a rodagem de A Praia? - perguntou-
-me Valérie.
- Não , julgo que foi em Kok Phi Phi ; mas não vi o filme.
Segundo ela, não perdera grande coisa; com exceção da paisagem ,
não tinha interesse nenhum. Por mim , lembrava-me vagamente do
livro , em que entravam uns quantos backpackers , que se afadigavam
em busca de uma ilha deserta: o único indício de que dispunham era
uma planta desenhada por um antigo caminheiro , que posteriormen­
te se suicidara num hotel miserável de Kliao Sen Road. Esses ba­
ckpackers começavam por ir até Koh Samui , uma zona turística,
passando depois para uma ilha próxima; mas também aí havia gente
de mais para o seu gosto. Por fim , depois de subornarem um mari­
nheiro , conseguem desembarcar numa ilha integrada numa reserva
natural , e por isso teoricamente inacessível. É então que começam os
sarilhos. Os primeiros capítulos do livro explicam na perfeição as
habituais desventuras dos turistas obcecados com a busca de lugares
«não turísticos» - que aliás a sua própria presença contribuiu para
Plataforma 24 1

desclassificar - , impelidos a irem cada vez mais longe , com um


projeto que progressivamente se revela mais impossível de concreti­
zar. A propósito da história, Valérie informou-me de que essa busca
desesperada, equiparável à de alguém que pretende fugir da sua pró­
pria sombra, é bem conhecida nos meios ligados ao turismo , e que
lhe chamam o «paradoxo da double mind» .
Mas os veraneantes que tinham escolhido o Eldorador Afrodite de
Krabi não pareciam prestes a sucumbir ao «paradoxo da double
mind» : apesar da grande extensão da praia, estavam quase todos ao
pé uns dos outros. Tanto quanto me era dado apreciar, não destoavam
da clientela esperada: muitos alemães , a maior parte deles quadros
superiores ou profissionais liberais. Valérie dispunha da totalidade
dos dados: 80 % de alemães , 1 0 % de italianos , 5 % de espanhóis e
5 % de franceses. A surpresa era a existência de tantos casai s , muito
semelhantes aos casais libertinos que poderíamos perfeitamente en­
contrar em Cap d' Agde: quase todas as mulheres tinham seios trata­
dos com silicone e usavam um fio de ouro , na cintura ou no tornoze­
lo. Apercebi-me de que quase toda a gente tomava banho sem roupa.
Para mim , eram razões mais do que suficientes para estar confiante ;
nunca tinha tido qualquer problema com pessoas assim. Ao contrário
dos locais conhecidos pelo seu «espírito caminheiro» , um lugar fre­
quentado por adeptos do sexo em grupo vai ganhando popularidade à
medida que a sua frequência aumenta; daí que , essencialmente , seja
um lugar «não paradoxal». «Num mundo em que as pessoas fazem
questão de se evitarem umas às outras , a sociabilidade de meninos
bem-comportados dos burgueses alemães entusiastas desta modalida­
de sexual constituía uma forma de subversão particularmente subtil» ,
disse eu a Valérie enquanto ela tirava as cuecas e o soutien . Depois ,
quando me despi totalmente fiquei u m bocado contrariado por estar
com ereção , pelo que me deitei de barriga para baixo ao lado dela.
Valérie abriu as coxas e, tranquilamente , ofereceu o sexo à luz do Sol.
Alguns metros à nossa direita, havia um grupo de alemãs que pare­
ciam estar a discutir um artigo da Spiegel. Uma delas tinha o sexo
rapado , distinguindo-se-lhe perfeitamente a fenda, estreita e retilínea.
«Gosto muito de ratas assim... » , disse-me Valérie em voz baixa, «dá
vontade de pôr lá o dedo.» Eu também; mas , em contrapartida, do
lado esquerdo estava um casal de espanhóis cuja mulher tinha uns
242 Michel Houellebecq

belos pintelhos espessos , negros e encaracolados ; também gostava


muito quando era assim. Na altura em que se deitou , reparei nos seus
grandes lábios , carnudos e espessos. Não teria mais de vinte anos ,
mas os seios eram fortes , com grandes aréolas e mamilos eretos. «Va­
mos lá» , disse-me Valérie ao ouvido , «deita-te de costas ... » Obedeci
de olhos fechados , como se a circunstância de não ver diminuísse o
significado do que ia acontecer. Senti a piça a erguer-se e a glande a
sair do seu invólucro protetor. Ao fim de um minuto deixei de pensar,
concentrando-me unicamente no que sentia; o calor do Sol sobre as
mucosas dava-me um prazer enorme. E mesmo , quando senti um fio
de óleo solar a deslizar-me pelo tronco e depois pela barriga abaixo ,
continuei de olhos fechados. Os dedos de Valérie progrediam rapida­
mente e ao de leve sobre a minha pele. O cheiro de noz de coco
espalhava-se no ar. Quando começou a pôr-me óleo no sexo , abri ra­
pidamente os olhos: estava ajoelhada a meu lado , de frente para a
espanhola, que se tinha erguido sobre os cotovelos para ver melhor.
Deitei a cabeça para trás e olhei fixamente o azul do céu. Valérie pôs­
-me a palma de uma mão sobre os testículos e introduziu-me o dedo
médio no ânus; e , com a outra mão , continuou a masturbar-me sem
parar. Olhando para a esquerda, vi a espanhola a mexer na piça do seu
homem; voltei a concentrar-me no céu azul. Quando ouvi passos a
caminhar na areia, fechei os olhos novamente. Houve então um baru­
lho de beijos , seguido de um sussurro de vozes. Depois , deixei de
saber quantas mãos e quantos dedos me acariciavam e se enlaçavam
sobre o meu sexo; o barulho das ondas era agradável e suave.

Depois da praia, fomos dar uma volta ao centro de tempos livres ;


a noite caía, e os anúncios coloridos dos go-go bars iam-se acenden­
do um de cada vez. Numa praça circular, havia uma dezena de bares
em tomo de um enorme salão de massagem. À entrada encontrámos
Jean-Yves , acompanhado por uma rapariga de vestido comprido ,
seios grandes e pele clara, com feições de chinesa.
- Isso aí dentro está bom? - perguntou-lhe Valérie.
- Está ótimo : um pouco kitsch , mas muito luxuoso. Tem j atos
de água, plantas tropicais , cascatas , etc.; até há estátuas de deusas
gregas...
Plataforma 243

Valérie e eu instalámo-nos num grande canapé cheio de fios dou­


rados , e a seguir escolhemos duas raparigas. A massagem foi muito
agradável , com a água quente e o sabonete líquido a dissolverem os
restos de óleo solar que tínhamos na pele. As raparigas mexiam-se
lindamente , servindo-se dos seios , das nádegas e do interior das co­
xas para nos ensaboarem: Valérie começou imediatamente a gemer.
Mais uma vez , fiquei encantado com a quantidade de zonas erógenas
que as mulheres têm.
Depois de nos secarmos , deitámo-nos numa grande cama redonda
quase totalmente rodeada de espelhos. Uma das raparigas começou
a lamber Valérie , que depressa atingiu o orgasmo; nessa altura,
ajoelhei-me em frente da cara dela, enquanto a outra rapariga me
acariciava os tomates e me masturbava dentro da boca. No momento
em que sentiu que eu me ia vir, Valérie fez sinal a uma das jovens
para que se aproximasse um pouco mai s : ao mesmo tempo que a
primeira me lambia os tomates , a outra beijava Valérie na boca; eja­
culei então para cima dos lábios delas , entretanto entreabertos.

Quase todos os convidados da noite de réveillon eram tailandeses


com alguma ligação ao turismo da região. Nenhum dos administra­
dores do grupo Aurore estava presente; e o homem forte do TUI
também não viera, embora estivesse representado por um funcioná­
rio claramente subalterno , que me parecia encantado com a tarefa. A
comida , uma combinação de pratos tailandeses e chinese s , estava
deliciosa. Havia crepes estaladiços , de soja e arroz , com sabor a li­
mão e a manjericão , rolos fritos de espinafre s , caril de camarão com
leite de coco , arroz salteado com caju e amêndoas , e um saboroso e
suculento pato lacado. E , encomendados expressamente para a inau­
guração , havia também vinhos franceses. Conversei um bocado com
Lionel , que não cabia em si de contente. Estava acompanhado por
uma rapariga maravilhosa, originária de Chiang Mai , que se chama­
va Kim. Lionel encontrara-a logo na primeira noite num «bar to­
pless» , e começaram a andar juntos; feliz e contente , não parava de
olhar para a jovem com admiração . Percebia perfeitamente a sedu­
ção que uma criatura tão simpática, de uma delicadeza quase irreal ,
exercia num solteirão um pouco desajeitado como ele; em França,
244 Michel Houellebecq

nunca conseguiria encontrar ninguém assim. Sem sombra de dúvida,


disse eu para comigo , as putas tailandesas eram abençoadas ; uma
verdadeira dádiva dos céus. Kim falava alguma coisa de francês.
Tinha ido uma vez a Paris , disse o encantado Lionel; a irmã dela
estava casada com um francês.
- Ah , sim? ! - perguntei. - E o que é que ele faz?
- É médico - respondeu Lionel um pouco triste. - É claro que
comigo as coisas são um bocado diferentes.
- Mas tu tens um emprego seguro - disse-lhe eu cheio de oti­
mismo. - O sonho de todos os tailandeses é serem funcionários
públicos.
Lionel olhou-me surpreendido. Mas , de facto , era exatamente as­
sim: na Tailândia a função pública exerce um grande fascínio nas
pessoas. Além de corruptos , os funcionários públicos são ricos e têm
segurança no emprego. Não é preciso mais.
- Bem , desejo-te uma noite agradável... - disse-lhe eu enquan­
to me dirigia ao bar.
- Estou-te muito agradecido... - sussurrou Lionel , corando.
Nesse momento , achei incompreensível o meu próprio ar de ho­
mem que conhece a vida; sem dúvida alguma, estava mesmo a enve­
lhecer. Por outro lado , tinha algumas dúvidas sobre o caráter da ra­
pariga. As tailandesas do Norte são quase sempre muito bonitas , e
sabem-no muito bem. Passam a vida a olhar para o espelho , plena­
mente convencidas de que a sua beleza constitui uma vantagem
económica decisiva, daí que se tornem caprichosas e inúteis . E, con­
trariamente ao que aconteceria com uma namoradinha ocidental ,
Kim não estava à altura de perceber que Lionel era um simplório . De
um modo geral , os principais critérios de apreciação da beleza física
são a juventude , a ausência de deformidade ou de aleijão e a adequa­
ção às normas da espécie ; todos eles têm caráter universal. Quanto a
outros critérios complementares , mais indefinidos e imprecisos ,
esses eram mais dificilmente apreciados por uma jovem pertencente
a outra cultura. Para Lionel , o exotismo da jovem era uma boa razão
de escolha, provavelmente a única. Afinal de contas , disse para co­
migo , tinha feito o que podia para o ajudar.
Com um bom copo de vinho de S aint-Estephe na mão , sentei-me
numa banqueta a olhar as estrelas. Entre outras coisas , o ano de 2002
Plataforma 245

iria marcar a entrada da França na União Monetária Europeia; ia


haver também o Mundial de Futebol , as eleições presidenciais e ou­
tros acontecimentos mediáticos importantes. Na baía, os picos calcá­
rios surgiam iluminados pela Lua; eu sabia que à meia-noite havia
fogo de artifício. Passado algum tempo , Valérie veio sentar-se a meu
lado. Enlacei-a e pus a cabeça no ombro dela; embora mal lhe distin­
guisse o contorno da cara, reconhecia-lhe o odor e a textura da pele.
Quando o primeiro foguete estoirou no ar, vi que tinha um vestido
verde ligeiramente transparente , o mesmo que vestira um ano antes,
na passagem do ano de Koh Phi Phi ; senti uma emoção estranha, no
momento em que ela pousou os seus lábios nos meus , como se a
ordem do mundo se tivesse alterado. Curiosamente , eu tivera uma
segunda oportunidade , embora não a merecesse. Na nossa vida, é
muito raro que alguém tenha uma segunda oportunidade; é contrário
a todas as leis. Então , apertei-a nos braços com toda a força, sentindo
subitamente uma grande vontade de chorar.
15

Se não for o amor a dominar, como poderá rege­


nerar-se o espírito ? Toda a supremacia prática
pertence à atividade .
Auguste Comte

O barco ia avançando sobre a imensidão das águas azul-turquesa,


e eu não tinha de me preocupar com nada. Tínhamos partido cedo ,
em direção a Koh Maya, e navegávamos ao longo dos afloramentos
de coral e de uma grande quantidade de picos calcários. Alguns deles
formavam um arco , e, através de um estreito canal aberto na rocha ,
podia-se entrar na laguna existente na parte central. No interior das
ilhotas , as águas verde-esmeralda estavam perfeitamente imóveis.
O piloto desligou o motor. Valérie olhou para mim e ficámos os dois
parados , sem o mais pequeno gesto; a marcha do tempo prosseguia
num silêncio total.
O barco deixou-nos na ilha de Koh Maya, numa baía protegida por
altas falésias. Estreita e recurvada, a praia estendia-se em baixo , numa
centena de metros. Eram onze horas da manhã, e o Sol ia alto nos céus.
O piloto voltou a pôr o barco em movimento e seguiu em direção a
Krabi ; estava combinado de que nos viria buscar ao final da tarde.
Assim que o barco saiu da baía, deixámos de ouvir o barulho do motor.
Sem falar no ato sexual , há poucos momentos da vida em que o
corpo goze de uma grande felicidade e se encha de alegria de viver,
pelo simples facto de existir; para mim , o dia 1 de janeiro desse ano
ficou marcado pela sucessão de momentos assim. Não tenho nenhu-
Plataforma 24 7

ma outra recordação de uma tão grande plenitude. Nesse dia tomámos


banho , secámo-nos ao sol e fizemos amor. Não creio que tenhamos
falado muito , nem explorado a ilha. Lembro-me do cheiro de Valérie
e do gosto do sal que ia secando no seu sexo; lembro-me de ter ador­
mecido dentro dela e de ser acordado pelas contrações do seu corpo.

O barco veio buscar-nos às cinco da tarde. No terraço do hotel ,


sobre a baía , tomei um Campari enquanto Valérie bebia o seu Mar
Thar. No céu alaranjado , os picos calcários pareciam quase negros.
De toalha na mão , voltavam do mar os últimos banhistas. A poucos
metros da margem , enlaçado dentro da água morna, havia um casal a
fazer amor. Os raios do Sol poente iluminavam , a meia altura, o teto
dourado de um pagode. No alto dos céus, ouvia-se o repicar dos sinos.
De acordo com os costumes budistas , a ação meritória feita por uma
pessoa é comemorada com um toque de sino ; bendita religião esta
que assim anuncia pelos ares as boas obras dos seres humanos...
- Michel - disse Valérie depois de um longo silêncio , olhando-
-me diretamente nos olhos. - Sinto vontade de ficar aqui.
- O que queres dizer com isso?
- Quero ficar aqui para sempre. Pensei nisso quando voltámos da
ilha, no final da tarde. E posso fazê-lo: basta-me ser nomeada res­
ponsável do aldeamento. Tenho habilitações para isso e competência
para a tarefa.
Olhei-a sem dizer nada; Valérie pôs a mão na minha mão.
- Só que terias de deixar o teu emprego... Concordas com isso?
- Claro que sim. - Devo ter respondido em menos de um segun-
do , sem um único momento de hesitação ; nunca me tinha sido tão
fácil tomar uma decisão.
Entretanto , vimos Jean-Yves a sair do salão de massagem. Valérie
fez-lhe sinal e ele veio sentar-se à nossa mesa; depois , ela falou-lhe
do que pensava fazer.
- Pois bem - disse ele com uma certa hesitação - , acho que
não vai haver nenhum problema. É claro que na administração do
Aurore vão ficar admirados ; no fundo , vais andar de cavalo para
burro. Vais ganhar menos de metade; não pode ser de outra maneira,
por causa das outras pessoas.
24 8 Michel Houellebecq

- Sei disso perfeitamente. Mas não me interessa.


Jean-Yves olhou-a novamente e , surpreendido , abanou a cabeça.
- Se é essa a tua escolha - disse ele - , se é isso o que tu que-
res... Bem vistas as coisas , sou eu que dirijo os clubes Eldorador,
posso nomear quem eu quiser para responsável de uma das nossas
aldeias.
- Quer dizer que concordas?
- Sim... Não te posso impedir.

É uma sensação curiosa esta de sentirmos a vida a balançar; basta


ficar quieto , sem fazer nada, e sentir essa sensação de desequilíbrio.
Durante toda a refeição , mantive-me tão calado e pensativo que Va­
lérie se mostrou preocupada.
- Tens a certeza de que queres fazer isto? - perguntou ela. -
Tens a certeza de que não tens pena de deixar a França?
- Não , não tenho pena de nada.
- Aqui não há distrações , nem vida cultural.
Acontece que eu tinha consciência disso ; tanto quanto me tinha
sido dado avaliar, a cultura funcionava como uma compensação li­
gada à infelicidade das nossas vidas. Teoricamente , seria possível
imaginar uma cultura de outro tipo , ligada ao lirismo , à comemora­
ção de coisas boas , e desenvolvendo-se numa atmosfera de felicida­
de ; mas não tinha a certeza , e , de qualquer modo , tratava-se de uma
consideração teórica a que não dava a mais pequena importância.
- Posso ver a TV5 - disse eu com indiferença.
Valérie sorriu ; a verdade é que a TV5 era um dos piores canais de
televisão do mundo , toda a gente sabia disso.
- Tens a certeza de que não te vais aborrecer? - insistiu ela.
Em toda a minha vida, conhecera sofrimento , angústia e opressão;
mas nunca me aborrecera. Não tinha nenhuma objeção à imutabili­
dade , à patética repetição sistemática dos mesmos gestos. É óbvio
que não tinha certezas sobre nada disso ; conhecia bem a força da
infelicidade , o seu engenho e a forma tenaz como se manifestava;
mas , fosse como fosse , tratava-se de uma perspetiva que não me
inspirava a mais leve inquietação. Em criança , era capaz de ficar
horas infinitas a contar trevos, em pleno campo ; em muitos anos de
Plataforma 249

pesquisa, nunca encontrei nenhum trevo de quatro folhas ; mas não


sentia qualquer amargura ou qualquer deceção; para dizer a verdade ,
teria sido capaz de contar todos esses trevos: cada um desses trevos
de três folhas me parecia imutavelmente autêntico , eternamente ma­
ravilhoso. Um dia, aos doze anos de idade , subi a um poste elétrico ,
numa zona de alta montanha. Enquanto fui subindo , nunca olhei
para baixo. Quando cheguei ao cimo e me instalei na plataforma ,
apercebi-me da dificuldade e do perigo da descida. Coroadas de ne­
ve , as cadeias montanhosas estendiam-se a perder de vista. A certa
altura , pareceu-me muito mais simples continuar ali ou saltar para o
vazio. Foi a ideia de me esmagar lá em baixo que , in extremis , me
impediu de o fazer; se não fosse isso , julgo que poderia gozar a eter­
nidade desse voo.

No dia seguinte conheci Andreas , um alemão que vivia há uma


dezena de anos na região. Explicou-me que fazia traduções , o que
lhe permitia trabalhar sozinho ; ia à Alemanha uma vez por ano , du­
rante a Feira de Francoforte; quando precisava de saber alguma
coisa, servia-se da Internet. Tivera a sorte de traduzir vários best­
-sellers americanos , como A Firma , o que lhe dava algum dinheiro;
a vida ali não era especialmente cara. Até ao presente quase não ha­
via turismo , por isso admirava-se de ver desembarcar agora tantos
compatriotas seus; quando deu por isso, reagiu sem grande entusias­
mo , mas também sem desagrado. Apesar de a profissão o obrigar a
praticar a língua natal , as suas ligações com a Alemanha eram cada
vez mais ténues. Casara com uma tailandesa que conhecera num
salão de massagem, e já tinham dois filhos.
«E aqui , é fácil ter... filhos?» , quis eu saber. Nessa altura , tive a
impressão de fazer uma pergunta incongruente , como se perguntasse
se seria fácil comprar um cão. Em boa verdade , sempre tinha tido
uma certa repugnância por crianças pequenas ; pareciam-me peque­
nos monstros disformes , sempre cagadas e a dar berros insuportá­
vei s ; a ideia de ter um filho nunca me passara pela cabeça. Mas sabia
que muitos casais pensavam nisso; desconhecia se ficavam conten­
tes , mas a verdade é que não tinham coragem de se lamentar. No
fundo , disse para comigo , enquanto olhava para o aldeamento em
250 Michel Houellebecq

redor, num espaço assim talvez se possa encarar essa hipótese: aqui ,
uma criança poderia correr por entre os bungalows e brincar com
paus ou com outra coisa qualquer.
Andreas achava que sim, era muito fácil ter filhos ali ; havia uma
escola em Krabi para onde podiam ir a pé. Por outro lado , as crianças
tailandesas comportavam-se de uma forma muito diferente das euro­
peias , eram mais sossegadas e menos birrentas. Respeitavam os pais
de uma maneira que roçava a veneração , e faziam-no naturalmente ,
era parte integrante da sua cultura. Sempre que ia a casa da irmã, em
Dusseldorf, Andreas ficava literalmente abismado com o comporta­
mento dos sobrinhos.
Por mim , não me deixei convencer facilmente com toda esta im­
pregnação cultural ; mas tranquilizei-me ao pensar que Valérie tinha
apenas vinte e oito anos; regra geral , as mulheres só têm essas ma­
nias por volta dos trinta e cinco ; mas enfim, se estivesse interessada ,
eu seria capaz de ter um filho dela: a questão acabaria por surgir
inevitavelmente , mais tarde ou mais cedo. Bem vistas as coisas , uma
criança era como um animalzinho pequeno , embora com tendências
menos boas ; digamos que seria como ter um macaquinho. Depois ,
disse para comigo que poderia haver outras vantagens , talvez pudes­
se ensinar-lhe a jogar Mille Bornes . Eu nutria uma verdadeira paixão
pelo Mille Bornes , mas tratava-se de uma paixão quase impossível
de concretizar. De facto , a quem poderia eu propor uma partida de
Mille Bornes? Aos colegas de trabalho certamente que não; e, aos
artistas que me vinham mostrar as suas obras , ainda menos. E que tal
a Andreas? Olhei-o de lado para lhe apreciar a capacidade , e não me
pareceu. Em todo o caso , tinha aspeto de pessoa séria e inteligente :
uma relação a cultivar.
- Pensam ficar aqui... definitivamente? - perguntou-me ele.
- Sim, sim , definitivamente.
- É preferível encarar as coisas dessa maneira - disse Andreas
acenando a cabeça. - É praticamente impossível deixar a Tailândia;
se tivesse de o fazer agora, ser-me-ia muito difícil.
16

Os dias passaram com uma rapidez espantosa; a partida estava


marcada para 5 de janeiro. Na véspera à noite , encontrámo-nos com
Jean-Yves no restaurante principal. Lionel não tinha aceitado o con­
vite para jantar; ia ver Kim a dançar. «Gosto muito de a ver dançar
quase nua em frente dos homens... », explicou ele , «sabendo que ,
mais tarde , vou estar sozinho com ela.» Jean-Yves olhou-o enquanto
se afastava.
- Tem feito grandes progressos , o homem do gás - disse em
tom sarcástico. - Descobriu o lado pervertido das coisas.
- Não faças troça - protestou Valérie. - Neste momento , sou
capaz de perceber o teu interesse por ele - disse virando-se para
mim - , é muito ternurento. E, seja como for, tenho a certeza de que
está a passar umas férias excelentes.
A noite caía; nas aldeias em volta da baia, acendiam-se luzes. Um
último raio de Sol iluminava o teto dourado do pagode. Desde que
Valérie lhe dera conhecimento da sua decisão , Jean-Yves nunca mais
falara do caso. Preparava-se agora para o fazer; mandou vir uma
garrafa de vinho.
- Vou sentir a tua falta - disse. - Nada vai ser como dantes.
Trabalhámos juntos durante mais de cinco anos. As coisas corriam
bem , nunca tivemos um desentendimento grave. A verdade é que ,
sem ti , não teria chegado onde cheguei. - Falava cada vez mais
baixo , como se estivesse sozinho; lá fora , a noite tinha caído. -
Agora - continuou ele - , vamos poder aplicar esta fórmula nou­
tros locais. Um dos primeiros países será o Brasil. Também reconsi-
252 Michel Houellebecq

derei o caso do Quénia: o ideal será abrir outro clube na região


interior, totalmente reservado aos safaris , e adaptar o clube do litoral
ao modelo «Afrodite» . Outra possibilidade imediata é o Vietname .
- Não tens receio da concorrência? - perguntei .
- Não há problema. As cadeias hoteleiras dos Estados Unidos
não são capazes de lançar uma coisas destas , a opinião pública é
muito influenciada por ideias puritanas . Tinha algum receio da rea­
ção da imprensa francesa, mas até agora não houve nada. É preciso
não esquecer que quase todos os nossos clientes são estrangeiros; na
Alemanha e em Itália, não há tanta agitação à volta destas coisas .
- Vais transformar-te no maior proxeneta do mundo inteiro . . .
- Proxeneta, não - protestou ele . - No nosso caso , não ficamos
com um único tostão ganho pelas raparigas ; deixamo-las trabalhar, e
é tudo .
- E além disso são coisas separadas - interveio Valérie - , as
raparigas não fazem parte do pessoal dos hotéis .
- Sim, de certo modo - disse Jean-Yves em tom hesitante . -
Aqui existe essa separação; mas ouvi dizer que em São Domingos as
criadas entram nos quartos com muita facilidade .
- Fazem-no de livre vontade .
- Bem . . . é o mínimo que se pode dizer. . .
- Vamos lá - disse Valérie com um gesto conciliador sobre o
mundo . - Não te deixes influenciar pelos hipócritas . A tua função é
fornecer a estrutura, com todo o savoir-jaire do grupo Aurore , ponto
final .

O empregado trouxe uma sopa de citronela . Nas mesas em volta ,


havia alemães e italianos acompanhados de tailandesas e alguns ca­
sais alemães - acompanhados ou não . E todos eles coabitavam
alegremente , sem problemas , num ambiente geral marcado pelo pra­
zer; a função de responsável de um destes aldeamentos não oferecia
grandes dificuldades .
- Quer dizer então que vocês vão mesmo ficar por aqui - disse
Jean-Yves retomando a palavra - , mal posso acreditar. De facto , é
surpreendente; enfim, num certo sentido sou capaz de compreender;
mas o que é surpreendente é a renúncia a ganhar mais dinheiro .
Plataforma 25 3

- Mais dinheiro para quê? - perguntou Valérie acentuando bem


as palavras. - Para comprar malas Prada? Passar fins de semana em
Budapeste? Comer trufas brancas , na altura delas? Ganhei muito
dinheiro , é verdade , mas nem me lembro de como é que o gastei :
talvez em porcarias desse género. E tu , acaso saberás em que gastas
o dinheiro?
- Realmente - disse Jean-Yves com ar pensativo. - A verdade
é que , até agora, julgo que tem sido a Audrey a gastá-lo.
- Audrey é uma cabra - retorquiu implacavelmente Valérie. -
Felizmente , vais-te divorciar. Foi a melhor decisão de toda a tua vi­
da.
- Tens razão , no fundo é uma cabra - respondeu ele sem se
mostrar ofendido. Sorriu , hesitou um instante e acrescentou : - Não
há dúvida de que és uma pessoa estranha, Valérie.
- Não sou eu que sou estranha , estranho é o mundo que me ro­
deia. Será que tens alguma necessidade de comprar um Ferrari ca­
briolet? Uma casa de campo em Deauville - que , de qualquer mo­
do , vai ser assaltada de certeza absoluta? De trabalhar noventa horas
por semana até aos sessenta anos de idade? Ou de descontar em im­
postos metade do que ganhas , contribuindo para o financiamento das
operações militares no Kosovo ou para a reabilitação dos subúrbios
dos grandes centros? Aqui é que se está bem; temos tudo o que pre­
cisamos. As únicas coisas que o mundo ocidental tem para oferecer
são os produtos de marca . Se não podes passar sem os produtos de
marca, então tens de ficar no Ocidente; caso contrário , na Tailândia
há excelentes falsificações.
- Não , a tua atitude é realmente muito estranha: trabalhaste du­
rante anos em pleno mundo ocidental e nunca acreditaste nos seus
valores.
- Sou uma predadora - respondeu ela calmamente. - Uma
simples e gentil predadora... não sou pessoa de grandes necessida­
des ; mas , até ao presente , trabalhei apenas por causa do dinheiro;
agora, vou começar a viver. Mas não percebo a posição dos outros:
por exemplo , tu , o que te impede de viveres aqui ? Poderias perfeita­
mente casar com uma tailandesa: são mulheres bonitas , simpáticas ,
fazem amor maravilhosamente; há algumas que falam umas coisas
de francês...
254 Michel Houellebecq

- Bem - disse Jean-Yves hesitando novamente. - Para já, pre­


firo mudar de mulher todas as noites.
- Mas isso passa-te. E, de qualquer modo , ninguém te impede de
frequentares salões de massagem mesmo depois de casado; é para
isso que eles servem.
- Sim, eu sei. Mas acho que ... No fundo , acho que , na minha
vida, sempre tive grande dificuldade em tomar decisões importantes.
- Ligeiramente contrariado com a sua própria confissão , virou-se
para mim e perguntou: - E tu , Michel , o que é que vais fazer aqui?
Sem sombra de dúvida, a resposta mais adequada seria «nada» ;
mas são sempre coisas muito difíceis de explicar a alguém que gosta
de estar ativo.
- Vai cozinhar - respondeu Valérie por mim. Virei-me para ela
surpreendido. - Sim, sim - insistiu ela - , tenho reparado que
mostras um certo interesse pela culinária, tens umas certas preten­
sões criativas. Dá muito jeito , não gosto nada de cozinhar; tenho a
certeza de que te vais entreter com isso.

Provei uma colherada do caril de galinha com pimentos verdes ;


efetivamente , podia tentar fazer u m prato com mangas. Jean-Yves
abanava a cabeça com ar pensativo. Olhei para Valérie : era uma boa
predadora, mais inteligente e mais obstinada do que eu ; e , no entanto ,
tinha-me escolhido como parceiro de covil. Quando pensamos nas
sociedades temos de admitir que assentam numa vontade comum , ou
pelo menos num consenso - por vezes classificado , nas democra­
cias ocidentais , como consenso mudo por alguns editorialistas com
posições políticas mais definidas. Senhor de um temperamento
igualmente mudo , nunca eu fizera fosse o que fosse para alterar esse
consenso; a ideia de uma vontade comum parecia-me menos eviden­
te. Segundo Immanuel Kant , a dignidade humana consiste em aceitar
apenas as leis em cuja elaboração pudéssemos ter participado; no
meu caso , nunca tal fantasia me passou pela cabeça. Não só nunca
votei, como nunca considerei as eleições senão como excelentes
shows de televisão - em que , para dizer a verdade , os meus atores
preferidos eram os analistas políticos ; sobretudo Jérôme Jaffré , que
me enchia as medidas. Ser responsável político parecia-me uma pro-
Plataforma 25 5

fissão difícil , técnica, desgastante; aceitava de bom grado delegar os


meus pobres poderes. Na minha juventude conheci vários militantes ,
pessoas que achavam importante influenciar a evolução da sociedade
numa ou noutra direção; nunca senti a mais pequena estima ou sim­
patia por essa gente. Depois , fui aprendendo a desconfiar deles: a
maneira como se interessavam por causas gerais, considerando a
sociedade como algo que lhes pertencesse , tinha alguma coisa de
suspeito. Quais eram então as minhas razões de queixa contra o Oci­
dente? Praticamente nenhumas , mas também não me sentia especial­
mente ligado à nossa maneira de viver (além de compreender cada
vez menos a ligação a uma ideia, a um país ou a outra coisa em geral
que não fosse um simples indivíduo). No Ocidente a vida era cara e
fazia frio; a prostituição tinha baixa qualidade. Era difícil fumar em
lugares públicos , e quase impossível comprar drogas e medicamen­
tos ; as pessoas trabalhavam muito , havia carros e barulho , e a segu­
rança dos lugares públicos não estava garantida. Em resumo , uma
série de inconvenientes. Subitamente , foi contrariado que tomei
consciência de que considerava a sociedade em que vivia como uma
espécie de meio natural - digamos uma savana, ou uma selva - a
cujas leis teria de me adaptar. A ideia de que era solidário com esse
meio natural nunca me ocorrera; era como se sofresse de uma atrofia,
de uma ausência. Não tinha a certeza de que a sociedade pudesse
sobreviver durante muito tempo com pessoas como eu ; mas eu podia
sobreviver ao lado de uma mulher, ligando-me a ela e tentando fazê­
-la feliz. No momento em que lançava novamente um olhar de reco­
nhecimento na direção de Valérie , ouvi no lado direito uma espécie
de estalido. Depois , apercebi-me do barulho de um motor vindo do
mar, que imediatamente deixou de se ouvir. Na parte da frente do
terraço , uma mulher grande e loira levantou-se e deu um berro. Hou­
ve então uma primeira rajada, uma crepitação breve. A mulher virou­
-se para nós e levou as mãos à cara: tinha sido atingida por uma bala
num olho cuja órbita era agora um buraco sangrento; a seguir, caiu
silenciosamente por terra. Foi nessa altura que vi os assaltantes , três
homens de turbante que progrediam rapidamente na nossa direção ,
de metralhadoras em punho. Ouviu-se uma segunda rajada, um pou­
co mais prolongada; o som das loiças e dos vidros partidos misturava­
-se com os gritos de dor. Devemos ter ficado completamente parali-
25 6 Michel Houellebecq

sados durante alguns segundos; raras foram as pessoas que tentaram


proteger-se debaixo das mesas. A meu lado , Jean-Yves soltou um
grito rápido , acabara de ser atingido num braço. Vi então Valérie a
resvalar devagarinho da cadeira e a cair no chão. Corri para junto
dela e protegi-a com os braços. A partir desse momento , não vi mais
nada. As rajadas de metralhadora sucediam-se umas às outras , por
entre instantes de silêncio quebrados unicamente pelo barulho de
vidros a explodir. Depois , fez-se novamente silêncio. Nessa altura
apercebi-me de que a minha mão esquerda estava cheia de sangue ;
Valérie devia ter sido atingida, na garganta ou no peito. O candeeiro
ao nosso lado estava desfeito , a obscuridade era quase total. Deitado
a um metro de distância, Jean-Yves soltou um gemido e tentou
levantar-se. Nessa altura , ouviu-se uma explosão enorme vinda do
lado do centro de tempos livres, um estrondo que cortou os ares e
ficou a vibrar durante algum tempo sobre a baía. A minha primeira
sensação foi a de que tinha os tímpanos rebentados ; mas , alguns se­
gundos depois , consegui distinguir, por entre o meu aturdimento ,
uma série de gritos pavorosos , autênticos bramidos de supliciados.

As equipas de socorro chegaram dez minutos depois , vindas de


Krabi , e dirigiram-se primeiramente ao centro de tempos livres.
A bomba explodira no meio do Crazy Lips , o bar mais importante ,
à hora de maior afluência; tinha sido escondida num saco de despor­
to abandonado junto à pista de dança. Tratava-se de um dispositivo
artesanal mas muito potente , constituído sobretudo por dinamite e
acionado por um mecanismo de relógio ; o saco tinha sido enchido
com pregos e cavilhas. Com a violência do impacto , as paredes de
tijolo furado que separavam o bar dos outros estabelecimentos ti­
nham estoirado completamente; algumas das vigas metálicas do
edifício haviam igualmente cedido aos efeitos da explosão , e o telha­
do ameaçava ruir. Perante a dimensão da catástrofe , a primeira ini­
ciativa das equipas de socorristas foi um pedido de reforços. Diante
da entrada do bar, uma dançarina rastejava no chão , ainda de biquíni
branco , com os braços decepados pelos cotovelos. Junto dela, um
turista alemão estava sentado no meio dos destroços e tentava segu­
rar os intestinos que lhe saíam da barriga; deitada a seu lado , a mu-
Plataforma 25 7

lher tinha o peito furado e os seios praticamente desfeitos. No inte­


rior do bar, pairava um fumo acastanhado; o chão estava escorregadio ,
coberto do sangue que escorria de corpos humanos e de órgãos es­
quartejados. Agonizantes , muitas pessoas de pernas e braços decepa­
dos tentavam rastejar na direção da saída, e deixavam atrás de si um
rasto de sangue. Pregos e cavilhas tinham vazado olhos , arrancado
mãos e dilacerado rostos . Alguns corpos humanos haviam literal­
mente rebentado por dentro , com membros e vísceras espalhados
muitos metros em redor.
Quando as equipas de socorro chegaram ao terraço , eu mantinha
Valérie apertada nos meus braços ; o corpo dela ainda estava morno.
Dois metros à frente , uma mulher jazia no solo com a cara coberta
de sangue e cravejada de pedaços de vidro. Outras pessoas estavam
sentadas nos seus lugares , de bocas abertas , imobilizadas pela morte.
Gritei na direção dos socorristas ; dois enfermeiros aproximaram-se
imediatamente , pegaram cuidadosamente em Valérie e deitaram-na
numa maca. Tentei levantar-me , mas caí para trás e bati violentamen­
te com a cabeça no chão. Nessa altura ouvi distintamente alguém
dizer em francês: «Está morta.»
Terceira Parte

PATTAYA BEACH
1

Era a primeira vez ao fim de muito tempo que acordava sem gen­
te à minha volta. O hospital de Krabi era um pequeno edifício claro;
um médico veio ver-me a meio da manhã. De nacionalidade france­
sa, pertencia aos Médicos do Mundo ; a sua organização conseguira
chegar ao local no dia a seguir ao atentado. Tinha cerca de trinta
anos , era ligeiramente curvado e estava com ar preocupado. Disse­
-me que eu tinha dormido durante três dias. «Em boa verdade , não
foi propriamente dormir» , explicou ele. «Por vezes parecia acorda­
do , e chegámos a falar consigo; mas só agora se pode dizer que foi
restabelecida a comunicação.» Estabelecer a comunicação, disse eu
para comigo. Depois , deu-me conhecimento do terrível balanço do
atentado : para já, mais de cento e dezassete mortos , o mais grave
jamais acontecido em toda a Ásia. Havia ainda alguns feridos em
estado extremamente crítico , de tal modo que não tinham podido ser
retirados do local ; Lionel era um deles. Tinha as pernas decepadas e
um estilhaço de metal no abdómen ; as suas hipóteses de sobrevivên­
cia eram ínfimas. Os outros feridos graves tinham sido levados para
o Bumrungrad Hospital, em Banguecoque. Jean-Yves fora atingido
sem gravidade , tinha apenas o úmero fraturado por uma bala; rece­
bera tratamento no próprio local. Eu próprio não sofrera qualquer
ferimento , nem uma simples arranhadela. «Quanto ao corpo da sua
amiga...» , concluiu o doutor, já foi enviado para França. «Falei ao
telefone com os pais: vai ser enterrada na B retanha.»
O médico calou-se; talvez esperasse que eu dissesse alguma coisa.
Olhou para mim pelo canto do olho; parecia cada vez mais preocupado.
262 Michel Houellebecq

* * *

Por volta do meio-dia, apareceu uma enfermeira com um tabuleiro


na mão; uma hora depois , voltou e levou tudo novamente . Disse-me
que eu tinha de começar a comer, era absolutamente indispensável
que o fizesse .
Jean-Yves veio visitar-me a meio da tarde . Também ele me olhava
de uma maneira estranha , um pouco de soslaio . Falou-me sobretudo
de Lionel , que estava praticamente a morrer, era uma questão de
horas . Tinha perguntado muito por Kim . Por milagre , a rapariga não
sofrera absolutamente nada , e parecia ter-se consolado depressa: ao
passear em Krabi no dia anterior, Jean-Yves vira-a de braço dado
com um inglês, um pormenor que não relatou a Lionel . De qualquer
maneira , o ferido não tinha ilusões a esse respeito ; segundo ele , tinha
sido uma sorte tê-la encontrado . «Curiosamente» , disse-me Jean­
-Yves , «Lionel estava com ar feliz .»

Quando fiquei sozinho , apercebi-me de que não dissera uma úni­


ca palavra; a verdade é que não sabia o que havia de dizer. Sentia
perfeitamente que havia alguma coisa que não estava bem , mas era
uma sensação vaga, difícil de explicar. Naquela altura , parecia-me
preferível ficar calado , esperando que as outras pessoas fossem ca­
pazes de perceber; estava simplesmente a atravessar um período
difícil .
Antes de sair, Jean-Yves levantou os olhos para mim , abanando
depois a cabeça com ar descoroçoado . Conforme mais tarde me con­
taram , parece que eu falava ininterruptamente quando estava sozinho
no quarto ; assim que alguém entrava, calava-me imediatamente .

Alguns dias mais tarde , transferiram-nos para o Bumrungrad Hos­


pital, num avião-ambulância. Por mim , não compreendia bem as
razões dessa transferência; no fundo , devia estar relacionada com a
necessidade de sermos interrogados pela polícia . Lionel morrera na
véspera; ao passar no corredor, eu próprio tinha visto o corpo enro­
lado numa mortalha .
Plataforma 263

Os polícias tailandeses estavam acompanhados por um adido da


embaixada que fazia de intérprete ; infelizmente , eu não tinha nada
de especial para lhes contar. A questão que os parecia obcecar
prendia-se com o tipo físico dos assaltantes ; seriam árabes ou asiáti­
cos? Por mim , compreendia bem as suas preocupações, era impor­
tante saber se a operação fora da responsabilidade de uma rede ter­
rorista internacional a operar na Tailândia, ou obra de separatistas
malaios ; mas a única coisa que podia dizer era que fora tudo muito
rápido , limitara-me a ver umas vagas silhuetas ; tanto quanto sabia,
porém , os terroristas poderiam ser malaios.
Depois , apareceram também agentes americanos , creio que da
CIA. Falavam com modos desabridos e desagradáveis , e eu tinha a
impressão de ser olhado como suspeito. Na conversa comigo , dis­
pensaram a presença de um intérprete , apesar de boa parte do sentido
das suas perguntas me passar ao lado. No final , mostraram-me uma
série de fotografias , provavelmente de terroristas internacionais ; não
reconheci nenhum.

De vez em quando , Jean-Yves vinha VISitar-me ao quarto e


sentava-se aos pés da cama. Eu tinha consciência da sua presença e
sentia-me ligeiramente mais tenso. Uma manhã, três dias depois da
nossa transferência, Jean-Yves estendeu-me um pequeno maço de
papéis ; eram fotocópias de artigos saídos em jornais. «A administra­
ção do grupo Aurore mandou-mos ontem por fax» , explicou ele ,
«enviaram isto sem nenhum comentário.»
O primeiro artigo era do Nouvel Observateur e intitulava-se «um
CLUBE MUITO ESPECIAL»; tinha duas páginas bem documentadas e estava

ilustrado com uma fotografia tirada de um anúncio alemão.


O jornalista acusava abertamente o grupo Aurore de promover o turis­
mo sexual em países do Terceiro Mundo , acrescentando que , nessas
condições, as reações dos muçulmanos eram fáceis de compreender. O
editorial de Jean-Claude Guillebaud também abordava o caso. Ques­
tionado telefonicamente , Jean-Luc Espitalier fizera a seguinte declara­
ção: «Ü Grupo Aurore , signatário da Carta Mundial do Turismo Ético ,
não pode , em caso algum , pactuar com semelhantes desvios; os res­
ponsáveis serão punidos.» O assunto era também tratado num artigo
264 Michel Houellebecq

de Isabelle Alonso publicado no Journal du dimanche , uma prosa in­


flamada mas pouco documentada intitulada «O REGREsso DA ESCRAVATU­
RA». Françoise Giroud utilizava a mesma expressão na sua crónica
semanal. «Perante as centenas de milhares de mulheres espezinhadas ,
humilhadas , reduzidas à escravatura em todo o mundo , que valor pode
ter - lamento perguntá-lo - a morte de uns quantos ricaços?» Sem
margem para dúvidas , o atentado de Krabi dera uma grande repercus­
são ao assunto. O Libération publicava na primeira página uma foto­
grafia dos sobreviventes entretanto repatriados , à chegada ao aeropor­
to de Roissy, encimada pelo título «VÍTIMAS AMBÍGUAS». No seu
editorial , Gérard Dupuy fustigava a complacência do governo tailan­
dês perante a prostituição e o tráfico de droga, assim como pelos seus
frequentes atentados à democracia. Quanto ao Paris-Match , fazia uma
descrição completa da noite do horror, intitulando-a como uma «CAR­
NIFICINA EM KRABI». A revista conseguira obter diversas fotografias , de
muito má qualidade , diga-se em abono da verdade - fotocópias a
preto e branco transmitidas por fax , que podiam ser de outro lado
qualquer, mal se distinguiam os corpos das pessoas. Paralelamente ,
publicavam a confissão de um turista sexual - alguém que nada tinha
a ver com aquilo , um isolado que frequentava sobretudo as Filipinas.
Jacques Chirac apressara-se a fazer uma declaração em que exprimia
o seu horror pelo atentado e condenava o «inaceitável comportamento
no estrangeiro de alguns dos nossos compatriotas». Logo de seguida
surgia a reação de Lionel Jospin, recordando a existência de legislação
destinada a punir o turismo sexual , mesmo quando praticado com
adultos. E os artigos saídos posteriormente em Le Figaro e Le Monde
interrogavam-se sobre os meios necessários na luta contra o flagelo e
a atitude a adotar pela comunidade internacional.
Por essa altura , Jean-Yves tentou telefonar a Gottfried Rembke ;
finalmente , conseguiu chegar à fala com o administrador da TUI. O
homem estava desolado , sinceramente desolado , mas nada podia
fazer. Enquanto destino turístico , a Tailândia seria certamente aban­
donada durante umas dezenas de anos. Além disso , a polémica exis­
tente em França tivera uma certa repercussão na Alemanha; embora
as notícias tivessem sido mais esbatidas , mesmo assim , a maior par­
te da opinião pública alemã condenava o turismo sexual ; nessas
condições, Gottfried preferia abandonar o projeto.
2

À semelhança do acontecido com a transferência para Bangueco­


que , não cheguei a compreender a razão do meu regresso a Paris. Os
funcionários do hospital não gostavam especialmente de mim ,
achavam-me demasiadamente parado; mesmo nos hospitais , ou no
próprio leito de morte , as pessoas são obrigadas a fingir. Os funcio­
nários hospitalares preferem doentes que ofereçam uma certa resis­
tência, uma certa indisciplina que tenha de ser quebrada, para bem
dos próprios doentes , claro está. Comigo não acontecia nada disso.
Podiam virar-me de lado para me darem uma injeção que , três horas
depois , vinham encontrar-me exatamente na mesma posição. Na
noite antes do regresso , choquei violentamente contra uma porta
quando andava pelos corredores à procura das casas de banho. De
manhã tinha a cara cheia de sangue , por causa de um golpe no sobro­
lho ; tiveram de me limpar e de me fazer um penso. Nem me tinha
ocorrido chamar uma enfermeira; a verdade é que não tinha dado
absolutamente por nada.
A viagem de avião constiiuiu um tempo neutro; para cúmulo , tinha
perdido o hábito de fumar. Quando estava à espera da mala, em Pa­
ris , dei um aperto de mão a Jean-Yves ; depois apanhei um táxi para
a Avenida de Choisy.
Logo a seguir, compreendi que não era capaz , que assim não era
capaz. Não cheguei a desfazer a mala. Dei uma volta pela casa e ,
com um saco de plástico na mão , apanhei todas a s fotografias de
Valérie que pude encontrar. Eram quase todas de quando estava com
os pais na Bretanha, e tinham sido tiradas na praia e no quintal da
266 Michel Houellebecq

casa. Havia também umas fotografias eróticas que eu lhe tirara ali
em casa: adorava vê-la a masturbar-se , apreciava extremamente a
beleza dos seus gestos.
Sentei-me no sofá e marquei o número que me tinham dado para
ligar em caso de urgência, uma linha que funcionava 24 horas por
dia. Era uma espécie de unidade de crise especialmente criada para
apoiar os sobreviventes do atentado. Funcionava num pavilhão do
Hôpital S ainte-Anne.

A maior parte dos que ali tinham ido em busca de ajuda estava
efetivamente a passar um mau bocado: apesar das altas doses de
tranquilizantes , as pessoas tinham pesadelos todas as noites , chora­
vam e davam gritos de angústia. Assim que me cruzei com elas nos
corredores , fiquei impressionado com as suas expressões aflitas e
crispadas ; pareciam literalmente minadas pelo medo. E eu dizia para
comigo que aquele medo as iria acompanhar durante toda a vida.
Pela minha parte , sentia-me sobretudo sem forças para nada. De
um modo geral , só me levantava para beber uma chávena de Nesca­
fé ou roer uns biscoitos; as refeições não eram obrigatórias ,
passando-se o mesmo com as atividades terapêuticas. S ubmeteram­
-me a uma série de exames , e três dias depois da minha chegada fui
visto por um psiquiatra; os exames referiam uma «reatividade extre­
mamente diminuída». Não demonstrava nenhum sofrimento espe­
cial , mas , de facto , sentia-me diminuído para além do que é possível
imaginar. O médico perguntou-me o que é que eu pensava fazer.
Respondi : «Esperar». Mostrava-me razoavelmente otimista; eu
disse-lhe que toda aquela tristeza iria terminar, que iria reencontrar a
minha felicidade , e que era preciso esperar. O psiquiatra não pareceu
muito convencido. Era um homem de uns cinquenta anos , de cara
larga e divertida, inteiramente glabro.
Ao fim de uma semana, transferiram-me para um hospital psiquiá­
trico recente , desta vez para uma permanência mais longa. A inten­
ção era de que ficasse ali durante um pouco mais de três meses. Para
minha grande surpresa, encontrei novamente o mesmo psiquiatra.
Não é nada surpreendente , disse-me ele ; era ali o seu local de traba­
lho. A ajuda às vítimas do atentado constituía apenas uma missão
Plataforma 267

temporária, para a qual , aliás , tinha uma especialização técnica -


participara igualmente na equipa formada após o atentado do RER
de Saint-Michel , em julho de 1995.
O médico não usava as expressões habituais dos psiquiatras ; era
uma pessoa perfeitamente suportável. Lembro-me de me ter falado
da importância de «libertar os afetos» , uma frase que parecia tirada
do paleio dos budistas. Mas que afetos ? Só havia um afeto na minha
vida. De natureza transitória, eu tinha-me ligado a uma coisa tam­
bém transitória, adequada à minha própria natureza - e não havia
muito mais a dizer sobre isso. Se a minha natureza fosse outra, dizia­
-lhe eu para alimentar a conversa, ter-me-ia ligado a coisas eternas.
Parecia-me que a sua abordagem médica resultava bem com os so­
breviventes angustiados com sentimentos de morte e de mutilação.
«Esses sofrimentos não vos pertencem , não são realmente vossos :
trata-se apenas de fantasmas que se vos atravessam no espírito» , di­
zia ele ; e as pessoas acabavam por acreditar.
Pessoalmente , não me recordo da altura em que tomei consciência
da situação; mas sei que foi acontecendo de um modo intermitente.
Nesse tempo , tal como ainda hoje acontece , havia longos momentos
em que , para mim , Valérie não estava morta. A princípio , era capaz
de prolongar indefinidamente esses momento s , sem grande esforço.
Lembro-me da primeira vez em que tive dificuldades de o fazer e em
que fui obrigado a sentir todo o peso da realidade; aconteceu isso
depois da visita de Jean-Yves. Foi um momento difícil , com recorda­
ções praticamente impossíveis de rejeitar; nunca mais lhe pedi para
voltar.
Inversamente , a visita de Marie-Jeanne fez-me muito bem. Embo­
ra sem muitas palavras , contou-me coisas do ambiente do nosso
trabalho; eu disse-lhe imediatamente que não tinha intenção de vol­
tar a trabalhar, estava a pensar instalar-me em Krabi. Marie-Jeanne
ouviu e não fez qualquer comentário. «Não te preocupes , vais ver
que tudo passa.» Depois , ficou a olhar-me com uma compaixão mu­
da; estranhamente , creio que acreditou em mim.
Mas a visita mais penosa foi certamente a dos pais de Valérie; o
psiquiatra explicara-lhes que eu tinha fases de negação da realidade ,
de tal modo que a mãe de Valérie esteve quase sempre a chorar; o pai
também nunca se mostrou muito à vontade. A visita destinava-se a
26 8 Michel Houellebecq

tratar de assuntos práticos e a entregarem-me uma mala com objetos


pessoais. Quanto ao apartamento , pensavam que não estaria interes­
sado em ficar com ele . «Claro , claro» , disse eu , «mas podemos ver
isso mais tarde.» Nessa altura, a mãe de Valérie recomeçou a chorar.

A vida passa mais depressa no interior de uma instituição; as ne­


cessidades essenciais estão totalmente asseguradas. Voltei a inte­
ressar-me pelo programa Questions pour un champion; era a única
coisa que via na televisão; as notícias não me interessavam absolu­
tamente nada. Muitos dos outros doentes passavam o dia diante do
televisor. Eu não gostava de fazer isso: provocava-me uma grande
agitação. Tinha a ideia de que , se permanecesse calmo , se evitasse
pensar, tudo se iria recompor.
Numa manhã de abril , apercebi-me de que , efetivamente , as coisas
se estavam a recompor e que poderia sair em breve. Mas fui assalta­
do por uma série de complicações: precisava de encontrar um quarto
de hotel , algo que constituísse um espaço neutro. Pelo menos tinha
dinheiro; já era uma boa coisa. «É preciso ver o lado positivo das
coisas» , disse eu a uma enfermeira . Nessa altura pareceu-me surpre­
endida, talvez por ser a primeira vez que eu lhe dirigia a palavra.
Na nossa última conversa, o psiquiatra explicou-me que não havia
nenhum tratamento específico para a negação da realidade; não se
tratava propriamente de uma alteração do humor, mas da representa­
ção exterior da consciência. A explicação para me ter mantido ali
durante tanto tempo era o seu receio de que eu tentasse suicidar-me
- o que acontece frequentemente nos casos em que há uma súbita
tomada de consciência; neste momento , porém, eu estava livre de
perigo . «Ainda bem» , disse eu , «ainda bem.»
3

Uma semana depois de sair do hospital , apanhei um avião para


Banguecoque. Não tinha nenhum projeto concreto em mente. Se a
natureza das pessoas fosse a ideal , poderiam contentar-se com os
movimentos do Sol. Em Pari s , as estações eram muito acentuadas ,
o que constituía uma fonte de perturbação e de agitação . Em Ban­
guecoque , o Sol nasce às seis da manhã e põe-se às seis da tarde ;
durante esse intervalo de tempo , tem um percurso sempre imutável.
Havia ainda , segundo parecia, uma época de monção ; mas pessoal­
mente nunca tinha dado por ela. É verdade que a cidade tinha uma
certa agitação , mas , embora eu não soubesse porquê , tratava-se de
uma espécie de condição natural. Estas pessoas tinham certamente
uma vida e um destino , de acordo com os seus níveis de rendimento;
mas , tanto quanto eu sabia , comportavam-se como um bando de
lemingues.
Fiquei instalado no Amari Boulevard; o hotel era sobretudo fre­
quentado por homens de negócios japoneses. Tinha sido ali que Va­
lérie , Jean-Yves e eu próprio nos hospedáramos durante a última
passagem por B anguecoque ; não me parecia boa ideia continuar por
lá. Dois dias depois , mudei-me para o Grace Hotel; ficava a poucas
dezenas de metros , mas o ambiente era bastante diferente. Tratava-se
certamente do último lugar em B anguecoque onde havia turistas se­
xuais dos países árabes. Nesse tempo já eles andavam encostados às
paredes , ou mantinham-se enclausurados no hotel - que dispunha
de uma discoteca e de um salão de massagem . Também se viam al­
guns nas ruas em redor, onde havia vendedores de kebabs e centrais
2 70 Michel Houellebecq

para telefonemas de longa distância; mas , a partir daí, não se encon­


trava mais nenhum. A certa altura apercebi-me de que , sem querer,
me tinha aproximado do Bumrungrad Hospital.

É verdade que podemos passar a nossa vida animados por um


permanente sentimento de vingança; muita gente vive dessa manei­
ra. Ora, o Islão tinha quebrado a minha vida; o Islão era algo que eu
poderia francamente odiar; nos dias que se seguiram , esforcei-me
por alimentar o meu ódio contra os muçulmanos. Para mais facil­
mente atingir esse objetivo , voltei a acompanhar os noticiários inter­
nacionais. De cada vez que tomava conhecimento de que um terro­
rista palestino , ou uma criança palestina, ou uma mulher palestiniana
grávida, tinham sido abatidos a tiro na Faixa de Gaza, sentia um
sobressalto de entusiasmo só de pensar que era um muçulmano a
menos. Sem dúvida nenhuma, qualquer pessoa podia passar assim a
sua vida.
Uma noite , um banqueiro jordano meteu conversa comigo no
coffee-shop do hotel. De trato afável , insistiu em pagar-me uma cer­
veja; provavelmente , a reclusão forçada no hotel começava a fazer­
-lhe mossa. «Não percebo a reação das pessoas... » , disse-me ele.
«Embora não haja dúvidas de que andávamos a pedi-las. Esta não é
uma terra do Islão , não há nenhuma razão para que os países árabes
gastem aqui centenas de milhões para financiar a construção de mes­
quitas. Já para não falar do atentado , claro está...» Vendo que eu o
ouvia atentamente , mandou vir mais uma cerveja e ganhou outro
calor. «0 problema dos muçulmanos» , disse ele então , «é que o pa­
raíso prometido pelo profeta já se podia encontrar aqui: nesta terra
havia já raparigas novas disponíveis e lascivas , que dançavam para
agradar aos homens , uma terra onde toda a gente podia emborcar as
bebidas que quisesse ao som de músicas com tonalidades celestiais ;
num raio d e quinhentos metros e m volta do hotel , encontrava-se uma
vintena de lugares com todos esses atributos. Todos esses lugares
eram de fácil acesso , e , antes de entrar, ninguém era obrigado a cum­
prir os sete deveres da religião muçulmana nem a empreender a
guerra santa; bastava ter uns dólares no bolso. E , para saber essas
coisas , não era preciso sair de casa: bastava dispor de uma antena
Plataforma 271

parabólica.» Segundo ele , não havia a mais pequena dúvida: o siste­


ma muçulmano estava condenado , o capitalismo era muito mais
forte. Os próprios jovens árabes não pensavam senão em sexo e em
consumir. Mesmo quando afirmavam o contrário, sonhavam juntar­
-se ao modelo americano: a agressividade de alguns deles não passa­
va de um sinal de despeito resultante da sua impotência; afortunada­
mente , eram cada vez mais os que voltavam deliberadamente as
costas ao Islão. No seu caso , não tinha tido a mesma sorte , estava
velho e , durante toda a sua vida, fora obrigado a sujeitar-se a uma
religião que detestava. De uma certa forma , era também o que acon­
tecia comigo ; mas chegaria certamente o dia em que o mundo ficaria
livre do Islão; embora para mim fosse tarde de mais. Agora, não ti­
nha propriamente uma vida; durante alguns meses , tivera efetiva­
mente uma vida, já não era mau , nem toda a gente podia dizer o
mesmo. Lamentavelmente , porém , a falta de vontade de viver não é
suficiente para sentirmos vontade de morrer.
Voltei a encontrar o mesmo homem no dia seguinte , antes de ele
regressar a Amã; teria de esperar um ano para poder voltar. Pela mi­
nha parte , agradou-me que se fosse embora; sentia que , se ficasse ,
continuaria a querer conversar comigo , e só de pensar nisso ficava
com dores de cabeça; nesse tempo , tinha grande dificuldade em
manter contactos intelectuais ; tinha deixado de me interessar pela
compreensão do mundo , ou até pelo conhecimento do mundo. No
entanto , a breve conversa com esse homem deixara-me uma impres­
são profunda: tinha ficado convencido de que o Islão estava conde­
nado; bastava pensar bem nisso para que essa conclusão surgisse de
uma forma evidente. Este simples pensamento foi suficiente para
dissipar o ódio que eu sentia. E deixei novamente de me interessar
pelas notícias do mundo.
4

Banguecoque parecia-se agora ainda mais com uma cidade nor­


mal , cheia de homens de negócios e de turistas vindos em viagens
organizadas. Duas semanas mais tarde , apanhei um autocarro para
Pattaya. Tinha de acabar assim, disse para comigo enquanto subia
para o veículo ; depois apercebi-me de que não era verdade , que ,
naquele caso , não se podia falar de determinismo. Poderia ter pas­
sado perfeitamente o resto dos meus dias junto de Valérie , na Tai­
lândia, na B retanha ou em qualquer outro lugar. Envelhecer não era
propriamente uma coisa divertida; mas envelhecer sozinho era o
pior de tudo.
Assim que pus a mala no poeirento chão da estação de camiona­
gem , percebi que tinha chegado ao fim do meu caminho. À saída da
porta giratória, um velho e esquelético drogado , de longos cabelos
grisalhos e com um lagarto no ombro , pedia esmola. Dei-lhe cem
baths e fui beber uma cerveja mesmo em frente , ao Heidelberg Hof.
Um grupo de pederastas alemães , de bigodes farfalhudos e grandes
barrigas , saracoteava-se exibindo camisas às flores. Junto deles , três
adolescentes russas no último grau da putaria contorciam-se ao som
do ghetto-blaster que uma delas trazia na mão ; enquanto caminha­
vam , as jovens brochistas iam-se literalmente bamboleando e rebo­
lando pela rua fora. Em poucos minutos , cruzei-me nas ruas da cida­
de com uma impressionante variedade de espécimes humanos :
rappers d e gorro na cabeça, marginais holandeses , ciberpunks de
cabelos encarnados , fufas austríacas enfeitadas de piercings . Daqui
para a frente não existe mais nada , Pattaya é uma espécie de cloaca,
Plataforma 2 73

de derradeiro esgoto onde vêm parar os mais variados detritos da


neurose ocidental . Seja para homossexuais , heterossexuais , ou as
duas coisas ao mesmo tempo , Pattaya é também a última chance , a
partir da qual a única coisa a fazer é renunciar ao prazer. Os vários
hotéis distinguem-se naturalmente pelos preços e níveis de conforto ,
mas também pela nacionalidade das suas clientelas. Em Pattaya há
duas grandes comunidades , a dos alemães e a dos americanos (por
entre as quais provavelmente se misturam australianos e mesmo neo­
-zelandeses). Do mesmo modo , é possível encontrar uma certa quan­
tidade de russos , facilmente identificáveis pelo seu aspeto provincia­
no e pelo seu comportamento de gangsters . Por outro lado , existe
também um estabelecimento destinado aos franceses , chamado Ma
maison ; o hotel tem apenas uma dezena de camas , mas o restaurante
é muito frequentado. Foi lá que me instalei durante uma semana, até
me aperceber de que não estava assim tão ligado às andouillettes ou
às pernas de rã; e que seria capaz de viver sem assistir, via satélite ,
aos jogos do campeonato francês de futebol , ou sem folhear todos os
dias as páginas culturais de Le Monde . Fosse como fosse , tinha de
encontrar um alojamento de longa duração. Na Tailândia, os vistos de
turismo têm um mês de validade ; mas , para conseguir uma prorroga­
ção , basta atravessar a fronteira e voltar a entrar no país. Em Pattaya,
há muitas agências que organizam viagens de ida e volta ao Cambo­
ja, no mesmo dia. Depois de um trajeto de três horas num miniauto­
carro , espera-se na bicha durante uma ou duas horas para passar a
fronteira; almoça-se em solo cambojano (o preço do almoço já está
incluído , assim como as gorjetas destinadas aos funcionários da al­
fândega) ; seguidamente , faz-se o percurso inverso . A maior parte dos
estrangeiros residentes faz isso todos os meses , durante anos ; é mui­
to mais simples do que obter um visto de longa permanência .
Ninguém vem a Pattaya para refazer a vida, mas sim para acabar
a vida com um mínimo de condições . Ou pelo menos , se quisermos
empregar uma expressão menos dura, para fazer uma pausa, uma
longa pausa - que pode tomar-se definitiva . Foram essas as pala­
vras de um homossexual de cerca de cinquenta anos que encontrei
no pub irlandês Soi 14; fizera o essencial da sua vida de gráfico co­
mo paginador de jornais populares , conseguindo poupar algum di­
nheiro. Há cerca de dez anos , tinha visto que as coisas lhe começa-
2 74 Michel Houellebecq

vam a correr mal ; ia a boftes todas as noites , sempre às mesmas do


costume , mas voltava cada vez mais de mãos a abanar. É óbvio que
podia pagar para estar com alguém; mas , nesse caso , preferia fazê-lo
com pessoas asiáticas. Pediu-me desculpa por esta observação , espe­
rava que eu não encontrasse conotações racistas nas suas palavras.
Claro que não , por mim compreendia perfeitamente: era menos hu­
milhante pagar a pessoas diferentes das que poderíamos ter seduzido
no passado , pessoas que não nos deixassem nenhuma recordação. Se
a sexualidade tiver de ser paga, então que , de uma certa forma, pos­
sa ser indiferenciada. Como toda a gente sabe , uma das primeiras
coisas que sentimos na presença de pessoas de raça diferente é jus­
tamente essa indiferenciação , a sensação de que toda a gente é fisi­
camente semelhante. O efeito dissipa-se ao fim de alguns meses , e é
pena, pois corresponde a um facto real : no fundo , todos os seres
humanos têm grandes semelhanças entre si. É evidente que podemos
distinguir entre machos e fêmeas ; e, se quisermos , poderemos igual­
mente distinguir os diferentes grupos etários ; mas qualquer outra
distinção mais elaborada releva de uma certa forma de vaidade pes­
soal , eventualmente ligada ao tédio. Um ser possuído pelo tédio
elabora distinções e hierarquias ; é esse um dos seus traços caracte­
rísticos. Segundo Hutchinson e Rawlins , o desenvolvimento dos
sistemas de domínio hierárquico no seio das sociedades animais não
corresponde a nenhuma necessidade prática, a nenhuma vantagem
de tipo seletivo ; constitui unicamente uma maneira de lutar contra o
pavoroso tédio resultante da vida no meio da natureza.
Assim , o antigo paginador terminava tranquilamente os seus dias
de panasca pagando os favores de musculados e elegantes rapazes de
tez mate. Uma vez por ano , ia a França visitar a família e alguns
amigos. Segundo me disse , em Pattaya tinha uma vida sexual menos
frenética do que eu podia pensar; saía uma ou duas vezes por sema­
na, não mais do que isso. Vivia na cidade há seis anos; paradoxal­
mente , a extrema abundância e variedade de ofertas sexuais, bem
como o seu preço acessível , provocavam-lhe um certo abrandamento
do desejo. Sempre que queria, sabia que poderia enrabar e chupar
rapazes excelentes , que , por sua vez , o masturbavam com toda a
sensibilidade e mestria. Inteiramente descansado , preparava esses
momentos e aproveitava-os com moderação. Percebi então que me
Plataforma 275

imaginava mergulhado no frenesim erótico típico das primeiras se­


manas após a chegada, que via em mim um equivalente heterosse­
xual ao seu próprio caso. Abstive-me de o desiludir. Mostrou-se
cordial , insistiu para pagar as bebidas e deu-me vários endereços de
locais onde eu me poderia instalar durante mais tempo. Disse-me
que tinha gostado muito de falar com um francês; quase todos os
residentes homossexuais eram ingleses , dava-se bem com eles , mas
de vez em quando sentia necessidade de falar a língua-mãe. Não
mantinha grandes contactos com a pequena comunidade francesa
reunida em torno do restaurante Ma maison; eram quase todos hete­
rossexuais grosseirões , género antigos colonos ou ex-militares. Caso
me fixasse em Pattaya, poderíamos sair juntos uma noite , tranquila­
mente , sem preconceitos de qualquer ordem ; deu-me o número do
telemóvel. Tomei nota, embora sabendo que nunca lhe iria telefonar.
Era simpático , afável e mesmo interessante ; mas eu não sentia a mais
pequena necessidade de me relacionar com ninguém.

Aluguei um quarto na Naklua Road , um pouco à margem da agi­


tação da cidade. Dispunha de ar condicionado , frigorífico , chuveiro ,
cama e algum mobiliário; o aluguer custava-me três mil baths por
mês - pouco mais de quinhentos francos. Informei o meu banco
sobre o meu novo endereço , e enviei ao Ministério da Cultura uma
carta de demissão.
De um modo geral , já não tinha grande coisa a fazer na vida. Com­
prei várias resmas de papel de 21 x 29 ,7 a fim de tentar organizar os
elementos da minha vida. Aí está uma coisa que as pessoas deveriam
fazer mais frequentemente antes de morrer. É curioso pensar em to­
dos os seres humanos que passam a vida sem fazer o mais pequeno
comentário , a mais leve objeção , a mais simples observação. Não
que esses comentários , essas objeções e essas observações tenham
um destinatário ou uma finalidade qualquer; ainda assim , parece-me
preferível que não deixem de ser feitos.
5

Seis meses mais tarde , estou ainda instalado no meu quarto de


Naklua Road; e penso que a minha tarefa está prestes a chegar ao fim.
Sinto a falta de Valérie. Se acaso a minha intenção inicial , ao escrever
estas páginas , fosse atenuar a sensação de perda ou de a tomar mais
suportável , poderia agora aperceber-me de que falhara redondamente :
a ausência de Valérie nunca me tinha feito sofrer tanto.
Ao fim do terceiro mês de permanência em Pattaya, decidi voltar
aos salões de massagem e aos bares de raparigas. Numa primeira
fase , a ideia não me entusiasmou especialmente , tinha medo de fa­
lhar. Mas consegui ereção , e cheguei a ejacular; contudo , nunca mais
tive prazer. Não por culpa das raparigas , competentes e meigas como
sempre ; mas era como se estivesse insensibilizado. Por uma questão
de princípio , continuei a frequentar um salão de massagem uma vez
por semana; depois , decidi parar. Apesar de tudo , tratava-se de um
contacto humano - eis o grande inconveniente. Apesar de ter deixa­
do de acreditar no regresso do prazer, poderia acontecer que alguma
rapariga atingisse o orgasmo , tanto mais que a insensibilidade do
meu sexo permitia aguentar-me durante horas , se não fizesse um
certo esforço para suspender a função. Mais tarde , poderia vir a de­
sejar esse prazer, o que talvez assumisse a forma de uma aposta; ora,
eu não tinha interesse em apostar fosse no que fosse. A minha vida
estava completamente vazia, e era preferível continuar assim. Se
deixasse a paixão invadir o meu corpo , a dor viria logo a seguir.

* * *
Plataforma 277

O meu livro chegou a o fim. Agora fico deitado n a cama d e dia ,


cada vez durante mais tempo. Por vezes , ligo o ar condicionado de
manhã, desligo-o à tarde , e entre esses dois momentos não acontece
rigorosamente nada. Ao contrário do que acontecia inicialmente ,
estou habituado ao ronronar do aparelho; mas habituei-me também
ao calor; para dizer a verdade , não tenho preferência por nenhuma
das situações.
Há muito que deixei de comprar jornais franceses; calculo que
terá decorrido já a eleição para a Presidência da República. Valendo
o que vale , o Ministério da Cultura irá prosseguir a sua tarefa. Talvez
Marie-Jeanne ainda se lembre de mim às vezes , quando é preciso
fazer o orçamento de uma exposição; nunca mais tentei contactar
com ela. Também não sei o que aconteceu a Jean-Yves ; depois de ter
sido despedido do Aurore , calculo que teve de recomeçar num lugar
menos importante , muito provavelmente fora do setor do turismo.

Quando a vida amorosa acaba, é a vida no seu conjunto que adqui­


re qualquer coisa um pouco forçada e convencional . Permanece o
aspeto humano e os comportamentos habituai s , como uma espécie
de estrutura; mas , para empregar uma expressão corrente , o coração
já não mora aqui.
Há scooters que descem a Naklua Road e levantam uma nuvem de
pó. Já é meio-dia. Vindas dos bairros periféricos , as prostitutas vêm
iniciar o seu trabalho nos bares do centro da cidade. Não penso sair
de casa hoje. Mas talvez o faça ao final da tarde , para engolir uma
sopa comprada numa das lojas junto ao cruzamento.
Quando renunciamos à vida, as últimas pessoas com quem contac­
tamos são os comerciantes . Pela minha parte , limito-me a dizer algu­
mas palavras em inglês . Não falo tailandês , o que cria em meu redor
uma barreira triste e asfixiante. É muito provável que nunca chegue
a compreender a Ásia, o que , de resto , não tem qualquer importância .
Podemos habitar um mundo sem o compreendermos , basta-nos ser
capazes de obter alimentos , carícias e amor. Em Pattaya, a alimenta­
ção e as carícias são baratas , de acordo com os critérios ocidentais e
mesmo com os asiáticos. Sobre o amor, sinto grande dificuldade em
falar. Mas tenho agora sobre isso a seguinte convicção: Valérie foi
27 8 Michel Houellebecq

para mim uma única e radiosa exceção. Fazia parte do pequeno gru­
po de seres capaz de se dedicar inteiramente à felicidade de outro ser,
transformando essa função no grande objetivo da sua vida. Um fenó­
meno assim é um autêntico mistério. Concentram-se nele a felicida­
de , a simplicidade e a alegria; mas não sei como nem por que razão
pode acontecer. Ora, se não fui capaz de compreender o amor, de que
me servirá compreender o resto?

Até ao final , continuarei a ser um filho da Europa, um filho da


inquietação e da vergonha; não sou depositário de qualquer mensa­
gem de esperança. Não sinto ódio pelo Ocidente , quando muito um
enorme desprezo. Sei apenas que , sendo como somos , exalamos um
imenso fedor a egoísmo , a masoquismo e a morte. Criámos um sis­
tema em que , pura e simplesmente , é impossível viver; um sistema
que , ainda para mai s , continuamos a exportar.
Cai a noite e , nas frontarias dos beer bars , acendem-se grinaldas
coloridas. Chegam reformados alemães e põem as mãos fortes nas
coxas das suas jovens acompanhantes. Mais do que todos os outros
povos , os alemães sabem o que é a inquietação e a vergonha; por
isso têm tanta necessidade de carnes tenras e de uma pele doce , e
indefinidamente refrescante. Mais do que todos os outros , conhecem
o desejo do seu próprio aniquilamento. É raro encontrar neles a mes­
ma vulgaridade pragmática e satisfeita dos turistas anglo-saxónicos ,
a sua tendência para comparar preços e benefícios. É igualmente
raro vê-los fazer ginástica, preocupados com o aspeto do corpo. Ge­
ralmente comem de mai s , bebem cerveja de mais , acumulam gordu­
ra de mais; e a maior parte acaba por morrer cedo. São quase sempre
cordiais , gostam de agradar, de oferecer rodadas de bebida e de con­
tar histórias ; apesar disso , fazem uma companhia melancólica e
tranquila.
Neste momento , sou capaz de compreender a morte ; não acredito
que me faça sofrer muito. Conheci o ódio , o desprezo , a decrepitude
e muitas outras coisas ; cheguei a conhecer breves instantes de amor.
Depois de morrer, nada sobreviverá de mim próprio, e mereço intei­
ramente que assim seja; em todos os aspetos , fui sempre uma pessoa
medíocre.
Plataforma 279

Não sei porquê , mas imagino que vou morrer a meio da noite , e
sinto ainda uma ligeira inquietação quando penso no sofrimento que
há de acompanhar a cessação das ligações do corpo. S into dificulda­
de em imaginar a interrupção da vida como algo completamente in­
dolor, de que não há consciência; reconheço que posso estar engana­
do , o que não impede que sinta dificuldade de me convencer do
contrário.
Depois de eu morrer, os autóctones levarão pouco tempo a dar por
isso; num clima assim , os cadáveres começam imediatamente a chei­
rar mal. Depois , não sabendo o que fazer de mim , dirigir-se-ão mui­
to provavelmente à Embaixada de França. Como estou longe de ser
um simples indigente , não será difícil tratar do caso. No final , há de
restar certamente algum dinheiro; desconheço quem o irá herdar,
talvez o Estado ou alguns parentes afastados.
Contrariamente a outros povos asiáticos , os tailandeses não acre­
ditam em fantasmas e não se interessam muito pelo destino dos ca­
dáveres; a maior parte das pessoas vai para a vala comum. Como não
terei deixado instruções sobre o assunto , será isso mesmo o que me
irá acontecer. Muito longe daqui , em França , será lavrado um assen­
to de óbito , posteriormente arquivado na gaveta funda de uma repar­
tição de Registo Civil. Na Tailândia , alguns vendedores ambulantes ,
habituados a ver-me no bairro , irão abanar a cabeça. O meu aparta­
mento será alugado a um novo morador. E depois serei esquecido.
Serei rapidamente esquecido.
Notas

1 Sightseeing tours ; a social approach, Annals oj Tourism Research , vol . 23 , pp .


2 1 3-227 , 1 998 . (N. A .)
2 Jogo de palavras de difícil transposição para português . Em francês , o ter­
mo «cafard» significa «barata» ( substantivo) e «neura» , «melancolia» ou
«madureza» (fig .) . (N. T.)
3 Nome de código atribuído à zona costeira francesa onde se deu o desembar-
que american o , em junho de 1 944 . (N. T.)
4 Referência à obra Génie du christianisme , publicada em 1 802. (N. T.)
5 Com droga à vontade do freguês . (N. T.)
6 Escritor francês encarcerado durante a Revolução Francesa e que se suicidou
em 1 794 . (N. T.)
7 Escritor francês do século XVII , moralista e pessimista convicto , autor de
Mémoires e Réflexions ou Sentences et Máximes morales . (N. T.)
8 No original , BTS (Brevet de Technicien Supérieur) . (N. T.)
9 No original, HEC ( École des Hautes Études Commerciales) . (N. T.)
I O Animador de televisão , produtor de espetáculos e radialista muito conhecido
em França, originário do Norte de Á frica. (N. T.)
1 1 Expressão usada no final da Primeira Guerra Mundial para a designar como
a última das guerras . Hoje significa «a última vez» que se faz qualquer coisa.
(N. R .)
1 2 ESAT ( École Supérieure des Arts et Techniques) . (N. R .)
Índice

Primeira Parte - Tropic Thar 9

S egunda Parte - Vantagem Concorrencial 107

Terceira Parte - Pattaya B each 259


ÜBRAS DO AUTOR NESTA EDITORA

As Partículas Elementares

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