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NORVAL BAITELLO JUNIOR

O ANIMAL QUE PAROU OS RELÓGIOS

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O ANIMAL QUE PAROU OS RELÓGIOS

Norval Baitello Júnior

ISBN: 85-85596-81-3

Capa: Luciano Guimarães

Revisão: Dida Bessana

CONSELHO EDITORIAL

Eduardo Pehuela Cafiizal

Willi Bolle Norval Baitello júnior

Carlos Gardin Lucrécia D'Aléssio Ferrara

Ivan Bystrina

Salma T. Muchail

Ubiratan D'Ambrósio

Plínio de Arruda Sampaio

Maria Odila Leite da Silva Dias

18 edição: agosto 1997 ©Norval Baitello júnior

ANNABLUME editora. comunicação

Rua Ferreira de Araújo, 359 - Pinheiros

05428-000 . São Paulo . SP . Brasil

Tel e Fax. (011)212.6764 http://www.annablume.com.br

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SUMÁRIO

PREFÁCIO ..........................................................................................................................9

PARTE I: COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA DA CULTURA ..............................................13

I CULTURA E CORAGEM: DE HIPÓCRATES E DOS HIPÓCRITAS ....................................15


“Breve é a vida, longa é a arte.” ..................................................................................17
“O organismo quer perdurar.” .....................................................................................19

II A CULTURA COMO SISTEMA SEMIÓTICO ..............................................................23


Cultura e cultura..........................................................................................................25
Ócio e esquecimento ..................................................................................................27
A construção do sonho ...............................................................................................28
“A alegria é a prova dos nove.” ...................................................................................31

III O CONCEITO DO TEXTO DA CULTURA..................................................................33


A proposta de Aleksandr R. Luriiá: uma ciência romântica.........................................35
O texto como unidade mínima da cultura: as teses de Lotman, Uspenskii, Piatigorskii
e Toporov ....................................................................................................................37

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O caminho da sistematização: o texto como um sistema complexo e seus suportes
biológicos e sociais .....................................................................................................39
Interação: o problema da continuidade e da discretude .............................................40

IV FANTASMAS POSITIVOS E FANTASMAS NEGATIVOS .........................................43


Fantasmas positivos e fantasmas negativos ..............................................................45
A traição da consciência .............................................................................................46
Arqueologia do texto ...................................................................................................48

V O BRINQUEDO E A CULTURA ..................................................................................51


O museu do brinquedo em Copenhague ....................................................................53
Dicotomias arcaicas ....................................................................................................54
O aparente supérfluo ..................................................................................................55
A lição de Dada: a inversão dos mundos....................................................................59
“No princípio era dada” ...............................................................................................60
O utensílio e o inutensílio ............................................................................................61

VI DADA E A DESTRUIÇÃO DOS CÓDIGOS CULTURAIS ..........................................63


O princípio “montagem/desmontagem”.......................................................................66
A escrita: vitória sobre a morte ...................................................................................66
Dada se insurge contra a escrita ................................................................................67
Iconizar a escrita .........................................................................................................68
As origens da escrita: a sagada economia .................................................................69
Dada numérico: a conquista da mortalidade ...............................................................70

PARTE II: COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA DA MÍDIA ....................................................73

I A CODIFICAÇÃO DO PRESENTE. TESES PARA UMA ARQUEOLOGIA DO TRABALHO


JORNALÍSTICO ...............................................................................................................75
Articular o presente .....................................................................................................77
A simultaneidade ........................................................................................................78
O envolvimento ...........................................................................................................78
Paralaxe ......................................................................................................................79

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Simetria de valores .....................................................................................................79
Lidar com o contemporâneo, produzir culturalmente o presente ................................80
O procedimento da delimitação ..................................................................................80
O procedimento da hipotatização ...............................................................................81
O procedimento da ritualização ..................................................................................81

II A AMBIVALÊNCIA DA/NA MÍDIA: O HAITI E A CHUVA DE RÁDIOS ........................83


A informação de paraquedas ......................................................................................83
Agregar e segregar .....................................................................................................86
Das palavras e dos rebanhos ....................................................................................86
Distância e proximidade..............................................................................................87
“Campo das tensões entre o amor e o ódio”: a ambivalência primordial da
informação .................................................................................................................88
Do campo de tensão à informação .............................................................................88
Ritualização das tensões e congelamento das ambivalências ...................................89
“Agon”, o jogo de sedução e a luta pela vida ..............................................................89
A desmoralização da tropa .........................................................................................90

III MÍDIA, TEMPO, ORDEM, SINCRONIZAÇÃO............................................................93


“O útero do tempo”......................................................................................................95
A ordem dos símbolos, os símbolos da ordem ...........................................................97
“Navigare necesse est, vivere non necesse” ............................................................100
O ritual nosso de cada dia ........................................................................................102

IV TEMPO RETROSPECTO E TEMPO PROSPECTIVO ............................................103


Morte de um homem, vida de um símbolo ................................................................106
Onipresença da morte ..............................................................................................108
No começo era o fim .................................................................................................108
Morte e escrita ..........................................................................................................109
A escrita no jornal .....................................................................................................110

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V O ANIMAL QUE PAROU OS RELÓGIOS: TEMPO E VIOLÊNCIA ..........................111
Uma sociedade de 100 milhões de anos ..................................................................113
Divisão do trabalho, simultaneidade e sistemas complexos .....................................114
O homem, a eterna juventude e o caráter destrutivo ................................................115
O poder dos homens sobre os homens principia com a usurpação do tempo de
vida ...........................................................................................................................117
“Violência bruta” ........................................................................................................118
“Violência lapidada” ..................................................................................................118

HISTÓRIAS E FONTES ..................................................................................................121

BIBLIOGRAFIA...............................................................................................................125

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PREFÁCIO

O animal que parou os relógios é uma reunião de pequenos textos independentes, em


sua maioria apresentados em congressos ou encontros realizados no Brasil ou no
exterior. O que os reúne aqui é a sua insistência em chamar a atenção para um tipo de
enfoque nas ciências da comunicação: aquele oferecido pela Semiótica da Cultura. Cada
um dos ensaios pode ser lido isoladamente; a leitura em sequência aleatória, portanto,
não compromete a proposta do conjunto. A insistência com determinados autores deve-
se ao fato de serem insuficientemente conhecidos ou insuficientemente utilizados na área
dos estudos sobre a comunicação. Esta lacuna é com certeza a motivação maior da
reunião dos presentes ensaios: as contribuições de Ivan Bystrina, de Harry Pross, de
Vjatcheslav Ivanov, tão inovadoras quanto desconhecidas, não podem ser ignoradas em
uma área cuja importância e abrangência crescem dia a dia. Mesmo o conhecidíssimo
autor Oliver Sacks, um quase best-seller literário (com o género que ele próprio denomina
"romance neurológico", fundado por Aleksander R. Luriiá, também um quase ignorado
pelas ciências da comunicação), poucas vezes foi estudado

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em suas contribuições para uma reflexão sobre o processo comunicativo humano,
sobretudo nas interferências que os códigos culturais exercem sobre o sistema
neurológico e sobre as alterações dramáticas da percepção (cultural) provocadas por
anomalias neurológicas. Os trabalhos aqui presentes buscam sobretudo enfatizar as
contribuições trazidas por esses autores, à maneira de uma introdução de suas reflexões
no campo de investigação das comunicações humanas. O mesmo ocorre com certas
referências à etologia humana de EiblEibesfeldt: os comportamentos comunicativos
humanos nunca tinham sido antes estudados de forma que mostrassem sua proximidade
com os comportamentos comunicativos de outras espécies.

A primeira parte é dedicada aos temas da comunicação e da Semiótica da Cultura. Nela


são tratados aspectos desta disciplina, tais como a cultura como sistema semiótico, o
texto da cultura, seus códigos e suas raízes.

A segunda parte contém ensaios a respeito de fenómenos da comunicação e da mídia.


Em razão de serem leituras, análises e reflexões que a Semiótica da Cultura possibilita,
estes ensaios foram englobados em um todo denominado "Comunicação e Semiótica da
Mídia". A história mais detalhada de cada um dos textos presentes neste livro foi incluída
ao final do volume, de maneira a permitir ao leitor situá-los em seus diferentes contextos.
Cabe ainda registrar aqui os meus agradecimentos a todos os pesquisadores do Centro
Interdisciplinar de Semiótica da Cultura e da Mídia da Pós-Graduação em Comunicação e
Semiótica, da PUC de São Paulo, por seu incentivo e pelas instigantes discussões a
respeito dos temas aqui tratados. A revisão, reescrituras e correções, bem como a escrita
do texto inédito sobre o brinquedo, ocorreram graças a uma bolsa de

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curta duração oferecida pela Fundação Konrad Adenauer, à qual expresso aqui minha
gratidão. Pela paciência na revisão dos originais e da bibliografia, bem como pelas
sugestões e críticas, sou grato a Solange Silva, pesquisadora do CISC-PUC e minha
orientanda. Registro ainda, meus agradecimentos a Boris Schnaidermann, mestre e
exemplo de muitas gerações, pioneiro que possibilitou a todos nós o acesso primeiro aos
autores russos e soviéticos da Semiótica da Cultura.

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PARTE I - COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA DA CULTURA

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I - CULTURA E CORAGEM: DE HIPÓCRATES E DOS HIPÓCRITAS

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"Breve é a vida, longa é a arte."

"Breve é a vida e longa é a arte" — afirmou Hipócrates (460-377 a.C.), médico grego e
considerado o pai da medicina. Devemos a este sábio alguns dos pilares de sustentação
da medicina atual. Por exemplo, a distinção entre sintoma e doença. A partir desta
distinção, Hipócrates propõe uma tríplice ação médica: o diagnóstico, o prognóstico e o
tratamento. Em um de seus muitos textos, chamado "Prognóstico", o famoso médico
descreve a face de um doente, dizendo que é ela a primeira coisa que um médico deve
observar detidamente. Estabelece os traços de uma face extremamente doente, sua cor,
suas formas, seus movimentos, e os compara com um rosto sadio. Podemos ver neste
texto um precursor dos estudos semióticos. Alguns séculos depois foi Cláudio Galeno
(129-199 d.C.), médico grego mas clinicando em Roma, quem estabelece a Semiótica, a
análise dos sintomas ou sintomatologia, como uma parte dos estudos médicos. Contudo,
voltando a Hipócrates, que nos trouxe ainda a grande contribuição de afirmar a medicina
como campo de conhecimento experimental e portanto já algo divergente das célebres
polémicas filosóficas e especulativas, vamos dissecar

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mais a fundo sua frase: "breve é a vida", o homem, o ser biológico, que inevitavelmente é
levado um dia pela morte, o mais implacável componente do percurso vital; "longa é a
arte", aquela que, criada pelo mortal, tem a finalidade de vencer a morte, de sobreviver
aos tempos e, com isto, imortalizar seu criador. E o consegue. A criação humana, assim
entendo a palavra "arte" usada por Hipócrates, desafia e vence não apenas a morte, mas
todas as dificuldades e os limites impostos pela breve vida, desafia e vence as doenças,
o envelhecimento, o tempo, a natureza hostil. Seu mais eficaz e abrangente instrumento
são os símbolos. Seu universo hoje não se chama "arte", terreno específico onde se deve
manifestar a mais pura e irrestrita criatividade humana, mas deve ser mais
atualizadamente denominado "cultura". Este campo amplo recebe as contribuições e
descobertas de cada indivíduo, de cada grupo social, de cada época, e as perpetua,
transmitindo as informações de geração a geração, de grupo para grupo, de época a
época. Suas criações têm normas próprias e independentes (e é por esta razão que ela
consegue contrariar até as normas mais rígidas da vida) constituindo-se em uma
"segunda realidade". Dela fazem parte o vestir, os gestos, as artes, as danças, os rituais,
a literatura, os mitos, o morar e suas formas individuais e sociais, os hábitos (ao comer,
ao beber, ao cumprimentar, ao relacionar-se), as religiões, os sistemas políticos e
ideológicos, os jogos e os brinquedos. Assim é que a cultura se organiza como um
complexo sistema comunicativo, semiótico portanto, que coordena todas estas atividades.
Reconhecer a existência da cultura como tal, significa reconhecer que todas estas
atividades atendem a regras e normas comuns — vale dizer, obedecem a um código da
cultura — e, assim, não existem as fronteiras que isolam umas das outras, não permitindo
que se comuniquem entre si. A cultura é o macrossistema comunicativo que perpassa
todas as manifestações e como tal deve ser compreendido para

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que se possam compreender assim as manifestações culturais individualizadas.

"O organismo quer perdurar." (D. Pignatari)

Se então a cultura é o domínio da segunda realidade, criada pelo homem, uma das
condições de sua sobrevivência será sua permanente expansão. O homem cria, sua
criação o estimula e lhe modifica as habilidades e as capacidades, transforma-lhe a vida
enfim. Isto, por sua vez, o torna mais inteligente, hábil e competente para as novas
criações. Desta maneira é a novidade que passa a ser o alimento desta outra realidade.
Contudo, a novidade requer coragem e ousadia, pois o novo também traz o perigo e a
ameaça. Para renovar e ampliar as fronteiras é preciso destruir muros e paredes já
consolidados. Já o dizia Walter Benjamin em seu ensaio sobre "O caráter destrutivo",
datado de 1931 (quinze anos após a inauguração do dadaísta Cabaret Voltaire):

O caráter destrutivo conhece apenas uma palavra de ordem: abrir espaço; apenas uma
atividade: desocupar. Sua necessidade de ar fresco e espaço livre é mais forte do que
qualquer ódio. O caráter destrutivo é jovem e alegre. Pois destruir rejuvenesce, porque
tira do caminho as marcas de nossa própria idade; (...). (Benjamin, 1972: IV.1,396-7).

Então de onde brotam as forças destrutivas e ao mesmo tempo criadoras da segunda


realidade? O poeta Décio Pignatari de/senha e de/clara em seu poema fanologopaico
"Organismo", de 1960, respondendo à questão:

19
o organismo quer perdurar
o organismo quer repet
o organismo quer ré
o organismo quer
oorganism
orgasm
oo
o

Dez anos depois do poema de Décio Pignatari começa a se delinear uma nova disciplina,
a Semiótica da Cultura, principalmente na União Soviética, mas também na Europa
Central, que hoje é unânime em afirmar que a cultura encontra na natureza sua maior
fonte de inspiração. (Contudo é importante não nos esquecermos de que esta divisão
cultura-natura é também uma convenção criada pela própria cultura!) O semioticista
tcheco Ivan Bystrina sintetiza em quatro momentos as raízes da cultura: no sonho (e é
sabido que também os animais superiores sonham — comprovadamente todas as aves e
os mamíferos o fazem), no jogo e nas atividades lúdicas (também presentes entre os
animais), nos desvios psicopatológicos como neuroses, paranóias, esquizofrenias
(distúrbios muitas vezes causados por disfunções orgânicas) e, por fim, nas situações de
êxtase e de euforia (provocadas ou não, com a ajuda de determinadas substâncias ou
não, por meio de certos rituais e movimentos ou não). Assim, a transição da primeira para
a segunda realidade não se dá no momento do primitivo gesto semiótico da exibição do
escroto azulado de alguns primatas, mas sim no decorrer de centenas de milhares de
anos, com a crescente consciência de si mesmo e de sua própria finitude.1

1 O longo caminho da evolução da comunicação gestual e performática dos outros


primatas até a comunicação verbal humana que, sem dúvida, facilitou o desenvolvimento
e a preservação das informações referentes à segunda realidade, a realidade da cultura,
não é, com certeza, objeto que a semiótica possa tratar sem o valioso auxílio das
pesquisas etológicas. Uma importante síntese do surgimento e do desenvolvimento da
etologia humana nos oferece Philippe Ropartz, no verbete "A etologia humana" do
Dicionário de antropologia publicado pela Verbo.

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Das quatro raízes da cultura levantadas por Bystrina vou aqui tomar apenas uma, aquela
que hoje vem recebendo redobrada atenção por parte dos neurologistas e da medicina de
modo geral: os desvios psicopatológicos. Justamente porque eles transferem para o
estado de vigília a ousadia e a coragem que apenas temos no sonho — de negar, de rir
na cara, de desafiar, de desobedecer regras estabelecidas, de crer e de descrer sempre
a contrapelo. E como começamos com os médicos, vamos continuar em sua companhia.

Foi o médico e psiquiatra austríaco Leo Navratil, especialista em psicopatologia da


expressão, quem exaustivamente estudou em seu livro de 1974, über Schizophrenie
(Sobre a esquizofrenia) as principais características da percepção esquizofrênica que ele
denomina a) fisionomização (capacidade de dar/ver formas humanas em quaisquer
objetos), b) formalização (capacidade de ver/fazer ritmos ou regularidades) e c)
simbolização (facilidade para colar arbitrariamente um significado em um objeto qualquer)
(Navratil, 1974a:43-87). Assim, mesmo que compelidos por uma psicopatologia e em
situação de extrema aflição por sua inadaptabilidade social, o mundo das variantes
psicopatológicas oferece um poderoso exemplo de desprendimento das regras de
codificação e decodificação dos mais diversos aspectos da vida biofísica e social.

Hoje o estudo das psicopatologias mais diversas (e não apenas da esquizofrenia), das
afasias, agnosias, amusias etc. vem tendo surpresas quase diárias. Um caso do agora
famoso neurologista anglo-americano Oliver Sacks (1988a) de-

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monstra como determinadas patologias ampliam o alcance de nossa percepção e com
isto servem de modelo para novas atitudes, muitas vezes mais ousadas e demolidoras.
Sacks relata que, durante o discurso do presidente pela televisão, ouve-se em sua clínica
uma explosão de gargalhadas vinda da ala dos afásjcos. O presidente, um ator, com bem
treinados e ensaiados recursos de expressão, não conseguia ser levado a sério pelos
pacientes que perderam a capacidade de perceber e usar o chamado "código central da
comunicação humana", o verbal. Mas todos os outros elementos da comunicação, as
não-palavras, estavam sendo perfeitamente compreendidos e, desmascarados em seu
teor de não autenticidade, não veracidade, na falsa dramaticidade de seu discurso. Já
uma paciente com um tumor no lobo temporal direito — que a impedia de receber toda a
informação não-verbal, emocional, fisionómica e tonal (exatamente aquela percebida
pelos afásicos) —, comentou com o médico que o presidente usava palavras
inadequadas e que ele teria alguma lesão no cérebro ou estaria querendo esconder
alguma coisa.

Como estes, milhares de casos estão a nos ensinar que não é o procedimento tímido da
subserviência aos padrões instituídos o alimento para a ampliação do universo da cultura.

Aprender com a natureza em suas manifestações mais ousadas, em seus limites e para
além deles, tem sido a grande sacada do homem. E, cada vez mais, com Hipócrates,
contra hipócritas.

22
II - A CULTURA COMO SISTEMA SEMIÓTICO

23
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Cultura e cultura

A amplitude e a complexidade do conceito "Cultura" já estão registradas em suas remotas


origens. O substantivo latino "cultura" significa, em seu uso primeiro e mais concreto,
cultura agrícola, plantação e cuidados requeridos pelo cultivo. Contudo, no exato
momento em que o cultivador passa a ser o alvo da ação de cultivo, o conceito é
transposto à esfera humana, e, agora em um sentido figurativo, vai significar a "cultura do
espírito", designando a formação intelectual do homem por meio da filosofia, da ciência,
da ética e da arte. Uma das facetas da chamada "cultura do espírito" está expressa no
adjetivo latino cultas que significa exatamente "elegante, esmerado, enfeitado". Assim, já
em sua etimologia a palavra cultura aponta para duas importantes facetas de sua
manifestação: quando o objeto do cultivo está fora do cultivador, está na esfera do mundo
externo, e quando o objeto do cultivo é o próprio sujeito cultivador.

Evidentemente indispensável à sobrevivência do homem, a cultura, em sua primeira


acepção, como cultivo agrícola, ou criação de animais, com o posterior aperfeiçoamento
de técnicas e ferramentas visando à otimização da atividade

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produtiva, desenvolve-se, amplia suas conquistas, amplia sua abrangência, subdivide-se
em milhares de áreas auxiliares, ganha outras denominações. Desde a meteorologia até
a engenharia genética, desde a informática até a robótica, desde a biônica até a
matemática do caos constituem, em última instância, desenvolvimentos da necessidade
da interação do homem com o mundo circundante, com o objetivo de assegurar sua
sobrevivência material. Não é esta área, da qual indubitavelmente faz parte toda a
tecnologia, que aqui nos interessa neste momento. Interessa-nos, ao contrário, aquele
momento em que a autoconsciência se manifesta, ou seja, quando o homem é objeto do
cultivo do próprio homem. Este momento do voltar-se a si mesmo apontando para a
possibilidade do construir-se, do refazer-se, do melhorar-se ou piorar-se, do embelezar-
se ou enfeiar-se, constitui a ponte para a superação das amarras da realidade físico-
biológica, denominada pelo semioticista Ivan Bystrina de "primeira realidade".
Convém não esquecermos que este momento de superação da primeira realidade não
independe das realizações do homem para assegurar sua sobrevivência. Ao contrário,
ele pressupõe mesmo estas conquistas que, garantindo a sobrevivência física, propiciam
também o momento do esquecer-se dela. Esquecer a mera sobrevivência física e
permitir-se o ócio da autoconsciência e ainda mais, da metaconsciência, constitui o traço
principal desse setor cuja denominação mais adequada parece ser exatamente "cultura",
em um sentido mais preciso, mais restrito, mais claramente delimitado. Vejamos por que
e como nasce este complexo sistema e de que maneira ele se desprende da primeira
realidade ganhando leis e regras próprias, atingindo sua autonomia.

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Ócio e esquecimento

A contínua tensão a que muitos seres vivos são submetidos para a preservação da
própria vida constitui um desafio permanente, um desgaste constante. Preservar a vida
significa prover-lhe suas necessidades nutricionais, por um lado, e protegê-la contra todo
tipo de ataques predadores, por outro. Isto envolve um permanente estado de alerta
defensivo, para não se tornar alimento, e ofensivo, na busca do alimento.
Consequentemente constitui-se em fonte geradora de déficits, de defeitos no sistema.
Uma vez que a vigília e o trabalho permanentes esgotam, tendem inercialmente a um
esvaziamento de sua própria eficiência. Assim, o próprio sistema chamado "vida" cria
espaços de recuperação e prevenção dos defeitos no sistema: o sono é o principal
modelo do baixar a guarda para manter a eficácia da vigília. E o sono passa a ser o
primeiro pressuposto para a superação do estado de tensão criado pela primeira
realidade. Pressuposto biológico, o estado de relaxamento provocado pelo sono é
recriado na garantia do espaço do descanso, vale dizer, do ócio. E este é o espaço do
"dentro", dentro de sua caverna, dentro de sua cabana, dentro de sua casa, dentro de
seu grupo social. Estar fora envolve a necessidade de estar alerta, significa estar
desprotegido. Estar dentro significa estar protegido e, por isso, traz a possibilidade do
esquecimento da vigília, um sono acordado que reúne as vantagens do gozo do sono e
da consciência da vigília.

Contudo, muito mais do que o sono em si, mas aquilo que o sono inevitavelmente
possibilita, ao menos aos animais superiores, o sonho, se oferece como exemplo de
atividade que desconsidera e portanto supera todos os problemas insolúveis existentes
na primeira realidade. Assim, no sonho ganham existência "real" seres, objetos e regras
de funcionamento que não são possíveis na primeira realidade. Pessoas mortas
aparecem vivas, vivos morrem, homens voam, se trans-

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figuram, se transformam, fracos viram fortes, fortes e imbatíveis são derrotados e muitas
outras coisas mais. O sonho oferece o impulso para as criações da imaginação em vigília.
E, como o sonho se organiza como um texto, a cultura, no sentido de "segunda
realidade", também se ordena de maneira textual. Não é outro o significado da colocação
feita em consenso pelos principais semioticistas soviéticos das escolas de Tartu e
Moscou, a saber J. M. Lotman, B. Uspienskii, V. V. Ivanov, V. N. Toporov e A. M.
Pjatigorskii, em seu texto fundamental, de 1973, "Teses para a investigação semiótica da
cultura". Segundo estes cinco importantes pesquisadores, a cultura constitui o conjunto
de textos produzidos pelo homem. Deve-se assim entender por "textos da cultura" não
apenas aquelas construções da linguagem verbal, mas também imagens, mitos, rituais,
jogos, gestos, cantos, ritmos, performances, danças etc.

A construção do sonho

Desprender-se da primeira realidade portanto é algo que se dá como um desdobramento


inevitável da própria realidade primeira. E a criação de uma segunda realidade acontece
com modelos dados pela primeira. Ivan Bystrina aponta, em consonância com Lotman,
Ivanov, Cassirer, Lévy-Strauss, Harry Pross e muitos outros, o caráter sígnico da cultura
quando diz:

A segunda realidade todavia não é algo do outro mundo, do além. Ela existe — realmente
— nas células cinzentas dos cérebros e é transponível em signos perceptíveis, em signos
materiais e energéticos e textos (fala, escrita, imagem, gesto, filme, música)
(Bystrina,1989:242).

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Acrescenta ainda que "ela possui um caráter sígnico, é construída de signos e realizada
em textos" (Bystrina,1989:243).

Uma vez que a segunda realidade possui um caráter sígnico, ela se ordena como
linguagem e obedece a certos princípios e regras. Ao conjunto de regras de
funcionamento de uma determinada linguagem dá-se o nome de código. Assim, a cultura
possui os seus códigos e funciona de acordo com estes códigos. Como em todo processo
comunicativo ou informativo, os códigos culturais também têm suas fontes, das quais
retiram as informações necessárias para sua constituição. Vejamos então quais são as
possíveis fontes dos códigos culturais.

A biologia nos ensinou que os processos vitais são operações de câmbio informacional.
Fala-se mesmo em comunicação intercelular, em comunicação das sinapses nervosas;
fala-se em código genético e as trocas metabólicas são também trocas informacionais.
Todos estes processos obedecem a regras predeterminadas pelo próprio organismo em
sua evolução filogenética. A existência e o funcionamento destes processos
informacionais em consonância com seus códigos são condição indispensável para a
sobrevivência biológica. Assim, estes códigos podem ser chamados de códigos primários
(na denominação de Bystrina, códigos hipolinguais). Quando cessam as trocas
informacionais neste nível, cessa a vida. Este processo de comunicação é o processo
intra-individual ou intra-orgânico.

Contudo, muitas espécies animais desenvolveram instrumentos de comunicação inter-


individual. São as chamadas línguas naturais. Não precisamos nos iludir com nosso
pouco conhecimento sobre a linguagem animal, achando que só o homem possui um
instrumento de comunicação social elaborado. Há hoje numerosos estudos sobre a
linguagem coreográfica das abelhas, sobre a comunicação de determinados tipos de
pássaros, sobre a comunicação olfativa das formigas, sobre o canto das baleias. Em
alguns casos chega a haver levantamento

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de um considerável léxico dessas linguagens. Elas obedecem a códigos secundários ou
linguais, que se constroem evidentemente sobre o funcionamento dos códigos primários.
Se há um problema grave na comunicação intra-orgânica, biológica, isto pode bloquear
inteiramente o funcionamento das linguagens naturais. As línguas naturais são bem
desenvolvidas naquelas espécies cuja vida social é intensa e indispensável. Vimos logo
acima que o estar em sociedade significa estar envolto, protegido, poder ter os outros
indivíduos como prolongamento do próprio organismo, na medida em que o coletivo
proporciona o revezamento, a especialização, a força reunida e multiplicada, o trabalho
dividido e muitas outras vantagens. Sem o coletivo, a espécie humana teria
provavelmente sucumbido diante de tantas outras espécies mais fortes, mais velozes,
maiores. E o instrumento mais importante para a sobrevivência de um coletivo é uma
língua tão precisa quanto possível.

No entanto, nem o desenvolvimento de refinadas técnicas, nem a descoberta de


importantes artifícios, nem o fortalecimento da proteção pela reunião de indivíduos em
sociedades conseguiu resolver alguns problemas que afligiam o homem, tais quais
doenças, fenómenos e catástrofes naturais e principalmente o mais forte, insolúvel e
inevitável de todos os problemas, a morte. É aí que, valendo-se das línguas naturais
(comunicação corporal, comunicação gestual, comunicação sonora e comunicação
verbal) o homem cria uma "segunda realidade" na qual estes problemas — e muitos
outros que não podia compreender — são superados no nível simbólico. Esta segunda
realidade é regida pelos códigos terciários, culturais ou hiperlinguais. E a inspiração para
esta indispensável e maravilhosa invenção do homem vem provavelmente de algo que
não é exclusivamente humano: o sonho.

30
"A alegria é a prova dos nove." (Oswald de Andrade)

Do sonho vem a primeira inspiração, mas também do sonho acordado, do devaneio, do


delírio jorram ideias, imagens, verdadeiros textos que possibilitam a criação de mitos, de
ritmos, de histórias. Também do sonho nasce o jogo, o brinquedo, a simulação. Sabemos
que o brincar já está presente em espécies animais superiores sobretudo em sua
infância. E no homem a atividade lúdica se estende por toda a vida e é fonte de
fortalecimento de sua criatividade e portanto de suas forças. Uma terceira fonte de
inspiração para o aperfeiçoamento da segunda realidade provém de determinados
indivíduos que possuem um tipo de sensibilidade diferenciada e que são considerados
hoje neuróticos, psicóticos, esquizofrênicos. Estes indivíduos vêem o que outros não
vêem, sentem o que os outros não sentem e conseguem ou são compelidos a romper
padrões estabelecidos de comportamento. Extensos estudos do médico e psiquiatra Leo
Navratil dão conta da capacidade aguçada destas pessoas de "fisionomização, ritmização
e simbolização" (Navratil, 1974a:43), elementos constitutivos absolutamente
indispensáveis dos textos culturais.

Por último são fontes da cultura todos aqueles procedimentos de busca do êxtase, seja
por meio de substâncias, seja por meio de sons, seja por meio de movimentos. Assim,
analisadas estas fontes de inspiração e criação da cultura, constata-se como traço
comum a todas elas (inclusive as variantes psíquicas) a presença de um traço de busca
do prazer, do gozo, da alegria. Não é sem razão que o enfant terrible da modernidade
brasileira, Oswald de Andrade, declara que "a alegria é a prova dos nove".

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32
III - O CONCEITO DO TEXTO DA CULTURA

A CONTRIBUIÇÃO DA SEMIÓTICA RUSSA E DO LESTE EUROPEU PARA


A CODIFICAÇÃO DA MODERNA SEMIÓTICA DA CULTURA

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34
A proposta de Aleksandr R. Luriiá: uma ciência romântica

O neurologista Oliver Sacks relata ao leitor de seu livro O homem que confundiu sua
mulher com um chapéu (The man who mistook his wife for a hat and other clinical tales,
primeira edição norte-americana em 1970) o caso intrigante de sua paciente Rebecca, 19
anos, avaliada clinicamente como portadora de "uma grande quantidade de apraxias e
agnosias", um verdadeiro desastre da natureza, mas que, ao desenvolver determinadas
atividades motoras complexas como a dança, possuía uma perfeita sincronização de
movimentos. Uma idêntica performance bem-sucedida ocorria com sua capacidade para
narrativizar, encadear e associar poeticamente determinados acontecimentos. Oliver
Sacks conclui que:

Rebecca deixou claras, através de ilustrações concretas com sua própria pessoa, as
duas formas, totalmente diferentes, totalmente separadas, de pensamento e mente — a
"paradigmática" e a "narrativa" (na terminologia de Brunner). E, embora igualmente
naturais e inatas à mente humana em expansão, a narrativa está em primeiro lugar, tem
prioridade

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espiritual. Crianças bem pequenas gostam de histórias e as exigem, podendo entender
assuntos complexos assim apresentados quando sua capacidade de compreensão de
conceitos gerais, paradigmas, é quase não existente. É esta faculdade simbólica ou
narrativa que dá um sentido do mundo — uma realidade concreta na forma do símbolo e
da história — quando o pensamento abstraio nada pode fornecer. Uma criança
acompanha a Bíblia antes de entender Euclides. Não por ser a Bíblia mais simples (pode-
se dizer o inverso), mas por ser vazada num modo simbólico e narrativo.
(Sacks, 1988:173).

Grande admirador e seguidor do neurologista russo Aleksandr R. Luriiá, que se propunha,


em suas observações clínicas, a construir uma ciência romântica (Cf. Luriiá, A. R.,1992,
Der Mann dessen Welt in Scherben ging — O homem cujo mundo se desfez em cacos —
e 1992, Das Gehirn in Aktion —O cérebro em ação — e ainda 1993, Romantische
Wissenschaft — Ciência Romântica), Oliver Sacks desenvolve, como Luriiá, uma
sensibilidade observadora para macro-unidades, para relações mais amplas das
patologias pesquisadas. E isto nos conduz necessariamente a uma ruptura com um tipo
de observação dos fenómenos da cultura: a observação desnarrativizada, vale dizer, des-
historicizada, vigente nos séculos XIX e XX. As ciências da natureza e, com elas, as
ciências da cultura e da comunicação, buscavam o rigor e a precisão possibilitados por
técnicas de observação cada vez mais apuradas que descobriam fatos e dados cada vez
mais microscópicos — inclusive em sua dimensão temporal. O encurtamento dos tempos
dos objetos da investigação trazia como consequência a

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própria perda de uma escala macrotemporal ou histórica fundamental para as ciências da
cultura. E quando Luriiá propõe uma "Ciência Romântica" tem em mente exatamente uma
inversão nesta hierarquia, introduzindo na observação clínica os fatores macrotemporais
ou, na expressão de Sacks, simbólico-narrativos. (Apenas a título de curiosidade: Luriiá
chegou a acompanhar certos casos clínicos durante trinta anos.)

Assim somos levados a crer, a partir das anamneses de Luriiá e seu admirador Sacks,
que não apenas na evolução ontogenética mas também na evolução filogenética este tipo
de pensamento simbólico e narrativo seja fundante no processo de hominização e no
desenvolvimento do acervo informacional primevo da espécie humana, sendo portanto
fundante da cultura humana. Narrativizar significou e significa para o homem atribuir
nexos e sentidos, transformando os fatos captados por sua percepção em símbolos mais
ou menos complexos, vale dizer, em encadeamentos, correntes, associações de alguns
ou de muitos elos sígnicos. Foi provavelmente este procedimento o gerador de um
universo de sentidos — um universo simbólico — que a Semiótica da Cultura procura
investigar. Edgar Morin o denomina "segunda existência", Ivan Bystrina chama de
"segunda realidade", Jurii Lotman lhe dá o nome de "semiosfera".

O texto como unidade mínima da cultura: as teses de Lotman, Ivanov, Uspenskii,


Piatgorskii e Toporov.
Este universo simbólico, a "segunda existência ou realidade" ou a "semiosfera" constitui o
conjunto de informações geradas e acumuladas pelo homem ao longo dos milénios, por
meio de sua capacidade imaginativa, ou seja, de narrativizar aquilo que não está
explicitamente encadeado, capacidade de

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inventar relações, de criar textos (em qualquer linguagem disponível ao próprio homem,
seja ela verbal, visual, musical, performático-gestual, olfativa). Assim, o conjunto menor
destas associações, denominado "texto" constitui a unidade mínima da cultura. Afirmam
os semioticistas das Escolas de Tartu e Moscou em suas já clássicas teses de 1973:

O texto é veículo de sua significação global e de uma função global (se se distingue a
posição do estudioso da cultura daquela do portador da cultura, do ponto de vista do
primeiro o texto vem a ser veículo de uma função global; do ponto de vista do segundo,
veículo de um significado global). Neste sentido, o texto pode ser considerado como
elemento primeiro (unidade de base) da cultura.
(Ivanov et alii, 1979:193-4)

Uma vez constatado que a "unidade de base" da cultura é uma unidade de alto grau de
complexidade, caberia investigar suas raízes, e isto somente é possível por meio do
diálogo multidisciplinar e transdisciplinar adotado por um campo de investigações
denominado pelos estudiosos soviéticos "Semiótica da Cultura". A multidisciplinaridade
abre caminho para ampliações deste diálogo e para descobertas de relações até então
desconsideradas, como aquelas entre a biologia e a cultura. Uma contribuição importante
constitui o artigo de R. Jakobson de 1970-74 "Biologia como ciência da Comunicação",
propondo-se a compreender melhor a ponte entre os fatos biológicos e os fatos da língua
verbal. Também neste contexto, contudo com horizontes extremamente alargados, situa-
se o exemplar livro de V. V. Ivanov Gerade und Ungera-de (Par e ímpar) de 1978,
estudando aspectos do dialogismo entre as estruturas cerebrais humanas e de suas
construções

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culturais e suas consequências tecnológicas. Dentre as importantes contribuições dadas
pela linguística não se pode omitir o trabalho pioneiro de Eric H. Lenneberg, Biological
Foundations of Language (Fundamentos biológicos da linguagem), de 1967.

O caminho da sistematização: o texto como um sistema complexo e seus suportes


biológicos e sociais

Em busca de sistematização das bases da disciplina proposta pelos soviéticos, o


semioticista tcheco Ivan Bystrina localiza e classifica, nas bases comunicacionais
anteriores àcultura, os substratos para os processos semióticos da cultura. Aponta dois
momentos anteriores, os processos informacionais (biológicos) e sígnicos (as linguagens
da comunicação social) como substratos para os códigos culturais. Bystrina denomina os
processos de trocas em nível biológico "primários ou hipolinguais". Estes processos
operam com as informações bioquímicas e seu fluxo dentro dos organismos, dos seres
vivos. O nível seguinte é constituído pelos processos de interação social e suas
linguagens. Aí se inserem todas as linguagens necessárias à comunicação social
(humana ou mesmo animal), desde o verbal até o gestual, passando por feromônios ou
sonoridades diversas. Sem a existência de um código ou um conjunto de códigos de
natureza social, não seria possível a formação e a manutenção de comunidades sociais.
A estes tipos de códigos Bystrina dá o nome de "códigos secundários ou da linguagem" e
suas unidades mínimas são os signos. Contudo, além da comunicação social,
ordenadora das sociedades, uma outra esfera se desenvolve, notadamente na espécie
humana. Trata-se do universo da cultura, transpondo as fronteiras do meramente
pragmático da organização social,

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e criando limites maiores e mais etéreos para a existência, abrindo espaço para o
imaginário, para a fantasia, para as lendas e histórias, para as invenções mirabolantes,
para a ficção. Um universo onde as dificuldades intransponíveis da vida biofísica e da
vida social são superadas, justificadas ou explicadas por sistemas simbólicos. Trata-se de
um universo comunicativo por excelência, que se mantém vivo graças à transmissão
social de um enorme corpus de informações acumuladas, não na memória genética da
espécie, mas na memória da sociedade. Neste universo a unidade mínima que o compõe
somente pode ser o texto enquanto sistema operante complexo (entendido aqui não
apenas em seu sentido verbal, mas em uma acepção semiótica mais ampla, onde todas
as linguagens codificadas pela comunicação social e também outras emergentes ou
individuais podem concorrer). E seus princípios construtivos são os "códigos terciários ou
culturais ou ainda hiperlinguais" (Cf. Bystrina, 1989:85-87).

Interação: o problema da continuidade e da discretude

Estes três níveis de códigos são intercomunicantes de maneira múltipla: um distúrbio nos
códigos primários (por exemplo, no metabolismo ou na dinâmica de funcionamento dos
neurotransmissores, determinadas psicopatologias, distúrbios metabólicos e hormonais)
pode afetar diretamente a capacidade criativa e imaginativa de um indivíduo: teríamos aí
casos de interferência dos códigos hipolinguais sobre os culturais.

Inversamente, um determinado espetáculo, um poema ou um romance, um ritual, uma


dança, uma peça musical ou teatral, ou até mesmo a narrativa empolgada de uma partida
esportiva podem emocionar alguém até as lágrimas, afetando,

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ainda que por momentos, seu equilíbrio biológico, ou seja, alterando o ritmo e a qualidade
da comunicação intraorgânica: temos aí uma interferência dos códigos culturais nos
códigos da vida intraorgânica.

As anamneses de casos de neuropatologia oferecem hoje exemplos de alterações de


códigos primários provocando uma hipertrofiada sensibilidade para os fatos da cultura,
para os produtos do espírito humano. Ou ainda, ao inverso, a medicina não se cansa de
alertar para os exageros a que somos submetidos diariamente pelos hábitos modernos,
impostos por um sistema sociocultural: as chamadas doenças da civilização constituem
uma alteração no funcionamento dos códigos hipolinguais, provocada por necessidades
culturais.

Assim, a Semiótica da Cultura deve levar em conta a existência de códigos anteriores aos
da própria cultura, já que aqueles interagem permanentemente com estes. Mais do que
isto, deve reconhecer a impossibilidade de se isolarem com exatidão os códigos primários
dos secundários e dos terciários.

Já estaria aí uma das razões por que a Semiótica da Cultura não considera o signo como
unidade mínima dos códigos terciários. A natureza discreta de um signo confere a ele o
status de unidade mínima da comunicação social, mas não da comunicação cultural. Ora,
o registro de um determinado signo ou de um grupo de signos, sua permanência ou sua
transformação em diferentes momentos perceptivos, constitui um percurso, ou seja, um
encadeamento, uma associação de signos, vale dizer, um objeto de natureza narrativa,
no qual o significado não se mantém senão globalmente. Portanto, na verdade o que
caracteriza um texto é a incorporação da categoria "temporalidade". A construção sígnica
desta temporalidade se expressa sob formas de encadeamentos sígnicos, ordenações e
hierarquizações, não necessariamente lineares. A temporalidade enquanto princípio
ordenador pode ser escolhida, esta-

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belecida, e esta temporalidade constitui o princípio ordenador de um objeto ímpar, único,
cujo significado se desfaz se se desfizer seu tecido. Assim, o tecido não é apenas uma
somatória de fios ou fibras, mas a textura que estas fibras produzem. Assim, o texto não
é um conjunto, uma somatória de elementos discretos, mas sim o resultado de uma
interação de elementos e sua projeção temporal. Um signo único não será portanto um
texto se não for visto em um percurso, em uma relação temporal ou espacial, dialogando
consigo próprio ou com outros signos. Não é raro o caso de signos isolados que dialogam
com sua própria história, constituindo aí um texto, transpondo a fronteira da língua para a
cultura.

O papel do diálogo foi exaustivamente estudado por M. Bachtin e, retomado por V. V.


Ivanov em sua obra Gerade und Ungerade (Par e impar), ganha novos contornos. Ivanov
propõe que o diálogo provocado pelas funções assimétricas dos dois hemisférios
cerebrais constituiria um processo interativo tão intenso e eficaz que dele resulta a
capacidade de operar com unidades de alto grau de complexidade, como os textos que
compõem uma determinada cultura: seus mitos, suas narrativas, suas vestimentas, seus
costumes, seus rituais de alimentação. Assim, o texto da cultura — mitos, pinturas,
romances, danças, rituais etc. — se constrói no diálogo, na operação interativa entre seus
componentes subtextuais, no diálogo entre os signos e dos signos com o seu próprio
percurso histórico.

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IV – FANTASMAS POSITIVOS E FANTASMAS NEGATIVOS

43
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Fantasmas positivos e fantasmas negativos

Gravemente acidentado, o paciente foi submetido a uma cirurgia para a religação do


quadríceps que se rompera. Contudo, apesar da correta condução da cirurgia e do
posterior processo fisioterapêutico, a perna estava morta, não se movia e não tinha
sensações. Aparentemente um caso comum se não tivesse ocorrido ao agora famoso
neurologista anglo-americano Oliver Sacks, que relata em seu livro Uma perna para se
apoiar a experiência de ser paciente e, mais do que isto, de ser seu próprio objeto de
pesquisa. Nesta condição ocorre seu encontro com outro paciente que tivera uma perna
amputada e sofria então as agruras das sensações presentes de um membro ausente, os
fantasmas positivos. Sacks relata o comentário feito por este homem:

— Não é a coisa mais maldita! — Voltou-se para os outros. — O doutor aqui tem uma
perna, mas nenhuma sensibilidade nela, e eu tenho a sensibilidade, mas não tenho a
perna! Sabe — virou-se de volta para mim —, podíamos formar uma boa perna entre nós.
Eu doo a sensibilidade e você, a perna.
(Sacks, 1988:155).

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Na verdade Oliver Sacks estava sendo vítima da imagem espelhada, diametralmente
oposta, dos fantasmas positivos, estava sofrendo dos "fantasmas negativos" ou da
ausência dos "fantasmas" que deveriam dar vida à perna. Um, como outro, um "distúrbio
da imagem corporal": ou a persistente memória de um membro amputado, ou o
esquecimento e a alienação de uma parte do corpo existente e (desde que não haja
lesões cerebrais) capaz de funcionar perfeitamente. E se o mal é espantoso, mais
espantosa foi a terapia. O paciente, descrente de que sua perna pudesse voltar ao
normal, foi colocado, sem o saber, em uma situação de necessário e não-consciente uso
da perna — atirado em uma piscina e obrigado a nadar simplesmente. Desvinculando o
movimento da consciência do movimento, restaura-se, assim, o funcionamento e a
sensibilidade da perna. Neste caso, como em outros casos de fantasma negativo
relatados no livro, a recuperação se dá por uma autêntica traição da consciência.

A traição da consciência

Certas operações corporais são mais facilmente realizáveis se não nos damos conta
delas, se não tentamos efetivá-las por meio de comandos conscientes e digitalizados. Isto
vale para certos movimentos reflexos em escala temporal ultra-rápida, para complexas
unidades coreográficas, para a movimentação coordenada e assimétrica de partes do
corpo, para a sincronização de microunidades (como a coordenação dos diversos órgãos
do aparelho fonador para a produção de um simples fonema) tanto quanto para a
produção de grandes e complexas texturas (como a performance muscular de um atleta
em uma competição). Todas estas atividades possuem em comum algo que poderíamos
chamar de "imagem textual", uma unidade não dissociável em partes

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discretas, possivelmente análoga aos "fantasmas" da neuropsicologia de Sacks.
O semioticista e linguista russo Vjatcheslav V. Ivanov, estudando o fenômeno da
lateralização das funções cerebrais e suas relações com a linguagem, testemunha que
doentes com o hemisfério esquerdo do cérebro lesionado não conseguem escrever letras
isoladas, mas apenas seus nomes enquanto totalidade. Não conseguem formar novas
frases, mas dizer aquelas já feitas, como frases clichés (Cf. Ivanov, 1983:52). Isto aponta
para uma provável relação do hemisfério direito com a percepção de formas complexas,
unidades indissociáveis, textos não-decomponíveis, enquanto o hemisfério esquerdo
efetuaria as operações de separação, de classificação, de arquivamento e de
combinatória das unidades discretas. Ivanov confirma em uma entrevista concedida em
agosto de 1990 (Projekt, 4, 1991:7-10), a importância de textos (entendidos como
unidades) no processo de aprendizagem. É com os textos que se estimularia o hemisfério
direito que, por sua vez, desempenha também a função de entrada da informação nova.
Sugere ainda o uso do grotesco, do absurdo, da teatralização e da máscara como
técnicas de sensibilização do hemisfério direito. Ora, o inusitado, o ilógico, o desempenho
de papéis e a falsa identidade operam no nível de uma realidade vicária, são disfarces,
talvez operações de traição de um tipo lógico de consciência. É o próprio Ivanov que
menciona que um hemisfério desempenha o papel de mecanismo de abafamento do
outro. Com o desligamento do hemisfério esquerdo (o linguístico), o hemisfério direito
distingue melhor a música e outros sons não linguísticos; com o desligamento do
hemisfério direito, o esquerdo trabalha melhor com os sons da fala.
(Ivanov, 1983:67).

47
É exatamente neste sentido que se pode falar em uma traição dos mecanismos de
decomposição em subunidades discretas. Talvez tenhamos aqui de inverter a famosa
equação: não mais tradutore = traditore, porém traditore = tradutore. Sim porque toda
operação traidora da assim chamada "consciência", exercida pelas funções corticais
superiores, estarátraduzindo para o nível textual informações discretas. Vale dizer,
transpondo para os códigos da cultura informações que provêm de outros códigos.

Arqueologia do texto

Foram mais uma vez os semioticistas soviéticos que levantaram a questão do texto como
unidade mínima da cultura. Um texto que não pode ser compreendido como sequência de
unidades menores, mas que "constitui um todo e não se desmembra em signos" (Lotman
et alii. In Eimermacher, 1986:91).

Contudo, o passo seguinte na investigação da arqueologia do texto é dado pelo tcheco


Ivan Bystrina que, trabalhando com um modelo triádico de processos de codificação,
postula que os códigos culturais, cuja unidade mínima é o texto, tem como pressupostos
os códigos linguais que possibilitam a comunicação social (sua unidade mínima é o
signo). Estes, por sua vez, não ocorrem sem que outro tipo de código esteja operando:
são os códigos hipolinguais que regem os processos de transmissão de informações ao
nível biológico (unidade mínima: a informação). Este semioticista amplia com isto os
limites da investigação semiótica, demonstrando que a semio-se ocorre muito antes da
consciência humana. Bystrina propõe ainda como protomodelos para os textos
produzidos pela cultura: 1. a atividade onírica (sabidamente presente nos animais
superiores); 2. a atividade lúdica, os jogos, brinquedos e simu-

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lações; 3. os estados alterados de consciência, o êxtase, o transe, o delírio, a fantasia; e
finalmente 4. as variantes psico-patológicas, esquizofrenias, neuroses, psicoses e outros
distúrbios que alteram profundamente a percepção da realidade e produzem um
caudaloso rio de imagens inusitadas, rompendo as barreiras do conhecido e ampliando
os horizontes do possível e do factível. Assim como resultante da ação destes quatro
fatores desenvolve-se o crescentemente complexo sistema comunicativo chamado
cultura que promove intervenções tão profundas na vida que a investigação de seus
mecanismos se torna indispensável. Até mesmo a concepção de saúde e doença e, por
conseguinte, a própria saúde e a própria doença se alteram por obra dos construtos
semióticos da cultura. Não é portanto outra a importância do sensível trabalho de Oliver
Sacks, ao mostrar a indiferença médica diante das poderosas metáforas de seus
pacientes ao dizerem (para a presença de fantasmas negativos) "Doutor, minha coxa
desapareceu sem mais nem menos", ou "Minha perna direita parece exatamente uma
perna de cortiça" (Sacks, 1988:187).

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V - O BRINQUEDO E A CULTURA

51
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O museu do brinquedo de Copenhague

O visitante do "LegeUjsmuseet", um pequeno museu dedicado apenas ao brinquedo,


praticamente uma casa de bonecas bem cuidada que abriga uma imponente coleção de
brinquedos antigos, na cidade de Copenhague, certamente ficará impressionado com um
dos cenários montados: os soldadinhos de chumbo da Alemanha nazista, reconstituindo
um dos desfiles de seu Führer em carro aberto, sendo saudado por soldados
cuidadosamente alinhados e uniformizados com suas devidas cruzes suásticas. Será
ocasião de perguntar-se se o mundo infantil é que está elaborando sua percepção do
mundo adulto ou se é, conforme afirma Benjamin (1984:72), o adulto que se confronta
com o mundo infantil, fornecendo a este aquilo que ele idealiza e realiza como brinquedo.
No caso acima parece flagrante que a "cultura adulta" se insinua nada sutilmente no
universo do brinquedo, buscando uma espécie de "preparação para a vida", ou mais
cruamente, uma "antecipação da vida adulta". A cisão entre os dois universos é criada
para que possa ser calculadamente transposta por pontes de procedimentos
premeditados. E os brinquedos são parte desses procedimentos. Antecipar a passagem
da criança para o

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mundo adulto, encurtar as distâncias, retirar, tão logo quanto possível, a criança da vida
do faz de conta infantil, preparando-a para o pra-valer adulto. A criação da dicotomia
infantil-adulto é, portanto, artifício e estratégia, subjaz a toda organização social e cultural
e merece um olhar mais detido.

Dicotomias arcaicas

O título acima, colocando lado a lado "brinquedo" e "cultura", nos conduz a uma quase
automática percepção destes dois universos como dois pólos opostos, duas realidades
distintas, dois mundos independentes, o do brinquedo, associado à criança, ao ser
humano em fase não-matura, ao não-sério (às vezes até inconsequente) e o mundo da
cultura, que estaria, por oposição, vinculado ao ser humano em fase adulta, em pleno
exercício de suas faculdades físicas e intelectuais, responsável, sério. Tal a primeira
leitura, possivelmente ditada pelas normas de nossa própria evolução cultural ao longo
dos milénios, cunhada em moldes dicotomizadores profundos e arcaicos. Provavelmente
ditada pela percepção do masculino e do feminino, depois moldada pela bifacialidade de
nosso corpo que apresenta, em quase toda a sua aparência externa, a existência de um
lado esquerdo e um direito, nossa primeira, mais grosseira e arcaica percepção do
mundo tende a ser binária e polarizadora (Cf. Bystrina 1983:19). Depoimentos a respeito
desta codificação primordial binária nos trazem os registros rupestres de pares como
cavalo-bisão, vermelho-negro, mãos esquerdas e direitas, analisados por V. V. Ivanov
(1983) em Gerade und Ungerade (Par e ímpar). Também as leituras reveladoras de
André Leroi-Gourhan em As religiões da Pré-História apontam para as fortes
probabilidades de um imaginário paleolítico codificado em bases duais. Assim diz Leroi-
Gourhan (1985: 92):

54
Veremos (...) que nas grutas os signos se repartem em dois grupos: o grupo [alfa] que
comporta os signos alongados (traços, bastonetes, linhas pontilhadas) e o grupo [beta]
que comporta os signos cheios (ovais, triângulos, retângulos, chavetas etc.).

Assim, as dicotomias polarizadoras que ainda hoje operam em nosso universo perceptivo
possuem raízes e motivações profundas na história cultural do homem. Mesmo que os
sistemas de conhecimento atuais já tenham tentado demolir e abolir a visão dual como
deformadora, como fonte de equívocos, a comunicação e a cultura humanas, tanto em
seu substrato mais profundo e arcaico quanto nos veículos considerados mais modernos
da era tecnológica, não dispensam a economia da codificação de base dual.

O aparente supérfluo

O mesmo Ivan Bystrina, que procura vislumbrar em alguns importantes procedimentos


codificadores os assim chamados "universais da cultura", tais quais a percepção binária
arcaica, a consequente polaridade e sua respectiva valoração assimétrica, enxerga
exatamente no universo do brinquedo e do jogo, da atividade não direcionada a um fim
pragmático, uma das nascentes da cultura humana. O semioticista tcheco afirma:

(...) o jogo (tanto de crianças quanto de adultos) — aliás não sozinho, mas juntamente
com o sonho, com o devaneio, com o transe, com o êxtase, com a neurose , com os
estados de loucura e de delírio, com o imaginativo-criativo, com o fantástico, o narrativo e
o poético,

55
com o irónico, o grotesco, o absurdo — situa-se em algum lugar no princípio da cultura
humana.
(Bystrina 1984:1028)

Segundo o pesquisador, é justamente a aparente superfluidade das atividades lúdicas, a


"perda de um nexo reconhecível com as necessidades imediatas da sobrevivência, o seu
l’art pour l’art que transvaloram estas atividades em fenómeno cultural, portanto em
"segunda realidade". Bystrina aproxima assim os universos do chamado "não-sério" com
o seu oposto, demonstrando que o lúdico perpassa toda geração de códigos, portanto,
qualquer procedimento comunicativo do homem (ou dos animais), porque está em sua
raiz.

Edgar Morin fala em Homo Demens como a contraparte fundamental do Homo Sapiens, o
seu outro que brinca, raciocina por absurdo, divaga, sonha e delira. A "fabricação" do
Homo Sapiens nunca deu conta de um ser que se alimenta de ilusões e de quimeras, um
ser subjetivo cujas relações com o mundo objetivo são sempre incertas, um ser sujeito ao
erro e à vagabundagem, um ser híbrido que produz desordem. E como chamamos
loucura a conjunção da ilusão, do descomedimento, da instabilidade, da incerteza entre
real e imaginário, da confusão entre subjetivo e objetivo, do erro, da desordem, somos
obrigados a ver o Homo Sapiens como Homo Demens (Morin, 1979:116-117).

A atividade lúdica mereceu alguns estudos que se tornaram clássicos. Dentre eles o
estudo do medievalista Johan

56
Huizinga, Homo Ludens (1971), publicado originalmente em 1938. Huizinga afirma:

Visto que não pertence à vida "comum", ele se situa fora do mecanismo de satisfação
imediata das necessidades e dos desejos e, pelo contrário, interrompe este mecanismo.
Ele se insinua como atividade temporária, que tem uma finalidade autónoma e se realiza
tendo em vista uma satisfação que consiste nessa própria realização.
(Huizinga, 1971:11-12).

Ampliando e, em parte, contestando posições de Huizinga, Roger Caillois publica em


1958 seu Lês jeux et lês hommes (Os jogos e os homens). A contribuição de Caillois,
estabelecendo uma tipologia quádrupla da atividade lúdica — agon, alea, mimicrye
ilynx— revela as infinitas possibilidades de contaminação da atividade humana pelo
lúdico. Abre, sobretudo, o caminho para uma reflexão sobre os modos de comunicação
pautados pelas diferentes modalidades do lúdico, deixando entrever que até mesmo as
mais graves e sérias formas de linguagem e comunicação possuem seus componentes
jocosos.

Os desenvolvimentos das investigações no campo da etologia e da etologia humana


ampliam as fronteiras do conhecimento sobre o brinquedo e o jogo no contínuo animal-
homem. Merece destaque aqui o ensaio do biólogo e etólogo suíço Adolf Portmann
(1976) "Das Spiel ais gestaltete Zeit" (O jogo/brinquedo como tempo configurado).
Portmann (1976: 60) assim define:

Jogo é uma forma de lidar livremente com o tempo, é tempo preenchido; oferece um vi-

57
vendar significativo para além dos valores da sobrevivência; é um fazer com tensão e
solução, lidar com um parceiro com quem se joga/ brinca — mesmo que este parceiro
seja apenas o chão ou a parede que devolve ao jogador a bola elástica.
E resume:
...o essencial é dar forma, é configurar tempo vazio em tempo vivienciado, preenchido.
(Portmann, 1976:67)

Já Dietmar Kamper, no mesmo livro de 1976, no posfácio "Jogo como Metáfora da Vida",
chama atenção para uma "inadequação de objeto e método" (vale dizer, uma
inadequação do discurso sobre o lúdico em relação à essência do próprio lúdico), a qual
tematiza como centro de seu artigo. Kamper aponta para a distância existente entre a
atividade lúdica, com sua lógica, e os estudos a respeito do jogo. Esta discrepância
impossibilita a aproximação ao objeto, em sua inconsequência, em sua imprevisibilidade,
em seu estranhamento.

A discrepância apontada por Kamper não é senão o fruto mais precoce da visão
dicotomizadora que separa o adulto da criança. O adulto deve adotar procedimentos
diferenciadores daqueles da criança, demarcando seu estado e seu status. Assim,
também na ciência a demarcação de um procedimento cognitivo adulto impede que seja
demolido o muro que separa o pensar sobre o jogo e a especificidade lúdica, muro que,
contudo, nas séries artísticas deste século, em alguns privilegiados momentos e
movimentos, deixou definitivamente de existir. Dentre estes movimentos destaca-se o
Dadaísmo. O paradoxo nascido dessa discrepância foi sem dúvida o tema central de uma
das mais veementes manifestações culturais

58
deste século, que merece, sem dúvida, ser vista como contribuição para o
reconhecimento da inseparável unidade infantil-adulto.

A lição de Dada: a inversão dos mundos

Delimitado o pano de fundo em que se situa a atividade lúdica, torna-se mais frutífero
analisar o exemplo elucidador do breve mas contundente Dada, movimento da história da
arte deste século que se pautou fundamentalmente pelo espírito lúdico. Dada presta-se,
por isso, como muito poucos movimentos artísticos, a uma reflexão sobre a contaminação
do universo da lógica, da racionalidade e da atividade produtiva, portanto, do trabalho,
pelo universo do lúdico.

As incursões de Dada no universo sério e adulto da política, sobretudo na Berlim da


transição entre o Império e a República de Weimar, suas performances e happenings
políticos, constituem o exemplo mais acabado de demonstração do caráter performático,
teatral e farsesco das cerimónias e dos eventos políticos (proclamações, homenagens,
rebeliões, insurreições, cargos e funções).2 A aproximação da política com o mundo
infantil promovida por Hausmann e Baader na proclamação da República Dadaísta, ou na
auto-nomeação de Baader como presidente do globo terrestre resulta em uma inversão
curiosa: o sério é desnudado e aparece sua natureza lúdica e o lúdico deixa entrever a
sua profunda seriedade. Não é por acaso que os dadaístas berlinenses deram nome ao
seu terceiro jornal (após a proibição dos dois anteriores) Der blutige Ernst (A Sangrenta
Seriedade, brincando com a expressão alemã idêntica, usada para

2
Ver o capítulo "Ação, ação..." de Dadá-Berlim. Dês/Montagem, São Paulo: Annablume,
1984.
59
expressar o superlativo da seriedade). Na categoria do lúdico inscrevem-se quase todas
as ciações dadaístas, desde a poesia fonética até as revistas de tipografia caótica, das
colagens até as assemblages, das nomeações com títulos honoríficos até as soirées
antiliterárias. A incursão do lúdico no universo sério e adulto da arte foi perpetrada
sistemática e reiteradamente.

"No princípio era dada." (R. Hausmann)

A palavra Dada nasce de uma brincadeira. Hugo Ball precisa de um nome artístico para
Mme. LeRoy, cantora que vai se apresentar no recém-fundado Cabaret Voltaire. Abre ao
acaso o Petit Larousse e esta palavra salta-lhe aos olhos: Dada. E o movimento todo
passa a se chamar Dada. O significado da palavra pouco importava. Era justamente
"cavalinho de pau", o nome de um brinquedo! Depois foram sendo encontrados, nas mais
diversas línguas, outros significados da mesma palavra: tia, ama de leite, rabo da vaca
sagrada etc. Fazia parte do brinquedo: primeiro inventa-se o objeto, a palavra, depois
encontra-se o seu possível uso ou seu significado. Disse Raoul Hausmann, dadaísta
berlinense, "no princípio era dada" (Hausmann, 1971).

O caráter infantil (ou regressivo) de Dada torna-se evidente (Cf. Baitello, 1987:68) no
princípio formador de palavras como "dada": provavelmente as suas raízes se situam em
épocas mais recuadas do que podemos imaginar e já com um forte teor infantil, devido ao
fenómeno da reduplicação silábica, procedimento infantil por excelência. Assim, já na
língua indo-europeia a palavra dhedhe designava em linguagem infantil os membros
familiares mais velhos e a palavra dhe significava mamar.

60
O utensílio e o inuntensílio

Com este grau de saturação em elementos e significados infantis, não é de se espantar


que o movimento Dada se permitisse todo género das mais espetaculares travessuras e,
por isso, ofereça material amplo para reflexão sobre a intersecção entre infantil e adulto,
sobre a necessária compreensão da presença do brinquedo na cultura adulta e da cultura
no brinquedo. A adequada decodificação do lúdico não passa, portanto, pela
dicotomização entre infantil e adulto, mas sim, conforme propõe Bateson (1985:251), é no
lúdico que nasce a importante capacidade da metacomunicação:

(...) que o jogo/brinquedo significa um passo adiante na evolução da comunicação — o


passo decisivo na descoberta das relações mapa-território. No processo primário mapa e
território são equiparados; no processo secundário podem ser diferenciados. No jogo/
brinquedo serão tanto equiparados quanto diferenciados.

61
62
VI - DADA E A DESTRUIÇÃO DE CÓDIGOS CULTURAIS

63
64
Quando observamos as manifestações do movimento dadaísta em seu desenvolvimento
berlinense, constatamos uma forte presença de elementos da imprensa. Sobretudo a
publicação de jornais, a utilização de materiais impressos como cartazes e panfletos e o
emprego de modernas técnicas da propaganda via imprensa escrita constituem o
principal acervo de obras legado pelo Dadaísmo berlinense ou, no mínimo, o que melhor
caracteriza este movimento em Berlim. Esta paixão pelo impresso, por seus elementos e
por suas técnicas, indisfarçável no caso dos berlinenses, possui, por um lado, um
pretexto histórico: Berlim, se afirma no século XX como capital política da Alemanha e se
torna o mais importante centro cultural de fala alemã da Europa, suplantando a fértil
Viena do fim do século passado. Como tal, a imprensa berlinense passa nas primeiras
décadas deste século por um rápido desenvolvimento a ponto de apresentar em 1914,
ano em que inicia a Primeira Guerra Mundial, os seguintes números:

30 jornais diários matutinos


10 jornais diários vespertinos
ca. de 50 jornais de bairro. (Mendelssohn,1982)

65
Se, por um lado, a referência histórica mais imediata justifica a preocupação dos
dadaístas berlinenses com a imprensa e seus desdobramentos, por outro lado não
esclarece o fenómeno Dada em sua versão berlinense enquanto código artístico
particular.

É da junção deste dado com o da análise de procedimentos na feitura das obras que
chegaremos às hipóteses a serem consideradas.

O princípio "montagem/desmontagem"

Sempre que os dadaístas de Berlim construíam suas obras, obedeciam necessariamente


ao princípio da montagem. Isto é uma lei Dada. A montagem, bem como a colagem,
reúne elementos por mera justaposição paratática sem a presença de signos
ordenadores, de hierarquização ou de simples conexão. E pressupõe uma atividade
anterior à da montagem propriamente dita: a desmontagem ou o recorte de elementos
isolados, retirados de seu contexto original onde possuíam uma função dentro de uma
determinada hierarquia de regras que constituem um determinado código cultural.
Retirados pois deste sistema, os elementos não vão se constituir em nenhum discurso
análogo ao original senão num discurso completamente diverso, no qual a referência ao
processo de ruptura ocorrido vai se constituir em marca fundamental.

A escrita: vitória sobre a morte

A perpetuação do corte, da ruptura, da quebra, possui uma intenção significativa e,


presente sobretudo nas revistas e jornais, bem como nas composições tipográficas de
manifestos e panfletos, cria uma constelação especialmente significa-

66
tiva para o nosso século, em suas primeiras décadas. Os números anteriormente citados
de jornais da cidade de Berlim apontam para a solidez e estabilidade de um código
cultural que desde alguns séculos vem se impondo como necessidade fundamental para
o desenvolvimento social e económico: a escrita impressa, a palavra impressa
mecanicamente em papel e que vai possibilitar o desenvolvimento de formas escritas
rápidas como os jornais e as revistas.

Ora, a principal marca deste código cultural é a ampliação da esfera de ação da escrita
enquanto desejo de perenidade. A escrita consegue aquilo que o homem em sua
existência física jamais logrou: sagrar-se vencedor perante a morte. E aquilo que na
natureza não é possível, é passível de criação artificial pelo mecanismo semiótico da
cultura.

Assim, com este lastro simbólico de perenidade, a escrita — desde suas mais
rudimentares até suas mais modernas versões — tradução perene dos ícones visuais e
sonoros efémeros, vai servir de fundamento para o desenvolvimento coerente da cultura
humana, vai se tornar ela própria seu código genético, substituindo a oralidade dos mitos
e assumindo, por conseguinte, seu caráter sagrado.

Dada se insurge contra a escrita

Dadá-Berlim, a versão mais madura e acabada de todos os movimentos Dada, retoma as


investidas dos dadaístas de Zurique contra a palavra escrita, materializadas nos poemas
fonéticos de Hugo Ball, e as estende ao seu mais moderno, onipotente e onipresente
veículo até então: o jornal. O autonomeado Dadá-Supremo, Oberdada constrói sua obra
"Manual do Dadá-Supremo" a partir de colagens e montagens com folhas de jornal e
cartazes. Também sua hiperproporcional assemblage exposta na Feira Dada
Internacional, realiza-

67
da em Berlim em 1920, o "Grande Plasto-Dio-Dadá-Drama" não dispensa a presença
ostensiva de jornais diversos. O poeta optofonetista autonomeado "Dadásofo" Raoul
Hausmann constrói suas colagens a partir de recortes de jornal. O grupo todo dos
dadaístas berlinenses, desde George Grosz a Richard Huelsenbeck, de John Heartfield a
Franz Jung, de Hausmann a Baader, de Wieland Herzfelde a Walter Mehring, tem
participação ativa na edição dos jornais dadaístas de Berlim, dentre eles o excepcional
Jedermann sein eigner Fussball (Cada um é sua própria bola de futebol). E Dadá-Berlim
foi o único dentre os numerosos epicentros Dada que produziu jornais. Mais conhecido
por sua faceta político-partidária, Dadá-Berlim é frequentemente esquecido em sua
pluralidade e fecundidade artística. Contribuem ainda para a pouca atenção prestada a
este movimento os fortes traços de incompreensibilidade de seus textos,
incompreensibilidade provocada em altíssimo grau pela radicalidade como é tratada a
tipografia, moderna materialização da escrita. Em suas revistas, em seus panfletos, em
sua propaganda, em seus jornais, Dada é, em primeira instância, um exercício constante
de desafio da tipografia e, por conseguinte, da escrita, por meio de sua iconização, seja
ela sonora ou visual.

Iconizar a escrita

Iconizar a escrita significa, por um lado, resgatar suas origens arqueológicas, sua
dimensão mítica e sacra enquanto imagem visual; por outro significa recuperar aquilo que
ela substituiu: a oralidade. Enquanto as obras dadaístas impressas trabalham com o
primeiro aspecto, os poemas fonéticos atualizam o segundo, transformando a palavra em
mera musicalidade, em tatibitate infantil onde o referente não é identificável. O dadaísta-
mor Hugo Ball já tinha consciência disto na

68
primeira hora de Dada ainda em Zurique. Escreveu em seus diários:

A língua como órgão social pode ser destruída sem que o processo criativo tenha que
sofrer com isto. Sim, parece que as forças criativas até saem ganhando.
(Escrito em 16/8/1916) Hugo Ball (1931).

Ainda o próprio Ball afirma:


A palavra e a imagem são uma só coisa. Pintores e escritores pertencem à mesma
categoria. (Anotado em 12/5/1916) (Hugo Ball, 1931:99).

Iconizar a palavra escrita significa assim, além de destruir-lhe a dimensão pragmática,


recuperar sua dimensão mágica, lúdica.

Portanto, a brincadeira de Dada com a tipografia possui implicações culturais profundas,


redimensionando os fundamentos de todo um macrocódigo cultural com o qual a escrita
se relaciona de forma múltipla: pode ser vista como fruto deste código assim como pode
ser vista como uma de suas sementes. Indubitável é, contudo, que ela o simboliza
excelentemente.

As origens da escrita: a sagrada economia

Modernas investigações apontam que as origens da escrita não se situariam na esfera do


sagrado, mas nas necessidades da atividade económica (Goody, 1987). Mesmo que a
escrita em seus primórdios tenha sido executada por sacerdo-

69
tes, os registros remanescentes apontam para a contabilidade dos templos muito mais do
que para os textos sacros. Tudo indica que este caráter sagrado vai se tornando uma
aderência da escrita apenas em tempos já menos recuados. De qualquer forma, por suas
características físicas em seus primórdios —registro gravado em materiais perenes como
metal, pedra e cerâmica — transfere-se para a escrita a qualidade do material. Associada
ainda às esferas de produção — os sacerdotes em seus templos — e às esferas de
referência — os números e valores da contabilidade, a escrita reúne elementos
suficientes para uma leitura rica em metáforas.

Dada numérico: a conquista da mortalidade

Na primeira página da primeira revista dadaísta berlinense, DER dada (1919) aparece um
curioso texto numérico de Hausmann e Baader, "dadadegie". O mesmo trabalho
tipográfico realizado com as letras transfere-se aqui para os números. A dimensão lúdica
presente na atividade demolidora de Dada aproxima dois pólos de uma unidade central
dos códigos culturais segundo Ivan Bystrina (1983). A percepção humana tende a
polarizar os fatos da natureza, culturalizando-os. Assim, dois momentos distintos de uma
sequência de eventos bioquímicos são classificados pelos mecanismos semióticos da
cultura como pólos opostos "nascimento e morte". A própria cultura elabora mecanismos
de superação para estas dualidades, criando mitos, rituais mágicos e similares. A escrita
pode ser vista como um destes artefatos culturais de superação do inexorável, se
compreendida como texto cultural. Quando colocada em questão pelo Dadaísmo por
meio do procedimento regressivo da iconização oral e imagética, não se trata de uma
negação pura e simples de um código cultural, senão do resgate de algumas de suas
dimensões arqueológicas, do mági-

70
co, do mítico, do lúdico. Nas palavras de Hugo Ball, em 1916: "Despir o ego como um
paletó furado". (Ball, 1931:44).

Na esfera da cultura, compreendida como fenómeno semiótico, pode-se dizer, com base
no exemplo de Dada, que a demolição de um código resulta na ampliação de seus
limites. Assim, o projeto de Dada não se resume a um descoordenado e caótico conjunto
de atitudes e obras nihilistas, mas, visto pelo ângulo semiótico cultural, um código
artístico de profunda abrangência e coerência.

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72
Parte II – COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA DA MÍDIA

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I - A CODIFICAÇÃO DO PRESENTE
TESES PARA UMA ARQUEOLOGIA DO TRABALHO JORNALÍSTICO

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Articular o presente

A articulação do presente é uma atividade tradutora. Ela pretende transpor o complexo


contínuo dos acontecimentos vivenciados, presenciados — uma linguagem que se
desenvolve em múltiplas e simultâneas dimensões e direções — em um objeto temporal
e espacialmente delimitado, circunscrito, vale dizer, em um texto (seja ele verbal,
fotográfico, fonográfico, videográfico ou outro qualquer). Esta tradução pressupõe, no
sentido benjaminiano, conforme a leitura de Haroldo de Campos, uma tarefa (Aufgabe)
dupla e paradoxal: por um lado uma obrigação, um comprometimento, por outro, uma
renúncia (Campos, 1990). As dificuldades dessa operação paradoxal dependem, por um
lado, do grau de vivência e percepção e envolvimento da contemporaneidade como
complexidade, por outro, do grau de aceitação da complexidade dinâmica dos
mediadores sígnicos que operarão as traduções, as codificações. O conhecimento destes
dois momentos de forças paradoxais e sua dinâmica, por um lado expansiva, por outro,
retrativa, é de importância fundamental para a compreensão da atividade jornalística
como tradução. Há nesta operação tradutora uma transposição temporal e uma trans-

77
formação espacial, nas quais se perdem e se ganham informações distintas.

A simultaneidade

O contemporâneo apresenta-se como rede na qual os acontecimentos se desenvolvem


indissoluvelmente vinculados ao seu contexto. Nada se dissocia de nada, tudo se associa
a tudo. A causa se transforma em caso e inaugura com isto uma reação em cadeia da
qual o receptor participa com sua presença, com sua percepção, com suas emoções.
Acontecimento e percepção do acontecimento são neste momento temporalmente
inseparáveis. O contemporâneo destrói a temporalidade; resta apenas a simultaneidade
como elo que liga o que passou com o que está por vir. Os pólos opostos do tempo se
fundem e a polaridade negativa, dominante e ameaçadora (Cf. Bystri-na, 1989:88-89)
impera irresistível na forma do perigo potencial do presente. A representação icônica da
simultaneidade — e portanto do presente — é a colagem. Seus principais procedimentos
são ocultamente, corte e intersecção. Portanto procedimentos de essência negativa.

O envolvimento

A simultaneidade envolve. Diante dela é impossível comportar-se com indiferença, é


impossível escapar de sua tatilidade. Se não for por causa de sua complexidade, a qual
nos submete perplexos, então será por causa da insegurança que ela provoca. A simples
possibilidade de um perigo surpreendente, que nela se esconde, mobiliza mecanismos de
defesa tanto biológicos quanto sociais e culturais. Ela obriga ao alerta e à vigília, porque
imprevisível. E sua imprevisibilidade nasce de sua diversidade material e semiótica. A
diversidade envolve e mobiliza porque desafia e surpreende sempre.

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A paralaxe

A partir da paralaxe de todos os desenvolvimentos de uma rede simultânea de


acontecimentos, é a partir daí que nasce a diversidade do contemporâneo; esta ganha
corpo porque nada pode ser anulado, tudo é igualmente importante e desimportante ao
mesmo tempo. Estas são as prescrições da paralaxe. Elas possibilitam a multiplicação
infinita dos componentes materiais e das possibilidades codificadoras e decodificadoras
do presente, porque a paralaxe não conhece nenhuma seleção. Ela cria a
indiferenciação, porque abole todos os outros princípios. Seus principais vetores são a
espacialidade indiferenciada (Gleichràumigkeit), a temporalidade indiferenciada
(Gleichzeitigkeit) e a indiferenciação dos valores (Gleich-wertigkeit).

Simetria de valores

Com base na ordenação paratática, a simultaneidade não oferece indícios para a solução
futura da diversidade rica em conflitos. O negativo potencial e o positivo potencial são
simétricos. A paralaxe dificulta toda prognose, seja ela positiva, seja ela negativa, porque
não se posiciona diante de nada e porque não suprime nada. O bem e o mal coexistem
lado a lado. A valoração simétrica só faz acentuar a inquietação e a insegurança,
sentimentos do vazio por excelência. A exacerbação do espaço da simetria, a sua
desmedida dilatação, gera também a desmesura do vazio exacerbado de apenas
possibilidades simétricas, ao qual denominamos pânico. Conforme Peter Sloterdijk, "o
descontentamento atual com o mundo revela sem dúvida traços pânicos" (Sloterdijk,
1990:94). Quanto mais febrilmente o trabalho da cultura traduz as linguagens paratáticas
dos acontecimentos presentes, mais cresce o seu domínio, com suas simetrias geradoras
do pânico.

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Lidar com o contemporâneo, produzir culturalmente o presente.

Toda cultura humana desenvolve mecanismos e procedimentos para lidar com a


insegurança e a incerteza do caos das simetrias da contemporaneidade. Juntamente com
todos os outros tipos de produtores de textos culturais, o sistema de transmissão de
notícias não é outra coisa senão o resultado de um desenvolvimento daqueles
mecanismos e procedimentos culturais de textualização. Lá onde a complexidade do
acontecimento em seu presente dificulta ou impossibilita a compreensão, o homem lança
mão de processos codificadores que, por sua vez, se compõem de procedimentos
desenvolvidos ao longo da história cultural do próprio homem.

O procedimento da delimitação

O primeiro passo para a saída da complexidade caótica do presente rumo à construção


de textos culturais é oferecido pelo procedimento da delimitação. E isto significa
primeiramente a presença de fronteiras (espaço-temporais) nitidamente delineadas, por
exemplo, começo e fim, forma definida, género etc. (Cf. Lotman, 1973: 87-90); em
segundo lugar, o texto deve se estruturar dentro de suas fronteiras de modo a ser
percebido como uma unidade carregada de significados, quer dizer, independente,
compreensível ou interpretável por si só e livre de indícios estranhos ao sistema
codificador: a coesão textual é dada pelos vínculos da lógica interna do texto. A
construção do texto seleciona tanto o ponto de vista, a perspectiva a partir da qual um
acontecimento é visto, como seleciona igualmente o próprio acontecimento, vale dizer,
seleciona um determinado momento dentro de um desenrolar pulsante. O sonho pode ser
visto como pré-modelo do procedimento da textualização (Cf. Bystrina, 1989: 245).

80
Igualmente o faz a atividade lúdica humana, textualizando, simulando realidades para as
quais estabelece as próprias regras.

O procedimento da hipotatização

Hipotatizar quer dizer introduzir ordens de grandezas, valorizar e desvalorizar, ampliar ou


reduzir, enfatizar ou linearizar, adiar e escamotear, apresentar nuances desde o mais
claro até o mais escuro, oferecer classificações sutis ou brutais, silenciar ou oferecer a
palavra. A hipotaxe não se intimida, não recua diante da possibilidade de mostrar
desigualmente o igual. Ela sempre sofre da falta de tempo e de espaço, e exatamente por
isso requer sempre mais tempo e sempre mais espaço. E porque sempre os tem a
menos, também está sempre ocupada em excluir a diversidade. Esta ocupa tempo e
espaço. A função central da hipotaxe consiste em extirpar a insegurança trazida pela
valoração simétrica. Ela trabalha a serviço do "verticalismo" (Pross, 1981:17), criando
referências sígnicas e campos simbólicos de força ao seu redor, concentrando,
hierarquizando, estimulando a lógica agonística das competições.

O procedimento da ritualização

Escreve Harry Pross: "Rituais fazem do homem parte de um todo, fazem-no 'participante'"
(1990). Uma vez que tanto a delimitação textualizadora quanto a hipotaxe têm como
tarefa interromper o fluxo umbilical com o todo, a ritualização tem de compensar este
isolamento, criando vínculos simbólicos. A ritualização promove uma simulação
simplificada do complexo espaço-tempo. Por isso precisa de uniformidade e regularidade.
A ritualização fornece o fundamento para a credibili-

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dade, sobretudo porque garante a previsibilidade do acontecimento, neutralizando assim
os temores. Nasce daí a sua enorme importância para a mídia. Os ritmos da vida e as
durações e regularidades astronómicas observadas pelo homem constituem apenas as
arquiimagens do procedimento da ritualização presente nos textos culturais.

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II – AMBIVALÊNCIA NA / DA MÍDIA: O HAITI E A CHUVA DE RÁDIOS

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84
Caetano Veloso, o apreciado cantor e compositor brasileiro, fazendo alusões às seguidas
crises políticas e à miséria sócio-econômica da república centro-americana do Haiti, canta
o refrão "o Haiti é aqui, o Haiti não é aqui". A mídia mundial escolhera o Haiti como um
dos centros de sua atenção e os versos do cantor resumem a natureza ambivalente das
notícias, seu mais arcaico fundamento: a sua transposição para o texto e, portanto, para
a memória cultural, cria dispositivos de aproximação e identificação de opostos.

A informação de paraquedas

Um dia do ano de mil novecentos e noventa e quatro haverá de entrar para a história das
comunicações mundiais como o dia em que choveu aparelhos portáteis de rádio. Já
faziam parte da história recente chuvas de pacotes de manteiga, no episódio comovente
do bloqueio de Berlim, no imediato pós-guerra, denominado poeticamente pelos
berlinenses de "bombardeios de uvas-passas". Já se conheciam chuvas de
medicamentos, chuvas de víveres e até já houve chuva de roupas contaminadas com
vírus de varíola para dizimar populações indígenas.

Mas chuvas de rádios aconteceram pela primeira vez

85
na história, não aqui, nem na Europa, mas no Haiti, por obra de algum genial estrategista
de guerra do porte de um Von Clausewitz. Distribuem-se presentes à população de um
desagregado Haiti com uma dupla carga: por um lado, um presente do mundo
industrializado, amostra-grátis das maravilhas da tecnologia, da "civilização e do
progresso", com todas as conotações vinculadoras de um presente, um prémio. Por outro
lado, uma fonte de informações, vínculo ainda mais efetivo, dissolvendo resistências,
incertezas, medos e outros sentimentos congéneres quanto a uma iminente invasão de
seus agentes. A operação comunicativa perfeita conjuga informação não-verbal,
performática, sobre a qualidade dos invasores (que dão presentes generosos), com
informação verbal sobre a necessidade da invasão que, segundo a óptica dos invasores,
passa a ser uma (também generosa!) acolhida, um agregar. A informação que chega aos
acuados e amedrontados haitianos, portanto, duas vezes, pela dádiva e pela palavra
(diametralmente oposta àquela que atinge os cubanos), é de que serão finalmente
agregados ao "mundo da informação".

Agregar e segregar Das palavras e dos rebanhos

A história que se esconde por detrás das palavras nos traz muitas vezes grandes
surpresas. Assim, por exemplo, nas palavras acima "agregar e segregar", abrigam-se
dois conceitos diametralmente opostos, mas um único e misteriosamente indissociável
coração, uma só alma. Desde o latim grex, gregis a língua veio trazendo, ao longo de
muitos séculos, as duas palavras (e ainda outras da mesma família como "gregário", e
"congregar"). Mas nos esquecemos, talvez há muito, de que o sentido original da palavra
latina é exatamente "rebanho". Por-

86
tanto nascem do próprio conceito de coletivo as duas operações opostas de agregar, com
o sentido de acolher, e de segregar, com o sentido de separar, discriminar, marginalizar.

Pode parecer contraditório, mas um rebanho ou um cardume, ou um agrupamento social,


portanto, uma sociedade, se constitui não apenas agregando, mas também segregando.

As investigações contemporâneas em diferentes áreas do saber tem procurado


compreender melhor este fenómeno, a verdadeira porta de entrada (e saída) dos
agrupamentos sociais, o momento em que nascem os códigos da comunicação (um
fenômeno de natureza inegavelmente social).

Distância e proximidade

Agregar e segregar constituem portanto as duas mãos de direção de uma operação


construtiva que se funda em processos de emissão e captação de sinais, em trocas
informacionais que vinculam ou desvinculam. E "vincular" significa aqui "ter ou criar um
elo simbólico ou material", constituir um espaço (ou um território) comum, a base primeira
para a comunicação. Um dos exemplos de investigação sobre os fundamentos
constitutivos de sociedades animais (e suas inegáveis bases comunicativas) é trazido
pela etologia. O cientista do comportamento Irenäus Eibl-Eibesfeldt, em uma comparação
entre os outros animais gregários e o homem, afirma a respeito dos agrupamentos:

Em geral esses grupos são fechados, vale dizer: os membros do grupo se conhecem
entre si e negam a entrada aos estranhos. A tendência a guardar distância atua
contrariamente ao impulso de buscar os seus iguais e a travar um laço de amizade.

Também o homem vive nesse campo de tensões entre o

87
amor e o ódio, onde o impulso para travar conhecimento com seus semelhantes e a
estabelecer relações amistosas é tão forte que mesmo na guerra as partes beligerantes
se intercambiam às vezes cigarros e param de atirar uns nos outros. Quando se dá esta
inversão de valores na guerra, fala-se então de uma desmoralização da tropa.
(Eibl-Eibesfeldt, 1973:175).

"Campo de tensões entre o amor e o ódio": a ambivalência primordial da informação.

Do campo de tensões à informação

Aquilo que o etólogo Eibl-Eibesfeldt detecta, em seus estudos sobre a constituição das
sociedades (humanas ou não), como "campo de tensões entre o amor e o ódio" apenas
se dissolve na constituição dos chamados "rituais de vínculo". É este o campo da
informação emergente: nesta passagem das tensões para as vinculações transformam-se
a incerteza, a instabilidade e a insegurança em informação. Segundo Attneave (apud
Nóth, 1990:142), informação é "that wich removes or reduces uncertainty".

Contudo, demove-se a incerteza, mas sobrevive a sua memória sob as formas da


ambivalência, a ambivalência primordial que precede o caminho seguro e regulamentado
da informação; o atraente campo da novidade, do misterioso, do desconhecido e da
ameaça constitui portanto o preâmbulo para o surgimento dos sistemas de informação,
dos códigos da comunicação social. É deste campo de tensões que nasce a informação
que, por sua vez, viabiliza a geração e a organização das comunidades e das
sociedades, complexos organis-

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mós compostos de indivíduos vinculados entre si pelos múltiplos laços da comunicação: é
a troca da informação que cria aquilo que chamamos de comunicação.

Ritualização das tensões e congelamento das ambivalências.

Uma vez que a informação, e com ela a comunicação, nascem de um campo de tensões,
de uma situação de incerteza, insegurança e indefinição (tanto que, primordialmente, os
vínculos comunicativos têm de ser ritualizados para que lhes sejam aplacados os teores
da incerteza), os resquícios desta ambivalência, de onde a informação nasce, tornam-se
permanentes. Assim, regulamentam-se os vínculos, criam-se as "ruas" por onde deve
circular a informação de mão única, unívoca, nascem os códigos, mas nem por isso
apagam-se da memória social (e cultural) as lembranças anteriores, do campo de
tensões onde conviviam amor e ódio, vida e morte. Congelam-se, sob a forma de
memória, as ambivalências primordiais para as quais Sigmund Freud (1982:227-234)
tanto chama nossa atenção: no trabalho do sonho, como nos mais desavisados
equívocos cotidianos ("os atos falhos"), nas falas negativas de justificações e
esclarecimentos, em todos eles o "não" também quer dizer "sim" e o "sim", velada
negação. O sentido de uma polaridade não se dissocia de seu oposto.

"Agon", o jogo de sedução e a luta pela vida

Assim, o "campo de tensões entre o amor e o ódio", que abriga os mais diversos matizes
de vinculação entre estes dois pólos extremos, por exemplo, a solidariedade, a simpatia,
o companheirismo, a concidadania, a rivalidade, a inveja, a traição, a antipatia e muitos
outros, quando se transfor-

89
ma em território demarcado torna-se um "texto da cultura", comunicativo e comunitário,
com regras estabelecidas, com fronteiras demarcatórias de começo e fim. Nem por isso
deixa de ser ambivalente e tenso, transformando o espaço da informação em desafio
permanente, em constante embate, lúdico sim, porém agônico (no sentido que Roger
Caillois, 1990, dá a um tipo de jogo ou brinquedo, o jogo de "agon", a competição que
simula a luta constante pela sobrevida). Mesmo a mais acirrada competição, mesmo a
guerra, almejando a destruição física de indivíduos para agregar comunidades ou seus
bens (materiais ou simbólicos), exerce um fascínio irresistível sobre aquelas sociedades
da informação ritualizada e regulamentada. E quanto mais ritualizada e regulamentada,
maior a sedução pelo espírito desafiador de "agon" e sua força desagregadora.

"A desmoralização da tropa"

Especulam os órgãos da mídia, chamados órgãos da informação, que uma possível


invasão do Haiti traria ao governo norte-americano e seu representante maior, Bill
Clinton, índices mais significativos de popularidade. É necessária a criação de novos
conflitos, desafios e incertezas. Novos conflitos geram novas informações. A informação
nova alimenta as relações comunicativas, portanto, os vínculos simbólicos dentro de uma
comunidade. E a impopularidade, baixa aceitação, internamente a uma comunidade onde
a informação é eficientemente regulamentada é indício de desgaste nas suas relações
comunicacionais, nas amarras simbólicas que mantêm "o moral da tropa". Quando as
relações comunicativas se encontram enrijecidas pela excessiva regulamentação ou por
algum tipo de ritualismo imobilista (exemplos: censuras, interdições, burocracias,
cerceamentos sim-

90
bólicos ideológicos ou religiosos). Lá onde morrem as ambivalências, sucumbem as
raízes da informação. Nesse momento torna-se necessário buscar fora o desafio, a
incerteza e o risco. Sobretudo quando o Haiti é logo ali. Porque "o Haiti é aqui, o Haiti não
é aqui."

91
92
III - MÍDIA, TEMPO, ORDEM, SINCRONIZAÇÃO

93
94
"O útero do tempo"

O antropólogo norte-americano Ashley Montagu toma emprestada de William


Shakespeare a expressão "o útero do tempo" para o segundo capítulo de seu magnífico
livro sobre o significado da pele humana, de nome Tocar (Montagu, 1988). Neste capítulo
desenvolve a tese de que o recém-nascido humano é trazido à luz em condições
extremamente precárias, dependendo de uma segunda gestação extra-uterina para
sobreviver. Ainda segundo Montagu as espécies que dão à luz seus filhotes em um
rápido parto, os mamíferos não humanos, p.ex., precisam estimulá-los tatilmente — na
maioria dos casos lambendo-os — para dar um impulso inicial ao funcionamento de
alguns sistemas orgânicos, como o respiratório, o excretor, o circulatório e o nervoso.

Os seres humanos, apesar da dificuldade do parto provocada pelo estreitamento da pelve


trazido pelo andar ereto, não são diferentes de seus companheiros da classe Mammalia:
os inúmeros experimentos e estatísticas relatados por Montagu atestam a importância da
estimulação tátil do bebê para seu perfeito desenvolvimento físico e afetivo. Esta
estimulação, que, por força dos hábitos e preconceitos culturais,

95
nem sempre ocorre na intensidade desejável, constitui apenas o início da ação do "útero
do tempo", que continuará gerando o ser durante toda a sua existência.

Assim, a concepção da vida enquanto um tipo de estado fetal permanente do tempo


confere ao homem a natureza de um ser em constante mutação ou, ainda mais, em um
inacabado e interminável processo de fazer-se, de auto definição. Não é outro o sentido
da frase de Arnold Gehlen quando afirma que "der Mensch ist ein Mângelwesen" (o
homem é um ser composto de deficiências). Isto implica que a consciência de sua própria
fragilidade obriga a este ser sua permanente recriação de si mesmo, criando para tanto
um poderoso instrumento que se prestasse de útero de suas infindas gerações. Este é a
cultura; um conjunto de artifícios simbólicos, melhor ainda, um sistema simbólico que
abriga o homem e sua complexa natureza, após seu nascimento, a um tempo moldado e
moldador de uma rede interativa de grupos sociais em escala diversa, desde a familiar
até a escala planetária. Este sistema simbólico — como todos os sistemas de símbolos
— está sujeito às transformações solicitadas pelas necessidades de seu criador e
usuário. A uma de suas amarras, esteios, princípios ordenadores damos o nome de
tempo. Montagu, em uma outra obra, Man: His First Two Million Years (traduzido
modestamente para o português como Introdução à antropologia), nos oferece a feliz
formulação:

O processo de criar, transmitir e manter o passado no presente é cultura — a capacidade


que o semanticista norte-americano Alfred Korzybsky denominou vinculadora do tempo.
As plantas vinculam substâncias químicas, os animais vinculam o espaço, mas só o
homem é capaz de vincular o tempo.
(Montagu, 1977:131)

96
Na verdade poderíamos ampliar e flexibilizar a definição de cultura de Montagu de "criar,
transmitir e manter o passado no presente", acrescentando diferentes combinatórias, a
meu ver todas elas reais:
"criar, transmitir e manter o presente no passado e no futuro" e
"criar, transmitir e manter o futuro no presente e no passado".

A flexibilização da definição de Montagu é necessária se levamos em conta a natureza


simbólica do tempo, conforme a visão do sociólogo Norbert Elias. Vejamos então em
primeiro lugar quais implicações nos traz esta natureza semiótica, para, em seguida,
retomarmos o tema da inversão vetorial do tempo.

A ordem dos símbolos, os símbolos da ordem

A cada uma destas operações sincronizadoras acima mencionadas corresponde um


sistema comunicativo ordena-dor dentro das sociedades humanas. Sistemas
comunicativos têm sempre a função ordenadora dentro das sociedades: os símbolos
regulamentam relações, convencionam significados e valores e portanto estabelecem
ordem, tecem relações (ordinare, no latim significa, entre outras coisas, colocar os fios de
um tecido em sequência). Para que o tecido social com suas múltiplas funções sobreviva,
é de fundamental importância que exista e também funcione perfeitamente o tecido
comunicativo que une os indivíduos entre si, formando um amplo sistema de símbolos
ordenadores. Assim, a cultura, enquanto sistema comunicativo tem como principal função
a de ordenar as informações de uma sociedade. E ordenar implica criar ritmos para

97
estas informações, ritmizar em concordância com as ritmicidades observadas na própria
vida.

Erich Lenneberg aponta em seu livro Biological Foundations of Language (Fundamentos


biológicos da linguagem) que:

É conhecido de há muito que a ritmicidade do cérebro dos vertebrados, observada em


toda parte (Bremer, 1944; Holst, 1937) ou em geral do tecido nervoso central (Adrian,
1937; Wall, 1959) é o verdadeiro motor para muitos movimentos rítmicos encontrados
entre os vertebrados. Se nossa hipótese estiver correia, o mecanismo motor da fala (e
provavelmente também da sintaxe) não constitui exceção desta regra geral e, neste
sentido, a língua não seria diferente dos outros modos de comportamento animal. No
homem, contudo, o motor rítmico serve a uma atividade altamente especializada, qual
seja, a da língua.
(Lenneberg, 1972:151).

Assim, falar da ritmicidade do comportamento e da linguagem é o mesmo que falar da


ritmicidade enquanto pressuposto dos processos comunicativos e portanto enquanto
pressuposto da organização social. Uma vez que comportamento já é linguagem, todas
as suas formas de manifestação têm como função primordial a criação de vínculos entre
indivíduos de uma mesma comunidade. Os vínculos somente são mantidos quando
regularmente alimentados, seja pela repetição, seja pela inovação informacional. O
suporte material, sensorial dos vínculos são os símbolos, criações das coletividades não
apenas humanas, mas também animais. Contudo a criação de símbolos — que por si já
constitui uma atividade

98
social de base, já que supõe um contrato arbitrado entre indivíduos — aliada ao princípio
da ritmicidade, arbitra também a sincronização das atividades produtivas materiais e
atividades simbólicas de uma sociedade. O mesmo contrato que constrói símbolos,
constrói, com base na ritmicidade, um complexo sistema simbólico que se chama
"tempo". Cria-se aí, nesta junção, o poderoso símbolo "tempo", que é uma projeção das
ritmicidades sobre a percepção do espaço, tão presente e aguçada em muitas espécies
animais.

O tempo como símbolo, como sistema simbólico, portanto, como texto cultural, passa a
desempenhar um papel de vital importância na organização das sociedades, mas
também de crucial complexidade e abstração, dada a sua natureza simbólica, vale dizer,
social e contratual, vale dizer, histórica. O sociólogo do saber Norbert Elias, em seu livro
ÚberdieZeit (Sobre o tempo), defende a tese de que a ideia de tempo é um conceito de
altíssimo grau de abstração. A sintetização deste conceito teve provavelmente um
elevado custo para as comunidades humanas, custo de uma longa aprendizagem e de
um dificultoso trabalho psicológico individual de ajustes e adaptações sociais. Sobre a
natureza simbólica do conceito de tempo Elias diz:

Tempo é (...) um símbolo deste tipo de sínteses apreendidas socialmente. Faz parte das
dificuldades de investigações sobre o tempo o fato de que os homens não têm
suficientemente claros para si próprios a natureza e o modo de funcionamento dos
símbolos desenvolvidos e permanentemente utilizados por eles mesmos. Assim, eles
correm sempre o perigo de se perder na selva de seus próprios símbolos. O tempo é um
exemplo. Os calendários criados pelos homens, bem como os mostra-

99
dores de relógios, são testemunhas do caráter simbólico do tempo.
(Elias, 1988: XXXIX)

Os símbolos necessitam de uma reiterada afirmação para que sejam eficazes; isto se dá
por meio da presença também reiterada de seus portadores materiais, de seus suportes,
e quando estes dão sinal de esgotamento, pela sua substituição por novos suportes. Os
suportes materiais de símbolos complexos como o tempo necessitam de uma alta taxa de
recorrência e permanência, apresentam portanto, igualmente, um índice elevado de
cansaço e desgaste. Suportes materiais do símbolo tempo são, por exemplo, os eventos
demarca-dores e memorativos, os calendários, as ritualizações, a moda, dentre muitos
outros.

Um dos mais importantes portadores materiais do sistema simbólico chamado tempo, um


dos seus suportes, é a atividade de geração, distribuição e conservação das informações.
Neste contexto desempenha papel de destaque em nossa contemporaneidade a
atividade da mídia, os meios de comunicação de massas: sistemas de notícias, desde a
sua geração até a sua chegada ao receptor, jornais, emissoras de rádio e televisão, redes
etc. Estes suportes atuam invariavelmente como demarcadores do tempo de vida dos
indivíduos, sincronizando suas atividades dentro de um todo maior.

"Navigare necesse est, vivere non necesse."

Neste momento retomamos a definição proposta por Montagu, de "criar, transmitir e


manter o passado no presente", flexibilizada pelo universo cultural do homem. A cultura
cria vetores temporais divergentes daqueles oferecidos pelas operações informacionais
presentes nas memórias dos siste-

100
mas vivos. É na segunda realidade do homem (Bystrina), ou seja, na realidade criada
pelo seu imaginário e pela sua capacidade de criar símbolos, que os vetores temporais
divergentes atuam. São eles, conforme vimos acima: a) criar, transmitir e manter o
presente no passado e no futuro; b) criar, transmitir e manter o futuro no presente e no
passado. A primeira transgressão ocorre quando se projetam textos, fatos e símbolos
presentes tanto no futuro quanto no passado. O que se vive e percebe agora altera
semioticamente a história passada e as expectativas futuras. A segunda transgressão
consiste na projeção das aspirações e anseios futuros sobre o presente e sobre o
passado.

Já que se trata de uma operação simbólica, tanto na definição de Montagu quanto na sua
ampliação e inversão aqui proposta, cada cultura pode definir o seu próprio padrão de
tempo. Há culturas voltadas para textos futuros. Há aquelas que se centram no presente
e seus textos. Também existem culturas que se fundam na memória e nos textos
passados.

A cultura voltada para o texto "futuro" é de tipo messiânico. Todo o seu passado e seu
presente são redimensionados em função da sociedade ideal que vai acontecer no futuro.
As culturas que se centram no texto "presente" são marcadas pelo descarte da
informação histórica, tornada obsoleta pelas codificações consagradas por um
determinado momento. Os códigos se sucedem e se substituem com grande velocidade e
de maneira aparentemente pouco traumática. O novo já nasce condenado à
obsolescência, programada e presente no seu âmago. As referências históricas,
construídas no cadinho das experiências passadas, se perdem, sonegando com isto o
solo fértil para a vida do imaginário. As técnicas ditam as normas, a tecnologia se
confunde com o saber.

As culturas voltadas para o texto "passado" são aquelas heróico-míticas. Fundadas num
tempo memorável dos deu-

101
ses e heróis aos quais devemos a nossa existência e o nosso saber.
A sociedade midiática reúne traços preponderantes de culturas heróico-míticas e de
culturas centradas no presente. Por um lado descarta a informação apenas passado o
seu tempo imediato de veiculação, instaurando uma memória de tipo "curtíssimo tempo".
Por outro lado permite, no vácuo criado pela destruição do passado imediato, o
ressurgimento dos fantasmas de deuses e heróis, figuras que povoam as culturas
centradas no passado. Repare-se bem que as personagens heróicas presentes na mídia
diária como seu principal motor não representam senão aparições devidamente
recicladas.

O ritual nosso de cada dia

Para afirmar e reafirmar o símbolo "tempo", a mídia não apenas adota as imagens
calendárias e/ou cronológicas do dia, da noite, da tarde, do período, da jornada e do
jornal, da folha e da folhinha, como ritualiza suas aparições, suas formas e seus formatos,
acentuando-lhes a função sincronizadora. Abrir um jornal ou apenas percorrer os olhos
rapidamente sobre suas manchetes principais, sentar-se diante da televisão e assistir ao
noticiário, sentar-se no carro e ouvir os jornais matutinos constituem alguns dos rituais
mais resistentes deste século. Transformam-se os suportes, mudam os canais, as formas
e os horários, mas esta comunhão simbólica com o tempo permanece inalterada.
Assim a mídia, nos seus rituais informacionais — o que não exclui de maneira alguma a
informação ficcional — cria um pulsar rítmico reiterador do tempo. Segundo Harry Pross,
a função primordial da mídia é a de sincronizadora de uma sociedade.

102
IV - TEMPO RETROSPECTIVO E TEMPO PROSPECTIVO

103
104
Quando a ditadura militar no Brasil, depois de mais de vinte longos anos, deveria
terminar, com a eleição de um presidente civil, a mídia eletrônica interrompeu sua
programação normal poucas horas antes da posse do presidente com a notícia sobre a
sua repentina doença. Jornais, revistas semanais, rádio e televisão não veicularam nas
semanas que sucederam ao evento outra coisa que não fosse o relato crescentemente
pessimista sobre o estado de saúde e as sucessivas operações daquele que deveria ser
o iniciador de uma nova democracia no país. Páginas e páginas, horas e horas
anteciparam esta morte e a transformação de um político a rigor nada impecável em um
símbolo que se desenvolveu em um texto de alta complexidade presente em todas as
religiões, em todas as ideologias, em todos os sistemas políticos: a inversão de valores
gerada pela morte. Vale dizer, os limites naturais de fim e começo são invertidos no
mecanismo semiótico de criação dos símbolos. Todo começo tende a um fim, segundo os
processos vitais da natureza, segunda lei da termodinâmica. Contudo, no mundo dos
símbolos, nos processos semióticos, o que ocorre é o inverso: todo fim tende
inevitavelmente a um começo ou um recomeço.

Talvez tenha sido esta a razão da especial necrofilia da mídia brasileira naquelas
semanas de agonia e morte anunciada: a percepção dos limites extremos da vida evoca
em

105
cada um de nós a necessidade de inverter o limite desfavorável. Uma vez que começo e
fim demarcam estas fronteiras extremas de uma determinada unidade, persiste entre
ambos os pólos uma natureza comum, uma semelhança estruturai, uma certa identidade.
Começo e fim são semioticamente partes de uma única entidade.

Muito provavelmente já o homem primordial terá reconhecido linhas demarcatórias de


durações e criado respectivas designações simbólicas para elas, fossem estas
fenómenos da natureza externa ao homem, fossem elas manifestações do próprio
homem. Até mesmo no desenvolvimento ontogenético do homem, a percepção de fim é
registrada por uma das mais precoces manifestações linguísticas ou gestuais, na criança
que pretende expressar que algo acabou. Que o fim de uma árvore coincidisse com o
começo de uma cabana, o começo de um dia claro, com o fim da escuridão da noite,
exigia uma marca diferenciadora e identificadora e esta é colocada no percurso entre o
começo e o final. O percurso identifica a noite ou o dia e não seu começo nem seu final.
Estes permanecem dúbios e portanto ambivalentes. Uma fronteira.ou limite sinaliza um
estágio ou estado intermediário e está, por conseguinte, "contaminada" com ambos os
lados. Ela quer separar e exatamente por isso é obrigada a unir. E lá onde impera o
desconhecimento sobre um dos lados da fronteira, há a necessidade de inventá-lo por
meio de mecanismos simbólicos. Lá, onde não se sabe nada sobre o território de um
vizinho distante, existe a tendência a imaginar ficcionalmente sua aparência.
Morte de um homem, vida de um símbolo

"Símbolos vivem mais longamente que homens" escreve o cientista da mídia Harry Pross
nas suas memórias

106
(Pross, 1993:15). Símbolos encenam até mesmo uma solução para o problema da morte,
aplacam os medos e traumas provocados pela morte de pessoas queridas. Contudo, isto
somente acontece quando a morte é cercada de procedimentos indicativos de sobrevida,
eternidade, duração e temporalidade. Apenas quando é conferido à morte um caráter
ambivalente, somente aí ela significa um fim e sua continuação, mortalidade e
imortalidade ao mesmo tempo. O caráter ambivalente, a morte apenas o obtém dentro do
processo de simbolização e de textualização, ambos operações de natureza social.

Símbolos e textos, sistemas semioticos por excelência, são construções sociais.


Nas palavras de Lévi-Strauss, na sua introdução à obra de Mareei Mauss:
É da natureza da sociedade que se exprime simbolicamente em seus costumes e em
suas instituições; já as condutas individuais normais não são simbólicas por si próprias:
elas são os elementos a partir dos quais um sistema simbólico — que não pode ser
senão coletivo — se constrói.
(Lévi-Strauss, 1993:XVI)

Assim, o que um indivíduo sozinho não consegue resolver, uma comunidade pode
realizar. Até mesmo na esfera física isto é uma verdade, e apenas animais sociais
concretizam projetos verdadeiramente gigantescos. Por meio da vida social e da divisão
de funções, castores constroem diques, formigas devastam florestas, cupins demolem
prédios inteiros. Na esfera simbólica não é diferente: o social que gera os símbolos
permite a realização de projetos ainda mais colossais, aqui se atinge mesmo a dimensão
da utopia, conferindo materialidade histórica aos projetos do imaginário. Símbolos, no

107
entanto, nascem, vivem e morrem. Carecem assim do apoio e da confirmação reiterados
do coletivo para que possam ter sua credibilidade legitimada e mantida. Sem a
legitimação da sociedade eles retornam ao universo restrito da fantasia individual, e
deixam de ser símbolos. Assim também ocorre com o símbolo "morte".

Onipresença da morte

Uma vez que a morte está associada sempre à ausência de pessoas queridas, é também
sempre vinculada a sentimentos de dor e perda enquanto ela está presente, enquanto as
pessoas ausentes estejam simbólica e afetivamente presentes. Também por isso, porque
ela dói, busca-se permanentemente espantá-la para o passado, o que também quer dizer
recalcá-la para o futuro, pois cada procedimento de textualização tem seu preço: porque
os símbolos vivem mais tempo do que os homens, porque são construções sociais, são
obrigados a oferecer uma dimensão prospectiva e uma dimensão retrospectiva do tempo.
A dimensão prospectiva garante o contrato social chamado futuro. A dimensão
retrospectiva garante o lastro chamado história.

No começo era o fim

A morte como complexo de fim e começo, portanto, como símbolo e como texto cultural
desempenha um papel extremamente importante na conservação dos sistemas sociais e
culturais, pois ela comprova a sobrevivência simbólica que confere ao sistema a
credibilidade de que ele não pode prescindir.

Brincando com o título de um livro de Harry Pross, A

108
maioria das notícias é falsa (que por sua vez se baseia na frase do general Von
Clausewitz), poderíamos dizer que a maioria das notícias é mortal. Mais exatamente
teríamos de dizer que a maioria das notícias estabelece vínculos diretos ou indiretos com
a morte (com o medo da morte). Se elas relatam sobre catástrofes ou crises políticas e
económicas, eminências e personalidades, pessoas vivas ou mortas, em última instância
estão lidando com limites e fronteiras transpostas ou por transpor, estão refletindo as
possibilidades remotas ou iminentes de um fim, seja ele definitivo ou passageiro, seja fim
de uma unidade ou de uma parte, seja ele o fim de um todo. O caráter ambivalente deixa
aí a sua marca, atenuando a visão inexorável do tempo, revertendo sua direção única,
permitindo a retrospecção. Deste modo, a consciência da morte significa, portanto,
simultaneamente, tanto medo e rejeição como atração e curiosidade.

Morte e escrita

André Leroi-Gourhan afirma no seu livro As religiões da Pré-História que as inscrições


registradas nas ferramentas e objetos de ossos não possuíam uma função utilitária mas
decorativa e isto seria o indício de uma vida imaginativo-criativa do homem primordial. A
probabilidade de que esta manifestação da criatividade humana teria inspirado as formas
precoces de escrita é bastante grande. Não precisamos muito esforço para
comprovarmos que estas obras, juntamente com outras análogas como as pinturas
rupestres, sobreviveram aos seus autores. Simbolicamente representam, assim, não a
vitória sobre o sol, mas a vitória sobre a morte.

109
A escrita no jornal

As linhas fundamentais na escrita do jornal sem dúvida constituem uma mistura bem
dosada de horizontais e verticais. Algumas são predominantemente verticais outras
horizontais, não se conhecem a diagonal como dominante na escrita e na diagramação
jornalística. Não se pode questionar que estes símbolos, vertical e horizontal, em seu teor
mais profundo, em seu fundamento mais arcaico, equivalham a, respectivamente, "de pé,
de prontidão, vivo e acordado" e "deitado, dormindo, morto". Não é por acaso, portanto,
que, também em sua visualidade diagramática, a tensão entre vida e morte esteja
presente no jornal. Do encontro entre as duas instâncias, de sua confluência nascem as
figuras cruciformes mais diversas e a consonância mais profunda do Ocidente: nas
palavras de Paulo de Tarso "A letra mata, o espírito vivifica". Dietmar Kamper, em visita
ao ateliê do artista paulistano Rubens Matuck, diante do seu trabalho de caligrafias,
inverte as palavras de São Paulo: "O espírito mata, a letra vivifica". No jornal, em sua
qualidade de texto da cultura, portanto reino da ambivalência, confluem as duas direções
paradoxais, operam as duas verdades, sem exclusões.

110
V - O ANIMAL QUE PAROU OS RELÓGIOS: TEMPO E VIOLÊNCIA

111
112
Uma sociedade de cem milhões de anos

Em 22 de outubro de 1977 o entomólogo Robert W. Taylor teve uma pane em seu carro e
foi obrigado a parar no meio da noite em uma região inóspita da Austrália. Durante trinta
anos havia-se dedicado à busca de um exemplar vivo de uma espécie de formiga que
existiu sobre a Terra há aproximadamente 100 milhões de anos. Esta espécie, a
Nothomyrmecia, fora descoberta (e tivera sua idade comprovada) por meio de um
exemplar perfeitamente preservado dentro de um cristal de âmbar. O carro quebrado
obriga Taylor a acampar e, diante do vazio da noite, a buscar uma atividade. Farolete na
mão, o incansável pesquisador das formigas, presenteado pelo acaso, encontra não
apenas um exemplar mas toda uma colónia viva daquele mesmo fóssil.

Etólogos, biólogos, zoólogos e sociobiólogos perguntam-se a razão da longa vida na


escala evolutiva de espécies tão frágeis. Apenas uma resposta se apresenta plausível:
sua fragilidade é a sua força. Porque são frágeis certos seres vivos constituem
sociedades complexas e sofisticadas, capazes de executar tarefas gigantescas. Sua
complexa e refinada convivência social explicaria assim o enorme sucesso de espécies

113
como formigas, cupins, abelhas, vespas, dentre outras, no curso da evolução. A
biomassa dos insetos é três a quatro vezes maior do que a biomassa de todos os
vertebrados que vivem sobre a face da Terra.

Divisão do trabalho, simultaneidade e sistemas complexos

A simultaneidade das diferentes atividades de uma comunidade complexa somente é


possível por meio da divisão de trabalho: cuidar da cria, defender território, buscar
alimento e construir um ninho são tarefas que um só indivíduo pode fazer, mas cada uma
a seu tempo. E isto custa tempo! Uma comunidade social, entretanto, dá conta disso tudo
e muito mais, ao mesmo tempo. Divisão do trabalho e simultaneidade são, portanto,
qualidades de sistemas complexos, os quais contudo não surgiriam como tais sem uma
comunicação eficiente. Assim declara o entomólogo Bert Hõlldobler:

A divisão do trabalho naturalmente funciona apenas por meio de um bom sistema


comunicativo. Só assim podem ser integrados centenas de milhares de seres individuais
em um grande todo (...)

Qual tipo de linguagem proporciona a cada espécie de inseto o funcionamento adequado


de um sistema comunicativo, sobre isto o homem ainda sabe muito pouco, quase nada,
para que possa afirmar que a sua linguagem e a sua comunicação são melhores, mais
complexas ou eficientes do que a de outros animais. Todavia, não se pode dizer mais
hoje em dia que línguas sejam uma marca exclusiva do humano. Talvez exatamente por
causa de sua profunda ignorância a respeito

114
da comunicação de outras espécies, a ciência humana não tenha a menor ideia de onde
está armazenada a informação central de uma colónia de formigas. Quem dirige o Estado
das formigas, quem dá as ordens, o homem não pode ainda decifrar. Suspeita-se de uma
analogia com as células do cérebro que como células individuais são burras, mas aos
milhões, organizadas sincronicamente possibilitam o surgimento dos chamados
processos inteligentes. Simultaneidade e divisão do trabalho aparentam aqui ser o
mesmo que integração e sincronização, de maneira alguma equivaleriam a "poder" de
uma célula sobre outra, de uma formiga sobre outra.

O homem, a eterna juventude e o caráter destrutivo

O prolongamento biológico e social da infância e da juventude — com todas as suas


marcas, como o caráter lúdico e a criatividade — até idades avançadas e às vezes até o
final da vida — diferencia o homem dos outros primatas mais próximos, reflete o
pensador Edgar Morin sobre o processo chamado de "juvenilização" do homem, processo
que contamina a vida adulta com traços de infância e juventude: prazer pelo jogo, pela
experimentação, curiosidade, eterna busca por novidades, necessidade e capacidade de
continuar aprendendo são alguns dos seus aspectos. A crescente quantidade de
informações que uma geração tem a ensinar a outra provoca durações escolares,
educacionais e de instituições de preparação do indivíduo, também crescentes.
Com as durações escolares alongadas inevitavelmente provoca-se a dilatação do tempo
da transgressão, antes restrita à idade juvenil. O ritmo das transformações e mudanças
sociais é assim acelerado pelo caráter lúdico, o qual, por sua vez, necessita sempre de
mais espaço para o novo, espa-

115
ço que precisa ser aberto no seio do mais instituído, às custas de demolições. A
juvenilização também é, portanto, destrutiva. E quando se transforma, além de processo
social, em culto, pode trazer cenários verdadeiramente devastadores, tal qual aponta o
visionário Walter Benjamin em seu ensaio sobre "O Caráter Destrutivo":

O caráter destrutivo é jovem e alegre.(...) O caráter destrutivo não vê nada duradouro.


Mas exatamente por isso vê caminhos por toda parte. Lá onde outros se deparam com
muros ou montanhas, também lá ele vê um caminho. Mas porque ele vê um caminho em
toda parte, em toda parte tem que desocupar o caminho. Nem sempre com violência
bruta, às vezes com violência lapidada. Porque em toda parte vê caminhos, está, ele
próprio, sempre em encruzilhadas. Nenhum momento pode saber o que o próximo
momento trará. O que está de pé ele deita em escombros, não por causa dos escombros,
mas por causa do caminho que passa por meio deles.
(Benjamin, 1980:398).

Nosso século comprovou-se como o século do protesto juvenil contra todas as


gerontocracias. Mas também marca o século XX a presença da barbárie juvenil e da
criminalidade infantil, exploradas à exaustão pela indústria dos sonhos (recordemo-nos
apenas das guerras de brinquedos e dos heróis que moem carne), mas presentes
também nas manifestações etnocêntricas de grupos juvenis do mundo todo.
Uma vez que o símbolo "juventude" pode ser facilmente interpretado como poder, força e
luta, portanto sinónimo do espírito de "agon", pode também facilmente conduzir

116
para a imposição de hierarquias e de verticalismos. Pode-se assim abusar do símbolo
"juventude", transformando-o num instrumento de poder. Em 29/8/93 o jornal suíço
Sonntagszeitung escreve sobre a tirania das crianças. A revista alemã Der Spiegel
publicou matéria de capa sobre A profissão do horror: professor. A ditadura da juventude
expressa-se desta maneira, nas mais diversas formas. Não por último na aceleração da
própria leitura.

"O poder dos homens sobre os homens principia com a usurpação do tempo de vida." (H.
Pross)

Se, por um lado, o processo de juvenilização contribuiu para a melhora da vida humana
com invenções e conquistas essenciais, por outro lado iniciou uma desmedida
valorização do jogo de agon. Roger Caillois classifica os jogos em quatro tipos: agon,
alea, mimicrye, ilinx. São os do primeiro tipo os que evocam a competição, a
confrontação, a luta, a comparação de duas individualidades, de duas forças, de duas
ideias, de dois ideais, de dois símbolos. Os jogos de agon têm um caráter dual por
excelência. E isto corresponde aos modelos perceptivos mais rudimentares, mais
simples, seja na evolução ontogenética, seja na evolução filogenética do homem,
modelos perceptivos por meio dos quais se formulam as primeiras oposições duais de
claro e escuro, dentro e fora, longe e perto, frio e quente, acima e abaixo, vertical e
horizontal. Nasce aí um tipo de pensar selvagem, que classifica dualmente e age também
dualmente. Deste modo aí está o fundamento para a estruturação vertical das relações
humanas. Agon exige! Não se quer apenas o próprio tempo de vida, quer-se também o
tempo de outras vidas, se possível ainda quer-se experimentar até mesmo o tempo
infinito das vidas dos deuses. Daí a nova era dos deuses, permanentemente jovens e
poderosos.

117
A violência bruta

Simultaneidade ou igualdade de tempos exige igualdade de valores. Tanto uma como


outra desafiam o pensamento dual de agon, desmontam hierarquias e fomentam o plural,
o diverso. Biodiversidade, multiculturalismo, pluralismo, polissemia. Não importa o nome
e a esfera de ação, o pensamento plural desempenha o papel de agente ampliador das
simultaneidades. E lá onde alguém joga de agon, lá começam as dessimultaneidades e o
processo da verticalização, as hierarquias, a organização subordinativa na vida social.

Foi com violência bruta que se conquistaram, no decorrer da história,


dessimultaneidades, territórios, riquezas, escravos, mulheres dos inimigos, bens e a vida
ou a morte de estranhos/estrangeiros e/ou adversários, erigindo-se verticais.

Violência lapidada

Contudo, o tempo tem uma importância fundamental no processo da manutenção de


verticais. Não porém em sua face de duração, mas em sua dimensão construída,
simbólica. Assim reflete Norbert Elias a respeito da natureza simbólica do tempo:
Tempo é um conceito de alto nível de generalização e síntese que pressupõe um grande
fundamento de saber sobre métodos de medição de sequências temporais e sua
regularidade,

Elias afirma ainda:


Tempo é símbolo deste tipo de sínteses aprendidas socialmente.

118
Quem dispõe deste símbolo e com ele pode direcionar processos sociais, dispõe de um
bem de alto valor, uma ferramenta precisa e eficiente para dar forma e determinar
destinos humanos. Poderá, pelo seu poder desigual, cultivar simultaneidades ou ampliar
dessimultaneidades. E porque símbolos podem determinar também a vida material, será
toda dessimultaneidade também o melhor pressuposto para as inversões de ordens
sociais em busca de simultaneidades.

119
120
HISTÓRIAS E FONTES

Cada um dos ensaios contidos no presente volume tem uma pequena história. Como
toda história, também estas passaram a fazer parte dos ensaios e seu percurso. Por este
motivo, julguei oportuno e necessário incluir aqui a história das histórias.

1. Cultura e Coragem: de Hipócrates e dos hipócritas foi comunicação apresentada


no evento "Do Passado ao Futuro. Pre-sentEdificações de Caminhos", III Simpósio de
Letras e Secretariado Executivo Bilíngue da PUC de São Paulo, realizado de 20 a 24 de
maio de 1991 e organizado por Ana Cláudia Mei Alves de Oliveira. Esta primeira versão,
sob o título de "Semiótica e Cultura" foi também publicada nos anais do III Simpósio,
igualmente organizados por Ana Cláudia Mei Alves de Oliveira e publicados pela EDUC,
São Paulo, em 1991, A presente versão sofreu pequenas alterações corretivas apenas.

2. A Cultura como Sistema Semiótico. Comunicação apresentada no l Seminário


Nacional de Semiótica de Pelotas, promovido pela Fundação Municipal de Cultura de
Pelotas, RS,

121
em 1990. Não publicado anteriormente, ficou inalterado, tal qual foi apresentado
oralmente.

3. O Conceito de Texto da Cultura. A Contribuição da Semiótica Russa e do Leste


Europeu para a Codificação da Moderna Semiótica da Cultura. Texto não publicado.
Comunicação apresentada no V Congresso da Associação Internacional de Semiótica,
em Berkeley, EUA, 1994. Também não sofreu alterações.

4. Fantasmas Positivos e Fantasmas Negativos. Comunicação proferida no XXXI


Seminário do Grupo de Estudos Linguísticos do Estado de São Paulo, em Franca, SP,
em 1991 e publicada, em primeira versão, nos XXI Anais de Seminário do GEL, Jaú,
1992. A presente versão sofreu pequenas alterações apenas.

5. O Brinquedo e a Cultura. Texto inédito, escrito a partir da comunicação


apresentada no III Congresso Nacional da Federação de Arte-Educadores, denominada
"Dada: o Brinquedo e a Cultura". O texto original apenas serviu de pretexto para uma
outra abordagem do tema, apresentada aqui.

6. Dada e a Destruição dos Códigos Culturais. Apresentado como comunicação no IV


Congresso da Associação Internacional de Semiótica, em Barcelona e Perpignan, em
abril de 1989, foi publicado como "Dada and the Destruction of Cultural Codes" em Signs
of Humanity. Uhomme et séssignes. Editado por M. Ballat, J. Deledalle-Rhodes e G.
Deledalle pela Mouton de Gruyter, Berlim, 1992.

7. A Codificação do Presente. Teses para uma arqueologia do trabalho jornalístico,


publicado originalmente sob o título "Die Codierung dês Gegenwârtigen. Thesen zu einer
Archàologie der journalistischen Textproduktion" em S-European Journal for Semiotic
Studies, vol. 2 (4), 1990, Berliner Beitrãge zur Kultursemiotik. Viena, Barcelona,
Budapest,Perpignan. O artigo foi traduzido especialmente para o presente volume, tendo
sofrido na tradução algumas modifica-

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coes e atualizações e ampliações que, no entanto, não o configuram como um novo
texto, sobretudo porque as teses permaneceram inalteradas.

8. Ambivalência na/da Mídia: o Haiti e a Chuva de Rádios. A primeira versão se


chamava "A Sociedade da Informação"e foi publicada na revista São Paulo em
Perspectiva, vol. 8,n8 4, out./dez.1994. p. 19-21. Uma segunda versão, ligeiramente
ampliada, foi apresentada no congresso Semiotics and/of the Media, com o título
"Ambivalence and/ofthe Media", em Kassel, Alemanha, março de 1995. Esta segunda
versão é a que aqui se apresenta.

9. Mídia, Tempo, Ordem, Sincronização. Palestra proferida no Ciclo Semiótica do


Tempo, promovido pelo Centro Interdisciplinar de Semiótica da Cultura, da Pós-
Graduação em Comunicação e Semiótica, da PUC de S. Paulo, de março a junho de
1994. Texto não publicado anteriormente.

10. Tempo Retrospectivo e Tempo Prospectivo foi comunicação apresentada no VII


Congresso Internacional da Associação Alemã de Semiótica, em Tubingen, Alemanha,
em outubro de 1993. O texto, então escrito e apresentado em alemão, denominado
"Prospektive und retrospektive Zeit" foi traduzido apenas agora, não tendo sido publicado
anteriormente nem em alemão nem em português.

11.0 animal que parou os relógios: Tempo e Violência foi a conferência de encerramento
do X Kornhaus-Seminar, organizado por Harry Pross em Weiler/Allgàu, Alemanha, em
setembro de 1993, denominada "Das Tier, das die Uhren angehalten hat" . O original
alemão foi publicado em Cruzeiro Semiótico, Revista da Associação Portuguesa de
Semiótica, 18-19, 1993. A presente tradução para o português sofreu apenas ligeiras
alterações.

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