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SONO, APRENDIZAGEM E TECNOLOGIA: UMA ABORDAGEM

SOBRE A INFLUÊNCIA DO SONO NAS ATIVIDADES


EDUCACIONAIS

KLAYM, Rachel Fernandes1 - SEEDUC-RJ

NUNES, Cláudia Menezes2 - SEEDUC-RJ

Eixo temático: Educação e saúde.


Agência Financiadora: não contou com financiamento

Resumo

Nos estudos atuais, o sono é considerado um componente importante na plasticidade neural


(capacidade do Sistema de apresentar resiliência mediante novas situações). Podemos dizer
que uma noite de sono de qualidade é capaz de consolidar a memória, a partir da secreção de
hormônios tornando nosso ciclo circadiano diretamente relacionado á incidência da luz solar.
Diante do exposto, o objetivo deste estudo é analisar dois grupos de discentes, tento como
base suas respostas á uma pesquisa cuja relevância é o Tempo Total de Sono (TTS) e sua
influencia direta na qualidade aprendizagem, concentração, memória, raciocínio, enfim nos
aspectos que determinam o conceito de saúde adotado em 1948 pela Organização Mundial de
Saúde que diz: “Saúde é o estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a
ausência de doença”. Entende-se Educação para a Saúde como fator de promoção e proteção à
saúde e estratégia para a conquista dos direitos de cidadania. Neste trabalho também
consideramos a utilização da tecnologia como variável que pode afetar a qualidade do sono,
visto que a exposição à luz artificial entre o anoitecer e a hora em que vamos para a cama
suprime a liberação do hormônio melatonina, que melhora o sono, aumenta o estado de alerta
e consequentemente alterando o ritmo do nosso ciclo circadiano, tornando mais difícil o
adormecer.

Palavras-chave: Plasticidade neural. Qualidade do sono. Tecnologia. Ciclo circadiano.


Aprendizagem.

1
Especialista em Educação: Ensino de Ciências e Biologia para o Ensino fundamental e Médio e Educação
Ambiental pela Faculdades Reunidas São Judas Tadeu. Especialista em Enzimologia pelo IbqM da UFRJ.
Professora Titular de Biologia do C.E. Luís de Camões (SEEDUC-RJ) e Colégio Santa Mônica (Unidade
Taquara – RJ). E.mail: rachelklaym@gmail.com.br
2
Mestre em Educação pela UNIRIO. Especialista em Pedagogia Educacional e Neurociência Pedagógica pela
AVM/UCAM. Professora Titular de Língua Portuguesa do C.E. Luís de Camões (SEEDUC-RJ). E.mail:
ciaclaudia @gmail.com
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Introdução

Hoje em dia os ensinantes (professores) têm mais uma ferramenta à disposição para
pensar o processo de ensinar e de aprender em diferentes salas de aula: a visão neurocientífica
sobre os comportamentos cognitivos e emocionais na escola.
É um fato que todos aprendem com o cérebro. A rotina do convívio interpessoal
familiar favorece o desenvolvimento de sensações e percepções sobre o mundo muito
particulares. Pensar a sala de aula é pensar em um ambiente com várias biologias cerebrais em
interação, logo é pensar em um ambiente com várias ‘ecologias cognitivas’, em estado de
expectativa quanto ao próprio desenvolvimento e aprendizagem, através de interações
proativas e desafiantes. E estas biologias cerebrais ou ecologias cognitivas funcionam em
movimentos [individuais] ininterruptos de transformações intrínsecas e extrínsecas (Relvas,
2012). Logo, são ativadas pela energia dos estímulos recebidos e precisam ser observadas e
respeitadas, quando diante dos conteúdos das diferentes áreas de saber do currículo escolar.
Neste aspecto, a neurociência apresenta-se como ponta do iceberg à possibilidade de
se entender ‘como o aluno aprende’; é mais uma contribuição às análises pedagógicas dos
aprendentes. Ainda assim, seu conjunto teórico não é ‘receite de bolo’, é a possibilidade de se
articular outro olhar sobre procedimentos pedagógicos entendendo e respeitando como o
aprendente aprende antes de qualquer coisa.
No século XXI, além de se ter pouco tempo para pensar (refletir), no tempo que se
tem, há uma profusão de atividades na intenção de conquistar qualidade de vida. Ascendem
ao cotidiano, mais ansiedades, medos, distúrbios, transtornos e dificuldades nos ambientes
sociais, incluindo o ambiente escolar. E, especificamente, no caso dos distúrbios, há o
distúrbio do sono.
Em princípio, há o reconhecimento de que o sono é qualidade de vida; é um regulador
essencial das condições de saúde; é responsável pelo desempenho físico e mental de uma
pessoa, capaz de influir na coordenação motora, na capacidade de raciocínio e de memória, na
ansiedade, na disposição emocional e no desempenho cognitivo, além de regulação hormonal,
da recuperação física e do crescimento e da temperatura corporais (Valle, 2008, vi); também
se reconhece que a falta de sono é um importante (e visível) interferidor do processo de
aprendizagem, mesmo entre aprendentes de contextos sociais, ‘ensinos’ (privado e público) e
turnos diferentes. Mas atenção, o sono não é uma função, mas um estado de vida cujas
funções principais são restauração dos processos químicos e físicos e também conservar a
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energia do organismo. Então, quais são os hábitos modernos que estão provocando
determinadas sonolências nos aprendentes, em turnos e contextos diferentes, e, por
conseguinte, alterando os processos de aprendizagem, mesmo diante de atividades de ensino
atrativas?
Durante o sono, o sistema nervoso central está ativo e faz uma ‘higiene’ neuronal
provocando um rendimento satisfatório nas tarefas diárias e fortalecendo a memória. Há um
momento de ‘relaxamento’ interno, ainda que o funcionamento cerebral não seja suspenso. Há
uma redução generalizada da descarga dos neurônios cerebrais, mas um aumento de forma
notável das freqüências de descarga dos neurônios. No período do sono, há a reorganização
do que se apreendeu (assimilou) em vigília.
Durante anos percebeu-se que muitas dificuldades intelectuais de aprendizagem
referiam-se às interferências externas. Para além da percepção de que cada aprendente tem
seu estilo emocional e cognitivo, diante das tantas experiências adquiridas, cresce o
entendimento de que as aprendizagens sofrem determinados bloqueios tendo em vista
algumas faltas: alimentação, atividade motora, autoestima, limites e sono. Este último
‘ganhou’ maior importância, principalmente, pela sua visibilidade em momentos
‘inoportunos’, mesmo diante de propostas pedagógicas dinâmicas e desafiantes.
Na evolução do desenvolvimento humano e sua adaptação aos diferentes ambientes, o
cérebro se reestruturou por questão de sobrevivência principalmente. Esta reestruturação é o
ajuste necessário à incorporação de todas as informações assimiladas durante do dia (vigília) e
à promoção de novas ações bioquímicas, que estabeleçam a cognição, a emoção e os
comportamentos importantes à construção de boas relações e, no caso deste trabalho, do
aprendizado na escola.
É reconhecer a estrutura cerebral composta de córtex pré-frontal, do sistema límbico e
da dupla tronco encefálico e cerebelo3: é o chamado ‘cérebro triuno’. Este cérebro funciona
em rede e de forma complexa e intrínseca, de acordo com seus canais comunicantes: os
sentidos. Nesta trama, muitas possibilidades de aprender dependendo dos tipos de estímulos.

3
Segundo Relvas (2012), o cérebro triuno é constituído pelo córtex cerebral (responsável pela percepção
consciente, o raciocínio abstrato, a fala e a criatividade, e em cujas protuberâncias e sulcos) abarrota-se de
neurônios especializados; o sistema límbico (conjunto de antigas estruturas cerebrais com papéis cruciais na
memória e nos impulsos emocionais como comportamentos de busca do prazer ou fuga da dor); e as estruturas
mais antigas como tronco encefálico (controla as funções corporais como respiração, fome e temperatura
corporal e exercer o papel de grande canal condutor ao afunilar todos os sinais que viajam do cérebro e o corpo)
e cerebelo (coordena o equilíbrio e o movimento); são ativados pelo ritmo de entrada e repetições diferenciadas
das informações, há mudança de comportamento.
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Diante disso, e acordo com Relvas (2012), potencialmente haverá múltiplas maneiras de
ensinar. A ideia central da ação de ‘ensinar a aprender’, então, deve ser o despertar (e ampliar)
o interesse dos aprendentes à autonomia da construção do próprio aprendizado, oferecendo
possibilidades de se alcançar sempre o resultado positivo. Ainda assim, segundo MacDonald
(2010, p.12), “as estratégias de sobrevivência do cérebro simplesmente não foram feitas para
o século XXI”.
Para qualificar as aprendizagens, o cérebro precisa articular, com mais profundidade,
“conexões afetivas e emocionais do sistema límbico, sendo estas ativadas pelo cérebro de
recompensa” (Relvas, 2012). Tálamo e hipocampo ganham mais força na distribuição e
processamento das informações. E, de novo, para isso, é importante observar os ritmos
neuroplásticos das ações sistêmicas internas de cada grupo de aprendentes, a partir de
levantamento prévio da rotina de interações sociais, educacionais e familiares. Ou seja, um
cérebro saudável é um cérebro se articulando harmoniosamente em (e entre) seus mecanismos
neurais, cuidando dos dados novos e selecionando aqueles que valem a pena guardar.
No momento do trabalho, um dos mecanismos neurais importantes à saúde humana, é
o relaxamento muscular e neuronal estimulados pela queda gradativa da luminosidade do dia
para noite. Estes ‘surgem’ como necessidades à atividade de reconstituição das informações
recebidas no período ‘da luz’ (vigília): é o período do sono, momento em que o cérebro
estabelece interligações mais intensas entre os tipos memórias.
O sono é uma vantagem adaptativa às pressões evolutivas do ser humano. É preciso
respeitar a genética cerebral que ‘sabe’ quando o dia termina. É preciso respeitar esse
momento de reorganização neuronal (informações do dia) cujo objetivo final é a chegada da
sonolência e, por fim, dormir e memorizar.
Durante a vigília, o sistema nervoso central (SNC) segue estimulando o tronco
encefálico a liberar tanto a noradrenalina (lócus ceruleus)4 cuja influencia atinge o humor, o
sono, a ansiedade e a alimentação; quanto a serotonina (núcleos da Rafe encontrados no
tronco cerebral), responsável pela comunicação entre neurônios, e importante para percepção
e avaliação do meio, além da capacidade de resposta aos estímulos ambientais; mantendo o
cérebro em alerta.

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Estrutura cerebral formada por um aglomerado de neurônios noradrenérgicos. É fundamental no
desencadeamento de diferentes tipos de respostas às ações ambientes externas e também na fisiologia do sono e
na manutenção do sono REM.
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Já durante o sono (período da inconsciência), o SNC ativa o tálamo a bloquear as


aferências sensoriais corticais com inibição dos neurônios motores durante os sonhos. É o
momento em que o cérebro precisa se desligar do mundo externo para realizar o seu trabalho:
recomposição e reorganização das informações assimiladas para, segundo Lent (2008, p.272),
“(...) uma boa saúde mental e emocional”. Logo, mesmo no ritmo ‘alucinógeno’ dos dias
atuais, o cérebro precisa de recomposição neuronal; precisa readquirir todos os dias uma
compensação ao trabalho intenso exigido pela modernidade e pelas exigências, no caso dos
aprendentes aqui pesquisados, do mercado de trabalho.
De acordo com Lent (2008) reconhece-se a composição do sono em duas fases
distintas e alternantes: sono se movimentos oculares, não-REM ou NREM, e de movimentos
oculares rápidos, REM (rapid eye moviment – movimentos oculares rápidos). Este mesmo
autor descreve diferentes estágios representativos da transição entre o estado de vigília e o
sono em indivíduos ‘normais’. Ou seja, até o fechar dos olhos, há o acontecimento de flashes
de consciência dos fatos do dia ou passados.
Em estado de sonolência, há pensamentos e imagens sendo ativadas (aos pedaços),
decrescentemente, no córtex pré-frontal, pelo hipotálamo, mesmo com a diminuição do tônus
muscular. Há então uma onda alfa occipital5, movimentos oculares lentos e intermitentes: é o
estágio 01. Ao avançar ao estágio 02, há a presença de fusos6 e de complexos K7. Há o
decréscimo da atividade dos neurônios corticais, além da cessação quase completa dos
movimentos dos olhos (p.272). O indivíduo, enfim, dorme.
O estágio 03 caracteriza-se por ondas delta de alta amplitude e baixa freqüência
(p.273). Nesta fase, os movimentos oculares são raros e o tônus muscular diminui
progressivamente (p.273). E o estágio 04 (o mais profundo) é definido pela predominância de
ondas delta que correspondem a mais de 50% (p.273) do período do sono e pode persistir em
cada ciclo por 20 a 40min. Acordar o indivíduo, neste período é muito difícil.
Há uma articulação constante entre estruturas cerebrais e conexões sinápticas
(neuroquímicas), principalmente, à percepção da queda brusca do tônus muscular e/ou falta de
luminosidade. Estes estágios distribuem o sono NREM na primeira parte da noite. Já o sono
REM assemelha-se ao estado de vigília, porém há o aparecimento do tônus muscular.

5
Ondas de 8 a 13hz, registradas na zona occipital do crânio. (LENT, 2008, p.272)
6
Fusos são ondas sigma de alta amplitude e freqüência de 12 a 14hz, de duração de 0,5 a 1,5, sobretudo nas
regiões frontais. (LENT, 2008, p.272).
7
Complexos K são ondas bifásicas de grande amplitude, duração maior de 0,5s, com uma fase negativa aguda e
uma fase positiva mais lenta. (LENT, 2008, p.272)
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No transcurso de todos os estágios, percebem-se oscilações da posição dos olhos, dos


membros, dos lábios, da língua, da cabeça e dos músculos timpânicos (p.274). E o sono REM
concentra-se na segunda metade da noite. Já, em vigília, a luminosidade atinge fotorreceptores
na retina (nervo ótico), o que desencadeia estímulos que chegam ao cérebro. Quando
reconhecidos, dirigem-se ao núcleo supraquiasmático (NSQ), também chamado de
‘marcapasso do cérebro’, instalando os períodos dos ciclos.
Essas fibras do nervo ótico, ativadas pela luminosidade, também enviam sinais ao
SNC até a hipófise (produtora de vários hormônios e que controla a maioria das outras
glândulas endócrinas), liberando, afetando e controlando diversas substâncias naturais
(mensageiros genéticos), principalmente a dopamina, neurotransmissor envolvido no controle
de movimentos, aprendizado, humor, emoções, cognição, sono e memória.
Quando a noite chega, é a glândula pineal (ou epífise) a responsável pela secreção
cíclica de um hormônio chamado de melatonina, molécula que sinaliza a fase de escuro do
ciclo claro-escuro (ciclo circadiano) nos animais com ambos os hábitos. Há uma sincronia
entre funções biológicas quando convocadas pelas variações de luz ambiental. Esta sincronia
é iniciada na retina, atravessa os núcleos supraquiasmáticos, medula espinhal e atinge a
glândula pineal via inervações simpáticas.
Alguns exemplos ilustrativos: de manha, o aprendente tem níveis de cortisol
(hormônio que afeta o metabolismo e o sistema imunológico) maiores, mas diminuem no
decorrer do dia. Quaisquer mudanças em seu padrão do sono acarretam adaptações dos picos
de cortisol por correspondência. Já, no caso do hormônio do crescimento (GH), há um forte
aumento na infância e nas primeiras horas de sono. É liberado apenas na fase profunda do
sono. Se houver distúrbios do sono nesta fase, a produção de GH cai, prejudicando o
desenvolvimento físico e mental. E, à noite, para favorecer a recomposição e reorganização
hormonal e neuronal, a glândula pineal secreta melatonina para desacelerar o organismo. Ou
seja, é importante ratificar que tal dinâmica hormonal também depende das interações deste
indivíduo com o ambiente externo durante o dia.
O sono, portanto, é fundamental tanto no desenvolvimento biológico e corporal,
quanto para o desenvolvimento cognitivo dos aprendentes. Quando se ‘fala’ na estimulação
através dos nervos óticos do SNC até a hipófise e a glândula pineal, há referência à produção
do hormônio do crescimento já que se reconhece que o organismo o produz em várias
explosões diárias (principalmente no período do sono).
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Já quando se ‘fala’ em desenvolvimento cognitivo, cuja responsabilidade do sono


saudável é a fixação mnemônica das informações obtidas (aprendizagem) durante o dia, há
referência a ação integrada, nos ciclos do sono, das associações neuronais entre hipocampo,
hipotálamo e hipófise em processo de regulagem e ‘nutrição’ biopsicológica.
No período do sono ocorrem 04 a 06 ciclos com duração de 90 a 100min. De acordo
com Lent (2008, p.274), cada um destes ciclos é composto pelas fases de NREM e pela fase
de sono REM. Logo, o período do sono ocorre, o indivíduo passa pelos estágios 01, 02, 03 e
04, e depois volta ao estágio 02 antes de entrar no primeiro estágio do sono REM. Esta é a
chamada ‘arquitetura do sono’ que, quando respeitada, gera uma paralisação corporal
necessária a (re) constituição das informações e ao fortalecimento das conexões (e caminhos)
neuronais adquiridos no período da vigília, ainda que, apesar do relaxamento, o cérebro
produza descargas elétricas tão intensas quanto quando o indivíduo está acordado. E estas
conduzem ao surgimento de um processo molecular chamado ‘potenciação de longo prazo’,
que fortalece as ligações entre neurônios que disparam ao mesmo tempo.
O sono, então, deve ser observado como mais um período em que o cérebro processa
sua adaptação continuada ao volume de informações que recebe todos os dias. O referido
estudo, portanto, tem por objetivo fazer um levantamento, por amostragem, de algumas
características dos aprendentes relacionadas à possibilidade de estas estarem de alguma
maneira interferindo em seus períodos de sono, determinados pela biologia cerebral humana,
e, por conseguinte, em seus processos de aprendizagem cognitiva ou emocional. Nesta
perspectiva foram escolhidos dois grupos de aprendentes inseridos em contextos e ‘ensinos’
completamente diferentes.

Desenvolvimento

A coleta foi realizada em dois grupos de 20 aprendentes de contextos sociais


diferentes da educação básica (2ª série do Ensino Médio Regular). O primeiro grupo insere-se
na rede privada (Colégio S – bairro Taquara, zona oeste), turno da manhã; e o segundo grupo,
na rede pública (Colégio L – bairro Colégio, zona norte), turno da noite. Ambos do município
do Rio de Janeiro.
A pesquisa foi realizada nos dois centros de educação, no mês de abril de 2013, por
meio de um questionário semiestruturado contendo 18 perguntas. No total, foram
entrevistados 40 aprendentes, 20 de cada unidade escolar, onde a variável foi à análise da
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qualidade do sono (e seus possíveis distúrbios), considerando, entre outros, idade, condição
socioeconômica e atividades antes e durante o sono. Além disso, o questionário foi construído
pela sugestão de que a qualidade do sono (ou sua perda) estaria associada a fatores externos
como: turno de estudo, alimentação, local de descanso, contexto familiar, uso da tecnologia e
quantidade de tempo reservada ao descanso.
No Colégio L a 2ª série do Ensino Médio contempla alunos de faixa etária entre 17 e
36 (adultos), sendo 09 alunos do sexo masculino e 11 alunos do sexo feminino; e no Colégio
S, na mesma série, observa-se à predominância de adolescentes, com média etária de 15 a 17
anos, sendo 09 alunos do sexo masculino e 11 alunos do sexo feminino. Tais referências, bem
como turno de aula e inserção no mercado de trabalho, foram objetos referentes nos resultados
obtidos.
O questionário foi aplicado no Colégio L, no dia 04 de abril de 2013, durante o
primeiro tempo de aula (entre 18h e 20min. e 19h e 40 min.), durante a aula de Biologia da
turma 2001 da referida unidade escolar. Já, no Colégio S, o questionário foi ministrado no dia
02 de abril de 2013, durante o 3º tempo (entre 9h e 10h) da aula de Biologia, da turma 2321,
da referida unidade escolar. Neste momento, é preciso ressaltar que a pesquisa foi autorizada
verbalmente e os questionários avaliados por ambas as direções pedagógicas, cuja
colaboração foi imprescindível para realização deste documento.
No entanto, antecipadamente, são reconhecidas as limitações dos dados iniciais, diante
da necessidade de se construir um olhar sobre as possíveis razões da presença, quase rotineira,
de dificuldades de aprendizagem (assimilação, articulação e evocação dos conteúdos em
forma de mudança de comportamento) em meio ao corpo discente. Sendo assim, também se
reconhece, de antemão, a necessidade relevante de novos estudos, com amostragem maior,
bem como o aprimoramento das técnicas e métodos de caracterização desses grupos em torno
dos objetivos da pesquisa e no decorrer do ano letivo em ambas as escolas escolhidas.
Desde os anos 80, os estímulos aos cérebros humanos ganharam novos ambientes
demandando novas performances à neuroplasticidade, capacidade adaptativa do sistema
nervoso central (SNC), de acordo com Relvas (2005). Cognições, memórias, emoções,
percepções e linguagens, por exemplo, foram solicitadas a perfazerem ações e
desenvolvimentos ‘práticos’ e ‘repentinos’, o que permitiu ao SNC acelerar o
desenvolvimento de alterações estruturais em resposta à experiência (...) às condições
mutantes e aos estímulos repetidos (RELVAS, 2005, p.43).
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Apesar de ter dificuldades (velocidade de cálculo mais lenta), limitações (necessidade


de passar um terço do dia em sono profundo), alguns bugs (ilusões de ótica e pesadelos) e,
segundo MacDonald (2010), não ter alguns dispositivos importantes, como “detector de
mentira no ouvido, botão automático que desligue surtos emocionais, descarregador de
memória, entre outros” (p. 02), o cérebro humano depende da qualidade (e não da quantidade)
de estímulos sinápticos oferecidos pelo ambiente externo para se transformar, aprender e
conviver. Só o substrato genético não basta. Suas circunvoluções são acessadas diariamente
pelas formas de imersão na realidade e suas múltiplas informações. Há interferências (e até
modificações) na pré-organização biológica cerebral inata cujos resultados são modificações
nos padrões genéticos, comportamentos e memória.
Segundo Herculano-Houzel (2013), o cérebro aprende por tentativa e erro. Ele passa a
vida esculpindo-se conforme é usado e, como esculpir, entenda-se assimilar, selecionar,
gravar e evocar novas experiências e outras associações internas. É o processamento das
informações coletadas, em enxurrada, durante a vigília cerebral humana. É um trabalho em
andamento cujas marcas podem ser estudadas pela transformação (e adaptação) dos
comportamentos humanos em sociedade. Mas tal movimentação depende da manutenção e
dos ajustes dos ritmos neuronais e mnemônicos, em princípio, dentro de uma marcação
genética primeva.
Para entender esses ajustes e alguns desajustes no item aprendizagem, no caso deste
trabalho, optou-se pela análise (e entendimento) de grupos considerados diferentes por seus
contextos e em turnos de aprendizagem. Entendeu-se que, com essas características seria
possível ratificar ou retificar suposições docentes de que, mesmo em situações de estímulos
de proatividade, havia semelhanças reais quanto ao sono (ou falta dele) e as dificuldades de
aprendizagem.
No contexto do Colégio S, observou-se a presença de adolescentes entre 15 e 17 anos,
em sua maioria meninas, que se alimentam bem à noite, que dormem menos de 8h, que, em
geral não tomam remédios ou ingerem bebidas alcoólicas e que dão alta prioridade ao uso,
inclusive, no momento em que já estão deitados, das novas tecnologias, como celular, Ipad,
Tablet, Ipod, MP4 etc., em média por mais de uma ou duas horas antes de efetivamente
adormecerem.
Importante salientar que, a partir do momento que a luminosidade do dia decai, o
cérebro já estabelece relação direta com a glândula pineal, que secreta a melatonina. O corpo
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então ‘entende’ que é hora de diminuir o ritmo e, por fim dormir. Só que a questão da
alimentação, às vezes, excessiva, e o uso contínuo das novas tecnologias (tarde e noite)
mantêm o cérebro alerta e sua continuidade pode concorrer com o aparecimento de diferentes
distúrbios do sono, como sonolência, sonilóquio (fala durante o sono) e pesadelo.
De acordo com o levantamento das repostas referentes à questão 09 (presença destes
distúrbios no sono do aprendente e em sua família), houve ratificação de um pensamento
recorrente: em sua maioria, o grupo de adolescentes apresenta-se sonolento e disperso nas
primeiras horas da manha, em sala de aula. Ou seja, há problemas no funcionamento da
estrutura neural, no estado geral de saúde e na capacidade familiar em disciplinar
satisfatoriamente o processo de adormecer (VALLE, 2008) dos aprendentes mais jovens.
Além disso, digestão e linguagem demandam do cérebro muito foco e ações objetivas
por dentro dos seus sistemas. Nos jovens subentende-se então que há um cérebro funcionando
dentro de um paradoxo: vigília quase integral quando hormônios e glândulas já secretam a
mensagem do sono. Há, segundo se observou nos comportamentos e conversas, no momento
da realização do questionário, uma ansiedade referente a se dar conta de uma sobrecarga de
atividades e obrigações sociais e de aprendizagem cotidianamente. E há também o uso
indiscriminado da informática e a influência de um forte cronograma mercadológico e social,
cujos estímulos ao sistema nervoso provocam mudanças nos caminhos neuronais às
informações recebidas.
Neste momento, é necessário um parêntese na dinâmica deste trabalho: de acordo com
informações compartilhadas pelos pesquisados, antes de responderem ao questionário, em
muitas famílias, os responsáveis pelos aprendentes trabalham em horários fora do padrão e os
aprendentes (adolescentes) têm poucas atividades durante o dia, fato que estabelece uma
liberdade de ação (ir e vir; estudar; usos eletroeletrônicos) e de decisão quanto a realização de
seus desejos e preferências.
Em função disso, a dinâmica familiar tem outros alinhavos no cotidiano e os estímulos
e motivações à aprendizagem ocorrem sob a ótica de outros mecanismos (outros ambientes), o
que pode desgovernar o chamado ‘ciclo circadiano’ (período de 24 horas no qual se reajustam
e se completam as atividades biológicas dos seres vivos) e, consequentemente, a realização
das atividades solicitadas pela escola/ensinantes.
Os adolescentes do colégio S enfim tem poucas horas de sono. A vida e os hormônios
demandam deles atividades variadas e, muitas vezes, desconexas, porque estão em franco
27130

desenvolvimento físico. O momento do ciclo circadiano é efetivamente sentido como ‘uma


perda de tempo’. Há um descompasso natural do mecanismo vigília-sono-vigília diante da
complexidade relacionada à faixa etária. E o uso das tecnologias modernas da informática
‘alimenta’ a necessidade de constante interatividade presencial e virtual.
Há um ‘para além’ da escola e da família que precisa ser vivenciado e compartilhado
ansiosamente. Em casa, o mundo adolescente apenas muda de faceta, ações em âmbito real
continuam em âmbito virtual, e eles (adolescentes) imergem no virtual sem observar que suas
(do mundo) dimensões, valores, espaços, ações não são as mesmas. Porém o prazer é maior.
A manutenção das ligações é importante. A sensação de se fazer parte do todo ou de ser
alguém é a tônica. E o sono (período do sono), pelo que se observou, é um momento de
‘desligar’ em que ‘várias coisas podem ser perdidas’, segundo os próprios aprendentes.
Ainda que se saiba que o sono é um momento em que ocorre uma complexa
construção psíquica e física [pelo] constante processo de modelagem e de adaptação (VALLE,
2008) cerebral (comportamental e emocional) do aprendente; sabe-se que os adolescentes, em
função do desenvolvimento, ainda não estão amadurecidos para filtrar ou para reparar as
experiências vividas. Com o córtex pré-frontal ainda em franco desenvolvimento, alimentação
irregular, disfunções familiares, envio de torpedos, conversas em redes sociais, uso
ininterrupto do celular, computador, tablets, Iphone entre outros redimensionam seus
comportamentos em relação ao contexto social e suas regras de conduta, e também em torno
do período do sono, surgem às agressividades, as desatenções, os desinteresses e,
principalmente, as mudanças constantes de humor.
Noites sem dormir ou dormindo pouco, além da questão hormonal, alteram a
qualidade do sono, da memória, da linguagem, da aprendizagem etc. E, no caso do grupo do
Colégio S, mesmo com tudo isso acontecendo, os aprendentes precisam estar prontos (em
vigília) para realizar suas atividades acadêmicas muito cedo, algo que ratifica a ideia de que a
desorganização do ciclo circadiano compromete a aprendizagem, apesar do oferecimento de
práticas de ensino desafiantes.
No contexto do grupo do Colégio L observou-se a presença, em sua maioria, de
adultos entre 18 e 32 anos com algumas semelhanças relacionadas ao grupo do colégio S,
como maioria meninas e que se alimentam bem à noite. Porém algumas surpresas: este grupo,
ainda que muitos sejam aprendentes trabalhadores, respondeu que dorme 8h ou mais de 8h
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por noite; ainda assim, relata que sente sonolência e cansaço, durante o dia, o que sugere que,
mesmo dormindo por longas horas, há problemas no tempo do sono.
Outra surpresa observada na análise das respostas foi quanto à questão da alimentação:
apesar de não haver referencia sobre as formas de alimentação diurna (período em que a
maioria está trabalhando), soube-se que, apesar de a escola oferecer jantar no meio da noite
(por volta das 20h), grande parte dos aprendentes volta a se alimentar em casa, por volta das
23h. Não há referencia sobre qual seria esta ‘segunda’ alimentação noturna (lanche ou jantar
mesmo), mas é um dado que não se deve descartar.
O sistema endócrino interage com o sistema nervoso. Quando um regula a resposta
interna do organismo é porque o outro forneceu informações ao primeiro, daí atuações
conjuntas quanto à coordenação e regulação das funções corporais. Este sistema atua no
crescimento dos tecidos, no equilíbrio hídrico do corpo, na reprodução e no metabolismo de
carboidratos. E é formado por uma série de glândulas endócrinas como, em resumo, a
glândula pineal (secreta melatonina), a hipófise (ligada ao hipotálamo), ambas já analisadas
neste trabalho; além da tireóide; as paratireóides; as suprarrenais; o pâncreas; os ovários; e os
testículos8.
Diante disso, é perceptível que a alimentação excessiva e a má digestão são elementos
desencadeadores de distúrbios do sono como insônia, pesadelos, sonilóquio dentre outros, e
perturbações recorrentes como sonolência, falta de atenção, certa agressividade, cansaço etc.
Aqui a perspectiva é de aprendentes, em sua maioria, com atividades laborais durante o dia e
que, à noite, tem expectativas de aprendizagens visando qualificação profissional e/ou
inserção mais rápida no mercado do trabalho.
Semelhante ao grupo de adolescentes aprendentes, há uma grande ansiedade quanto ao
sucesso futuro, já ‘diplomado’, no Ensino Médio. Mesmo adultos, a escola é o campo das
liberdades e de grande sociabilidade; é o campo das vivências diferenciadas e com poucas
restrições; enfim, é o campo da exacerbação do imaginário sobre o que se é e o que se pode
ser.

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A tireoide (secreta a tiroxina, a triidoxina: T4 e T3 regulam o metabolismo celular -, e a calcitonina: regula a
concentração de cálcio para contração muscular), as paratireóides (secreta o paratormônio, regulador da
concentração de cálcio), as suprarrenais (ou adrenais, localizada nos rins e se divide por duas regiões: o córtex
adrenal que secreta cortisol e aldesterona, ambos derivados do colesterol e, por isso, chamados de esteroides; e a
medula adrenal que secreta adrenalina e a noradrenalina), o pâncreas (região abdominal e é mista porque tem
funções endócrinas em que secreta insulina e glucagon; quanto exócrinas), os ovários; e os testículos.
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Ainda que adultos, o contexto de média periculosidade em que o colégio L e seus


domicílios se inserem, interfere nos comportamentos como conter impulsos, expressar
emoções, filtrar informações, aceitar determinadas regras etc. Há um desejo de liberdade, mas
também uma tensão quanto às formas de vivenciar a própria sala de aula e suas
aprendizagens.
No diálogo imprimido durante a realização do questionário e em outras situações de
atividades em grupo, observou-se uma forte baixa auto-estima deste grupo de adultos. Havia
uma certeza de que, como são mais velhos, a aprendizagem seria mais dificultosa. Mesmo
participantes das atividades propostas, havia uma tensão no ar. Logo, mesmo afirmando ter
longas horas de sono, o que repararia e consolidaria a memória, sonolências, pesadelos,
bruxismo e insônia se revelaram os principais distúrbios desta fase da vida.
Estes distúrbios (dentre outros) são as chamadas desordens de movimento do sono e
são manifestações do sistema nervoso motor e/ou neurovegetativo que ocorrem durante o
sono ou na transição do sono-vigília. De modo geral, não tem base orgânica e são de reduzida
intensidade e transitórias (VALLE, 2008, p.44). Ou seja, ao observar problemas no sono do
grupo do Colégio L, apesar do volume de horas dormindo, observa-se que o período inicial do
sono é fundamental e o mais prejudicado.
Houve relatos de que ‘era difícil dormir logo’ ou ‘quando o sono vinha logo parecia
que iria cair’ ou mesmo que ‘ quando roncava a boca ressecava’ etc. Havia distúrbios no
período inicial do sono: problemas nos estágios 01 e 02. Os adultos aprendentes podem até
dormir mais, porém tem pouca qualidade em sua durabilidade até o despertar. Nesta
perspectiva, o potencial para um melhor desempenho cognitivo apresenta-se diferente, lento e
vago.
Este grupo também apresentou uma relação próxima com as ‘novas tecnologias’,
porém centrada no celular. Poucos utilizam outros aparelhos móveis como Tablet, Ipod, Ipad
ou Iphone. Segundo se observou, através de comentários no meio do procedimento de
realização do questionário, estes aparelhos estão relacionados aos aprendentes mais jovens,
diante de determinadas complexidades em seus usos e/ou manuseios.
Foi observado também um número maior de respostas ‘às vezes’ quanto ao uso de
remédios ou ingestão de bebidas alcoólicas, em comparação à completa negação percebida no
grupo do Colégio S. Fato que, quando relacionado com a alimentação excessiva e a má
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digestão ratificam a idéia de apesar do número de horas dormidas, há um sério prejuízo à


qualidade do sono, o que acarreta maiores dificuldades na aprendizagem.
As necessidades do mundo moderno, ligadas à vida educacional e à vida profissional,
não vêm criando os indícios necessários ao cérebro para o reconhecimento do dia e da noite,
ou, para uma tranqüila determinação dos ritmos físicos e psicológicos que possam influenciar
saudavelmente tanto, por exemplo, a digestão em vigília, a renovação de células e o controle
da temperatura corporal. Logo, tanto os aprendentes do Colégio S, quanto os do Colégio L,
apesar da diferença etária, estão submersos em múltiplos desajustes à reconstituição sadia das
informações assimiladas em estado de alerta e, portanto, com múltiplos distúrbios do sono.
Observa-se hoje (e neste trabalho), gerações inseridas na expressão ‘tudo-ao-mesmo-
tempo-agora’. Hormônios, apetite e sono são repaginados em suas ações e funcionamentos de
maneira instantânea. E assim, se institui forte perda de sincronia entre sistemas, interna e
externamente. Resultado? Sonolência, cansaço matinal, falta de concentração, problemas
motores e tempo de vigília aumentado.
Os aprendentes, em geral, que apresentam distúrbios do sono, não observam os efeitos
colaterais desse comprometimento, como por exemplo: a apneia do sono, falta de
concentração em atividades consideradas como pouco grau de complexidade, dificuldade de
consolidação da memória, variações bruscas de humor, falta de interesse generalizado e
perigo de acidentes relacionados à falta de concentração.
Com este estudo preliminar pode-se verificar que a maioria dos alunos avaliados, em
ambas as unidades escolares, tem uma dinâmica social intensa, logo apresenta distúrbios na
qualidade de sono.
Na escola diurna (Colégio S), esta verificação está associada à menor duração de sono
vinculado ao uso contínuo das novas tecnologias, inclusive na madrugada, e à obrigação de
acordar cedo para estudar, no dia seguinte. Já na escola noturna (Colégio L), em que também
foram verificados problemas na qualidade do sono, importante salientar a questão da
alimentação inadequada articulada ao cansaço proveniente do trabalho (dia), gerando retardo
no início do sono e, em muitos casos, sonhos excessivos e sonos leves.
A qualidade do sono dessa forma é afetada pelo nível de estresse (ou ansiedade),
alimentação inadequada, uso excessivo da tecnologia, insatisfações, muitas obrigações, etc.
Todos estes fatores perturbam o ritmo do sono e, por conseguinte perturbam o dia posterior
por não se conseguir atingir uma noite de sono adequada e satisfatória.
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Considerações finais

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (1948), “Saúde é o estado de


completo bem-estar, físico, mental e social e não apenas ausência de doença”. Distante da
realidade, este conceito remete ao compromisso a ser perseguido, partindo do princípio de que
a saúde não é um estado linear, mas que, uma vez atingida, possa ser mantida
indefinidamente. Tal subjetividade está relacionada com a realidade social, econômica,
psicológica e biológica de cada indivíduo, desta forma não se pode considerar um indivíduo,
grupo ou população seja totalmente saudável ou totalmente enfermo, sem levar em
consideração seu contexto de desenvolvimento cognitivo e emocional.
Sendo assim, intervir sobre o processo saúde/doença está ao alcance de todos e não é
uma tarefa a ser delegada, deixando ao cidadão ou à sociedade o papel de objeto da
intervenção “da natureza”, do poder público, dos profissionais de educação ou,
eventualmente, de vítima do resultado de suas ações. E a escola tem um papel muito
importante neste processo.
Dados da própria OMS apontam que mais de 40% da população mundial não dorme
como gostaria ou apresenta algum dos mais de 80 tipos de distúrbios e síndromes do sono
descritos na Classificação Internacional de Distúrbios do sono (CIDS). Logo, a composição
das informações estimuladas pelas aprendizagens durante o dia ou parte da noite tem poucas
chances de se solidificar a contento na memória (hipocampo), dada a presença ininterrupta e
quase incondicional das seduções mais tecnológicas do que humanas.
A qualidade do sono dos aprendentes é um fator preponderante e que atinge os
ensinantes no que tange à qualidade de vida (saúde e bem-estar), como ao desenvolvimento
de estratégias facilitadoras ao processo de ensino e de aprendizagem. Um sono insatisfatório
contribui para desatenção, falta de interesse e dificuldade de retenção do conhecimento, além
de se configurar fator preponderante nas agressividades, indisciplinas, indiferenças e
determinadas apatias.
Desta forma, hábitos que aumentem a qualidade do sono, como por exemplo:
reestruturação do ambiente (temperatura, conforto e iluminação); diminuição do uso de fontes
luminosas diretas (celulares, computadores, tablets, televisor, etc.) cerca de 40 minutos antes
do horário em que se deseja dormir; consumo menor de comida; diminuição do uso de álcool
e/ou cafeína (e seus derivados); e manutenção da regularidade dos horários de dormir e
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acordar possibilita alternativas ao aparecimento e permanência de uma noite de sono


tranquila, reparadora e satisfatória, tornando o dia subsequente mais agradável sob a óptica da
aprendizagem, além de outros.
A escola, sozinha, não levará os aprendentes a adquirirem saúde (qualidade de
aprendizagem) e, por conseguinte, uma qualidade de sono satisfatória que incremente, por
exemplo, a curiosidade e a criatividade, entretanto, pode (e deve) fornecer elementos que os
capacitem a uma vida saudável, através de palestras, seminários, oficinas interdisciplinares
conscientizadoras que funcionem como agentes facilitadores para integração do conhecimento
acadêmico com as vivências do cotidiano, considerando as condições sócio-econômicas,
idade, sexo entre outras.
Considerando que o sono é um estado fisiológico e cíclico na vida de uma grande
diversidade de espécies no reino animal, e é controlador da preservação das condições
homeostáticas, do funcionamento psíquico e da qualidade de vida, suas atribuições exatas
ainda não podem ser definitivamente descritas pela ciência, porém podemos garantir que o
sono anormal ou a privação do mesmo, resultam em diversos distúrbios e patologias que
reforçam seu papel biológico e essencial na preservação da vida cuja interferência se mantém
em sala de aula, mesmo diante de atividades pedagógicas atrativas.

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