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De acordo com o Apóstolo Paulo, o Espírito Santo concede o conheci-

mento espiritual a uma pessoa e a sabedoria a outra[16]. Interpretando


essa colocação, São Diádoco diz que o conhecimento espiritual une o
homem a Deus, mas não o move para expressar exteriormente aquilo
que ele sabe. Existem monges que amam a hesíquia e que são ilumi-
nados pela graça de Deus “ainda que não falem sobre Deus”. A sabe-
doria é um dos dons mais raros, um dom que Deus concede a quem
possui tanto a expressão quanto a capacidade intelectual. Assim sendo,
o conhecimento de Deus “chega por intermédio da oração, de uma pro-
funda calma e de um completo desprendimento, enquanto que a sabe-
doria provém de uma humilde meditação sobre as Sagradas Escrituras
e, acima de tudo, por intermédio da graça concedida por Deus”. O
dom da Teologia é um trabalho do Espírito Santo em cooperação com PSICOTERAPIA ORTODOXA
o homem, uma vez que o Espírito Santo atualiza no home o conheci-
mento espiritual dos mistérios “independente desta faculdade que há
nele e que busca naturalmente por tal conhecimento”.

Nos ensinamentos de São Gregório Palamas os teólogos propriamente Hierotheus de Nafpaktos


ditos são aquele que veem a Deus, e a teologia é a theoria: “Pois existe
um conhecimento sobre Deus e suas doutrinas, uma theoria a que cha-
mamos de teologia”. Qualquer um que, sem conhecimento e experiên-
cia a respeito dos assuntos da fé, oferece ensinamentos sobre essas coi-
sas “de acordo com seu próprio raciocínio, tentando, por meio de pa-
lavras, mostrar a Deus, que transcende todas as palavras, este simples-
mente perdeu completamente a noção das coisas”. Sobretudo, existem
casos em que pessoas que não realizaram obras, ou seja, que não se
submeteram à purificação, mas encontraram e escutaram homens san-
tos e “tentaram formar suas próprias concepções”, terminando por re-
jeitar os homens santos e inflar a si próprios de orgulho.

Todas essas coisas demonstram que a teologia é propriamente o fruto


da cura do homem e não uma disciplina racional. Somente uma pessoa
que tenha sido purificada, ou que, no mínimo, esteja em processo de
purificação, pode ser iniciada nos mistérios inefáveis e nas grandes

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os vícios; o segundo, a theoria, “conduz o participante às qualidades
interiores das coisas incorpóreas e corpóreas”. São Máximo segue afir-
mando que o homem “é agraciado com a graça da teologia quando,
levado pelas asas do amor” na theoria, e “com a ajuda do Espírito
Santo, ele discerne – tanto quanto é possível ao nous humano – as qua-
lidade de Deus”. A teologia, o conhecimento de Deus, se abre para a
pessoa que alcançou a theoria. Em outra parte, o mesmo Padre diz que
uma pessoa que sempre “se concentrou na vida interior” não apenas se
torna moderada, resiliente, gentil e humilde, como “se torna capaz de
contemplar, teologizar e orar”. Também aqui a teologia está estreita-
mente conectada com a theoria e a prece.

Devemos enfatizar que uma teologia que não é resultado da purifica-


ção, ou seja, da praxis, é demoníaca. De acordo com São Máximo,
“conhecimento sem praxis é a teologia do demônio”.

São Thalassius, que partilhava do mesmo ponto de vista, escreveu que


quando o nous do homem começa com uma simples fé, “eventual-
mente ele atingirá a teologia que transcende o nous e que se caracteriza
por uma fé irredutível do mais alto grau e pela visão do invisível”. A
teologia está além da lógica, ela é uma revelação de Deus ao homem,
e os Padres a definem como theoria. Também aqui a teologia é sobre-
tudo a visão de Deus. Em outra parte o mesmo santo escreve que o
genuíno amor faz nascer o conhecimento espiritual, e que “este é su-
cedido pelo desejo dos desejos: a graça da teologia”.

Nos ensinamentos de São Diádoco de Foticéia a teologia é apresentada


como o maior dos dons oferecidos ao homem pelo Espírito Santo. To-
dos os dons da graça de Deus são “perfeitos”, “mas o dom que inflama
nosso coração e o coloca em movimento para o amor de Sua bondade,
mais do que todos os demais, é a teologia”. Porque a teologia, “como
as primícias da graça de Deus”, “concede à alma o maior de todos os
dons”.

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nous estão em comunhão com Deus, e essa comunhão constitui o co- SUMÁRIO
nhecimento espiritual de Deus para o homem. Assim é que São Nilo
afirma: “Se você for teólogo, você irá orar verdadeiramente. E se você
orar verdadeiramente, você é teólogo”.
CINCO PALAVRAS FUNDAMENTAIS .......................................................... 7 

São João Clímaco introduz a verdadeira teologia em muitos lugares de PRÓLOGO DO AUTOR .............................................................................. 9 


seu tesouro espiritual “A escada”. “A pureza total é o fundamento da INTRODUÇÃO ........................................................................................ 11 
teologia”. “Quando os sentidos do homem estão perfeitamente unidos
PSICOTERAPIA ORTODOXA ‐ CAPÍTULO I ................................................ 17 
com Deus, então as coisas que Deus fala são, de algum modo, misteri-
osamente esclarecidas. Mas onde não existe esse tipo de união, é ex- 1. ORTODOXIA COMO UMA CIÊNCIA TERAPÊUTICA .............................................. 17 
tremamente difícil falar a respeito de Deus”. Ao contrário, o homem 1.1 .  O QUE É O CRISTIANISMO ...................................................................... 17 
1.2 . A TEOLOGIA COMO UMA CIÊNCIA TERAPÊUTICA .......................................... 24 
que de fato não conhece a Deus fala sobre ele apenas “em possibilida-
1.3 . O QUE É A TERAPIA ............................................................................... 30 
des”. De fato, conforme o ensinamento patrístico, é muito ruim falar 1.4 . O MÉTODO DA TERAPIA: O TRATAMENTO TERAPÊUTICO ................................ 36 
sobre Deus conjecturalmente, porque isso leva a pessoa a se iludir. O 1.4.1 .        COMO SE DÁ A CURA DA ALMA? ....................................................... 36 
santo sabe como a “teologia dos demônios” se desenvolve em nós.
PSICOTERAPIA ORTODOXA ‐ CAPÍTULO II ‐ PARTE I ................................ 51 
Num coração cheio de vanglória que não tenha sido previamente puri-
ficado pela operação do Espírito Santo, os demônios impuros “nos dão 1 .       O TERAPEUTA ORTODOXO ..................................................................... 51 
lições de interpretação das Escrituras”. Desse modo, a pessoa que é 1.1 . PRÉ‐REQUISITOS PARA A FUNÇÃO DE SACERDOTE‐TERAPEUTA ........................ 56 
1.1.1 .        O VALOR DO SACERDÓCIO ............................................................... 56 
escrava das paixões não deve “babar teologia”.
1.1.2 .        O CHAMAMENTO E A ORDENAÇÃO DOS APÓSTOLOS ............................ 57 
1.1.3 .        REQUISITOS BÁSICOS PARA A ORDENAÇÃO .......................................... 60 
Os santos receberam “as coisas divinas sem pensamentos” e, de acordo 1.1.4 .        OS TRÊS GRAUS DO SACERDÓCIO ...................................................... 63 
com os Padres, eles não teologizaram segundo uma forma de pensa-
PSICOTERAPIA ORTODOXA ‐ CAPÍTULO II ‐ PARTE II ............................... 75 
mento aristotélica, mas “à maneira dos Apóstolos”, ou seja, através de
uma operação do Espírito Santo. Se uma pessoa não foi lavada de suas 1.1 . REACENDENDO O DOM ESPIRITUAL ........................................................... 75 
paixões, em particular da fantasia, previamente, ela não está capacitada 1.1.1 .        QUALIDADES BÁSICAS DOS SACERDOTES TERAPEUTAS ........................... 76 
para conversar com Deus ou para falar a respeito de Deus, uma vez 1.1.2 .        O SACERDÓCIO ESPIRITUAL .............................................................. 81 
1.1.3 .        NOSSA PROCURA POR TERAPEUTAS ................................................... 86 
que o nous “que constrói noções é incapaz de teologia”. Os santos vi-
vem uma teologia “escrita pelo Espírito”. PSICOTERAPIA ORTODOXA ‐ CAPÍTULO III ‐ PARTE I ............................... 91 
1. PSICOTERAPIA ORTODOXA .......................................................................... 91 
Encontramos o mesmo ensinamento nos trabalhos de São Máximo o 1.1 A ALMA (PSYCHÉ ) ................................................................................... 91 
Confessor. Quando uma pessoa vive pela filosofia prática, com o arre- 1.1.1 . O QUE É A ALMA ................................................................................ 91 
pendimento e a limpeza das paixões, “ela avança no entendimento mo- 1.1.2 .        ENFERMIDADE E MORTE DA ALMA .................................................. 105 
ral”. Quando ela experimenta a theoria, “ela avança no conhecimento 1.1.3 .        A TERAPIA DA ALMA .................................................................... 107 
espiritual”. No primeiro caso ela pode discriminar entre as virtudes e PSICOTERAPIA ORTODOXA ‐ CAPÍTULO III ‐ PARTE II ............................ 113 

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1.1 .  INTER‐RELAÇÕES ENTRE ALMA, NOUS, CORAÇÃO E MENTE .......................... 113  tratamento. O mesmo pode ser dito da teologia. Ela não é uma filoso-
1.1.1 .        NOUS E ALMA ............................................................................ 113  fia, mas em primeiro lugar um tratamento terapêutico. A teologia or-
1.1.2 .        NOUS E CORAÇÃO ....................................................................... 116  todoxa mostra claramente que, de um lado, ela é fruto de uma terapia
1.1.3 .        NOUS E RAZÃO ........................................................................... 117 
1.1.4 .        NOUS E ATENÇÃO ....................................................................... 117 
e, de outro, ela mostra o caminho da terapia. Em outras palavras, ape-
nas aqueles que foram curados e que alcançaram a comunhão com
PSICOTERAPIA ORTODOXA ‐ CAPÍTULO III ‐ PARTE III ............................ 121  Deus são teólogos, e somente estes podem mostrar aos Cristãos o ver-
1.1 .  NOUS, CORAÇÃO E PENSAMENTOS ........................................................ 121  dadeiro caminho para atingir o “lugar” da cura. Assim, a teologia é a
1.1.1 .        O NOUS .................................................................................... 121  um tempo o fruto e o método da terapia.
1.1.1.1 .  A VIDA NATURAL DO NOUS ............................................................. 122 
1.1.1.2 .  A DOENÇA DO NOUS ..................................................................... 127  Aqui precisamos nos estender sobre o que foi dito para ver essas ver-
1.1.1.3 .  CURANDO O NOUS ....................................................................... 132 
dades com mais clareza. Citaremos alguns ensinamentos dos Santos
1.1.2 .        O CORAÇÃO ............................................................................... 149 
1.1.2.1 .  O QUE É O CORAÇÃO .................................................................... 150 
Padres relativos à teologia e aos teólogos.
1.1.2.2 .  A CARACTERIZAÇÃO DO CORAÇÃO ................................................... 159 
1.1.2.3 .  A DOENÇA DO CORAÇÃO ................................................................ 164  Creio que podemos começar com São Gregório de Nazianze, pois não
1.1.2.4 .  A CURA DO CORAÇÃO.................................................................... 168  foi ao acaso que a Igreja lhe atribuiu o título de Teólogo. No começo
1.1.3 .        INTELIGÊNCIA E PENSAMENTOS ...................................................... 192  de seus famosos textos teológicos ele escreve que teologizar não é para
1.1.3.1 .  A INTELIGÊNCIA ........................................................................... 193  qualquer um, que nem todos podem falar a respeito de Deus, porque
1.1.3.2 .  PENSAMENTOS ............................................................................ 203  esse assunto não é simples e fácil. Não se trata de uma tarefa para todos
1.1.3.2.1 .         O QUE SÃO OS PENSAMENTOS (LOGISMOI ) ............................... 204 
os homens, “mas para aqueles que foram examinados e que se torna-
1.1.3.2.2 .         A CAUSA DOS MAUS PENSAMENTOS ......................................... 206 
1.1.3.2.3 .         CONSEQUÊNCIAS DOS MAUS PENSAMENTOS .............................. 214 
ram mestres na visão de Deus, e que previamente purificaram suas al-
1.1.3.2.4 .         A CURA DOS MAUS PENSAMENTOS .......................................... 216  mas e corpos, ou que, no mínimo, estão sendo purificados”. Apenas
estes, que passaram da praxis para a theoria, da purificação para a ilu-
PSICOTERAPIA ORTODOXA ‐ CAPÍTULO IV ............................................ 233 
minação, podem falar a respeito de Deus. E quando isso acontece? “É
1 .       PATOLOGIA ORTODOXA ...................................................................... 233  quando nos libertamos de toda contaminação e de toda perturbação, e
1.1 . O QUE SÃO AS PAIXÕES ........................................................................ 235  quando aquele que nos regra não se encontra mais confuso com vexa-
1.2 . TIPOS DE PAIXÃO E SEU DESENVOLVIMENTO ............................................. 241  ções e imagens errantes e desordenadas”. Então, adverte o santo: “Pois
1.3 .  A CURA DAS PAIXÕES .......................................................................... 256 
1.4 . IMPASSIBILIDADE ................................................................................ 281 
é preciso estar verdadeiramente desembaraçado para conhecer a
Deus”.
PSICOTERAPIA ORTODOXA ‐ CAPÍTULO V ............................................. 297 
A HESÍQUIA COMO MÉTODO DE CURA ............................................................. 297  Nilo o Asceta liga a teologia à prece, principalmente à prece noética.
1.1 . A HESÍQUIA ....................................................................................... 297  Sabemos bem, a partir dos ensinamentos dos Santos Padres, que qual-
1.2 . O HESIQUIASMO ................................................................................ 312  quer um que tenha obtido a graça da prece do coração penetrou, por
1.3 . O ANTI‐HESIQUIASMO ......................................................................... 316  isso mesmo, nos primeiros estágios da visão de Deus, porque esse tipo
PSICOTERAPIA ORTODOXA ‐ CAPÍTULO VI (FINAL) ................................ 325  de oração é uma forma de theoria. Por isso, todos os que oram com o

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alguma ser colocados como religiões, que usam diversos métodos má- 1 .       EPISTEMOLOGIA ORTODOXA ................................................................ 325 
gicos e crenças no sentido de prometer um escape de um mundo su- 1.1 . OS TRÊS GRAUS DO CONHECIMENTO SEGUNDO SANTO ISAAC O SÍRIO ............ 325 
postamente material, mau e cheio de hipocrisia, para um também su- 1.2 . O CONHECIMENTO DE DEUS DE ACORDO COM SÃO GREGÓRIO PALAMAS ....... 334 
1.3 . ORAÇÕES .......................................................................................... 342 
posto mundo de segurança e sucesso”. 1.3.1 .        NA BUSCA POR UM MÉDICO ESPIRITUAL ........................................... 342 
1.3.2 .        PELO CONHECIMENTO DE DEUS E O AMOR A ELE ............................... 342 
Em um outro trabalho o mesmo professor diz: “A tradição patrística
não é nem uma filosofia social nem um sistema ético, e menos ainda
um dogmatismo religioso: ela é um tratamento terapêutico. A esse res-
peito ela lembra de perto a medicina, em especial a psiquiatria. A ener-
gia espiritual da alma que ora incessantemente no coração é um instru-
mento fisiológico que todos possuem e que requer ser curado. Nem a
psicologia, nem nenhuma das ciências positivas ou sociais conhecidas
são capazes de curar esse instrumento. Isso só pode ser feito através
dos ensinamentos népticos e ascéticos dos Padres. Por essa razão,
aqueles que nunca foram curados sequer suspeitam da existência desse
instrumento”.

Assim sendo, na Igreja nos dividimos entre aqueles que estão doentes,
os que estão sob tratamento terapêutico e aqueles – santos – que já
foram curados. “Os Padres não categorizam as pessoas em morais ou
imorais, em boas ou más, com base nas leis morais. Essa divisão é
superficial. No fundo a humanidade se diferencia entre os enfermos na
alma, os que estão sendo curados e os curados.
Todos os que não possuem um estado de iluminação estão doentes na
alma. E não basta apenas a boa vontade, uma boa resolução, uma prá-
tica moral e uma devoção à Tradição Ortodoxa para fazer um Orto-
doxo, mas ainda a purificação, a iluminação e a deificação. Esses es-
tágios de cura são o propósito da vida mística da Igreja, da qual os
textos litúrgicos dão testemunho”.

1.2 . A Teologia como uma ciência terapêutica


Daquilo que foi dito fica evidente que o Cristianismo é principalmente
uma ciência que cura, vale dizer, um método psicoterapêutico e um
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que a consciência dos homens, especialmente dos mais simples, é
fraca: “Quando você peca contra os irmãos e fere sua frágil consciên-
cia, você peca contra Cristo[14]”. O Livro do Apocalipse diz que João
o Evangelista viu um rio de água da vida que procedia do trono de
Deus e do Cordeiro. “De cada lado do rio havia uma árvore da vida
(...) e as folhas da árvore eram para a cura das nações[15]”.

Portanto, o trabalho da Igreja é terapêutico. Ela procura curar as enfer-


midades do homem, em especial das da alma, que muito o atormentam.
Este é o ensinamento fundamental do Novo Testamento e dos Padres
da Igreja. Na sequência deste capítulo, e nos próximos, muitas passa-
gens dos Padres trarão novamente essa verdade.

Mais uma vez, eu quero enfatizar que a Igreja é indispensável. Eu agra-


deço ao padre e professor Jean Romanides por dissertar sobre isso em
seus escritos. Estou convicto de que ele é muito versado nos Padres
népticos – em particular nos escritos contidos na Filocalia – e que ele
realmente alcançou o sentido real do Cristianismo. Acredito ser esta
sua maior contribuição. Pois nessa era, em que o Cristianismo vem
sendo apresentado como uma filosofia ou como uma teologia cultural,
ou ainda como uma cultura e tradição popular – usos e costumes – ele
apresentou seu ensinamento a respeito da disciplina terapêutica e do
tratamento.

Concretamente, ele diz: “Proclamar a fé em Cristo sem se submeter à


cura em Cristo é como não ter fé absolutamente. É a mesma contradi-
ção que encontramos numa pessoa doente que tem uma grande confi-
ança no seu médico, mas que não segue o tratamento que ele reco-
menda. Se o Judaísmo e seu sucessor, o Cristianismo, tivessem apare-
cido no século XX pela primeira vez, eles teriam sido caracterizados
não como religiões, mas como ciências médicas relacionadas com a
psiquiatria. Eles teriam uma larga influência sobre a sociedade devido
ao seu sucesso em curar as doenças de uma personalidade que funciona
apenas em parte. O Judaísmo e o Cristianismo não podem de maneira

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à minha loucura[11]”. Pois “todo pecado causa ferimentos e hemato- CINCO PALAVRAS FUNDAMENTAIS
mas”. O Samaritano é o próprio Cristo, que desceu dos céus à terra
para salvar os homens feridos. Ele emprega vinho e azeite nas feridas. Antes de iniciarmos esse estudo, é preciso absorver alguns termos gre-
Isso equivale a dizer que “misturando o Espírito Santo ao seu sangue, gos cuja tradução nunca revela exatamente o sentido original. O pri-
ele trouxe a vida ao homem”. De acordo com outra interpretação, “o meiro desses termos é NOUS, palavra que se refere ao “olho do cora-
azeite traz a palavra de conforto, o vinho traz a loção adstringente, a ção”, e que costuma ser traduzido como mente ou intelecto, e que dá
instrução que traz concentração à mente dispersa”. Ele colocou o ho- origem ao adjetivo “noético”. Outras duas palavras, PRAXIS (ação) e
mem sobre sua montaria: “Carregando a carne sobre seus ombros di- THEORIA (visão) geralmente se referem nos escritos patrísticos, res-
vinos, ele a ergueu até o Pai nos Céus”. Assim sendo, o bom Samari- pectivamente, à prática ascética e à visão de Deus. NEPSIS indica a
tano, Cristo, conduziu o homem “até a maravilhosa e espaçosa hospe- um tempo a sobriedade e a vigilância, características da vida dos santos
daria, a Igreja universal”. Ele o entregou ao hospedeiro, que é o Após- Padres, e costuma ser traduzida apenas como “vigilância”, o que a faz
tolo Paulo e “através de Paulo, aos altos sacerdotes, professores e mi- perder seu segundo, mas não menos importante sentido, referente à
nistros de cada igreja”, dizendo: “Cuide do povo dos Gentios que eu “sobriedade”. Finalmente HESÍQUIA significa repouso, paz, a Paz de
lhe entreguei na Igreja. Quando os homens estiverem doentes, feridos Cristo que não é a paz do mundo, a paz na presença de Deus.
pelo pecado, cure-os, colocando sobre suas feridas um emplastro, ou
seja, as palavras proféticas e os ensinamentos evangélicos, devol-
vendo-os incólumes por meio das admoestações e das exortações do
Velho e do Novo Testamentos”. Assim, de acordo com São João Cri-
sóstomo, Paulo é aquele que sustenta as igrejas de Deus “e cura os
homens por meio das admoestações espirituais, distribuindo o pão da
oferenda para cada qual”.
Na interpretação de São João Crisóstomo da parábola fica claramente
evidente que a Igreja é o Hospital que cura aqueles que estão enfermos
pelo pecado, sendo que os bispos e padres, tal como o Apóstolo Paulo,
são os que curam o povo de Deus.

Essas verdades também aparecem em muitos outros lugares do Novo


Testamento. O Senhor disse: “Os que têm saúde não precisam de mé-
dico, mas sim os que estão doentes[12]”. Assim é que Cristo, como um
médico de corpos e almas, “curava todo tipo de enfermidades e todos
os tipos de moléstias entre o povo (...) eles lhe levavam as pessoas
doentes que eram afligidas por diferentes enfermidades e tormentos, e
também as que estavam possuídas por demônios, e os epiléticos e pa-
ralíticos; e a todas ele curava[13]”. O Apóstolo Paulo também sabia

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que primeiro seja feita uma purificação. Esta purificação e cura é o
trabalho da Igreja. Quando o cristão participa do culto ser ter experi-
mentado essa purificação vivificadora – principalmente dos atos de
adoração que objetivam a purificação do homem – então ele não está,
realmente, vivendo no seio da Igreja. O Cristianismo sem purificação
é uma utopia. Assim, só podemos falar em religião na medida em que
estamos sendo purificados, quando estamos buscando nossa cura. E
isso concorda com as palavras do irmão do Senhor, Tiago: “Se alguém
dentre vocês pensa ser religiosos, mas não refreia sua língua e ao con-
trário, ilude seu coração, sua religião é inútil. Uma religião pura e in-
corruptível diante de Deus e do Pai é essa: visitar os órfãos e as viúvas
desamparados, e se manter imaculado perante o mundo[9]”.

Essa abstinência nos permite afirmar que o Cristianismo não é nem


uma filosofia, nem uma religião “natural”, mas, principalmente, uma
cura. É a cura das paixões da pessoa, de modo a que ela possa alcançar
a comunhão e a união com Deus.

Na parábola do Bom Samaritano o Senhor nos mostrou muitas verda-


des. Assim que o Samaritano viu o home quem caíra nas mãos dos
bandidos que o feriram e o deixaram à morte, ele “sentiu compaixão
por ele, dirigiu-se a ele e pensou seus ferimentos, derramando sobre
eles azeite e vinho; depois colocou-o sobre sua própria montaria, le-
vou-o a uma hospedaria e cuidou para que ele fosse tratado[10]”.
Cristo tratou do homem ferido e levou-o até a hospedaria, até o Hos-
pital que é a Igreja. Aqui Cristo é apresentado como o médico que cura
a enfermidade do homem, e a Igreja é mostrada como um Hospital.

É bem característico que ao analisar essa parábola, São João Crisós-


tomo tenha apresentado as verdades que acabamos de enfatizar. O ho-
mem proveio “de um estado celestial para o estado de ilusão demoní-
aca, e ele se sente no meio de ladrões, ou seja, em meio ao diabo e seus
poderes hostis”. As feridas que ele apresenta são seus inúmeros peca-
dos. Como disse Davi, “minhas feridas estão sujas e infectadas devido

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com o morto. Nessa comunhão todos os problemas que se apresentam PRÓLOGO DO AUTOR
em nossa vida são verdadeiramente resolvidos.
O homem contemporâneo, cansado e desencorajado pelo vários pro-
É claro que, uma vez que a comunidade da Igreja inclui pessoas doen- blemas que o atormentam, busca por descanso e alívio. Basicamente,
tes e iniciantes na vida espiritual, podemos esperar que algumas dessas ele está procurando pela cura de sua alma, pois é principalmente aí que
pessoas entendam o Cristianismo como uma religião nos sentidos a ele sente o problema. Ele está entrando em “depressão mental”. Por
que nos referimos acima. Acima de tudo, a vida espiritual é uma via- esta razão as explicações psiquiátricas têm circulado amplamente em
gem dinâmica. Ela começa com o batismo, com a purificação da “ima- nossos tempos. Em particular, a psicoterapia é muito difundida. En-
gem”, e continua através da vida ascética que objetiva alcançar a “se- quanto que essas coisas eram quase desconhecidas antigamente, elas
melhança”, que consiste na comunhão com Deus. De qualquer modo, estão horrivelmente prevalecendo agora, e muitas pessoas correm para
deve ficar esclarecido que mesmo quando falamos do Cristianismo psicoterapias para encontrar paz e conforto. Por isso eu repito, o ho-
como uma religião, devemos fazê-lo apenas a partir de alguns pressu- mem contemporâneo sente que ele necessita curarse.
postos.
Além de observar essa necessidade fundamental, eu noto que a cada
O primeiro deles é que o Cristianismo é principalmente uma Igreja. dia o Cristianismo, e especialmente a Ortodoxia, que preserva a essên-
“Igreja” significa “Corpo de cia do Cristianismo, tem feito uso de uma certa “psicoterapia”, ou me-
Cristo”. Existem muitos lugares no Novo testamento em que o Cristi- lhor, que a Ortodoxia é principalmente uma ciência terapêutica. Todos
anismo é chamado de Igreja. Vamos citar apenas as palavras de Cristo os meios que ela emprega, e mesmo seu objetivo fundamental, objeti-
a respeito: “Você é Pedro, e sobre essa pedra eu erguerei minha vam curar o homem e guiá-lo para Deus. Pois para alcançar a comu-
igreja[6]”, e as palavras do Apóstolo Paulo aos Colossenses: “Ele é a nhão com Deus e adquirir o abençoado estado de divinização, devemos
cabeça do corpo, a igreja[7]”, e ao seu discípulo Timóteo: “...desse antes ser curados. Assim, para além de quaisquer outras interpretações,
modo você entenderá como deve se conduzir na casa de Deus, que é a a Ortodoxia consiste basicamente numa ciência terapêutica e num tra-
igreja do Deus vivo, o pilar e o terreno da verdade[8]”. Isso significa tamento. Ela difere claramente de outros métodos psiquiátricos por não
que Cristo não mora simplesmente nos céus, dirigindo desde lá a his- ser antropocêntrica e porque não faz seu trabalho utilizando-se de
tória e as vidas dos homens, mas que ele está unido a nós. Ele assumiu meios humanos, mas com a ajuda e a energia da graça divina, essenci-
a natureza humana e a deificou; assim sendo, em Cristo a natureza dei- almente por intermédio da sinergia entre as vontades divina e humana.
ficada do homem encontra-se à direita do Pai. Assim é que Cristo é
nossa vida e nós somos os “membros de Cristo”. Eu procurei enfatizar algumas verdades neste livro. Eu gostaria de
apontar a essência do Cristianismo e também o método que ele em-
O segundo pressuposto é que o objetivo do Cristianismo é o de alcan- prega para obter a cura. Meu objetivo básico é o de ajudar o homem
çar o abençoado estado de deificação. A deificação é idêntica à “seme- contemporâneo a encontrar sua cura no seio da Igreja Ortodoxa, do
lhança”, ou seja, consiste em ser como Deus. É claro que, para atingir mesmo modo como estamos nós tentando obtê-la. Eu acredito que es-
a semelhança, para alcançar a visão de Deus, e para que esta visão não tamos todos doentes e buscando por um Médico. Todos buscamos a
se transforme num fogo devorador, mas numa luz vivificante, é preciso

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cura. A Igreja Ortodoxa é o hospital onde todos os enfermos e agonia- criou seu Deus. Mais uma vez, a religião é concebida como um relaci-
dos podem ser curados. onamento do homem com um Deus Absoluto, como um relaciona-
mento do tipo “eu e o Outro Absoluto”. Novamente, muitos veem a
Se este livro se tornar ocasião para que algumas pessoas se voltem para religião como um meio através do qual as pessoas se iludem transfe-
buscar a cura na Igreja e em seus ensinamentos, eu agradecerei a Deus, rindo suas esperanças para a vida futura. Dessa maneira forças pode-
que me deu a inspiração e a força para levar adiante esse difícil empre- rosas pressionariam o povo por intermédio da religião.
endimento, e pedirei a Ele que tenha misericórdia de mim pelas minhas
inúmeras fraquezas. Mas o Cristianismo é algo muito além dessas interpretações e teorias;
ele não pode ser contido dentro das concepções usuais e da definição
Edessa, 30 de Setembro de 1987 de religião fornecidas pelas religiões “naturais”. Deus não é o Outro
Absoluto, mas uma Pessoa viva, que está numa comunicação orgânica
com o homem. Mais do que isso, o Cristianismo não transfere simples-
mente o problema para o futuro, nem espera as delícias do reino celeste
para depois da história e no final dos tempos. No Cristianismo o futuro
é vivido no presente e o reino de Deus começa nesta vida. De acordo
com a interpretação Patrística, o reino de Deus é a graça do Deus
Triuno, é a visão da Luz incriada.

Nós, Ortodoxos, não estamos esperando pelo final da história ou pelo


final dos tempos, mas, através de nossa vida em Cristo estamos nos
dirigindo para encontrar o fim da história e deste modo viver a vida
que se espera para depois da Segunda Vinda. São Simeão o Novo Teó-
logo diz que aquele que viu a luz incriada e se uniu a Deus não está
mais esperando pela Segunda Vinda do Senhor, mas a está vivendo.
Assim é que o eterno nos abraça e envolve a cada moimento do tempo.
Dessa forma, o passado, o presente e o futuro são vividos essencial-
mente numa unidade inquebrantável. É o que se chama de “tempo con-
densado”.

Portanto, a Ortodoxia não pode ser caracterizada como “ópio do povo”,


precisamente porque ela não adia o problema. Ela oferece a vida, trans-
forma a vida biológica, santifica e transforma as sociedades. Onde a
Ortodoxia é vivida do modo correto e no Espírito Santo, existe a co-
munhão entre Deus e o homem, do celeste com o terrestre, do vivo

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o homem forte e o soldado, o juiz e o profeta, o adivinho...”), observa: INTRODUÇÃO
“Ele parece chamar aqui de adivinho uma pessoa que é capaz de con-
jecturar o futuro através de uma profunda inteligência e experiência Creio que tenho a obrigação de fornecer algumas explicações básicas
das coisas. Adivinhação e profecia são de fato coisas diferentes: o pro- para o estudo e entendimento dos capítulos a seguir.
feta colocando-se à parte, fala sob inspiração divina; por sua vez, o
adivinho parte daquilo que já aconteceu, coloca sua própria inteligên- Eu dei o título de “Psicoterapia Ortodoxa” para este livro como um
cia a trabalhar e prevê muitos eventos futuros, como o faria uma pessoa todo, porque ele representa o ensinamento dos Padres na cura da alma.
inteligente. Mas a diferença entre eles é grande: é a distância que se- Eu sei que o termo “psicoterapia” é bastante moderno e que ele é usado
para a inteligência humana da graça divina”. por muitos psiquiatras para indicar o método que eles seguem na cura
de neuróticos. Mas uma vez que a maior parte dos psiquiatras desco-
Portanto, a especulação (ou filosofia) é uma coisa, e a profecia, ou a nhece os ensinamentos da Igreja, ou não desejam aplicá-los, e dado
palavra do profeta que teologiza, é outra. A primeira consiste numa que sua antropologia é bastante diferente da antropologia e da Soteri-
atividade humana enquanto que esta última é a revelação do Espírito ologia dos Padres, ao usar o termo “psicoterapia” eu não estou apli-
Santo. cando seus pontos de vista. Teria sido muito simples em certos aspec-
tos usar suas perspectivas, algumas das quais concordantes com os en-
Nos escritos patrísticos, e especialmente nos ensinamentos de São Má- sinamentos dos Padres, outras conflitantes, e apenas fazer os comentá-
ximo, a filosofia é apontada como se situando no início da vida espiri- rios correspondentes e necessários, mas eu não quis fazer isso. Eu pen-
tual. Porém, ele usava o termo “filosofia prática” para significar a lim- sei ser melhor seguir o ensinamento da Igreja através dos Padres, sem
peza do coração de suas paixões, que é de fato o primeiro estágio para misturá-los com outras coisas. Por isso eu coloquei o termo “Orto-
a jornada da alma em direção a Deus. doxa” junto do termo “Psicoterapia” (cura da alma), para formar o tí-
tulo “Psicoterapia Ortodoxa”. Na verdade, o título também poderia ser
O Cristianismo também não pode ser visto como uma religião, pelo “Tratamento terapêutico Ortodoxo”.
menos não como a religião de apresenta hoje em dia. Deus normal-
mente é visto como habitando nos céus e dirigindo a história humana Muitos ensinamentos dos Padres estão citados com suas referências
desde lá: Ele seria extremamente detalhista, buscando a satisfação do para sustentar o texto na medida de seu desenvolvimento. Estou ciente
homem, que teria caído na terra por sua fraqueza e enfermidade. de que textos contendo muitas referências são difíceis de ler. Entre-
Existe, assim, um muro separando Deus do homem. tanto, eu preferi esse método a tornar simplesmente este estudo de fácil
Esse muro tem que ser suplantado pelo homem, e a religião proveria leitura[1]. Infelizmente, hoje em dia livros costumam ser escritos num
um auxílio efetivo nessa tarefa. Vários ritos religiosos seriam assim estilo sentimental, e eu não quero que esse tema, tão crucial na atuali-
empregados com este propósito. dade, seja apresentado dessa maneira.
De acordo com outro ponto de vista, o homem se sente impotente pe- Consultamos muitos Padres no desenvolvimento de nosso tema, mui-
rante o universo e necessita de um Deus poderoso para ajudá-lo em sua tos dos quais Padres népticos, mas sem desdenhar dos assim chamados
fraqueza. Desta perspectiva, Deus não criou o homem, mas o homem Padres “sociais”. Eu digo “assim chamados” porque não acredito que

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tal distinção exista essencialmente. Na teologia Ortodoxa aqueles que
são chamados de népticos são eminentemente sociais e os sociais são Psicoterapia Ortodoxa - Capítulo I
essencialmente népticos. Os Três Hierarcas[2], por exemplo, levaram
uma vida de vigilância ascética, purificaram suas mentes e apascenta-
ram o povo de Deus. Eu acredito firmemente que a qualidade social
dos santos é uma dimensão do ascetismo. 1. Ortodoxia como uma ciência terapêutica

Existe uma porção considerável de ensinamento néptico nos trabalhos Muitas interpretações do Cristianismo foram formuladas e muitas res-
dos Três Hierarcas. Mas eu utilizei mais os Padres da Filocalia, por postas foram dadas às questões: o que é o Cristianismo e qual sua mis-
haver aí um material mais abundante e porque a Filocalia é uma cole- são no mundo? Muitas das respostas não são verdadeiras. A seguir,
ção de textos místicos teológicos, e como tal “constitui uma efulgência vamos tentar demonstrar que o Cristianismo, em especial a Ortodoxia,
altamente inspirada da consagrada experiência ascética das divinas fi- consiste numa terapia. Tentaremos descrever essa terapia, e o modo
guras patrísticas, nas quais brilhou a sagrada luz vivificante do espí- como ela deve ser adquirida.
rito[3]”. De acordo com os editores da edição Grega da Filocalia, de-
pois do final dos conflitos hesiquiastas do século XIV surgiu a neces- 1.1 . O que é o Cristianismo
sidade de coletar as principais obras dos Padres, relativas à vida hesi- Muitas pessoas que interpretam o caráter do Cristianismo o veem
quiasta e à prece noética. Eles escreveram: “Existem fortes indicações como uma das numerosas filosofias e religiões conhecidas desde a an-
de que a coleção tenha sido feita por monges altamente espirituais do tiguidade. Certamente, o Cristianismo não é uma filosofia, no sentido
Monte Athos a partir da biblioteca da Montanha Santa, e que tenha que prevalece hoje. A filosofia estabelecer um sistema de pensamento
sido iniciada na segunda metade do século XIV, a partir de 1350. Esse que, na maior parte das vezes, não traz em si relação alguma com a
período coincide com a cessação da famosa controvérsia hesiquiasta. vida. A principal diferença entre o Cristianismo e a filosofia é que esta
Concretamente, esta termina com a triunfante justificação Sinódica dos última consiste num pensamento humano, enquanto que o Cristia-
Padres Athonitas. Por essa época ficou claro que era preciso o estabe- nismo é uma revelação de Deus. Ele não foi uma descoberta do ho-
lecimento de uma nova visão dos Padres do Oriente Ortodoxo em re- mem, mas uma revelação do próprio Deus ao homem. Teria sido im-
lação ao ascetismo hesiquiasta e à prece noética. Esses dois pontos fo- possível à lógica humana encontrar as verdades do Cristianismo. Na
ram o principal alvo do racionalismo e do ativismo social do Catoli- medida em que a palavra humana se revelou impotente, surgiu o Verbo
cismo Romano com o protagonismo do pérfido monge Barlaam o Ca- divinohumano, Cristo o Deus-Homem, o Verbo de Deus. Essa revela-
labrês, que em seguida se tornaria bispo da Igreja Católica Ro- ção divina foi formulada nos termos filosóficos de seu tempo, mas,
mana[4]”. repetimos, é preciso enfatizar que não se trata de uma filosofia. Apenas
a roupagem do Verbo divino-humano foi tomada da filosofia de seu
A elaboração final dos textos da Filocalia foi feita por São Macário, tempo.
primeiro bispo de Corinto, e São Nicodemos o Hagiorita, de modo que
“de certo modo a Filocalia adquire a dimensão de uma apresentação São João Crisóstomo, interpretando Isaías 3: 1 (“Vejam o Senhor, o
Sinodal da Teologia Mística da Igreja Ortodoxa do Oriente”. Por essa Senhor dos Exércitos, tirou a sustentação de Jerusalém e de Judá (...)

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razão foram utilizados os textos da Filocalia, com a finalidade de des-
crever e apresentar os ensinamentos da Igreja sobre a cura da alma, do
nous, do coração e dos pensamentos. Por outro lado, onde houve ne-
cessidade, eu não hesitei em consultar os textos de outros grandes Pa-
dres, como São Gregório o Teólogo, São Gregório Palamas (especial-
mente suas “Tríades”), São João Crisóstomo, São Basílio o Grande,
São Simeão o Novo Teólogo, etc.

É verdade que não existe um capítulo especial dedicado aos sacramen-


tos do Santo Batismo e da
Sagrada Comunhão. Em muitos lugares o grande valor da vida sacra-
mental da Igreja é enfatizado. De qualquer modo, não existe uma pa-
lavra específica sobre o Batismo porque eu sei que estou falando com
pessoas que já foram batizadas e assim é presumível que não haja ne-
cessidade disso. Por ouro lado, o sacramento da Divina Eucaristia é o
centro da vida espiritual e sacramental da
Igreja. A Sagrada Comunhão é o que diferencia o ascetismo da Igreja
Ortodoxa de todos os demais “ascetismos”. Eu a considero como muito
necessária para a vida espiritual do homem e para sua salvação. Mas é
necessária uma preparação para estar convenientemente preparado
para receber a comunhão do Corpo e Sangue de Cristo. Isto porque a
Sagrada Comunhão, de acordo com as preces litúrgicas, é uma luz que
ilumina para aqueles que estão preparados, e, para os que não estão, é
um fogo devorador. O Apóstolo Paulo diz: “Quem comer o pão e beber
do cálice do Senhor de maneira indigna será culpado de profanar o
corpo e o sangue do senhor. O homem deve examinar a si mesmo, e
então comer do pão e beber do cálice. Pois aquele que come e bebe
sem discernir o Corpo, come e bebe seu próprio julgamento. É por essa
razão que muitos de vocês estão fracos e doentes, e que alguns morre-
ram[5]”.

Vivemos num tempo em que muito se tem dito sobre eclesiologia, eu-
caristologia e escatologia. Não temos objeção a isso. Acreditamos que
estes são elementos essenciais da vida espiritual. Mas a Igreja, a santa

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Eucaristia e a escatologia estão estreitamente conectadas com a vida apesar de minha intenção original. Recomendo a leitura de outros li-
ascética. Eu acredito firmemente que deve ser dada prioridade ao tema vros já em circulação.
da vida ascética, que é parte da preparação para a Sagrada Comunhão. Eu gostaria de pedir que esse livro fosse não apenas lido, mas estudado.
E como esse aspecto vem sendo desdenhado, se torna necessária uma Talvez ele deva ser estudado uma segunda e uma terceira vez, com o
ênfase especial a respeito. A Sagrada Comunhão ajuda na cura, desde propósito específico de ser aplicado. Possa os santos Padres cujos en-
que sejam seguidos todos os demais tratamentos religiosos que são a sinamentos estão apresentados iluminar tanto a mim quanto aos leito-
base do ascetismo Ortodoxo. res para que possamos criar um caminho de cura e salvação para nossas
almas.
Muito se tem falado sobre problemas psicológicos. Eu acredito que es-
ses supostos problemas psicológicos são em grande parte problemas Peço sinceramente a Deus que os erros que eu tenha cometido possam
dos pensamentos, de uma mente obscurecida e de um coração impuro. ser corrigidos e que eles não prejudiquem a alma dos leitores, pois es-
O coração impuro, conforme é descrito pelos Padres, a mente escura e ses capítulos foram escritos para ajudar, e não para prejudicar. Da
sombria, e os pensamentos impuros são a fonte desses chamados pro- mesma forma, peço aos leitores que encontrarem quaisquer erros que
blemas psicológicos. Quando um homem está interiormente curado, me avisem, para que eu os possa corrigir.
quando ele descobre o lugar de seu coração, quando ele purifica a parte
noética de sua alma e liberta seu intelecto, ele supera os problemas Concluindo, eu gostaria de agradecer a todos que me ajudaram com
psicológicos. Ele passa a viver na abençoada e imperturbável paz de esta publicação. O benefício que essa obra puder causar deve ser dedi-
Cristo. Dizemos essas coisas com a reserva de que o corpo, natural- cado também a essas pessoas. “Possa Deus conceder a eles os desejos
mente, pode ficar doente por fadiga, exaustão, fraqueza ou declínio. de seus corações”.

O primeiro capítulo, intitulado “A Ortodoxia como uma ciência tera-


pêutica”, pode ser caracterizado como um sumário de todo o livro. De
fato, ele inclui muitos pontos dos demais capítulos. Eu confesso que o
terceiro capítulo, intitulado “Psicoterapia Ortodoxa”, é difícil em algu-
mas passagens. Eu não pude impedi-lo, porque eu tive que analisar os
termos alma, nous, coração e intelecto e considerar suas inter-relações
e diferenças.

Um sétimo capítulo, intitulado “A prece noética como método de


cura”, talvez pudesse ter sido escrito. Mas como em todos os demais
capítulos existem trechos nos quais o valor e a necessidade da prece
foram enfatizados, especialmente no capítulo sobre a hesíquia e o mé-
todo da terapia, e dado que existem livros excelentes que descrevem
os métodos e o valor da prece noética, preferi não incluir esse capítulo,

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primeiro curar-se dessas enfermidades, ou no mínimo terem iniciado a verdades, pode receber revelações e posteriormente levar essas coisas
cura, e devem também estar cientes do valor e da possibilidade dessa ao povo. Por essa razão, na tradição patrística Ortodoxa a teologia é
cura. ligada e identificada com o pai espiritual, e o pai espiritual é o teólogo
por excelência – vale dizer, aquele que experimentou as coisas de Deus
Aquilo que se seguirá deve ser visto dentro desse contexto. Devemos e que assim pode conduzir seu filho espiritual sem volteios.
deixar claro que não pretendemos contemplar todo o espectro do sa-
cerdócio e do papel dos sacerdotes. Não é nosso propósito explicar o O Padre Jean Romanides escreve: “O verdadeiro teólogo Ortodoxo é
valor e a importância do sacerdócio, mas observar esse grande e res- aquele que possui um conhecimento direto de algumas das energias de
ponsável ofício do ponto de vista da ciência terapêutica cuja maior Deus através da iluminação, ou que as conhece mais ainda pela visão.
obra consiste em curar os homens. Se em alguns pontos parecer que Ora, ele as conhece indiretamente por intermédio dos profetas, após-
estamos salientando o valor do sacerdócio, o fazemos apenas de modo tolos e santos ou pelas Escrituras, os escritos dos Padres e as decisões
a ressaltar este lado que estamos enfatizando até aqui. e atos de seus Concílios locais e ecumênicos. O teólogo é aquele que,
através desse conhecimento espiritual direto ou intermediado, e da vi-
são, sabe claramente como distinguir entre as ações de Deus e as das
1.1 . Pré-requisitos para a função de sacerdote-terapeuta criaturas, em especial as obras do diabo e dos demônios. Sem o dom
É o Espírito Santo, ou, em termos mais gerais, a graça do Espírito do discernimento dos espírito não é possível testar os espíritos para ver
Santo que realiza a cura dos Cristãos doentes. O sacerdote é um servi- até que ponto alguma coisa é resultado da ação do Espírito Santo ou
dor dessa cura. Toda a organização da Igreja é divinohumana. Acima do diabo e dos demônios”.
de tudo, a graça de Deus trabalha secretamente no sacerdote e ele co-
nhece por experiência essa ação oculta da graça de Deus. “Assim sendo, o teólogo e o pai espiritual são a mesma coisa. Uma
pessoa que pensa e fala na busca de um entendimento conceitual das
1.1.1 . O valor do sacerdócio doutrinas da fé a partir de um padrão Franco-Latino não é um pai es-
piritual, nem pode ser chamado de teólogo no sentido próprio do
É grande o valor do sacerdócio. São João Crisóstomo escreve: “O tra- termo. A teologia não é um conhecimento abstrato ou prático, como a
balho do sacerdócio é feito na terra, mas é classificado dentre as orde- lógica, as matemáticas, a astronomia ou a química, mas ao contrário,
nações celestes”, uma vez que ele não é ordenado pelo homem, anjo, ela possui um caráter polêmico como a logística e a medicina. A pri-
arcanjo ou outro poder criado, mas “pelo próprio Paráclito”. meira está relacionada a matérias de defesa e ataque por meio de um
treinamento corporal e a estratégias para o desenvolvimento de armas,
“Assim como o sol supera as estrelas”, a celebração pelo sacerdote fortificações e esquemas ofensivos e defensivos, enquanto a segunda
“supera toda salmodia ou prece”, e difere de todos os outros serviços. luta contra doenças físicas e mentais na busca da saúde e dos meios
Isso acontece porque através do sacramento da Eucaristia nós sacrifi- para restaurar a saúde”.
camos o próprio Filho único que sofreu por nossos pecados. Se alguém
celebra corretamente “os divinos, reverenciados e terríveis mistérios, “Um teólogo que não está familiarizado com os métodos do inimigo
ou com a perfeição em Cristo é não apenas incapaz de lutar contra o

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inimigo para seu próprio aperfeiçoamento, como também não está em outras posições de autoridade, “impelindo vergonhosamente a si pró-
posição de guiar e curar a outros. É como ser chamado de general – ou prios, por meio de mil intrigas, para conseguir se tornar metropolitas
mesmo ser um – sem ter jamais recebido treinamento ou lutado, sem ou bispos para guiar o povo do Senhor”, antes de ter acesso “câmara
ter estudado a arte da guerra, tendo apenas prestado atenção à bela e nupcial”, e antes de se tornarem “filhos da luz e filhos do dia”.
gloriosa aparência do exército em seus esplêndidos e brilhantes uni-
formes nas recepções e desfiles. É como um açougueiro posando de Tudo isso foi incomparavelmente colocado por São Gregório o Teó-
cirurgião, ou como sustentar uma posição de médico sem conhecer as logo, que escreveu: “Primeiro é preciso ser purificado, e só então pu-
causas das doenças ou os métodos para curá-las, ou mesmo até qual rificar; tornar-se sábio, para tornar sábio a outrem; tornar-se luz, para
estado de saúde o paciente pode vir a ser recuperado”. iluminar; aproximar-se de Deus, para levar outros a ele; santificar-se,
para santificar”.

1.3 . O que é a Terapia São João Crisóstomo, que foi saudado como um especialista em sacer-
dócio, escreve numa famosa passagem na qual procura justificar sua
Uma vez que dissemos que o Cristianismo e a teologia são fundamen-
recusa em tornar-se bispo, que ele está ciente da fraqueza e da peque-
talmente uma ciência terapêutica, devemos agora delinear brevemente
nez de sua alma, assim como da importância e dificuldade de guiar o
no que consiste uma terapia. O que faz com que a Ortodoxia, com sua
povo: “Eu sei o quão fraca e insignificante é minha alma. Eu conheço
teologia e seu culto de adoração, nos cure?
a importância desse ministério e as grandes dificuldades que ele apre-
A terapia da alma significa essencialmente terapia e libertação do nous. senta”.
A natureza humana se torna
Em sua discussão com São Basílio ele lhe diz não ter dúvidas sobre o
“doente” por causa de sua queda para longe de Deus. Essa enfermidade
que ele dissera, que ao mesmo tempo em que ama a Cristo, teme pro-
consiste principalmente no cativeiro e na queda do nous. O pecado an-
vocar escândalo ao assumir o ministério espiritual, “dado que a enfer-
cestral é o afastamento do homem em relação a Deus, a perda da graça
midade de meu espírito me torna despreparado para esse ministério”.
divina, que resulta em cegueira, escuridão e morte do nous. Podemos
A grande pureza de seus pensamentos e sentimentos o fez sentir que a
dizer com mais exatidão que “a queda do homem ou a situação de ha-
fraqueza de sua alma o incapacitava para esse grande ministério. Pois,
ver herdado o pecado consiste em: a) a incapacidade de seu poder noé-
de fato, como se pôde observar em outras ocasiões, paixões não cura-
tico em funcionar completamente, ou mesmo a perda total dessa fun-
das impedem o sacerdote de ajudar na cura de seu filho espiritual.
ção; b) a confusão desse poder com as funções do cérebro e do corpo
em geral; e c) a consequente sujeição à angústia mental e às condições
Se o terapeuta não tiver sido previamente curado, ele não passa de um
circunstantes. Toda pessoa experimenta a queda de sua própria facul-
“lugar comum”. “Eles simplesmente pegam pessoas desinteressantes,
dade noética em graus variados, na medida em que é exposta a um
que nada acrescentam, e as encarregam dessas coisas”.
meio no qual essa faculdade não funciona ou está abaixo de sua poten-
cialidade. O mau funcionamento do poder noético resulta em más re-
Todas essas coisas a que nos referimos mostram a grande verdade que
lações entre o homem e Deus e entre as pessoas. Também resulta numa
os sacerdotes que pretendem curar as enfermidades do povo devem

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Ele perguntou ao seu Moisés sobre as “garantias” de que ele seria ca- utilização individual de Deus e do homem decaído para fortalecer uma
paz de fazer tal coisa. sensação pessoal de segurança e felicidade”.

“Ele me trouxe para junto de si e me ape- Essa perda da graça de Deus obscureceu o nous do homem: toda a sua
rou com força natureza adoeceu, e ele legou essa enfermidade aos seus descendentes.
E beijou-me com um beijo santo No ensinamento Ortodoxo é assim que entendemos a herança do pe-
E havia um perfume de imortalidade ao cado. Os Padres interpretam as palavras de São Paulo, “por causa da
seu redor. Eu acreditei, e amei seguir desobediência de um homem muitos se tornaram pecadores[17]”, não
com ele E desejei servi-lo, e apenas a em termos legais, mas “medicamente”. Ou seja, a natureza humana se
ele... tornou doente. São Cirilo de Alexandria interpreta desse modo a situ-
Ele me tomou pela mão e caminhou na ação: “Depois que Adão caiu em pecado e afundou na corrupção, pri-
minha frente meiro os prazeres impuros o devastaram, e a lei da selva se alastrou
E desse modo começamos a trilhar o ca- pelos seus membros. Dessa maneira a natureza se tornou enferma por
minho.” intermédio da desobediência de um único, Adão. Então muitos se tor-
naram pecadores, não como companheiros transgressores de Adão,
porque ainda não existiam, mas por ser da mesma natureza que havia
Ao final de uma longa jornada na qual, por meio das intercessões de tombado sob a lei do pecado (...) A natureza humana em Adão se tor-
seu pai espiritual, ele teve sucesso no enfrentamento de suas paixões e nou enferma por intermédio da corrupção da desobediência, e desde
se libertou de sua escravidão, São Simeão agradece ao seu pai espiri- então as paixões penetraram nela”. Em outro lugar o mesmo Padre usa
tual: a imagem da raiz. A morte atingiu toda a raça humana por meio de
Adão, “do mesmo modo como a raiz de uma planta é prejudicada, e
Venha, eu disse, meu senhor, não me afastarei de você, todos os brotos que nascem dela embranquecem”.
Eu não desobedecerei às suas ordens, e guardarei todas elas comigo.”
São Gregório Palamas diz: “O nous que se rebelou contra Deus se tor-
De qualquer modo, para que uma pessoa se torne um terapeuta Orto- nou tanto bestial como demoníaco, depois de ter se rebelado contra as
doxo apta a curar os males espirituais de seu filho espiritual, é preciso leis da natureza, cobiçando aquilo que pertencia a outros”.
que ela própria tenha sido previamente curada, tanto quanto possível,
para que possa se colocar “entre a praxis e a theoria”. Como pode al- Através do “rito do nascimento em Deus”, o santo batismo, o nous hu-
guém curar sem ter sido previamente curado, ou sem ter experimen- mano se ilumina, se liberta da escravidão do pecado e do diabo, e se
tado ao menos o começo da cura? Assim sendo, São Simeão acusa une a Deus. É por isso que o batismo é chamado de iluminação. Mas
aqueles que veem a si mesmo como diretores espirituais sem antes te- depois disso, por causa do pecado, novamente o nous é obscurecido e
rem sido mergulhados no Espírito Santo, aqueles que recebem confis- entorpecido. Os escritos patrísticos deixam claro que cada pecado e
sões precipitadamente e que ousam administrar mosteiros ou ocupar cada paixão contribuem para entorpecer o nous.

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São João Clímaco escreve que os demônios malignos se esforçam que estamos conscientes da dor de nossas feridas e aflições, porque
“para obscurecer nosso espírito”. existem também os que sequer se dão conta de estar feridos e aflitos –
Em especial, o demônio da luxúria, “obscurecendo nossa mente, que para que Ele venha e cure nossos corações feridos e dê saúde às nossas
nos guia”, empurra as pessoas “para fazer coisas que somente os lou- almas que jazem no leito do pecado e da morte. Pois todos nós peca-
cos pensariam em fazer”. mos, como disse o santo Apóstolo, e temos necessidade de sua miseri-
córdia e de sua graça”.
Num próximo capítulo daremos mais atenção à natureza do nous hu-
mano. Neste momento, estamos mais interessados no tema do obscu- Apresentamos esse texto longo porque nele se coloca claramente a
recimento. São Máximo ensina: “Assim como o mundo do corpo con- missão do monaquismo e da Igreja, bem como o trabalho dos pastores.
siste de coisas, o mundo do nous consiste em imagens conceituais. En- Trata-se principalmente de uma tarefa terapêutica. Estamos enfermos
tão, se o corpo fornica com o corpo de uma mulher, o nous, formando na cama do pecado e da morte. Quem for incapaz de perceber esta ver-
uma imagem de seu próprio corpo, fornica com a imagem conceitual dade está “louco”. Sendo assim, os Cristãos que não permanecem na
da mulher”. Nisto consiste o obscurecimento e a queda do nous. Igreja para serem curados ou que sentem que estão bem, podem ser
considerados “loucos”.
Em outra comunicação o mesmo santo Padre ensina que “assim como
o corpo peca por intermédio de coisas materiais, mas possui as virtudes De acordo com São Simeão o Novo Teólogo, o sacerdote é um médico:
corporais para ensinar-se a se dominar, também o nous peca através de a pessoa vai ao “doutor espiritual arrasada pela paixão, com sua mente
imagens conceituais passionais, mas possui as virtudes da alma para consternada”. O “doutor especialista”, “que é humano e compassivo,
instruí-lo”. Essa verdade mostra que a queda do nous cria uma confu- entende a fraqueza de seu irmão, a inflamação causada pela angústia,
são em todo o organismo espiritual. Ela cria angústia e agitação e de o tumor; ele vê a pessoa doente inteiramente sob o poder da morte”.
modo geral faz com que a pessoa viva a queda em toda sua dramatici- Então o santo descreve o caminho pelo qual o médico especialista ve-
dade. Assim, muitos problemas que nos assolam provêm dessa molés- rifica a enfermidade, e o modo como ele a cura.
tia interior. É por isso que os psicoterapeutas não podem ajudar muito,
porque somente Cristo pode restaurar o nous entorpecido pelas pai- Já mencionamos as duas imagens básicas que caracterizam o trabalho
xões. do pastor: que ele é como Moisés que guia seu filho espiritual, e que
ao mesmo tempo é um cientista e um médico solidário. Ambas as qua-
Mais uma vez São Máximo, tentando definir mais claramente no que lidades estão contidas num dos poemas de São Simeão que descreve
consiste a impureza do nous e, consequentemente, sua queda, escreve sua própria cura por seu pai espiritual, seu Moisés pessoal. Ele aplica
que ela contempla quatro itens: “em primeiro lugar, um falso conheci- à sua própria vida a jornada do povo Israelita sob a conduta de Moisés.
mento; depois, a ignorância sobre os universais (...); em terceiro lugar, Ele escreve:
possuir pensamentos passionais; em quarto, aceder ao pecado”.
“Ele veio e me encontrou como escravo e estrangeiro,
Assim é que o nous precisa de terapia, de uma terapia que os Padres E ele disse: Venha, meu filho, eu o levarei para junto de Deus!”
chamam de “estimular e purificar o nous”.

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A tarefa de bispos, sacerdotes e confessores é a de conduzir o povo Muitas coisas estão ditas sobre a pureza da mente e do coração nos
para fora do Egito até a terra prometida, como novos Moisés. Essa ori- ensinamentos do Senhor e dos Apóstolos. O Senhor, referindo-se aos
entação requer esforço e trabalho, privações e angústia. Ela consiste fariseus de seu tempo, zelosos de uma extrema pureza externa, mas
principalmente numa supervisão terapêutica. Os Padres insistem muito negligentes com a pureza interna, disse: “Fariseu cego, primeiro limpe
sobre essa verdade. Tomemos São João Clímaco como exemplo. Ele o lado de dentro do cálice e do prato, e o lado de fora ficará limpo
adverte que “aqueles de nós que desejam sair do Egito e fugir do Faraó também[18]”. No encontro dos Apóstolos em Jerusalém, Pedro, con-
necessitam de um intermediário perante Deus, que se coloque entre a frontando o problema de se os Cristãos gentios deveriam ser circunci-
praxis e a theoria e que estenda seus braços a Deus, para que aqueles dados e manter a lei do Antigo Testamento, disse: “Deus, que conhece
que são guiados por ele possam cruzar o mar e por em fuga ao Amelek os corações, os reconhece, pois deu a eles o Espírito Santo tanto quanto
das paixões”. O Novo testamento nos mostra o tanto que Moisés su- deu a nós, e não fez distinção entre nós e eles, purificando seus cora-
portou e como ele guiou seu povo teimoso. ções pela fé[19]”. O Apóstolo Paulo recomendou aos Cristãos de Co-
rinto: “Devemos nos limpar de toda imundície da carne e do espírito,
Esse Moisés espiritual é um médico. De resto, todos nós estamos do- aperfeiçoando a santidade com temor a Deus[20]”. O sangue de Cristo
entes e precisamos de um. deve “purgar nossa consciência das obras mortas[21]”. Do mesmo
modo, escrevendo ao seu discípulo Timóteo, ele afirma que só pode-
São Simeão o Novo Teólogo, falando a monges, esclarece essa ver- mos captar o mistério da fé “com uma consciência pura[22]”. E o
dade. Como sabemos pela Tradição Ortodoxa, os mosteiros são pro- Apóstolo Pedro também está consciente de que o amor pelo próximo
priamente hospitais. Seria até melhor chamá-los de escolas de medi- constitui o fruto de um coração puro, dizendo: “Amem uns aos outros
cina. Como pessoas doentes, ali somos curados, e depois disso apren- fervorosamente com um coração puro[23]”.
demos como curar. Por isso a Igreja primitiva buscava seus sacerdotes
nos mosteiros, que eram escolas médicas, para colocá-los no posto de Dessa forma, a purificação do nous e do coração é essencial. Escreve-
observação de bispos. mos a respeito do nous e do coração, ainda que saibamos que na teo-
logia patrística esses dois termos são colocados juntos. Voltaremos a
Assim é que, falando a monges, São Simeão não hesita em dizer que essa questão em outro capítulo.
somos todos pobres e necessitados. Ele explica o quanto cada um de
nós que estamos em nossas celas fomos feridos e afetados por diferen- São Máximo divide a vida espiritual em três estágios, que são: a filo-
tes enfermidades; por isso não podemos fazer nada além de gritar dia sofia prática, a theoria natural e a teologia mística. De acordo com os
e noite para que o médico das almas e corpos cure nossos corações estudos sobre Máximo, “seus ensinamentos sobre a perspectiva pes-
dilacerados e nos devolva a saúde espiritual. O santo escreve: “E isso soal da salvação se dividem em três partes: 1) a ‘filosofia prática’, ou
não é tudo: [além de estarmos nus e na miséria] jazemos vergonhosa- praxis; 2) a ‘theoria natural’, ou simplesmente theoria; e 3) a ‘teologia
mente feridos, afetados por numerosas moléstias, ou nos movemos mística’ ou simplesmente teologia. A primeira purifica a pessoa das
com dificuldades em nossas celas ou mosteiros, como nos hospitais e paixões e a adorna de virtudes; a segunda ilumina seu nous com o co-
casas para idosos. Choramos e nos lamentamos, e chamamos por nhecimento verdadeiro; e a terceira a coroa com a mais alta experiência
Aquele que é o médico das almas e corpos – ao menos na medida em

52 33
mística, que São Máximo chama de ‘êxtase’. Essas três partes consti- Psicoterapia Ortodoxa - Capítulo II - Parte I
tuem os estágios fundamentais no caminho da salvação pessoal do ho-
mem”.

Deve-se notar inclusive que muitos Padres distinguem esses três está- 1. O terapeuta Ortodoxo
gios na vida espiritual: a filosofia prática ou purificação do coração, a
theoria natural ou iluminação do nous e a teologia mística ou a comu- Esperamos ter estabelecido a verdade de que o Cristianismo é princi-
nhão com Deus através da theoria. palmente uma ciência terapêutica. Ele busca a cura espiritual do ho-
mem. Ademais, a correta prática da medicina requer um bom médico,
De acordo com outra divisão que aparece nos escritos patrísticos, a um profissional, e isso se aplica também à cura espiritual. É preciso
vida espiritual é dividida em praxis e theoria. A praxis sempre precede que haja um bom doutor. Ele será um sacerdote ou um bispo.
a theoria, a visão de Deus. “A praxis é a padroeira da theoria”. De uma
forma mais analítica, “a praxis, naquilo que se refere ao corpo, consiste Como já notamos, as pessoas de hoje sentem que a função do sacerdote
no jejum e na vigília, assim como a boca está para a salmodia. Mas é capacitá-las a tomar parte nos santos sacramentos. Elas sentem que
orar é melhor do que salmodiar, e o silêncio é mais valioso do que a ele foi ordenado por Deus, como seu servo ou diácono, de modo que
fala. No caso das mãos, a praxis é o que elas fazem sem reclamar”. elas podem lhe confessar seus pecados e dele obter a absolvição. Eles
Quanto à theoria, “ela é a visão do nous; para se admirar e compreen- esperam que nele seja o diácono de Deus, chamado a orar para ele para
der o que foi e o que será”. que suas obras sejam abençoadas, e assim por diante. Certamente, nin-
guém irá negar que o sacerdote desempenha essas funções também,
Certamente, de acordo com o ensinamento de São Máximo, a theoria mas usualmente as pessoas parecem enxergar o sacerdote quase como
não é independente da praxis. “A praxis não é segura sem a theoria, um mágico, com o perdão da expressão. Pois, se enxergamos a vida de
nem esta é verdadeira sem aquela. Pois a praxis deve ser inteligente, e adoração independente da cura, então só pode se tratar de magia!
a theoria deve ser eficaz”. Máximo enfatiza que “no caso dos mais ins-
truídos, a theoria precede a praxis, enquanto que para os mais simples Repetimos, mais uma vez, para que fique bem claro, que o sacerdote é
a praxis vem em primeiro lugar”. Nos dois casos, porém, o resultado é propriamente um médico espiritual que cura as enfermidades das pes-
bom, ambas conduzem ao mesmo resultado, que é a purificação e a soas. O culto e os sacramentos devem ser colocados dentre seus méto-
salvação do homem. dos terapêuticos e de tratamento.
Mesmo como confessor, o sacerdote é principalmente um terapeuta. O
De fato, quando falamos em purificação da alma, queremos dizer prin- sacramento da confissão não é uma mera absolvição formal, especial-
cipalmente liberá-la de suas paixões, ou antes, transformar essas pai- mente como acontece no modelo Ocidental, como se Deus estivesse
xões. Mais do que isso, a purificação implica também um “desenvol- bravo e exigisse uma expiação. Ele é parte de um tratamento terapêu-
vimento uniforme” do ser humano, que conduz à iluminação do nous. tico. Existem muitos Cristãos que se confessam por anos e anos e não
Portanto, a purificação não é apenas negativa, mas também positiva. se curam de suas moléstias espirituais. Contribui para isso a ignorân-
As qualidades da alma pura são “a inteligência desprovida de inveja, a cia, tanto de parte do povo, como de parte dos pastores.

34 51
[31] Ibid. ambição livre de malícia e um incessante amor pelo Senhor de glória”.
[32] Filocalia 4. Em outras palavras, se estivermos motivados pela inveja, ou se nossa
[33] Mateus 14: 23. ambição contiver malícia, e se nosso amor por Deus for intermitente,
[34] Cf. Apocalipse 3: 18. [35] João 6: 53. isso significa que nosso coração ainda não foi purificado.

O nous é aquilo que foi feito à imagem de Deus. Nós desfiguramos


essa imagem com o pecado e agora ela deve ser restaurada. É assim
que Abba Dorotheos ordena: “Tornemos nossa imagem tão pura
quanto a recebemos”. Devemos sofrer trabalhos e uma intolerável
amargura até que purifiquemos o nous, “este vira-latas que fareja em
torno do açougue no mercado e que se alegra na balbúrdia”. Se um
homem luta para não cometer pecados e se bate contra os pensamentos
passionais, ele é humilhado e se despedaça durante a luta, “mas os so-
frimentos do combate o purificam pouco a pouco e o trazem de volta
para o seu estado natural”.

Apesar do esforço do homem, se o Espírito Santo não descer sobre ele,


o nous morto não poderá ser purificado e trazido à vida, porque “so-
mente o Espírito Santo é pode purificar o nous”.

Em qualquer caso, quando, por meio de um trabalho conjunto da graça


divina e da vontade do homem, o nous é purificado, então ele se ilu-
mina, uma vez que “onde há purificação, há iluminação”. Depois de
purificado, se a pessoa guardar o nous de ser desfigurado pelo pecado,
seu nous será iluminado e iluminará. É por isso que a guarda do nous
pode ser chamada de “produtora de luz e de iluminação, iluminante e
portadora do fogo”.

Em poucas palavras, podemos afirmar que a cura do home é de fato a


purificação do nous, do coração, da imagem, a restauração do nous ao
seu estado de beleza primordial e original, e algo mais: sua comunhão
com Deus. Quando ele se torna um templo do Espírito Santo, podemos
dizer que a cura teve sucesso. Os que se curam são os santos de Deus.

50 35
1.4 . O método da terapia: o tratamento terapêutico * A edição que serviu de base para esta tradução não contém as refe-
rências mencionadas.
Tendo visto no que consiste o Cristianismo, qual o caráter da teologia
(https://pt.scribd.com/doc/204181139/Orthodox-Psychotherapy-Me-
Ortodoxa, o que é uma terapia, devemos agora nos voltar para o mé-
tropolitan-Hierotheos-Vlachos ).
todo de tratamento terapêutico, que é o método da fé Ortodoxa. Se de-
moramos tanto para colocar o problema, devemos agora nos esforçar
para fazer um inventário dos métodos para a aquisição da pureza do
[1] Basílio o Grande, Gregório o Teólogo e João Crisóstomo.
coração, ou seja, para a cura. Pois não existe mérito em listar os estados
[2] Prólogo dos editores, Filocalia Grega, pg. 9.
mais elevados a menos que possamos trazê-los à nossa consciência e
[3] Filocalia Grega I, pgs. 1-11.
aplicá-los.
[4] I Coríntios 11: 27-30.
[5] Mateus 16: 18.
1.4.1 . Como se dá a cura da alma?
[6] Colossenses 1: 18.
Primeiro, devemos enfatizar a fé correta. Nós, Ortodoxos, damos [7] I Timóteo 3: 15.
grande importância em preservar a fé, porque sabemos que quando a [8] Tiago 1: 26-27.
fé é distorcida, também a cura é distorcida, automaticamente. Já enfa- [9] Lucas 10: 33 ss.
tizamos que a teologia deve ser interpretada como uma medicina. A [10] Salmo 38: 5.
ciência médica tem em vista a pessoa saudável, quando tenta guiar a [11] Mateus 9: 12.
pessoa enferma para a saúde mediante os vários métodos terapêuticos. [12] Mateus 4: 23 ss.
O mesmo podemos dizer a respeito da teologia. A teologia é o ensina- [13] I Coríntios 8: 12.
mento da Igreja sobre a saúde espiritual, mas também versa sobre o [14] Apocalipse 22: 1 ss.
caminho que nós, os doentes, devemos seguir para sermos curados. É [15] I Coríntios 12: 8.
por isso que os Ortodoxos damos tanto peso em manter a doutrina in- [16] Romanos 5: 19.
tacta, não apenas porque tememos o enfraquecimento do ensino e da [17] Mateus 23: 36.
transmissão, mas porque podemos perder a possibilidade de cura e, [18] Atos 15: 8 ss.
portanto, da salvação. Ademais, “o conflito entre Palamas e Barlaam [19] II Coríntios 7: 1.
não foi tanto sobre o tipo da doutrina, mas sobre sua fundamentação [20] Hebreus 9: 14.
metodológica. Barlaam estava baseado num metafísica e numa episte- [21] I Timóteo 3: 9.
mologia metafísica e lógica, enquanto Palamas tinha seu fundamento [22] I Pedro 1: 22.
numa verificação empírica e na confirmação de resultados demonstrá- [23] Lucas 4: 23.
veis”. [24] Mateus 5: 1-12. [26] Romanos 7: 12.
[27] I João 2: 3-5.
Agora, para sermos curados é essencial que nos sintamos doentes. [28] Máximo o Confessor, Filocalia.
Quando uma pessoa enferma não tem consciência de sua moléstia, ela [29] Isaac o Sírio, Homilias Ascéticas.
não irá procurar um médico. O autoconhecimento é, assim, um dos [30] Thalassus, Filocalia.

36 49
Espero que essas poucas palavras tenham mostrado com clareza que o primeiros passos para a cura. São Máximo ensina: “A pessoa que che-
Cristianismo é uma ciência terapêutica. Ele cura as pessoas doentes. gou a entender a fraqueza da natureza humana, adquire por isso mesmo
Essa doença se manifesta no nous. A Igreja, com seus ensinamentos, uma experiência do poder divino”, e assim se torna ávida para adquirir
seu culto, sua ascese e sacramentos liberta o nous e o torna Templo do novas coisas além das que adquiriu por intermédio desse poder divino.
Espírito Santo. Esse caminho terapêutico foi aplicado e confirmado Pedro de Damasco, descrevendo o grande valor da oração à noite, diz:
por todos os santos. É o único caminho que conduz a Deus. Eu acredito “A prática das virtudes morais é efetuada pela meditação sobre aquilo
que a perda da tradição deve ser vista como o principal motivo da perda que aconteceu durante o dia”, quando meditamos a respeito dos desli-
do método terapêutico e dos terapeutas atuais. O retorno ao caminho zes ocorridos “na confusão do dia”, “de modo que no repouso da noite
da Tradição Ortodoxa é essencialmente o caminho de volta para esses podemos nos tornar conscientes dos pecados cometidos e podemos nos
dois fundamentos. afligir por causa deles”. Somente quando conhecemos nosso estado
podemos nos afligir por ele.

É indiscutível que muitos Cristãos hoje em dia não estão conscientes


de sua condição espiritual. Nós estamos mortos pelo pecado, mas não
apenas não percebemos isso como ainda cremos estar cheios de dons
do Espírito Santo, adornados de virtudes. Desafortunadamente, essa
autossatisfação, quando estamos cheios de chagas, está destruindo o
trabalho da salvação. Como pode Cristo falar a alguém que se autojus-
tifica? Somos como o Fariseu do tempo do Senhor, que não sentia a
necessidade de médico. Como pode o grande dom do arrependimento
e do enlutamento habitar num coração que não sente sua desolação,
quando sua vida interior é incapaz de se desenvolver?

Em conexão com a sensação de estar doente deve existir também uma


“autocondenação”, ou seja, o grande dom da autocrítica. Isso mostra
que existe humildade na alma, pois “a autocrítica está sempre associ-
ada com a humildade”. Essa autocrítica é uma responsabilidade espi-
ritual que, quando colocada na alma, “esmaga, pressiona e espreme o
vinho que regozija o coração do homem, vale dizer, do homem inte-
rior. A compunção é esse vinho”. A autocrítica, juntamente com o en-
lutamento que a caracteriza, também esmaga as paixões e enche o co-
ração com a mais ditosa felicidade. “Devemos sempre condenar e cri-

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ticar a nós mesmos de modo a que, por meio de uma humilhação deli- sobre ele, se ele as recebe com gratidão; a segunda, quando alguém
beradamente escolhida, possamos nos proteger do pecado da presun- realiza suas obras apenas na presença de Deus, sem buscar nada hu-
ção”. mano; e a terceira, quando alguém é submisso ao seu pai espiritual em
completa renúncia de sua própria vontade. Esta última receberá ainda
Mas a sensação de estar doente não é suficiente em si. Em qualquer uma eminente coroa”. E ele acentua: “Quanto a mim, eu escolhi a do-
caso, o terapeuta será necessário. Esse terapeuta é o padre ou o pai ença”.
espiritual. Ele já foi curado de suas aflições, ou, no mínimo, luta por
se curar, e assim é capaz de curar seus filhos espirituais. Já dissemos Do mesmo modo o Abade Poêmio disse: “Se três homens estiverem
que o pai espiritual deve ser um teólogo, e vice-versa. Mas neste caso no mesmo lugar e um deles preservar sua paz interior, o segundo agra-
se aplica o dito: “Médico, cura a ti mesmo[24]”. Alguém que conse- decer a Deus por sua enfermidade e o terceiro O servir com uma mente
guiu passar pelas armadilhas do diabo pode com segurança guiar seu pura, os três terão realizado a mesma obra”.
filho espiritual. Alguém que sabe do valor do imenso tesouro chamado
saúde espiritual pode ajudar os outros a se curarem. Alguém que en- A partir desses exemplos podemos ver que a luta do homem é comum
controu seu próprio nous pode ajudar outros a encontrá-lo. “O nous, a todos, mas que existem diferentes modos de lutar. Todos devem
aquele que é como um verdadeiro médico, é aquele que primeiro curou guardar as palavras de Deus, os mandamentos de Deus, todos devem
a si mesmo e que então passou a curar em outros as doenças das quais guardar a pureza de seus corações enquanto estiverem trabalhando.
ele próprio se curou”. Não obstante, existe uma variedade de aplicações que o pai espiritual
pode fazer.
Muitos Cristãos contemporâneos veem padres e ministros do Altíssimo
como oficiais de igreja que são úteis em diversos assuntos burocráti- Pode ser considerada uma falta não termos listado a Santa Comunhão
cos, que celebram os diferentes sacramentos quando são chamados, ou como um tratamento terapêutico. Mas devemos sublinhar e enfatizar o
que celebram a Divina Liturgia, e desse modo satisfazem as necessi- fato de que vemos a Eucaristia, a comunhão do Corpo e Sangue de
dades de suas almas ou cumprem um dever tradicional. Eles são vistos Cristo, como indispensável ao homem. O Senhor enfatizou: “A menos
como mágicos que operam magia! Sabemos, é claro, que a graça de que vocês comam a carne do Filho do homem me bebam seu sangue,
Deus não é transmitida magicamente ou mecanicamente, mas sacra- vocês não terão vida em si[35]”. Mas é sabido que a santa Comunhão
mentalmente. É verdade que até o mais indigno dos sacerdotes pode é precedida pela purificação e a preparação. Se a terapia sobre a qual
celebrar os sacramentos – mas ele não pode curar. Pois a remissão dos falamos não vier antes, então a recepção do Corpo e Sangue de Cristo
pecados é uma coisa e a cura é outra. Muitos Cristãos ficam satisfeitos acarretará “juízo e condenação”. A eclesiologia e a escatologia não po-
com uma confissão formal ou um acompanhamento formal da Litur- dem ser compreendidas sem a prática terapêutica. Assim, não estamos
gia, ou mesmo com uma Comunhão formal e nada mais. Eles não se subestimando a Santa Eucaristia, mas, enfatizando o valor da prática
preocupam com a cura de suas almas. Mas os padres, os pais espiritu- ascética e da terapia, exaltamos o grande dom da Eucaristia. Por outro
ais, não apenas celebram a Comunhão como também curam as pes- lado, o objetivo daquilo que escrevemos é principalmente o de escla-
soas. Eles possuem um sólido conhecimento a respeito do caminho da recer o caminho preciso que termina do altar, de modo que a Santa
cura das paixões e o transmitem aos seus filhos espirituais. Eles lhes Comunhão se torne a luz da vida.

38 47
São João Clímaco é característico a esse respeito. Ele conta ter visto mostram como se livrar do cativeiro, de que modo seu nous pode se
um médico estúpido ter desonrado e levado ao desespero um homem ver livre da escravidão.
doente que se apresentara contrito e com o espírito humilde. Ao
mesmo tempo, ele viu outro médico espiritual “inteligente” operar um Eis como os santos Padres encaravam a paternidade espiritual. O pas-
“coração arrogante” com a faca da desonra e assim drenar deste todo tor é também um médico. “O médico é alguém cujo corpo está perfeito,
fedor pecaminoso. Ele também disse ter visto o mesmo homem en- não necessitando de curativos”. São João Clímaco é bastante especí-
fermo tratar suas impurezas com os remédios da obediência, e às vezes fico em relação ao que o padre deve fazer para curar:
curar “o olho doente de sua alma” com repouso e silêncio. Fica assim
claro que o mesmo homem enfermo precisava de obediência num dado “Ó homem maravilhoso, adquira emplastros, poções, navalhas, colí-
momento, e de repouso e silêncio em outro. O remédio apropriado rios, esponjas, instrumentos para sangria e cauterização, unguentos,
deve ser ministrado no tempo apropriado. poções para dormir, facas, bandagens, algo contra a náusea ( repulsa
ao fedor das feridas). Se não colocarmos essas coisas em uso, como
Confessor criterioso, o mesmo santo disse: “O remédio de um homem poderemos praticar nossa ciência? É impossível, porque um médico
pode ser o veneno de outro”. E mais, o mesmo preparado para a mesma não recebe seu pagamento por suas palavras, mas pelos seus feitos”.
pessoa doente pode num momento ser um remédio e noutro um ve-
neno. Quando ministrado no momento oportuno, serve como remédio, “Um emplastro é uma cura para paixões exteriores, ou seja, paixões
mas no tempo errado se torna um veneno. corporais. Uma poção é uma cura para paixões interiores, para drenar
para fora impurezas invisíveis. Uma navalha é a humilhação que
Assim é que enfatizamos uma vez mais que um terapeuta Ortodoxo morde, mas que purifica a putrefação da empáfia. O colírio serve como
criterioso (médico-confessor) é essencial para ajustar a medicação e um castigo cáustico que traz uma cura rápida. A sangria é uma drena-
fornecer a orientação terapêutica adequada. gem para purulências ocultas. Ela também é um instrumento que cons-
titui eminentemente um remédio intenso e breve para a salvação dos
A seguir eu gostaria de apresentar alguns ditos de padres do deserto doentes. Uma esponja é usada após a sangria para aliviar e refrescar o
nos quais fica claro que existe uma variedade de práticas ascéticas, paciente com as palavras gentis, delicadas e ternas do médico. A cau-
com grandes possibilidades de ajustes. terização é uma regra de penitência dada com amor ao pecador por um
Alguém perguntou a Santo Antônio: ”Quais boas obras poderei ei rea- período definido de arrependimento. Um unguento é um tranquilizante
lizar?”. Ele respondeu: “Não são todas as boas obras iguais entre si? A oferecido ao paciente como algumas palavras ou uma breve consola-
Escritura diz que Abrahão era hospitaleiro, e que Deus estava com ele. ção após a cauterização”.
Davi era humilde, e Deus estava com ele. Elias amava a paz interior, e
Deus estava com ele. Assim faça o que sua alma desejar, de acordo “Uma poção para dormir é o que usamos para aliviar o peso de uma
com Deus, e guarde o seu coração”. pessoa, e, por meio da obediência, dar a ela descanso, o sono da vigília
e uma sagrada cegueira em relação às suas próprias virtudes. As ban-
João de Tebas disse: “Três obras ganham aprovação aos olhos do Se- dagens servem para atar e fortalecer aqueles que estão nervosos e de-
nhor: a primeira, quando um homem está doente e as tentações caem

46 39
bilitados pela vanglória. O último instrumento é a faca, que é uma sen- um pescador de pensamentos, e na calada da noite ele pode observá-
tença ou um decreto para cortar fora o membro pútrido e um corpo los e capturá-los”.
morto na alma para que não espalhe seu contágio por todo o resto”.
A prece acompanha a vigília. Esse é o método por excelência que cura
“Abençoado e louvável é a resistência à náusea dos médicos, como é a as moléstias da alma. Pois muitas graças alcançam a alma do homem
imparcialidade entre os pastores. Os primeiros, evitando a náusea, in- por intermédio da prece. Mais adiante veremos a prece noética como
cansavelmente se esforçam para dissipar o fedor. Os últimos serão ca- método de libertar o nous e ver a Deus, no capítulo denominado “A
pazes de restaurar a vida a toda alma fenecida”. hesíquia como método de terapia”. Nós consideramos este como o
mais importante meio para a salvação do homem. Existem ainda outros
O Padre João escreve ainda: “Assume-se que acima de todos os outros meios terapêuticos de cura para todas as paixões da alma. Mas vamos
terapeutas, quem guia os enfermos para esses estágios de terapia são tratar deles mais adiante, no capítulo “Patologia Ortodoxa”.
os bispos e os sacerdotes, sendo que os primeiros de modo geral são
egressos do monaquismo. Hoje, porém, depois de um século de uma Talvez o leitor esteja pensando que todos esses métodos terapêuticos,
catastrófica propaganda neo-helenística contra o Hesiquiasmo, esse que são bálsamos para o olho do coração[34], só podem ser praticados
tipo de clérigo é raro. Existem poucos monges hesiquiastas. O sacer- por monges. Isso não é verdade. Qualquer um, mesmo os que vivem
dócio, tal como descrito por Dionísio o Areopagita, praticamente de- no mundo, pode viver pelos mandamentos de Cristo. Prece, arrependi-
sapareceu”. mento, lamentações, compunção, jejum, vigília e tudo o mais, são
mandamentos de Cristo, o que significa que todos podem viver se-
O sacerdote terapeuta também recomenda ao seu filho espiritual um gundo eles. Cristo nunca disse coisas que fossem impossíveis para o
caminho ortodoxo, que é o caminho da devoção ortodoxa. Assim homem. São Gregório Palamas, falando sobre a pureza do coração, en-
sendo, veremos a seguir o método por meio do qual a pessoa doente fatiza que “é possível, mesmo para aqueles que são casados, buscar
poderá obter sua cura espiritual, sob a orientação do seu pai espiritual. essa pureza, embora com bem mais dificuldade”. Todo mundo pode
Queremos focar em especial o ascetismo. “A poderosa prática do au- desenvolver uma vida de acordo com o Evangelho, fazendo para si o
tocontrole e do amor, da paciência e da perseverança, destruirá as pai- correspondente ajuste.
xões ocultas em nós”. Nicetas Sthethatos, discípulo de São Simeão o
Novo Teólogo, descreve essa prática ascética. O homem possui cinco Acima de tudo, se existir um bispo e a divina Liturgia, isso significa
sentidos, de maneira que as práticas ascéticas são também em número que a salvação é possível. Afinal, por que a Igreja existe e funciona? E
de cinco: a vigília, o estudo, a prece, o autocontrole e a hesíquia. O mais, existe uma aplicação apropriada dos mandamentos de Cristo
asceta deve combinar seus cinco sentidos com essas cinco práticas: a para cada pessoa. Na literatura patrística encontramos muitos desses
visão com a vigília, a audição com o estudo, o olfato com a prece, o casos. Os Padres, eles próprios tendo sido curados, adquiriram a graça
paladar com o autocontrole e o tato com a hesíquia. Quando ele tiver do discernimento e aconselharam a cada pessoa sobre como encontrar
sucesso com essas cinco ligações, “ele rapidamente purificará o nous seu caminho, que é essencialmente o caminho da tradição Ortodoxa.
de sua alma e, por esse refinamento, a tornará desapaixonada e lúcida”.

40 45
João Clímaco é claro a esse respeito. Assim como os Hebreus se liber- Em poucas palavras, podemos dizer que a prática do ascetismo con-
taram do Faraó e celebraram a Páscoa depois de comer ervas amargas siste em aplicar as leis de Deus, em aplicar seus mandamentos. O es-
e pão sem fermento, também nós devemos nos libertar de nosso Faraó forço que fazemos para subordinar a vontade do homem à vontade de
interior através do jejum e da humildade: “Vocês não devem se enga- Deus, e para transformar aquela por meio desta, se chama ascese. Es-
nar. Vocês não irão escapar do Faraó, nem verão a Páscoa celeste a tamos cientes, a partir dos ensinamentos de nossos santos Padres, que
menos que comem constantemente ervas amargas e pão sem fermento: todo o Evangelho consiste em “preceitos de salvação”. Tudo o que está
as amargas ervas do trabalho árduo e o pão sem fermento da mente que contido nas Escrituras são mandamentos de Deus, que devem ser ob-
se humilha”. servados por aqueles que buscam sua salvação. Isso está bastante claro
nas Beatitudes[25].
É essencial manter os jejuns fixados pela Igreja, e tentar sempre não
satisfazer por inteiro os desejos da carne. “Bem-aventurados os pobres em espírito”, é o mandamento do Senhor
que devemos observar para nossa pobreza espiritual, ou seja, para que
Além do jejum, outro meio de cura é a vigília. Mantendo a vigília, que possamos experimentar nossa miserabilidade. “Bemaventurados os
é também um método ascético de terapia, a pessoa é purificada e cu- que choram”, é o mandamento do Senhor para que choremos sobre as
rada das paixões. O Senhor nos disse que orássemos à noite, e ele pró- paixões que existem em nós, para que choremos sobre nossa desola-
prio passava noites inteiras na montanha. “E depois de ter despedido ção. “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça”, é o man-
as multidões, ele se dirigiu sozinho à montanha para rezar. E quando damento do Senhor sobre a fome e a sede que precedem a comunhão
chegou a manhã, ele ainda estava lá[33]”. com Deus. “Bem-aventurados os puros de coração”, é o mandamento
de Cristo para que purifiquemos nossos corações. Quando ele nos diz
Os santos Padres experimentaram em suas vidas o efeito benéfico das “bem-aventurados”, é como se dissesse: “Tornem-se pobres, chorem,
vigílias. Santo Isaac diz em seus escritos ascéticos: “O monge que per- sejam sedentos por justiça”, e assim por diante.
severa na vigília com um nous atento, não será visto como coberto de
carne, porque esse é um trabalho do estado angélico”. Uma alma que Portanto, os mandamentos de Cristo consistem numa prece incessante,
trabalha e se excede na prática das vigílias “terá os olhos do Querubim, numa celebração da Divina Liturgia, numa vigilante atenção sobre o
e poderá sempre olhar e contemplar as visões celestiais”. nous, na pureza do coração, etc. “A lei é santa e o mandamento é santo,
São João Clímaco, com sua delicadeza característica apresenta o mo- justo e bom[26]”. João Evangelista, o discípulo do amor, enfatiza aos
delo do monge desperto e os benefícios da vigília: “Uma atitude alerta Cristãos: “Agora é desse modo que sabemos que o conhecemos, se
mantém a mente limpa. A sonolência amarra a alma. O monge alerta guardarmos seus mandamentos. Aquele que diz “eu o conheço”, mas
luta contra a fornicação, enquanto que o sonolento se deixa levar por não guarda seus mandamentos, é um mentiroso e a verdade não está
ela. O alerta extingue a luxúria, liberta das fantasias, mantém os olhos nele. Mas quem mantém Sua palavra, verdadeiramente o amor de Deus
em lágrimas, suaviza o coração e o torna gentil, domina os pensamen- neste é perfeito. Por essas coisas sabemos que estamos nele[27]”. O
tos, digere os alimentos, domestica as paixões, submete os espíritos, mesmo Evangelista enfatiza com toda autoridade: “Pois este é o amor
controla a língua, afasta as imaginações ociosas. O monge vigilante é de Deus, que sigamos Seus mandamentos”.

44 41
De acordo com Dionísio o Areopagita, “o objetivo de nossa hierarquia Os mandamentos básicos que afetam nossa cura espiritual – conforme
é nos tornarmos o tanto quanto possível semelhantes a Deus e unidos estão nos Tropários que cantamos na Igreja – são “jejuns, vigílias e
a Ele. Mas a Escritura nos ensina que nosso desejo só terá sucesso preces”.
através da amorosa observância dos mandamentos e da realização dos
serviços divinos”. São Gregório Palamas nos ensina que o conheci- Se a esmola cura o poder insensível da alma e a prece purifica o nous,
mento das coisas criadas vem por meio das ações virtuosas. E quando o jejum enfraquece o desejo sensual, de modo que toda a alma se ofe-
perguntado a respeito da finalidade dessas ações, ele escreve: “A união rece curada a Deus. O jejum também torna o corpo mais humilde: “A
com Deus e a semelhança para com Ele”. Realizar ações virtuosas está provação de comida mortifica o corpo do monge”. Mas o jejum em
ligado à observância dos mandamentos. O santo hesiquiasta observa excesso não apenas enfraquece o corpo, como ainda “faz com que a
ademais que o amor por Deus “só vem por intermédio da sagrada rea- faculdade contemplativa da alma se desanime e tenha dificuldades de
lização dos mandamentos divinos”. concentração”.

A seguir eu gostaria de mencionar alguns preceitos dos Padres a res- São João Clímaco fala a respeito do jejum: “Jejuar é fazer violência
peito do valor dos mandamentos. “O propósito dos mandamentos do contra a natureza. Ele deve ser dirigido contra tudo o que agrada ao
Salvador é o de libertar o nous do ódio e da dissipação[28]”. Os man- paladar. O jejum acaba com a luxúria, desenraiza os maus pensamen-
damentos de Deus “excedem todos os tesouros do mundo. O homem tos, liberta dos sonhos diabólicos. O jejum permite a pureza na oração,
que recebeu sua posse interior encontra neles o Senhor[29]”. “Manter uma alma iluminada, uma mente alerta, a libertação da cegueira. O je-
os mandamentos de Deus gera a impassibilidade. A impassibilidade da jum é a porta da compunção, dos suspiros de humildade, da contrição
alma preserva o conhecimento espiritual[30]”. A obediência aos man- alegre, e acaba com a tagarelice, fazendo-se uma ocasião para o re-
damentos de Deus “é a ressurreição dos mortos[31]”. pouso da mente, para a custódia da obediência, para a iluminação do
sono, a saúde do corpo, sendo ainda um agente da impassibilidade e da
São Gregório o Sinaíta, descrevendo os dois modos de operação do remissão dos pecados: uma porta para as delícias do Paraíso”.
Espírito Santo, que recebemos secretamente no Santo Batismo, consi-
dera a observância dos mandamentos como sendo um deles: “Quanto Todas essas coisas que mencionamos, por um lado mostram o âmbito
mais conservamos os mandamentos, mais se manifesta a brilhante luz do jejum, e por outro indicam os frutos que obtemos para a alma que
do Espírito Santo em nós[32]”. se esforça. É por isso que todos os santos amavam o jejum. É impor-
tante mencionar que quando uma pessoa começa a se arrepender, ela
Todas essas coisas mostram o quão essencial é a vida ascética para a também começa a jejuar por si mesma, o que mostra que o jejum acom-
cura e a restauração da alma. Como dissemos, essa vida ascética con- panha a oração e o arrependimento.
siste basicamente na observância dos mandamentos de Cristo, nosso
Salvador. É claro que o jejum é um meio e não um fim, “é uma ferramenta para
treinar os que desejam o autocontrole”; porém, sem essa ferramenta, é
quase impossível dominar as paixões e alcançar a impassibilidade. São

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ele come do Cordeiro de Deus no altar espiritual de sua alma, mas ao o benefício que se origina disso será maior do que aquele que deriva
mesmo tempo ele se torna como o cordeiro. Assim podemos entender de qualquer outra obra ou da theoria”.
melhor que quando a prece noética opera em nós, inicia-se uma inces-
sante liturgia divina que nutre toda a nossa existência. São Gregório O valor do sacerdócio, que pode sacrificar o cordeiro, é devido ao fato
do Sinai escreve: “O trabalho noético do nous é a liturgia espiritual. de que ele pode auxiliar o homem a caminhar da imagem de Deus para
Como o noivado antes das maravilhas que virão e que ultrapassam todo a semelhança com Deus. Ele pode guiá-lo em direção à deificação, que
entendimento, essa liturgia é celebrada pelo nous, que misticamente é de fato a cura do homem, ou antes, ele pode manifestar sua cura.
sacrifica o Cordeiro de Deus no altar da alma e que dele participa”.
Comer do Cordeiro de Deus no altar interior significa não apenas apre- Os Padres, comparando o sacerdócio com outros tipos de trabalho, o
endê-lo, ou participar dele, mas também se ornar como ele na vida fu- consideravam maior, porque outros ofícios ajudam o homem a resolver
tura. Aqui desfrutamos das palavras dos mistérios, mas lá esperamos problemas mundanos, enquanto que o sacerdócio o conduz à deifica-
receber sua verdadeira substância. ção. Dessa forma, “o sacerdócio é mais elevado do que um reinado”,
uma vez que o sacerdote “governa as coisas divinas, enquanto os ou-
O mesmo santo escreve ainda que o Reino dos céus é como o taberná- tros governam as coisas terrestres”.
culo moldado por Deus para Moisés, porque no mundo por vir ele tam-
bém terá dois véus. E todos os sacerdotes da graça entrarão no primeiro De fato, como enfatizamos, no trabalho pastoral do sacerdote está o
tabernáculo, mas só entrarão no segundo tabernáculo aqueles que do- sacerdócio do próprio Cristo. O sacerdote ministra essa graça sobre o
ravante celebrarão hierarquicamente na escuridão da teologia, em per- povo e assim se capacita a perdoar e curar os pecados dos homens.
feição, tendo Jesus como primeiro celebrante e bispo diante da face da
Trindade. Dessa forma, todos os que adquiriram o dom da teologia, Dissemos apenas essas poucas coisas a respeito do valor do sacerdócio,
conforme explicamos acima, ou seja, que passaram da theoria natural porque não é nosso objetivo nesse capítulo enfatizar o grande valor
para penetrar na escuridão divina são eles próprios sacerdotes de Deus; desse trabalho.
eles constituem o verdadeiro e espiritual sacerdócio. E, uma vez que
possuem o sacerdócio espiritual, eles podem curar os doentes. 1.1.2 . O chamamento e a ordenação dos Apóstolos
O Senhor chamou aqueles que estavam talhados para essa obra e lhes
Nicetas Stethatos ensina que qualquer sacerdote, diácono ou mesmo concedeu Seu sacerdócio. Dessa forma, os primeiros bispos foram os
monge que participa da divina graça com todos os pressupostos colo- Apóstolos. O Senhor chamou-os à dignidade apostólica, esteve com
cados pelos Padres, é um verdadeiro bispo ainda que não tenha sido eles por três anos inteiros, e então lhes concedeu o Espírito Santo para
ordenado bispo pelos homens. Ao contrário, alguém que não seja ini- que perdoassem pecados, e enviou-os a pregar a “todas as nações”, e
ciado na vida espiritual é falsamente chamado de bispo, mesmo que para que guiassem os povos. Ele os fez pescadores de homens e pre-
por sua ordenação ele tenha sido colocado acima de todos, e deles es- gadores do Evangelho. Foi essa escolha e esse envio que fez deles
carneça ou se comporte de forma arrogante. Apóstolos. Não existe evidência na Sagrada Escritura de que o Senhor
tenha usado alguma cerimônia especial para conferir o serviço sacer-
dotal aos Apóstolos. Podemos dizer, no entanto, que “o Senhor, tendo
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ele próprio instituído os sacramentos, não estava limitado por eles, mas noética foram escolhidos para receber a graça também a graça do sa-
estava apto a torná-los efetivos apenas pela expressão de sua vontade”. cerdócio. De acordo com São Gregório, “a prece noética é a liturgia
O que quer que tenha acontecido, o fato é que o chamado dos doze mística da mente. Uma pessoa que possua o dom da prece noética sente
Apóstolos por Cristo, sua aparição depois da Ressurreição, o dom da a operação da graça em seu interior, que é purificadora, iluminadora e
graça de perdoar pecados e a chegada do Paráclito no dia de Pentecos- mística. Todos os que alcançam esse estado são sacerdotes. O verda-
tes estabeleceram-nos como os pastores do povo de Deus. deiro santuário é um coração que foi liberto dos maus pensamentos e
que recebeu a operação do Espírito, pois tudo nesse coração será dito
E temos ainda o caso do Apóstolo Paulo, que não foi discípulo de e feito espiritualmente”.
Cristo durante o período de vida deste, mas que também foi chamado
ao grau apostólico. Ele próprio se considerava como apóstolo de Jesus Essa passagem do santo Padre me permite dizer que o sacerdócio es-
Cristo: “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, por mandamento de Deus piritual é aquele que deverá se consumar no século futuro, no Reino
nosso Salvador e Senhor Jesus Cristo[1]”. Em outra passagem ele es- dos céus. Sem querermos nos precipitar sobre o tema do indelével ou
creve: “Pois eu reivindico não ter feito menos do que os maiores dentre não-sacerdotal sacerdócio, enfatizamos a verdade de que o sacerdócio
os apóstolos[2]”. Em outra parte, o mesmo Apóstolo escreve: “Agra- sacramental é feito para o benefício dos leigos, para servir às suas ne-
deço a Jesus Cristo nosso Senhor, que me deu a força. Ao me chamar cessidades, enquanto que o sacerdócio espiritual é aquele que continu-
para seu serviço ele me considerou digno de fé[3]”. Ele tinha certeza ará a ser celebrado no altar celeste na vida futura. Todos os que pos-
de ter sido uma testemunha legítima da Ressurreição, porque no cami- suem o sacerdócio espiritual são verdadeiros clérigos agora e para
nho para Damasco ele viu o Cristo ressuscitado. A partir daí, ao falar sempre. Esse sacerdócio pode incluir todos os tipos de homens, e, na-
das aparições de Cristo ressuscitado, ele proclamava ousadamente: turalmente, também as mulheres. Dessa forma, não é muito importante
“Último dentre todos, também eu o vi, como o último filho que nasce que na tradição Ortodoxa as mulheres não possam receber o sacra-
inesperadamente[4]”. Ele se colocava entre as testemunhas da Ressur- mento sacerdotal, pois elas têm a possibilidade de se tornarem verda-
reição. deiros clérigos.

A aparição de Cristo a Paulo não apenas lhe conferiu a dignidade de Em outra parte São Gregório do Sinai é explícito: “Todos os reis e
Apóstolo como significou sua ordenação no sacerdócio de Cristo. sacerdotes devotos são verdadeiramente ungidos na renovação do ba-
tismo, assim como aqueles antigos eram ungidos simbolicamente. Os
O Professos Romanides escreve: “De acordo com o Apóstolo Paulo, sacerdotes do Antigo Testamento eram verdadeiros símbolos da ver-
os profetas em uma paróquia[5] são aqueles que, como os apóstolos[6], dade, mas nosso reino e nosso sacerdócio não são do mesmo caráter e
atingiram a deificação, a visão de Cristo na glória da Santíssima Trin- forma”.
dade. Paulo enfatiza isso claramente quando escreve sobre o ministério
de Cristo, ‘que em outras épocas não era conhecido dos filhos dos ho- Quando o nous de um homem se revela, quando ele se libertou de seu
mens, do modo como foi revelado agora pelo Espírito aos seus santos cativeiro e recebeu o Espírito Santo, ele recebe o sacerdócio espiritual
Apóstolos e profetas[7]’. É dentro desse contexto que a fala introdutó- e então celebra uma liturgia mística no santuário de sua alma e parti-
ria da lista dos membros do corpo de Cristo deve ser entendida: ‘Se cipa com o cordeiro das bodas com Deus. Em seu sacerdócio espiritual

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Em muitos Padres encontramos também esse ensinamento de que qual- um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele[8]’.
quer pessoa é sacerdote de Cristo, no sentido que definimos e desen- Isso equivale a dizer que o membro honrado foi deificado e feito pro-
volveremos mais adiante. São João Crisóstomo apresenta Abrahão feta por Deus. É por isso que o Apóstolo, ao enumerar os vários mem-
também como sacerdote, porque, havendo fogo, um altar e uma faca – bros do corpo de Cristo, começa pelos apóstolos e profetas e termina
como duvidar de seu sacerdócio? O sacrifício de Abrahão foi duplo. pelos que falam em línguas e as interpretam[9], que são as formas do
Ele ofereceu tanto seu filho único como o carneiro e, acima de tudo, culto noético[10]. Nos termos de Paulo, aquele que profetiza é o que
sua própria vontade. Com o sangue do carneiro ele santificou sai mão interpreta o Antigo Testamento – o Novo Testamento ainda não existia
direita, com a morte do filho – que ele decidira executar- ele santificou - com base na experiência da prece noética, que era chamada de ‘di-
sua alma. Então ele foi ordenado sacerdote, pelo sangue de seu filho ferentes tipos de línguas’. Em contraposição, o Profeta é aquele que
único e pelo sacrifício do carneiro. Em seguida, São João Crisóstomo atingiu a deificação. Essa é precisamente a distinção patrística entre
exorta seus ouvintes: “Também vocês foram feitos reis, sacerdotes e teologizar e teologia. Todos aqueles abaixo dos Apóstolos até a pessoa
profetas na pia [batismal]: reis, por terem atirado ao solo todos os atos que profetiza e interpreta possuem ‘variedades de línguas’, isto é, di-
perversos e matado seus pecados, sacerdotes por terem se oferecido a ferentes tipos de culto do Espírito Santo em seus corações. Assim, eles
Deus e sacrificados seus corpos, e também por se terem deixado ma- são chamados por Deus para se tornarem membros do corpo de Cristo
tar”. e templos do Espírito Santo. Ao serem chamados por Deus eles se di-
ferenciam dos ‘desinformados[11]’, aqueles que ainda não haviam re-
Todos os fiéis batizados em nome da Santíssima Trindade e que vivem cebido a unção da visitação do Espírito Santo rezando continuamente
de acordo com a vontade do Deus Santo e Trino são sacerdotes, pois em seus corações, e que ainda não podiam se tornar templos do Espí-
possuem o sacerdócio espiritual. Preferimos a expressão ‘sacerdócio rito Santo. Aparentemente eles haviam sido batizados em água para a
espiritual’ a outros termos como ‘sacerdócio leigo’ ou ‘geral’, porque remissão dos pecados, mas não batizados pelo Espírito, ou seja, cris-
tanto os clérigos como os leigos podem possuir esse sacerdócio, e por- mados. Provavelmente o sacramento da unção da crisma era dado para
que nem todos os que foram batizados o possuem, mas apenas aqueles confirmar que o Espírito Santo tinha vindo para rezar em seu interior
que se tornaram morada do Espírito Santo. O fiel que possui a prece e, portanto, dali por diante ele poderia ser chamado ‘confirmatio’ em
noética possui o sacerdócio espiritual, especialmente aqueles que bus- Latim”.
caram esse nível de graça para orar pelo mundo todo. As orações des-
sas pessoas que se sacrificam, orando pelo bem de todos, sustentam o “Os apóstolos e profetas deificados e os professores iluminados, junto
mundo, e curam os homens. A partir daí, pela prece, elas se tornam com aqueles que possuíam o dom dos milagres, curas, auxílio, admi-
exorcistas, expulsando os demônios que dominam as sociedades hu- nistração ou variedade de línguas[12], aparentemente constituíam o
manas. Esta é a grande obra dos que oram incessantemente por todo o clero ungido e o sacerdócio real, como indica o serviço da Santa
mundo. Crisma. O restante, conforme testemunham os Padres, era formado pe-
los leigos. A expressão ‘Aqueles a quem Deus apontou na Igreja[13]’
São Gregório do Sinai escreve sobre o sacerdócio espiritual que ele é claramente se refere aos que haviam recebido a visita do Espírito
também o fundamento essencial do sacramento do sacerdócio. Pois, Santo, com a deificação para apóstolos e profetas e iluminação para os
como dissemos, aqueles fiéis que foram curados e que possuem a prece demais, e não apenas mediante um ato litúrgico”.

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1.1.3 . Requisitos básicos para a ordenação declara: “Eu não creio que haja um grande número de sacerdotes que
se salvam, bem ao contrário, a maior parte perece; isso acontece por-
É certo que os apóstolos transmitiam o sacerdócio de Cristo por meio
de um sacramento definido chamado de Sacramento das Santas Or- que o assunto requer uma grande alma”.
dens. A Igreja também fixou os pré-requisitos canônicos para qualquer
1.1.2 . O sacerdócio espiritual
um que quisesse receber essa grande graça e exercitar essa alta função.
O sacerdote tem uma tarefa dupla. Uma é celebrar os sacramentos, ou-
Essa ordenação era a dos diáconos na primeira Igreja de Jerusalém. tra é curar as pessoas para que possam dignamente se aproximar e re-
Depois que foram escolhidos sete diáconos, escreve o Livro dos Atos, ceber a Santa Comunhão. Já apontamos muitas vezes que existem mui-
“eles foram colocados diante dos apóstolos, e depois que estes rezaram tos sacerdotes que são sacerdotes exteriormente e que executam sua
impuseram suas mãos sobre eles[14]”. Aqui temos a imposição das função sem impedimentos, mas que na sua essência corromperam o
mãos e a prece. São João Crisóstomo, analisando essa passagem, es- sacerdócio, e que isso fica evidente pelo fato de não são capazes de
creve: “Não se fala sobre a maneira como foi feito, mas que eles foram curar. Eles realizam os sacramentos, e os dons são santificados por seu
ordenados com uma prece; e este é o significado da imposição das intermédio, mas eles não podem curar os outros nem salvar suas pró-
mãos: a mão é colocada sobre o homem, mas que opera é Deus”. prias almas.

O que se pode notar nesse caso é que eles foram escolhidos por todo o Por outro lado, existem muitos leigos e monges que não possuem o
corpo de Cristãos da primeira Igreja. Muitas qualificações foram exi- sacramento do sacerdócio, mas que podem curar as pessoas porque
gidas, e a qualificação básica é de que tivessem recebido o Espírito possuem o sacerdócio espiritual. Vamos nos deter brevemente sobre
Santo. Em relação à escolha de Estevão, lemos nos Atos dos Apósto- esse ponto.
los: “Eles escolheram Estevão, um homem cheio de fé e do Espírito
Santo[15]”. Assim, eles não apenas receberam o Espírito Santo no mo- Por meio do batismo e de um esforço para guardar os mandamentos de
mento da ordenação, como possuíam a graça do Espírito Santo. Cristo, todos os Cristãos se revestem de Cristo, e esse é o caminho para
participar do real, profético e altamente sacerdotal ofício de Cristo.
Interpretando isso, São João Crisóstomo diz que Estevão teve a graça
do Espírito Santo “desde o banho” batismal. Somente essa graça não Esse ensinamento é relatado nos textos do Novo Testamento. No Livro
era o bastante, mas era necessária a ordenação por meio da imposição do Apocalipse, João o Evangelista escreve: “Para aquele que nos amor
das mãos, “de modo a que houvesse um posterior acesso ao Espírito”. e que nos lavou de nossos pecados com seu próprio sangue e que nos
Ele também diz que Estevão recebeu uma graça maior do que a dos tornou reis e sacerdotes para seu Deus e Pai[11]”. O Apóstolo Pedro
demais diáconos: “pois apesar de que a ordenação fosse a mesma para diz: “Vocês são uma geração escolhida, um sacerdócio real, uma nação
ele e os demais, ele alcançou uma graça maior”. Isso foi devido à sua sagrada, seu próprio e especialíssimo povo[12]”. E o Apóstolo Paulo
maior pureza e à presença nele do Espírito Santo. escreve aos Cristão de Roma: “Doravante eu apelo a vocês, irmãos,
que, pelas misericórdias de Deus, apresentem seus corpos como um
sacrifício vivo, santo e aceitável a Deus, que será seu culto de adoração
espiritual[13]”.
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Os Padres não hesitam em expor a punição dos sacerdotes indignos, Isso mostra além de qualquer dúvida que os candidatos a esse grande
aqueles que praticam esse grande ofício sem ter sido adequadamente ofício do sacerdócio não esperavam simplesmente pelo dia de sua or-
testados, preparados e vividos. Por causa disso, ao invés de curar as denação para receber o Espírito Santo, mas tinham que se abrir previ-
almas do rebanho, eles as tentam. amente para o Espírito Santo.
São Isidoro de Pelúsio escreve: “Não barganhe com as coisas divinas”.
A Igreja faz muita questão disso, como podemos ver pelas cartas pas-
São Teognosto se dirige ao sacerdote incorrigível que não renuncia ao torais do Apóstolo Paulo. Ele escreve a Timóteo: “quando eu me lem-
ministério sagrado: “Espere para cair nas mãos do Deus vivo e experi- bro da fé genuína que existe em você, que primeiro habitou sua avó
mentar sua ira. Deus não irá poupá-lo, sem compaixão”. Ele nos in- Lóide e sua mãe Eunice, e que, estou persuadido, está também em
forma que “muitos sacerdotes indignos foram retirados subitamente você[16]”. Sabemos bem que a fé não consiste num ensinamento abs-
pela morte súbita e levados às salas do julgamento”. trato, mas numa “compreensão e numa visão do coração”, e que ela é
a vida do Espírito Santo em nossa alma.
Ele tinha em mente dois exemplos de sacerdotes indignos com dife-
rentes consequências. Havia um que parecia externamente honrado en- O Apóstolo escreve ainda a seu discípulo Timóteo, a quem ele próprio
tre os homens, mas que não obstante, “era interiormente licencioso e ordenara bispo: “Não negligencie o dom que existe em você, que lhe
corrupto”, e, no momento do hino querúbico, quando estava lendo o foi dado por profecia com a imposição das mãos do presbitério[17]”.
trecho “ninguém é digno”, ele “morreu subitamente”. O outro havia Em outra parte, ele escreve: “Eu o encarrego disso, meu filho Timóteo,
tombado na paixão da luxúria. Pouco depois ele caiu incuravelmente de acordo com as profecias referentes a você desde antes[18]”. São
doente e viu a morte chegar. Quando ele se deu conta de sua indigni- Teofilactos oferece esta interpretação: “O grau de sacerdócio, que con-
dade e fez um voto de desistir de celebrar os mistérios “ele recobrou a cerne à instrução e à proteção do povo, sendo grande e elevado, requer
saúde de tal modo que nenhum traço da moléstia subsistiu”. que o candidato seja aprovado desde o alto por Deus. Por essa razão,
nos tempos antigos aqueles que se tornavam sacerdotes ou bispos o
Nós nos demoramos neste tópico apesar de que ele possa parecer des- faziam por intermédio de profecias divinas, ou seja, pelo Espírito
locado do tema de nosso estudo, porque desejamos enfatizar especial- Santo”.
mente que o sacerdócio é um serviço pastoral para o povo. O sacerdote Muita preparação e muitos requisitos estavam envolvidos na seleção
e o bispo têm essa grande honra de servir ao povo. Servir ao povo sig- de sacerdotes e bispos para esse grande ofício. O Apóstolo exorta: “Se
nifica curar, primeiro e acima de tudo. A Igreja não existe simples- um homem é irrepreensível[19]”, deixe que ele seja indicado para sa-
mente para fazer um trabalho social ou para servir às necessidades so- cerdote ou bispo. Ele também recomenda que essa pessoa não deve
ciais do povo, mas para guiá-los para a salvação, isto é, para curar suas “ser um noviço[20]”, porque o indicado deve ter uma experiência es-
almas. Esse trabalho exige muitas qualidades. O sacerdote deve ter em piritual prévia e então ser batizado para o grande ofício, ele deve ter se
si a graça incriada de Deus. Ele não está aí apenas para celebrar os purificado, como veremos mais adiante, e somente então receber a or-
sacramentos, mas também para ser santificado por eles, de modo a que, denação.
tendo se santificado, possam santificar os homens com sua existência.
Esse é um trabalho elevadíssimo, e é assim que São João Crisóstomo

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Também São João Crisóstomo escreve que um sacerdote deve ter mais Por outro lado, além de sua purificação e arrependimento, da sobrie-
atenção e força espiritual até do que os eremitas. Pois se os eremitas, dade e da vigilância, o sacerdote deve estar cheio com todas as graças
que estão livres “da cidade, do mercado e de todo o povo”, não estão do Espírito, todas as virtudes. A virtude básica é a santa humildade, a
seguros em espírito, quanto mais força e vigor serão precisos para o qual, de acordo com Santo Isaac o Sírio, é a vestimenta da divindade,
exercício do sacerdote de modo a ser capaz de “arrancar sua alma de desde que Cristo, para salvar o homem, humilhou a si próprio, como
toda infecção e manter sua beleza espiritual inviolada”. É por isso que disse o Apóstolo. Ademais, a Eucaristia que o sacerdote celebra, nos
ele afirma que o clérigo que vive no mundo precisa ter ainda mais pu- mostra a humildade de Cristo. Por intermédio da Eucaristia podemos
reza do que os monges. encontrar a santa humildade e adquirir o modo de vida sacrificial.

Esse tema da salvaguarda da pureza no sacerdócio nos ocupará mais Dessa forma, ao celebrar a Div9ina Liturgia não estamos simplesmente
adiante. Neste momento, queremos enfatizar as qualidades que deve olhando o pão e o vinho se transformarem no Corpo e no Sangue de
ter o Cristão se quiser ser ordenado padre. Pois, se ele próprio não es- Cristo, mas estamos tentando adquirir o modo de vida de Cristo, e sua
tiver curado, como poderá ser capaz de curar a espiritualidade enfra- humildade. Tentamos nos revestir com o espírito da Eucaristia, que é
quecida e enferma? um autoesvaziamento.

A preparação para o sacerdócio é um dos temas dominantes nos traba- Dentro dessa perspectiva São Teognosto adverte: “Torne-se humilde
lhos de São Simeão o Novo Teólogo. Qualquer um que não tenha aban- como uma ovelha para o açougueiro, considerando verdadeiramente
donado o mundo e que não tenha sido considerado digno de receber o como superiores todos os homens”. Ele exorta: “Veja a si próprio
Espírito Santo, como o foram os santos Apóstolos, que não tenha pas- como cinzas e pó, ou como um refugo, uma espécie de vira-latas”. É
sado pela purificação e pela iluminação e que não tenha sido conside- preciso celebrar o serviço sacerdotal “com temor e tremor” e dessa
rado digno de “contemplar a luz inatingível” – “este homem não ouse maneira partilhar a palavra da verdade e trabalhar pela própria salva-
aceitar o sacerdócio e a autoridade sobre as almas, nem agir nesse sen- ção. Naturalmente, os Padres reconhecem a verdadeira situação: eles
tido!”. estão cientes da existência de muitos sacerdotes indignos que, sem pos-
suir as qualidades essenciais, ousam ministrar o Santíssimo Sacra-
Encontramos o mesmo ensinamento em São Teognosto. Se o sacer- mento. De acordo com São João Crisóstomo, o sacerdócio, longe de
dote, diz ele, “não foi certificado pelo Espírito Santo”, para atuar como acobertar as paixões humanas, as expõe e as torna manifestas. Assim
um intermediário aceitável entre Deus e o homem, ele não deve “pre- como o fogo testa o metal, “a pedra de toque do ministério distingue
sunçosamente ousar celebrar os terríveis e santíssimos mistérios”. as almas dos homens. Se um homem é raivoso, convencido ou jactan-
cioso, ou algo do gênero, ele logo revelará suas faltas e as exporá a nu.
Quando a ordenação se tornava iminente, os Padres fugiam para as Não apenas ele as desnudará, como elas se tornarão ainda mais rudes
montanhas, como vemos pela vida de São Gregório o Teólogo. Em sua e intratáveis”.
“Defesa da viagem a Pontos” ele procurou defender sua ação, dizendo
que ninguém se comprometer a pastorear o rebanho espiritual a menos São João Clímaco diz que já viu sacerdotes idosos sendo “motivo de
riso dos demônios”.

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de discrição e de comedimento muito maior do que em nossa vida pre- que tenha se tornado previamente um templo do Deus vivo, “uma mo-
gressa”. De acordo com São João Crisóstomo, o sacerdote deve ser rada de Cristo no Espírito”, ou a menos que tenha vislumbrado “por
puro como se ele próprio estivesse nos céus, em meio às potências an- experiência e contemplação” todos os títulos e poderes de Cristo, e
gélicas. A alma do sacerdote deve ser mais pura do que os raios do sol aprendido “a sabedoria oculta de Deus num mistério” – vale dizer, se
“a fim de que o Espírito Santo nunca o abandone desolado”. ainda for um bebê “alimentado a leite”.
O arrependimento é outra qualidade espiritual indispensável para o sa-
cerdote. “Com torrentes de lágrimas”, deixe que ele se torne mais Certamente os santos Padres não estavam inconscientes do fato de que
branco do que a neve, e então, com uma consciência limpa, deixe “que muitos foram ordenados sem preencher esses ideais, e que não haviam
ele toque as coisas santas com santidade”. sido purificados, nem curados. Pois muitas ordenações se originaram
“não da graça divina, mas da ambição humana”. E é bem conhecida a
A pureza de um sacerdote deve brilhar e irradiar sobre os Cristãos. O fala de São João Crisóstomo de que “Deus não ordena ninguém, mas
sacerdote deve ser puro de paixões, “em especial da falta de castidade opera por meio de todos”.
e do rancor, e deve manter sua imaginação livre das paixões”. Muitos
Padres enfatizam que essas duas paixões (falta de castidade e rancor) 1.1.4 . Os três graus do sacerdócio
não devem chegar perto dos sacerdotes, porque de outra forma a graça A partir de um estudo de fontes, principalmente da literatura patrística,
de Deus não poderá trabalhar pela cura de seus filhos espirituais. Nesse fica claro que os graus do sacerdócio (diácono, padre, bispo) estão es-
caso, o sacerdote estará doente, como já indicamos. Ele deve estar pes- treitamente conectados com os três graus básicos da vida espiritual.
soalmente comprometido “sacrificialmente para morrer para as pai- Isso significa que na medida em que um homem progride na cura ele
xões e para os prazeres sensuais”. Ademais, de acordo com o Abade ascende na escala espiritual da graça e bênção sacerdotal. Este é, pelo
Doroteu, “tudo o que é oferecido como sacrifício a Deus, seja uma menos, o que ensinam os Padres. Desenvolveremos mais adiante este
ovelha, uma vaca, ou o que for, é uma vítima”. Ele deve assim consa- ponto fundamental do ensinamento patrístico quando falarmos da
grar-se inteiramente a Deus. graça curativa do sacerdócio.
No capítulo anterior enfatizamos que a vida espiritual está dividida em
O Evangelho, que descreve a jornada do Cristão que luta por obter a
três estágios, que são a purificação, a iluminação e a deificação. En-
comunhão com Deus, deve ser aplicado em primeiro lugar pelo seu
contramos essa divisão em muitos Padres, embora às vezes com nomes
servidor, o sacerdote. A vida ascética da Igreja que descrevemos neste
diferentes. Por exemplo, Nicetas Stethatos escreve que existem três
livro deve ser conhecida pelos pastores da Igreja. E quando dizemos
etapas no avanço para a perfeição: a etapa inicial de purificação, a
‘conhecida’, não queremos dizer que ela deve ser conhecida por meio
etapa intermediária de iluminação e finalmente a etapa de perfeição
de livros e leituras, mas por uma experiência vivida. Pois aquilo que
mística. Conforme o Cristão avança através dessas três etapas, ele
passa através do coração pode ajudar os Cristãos fiéis. Uma pessoa
cresce em Cristo. O trabalho de purificação consiste em submeter a
oferece seu sangue para que outra seja alimentada. Esse sangue é par-
carne e evitar todo pecado que excite a paixão; ele permite o cresci-
tilhado e todo o povo recebe a sua parte. mento do arrependimento, as lágrimas, etc. A etapa de iluminação as-
siste ao início da impassibilidade, que se caracteriza pelo discerni-
mento, pela “contemplação dos princípios internos da criação” e pela
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“comunhão com o Espírito Santo”. Sua tarefa é a “purificação do inte- do Senhor Jesus Cristo[8]”. Ele o exorta a conservar a tradição: “Estas
lecto (...) descobrindo os olhos do coração (...) e a revelação dos mis- coisas boas que foram confiadas a você, guarde-as pelo Espírito Santo
térios do Reino dos Céus”. E a etapa da perfeição mística permite à que habita em nós[9]”. A guarda da tradição deve ser feita por meio do
pessoa “buscar os mistérios ocultos de Deus”, preenche-a com a “com- Espírito Santo que habita em Timóteo. Ele o exorta a ser cauteloso,
panhia do Espírito” e lhe mostra como ser “um sábio teólogo no seio atento, vigilante para estar pronto para o grande chamado de Deus:
da grande Igreja”, etc. “Seja vigilante em todas as coisas, suporte as aflições, faça seu traba-
lho de evangelizador, cumpra seu ministério[10]”.
Dessa forma uma pessoa que viva na Igreja e seja ajudada pela graça
divina purifica a parte passional de sua alma, seu nous se ilumina e ela Os ensinamentos patrísticos se referem a todas as qualidades essenciais
ascende à teologia mística, a deificação abençoada. que devem adornar o sacerdote de modo a que ele seja capaz de manter
essa grande obra e esse chamado. A seguir tentamos fazer uma seleção
Na teologia de São Máximo o Confessor esses três estágios são expres- desses ensinamentos, principalmente em São João Crisóstomo e São
sos como filosofia prática (purificação positiva e negativa), theoria na- Teognosto. Os ensinamentos desses dois Padres expressam toda a
tural (iluminação do nous) e teologia mística santa Igreja Ortodoxa.
( deificação). Os Padres da Igreja, tendo se retirado de todas as criatu-
ras, ascenderam à visão de Deus, e essa visão alcançou seu mais alto De acordo com São Teognosto, o sacerdote deve não apenas estar
grau na “ciência teológica”, ou “mistagogia teológica” ou “teologia cheio com as tradições humanas, mas possuir a graça de Deus mistica-
mística”, que também é chamada de “inesquecível conhecimento espi- mente oculta em si. “Esteja certo de que você não conta apenas com as
ritual”. tradições humanas ao celebrar os divinos mistérios, mas deixe que a
Graça de Deus o preencha interior e invisivelmente com o conheci-
Assim, os Padres que viviam na theoria (visão de Deus) eram os ver- mento das coisas do alto”. “A dignidade sacerdotal, como as vestes
dadeiros teólogos e ao mesmo tempo eram a própria e real teologia, sacerdotais, é cheia de esplendor, mas somente na medida em que é
uma vez que a teologia preenchia totalmente sua existência. iluminada desde dentro pela pureza da alma”. Ademais, o sacerdote
deve guardar esse dom divino “como a pupila de seu olho” e manter
De acordo com São Máximo, Moisés era teólogo, porque ergueu sua sua honra impoluta.
tenda fora do campo, “ou seja, quando estabeleceu sua vontade e sua
mente fora do mundo das coisas visíveis, começando assim a adorar a Essas coisas mostram a grande atenção que é requerida por parte do
Deus”. Os três discípulos escolhidos também se provaram teólogos no sacerdote. E isso requer muito sofrimento. O sacerdote deve celebrar a
Monte Tabor, quando lhes foi concedido ver a luz da divindade três Divina Liturgia primeiramente para si próprio, “cuidadosa e diligente-
vezes solar. Também São Paulo, que foi elevado ao terceiro céu, era mente”.
teólogo. São Máximo explica que os três céus correspondem aos três
degraus da subida mística do homem, ou seja, a filosofia prática, a the- A vigilância é indispensável para conseguir se manter puro, e para que
oria natural e a teologia mística. a graça sacerdotal e a bênção permaneçam. De acordo com São Teog-
nosto, o sacerdócio “requer de nós uma purificação angélica, e um grau

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as paixões dos homens e são incapazes disso. Eles não sabem qual mé- Apresentamos esse ensinamento patrístico de modo a relacioná-lo com
todo aplicar. Eles não têm ideia do que são o nous e o coração, de como o tema que nos concerne neste capítulo. São Máximo liga os três está-
o nous se torna escravo ou como o coração morre. Muitas vezes eles gios da vida espiritual com os três graus do sacerdócio. Ele escreve:
consideram esses ensinamentos como sendo exclusivos para monges, “Aquele que unta seu nous para a contenda espiritual e expulsa todos
e dividem os ensinamentos de Cristo em monástico e secular. Mas não os pensamentos passionais daí tem as qualidades do diácono. Aquele
existe essa distinção no ensinamento de nossa Igreja Ortodoxa. que ilumina seu nous com o conhecimento das coisas criadas e destrói
completamente o falso conhecimento tem a qualidade de sacerdote.
A seguir gostaríamos de expor o ensinamento da Igreja, por intermédio Aquele que aperfeiçoou seu nous com a santa mirra do conhecimento
dos Apóstolos e dos Padres, sobre a necessidade do sacerdote de ali- e adora a Santíssima Trindade tem a qualidade de bispo”.
mentar o dom do sacerdócio, de reacender a graça recebida no sacra-
mento da ordenação, pois, de outro modo, ele não será capaz de curar Quero agora comparar isso com outra interpretação, especificamente a
as enfermidades espirituais dos homens. de São Nicodemos o Hagiorita, uma vez que é básico na prática da
Igreja que um santo interprete a outro santo, para que, dessa maneira,
1.1.1 . Qualidades básicas dos sacerdotes terapeutas a Igreja encontre a expressão de sua experiência comum. São Nicode-
A Apóstolo Paulo adverte seu discípulo Timóteo: “Não negligencie o mos escreve: “Máximo, o inspirado por Deus, vê como a tarefa do di-
dom que existe em você[1]”. Essa exortação é semelhante à exortação ácono limpar os demais de suas paixões e dos maus pensamentos por
para os Cristãos: “Como colaboradores de Deus, pedimoslhes que não meio de um esforço moral; a tarefa do sacerdote é a de iluminar os
deixem se esvaziar a graça que receberam[2]”; também as palavras do outros com a theoria natural dos princípios internos das coisas; final-
Apóstolo: “A graça que ele mostrou não era desprovida de frutos[3]”. mente, a do bispo consiste em aperfeiçoar as pessoas com a luz dos
Ele ainda instrui o Apóstolo Timóteo: “Por isso lembro a você que princípios interiores da teologia (...) e assim o sacerdote principal não
deve assoprar a chama dessa graça especial que Deus acendeu em você deve ser apenas um filósofo moral, natural ou contemplativo, mas tam-
quando eu impus minhas mãos sobre você[4]”. bém um teólogo, porque ele aquelas funções pertencem ao diácono e
ao padre”.
Nas epístolas pastorais o Apóstolo Paulo sempre se refere a esse tema. Devemos notar que a conexão entre os três graus do sacerdócio e os
O bispo e o clérigo em geral devem, com seu esforço, preservar o dom três estágios da vida espiritual é mencionada nos escritos de São Dio-
do sacerdócio, servir a Deus e aos homens de modo digno e guardar nísio o Areopagita, que contém a tradição da Igreja. E se estes escritos
sua herança sagrada. são considerados como representativos da norma da Igreja nos primei-
ros séculos, parece claro que esses três estágios da vida espiritual cor-
Gostaríamos de citar algumas de muitas passagens características: respondiam então aos três graus do sacerdócio. Quero me estender um
“Treine a si mesmo para a bondade[5]”. “Você será um bom ministro pouco a respeito, para mostrar essa conexão.
de Jesus Cristo alimentado com as palavras da fé e da boa doutrina que
você seguiu cuidadosamente[6]”. “Seja um exemplo para os fiéis em É sabido que em seu trabalho “A hierarquia eclesiástica” São Dionísio
palavras, conduta, amor, fé e pureza[7]”. Paulo pede a Timóteo para o Areopagita descreve os três estágios da vida espiritual: purificação,
cumprir sua missão “sem nódoa, irrepreensivelmente, até a aparição iluminação e perfeição, sendo esta última equivalente à deificação. “A

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dignidade dos bispos é aquela que possui por completo o poder de con-
sagração (...) sua tarefa não é apenas a de consagrar, mas de tornar Psicoterapia Ortodoxa - Capítulo II - Parte II
perfeito. A dignidade sacerdotal é iluminadora, ela traz a luz, enquanto
que a tarefa dos diáconos é a de purificar e de discernir o imperfeito”.
O trabalho do clero é litúrgico, santificador e purificador, uma vez que
é através dos sacramentos que a vida espiritual do homem se desen- 1.1 . Reacendendo o dom espiritual
volve. Em outras palavras, os sagrados ritos da Igreja não são formas,
mas eles purificam, iluminam e conduzem o homem ao estado de per- Acreditamos ter demonstrado que o sacerdócio é um grande dom con-
feição. cedido àqueles que se curaram das paixões e que se colocam na posi-
ção de médicos para curar as paixões do povo.
Assim sendo, o trabalho de diáconos, padres e bispos está conectado
com o crescimento espiritual dos Cristãos. De acordo com o serviço Mas um médico precisa de constante renovação. De outro modo ele
batismal, tal como apresentado por São Dionísio – e acreditamos que não conseguirá curar as moléstias das pessoas com novos métodos. O
isso reflete o uso dos primeiros séculos da Igreja – quando uma pessoa mesmo se aplica, em certa medida, ao caso dos sacerdotes. É preciso
é trazida para o batismo, o diácono a despe de suas roupas; isto mostra uma atenção vigilante e um grande esforço para manter esse dom do
seu papel na Igreja como purificador. O padre unta todo o corpo do sacerdócio todo o tempo. O sacerdote traz consigo o sacerdócio de
candidato; isto mostra seu papel na Igreja como iluminador. O bispo Cristo e deve mantê-lo incorruptível. Isso possui um significado pro-
conduz a pessoa à perfeição ao batizá-la; isto mostra seu papel como fundo.
perfeccionador. A ordem dos bispos “executa toda consagração hierár-
Existem sacerdotes que não foram depostos e que consequentemente
quica. Ela ensina como entender, explicando as coisas sagradas, esta-
continuam a celebrar a Liturgia e a celebrar os sacramentos pela graça
belecendo suas características e seus santos poderes”. A ordem dos pa-
de Deus. Externamente, seu sacerdócio pode não ser um estorvo, por-
dres “guia o iniciado para as divinas visões dos sacramentos”, mas en-
que eles não foram condenados pela Igreja. Mas seu sacerdócio não
via aos bispos “aqueles desejosos de um completo entendimento dos
tem poder porque eles o corrompem com suas vidas. Eles podem con-
ritos divinos que estão sendo contemplados”. Dessa forma, o padre ilu-
sagrar os dons, mas eles próprios não podem ser santificados por eles,
mina os Cristãos, sob a autoridade de um bispo, mas envia a ele aqueles
como disse Nicholas Cabasilas.
que desejam a perfeição, uma vez que a divina ordem dos bispos é a
primeira a contemplar a Deus. A ordem dos diáconos, antes de condu-
Onde aparece essa impotência espiritual? Ela aparece principalmente
zir os candidatos aos padres, “purifica os que se aproximam, afas-
no fato de que eles não são capazes de curar, nem sabem como curar.
tando-os de qualquer flerte com o que é mau. Isso os torna receptivos
Realizar os Mistérios dos sacramentos é uma graça de Deus dada pelo
para a visão ritual e a comunhão”.
sacramento do sacerdócio. Mas curar as enfermidades das pessoas é
uma graça de Deus que é concedida à pessoa que torna sinergicamente
É muito significativo que, de acordo com São Dionísio, os bispos não
produtivo o dom de seu próprio batismo, que coloca em uso o dom real
devem se ocupar apenas da perfeição, mas também iluminar e purifi-
da graça. Isso explica porque muitos sacerdotes não sabem como curar

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[1] I Timóteo 1: 1. car. Similarmente, os padres possuem o entendimento tanto para ilu-
[2] II Coríntios 11: 5. minar quanto para purificar, enquanto que os diáconos só o têm para
[3] I Timóteo 1: 12. purificar. “Os inferiores não devem avançar sobre as funções dos su-
[4] I Coríntios 15: 8. periores”. Assim sendo, os encargos de cada grau do ministério da
[5] I Coríntios 14: 29. Igreja está estritamente regulamentado de modo a que cada ordem pos-
[6] I Coríntios 15: 5-8. sua sua própria ciência e conhecimento da vida espiritual. Penso que
[7] Efésios 3: 5. devemos citar aqui uma passagem característica na qual Dionísio esta-
[8] I Coríntios 12: 26. belece esse ensinamento sobre a obra das três ordens: “O grau dos san-
[9] I Coríntios 12: 28. tos ministros está dividido da seguinte maneira: o primeiro poder con-
[10] Efésios 5: 19 ss. siste em purificar os não-iniciados por meio dos sacramentos. O poder
[11] I Coríntios 14: 16. intermediário consiste em trazer a iluminação para os que foram puri-
[12] I Coríntios 12: 28. ficados. Finalmente, encontra-se este poder mais maravilhoso, que
[13] Ibid. abarca todos os comungam da luz de Deus, o poder de perfeccionar a
[14] Atos 6: 6. estes por meio do perfeito entendimento daquilo para o quê eles foram
[15] Atos 6: 5. iniciados”.
[16] II Timóteo 1: 5.
[17] I Timóteo 4: 14. Na medida em que estudamos os ensinamentos de Dionísio vemos que
[18] I Timóteo 1: 18. cada um dos três graus do sacerdócio corresponde a um estágio da vida
[19] Tito 1: 6. espiritual. Uma vez que a tarefa do diácono é a de purificar os outros
[20] I Timóteo 3: 6. de suas paixões, ele deve, antes de sua ordenação, ter atingido o estágio
de purificação de modo a se tornar um expoente vivo da filosofia prá-
tica. Uma vez que, de acordo com os ensinamentos patrísticos, é tarefa
do padre iluminar os outros, sua ordenação pressupõe um nous ilumi-
nado, o qual, como vimos corresponde ao grau da theoria. Assim
sendo, o padre deve se lembrar de Deus continuamente na prece, deve
conhecer o trabalho espiritual, ser fluente na Sagrada Escritura e ser
capaz de contemplar os princípios interiores de todas as coisas criadas.
Quanto ao bispo, dado que sua tarefa primária é a de perfeccionar as
pessoas por meio dos princípios interiores da teologia, ele deve possuir
a experiência da teologia mística e viver em comunhão com Deus. Esse
estreito relacionamento com Deus o tornará profeta, um iniciado di-
vino capaz de misticamente partilhar a palavra da verdade com o povo
de Deus.

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A forma que adquire a ordenação de diáconos, padres e bispos indica uma pessoa que não foi deificada, o que é irreal, e levou à dissolução
também a condição espiritual que eles devem alcançar para preencher do trabalho terapêutico da Igreja”.
essas tarefas essenciais. Pois como poderiam as pessoas ser ajudadas
se aqueles que as ajudam não possuírem experiência pessoal na tarefa Com o passar do tempo, apareceram bispos e padres que sequer haviam
que se supõe devam desempenhar? alcançado o estado de iluminação. Foi esse estado de coisas que pro-
vocou a revolução levada a cabo por São Simeão e que conduziu os
Isso se aplica mais especialmente ao bispo, que é o instrumento da hesiquiastas à hierarquia, coisa que não havia ainda se realizado ple-
graça por excelência, sendo que “todo ato de consagração episcopal namente no tempo de São Gregório Palamas”.
deve ser diretamente inspirado pelo próprio Deus”. Moisés não confe-
riu uma “consagração clerical” a seu irmão Aarão enquanto não rece- “O tratamento terapêutico apostólico foi preservado do período pós-
beu ordens de Deus para tal. Como consagrador, ele era submisso a apostólico até o a aparecimento dos Francos e da Ortodoxia Neo-He-
Deus, apenas completando a divina consagração pelo rito hierático. lenística imperial, pela concentração dessa tradição apostólica no mo-
naquismo. Ou seja, o treinamento para a iluminação e a deificação foi
Desse modo, de acordo com Dionísio, que expressa a tradição de transferido das paróquias seculares, que se tornaram fracas, para as pa-
Igreja, o bispo é o supremo cientista da vida espiritual. Ele é o que vê róquias monásticas Ao mesmo tempo as sedes metropolitas e os bispa-
a Deus e que possui uma experiência pessoal de deificação. “Assim dos se tornaram mosteiros. É por isso que Santa Sofia foi chamada de
sendo, a divina ordem dos bispos é a primeira dentre os que contem- Grande Mosteiro, mesmo na tradição leiga. O monaquismo se tornou
plam a Deus, a primeira e também a última”. O bispo é fruto da deifi- um tipo de escola médica onde os candidatos a bispo estudavam a te-
cação, e, tendo ele próprio sido deificado, ele ajuda por meio da graça rapêutica apostólica. Paralelamente a isso permanecia a tarefa de toda
aos amados Cristãos ao longo de sua jornada para a deificação. “A paróquia secular de imitar a paróquia monástica tanto quanto pudesse
existência, a proporção e a ordem da hierarquia da Igreja estão divina- – porque a iluminação e a deificação continuavam a ser indispensáveis
mente perfeccionadas e deificadas nele, e são a partir daí partilhadas para a cura de todas as pessoas, porque todas tinham o nous obscure-
com aqueles abaixo dele de acordo com seus méritos, enquanto que a cido. Do ponto de vista doutrinal não existe diferença entre paróquias
sagrada deificação acontece nele diretamente a partir de Deus”. “Falar seculares e monásticas em relação aos sacramentos oferecidos e em
de um bispo é referir-se a alguém em quem toda a hierarquia está com- relação à necessidade de cura. A diferença reside apenas na quantidade
pletamente perfeita e conhecida”. “Por todo seu esforço persistente e na qualidade das curas bem sucedidas”.
para alcançar o Um, pela completa morte e dissolução da que se opõe
à união divina, o bispo é agraciado com a capacidade imutável de
amoldar-se por completo à forma do divino”. Assim é que o bispo,
como fruto da purificação e da iluminação, é o homem inspirado por
Deus que atingiu a perfeição e que é, portanto, dirigido pelo próprio
Deus. Ele é “o porta-voz da verdade” e aquele que se senta “na forma
e no lugar” de Cristo.

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Muitas vezes, homens que eram simplesmente morais e bons, mas que Não podemos resistir a mencionar uma passagem característica de São
não possuíam a tradicional educação terapêutica da iluminação e da Dionísio, que diz que os raios divinos são concedidos àqueles que são
deificação, eram preferidos. Surgiam bispos que, no período anterior mais divinos, mais adequados para espalhar e partilhar a Luz. É a tarefa
não teriam passado de leigos, uma vez que não possuíam o Espírito daqueles que veem a Deus, revelar aos padres, “na proporção de sua
Santo orando incessantemente em seus corações. É assim que São Si- capacidade” as divinas visões que eles próprios contemplaram. Do
meão o Novo Teólogo explica esse assunto”. mesmo modo é sua tarefa “tudo o que deve fazer sua hierarquia, uma
vez que eles receberam o poder de instruir”. Isso significa que é so-
“São Simeão instigou uma rebelião contra a situação que ele descre- mente depois de um aperfeiçoamento pessoal que alguém pode atingir
veu, com o resultado de que a missão curadora da Igreja foi restaurada uma posição mais elevada; e a posição mais elevada será ocupada por
a uma posição central na Ortodoxia e o Hesiquiasmo dos Padres reto- uma pessoa inspirada por Deus, alguém que conhece a Deus por expe-
mou a hierarquia uma vez mais, como antecipara São Dionísio o Are- riência.
opagita. Sob a liderança do Hesiquiasmo dos Padres, a Igreja e a nação
sobreviverem depois da dissolução do império, porque o treinamento Essas eram as qualificações para Cristãos entrarem para o sacerdócio.
terapêutico patrístico que descrevemos deu à Igreja forças para flores- Eles deviam passar por esses três estágios para ser confirmados e cer-
cer nos tempos difíceis do domínio Árabe, Franco e Turco”. tificados quanto a terem sido curados e poderem curar o povo do Se-
nhor. Essas coisas mostram com precisão que o bispo, o padre e o di-
“Vale dizer, os profetas, como pessoas deificadas e terapeutas, eram ácono não são apenas pessoas ordenadas para realizar sacramentos,
como uma equipe de doutores de um hospital, um dos quais, sem dis- mas que eles são médicos espirituais que ajudam o povo a ser purifi-
criminação nem desigualdade, era escolhido como diretor. A mesma cado, santificado e avançar para a comunhão com Deus. São Simeão o
coisa aconteceu com os apóstolos: Pedro tinha o primeiro lugar, em- Novo Teólogo escreveu que um homem pode proceder a celebração da
bora fosse Tiago, como bispo da Igreja local, que presidia os encontros Liturgia quando ele celebra “com a consciência de um coração puro,
dos apóstolos em Jerusalém”. em honra da pura, santa e imaculada Trindade”, se ele viu a Cristo, se
ele recebeu o Espírito e se “foi levado ao Pai por esses dois”.
“Quando as paróquias começaram a se multiplicar e nenhum profeta
ou profetas no sentido que Paulo explicou podiam ser encontrados, a Entrar para o sacerdócio é assim um puro chamado de Deus. E esse
Igreja teve que resolver o problema de até que ponto seria correto or- chamado não é um mero sentimento abstrato de ter sido chamado por
denar bispos homens que não eram deificados, mas que eram ilumina- Deus para servir ao povo do Senhor, mas uma certeza, que passa pela
dos. Diante desse dilema a Igreja optou por ordenar padres para presi- transformação da pessoa, de que ela está capacitada para ser pastor
dir os encontros paroquiais. Assim, os bispos gradualmente adquiriram desse povo. E apascentar o povo é basicamente curar o povo. Sendo
responsabilidades de supervisão sobre os padres que presidiam as pa- assim, sem a cura, o homem não é capaz de alcançar a Deus, não pode
róquias, como doutores num centro médico com seus atendentes. ver a Deus, e sua visão não pode se transformar numa luz que o ilu-
Como o Sínodo não encontrou doutores em número suficiente para su- mine, mas antes se torna um fogo que o consome. São Teognosto re-
pervisionar os centros hospitalares, atendentes foram colocados como fere-se à “graça supramundana do sacerdócio”. Se alguém não sente
padres. Chamar um atendente de médico equivale a chamar de bispo esse chamado desde o alto, ou seja, se não foi curado, então “a carga

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será demasiado pesada; porque estará sendo carregada por alguém in- de selecionar a partir da modesta ordem dos monges todos (com exce-
digno, cuja força não é suficiente”. ção de alguns poucos leigos, escolhidos por sua excepcional virtude)
os que ascenderiam ao trono episcopal, confiando a eles a guarda das
As pessoas muitas vezes falam da tradição apostólica e a sucessão almas”. As minutas do Concílio em Santa Sofia refletem esse costuma:
apostólica, sugerindo que se trata de uma sucessão de imposição de representantes das Igrejas da Cesareia e da Calcedônia disseram ao re-
mãos. De fato, ninguém pode negar essa realidade, mas ao mesmo presentante do Papa João que “no oriente, se não houvessem monges,
tempo é um fato incontestável que a sucessão apostólica não é mera- não haveriam nem bispos, nem patriarcas”.
mente uma série de imposições de mãos, mas uma tradição que se re-
fere a toda a vida da Igreja. Os Apóstolos e depois deles os Padres não Na verdade, em sempre na história da Igreja as coisas foram tão “cor
transmitiam simplesmente a graça do sacerdócio, mas transmitiam a de rosa”. Houve situações em que a verdade se perdeu, e o povo mer-
Cristo e toda a vida de Cristo. Eles geravam. Por essa razão, o bispo gulhou nas trevas da ignorância. As pessoas já não sabiam que existia
carregava e carrega a graça da verdade. O Professor Romanides ob- algo como a cura espiritual, nem como ela acontecia, porque não havia
serva: “A base da tradição apostólica e da sucessão não estava apenas homens para ensiná-las no caminho da cura. Já no século IV Isidoro
nesta imposição das mãos, mas a acompanhava de geração em geração, de Pelúsio, no Egito, mostrava o quanto os primeiros pastores eram
transmitindo a tradição da cura, da iluminação e da deificação. O Con- diferentes daqueles do seu tempo. Naquele tempo, dizia ele, os pasto-
selho paroquial e o Conselho provincial eram organizados para con- res morriam por suas ovelhas, enquanto que hoje eles próprios as ma-
gregar os verdadeiros terapeutas, para excluir do clero os falsos profe- tam. Ele escreveu: “Nos dias antigos os amantes da virtude entravam
tas que pretendiam possuir dons carismáticos, e para proteger o reba- para o sacerdócio; agora são os amantes do dinheiro. Antes, eles fu-
nho dos heréticos. A parte mais importante da ordenação era a seleção giam do ofício devido à magnitude deste; agora eles correm para ele
e o exame do candidato”. com prazer. Antes eles desejavam se orgulhar de sua pobreza; agora
eles acumulam tesouros alegre e gananciosamente. Antes a divina
Essa era a base da Igreja. Especialmente para selecionar um bispo era corte de justiça estava diante de seus olhos, mas agora ela lhes causa
princípio fundamental que ele deveria ser escolhido entre os monges, indiferença. Antes esses homens eram alvo de pancadas; agora eles as
porque o monaquismo é a escola médica de onde poderiam sair os mais infligem. Preciso continuar? O ofício sacerdotal se transformou num
habilidosos médicos capazes de curar as doenças do homem. modo de tirania; a humildade se tornou arrogante; o jejum virou luxú-
ria, a economia despotismo; porque os ecônomos não visam adminis-
Kallistos Ware, bispo de Diocleia, escreve: “Apenas um dos vinte trar, mas, como déspotas eles se apropriam fraudulentamente das ri-
‘principais’ mosteiros ( provavelmente o da Grande Lavra na Monta- quezas”.
nha Sagrada) forneceu 26 patriarcas e 144 bispos. Isso dá uma ideia da
importância de Athos para a Igreja Ortodoxa”. O Professor Romanides, que se preocupava particularmente com esse
tema, escreveu a respeito da perda dessa tradição Ortodoxa: “Com o
São Nicodemos Hagiorita, explicando esse santo costume da Igreja, passar do tempo, no entanto, já não se podia encontrar em qualquer
escreve na introdução de seu “Manual do Concílio”: “Que tempos fe- parte um homem iluminado para as seleção e ordenação de bispos e
lizes e dourados eram aqueles em que prevalecia o excelente costume padres. E mesmo que existisse tal homem, os eleitores o rejeitariam.

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Provavelmente aquilo que mencionamos antes, de que todos os que
constituem o sacerdócio espiritual podem curar os doentes, não tenha
sido bem recebido. Entretanto, o ensinamento de São Simeão o Novo
Teólogo sobre esse ponto é revelador. O santo escreve que o poder
amarrar e desamarrar pecados pertence apenas aos bispos, que o rece-
beram por sucessão desde os Apóstolos. Mas quando os bispos se tor-
naram decorativos, essa temível função passou para os sacerdotes que
levavam uma vida irrepreensível digna da graça de Deus. Quando tam-
bém os sacerdotes, juntamente com os bispos, caíram no erro espiri-
tual, essa função foi transmitida ao povo escolhido por Deus, em espe-
cial os monges, não porque ela tenha sido tirada dos bispos e dos sa-
cerdotes, mas porque eles próprios se tornaram estranhos a ela.

De acordo com São Simeão, o poder de amarrar e desamarrar pecados


não foi dado simplesmente por causa da ordenação. A imposição das
mãos apenas deu aos metropolitas e bispos a permissão para celebrar
a Eucaristia. O poder de remir os pecados foi dado apenas aos sacer-
dotes, bispos e monges que foram contados dentre os discípulos de
Cristo por causa de sua pureza.

Acreditamos que São Simeão desenvolveu seu ensinamento em pri-


meiro lugar de modo a enfatizar que o sacramento do sacerdócio não
transmite magicamente a autoridade para perdoar aos homens seus pe-
cados, se a pessoa não possuir o sacerdócio espiritual interior; em se-
gundo lugar, para mostrar a miserável condição do clero de seu tempo;
em terceiro, para sublinhar o valor do sacerdócio espiritual, que reside
na prece noética e na visão de Deus, e que, infelizmente, como sabe-
mos, era negligenciado; enfim, porque ele próprio teve a experiência
pessoal disso: se pai espiritual, que não havia sido ordenado bispo,
possuía a graça do Espírito Santo e era capaz de perdoar os pecados.

Apesar disso seu pai espiritual, Simeão o Piedoso, não ignorava o sa-
cramento da ordenação. São Simeão o Novo Teólogo escreve: “Eu sei
que a graça de amarrar e desamarrar pecados é dada por Deus àqueles

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que são filhos por adoção e santos servidores. Também eu fui discípulo [1] Mateus 2: 20.
e um pai assim, que não recebeu a imposição das mãos de parte dos [2] João 10: 11.
homens, mas por intermédio da mão de [3] Romanos 16: 4.
Deus, ou seja, do Espírito, e que me inscreveu dentre seus discípulos e [4] Mateus 10: 28.
me ordenou que recebesse a imposição das mãos pelos homens de [5] Lucas 12: 20.
acordo com a forma prescrita, a mim que por um longo período fui [6] Mateus 16: 25.
impelido pelo Espírito a essa realidade”. E ele continua: “Tendo ou- [7] I Tessalonicenses 5: 23;
vido os mandamentos de Cristo, ele se tornou partícipe de sua graça e [8] Apocalipse 6: 9.
de seu dons e recebeu dele o poder de amarrar e desamarrar, avivado [9] Romanos 13: 1.
pelo Espírito Santo”. [10] Gênesis 2: 7.
[11] Mateus 15: 11.
Quando falamos de remissão dos pecados entendemos com isto prin- [12] Mateus 15: 19.
cipalmente a cura das paixões. Assim, vemos claramente hoje que os [13] Efésios 2: 5.
monges que receberam os dons nos podem curar, sem que tenham re- [14] I João 5: 16.
cebido o sacramento do sacerdócio. Sendo clarividentes, eles perce- [15] Mateus 8: 22.
bem o problema que nos aflige, nos dão o remédio e o método de cura, [16] I Timóteo 5: 6.
e assim nos curamos daquilo que nos perturbava interiormente. A exis- [17] I Coríntios 2: 14. [18] I Coríntios 3: 3.
tência desses homens santos é um conforto para o povo.

1.1.3 . Nossa procura por terapeutas


Chegamos agora à busca por terapeutas. Agora que estamos cientes da
moléstia espiritual e do grande valor dos sacerdotes-terapeutas, deve-
mos procurar por eles de modo a livrar nossas almas das úlceras que
as acometem. É preciso um grande esforço para encontrar esses verda-
deiros condutores do povo, os doutores de nossas almas e corpos, uma
vez que com certeza muitas doenças físicas têm origem espiritual.

Em sua homilia do Domingo da Ortodoxia, São Gregório Palamas ad-


verte: “Que todo Cristão, após se apresentar na igreja aos domingos,
procure diligentemente alguém que, imitando os Apóstolos que esta-
vam na sala superior depois da Crucificação, esteja completamente ab-
sorto em si mesmo, desejando estar com o Senhor no silêncio da prece
e da salmódia, e de todas as maneiras possíveis. Que o Cristão dele se
aproxime, que entre em sua casa com fé como se estivesse num espaço
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Aqui, embora estejamos tratando da cura da alma, apenas sublinhamos celeste no qual habitasse o poder santificador do Espírito Santo. Que
alguns fatos. ele se sente com o homem que vive ali, que permaneça com ele tanto
quanto possível, perguntando sobre Deus e sobre as coisas de Deus,
São Gregório Palamas escreve que nós lutamos para conduzir para fora aprendendo com humildade e pedindo por suas orações”. Então, dizia
de nosso corpo a lei do pecado e para instalar em seu lugar a vigilância o santo, “eu sei que Cristo irá até ele invisivelmente e concederá a paz
do nous, e desta forma estabelecer uma lei apropriada para cada poten- interior à reflexão de sua alma, aumentando sua fé e dando-lhe suporta,
cia da alma e para cada membro do corpo. Para os sentidos, ordenamos e quando chegar a hora, o inscreverá no Reino dos céus”.
o autocontrole. Para a parte passional da alma, o amor. Aumentamos a
inteligência rejeitando tudo o que impeça a mente de ascender para É preciso procurar por esse pai espiritual. A esse respeito é vantajoso
Deus, e chamamos isso de ‘nepsis’. Se uma pessoa conseguiu purificar escutar o que São Simeão o Novo Teólogo tem a dizer. “Peça a Deus,
seu corpo por meio do autocontrole, se fez de suas emoções e desejos diz ele, pare que lhe mostre um homem capaz de orientálo, alguém a
ocasiões para a virtude, se apresentou a Deus uma mente purificada quem você obedecerá. Devemos mostrar obediência ao homem que
pela prece, então ela irá “adquirir e ver em si mesma a graça prometida Deus nos mostrou em pessoa misticamente ou externamente por inter-
àqueles cujos corações foram purificados”. médio de Seu servidor, e reverenciá-lo como se ele fosse o próprio
Cristo”. Devemos mostrar em relação ao nosso impassível pai espiri-
São Máximo, dentro da tradição Ortodoxa, exorta: “Refreie a potência tual o mesmo tipo de confiança e amor que uma pessoa doente tem
irascível de sua alma por meio do amor, extinga seu desejo por meio para com seu médico, esperando dele o tratamento e a cura. Devemos
do autocontrole, dê asas à sua inteligência com a prece, e a luz de seu ter ainda mais confiança e amor, por causa da diferença entre a alma e
nous jamais será obscurecida”. o corpo. O próprio Cristo está presente no pai espiritual. Ele é a boca
de Deus.
Não são conselhos nem remédios que curam a alma adoecida, que dão
vida ao nous morto, que purificam o coração impuro, mas o método Mais adiante, São Simeão equipara a atitude dos Apóstolos em relação
ascético da Igreja, o autocontrole, o amor, a prece e a guarda do nous a Cristo com a atitude que devemos ter em relação ao nosso pai espi-
das provocações de Satanás através dos maus pensamentos. É por isso ritual, porque é dessa maneira que nossa alma pode ser curada. Assim
que acreditamos que a tradição Ortodoxa é muito importante em nos- como os Apóstolos seguiam a Cristo, devemos fazer o mesmo. Quando
sos tempos, pois ela é a única coisa que pode libertar o homem e curá- as pessoas desonram em cospem em nosso pai espiritual, não devemos
lo de sua ansiedade e insegurança trazidas pela morte de sua alma. abandoná-lo. E assim como Pedro tomou de sua espada e cortou a ore-
lha do soldado, devemos também segurar com força nossa espada em
nossa mão e cortar não apenas a orelha, mas a mão e a língua daquele
que tenta falar contra nosso pai ou atacá-lo. Se você o negar, chore
como Pedro. Se o vir crucificado, morra com ele se puder. Se não lhe
for possível, não se junte aos traidores e aos homens maus. Se ele for
solto da prisão, retorne para junto dele e venere-o ainda mais, como a

110 87
um mártir. Se ele morrer por doença, procure por seu corpo e lhe de- onde habita Cristo”. O coração, como veremos adiante, é essa morada.
dique ainda mais honra do que quando ele estava vivo, untando-o com Mas só descobriremos isso quando nos esforçarmos para viver em qui-
perfumes e lhe dando um faustoso funeral. etude e quando lutarmos contra os pensamentos que o mantém sob seu
jugo dentro de nós. A pureza do nous é muito importante. Esse método
É bem característico que o pai espiritual, o terapeuta, seja colocado no é simples, mas abrangente, e traz grande benefício à alma, porque faz
lugar de Cristo. São Simeão também emprega um tipo de oração na dela o templo do Espírito Santo.
qual ele pede para encontrar um guia espiritual adequado que possa
oferecer a nós uma cura espiritual: “Ó Senhor, que desejas não a morte A alma se cura quando ela rejeita relações com as coisas inferiores e
do pecador, mas que ele se recupere e viva, tu que vieste à terra para se abre em amor ao que é superior.
restaurar a vida aos que morreram pelo pecado e para torná-los dignos
de ver Tua verdadeira luz, tanto quanto pode o homem, envia-me um São Gregório Palamas, interpretando a tradição da Igreja Ortodoxa, diz
homem que Te conheça, para que, servindo-o e submetendo-o a ele que por meio da transgressão e do pecado perdemos a semelhança com
com toda minha força, como a Ti eu servisse, e para que, fazendo a sua Deus, mas não perdemos a imagem. E é exatamente por não termos
vontade como se fosse a Tua própria vontade, possa eu agradar-Te, o perdido a imagem, que podemos restaurar a alma. A alma, liberta das
único e verdadeiro Deus, e para que mesmo eu, um pecador, me torne relações com as coisas exteriores e aberta ao amor daquilo que é supe-
digno do Teu reino”. Se um Cristão orar dessa maneira, Deus lhe mos- rior, submissa a ele por meio das obras e caminhos da virtude, “recebe
trará o pai espiritual adequado, que cuide de sua moléstia e das feridas dele a iluminação, o ornamento e o melhoramento, e obedece seus con-
de sua alma. selhos e exortações, recebendo assim a vida verdadeira e eterna”.
Quando a alma obedece a lei de Deus, ela se torna gradualmente mais
Certamente não devemos ignorar o fato de que tais terapeutas, tanto no saudável, é iluminada e recebe a vida eterna.
tempo de São Simeão como hoje, são raros. Ele disse: “Verdadeira-
mente, são raros aqueles que possuem a arte de orientar corretamente Paralelamente ao método prático de cura da alma, Nicetas Sthetatos
e curar as almas racionais, especialmente nos dias que correm”. oferece ainda outro método, por meio da theoria. Onde existe o amor
a Deus, um nous ativo, e a participação na inalcançável luz, “existe
Concluindo, devemos dizer que é necessário procurar e encontrar esses também a paz nas potências do coração, a purificação do nous e a ha-
doutores, cientistas, terapeutas, ou mesmo enfermeiros, para sermos bitação interior da Santíssima Trindade”. Sendo assim, ao lado do es-
espiritualmente curados. Não existe outro método de cura. Deus é o forço para manter puro o nous, é preciso acostumar o nous à ação in-
verdadeiro Curador, mas também o são os amigos de Cristo, os santos terior e à prece interior, para adquirir a caridade e o amor a Deus –
nos quais habita o próprio Deus Trinitário. porque, onde este amor habita, a paz chega para as potências da alma
– e a pureza do nous.

Em outra seção deste livro falaremos de modo mais analítico sobre o


modo como a alma é curada quando ela se move de acordo com a na-
tureza, e descreveremos o movimento natural de cada parte da alma.

88 109
ascética da Igreja contribuem para essa cura. Quem não estiver cons- [1] I Timóteo 4: 14.
ciente deste fato não será capaz de sentir a atmosfera da Tradição Or- [2] II Coríntios 6: 1.
todoxa. Poderemos ver a seguir no que consiste essa saúde e vitalidade [3] I Coríntios 15: 10.
da alma, e os muitos modos de se obter isso, e como funciona uma [4] II Timóteo 1: 6.
alma viva e saudável. [5] I Timóteo 4: 7.
[6] I Timóteo 4: 6.
A saúde da alma consiste na impassibilidade e no conhecimento espi- [7] I Timóteo 4:12.
ritual. “A alma é perfeita quando está permeada pelas virtudes”. Uma [8] I Timóteo 6: 14.
alma é perfeita se “seu aspecto passional está totalmente orientado para [9] II Timóteo 1:14.
Deus”. A alma pura é “aquela que ama a Deus”. A alma pura é “aquela [10] II Timóteo 4:5.
que se libertou das paixões que se se delicia constantemente no amor [11] Apocalipse 1: 5.
divino”. [12] I Pedro 2: 9.
[13] Romanos 12: 1.
Os santos Padres também descrevem muitos caminhos por meio dos
quais a alma pode ser revivida, vitalizada e curada. A divina lamenta-
ção, ou arrependimento, conduz ao fim do prazer sensual, mas somente
“a destruição do prazer sensual constitui a ressurreição da alma”. An-
tônio, o grande servo de Deus, dizia ser preciso purificar nossa mente.
“Pois eu acredito que quando a mente é completamente pura e se en-
contra em seu estado natural, ela obtém uma percepção penetrante, e
vê mais claramente e mais longe do que os demônios, uma vez que o
Senhor lhe revela as coisas”. Vale dizer, o santo servo do Senhor nos
conjura a que purifiquemos nossas mentes. Já foi comentado que se
alguém mantém seu nous puro de maus pensamentos e de imagens va-
riadas, ele conseguirá manter pura sua alma.

Teolepto, Metropolita de Filadélfia, ensina: “Quando, depois de dar


fim às distrações exteriores, você ainda mantém pensamentos interio-
res, então seu nous está agitado por atos e palavras espirituais”. O es-
forço para manter a mente pura e para libertar a si mesmo das muitas
distrações tem como resultado o aparecimento do nous em nosso inte-
rior, ele que estava morto e oculto. Assim é que Teolepto adverte: “Co-
loque um fim em se misturar com o mundo exterior e lute contra os
pensamentos interiores até encontrar a paz da prece pura e a morada

108 89
sobrenatural e também se tornaram espíritos mortos como Satanás”. É
assim que sempre acontece. Quando alguém se une a Satanás e faz sua
própria vontade, sua alma falece, porque Satanás não é apenas um es-
pírito morto, como ainda ele leva a morte àqueles que dele se aproxi-
mam.

Quando a alma não trabalha de acordo com a natureza ela está morta.
“Quando ela não está saudável, embora ela mantenha a aparência de
vida, ela está morta... Quando, por exemplo, alguém não se preocupa
com a virtude, mas é voraz e transgride a lei, como posso dizer que ele
possui uma alma? Porque anda? Mas os animais irracionais também
andam. Porque come e bebe? Mas as feras selvagens também fazem
isso. Está bem, porque a pessoa se mantém sobre seus dois pés? Ao
contrário, isso me convence de que ela é uma besta em forma humana”.

Nos ensinamentos do Apóstolo Paulo, o homem ‘morto’ é chamado de


‘carnal’ ou de ‘não espiritual’. Em sua carta aos Coríntios, ele escreve:
“o homem não espiritual não recebe os dons do Espírito de Deus[17]”.
Ele também escreve: “Enquanto houver inveja e conflito entre vocês,
não serão vocês carnais, apenas caminhando como meros ho-
mens?[18]”. De acordo com o Professor Romanides, as palavras usa-
das para ‘não espiritual’ (psychikos), ‘carnal’ (sarkokos) e ‘cami-
nhando como meros homens’ (kata anthropon peripateite) possuem o
mesmo significado. “O homem carnal e não espiritual é o homem in-
teiro, alma e corpo, que abandonou a energia do Espírito Santo que
torna a pessoa incorruptível”. “Quando um homem não segue o Espí-
rito, ele se priva da energia vivificante de Deus e se torna não espiri-
tual”.

1.1.3 . A terapia da alma


Toda a tradição da Igreja Ortodoxa consiste em curar e trazer para a
vida a alma morta pelo pecado. Todos os sacramentos e toda a vida

107
Isso também constitui a moléstia da alma. São Thalassius diz: “A do-
ença do coração é uma disposição para o mal, enquanto que sua morte Psicoterapia Ortodoxa - Capítulo III - Parte I
é o pecado posto em ação”. A alma doente é conduzida passo a passo
para a morte.

Na realidade, a doença da alma é a impureza. “A impureza da alma 1. Psicoterapia Ortodoxa


reside no fato dela não funcionar de acordo com a natureza. É por isso
que os pensamentos passionais se produzem no intelecto”. De acordo Desenvolvendo o tema da psicoterapia Ortodoxa, neste capítulo deve-
com São Máximo, “uma alma cheia de pensamentos de desejo sensual mos ver o que é a alma e como ela pode ser curada; secundariamente,
e ódio é impura”. veremos qual é a natureza e as inter-relações da imagem, da alma, do
nous, do coração e da mente; finalmente, como o nous, o coração e a
Hesíquio o Sacerdote descreve o modo como a alma adoece e acaba mente (pensamentos) podem ser curados. Acredito que esses são os
por morrer. Deus criou a alma simples e boa, mas ela se delicia com as tópicos mais importantes e essenciais para um conhecimento da puri-
provocações do demônio e, “uma vez que ela se corrompe, ela passa a ficação e da terapia da alma, assim como para sua obtenção.
perseguir algo sinistro como se fosse bom”. Nesse caminho “seus pen-
samentos se tornam enlaçados com as fantasias provocadas pelo di- 1.1 A alma (psyché )
abo”. Então “a alma consente com a provocação e, para sua própria 1.1.1 . O que é a alma
condenação, tenta fazer com que essa fantasia mental desregrada se
torne uma ação concreta por intermédio do corpo”. O termo ‘alma’ é uma das mais difíceis palavras da Bíblia e da litera-
tura Cristã. ‘Alma’ tem muitos significados na Sagrada Escritura e na
São Gregório Palamas, citando passagens da Escritura, como as pala- literatura patrística. O Professor Christos Yannaras diz: “Os tradutores
vras do Apóstolo Paulo, “mesmo quando estávamos mortos por nossas da Septuaginta (Antigo Testamento) transpuseram para o grego, com
faltas, Ele nos fez reviver junto a Cristo[13]”, e as palavras de João a palavra ‘psyché’, o Hebraico ‘nephesh’, um termo com diversos sig-
Evangelista, “existe um pecado que conduz à morte[14]”, e as palavras nificados. Tudo o que possui vida é chamado de alma, qualquer ani-
de Cristo ao seu discípulo, “Deixe que os mortos enterrem os mor- mal; porém, na Escritura o mais comum é que ela pertença ao homem.
tos[15]”, diz que, embora a alma seja imortal pela graça, isso não im- Ela representa o modo como a vida se manifesta no homem. Ela não
pede que “quando ela se dissipa, se abandona aos prazeres e à autoin- se refere simplesmente a um departamento da existência humana – o
dulgência, ela morre, ainda que viva”. É assim que ele interpreta as espiritual em oposição ao material – mas indica a totalidade do ho-
palavras de Paulo: “Ela [a viúva] que vive no prazer está morta, ainda mem, como uma única hipóstase viva. A alma não apenas reside no
que viva[16]”. Embora a alma esteja viva, ela está morta, uma vez que corpo, mas é expressa por ele, o qual em si, como a carne ou o coração,
ela não possui a verdadeira vida que é a graça de Deus. Quando nossos corresponde ao nosso ego, ao modo pelo qual temos consciência da
ancestrais se afastaram da lembrança e da theoria de Deus e desrespei- vida. O homem é uma alma, ele é um ser humano, ele é alguém”. A
taram seu Mandamento, tomando o partido do espírito mortal de Sata- alma não é a causa de vida. Melhor dizendo, é ela quem transporta a
nás, eles foram despidos “da vestimenta luminosa e viva da irradiação vida.

106 91
A alma é a vida que existe em toda criatura, inclusive nas plantas e nos 1.1.2 . Enfermidade e morte da alma
animais. A alma é a vida que existe no homem, e é também todo ho- Na igreja fala-se com frequência da queda do homem e da morte que
mem que possui vida. A alma é também a vida que se expressa no chegou como resultado dessa queda. Primeiro veio a morte espiritual,
interior do elemento espiritual em nossa existência, ela é o elemento a morte física seguiu-se a ela. A alma perdeu a graça incriada de Deus,
espiritual de nossa existência. Uma vez que o termo ‘alma’ possui tan- o nous deixou de ser relacionar com Deus e se obscureceu. Ele trans-
tos significados, existem muitos lugares em que as coisas não foram mitiu este obscurecimento e esta morte ao corpo. De acordo com São
esclarecidas. Gregório o Sinaíta, o corpo do homem foi criado incorruptível e “assim
ele ressuscitará”, e a alma foi criada impassível. Mas como havia uma
A seguir tentaremos analisar alguns usos do termo ‘psyché’, nos textos
tenaz ligação entre a alma e o corpo devido à sua interpenetração e à
do Novo Testamento e nos textos dos Padres da Igreja.
sua comunicação, ambos se corromperam. “A alma adquiriu as quali-
dades das paixões, ou antes, dos demônios, e o corpo se tornou coo de
O termo é utilizado pelo Senhor e pelos Apóstolos para significar
um animal irracional por causa da condição em que caiu e pela predo-
‘vida’. O anjo do Senhor diz a
minância nele da corrupção”. Uma vez que a alma e o corpo se cor-
José, que estava noivo da Mãe de Deus: “Levante-se, pegue a criança
romperam, eles formaram “um ser animal, irracional e insensato, su-
e sua mãe, e vá para a terra de Israel; aqueles que ameaçavam a vida
jeito ao ódio e à luxúria”. Foi assim segundo as Escrituras, que o ho-
da criança estão mortos[1]”. O Senhor, descrevendo a si próprio, diz:
mem “se uniu aos animais e se tornou como eles”. Em decorrência da
“Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas[2]”.
queda, a alma do homem se encheu de paixões, seu corpo se tornou
Da mesma forma, o Apóstolo Paulo, escrevendo a respeito de Priscila
como o dos animais. O homem ornou-se das vestes de uma pele de
e Áquila, diz que “eles arriscaram seus pescoços pela minha vida[3]”.
decadência e mortalidade e se assemelhou aos animais irracionais.
Nesses três casos, o termo usado para ‘vida’ foi ‘psyché’.
Essa enfermidade, escravidão, impureza e morte da alma é admiravel-
‘Psyché’ passou mais tarde a ser usado, como dissemos, para indicar o
mente descrita nos textos patrísticos. Todo pecado é uma repetição do
elemento espiritual de nossa existência. Podemos citar algumas passa-
pecado de Adão, e com cada pecado mergulhamos mais na escuridão
gens para confirmá-lo. O Senhor diz aos seus discípulos: “Não temam
e morte da alma decaída. Vejamos mais de perto esses estados decaí-
aquele que pode matar seus corpos, mas não pode matar suas almas.
dos da alma.
Temam aquele que é capaz de destruir o corpo e a alma no inferno[4]”.
O homem não pode matar a alma, enquanto que o diabo pode, o que
Quando o homem deixa livres seus sentidos e, permeando esses senti-
implica que se a alma não estiver com o Espírito Santo, ela estará
dos, o nous se afasta do coração, sua alma se torna cativa. “O descon-
morta. O diabo é um espírito morto, porque ele não tem parte com
trole dos sentidos coloca grilhões na alma”. Essa escravidão é o equi-
Deus, e ele transmite a morte àqueles que se juntam com ele. Ele é uma
valente do obscurecimento. O crepúsculo do sol cria a noite. E quando
entidade viva, mas que não existe em relação a Deus. Na parábola do
Cristo se retira da alma e as trevas das paixões a tomam, então “as feras
jovem rico, o Senhor diz a ele: “Tolo! Esta mesma noite sua alma lhe
imateriais a fazem em pedaços”. A alma humana cai numa escuridão
será cobrada; então, com quem ficarão as coisas que você preparou?
impenetrável e os demônios passam a operar nela. Ela está como que
[5]”.
numa noite sem lua.
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da presença dessas potências providenciais nela, ela continua sendo A diferença entre alma (‘psyche’) por um lado, como elemento espiri-
“simples e não formada por partes”, não “composta nem sintética”. tual da existência humana, que é mortal por natureza, mas imortal pela
graça, e, de outro lado, a vida (‘psyche’), aparece em outro ensina-
É típico que nessa passagem São Gregório correlaciona o que acontece mento Cristo: “Aquele que se preocupar com sua própria vida
na alma em relação ao corpo com a relação de Deus com toda a criação. (‘psyche’) estará perdido, mas o homem que perder sua vida (‘psyche’)
Deus dirige o mundo com suas potências providenciais mesmo antes por mim a encontrará[6]”. Em um caso, o Senhor utiliza o termo
do mundo ter sido criado. Contudo, Deus, que não apenas possui mui- ‘psyche’ para indicar o elemento espiritual de nossa existência, e no
tas potências como ainda é todo-poderoso, não fica privado de sua uni- outro caso o mesmo termo significa vida. O Apóstolo Paulo diz, numa
cidade e simplicidade por causa das potências que há nele. Isso mostra carta aos Tessalonicenses: “Possa o Senhor da paz santificá-los por
claramente que a alma é “à imagem de Deus”. O que se passa com completo; e possam seu espírito, alma e corpo ser preservados sem
relação a Deus se passa analogamente em relação à alma do homem. mácula à chegada de nosso Senhor Jesus Cristo[7]”. Aqui não se trata
da falada divisão tripartite do homem, mas o termo ‘espírito’ é usado
São Gregório de Nissa diz que a alma é imaterial e incorpórea “ope- para indicar a graça de Deus, o carisma, que a alma recebe. O que que-
rando e se movendo de uma maneira correspondente à sua natureza remos destacar aqui é que existe uma distinção entre alma e corpo.
peculiar, e evidenciando essas emoções peculiares através dos órgãos João Evangelista escreve isso no Apocalipse: “Eu vi sobre o altar as
do corpo”. O mesmo santo ensina epigramaticamente que a alma não almas daqueles que foram mortos pelo Verbo de Deus e pelo testemu-
é suportada pelo corpo, mas que ela suporta o corpo. Ela não está no nho que sustentaram[8]”. O corpo foi morto, mas a alma está próxima
interior do corpo como em um vaso ou um saco, ao contrário, é o corpo a Deus e certamente conversa com Deus, como afirma o Evangelista a
que está dentro dela. A alma está em toda parte no corpo “e não existe seguir.
parte iluminada por ela, na qual ela não esteja inteiramente presente”.
A palavra ‘alma’ é também usada para se referir ao homem completo.
A conclusão geral no que se refere ao relacionamento entre alma e O Apóstolo Paulo recomenda: “Deixe que todas as almas se sujeitem
corpo é de que a alma está em todo o corpo, que não existe setor do ao governo das autoridades[9]”.
corpo do homem no qual a alma não esteja presente, que o coração é a
primeira sede inteligente da alma, que o centro da alma está nele, não Creio que esta breve análise demostra que o termo ‘psyche’ possui
como num vaso, mas como num órgão que guia todo o corpo, e que muitos significados na Escritura.
essa alma, embora distinta do corpo, está intimamente ligada a ele. Ele é usado para designar o homem inteiro, assim como o elemento
espiritual em sua existência, e ainda a vida que existe no homem, nas
Todas essas coisas foram ditas, porque estão estreitamente ligadas ao plantas e nos animais, e em todas as coisas que participam da energia
tema deste estudo. Pois não podemos entender a queda e a enfermidade vivificante de Deus. São Gregório Palamas, falando a luz incriada que
da alma se não soubermos o que é a alma e como ela está ligada ao surge naqueles que têm a Deus em si “através da morada de Deus em
corpo. seu interior”, diz que esta é a energia de Deus e não a sua essência,
mas que, assim como a essência é chamada de luz, também a energia

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é chamada de luz. O mesmo é verdade para a alma. Tanto a vida espi- e quando a graça toma posse do coração, ele reina sobre todos os pen-
ritual como a vida biológica são chamadas de ‘alma’, mas estamos per- samentos e sobre todos os membros, pois é no coração que o nous e a
feitamente conscientes de que a vida espiritual e a vida biológica são alma têm assento”. Portanto, o objetivo básico da terapia, diz ele, con-
coisas diferentes: “Assim como a alma comunica a vida ao corpo ani- siste em fazer retornar o nous “que por causa dos sentidos se dissipou
mado – e nós chamamos a esta vida ‘alma’, mesmo sabendo que que a algures para fora do coração”, que é a “sede dos pensamentos” e o
alma que existe em nós e que comunica a vida ao corpo é distinta da “primeiro órgão inteligente do corpo”.
vida – também Deus, que a habita na alma que o tem em si, comunica
a luz a ela”. Voltaremos ao tema, mas o que desejo em primeiro lugar é sublinhar
que de acordo com o ensinamento dos Padres, a alma usa o coração
Citamos esta passagem para mostrar que os Padres estavam cientes de como seu órgão e dirige o corpo. A alma está em união com o corpo;
que o termo ‘alma’ se refere tanto ao elemento espiritual em nossa ela não é estranha a ele. Nemésio de Edessa ensina que “a alma é in-
existência como à própria vida, e que existe uma grande diferença en- corpórea, e não está circunscrita a uma porção específica do espaço,
tre esses dois significados. Veremos isso melhor mais adiante, quando mas se alastra toda ela por toda parte: como o sol que se estende até
examinarmos a diferença entre as almas dos animais e a do homem. onde alcança sua luz tanto quanto por todo o corpo do próprio sol, não
sendo uma parte daquilo que ela ilumina, como aconteceria se ela não
Para tentarmos uma definição de ‘alma’ no sentido de elemento espi- estivesse onipresente ali”. Acima de tudo, “a alma está unida ao corpo,
ritual em nossa existência vamos buscar São João de Damasco, que mas permanece distinta dele”.
diz: “A alma é uma substância viva, simples e incorpórea, por sua pró-
pria natureza invisível aos olhos do corpo, que utiliza o corpo como A alma ativa e dirige o corpo e todos os membros do corpo. É um en-
um órgão e lhe dá uma vida dotada de vontade. Ela é livre, dotada de sinamento da Igreja Ortodoxa que Deus dirige o mundo pessoalmente
vontade e do poder de agir, e sujeita a mudança, ou seja, sujeita a mu- sem intermediários criados, apenas com sua energia incriada. Portanto,
danças de vontade por ter sido criada. E isso ela recebeu por natureza, assim como Deus ativa toda a natureza, do mesmo modo a “alma ativa
por meio da graça do Criador pela qual ela recebeu também tanto sua os membros do corpo e move cada um em conformidade com a opera-
existência como seu ser naturalmente como ele é”. ção do membro em questão”. Assim tal como é a tarefa de Deus admi-
nistrar o mundo, “é tarefa da alma guiar o corpo”.
A alma é simples e boa “porque foi criada por seu Mestre”.
São Gregório Palamas, que se debruçou sobre o tema das relações en-
Quase a mesma definição de João de Damasco nos foi dada antes dele tre alma e corpo, diz que aquilo que acontece em Deus acontece na
por São gregório de Nisse: “A alma é uma essência criada, viva e noé- alma. A alma tem em si, em forma simples, “todas as potências provi-
tica, que transmite por si própria para um corpo organizado e senciente denciais do corpo”. E mesmo quando algum membro do corpo é ferido,
o poder de viver e de captar os objetos dos sentidos, tanto quanto uma se os olhos são removidos ou os ouvidos ensurdecidos, a alma não
constituição natural capaz disto suporta”. deixa de possuir as potências providenciais do corpo. A alma não cons-
titui as potências providenciais, mas ela possui essas potências. Apesar

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carne. Assim como o corpo cresce, cresce a alma manifestando suas São Gregório Palamas, interpretando São Paulo que diz que “o pri-
energias”. meiro homem, Adão, tornou-se uma alma viva”, afirma que ‘alma
viva’ significa “sempre viva, imortal, o que quer dizer inteligente, por-
Existe uma clara distinção entre alma e corpo, uma vez que “a alma que o imortal é inteligente; e não apenas isso, mas também divina-
não é um corpo, mas é incorpórea”. Ademais, é completamente impos- mente abençoada pela graça. Assim é a alma viva”.
sível para o corpo e a alma existirem ou serem chamados de corpo e
alma sem estarem relacionados, ou independentemente um do outro. Ele diz que a alma é imortal. Sabemos que essa ideia da imortalidade
“Porque essa relação foi fixada”. da alma não é Cristã de origem, mas que os Cristãos a aceitaram sob
muitas condições e pressupostos necessários. O Professor John Zizio-
Os filósofos antigos acreditavam que a alma possui um lugar especí- luas escreve: “A ideia da imortalidade da alma, embora não seja de
fico no corpo, que o corpo é a prisão da alma e que a salvação da alma origem Crista, passou para a tradição de nossa Igreja, permeando in-
consiste em se livrar do corpo. Os Padres ensinaram que a alma está clusive nossa hinografia. Ninguém pode negá-la sem se sentir fora do
em todas as partes do corpo. São Gregório Palamas dizia que os anjos clima de todo culto da Igreja. Mas a Igreja não aceita essa ideia Platô-
e a alma, sendo incorpóreos, “não estão localizados em um lugar, nem nica sem condições e pressupostos. Esses pressupostos incluem, dentre
estão em toda parte”. A alma, na medida em que sustenta o corpo junto outras coisas, três pontos básicos. Um é que a alma não é eterna, mas
do qual foi criada, “está em todo lugar no corpo, não como se estivesse criada. Outro, é que a alma de modo algum pode ser identificada ao
em um lugar, nem como se estivesse circunscrita, mas como algo que homem (a alma do homem não é o homem; a alma é uma coisa, e o
sustenta, circunscreve e dá vida a ele, porque possui em si também a homem, que é um ser psicossomático, é outra). E o terceiro e mais
imagem de Deus”. importante é que a imortalidade do homem não está baseada na imor-
talidade da alma, mas na Ressurreição de Cristo e na ressurreição dos
O mesmo santo, percebendo que algumas pessoas (helenizantes) loca- corpos”.
lizavam a alma no cérebro como se este fosse uma acrópole, enquanto
outras a colocavam no centro do coração, “nesse elemento que foi pu- Já enfatizamos que a alma humana é imortal pela graça, não pela natu-
rificado do sopro da alma animal” como um veículo genuíno (judai- reza, e devemos estabelecer que na tradição patrística Ortodoxa a imor-
zantes), disse que sabemos precisamente que a parte inteligente está no talidade do homem não consiste na vida da alma após a morte, mas
coração, não como num continente, porque é incorpórea, nem fora do numa passagem sobre a morte pela graça de Cristo. A vida em Cristo
coração, visto que está associada a ele. O coração do homem é o órgão torna o homem imortal, pois sem a vida em Cristo o que existe é a
controlador, o trono da graça, de acordo com Palamas. Nele devem ser morte, porque é a graça de Deus que dá vida à alma.
encontrados o nous e todos os pensamentos da alma. Os santos afir-
mam ter recebido esse ensinamento do próprio Cristo, que fez o ho- Agora que apresentamos diversos elementos para embasar uma defini-
mem. Ele nos relembra as palavras de Cristo: “Não é o que entra na ção de alma, vamos aprofundar um pouco a questão da criação da alma.
boca do homem que o corrompe, mas o que sai dela[11]”, e: “Porque A alma é criada, uma vez que ela foi feita por Deus. Nossa fonte básica
é do coração que procedem os maus pensamentos[12]”. O santo ainda é a revelação que foi dada a Moisés: “O Senhor Deus formou o homem
acrescenta que São Macário disse: “O coração dirige todo o organismo, do barro do chão, e soprou em suas narinas o sopro da vida; e o homem

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se tornou um ser vivo[10]”. Essa passagem descreve a criação da alma São Gregório do Sinai, analisando as potências da alma e descrevendo
do homem. Interpretando-a, São João Crisóstomo diz que é essencial com precisão o que cabe a cada uma delas, diz que os pensamentos
olhar o que é dito com os olhos da fé e que essas coisas estão ditas malignos trabalham na parte inteligente; as paixões bestiais na parte
“com muita condescendência e devido à nossa fraqueza”. A frase excitável; lembranças de paixões animalescas, na parte apetente; as
“Deus fez o homem e soprou sobre ele” é “indigna de Deus, mas a fantasias, na parte noética; e as noções na parte racional.
Sagrada Escritura explica desta maneira para nossa salvação devido à
nossa fraqueza, concedendo a nós que, sendo dignos dessa condescen- O mesmo santo diz que quando, por seu sopro vivificante Deus criou
dência, tenhamos força para nos erguermos até tais alturas”. O modo a alma inteligente e noética, “ele não a criou com ódio ou luxúria ani-
como Deus formou o corpo do homem e o tornou uma alma viva tal mal; ele dotou a alma apenas com o poder concupiscente e com a co-
como descrito na Sagrada Escritura é condescendente. Ele é descrito ragem para ser atraída amorosamente”. Com a criação da alma, “nem
assim por causa de nossa fraqueza. a luxúria nem o ódio foram incluídos no seu ser”. Estes foram resul-
tantes do pecado.
São João Damasceno escreve que o que quer que seja dito sobre Deus
em termos humanos é “dito simbolicamente”, mas possui um sentido Não iremos agora desenvolver mais a fundo o tema da divisão da alma,
superior, uma vez que o “divino é simples e sem forma”. Assim, uma porque isso será descrito no quarto capítulo, que se refere às paixões.
vez que a Escritura diz que Deus soprou sobre a face do homem, de- Incluímos algo a respeito da divisão da alma neste capítulo apenas por-
vemos nos debruçar sobre a interpretação de São João Damasceno re- que estamos tratando especificamente da alma.
ferente à boca de Deus: “Como ‘sua boca e voz’ devemos entender a
expressão de Sua vontade, por analogia com nossa própria expressão Também existe uma relação e uma conexão entre a alma e o corpo.
de nossos pensamentos interiores por meio da boca e da voz”. Certa- Mas qual é essa relação e até quanto ela existe? É o que veremos a
mente boca e sopor são coisas diferentes, mas eu menciono isso como seguir.
uma indicação, uma vez que existe aí uma relação e uma conexão. Ge-
ralmente, como diz João Damasceno, tudo o que é afirmado a respeito O home é feito de corpo e alma. Cada um desses elementos por si não
de Deus em termos corporais, com exceção do que é dito sobre a pre- constitui um homem. São Justino, o filósofo e mártir, diz que a alma
sença do Verbo de Deus na carne, “contém significados ocultos que em si não é um homem, mas é chamada de ‘alma do homem’. Do
nos ensinam coisas que excedem nossa natureza”. mesmo modo o corpo não é chamado de homem, mas de ‘corpo de
homem’. “Apesar de o homem não ser nenhum dos dois, a combinação
Assim é que a alma, como o corpo, foi criada por Deus. dos dois é chamada de homem; Deus chamou o homem para a vida e
a ressurreição, e não chamou uma parte, mas o todo, que é a alma e o
São João Crisóstomo interpreta esse sopro de Deus dizendo que “não corpo”.
apenas não faz sentido, como ainda é deslocado” dizer que aquilo que A alma, como destacamos, foi criada junto com o corpo em sua con-
foi assoprado sobre Adão foi a alma e que a alma foi transmitida ao cepção. “O embrião é dotado de uma alma na concepção”. A alma é
corpo a partir da substância de Deus. Se isso fosse verdade, então a criada na concepção e “a alma, nesse instante, é tão ativa quanto a
alma não seria sábia num lugar e tola e insensata em outro, ou justa

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alma, criada por Deus à Sua imagem, “é dotada de nous, verbo e espí- num lugar e injusta em outro. “A substância de Deus não é divisível e
rito”. Deste modo ela deve guardar sua ordem, inteiramente associada mutável, mas é, ao contrário, imutável”. Assim sendo, o sopro divino
a Deus. Ela deve olhar apenas para Deus, adornar-se constantemente foi “a energia do Espírito Santo”. Tal como Cristo disse: “Recebam o
com sua lembrança e contemplação e com o mais cálido e ardente amor Espírito Santo”, também o sopro divino “entendido humanamente é o
por Ele. venerado e santo Espírito”. De acordo com o santo, a alma não é um
pedaço de Deus, mas a energia do Espírito Santo, que criou a alma sem
A alma é prejudicada por paixões e pecados. Assim, ela deve ser uni- ter se tornado alma ela mesma. “Esse Espírito veio e não se tornou
ficada e oferecida da Deus. A unificação acontece de muitas maneiras, alma, mas criou a alma; ele não se transformou em alma, mas criou a
em especial quando se colocam em prática as palavras de Cristo. Teo- alma; pois o Espírito Santo é criador, ele teve uma parcela na criação
lepto, Metropolita de Filadélfia, enfatiza especialmente o valor da do corpo e na criação da alma. Pois pelo poder divino, o Pai, o Filho e
prece. “A prece pura, depois de unificar em si o nous, o verbo e o es- o Espírito Santo, criaram a criatura”.
pírito, invoca o nome de Deus em palavras, olha para Deus a quem está
invocando, com um nous livre de distrações, e mostra contrição, hu- Outro ponto enfatizado pelos santos Padres é de que nós não temos
mildade e amor. então ela inclina para si a eterna Trindade, o Pai, o existência no corpo sem uma alma, nem existência numa alma sem o
Filho e o Espírito Santo – Um Deus”. Pela palavra nos recordamos corpo. No momento em que Deus criou o corpo, ele criou também a
constantemente do nome de Cristo, com um nous livre de distrações alma. São Atanásio do Sinai escreve: “Nem o corpo existe antes da
olhamos para Deus, e com o espírito nos deixamos possuir pela con- alma, nem a alma existe antes do corpo”. São João Damasceno enfa-
trição, a humildade e o amor. tiza, em oposição ao ponto de vista de Orígenes: “Corpo e alma foram
formados ao mesmo tempo, não um antes e outro depois”. O mesmo
Dessa forma as três potências da alma são unidas e oferecidas à San- afirma São João Clímaco.
tíssima Trindade. É assim que a cura da alma tem lugar, e trataremos
disso mais extensamente adiante. O desmonte das potências da alma é O homem foi feito à imagem de Deus. Essa imagem certamente não se
sua enfermidade, e a unificação sua cura. refere ao corpo, mas principal e primeiramente à alma. A imagem no
homem é mais forte do que nos anjos pois, como veremos, a alma hu-
Nicetas Stethatos divide a alma em três partes mas fala principalmente mana dá a vida ao corpo que lhe é ligado. De modo geral, podemos
de duas, das partes inteligente e passional. A parte inteligente é invisí- dizer que a alma é a imagem de Deus. E, como Deus é trino – Nous,
vel e não está ligada aos sentidos, “como se existisse tanto dentro como Verbo e Espírito – também a alma humana possui três potências: nous,
fora deles”. Creio que aqui ele está se referindo ao nous. Mais tarde alma e espírito. Em toda a natureza existem “exemplos icônicos” da
veremos a distinção entre inteligência e nous, mas agora vamos enfa- Santíssima Trindade, mas esta transparece principalmente no homem.
tizar que o nous tem uma relação com Deus, enquanto que a inteligên- A imagem no homem é mais forte do que nos anjos. São Gregório Pa-
cia, enquanto energia, é aquilo que formula e expressa as experiências lamas, falando do batismo de Cristo no Jordão, e explicando porque “o
do nous. A parte passional da alma é dividida entre sensações e pai- mistério do criado e recriado [homem] revela o mistério da Santa Trin-
xões. Essa parte é chamada de passional, porque “está sujeita às pai- dade”, escreve que isso acontece não apenas porque somente o homem
xões”. é um iniciado e um adorador terrestre da Santa trindade, mas também

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porque “somente ele é à sua imagem”. Os animais sencientes e irraci- animado por ela, de modo que o animal possui a vida não essencial-
onais possuem apenas um espírito vital e este não pode existir por si mente, mas como uma energia, uma vez que essa vida depende de ou-
próprio; assim, eles não possuem nous nem palavra. Os anjos e arcan- tra coisa e não é auto- subsistente”. Dessa forma, uma vez que a alma
jos possuem nous e palavra, visto que são noéticos e inteligentes, mas dos animais possui apenas a energia, ela morre com o corpo. Ao con-
não possuem o espírito vivificante, porque não possuem um corpo que trário, a alma do homem não possui apenas a energia, mas também a
receba vida do espírito. Então, desde que o homem possui o nous, a essência: “A alma possui a vida não apenas como uma atividade, mas
palavra e o espírito vivificante que dá vida ao corpo que lhe está ligado, essencialmente, uma vez que ela vive por si. Por essa razão, quando o
“apenas ele é a imagem da natureza três vezes pessoal”. corpo perece, a alma não perece com ele”. Ela permanece imortal. A
alma inteligente e noética é composta, mas “desde que sua atividade é
São Gregório Palamas desenvolve o mesmo ensinamento em seus ca- dirigida a algo além, ela não produz síntese naturalmente”.
pítulos naturais e teológicos. Assim como o Deus Trinitário é Nous,
Verbo e Espírito, assim é também o homem. O espírito do homem, o Em seu ensinamento, São Máximo o Confessor estabelece que a alma
poder vivificador em seu corpo, constitui “o amor noético do homem”, possui três potências, sendo:
“ele procede do nous e do verbo, existe no verbo e no nous e possui a) nutrição e crescimento, b) imaginação e instinto, e c) inteligência e
em si tanto o verbo0 como o nous”. Por sua vez, a natureza noética e intelecção. As plantas compartilham apenas da primeira dessas potên-
racional dos anjos possui o nous, o verbo e o espírito, “mas não possui cias; os animais partilham também da imaginação e do instinto, en-
o espírito vivificante”. Como indicamos, a imagem se refere em pri- quanto o homem possui as três potências. Isso mostra o grande valor
meiro lugar à alma, mas uma vez que o corpo recebe a vida do espírito, do homem em relação aos animais irracionais. Da mesma forma, o que
a imagem no homem é mais forte do que nos anjos. foi dito previamente mostra como os anjos diferem dos homens. As-
sim, quando Cristo se tornou homem, ele recebeu um corpo humano e
São Gregório também enxerga a diferença entre a imagem do homem não a forma de um anjo, e ele se tornou um Deus homem, e não um
e a imagem dos anjos de outro ponto de vista. É conhecido seu ensina- Deus anjo.
mento de que em Deus existe a essência e a energia, e que estas estão
conectadas separadamente e separadas conectadamente. Esse é o mis- Do que foi dito, podemos agora vislumbrar a divisibilidade da alma.
tério da invisível junção entre essência e energia. A essência de Deus Não pretendemos nos estender sobre esse tema, mas apresentaremos
não é partilhada pelo homem, enquanto que as energias o são. E, uma as coisas que apresentam aspectos essenciais para o tema geral deste
vez que o h omem é a imagem de Deus, esse ensinamento sobre a es- estudo.
sência e as energias se aplica igualmente à alma. A alma é, portanto,
inseparavelmente dividida em essência e energia. São João Damasceno disse que a alma é inteligente e noética. Deus deu
ao homem “uma alma inteligente e noética mediante um sopro apro-
Ao comparar a alma do homem com as dos animais, São Gregório diz priado”. É um ensinamento básico dos Padres que o nous e a inteligên-
que o animal possui a alma não como uma essência, mas como uma cia são duas energias paralelas da alma. São Gregório Palamas, refe-
energia. “A alma de cada animal irracional é a vida do corpo que é rindo-se ao fato de que a alma é uma imagem da Santa Trindade, e
escrevendo que esta consiste em Nous, Verbo e Espírito, diz que a

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A purificação também está intimamente ligada à impassibilidade. “O
Psicoterapia Ortodoxa - Capítulo III - Parte II
nous puro é aquele que está divorciado da ignorância e iluminado pela
luz divina”. A purificação do nous é importante porque desse modo a
pessoa adquire o conhecimento de Deus, o nous puro instruído às vezes
por Deus, às vezes pelas potências angélicas e às vezes “pela natureza
das coisas que ele contempla”. O puro nous, de acordo com São Má- 1.1 . Inter-relações entre alma, nous, coração e mente
ximo, “é ocupado ou por imagens conceituais desapaixonadas dos as- Nos textos da Sagrada Escritura e nos santos Padres existe confusão,
suntos humanos, ou pela contemplação das coisas visíveis ou invisí- mas também distinção, entre os termos alma, nous, coração e mente
veis, ou pela luz da Santíssima Trindade”. Ele compreende as Escritu- (dianoia). Qualquer um que se deleite com os escritos do Padres e do
ras: “E ele abre seu entendimento, de modo a compreender as Escritu- Novo testamento, primeiro encara o problema da confusão entre esses
ras[12]”. conceitos e termos. Eles são intercambiáveis. Eu estive ocupado com
esse tema por muitos anos e tentei encontrar uma solução. Lendo as
De acordo com São Máximo existe uma atração entre o nous puro e o biografias daqueles que trataram do assunto, descobri que, com poucas
conhecimento. “Através do amor o conhecimento de Deus se dirige exceções, eles eram incapazes de determinar as relações e a distinção
naturalmente para o nous puro”. O Espírito Santo encontra o nous puro entre esses termos. Assim sendo, nesta seção eu vou tentar distingui-
e “o inicia adequadamente nos mistérios do século futuro”. Desse los e descrever a estrutura dentro da qual cada um deles trabalha.
modo o homem se torna teólogo. Pois a teologia não é dada pelo co-
nhecimento humano e pelo zelo, mas pelo trabalho do Espírito Santo Já explicamos que a alma do homem é feita à imagem de Deus, e uma
que habita num coração puro. O nous que foi purificado “se torna para vez que a alma dá a vida ao corpo ao qual está ligada, a imagem no
a alma um céu cheio de estrelas de pensamentos radiantes e gloriosos, homem é mais forte do que a imagem nos anjos. Uma vez que a alma
com o sol de justiça brilhando acima de tudo, enviando seus raios eful- está por todo o corpo, tanto o homem completo como seu corpo podem
gentes de teologia para o mundo”. Por isso o Abade Sisoés, respon- ser vistos como imagens de Deus. O hino de São João Damasceno que
dendo à pergunta do Abade Ammon sobre se, na leitura das Escrituras, é cantado no serviço funeral é característico: “Eu gemo e me lamento
é necessário concentrar-se nas palavras de modo a estar pronto a res- quando penso na morte, e contemplo nossa beleza, talhada segundo a
ponder a qualquer questão que seja feita, respondeu: “Não é necessá- imagem de Deus, jazendo desfigurada no túmulo, desfigurada, deson-
rio; é melhor ter em si pureza de espírito, não estar ansioso, e então rada, despojada de sua forma”. É evidente que neste hino a imagem se
responder”. refere ao corpo que está no túmulo.

A verdadeira teologia não é fruto de uma concentração material, mas 1.1.1 . Nous e alma
uma manifestação do Espírito Santo. Quando o nous do homem é pu-
Nos textos do Novo Testamento e nos Padres, a alma é identificada
rificado, ele é iluminado e, se seu nous tiver a capacidade, ou seja, a
com o nous. Os termos nous e alma são intercambiáveis. São João Da-
sabedoria, ele poderá teologizar. O homem purificado é por inteiro
masceno escreve que o nous é a parte mais pura da alma, são os olhos
uma teologia. Os Padres às vezes mencionam os primeiros Padres, não
da alma: “A alma não tem no nous algo distinto dela própria, mas como
sua parte mais pura, pois, como são os olhos para o corpo, assim é o
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nous para a alma”. É neste sentido que ele diz que o nous são os olhos através da prece noética, na qual o atleta do espírito luta para “fazer o
da alma. nous retornar sobre si mesmo, para empurrá-lo não numa linha reta,
mas num movimento circular, que é infalível”.
São Gregório Palamas usa o termo nous em dois sentidos. Pode se tra-
tar da alma por inteiro, a imagem, mas também pode ser a potência da O retorno do nous ao coração é obtido por meio da prece, e em especial
alma, conforme explicamos, porque, assim como o Deus Trinitário é pela prece noética, quando o nous, purificado de quaisquer pensamen-
Nous, Verbo e Espírito, também a alma possui o nous, a palavra e o tos ou ideias ora a Deus sem distração. Por isso Nilo o Asceta bendiz
espírito. De acordo com o santo Athonita, o nous identifica-se com a o nous que ora sem distração e imaterialmente a Deus: “Bendito é o
alma, mas é também uma potência da alma, devo citar uma passagem nous que está completamente livre de formas durante a prece. Bendito
característica que contém esses conceitos:. Depois da criação do home, é nous que, sem distrações em sua prece, adquire uma crescente sau-
escreve o santo, os anjos viram com seus olhos “a alma do homem dade de Deus. Bendito é o nous que durante a prece está livre da ma-
unida aos sentidos e à carne, e era como se vissem outro deus, não terialidade e despido de todas as possessões. Bendito é o nous que ad-
apenas existindo na terra por intermédio da divina bondade, carne e quiriu completa liberdade em relação às sensações durante a prece”.
nous num só homem, mas ainda transformado por essa extravagância
e pela graça de Deus, de modo a se tornar carne, nous e espírito, e de Agora que vimos as maneiras pelas quais se pode curar o nous, vere-
tal maneira a que a alma possuísse a imagem e a semelhança de Deus, mos a seguir os resultados obtidos com essa cura. Vale dizer que vere-
completamente unificada em nous, palavra e espírito”. mos, a partir dos trabalhos dos Padres, o que acontece com o nous di-
retamente depois da cura ou durante esse processo.
Destacamos os seguintes pontos neste texto. No início, ele fala da alma
unida à carne e aos sentidos. Pouco depois os termos ‘alma’ e ‘nous’ Um dos primeiros frutos é a impassibilidade. O nous impassível é
são intercambiados: ao invés de ‘alma’, ele utiliza ‘nous’, “nous e “aquele que conquistou suas paixões e que transcendeu a dor e a ale-
carne num mesmo homem”. Em seguida ele emprega a divisão carne, gria”. Nesse estado, quando chegam as atribulações, ele se regozija,
nous e espírito, sendo o espírito a graça do Espírito Santo, uma vez que nunca indo além dos limites. Essa impassibilidade é a morte vivificante
Deus não conformou o homem apenas em alma e corpo, “mas também do Senhor[11], que provém do trabalho do Espírito Santo. Quando o
favoreceu-o divinamente com a graça. Pois está é verdadeiramente a nous se liberta dos estímulos externos e se limpa das corrupções do
alma viva”. Depois disso ele escreve que a alma é feita à imagem e pecado, ele enxerga as coisas com mais clareza. Ele vê todos os méto-
semelhança de Deus, “completamente unificada em nous, palavra e es- dos empregados pelo maligno, inclusive o momento em que este se
pírito”. Fica claro nesse texto, assim, que a alma é a imagem de Deus, prepara para a batalha. Ele tem um claro conhecimento de todas as
e que o nous às vezes se identifica com a alma e outras vezes é visto artimanhas do maligno. O nous impassível “forma imagens conceitu-
como uma potência da alma, os olhos da alma, como diz João Damas- ais que são também desapaixonadas, esteja o corpo dormindo ou acor-
ceno. dado”. A consciência esclarecida não é perturbada com pensamentos
passionais durante o sono, quando a mente está inativa.
A identificação do nous com a alma também é clara em outra passagem
de São Gregório Palamas. Ele escreve em um de seus capítulos: “Pois

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tanto valor na ascese”. Ao penetrar no coração, o nous se separa de não é a constituição corporal [do homem] e sim a própria natureza do
toda imagem, seja visual ou mental. As portas do coração se fecham nous que possui essa imagem, e nada em nossa natureza é superior ao
para todo elemento de fora e “a alma penetra numa ‘escuridão’ de na- nous”.
tureza especial, e subsequentemente é considerada digna de se colocar
inefavelmente diante de Deus com um nous puro”. Por ser a imagem de Deus, a alma do home é trina: nous, palavra e
espírito. Uma vez que, em sentido geral, o nous é identificado com a
Ao discutirmos o retorno do nous ao coração, da energia do nous para alma, isso significa que o nous possui três potências. Ao mesmo tempo
a sua essência, devemos falar dos três movimentos do nous descritos em que o nous é uma das potências da alma, ele é a alma inteira. De-
por São Denis o Areopagita. Ele diz que a alma e o nous possuem três vemos citar aqui uma passagem de São Gregório: “Quando a unidade
movimentos. O primeiro é circular, “a entrada em si mesmo e para da alma se torna trina, ainda que permanecendo uma, ela se une com a
longe do que está fora, de modo que acontece uma concentração inte- Divina Unidade Ternária. A unidade do nous se torna trina ao mesmo
rior de suas potências espirituais”. Nesse movimento, primeiro a alma tempo em que permanece uma, quando ele retorna a si próprio e se
retorna para si mesma, reúne todas as suas potências e dessa forma se ergue para Deus”.
eleva a Deus, que não tem começo nem fim e que está além de todas Portanto, a alma “é uma, embora possua muitas potências”, uma das
as coisas. Esse caminho é imóvel, ele não permite à mente vaguear, e, quais é o nous. E, além disso, a alma inteira, com suas três potências,
assim concentrada, a alma se eleva para Deus. O nous é libertado de é também chamada de nous.
todo o criado, ele descarta toda noção de criação, toda fantasia, ele se
une ao coração por meio do arrependimento, e ali Deus se revela, uma Vimos também que os Padres referenciam a imagem de Deus à alma.
vez que o nous se une a Ele. Esse movimento é o que se chama de Mas ao mesmo tempo se diz que a imagem se refere ao nous: “Pois
‘teologia apofática’ (que descreve a Deus negativamente, afirmando não é a constituição corporal [do homem] e sim a própria natureza do
apenas o que não pode ser dito Dele). O segundo movimento consiste nous que possui essa imagem”.
numa linha reta, quando a alma “progredindo em direção às coisas que
a rodeiam, se eleva das coisas externas, deixando os símbolos múlti- Na medida em que Deus possui essência e energia, também a alma,
plos e coloridos para ir às contemplações simples e unificadas”. Isso é que é a imagem de Deus, possui essência e energia. E desde que, como
o que se chama de theoria natural ou de teologia catafática, que vê a vimos, o nous se identifica com a alma, também ele possui essência e
Deus na natureza. Por intermédio da contemplação da natureza a alma energia.
se eleva em direção a Deus. Esse método está arriscado à ilusão, por-
que muitas pessoas que aprenderam a olhar diretamente para as criatu- São Gregório Palamas, com toda sua sabedoria e discriminação, ana-
ras de Deus se iludiram e começaram a adorar as coisas criadas mais lisa esse fato. O coração é a essência da alma, e a atividade do nous,
do que a Criação e o Criador. O terceiro movimento, chamado de es- que consiste em pensamentos e imagens conceituais, é a energia da
piral, forma uma ligação entre os dois primeiros. Os Padres dão prio- alma. Contudo, também o nous possui essência e energia. Dessa forma
ridade ao primeiro movimento, chamado de circular, porque forma um o termo ‘nous’ é usado às vezes para significar essência e às vezes para
círculo. O nous retorna ao coração e através do coração se eleva até a significar energia ou ação. Escreve o santo: “Aquilo que é chamado de
visão de Deus. Assim se evita a ilusão. O movimento circular é obtido ‘nous’ é também a atividade do nous, que consiste em pensamentos e

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em imagens conceituais. O nous é também a potência que produz essas No escritos dos Padres se fala muito do retorno do nous ao coração, no
coisas e que na Escritura é chamado de coração”. Quando os contem- retorno da energia para a essência. A carta de São Basílio o Grande a
porâneos de São Gregório o censuraram por falar do retorno do nous seu amigo São Gregório contém esse famoso trecho: “Quando o nous
ao coração, ele escreveu: “Parece que essas pessoas não estão cientes não está engajado nos negócios exteriores, nem disperso pelos sentidos
de que a essência do nous é uma coisa, e a energia, outra”. mundo afora, ele se retira para dentro de si mesmo. Então ele ascende
de forma espontânea para a contemplação de Deus. Iluminado por esse
1.1.2 . Nous e coração esplendor, ele se esquece de sua própria natureza. A partir daí, então,
O nous é chamado também de essência da alma, ou seja, de coração. ele já não arrasta a alma para baixo pensando em seu próprio sustento
Em muitas passagens da Sagrada Escritura e dos Padres existe essa ou em como irá se vestir, mas desfruta da liberdade em relação aos
identificação entre nous e coração, e esses termos são usados indistin- cuidados terrenos, e dirige seu zelo para a aquisição dos bens eternos”.
tamente. O Senhor abençoa os puros de coração: “Bem-aventurados os Reproduzi essa passagem inteira porque ela é expressiva e porque foi
puros de coração, porque verão a Deus[1]”. Deus é revelado no cora- utilizada por São Gregório Palamas em sua disputa com Barlaam. São
ção e é para aí que o homem deve se dirigir para conhecê-Lo. O Após- Basílio o Grande diz que o nous que não está disperso pelas coisas dos
tolo Paulo escreve que a iluminação de Deus acontece ali: Deus faz sentidos no mundo exterior retorna para dentro de si mesmo e se eleva
com que sua luz brilhe “em nossos corações para iluminar o conheci- até a visão de Deus. Então, iluminado e brilhando com beleza, ele se
mento da glória de Deus na face de Jesus Cristo[2]”. O mesmo Após- desinteressa das coisas terrestres e chega mesmo a esquecer de sua
tolo ora para que “nosso Deus e Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, própria natureza.
possa dar a vocês o espírito de sabedoria e revelação no conhecimento
Dele, e que os olhos de seus corações sejam iluminados para que vocês O retorno do nous disperso para o coração – ou seja, o retorno da ener-
possam ver[3]”. O coração recebe a revelação e o conhecimento de gia para a essência – constitui a cura do nous. Ali o nous encontra seu
Deus. Em outras passagens o coração é substituído pelo nous. Quando lugar verdadeiro. Em seu retorno ele primeiro encontra o coração físico
o Senhor se colocou no meio de seus discípulos depois da Ressurrei- e em seguida o coração espiritual e metafísico. O asceta “desce até o
ção, “ele abriu seu entendimento (nous) para que eles pudessem com- coração mais recôndito, primeiro em seu coração natural, e depois até
preender as Escrituras[4]”. Uma vez que o homem chega a conhecer a aquelas profundidades que já não pertencem à carne. Ele encontra seu
Deus mediante a abertura dos olhos de seu coração e pela purificação coração profundo – o cerne íntimo, espiritual e metafísico de seu ser;
do mesmo, a frase “abriu seu entendimento” é a mesma coisa que e olhando para ele, o asceta enxerga que a existência da humanidade
“abriu seu coração”. Da mesma forma, “Bem-aventurados os puros de não é algo de estrangeiro nem de estranho para ele, mas é algo que está
coração, porque verão a Deus”, está ligada, creio eu, à passagem apos- inextricavelmente vinculado ao seu próprio ser. O retorno no nous ao
coração é na realidade a unificação do nous, vale dizer, a união do nous
tólica “Sejam transformados pela renovação de seu nous[5]”.
com o coração. Essa união é confirmada pelas lágrimas de compunção
Portanto, nesse sentido, o nous é também chamado de coração e os dois e por uma doce sensação de amor a Deus. “As lágrimas de compunção
termos são usados um pelo outro. São Máximo o Confessor, interpre- durante a prece são o sinal certo de que o nous está unido ao coração,
tando as palavras de Cristo: “Dê esmolas daquilo que vocês têm den- e de que a prece pura encontrou seu lugar por excelência para dar o
tro, e verão que tudo se torna puro para vocês[6]”, diz: “Isso se aplica primeiro passo em direção a Deus. É por isso que as lágrimas possuem

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seu amargor, “é fácil expeli-los e se afastar deles completamente por àqueles que não gastam o tempo com o que fazer com o corpo, mas
meio da Prece de Jesus nascida do fundo do coração”. que se esforçam para limpar o nous (que o Senhor chama de ‘coração’)
do ódio e da dissipação. Pois essas coisas corrompem o nous e o im-
Portanto, purificar o nous não consiste apenas em encontrar os pensa- pedem de ver a Cristo, que habita nele pela graça do santo batismo”.
mentos que penetraram nele, mas em expulsá-los, coisa que não pode Dessa forma, o nous é chamado de essência da alma, ou seja, de cora-
ser obtida com pensamentos racionais e análises, mas apenas com a ção. Em sua concepção o nous e o coração são iguais, pois Cristo ha-
Prece de Jesus. E quando dizemos ‘prece’, queremos significar a ação bita no nous.
do Espírito Santo que chega ao coração quando Cristo é lembrado no
coração. São Gregório Palamas enfatiza que a ação do nous, por con- 1.1.3 . Nous e razão
sistir em pensamentos, é rapidamente purificada “ao devotarmos Por outro lado, a energia do nous, “que consiste em pensamentos e
tempo para a prece, especialmente para a prece monológica”. Quando imagens conceituais”, também é chamada de nous. O Apóstolo Paulo
um homem se dedica à prece, a ação de seu intelecto é curada. Cessam escreve aos Coríntios: “Se eu oro em línguas, meu espírito ora, mas
os maus pensamentos, mas a alma por inteiro ainda não está pura. A meu nous permanece infrutífero. O que fazer? Eu vou orar com o es-
potência que produz a ação não pode ser curada a menos que “todas as pírito e também com o nous; eu cantarei com o espírito e também com
demais potências da alma” tenham sido purificadas. Todas essas po- o nous[7]”. Nessa passagem, o espírito é o dom das línguas e o nous é
tências devem ser purificadas pelo autocontrole, o amor, etc., porque a razão. Portanto, aqui o nous é identificado com a razão, a inteligên-
de outro modo o homem se ilude pensando estar purificado. Limitar o
cia. Existem muitas passagens na Escritura com esse sentido.
sono, ou seja, fazer vigílias, contribui para essa purificação: “Um olho
vigilante torna o nous puro”. Sobre essas coisas, São Máximo o Confessor, dando o nome de nous à
inteligência e ao coração, que é o centro do ser, por meio do qual ob-
Se por um lado a ignorância do nous, que é como uma profunda escu-
temos o conhecimento de Deus, apresenta a distinção e a energia de
ridão que recobre a visão da alma, a torna turva e obscurece o entendi-
cada função: “O nous puro vê as coisas corretamente. Uma inteligência
mento das coisas divinas e humanas, por outro lado o arrependimento
treinada as coloca em ordem”. O nous (coração) é aquilo que enxerga
a cura. Podemos ver aqui o grande valor do arrependimento. Por isso
as coisas claramente e que deve por isso ser purificado, e a inteligência
São Nicetas Etethatos, que descreve o entenebrecimento do nous, tam-
é aquilo que formula e expressa o que foi visto. Com esta passagem
bém propõe da cura por meio do arrependimento. “Quando seus olhos
podemos afirmar que, para ser Padre da Igreja é preciso não apenas
são descobertos por via do arrependimento a alma vê essas coisas cla-
possuir um nous esclarecido, mas também a expressão, ou seja, um
ramente, dá ouvidos a elas com conhecimento e as capta com entendi-
discurso educado, de modo a expressar essas realidades supranaturais
mento”. Ao mesmo tempo ela adquire o conhecimento de Deus, e,
tão claramente quanto possível.
como resultado, “por meio da sabedoria de Deus ela conta as maravi-
lhas de Deus a todos”. O arrependimento que provém de uma profunda 1.1.4 . Nous e atenção
tristeza e se une à confissão é o que retira o véu dos olhos da alma para
que ela veja as grandes coisas de Deus. Outros Padres usam o termo ‘nous’ para definir a atenção, que é mais
sutil do que a razão. Teolepto de Filadélfia liga o nous à atenção, a

136 117
palavra com a invocação e o espírito com a compunção e o amor. cruz, bata nele com golpes alternados de martelo como numa bigorna
Quando as potências da alma funcionam dessa maneira, “todo o ho- (...) segure seu nous, tão atarefado com suas próprias preocupações”.
mem interior serve o Senhor. Mas pode acontecer de, enquanto a mente Mas esse trabalho deve ser unido ao esforço para proteger os desígnios
oferece as palavras da prece, o nous (a atenção mais sutil) não a acom- de Deus para a vida da pessoa. Devemos enfatizar que o homem prá-
panhar, não fixar seu olhar em Deus, de quem são as palavras que estão tico submete seu nous de modo diferente do homem iluminado. Simi-
sendo ditas, mas se distrair com diferentes pensamentos sem se dar larmente, existe um diferença de acordo com a idade espiritual do ho-
conta disso. Nesses casos, a mente diz as palavras por hábito, mas o mem e com o trabalho que ele está fazendo para controlar seu nous.
nous se afasta do conhecimento de Deus. E assim também a alma pa- “O homem engajado na prática ascética pode prontamente submeter
rece não ter consciência ou organização, dado que o nous está disperso seu nous à prece, enquanto que o contemplativo pode rapidamente sub-
em fantasias variadas e envolvido com coisas que o iludem, ou em coi- meter a prece ao seu nous”.
sas que ele deseja”.
Esse trabalho adquire a cura do nous que é chamada de purificação na
Portanto, o próprio nous, que não consiste simplesmente em pensa- linguagem dos Padres. Um nous que foi corrompido pelas paixões
mentos, mas na atenção sutil, pode retornar ao coração, para a essência deve ser purificado. Esse trabalho de purificação é realizado pelo Es-
da alma, que se localiza neste órgão, no interior do órgão corporal do pírito Santo. “Somente o Espírito Santo pode purificar o nous”. Por
coração, uma vez que o órgão corporal é a sede da inteligência e “o isso é preciso acima de tudo que o Espírito Santo habite em nós, “para
primeiro órgão inteligente do corpo”. Por isso é preciso concentrar o que possamos ter a lâmpada do conhecimento espiritual sempre ar-
nous, que se dispersa pelos sentidos, e trazê-lo de volta “para o mes- dendo dentro de nós”. Quando o poderoso [Espírito Santo] penetra no
míssimo coração, a sede dos pensamentos”. coração e expulsa o usurpador, aquele que estava cativo pode ser liber-
tado; de outra forma, isso é impossível.
***
Nicetas Stethatos descreve como o nous é purificado: “Como temos
Não esgotamos o tema do nous. Nesta seção quisemos apenas mostrar cinco sentidos, também precisamos ter cinco práticas ascéticas. As
de algum modo como distinguir os termos nous, coração e alma, e cinco práticas ascéticas são as vigílias, a meditação, a prece, o auto-
apontar suas relações e diferenças. Voltaremos ao tema quando tratar- controle e a hesíquia. Devemos unir a visão com a vigília, o ouvido
mos mais aprofundadamente do nous, do coração e dos pensamentos. com a meditação, o olfato com a prece, o paladar com o autocontrole
e o tato com a hesíquia. Dessa forma o nous é purificado rapidamente,
Nessa seção buscamos enfatizar que o termo nous possui muitos sig- refinado, e se torna impassível e perspicaz”.
nificados na tradição bíblicopatrística. O nous é identificado com a
alma, e ao mesmo tempo é uma energia da alma. Como a alma, o nous Hesíquio o Presbítero dá grande atenção à Prece de Jesus, porque ela
também é feito à imagem de Deus. E assim como a alma se divide em purifica o nous dos pensamentos tolos. Qualquer um que está pertur-
essência e energia, também o é o nous; e assim como em Deus a es- bado com alimentos nocivos toma o remédio apropriado e se cura
sência e a energia estão separadas inseparavelmente, o mesmo acon- disso. O mesmo é feito pela prece em relação ao nous corrompido.
Quando o nous, tendo recebido maus pensamentos, os engole e sente

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se da presença real de Deus, das santas e espirituais potências, lembrar- tece com o nous. É por isso que em alguns lugares os Padres caracte-
se da partida desta vida, do julgamento, da sentença e da punição. Re- rizam o nous como essência, ou seja, o coração, nos casos em que o
pouso, oração, amor e autocontrole são “uma quadriga que conduz o nous é identificado com o coração, e em outras passagens eles carac-
nous aos céus”. O nous é iluminado quando a pessoa não negligencia terizam o nous como energia, imagens conceituais, pensamentos e a
a prática das virtudes. atenção sutil que flui através dos sentidos, quando ele deve retornar ao
coração. Os Padres se referem principalmente ao nous como coração e
Nicetas Stethatos, discípulo de Simeão o Novo Teólogo, e dentro da alma, mas sem excluir os outros nomes que mencionamos.
mesma tradição, aponta que “o caminho mais curto para o principiante
adquirir virtudes é o silêncio dos lábios e fechar os olhos e os ouvidos”. Nós perdemos a tradição relativa a isso, e muitos de nós identificam o
Esse repouso dos sentidos mediante fechar as entradas ajuda o nous a nous com a inteligência.
ver claramente e a discernir movimentos. Então o nous, “como um co- Sequer suspeitamos que paralelamente à inteligência possa haver outra
mandante, permanece independente entre as ideias, julgando e sepa- potência de maior valor: o nous, o coração. Toda a nossa civilização é
rando os bons dos maus pensamentos”, aceitando os bons e “acumu- uma civilização da perda do coração. O coração está morto, o nous foi
lando bens espirituais” com os quais se alimenta, fortalece e se enche obscurecido, e não temos como perceber sua presença. É por isso que
de luz, empurrando os demais pensamentos para o abismo do esqueci- esse esclarecimento é necessário. Uma pessoa que possui em si o Es-
mento, “sacudindo fora seu amargor”. pírito Santo, que “está na revelação”, não necessita muitos esclareci-
mentos, porque ela própria conhece por experiência a presença e a
Esta passagem merece toda a atenção. Vemos claramente que um nous existência do nous, do coração.
que é liberto da escravidão dos sentidos pelo silêncio dos lábios e pela
interrupção dos estímulos exteriores se torna um regulador da alma.
Ele não permite que pensamentos pútridos e satânicos penetrem no as- [1] Mateus 5: 8.
sim chamado ‘inconsciente’, ou seja, no fundo da alma. Os bons pen- [2] II Coríntios 4: 6.
samentos, que nutrem e dão vida à pessoa devem mergulhar fundo na [3] Efésios 1: 17-18.
alma. Assim, todas as imagens conceituais e as ações do homem cujo [4] Lucas 24: 45.
pensamento segue as ordens do comandante, são puras. [5] Romanos 12:2.
[6] Lucas 11: 41.
São Máximo virá em seguida para exortar o combatente espiritual: [7] I Coríntios 14: 14-15.
“Refreie a potência irascível da alma por meio do amor, apague sua
concupiscência com o autocontrole, dê asas à inteligência por meio da
prece, e a luz de seu nous jamais se apagará”. É uma instrução básica
dos Padres que no começo de nosso trabalho espiritual para curar o
nous devemos conservá-lo puro. É claro que isso deve prosseguir de-
pois. São João Clímaco instrui: “Controle seu nous impetuoso no seu
corpo distraído (...) fixe seu nous em sua alma como ao madeiro da

134 119
purificado, é feito santo e se torna capaz de teologia. De acordo com
Filoteu do Sinai, devemos ser extremamente rígidos na guarda do
nous. Quando vemos um mau pensamento devemos repeli-lo imedia-
tamente e chamar por Cristo. “Jesus, em seu amor gentil, dirá: Veja,
eu estou ao seu lado e pronto para ajudá-lo”. Mas para isso é necessária
e requerida a guarda do nous.

Por isso, guardar o nous não consiste apenas no esforço para não deixar
que os pensamentos maus entrem e capturem o nous, mas numa varie-
dade de ações. Uma vez que os maus pensamentos provêm das pai-
xões, a guarda do nous começa com o autocontrole no comer e no be-
ber, na rejeição de todos os tipos de maus pensamentos e no repouso
do coração. A guarda do nous deve ser combinada com a vigilância e
com a Prece de Jesus, porque “não existe progresso, qualquer que seja,
na guarda do nous, sem a vigilância, a humildade e a Prece de Jesus”.
Isso significa que essa guarda não pode ser obtida a menos que a pes-
soa faça um esforço para se libertar das paixões e para adquirir as vir-
tudes.

Curar um nous moribundo requer coragem. Os Padres dão grande im-


portância à coragem para a vida espiritual. Um bravo atleta não desiste
nem fraqueja mesmo numa circunstância em que tenha que se curvar
perante o diabo, mas ao contrário, mantém sua esperança em Deus.
“Uma alma corajosa ressuscita seu nous falecido”. Um bom cavalo,
quando montado, logo se aquece e apressa o passo. O canto dos salmos
é o passo e o nous resoluto é o cavalo. Somente a coragem dá ao ho-
mem ânimo para reviver seu nous que foi morto pelo pecado.

É assim que o nous possui muitas obrigações: todos os mandamentos


de Cristo devem ser observados se ele quiser reviver. Porque se a morte
chega ao nous por não ter ele guardado os mandamentos, sua ressur-
reição e a restauração de sua vida virão pela guarda desses mesmos
mandamentos. A pessoa deve estar preocupada em amar a Deus, em
se lembrar de Deus e do Reino, do zelo dos santos mártires, lembrar-

133
São João Clímaco fala de um vacilo do nous, como um piscar de olhos,
durante o qual, sem passagem de tempo, palavra ou imagem, uma com- Psicoterapia Ortodoxa - Capítulo III - Parte III
pulsão passional súbita se apodera da vítima. A paixão na alma de um
homem pode ser evocada por um simples movimento sem que tenha
havido nenhum pensamento complexo anterior.
1.1 . Nous, coração e pensamentos
Assim sendo, a doença do nous, conforme foi dito, consiste na corrup-
ção, no obscurecimento, na cegueira, na indiferença e insensibilidade, O que foi dito constitui uma introdução à nossa análise e interpretação
no cativeiro e escravidão, na ilusão, na conspurcação e no vacilo da da vida interior da alma. A doença e a cura da alma é principalmente a
mente. Tudo o que expulsa o nous de seu movimento natural constitui doença e a cura do nous, do coração e dos pensamentos.
uma moléstia que acaba por resultar na morte do nous. Nesse estado, A seguir abordaremos esse tópico. Estudaremos separadamente o nous,
o homem por inteiro adoece, definha e morre. o coração e os pensamentos. Creio que essa análise nos ajudará a exa-
minar nosso interior.
1.1.1.3 . Curando o nous
1.1.1 . O nous
A vida Ortodoxa pressupõe acima de tudo que a faculdade noética da
alma esteja curada. Isto posto, quando o nous se encontra obscurecido, Já enfatizamos que o termo nous possui muitos significados nos traba-
toda a alma se obscurece e se corrompe, de modo que a cura do nous lhos dos Padres da Igreja. Às vezes ele se identifica com a alma, outras
resulta na cura de todo o nosso ser. Vamos então nos voltar para o tema vezes é uma energia da alma, o olho da alma, outras vezes o termo
da cura do nous. sugere a essência da alma, às vezes sua energia, e algumas vezes sig-
nifica a atenção que é mais sutil do que a mente. Nesta seção, ao estu-
De modo a esclarecer o assunto, vamos nos limitar a dois pontos bási- darmos a doença e a cura do nous, nós o veremos como o olho da alma.
cos: primeiro, como alcançar a cura, e, segundo, quais são os resulta- Tomaremos o termo principalmente para designar a potência da alma,
dos dessa ação. e também a parte mais pura da alma, que é seu olho, de acordo com as
palavras de São João Damasceno: “[A alma] não possui o nous como
É um ensinamento básico de nossos santos que o nous é curado por algo distinto de si mesma, mas como sua parte mais pura, porque
meio da sua guarda; a isso se dá o nome de ‘vigilância’. A guarda do aquilo que são os olhos para o corpo, é o nous para a alma”. Esse olho
nous consiste numa “torre de sentinela que controla a visão de toda a da alma, o nous, que age por intermédio dos sentidos, é o que se con-
nossa vida espiritual”. A guarda do nous já foi chamada de “produtora tamina, cai doente e precisa ser curado. Do mesmo modo como todo o
da luz e da iluminação, doadora da luz e portadora da chama”, e ela corpo se obscurece quando os olhos do corpo adoentam, também
ultrapassa muitas virtudes. A guarda do nous é aquilo que, pelo poder quando o nous adoece, toda a alma do homem se vê obscurecida. É o
de Cristo, pode mudar um homem de pecador, indecente, profano, ig- que quis dizer o Senhor, quando disse: “Se a luz que existe em vocês
norante e estúpido para justo, responsável, puro, santo e sábio. Além é treva, quão grande será a escuridão![1]”. Quando o nous se retira do
dessas coisas, o nous pode capacitar os homens a “contemplar misti- coração e se afasta de Deus, ele adoece e morre, e toda a alma agoniza.
camente e a teologizar”. Por meio da guarda do nous um homem é É o que veremos mais analiticamente a seguir.

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1.1.1.1 . A vida natural do nous O nous enfermo está cativo, prisioneiro. “As paixões repreensíveis
acorrentam o nous, amarrando-o aos objetos sensíveis”. São Máximo
Os Padres definem claramente a vida natural do nous. De acordo com
diz que da mesma forma como um pardal amarrado pela perna não é
Nicetas Stethatos, “Deus é o nous impassível, acima de todo nous e de
capaz de voar, por mais que tente, porque é puxado de volta ao chão,
toda impassibilidade. Ele é a luz e a fonte da boa luz, ele é a sabedoria,
“similarmente, quando o nous que ainda não atingiu a impassibilidade
a palavra e o conhecimento, assim como também é aquele que concede
voa em direção ao conhecimento espiritual, ele é puxado de vota pelas
a sabedoria, a palavra e o conhecimento”. E o homem, enquanto ima-
paixões e atirado ao solo”. Não importa o quanto ele tente voar para o
gem de Deus, possui um nous impassível, na medida em que seu nous
conhecimento celeste, ele não poderá fazê-lo a menos que se liberte
permanece “em seu estado natural e não se move em relação ao seu
das paixões. As paixões o acorrentam e o mantêm preso à terra. O nous
próprio nível e sua natureza”. Quando é assim, o nous do homem de-
é tornado vulgar pelas várias paixões e não consegue orar com pureza
seja e busca se unir a Deus, “de onde ele teve seu começo”, e, por meio
de suas qualidades naturais ele o segue “e anseia por imitálo em sua a Deus.
simplicidade e amor pelo homem”. E do mesmo modo como o Nous-
“Um nous vaidoso é como uma nuvem sem água que é levada pelos
Pai gerou o Verbo, que gerou e recriou o homem, também o nous da
ventos da autoestima e do orgulho”.
alma gera a palavra, e “recria as almas dos homens de mesma raça
como se fossem seres celestiais, e os torna fortes para que perseverem
Um nous que está doente com a paixão da autoestima permanece numa
nas virtudes ativas”. E não apenas o nous recria as almas dos outros
ilusão, tentando encerrar a Divindade em modelos e formas.
homens por meio da palavra, mas lhes dá a vida “pelo sopro de sua
boca”. Assim, o nous do homem que se move na direção de Deus recria
Hesíquio o Presbítero também descreve o modo como o nous se torna
outras almas, e, imitando a Deus, “ele próprio mostra ser um criador
cativo. Se ele não tem experiência e vive desatento, ele começa por se
da criação inteligível e do grande universo”. Essa passagem de Nicetas
entreter com qualquer fantasia passional que lhe aparece, ou seja, com
Stethatos mostra que quando o nous se move em direção a Deus natu-
aquilo que a fantasia traz consigo, e logo ele começa a conversar com
ralmente e a ele se une, também ele se torna pela graça aquilo que o
ela e a elaborar respostas. Dessa maneira, “nossos próprios pensamen-
Nous Celestial é por natureza.
tos são combinados com a fantasia demoníaca”. E conforme a fantasia
cresce e floresce o nous adoece.
A união do nous com Deus é um repouso, mas ao mesmo tempo um
movimento, uma vez que a perfeição em geral jamais pode ser com-
Além dos estados enfermos do nous que já mencionamos, existe ainda
pleta. São Máximo escreve a respeito desse repouso que sempre se
a conspurcação. O Apóstolo Paulo diz: “Para a pessoa pura tudo é
move e dessa movimento estacionário. Enquanto o home permanece
puro, mas para os corrompidos e descrente nada é puro; até seu nous e
em Deus, ele está em constante movimento. Nicetas Stethatos diz o
consciência estão conspurcados[10]”. O nous pode ser conspurcado
mesmo a respeito do nous: “Todos os nous, neste Nous Primeiro, pos-
não apenas por um grande e mortal pecado, mas também por uma pa-
suem um repouso constante e um movimento sem fim”. Não é esse o
lavra descuidada. Mas isso acontece principalmente com alguém que
caso do nous impuro, mas só do nous puro e incorrupto. O nous unido
já provou da alegria e do efeito da prece.
ao Nous Primeiro se torna bom e sábio. “Somente Deus é bom e sábio

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obscurecido e se torna improdutivo ainda que digamos palavras de sen- por natureza; mas se você se exercitar, também seu nous se tornará
tido universal, ou que, entretendo tais palavras em nossa mente, a as- bom e sábio por participação”.
sociemos a elas, ou que nosso corpo se envolva com o nous nas coisas
sensíveis. Então perdemos imediatamente nosso fervor, a compunção, Ao descrevermos o estado natural do nous precisamos definir clara-
a intimidade com Deus e o conhecimento espiritual. Por isso “enquanto mente o que são os movimentos naturais, antinaturais e supranaturais.
concentramos nossa atenção no nous, ficamos iluminados; mas quando São Marcos o Asceta descreve os três movimentos do nous. “O nous
não nos atentamos para ele caímos na escuridão”. muda de um para outro de três diferentes estados: um de acordo com a
natureza, um acima da natureza e um contra a natureza”. Quando ele
O obscurecimento é também chamado de cegueira, porque ele constitui entra no estado de acordo com a natureza, ele percebe ser ele próprio
realmente a cegueira do nous. E o nous se torna cego pelas três paixões a causa dos maus pensamentos e confessa seus pecados a Deus, com-
da avareza, da autoestima e do prazer sensual. De acordo com Nicetas preendendo claramente as causas das paixões. Quando ele entra num
Stethatos, a ignorância de um nous terrestre, que é como uma neblina estado contrário à natureza, ele esquece a justiça divina e luta contra o
e uma profunda escuridão, “cobrindo os olhos da alma, a torna escura homem, acreditando estar sendo injustamente maltratado. Mas quando
e obscurece a percepção do divino e do humano, de tal modo que ela ele se eleva a cima da natureza, ele encontra os frutos do Espírito
se torna incapaz de olhar para os raios da divina luz, ou para se deleitar Santo. É a vida do Espírito que manifesta o estado natural do nous e
naquelas coisas boas que nenhum olho viu, nem ouvido ouviu, nem o retrata seu desenvolvimento natural. Quando uma pessoa persevera em
coração do homem concebeu”. O nous, e a alma em geral, fica incapa- manter seu nous movendo-se de acordo com a natureza, ela permanece
citado de contemplar a Deus e ser iluminado. Nisso está sua enfermi- pura em relação à esfera material e “se adorna de gentileza, humildade,
dade e morte. Nessas condições o homem não consegue encontrar a amor e compaixão, e então é iluminada pela luz do Espírito Santo”.
verdade.
São Basílio o Grande ensina que, assim como o olho não pode ver um De acordo com São Máximo o Confessor, “o nous funciona de acordo
objeto claramente que se desloca todo o tempo para os lados ou para com a natureza quando mantém as paixões sob controle, quando con-
cima e para baixo, o mesmo acontece com o olho da alma, o nous. templa as essências interiores incriadas dos seres e quando habita em
“Distraído por milhares de preocupações do mundo, ele não consegue Deus”. Os santos Padres também enfatizam o fato de que o nous é al-
mirar claramente a verdade”. terado por toda imagem conceitual das coisas que ele aceita. Se ele
contempla as imagens das coisas espiritualmente, “ele se transforma
Outro estado doentio da alma é a frieza, a insensibilidade, a indife- de diversas maneiras de acordo com o que ele contempla”. Quando ele
rença. “Ter um coração insensível significa ter entorpecido o nous”, se une a Deus ele perde tanto a forma como a configuração. Por isso é
disse São João Clímaco. Quando os demônios chegam ao coração e muito importante para o nous aprender a receber as imagens conceitu-
extinguem a luz do nous, logo desaparecem em nós a sobriedade, o ais das coisas espiritualmente, pois de outro modo ele não estará vi-
discernimento, o autoconhecimento e a vergonha, e somos deixados vendo em seu estado natural, ele estará distorcido, e quando o nous,
com “a indiferença, a insensibilidade, a pretensão do discernimento e que é o olho da alma, se distorce, toda a alma automaticamente se dis-
a cegueira”. torce com ele. Porque quando uma das potências da alma se corrompe

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e se torna doente, todas as demais potências se deformam e adoecem, que resistem à verdade são “homens com o nous corrompido[6]”. O
porque “a alma é simples”. Apóstolo Paulo, referindo-se a um herético de seu tempo, diz que ele
está “estufado por seu nous carnal[7]”. Essa passagem implica clara-
É o nous que determina toda a condição de uma pessoa, uma vez que mente que quando um homem é sensual, desprovido da operação do
é ele quem alimenta a alma. Nosso nous se coloca entre duas coisas, a Espírito Santo, como mencionado na teologia do Apóstolo Paulo, ele
virtude e o vício, o anjo e o demônio, cada uma das quais trabalha pelos possui um nous carnal. Em outra parte, o nous que está afastado de
seus próprios objetivos. O nous conectado com a liberdade “possui Deus é caracterizado como “rebaixado[8]”. O Apóstolo Paulo não quer
tanto a liberdade como o poder de seguir ou resistir qualquer coisa que que os Cristãos vivam como os Gentios, “na futilidade de seus
quiser”. O nous é aquilo que divide a ala. Primeiro o nous adoece e nous[9]”. E os Padres, como Thalassius, falam de como o nous se
então ele corrompe toda a alma e a leva a extraviar-se. “A alma vai move para longe do domínio do conhecimento espiritual quando a
para onde o nous impulsiona por qualquer paixão humana”. É caracte- parte passional da alma se afasta de suas virtudes.
rístico do nous que quando algo se torna seu interesse constante, ali
essa coisa prospera, e, como resultado disso, ela se transforma em de- A doença do nous também é caracterizada pela palavra “obscureci-
sejo e amor nessa direção. Isso pode acontecer tanto em direção àquilo mento”. O nous, como imagem de Deus, é “luminoso”. Mas quando
que é divino, inteligível e apropriado à sua natureza, quanto em direção ele se afasta de Deus ele perde seu estado natural, ele se entenebrece,
às paixões e às coisas da carne. A paixão do amor, quando é repreen- se obscurece. Hesíquio o Presbítero ensina que os oito principais pen-
sível, ocupa o nous com coisas materiais, mas quando ela é dirigida samentos do mal, aos quais estão submetidos todos os maus pensamen-
corretamente “ela o une ao divino”. Por isso a ascese Ortodoxa da tos, aproximam-se da entrada do coração. E se a encontram desguar-
grande importância ao progresso e ao movimento do nous. Pois quando necida, penetram no coração um a um, cada um na sua vez. Qualquer
o nous se volta e contempla as coisas materiais e é corrompido pelas um deles que entrar, “introduz um enxame de outros pensamentos ma-
imagens conceituais dessas coisas, ele transmite essa enfermidade a lignos após si; e, tendo assim obscurecido o nous, estimula o corpo e
todas as potências da alma. o provoca para as ações pecaminosas”. Em outro trecho Hesíquio en-
sina que quando uma pessoa leva uma vida de pecado e dissolução,
Em geral, podemos dizer que os movimentos do nous são de acordo “ela obscurece seu nous”. Por isso o ensinamento patrístico nos adverte
com a natureza, acima da natureza ou contra a natureza. Com a liber- para manter vigilância sobre os nossos pensamentos para que “nosso
dade que lhe é própria, o nous se move de acordo com seu próprio nous não se obscureça, mas que, ao contrário, ele possa ver”.
desejo e se transforma conforme o caminho que segue e o lugar onde
se coloca, e então ele altera a alma, seja positiva, seja negativamente. Assim, podemos falar da cegueira e da incapacidade do nous dever as
“O homem volta sua mente, seja para seus pecados, seja para Jesus, coisas com clareza. E quando o nosso nous é obscurecido, não conse-
seja para os homens”. Isso ficará mais claro a seguir, quando discor- guimos uma passagem pura e aberta para o nosso próximo. Tudo fica
rermos a respeito da doença e da cura do nous. corrompido e obscurecido, com consequências lamentáveis e terríveis
para nossa vida. Assim como as nuvens obscurecem o sol, os maus
São Gregório de Nissa ensina: “O nous não se encontra confinado em pensamentos trazem sombras para a mente e a arruínam. Nosso nous é
parte alguma de nós, mas está em todas as partes e permeia todas as

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tirando vantagem das paixões que existem na alma, estimulam pensa- partes”. A comunicação do nous com o corpo apresenta um contato
mentos passionais, por meio dos quais eles lutam contra o nous e o inefável e inconcebível, “não estando dentro dele (porque o incorpóreo
forçam a lhes dar consentimento. Uma grande batalha é levada a cabo não pode ser encerrado num corpo) nem o envolvendo (porque o que
pelos demônios para capturar o nous e atraí-lo para o pensamento pas- é incorpóreo não pode ter nada dentro de si), mas abordando-o de um
sional. Quando o nous é derrotado, “eles o levam ao pecado na mente modo complexo e incompreensível e, fazendo contato com ele, pode
e, quando isso é feito, eles o induzem, cativo que está, a cometer o ser visto tanto nele como ao seu redor, nem implantado nele, nem o
pecado em ato”. Mas o mal não termina aí. Depois de haver desolado envolvendo”.
o coração por meio de pensamentos passionais, os demônios se reti-
ram. Mas, apesar disso, o ídolo do pecado permanece no nous. São São Gregório Palamas, explicando a passagem de São Macário que en-
Máximo, referindo-se às palavras do Senhor: “Quando vocês virem a sina que o nous e todos os pensamentos da alma estão no coração como
abominação da desolação (...) estabelecida no lugar santo...[4]”, diz se fosse num órgão, e a passagem de São Gregório de Nissa que ensina
que o nous é o templo de Deus no qual os demônios, tendo devastado que o nous, sendo incorpóreo, não está no corpo, escreve que essas
a alma por meio de pensamentos passionais, “estabelecem o ídolo do duas passagens não são contraditórias, mas se completam formando
pecado”. uma unidade. São Macário e São Gregório de Nissa partem de pressu-
postos antropológicos diferentes. Vale dizer que o que São Mácario
Tal é a enfermidade do nous. Ele não apenas é capturado, como ainda diz do nous estar no corpo, e o que São Gregório diz dele estar fora do
cai doente, uma vez que o ídolo do pecado permanece como uma ferida corpo, deve ser entendido em sentidos diferentes. Do mesmo modo
persistente e causa um novo pecado. Dizemos que nessa situação o como alguém que sustenta que Deus não está em parte alguma por ser
nous foi capturado pelo demônios e pelas paixões, e que “um nous do- incorpóreo, não está em contradição com outro que diz que o Verbo
minado pelas paixões tem pensamentos ignóbeis”. Isso se manifesta estava no seio da pura e virgem Mãe de Deus, também acontece com
em palavras e atos. Tudo o que um homem diz e faz, manifesta a en- essas passagens dos Padres que se referem ao nous. O nous humano,
fermidade ou a saúde de seu nous. Por isso, aqueles que possuem o sendo incorpóreo, está fora do corpo, mas também está no corpo, uti-
dom do discernimento discriminam a condição do nous de cada ho- lizando inefavelmente o coração como o primeiro órgão da carne. Já
mem por seus movimentos exteriores e suas palavras. A ligação do explicamos em outras seção que o nous possui essência e energia, e
nous aos sentidos, “escravizam-no ao prazer corporal”. O nous, ao in- que, enquanto essência, ele está no coração, mas que enquanto energia
vés de se voltar para Deus e se unir a Ele, procura se unir aos sentidos ele opera nos pensamentos, e então ele sai do corpo e concebe as ima-
e assim se torna escravo. Essa escravidão, esse cativeiro é a doença do gens conceituais das coisas. No estado natural o nous penetra no cora-
nous. E, naturalmente, tal moléstia causa a morte do nous. ção, a energia entra na essência e assim ele se ergue para Deus. Esse é
o movimento circular do nous de que iremos falar mais adiante.
Vamos citar a seguir algumas passagens patrísticas para descrever al-
gumas condições e características da doença do nous. O nous, enquanto imagem de Deus, só possui vida quando está unido
a Deus e se torna sábio e bom. Esta é a vida do nous. O Apóstolo Paulo
A Sagrada Escritura fala do nous depravado, a mente da carne: “ho- escreve: “Pois quem conheceu o nous do Senhor a ponto de instruí-lo?
mens com o nous corrompido e destituídos da verdade[5]”. Todos os Mas nós temos o nous de Cristo[2]”. O estado natural do nous é o de

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estar unido ao nous de Cristo. Assim ele se torna iluminado e esclare- “a carruagem de fogo cruzando os céus”, que confronta as três paixões
cido. A “verdadeira vida e a verdadeira energia do nous” estão presen- da avareza, da sensualidade e da ambição.
tes quando a inteligência da alma se ocupa com as visões divinas e
dirige preces e ações de graças a Deus, e quando se liga a Ele por meio Essas divisões do nous em nós são sem dúvida incompreensíveis para
de uma lembrança contínua. O afastamento de Deus mata o nous, en- nós, mas os Padres, por meio de seus esforços e iluminados pelo Espí-
quanto que a vida do nous consiste na associação e na união com Ele. rito Santo, distinguiram e descreveram essas potências, que se torna-
De acordo com São Máximo, a luz do conhecimento espiritual é a vida ram familiares junto com toda a construção interior da alma. A pessoa
do nous e, uma vez que essa luz é gerada pelo amor a Deus, não existe que “vive na revelação”, iluminada pelo Espírito Santo, chega a co-
nada maior do que o amor a Deus. nhecer todas as profundezas da alma e todas as potências do nous, que
são desconhecidas e inconcebíveis para qualquer um que esteja dis-
Da mesma forma que o corpo necessita de pão para viver, a alma pre- tante da graça. Mais do que isso, aliás: para alguém que está afastado
cisa das virtudes para viver, de modo que assim a prece espiritual é o de Deus o próprio homem é obscuro e desconhecido.
alimento do nous. A prece alimenta o nous e lhe dá vida. Quando o
nous se move em direção a Deus e se une a Ele, se torna saudável e Todas essas coisas que mencionamos mostram o estado natural do
vital. Nesse estado ele recebe as consolações de Deus. Em Deus o nous nous tal como ele funciona no homem natural, no homem de Deus. “A
adquire saúde e percepção. E essa faculdade perceptiva do nous con- tarefa do nous é a de rejeitar todo pensamento que vilipendia o pró-
siste “no poder de discriminar acuradamente entre as experiências (sa- ximo”. Em seu estado natural o nous repele os pensamentos contrários
bores) das diferentes realidades”. Para a vida espiritual é essencial que ao amor. Analogamente, o nous se aperfeiçoa na medida em que cresce
o nous tenha vida, para ser capaz de distinguir as ações e as consola- e se enriquece no conhecimento de Deus. “O nous é aperfeiçoado
ções de Deus das ações do diabo. Num nous saudável e que se dedica quando se transforma pelo conhecimento espiritual”. Esse conheci-
continuamente às realidades divinas, “a parte passional da alma se mento é o conhecimento de Deus e das coisas criadas, de uma forma
torna uma arma divina”. Então toda a alma se torna saudável. O nous que transcende o conhecimento. “O nous perfeito é aquele que, por
é como uma carruagem que conduz a alma seja para Deus, seja para o meio da verdadeira fé e de uma maneira além de tudo, suprema e des-
diabo e para as ações do pecado. O mandamento do Apóstolo Paulo a conhecidamente conhece o supremamente Desconhecido e sonda a to-
respeito de possuir um nous puro e vivo é claro: “Que todos estejam talidade da criação de Deus”.
inteiramente convencidos em seus próprios nous[3]”.
1.1.1.2 . A doença do nous
Embora o nous seja uma potência da alma no sentido que definimos O nous foi entenebrecido, obscurecido e adoeceu por causa da queda.
nessa seção, ele possui outras potências e energias. Nicetas Atethatos Ele deixou de ser perfeito. O mesmo acontece toda vez que o homem
ensina que o nous possui quatro potências: entendimento, acuidade, comete um pecado.
apreensão e sagacidade. Essas quatro potências do nous devem se unir
às quatro virtudes gerais da alma: o entendimento do nous deve se unir A primeira batalha que o demônio trava é contra o nous. Os demônios
ao autocontrole da alma, a acuidade com o julgamento moral, a apre- tentam escravizá-lo sempre que o homem costumeiramente dá seu con-
ensão com a justiça e a sagacidade com a coragem. Tudo disso forma sentimento e comete o pecado. São Máximo ensina que os demônios,
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leita com as coisas carnais, desagradáveis a Deus. Um coração autoin- por não possuírem eles próprios a experiência, mas para confirmar essa
dulgente é uma prisão para a alma, especialmente na hora da morte. de experiência, especialmente em tempos em que outros homens a negam.
acordo com São Marcos o Asceta, “um coração autoindulgente se torna
uma prisão e uma corrente para a alma quando ela deixa esta vida”. As Através da purificação do nous ganhamos também um conhecimento
paixões da alma são satisfeitas enquanto existe um corpo. Mas quando real a respeito de nós mesmos. O filósofo Barlaam sustentava que a
a alma deixa o corpo ela não será capaz de se satisfazer, por lhe falta- santidade e a perfeição não podiam ser encontradas “sem divisão, ra-
rem as coisas materiais. Por isso essas paixões, em especial a autoin- ciocínio e análise”, de modo que ele afirmava que quem quisesse pos-
dulgência da alma, não encontrando satisfação, estrangulam a alma. suir a perfeição e a santidade devia se utilizar de “métodos de divisão,
Nos escritos patrísticos fala-se desses demônios. Por isso um coração raciocínio e análise”. Mas São Gregório Palamas se opôs a essa visão
autoindulgente é uma prisão e uma corrente para a alma no momento como sendo “uma heresia de Estoicos e de Pitagóricos”. Nós, os Cris-
em que ela parte desta vida. tão, disse ele, “não consideramos como verdade um conhecimento fun-
damentado em palavras e raciocínios, mas somente aquele que é de-
A alma doente e moribunda de um homem transmite sua enfermidade monstrado pelos dados da vida, que não apenas é verdadeiro, como
e seu obscurecimento a todo o ser psicossomático. Tudo o que ele ainda seguro e irrefutável”. Ele prossegue afirmando que ninguém é
pensa e deseja é morto. Por isso o Abade Doroteu disse que enquanto capaz de conhecer a si mesmo por meio de distinções, raciocínios e
estivermos sujeitos às paixões não poderemos confiar no coração. Pois análises, a menos que seu nous tenha se libertado da presunção e do
um juiz trapaceiro transforma em trapaça até as coisas mais corretas. mal por meio de uma severa penitência e um intenso ascetismo. Nin-
São Marcos o Asceta adverte: “Enquanto vocês não erradicarem o mal, guém que não tenha libertado seu nous da presunção e do mal, vale
não confiem em seus corações”. dizer, que não tenha purificado seu nous, poderá ter consciência de sua
própria pobreza, consciência esta que constitui uma proveitosa entrada
O coração enfermo deve ser curado. Se ele não se curar, todo o orga- para o autoconhecimento.
nismo humano estará doente.
Essa passagem é muito importante, porque muitas pessoas hoje em dia
1.1.2.4 . A cura do coração ensinam que se pode alcançar o autoconhecimento por meio da autoa-
O mais alto objetivo do homem é chegar ao conhecimento de Deus, nálise e da psicanálise. Mas isso é uma ilusão que pode levar a resul-
porque aí está a sua salvação. Naturalmente, quando dizemos “conhe- tados temíveis. Quando alguém analisa a si mesmo, o mais provável é
cimento de Deus”, não queremos dizer um conhecimento mental, mas que termine esquizofrênico. O método ascético é simples. Utilizando
uma “comunhão de ser”. Ou seja, o conhecimento de Deus é a comu- os métodos descritos – ou seja, guardando o nous, purificando-o e le-
nhão com Deus. Quando essa comunhão é alcançada, existe salvação. vando-o de vota ao coração por meio da penitência e da prece noética,
Mas essa comunhão acontece nas profundezas do coração. Aí Deus e guardando os mandamentos de Cristo – tentamos livrar o nous de
encontra o homem, aí ele reparte Seu conhecimento, aí o homem ad- suas imagens e de seu cativeiro pelas coisas sensuais, de modo a que
quire o sentido de Seu ser. Para que aconteça essa comunhão e essa ele possa retornar para o coração e enxergar sua desolação interior. O
visão de Deus, o coração deve ser puro. O Senhor afirmou: “Bem- autoconhecimento vem através do trabalho do Espírito Santo. É so-
aventurados os de coração puro, porque verão a Deus[53]”. O coração
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mente quando a graça de Deus, junto com nosso próprio trabalho, ilu- a vontade de Deus, constituem uma conspurcação do coração e, por
mina nossa alma é que conhecemos acuradamente cada detalhe de conseguinte, uma moléstia. E assim o coração se torna doente.
nosso ser. A partir daí a cura de nosso nous nos revela a existência das
paixões, de modo a que, iluminados pelo Espírito Santo e empoderados Da mesma forma, o coração tolo é enfermo. Dos idólatras que adora-
por ele, possamos guerrear contra elas. vam as coisas criadas mais do que o Criador, foi dito: “seus tolos coa-
ções estavam obscurecidos[51]”.
A partir do momento em que o nous está curado, ele se torna puro e se
livra da fantasia e da debilidade. A falta de correção é outra enfermidade do coração. O coração que faz
a vontade do diabo não está direito, uma vez que a retidão do coração
Outro fruto da cura do nous é a liberdade. Assim como antes ele era só é possível quando este se encontra em seu estado natural, ou seja,
prisioneiro, agora ele se vê livre e “cheio de alegria, voando em seu quando ele é a morada de Deus. O Apóstolo Pedro falou de modo acu-
caminho de volta para o reino celeste, que é sua terra natal”. Quando sador a Simão o Adivinho, que pretendia obter a graça de Deus por
ele se liberta das paixões, tudo o que fizer será contado como uma pura dinheiro: “Seu coração não é direito aos olhos de Deus[52]”.
oferenda a Deus.
Outra moléstia do coração á a rudeza. A presença das paixões no co-
Quando o nous é resgatado das paixões, que são a sua morte, ele res- ração torna-o rude, e essa rudeza logo se manifesta exteriormente. Por
suscita. Por isso podemos falar da ressurreição do nous. Nicetas Ste- isso na tradição Ortodoxa fala-se claramente da ternura, não apenas
thatos relaciona essa ressurreição à ressurreição de Lázaro. Assim interna como externa. O coração deve ser simples, refinado. Um ho-
como Lázaro morrei, o nous morre pelo pecado e é enterrado. E tal mem com um coração simples é também exteriormente terno. Mas
como Cristo foi a Betânia para levantar Lázaro, também ele vem até o existe uma ternura exterior que não provém da ternura do coração, ou
nosso nous morto para levantá-lo. E do mesmo modo como as irmãs antes, que está em flagrante contraste com uma rudeza do coração, e
de Lázaro, Marta e Maria, chegaram a Ele com lágrimas e lamenta- existe uma ternura exterior que brota e reflete uma gentileza interior.
ções, também “a prudência e a justiça, mergulhadas na dor por causa O Arquimandrita Sofrônio escreve a respeito de São Silouane:
da morte do nous se apresentam em lágrimas diante de Cristo”. A jus- “Mesmo a intuição mais perceptiva, colocada em contato com o Padre
tiça é o trabalho difícil e vigoroso, enquanto a prudência é o trabalho Silouane, em quaisquer circunstâncias , jamais encontraria nele nada
espiritual e contemplativo. que fosse ignóbil. Ele não sabia o que fosse o desdém ou a desconsi-
Encontramos essa correlação entre dois milagres, ou seja, entre a res- deração. Era estranho a toda forma de afetação. Era realmente um es-
surreição de Lázaro e a do nous morto, em muitos de nossos hinos pírito nobre, da maneira como só um Cristão sabe ser nobre”. Pois
Ortodoxos que são cantados nas igrejas. Gostaria de registrar aqui dois quando existe afetação, hipocrisia, sarcasmo, antipatia, é claro que ali
deles. está um coração doente, pois o comportamento é rude.

“Vamos nos apressar para levar adiante nossa theoria e nossa praxis Também a autoindulgência interior é uma moléstia do coração. Ao in-
amarradas com a Prece de Cristo, para que, por meio de Sua temível vés de se concentrar e se comprazer no amor a Deus, o coração se de-

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Dureza e endurecimento são outra doença do coração. Como ele não autoridade vivificante, possamos oferecer-Lhe nosso nous morto e en-
aceita a graça de Deus, que transmuta tudo, ele se torna duro. “Homens terrado como Lázaro, como uma palma de justiça, e clamar: Bendito é
teimosos, incircuncisos de corações e ouvidos”, disse o Protomártir Aquele que vem!”. Nesse tropário Marta é a praxis e Maria é a theoria
Estêvão aos Judeus[44]. Essa dureza é o produto acumulado da arro- por intermédio das quais Cristo é chamado para ressuscitar o nous que
gância, e o homem será julgado por ela. “Por causa de seu coração duro está morto.
e impenitente, vocês estão acumulando a ira sobre si mesmos, quando
se revelar o justo julgamento de Deus[45]”. Um coração endurecido é “Vamos, em fiel imitação de Marta e Maria, enviar ações inspiradas,
como um portão de ferro diante de uma cidade. Quando está fechado, como uma delegação para o Senhor, pedindo a Ele que venha e levante
ninguém consegue entrar na cidade. Mas o coração daquele que sofre nosso nous que jaz horrivelmente morto na tumba, que insensatamente
e se aflige se abrirá sozinho, como aconteceu com Pedro. Nossa tarefa desdenhou do temor a Deus, e que agora está insensível e sem energia
é não criarmos precondições para o endurecimento do coração. “Não vital, para clamarmos: Veja, Senhor, assim como antes, em Sua com-
endureçam seus corações como numa rebelião[46]”. Muitas vezes o paixão, você levantou a Lázaro, seu amigo, agora, em toda a Sua mi-
Senhor encontrou esses corações calejados. Depois do milagre da mul- sericórdia, dê a vida a nós todos”. O nous está morto na tumba e não
tiplicação dos cinco pães e da tempestade, “seus corações estavam en- possui mais sua energia vital, de modo que exortamos a nós mesmos
rijecidos[47]”. Em outro ponto o Senhor diz ao povo: “Seus corações para enviarmos a Marta e Maria, ou seja, ações, até Cristo, para que
ainda estão endurecidos? [48] ”. Quando confrontado pelos homens Ele o ressuscite. Um nous que recuperou o controle sobre si mesmo,
que o criticavam por curar num sábado, o Senhor “olhou ao redor com que ressuscitou, se torna um templo para o Espírito Santo.
ira, pesaroso com a dureza de seus corações[49]”, e curou o homem
que tinha a mão seca. Nesse estado o nous puro é iluminado e arrebatado em êxtase. Ele se
regozija na visão de Deus e conversa com o Senhor. Quando os Padres
A sujeira é outra doença do coração. Quando o coração perde a graça falam do arrebatamento e do êxtase do nous, eles não consideram que
de Deus e os demônios começam a operar dentro dele, ele se torna o nous deixou o corpo como acontecia com a Pítia, mas que ele se
naturalmente sujo. De acordo com Nicetas Stethatos, a sujeira do co- libertou dos cuidados corporais e terrenos e se ofereceu a Deus, sem
ração não provém apenas do fato da pessoa ter pensamentos sujos, mas perder a consciência deste mundo. Quem possui a prece incessante ex-
também porque ela ostenta seu sucesso, se incha com suas virtudes, perimenta o êxtase do nous. Esse êxtase é chamado de arrebatamento,
tem pensamentos grandiosos, ou seja, é orgulhosa de sua sabedoria e e é uma forma de theoria.
de seu conhecimento de Deus, e desdenha de seus irmãos que são in-
dolentes e descuidados. É isso que é mostrado na parábola do Fariseu O nous puro é iluminado, recebe a luz. Nesse ponto, é preciso que fa-
e do Publicano. Todo desejo que chega ao seu coração, mesmo os que lemos a respeito da luz, especialmente da luz do nous, porque os textos
não provêm de fora, são impuros e adúlteros. O Senhor disse: “Todo patrísticos tratam muito dela.
aquele que olhar para uma mulher com luxúria já cometeu adultério
com ela em seu coração[50]”. Mas também quaisquer outros desejos, São Diádoco, um expert da teologia mística, se refere a essa luz do
mesmo que não sejam carnais no sentido estrito, mas que sejam contra nous: “Não duvide que o nous, quando começa a ser energizado pela

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luz divina, se torna tão completamente translúcido que chega e enxer- O mal penetra no coração do homem e o torna cativo: “E terminada a
gar vividamente sua própria luz”. Mas ele esclarece que isso acontece refeição, o demônio colocara no coração de Judas Iscariotes, o filho de
“quando a potência da alma adquire o controle sobre as paixões”. Se- Simão, a traição a Jesus[42]”. Não há dúvida de que seu coração já
melhantemente, em outro trecho ele diz: “Aqueles que meditam inces- vinha num estado de escravidão desde muitos anos antes. “Assim
santemente a respeito desse santo e glorioso nome nas profundezas de como é impossível que o fogo e a água passem pelo mesmo conduto
seu coração podem eventualmente ver a luz de seu próprio nous”. juntos, também é impossível para o pecado penetrar no coração sem
primeiro bater à sua porta na forma das fantasias provocadas pelo de-
Esse ensinamento de São Diádoco é partilhado também por Calixto e mônio”. A fantasia é aquilo que leva as provocações do demônio até o
Inácio Xanthopoulos. coração. No homem decaído, a fantasia, que é mais sutil do que o pen-
samento e mais grosseira do que o nous, é o princípio do mal. Por isso
São Nilo o Asceta ensina que “quando o anjo de Deus vem até nós, os Padres nos advertem para manter nossa fantasia pura, ou melhor,
apenas com a sua presença ele coloca fim a todas as energias adversas para viver de tal maneira a não ativar a fantasia, mas, ao contrário, a
dentro do nous e faz com que sua luz produza energia sem ilusões”. mortificar o que é fantasioso. Somente depois que a fantasia morre,
como resultado de muita penitência e muita dor interior, é que a pessoa
O nous é feito à imagem de Deus. E, assim como Deus é luz, também se torna capaz de teologizar.
o nous é luz. Nesse sentido é que os santos dizem que o homem pode
ver a luz de seu nous. Mas essas coisas acontecem ao homem natural, Os Padres escreveram a respeito da perdição do coração. Isso deve ser
enquanto que no homem decaído o nous está entenebrecido, obscure- tomado no sentido de que a graça de Cristo já não está agindo no co-
cido e oculto pelas paixões. Entretanto, quando um homem se livra das ração e que este centro supranatural se tornou um centro paranatural.
paixões e é iluminado por Deus, durante a prece ele se torna capaz de A perdição do coração representa a perda da salvação.
ver a luz de seu nous.
Uma das doenças do coração é a ignorância e o esquecimento de Deus.
Em suas “Tríades” São Gregório Palamas se refere a esse assunto em Quando perde a graça de Deus, o coração se torna nublado, escuro,
muitos lugares. Depois de citar numerosas palavras de santos, ele ter- escondido. É o que vimos acontecer com os Judeus e os heréticos. Eles
mina dizendo: “Você entende claramente, irmão, que o nous liberto leram as Escrituras, mas não as entenderam porque seus corações es-
das paixões pode ver a si próprio como luz durante a prece, e que ele tavam encobertos. “Nos dias de hoje, quando se lê Moisés, um véu
brilha com a luz divina?”. De fato, “o nous, vendo a si mesmo, enxerga cobre seus corações[43]”. É por intermédio do coração que a pessoa
a si mesmo como luz”, mas São Gregório prossegue: “assim é toda adquire a certeza de Deus, é no coração que Deus se revela, que Ele
natureza purificada, que não é coberta pelo véu do mal”. Quando não fala e interpreta Suas palavras. Quando essas coisas se ocultam, o ho-
se encontra coberta pelo véu do mal, “ela vê a si mesma como uma luz mem se coloca na mais densa escuridão. E um coração cheio de igno-
espiritual”. Essa visão da luz do nous acontece por obra do Espírito rância é o inferno. “O inferno é a ignorância, pois ambos são escuros;
Santo. “O nous purificado e iluminado, quando participa claramente e a perdição é o esquecimento, porque os dois envolvem a extinção”.
da graça de Deus, também contempla outras visões místicas e sobre-
naturais – como quando, ao olhar para si mesmo, ele vê mais do que a

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No coração puro estão também os olhos com os quais vemos os misté- si mesmo: ele não percebe apenas outro objeto, nem apenas sua própria
rios de Deus: “que o Pai de glória lhe conceda um espírito de sabedoria imagem, mas sim a glória impressa em sua imagem pela graça de
(...) que os olhos de seu coração sejam iluminados, para que vocês co- Deus”.
nheçam a esperança para a qual Ele os chamou[40]”.
Esse ensinamento indica que o nous purificado vê, não sua própria
A paz de Deus prevalece no coração: “Deixe que a paz de Deus go- imagem, mas a glória de Cristo espelhada nela pela graça de Deus. Os
verne seus corações[41]”. santos veem essa imagem transformando-se de glória em glória, “ou
seja, na qualidade de seu brilho em nós, como uma irradiação divina
O coração é a lira, suas cordas são os sentimentos, a palheta é a mente que se torna cada vez mais distinta”. Assim como o olho dos sentidos
que, por intermédio da inteligência constantemente se move com a não pode ser ativo a menos que uma luz brilhe desde fora, o nous não
lembrança de Deus, “da qual uma doçura inefável enche a alma, e o pode ver com seu sentido noético a menos que a luz divina brilhe sobre
nous puro se aclara pelas divinas iluminações”. ele.

O coração é a nascente da qual, por intermédio da prece e de um cálido Em resumo, podemos dizer que, de acordo com o ensinamento de São
sentimento, brota a água “do Espírito vivificante”. Gregório Palamas, o nous, enquanto imagem de Deus, é luz, mas que
ele é obscurecido pelas paixões. É apenas quando a luz divina brilha e
O coração é o homem interior. o nous é purificado, que ele consegue ver, não exatamente sua própria
luz, mas o brilho formado em sua imagem pela graça de Deus. A visão
Os Padres e os Apóstolos usaram essas muitas imagens e caracteriza- sensível, sensorial, por si só, não tem utilidade a menos que exista uma
ções para a presentar e expressar o coração. Podemos dizer resumida- luz sensorial. O mesmo é verdade para a visão da luz divina no nous
mente que o coração é “nosso homem interior”, o lugar que é revelado do homem. São Gregório Palamas desenvolveu esse ensinamento por-
mediante a vida ascética na graça e onde Deus se revela e habita. É a que o filósofo Barlaam sustentava que o homem poderia ver a Deus e
igreja espiritual onde uma perpétua e divina Liturgia é celebrada, onde adquirir o conhecimento de Deus por meio do conhecimento humano
uma perpétua doxologia é oferecida a Deus. Esse lugar, desconhecido e da elaboração de pensamentos humanos, o que constitui um erro ab-
para a maioria, mas conhecido dos santos, é o que dá a vida ao homem. soluto.

1.1.2.3 . A doença do coração Em seu livro “São Silouane o Athonita”, o Arquimandrita Sofrônio es-
É bem conhecido o fato, através da tradição Bíblica e patrística, que creve o seguinte a respeito da luz natural do nous: “Ao alcançar essa
quando o coração do homem deixa de se conformar com a vontade de fronteira, ‘onde já não existe dia ou noite[13]’, o homem contempla a
Deus e começa a desejar o mal, ele adoece e morre. Fala-se de molés- beleza de seu próprio nous, que muitos identificam como o ser Divino.
tia, endurecimento, sujeira, morte espiritual do coração. Nesta seção Ele vê a luz, mas esta ainda não é a Verdadeira Luz, na qual ‘não existe
veremos algumas manifestações da doença do coração. absolutamente treva alguma’. A luz que ele vê é a luz natural, peculiar
ao nous do homem, criado à imagem de Deus. Essa luz do nous, que
ultrapassa qualquer outra luz do conhecimento empírico, ainda pode

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ser chamada de escuridão, porque essa é a escuridão do despojamento, O coração é o campo onde está escondido o tesouro, e pelo qual aquele
e Deus ainda não está nela. Talvez nessa ocasião, mais do que em qual- que o encontrar venderá tudo o que possui.
quer outra, devamos escutar a advertência do Senhor: ‘Cuidado para O coração é a imagem do Novo Testamento, ou melhor, o Novo Tes-
que a luz que existe em vocês não seja escuridão[14]’. A primeira ca- tamento representa a pureza do coração, a vigilância e a guarda do
tástrofe cósmica e pré-histórica – a queda de Lúcifer, o filho da manhã, nous. O Antigo Testamento é um ícone do ascetismo exterior, corporal
que se transformou no príncipe das trevas – foi devida à apaixonada e sensível. “O Santo Evangelho, ou Novo testamento, é um ícone da
contemplação de sua própria beleza, que terminou com sua autodeifi- atenção, ou seja, da purificação do coração”.
cação”. Em outra passagem, o mesmo monge escreve sobre a luz na-
tura, que é a escuridão do despojamento: “Se pudéssemos ‘situar’ o O coração é o céu celestial. Onde existe a humildade e a lembrança de
paradeiro dessa escuridão poderíamos dizer que ela deve ser encon- Deus “estabelecidas mediante a vigilância e a atenção, e também por
trada nos arredores da Luz incriada. Mas quando a prece hesiquiasta é meio de uma prece inflexível em sua resistência ao inimigo, ali é o
praticada sem o devido arrependimento e sem que seja inteiramente lugar de Deus, os Céus do coração”.
dirigida a Deus, a alma, desnudada de todas as imagens, pode se colo-
car por um breve período nessa ‘escuridão do despojamento’, sem ter Dentro do coração está a garantia do Espírito: “Deus, que nos colocou
ainda contemplado a Deus, porque Deus, ipso facto, não está na escu- um selo e nos deu o Espírito em nossos corações como uma garan-
ridão”. tia[36]”.

“Colocado na escuridão do despojamento, o nous conhece um deleite O coração são as tábuas nas quais foram inscritas as letras de Deus:
peculiar e uma sensação de paz. Se nesse ponto ele se volta para si “Vocês são nossa epístola escrita em nossos corações (...) vocês são
mesmo, ele pode perceber algo semelhante à luz, que, entretanto, ainda manifestamente uma epístola de Cristo ministrada por nós, escrita, não
não é a luz incriada da Divindade, mas um atributo natural do nous com tinta, mas pelo Espírito do Deus vivo, não em tablitas ou pedras,
criado à imagem de Deus”. mas nas tábuas da carne, ou seja, no coração[37]”.

“Dispersando as fronteiras do tempo, essa contemplação aproxima o O coração é o lugar onde brilha a Luz de Deus, “que brilhou em nossos
nous do conhecimento do intransitório, empoderando o homem em corações para nos dar a luz do conhecimento da glória de Deus na face
uma nova, mas ainda abstrata cognição. Pobre daquele que confundir de Jesus Cristo[38]”.
essa sabedoria com o conhecimento do Deus verdadeiro, e essa con-
templação com a comunhão com o ser Divino. Pobre dele, porque a No coração o homem tem assegurada sua filiação e aí a voz de Deus é
escuridão do despojamento nas fronteiras da verdadeira visão se torna ouvida claramente, dizendo “porque vocês são filhos, Deus enviou di-
um portal impenetrável e uma barreira fortíssima entre ele e Deus, ante de si o Espírito de Seu Filho em seus corações, clamando, Abba,
ainda mais forte do que a escuridão devida ao levante de uma enorme Pai![39]”. Uma vez que Deus reside aí, é aí que ele fala ao homem. Aí
paixão, ou da escuridão das óbvias instigações demoníacas, ou da es- a voz de Deus é ouvida clara e distintamente.
curidão que resulta da perda da graça e do abandono de Deus. Pobre
dele, porque ele estará perdido e cairá na ilusão, uma vez que Deus não

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O coração é a terra onde a semente de mostarda é lançada pelo Senhor. está na escuridão do despojamento. Deus se revela ao homem na luz,
De acordo com São Máximo, “a semente de mostarda é o Senhor, que e como luz”.
é lançada espiritualmente pela fé nos corações daqueles que O acei-
tam”. É difícil fazermos uma comparação entre os textos escritos por São
Gregório Palamas e pelo Arquimandrita Sofrônio a respeito da luz do
O coração é a igreja e o altar, o local sagrado onde o Senhor é glorifi- nous, porque nos falta o principal, a experiência. Conquanto externa-
cado e santificado. O Apóstolo instrui: “Santifiquem o Senhor Deus mente pareça haver diferenças, acreditamos que estas se devem a uma
em seus corações[33]”. Todas as coisas visíveis, de acordo com São questão de estilo. Cremos firmemente que ambos os Padres tiveram a
Macário, são reflexos das coisas invisíveis. A igreja visível simboliza experiência desses estados e que apenas expressam diferentes aspectos
e reflete a igreja do coração. O sacerdote que celebra os sacramentos é dessa experiência. Temos a sensação, sem que estejamos absoluta-
uma figura do “verdadeiro sacerdote da graça de Cristo”. Nesta verda- mente certos disso, que o Arquimandrita Sofrônio está se referindo
deira e espiritual igreja que é o fundo do coração, acontece uma liturgia mais à inteligência que o homem deifica e ama em si mesmo. Assim
eterna no homem ressuscitado: “Falando uns aos outros em salmos, sendo, ele enfatiza epigramaticamente que a escuridão do despoja-
hinos e canções espirituais, cantando e compondo melodias em seus mento constitui uma “cobertura impenetrável da Divindade e um
corações ao Senhor[34]”. o coração que não tem maus pensamentos e muro” que separa o homem de Deus mais ainda do que as paixões, o
se encontra energizado pelo Espírito, “é um verdadeiro santuário, entenebrecimento das sugestões demoníacas e o abandono de Deus.
mesmo antes da vida futura”. O coração é uma igreja e um altar. São Na realidade essa luz do nous é uma escuridão, e ao dizer isso ele con-
João Clímaco ensina: “Manter uma vigilância regular sobre o coração corda absolutamente com São Gregório Palamas, assim como con-
é uma coisa; tornar-se bispo no coração é outra”. No primeiro caso o corda com o ensinamento de Palamas de que a theoria é a pura ação de
nous é um guarda, no segundo ele é um bispo que oferece os sacrifícios Deus no homem. “A visão da Luz Divina Incriada é impossível, a me-
espirituais. O coração é também o santuário onde fica o fogo. É o que nos que a pessoa esteja em estado de iluminação pela graça – um es-
sentiram os dois discípulos em sua jornada até Emaús, quando Cristo tado em virtude do qual o ato de contemplar a Deus é em si, acima de
falava com eles: “Não queimavam nossos corações quando Ele falava tudo, a ‘amizade com Deus’, a união com a Vida Divina”. Pessoal-
conosco pelo caminho, e quando Ele revelou as Escrituras para mente, não encontramos divergência entre esses dois testemunhos.
nós?[35]”. O coração é a “sala de acolhida do Senhor”. Eles simplesmente se expressam com palavras diferentes, tendo em
mente diferentes concepções às quais desejavam refutar.
O coração é o vaso que contém o azeite da divina graça. De acordo
com São Macário do Egito, “as cinco virgens sábias que verteram no De qualquer modo, é um fato que, quando o homem se torna um só
vaso de seus corações o azeite que não era inerente à sua natureza – espírito com o Senhor, “ele vê as coisas espirituais com clareza”. A
porque este era a graça do Espírito Santo – foram capazes de entrar impassibilidade do nous o estimula a alcançar um conhecimento espi-
com o noivo na câmara nupcial”. Assim o coração é o vaso no qual a ritual dos seres criados. O nous, liberto das paixões e incessantemente
pessoa prudente guarda a graça do Espírito Santo, de modo a entrar na iluminado por meio da contemplação dos seres criados, se torna como
câmara nupcial para regozijar-se na celebração do noivo. luz.

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Ao nous, uma vez curado, é concedida a visão de Deus. Naturalmente, em seus corações, adquirem o nous de Cristo, conforme disse o Após-
o que ele vê não é a essência de Deus, mas Sua energia. Quando os tolo: “Nós temos o nous de Cristo[32]”. O nous de Cristo que os santos
santos veem a luz, eles a veem “quando obtêm a comunhão divinizante recebem não traz consigo uma perda da potência noética, nem a trans-
do Espírito”. Vale dizer que, quando se unem a Deus, eles veem as forma em “uma parte suplementar adicionada ao nosso nous”, nem “a
vestimentas de sua deificação, “seu nous sendo glorificado e preen- faz passar essencial e hipostaticamente para o nosso nous. Ao contrá-
chido com a graça do Verbo, belo além de toda medida em Seu esplen- rio, ele ilumina a potência de nosso nous com sua própria qualidade e
dor”. É assim que o nous é glorificado. conforma a atividade de nosso nous à sua própria atividade”. Vale di-
zer, a potência de nosso nous, sem ser perdida, é iluminada pela ener-
Então o deleite espiritual brota no nous porque “quando o nous está gia de Cristo. “Ter o nous de Cristo” significa, de acordo com São
engajado na visão das realidades inteligíveis, ele se deleita nelas a Máximo, “ter a compreensão de acordo com a de Cristo, e compreen-
ponto de não mais poder ser arrastado dali”. Unido a Deus ele se torna der a Cristo através de todas as coisas”. A pessoa pensa de acordo com
“sábio, bom, poderoso, compassivo, misericordioso e resiliente; em re- a vontade de Deus, com uma perpétua lembrança de Deus. O mesmo
sumo, ele inclui em si muitas das qualidades divinas. Mas quando o se aplica à potência concupiscente. A pessoa deseja todo o tempo ape-
nous se afasta de Deus e se liga às coisas materiais, ou ele se torna nas o que Deus deseja, e quer a Deus insaciavelmente. São Pedro Da-
autoindulgente como os animais domésticos, ou como uma besta sel- masceno se refere a São Basílio o Grande, que dizia que quando Deus
vagem ele luta com os homens para obter essas coisas”. encontra um coração livre de todas as preocupações terrenas e ciências
mundanas, Ele “inscreve nele Suas próprias doutrinas como se fosse
Como resultado da cura do nous, também o corpo se cura. Natural- numa lousa limpa”. Por isso, nesse estado, trata-se de uma “consciên-
mente, quando dizemos que o corpo é curado não queremos dizer que cia doutrinal”. A pessoa conhece as doutrinas da Igreja por experiên-
ele se livra das doenças, ainda que isso possa acontecer até certo ponto. cia, porque ela possui a vida de Deus em seu coração. Devemos lutar
Dizemos ‘até certo ponto’ porque muitas moléstias, especialmente as para termos a Cristo habitando em nosso coração, porque então o pró-
de natureza nervosa, se originam da morte do nous; mas o fato é que o prio Deus “nos ensinará a dominar rapidamente Suas leis”.
corpo se livra principalmente das paixões da carne. São Máximo diz:
“Quando você percebe que o seu nous reflete sobre as imagens concei- O coração é o inferno ao qual Cristo desceu para libertar a alma do
tuais do mundo com reverência e justiça, você pode estar certo de que homem. Assim como ele desceu aos infernos e libertou as almas dos
também seu corpo se encontra puro e sem pecado”. O nous que medita justos, também ele desce às profundezas de nosso coração. São Macá-
sobre as coisas divinas também mantém o corpo puro em relação às rio ensina que quando escutamos que o Senhor desceu aos infernos e
chamadas paixões corporais. Primeiro o nous é receptivo à promessa libertou as almas, não devemos pensar que essas coisas estão distantes
das coisas boas que virão, depois ele se ergue em direção ao Primeiro daquilo que acontece hoje. O túmulo é o coração. O Senhor desceu
Nous, e, sendo santificado, “ele próprio se vê transformado junto com “até as almas no inferno que clamavam por Ele”, ou seja, até as pro-
o corpo que lhe está ligado, para torná-lo mais divino”. Assim, ele tam- fundezas do coração, e, depois de um diálogo com a morte, “erguendo
bém é preparado “para a absorção da carne pelo Espírito no século a pesada pedra que oprime a alma, e abrindo o túmulo, Ele nos ressus-
futuro”. Uma vez que o corpo também experimentará as coisas boas e cita – porque estávamos de fato mortos – e liberta nossa alma aprisio-
eternas, é essencial que ele seja preparado para essa nova vida. nada de sua prisão escura”.

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Os santos Padres que experimentaram esse fato forneceram numerosas Todos os santos que viveram essa vida seguiram o mesmo método de
caracterizações e imagens dessa vida. A seguir vamos tentar ver essas cura e de purificação do nous, e adquiriram os mesmos ensinamentos.
caracterizações e definições, que mostram mais claramente o coração Acreditamos que os santos não expressam suas visões particulares e
e seu papel na vida espiritual como um todo. que eles não têm diferentes posições dogmáticas. Uma vez que tiveram
a mesma experiência, apresentam o mesmo ensinamento. Se nós ve-
O coração é o lugar onde habita Deus: “Possa Cristo habitar em seus mos diferenças em alguns pontos, é porque interpretamos seus ensina-
corações pela fé[29]”. “O amor de Deus se derramou em nossos cora- mentos a partir de pressupostos errôneos. Se tentarmos ver a expressão
ções pelo Espírito Santo que nos foi dado[30]”. Do mesmo modo como diferente de cada santo – porque, embora tenham todos o mesmo co-
o carvão gera a chama, “também Deus o fará, ele que habita em nossos nhecimento de Deus, não têm todos a mesma sabedoria –, se tentarmos
corações pelo batismo”. E se Ele encontrar o espaço de nosso pensa- detectar o real sentido de cada palavra, não encontraremos ensinamen-
mento livre do mau e se ele estiver protegido pela guarda do nous, tos diferentes. De fato, somos nós que somos fragmentados e inexpe-
então Ele aquecerá nosso nous para a theoria, assim como uma chama rientes em assuntos espirituais, separados da tradição viva da Igreja, e
acende uma vela. A partir do momento em que Deus habita ali, “todos por isso vemos diferenças entre os santos Padres.
os tesouros da sabedoria e do conhecimento espiritual” ali se escon-
dem. “Eles se revelam ao coração na medida de nossa purificação por O Apóstolo Paulo escreveu: “Estejam perfeitamente unidos no mesmo
intermédio dos mandamentos”. No espelho da alma, “Jesus Cristo, a nous e no mesmo julgamento”. Todos os santos pensam o mesmo. São
sabedoria e o poder de Deus Pai, é representado e luminosamente re- Gregório Palamas enfatiza que “esse conhecimento suprarracional é
fletido”. Devemos buscar o Reino de Deus dentro de nosso coração e, comum a todos os que acreditaram em Cristo acima dos conceitos”.
se lavarmos o olho do nous, realmente ali encontraremos o Reino de
Deus, a semente, a pérola, o fermento e muitas outras coisas. Encon- Tudo o que citamos mostra que o nous que foi afetado pelas paixões
traremos a Divindade em nosso coração. “Cristo disse que o Reino dos está doente, fraco, moribundo e desprovido de seu estado natural, ne-
céus está dentro de nós, indicando que a Divindade habita em nossos cessitando de cura urgente. O método ascético Ortodoxo descreve
corações”. como o nous pode ser curado. Essa cura é indispensável, porque com
ela o nous é purificado e adquire o conhecimento espiritual de Deus, e
Habitando em nossos corações, Deus ensina e escreve sua doutrina e esse conhecimento espiritual constitui a salvação do homem.
suas leis. A partir daí o coração passa a ser o lugar onde os mandamen-
tos de Deus estão escritos. O Apóstolo Paulo fala daqueles “que mos- 1.1.2 . O coração
tram a obra da lei escrita em seus corações[31]”. Então a pessoa não Um dos nossos pedidos básicos a Deus é pela nossa salvação. “Pela
apenas conhecerá “as essências, como ainda, passando através delas, paz que vem do alto e pela salvação de nossas almas, oremos ao Se-
chegará, numa certa medida, a ver o próprio Deus”. Quando Deus nhor”. Da mesma forma, muitos outros tropários terminam com as pa-
chega a habitar um coração assim, “ele o honra gravando Suas próprias lavras “oremos para que sejam salvas as nossas alma”.
letras nele através do Espírito Santo”. Por isso os santos, que possuem
a Deus em seus corações, e sendo dignos de ter a lei de Deus inscrita

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A salvação da alma não consiste em se despir ou se despojar de algo, Pai![27]”. E em outro trecho ele escreve: “O amor de Deus foi derra-
mas em colocar a Cristo dentro de nós. Não se trata de um estado ne- mado em seus corações[28]”. São Thalassius escreve que um bom co-
gativo, mas positivo, que consiste primariamente na comunhão e na ração produz bons pensamentos porque seus pensamentos correspon-
união com Cristo. Essa comunhão se dá basicamente no coração. Por dem ao seu tesouro guardado.
isso, alcançar a salvação é principalmente encontrar o coração. Quando O fato de que os bons e maus pensamentos provêm do coração não
Deus concede que encontremos o coração, começamos a caminhar pe- significa que a graça e Satanás estejam no mesmo lugar e ao mesmo
las veredas da salvação. As palavras do Abade Pambo são caracterís- tempo. “O coração produz bons e maus pensamentos por si só”, mas
ticas a respeito: “Se você possui um coração, você pode ser salvo”. as ideias más não nascem de sua natureza, mas como resultado da lem-
Possuir um coração significa encontrar o próprio coração, dentro do brança do mal. O coração concebe a maior parte dos maus pensamen-
qual podemos ser guiados por Deus. tos a partir dos ataques do demônio. Em nenhuma circunstância senti-
mos que eles nascem do coração. São Diádoco enfatiza que a graça de
São Marcos os Asceta, interpretando as palavras do Senhor: “O Reino Deus que vem pelo batismo manifesta sua presença nos que foram ba-
de Deus está dentro de vocês[15]”, diz: “Em primeiro lugar é necessá- tizados “esperando para ver para que lado a alma se inclina”. Quando
rio possuir a graça do Espírito Santo para energizar o coração, e a partir a pessoa guarda os mandamentos de Cristo e se lembra do nome de
daí, proporcionalmente a essa energização, penetrar no Reino do céu”. Cristo incessantemente, o fogo da divina graça se espelha do coração
Por isso muitos Padres consideram essencial encontrar o lugar do co- até os órgãos mais exteriores da percepção e queima “as taras no
ração, que é energizado pela graça incriada de Deus, porque então o campo da alma”. Nesse estado, o sopro do Espírito Santo extingue as
Cristão possui a Deus como seu mestre e pode ser guiado com segu- flechas do demônio antes que elas atinjam o corpo, extingue os dardos
rança pelo Espírito Santo. temíveis enquanto eles ainda estão no ar.

1.1.2.1 . O que é o coração Por isso a maior de todas as batalhas se dá no coração. Depois que
Quando as Sagradas Escrituras e os Padres falam do coração, eles que- Deus o conquista e o diabo é expulso, começa a paz interior e exterior.
rem dizer o coração metafísico – espiritual – mas também o coração Então, o trabalho mais importante do combatente consiste em “pene-
corporal. O coração é tanto o órgão corporal como o centro de nosso trar em seu próprio coração e lá fazer guerra a Satanás, para odiá-lo”.
ser, no qual temos a união e a comunhão com Deus. Esses dois signi- O coração, este centro natural, paranatural e supranatural, é a fonte da
ficados do coração são confluentes e ao mesmo tempo diferenciados. vida corpórea e espiritual, mas também pode ser a fonte da morte es-
A seguir vamos lançar um olhar mais analítico a respeito disso. piritual.
Em primeiro lugar, vamos considerar o coração metafísico e espiritual.
É bastante difícil para alguém definir o coração espiritual, porque “ver- 1.1.2.2 . A caracterização do coração
dadeiramente, o coração é um abismo incomensurável”. Especial- Do que foi escrito, fica evidente que, embora não seja possível dar uma
mente para o homem carnal, que é regulado pela lógica e vive na es- definição do coração espiritual, podemos dizer que o coração é o lugar
curidão da vida depois da queda, é impossível conhecer o coração es- que é revelado por meio da vida ascética na graça, e onde o próprio
piritual. Por isso não podemos encontrar nenhuma definição capaz de Deus se revela e habita. Esse lugar é perceptível para a pessoa que está
organicamente e essencialmente inserida na tradição Ortodoxa.
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asceta aprende os grandes mistérios do Espírito através da prece pura. descrever a realidade experimentada pelo homem espiritual. Pode-se
Ele desce ao seu mais recôndito coração, primeiro ao seu coração na- apenas formular caracterizações e imagens.
tural, e a seguir até essas profundezas que já não são mais da carne.
Ele encontra seu coração profundo – ele e contra seu espírito profundo, O homem espiritual, que vive em oração, “descobre que seu coração
o cerne metafísico de seu ser; e olhando para este, ele vê que a exis- não é apenas um órgão ou centro de sua vida física, mas algo indefiní-
tência da humanidade não é algo de estrangeiro e estranho a ele, mas vel e ainda capaz de entrar em contato com Deus, a fonte de todo o
que é algo que está inextricavelmente vinculado ao seu próprio ser”. ser”. O coração é o lugar onde se desenvolve toda a vida espiritual, o
Consequentemente, o atleta do método hesiquiasta pode distinguir cla- lugar energizado pela energia incriada de Deus. Em muitas pessoas
ramente o coração espiritual do coração corporal. Ele percebe a exis- esse “coração profundo” é desconhecido, não apenas para os outros,
tência e a energia desses corações. De início, o nous encontra o coração mas para a própria pessoa. Porque a graça de Deus efetua a salvação
corpóreo e então ele descobre o coração espiritual, tornando-se capaz do homem de forma oculta em seu coração. O que diz o Arquimandrita
de perceber os movimentos de ambos ao mesmo tempo. Assim, não Sofrônio é característico: “O campo de batalha da luta espiritual é, pri-
existe confusão nessa situação. meiramente e acima de tudo, o próprio coração do homem, e aquele
que explora seu próprio coração apreciará a reflexão de Davi de que ‘o
São Nicodemos o Hagiorita, que pertencem organicamente ao cerne da coração é profundo[16]’. A verdadeira vida do Cristão é vivida no
tradição Ortodoxa, diz que o coração corpóreo é um centro natural, fundo do coração, oculto não apenas de olhares estrangeiros, mas
paranatural e supranatural. Ele é um centro natural, porque de todos os ainda, em sua totalidade, do próprio dono do coração. Aquele que pe-
membros do corpo humano o coração é o primeiro a ser modelado. São netra nesse recinto secreto encontra-se face a face com o mistério do
Basílio diz: “Na criação dos animais o coração é o primeiro a ser co- ser. Qualquer um que já tenha desistido de contemplar seu ‘eu’ oculto
locado pela natureza, de acordo com o animal, que deverá ser análogo sabe o quanto é impossível detectar o processo espiritual do coração,
a ele”. Ele é um centro paranatural porque é dele que saem todas as porque em sua profundidade o coração alcança este estado do ser em
paixões e pensamentos blasfemos. Certamente isso deve ser interpre- que não existem processos”.
tado, de acordo com o que já dissemos, no sentido de que depois do
batismo a graça de Deus está presente no centro do coração, enquanto O Apóstolo Pedro chama o coração de pessoa oculta, “a pessoa oculta
o diabo opera desde fora. O Apóstolo Pedro disse a Ananias: “Ananias, do coração[17]”. Aí é realmente o lugar onde Deus é santificado: “San-
porque Satanás colocou em seu coração que mentisse ao Espírito tifiquem o Senhor em seus corações[18]”. A graça de Deus desponta
Santo?[24]”. Satanás invadiu o coração de Judas: “E terminada a re- no coração: “...até que o dia amanheça e a estrela da manhã se erga em
feição, o demônio colocara no coração de Judas Iscariotes, o filho de seus corações[19]". Apesar da união com Deus se dar no coração, o
Simão, a traição a Jesus[25]”. Da mesma forma, é bem conhecida a coração permanece sendo ‘menor’, e Deus, maior. “Deus é maior do
lição do Senhor: “Do coração procedem os maus pensamentos, os as- que o coração”.
sassinatos, os adultérios, a fornicação, o roubo, o falso testemunho, as
blasfêmias[26]”. E o coração é também um centro supranatural porque
a graça de Cristo está ativa aí. O Apóstolo Paulo diz: “Deus enviou
primeiro o Espírito de seu Filho aos seus corações, clamando: Abba,

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Essas passagens escriturárias foram colocadas aqui, não para mostrar Examinamos essas coisas para tornar compreensível que quando um
como as Escrituras ou os Padres caracterizam o coração, coisa que fa- homem descobre seu coração, ele se torna propriamente uma pessoa.
remos em outra seção, mas para mostrar que muitas passagens das Es- Também queremos deixar claro que o coração é o lugar que é desco-
crituras e dos Padres falam do coração. berto por meio da vida ascética na graça, na qual Deus se revela. É aí
que o homem percebe a luz de Deus e então ele é inundado com o amor
Já dissemos que o nous é o olho do coração e apontamos que em muitos de Deus e com o amor a Deus. O homem pode alcançar a percepção
lugares os Padres ligam o nous ao coração. De fato, o coração é iden- do coração, mas é impossível compreender toda a vida que existe nele.
tificado ao nous. São Máximo o Confessor é característico a respeito:
“...para limpar o nous, que o Senhor chama de coração”. O nous é o De acordo com o ensinamento dos Padres, esse coração espiritual está
olho da alma, enquanto o coração é o centro do ser humano, o centro localizado no coração corpóreo como num órgão. Já falamos a respeito
do mundo espiritual; mas parece que esses dois estão ligados. É bas- quando estudamos a localização da alma e do nous. As mesmas coisas
tante significativo que São Gregório Palamas, ao falar da pureza do são válidas também para o coração. São Gregório Palamas, se refe-
coração, prossegue analisando o nous e sua pureza. rindo às palavras do Senhor: “Do coração procedem os maus pensa-
mentos, os adultérios, os assassinatos, as fornicações, o roubo, o falso
Certamente, devemos ter em mente o que examinamos na última seção, testemunho, as blasfêmias[22]”, e ao dito de São Macário: “O coração
que os Padres chamam o nous tanto de essência da alma, que está no dirige todo o organismo, e quando a graça entra na posse do coração,
coração, como de atividade da alma, que consiste nos pensamentos. “A ela reina sobre todos os pensamentos e todos os membros, porque é aí,
atividade do nous, que consiste em pensamentos e em imagens concei- no coração, que a mente e todos os pensamentos da alma têm sua
tuais, também é chamada de nous. O nous é também a potência ener- sede”, escreve que “nosso coração é o lugar da faculdade racional, o
gizadora dessas coisas, que a Escritura chama de coração”. Nicéforo o primeiro órgão racional do corpo”. Em apoio ao ensinamento de que o
Solitário, analisando e descrevendo a atenção, diz que alguns Padres coração espiritual está no coração, no órgão corporal, São Gregório se
caracterizam a atenção como sendo a guarda do nous, outros a chamam reporta às palavras de São Paulo: “vocês são nossa epístola escrita em
de guarda do coração, outros de vigilância e outros de repouso espiri- nossos corações (...) vocês são manifestamente uma epístola de Cristo
tual. “Mas todos esses nomes significam a mesma coisa. Assim como ministrada por nós, escrita, não com tinta, mas pelo Espírito do Deus
podemos chamar um pão de pão, filãozinho, bisnaga, o mesmo se en- vivo, não em tablitas ou pedras, mas nas tábuas da carne, ou seja, no
tende por isso”. Por isso, de acordo com Nicéforo o Solitário, falar em coração[23]”, e nos ensinamento de São Máximo o Confessor:
guarda do nous ou do coração é a mesma coisa. Isso significa que na “Quando Deus vem habitar num coração assim, Ele o honra gravando
teologia patrística o nous está ligado e identificado com o coração. Por Suas próprias letras nele através do Espírito Santo, assim como fez
isso, tudo o que escrevemos na seção anterior sobre o nous é também com as tábuas de Moisés”.
verdadeiro para o coração, mas aqui diremos mais sobre este último.
A conexão entre nous e coração aparece também nos ensinamentos de Quando o nous retorna de sua dispersão, primeiro ele encontra o cora-
Diádoco de Foticeia. Ele ensina que, a partir do momento do batismo ção físico, depois ele penetra no coração espiritual, e finalmente no
a graça de Deus “se oculta nas profundezas do nous”, e ao mesmo coração profundo. Essa é a experiência comum a todos os que praticam
tempo esconde sua presença da percepção do nous. Quando a pessoa a Prece de Jesus e o santo trabalho do retorno do nous ao coração. “O

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e filosófico pode ser formulado, mas a ‘persona’ está além das defini- começa a amar a Deus “com plena resolução”, então, “por intermédio
ções e por isso é incognoscível desde fora, a menos que ela própria se da percepção do nous a graça comunica à alma um pouco de sua ri-
revele. Uma vez que Deus é um Deus Secreto, também o homem pos- queza”. E quando ele se afasta de toda riqueza material, “então ele des-
sui suas profundezas secretas. Ele não é nem o autor da existência, nem cobre o lugar onde se escondia a graça de Deus”. Em outro capítulo,
o fim. Deus, não o homem, é o Alfa e o Ômega. A qualidade divina do São Diádoco diz que através do batismo a graça vem habitar nas pro-
homem reside no modo de seu ser. A semelhança em ser é a seme- fundezas da alma, “ou seja, no nous”. E quando recordamos a Deus
lhança de que fala a Escritura”. Tanto quanto a pessoa não pode ser com fervor, “sentimos uma saudade divina que sobre de dentro de nós
definida, tampouco o coração, que é a pessoa, pode ser definido. desde o fundo de nosso coração”. Nessas passagens podemos ver a li-
gação entre o nous, a alma e o coração.
A pessoa é uma realidade que nasce pela graça de Deus. “A ‘persona’
nasce do Altíssimo e como tal não está sujeita às leis da natureza. A Visto que nos tempos de São Diádoco predominava a ideia herética
‘persona’ transcende os limites terrestres e se move em outras esferas. dos Messalianos – de que a graça de Deus e Satanás existiam ao
Ela não pode ser descrita. Ela é singular e única”. Uma vez que a pes- mesmo tempo e nos mesmo lugar na alma – Diádoco fez uma distinção
soa é o coração, podemos dizer que também o coração renasce desde entre aquilo que se conhece a partir da Escritura e aquilo que é sentido
o Alto. Não se trata de um estado natural. Somente pela graça de Deus pelo nous. Ele enfatizou que “antes do santo batismo, a graça encoraja
é possível discernir o lugar do coração. a alma no sentido do que é bom e vem de fora, enquanto Satanás fica
emboscado nas suas profundezas, tentando bloquear as vias que o nous
O renascimento da pessoa é na realidade uma revelação, a pessoa se tem para se aproximar do divino. Mas no momento em que a pessoa
torna “um novo nascido do renasce pelo batismo, o demônio é expulso para fora, e a graça penetra
Alto. Uma flor exótica que se abre dentro de nós: a hipóstase – ‘per- no interior”. Portanto, a graça e Satanás não coexistem no mesmo lu-
sona’. Como o Reino de Deus, a ‘persona’ “não vem ostensiva- gar. A graça divina, através da faculdade perceptiva do nous, deleita o
mente[21]”. O processo pelo qual o espírito humano penetra no domí- corpo com uma alegria inefável, enquanto que os demônios capturam
nio da divina eternidade é diferente para cada um de nós”. Assim é que a alma à força por intermédio dos sentidos corporais, em especial
a ‘persona’, tal como o coração, nasce do Alto. quando nos encontram relaxados na batalha espiritual.

O coração é o lugar onde Deus se revela como amor e luz. ”Deus se Quando agimos de acordo com os desejos da carne, a graça de Deus
revela principalmente através do coração, como Amor e Luz. Nessa que estava no fundo de nosso coração espiritual desde o batismo se vê
luz o homem contempla os preceitos do Evangelho como o reflexo na encoberta pelas paixões, de modo que nosso esforço será no sentido de
terra da Eternidade celestial, e a glória de Cristo como o filho único do descobrir essa graça mediante uma vida ascética na graça. Isso signi-
Pai, cuja glória os discípulos viram no Monte Tabor. A revelação pes- fica que nosso esforço de ser dirigido para afastar as nuvens que enco-
soal torna a revelação geral do Novo Testamente espiritualmente fa- brem nosso coração. São Diádoco pergunta, a partir do momento em
miliar”. que o diabo foi expulso de nosso coração pelo batismo, “como, então,
pode esse intruso, expulso da maneira mais vergonhosa, voltar e se

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instalar junto com o verdadeiro Mestre que vive agora livremente em acordo com os ensinamentos dos Padres, que a imagem de Deus cons-
sua própria casa?”. titui uma semelhança potencial com Deus, e que a semelhança com
Deus é a imagem em ação. Do mesmo modo, o homem criado por Deus
Esse ensinamento de São Diádoco está colocado aqui para deixar claro e recriado por meio do santo batismo pela Igreja, é potencialmente uma
que através do batismo a graça de Deus penetra no fundo do coração, pessoa. E quando, por uma luta pessoal e principalmente pela graça de
no fundo do coração espiritual. E que, quando esse coração é encoberto Deus, ele alcança a semelhança, então ele se torna uma pessoa real.
pelas paixões, é preciso uma grande luta para descobri-lo. Por isso sustentamos que ontologicamente todos os indivíduos são pes-
soas, mesmo o próprio diabo, mas que soteriologicamente nem todos
Teolepto, Metropolita de Filadélfia, ensina que o coração, vale dizer, são pessoas, por não terem ainda atingido a semelhança com Deus.
o nous, se revela quando a pessoa vive de acordo com o método hesi- Sem querer desconsiderar a ontologia da pessoa, nesse ponto queremos
quiasta. “Quando, tendo colocado um fim nas distrações exteriores, enfatizar particularmente a vida ascética da pessoa, que costuma ser
você domina também os pensamentos internos, então o nous começa a passada por alto nos teólogos contemporâneos.
despertar para as palavras e ações espirituais”. Ele nos exorta: “Po-
nham fim nas conversações com o mundo exterior e lute contra seus Tudo o que o Arquimandrita Sofrônio diz a esse respeito é caracterís-
pensamentos internos até encontrar o lugar da prece pura e a morada tico: “No Ser Divino a Hipóstase constitui o mais interior princípio
onde habita Cristo”. esotérico do Ser. Similarmente, no ser humano a hipóstase é o funda-
mento mais intrínseco. A ‘Persona’ é “o homem oculto no coração, na
Por esta passagem parece que o coração é o lugar que se revela em parte que não é corruptível (...) que, aos olhos de Deus, tem um alto
graça por intermédio do ascetismo, e o lugar onde Cristo se torna ma- valor[20]”, o mais precioso núcleo de todo o ser humano, que se ma-
nifesto. O homem que se lavou de todas as paixões e atos pecaminosos nifesta em sua capacidade de autoconhecimento e de autodetermina-
conhece esse lugar. Para o homem decaído que vive afastado de Deus, ção; em sua posse de uma energia criativa; em seu talento para a cog-
o coração se esconde, completamente desconhecido – ele sequer sabe nição, não apenas do mundo criado, mas também do mundo Divino.
que ele existe, enquanto que para o homem que vive a vida divina o Consumido pelo amor, o homem se sente unido ao seu amado Deus.
coração é uma realidade bem conhecida. Por meio dessa união ele conhece a Deus, e então o amor e a cognição
emergem como um ato único”.
Esse ensinamento nos leva à visão de que a revelação do coração é de
fato a revelação da pessoa. Quando alguém, por meio da ascese da A pessoa é “o homem oculto no coração”. Essa é a única formulação
graça, descobre o coração, onde Cristo se revela e é Rei, ele se torna que pode ser feita sobre a pessoa, porque ela não pode ser definida em
uma pessoa, uma vez que a pessoa é propriamente a “semelhança”. Por termos científicos, por se tratar de uma comunhão e de uma união mís-
isso a revelação do coração é também a revelação da pessoa. tica com Cristo. Assim como não é possível dar uma definição da
Igreja, mas apenas dizer que ela consiste no Corpo de Cristo, o mesmo
Não é nossa intenção a essa altura desenvolver uma ontologia da pes- é verdade em relação à pessoa humana, o coração, no qual acontece a
soa, conforme ela se apresenta nos ensinamentos dos Padres da Igreja. comunhão mística entre Deus e o homem. “O conhecimento científico
Eles escreveram importantes estudos a esse respeito. Acreditamos, de

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mente. O nous humano se tornou confuso, oculto pelas paixões e en- que caiu doente e morreu precisa ser curado e purificado de modo a se
coberto por uma treva impenetrável. A palavra, já não podendo expres- oferecer ao conhecimento de Deus. O coração puro é o órgão do co-
sar as experiências do nous, identificou-se com a mente. Então a inte- nhecimento, o órgão da epistemologia Ortodoxa.
ligência foi colocada acima do nous e hoje mantém subjugada no ho-
mem decaído. De fato, tal é a enfermidade da palavra e a da inteligên- A seguir veremos de que maneiras o coração pode ser curado.
cia. A inteligência foi supernutrida, assumiu uma posição acima do
nous e capturou a palavra. A inteligência supernutrida é a fonte da O arrependimento é a primeira medicina curativa. O coração precisa
grande anormalidade que se apoderou do organismo espiritual. A ar- se arrepender e retornar à sua condição natural. Se uma vida de pecado
rogância, com todas as energias do egoísmo, que é a fonte da anorma- levou o coração a um estado antinatural, uma vida de arrependimento
lidade, domina. lhe devolverá o estado natural, lhe dará a vida. São João Clímaco ofe-
rece uma definição precisa do arrependimento: “O arrependimento é a
O que o Arquimandrita Sofrônio escreve sobre os movimentos da in- renovação do batismo. O arrependimento é um contrato com Deus para
teligência no homem decaído e sobre a anormalidade que isso cria em um novo começo de vida. O arrependimento adquire a humildade. O
todo o organismo espiritual é característico. Vou transcrevêlo inteira- arrependimento sempre desconfia do conforto corporal. O arrependi-
mente, porque é muito expressivo. “A batalha espiritual é múltipla, mento é uma consciência crítica e uma segura vigilância sobre si
mas a luta contra o orgulho é a que ataca mais fundo e é a mais cruel. mesmo (...) O arrependimento é a reconciliação com o Senhor (...) O
O orgulho consiste no supremo antagonismo perante a lei divina, de- arrependimento é a purificação da consciência”. Em outra parte o
formando a ordem divina da existência e trazendo a ruína e a morte em mesmo santo diz como aquele que foi corrompido depois do batismo
seu rastro. O orgulho manifesta-se parcialmente no plano físico, mas pode ser purificado e remover de si a mancha por meio do incessante
essencialmente no plano do pensamento e do espírito. Ele ab-roga pri- fogo do coração e do óleo da divina compaixão. A compaixão de Deus
oridade para si próprio, lutando pelo completo domínio, e sua principal no fogo do coração cura a pessoa de sua doença.
arma é a mente racional”.
Quanto maior o arrependimento, mais cresce a contrição. Um coração
“A inteligência, por exemplo, é instada a rejeitar o mandamento ‘Não contrito é aquele que vive em arrependimento. O profeta e rei Davi
julgueis, para não serdes julgados[72]’ como se fosse um contrassenso, disse: “O sacrifício agradável a Deus é um espírito quebrantado. Um
argumentando que a faculdade de ser capaz de julgar é uma qualidade coração contrito e quebrantado não será recusado por Deus[54]”. Deus
distintiva do homem, que o torna superior a todo o mundo e concede a habita num coração contrito. Todo aquele que se apresenta diante do
ele o poder de dominar. Para garantir sua superioridade a inteligência Rei para receber a remissão de um débito precisa ter uma “contrição
aponta para suas aquisições, sua criatividade, produzindo muitas pro- inexprimível”. De acordo com São Nicetas Stethatos, as marcas distin-
vas convincentes, pretendendo mostrar que na idade do ouro experi- tivas da verdade não estão nos rostos, nas maneiras nem nas palavras,
mentada pela história o estabelecimento ou afirmação da verdade es- nem Deus reside nessas coisas, mas tanto a verdade como Deus resi-
tava inteiramente debaixo de sua égide. A inteligência, funcionando dem “nos corações contritos, nos espíritos humildes e nas almas ilumi-
impessoalmente, é, por natureza, a penas uma das manifestações de nadas pelo conhecimento de Deus”.

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Para falarmos em contrição do coração devemos descrever de que enquanto que a mente trata com o que é sensível e intelectual. Ele es-
modo o coração se torna contrito e no que consiste essa contrição. São creve: “Quando alguém fala em ‘olhos da alma’, que experimentam os
Marcos o Asceta, que começa por dizer que é impossível a uma pessoa tesouros celestiais, eles não devem ser confundidos com a mente. Esta
se afastar do mal sem a contrição do coração, descreve precisamente o exerce suas faculdades nas coisas sensíveis e intelectuais”. Vale dizer,
que o torna contrito. “O coração se torna contrito por um triplo auto- não é a mente, mas o nous, que conhece os tesouros celestiais. A mente
controle: no dormir, no comer e no relaxamento do corpo”. O relaxa- apenas torna pensáveis as coisas que o nous humano vive experimen-
mento do corpo produz a autoindulgência, que é receptiva aos maus talmente. Deus se revela ao nous, mas a mente relata sua experiência
pensamentos. A contrição também pode ser produzida por “uma sábia em sentenças inteligentes.
solidão e um completo silêncio”. E São Marcos o Asceta, voltando ao
tema, enfatiza que a vigília, a prece e a aceitação paciente com o que Diz-se usualmente que o homem é um ser inteligente (‘logiko’), no
nos acontece constituem pausas que não prejudicam, mas beneficiam sentido de que ele possui uma inteligência e pensa. Mas na teologia
o coração. O trabalho corporal e a privação das necessidades produzem patrística uma pessoa inteligente não é aquela que possui simplesmente
uma dor no coração que é útil e salutar para a pessoa. São Filoteu do inteligência ou discurso, mas aquela que, por meio da palavra e da in-
Sinai, que enfatiza que devemos fazer todo o possível para humilhar a teligência busca encontrar a Deus e se unir a Ele. Uma pessoa que pu-
arrogância de nosso coração, salienta algumas maneiras de adquiri-lo. rificou seu nous, onde se revela Deus, e que depois, por intermédio de
O coração é quebrantado e humilhado pela lembrança de nossa vida sua palavra e sua mente, expressa sua experiência interior, esta é inte-
original, ou seja, da vida de Adão antes da queda, e pela recordação de ligente. Fora disso o homem não possui palavra e não se distingue de
todos os pecados que cometemos desde a infância, exceto, natural- um animal estúpido. Na verdade, ele possui inteligência e palavra,
mente, dos pecados da carne, “cuja lembrança é nociva”. A memória mas, por não estar conectado com Deus, ele está morto. A alma morta
dos pecados gera lágrimas e nos faz agradecer sentidamente a Deus; e manifesta palavras mortas.
uma constante e vívida consciência da morte faz nascer uma tristeza
divina. Da mesma forma, a alma é humilhada pela recordação da Pai- É assim que a palavra funcionava no homem antes da queda: o nous
xão do Senhor e das muitas bênçãos que recebemos de Deus. O homem percebia a Deus e a palavra expressava a experiência do nous. “O nous
carnal, que é o homem que está distante de Deus, se distingue pela puro enxerga as coisas corretamente. Uma inteligência esclarecida as
dureza e aspereza de seu coração. O homem de Deus, que recebeu o coloca em ordem”. De acordo com a teologia de São Thalassius, que
Espírito Sato, se distingue pelo refinamento de seu coração. O coração mencionamos antes, a inteligência, por natureza, se submete à palavra
é sensibilizado e enternecido quando foi purificado das paixões e se e disciplina e subjuga o corpo, e ao mesmo tempo é um insulto à inte-
fez contrito. ligência submeter-se àquela que não possui inteligência, ou seja, ao
corpo, “que só se interessa por desejos vergonhosos”.
Os Padres descrevem também uma contrição prejudicial. De acordo
com São Marcos o Asceta, “existe um quebrantamento do coração que Mas depois da queda veio a agonia e a morte da alma. Como resultado,
é suave e o torna penitente, e existe outro que é violento, prejudicial, se tornou impossível para o mundo interior da alma funcionar natural-
despedaçando-o por completo”. A boa modalidade de quebrantamento mente, e para todas as funções harmônicas interiores existirem normal-
acontece num espírito de compunção e numa atmosfera de prece. Vale

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Trindade, mas energias da alma. Portanto, “esses três são ‘inseparáveis dizer que o coração contrito ora constantemente a Deus, ele não se de-
uns dos outros’ mas não possuem um caráter pessoal”. sespera, mas espera no grande amor de Deus pelos homens. Por isso
ele é marcado pelo amor. São Simeão o Novo Teólogo, um médico
O nous são os olhos da alma, que alguns Padres chamam de coração. espiritual experiente, reconhece que uma longa e oportuna tristeza do
A palavra consiste no conhecimento espiritual “implantado no nous e coração “escurece e perturba a mente”, afasta a prece pura e a com-
que sempre coexiste com ele”. Assim como Cristo, o Verbo, é aquele punção da alma e cria uma ânsia dolorosa no coração, que resulta no
que revela o desejo do Nous, o Pai, também a palavra no homem é seu endurecimento e empedramento. É assim que os demônios trazem
aquilo que revela o que o nous percebe e experimenta. E, assim como o desespero. Assim, um quebrantamento que não está rodeado de com-
é impossível conceber a palavra sem o espírito, também no homem a punção e prece acaba por entenebrecer a pessoa e cria um clima favo-
palavra está ligada ao espírito. E assim como o Espírito, que é uma rável para que o demônio lhe injete o desespero e a desesperança. O
hipóstase em si, é “o amor inefável do Pai em relação ao inefável quebrantamento genuíno, que, como dissemos, não prejudica o cora-
Verbo e Filho”, também o espírito no homem consiste num certo im- ção, é marcado pela presença da prece, da compunção e da esperança
pulso do nous, “que envolve uma extensão no tempo, em conjunção em Deus.
com nossa palavra, e que requere os mesmos intervalor e procedimen-
tos da incompletude para a completude”. Um coração quebrantado começa com a oração e produz muitos resul-
tados. Um hesiquiasta anônimo apresentou uma lista dos benefícios
Dissemos essas coisas para mostra a posição e o valor da palavra na desse método salutar, dentre os quais destacamos: “1. Torne seu cora-
alma do homem. A palavra é aquilo que expressa a experiência e a vida ção quebrantado por meio da prece, ó monge, para que o poder do di-
do nous, e toma este lugar no espírito. abo seja completamente banido de seu coração pela perfeição (...) 7.
Assim como um homem teme um ferro aceso e incandescente, o de-
Em muitos Padres, como em São Máximo o Confessor, a palavra é mônio teme o coração quebrantado; porque este coração destrói suas
chamada de ‘logistikon’, inteligência. A palavra, no homem, é dita in- artimanhas completamente. 8. Um coração negligente e que não foi
teriormente, mas expressa exteriormente. Um silêncio exterior não sig- partido, tão logo se veja confrontado com as fantasias do diabo, aceita-
nifica que interiormente não existam palavras. Mas após um estudo das as e fica muito impressionado com a ideia da fantasia; mas no coração
obras dos Padres, podemos afirmar com alguma cautela que a palavra quebrantado não há lugar para fantasias. 9. Onde existe contrição do
existe tanto no interior como no exterior e que ela está unida ao nous, coração todo mal satânico é expulso e toda ação demoníaca é incendi-
enquanto que a inteligência que está conectada com a mente é o órgão ada (...) 25. Quando o demônio vê um coração ferido pela contrição da
por meio do qual a palavra se expressa. Portanto, podemos colocar que prece, logo ele lembra os golpes que Cristo sofreu pela mão do homem,
existe uma sutil diferença entre a palavra e a inteligência, do mesmo e logo lhe impõe medo e o faz desencorajar-se. 26. Bem-amado, des-
moco como existe entre a palavra e a mente. São Thalassius ensina que trua o demônio com a contrição de seu coração de tal modo a que você
“a inteligência está submetida ao Logos por sua natureza”. O homem possa entrar triunfante na alegria do seu Senhor. 27 . Parta seu coração
inteligente deve estar submetido ao Verbo. A mente, de acordo com por meio da prece, para que Satanás, o enganador, seja destruído em
São Gregório Palamas, não é o olho da alma. O nous é o olho da alma, pedaços”.

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Para podermos de certo modo interpretar a contrição do coração, va- leva a cometer o pecado. Por causa disso o método terapêutico Orto-
mos falar da dor no coração. Devemos desde já dizer que quando fala- doxo deve olhar para o objeto dos pensamentos e para o significado da
mos em ‘dor’ estamos nos referindo principalmente ao coração espiri- inteligência. Por isso vamos agora examinar a inteligência de um lado
tual. O coração espiritual dói, está dolorido. Quando ele se levanta pela e os pensamentos de outro, para ver de que modo a cura da alma pode
graça de deus, isso não tem consequências para o coração físico. Ou se dar.
seja, quando o coração espiritual está quebrantado, está partido, está
sofrendo por causa da alegre tristeza de viver no arrependimento, o 1.1.3.1 . A inteligência
coração físico continua seu caminho natural sem outros efeitos moles- Já dissemos que a alma do homem, criada por Deus, é inteligente e
tos. Em muitos casos os cardiologistas não conseguem detectar a do- noética. São Thalassius escreve que Deus criou seres inteligentes e
ença, pela simples razão que o coração físico da pessoa que está com noéticos “com a capacidade de receber o Espírito e de atingir o Seu
o coração dolorido, não está doente. conhecimento; ele fez existir os sentidos e os objetos sensíveis para
servir a esses seres”. Enquanto que os anjos possuem inteligência e
A dor no coração é necessária porque mesmo a ascese mais estrita é nous, o homem possui a razão, o nous e os sentidos, uma vez que o
espúria e infrutífera sem ela. E está claro que para que aconteça essa homem é um microcosmo e o ápice de toda a criação. Portanto, é atra-
dor, tão essencial para a vida espiritual, a pessoa não deve satisfazer vés do nous e da inteligência que o homem conhece a Deus. A energia
inteiramente os desejos do corpo. Pois, “assim como o cordeiro não é inteligente da alma está ligada à energia noética, mas não existe iden-
companheiro do lobo, também o sofrimento do coração não combina
tidade entre as duas, como veremos a seguir.
com a saciedade, para dar nascimento às virtudes”, diz São Marcos o
Asceta. Todas as virtudes são concebidas por meio da dor no coração. Quando falamos da alma vimos que ela foi criada à imagem de Deus.
Uma vida Cristã sem dor é uma fraude. E que, uma vez que Deus é Trino – Nous, Verbo e Espírito – o mesmo
é verdadeiro para a alma: ela possui nous, palavra e espírito. Ora, dizer
A dor no coração é essencial para a salvação. No livro “A arte da
que a alma possui nous, palavra e espírito implica estabelecer alguns
prece”, o HIgoumeno Caritão menciona essa passagem: “Deve ficar
pressupostos. O primeiro pressuposto é, segundo o ensinamento de São
bem entendido que o verdadeiro sinal do esforço espiritual e o preço
Gregório Palamas, que a representação do homem do mistério trinitá-
do progresso é a dor do sofrimento, que corresponde à sensação de
rio não é feita de modo a que a Trindade possa ser entendida antropo-
nossa condição vergonhosamente pecaminosa, quando, com tristeza e
morficamente, mas que o homem pode ser interpretado de modo trini-
lágrimas nos lançamos aos pés de Jesus como a mulher pecadora na
tário. Vale dizer, o Deus Trino não é interpretado com base no homem,
casa de Simão o Leproso em Betânia[55]. Ela ouviu Cristo lhe dizer:
mas o homem é interpretado com base no Deus Trino. E essa interpre-
“Seus pecados estão perdoados”. Quem não sofre não produz frutos,
tação não é apenas psicológica e humana, mas reveladora. Isso signi-
porque “a prece sem dor é contada como um aborto”, de acordo com
fica que apenas quando uma pessoa está dentro da revelação, como
São Isaac o Sírio. A dor no coração e o esforço físico trazem à luz o
viveram todos os santos, ela pode captar esse fato. O segundo pressu-
dom do Espírito Santo, concedido no santo batismo para cada fiel, mas
posto é que enquanto o homem possui um nous, palavra e espírito em
harmonia com o modo trinitário de existência, o nous, a palavra e o
espírito não são hipóstases, como no caso das Pessoas da Santíssima
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arrependimento a regenerará e a renovará inteiramente”. “A Santa Es- que foi enterrado sob as paixões por nossa negligência no cumpri-
critura, a velha e a nova, falam todo o tempo da guarda do coração”. E mento dos mandamentos, e trazido novamente à vida pelo arrependi-
ele cita muitas passagens. “Aquele que habita continuamente dentro de mento, por intermédio da inefável misericórdia de Deus”.
seu próprio coração está desligado das atrações deste mundo, porque
ele vive no Espírito e não conhece os desejos da carne”. Depois de “Por causa do sofrimento que os acompanha, não abandone os esforços
tentar manter o nous puro e afastar os maus pensamentos e as fantasias, dolorosos, para não ser condenado como infrutífero, para não ter que
para mantermos o coração puro será preciso controlar a língua e o ven- escutar: “Tire dele o talento[56]”. Todo esforço em exercitar a alma,
tre. Porque o mundanismo e a glutoneria são coisas que corrompem o seja físico ou mental, que não seja acompanhado de sofrimento, que
nous por via de nosso sopro, e então corrompem o coração, porque o não requeira um supremo esforço, não dará fruto. “O Reino dos céus
nous é quem alimenta o coração. “Um irmão perguntou ao Abade Tito: sofre violência, e os violentos o tomam à força[57]”. Muitas pessoas
‘Como posso guardar meu coração?’. O ancião respondeu-lhe: ‘Como trabalharam e continuam a trabalhar sem dor, mas, por causa dessa au-
podemos guardar nosso coração quando nossas bocas e estômagos es- sência de dor, continuam estranhas à pureza e permanecem de fora da
tão abertos?’”. comunhão com o Espírito Santo, porque se colocaram à parte da seve-
ridade do sofrimento”.
Creio que todas essas coisas mostraram claramente que, para buscar
uma vida Cristã consciente e obter a salvação, devemos procurar o lu- “Quem trabalha debilmente e descuidadamente pode demonstrar estar
gar do coração. Um asceta costumava dar a seguinte resposta às per- fazendo grandes esforços, mas não colhem fruto algum, porque não
guntas de diferentes pessoas: “Pergunte ao seu coração. O que o seu suportaram sofrimento. De acordo com o profeta, “a menos que nossas
coração lhe diz?”. E, como explicamos, o coração não consiste apenas costas estejam quebradas, enfraquecidas pela obra do jejum, a menos
nos sentimentos, mas é o lugar que é revelado pela graça por meio do que tenhamos suportado a agonia da contrição, a menos que tenhamos
ascetismo, e no qual Deus é revelado. sofrido como uma mulher no parto, não conseguiremos dar nascimento
ao espírito de salvação no campo de nosso coração”. Pois “devemos
Devemos adquirir o sentido disso. Toda a vida ascética em Cristo ob- entrar no Reino de Deus pela via de muitas atribulações[58]”, con-
jetiva isso. E quando encontrarmos o coração, devemos fazer todos os forme está escrito”.
esforços para curá-lo de sua enfermidade espiritual. Estamos todos do-
entes do coração. E precisamos ser curados. Encontrar a cura do cora- Essa dor no coração espiritual, que também é sentida fisicamente – sem
ção é essencialmente encontrar a salvação. que isso seja lesivo se estiver de acordo com o que é propugnado pela
tradição Ortodoxa – é essencial para a nossa salvação, porque ajuda
1.1.3 . Inteligência e pensamentos todas as potências de nossa alma a se concentrar aí. Dessa forma, o
A inteligência (logiki) e os pensamentos (logismoi) desempenham um nous se liga mais facilmente ao coração e retorna a ele. Essa dor, que
papel fundamental nas doenças e na cura da alma. É nesse campo que de certo modo cria uma ferida, é frequentemente relacionada ao pranto.
a pessoa recebe as provocações do mal, onde os pensamentos simples A isso se dá o nome de ‘lágrimas’. A pessoa explode ruidosamente em
se tornam compostos e como resultado concebe-se um desejo que a lágrimas. A isso de dá o nome de ‘tristeza’. E sabemos, pelas obras dos
Padres, que essa ferida, que contribui para a salvação, é sentida mais

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agudamente do que um ferimento físico. Mas, como veremos a seguir, seus corações[71]”. Ela conquista a pusilanimidade. “Se um homem
a dor do coração cria também um inefável prazer. adquire a pureza do coração, ele superou a covardia”. Ele nada teme,
nem mesmo a morte, porque o medo da morte é a consequência da
São Teófano o Recluso escreve sobre essa ferida que cria a dor meta- impureza do coração. Ele se liberta dos pensamentos malignos, das
física: “Cuide para que sua atenção esteja no seu coração e não na sua palavras e das ações. Ele possui um silêncio interior do coração, e uma
cabeça, e mantenha-a assim não apenas enquanto estiver em oração, hesíquia livre de todos os pensamentos. Seu coração se torna “inteira-
mas por todo o tempo. Tente adquirir uma espécie de chaga em seu mente receptivo ao Espírito Santo”, e espelha a Deus claramente. A
coração. Com um esforço constante você obterá isso rapidamente. Não hesíquia diminui a congestão causada pelos cuidados corporais e abre
há nada de estranho nisso: a aparição dessa dor não tem o significado o coração para a esperança em Deus. “Um amplo espaço no coração
de uma ferida, embora seja essencialmente uma dor. Essa ferida não é denota a esperança em Deus; o congestionamento denota preocupa-
uma ferida física que produz uma dor física, que pode desencorajar a ções com o corpo”. “Aquele que cultiva as plantas boas e imortais em
pessoa e ameaçar sua vida. É uma ferida do amor inebriante sentido seu coração adquire um semblante jovial e brilhante. Sua língua canta
pela alma penitente, como a do Filho Pródigo, na união com o divino hinos e preces e é muito gentil em conversação”. O coração puro que
abraço. É um sofrimento expiatório e uma doçura insaciável, uma con- se afastou das fantasias não peca mais. “É impossível ao pecado pene-
templação mística inexprimível, um inseparável vínculo com Deus, trar nu coração sem antes bater à sua porta na forma de uma fantasia
um desejo de deixar esta vida e uma amorosa conversação com Deus. provocada pelo demônio”.
Essa dor o ajudará a recolher todas as potências de sua alma nesse ado-
rável labor, e Deus, vendo seu esforço, lhe dará o que você busca. En- A purificação do coração, tendo em vista os resultados que apresenta-
tão acontecerão algumas mudanças e estados divinos em seu coração”. mos antes, se confunde com a própria cura do coração. A doença, cons-
tituída pelas paixões, é expulsa. O coração se sente bem. Mas os Padres
São João Clímaco testemunha o fato – que é provavelmente sua própria advertem que antes, durante e depois da purificação, são necessárias a
experiência – de que em algumas pessoas a dor metafísica é tão grande, atenção e a guarda de nossa parte. Deve haver uma vigilância constante
o coração sofre de tal maneira, que o sangue literalmente brota do co- e a guarda do coração. Devemos estar atentos ao nosso coração, porque
ração ferido e da boca: “Eu vi homens que chegaram ao máximo da se ele for ferido todo o corpo sofrerá, do mesmo modo como toda a
tristeza, nos quais o sangue do sofrimento e da dor do coração real- planta sofre se ferimos seu coração.
mente jorrava de suas bocas, e me lembrei do que foi dito: ‘como a
erva eu fui cortado, e meu coração foi secado[59]’.” Isaías o Solitário nos conclama a examinarmos a nós mesmos diaria-
mente, a entender nosso coração e a manter afastado todo mal: “Exa-
As lágrimas que brotam são um dos outros resultados desse sofri- mine diariamente sob os olhos de Deus, irmão, e descubra quais pai-
mento. O Senhor abençoou os que se entristecem: “Bem-aventurados xões existem em seu coração. Mande-as embora, e assim você esca-
os aflitos, porque serão consolados”. Portanto, a tristeza divina e as pará ao Seu julgamento. Esteja atento ao seu coração, irmão, e vigie
lágrimas que dela provêm são um mandamento de Cristo. As lágrimas seus inimigos, que estão tramando maliciosamente”.
são um modo de vida. Assim como o arrependimento e a aflição são Essa atenção é necessária mesmo enquanto a pessoa ainda é pecadora.
Porque quando ela abandonar os pecados e se voltar para Deus, “seu

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completo o coração”. Muitos Padres enfatizam o valor da prece por um modo de vida, também o são as lágrimas que brotam do arrependi-
transformar as paixões e purificar o coração. São Gregório Sinaíta diz mento e do coração quebrantado. Falando em lágrimas, devemos ob-
que existem duas maneiras da prece interior e da união, “ou melhor, servar que existem lágrimas interiores do coração e lágrimas exteriores
duas entradas, uma de cada lado da prece noética que é ativada pelo do corpo. Muitas vezes o coração chora e é lavado por lágrimas. O
espírito no coração”. Em outras palavras existem dois modos da prece combatente espiritual que vive no espírito da tradição Ortodoxa muitas
noética e da união do nous com o coração. Um acontece quando, por vezes flagra seu coração chorando. Normalmente essas lágrimas do
meio da constante invocação do Nome de Cristo e através do calor que coração aparecem exteriormente, mas algumas vezes elas são secretas.
surge, se produz a energia no coração e as paixões diminuem. O outro Vejamos agora o valor das lágrimas.
vem quando “o espírito guia o nous para si e o confina nas profundezas
do coração, limitando seus movimentos usuais”. Seja como for, é um Os santos conclamam os Cristãos a chorar, porque nesse clima o cora-
fato que quando o coração é purificado, começa nele uma perpétua e ção é purificado e adquire uma sensibilidade espiritual, que supera sua
divina Liturgia, e então são cantados hinos a Deus. É aqui que aparece dureza. Santo Isaac conclama: “Encharque sua face com as lágrimas
o que o Apóstolo Paulo enfatizava: “falando uns aos outros em salmos, de seus olhos”. Ele nos incita em especial a nos lembrarmos de Marta
hinos e melodias espirituais, cantando e compondo melodias em seus e Maria[60] para aprendermos o “pranto da tristeza”. São Nilo o As-
corações ao Senhor[70]”. Essa prece á a que mais agrada a Deus. ceta nos ensina a orar primeiro pelo dom das lágrimas. Da mesma
forma, se orarmos em lágrimas, tudo o que pedirmos será ouvido.
É claro que quando o coração de uma pessoa foi purificado ela não
deve se orgulhar disso, porque nenhuma criatura é tão pura quando as É grande o valor das lágrimas. Os Padres, que experimentaram esse
que são incorpóreas, os anjos, e mesmo assim Lúcifer, exaltando a si fato, são exemplares. As lágrimas são um batismo. “Maior do que o
mesmo, se tornou um demônio impuro. “Seu orgulho foi visto por próprio batismo é a fonte de lágrimas após o batismo, embora essa
Deus como impureza”. Portanto, a pureza do coração é algo de muito afirmação possa parecer uma audácia”. As lágrimas são um sinal do
delicado e só pode ser adquirida com muito trabalho e, principalmente, homem renascido. De acordo com o Abade Poêmio, “o pranto é o ca-
com a ajuda e a energia de Deus. Um coração impuro, ainda que a minho que as Escrituras e os nossos Padres nos indicaram quando dis-
impureza provenha de pensamentos arrogantes, é cego. seram: ‘Chore!’. Em verdade, não existe outro caminho fora este”.
Trata-se, como dissemos, de um modo de vida. É impossível que al-
São muitos os resultados da pureza do coração. Vamos sublinhar ape- guém conheça a si mesmo sem lágrimas. Ou seja, se nos conscientiza-
nas alguns poucos. mos de nosso pecado, o que é um sinal da presença da graça divina em
nós, se obtivemos o dom do autoconhecimento e da auto reprovação,
Aquele que está lutando para manter seu coração puro tem o próprio então, espontaneamente, começamos a chorar. Por isso, “ninguém
Cristo, o Legislador do coração, como seu mestre, que secretamente deve Gaza. As lágrimas de um homem mostram que “Cristo tocou seus
comunica Sua vontade a ele. olhos e lhe deu a visão espiritual”. As lágrimas abrem os olhos da alma.
Isso é também necessário, porque, como ensina o Abade Arsênio, um
O coração puro experimenta aquilo que se chama de ‘hesíquia do co- homem terá que chorar em algum momento de qualquer maneira. Se
ração’. Ele vive na paz de Deus. “Deixem que a paz de Deus governe ele chorar voluntariamente na terra, ele não chorará na próxima vida.

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Ao contrário, aquele que não chorar aqui, “chorará eternamente de- nesse caso ninguém deve pensar que está completamente purificado a
pois”. menos que todas as demais potências da alma tenham sido também
purificadas, e a menos que a essência do nous, que está no coração,
São Simeão o Novo Teólogo, que, juntamente com outros, pode ser tenha sido também purificada. Se a pessoa pensar isso, ela estará se
caracterizado como um teólogo das lágrimas, dizia que as lágrimas são iludindo. Quando uma pessoa enxerga a impureza de seu coração, ela
um sinal de vida. Tal como os bebês choram quando saem do ventre deve orar com todas as demais potências. Ela poderá limpar a parte
da mãe, e isso constitui um sinal de vida, o mesmo acontece coo o ativa por meio da prática, a cognitiva por meio do conhecimento, a
nascimento espiritual. As lágrimas são parte do renascimento humano. contemplativa por meio da prece, e, com tudo isso, alcançar “a verda-
Se o bebê não chora, não se pode dizer que está vivo. Por isso, de deira, perfeita e estável pureza do coração e da mente, que ninguém
acordo com São Simeão, “a natureza humana possui a tristeza e as lá- obtém se não for pela perfeição nas ações, na contrição constante, na
grimas concomitantes ao nascimento”. Ele disse isso porque muitos de theoria e na prece em theoria”. De acordo com São Simeão o Novo
seu tempo afirmavam que nem todas as pessoas possuem a mesma na- Teólogo, a pureza do coração não pode ser adquirida pela observância
tureza, e que, portanto, nem todas derramam lágrimas. Mas isso não é de um único mandamento, mas sim de todos os mandamentos. E o co-
assim. Os santos acrescentam ainda que as lágrimas são tão necessárias ração não pode ser purificado sem o trabalho do Espírito Santo. Assim
para a alma quanto o são o comer e o beber para o corpo. Quem não como um ferreiro utiliza suas ferramentas, mas se vale também do
chora todo dia ou toda hora, “destruirá sua alma e a fará morrer de fogo, porque sem ele não pode produzir nada, “do mesmo modo o ho-
fome”. Quando uma pessoa adquire a preferência pela bondade, pelo mem pode fazer de tudo usando as ferramentas da virtude, mas essas
zelo, a paciência, a humildade e o amor a Deus, a alma, que até o pre- não serão capazes de limpar a sujeira e a corrupção de sua alma. Sem
sente é como uma rocha, “se torna uma fonte de lágrimas”. São Simeão a presença do fogo do Espírito, elas serão débeis e inúteis”.
reporta a informação, também encontrada nas Escrituras, de que “al-
guns adultos, no instante de seu batismo, derramaram lágrimas, foram O Abade Poêmio enfatiza em particular a ação da palavra de Deus.
como que golpeados pela compunção à chegada do Espírito Santo; não Assim como a água goteja sobre a pedra, também a palavra de Deus é
ainda as lágrimas dolorosas do sofrimento, mas lágrimas doces como suave para um coração endurecido. “Quando uma pessoa escuta a pa-
o mel (...) que escorriam de seus olhos sem dor nem ruído”. lavra de Deus constantemente, seu coração acaba por se abrir ao temor
a Deus”.
Todas essas coisas mostram, de um lado, que as lágrimas são necessá-
rias para a vida espiritual e, por outro, que elas são um caminho de Os santos Padres dão grande ênfase ao poder da oração, em especial
vida, um alimento para a alma. E mais ainda, que elas apresentam-se da oração monológica, a Prece de Jesus. Por meio dessa prece a pessoa
sob muitas formas. Para isso eu quero chamar a atenção em seguida. é purificada com a cooperação do Espírito Santo. Hesíquio o Presbítero
diz que é impossível para nós limparmos nosso coração, livrá-lo dos
Nicetas Stethatos, discípulo de São Simeão o Novo Teólogo, ensina pensamentos passionais e dos inimigos espirituais “sem a frequente
que as lágrimas de arrependimento são uma coisa e que as lágrimas invocação de Jesus Cristo”. A invocação do Nome de Jesus cria alegria
provenientes da santa compunção são outra. As primeiras são como e tranquilidade no coração. “Mas é Jesus Cristo, o Filho de Deus e ele
um rio que transborda e derruba os muros do pecado, enquanto que as próprio Deus, causa e criador de todas as bênçãos, quem purifica por

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ticas ascéticas exteriores e não penetrar em seu interior, ela estará vi- últimas são para a alma como a chuva que cai sobre os campos ou
vendo no período do Antigo Testamento. O esforço para purificar o como a neve sobre a relva: “elas nutrem a semente do conhecimento,
coração envolve dispersar as nuvens do mal do espaço do coração, para e o tornam luxuriante e frutífero”. Ele também enfatiza que o sabor das
que se torne visível o sol de justiça, Cristo, “e de tal maneira que os lágrimas às vezes traz amargura e dor e às vezes alegria e felicidade ao
princípios de Sua majestade possam brilhar sobre nós”. sentido noético do coração. As lágrimas de arrependimento criam
amargura e dor; as lágrimas do coração puro, o coração que obteve a
Mas o que é um coração puro? Que tipo de coração é puro? São Simeão libertação das paixões, são de prazer e de doçura indescritíveis. Quase
o Novo Teólogo descreve o coração puro. Ele diz que o coração puro a mesma diferença existe entre as lágrimas do temor a Deus e aquelas
é aquele que não é perturbado pelas paixões; ele também inclui evitar do amor a Deus.
toda inclinação da mente para qualquer coisa má ou profana, e ter em
si apenas e tão somente uma coisa: a lembrança de Deus com um irre- As lágrimas produzem muitos efeitos. Elas purificam o coração da pes-
preensível amor. Um coração puro é aquele que foi arrebatado e que soa das nódoas dos pecados e então o iluminam. Os Padres ensinam
“olha para as promessas dos bens penhorados aos santos e para os bens que quando o demônio chega ao coração de alguém, ele deixa ali di-
eternos, até onde a natureza humana é capaz”. Também outros Padres versas imagens e então se retira, deixando o ídolo do pecado no cora-
falam do coração puro. Um coração é aquele que não possui um im- ção. As lágrimas levam esse ídolo embora: o lugar do coração é lavado
pulso natural para nada e no qual Deus escreveu Suas leis como numa e a nuvem que o recobria desaparece. O Abade Poêmio ensina:
tábua. Um coração puro é o que não permite a nenhum pensamento “Aquele que deseja purificar-se de suas faltas deve fazê-lo com lágri-
maligno penetrar na alma. É puro de coração aquele cujo coração não mas”. Em outra parte, ele diz: “Em todas as nossas aflições, derrame-
o condena por ter rejeitado mandamento algum de Deus, por negligên- mos lágrimas na presença da bondade de Deus até que ele nos mostre
cia ou por aceitar um pensamento hostil. Uma pessoa é pura de coração a sua misericórdia”. Assim é que, onde quer que exista a tristeza, ali
quando se esforça para não julgar as prostitutas, os pecadores ou as não haverá traço de maledicência nem criticismo. Na verdade, está
pessoas desregradas, mas olha para todos com um olhar puro: “nunca confirmado pela experiência da Igreja que as lágrimas podem lavar os
despreze, julgue ou abomine ninguém nem divida as pessoas em cate- pecados assim como a água apaga algo que foi escrito. Em nossas lá-
gorias”. São Macário estabelece o que indica um coração puro: “Se grimas o Espírito Santo vem e se coloca em nosso coração, nos purifica
você vê um homem com um olho só, não faça nenhum julgamento em e nos lava de nossa culpa e nossa fraqueza.
seu coração, mas enxergue-o como um todo. Se alguém possui uma
mão aleijada, não o veja como aleijado. Veja o deficiente como direito, As lágrimas não apenas purificam como ainda iluminam a alma. Na
o paralítico como saudável”. realidade, a graça de Deus, que nos chega mediante o arrependimento,
ilumina e santifica o coração do homem. Uma tristeza imensa, ou seja,
Como pode alguém obter a pureza de coração, que significa realmente os abismos da tristeza trazem a consolação. Com a pureza do coração
a cura das paixões? São Gregório Palamas, analisando o ensinamento chega a iluminação. “A iluminação é uma energia inefável que é per-
teológico de que a energia da alma está em seus pensamentos e que a cebida sem que a conheçamos e é vista invisivelmente”. A tristeza traz
essência da alma está no coração, diz que a energia do nous nos pen- o conforto conforme a beatitude de Cristo. Esse conforto é o consolo
samentos pode ser facilmente purificada com a prece monológica. Mas

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de uma alma entristecida. O auxílio divino é a renovação da alma de- Por todas essas maneiras o coração vai sendo purificado e curado da
primida pela aflição, que, “de modo maravilhoso, transforma as lágri- culpa do pecado. As paixões se transformam. Ao invés de servir ao
mas dolorosas em lágrimas sem dor”. E Nicetas Stethatos nos ensina demônio e às suas obras pecaminosas elas agora servem ao Senhor.
que ninguém pode alcançar a potencial semelhança com Deus a menos Assim o coração do homem é purificado e se prepara para ver a Deus.
que tenha previamente, por meio de cálidas lágrimas, purificado a A seguir veremos essa purificação do coração e os resultados disso
culpa que traz dentro de si e guardado os mandamentos de Cristo. para o homem.
Desse modo é possível eliminarmos toda deformidade e nos tornamos
capazes de nos regozijarmos com a glória de Deus. O Senhor disse: “Bem-aventurados os de coração puro, porque verão
a Deus[67]”. Tiago, o irmão do Senhor, conclama: “Purifiquem seus
Os Padres também registram as lágrimas da ilusão. É possível que al- corações, ó homens de dupla mente[68]”. E o Apóstolo Pedro ordena:
gumas lágrimas sejam ativadas pelo diabo. Quando uma pessoa chora “Amem uns aos outros fervorosamente com um coração puro[69]”.
e ostenta seu pranto, ela está iludida. Por isso os Padres nos advertem:
“Não se fiquem convencidos se derramarem lágrimas ao orar”. Nin- O coração puro vê a Deus e “os tesouros que Nele existem”. Ele vê a
guém deve pavonearse e se considerar superior aos demais. O objetivo Deus, que é “a suprema consumação de todas as bênçãos”. O Antigo
de nossas lágrimas é o de, por meio delas, nos lavarmos da culpa das testamento é um ícone do ascetismo corporal exterior, enquanto que o
paixões. Quando esquecemos a finalidade das lágrimas e nos tornamos Evangelho, ou o Novo Testamento, é um ícone da pureza do coração.
orgulhosos, podemos perder a cabeça: “Muitas pessoas, mesmo derra- O jejum, o autocontrole, dormir no chão, manter-se em pé, as vigílias
mando lágrimas por seus pecados, esqueceram-se do que são as lágri- e todas as demais práticas ascéticas corporais são boas, porque mantêm
mas, e em seu delírio se perderam”. a parte passional do corpo longe de cometer atos pecaminosos. Trata-
se de uma educação do homem exterior e uma guarda contra as paixões
Existem muitos tipos de lágrimas, tais como as lágrimas sentimentais, ativas. Ao mesmo tempo, elas protegem contra os pensamentos peca-
as egoístas, as lágrimas de Satanás, as de Deus, etc. Mas devemos nos minosos. Mas “a pureza do coração ou a vigilância e a guarda do nous,
esforçar para transformarmos também as lágrimas sentimentais. Os cuja imagem é o Novo Testamento, não apenas desenraizam todas as
Padres da Igreja nos conclamam a chorar, ainda que nosso pranto traga paixões e os males do nosso coração, como ainda introduzem nele a
em si alguns elementos de egoísmo. Então, através da autor reprova- alegria, a esperança, a compunção, a tristeza, as lágrimas, um entendi-
ção, voltando nossa atenção para nós mesmos e para os nossos peca- mento de nós mesmos e de nossos pecados, a lembrança da morte, a
dos, cessando as conversas com os outros e falando apenas com Deus verdadeira humildade, um ilimitado amor a Deus e aos homens, e um
e olhando para nossa própria miséria, poderemos ser transformados e intenso e amoroso anseio pelo divino”.
obter a salvação.
Os santos Padres, sem desdenhar das práticas ascéticas exteriores, que
Creio que a terrível condição em que muitas pessoas se encontram se permanecem educativas, dão grande atenção à pureza interior, à pureza
deve ao fato de que nos tornamos estranhos às lágrimas: simplesmente, do coração. As práticas ascéticas exteriores preparam o campo para o
não choramos. Por isso, quando ardemos em dificuldades, quando nos- desenvolvimento da batalha interior. Se a pessoa se mantiver nas prá-
sos nervos se desgastam, quando toda a nossa atmosfera interior está

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De qualquer modo, o calor do coração se comunica ao corpo. São Gre- em mísero estado, é nessa hora que, com um sentimento de auto repro-
gório Palamas, opondo-se à postura de Barlaam de que o corpo não vação, devemos tentar chorar. Se prestarmos atenção, Deus nos envi-
participava da prece, disse não ser esse o ensinamento patrístico Orto- ará Sua graça e as lágrimas se tornarão um modo de vida e a partir daí
doxo. Não apenas a alma recebe a promessa dos bens futuros, como nosso coração será purificado das paixões.
também o corpo. O renascimento da alma pressupõe o renascimento
do corpo. A tristeza não se esgota na alma, mas “da alma ela passa para Arrependimento, tristeza, contrição, lágrimas – essas coisas estão es-
o corpo e para os sentidos corpóreos”. Também a graça de Deus que treitamente ligadas ao fogo que é gerado no coração. O arrependimento
está na alma passa para o corpo. São Gregório usa como argumentos é auxiliado pelo fogo que o Espírito Santo acende no coração da pes-
escriturários o caso de Moisés, cuja face brilhava, e de Estevão, cuja soa. O Senhor, referindo-se a esse fogo que ele acende no coração,
face se tornou como a de um anjo. O mesmo acontece com o calor. O disse: “Eu vim colocar fogo nos corações; é como gostaria que já esti-
calor da alma passa para o corpo. Durante a prece contínua, quando a vesse aceso![61]”. Na medida em que Cristo se aproxima do coração,
lâmpada noética se ilumina e o nous, através da theoria espiritual, er- esse se incendeia devido à existência das paixões, como analisaremos
gue o amor como uma chama alta, “também o corpo, de uma maneira a seguir. É esse incêndio que sentiram os discípulos a caminho de
estranha, é levantado e aquecido. Para os que o veem, ele parece saído Emaús: “Não queimavam nossos corações quando ele nos falava no
do fogo de uma fornalha visível”. E o suor de Cristo é igualmente um caminho, quando ele nos abriu o sentido das Escrituras?[62]”.
sinal do calor perceptível que “a súplica contínua a Deus comunica ao
corpo”. Esse fogo que queima as paixões do coração é experimentado na forma
de luz. Quando o Apóstolo Paulo teve essa experiência, ele escreveu:
Esse calor é tão indispensável para a vida espiritual que São João Clí- “... antes de o Senhor chegar, ele que iluminará o que agora está oculto
maco afirma que, se perdermos esse abençoado e amado fervor, deve- na escuridão, e que manifestará as intenções dos corações[63]”. E o
mos nos perguntar cuidadosamente o porquê disso, e deixar nossa alma Apóstolo Pedro expressa sua própria experiência, ao escrever: “Até
“se armar com toda sua ânsia e zelo” para trazê-lo de volta. que amanheça mo dia e o sol da manhã se erga em seus corações[64]”.
O coração experimenta a graça de Deus primeiramente como fogo, um
A presença da graça no coração também se manifesta como um sobres- fogo que queima o pecado e as paixões, e, quando essas paixões estão
salto do coração. São Gregório Palamas, junto com São Basílio o queimadas, ele experimenta a graça de Deus como uma luz que ilu-
Grande e Santo Atanásio o Grande, diz que o sobressalto do coração é mina todo o homem interior.
um sinal da graça: o coração salta “com o entusiasmo do amor ao que
é bom”. Em outra passagem ele diz que quando a alma salta com o Esse ensinamento de que experimentamos primeiro a graça de Deus
amor pelo Mais Desejado, “Também o coração é posto em movimento, como fogo e depois como luz, é analisado por São João Clímaco. Ele
indicando por sobressaltos espirituais que está em comunhão com a diz que quando o fogo supracelestial vem habitar no coração, ele in-
graça, como num ímpeto para se atirar e encontrar a Deus quando ele cendeia a alguns porque ainda restam coisas a purificar, e ilumina a
se mostra com seu corpo nas nuvens, de acordo com a promessa”. É o outros “de acordo com o seu grau de perfeição”. Isso é também cha-
coração se preparando para receber o Rei celestial. mado de “tanto o fogo que consome quanto a luz que ilumina”. É por
isso que algumas pessoas saem de suas orações como se saíssem de

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uma fornalha quente, e sentem um alívio de seu anterior estado de cor- Como São Diádoco mencionou acima, é possível avivar um calor na-
rupção, enquanto que outras, ao final da prece, sentem como se tives- tural. Vale dizer que existem dois tipos de calor, o natural e o suprana-
sem saído resplendentes de luz e vestidas com as roupas da humildade tural. São Teófano o Recluso escreve ainda sobre isso e sobre os efeitos
e da alegria. Esse fogo que o coração do homem percebe é igualmente do calor supranatural: “O verdadeiro calor é uma dádiva de Deus; mas
sentido pelo corpo. A pessoa pensa que está no inferno e queimando também existe um calor natural que é fruto de nossos esforços e de
com as chamas infernais. Isso é importante e salutar, porque esse arre- nossos estados de espírito passageiros. Esses dois estão tão distantes
pendimento cura a alma. E sabemos bem que, quanto maior o arrepen- um do outro como os céus da terra. Nos primeiros estágios, não fica
dimento, mais efetiva é a cura. Da mesma forma, quanto mais o fogo claro qual o tipo de calor que você sente; isso será revelado depois.
do arrependimento é sentido, mais são criadas as precondições para a Você diz que seus pensamentos o cansam, e que eles não o deixam
visão da Luz incriada. permanecer firme diante de Deus. Isso é um sinal de que seu calor não
provém de Deus, mas de você próprio”.
De acordo com o Apóstolo Paulo, Deus é um fogo devorador[65].
Todo o nosso trabalho, diz São João Clímaco, prossegue até que o fogo “O primeiro fruto do calor de Deus é a reunião de todos os pensamen-
de Deus penetre em nosso santuário, ou seja, em nosso coração. Esse tos num só, e a incessante concentração em Deus. Pense na mulher
Deus, que é fogo, consome “todo desejo, toda a agitação das paixões, cujo fluxo sanguíneo cessou subitamente. Da mesma forma, quando
todas as predisposições, toda a dureza do coração, dentro como fora, recebemos o calor de Deus, o fluxo dos pensamentos se detém. O que
visível ou espiritual”. é preciso para tal? Mantenha seu coração aquecido, mas não o valorize,
e considere isso apenas como uma espécie de preparação para o calor
O arrependimento é um feito e um momento de graça, mas também é de Deus. Então, aflito com a debilidade do calor de Deus em seu cora-
preciso ajudar o verdadeiro arrependimento a chegar, ou seja, ajudar ção, ore incessantemente e com sofrimento a Ele: ‘Tenha piedade! Não
para que o fogo de Deus chegue ao coração. Aliás, toda a vida ascética desvie seu rosto de mim! Deixe que sua face brilhe para mim!’. Ao
consiste numa cooperação, numa sinergia entre as vontades divina e mesmo tempo, aumente corporalmente a provação de comida, de sono,
humana. Os Padres ensinam que nos lavamos das paixões “tanto por aumente o trabalho, etc. E coloque tudo nas mãos de Deus”.
meio de sofrimentos voluntários como por infelicidades involuntá-
rias”. O sofrimento voluntário consiste na divina tristeza, no arrepen- Acima de tudo devemos colocar que, como em muitos outros assuntos,
dimento, na sensação do fogo do arrependimento. As infelicidades in- também aqui o diabo é capaz de trazer um calor ao coração de modo a
voluntárias são as diversas provações de nossas vidas. “Quando o so- distrair nossa atenção de Deus. Quando o calor aquecido distrai a aten-
frimento voluntário chega primeiro, o involuntário não se apresenta”. ção em Deus e a prece perde sua pureza e começa a se tornar excitada,
Por isso devemos nos esforçar para termos o arrependimento, o fogo esse é um sinal de que esse calor é satânico. O bom e sábio atleta espi-
de Deus, para desenvolvermos em nós essas coisas de modo a ficarmos ritual não fica admirado consigo mesmo, ele não deixa seu nous se
livres das provações involuntárias. Devemos manter sempre em nossos afastar da sensação de pecado, da experiência do arrependimento e da
corações esse fogo do arrependimento e o calor que provém dele. O insaciável lembrança de Deus com profunda humildade.
diabo tem medo do monge que vive na tristeza e não ousa se aproximar
deste. Por isso o monge fiel e prudente é aquele que “mantém aquecido

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calor espiritual não começa nem da direita, nem da esquerda, nem de o calor de sua vocação, que a cada dia acrescenta fogo ao fogo, fervor
cima, mas “vem diretamente do coração como uma fonte de água do ao fervor, zelo ao zelo”.
Espírito vivificante”. Ele existe no coração. “É somente essa prece,
que você deve desejar encontrar e possuir em seu coração, somente ela A prece pura nasce no coração de quem possui esse fogo. Por isso um
manterá seu nous livre de fantasias e despido de imagens conceituais dos pedidos de nossa prece é para que esse fogo venha, para que, de
e pensamentos”. A chegada desse calor em nosso coração é importante um lado, ele queime os pecados e as paixões, e para que, de outro, ele
porque desse modo as potências da alma se concentrarão aí e a prece nos dê a prece pura. “Quando o fogo vem habitar em nosso coração,
se tornará sem distrações. São Teófano o Recluso ensina: “Essa chama ele ressuscita a prece”, e, como resultado disso o fogo do Espírito
é o trabalho da graça de Deus; não de uma graça especial, mas uma Santo desce na câmara superior de nossa alma. Por isso a ordem é
graça comum. Ela aparece quando o homem atingiu uma determinada clara: “Não cesse de orar enquanto, pela graça de Deus, o fogo (ou o
medida de pureza na ordem moral geral de sua vida. Quando essa pe- fervor) e a água (das lágrimas) não tiverem se extinguido”.
quena chama é estimulada, ou quando um calor permanente se forma
no coração, o fermento dos pensamentos se aquieta. A mesma coisa Esse fogo abençoado, aceso em nosso coração com a chegada da graça
acontece na alma como na mulher que tinha o fluxo de sangue: ‘Seu em conexão com o arrependimento e as lágrimas, é o que permite
sangue estancou[66]’. Nesse estado a prece é quase permanente, e para nosso renascimento espiritual. Com a ajuda desse fogo toda a nossa
isso a Prece de Jesus serve como intermediária. Esse é o limite até onde condição interior é transformada, e muitas expressões do nosso corpo
pode subir a prece executada pelo homem. Isso deve ficar bem claro podem mudar também. São Teófano o Recluso escreve: “A partir do
para você”. momento em que seu coração começa a se aquecer com o calor divino
terá se iniciado sua transformação interior. Essa pequena chama irá
“A partir desse estado, outro tipo de oração aparece, que chega ao ho- com o tempo consumir e fundir tudo dentro de você, e aos poucos irá
mem pela graça, mais do que realizada por ele. O espírito de oração espiritualizar seu ser como um todo. Enquanto essa chama não come-
chega ao homem e o dirige para as profundezas de seu coração, como çar a queimar, não haverá espiritualização, apesar de todos os seus es-
se uma mão forte o conduzisse obrigado de uma sala à outra. Aqui a forços em adquiri-la. Portanto, a geração de sua primeira centelha será
alma é invadida por uma força invasora, e é mantida voluntariamente tudo o que importa nesse momento, e convém que você dirija todos os
dentro, enquanto essa força irresistível a mantiver sob seu jugo. Eu seus esforços nesse sentido. Mas você deve se dar conta de que esse
conheço dois graus dessa invasão. No primeiro, a alma vê a tudo e está aquecimento não poderá acontecer em você enquanto as paixões ainda
consciente de si mesma e do que a cerca exteriormente; ela consegue forem fortes e vigorosas, ainda que você não se entregue a elas. As
raciocinar e governar a si mesma, e pode até destruir esse estado se paixões funcionam como a umidade para o combustível de seu ser, e a
assim o desejar. Isso também deve ficar bem claro para você”. lenha úmida não queima. Não há outra coisa a fazer senão trazer lenha
seca de fora para secar a madeira molhada, até que esta esteja sufici-
“Mas os santos Padres, em especial Santo Isaac o Sírio, mencionam entemente seca para começar lentamente a pegar fogo. E pouco a
um segundo estágio da prece que é concedido, ou desce sobre o ho- pouco a queima da lenha seca irá dispersar a umidade e se espalhar até
mem. Santo Isaac considera que essa prece, que ele chama de êxtase que toda a madeira pegue fogo”.
ou arrebatamento, é mais elevada do que a descrita anteriormente”.

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“Todas as potências da alma e as atividades do corpo são o combustível cheio de fruto, enquanto que antes o trabalho era amargo e quase não
de nosso ser, mas enquanto o homem não presta atenção em si mesmo, dava fruto”.
tudo permanece saturado e sem efeito pela umidade das paixões. En-
quanto as paixões não forem afastadas, elas resistirão obstinadamente Quanto mais esse abençoado fogo queima as paixões, mais ele é sen-
ao fogo espiritual. As paixões penetram tanto na alma como no corpo, tido como uma luz que ilumina o coração. Hesíquio o Presbítero ensina
e suplantam até mesmo o espírito do homem, sua consciência e sua que do mesmo como enche os olhos de luz alguém que mira o sol,
liberdade; e desse modo acabam por dominá-lo inteiramente. E como “também aquele que olha para dentro do seu coração atentamente não
elas estão ligadas aos demônios, por meio delas estes dominam o ho- pode deixar de ser iluminado”. O coração que não recebe imagens,
mem, ainda que ele imagine falsamente ser dono de si mesmo. Liberto formas e fantasias de espíritos do mal está condicionado por natureza
pela graça de Deus, o espírito é o primeiro a se desfazer dessas amar- a fazer nascerem de dentro de si “pensamentos cheios de luz”. O car-
ras. Cheio de temor a Deus e sob a influência da graça, o espírito des- vão produz a chama. Quanto mais fará Deus, que habita em nossos
trói os vínculos com as paixões, e, arrependendo-se do passado, re- corações desde o batismo, “aquecendo nossa mente com a contempla-
solve firmemente, daí por diante, agradar apenas a Deus em todas as ção”, se a encontrar livre dos ventos do mal e protegida pela guarda do
coisas, viver apenas para Ele, caminhar de acordo com os Seus man- nous. Um coração vazio de fantasias “dá nascimento a misteriosas ima-
damentos”. gens conceituais divinas que brincam dentro dele”. O coração se torna
um instrumento do Espírito Santo e adquire o conhecimento de Deus.
São Teófano escreve a respeito desse fogo abençoado: “De acordo com Todos os pensamentos e ações da pessoa que se afasta das paixões e
São Barsanulfo, quando recebemos em nosso coração o fogo que o das fantasias são teológicos. Toda a pessoa se torna teologia. A teolo-
Senhor trouxe à terra, todas as nossas faculdades humanas começam a gia jorra das palavras, do silêncio, das ações e do repouso. No coração
queimar interiormente. Quando, depois de uma longa fricção, o fogo puro, que é “o céu celestial no coração”, “o lugar de Deus”, brilha o
tem início e a lenha começa a queimar, a madeira irá estalar e esfuma- sol de justiça.
çar até que esteja completamente acesa. Mas depois que ela acender,
ela parecerá estar permeada pelo fogo, e produzirá uma luz agradável Já falamos antes sobre o fogo que provém do coração, o “santuário de
e um calor sem fumaça nem estalidos. É o que acontece no interior do Deus”. A existência do fogo cria calor no coração e no corpo. Uma das
homem”. energias do fogo é o calor. São Diádoco de Foticéia é expressivo a
respeito desse calor que é gerado no coração. Diz ele que quando a
“A madeira recebe o fogo e principia a queimar – e somente aqueles alma adquire o conhecimento de si própria, brota dela uma sensação
que experimentaram isso sabem quantos estalos e fumaça se produzem de calor por Deus. Esse calor facilmente se esgota. Mas o calor gerado
então. Mas quando o fogo é aceso realmente, cessam os estalidos e a pelo Espírito Santo é pacífico e duradouro. Ele não se dispersa fora do
fumaça, e então apenas a luz reina. Essa condição constitui um estado coração, mas, por intermédio do coração ele faz com que “todo o ho-
de pureza; o caminho até ela é longo, mas o Senhor é misericordioso e mem se regozije com um amor sem amarras”. O primeiro calor é um
todo-poderoso. Assim, é claro que quando um home recebe o fogo de calor natural, enquanto que o segundo é um calor espiritual. O calor
comunhão consciente com Deus, o que o aguarda não é a paz, mas um que jorra como uma fonte foca o nous, de modo a que a prece pura
grande labor. Mas a partir desse ponto ele achará todo labor suave e começa a existir. O atleta desse exercício espiritual deve saber que o

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É preciso, com autocontrole e amor espiritual, separar a paixão da ima- vida dentro da personalidade humana, uma das energias da personali-
gem conceitual, e então o pensamento se tornará simples outra vez. dade. Quando ela é locada prioritariamente na existência espiritual do
homem, ela começa a lutar contra sua fonte – ou seja, contra sua ori-
Uma vez que um pensamento intruso tenta aquecer um prazer sensual, gem pessoal”.
que irá por sua vez tentar cativar o nous, este deve cortar de imediato
o pretenso prazer. São Máximo ensina que devemos nos tornar mata- “Elevando-se, como imagina, às maiores alturas; descendo, segundo
dores não apenas das paixões corpóreas como também dos pensamen- acredita, às maiores profundidades, o homem aspira a contatar as fron-
tos passionais da alma. teiras da existência, de modo, como pensa ser seu caminho, a defini-
la; e quando ele não consegue alcançar seu objetivo e sucumbe, ele
Além de cortar e desprezar os pensamentos, é necessário expulsá-los, decide finalmente que ‘Deus não existe’. Então, continuando na luta
e isso é feito por meio da oração, em primeiro lugar. São Gregório o pela predominância, tanto corporal como miseravelmente, ele diz a si
Sinaíta ensina que o iniciando não consegue expulsar um pensamento mesmo: ‘Se não existe um Deus, como posso aceitar não ser eu este
a menos que Deus o faça. Os mais fortes podem lutar contra os pensa- Deus?’. Não encontrando as fronteiras da existência, e atribuindo a si
mentos e expulsálos, mas também eles precisam da ajuda de Deus. próprio essa infinitude, ele se ergue arrogantemente e declara: ‘Eu ex-
“Quando chegarem os pensamentos, chame por nosso Senhor Jesus, plorei tudo o que existe e em parte alguma encontrei algo que fosse
repetida e pacientemente, e eles irão se retirar; pois eles não suportam maior do que eu; portanto, eu sou Deus’. E é um fato que quando a
o calor do coração produzido pela prece, e fogem como que escorra- existência espiritual do homem se concentra na mente, a razão assume
çados pelo fogo”. Na oração o nome de Jesus é pronunciado, o que o controle e o homem se torna cego para qualquer coisa que o ultra-
açoita o diabo, e a presença da divina graça cria calor no coração. Essas passe e termina por ver a si mesmo como se fosse o princípio divino.
coisas queimam os maus pensamentos e os colocam para fora do nous. A imaginação intelectual chega aqui ao seu limite máximo e, ao
Se a pessoa perder a energia para orar, que faça como Moisés: erga os mesmo tempo, despenca para a mais negra noite”.
braços e os olhos para o céu, e o próprio Deus afastará dela os pensa-
mentos. Assim como a fumaça se dispersa no ar, os maus pensamentos Nenhuma pessoa sábia sem Deus pode ter uma palavra pura e uma in-
se dispersam diante da invocação do Nome de Cristo. teligência pura. São Gregório do Sinai disse: “Apenas os santos, por
Não podemos afastar de nós os pensamentos demoníacos por intermé- meio da pureza, se tornaram inteligentes de acordo com a natureza.
dio do pensamento humano. Devemos abandonar todo pensamento, Nenhum dos pretensos sábios em palavras possui uma inteligência
mesmo os que são sábios, e colocar toda a nossa esperança em Deus, pura, porque a corromperam desde o começo com pensamentos vis”.
dizendo: “Senhor, lide com esse assunto como quiser e como só você
sabe”. Esta passagem é significativa porque em tempos de tentação Para vermos a corrupção da inteligência no home decaído, e o que ela
muitas pessoas tentam confrontá-las utilizando a inteligência humana. produz em nosso organismo espiritual como um todo, devemos exa-
Por mais poderosa que esta seja, ela não será mais poderosa do que o minar três níveis em que a inteligência decaída penetra.
pensamento demoníaco. Pois no combate contra os pensamentos esta-
mos lutando contra o demônio e não contra um simples pensamento.

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Em primeiro lugar, em nossas relações com Deus. Enquanto que antes possível, o Abade Poêmio replicou: “Se você não pode fazer isso, tam-
era o nous que obtinha a experiência de Deus, agora a inteligência de- pouco pode impedir os pensamentos de chegar até você, mas você
caída que se encarrega disso. Dessa forma, a inteligência tenta criar pode resistir a eles”. E é verdade: não podemos impedir que os pensa-
argumentos para demonstrar a existência de Deus, e isso naturalmente mentos cheguem até nós.
é absolutamente impossível de se fazer. Porque o único argumento
para a existência de Deus é a pura experiência do nous. Assim, em sua Mas precisamos nos opor a eles. E a oposição consiste, de um lado,
tentativa de avançar sozinha pelos caminhos do conhecimento de num desprezo absoluto, e, de outro, em não fazer o que ele diz. “Se
Deus, a inteligência decaída falha, porque tanto ela não consegue en- não fizermos nada com o pensamento, ele se deteriora e se desintegra
contrar a Deus, como ela acaba criando uma falsa imagem de Deus. com o tempo”. É como quando se prende uma cobra ou um escorpião
Assim é que, de tempos em tempos várias teorias filosóficas sobre numa garrafa e, com o tempo, eles morrem; “o mesmo acontece com
Deus e várias religiões vão sendo criadas. As heresias que sacudiram os maus pensamentos: eles nos são sugeridos pelos demônios, mas,
a Igreja de Cristo foram devidas a esse arrogante conceito de inteligên- com paciência, podemos fazê-los desaparecer”. Quando um pensa-
cia. Por isso os Padres enfatizam que os santos não teologizam de mento tentava conduzir o Abade Agatão à crítica, ele dizia: “Agatão,
modo aristotélico, ou seja, por meio da inteligência e da filosofia, mas não faça isso”, e logo o pensamento se esvaía. Do mesmo modo os
como pescadores, ou seja, através de uma experiência (como os Após- Abades Teodoro e Lúcio passaram quinze anos enganando suas tenta-
tolos, através do Espírito Santo), depois de uma purificação interior e ções, dizendo ao pensamento de deixar o lugar de seu ascetismo: “Ire-
da abertura do nous. mos logo depois do inverno”. Quando chegava o verão, eles diziam:
“Passado o verão nos iremos daqui”. Assim passaram eles todo o
A esse respeito, é típico o diálogo que aconteceu entre São Gregório tempo enganando os demônios; postergando o momento de satisfazer
Palamas e o filósofo Barlaam. Barlaam afirmava que a inteligência hu- o pensamento, puderam evitar o que eles lhes propunham.
mana é suficiente e digna para receber o conhecimento de Deus. Ela
seria o mais nobre elemento do ser humano. Assim, ele proclamava Outra maneira de cura é a luta para não deixar que o pensamento per-
que aquilo que os Profetas viram no Antigo Testamento e o que os sista. A luta consiste em não deixar um pensamento simples provocar
Apóstolos viram no Monte Tabor eram símbolos, e que portanto os uma paixão e em não deixar um pensamento passional ter lugar. “Am-
filósofos possuem um conhecimento mais autêntico sobre Deus do que bas essas formas de contra-ataque evitam que os pensamentos persis-
profetas e apóstolos. Dessa forma, ele dizia que a visão da luz incriada tam”. Pois um pensamento que persiste irá gerar outros pensamentos e
era “inferior à nossa intelecção”. Em resposta, São Gregório disse que criar muitos problemas no mundo interior, acabando por capturar o
a theoria dos santos não provinha do exterior, mas do interior, através nous contra nossa vontade.
de uma transformação e de uma purificação interiores. Assim sendo, a
luz não consistia simplesmente num símbolo externo e material, mas Do mesmo modo, não devemos permitir que um pensamento simples
num símbolo natural, ou seja, numa energia da graça incriada. A luz se torne um pensamento composto ou passional; e, por sua vez, os pen-
incriada não consiste num fantasma e num símbolo que vem e vai, de samentos compostos devem ser reduzidos à simplicidade. Um pensa-
modo que ela não é “inferior à energia da intelecção”, mas sim é “ine- mento composto é formado por uma paixão e uma imagem conceitual.
fável, incriada, eterna, fora do tempo, inaproximável, deslumbrante,

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santo jogo, mais perceptivo ele se tornará dos pensamentos em seus infinita, sem fronteiras, invisível aos anjos e ao homem, de uma beleza
primeiros estágios de desenvolvimento. arquetipal, imutável, glória de Deus, de Cristo e do Espírito Santo, raio
da divindade...”. Em resposta à visão de Barlaam de que essa luz seria
Um meio melhor do que o diálogo é o desprezo e o corte dos pensa- inferior à nossa intelecção, ele escreveu: “Ó terra e céus, e todos os
mentos. O Arquimandrita Sofrônio apresenta o ensinamento de São que veem neles a luz do Reino de Deus, a beleza do século futuro, a
Silouane sobre esse método melhor de combate aos pensamentos: “O glória da natureza divina – serão eles todos menores do que a intelec-
Ancião disse que a experiência dos santos Padres mostra diversas ma- ção?”. A luz incriada é a glória da natureza divina, a beleza do século
neiras de combater os pensamentos intrusos, mas que o melhor de to- futuro.
dos é não discutir com eles. O nous que debate com um pensamento
estará encarando seu desenvolvimento constante, e, confundido com a A mentalidade de Barlaam de elevar a filosofia acima da visão de
mudança, se distrairá da lembrança de Deus, que é exatamente aquilo Deus, uma coisa que levou São Gregório Palamas a chamá-lo de filó-
que o demônio procura: distrair o nous de Deus, confundi-lo e não dei- sofo, e não de alguém que viu a Deus, é a atitude de todos os heréticos
xar que ele emerja limpo. Estevão o Eremita (que alimentava um leo- que pretenderam substituir a revelação pela filosofia, e a visão de Deus
pardo com suas mãos), quando estava em seu leito de morte, disputou pelo conhecimento proveniente do abuso do pensamento inteligente.
com pensamentos intrusos, conforme sua prática, e se viu mais uma Na verdade, quando a inteligência humana tem o domínio sobre o ho-
vez lutando contra os demônios. São Marcos o Trácio, por ter tentado mem, ela o conduz a toda uma variedade de teorias heréticas. Aqui a
confortar sua alma antes da partida desta vida enumerando seus esfor- diferença entre filósofos e teólogos se torna evidente. O primeiro filo-
ços, foi mantido flutuando no ar ‘por uma hora’ – o que sugere que sofa a respeito de Deus. O segundo, depois de purificar o nous, con-
poderia ter sido por todo o tempo. Outros Padres foram ainda mais templa a Deus. O primeiro tem um nous obscurecido e interpreta tudo
específicos em sua luta espiritual”. de forma parcial por meio da inteligência, enquanto que os santos Pa-
dres, os verdadeiros teólogos, adquiriram a experiência de Deus atra-
Portanto, não é seguro, especialmente no começo da vida espiritual, vés de seu nous; a partir daí, a inteligência serviu ao seu nous para
deixar que pensamentos penetrem no coração. “Assim que os perce- expressar essa experiência interna por meio de proposições.
bermos, devemos contra-atacar e expulsá-los”. Desprezar o pensa-
mento é uma boa maneira, especialmente para os iniciantes na luta. O modo de conhecer a Deus na teologia patrística é diferente daquele
Sem entrar em diálogo com o pensamento, devemos recusar fazer o dos filósofos. O verdadeiro conhecimento de Deus é fundamentado na
que ele nos diz e, desse modo, enfraquecer a própria paixão; assim, humildade: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o
“lutando desse modo pouco a pouco, e com a ajuda de Deus, será pos- reino dos céus[73]”. Sobre e pureza do coração: “Bem-aventurados os
sível vencer a própria paixão”. A isso se chama ‘resistir ao pensa- puros de coração, porque verão a Deus[74]”. Sobre guardar os manda-
mento’. mentos de Cristo: “Todo aquele que transgride e não cumpre com a
doutrina de Cristo não tem Deus. Aquele que cumpre a doutrina de
Alguém disse ao Abade Poêmio: “Abba, eu tenho muitos pensamentos, Cristo possui o Pai e o Filho[75]”. Sobre o amor: “Se alguém ama a
e eles me colocam em perigo”. O velho conduziu-o pra fora e lhe disse: Deus, por Ele será conhecido[76]”. Não é por meio da sabedoria hu-
“Estufe o peito sem respirar”. Diante da resposta de que isso não seria mana, por meio da saúde mental ou da inteligência, que alguém pode

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conhecer a Deus. A sabedoria de Deus sempre foi desconhecida “dos interferir de modo mais ativo na alma e torna-la cativa. Assim é que
governantes do século, pois se eles a tivessem, não teriam crucificado São Máximo ensina: “Permaneça firme corajosamente contra os pen-
o Senhor de glória[77]”. De fato, “o homem que não é espiritual não samentos que surgem em você, em especial aqueles de irritação e pre-
recebe as coisas do Espírito de Deus[78]”. guiça”. Encarar os pensamentos com coragem é um segundo martírio.
O conselho de todos os Padres é no sentido de não ficarmos agitados
Em segundo lugar, a inteligência decaída afeta nossa relação conosco quando somos atacados por pensamentos satânicos. São Barsanulfo
mesmo, ou seja, nosso autoconhecimento. Muitas pessoas, influencia- diz: “Quando o pensamento chega, não fique alarmado, mas procure
das pelo autoconhecimento Pitagórico, tentam encontrar a si mesma e entender o que ele quer fazer e contra-ataque sem agitação, chamando
adquirir conhecimento sobre si mesmas por meio da inteligência. Mas pelo Senhor”. a pior coisa não é quando o ladrão entra na casa, mas
de acordo com São Gregório Palamas, isso é uma heresia dos filósofos quando ele leva o que encontra na casa.
Pitagóricos e Estoicos. A tentativa de investigar a si próprio por meio
da inteligência pode levar rapidamente à esquizofrenia, pois a pessoa Algumas pessoas permitem que o pensamento entre em seu nous e em
atribuirá seus problemas internos a outras causas e cairá na melancolia seu coração de modo a sustentar um diálogo com ele e vencê-lo com o
e na angústia. O método do tratamento terapêutico e do autoconheci- poder de Cristo. Isso pode ser feito por uns poucos que foram abun-
mento Ortodoxo consiste em tornar o nous humilde e sincero, não por dantemente abençoados com a graça de Cristo e que desejam entrar em
meio de métodos silogísticos, analíticos e divisivos, mas por um dolo- combate corpo-a-corpo com o demônio para destruí-lo. Mas tal faça-
roso arrependimento e um ascetismo assíduo, como disse São Gregório nha não é possível para a maioria dos Cristãos, que são impotentes para
Palamas e tal como explicamos anteriormente. A partir daí torna-se sustentar um combate tão estressante e perigoso. Assim sendo, a maior
possível adquirir o conhecimento de nosso mundo interior, não por parte de nós deve simplesmente desprezar os pensamentos intrusos.
meio da inteligência, mas por meio da vigilância, da purificação do
nous, da vida ascética e do arrependimento. Na tentativa de manter seu Devemos dizer que quanto menos experimentado em matérias espiri-
nous puro o homem começa a se tornar consciente de seus problemas tuais é um homem, mais devagar ele percebe a entrada do pensamento.
internos e descobre as paixões que o mantêm subjugado a eles. Normalmente, aqueles que são atletas espirituais treinados percebem
o pensamento ainda antes de ele entrar em sua inteligência e mesmo
Em terceiro lugar, os distúrbios da inteligência aparecem no modo quando ele ainda prepara seu ataque. Outros percebem o pensamento
como nos aproximamos de nossos companheiros. Normalmente os psi- somente quando ele começa a se acoplar o quando ele já foi assentido,
quiatras observam o modo de pensar de seus pacientes e trabalham so- ou no limiar da ação, ou ainda depois de haver sido cometido o pecado.
bre isso para poder identificar sua enfermidade. Assim emprega-se “O homem espiritualmente inexperiente em geral só encontra o pensa-
muita inteligência que pode conduzir a inferências errôneas. Quando mento pecaminoso depois que este progrediu, sem ser notado, desde
isso se estende às relações interpessoais, leva à sua destruição, por os primeiros estágios de desenvolvimento – ou seja, depois que este
causa do desenvolvimento de paixões de juízo e condenação, que não adquiriu certa força – e quando o perigo do pecado em ato se apro-
são agradáveis a Deus. Nosso próprio comportamento em relação aos xima”. Em qualquer caso, onde quer que for encontrado, ele deve ser
nossos amigos não é caracterizado pela inteligência, mas pelo amor. imediatamente combatido. E quanto mais um homem praticar esse
Evitamos julgar os outros e classificá-los em categorias. Em especial,

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e pessoas, ela poderá aprender por quais dessas coisas e pessoas ele tentamos fazer o contrário do que a inteligência humana nos dita. Ten-
sente paixão. tamos não ver os pecados e as más ações de nossos irmãos, mas de-
monstrarmos amor e compaixão para com ele. De acordo com São Ma-
O temor a Deus nos ajuda a nos libertar da guerra com os pensamentos. cário do Egito, os Cristãos devem se esforçar para “não fazer julga-
O temor a Deus é um dom que Deus concede ao homem. Aquele que mento algum de ninguém, nem de uma prostituta, nem de pessoas com
recebe esse dom batalha durante todo o dia para evitar fazer o que de- desordens. Ao contrário, devem olhar para todas as pessoas com uma
sagrada a Deus, ou antes, simplesmente não batalha, porque o fogo do mente simples e um olhar puro”. Devemos nos comportar assim de tal
temor a Deus derrete qualquer pensamento invasor. Mas ainda que não modo que mesmo diante de uma pessoa que sofre de uma aflição física
haja este temor carismático, devemos p0elo menos lutar para criarmos não a julguemos por isso.
a sensação da presença de Deus e do Juízo que virá. “Assim como a
cera derrete diante do fogo, também derrete o pensamento impuro di- Como pais espirituais, devemos encarar o próximo pessoalmente. Vale
ante do temor a Deus”. O temor a Deus é o pastor que conduz as ove- dizer, devemos nos despojar de toda imagem, caracterização ou ideia,
lhas, ou seja, os pensamentos. Sem este temor que os pastoreia, os pen- e orar para que Deus possa nos revelar o verdadeiro problema da pes-
samentos se põem em confusão. soa para que possamos lhe oferecer o tratamento terapêutico correto.
Cada um deve nos interessar pessoalmente. Desta maneira evitamos
Paralelamente a essas coisas, trabalho duro e vida ascética são o mé- julgar a alma de quem está enfermo, evitamos classificar as pessoas
todo da terapia. Jejuns, vigílias e orações nos ajudam a evitar sermos em categorias e tentamos oferecer um tratamento terapêutico verda-
capturados por pensamentos invasores. “Canse seu corpo com jejuns e deiramente pessoal. Isso quer dizer que temos que nos colocar pesso-
vigílias, e você será capaz de repelir os letais pensamentos de prazer”. almente diante da pessoa que traz sua confissão.
“Mantenha seu corpo sob controle, e ore constantemente; desse modo
logo você se verá livre dos pensamentos que nascem de suas predispo- Do que foi dito, fica claro que o homem decaído está possuído pelo
sições”. São Marcos o Asceta ensina que se não quisermos ser movidos poder e a autoridade da inteligência em suas relações, tanto com Deus,
por maus pensamentos, devemos aceitar a humilhação da alma e a afli- como com seu próximo. O “papel da razão”, que é base de toda a civi-
ção da carne. E isso não deve ser apenas em algumas ocasiões, mas lização Ocidental está na base de toda anomalia, seja interna ou ex-
“sempre, em todo lugar e em todas as coisas”. terna. Nós que vivemos na Igreja Ortodoxa estamos tentando restaurar
as coisas. Nosso objetivo é duplo. Por um lado, nós nos esforçamos
Essas coisas que foram mencionadas podem ser usadas pelas pessoas para limitar a autoridade da inteligência, e, de outro, para descobrir o
para prevenir as doenças devidas aos pensamentos, mas, caso a pessoa nous. Podemos ver, pelo fato de que no homem decaído o nous está
já esteja enferma, elas são necessárias como um método para a cura obscurecido e a inteligência constitui a única fonte da existência, que,
dos pensamentos. Mas vamos nos deter mais analiticamente sobre para alcançar a situação anterior à queda e para sermos guiados de
como podemos curar a alma que foi afetada pelos pensamentos. volta a uma vida de acordo com a natureza, os termos devem ser in-
vertidos, ou seja, o nous e a inteligência devem ser colocados nos seus
Em primeiro lugar, a pessoa não deve estar agitada. O demônio se es- lugares naturais, conforme já descrevemos. Em outras palavras, a in-
força para criar agitação na pessoa, para então, em meio à confusão,

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teligência deve ser restringida e o nous deve ser desenvolvido, a pala- quando os vícios que os provocam são rejeitados e anulados por meio
vra deve nascer do nous iluminado, e a inteligência deve formular o do amor a Deus”.
conhecimento do nous em palavras e sentenças.
Ademais, de modo a se livrar dos pensamentos, a pessoa deve lutar
A obediência à vontade de Deus tem um importante papel na restrição contra as paixões, pois é a partir destas que os demônios encontram
da inteligência. Nós nos esforçamos por colocar a verdade não em ocasião para implantar seus pensamentos. Com relação à paixão da lu-
nosso julgamento e em nossa própria opinião, que vêm da inteligência. xúria, São Máximo adverte: “Façam jejuns e vigílias, trabalhem e evi-
O Abade Doroteus disse: “Em todas as coisas que chegam a mim, eu tem encontrar pessoas”. Em relação ao ódio e ao ressentimento: “Se-
jamais procuro dar voltas para buscar a sabedoria humana, mas sempre jam indiferentes à fama, à desonra e às coisas materiais”. Em relação
ajo com o pequenino poder que eu tenho sobre aquilo que está ao meu ao rancor: “Ore por aquele que o ofendeu e você se libertará”.
alcance, e deixo o todo nas mãos de Deus”. De fato, este santo deixou
escrito um capítulo que se intitula: “Porque um homem não deve con- Outra batalha consiste em reduzir o amor ao prazer, que reside no co-
fiar exclusivamente em seu próprio julgamento”. Quando o diabo en- ração, porque os pensamentos tentam acalentar o prazer para atrair o
contra em alguém o menor traço de vontade própria e de autoindulgên- nous. Juntamente com o amor ao prazer do coração, é preciso enfrentar
cia “ele derrubará a pessoa por meio dessas coisas”. Da mesma forma, o amor ao prazer do corpo. Tudo o que evoca o prazer e o conforto
nos foi ordenado obedecer a vontade de Deus sem críticas, conforme corporal deve ser afastado pelo atleta da luta interior. Porque se a pes-
expressa na Escritura e nas obras dos Padres da Igreja. Nossa inteli- soa concede prazer ao seu corpo, “ela necessariamente, ainda que não
gência certamente irá se rebelar e protestar, mas é preciso submetê-la queira, será levada pelo exército Assírio para servir a Nabucodonosor”.
à vontade de Deus. E, uma vez que possivelmente não cheguemos a Se uma pessoa não finca pé firmemente sobre si mesmo quando o as-
conhecer a vontade de Deus em todos os detalhes de nossa vida coti- sunto é prazer, ela não estará em condições de manter ou adquirir a
diana, somos instados a obedecer ao pai espiritual que nos guiará em liberdade interior.
nossa viagem espiritual. De acordo com o Abade Doroteus, “ninguém
é mais desventurado, ninguém é mais facilmente pego despercebido, Como mostramos há pouco, devemos evitar as coisas e as pessoas que
do que um homem que não possui a quem o oriente em sua estrada evocam em nós maus pensamentos. Um asceta, respondendo à per-
para Deus”. Assim sendo, a desobediência é a morte, a obediência, gunta de um irmão que disse estar lutando contra as lembranças de
vida. São João Clímaco escreveu: “A obediência é a absoluta renúncia mulheres e desejos do passado, disse: “Não tema os mortos, mas fuja
à nossa própria vida, expressa com clareza em nossas ações corpóreas. dos vivos, e antes de tudo persista na oração”. Certamente não se exige
Ou inversamente, a obediência é a mortificação dos membros, en- de nós que evitemos as pessoas. Isso só é possível para uns poucos que
quanto a mente permanece viva. A obediência é um movimento que buscam uma pureza perfeita para se entregarem inteiramente a Deus;
não questiona, que aceita a morte livremente, uma vida simples, que mas devemos evitar essas pessoas que constituem uma tentação para
encara o perigo sem preocupações, uma viagem segura, uma jornada nós, não porque elas sejam más, mas porque nós somos interiormente
adormecida. A obediência é o enterro da vontade e a ressurreição da fracos e sujeitos a enfermidades. Quando uma pessoa estabelece como
princípio vigiar seu nous e prestar atenção no que diz respeito a objetos

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Essa vigilância da alma, essa guarda dos pensamentos, é chamada de humildade. Obedecer é colocar de lado a capacidade de fazer seu pró-
hesíquia interior. Por isso no ensinamento Ortodoxo a hesíquia não prio julgamento. A obediência é a desconfiança sobre o próprio declí-
consiste simplesmente num descanso dos estímulos exteriores ( que nio, em todos os assuntos, inclusive nos bons”.
constitui o começo da hesíquia, em especial para os iniciantes), mas é
acima de tudo o descanso do coração. São Thalassius adverte: “Sele A obediência é a mortificação do próprio desejo, do próprio entendi-
seus sentidos com a hesíquia e estabeleça um julgamento sobre os pen- mento, não no sentido da mortificação das paixões, mas no sentido de
samentos que atacam seu coração”. De acordo com São João Clímaco, que eles devem ser transformados. A obediência, praticada da forma
“o repouso do corpo consiste num conhecimento acurado e na admi- proposta pela Igreja, não destrói a inteligência, mas a cura, colocando-
nistração dos sentimentos e percepções da pessoa, mas o repouso da a em sua posição natural. A partir daí existe vida. A longa experiência
alma consiste no conhecimento acurado dos pensamentos e numa da Igreja mostra que qualquer um que seja capaz de obedecer pode ser
mente inatacável”. Os amigos da hesíquia são, assim, um pensar bravo curado das moléstias interiores de sua alma, pode transformar todo o
e determinado, a vigilância nas portas do coração, e matar ou expulsar seu mundo interior. A obediência é um meio de progresso para o ho-
as noções invasoras. Quando uma pessoa persevera nessa batalha, e mem.
em especial quando o nous se torna cativo do Reino de Deus, então os
pensamentos se evanescem como as estrelas que se ocultam quando Ademais de restringir a inteligência, tentamos, por meio do arrependi-
brilha o sol. mento e da vida ascética na Igreja, purificar o nous de modo a que ele
possa ser iluminado pela energia incriada de Deus. Isso se adquire por
Ademais da vigilância e do repouso do nous, outro modo para prevenir meio da vigilância, pela prece – em especial pela prece noética do co-
o nous de ser irritado consiste em evitar as causas que evocam os pen- ração – e por uma vida a um tempo ativa e contemplativa. Através dos
samentos. São Máximo nos dá um exemplo de como lutar para manter meios colocados pela tradição Ortodoxa, o nous recebe a graça, é vita-
a pureza do coração. Como sabemos, os demônios da paixão costu- lizado, ergue-se à sua posição correta e então derrama a graça sobre a
mam estimular o poder concupiscente da alma ou perturbar o poder inteligência. Dessa forma, a inteligência se torna uma servidora do
irascível e sua inteligência. Por isso o monge deve vigiar seus pensa- nous e é favorecida pela graça, e nós regressamos ao nosso estado na-
mentos e buscar e eliminar suas causas. “A potência concupiscente da tural.
alma é estimulada por pensamentos passionais de mulheres. Esses pen-
samentos são causados pela intemperança no comer e no beber e por A inteligência que não é submetida ao nous e dotada de graça, está
conversas frequentes e sem sentido com as mulheres em questão; e eles doente e cria inúmeras anomalias em nossa vida, enquanto eu, quando
são cortados por meio da fome, da sede, das vigílias e da retirada da ela se sujeita ao nous ela é saudável e natural. Esse é o objetivo da
sociedade. A potência irascível é perturbada pelos pensamentos passi- prática ascética terapêutica da Igreja.
onais daqueles que nos ofenderam. Isso é causado pela autoindulgên-
cia, a autoestima e o amor às coisas materiais. É por conta desses vícios 1.1.3.2 . Pensamentos
que a pessoa dominada pela paixão sente ressentimento, se frustra e É na parte inteligente da alma que os pensamentos malignos aperam
falha em obter aquilo que deseja. Tais pensamentos são cortados de modo a excitar o desejo e tentar capturar o nous humano para que o
pecado seja cometido. O desenvolvimento do pecado inicia com os
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pensamentos. Assim sendo, qualquer um que deseje purificar seu A vigilância também é chamada de guarda dos pensamentos. São João
mundo interior, que queira livrar-se do pecado, libertar seu nous do Clímaco ensina que uma coisa é guardar os pensamentos e outra é vi-
cativeiro, deve conservar sua inteligência a salvo do impacto dos maus giar o nous. Vigiar o nous está acima da guarda dos pensamentos. Isso
pensamentos. Nesta seção tentaremos analisar o que são esses pensa- é verdade no sentido que definimos antes, que o nous é os olhos da
mentos, o que os causa, que resultados eles produzem em nosso orga- alma, o coração, enquanto que um pensamento é algo que funciona na
nismo espiritual, e finalmente quais os métodos de cura de que dispo- mente humana. Uma coisa é tentar manter a mente pura, e outra é tentar
mos contra eles. Esse é um assunto crucial porque nossa morte ou vida manter o nous, que é o coração, puro, embora seja sempre necessária
espiritual depende deste confronto. Ademais, veremos a seguir as mui- a pureza de pensamentos, porque é impossível se manter interiormente
tas anormalidades físicas e as moléstias que se original dos pensamen- livre do pecado se a pessoa possui maus pensamentos. O mandamento
tos desenfreados. patrístico é de concentrar nosso nous (a energia da alma em sua essên-
cia), ser vigilante sobre os pensamentos e lutar contra os pensamentos
1.1.3.2.1 . O que são os pensamentos (logismoi ) passionais. É essencial prestar atenção às nossas reflexões, recorda-
Quando os Padres falam em ‘pensamentos’ (logismoi), eles não se re- ções e noções. Inclusive, na luta para manter o nous puro e possuir uma
ferem simplesmente aos pensamentos, mas às imagens e representa- lembrança constante de Deus, devemos descartar também os pensa-
ções por trás das quais sempre estão os correspondentes pensamentos. mentos bons, porque até com bons pensamentos o nous gradualmente
As imagens, junto com seus pensamentos, são chamadas de ‘logismoi’. cria o hábito de se afastar de Deus. O monge Silouane disse: “Os santos
“As imagens em alguns casos aparecem tomando formas visíveis, en- aprenderam como batalhar contra o inimigo. Eles sabem que o inimigo
quanto que em outros casos são apenas produtos da mente; o mais co- utiliza pensamentos intrusos para nos corromper, e assim, por toda sua
mum é que seja uma combinação das duas coisas. Como às vezes as vida, eles declinaram desses pensamentos. À primeira vista podia pa-
imagens visíveis também geram pensamentos, os ascetas chamam to- recer que nada houvesse de errado com um pensamento intruso, mas
das as imagens de ‘pensamentos intrusos’. Os vários pensamentos sa- logo ele começava a distrair o nous da prece, e logo inicia uma confu-
tânicos às vezes utilizam como veículo aquilo que os sentidos levam são. A rejeição de todo tipo de pensamento intruso, ainda que pareça
ao nous, às vezes eles mobilizam fantasias e memórias aleatórias, e bom, é, portanto, essencial, tanto quanto é essencial possuir um nous
atacam a pessoa com o objetivo posterior de efetuar sua captura. puro em Deus”. Jamais deveríamos possuir sequer um simples pensa-
mento no coração, seja sensível ou não. Devemos proteger o olho da
De acordo com Hesíquio o Sacerdote, a maior parte das pessoas não alma de todo pensamento, assim como protegemos os olhos do corpo
tem consciência de que esses pensamentos não passam de “imagens de qualquer objeto que possa ferilo.
das coisas terrestres e materiais”. Conforme podemos deduzir desse
texto, a imaginação desempenha um papel importante na formação das Quando a pessoa se acostuma com essa guerra santa de afastar os pen-
imagens em nós. Assim, pode-se dizer que esses logismoi são pintados samentos, então o nous prova da bondade do Senhor e adquire a pu-
com diferentes imagens e representações em nossa inteligência, sendo reza, de modo que se torna capaz de distinguir pensamentos e “guardar
a maior parte de memórias do passado. Um irmão que estava sendo nos tesouros de sua memória aqueles pensamentos que são bons e que
foram enviados por Deus, ao mesmo tempo em que atira foram os que
são maus e foram enviados pelo diabo”.

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pensamentos. O Abade Doroteus diz isso claramente: “Um único pen- atacado por memórias do passado disse: “Meus pensamentos são anti-
samento mau pode afastar de Deus o homem quando é recebido e aco- gos e novos pintores: as memórias me perturbam, com ídolos de mu-
lhido por este”. lheres”.

Desde que os pensamentos separam a pessoa de Deus, eles são segui- Todas as coisas têm seus princípios interiores (palavras, logoi) com os
dos pelas anomalias corporais. Angústia, insegurança e moléstias físi- quais elas falam e se comunicam com o homem. De acordo com São
cas são causadas por pensamentos. Os médicos estão conscientes Gregório do Sinai, a Sagrada Escritura também chama de ‘pensamen-
disso, e nos advertem para não ficarmos pensando em coisas e preocu- tos’ essas ‘palavras’ das coisas. As palavras das coisas também são
pações. Um único pensamento pode deixar uma pessoa insone por toda chamadas de imagens conceituais, e vice-versa. Sua ação “não é ma-
a noite. Por isso dizemos que os pensamentos perturbam o homem e terial em si, mas toma a forma das coisas materiais, e esta forma
chegam a estragar seus nervos. O Abade Teodoro dizia: “O pensa- muda”. As palavras das coisas são utilizadas pelos demônios, e então
mento chega e me aborrece”. também podem ser chamadas de palavras dos demônios. São Gregório
do Sinai caracteriza os pensamentos demoníacos, ou melhor, seu ata-
Os resultados dos maus pensamentos são verdadeiramente terríveis. que, como “um rio que corre”, o qual, por meio do assentimento ao
Nós os apresentamos brevemente, mas poderíamos ter citado muitas pecado, se torna um dilúvio que inunda o coração.
outras passagens patrísticas. Procuramos indicar as anomalias gerais
que eles produzem em nosso organismo psicossomático. Falando dos ‘pensamentos’ e tentando apontar exatamente o que são
eles, penso que podemos nos referir à divisão feita por São Máximo.
Um método psicoterapêutico deve, porém, descrever também os cami- Ele diz que alguns pensamentos são simples, outros compostos. Os
nhos pelos quais as pessoas podem ser curadas dos pensamentos maus pensamentos que não estão ligados a paixões são simples; os que vêm
e demoníacos. É o que veremos a seguir. carregados de paixões são compostos, e consistem em “imagens con-
ceituais combinadas com paixões”. A memória de uma coisa, combi-
nada com a paixão, forma o pensamento passional ou composto. Penso
1.1.3.2.4 . A cura dos maus pensamentos
que neste ponto é bom sublinhar a distinção entre uma coisa, sua ima-
Assim como para todas as doenças da alma e do corpo, também para gem conceitual e a paixão, como bem analisa São Máximo. O ouro,
os pensamentos existe um tratamento preventivo e um tratamento te- uma mulher, um homem, etc., são coisas. A memória simples do ouro,
rapêutico para a pessoa doente. Veremos como ambos funcionam. da mulher, do homem, são imagens conceituais. A paixão é “a afeição
insensata ou o ódio indiscriminado por alguma dessas mesmas coisas”.
O trabalho preventivo consiste me tentar não deixar que um pensa- Uma imagem conceitual passional é um pensamento composto por
mento penetre em nós e capture o nous. Isso se consegue com a vigi- uma paixão e uma imagem conceitual. A partir daí devemos nos esfor-
lância, a atenção, a hesíquia e também cortando os maus pensamentos. çar para separar a imagem conceitual da paixão, para que o pensa-
O Apóstolo Paulo instrui seu discípulo Timóteo para que esteja todo o mento volte a ser simples. E essa separação pode ser feita por meio do
tempo atento: “Quanto a você, esteja atento[82]”. Os escritos patrísti- amor espiritual e do autocontrole.
cos contêm uma extensa análise dessa batalha.

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Pensamentos passionais tanto estimulam o poder concupiscente da Maus pensamentos obscurecem e poluem nossa alma, eles a prejudi-
alma como perturbam o poder irascível, entenebrecendo sua inteligên- cam e envenenam. “Esta é a artimanha do maligno, e com essas flechas
cia. ele envenena qualquer alma”.

Evagro enfatiza que existem pensamentos que cortam e pensamentos “Um homem que é conduzido por seus pensamentos é cegado por eles.
que são cortados. Os pensamentos maus cortam os bons, mas também E mesmo que ele chegue a perceber o real trabalho do pecado, ele não
são cortados por eles, ele oferece um exemplo: o pensamento de hos- consegue discernir suas causas”. A aceitação dos pensamentos dá ao
pitalidade pela glória de Deus é cortado pelo tentador, que sugere um mal o domínio sobre ele e pode levá-lo até ao suicídio, uma vez que
pensamento de hospitalidade com o objetivo de parecer hospitaleiro ele não consegue resistir ao poder do mal.
aos olhos dos outros. Da mesma forma, o pensamento de oferecer hos-
pitalidade para ganhar reconhecimento humano é cortado “quando so- Um pensamento impuro rebaixa a alma, atirando-a ao solo.
brevém um pensamento melhor” que nos prontifica a sermos hospita-
leiros em nome de Deus e da virtude. Assim, é possível que um pen- Pensamentos passionais estimulam a potência concupiscente da alma;
samento comece como maligno, mas que, por meio de nosso esforço e eles perturbam a potência irascível e a inteligência. “Dessa forma a
com a inspiração do Espírito Santo, seja transformado num bom pen- capacidade do nous de contemplação espiritual e de êxtase na prece é
samento – e vice-versa. Naturalmente, analisaremos mais profunda- ofuscada”. Sem Deus, o homem está morto.
mente isso mais adiante, quando tratarmos da cura dos maus pensa-
mentos. Finalmente, pudemos ver que existem pensamentos que cor- Alguém que se sente continuamente perturbado por pensamentos e
tam e os que são cortados, sejam eles bons ou maus pensamentos. cujo baixo ventre está inflamado mostra com isso o quão longe está da
fragrância do Espírito.
1.1.3.2.2 . A causa dos maus pensamentos
A intimidade com Deus está perdida. “Quando o nous se associa ao
Aquilo que escrevemos sobre a natureza dos pensamentos malignos
mal e aos pensamentos sórdidos, ele perde sua comunicação íntima
também nos mostra suas causas. De acordo com São Gregório do Si-
com Deus”. Deus não pode se comunicar com alguém cujo nous está
nai, a origem e a causa dos maus pensamentos reside “na divisão, por
constantemente corrompido por pensamentos maus e impuros. E Deus
causa da transgressão humana, de sua única e simples memória”. Antes
se desgosta como homem que aceita pensamentos sujos enquanto ora,
da transgressão a memória do homem era simples, ou seja, ela não
assim como um rei terreno detestaria um homem que em sua presença
possuía paixões e estava inteiramente voltada para Deus. Todos os po-
desviasse o rosto de si para conversar com o chefe dos seus inimigos.
deres da alma estavam centrados em Deus. Imediatamente depois da
transgressão essa memória simples se dividiu. São Thalassius ensina
O homem com pensamentos impuros não apenas perde sua intimidade
que os maus pensamentos nascem de três fontes: os sentidos, a memó-
com Deus e a fragrância do Espírito Santo, como ainda se separa por
ria e os temperamentos do corpo. Os piores são os que provêm da me-
completo de Deus. “Pois os pensamentos impuros separam Deus do
mória.
homem”. Deus não revela seus mistérios a alguém possuído por maus

206 215
Da mesma forma, quando uma pessoa guarda pensamentos dentro de Creio que Santo Isaac o Sírio nos fornece um ponto de partida para
si e os elabora, surge um prazer e o nous parte para o consentimento e vermos com mais clareza as causas dos maus pensamentos e o que os
a ação. “Assim como ovos aquecidos no estrume incubam, maus pen- provoca. Ele ensina que “o movimento dos pensamentos no homem se
samentos inconfessos incubam más ações”. origina de suas causas. Primeiramente, da vontade natural da carne;
depois, da imaginação de objetos sensíveis do mundo que o homem
Daquilo que foi dito, podemos ver claramente as consequências dos ouve e vê; em terceiro lugar, das predisposições mentais e das aberra-
pensamentos prolongados e elaborados. Na próxima seção apresenta- ções da alma; e em quarto lugar, dos assaltos dos demônios que lhe
remos essas consequências. fazem guerra por meio das paixões. Dessa forma, tanto quanto uma
pessoa permanece neste mundo, ela não conseguirá evitar os pensa-
1.1.3.2.3 . Consequências dos maus pensamentos mentos e a luta”.
Quando um pensamento se prolonga em nós acabamos por nos tornar
escravos da atração. “Quando um pensamento persiste dentro de um A causa fundamental dos pensamentos malignos está na guerra que nos
homem, isso indica sua ligação com ele”. A atração é uma ligação da faz o demônio. A maior parte desses pensamentos provém do demônio.
pessoa com as coisas criadas e seu desejo de realizá-las ou de adquirir O objetivo do demônio é levar o homem a pecar, tanto em pensamentos
essas coisas. Quando o nous é desligado do alimento celeste e da lem- como em atos. Ele travou batalhas contra o próprio Cristo, natural-
brança das coisas celestes, ele passa a se oferecer para as coisas senso- mente sem sucesso algum. Os demônios estão sempre tentando se apo-
riais e criadas do mundo. Isso se chama atração. Ele é levado até aí derar de nossa alma por meio de pensamentos passionais, para que
pelo pensamento que persiste nele. possam nos fazer pecar em pensamentos e ações. Quando um homem
pensa o mal, ele peca em pensamento, mas quando ele faz a vontade
A pessoa se torna destemperada e já não pode se controlar. “A pessoa do demônio e gratifica seu desejo, ele peca em ação. O cometimento
cuja mente enxameia de pensamentos perde seu autocontrole”. do pecado é chamado de pecado em ato. Os demônios enviam cons-
“A pessoa que não combate em pensamento o pensamento do pecado, tantemente pensamentos tentando capturar o nous. Os santos reconhe-
e nada diz contra ele, irá cometê-lo corporalmente a seguir”. cem “as sementes dos demônios”, e advertem as pessoas de acordo
com isso.
Quando um mau pensamento se demora em alguém e não recebe opo-
sição, mas é posto em ação, ele reforça a paixão na pessoa, que conti- São Gregório do Sinai diz que os pensamentos são as palavras do de-
nuará a lutar com ela e atormentá-la a seguir. mônio e os precursores das paixões. Primeiro vem o pensamento, e
então se comete o pecado. De acordo com Elias o Presbítero, os demô-
Os pensamentos nos esmagam e apodrecem, criando ainda problemas nios guerreiam contra nossa alma primeiramente mediante pensamen-
nas relações entre as pessoas. “Passamos todo o nosso tempo nos cor- tos e não por meio das coisas, “Ouvir e ver são responsáveis pela
rompendo por meio dos pensamentos que temos contra os outros e guerra provocada pelas coisas, enquanto que os hábitos e os demônios
atormentando a nós mesmos”. o são por aquela causada pelos pensamentos”. Os demônios estão sem-
pre a implantar pensamentos impuros e vergonhosos. Cada paixão tem

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seu correspondente demônio, e São João Clímaco enfatiza que os pen- fazendo com que a resistência da pessoa se enfraqueça. Então o pecado
samentos vergonhosos e impuros do coração provêm dos demônios é cometido. Quando essa captura se repete, forma-se o hábito da pai-
enganadores do coração. A astúcia desses demônios na guerra é xão, “colocando todas as forças naturais do homem a seu serviço”. A
grande, e apenas os santos cujo nous é puro e que possuem o dom da presença e o prolongamento do prazer são muito importantes para a
clarividência são capazes de distinguilos. São João Clímaco escreve captura do nous e a ativação da paixão. Sendo assim, os Padres adver-
que uma vez ele assistiu um demônio de vanglória realizar um duplo tem para que o prazer seja mortificado o mais depressa possível, ou
trabalho: para um irmão ele sussurrou pensamentos de vanglória e ao melhor, que seja transformado ao capturar o nous da pessoa. O Abade
mesmo tempo ele revelou esses pensamentos a outro irmão, de modo Doroteus diz que quando um desejo passional reaparece na alma de
que este pensou ter o dom de ler os pensamentos, caindo ele também alguém que luta contra ele, ele é imediatamente rejeitado.
na paixão da vanglória. Assim é que a guerra levada a cabo contra nós
pelos pensamentos é mais violenta do que aquela que utiliza os meios Hesíquio escreve sobre a mistura e união dos pensamentos da alma
materiais. com as provocações do demônio por meio da fantasia: “...seus pensa-
mentos se enlaçam nas fantasias provocadas pelo demônio”, e se trans-
Mas normalmente o demônio utiliza a oportunidade fornecida pelas formam em assentimento e ação. A fantasia desempenha um papel im-
paixões que existem em nossa alma para desfechar o ataque de pensa- portante, especialmente quando o objeto ou a pessoas estão distantes
mentos mais apropriado. Ele conhece as paixões que estão ali e excita de nós. Mas mesmo quando o objeto ou a pessoa são vistos, ou seja,
a alma nesses pontos. “A paixão que jaz oculta na alma provê o demô- quando se ligam aos sentidos, também a fantasia exagera as coisas e
nio com os meios para semear pensamentos passionais em nós”. E, aumenta sua beleza de modo a capturar o nous e obter seu consenti-
uma vez que a paixão mais básica, a que engendra todas as demais, é mento. Desse ponto de vista podemos dizer que os pensamentos pas-
o amor próprio, é nesta paixão que “as três formas de desejo mais co- sionais nublam e confundem o nous, enchendo-o com imagens impu-
muns” têm sua origem. Quando o coração humano se inclina para a ras e conduzindo-o “forçosamente e contra sua vontade a cometer atos
autoindulgência, ele se torna a fonte dos maus pensamentos. “Pensa- pecaminosos”.
mentos e palavras doentias nascem de um coração inclinado ao amor
pelos prazeres”. Uma vez que existem pensamentos voluntários e in- Parece que a liberdade humana dá seu consentimento não apenas no
voluntários, ou seja, pensamentos que nos chegam sem que o queira- momento em que recebe a tentação, a proposta do pensamento demo-
mos e pensamentos que produzimos por nossa própria vontade – pois níaco, mas inclusive antes, quando, por um livre consentimento, os
os involuntários nos chegam a partir de pecados anteriores, enquanto olhos e ouvidos da alma são obscurecidos. Como ensina Filoteu o Si-
que os voluntários provêm de nossa vontade – podemos dizer que os naíta, a razão pela qual uma pessoa olha as coisas de forma adulterada
pensamentos voluntários são as causas dos involuntários. As causas está em que “o olho interno se tornou adúltero e obscurecido”, e a ra-
dos pensamentos são as paixões, e as causas das paixões estão nas zão para querer ouvir coisas tolas é que “o ouvido da alma escuta o que
ações pecaminosas. os demônios dentro de nós nos segredam”. Se uma pessoa está interi-
ormente corrompida, o olho de seu coração está entenebrecido e desta
De modo geral, podemos dizer que os pensamentos que vêm dos de- forma os sentidos corporais exteriores também se corrompem. Por isso
mônios capturam o nous e o levam a cometer pecados por pensamentos a luta deve começar sempre interiormente.

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que muitos parem de rezar e afasta a muitos da Comunhão; ele faz com e ações. E quando esse pecado é repetido muitas vezes e o organismo
que os corpos de alguns sejam exauridos pela aflição. São João Clí- lhe adquire o hábito, passa a existir uma paixão. A partir daí, será das
maco nos adverte para que não nos vejamos como causa dos pensa- paixões, que se tornam como que feridas da alma, que nascerão os cor-
mentos de blasfêmia. Eles são as palavras do demônio que pretendem respondentes maus pensamentos. É o mesmo que acontece com as fe-
nos alienar de Deus e de sua Igreja. ridas do corpo. Algo causa um ferimento no corpo, e, como resultado
desse ferimento surge uma infecção, em consequência da qual o pro-
Os maus pensamentos são apenas o começo da guerra que o demônio blema continua e cresce cada vez mais.
trava contra nós. Um pensamento plantado pelo demônio persiste e se
desenvolve até que o pecado seja cometido e nos conduza à paixão. Em muitos pontos de seu ensinamento o Senhor menciona que os maus
Veremos a seguir esse desenvolvimento dos pensamentos malignos à pensamentos vêm do coração. “Do coração vêm os maus pensamentos,
luz da experiência dos santos Padres. os assassinatos, o adultério, a fornicação, o roubo, o falso testemunho,
a calúnia[79]”. Lucas o Evangelista menciona que uma disputa nasceu
São Máximo ensina que os pensamentos passionais que surgem das entre os discípulos de Cristo, “a respeito de qual deles seria o maior”.
paixões ocultas na alma lutam contra o nous e o obrigam a consentir “Mas quando Jesus percebeu o pensamento de seus corações, ele to-
no pecado. Quando o nous é derrotado nessa luta, “eles o conduzem ao mou uma criança e a colocou ao seu lado[80]”. Quando o Senhor apa-
pecado na mente; e quando o conseguem, eles o induzem, cativo, a receu depois da Ressurreição, ele disse aos discípulos: “Por que estão
cometer o pecado em ato”. Depois da ação, os demônios que desolaram perturbados? Por que as dúvidas surgem nos seus corações?[81]”. To-
a alma por meio de tais pensamentos se retiram, mas o espectro ou das essas passagens mostram questionamentos que surgem de dentro
ídolo do pecado permanece no nous. E assim os pensamentos mantêm do coração do homem. Com efeito, o nous é o primeiro a ser atacado
o nous cativo, e cativo o levam a pecar. Se o ídolo do pecado não for pelos pensamentos, mas quando as paixões operam no coração, por
afastado por um arrependimento intenso e duradouro, ele se torna uma meio delas o diabo tem a oportunidade de colocar seus próprios pen-
fonte de anomalias no organismo espiritual. samentos no jogo. A partir daí se diz que as questões surgem de dentro
do coração.
Em linhas gerais, é assim que se dá o desenvolvimento de um pensa-
mento intruso, e o caminho que ele faz. Mas veremos alguns detalhes O ensinamento de Diádoco de Foticéia está relacionado a isso. O co-
a respeito disso, conforme descritos pelos santos Padres. ração produz bons e maus pensamentos. Naturalmente ele não produz
O pensamento que penetrou na inteligência da alma se esforça para maus pensamentos por natureza, mas pela lembrança do mal, daquele
capturar o nous. Com esse objetivo ele produz um sentimento de prazer primeiro pecado cometido e que levou-o a criar o hábito. O coração
a fim de predispor uma ou outra paixão existente na alma. Esse estágio concebe a maior parte de seus maus pensamentos como resultado da
é chamado de tentação e não é considerado pecado. O deleite prolon- maldade dos demônios. Porém sentimos como se eles saíssem do co-
gado produzido pela paixão atrai a atenção do nous. Se o nous não se ração. O nous do homem, por ser altamente receptivo, torna seus os
afasta das delícias sugeridas, ele se sentirá atraído, e inicia uma con- pensamentos semeados nele pelos espíritos malignos. Uma vez que a
versação favorável, à qual se segue a união que desemboca no consen- carne se delicia em ser adulada com a fraude, e uma vez que existe
timento. O prazer crescente captura todo o nous, bem como a vontade, uma união entre alma e corpo, os pensamentos semeados na alma pelos

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demônios parecem vir do coração. O nous alimenta o coração, seja o cheios de perturbação e depressão, e nos atraem para si de modo se-
que for, bom ou mau, ele transmite diretamente ao coração. E como creto e sutil; pois os inimigos se fecham em peles de cordeiro, ou seja,
muitos de nós não temos experiência neste combate espiritual, e uma instilam pensamentos com a aparência de serem corretos, mas no inte-
vez que essa transmissão se dá de forma muito rápida, temos a sensa- rior dos quais estão lobos à espera”. Devemos notar que um pensa-
ção de que os pensamentos foram produzidos pelo coração. mento é capaz de evocar uma alegria que, por sua vez, provém da vai-
dade e de um coração autoindulgente. Sendo assim, os pensamentos só
Paralelamente ao diabo e às paixões, as coisas em si também engen- podem ser distinguidos por alguém que experimentou a graça do Espí-
dram pensamentos. Mas, como ensina São Gregório o Sinaíta, as coi- rito Santo e que foi lavado das paixões que estavam em sua alma.
sas em si fazem nascer pensamentos simples, enquanto que as suges- Aqueles que não possuem essa experiência devem consultar um pai
tões do demônio engendram pensamentos malignos. Portanto, a maté- espiritual experiente, porque o diabo sugere bons pensamentos, en-
ria não é ruim; o que é ruim são os vergonhosos desejos que abrigamos, quanto que ele próprio é mau.
as paixões que existem em nós e a provocação de parte dos demônios.
“Assim como é impossível evitar que um moinho gire” e deixe de moer Agora que já colocamos o que são os pensamentos e as causas que os
aquilo que lhe atiramos, também é a nossa mente: ela está em constante fazem surgir, devemos nos deter brevemente sobre os tipos de pensa-
movimento. Depende de nós darmos a ela meditações espirituais ou mentos. Os pensamentos são análogos às paixões. Para cada paixão
obras da carne. Sendo assim, quando nos ocupamos com assuntos do existe um pensamento. São Cassiano de Roma os divide em oito e ana-
mundo e com matérias da carne, quando nos dedicamos a conversas lisa a extensão de cada um deles, que são: a gula, a luxúria, a avareza,
inúteis e fúteis, “esses pensamentos de base se multiplicam em nós”. o ódio, a acídia, a preguiça, a vanglória e o orgulho.
Portanto, usar o mundo e ser do mundo não é ruim; o que é ruim é
nossa própria disposição, nossa própria vontade. São Thalassius diz que existem três pensamentos básicos: a gula, a
vanglória e a avareza. Todos os demais se seguem a estes. Esses três
Certamente, ao lado dos maus pensamentos existem os bons pensa- pensamentos correspondem às três grandes paixões gerais:
mentos, aqueles que provêm de Deus. Como podemos distinguir esses autoindulgência, amor à glória e amor às posses, as três tentações re-
pensamentos? Aqueles de nós que são iniciantes na vida espiritual de- feridas por Cristo.
vem consultar pais espirituais experientes, e em especial aqueles que
possuem o dom de discernir os espíritos. Em qualquer caso, um ensi- Mas devemos mencionar ainda um dos maiores e mais vergonhosos
namento geral é que quando um pensamento sugere algo a nós e fica- pensamentos, o da blasfêmia. São João Clímaco, reconhecendo a per-
mos alegres, é um sinal de que esse pensamento vem de Deus. Os pen- versidade e a gravidade dos pensamentos de blasfêmia, bem como o
samentos demoníacos são cheios de perturbação e depressão. São Bar- fato de que eles atacam principalmente aqueles que lutam por uma vida
sanulfo ensina: “Quando um pensamento sugere a você algo que está espiritual, devotou todo um capítulo para descrevê-los e apresentar
de acordo com a vontade de Deus, e você encontra alegria nisso, e ao métodos para se esquivar desses pensamentos. El escreveu que o pen-
mesmo tempo uma tristeza que luta contra ele, saiba que esse pensa- samento de blasfêmia provém do orgulho. Ele ataca o homem mesmo
mento vem de Deus. Os pensamentos que provêm do diabo estão durante a Liturgia, e até no momento da preparação para a Santa Co-
munhão. Ele ataca o nous e o distraídas palavras da prece. Ele faz com

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sobre a alma para rendê-la. A paixão requer um arrependimento apro- Orar com atenção limpa a mente de todas as imagens de maus pensa-
priado ou uma futura punição. mentos, e então nossa mente se torna consciente tanto das armadilhas
de nossos inimigos como dos grandes benefícios da prece e da vigilân-
Em acréscimo a essa descrição de como os pensamentos se transfor- cia. Por meio da prece o atleta da vida espiritual se torna claramente
mam em paixões, os Padres também descrevem outro desenvolvi- consciente de todo o pensamento, realiza um sóbrio estudo sobre ele,
mento: de como as paixões se desdobram com a idade. São Gregório e dessa maneira, sem deixar o pensamento agir, se conscientiza de suas
Palamas diz que as paixões se desenvolvem desde a mais tenra infân- consequências. Por isso os ascetas que têm prática nessas contendas
cia, na seguinte ordem. Primeiro vêm as paixões da parte concupis- espirituais, que não permitem a entrada de pensamentos, conhecem
cente da alma, ou seja, a possessividade e a cobiça. As crianças peque- bem a vida do pecado e a do pecado, sem precisar ter uma experiência
nas querem pegar as coisas, e logo que crescem um pouco querem di- pessoal dessas coisas.
nheiro. Mais tarde “com o avanço da idade”, desenvolvem-se as pai-
xões do amor à glória. O amor à glória é visto de duas maneiras: a Se a semente do inimigo for fogo, a esperança em Deus será a água
primeira é o amor mundano à glória, que busca “cosméticos e roupas que apaga esse fogo. O Abade João o Anão disse: “Eu me sento em
finas”, e o segundo é essa autoestima que ataca o direito e se manifesta minha cela e estou consciente dos maus pensamentos que vêm a mim,
como prepotência e hipocrisia, através da qual o inimigo trama des- e quando não tenho mais forças para lutar contra eles eu me refugio
montar a saúde espiritual da alma. Finalmente, depois da possessivi- em Deus por meio da prece e me vejo a salvo do inimigo”.
dade e do amor à glória, desenvolve-se a autoindulgência – ou seja, a
gulodice, “da qual provêm todo o tipo de impurezas da carne”. Ao Um método efetivo para se afastar dos pensamentos consistem em con-
mesmo tempo, São Gregório Palamas faz uma observação interes- fessá-los a um pai espiritual experiente. São João Cassiano dizia que
sante. Embora a autoindulgência “e outros impulsos naturais para a “assim como uma cobra que é trazida de sua cova escura para a luz se
procriação já aparecem nas crianças de peito”, essas coisas “ainda não esforça para escapar e voltar a se esconder, também os pensamentos
são indícios de uma alma doente”, pois as paixões naturais não são maliciosos que a pessoa coloca para fora numa confissão aberta e sin-
censuráveis, uma vez que foram criadas por Deus “para que, por inter- cera procuram fugir dali e da pessoa”. Nada prejudica tanto o monge e
médio delas, possamos executar as boas obras”. A paixão é má traz tanta alegria ao diabo como esconder seus pensamentos de seu pai
“quando fazemos provisões para a carne para satisfazer seus capri- espiritual. Dessa forma toda a sua vida espiritual é revirada e se torna
chos”. Resumindo, podemos dizer que, de acordo com São Gregório, um joguete nas mãos do demônio, que pode fazer o que quiser com
as paixões da possessividade e da cobiça se desenvolvem nos bebês, ela. Por isso São João Cassiano ensina que nada conduz com tanta cer-
as paixões do amor à glória surgem na infância, e só depois começam teza à salvação como confessar nossos pensamentos provados para o
as da autoindulgência. mais consciencioso dos padres e deixar-se guiar por ele, ao invés de
por nossos próprios pensamentos e juízos. “Aquele que esconde seus
É verdade que tanto as paixões do corpo como da alma são difíceis de pensamentos não pode ser curado”. Por isso ele deve confessar os pen-
discernir. Isso se deve ao fato de que os demônios que as provocam samentos persistentes e levá-los ao pai espiritual que tem a responsa-
normalmente se escondem e não conseguimos distingui-los. Por isso bilidade pela sua salvação. “Revele ao seu Abba (pai) todo pensamento
um bom terapeuta é necessário, alguém que conheça a vida interior e que tarda em você e que tenta levá-lo à luta, e ele, com a ajuda de Deus,

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poderá curá-lo”. Quando falamos em pensamentos persistentes esta- Hesíquio o Presbítero mostra em seguida o caminho que segue a pai-
mos nos referindo àqueles que não se vão apesar de nossa objeção, de xão. Primeiro vem a provocação. Em seguida nos juntamos a ela en-
nosso desprezo, de nossas orações, e que continuam a lutar contra nós, quanto nossos pensamentos se misturam com os pensamentos do de-
como os pensamentos passionais que estão unidos a alguma paixão. mônio. Então vem o consentimento, e, depois dele, “a ação concreta,
ou seja, o próprio pecado”. E, quando um pecado é repetido muitas
São João Clímaco cita o caso de um monge que ele encontrou no ce- vezes, a paixão passa a existir.
nóbio. Ele tinha um pequeno livro preso ao cinto e escrevia nele todos
os pensamentos, dia após dia, e os mostrava ao seu pastor. São Gregório Palamas, dentro da tradição Ortodoxa do tratamento te-
rapêutico, escreve que a autoindulgência é o princípio das paixões cor-
O pastor consciente pode ser iletrado de acordo com o mundo e não porais e uma doença da alma. Nesse caso, “o primeiro a sofrer é o
conhecer a sabedoria do mundo, desde que conheça a sabedoria de nous” – ou seja, ele é o primeiro a ser assaltado. Então ele coloca em
Deus. O Abade Arsênio tinha o costume de levar seus pensamentos a movimento as más paixões. Por meio dos sentidos ele leva a imagina-
um pai de grande discernimento, que, não obstante, era rude, iletrado ção das coisas sensoriais para a alma e as direciona pela os pecados. A
e pouco educado. Outro irmão lhe perguntou: “Como é possível, impressão dessas imagens vem principalmente pelos olhos.
Abade Arsênio, que você, com uma educação tão refinada em Latim e
Grego, leve seus pensamentos a este camponês?”. Ele replicou: “Eu de São João Clímaco descreve analiticamente como esse pensamento se
fato falo bem mo Latim e o Grego, mas não chego sequer a conhecer desenvolve até se transformar numa paixão. Provocação, ligação, con-
o alfabeto deste camponês”. sentimento, cativeiro, luta e paixão são coisas diferentes. Analisando
essas coisas, ele escreve que a provocação é uma palavra ou uma ima-
Quando uma pessoa aprendeu a se abrir para Deus por intermédio de gem casual simples que aparece no coração pela primeira vez. Isso não
seu pai espiritual e a expor suas feridas criadas pelos pensamentos, é pecaminoso. A ligação é a comunhão com essa primeira aparição,
bem como os próprios pensamentos, e, ao mesmo tempo, escuta seus seja com ou sem paixão. Muitas vezes esse estado não é censurável. O
conselhos, ele se liberta de cada uma dessas coisas, obtém a paz inte- consentimento é a permissão de bom grado da alma em relação àquilo
rior e conhece o que significa a paz de Cristo. que ela encontrou. Isso pode ser bom ou mau conforme a condição do
asceta. O cativeiro consiste numa “forçosa e indesejável abdução do
Conforme nos confessamos ao nosso pai espiritual, também devemos coração, uma união permanente com aquilo que ele encontrou”. O ca-
pedir por suas preces e bênçãos. São João Crisóstomo, referindo-se às tiveiro e considerado de modo diverso, dependendo se ele acontece
palavras de Cristo aos Apóstolos para que entrassem nas casas dese- durante o tempo de oração ou se em outro momento. A luta implica
jando a paz, dizia que muitas vezes, sem que ninguém nos perturbe, uma força igual àquela que produziu o ataque, ou seja, é quando a alma
ficamos agitados e em guerra com os pensamentos, e desejos ardilosos luta e batalha para não permitir que o pecado seja cometido. Essa ba-
surgem em armas. Essa batalha chama pela palavra dos santos, por talha pode receber um prêmio ou uma punição. Finalmente vem a pai-
suas bênçãos, e essas trazem a calma para o nosso interior. “Diante xão, a qual, como dissemos, é algo que “permanece oculto na alma por
dessas alocuções, todo desejo diabólico e todo pensamento oculto fo- um longo tempo”, e que, devido a um prolongado costume, prevalece
gem de nossa alma”.

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não se contentaram em simplesmente listar as paixões, mas nos relata- Conforme enfatizamos em outra parte, podemos nos afastar dos pen-
ram suas causas e seu desenvolvimento. De acordo com Thalassius, as samentos cultivando diversas virtudes. O autocontrole e o amor afas-
paixões são incentivadas por essas três coisas: “a memória, o tempera- tam os pensamentos passionais. Controlando a raiva e o desejo rapida-
mento do corpo e os sentidos”. A pessoa que fixa seu nous nas coisas mente nos livramos dos pensamentos malignos. Também as vigílias
sensoriais, afastando-se do amor espiritual e do autocontrole e acei- contribuem para tanto: “O monge vigilante é como um pescador de
tando as ações do demônio, se torna um objeto de provocação. “É pensamentos, e na calada da noite ele pode facilmente observá-los e
quando o autocontrole e o amor espiritual faltam, que as paixões são capturá-los”.
estimuladas pelos sentidos”.
Quando o reinado dos sentidos soberanos afrouxa, acontece um levante A leitura das leis de Deus e das vidas dos santos corta os pensamentos.
das paixões, “e a energia das paixões mais servis é posta em movi- Pois as palavras dos Apóstolos e dos Padres, bem como suas vidas,
mento”. Quando a irracionalidade dos sentidos perde as cadeias do au- possuem muito poder e trazem a paz à alma.
tocontrole, está criada a causa das paixões. De fato, como já observa-
mos, quando o nous do homem vadia com alguma coisa sensível, “ele Outra maneira consiste em criar bons pensamentos. Realmente, obser-
rapidamente se apega a ela por meio de alguma paixão, como o desejo, vamos antes que devemos cortar e afastar todo tipo de pensamento,
a irritação, a raiva ou o rancor”. Por isso o esforço descrito por todos inclusive os bons, especialmente no momento da prece. Mas em outros
os Padres é no sentido de não permitir que o nous seja capturado por momentos, particularmente se estivermos no começo de nossa vida es-
qualquer coisa ou ideia sensorial, porque a isso se segue imediatamente piritual, podemos cultivar pensamentos bons. Mas ainda assim deve-
a paixão e o desastre. As sementes da tragédia são lançadas ao solo da mos estar atentos para não cultivarmos fantasias através deles, porque
alma quando o nous é capturado. desse modo iremos desenvolver um tipo de espiritualidade demoníaca.
“Cultive bons pensamentos com cuidado para que você os possa en-
Igualmente, fora o aprisionamento do nous, nosso desejo desempenha contrar futuramente”. Devemos receber a tudo com um bom pensa-
um importante papel em impulsionar as paixões. São Tiago, o irmão mento. Mesmo que as coisas sejam ruins, devemos recebê-las com
do Senhor, descreve essa condição: “Cada pessoa é tentada quando se equanimidade e então Deus endireitará as anomalias das coisas.
é enganada e atraída por seu próprio desejo. O desejo, ao ser gerado, “Aceite com equanimidade e sem distinção de bem e de mal, e Deus
dá nascimento ao pecado; e o pecado, ao crescer, leva à morte[14]”. resolverá todas as desigualdades”. E sempre poderemos transformar os
Quando um irmão perguntou ao Abade Sisoé: “O que devo fazer com maus pensamentos em bons.
relação às paixões?”, o Ancião respondeu: “Cada pessoa é tentada
quando se é enganada e atraída por seu próprio desejo”. Uma das melhores maneiras de curar e dispor os pensamentos consiste
em manter nosso nous no inferno, queimando com as chamas. São Si-
Mais analiticamente, o desenvolvimento das paixões se dá como des- louane disse: “São Macário o Grande, que voava pelos ares, jamais
crito a seguir. De acordo com São Máximo, primeiramente a memória deixou de ser humilde, e, quando os demônios, distantes, gritavam de
traz para o nous um pensamento não passional. Na medida em que esse longe que ele lhes havia escapado, ele replicava que ainda não havia
pensamento persiste, a paixão se põe em movimento. O próximo passo podido se evadir deles. Ele respondia dessa maneira, porque estava
é o consentimento. E este leva a cometer o pecado em ato.

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acostumado a manter sua mente no inferno, e dessa forma ele real- elas sofrem das paixões da gula e da fornicação. Os monges, tendo sua
mente iludia os demônios. São Poêmio o Grande, escolado pela longa subsistência garantida, são devastados principalmente pelos demônios
experiência de combate contra os demônios, sabendo sobejamente que do abatimento e da ingratidão. Vemos assim que nem todos os homens
o mais perigoso e poderoso inimigo é o orgulho, lutou toda sua vida recebem as mesmas tentações. Isso depende de sua condição espiritual,
para adquirir a humildade, e dizia aos seus discípulos: ‘Estejam certos, seu estilo de vida e outros fatores. O diabo é cheio de recursos e com-
crianças, que onde estiver Satanás, ali estarei eu’. Mas no fundo de seu bate cada pessoa de acordo com sua condição.
coração, sabendo o quão bom e misericordioso é o Senhor, ele acredi-
tava que Ele o salvaria. Tornar-se humilde na sabedoria é o melhor Já apontamos que algumas paixões são apontadas como mães e outras
meio para manter a mente pura de todo pensamento passional”. como filhas: algumas paixões fazem nascerem outras, enquanto que
certas paixões são os rebentos de outras. São João Clímaco aprendeu
Pois para uma pessoa manter sua mente no inferno e para que todos os com um homem sábio que a gulodice é a mãe da falta de castidade, e
seus pensamentos queimem com as chamas infernais, é preciso um es- que a autoestima é a mãe da indiferença. Vale dizer que quando a in-
tado imbuído de arrependimento e especialmente com o grande e ar- diferença se apodera de nós, podemos estar certos de que a paixão da
dente arrependimento que é um dom da graça de Cristo. Se esta não autoestima está trabalhando para isso. Da mesma forma, o desprezo e
está presente, pelo menos a pessoa deve manter na lembrança o pensa- a raiva são filhas dessas três mencionadas. A autoestima é a mãe do
mento da morte iminente e de seu julgamento no inferno. Esse pensa- orgulho. Também é dito que nas pessoas inconsequentes não existe
mento basta para purificar o nous e libertar a pessoa da tirania dos pen- discernimento nem ordem, mas desordem e confusão. Brincadeiras
samentos. inoportunas às vezes nascem da falta de castidade, às vezes da autoes-
tima. O excesso de sono provém de uma vida fácil, mas às vezes do
Quando uma pessoa se liberta por meio de todo esse método ascético jejum, da apatia ou de uma necessidade natural. O tagarelar nasce às
da tirania dos pensamentos, e tanto o seu nous como o coração estão vezes da gulodice, às vezes da autoestima. A indiferença pode nascer
puros, então ela se enche com a energia do Espírito Santo e experi- da vida fácil ou da falta de temor a Deus. A blasfêmia é propriamente
menta a cura de sua alma. A alma se livra de todas as suas feridas e se filha do orgulho, mas às vezes surge da prontidão em condenar o pró-
torna um templo para a Santíssima Trindade. A pessoa se torna um ximo ou inveja inoportuna dos demônios. A falta de coragem pode
verdadeiro sacerdote da graça de Deus e recebe uma antecipação dos provir de comer até a saciedade, mas, mais frequentemente, deriva da
bens do Reino dos Céus. Este é o homem verdadeiro e natural, o ho- insensibilidade e do apego. O apego, que consiste numa adesão a al-
mem tornado divino pela graça. guma coisa sensível, provém da falta de castidade, da avareza e da au-
toestima, entre outras coisas. A malícia provém do convencimento e
da raiva. A hipocrisia vem da independência e do autodirecionamento.
De modo geral, o prazer sensual e a malícia são os geradores das pai-
[1] Mateus 6: 23. xões.
[2] I Coríntios 2: 16.
[3] Romanos 14: 5. É importante agora que investiguemos de que modo um pecado se
[4] Mateus 24: 15. transforma numa paixão. Os Padres, especialistas nessa luta interior,

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parte inteligente se subdividem em imaginação e razão. Todas elas po- [5] I Timóteo 6: 5.
dem ser voluntárias, resultantes do abuso, ou involuntárias, da neces- [6] II Timóteo 3: 8.
sidade. Essas também são chamadas de paixões não vergonhosas, que [7] Colossenses 3: 18.
os Padres descrevem como sendo causadas pelo ambiente e por carac- [8] Romanos 1: 28.
terísticas e disposições naturais. Algumas paixões são do corpo, outras [9] Efésios 4: 17.
da alma; algumas são da parte concupiscente, outras da parte irascível, [10] Tito 1: 5.
outras da inteligente, algumas do nous e outras da razão. Todas podem [11] II Coríntios 4: 10.
combinar entre si de várias maneiras e afetar umas às outras: as corpo- [12] Lucas 24: 45.
rais sobre as concupiscentes, as da alma sobre as irascíveis, as da inte- [13] Jó 26: 10.
ligência sobree o nous e as do nous sobre as paixões da razão e da [14] Lucas 11: 35.
memória”. [15] Lucas 17: 21.
[16] Salmo 64: 6.
Independentemente da enumeração e da divisão das paixões, devemos [17] I Pedro 3: 4.
observar que as paixões não estão separadas umas das outras como em [18] I Pedro 3: 15.
compartimentos. Cada uma está intimamente ligada às demais, de [19] II Pedro 1: 19.
modo a que a pessoa se encontre completamente corrompida e conde- [20] I Pedro 3: 4.
nada. Por causa das paixões da alma se torna doente e o nous definha. [21] Lucas 17: 20.
Assim, a pessoa se torna idólatra e já não pode herdar o Reino dos [22] Mateus 15: 19.
céus. O Apóstolo Paulo é claro e categórico a respeito: “Estejam certos [23] II Coríntios 3: 2-3.
disso, que nenhum homem imoral ou impuro, nenhum que seja ava- [24] Atos 5: 3.
rento – pois o avarento é um idólatra – terá a menor herança no Reino [25] João 13: 2.
de Cristo e de Deus[13]”. [26] Mateus 15: 19.
[27] Gálatas
Existe ainda outra divisão entre as paixões, desta vez entre monges e [28] Romanos 5: 5.
pessoas do mundo. Uma vez que o modo de vida dos monges que pra- [29] Efésios 3: 7. 4: 6.
ticam o ascetismo nos mosteiros é diferente do das pessoas do mundo, [30] Romanos 5: 5.
algumas paixões dominam numa situação e outras na outra. São João [31] Romanos 2: 15.
Clímaco escreve que nas pessoas que vivem no mundo a raiz de todos [32] I Coríntios 2: 16.
os males está na avareza, mas entre os monges está na gula. Para ex- [33] I Pedro 3: 15.
plicar isso ele observa que algumas paixões começam de dentro e se [34] Efésios 5: 19.
manifestam no corpo, enquanto outras vêm de fora para o interior da [35] Lucas 24: 32.
alma. As primeiras cometem os monges, “devido à falta de estímulos [36] II Coríntios 1: 22.
exteriores”, enquanto o segundo caso costuma ser encontrado entre [37] II Coríntios 3: 2-3.
aqueles que vivem no mundo. Quando as pessoas do mundo adoecem, [38] II Coríntios 4: 6.

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[39] Gálatas 4: 6. insensato, o medo, a covardia, a turbulência, o ciúme, a inveja, a auto-
[40] Efésios 1: 17-18. estima, o orgulho, a hipocrisia, a falsidade, a descrença, a cobiça, o
[41] Colossenses 3: 15. amor pelas coisas materiais, os maus desejos, a ligação com os inte-
[42] João 13: 2. resses mundanos, a apatia, o desencorajamento, a ingratidão, os quei-
[43] II Coríntios 3: 15. xumes, a vaidade, a empáfia, a pomposidade, a ostentação, o amor ao
[44] Atos 7: 51. poder, o amor à popularidade, a fraude, a falta de vergonha, a insensi-
[45] Romanos 2: 5. bilidade, a bajulação, a perfídia, a pretensão, a indecisão, “a aquies-
[46] Hebreus 3: 8. cência em relação aos pecados originários da parte concupiscente da
[47] Marcos 6: 52. alma e que passam a se estabelecer nela permanentemente”. E ainda
[48] Marcos 8: 17. os pensamentos divagantes, a filáucia, a avareza – raiz e fonte de todos
[49] Marcos 3: 5. os males – e, finalmente, a malícia e a trapaça.
[50] Mateus 5: 28.
[51] Romanos 1: 21. As paixões do corpo, de acordo com São João Damasceno, são a gulo-
[52] Atos 8: 21. dice, a ganância, a autoindulgência, a embriaguez, comer escondido,
[53] Mateus 5: 8. uma vida fácil, a falta de castidade, o adultério, a licenciosidade, a im-
[54] Salmo 51: 17. pureza, o incesto, a pederastia, a bestialidade, os desejos impuros e
[55] Mateus 26: 6-13. todas as paixões brutais e antinaturais, o roubo, o sacrilégio, o furto, o
[56] Mateus 25: 28. assassinato, todo tipo de luxúria física e de gratificação dos caprichos
[57] Mateus 11: 22. da carne, em especial quando o corpo está com boa saúde. Outras pai-
[58] Atos 14: 22. xões corporais são: consultar oráculos, lançar sortes, buscar presságios
[59] Salmo 102: 4. e agouros, enfeitar-se, ostentar, exibir-se ridiculamente, usar cosméti-
[60] Cf. João 11: 1-44. cos, pintar o rosto, perder tempo, sonhar acordado, trapacear, além do
[61] Lucas 12: 49. mau uso passional dos prazeres deste mundo. Outras paixões consis-
[62] Lucas 24: 32. tem numa vida dedicada ao conforto corporal, “que embrutece o nous
[63] I Coríntios 4: 5. e o torna rude e animalesco, não o deixando se erguer em direção a
[64] II Pedro 1: 19. Deus e à pratica das virtudes”.
[65] Hebreus 12: 29.
[66] Lucas 8: 44. São Gregório do Sinai resume todo o ensinamento dos Padres sobre as
[67] Mateus 5: 8. paixões do corpo e as da alma. Ele escreve: “As paixões recebem di-
[68] Tiago 4: 8. ferentes nomes, mas elas se dividem entre as paixões da alma e as do
[69] I Pedro 1: 22. corpo. As paixões corporais são subdivididas entre as dolorosas e as
[70] Efésios 5: 19. pecaminosas; as dolorosas se subdividem entre as relativas às enfermi-
[71] Colossenses 3: 15. dades e as referentes à punição. As paixões da alma se dividem entre
[72] Mateus 7: 1. aquelas irascíveis, as concupiscentes e as da parte inteligente. As da

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É bem conhecido no ensinamento patrístico que antes da queda a alma [73] Mateus 5: 3.
humana estava aberta para Deus e era alimentada com a graça de Deus. [74] Mateus 5: 8.
Certamente, o homem sempre teve que lutar para alcançar a total co- [75] II João 9.
munhão e união com Deus, mas nesse tempo ele provava da graça de [76] I Coríntios 8: 3.
Deus. A alma se nutria da graça incriada e o corpo se alimentava por [77] I Coríntios 2: 8.
meio da “alma cheia de graça”. Todo o homem experimentava os dons [78] I Coríntios 2: 14.
de Deus. Desde a queda, a alma, separada de Deus, a verdadeira fonte [79] Mateus 15: 19.
da vida – “buscou alimento no corpo. E assim nasceram as paixões (...) [80] Lucas 9: 46 ss.
Por seu lado, o corpo, não encontrando vida na alma, se voltou para as [81] Lucas 24: 38.
coisas exteriores, e, como é natural, se tornou escravo da matéria e [82] II Timóteo 4:5.
prisioneiro do ciclo de corrupção. Então apareceram as paixões do
amor ao prazer corporal, por cuja causa o homem passou a tentar diri-
gir sua vida no sentido de desfrutar das coisas materiais”. Nisso con-
siste a morte do corpo, e, especial, da alma. Se, por outro lado, por
meio do ascetismo e da vida em Cristo, nos esforçamos para voltarmos
nossa alma para Deus para sermos alimentados por ele, o corpo voltará
a ser alimentado pela “alma cheia de graça” e então todo o homem será
santificado. Vemos isso nos santos da Igreja, nos quais às vezes as fun-
ções corporais estão suspensas.

De acordo com São Máximo, algumas paixões pertencem ao corpo, e


outras à alma. As paixões corporais são ocasionadas pelo corpo, en-
quanto que as da alma são ocasionadas pelos objetos exteriores. En-
contramos a mesma distinção entre as paixões nos ensinamentos de
Elias o Presbítero, que diz: “As paixões do corpo são uma coisa, as da
alma outra”.

São João Damasceno desenvolveu uma lista das paixões do corpo e da


alma. As da alma são o esquecimento, a preguiça e a ignorância, por
meio das quais o olho da alma se obscurece e a alma é dominada pelas
demais paixões. Estas são a impiedade, os falsos ensinamentos e todo
tipo de heresias, a blasfêmia, o ódio, a raiva, o azedume, a irritabili-
dade, a desumanidade, o rancor, a calúnia, o criticismo, o desânimo

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Essa diferença entre os três Padres não é essencial. A filáucia, o esque-
cimento, a preguiça e a ignorância de Deus são o clima favorável no
qual todas as paixões de amor à glória, avareza e autoindulgência se
desenvolvem. Cada um dos Padres, conforme sua luta pessoal e de
acordo com o tema que ele desejava enfatizar, sublinhou uma paixão
diferente. Os Padres não estavam filosofando ou analisando todas as
almas quando listaram essas paixões, mas cada um falava de sua expe-
riência pessoal. Mas devemos em primeiro lugar enfatizar que a filáu-
cia está estreitamente ligada à ignorância, ao esquecimento e à pre-
guiça, porque voltar a atenção para si próprio inevitavelmente traz o
esquecimento e a ignorância de Deus, o que resulta no nascimento de
todos os demais pecados – as paixões.

De acordo com São João Damasceno, a alma possui três partes: a inte-
ligente, a irascível e a concupiscente. Os pecados da parte inteligente
são a descrença, a heresia, a insensatez, a blasfêmia, a ingratidão, e “a
aquiescência em relação aos pecados originários da parte concupis-
cente da alma”. Os pecados da parte irascível são a crueldade, o ódio,
a falta de compaixão, o rancor, a inveja, o assassinato e “a permanência
em meio a essas coisas”. Os pecados da parte concupiscente são a gu-
lodice, a cobiça, a embriaguez, o despudor, o adultério, a impureza, a
licenciosidade, o amor pelas coisas materiais e o desejo de glória, de
ouro, de saúde e dos prazeres da carne. O mesmo santo lista ainda os
oito pensamentos que cercam o mal, e que estão naturalmente ligados
às correspondentes paixões, uma vez que é por intermédio dos pensa-
mentos que os pecados chegam a existir e se desenvolvem em paixões.
Os oito pensamentos são a gula, a luxúria, a avareza, o ódio, o desâ-
nimo a indiferença, a autoestima e o orgulho.

Depois de examinarmos a divisão das paixões que é análoga às divi-


sões da alma, devemos agora observar outra divisão que encontramos
nos ensinamentos patrísticos. Aqui as paixões são dividias entre as do
corpo e as da alma. A alma tem suas paixões, e o corpo tem as paixões
que se relacionam com a carne.

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orgulho, autoestima, pavonear-se, avareza, tirania, dar-se ares, osten-
tação, insensatez, frenesi, presunção, convencimento, desdém, insulto, Psicoterapia Ortodoxa - Capítulo IV
impiedade, frivolidade, dissolução, licenciosidade, ostentação, incon-
sequência, estupidez, violência, sarcasmo, tagarelice, palavras inopor-
tunas e indecentes, e todas as coisas do gênero”. Na segunda categoria,
ele coloca as seguintes paixões: “ira, inveja, ódio, inimizade, rancor, 1. Patologia Ortodoxa
prepotência, difamação, injúria, lamentação, desconfiança, desespe-
rança, menosprezo da providência, indiferença, apatia, abatimento, de- João Evangelista, no preâmbulo de sua descrição da cura milagrosa
pressão, desencorajamento, luto intempestivo, lágrimas, melancolia, que o Senhor fez do paralítico, nos deu uma descrição da piscina de
queixas, ciúmes, maldade e todas as demais disposições que não dão Bethesda e da situação que acontecia ali durante a visita do Senhor.
Bethesda possuía cinco pórticos. “Nesses ficava uma grande multidão
ocasião ao prazer”.
de doentes, cegos, coxos, paralíticos, esperando pela subida da
São Gregório Palamas cria outra divisão. Na seção anterior nós enfati- água[1]”.
zamos que a alma se divide em três partes, a inteligente, a irascível e a
concupiscente. O primeiro fruto da irascível parte é o amor às posses- Também a Igreja é uma Piscina, a Bethesda espiritual. Todos nós, seus
sões e o segundo é a avareza. O fruto da parte inteligente da alma é o membros, derrotados pela morte e a decadência, pela corruptibilidade
amor à glória, e a marca característica da parte concupiscente é a gu- e a mortalidade com todas as suas consequências, esperamos junto a
lodice, da qual provêm “todas as imundícies da carne”. Em outras pa- essa Piscina, esperando por nossa cura espiritual.
lavras, da filáucia, que é a senhora e a mãe de todas as paixões, nascem
São João Crisóstomo interpreta o milagre realizado pelo Senhor em
as três paixões gerais, o amor à glória, a avareza e a autoindulgência.
Bethesda. Ele levanta a questão: “Que modo de cura é este? Que mis-
Dessas três nascem todas as demais que corrompem a alma e o corpo
tério está sendo insinuado a nós?”. Ele responde que a piscina figura e
do homem.
tipifica o que acontecerá no futuro, que será de fato o batismo. “Ele
São Marcos o Asceta, esforçando-se para avaliar as paixões e para en- estava a ponto de ministrar o batismo, que tem muito poder e consiste
contrar as mães que fazem com que nasçam umas e outras, escreve que num grandíssimo dom, o batismo que lava de todo pecado e traz o ho-
existem três que são gigantes, e que quando essas três são vencidas e mem à vida, depois de ter estado morto”.
expulsas, todos os demais poderes dos maus espíritos são facilmente
Dado que o batismo é o Mistério (sacramento) “introdutório”, por meio
removidos. Esses três gigantes são a ignorância espiritual, que é a fonte
do qual se entra para a Igreja, podemos estender o simbolismo para
de todo o mal, o esquecimento, ou negligência, “seu parente próximo
dizermos que a Igreja é a Bethesda espiritual, um sanatório e um hos-
e ajudante”, e a preguiça, que “tece a mortalha escura que envolve a
pital espiritual. Todos os Cristãos, tendo experimentado o amor e a
alma nas trevas”. Preguiça, esquecimento e ignorância, “sustentam e
caridade de Deus para com a humanidade, ao mesmo sentem sua pró-
fortalecem as demais paixões”.
pria pobreza espiritual. Devido ao fato de que Deus lança uma luz so-
bre a nossa condição interior, podemos ver a força das paixões em nós

244 233
e a lei do pecado em nossos membros. Por isso nos sentimos doentes. rozes, odiadores do bem, traiçoeiros, inconsequentes, inchados de van-
Essa sensação é o começo da cura, ou, para nos expressarmos melhor, glória, amantes dos prazeres mais do que de Deus, propagando uma
é o começo da visão de Deus, uma vez que o arrependimento e a aflição religião formal e negando a força que a verdadeira religião pos-
interior são impossíveis num homem carnal. Apenas quem partilha da sui[12]”.
graça de Deus experimenta essa realidade interior.
Os três textos mencionados mostram toda a situação do homem que
Os hospitais possuem clínicas patológicas especializadas. E a Igreja, está distante de Deus. Trata-se de um verdadeiro psicograma, uma sig-
que é o hospital espiritual, o sanatório espiritual, possui sua própria nificativa visão de raios-X da alma do homem que é governado pelas
clínica patológica. Não queremos criar confusão a respeito desses ter- paixões. Mas devemos agora prosseguir na análise das obras patrísti-
mos, mas acreditamos firmemente que o estudo das paixões e uma pa- cas.
tologia. Sendo assim, iremos nos deter agora longamente sobre o tema
das paixões. Devemos definir ‘paixão’, estabelecer distinções entre as De acordo com São Máximo, a paixão básica da qual todas as demais
paixões, e então examinar de forma tão analítica quanto possível a cura se originam é o amor por si mesmo. Um homem ama a si mesmo que
das paixões. o faz excessivamente e idolatra a si próprio. Quando a atenção de uma
pessoa é desviada de Deus e ela se desinteressa de se unir a Ele e a
Essa explicação é necessária porque ela constitui o ethos Ortodoxo. fazer Sua vontade, ela necessariamente se volta para si mesma, dese-
Estamos convencidos de que o que é dito a respeito de ser Ortodoxo jando satisfazer seus desejos todo o tempo. “Proteja-se contra a mãe
deve incluir diversos elementos básicos. O primeiro se refere à queda de todos os vícios, o amor por si mesmo”, diz São Máximo. Definindo
do homem da vida divina, e à tragédia de seu estado decaído. Assim, esse amor, ele diz que se trata de um “amor demente pelo corpo”. É
devemos falar de um renascimento por meio do santo batismo, e da ele que origina as “três paixões gerais dos pensamentos passionais”,
continuação desse renascimento que prossegue na Igreja. O ensina- que são a gulodice, a avareza e a autoestima. “Todos os demais vícios
mento sobre o renascimento não será Ortodoxo se implicar um evento se originam desses três”.
momentâneo que acontece fora da fé em Cristo, porque o renascimento
acontece ao longo de toda a nossa vida, e não existem limites à perfei- Em outra passagem, apresentando as terríveis consequências do amor
ção, a qual não conhece fronteiras. Temos o caso do Apóstolo Pedro, por si mesmo, ele o chama de mãe de muitas filhas. A tagarelice e a
a quem foi dado ver a Luz incriada no Monte Tabor. Seus olhos foram glutoneria causam a intemperança. A avareza e a autoestima fazem
transformados e ele pôde ver a glória do Senhor. Mesmo assim, poucos com que a pessoa deteste seu próximo. O amor a si próprio, também
dias depois, ele negou a Cristo. Certamente, o grande momento da Te- chamado ‘filáucia’, é a causa de ambas essas coisas.
ofania o levou ao arrependimento e ao pranto. De qualquer modo, ob-
servamos aqui que o poder da lei do pecado era tão forte que o levou à Em sua carta a Thalassius, São Máximo detalha a descendência da fi-
queda mesmo depois de ter certeza sobre a Divindade de Cristo. Pode- láucia, que ele distribui em duas categorias. Numa categoria estão as
se considerar como uma circunstância mitigatória o fato de que quando paixões que levam ao prazer sensual e na outra aquelas que afastam a
dor. Na primeira categoria ele coloca as seguintes paixões: “gulodice,

234 243
tempo, tentaremos empreender uma lista delas, porque acreditamos Pedro viu a glória do Senhor, isto se deu antes do Batismo que viria a
que isso pode auxiliar os Cristãos que estão lutando a boa luta. Se qui- acontecer no dia de Pentecostes. A natureza do Apóstolo ainda não
sermos nos curar das paixões, precisamos diagnosticá-las. havia sido empoderada pela energia do Espírito Santo.

O ensinamento sobre as paixões é encontrado não apenas nos escritos O mesmo podemos dizer do Apóstolo Paulo. Apesar de sentir sua co-
patrísticos, mas também da munhão próxima a Cristo, a tal ponto de dizer: “Não sou mais eu quem
Sagrada Escritura. O Apóstolo Paulo fala da carne. É bem conhecido vive, mas Cristo vive em mim[2]”, ele disse também, expressando toda
que, de acordo com o Apóstolo, o homem carnal é aquele desprovido a dor da humanidade: “Eu vejo outra lei em meus membros, que faz a
das energias do Espírito Santo. “Os desejos da carne vão contra o es- guerra contra a lei de minha mente, e me conduz ao cativeiro da lei do
pírito e os desejos do espírito vão contra os da carne; porque eles se pecado que está em meus membros. Pobre homem sou eu! Quem me
opõem mutuamente[9]”. Então ele descreve as obras da carne, que são libertará deste corpo de morte?[3]”.
as paixões carnais: “As obras da carne são bem conhecidas: imorali-
dade, impureza, idolatria, licenciosidade, feitiçaria, inimizade, con- A seguir tentaremos lançar um olhar sobre essa lei do pecado, a “outra
flito, inveja, ódio, egoísmo, dissensão, divisão, cobiça, assassinatos, lei”. Acreditamos que este capítulo a que denominamos ‘Patologia’
embriaguez, desregramento e coisas assim. Eu os aviso, como já avisei será um dos mais básicos deste libro. Em alguns pontos tentaremos ser
antes, que aqueles que fazem essas coisas não herdarão o Reino de mais analíticos, listando as paixões conforme Cristo, os Apóstolos e os
Deus[10]”. Padres as apresenta, porque queremos apontar a temível realidade que
nos flagela e da qual, infelizmente, permanecemos a maior parte do
Em sua carta aos Romanos o Apóstolo Paulo lista as obras do pecado, tempo inconscientes.
as paixões, que infestam toda a nossa existência. Referindo-se àqueles
que abandonaram a Deus para adorar os ídolos, ele escreve: “E uma 1.1 . O que são as paixões
vez que eles desertaram do conhecimento de Deus, Deus lhes deu uma ‘Paixão’ deriva do verbo grego ‘pascho’, ‘sofrer’, e indica uma molés-
mente estreita e incapaz de conduzi-los. E eles se encheram com todo tia interior. De acordo com Filoteu o Sinaíta: “A paixão, no sentido
tipo de fraquezas, males, avareza, malícia. Encheram-se de cobiça, as- estrito, é definida como sendo aquilo que se embosca ardentemente
sassinato, conflitos, fraudes, malignidades, eles são fuxiqueiros, difa- dentro da alma por um longo período”. A seguir veremos como um
madores, odeiam a Deus, insolentes, arrogantes e vaidosos, inventores pecado se torna uma paixão. Aqui queremos sublinhar particularmente
do mal, desobedientes a seus pais, estúpidos, infiéis, sem coração, im- o fato de que quando um pecado é repetido costumeiramente e se to-
piedosos[11]”. caia em nossa alma por um longo período, ele passa a se chamar ‘pai-
xão’. Os Padres foram longe na interpretação das diferenças entre pai-
Ele descreve ao seu discípulo Timóteo a condição das pessoas “nos
xão e pecado. Paixão é “o movimento que tem lugar na alma”, en-
últimos dias”. “Os homens amarão apenas a si próprios, adoradores do
quanto que a prática pecaminosa “é aquela que se manifesta no corpo”.
dinheiro, orgulhosos, arrogantes, abusadores, desobedientes aos pais,
ingratos, ímpios, desumanos, implacáveis, caluniadores, dissolutos, fe-

242 235
O Senhor explicou seu ensinamento sobre a paixão em muitos pontos, São Gregório Palamas ensina que do mesmo modo como o mau uso do
que estão relatados nos Evangelhos. Vamos sublinhar algumas passa- conhecimento das coisas criadas gera “a sabedoria tola”, também o
gens aqui, e voltaremos a elas mais adiante. Em resposta à pergunta do mau uso das potências da alma geram “paixões terríveis”.
Fariseu: “Porque seus discípulos não caminham de acordo com a tra-
dição dos antigos e comem o pão sem lavar as mãos?”, o Senhor dirigiu Que as paixões consistem num impulso antinatural das potências da
a atenção para o homem interior: “Do interior, do coração do homem, alma, um desvio das partes passional e inteligente da alma para longe
provêm os maus pensamentos, a fornicação, o roubo, o assassinato, o de Deus e em direção das coisas criadas, fica demonstrado pelo fato de
adultério, a cobiça, a maldade, a fraude, a luxúria, a inveja, a calúnia, que quando um homem está curado interiormente pela ação da graça
o orgulho, a insensatez. Todas essas coisas vêm de dentro e corrompem divina e por sua própria luta, as potências passionais da alma não são
o homem[4]”. suprimidas, nem obliteradas, mas se voltam para Deus; elas correm
para ele e alcançam o conhecimento e a união com ele. São Gregório
Interpretando a parábola do semeador e se referindo especialmente à Palamas, referindo-se a Barlaam, que sustentava que a dor e a tristeza
semente que caiu “entre os espinheiros”, Ele disse que as paixões são não pertenciam à oração, mas que as potências passionais, por serem
aquilo que sufoca a semente e não a deixa produzir. “Aquela semente más, deveriam ser mortificadas durante a prece, ensinou que “existem
que caiu entre os espinheiros, representa aqueles que ouvem, mas as- paixões benditas e atividades comuns do corpo e da alma que, longe
sim que se afastam são sufocados pelos cuidados, as riquezas e os pra- de amarrarem o espírito à carne, servem para guiar a carne a uma dig-
zeres da vida, e não conseguem produzir fruto[5]”. nidade próxima àquela do espírito”. Essas atividades são espirituais,
não se movendo do corpo para o nous, mas do nous para o corpo. Por
O Apóstolo Paulo também sabe que as paixões existem no coração do isso, quando tentamos obter a cura, não mortificamos as paixões, mas
homem. Falando da condição anterior ao Batismo, que ele chama de as redirecionamos, como explicaremos adiante. As lágrimas, a tristeza,
vida carnal, ele escreve: “Enquanto vivemos na carne, nossas paixões o arrependimento e a dor, que são maneiras efetivas de curar a alma,
pecaminosas, estimuladas pela lei [do pecado] operavam em nossos são as coisas que purificam as partes passional e inteligente da alma.
membros para produzir o fruto da morte[6]”. Descrevendo a vida dos
idólatras infiéis, ele escreve: “Por essa razão Deus deu a eles paixões Encerrando esta seção queremos enfatizar principalmente que as pai-
desonrosas[7]”. xões do corpo são energias distorcidas da alma. Quando a alma perde
o amor e a temperança, as paixões das partes irascível e concupiscente
Assim é que as paixões sufocam nossa alma e criam terríveis proble- da alma ficam distorcidas. E essas paixões são estimuladas por inter-
mas para todo o nosso ser, como poderemos constatar a seguir. De médio dos sentidos. As paixões da vida carnal, no sentido da ausência
acordo com o ensinamento de São Gregório Palamas, uma pessoa que do Espírito Santo, se colocam num movimento antinatural da alma, e
ama o delito detesta sua própria alma, deixa de lado e “desliga” a ima- então resta apenas a agonia, a doença e a morte.
gem de Deus – ou seja, sua alma – e “experimenta um sofrimento se-
melhante ao do louco que impiedosamente corta sua própria carne em 1.2 . Tipos de paixão e seu desenvolvimento
pedaços, sem sentir”. Como um louco, ele “inflige inconscientemente
a pior espécie de mal e destroça sua própria beleza inata”. A paixão é Agora que vimos o que são as paixões, estamos prontos para observar
como elas se classificam e de que modo se desenvolvem. Ao mesmo
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adquire o bendito estado do amor, uma vez que Deus é Amor. A Sa- o obscurecimento, a desativação e o embaciamento da imagem, da be-
grada Escritura diz: “Ame ao Senhor seu Deus com todo o seu coração, leza de Deus.
com toda a sua alma, com toda a sua mente, com toda a sua força[8]”.
Quando uma pessoa usa as três potencias de sua alma de forma antina- Para falarmos das paixões, devemos colocar com mais precisão o que
tural, os resultado da inteligência é a ignorância espiritual, do desejo é são elas. Serão forças que penetram na alma e que devemos empurrar
o amor-próprio e da irascibilidade é a tirania. Então a pessoa se torna para fora, ou serão potências naturais da alma que foram corrompidas
completamente escrava do diabo, e a beleza da alma é destruída. pelo pecado e por nosso afastamento de Deus? Toda a tradição bíblica
e patrística acredita na segunda hipótese. Por isso, a seguir examinare-
Em outra passagem São Máximo analisa no que consiste o mau uso. O mos a alma e suas partes para que possamos determinar de que modo
mau uso da inteligência é a ignorância e a estupidez. O mau uso da ira essas potências foram corrompidas.
e do desejo são o ódio e a licenciosidade. O uso apropriado dessas po-
tências produz o conhecimento espiritual, o julgamento moral, o amor Além dessas divisões, São Gregório Palamas, Arcebispo de Tessalô-
e o comedimento. É porque nada do que foi criado por Deus é mau. O nica, também emprega a divisão da alma estabelecida ao tempo dos
fato de que nada do que é natural é mau significa que o mau só existe antigos filósofos Gregos. A alma do homem é uma, embora possua
quando as potências em nós são distorcidas. São Máximo emprega muitas potências. Ela é dividida em três partes: a inteligência, a potên-
muitos exemplos. Não são os alimentos que são maus, mas a gulodice, cia concupiscente e a potência irascível, sendo que estas últimas cons-
não a geração, mas a luxúria, não as coisas materiais, mas a avareza, tituem a parte chamada de ‘passional’ da alma, enquanto que a palavra
não a estima, mas a autoestima. está na inteligência. Desta forma, na medida em que avançarmos no
tema das paixões, quando falarmos da parte passional da alma que foi
O mau uso das potências da alma é o pecado e a doença. O vício, de corrompida e precisa ser curada, devemos entender com isto as potên-
acordo com São Doroteus, “é uma doença da alma despojada de sua cias concupiscente e irascível. Podemos acrescentar ainda aos ensina-
saúde natural, que é a virtude”. mentos desses dois grandes Padres da Igreja, o de São Doroteus, o
qual, usando a passagem de São Gregório o Teólogo, escreve que a
Por isso falamos de uma moléstia humana que precisa ser curada. Pois alma é tripartite: “Ela possui o apetite concupiscente, a irascibilidade
a impureza da alma é o fato de que ela “não está funcionando de acordo e a inteligência”.
com a natureza”, e essa condição gera pensamentos passionais no Essas três potências devem estar voltadas para Deus. Essa é sua con-
nous. O estado natural da alma humana, que é a saúde por excelência, dição natural. De acordo com São Doroteus, que concorda com
aparece quando, diante de provocações, suas partes passionais – ou Evagro, “a alma inteligente trabalha naturalmente quando seu apetite
seja, as partes irascível e concupiscente – permanecem impassíveis. E concupiscente se volta para a virtude, sua irascibilidade se esforça
uma vez que a alma humana é uniforme e possui muitas potências, por nessa direção e a inteligência se devota inteiramente à contemplação
essa razão, quando uma potencia da alma adoece todo o resto cai com das coisas”. E São Thalassius escreve que a função própria da parte
ela. inteligente da alma é a devoção ao conhecimento de Deus, enquanto
que a função da parte passional (concupiscente e irascível) consiste na
busca do autocontrole e do amor. Nicholas Cavasilas, referindo-se a

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esse tema, concorda com esses Padres e diz que a natureza humana foi Senhor e com o objetivo de fazermos o bem ao nosso próximo. A na-
criada para o homem novo. Nós recebemos a razão “para que possa- tureza nos deu o ressentimento, mas para nos voltarmos contra os ini-
mos conhecer a Cristo, e nosso desejo para que possamos nos apressar migos de nossas almas. Temos um desejo natural pelo alimento, mas
indo a ele. Nós temos a memória para que O tenhamos sempre junto a não para o desregramento.
nós”, uma vez que Cristo é o Arquétipo para o homem.
Por essa razão os Padres enfatizam constantemente a verdade de que
De acordo com o exposto acima, o homem não foi formado com as as paixões, tais como as conhecemos no estado decaído, constituem
paixões tais como elas funcionam hoje em dia no homem de carne, que uma vida desnaturada, um impulso que vai contra a natureza. “Uma
não possui as operações do Espírito Santo. As paixões não possuem paixão culpável é um impulso da alma contrário à natureza”. Ao ex-
essência nem hipóstases. Do mesmo modo como a escuridão não pos- plicar o que é esse impulso desnaturado da alma, São Máximo o chama
sui uma essência própria, mas é a ausência de luz, também assim é a de “um amor ou um ódio insensato por alguém ou por alguma coisa
paixão. “Foi ao se inclinar das virtudes para o amor ao prazer que a sensível”. Em outra passagem ele escreve que o vício é um uso errado
alma preparou o caminho para as paixões e deu a elas um lugar firme das nossas imagens conceituais das coisas, que leva ao uso disfuncio-
em si mesma”. Podemos esclarecer melhor isso dizendo que as paixões nal das próprias coisas. Tomando o exemplo do casamento, ele diz que
são as perversões das potências da alma. Deus não formou o homem o uso correto do relacionamento sexual é a geração dos filhos. Uma
com as paixões da desonra. Como diz São João Clímaco, “o mal ou a pessoa que procura nisso apenas o prazer “usa mal essa dádiva, porque
paixão não são algo de natural implantado nas coisas. Deus não foi o julga bom aquilo que não o é. Quando uma homem se relaciona com
criador das paixões. Por outro lado, existem muitas virtudes naturais uma mulher dessa maneira, ele abusa dela”. O mesmo é verdade em
que vieram até nós provenientes dele”. A presença das virtudes é o relação a outras coisas.
estado natural do homem, enquanto que as paixões são uma condição
desnaturada. Nós alteramos e pervertemos as energias da alma e as A parte inteligente da alma do homem decaído é dominada pelo orgu-
desviamos de seu estado natural para um estado não natural. De acordo lho, a parte concupiscente pelas perversões da carne e a parte irascível
com São João Clímaco, Deus não causou nem criou o mal. “Nós to- pelas paixões do ódio, da aversão e do rancor.
mamos por nós mesmos os atributos naturais e os transformamos em
paixões”. O mesmo santo nos fornece outros exemplos para deixar isso São Máximo, que estava interessado na vida natural e antinatural da
bem claro: “A semente da geração” é natural em nós, mas nós a per- alma, analisou-as exaustivamente. As potências naturais da alma, es-
vertemos em fornicação. A aversão que Deus nos concedeu contra a creve ele, são a inteligência, o desejo e a potência irascível. O uso na-
serpente, para que fizéssemos a guerra contra o diabo, é natural, mas tural da inteligência “consiste num movimento em direção a Deus
nós a utilizamos conta nosso vizinho. Temos um ímpeto natural de numa busca simples”, o do desejo, é “ansiosa e solitária marcha para
exercer a virtude, mas ao invés disso competimos no mal. A natureza Deus”, e a da potência irascível é “a luta para alcançar somente a
colocou em nós um desejo de glória, mas de uma glória celeste, para a Deus”. Vale dizer que, quando uma pessoa vive naturalmente, ela de-
alegria das bênçãos celestiais. É natural que sejamos arrogantes – mas, seja conhecer a Deus completamente, ela só deseja a Deus e ela luta
contra os demônios. A alegria é nossa por natureza, mas por causa do para alcançar a Deus, ou seja, para atingir a comunhão com Deus. O
resultado desse impulso natural é o amor. A pessoa que se une a Deus

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se lamentar a respeito da desonra que sofrera, de modo que simulando que seja um vaso do Espírito Santo de modo a discernir e curar. Esse
uma paixão ele se manteve impassível. discernimento é um dos grandes dons da graça do Espírito Santo. São
João Clímaco, referindo-se ao exemplo de que quando retiramos mui-
Outro irmão fingia inveja da posição do padre superior, quando na ver- tas vezes a água de um poço, acabamos inadvertidamente trazendo
dade ele não queria essa posição para si. para fora um sapo, relaciona isso com as virtudes. Quando adquirimos
as virtudes podemos às vezes nos envolver com vícios que estão im-
Outro irmão ganhou um pacote de uvas. E depois que o irmão que lhe perceptivelmente entrelaçados com elas. Ele nos oferece alguns exem-
dera o presente se foi, o eremita as comeu, parecendo se empanturrar, plos. A gulodice pode vir junto com a hospitalidade; a luxúria com o
quando na verdade não sentia nenhum prazer com aquilo, e dessa ma- amor; a astúcia com o discernimento; a malícia que soa como julga-
neira ele enganou os demônios “que imaginaram que ele era um glu- mento; a duplicidade, a procrastinação, o desmazelo, a teimosia, o vo-
tão”. luntarismo e a desobediência com a mansidão; a recusa em aprender
pode se misturar ao silêncio; a empáfia com a alegria; a preguiça com
Essas coisas foram feitas pelos chamados Loucos em Cristo, de modo a esperança, a severidade também pode ser confundida com o amor; a
a iludir o demônio e beneficiar os irmãos de várias maneiras. Mas isso apatia e a preguiça com o repouso; a amargura com a castidade; a fa-
requer uma pureza particular, uma bênção especial e a graça de Deus. miliaridade com a humildade. Fica claro, assim, que é preciso muita
Por isso São João Clímaco, em vista dessas circunstâncias, escreve que atenção para descobrir as paixões. Pois podemos pensar que estamos
as pessoas que utilizam esse método devem estar muito atentas “pois sendo virtuosos quando na verdade estamos trabalhando para o diabo,
em seu esforço para enganar o demônio elas podem estar enganando a cultivando paixões. Devemos vigiar o sapo, que usualmente é a paixão
si próprias”. da autoestima. Essa paixão corrompe a obediência e os mandamentos.

Depois de uma dura luta, pela graça de Deus, um homem pode curar De acordo com o mesmo santo, o demônio da avareza muitas vezes
suas paixões, as dores de sua alma, e se tornar um rei. O atleta da ba- simula a humildade. E o demônio da autoestima e da autoindulgência
talha espiritual experimenta esses dons, de maneira que ele pode repe- encorajam as esmolas. Por isso devemos, acima de tudo, estar atentos
tir com o Abade José: “Hoje eu sou um rei, porque eu reino sobre as para discernir a astúcia do demônio mesmo quando estamos cultivando
paixões”. Ele assim desfruta da vida em Cristo, pois “aquele que deu as virtudes. Ele menciona o caso no qual ele foi assaltado pelo demônio
morte às paixões e suplantou a ignorância caminha da vida para a da preguiça e pensou em abandonar sua cela. Mas quando diversas
vida”. pessoas foram a ele e o louvaram por viver uma vida de hesiquiasta,
“minha preguiça se transformou em autoestima”. Então ele ficou es-
Mas enquanto vivemos essa vida e trazemos em nós a corruptibilidade pantado com a maneira como o demônio da autoestima enfrentou todas
e a mortalidade, temos que lutar continuamente. Por isso, mesmo as astúcias dos demais demônios. Do mesmo modo, o demônio da ava-
quando uma homem superou “praticamente todas as paixões”, perma- reza luta contra aqueles que são por completo desprovidos de posses.
necem ainda dois demônios que lutarão contra ele, homem de Deus. Quando ele não consegue vencê-los, eles começam a argumentar sobre
Um deles perturba a alma “distraindo-a de seu grande amor por Deus o quão miseráveis são as condições da pobreza, e então tentam induzi-
los “a se preocupar com as coisas materiais”. Outro ponto mencionado

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pelos santos Padres consiste no modo como podemos detectar a pre- Quando estamos lutando com duas paixões ao mesmo tempo, devemos
sença das paixões. Certamente, um Ancião prudente e impassível terá preferir nos deixar subjugar pela mais branda, para não sermos con-
uma grande importância em observar os impulsos de nossa alma e cor- quistados pela segunda. São João Clímaco nos oferece dois exemplos.
rigi-los. Mas, além disso, existem outros meios de perceber a presença Às vezes, quando estamos rezando, podem chegar alguns irmãos. En-
das paixões operando em nós. É sinal da existência de uma paixão vo- tão devemos escolher entre duas coisas: ou não receber os irmãos, pois
luntária quando a pessoa fica contrariada ao ser reprovada ou corrigida estamos rezando, ou paramos de rezar, para receber os irmãos. Deve-
a respeito. Quando ela aceita calmamente a reprimenda, é um sinal de mos preferir parar de rezar, porque “o amor é maior do que a prece”.
que ela estava desatenta e foi vencida pela paixão. Em outras palavras, Um dia, conta o santo, ele estava na cidade e, ao sentar-se à mesa para
a contrariedade ou a calma mostram a presença da paixão, e também comer ele foi afligido por pensamentos de gula e de vanglória; ele pre-
se ela é voluntária ou involuntária. “As paixões mais ilícitas se escon- feriu ceder à vanglória (ou seja, ser temperante e sentirse satisfeito
dem em nossas almas; elas só são trazidas à luz quando examinamos como quem jejua), porque ele tinha mais receio da gulodice: “Conhe-
nossas ações”. cendo e temendo o desfecho da gulodice (a luxúria), ele preferiu ceder
Em seu esforço para descrever com precisão no que consiste uma pai- à vanglória”.
xão, São Máximo escreve que uma coisa, uma imagem conceitual e
uma paixão são coisas diferentes entre si. Um homem, uma mulher, o O Abade José ensina que às vezes é preferível deixar que as paixões
ouro, etc., são coisas; uma imagem conceitual constitui “um pensa- penetrem em nós e então lutar contra elas, e outras vezes é melhor
mento não passional dessas coisas”; uma paixão é “uma afeição insen- cortá-las desde o início. Por isso ele respondeu a um irmão que lhe
sata ou um ódio indiscriminado por alguma dessas mesmas coisas”. O pergunto a esse respeito: “Deixe que venham, e então combata”, di-
Abade Doroteus, distinguindo entre pecado e paixão, escreve que as zendo que isso era preferível. Mas a outro irmão ele respondeu a
paixões são o ódio, a autoestima, a autoindulgência, a raiva, os desejos mesma questão – se deveria permitir que a paixão se aproximasse, ou
malignos e coisas do gênero. Os pecados são as ações das paixões. se deveria cortá-la de longe – dizendo: “Não deixe que a paixão se
Assim, é possível a uma pessoa “ter paixões e não as colocar em mo- aproxime, mas corte-a imediatamente”. Isso mostra que o terapeuta es-
vimento”. A partir dessa passagem podemos entender que é possível a piritual é aquele que é capaz de assinalar a cada um o modo apropriado
uma pessoa estar cheia de paixões e não se dar conta disso, porque de lutar e se bater, e a cada um seu método, porque cada pessoa é di-
eventualmente ela não comete nenhum pecado. É por isso que um con- ferente e cada caso é único.
selheiro espiritual experimentado é necessário para uma completa cura
das paixões. São João Clímaco menciona alguns meio para derrotar os demônios;
mas esses meios são extremos, e é preciso notar que nem todos podem
Para encerrar essa sessão, devemos sumarizar as terríveis consequên- aplicá-los, mas apenas aqueles “que derrotaram as paixões”. Em outras
cias das paixões. Já dissemos anteriormente que as paixões matam o palavras, quem é puro de coração tem meios para ferir os demônios.
nous. Vamos agora desenvolver o tema.
Um irmão que sofrera uma desgraça não se sentia perturbado com isso,
A ressurgência das paixões “num corpo adulto e numa alma consa- mas orava sem cessar em seu coração. Mas ele começou a protestar e
grada” constitui uma conspurcação da alma.

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A vanglória é multiforme e sutil, e requer muita atenção. Todos os mé- Assim como quando um pardal preso pelas pernas tenta voar e cai no-
todos devem ser empregados para suplantar essa “besta multiforme”. vamente por terra, também o nous, se não se tornar impassível, “é
A pessoa não deve fazer nada com vistas a ser louvada pelas outras preso pelas paixões e cai novamente por terra”. As paixões amarram a
pessoas e “sempre rejeitando os pensamentos de autoestima que pene- pessoa ao terrenal.
tram no coração, considerar a si mesma como nada diante de Deus”.
As paixões repreensíveis acorrentam o nous, “amarrando-o aos objetos
Finalmente, o orgulho implica uma luta “mais sinistra e feroz do que sensíveis”.
tudo o que vimos até aqui”. Ele só pode ser curado mediante a humil-
dade, que se adquire pela fé e o temor a Deus, a gentileza e o despren- As paixões corrompem a alma depois de um tempo, assim como certos
dimento de todas as posses. É por meio dessas coisas que se atinge o alimentos que prejudicam o corpo só trazem a enfermidade depois de
amor perfeito. algum tempo, e mesmo passados muitos dias. Em qualquer caso, é evi-
dente que as paixões adoecem a alma.
Mas o inimigo de nossa salvação, o diabo, é engenhoso. Por isso, o
Cristão que luta nessa batalha deve ser também engenhoso. A astúcia A alma de uma pessoa passional é “uma oficina para os demônios”. E
de um homem é demonstrada pelo modo como ele ilude o demônio. uma alma maligna se torna um estoque de maldades.
Nos escritos patrísticos encontramos muitos relatos de habilidades por
meio das quais o diabo foi enganado e a alma foi curada. O nous é morto pelas paixões e se torna impermeável a conselhos. Ele
Usualmente, as paixões tendem a retornar. Quando parece que elas fo- não aceitará nenhuma correção espiritual. “Toda paixão traz consigo a
ram curadas e nos abandonaram, elas voltam mais fortes do que antes. semente da morte”.
As palavras de Cristo sobre o espírito impuro são bem conhecidas:
“Quando um espírito impuro sai de um homem, ele vaga por espaços As paixões são o inferno. A alma passional é punida todo o tempo por
desertos, buscando descanso, e não encontra. Então ele diz, ‘vou voltar causa de seus próprios maus hábitos, tendo sempre amargas lembran-
para a casa de onde vim’. E quando ele retorna, ele a encontra vazia, ças e murmurações dolorosas de suas paixões queimando-a e consu-
varrida e em ordem. Então ele vai e volta com outros sete espíritos mindo-a. esse tormento é apenas o começo, um pequeno gosto dos tor-
ainda piores do que ele, e eles todos passam a habitar nela; e o último mentos que a esperam nos lugares temíveis “onde os corpos que serão
estado do homem se torna pior do que o primeiro[29]”. Os santos têm punidos recebem variados tormentos e os infligem à alma, num fogo
consciência disso e tomam todas as precauções necessárias. indizível e na escuridão”.

A seguir, vamos apresentar alguns métodos e sugestões dos Padres. A recompensa dos esforços pela virtude são a impassibilidade e o co-
nhecimento espiritual, que são os mediadores do Reino dos céus, da
Devemos lutar principalmente contra a paixão dominante, pois, “en- mesma forma como “as paixões e a ignorância são as mediadoras do
quanto esse vício em especial não for varrido, será inútil para nós do- castigo eterno”.
minarmos as demais paixões”.

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São Gregório Palamas, interpretando a passagem que diz como os de- O ódio, que cega os olhos do coração, é curado com a paciência para
mônios deixaram o endemoniado e entraram na vara de porcos que se com o próximo. A paz interior, que é o oposto do ódio, “não se adquire
atiraram ao mar, escreve que “a vida suína” simboliza “todas as pai- com a paciência que os demais mostram para conosco, mas através de
xões, devido à sua impureza. Mas em especial aquelas que rodeiam nosso próprio padecimento em relação ao nosso próximo”. Não é su-
uma túnica suja por causa da carne suína”. ficiente evitar o ódio em relação aos homens, mas também “em relação
aos animais e aos objetos inanimados”. O ódio também se cura repri-
Finalmente, as paixões matam completamente o nous e causam nossa mindo “não apenas a expressão exterior da raiva, mas também os pen-
punição. A cura espiritual é necessária para que o nous se liberte e se samentos raivosos”. Não devemos apenas refrear nossa língua no mo-
regozije em Deus. Voltaremos agora ao tema da terapia. mento da tentação, mas “purificar nosso coração do rancor e não abri-
gar pensamentos maliciosos contra nossos irmãos”. A cura final con-
siste em “realizar que não devemos sentir aversão por nada por ne-
1.3 . A cura das paixões
nhuma razão, quer nos pareça justa ou injusta”.
Agora que estamos conscientes da grande destruição trazida para nossa
existência pelas paixões, devemos nos debruçar sobre o tema da tera- A acídia é curada fazendo uma guerra dirigida “contra as paixões inte-
pia. Essa é uma parte fundamental do presente capítulo. Muitos de nós riores”. Devemos lutar “contra o demônio da acídia que atira nossa
se dão conta de que estão doentes, temos a sensação de estarmos espi- alma no desespero. Ele deve ser expulso de nosso coração”. Devemos
ritualmente enfermos, mas somos parcial ou completamente ignoran- cultivar apenas a tristeza “que provém do arrependimento do pecado e
tes sobre o modo de nos curarmos. Creio que a Ortodoxia, por ser uma que é acompanhada da esperança em Deus”. Vale dizer, a acídia é ex-
ciência terapêutica, é capaz de responder esses tópicos essenciais. Es- pulsa e curada quando, pela graça de Deus e com nossa própria cora-
tou certo de que uma das mensagens que a Igreja Ortodoxa deve ofe- gem, a transformamos na tristeza espiritual, na tristeza do arrependi-
recer ao mundo contemporâneo perplexo é a de que ele está doente e, mento. Essa tristeza divina nos prepara e nos torna obedientes e ávidos
ao mesmo tempo, a de lhe oferecer a cura. É sobre isso que trataremos por toda boa obra, “acessíveis, humildes, gentis, tolerantes e pacientes
a seguir. em suportar todo sofrimento ou tribulação que Deus nos enviar”.

Primeiro devemos esclarecer algumas coisas. Uma, é que a cura das A apatia não pode ser curada “senão através da prece, evitando as con-
paixões, conforme já descrevemos, consiste basicamente em trans- versas vãs, através do estudo das Santas Escrituras, e com paciência
formá-las. Uma vez que as paixões impassíveis, as paixões naturais e diante das tentações”. Também se requer o trabalho físico. Os santos
impecáveis, são pervertidas, é de se esperar que esse estado de coisas Padres do Egito “não permitiam que os monges ficassem sem trabalhar
possa ser mudado com um tratamento terapêutico adequado. É nisso em momento algum”. Eles não apenas trabalhavam por suas necessi-
que reside a cura das paixões. O Abade Poêmio disse ao Abade Isaac: dades, “mas com seu trabalho atendiam os hóspedes, os pobres e os
“Nós não temos que assassinar o corpo, mas as paixões”. Quanto a prisioneiros, considerando que essa caridade constituía um santo sacri-
“assassinar as paixões”, isso deve ser entendido no sentido de con- fício agradável a Deus”.
vertê-las. Outra observação é que os Padres nos oferecem uma grande
quantidade de tratamentos terapêuticos em seus escritos. Qualquer um

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porque ali não existem objetos para evocar tal paixão. São João Clí- que leia as “Centúrias sobre o amor” de São Máximo verá que elas
maco diz que quando um homem doente de uma paixão da alma tenta contêm muito material terapêutico. Devo confessar que quando li esse
a vida solitária, é como alguém que salta do navio para o mar e tenta trabalho, esperava encontrar algumas regras sobre o amor e o valor do
chegar à praia agarrado a uma prancha. amor. Mas logo percebi que São Máximo dá mais atenção ao tema dos
pensamentos, das paixões da cura das paixões. Ele dá grande impor-
O conselho dos Padres sobre a hesíquia não é contraditório. A hesíquia tância à cura do homem, porque o amor a Deus e ao homem “nasce da
é “habitar em Deus”. É a pureza do nous. Essa é a chamada hesíquia impassibilidade”. Um coração comandado pelas paixões é incapaz de
noética. O esforço para minimizar os estímulos dos sentidos e para se amar. Outra observação é de que quando os Padres falam da cura do
dedicar à prece ajuda no sentido de se libertar das paixões. Mas quando homem eles primeiro estabelecem os princípios básicos para isso. Vale
uma pessoa, sem nenhum preparo especial, nem as bênçãos de um di- dizer, eles têm em vista o homem universal e fornecem várias prescri-
retor espiritual experiente, se afasta dos homens e vai para o deserto, ções ou métodos de terapia. Devemos mencionar isso a seguir, mas por
ela pode não se curar. Porque o deserto esconde as paixões do homem ora enfatizamos que toda pessoa necessita de seu próprio método tera-
que para lá se dirige sem a preparação necessária para a cura. pêutico. Esse método deve ser fornecido por uma terapeuta experiente
e cuidadoso a qualquer um que o procure, com humildade, obediência
Até agora falamos de diversos meios para curar as paixões em geral. e disposição para ser curado. Por isso iremos agora estabelecer as re-
Agora vamos apresentar algumas terapias específicas para curar deter- gras gerais do tratamento terapêutico. “Todo indivíduo deve praticar
minadas paixões. sua própria terapia sob a orientação espiritual de organismos vivos
contemporâneos”.
De acordo com São João Cassiano de Roma, existem oito pensamentos
maus: a gula, a luxúria, a avareza, o ódio, a acídia, a apatia, a vanglória A cura das doenças de nossa alma é absolutamente necessária. Já vi-
e o orgulho. Como poderão ser curados esses oito pensamentos, que mos isso. Já estabelecemos o estado de deformação que as paixões
correspondem a oito paixões? criam em nós. Muitas passagens da Escritura se referem a isso.

A gula é curada pelo controle do estômago, “evitando comer além da O Apóstolo Paulo dá o seguinte conselho aos Colossenses: “Façam
conta e encher o ventre”, por meio de um “dia de jejum” e para “não morrer tudo o que existe de terrenal em vocês: a incontinência, as im-
se perder pelos prazeres do palato”. purezas, as paixões, os desejos malignos e a cobiça, que é uma idolatria
(...). E ainda a raiva, o ódio, a malícia, a calúnia, as conversas vãs,
A luxúria é curada pela guarda do coração “contra pensamentos bai- afastem-nas de suas bocas. Não mintam uns para os outros, se vocês
xos”. Ela é curada pela contrição do coração e “uma intensa prece a despediam a antiga natureza com suas práticas e saudaram a nova na-
Deus, uma frequente meditação das Escrituras, esforço e trabalho ma- tureza que renasce no conhecimento segundo a imagem de seu cria-
nual”. “A humildade da alma ajuda mais do que tudo”. dor[15]”.

A avareza se cura com a renúncia e a pobreza, como ensinam os Padres


e as Escrituras.

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De acordo com São Máximo, nessa passagem o Apóstolo chama de mandamentos. E o diabo luta contra a alma tripartite, e por isso ele luta
“terra” aos desejos da carne. A “incontinência” é a palavra para o pe- também contra os mandamentos de Cristo. Se cumprirmos os manda-
cado cometido em ato. Cometer o pecado em ato equivale a consentir mentos de Cristo nos lavamos de nossas paixões, que são as más dis-
em agir de acordo com ele e fazê-lo existir. “Impureza” é como ele posições de nosso “homem interior”.
designa o consentimento ao pecado. “Paixão” é o termo utilizado para
os pensamentos passionais. Por “desejo maligno” o Apóstolo designa Já enfatizamos anteriormente a tristeza, o arrependimento e a confissão
“o simples ato de aceitar o pensamento e o desejo”. “Cobiça” é o nome dentre as armas mais eficazes contra as paixões. “Aqueles que estão
dado “àquilo que gera e promove as paixões”. As coisas “terrenais”, nublados pelo vinho podem ser lavados com água, e os que estão nu-
que são parte do desejo da carne, devem ser deixadas a morrer. Quando blados pelas paixões são lavados pelas lágrimas”.
elas são postas à morte – e mais adiante veremos como – e transforma-
das, ou seja, oferecidas a Deus, então a velha natureza, com seus feitos As várias provas e tentações de nossas vidas, ou seja, as “causas invo-
e desejos, é descartada, e a nova natureza é assumida. Ela será feita à luntárias” são também um suplemento para o arrependimento. O vírus
imagem e semelhança de Deus: uma pessoa. do mal é grande e requer o fogo purificador do arrependimento través
Em outra epístola, o inspirado Apóstolo dá as mesmas instruções: “A das lágrimas. Pois nós nos lavamos da corrupção do pecado tanto pelos
imoralidade e toda impureza ou rapacidade não devem sequer ser men- sofrimentos voluntários do ascetismo como por provas involuntárias.
cionadas entre vocês, como convém a santos. Que não haja indecência, Quando os sofrimentos voluntários do arrependimento vêm antes, os
nem conversas vãs, nem futilidade, que são coisas que não convêm; ao involuntários, ou seja, as grandes provações, não chegam a acontecer.
contrário, deve haver ação de graças[16]”. Deus fez as coisas de tal maneira que, se o ascetismo voluntário não
produzir a purificação, então as causas involuntárias “ativarão de
Em outra epístola ainda ele escreve: “Não devemos ter empáfia, nem forma mais aguda nossa restauração em direção à beleza original”. Isso
provocar os demais, nem ter inveja uns dos outros[17]”. significa que muitas das provas que nos acontecem ocorrem porque
não nos arrependemos voluntariamente. Tomar a cruz do arrependi-
Todas essas coisas mostram a necessidade da terapia. O Cristão é um mento voluntariamente evita que carreguemos a cruz das tentações e
lugar para a morada do Espírito Santo, e como tal deve estar limpo, ou provas involuntárias e indesejadas.
antes, para se tornar o templo do Espírito Santo e para que Deus habite
nele, o Cristão deve previamente ter sido espiritualmente purificado, Oura arma excelente contra as paixões é a hesíquia, em especial o re-
e, depois de se tornar um templo para o Espírito Santo, ele deve se pouso do nous, sobre o que falaremos em outro capítulo. O Apóstolo
manter puro. Paulo assegura que “Ninguém que esteja mergulhado no esforço de
guerra se enredará nos assuntos desta vida”. E São Marcos o Asceta
Isso também demonstra a finalidade da terapia. Não estamos lutando comenta que quem deseja conquistar as paixões ao mesmo tempo em
apenas para sermos boas pessoas, ajustadas à sociedade. O objetivo do que se envolve nos assuntos mundanos se parece a alguém que tenta
tratamento terapêutico não é tornar as pessoas sociáveis, nem ser um apagar o fogo com palha. Certamente o tema da hesíquia e do retiro é
exercício antropocêntrico, mas sim conduzir à comunhão com Deus, e extenso e delicado. O retiro não é bom para todos. Pois se alguém tem
que essa visão de Deus não seja um fogo devorador, mas uma luz que uma paixão oculta em sua alma, ele não poderá se curar no deserto,

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fazem com que diminua. Que renunciou genuinamente às coisas mun- ilumine. Os Padres estão nitidamente conscientes desse objetivo do
danas, e serve ao seu próximo amorosa e sinceramente “logo se liberta tratamento terapêutico, mas eles também conhecem os objetivos que
de todas as paixões e participa do amor e do conhecimento de Deus”. diferentes pessoas se colocam. São Máximo diz que algumas pessoas
se abstêm de paixões “por causa do temor humano”, outras por meio
A vigilância, a refutação e a prece afastam as provocações e tentações, do autocontrole, e outras se libertam das paixões “pela divina provi-
e tudo permanece inativo, ou seja, a provocação não encontra lugar dência”. O Abade Doroteus toca nesse ponto dizendo que a pessoa não
nem paixão que lhe corresponda: “Se o nous está atento e vigilante e deve querer se livrar da paixão “para escapar ao seu tormento, mas por
repele imediatamente a provocação contra-atacando, refutando e invo- realmente odiá-la, conforme foi dito: ‘Eu as odiei com perfeita aver-
cando o Senhor Jesus, a provocação ficará inoperante”. são’”. Os santos sabem que algumas pessoas desejam se libertar das
paixões porque elas causam muita dor. Mas não é esse o objetivo ver-
Deus concedeu ao homem dois grandes dons de graça por meio dos dadeiro do tratamento terapêutico Ortodoxo.
quais ele pode se salvar e “se libertar de todas as paixões do homem Seu objetivo básico é o de alcançar a comunhão com Deus. Sabemos
velho: a humildade e a obediência”. bem que existem idades espirituais diferentes e diferentes condições
dentro da Igreja. Alguns, como ensinam os Padres, guardam a palavra
A palavra de Deus também constitui um meio para nos ajudar na puri- de Deus por medo do inferno, outros para ganhar o Paraíso e outros o
ficação e na libertação das paixões. O Apóstolo Paulo, falando da ar- fazem por amor a Cristo. Os primeiros são escravos, os segundos são
madura espiritual que todo Cristão deve ter, refere-se à palavra de operários assalariados, e os terceiros são os filhos de Deus. Nós acei-
Deus: “Tome a espada do Espírito, que é a palavra de Deus[25]”. Pre- tamos essas idades espirituais, mas enfatizamos que lutamos para al-
cisamos ter a palavra de Deus continuamente diante de nossos olhos. cançar a terceira categoria, e que prosseguimos no tratamento até que
“Dedique-se sem cessar à palavra de Deus: sua aplicação destrói as o objetivo final seja atingido.
paixões”. Em outra passagem, São Thalassius nos diz para nos esfor-
çarmos para cumprir integralmente os mandamentos, “para que possa- Devemos deixar claro que a cura das paixões não é um trabalho só do
mos nos libertar das paixões”. Os mandamentos de Deus se referem à homem ou só de Deus. Os dois devem trabalhar juntos: essa é a siner-
alma tripartite. O mandamento de Cristo “legisla sobre a alma tripartite gia entre Deus e o homem. Tudo em nossa Igreja é “teândrico”. Pri-
e parece fortalecê-la por meio daquilo que é ordenado. E não apenas meiramente a graça de Cristo deve ser concedida. A purificação do
parece fortalecê-la, como de fato provoca este efeito”. São Filoteus homem, que é a cura, começa com a energia de Cristo que é oferecida
menciona muitos exemplos para tornar isso mais claro. Em relação ao por intermédio de toda a vida espiritual que o Cristão vive dentro da
aspecto irascível ele se refere ao mandamento “Todo aquele que tiver Ortodoxia. Em suas epístolas o Apóstolo Paulo muitas vezes desen-
raiva do seu irmão será levado a julgamento[26]”; em relação ao as- volve esse tema. O homem de carne tem em si as energias das paixões.
pecto concupiscente, ele mostra o mandamento “Aquele que olha para Mas quando ele recebe a graça de Cisto, ele se liberta desse mundo
uma mulher com luxúria já cometeu adultério com ela em seu cora- antigo, o mundo do pecado. “Enquanto nós vivíamos na carne, nossas
ção[27]”; e quanto ao aspecto inteligente, o mandamento “Quem não paixões pecaminosas, estimuladas pela lei, trabalhavam em nossos
renuncia a tudo e me segue não é digno de mim[28]”. De acordo com membros para dar o fruto da morte. Mas agora nos livramos da lei, e
São Filoteus, Cristo legisla sobre a alma tripartite por meio de seus

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da morte que nos mantinha cativos, de modo que já não servimos sob ainda seu comportamento”. E, assim como um médico coloca um cu-
o antigo código escrito, mas numa vida nova no Espírito[18]”. rativo na ferida do paciente, e este funciona de um modo que o paciente
ignora, também chamar pelo Nome de Deus “remove as paixões sem
Apenas o povo de Cristo, aqueles que vivem em Cristo, estão livres da que saibamos como nem porque”.
carne e das paixões da carne, que constituem o mundo do pecado: “E
aqueles que pertencem a Jesus Cristo crucificaram a carne junto com São João Clímaco diz que o remédio para todas as paixões é a humil-
suas paixões e desejos. Se vivemos pelo Espírito, devemos também dade. “Aqueles que possuem essa virtude vencem a batalha inteira”. O
caminhar pelo Espírito[19]”. Quando uma pessoa caminha pelo Espí- profeta e rei Davi, referindo-se aos animais da floresta, diz: “Quando
rito, ela possui a graça da Santíssima Trindade e está interiormente o sol se levanta, eles se recolhem e se deitam em seus covis[24]”. E
curada: “Eu digo, caminhem pelo Espírito, e não satisfaçam os desejos São João Clímaco interpreta isso dizendo que quando o sol se levanta
da carne (...) Se vocês forem guiados pelo Espírito vocês não estarão em nossa alma “atravessando as trevas da humildade”, então “os ani-
sob o jugo da lei[20]”. E sabemos bem, conforme já indicamos, que as mais selvagens se recolhem aos seus lugares, no coração sensual e não
obras da carne são as paixões[21]. no nous”. O sol de justiça brilha através da humildade, e todas as bestas
Mover a guerra contra o pecado e as paixões, “lutar, sim, continuar selvagens das paixões são postas a correr.
lutando e infligir golpes“, esse é o nosso trabalho, mas desenraizar as
paixões, transformá-las de modo essencial, esse é o trabalho de Deus. Subjugar as potências da alma com as virtudes nos libertarão da tirania
Assim como um homem não é capaz de ver sem olhos nem falar sem das paixões.
língua, ouvir sem ouvidos, caminhar sem pés ou trabalhar sem mãos,
também ele não pode “ser salvo sem Jesus, nem entrar no Reino dos A subordinação ao pai espiritual, unida ao autocontrole, subordina as
céus”. Porque a alma pode se contrapor ao pecado, mas sem Deus ela bestas selvagens das paixões.
não consegue conquistar nem desenraizar o mal.
O Cristão luta “para reprimir seus sentidos por meio da frugalidade e
O sentido de amor a Deus, que é uma comunhão com a graça de Deus, seu nous por meio da prece monológica de Jesus”, e “assim desligado
e nosso próprio amor a Deus, que é um fruto do Espírito Santo, são as das paixões ele se verá arrebatado pelo Senhor durante a prece”.
coisas que podem transformar e curar as paixões. Mortificar a parte
passional da alma não significa encerrá-la “inútil e imóvel dentro de “Se você quer se livrar de todas as paixões, pratique o autocontrole, o
nós mesmos”, mas sim que desviamos sua conexão com o mal “para o amor e a oração”. Existem certas ações que detêm o movimento das
amor a Deus”. Mas essa mudança para o amor a Deus não acontece paixões e não permitem que elas cresçam, e outras que as submetem e
sem uma vida de amor. Quando uma pessoa se inflama de amor a Deus, as fazem diminuir. Por exemplo, quando se trata do desejo, o jejum, o
que é uma inspiração divina, todo o seu mundo interior se transforma, trabalho e a vigília não permitem o crescimento da paixão, enquanto
se aquece pela graça divina e se vê santificado. “Quando o amor a Deus que o retiro, a theoria, a prece e uma intensa saudade de Deus a sub-
domina o nous, ele o liberta de seus limites, persuadindo-o a se erguer metem e a fazem desaparecer. Em relação ao ódio, a paciência, a gen-
não apenas acima das coisas sensíveis, mas até acima dessa vida tran- tileza e a falta de rancor, por exemplo, o detêm e evitam que cresça,
sitória”. Essas coisas mostram que a cura das paixões acontece quando enquanto que o amor, os atos de caridade, a ternura e a compaixão

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lutando com a ajuda de Deus, seremos capazes de suplantar a própria a divina graça, o amor de Deus, opera. Essa divina graça só é oferecida
paixão”. Para sintetizar o tema do corte das causas das paixões e im- por intermédio dos santos sacramentos. Assim, é preciso sublinhar que
pulsos, podemos lembrar o conselho geral dos Padres: “a qualquer mo- a divina Eucaristia e a Comunhão do Corpo e Sangue de Cristo são
mento em que uma paixão o atacar, corte-a imediatamente”. uma ajuda efetiva ao esforço da pessoa no sentido de purificar sua
alma. A Santa Comunhão é uma medicina para a imortalidade.
De modo a diminuir as paixões precisamos enfrentar uma árdua luta, e
para tanto será preciso uma vigilância espiritual “a fim de que ela não Mas além do poder de Cristo, que desempenha um papel fundamental,
cresça mais”. Mais uma vez, é preciso lutar para adquirir as virtudes e o homem também deve cooperar. Se isso não acontece, é praticamente
então ser vigilante para mantê-las. Portanto, todos os nossos esforços impossível a uma pessoa superar as paixões, superar substancialmente
serão no sentido de lutar e vigiar. os demônios, uma vez que “aquele que conquista as paixões fere os
demônios”, e que “a pessoa expulsará o demônio cuja paixão tenha
A batalha é grande. Não é uma coisa fácil transformar a si mesmo, sido dominada”. A seguir veremos essa cooperação da vontade hu-
limpar-se das paixões e se encher de virtudes. Pois a purificação do mana.
homem é tanto negativa quanto positiva. De acordo com os Padres, a
guerra espiritual é feita guardando-se os mandamentos de Cristo, e sa- Acima de tudo, o autoconhecimento é necessário. Ele é muito impor-
bemos que quando uma pessoa luta para sujeitar sei corpo e sua alma tante, para que estejamos conscientes de nossa condição espiritual. A
a Deus, nela se produzem as virtudes do corpo e da alma. No homem ignorância de nossa enfermidade faz com que sejamos permanente-
decaído o corpo é alimentado pela matéria, pelas coisas materiais, e a mente incuráveis. João Evangelista escreve: “Se dissermos que não te-
alma é alimentada pelo corpo. Agora é o contrário que deve acontecer. mos pecado, estamos nos iludindo, e a verdade não está em nós[22]”.
Devemos nos afastar do estado antinatural. Nossa alma deve aprender
a tomar seu alimento da graça de Deus, e o corpo deve se alimentar da Pedro Damasceno, especificando as oito contemplações espirituais,
alma “cheia de graça”, e então nosso organismo entrará em equilíbrio. das quais sete pertencem a esse século e a oitava pertence ao século
Podemos adquirir essa condição nos esforçando para obter virtudes tais futuro,, considera o conhecimento como a segunda: “o conhecimento
como a humildade, o amor, o jejum, o ascetismo, a prece, a obediência, de nossas próprias faltas e da bondade de Deus”. Ou seja, o conheci-
etc. Agora vamos apontar algumas das virtudes que são essenciais para mento de nossas próprias faltas e da bondade de Deus consiste na the-
a transformação. oria.

Uma vida levada no amor expulsa as paixões: “Esforce-se por amar a Uma vez que o orgulho vem entretecido com a coragem, “devemos
todos os homens por igual e simultaneamente você expulsará as pai- estar sempre em guarda contra a complacência para com um pensa-
xões”. mento simples, para obtermos algum bem”. Os Padres sabem, por
causa da grande experiência espiritual pela qual passaram, que os sin-
A prece incessante, “chamando incessantemente pelo Nome de Deus tomas das paixões não são fáceis de diagnosticar com precisão, porque
constitui um remédio que destrói não apenas todas as paixões, como estamos doentes e elas parecem unidas à nossa natureza. Por isso os
Padres nos aconselham a vigiar constantemente nossas paixões. “Vigie

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continuamente os sinais das paixões e você descobrirá que existem Em seguida, é essencial não depositar muita confiança em nós mes-
muitas dentro de você”. Observando todas as paixões e todas as virtu- mos, mas nos voltarmos para Deus. “Por sermos passionais, não deve-
des, e em especial as paixões, devemos “sondar a nós mesmos inces- mos em absoluto confiar no nosso coração; porque um dirigente trapa-
santemente para ver onde estamos, se no começo, no meio ou no fim”. ceiro transforma mesmo as coisas mais retas em tortas”.
É essencial fazer isso, porque a vida espiritual é uma jornada contínua
e a cura não tem fim. Estamos constantemente nos purificando para Outro método consiste em lutar contra as paixões enquanto elas ainda
poder alcançar a comunhão com Deus. Isso é indispensável, porque a são pequenas. Quando a ofensa é pequena “arranque-a antes que se
estagnação e a autossuficiência estão constantemente de emboscada espalhe e cubra os campos”. Se uma pessoa é negligente quando uma
em nosso caminho espiritual. falta parece leve, mais tarde ela lhe parecerá “um senhor desumano”.
Um homem que luta contra uma paixão desde o início “logo a domi-
O autoconhecimento é indispensável também porque existem três con- nará”. Porque obviamente “uma coisa é arrancar uma muda, outra ar-
dições no homem: “a ativação da paixão, a restrição da paixão e o de- rancar uma árvore”. Cortar as paixões no começo é fácil, e requer ape-
senraizamento da paixão”. Ou seja, não é o bastante empregar diversos nas um pequeno esforço, enquanto que, depois que elas crescem, pas-
meios terapêuticos para deter o trabalho da paixão, mas é preciso trans- sado um bom tempo, “elas exigem mais trabalho”. Quanto mais tenras
formá-la em amor a Deus e ao homem. Para obtermos um bom auto- forem, mais fácil é lutar contra elas.
conhecimento devemos ter quietude exterior. É preciso dar um basta
ao cometimento do pecado em ato. Enquanto os sentidos funcionarem Devemos cortar as provocações e causas que evocam as paixões. Já
carnalmente, o autoconhecimento é impossível. “Portanto, é preciso descrevemos como um pensamento se transforma numa paixão.
vigiar o nous na presença das coisas e discernir para quais delas se Quando vigiamos nossos pensamentos e rejeitamos as propostas do
manifesta a paixão”. maligno, evitamos gerar paixões e as matamos. Quem repele as provo-
cações “corta pela raiz tudo o que poderia advir daquilo”. Quando
O conhecimento de nossas paixões está intimamente relacionado ao nosso nous flerta com um objeto sensual, as paixões nascem e se de-
arrependimento e à confissão. O primeiro estágio do arrependimento é senvolvem naturalmente. É preciso se desvencilhar do objeto pelo qual
o conhecimento de nossos pecados, a sensação da moléstia de nossa o nous se tornou cativo. A menos que o nous se desvencilhe dessa
alma. A expressão do arrependimento é a confissão dos erros. Estamos coisa, “ele não será capaz de se libertar da paixão que virá afetá-lo”.
falando aqui da santa confissão. Nessa contenda espiritual devemos nos afastar dos atos e desejos vis
“e demonstrar que estamos trocando-os pelo bem”.
Devemos dizer que nos textos bíblicos e patrísticos existem duas for-
mas de confissão. A primeira é a confissão noética que fazemos em É um ensinamento patrístico comum que devemos cortar as causas e
oração a Deus, e a segunda é a confissão que fazemos ao nosso médico impulsos do pecado. Deus, o Médico das almas e corpos, não nos incita
espiritual, que é também nosso terapeuta. São João Clímaco define a a abandonar “o contato com as pessoas”, mas para cortar as causas do
compunção como “um eterno tormento da consciência que traz con- mal em nós mesmos. “Aquele que odeia as paixões se afasta de suas
sigo o esfriamento do fogo através da confissão noética”. A confissão causas”. Se nos opusermos ao pensamento, “a paixão crescerá fraca e
noética produz a compunção, e a compunção traz consolo ao coração será incapaz de lutar e de nos atormentar”, e assim, “pouco a pouco,

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alma e “o inchaço do coração são esfriados pela leitura da Sagrada do homem. Além disso, a confissão é um arrependimento irrestrito e
Escritura e por uma humilde e constante oração; e todas essas coisas deve se colocar numa atmosfera de arrependimento. É a aflição do co-
são acalmadas com o azeite da compunção”. ração, que produz o “esquecimento da natureza”. “A confissão é o es-
quecimento da natureza porque por causa dela o homem até se esquece
Em seu ascetismo curativo os Padres estabelecem também a ordem se- de comer seu pão”.
gundo a qual deve se dar a guerra contra as paixões. De acordo com
Nicetas Stethatos, as paixões básicas são a autoindulgência, a avareza De acordo com São Diádoco de Foticéia, devemos em primeiro lugar
e o amor pela glória, que correspondem aos três aspectos da alma. oferecer ao Senhor uma confissão estrita mesmo de nossas faltas invo-
Como existem três paixões, existem três modos de lutar contra elas: o luntárias, e não parar até que “nossa consciência tenha a certeza de ter
inicial, o intermediário e o final. “O iniciante que acaba de entrar no sido perdoada, por meio de lágrimas de amor”. Mais ainda, os santos
caminho da luta pela piedade” deve lutar contra o espírito de autoin- nos exortam a estarmos atentos para que nossa consciência “não se
dulgência. Ele deve dobrar a carne por meio do jejum, dormindo no iluda por acreditar que uma confissão feita a Deus seja adequada”. Ele
chão, fazendo vigílias e preces à noite. Ele afogará a alma com a lem- diz isso porque quando oramos a Deus e confessamos nossos pecados,
brança das punições do inferno e pela lembrança da morte. Aquele que muitas vezes o fazemos de forma inadequada, e seguimos vivendo sa-
está no estágio intermediário, ou seja, que já foi limpo das paixões da tisfeitos por termos confessado. Isso é uma autoilusão, e por isso de-
autoindulgência, “pegará em armas contra o espírito da maldita ava- vemos estar em constante prontidão, pois, se não confessarmos conve-
reza”. E “aquele que passou do estágio intermediário com contempla- nientemente, poderemos ser tomados por um medo causado pela do-
ção e impassibilidade”, que penetrou nas trevas da teologia, lutará con- ença na hora de nossa morte.
tra o espírito de amor pela glória. Portanto, a autoindulgência será ata-
cada em primeiro lugar, depois a avareza e finalmente o amor pela A confissão a Deus por meio da prece não substitui a confissão de nos-
glória. Essa é a ordem da terapia. sos pecados feita a nosso pai espiritual, nem a confissão ao terapeuta
espiritual substitui a confissão pela prece. É essencial que os dois tipos
Até agora listamos os meios terapêuticos que usamos para curar as três de confissão estejam ligados. Em qualquer circunstância, a confissão
partes da alma, falamos das paixões físicas e psíquicas, das três paixões pela prece deve ser seguida daquela ao pai espiritual. Deus deu a eles
gigantes, etc. Agora vamos verificar os métodos terapêuticos gerais o poder de perdoar os pecados: “Receba o Espírito Santo. Se você per-
que podemos aplicar a essas paixões. doar os pecados de alguém, eles lhe serão perdoados; se você os man-
tiver, eles serão mantidos[23]”. A partir desta passagem, fica claro
Em primeiro lugar, a pessoa não deve ficar agitada nessa batalha espi- “quão grande é a honra que o Espírito Santo concedeu aos sacerdotes”.
ritual. A agitação é muito prejudicial à alma que luta. Quando a paixão De acordo com São João Crisóstomo, os sacerdotes que vivem na terra
explode dentro de nós, não devemos ficar angustiados: “Permitir-se “foram empoderados com a custódia das coisas celestiais”, uma vez
ficar perturbado por essas experiências é uma completa ignorância e que “aquilo que eles fazem na terra, Deus ratifica nos céus. O Mestre
também uma forma de orgulho, porque não estamos reconhecendo confirma as decisões de seus escravos”. Por isso precisamos recorrer
nossa própria condição e preferimos fugir ao trabalho”. Devemos ser aos médicos espirituais para nossa cura. “Acima de tudo devemos fa-
pacientes, lutar e chamar por Deus. zer nossa confissão ao nosso bom juiz, e apenas a ele”. E se o bom juiz

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nos ordenar que confessemos perante o povo, devemos fazê-lo, pelo e a cura da parte inteligente se dá por meio de “uma fé inabalável em
princípio básico de que as feridas que se tornam conhecidas são cura- Deus e na verdade, de um seguimento irredutível dos ensinamentos
das. “As feridas mostradas em público não irão mais piorar, mas serão ortodoxos, do estudo contínuo das proclamações inspiradas do Espí-
curadas”. Para que a cura seja bem sucedida, um bom médico é essen- rito, da prece pura e incessante e das ações de graças a Deus”. A cura
cial. Todos os confessores são capazes de realizar o sacramento da e a terapia da parte irascível da alma se dão pela “simpatia profunda
confissão, mas nem todos podem curar, porque a alguns falta o sacer- para com o próximo, o amor, a gentileza, a afeição fraterna, a compai-
dócio espiritual, conforme dissemos no capítulo anterior. xão, da paciência e da ternura”. E a terapia e cura da parte concupis-
cente consistem “no jejum, no autocontrole, das dificuldades, do total
“Se o diagnóstico da doença corporal é mal feito, e isso acontece em desprendimento das posses e sua distribuição aos pobres, do desejo
muitos casos, mais ainda o é para as moléstias espirituais”. “O diag- pelas bênçãos imperecíveis, na nostalgia do Reino de Deus e na aspi-
nóstico das almas é impreciso”. As paixões da alma “são difíceis de ração à filiação divina”.
entender”. Quando um sacerdote as considera impossíveis de seres cu-
radas, devemos recorrer a outro sacerdote, pois “sem um médico, pou- A formulação de São João Clímaco é concisa: “Devemos nos armar
cos se curam”. com a Santíssima Trindade, contra os três, através dos três”, ou seja,
O valor da confissão foi indicado por muitos psiquiatras contemporâ- em aliança com a Santa Trindade devemos nos armar contra a autoin-
neos. É fundamental que a pessoa esteja aberta, não fechada em si dulgência, a avareza e o amor à glória, mediante o autocontrole, o amor
mesma. Na linguagem da Igreja dizemos que quando uma pessoa sabe e a humildade.
como se abrir para Deus por intermédio do confessor, ela consegue
evitar muitas doenças psíquicas e mesmo a insanidade. Sentimos o va- Já mencionamos que os Padres chamam os aspectos irascível e concu-
lor da confissão na prática. A existência de um único pecado nos piscente de “passionais”. Assim é que a alma possui uma parte inteli-
exaure, e podemos até ficar fisicamente doentes. Quando decidimos gente e uma parte passional. A parte inteligente é purificada por meio
fazer uma confissão, começa o estágio da cura. A alma e o corpo são das leituras e da oração, e a parte passional pelo amor e o autocontrole.
invadidos pela calma. Mas é claro que é preciso seguir adiante e fazer
uma confissão real. São Marcos o Asceta, conforme observamos, considera as paixões do
esquecimento, da ignorância e da preguiça como as três gigantes. Ele
Dado que o diabo conhece o valor da confissão, ele faz o possível para nos exorta a curarmos o esquecimento pela “lembrança constante de
nos pressionar a não confessarmos ou a fazer isso como se outra pessoa Deus”, a expulsarmos as trevas destruidoras da ignorância “por meio
houvesse cometido os pecados, ou ainda para que imputemos a res- da luz do conhecimento espiritual” e a afastar a preguiça “através do
ponsabilidade a outrem. É claro, é preciso coragem para que uma pes- verdadeiro ardor por tudo o que é bom”.
soa revele sua ferida ao médico espiritual. São João Clímaco aconse-
lha: “Desnude sua ferida àquele que pode curá-la”. E, juntamente com Existe ainda uma distinção entre as paixões da alma e as do corpo.
a revelação de sua moléstia, tome toda a culpa sobre si mesmo, dizendo Essas paixões são curadas pelas práticas espirituais correspondentes.
humildemente: “Essa é a minha ferida, pai, essa é minha injúria. Ela Os apetites do corpo e os caprichos da carne são detidos por meio do
aconteceu por causa da minha negligência e por nenhum outro motivo. autocontrole, do jejum e das batalhas espirituais. As inflamações da

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o coração, “O coração quebrantado é obtido mediante a tripla restrição Ninguém pode ser culpado dela, nenhum homem, espírito, ente ou
do sono, da comida e do conforto do corpo; a alma, liberta do diabo e coisa parecida. Foi tudo apenas pela minha negligência”. Ninguém
do amargor por meio dessa quebra, recebe em seu lugar a alegria espi- deve se envergonhar, ou melhor, é preciso superar a vergonha do pe-
ritual”. A autorreprovação, que desempenha um importante papel na cado e colocá-lo a nu. Ao revelarmos nossas feridas internas ao nosso
vida espiritual do homem, nasce dessa humildade e dessa tristeza cor- diretor espiritual, devemos nos parecer, nos comportarmos e pensar-
poral. mos como uma pessoa condenada. Mais uma vez, São João aconselha:
“Se você puder, molhe com suas lágrimas os pés de seu juiz e médico,
A pobreza material consiste na não possessão unida á pobreza em es- como se fosse o próprio Cristo”. O mesmo santo afirma que ele viu
pírito, e ela purifica o nous. De acordo com São Gregório Palamas, homens em confissão que mostraram tamanha humildade e que con-
quando o nous se liberta dos sentidos e se eleva acima da corrente ru- fessaram com olhos tão lacrimejantes e gritos de desespero que abran-
idosa das coisas terrenas, voltando-se para si mesmo, ele vê “a máscara daram a dureza do juiz e “transformaram sua ira em misericórdia”.
horrível que ele adquiriu enquanto buscava as coisas mundanas”, e se
apressa a limpá-la com a tristeza. Desse modo o nous atinge a pureza É natural sentir vergonha quando temos que confessar uma ferida, mas
e desfruta da paz dos pensamentos. Quando o nous experimenta a bon- devemos superar isso. “Não esconda seus pecados”. Imediatamente
dade do Espírito Santo, “a graça começa a pintar a semelhança na ima- depois de confessar, posto a nu, começa uma paz interior. Conta-se que
gem”. Então o homem se torna uma pessoa, porque a experiência de um zeloso monge, dominado por um pensamento blasfemo, mortificou
saber o que é essa semelhança nos torna pessoas. De início a tristeza é sua carne com jejuns e vigílias e mesmo assim não conseguir sentir
dolorosa, porque ela está ligada ao temor a Deus, mas na verdade ela nenhuma ajuda. Quando decidiu confessar esse pensamento ao seu mé-
é benéfica. Com o passar do tempo, gera-se o amor a Deus, e com ele dico espiritual e o descreveu num papel, ele foi imediatamente curado.
vem a semelhança. E quando alguém vive profundamente aflito, “ela “O monge me assegurou que ainda antes de deixar a cela do ancião,
recebe como fruto a doce e santa consolação da bondade do Consola- sua enfermidade se fora”. Isso mostra a verdade de que a confissão não
dor”. O começo da santa tristeza e “como tentar conseguir noivar com consiste num esforço humano, mas opera pelo poder de Deus. A alma
Deus”. Mas como esse noivado com Deus parece impossível, os que é curada pela graça divina. Nem o jejum, nem a vigília ajudam, a me-
amam a Deus batem no peito e oram. O fim da tristeza consiste “na nos que estejam ligadas à confissão.
união nupcial pura e perfeita” da alma com Deus.
Normalmente os médicos espirituais recebem ataques daqueles que se
Por isso, de acordo com São Gregório Palamas, a cura da alma tripar- confessam, quando estes não fazem sua confissão com humildade e
tite só é alcançada por meio da correspondente pobreza tripartida. A autoconhecimento. Uma operação espiritual começa junto com a con-
pobreza gera a tristeza, que encontra muitas expressões antes de con- fissão, e então o paciente resiste. Mas o conselho dos Padres a ele é
duzir a pessoa à comunhão com Deus. A tristeza é como um purgante bem claro: “Não se irrite com a pessoa que inadvertidamente opera em
para o nous e o coração. você como um cirurgião; antes, veja a abominação que foi removida e,
culpando a si mesmo, bendiga-o, porque ele prestou esse serviço a
Também São João Damasceno, como vimos, divide a alma em três po- você, pela graça de Deus”. A confissão extrai tudo o que é repulsivo
tências, a saber, a inteligente, a irascível e a concupiscente. A terapia

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de nossa alma e nos move, por um lado, a uma compaixão para co- Cristo “ainda não recebeu o perdão”. Assim como uma pessoa que pas-
nosco mesmos, e, de outro, a uma gratidão em relação ao médico es- sou anos doente não adquire a saúde instantaneamente, também não é
piritual. Quem rejeita a crítica revela no mínimo a existência da paixão, possível superar as paixões – nem ao menos uma delas – “num breve
enquanto que aquele que aceita a crítica “se livra do aguilhão”. instante”. O Tempo, e em especial uma vida ascética, são coisa neces-
sárias, porque “as paixões realizadas na prática devem ser também cu-
Mais uma vez devemos enfatizar que o arrependimento ligado à santa radas com a prática”. Portanto, a impassibilidade é obtida por meio de
confissão cura a ferida. O arrependimento, que nos é inspirado pelo “refreamento, autocontrole, trabalho e lutas espirituais”.
Consolador, queima o coração, e onde nasce a tristeza todas as feridas
são curadas. Uma pessoa neste estado possui o grande tesouro da vir- A seguir tentaremos descrever a cura das três partes da alma, as paixões
gindade. Nicetas Stethatos aconselha: “Não diga a si mesmo: ‘Não me do corpo e da alma, e quais coisas precedem e quais sucedem. Descre-
é possível recuperar a pureza da virgindade porque de muitas maneiras veremos aqui os métodos gerais de cura da alma.
eu caí na corrupção e nas paixões corporais’”. Mesmo que uma pessoa
tenha perdido a sua virgindade, ela pode adquiri-la novamente por Em outra seção nós enfatizamos que São Gregório Palamas, ao dividir
meio das lágrimas de um segundo batismo com o arrependimento. Por a alma em três partes – inteligente, irascível e concupiscente – disse
isso o mesmo santo Padre prossegue: “Porque onde as dores do arre- que, quando um homem se afasta de Deus, todos os poderes de sua
pendimento são superadas pela mortificação e o aquecimento da alma, alma adoecem, assim como a alma por inteiro. Assim é que a cura se
e rios de lágrimas correm por causa da compunção, todas as defesas torna necessária. A cura repousa na pobreza espiritual, que o Senhor
do pecado caem por terra, todo fogo das paixões é extinto, surge um abençoou. “Sejamos ‘pobres em espírito’ depois de nos humilharmos,
renascimento celestial através da vinda do Consolador, e mais uma vez sofrendo na carne e nada possuindo de nosso”, para que possamos her-
a alma se torna um palácio de pureza e virgindade”. dar o Reino dos céus. Com a humildade poderemos curar a inteligên-
cia, onde grassam as paixões da ambição; a parte concupiscente, onde
O renascimento de um homem não pode acontecer sem a submissão ao residem as paixões do amor às posses e da avareza, desembaraçando-
pai espiritual que deverá curá-lo em Cristo: “Se a pessoa não se sub- nos de todas as nossas posses; e a parte irascível, devastada pelas pai-
mete ao seu pai espiritual”, em imitação a Cristo, que se submeteu a xões carnais, por meio do ascetismo e do autocontrole. É bem caracte-
seu Pai sob a morte na cruz, “ela não poderá renascer”. Pois esse re- rístico que São Gregório inclua a solidão e a hesíquia noética entre os
nascimento “acontece por intermédio da submissão ao pai espiritual”. métodos de cura das paixões da ambição. “A solidão e a permanência
na cela são de grande ajuda na cura dessas paixões”. E as paixões car-
Mas muitas vezes as amaldiçoadas paixões da alma não se curam ime- nais não são curadas senão mediante o sofrimento do corpo e uma
diatamente depois da confissão. É preciso uma grande batalha e muito prece proveniente do coração humilde, que é o significado de ‘pobre
ascetismo para que a alma se liberte de suas paixões. Essencialmente, em espírito’.
não é uma confissão formal, feita talvez debaixo de grande pressão
psicológica, que trará o perdão dos pecados, mas a libertação das pai- A vida na tríplice pobreza faz nascer a tristeza divina, que está ligada
xões. Uma pessoa que não tenha se libertado das paixões pela graça de a uma súplica adequada. A tristeza gera as lágrimas. O valor da tristeza
na purificação do nous é muito grande. A pobreza corporal quebranta

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É significativo que quando os discípulos se juntaram “e Lhe disseram através de um zelo descabido, de modo que a pessoa não quer que ne-
tudo o que tinha feito e falado”, o Senhor lhes tenha dito: “Vamos so- nhuma outra alma agrade tanto a Deus quanto ela própria”. O outro
zinhos para um lugar deserto para que vocês descansem um pouco[5]”. demônio, com a permissão de Deus, “inflama o corpo com o desejo
sexual”. O Senhor permite essa tentação a alguém que é cheio de vir-
O Senhor passava muitas noites em oração. Lucas o Evangelista con- tudes, “para que o asceta veja a si próprio como mais baixo do que os
servou essa informação: “Ele ia para a montanha para rezar, e continu- que vivem no mundo” e, por meio da humildade e da compunção, ele
ava por toda a noite a orar a Deus[6]”. alcance sua salvação. Devemos lutar contra a primeira dessas tentações
com muita humildade e amor, e contra a segunda por meio do auto-
Ao ensinar o caminho da prece verdadeira, Ele disse: “Quando vocês controle, da ausência de raiva, e de uma intensa meditação da morte.
rezarem vão para o seu quarto, e depois de fechar a porta, rezem ao seu Deus permite que sejamos combatidos pelo demônio ao longo de nos-
Pai que está no secreto[7]”. Interpretando essa exortação do Senhor, sas vidas, para que nos mantenhamos humildes.
São Gregório Palamas escreve: “A câmara da alma é o corpo; as portas
são os cinco sentidos corporais. A alma entra em sua câmara quando a Um irmão disse ao Abade Poêmio: “Meu corpo está ficando doente,
mente não divaga aqui e ali, vagando entre as coisas e os assuntos do mas minhas paixões não se enfraquecem”. A despeito dessas coisas,
mundo, mas permanece dentro, em nosso coração. Nossos sentidos se em seu esforço para se purificar, o homem experimenta o abençoado
fecham e permanecem fechados quando não os deixamos se ligar às estado da impassibilidade. Vamos então estudar agora a bendita vida
coisas sensoriais externas, e dessa forma nosso nous permanece livre de impassibilidade.
de toda ligação mundana, e por meio de um prece mental secreta se
une com Deus seu Pai. ‘E seu Pai, que vê tudo de um local secreto 1.4 . Impassibilidade
recompensará você’, completa o Senhor. Deus conhece todas as coisas Vamos nos esforçar para fazer um estudo breve sobre a impassibili-
secretas, vê a prece spiritual e a recompensa com grandes dons. Pois dade, porque o que já foi dito nos mostra o suficiente sobre como atin-
essa prece é verdadeira e perfeita quando enche a alma com a graça
gir esse estado abençoado.
divina e os dons espirituais. Assim como o óleo sacramental perfuma
mais o jarro quanto mais bem fechado ele está, também a oração, O valor da impassibilidade para a vida espiritual é muito grande. O
quanto mais rápida for aprisionada no coração, mais dispensará a graça homem que a obtém está muito próximo de Deus e unido a ele. A co-
divina”. munhão com Deus mostra que existe impassibilidade, que, de acordo
com o ensinamento dos Padres, é a própria “saúde da alma”. Se as pai-
O Senhor disse aos seus discípulos que dormiam no Jardim das Olivei-
xões constituem a doença da alma, a impassibilidade é seu estado sau-
ras: “Vigiem e orem para não cair em tentação[8]”. dável. A impassibilidade é “a ressurreição da alma anterior à do
corpo”. Um homem é impassível quando purificou sua carne de toda
Mais adiante ele nos adverte para mantermos nosso nous, e especial-
corrupção, elevou seu nous acima de todo o criado, tornando-o mestre
mente nosso coração, puro das paixões de dos pensamentos: “Quando
de todos os sentidos; quando ele mantém sua alma na presença do Se-
Jesus percebeu seus pensamentos, ele os questionou e disse: ‘Porque
nhor. Portanto, a impassibilidade é a entrada para a terra prometida. O

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Espírito derrama sua luz sobre quem se aproxima das fronteiras da im- paixões: a presunção, a gula, a tagarelice e as vãs preocupações, a ar-
passibilidade e ascende, na medida de sua pureza, da beleza das coisas rogância, e a mestra de todas as paixões: a vanglória”.
criadas para o Criador. Em outras palavras, a impassibilidade tem um
grande valor e é exaltada pelos Padres, pois ela consiste na liberação Todas essas coisas mostram que a santa hesíquia noética é necessária
do nous. Se as paixões capturam e escravizam o nous, a impassibili- para manter a alma pura das paixões e em comunhão com Deus. Ela
dade o liberta e o conduz ao conhecimento espiritual dos seres e de não é um luxo na vida, não é um treinamento para poucas pessoas, nem
Deus. “A impassibilidade estimula o nous a alcançar o conhecimento um método exclusivo para monges, mas existe para todo mundo. Ela é
espiritual dos seres criados”. Por isso ela conduz ao conhecimento es- indispensável para atingir a contemplação de Deus e para a deificação,
piritual. O resultado do conhecimento espiritual é que a pessoa adquire que é a finalidade do homem. Entretanto, existem graus diferentes de
o grande dom da discriminação. Um homem em estado de graça pode hesíquia.
distinguir o mal do bem, as energias criadas das incriadas, as energias
satânicas daquelas de Deus. “A impassibilidade gera a discriminação”. Muitas vezes nos Evangelhos o Senhor aparece ensinando como puri-
ficar o coração das paixões, ou falando sobre a prece interior, sobre a
Nossos contemporâneos atribuem uma grande importância à questão libertação do jugo dos pensamentos, etc. Ele próprio demonstrou aos
da riqueza e da pobreza. Mas o erro de muitos consiste em limitar a seus discípulos o valor do deserto, que ajuda a conquistar o inimigo.
pobreza aos bens materiais e esquecer que existe algo mais além dessas Assim é que também os Apóstolos incluíram diversos tópicos népticos
coisas. Quando o nous do homem se liberta de todas as coisas criadas nos seus próprios ensinamentos.
e cessa de ser escravo delas, ele se ergue em direção a Deus e então ele
experimenta a pobreza verdadeira. Essa pobreza verdadeira do espírito Não é este o lugar para desenvolvermos esses temas. Vamos apenas
é a que o homem impassível obtém: “A pobreza espiritual é a completa mencionar alguns.
impassibilidade; quando o nous alcança esse estado ele abandona todas
as coisas mundanas”. É um fato conhecido que depois de Seu batismo, o Senhor “foi condu-
zido pelo Espírito a um lugar ermo para ser tentado pelo demônio[2]”.
Mas devemos definir o que é a impassibilidade. Nos tempos antigos os Foi ali que ele venceu o demônio, que apresentou a ele as três famosas
filósofos Estóicos falavam da impassibilidade como a mortificação da tentações. Muitas vezes vemos o Senhor se retirar para lugares ermos
alma passional. Nós sublinhamos que a parte passional da alma con- para descansar, e também para deste modo mostrar aos seus discípulos
siste nos aspectos irascível e concupiscente. Quando esses são morti- o valor do deserto. “Ele partiu dali num barco e se dirigiu sozinho a
ficados, de acordo com a interpretação antiga, acontece a impassibili- um local deserto[3]”. E depois do milagre da multiplicação dos cinco
dade. Porém, quando os Padres falam em impassibilidade, eles não pães, “depois de despedir as multidões, ele foi sozinho à montanha
querem dizer a mortificação da parte passional da alma, mas sua trans- para orar; e quando veio a manhã seguinte, ele ainda estava lá a
formação. Uma vez que é por causa da queda do homem que as potên- sós[4]”.
cias de nossa alma se encontram num estado antinatural, será por meio
da impassibilidade, ou seja, por meio da libertação das paixões, que
nossa alma se encontrará em seu estado natural.

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Conforme o arrependimento cresce, ele se purifica e adquire o conhe- De acordo com os ensinamentos dos Padres, a impassibilidade é um
cimento de Deus. estado no qual a alma não cede a nenhum impulso maligno; e isso é
impossível sem a misericórdia divina. De acordo com São Máximo, “a
Mas a hesíquia também está estreitamente conectada com a observân- impassibilidade é uma condição de paz da alma na qual esta não é fa-
cia dos mandamentos de Cristo. As maiores armas para quem se es- cilmente movida pelo mal”. Isso implica que a impassibilidade signi-
força por levar uma vida de repouso interior com paciência são “o au- fica que a pessoa já não é afetada pelas imagens conceituais das coisas.
tocontrole, o amor, a atenção e as leituras espirituais”. De acordo com Vale dizer, a alma está livre de pensamentos movidos pelos sentidos e
São Gregório do Sinai, qualquer um que pratique o Hesiquiasmo deve pelas coisas em si. Assim como nos tempos longínquos a sarça ardeu
ter como base as virtudes “do silêncio, do autocontrole, das vigílias, da sem se consumir, também o homem impassível, “por pesado e febril
humildade e da paciência”. Da mesma forma, devemos ter três ativi- que seja seu corpo”, esse calor do corpo “não o perturba nem prejudica,
dades agradáveis a Deus, ou seja, “a salmódia, a prece e a leitura, além nem fisicamente nem em seu nous”. Porque nesse caso “a voz do Se-
do trabalho manual”. Em outra parte o mesmo santo enfatiza que “os nhor afasta as chamas da natureza”. Assim é que a pessoa impassível
primeiros requisitos da hesíquia são a fé e a paciência, e amar e esperar possui um nous livre e não é perturbada por nada que seja terrestre,
com todo coração, toda força e toda energia”. Em outra parte ainda ele nem pelo calor de seu corpo. Certamente essa liberdade do nous em
enfatiza outras virtudes como o autocontrole, o silêncio e a auto repro- relação a todos os impulsos da carne e imagens conceituais das coisas
vação, “ou seja, a humildade. é inconcebível para aqueles que não vivem num estado de impassibi-
Pois essas coisas sustentam e protegem umas às outras; delas nasce a lidade, mas pelas energias das paixões. Para o homem de Deus, porém,
prece, e cresce para sempre”. Claro que é preciso dar atenção ao ali- aquilo que o mundo chama de natural é antinatural, e ele experimenta
mento, exercitando sua restrição para que o nous não seja entorpecido como natural o que é considerado antinatural pelo mundo. São Simeão
pela comida: “quem pratica a hesíquia deve estar sempre insatisfeito, o Novo Teólogo, confrontado por acusações de que é impossível aos
nunca saciado. Pois com o estômago pesado e a mente entorpecida homens viverem nesses estados supranaturais, viverem livres da carne,
dessa maneira, ninguém é capaz de orar com pureza e firmeza”. O ex- escreveu que quem não é impassível desconhece o que seja a impassi-
cesso de comida leva ao sono, e inúmeros sonhos enchem a mente. bilidade, “e não pode crer que alguém na terra possa possuí-la”. E isso,
de certa forma, é natural “pois um homem só pode julgar os assuntos
Essas coisas mostram que o modo de vida hesiquiasta pressupõe guar- de seu próximo, se bons ou maus, com base em sua própria condição”.
dar os mandamentos de Cristo, uma vez que é deles que nascem as Cada qual julga de acordo com o conteúdo de sua vida e o modo como
virtudes. Por sua vez, as virtudes não são independentes do repouso, vive. De qualquer modo é certo, para os que têm experiência, que o
nem este é independente da observância dos mandamentos de Deus, sinal característico da pessoa impassível é “permanecer calma e deste-
de seus “regulamentos”. mida diante de todas as coisas”, porque ela recebeu de Deus “a força
para realizar qualquer coisa”.
Ao contrário, não manter os mandamentos e encher-se de paixões não
constitui a hesíquia Ortodoxa, e se por acaso a hesíquia nascer ela será Tudo isso para sublinhar a verdade de que a impassibilidade é um es-
logo devorada e desaparecerá. “Nada tem mais poder para perturbar o tado inteiramente natural; ele consiste na transformação da parte pas-
estado de repouso e despojá-lo do auxílio de Deus do que seguir as sional da alma e seu retorno à vida natural. Esse foi o tema de uma

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grande discussão no século XIV entre São Gregório Palamas e o filó- Mas devemos enfatizar e sublinhar que o treinamento na hesíquia não
sofo Barlaam. Este último, condenado o tipo de prece praticado pelos consiste simplesmente numa tentativa humana de trazer o nous de
hesiquiastas de então e de hoje, insistia que a impassibilidade consistia volta a si mesmo, e que a união com o coração não se resume apenas
na mortificação da parte passional. Mas São Gregório, por ter uma ex- a um método técnico. Esse treinamento na hesíquia é inspirado e diri-
periência pessoal na matéria e expressando a experiência integral da gido pelo Espírito Santo e se expressa no arrependimento e na tristeza.
Igreja, refutou esse ponto de vista. “Nós, filósofo, dizemos que a im- Não se trata apenas de um método artificial, que em certa profundidade
passibilidade não consiste em mortificar a parte passional da alma, mas e largura pode ser encontrado também em sistemas antropocêntricos.
em retirá-la do mal e colocá-la no bem, e em dirigir suas energias para “O Hesiquiasmo do monge Ortodoxo brota organicamente do arrepen-
as coisas divinas, desviando-a das coisas ruins para as coisas boas. Um dimento profundo e de seu anseio em cumprir o s mandamentos de
homem impassível é aquele que é marcado pelas virtudes, assim como Cristo. Não se trata de uma aplicação artificial à vida artificial da teo-
o homem passional é marcado pelos prazeres malignos”. O homem logia Areopagita. O ensinamento teológico ‘areopagita’ não contradiz
passional sujeita sua razão às paixões, enquanto que o home impassí- os resultados da quietude mental, e nesse sentido se aproxima e até
vel sujeita a parte passional da alma, ou seja, seus aspectos irascível e recai no Hesiquiasmo. Mas existe uma diferença essencial: a ascese
concupiscente, “às faculdades do conhecimento, do julgamento e da Ortodoxa não chega à quietude mental através da filosofia abstrata da
razão na alma”. Com a parte inteligente da alma, por meio do conhe- teologia apofática, mas através do arrependimento e da luta contra a
cimento das coisas criadas, do entendimento espiritual, ele adquirirá o “lei do pecado[1]” que age na natureza humana”.
conhecimento de Deus, e com a parte passional ele praticará “as virtu-
des correspondentes: com a potência concupiscente ele abraçará o Todos os Padres fazem essa conexão entre a hesíquia noética e o arre-
amor, e com a irascível praticará a paciência”. Portanto, a impassibili- pendimento. São Gregório Sinaíta escreve: “Sem a prática constante
dade é a transformação da parte passional, sua sujeição ao nous, que das lágrimas, é impossível carregar o caldeirão fervente do repouso”.
deve governar por sua própria natureza, para que a pessoa se volte Aquele que pranteia as coisas que antecedem e sucedem à morte deve
sempre para Deus, como é o correto, “por uma ininterrupta lembrança ter paciência e humildade, que são as duas pedras fundamentais da he-
Dele”. Então a pessoa “chegará a possuir a disposição divina e sua síquia. Sem o arrependimento e esses dois alicerces o hesiquiasta cairá
alma progredirá em direção ao mais elevado de todos os estados, o “na presunção e na negligência”.
amor a Deus”. Assim entendemos que a parte passional não foi morti-
ficada, mas passa a possuir vida e um grande poder. Em outra passa- Por isso o método de treinamento na hesíquia – e isto deve ser forte-
gem, São Gregório ensina que crucificar a carne “junto com as paixões mente enfatizado – está conectado com o arrependimento, com as lá-
e desejos” não implica mortificar cada energia do corpo e cada potên- grimas, a tristeza e a compunção. Sem essas coisas, ele será falso e
cia da alma, ou seja, cometer suicídio, mas se retirar dos apetites e inútil. Pois o objetivo da hesíquia é a purificação do coração e do nous.
práticas vis “e demonstrar inequivocamente que se retirou delas”, ou E isso não é concebível sem as lágrimas e a tristeza. Por isso, para o
seja, jamais retornar a tais práticas e apetites, tornando-se assim um atleta da prece noética, as lágrimas são um modo de vida. Ao concen-
homem com desejos espirituais, seguindo em frente corajosamente, a trar seu nous em seu coração ele se torna capaz de ver sua fraqueza, e
exemplo de Lot, que partiu de Sodoma. Em resumo, podemos dizer então seus olhos e seu coração derramam lágrimas de arrependimento.

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perseverante e uma prece ininterrupta. Esse descanso no divino Sábado que, de acordo com São Gregório Palamas, aqueles que são impassí-
é a hesíquia noética. “Se você retirar seu nous de todo pensamento, veis não mortificaram a parte passional de sua alma, mas “a mantive-
mesmo dos bons pensamentos, e se voltar por completo para si mesmo ram viva e trabalhando pelo melhor”.
com uma atenção perseverante e uma prece ininterrupta, também você
alcançará o descanso divino e a bênção das sete beatitudes, enxergará Portanto, a impassibilidade está ligada ao amor e é vida e movimento.
a si mesmo e, através de si mesmo, será elevado até a visão de Deus”. De acordo com São João Clímaco, assim como a luz, o fogo e a chama
É digno de nota que o santo diz essas coisas ao rebanho de sua diocese “se unem para produzir uma atividade”, o mesmo acontece com o
em Tessalônica. Isso significa que todos, em diferentes graus, podem amor, a impassibilidade e a adoção. “O amor, a impassibilidade e a
alcançar a experiência do descanso divino. Eu acredito que este é o adoção se distinguem pelo nome, e apenas pelo nome”. A impassibili-
ensinamento que foi perdido em nosso tempo. dade está intimamente ligada ao amor e à adoção: ela é vida e comu-
nhão com Deus.
A partir do que dissemos sobre a hesíquia noética, podemos ver porque
a pessoa que a pratica é chamada de hesiquiasta. O hesiquiasta é al- Certamente, quando dizemos “impassibilidade” isso não significa que
guém que segue o caminho do repouso, que, na verdade, é o caminho a pessoa não esteja sob o ataque dos demônios. O inimigo de nossa
da tradição Ortodoxa. Seu objetivo é o de nos conduzir a Deus e nos vida continua a empestear mesmo o homem mais impassível; pois ele
unirmos a Ele. Podemos lembrar São João Clímaco: “Por estranho que chegou até a tentar o Senhor no deserto com as conhecidas três tenta-
pareça, o hesiquiasta é um homem que luta para manter seu eu incor- ções. Mas a impassibilidade consiste em “permanecer invencível
póreo em silêncio dentro da morada de seu corpo (...) Um hesiquiasta quando o demônio ataca”.
é como um anjo sobre a terra. Com o papel do amor e as letras do zelo,
ele libertou sua prece da preguiça e da negligência. O hesiquiasta é Existem muitos estágios e graus de impassibilidade no ensinamento
alguém que clama: ‘Senhor, meu coração está pronto’. Ele diz: ‘Eu dos Padres, que devemos mencionar.
durmo, mas meu coração vigia’.”
São Máximo estabelece quatro graus de impassibilidade. O primeiro
De fato, como já apontamos, o Hesiquiasmo é o método mais adequado tipo de impassibilidade pode ser observado nos iniciantes e consiste na
para a concentração e a subida da alma para Deus e sua comunhão com “completa abstenção de cometer pecado em ato”. Nesse estágio o ho-
Ele. Ela é completamente necessária para a comunhão com Deus. São mem não comete atos exteriores. A segunda impassibilidade, que
Gregório Palamas, depois de explicar extensamente que o nous do ho- acontece nos virtuosos, inclui a completa rejeição da mente em con-
mem (energia) deve se voltar para o coração e que é no coração, que é cordar com pensamentos malignos. A terceira impassibilidade, que é a
o “reservatório da inteligência e o primeiro órgão inteligente do completa tranquilidade do desejo passional, é encontrada nos deifica-
corpo”, o “reservatório dos pensamentos”, onde a graça de Deus se dos, e a quarta é a total ausência até das imagens isentas de paixão,
encontra, escreve: “Você pode ver, assim, o quão essencial é para naqueles que são perfeitos. Nessa passagem transparece que a impas-
aqueles que se determinaram a prestar atenção em si mesmos na quie- sibilidade se manifesta correspondentemente ao estado de purificação
tude interior, que reúnam o nous e o encerrem no corpo, especialmente do homem.
neste “corpo” mais interior, a que chamamos coração”.

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São Simeão o Novo Teólogo divide a impassibilidade em duas catego- santa hesíquia seu guia: silenciando a mente, deixando em paz o
rias. Uma é a da alma e a outra, a do corpo. “A primeira pode até san- mundo, esquecendo as coisas externas, participando dos segredos do
tificar o corpo com seu próprio brilho e a irradiação do Espírito, mas a alto, deixando de lado as imagens conceituais e preferindo o melhor.
do corpo, sem a da alma, não beneficia em nada o homem que a pos- Essa prática consiste na entrada na theoria da visão de Deus – ou me-
sui”. Assim, mesmo que a pessoa pratique todas as virtudes possíveis, lhor, no único exemplo de uma alma pura e saudável”. São Gregório
ela não deve assumir que atingiu a impassibilidade. descreve as virtudes como medicinas para as doenças da alma e as pai-
xões; mas a theoria, diz ele, “é o fruto da remissão, cuja forma e fina-
São João Clímaco, dentro da tradição da Igreja, escreve que um homem lidade é a deificação”. A alma, em outras palavras, é curada por meio
é impassível, mas que outro pode se mais impassível ainda. O primeiro das virtudes, mas quando se encontra curada ela se une a Deus pela
detesta o mal, enquanto que o outro possui “a bênção de um estoque theoria, à qual ela chega pela via do silêncio. “Por meio dessa theoria
inesgotável de virtudes”. Aqui se demonstra que a impassibilidade não o homem é deificado, não refletindo sobre palavras ou sobre as coisas
consiste apenas num trabalho negativo, mas também positivo. Ela é a visíveis, mas ensinado pelo silêncio”.
aquisição das virtudes, que é um fruto do Espírito Santo.
Por intermédio de hesíquia e dos ensinamentos da Ortodoxia somos
Nicetas Stethatos divide a impassibilidade em duas partes. A primeira curados, “resgatados das coisas inferiores e retornados a Deus”. Atra-
chega aos candidatos depois de terem completado a filosofia pratica, vés de constantes súplicas e orações “tocamos de algum modo a into-
ou seja, depois da própria disputa, quando as paixões foram mortas e cável e bendita essência. E assim, aqueles que foram purificados no
os impulsos da carne estão inativos e as forças da alma se movem para coração por meio da santa hesíquia, depois de inefavelmente penetra-
seu estado natural. A segunda e mais perfeita impassibilidade chega dos pela luz que está acima dos sentidos e do nous, veem a Deus dentro
com a inspiração depois do começo da theoria natural. de si mesmos como num espelho”.
A impassibilidade perfeita, que “se ergue do repouso espiritual dos
pensamentos para um estado de paz do nous, nos torna clarividentes e O principal ponto desse sermão é de que por meio do método Orto-
previdentes”. O nous da pessoa impassível se torna perceptivo das coi- doxo, que é essencialmente um método de hesíquia noética, nós puri-
sas divinas, das visões e revelações dos mistérios de Deus, e pode pre- ficamos nosso coração e nosso nous, e assim nos unimos a Deus. Esse
ver os assuntos humanos, quando vê as pessoas que chegam até ele. é o único método de contato com Deus e de comunhão com Ele.

Os Padres geralmente aconselham a que se tome muito cuidado com a Os santos Padres chamam a isso de paz da alma e descanso do Sábado.
impassibilidade, porque é possível que a pessoa não esteja sendo per- O nous do homem, purificado pelo método de treinamento e pelo santo
turbada pelas paixões, apenas porque os objetos que as estimulam es- repouso, observa o Sábado e descansa em Deus. Palamas, falando do
tão ausentes, mas quando estes estão presentes, as paixões voltem a repouso divino, do descanso de Deus “quando ele descansou de seus
distrair o nous. Isso é uma impassibilidade parcial. A impassibilidade trabalhos”, e do descanso de Cristo quando da descida de Sua alma
tem graus, e uma pessoa que luta por adquirila não deve parar nunca, com sua divindade aos infernos e da estada de Seu corpo com sua di-
mas lutar continuamente, porque a perfeição não tem fim. Devemos vindade no túmulo, escreve que também nós devemos buscar o des-
canso divino, ou seja, devemos concentrar nosso nous com atenção

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“O que é a hesíquia, senão manter o coração longe de dar e receber e enfatizar em geral que a remissão dos pecados é uma coisa, e a impas-
agradar as pessoas, e coisas assim? Quando o Senhor falou ao escriba sibilidade, outra. São João Clímaco escreve: “Muitos foram rapida-
sobre o homem que caiu nas mãos dos ladrões e lhe perguntou então mente perdoados em seus pecados. Mas ninguém adquiriu a impassi-
quem agira como seu próximo, Ele mesmo disse: “Aquele que mostrou bilidade rapidamente, porque ela requer muito tempo e muita perseve-
misericórdia para com ele”. Em outra parte, Ele disse: “Eu desejo a rança, e Deus”. Por isso sublinhamos em outra parte o fato de que a
misericórdia, não o sacrifício”. Se você simplesmente tiver misericór- confissão sozinha não é suficiente, mas que a alma precisa ser curada,
dia, isso vale mais do que o sacrifício. Incline seu coração para a mi- ou seja, que é preciso adquirir uma impassibilidade parcial e até com-
sericórdia; porque o pretexto da hesíquia inclina a pessoa à arrogância pleta.
antes que ela vença a si mesma e obtenha a perfeição: a hesíquia con-
siste em suportar a cruz. Se você for compassivo você encontrará Por essas coisas fica claro que existem muitos elementos que permitem
ajuda. Mas se você força a si mesmo para ir além da medida, aprenda distinguir a falsa da verdadeira impassibilidade. São João Clímaco, um
isso, você perderá até mesmo o que tem: não vá para o interior, nem entendido na vida interior da alma e a quem foi dado o dom do discer-
para exterior, mas caminhe entre os dois, consciente da vontade de nimento, escreve que as paixões e os demônios fogem da alma, por
Deus, porque os dias são maus”. algum tempo, ou permanentemente. Mas poucas pessoas conhecem os
meios e as causas dessa retirada. A primeira causa consiste em fazer
Pois a hesíquia é, acima de tudo, a guarda do nous, a vigilância sobre desaparecerem as paixões pelo fogo divino. A graça divina, como o
os pensamentos, como São Thalassius expressou: “Lacre seus sentidos fogo, queima as paixões e purifica a alma. Outra circunstância é
com o repouso e estabeleça o juízo sobre os pensamentos que atacam quando os demônios se afastam para que fiquemos descuidados, e en-
seu coração”. tão subitamente eles atacam e se apoderam da alma. Uma terceira é
quando os demônios se afastam quando a alma se habituou às paixões,
São Gregório Palamas, por seu turno, é o principal defensor da hesí- “quando ela se torna sua própria traidora e inimiga”. É como quando a
quia, como veremos. Com a graça de Cristo ele lutou por salvaguardar criança é “retirada do seio da mãe e começa a chupar o dedo porque o
esse modo de purificar o coração e os pensamentos, que é um pré-re- hábito de sugar tomou conta dela”. Finalmente, a impassibilidade
quisito indispensável para o conhecimento de Deus e a comunhão com surge “de uma grande simplicidade e inocência”.
Ele. Em seu sermão da Apresentação da Virgem ele fala da vida hesi-
quiasta. É típico que este santo Athonita, falando de sua experiência, Ademais, a diferença entre a verdadeira e a falsa impassibilidade apa-
veja a Virgem como um modelo da hesíquia noética, uma vez que ela rece na atitude que temos em relação às pessoas. A impassibilidade
entrou em comunhão com a Santa Trindade no Santo dos Santos e m está conectada ao amor, e por isso nossa atitude para com nossos ir-
sua paz. Ele escreve que não podemos encontrar Deus nem comungar mãos manifesta a verdadeira ou a falsa impassibilidade. Aquele que
com Ele, a menos que nos tenhamos purificado e a menos que tenha- “não consegue ignorar a falta do companheiro quando algum julga-
mos abandonado as coisas sensoriais e os sentidos, e a menos que nos mento acontece”, não possui a impassibilidade. Porque quando as pai-
elevemos acima de todos os pensamentos e raciocínios do conheci- xões da alma são perturbadas, elas cegam a mente, “evitando com que
mento humano e de todos os pensamentos em geral. É isso que fez a ela veja a luz da verdade”. A pessoa também não consegue distinguir
Virgem. Buscando essa comunhão com Deus, “a Virgem encontrou na

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o melhor do pior. A impassibilidade imutável em sua forma mais ele- São João Clímaco, escrevendo sucintamente em sua famosa obra, diz
vada só pode ser encontrada naqueles que alcançaram o amor perfeito que o repouso da alma consiste num “conhecimento acurado e na or-
e que “se ergueram acima das coisas sensoriais por meio de uma con- ganização dos pensamentos”. “O repouso da alma é a ciência dos pen-
templação incessante, e que transcenderam o corpo através da humil- samentos e de uma mente inviolável. Um pensamento corajoso e de-
dade”. A pessoa que chegou aos umbrais da impassibilidade possui terminado é um amigo do repouso. Ele mantém uma vigília constante
uma estima simples por todos os homens, “sempre pensando o melhor às portas do coração, e mata ou repele os pensamentos que chegam”.
de todo mundo, vendo a todos como santos e puros, e possuindo um
juízo correto sobre as coisas divinas e humanas”. O nous da pessoa São Simeão o Novo Teólogo, falando do repouso interior e descre-
impassível está livre das coisas materiais do mundo, e “inteiramente vendo sua santa atmosfera, diz: “A hesíquia consiste num estado im-
absorvido nas coisas espirituais de Deus. Ele enxerga a beleza divina perturbável do nous, na calma de uma alma livre e jubilosa, num cora-
e de um modo digno de Deus prefere frequentar os lugares divinos da ção sem perturbações e solidamente plantado, na visão da luz, no co-
bendita glória de Deus, num indizível silêncio e alegria. Com todos os nhecimento dos mistérios de Deus, na palavra de sabedoria, num mer-
seus sentidos transformados, ele se associa aos homens imaterial- gulho nas imagens conceituais de Deus, no arrebatamento do nous,
mente, como um anjo num corpo material”. E quando uma pessoa im- numa conversa pura com Deus, no olho vigilante, na prece interior, na
passível fala dos pecados de um irmão ela o faz por uma de duas ra- união com Deus, no contato com Ele, na completa deificação, e num
zões: ou para corrigi-lo ou para o benefício de outro. Mas se alguém repouso indolor nos grandes trabalhos ascéticos”.
reporta os pecados de outrem “para abusar dele ou ridicularizá-lo”,
Deus abandonará essa pessoa e ela cairá no mesmo pecado ou em outro Também outros Padres falam desse santo estado da alma, uma vez que
e, “censurada e reprovada por outro homem, ela será desonrada”. a vida em Cristo é uma experiência comum a todos os santos. De
acordo com São Gregório Sinaíta, “a hesíquia significa cortar todos os
A perfeita impassibilidade existe quando a pessoa permanece inamo- pensamentos, exceto o mais divino de todos, que provém do Espírito,
vível, tanto pelo objeto quanto pela lembrança deste. “Quando a vir- para evitar que, aceitando aqueles como bons, percamos o que é
tude é habitual ela mata as paixões, mas quando ela é negligenciada maior”.
elas retornam à vida”. Por isso a pessoa que às vezes está perturbada
pelas paixões e às vezes está calma e tranquila, não é impassível; o Essa rejeição das imagens conceituais é parte da tentativa do homem
impassível “desfruta todo o tempo da impassibilidade e, mesmo de purificar a parte inteligente de sua alma. O atleta da vida espiritual
quando as paixões se apresentam no seu interior, ele permanece inal- luta para afastar os pensamentos que o maligno nos apresenta com o
terado diante das coisas que as provocam”. único propósito de quebras a unidade interior das potências da alma e
tornar o coração do homem doente. É um fato, que a Ortodoxia cons-
Outro sinal da existência de uma perfeita impassibilidade num homem titui uma ciência terapêutica. Como podemos ler nas obras dos santos
é que durante a prece nenhuma imagem conceitual, nada mundano, Padres que se referem a essas coisas, vemos claramente que o Cristia-
perturba seu nous. nismo cura a alma enferma e, dentre os meios de cura, o principal con-
siste na guarda do nous, repelindo os pensamentos intrusos e tentando
expulsá-los antes que eles passem os portais do coração.

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de um desligamento dos cuidados mundanos, e transfere todo o seu São João Clímaco diz que muitos orgulhosos que pensam ser impassí-
interesse para a aquisição dos bens eternos...”. veis “só se dão conta do quão fracos são realmente apenas depois da
morte”.
A hesíquia do corpo ajuda a atingir o repouso interno da alma. Nos
ensinamentos patrísticos ela aparece como sendo, embora não inteira- A distinção entre a verdadeira e a falsa impassibilidade nos leva agora
mente necessária, bastante útil na aquisição da vida divina. “O repouso a examinar quais são as características reais de uma verdadeira impas-
do corpo é o conhecimento e a administração dos sentimentos e das sibilidade.
percepções de uma pessoa”. Em outra parte São João Clímaco fala
dessa hesíquia, que ele recomenda especialmente aos que “habitam so- O verdadeiro discernimento é uma marca da impassibilidade.
litários”.
Já dissemos anteriormente que um sinal distintivo entre a verdadeira e
Certamente, como já dissemos, o deserto, e em geral a hesíquia do a falsa impassibilidade é o amor. Agora vamos ampliar essa distinção.
corpo, são coisas úteis para atingir a hesíquia espiritual interior. Mas De acordo com São Máximo, “para quem é perfeito no amor e que
os Padres entenderam o Hesiquiasmo “não como uma vida reclusa, alcançou o cume da impassibilidade não existe diferença entre suas
nem como o isolamento no deserto, mas como a morada ininterrupta coisas e as coisas dos outros, ou entre Cristãos e pagãos, ou entre es-
em Deus”. Apesar do grande valor do deserto, na medida em que ele cravos e homens livres, ou entre homem e mulher”. Tendo em vista
limita as imagens e as representações provenientes do mundo exterior, apenas a natureza humana, “ele enxerga todos da mesma maneira e
esse valor não é absoluto. Nicetas Stethatos é característico a respeito. mostra a mesma disposição para como todos”. São Máximo também
Ele aponta que a virtude não está limitada a um local em particular e diz que uma vez que Deus é bom por natureza e impassível, amando a
que a finalidade do homem é de “restaurar os poderes da alma e con- todos os homens por igual, “Ele glorifica o homem virtuoso porque em
centrar as virtudes gerais em um ponto, para agir conforme a natureza”. seu desejo este está unido a Deus, e em Sua bondade Ele é misericor-
Afirmando que essas coisas não provêm do exterior mas que “nos fo- dioso com o pecador; ao castigá-lo em vida Ele o traz de volta ao ca-
ram concedidas pela criação”, ele conclui: “O deserto não é necessário minho da virtude”. Quem ama faz o mesmo. Ele ama o homem virtu-
pois podemos alcançar o Reino dos Céus sem ele, por meio do arre- oso por causa de sua natureza e de suas boas intenções; ele ama tam-
pendimento e a guarda de todos os mandamentos de Deus”. É típico bém o pecador por causa de sua natureza e por meio da compaixão. Do
que Nicetas, ao formular o problema sobre o qual muitos disseram ser mesmo modo, o homem impassível é aquele que não guarda rancor
impossível adquirir o hábito da virtude sem o retiro e a fuga para o contra alguém que o injuriou ou feriu. O homem impassível ama todas
deserto, escreva: “Eu ficaria surpreso em saber que aquilo que não co- as pessoas, “e não distingue o que é divino do que não é”. Mais do que
nhece limites só possa nos ser trazido num espaço delimitado”. isso, o homem impassível sofre e ora por seu próximo. “Não diga que
um homem impassível não pode sofrer de aflição; pois, mesmo que ele
De qualquer modo, o deserto e a hesíquia do corpo em geral ajudam a não sofra por si próprio, ele tem a obrigação de fazê-lo por seu pró-
pessoa a adquirir a hesíquia do espírito, cujo santo conteúdo vamos ximo”.
agora descrever.

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Da mesma forma, uma pessoa que se encaminha para a impassibilidade direção a Deus”. São João Clímaco, referindo-se ao repouso exterior e
e para Deus “considera como perdido um dia em que não tenha sido corporal, escreve: “Quem ama o repouso mantém sua boca fechada”.
injuriado”. Vale dizer que ele não apenas não se sente molestado pelas
ofensas e insultos dos homens, mas que se sente vexado quando não é Mas não são apenas os chamados Padres népticos que mencionam e
criticado. Isso mostra a pureza de seu coração em relação às paixões, descreve a santa atmosfera da hesíquia, mas também aqueles conheci-
mesmo aquelas mais ocultas. dos como “sociais”. Na verdade, na tradição Ortodoxa não existe uma
oposição direta entre theoria e praxis, nem entre os Padres népticos e
Em geral o homem impassível está cheio dos dons do Espírito Santo: os sociais. Os népticos são eminentemente sociais e os que vivem em
ele é uma árvore cheia de frutos esplêndidos, os frutos do Espírito comunidade são inimaginavelmente népticos.
Santo, as virtudes. Quando os Padres se referem às virtudes, eles não
as consideram como atos éticos autônomos, mas do ponto de vista on- Gostaria de me referir a São Basílio o Grande como um exemplo da
tológico. Ou seja, as virtudes não consistem em ações ou valores abs- santa hesíquia. Numa carta ao seu amigo São Gregório ele escreve so-
tratos, mas na pessoa, embora não personalizadas no sentido de serem bre a hesíquia como sendo o início da pureza da alma, e sobre a hesí-
autoexistentes. O amor é a comunhão com o verdadeiro amor, que é quia do corpo, como o controle da língua, do olhar, do ouvido e das
Cristo. A paz não é um valor abstrato, mas o próprio Cristo. O mesmo palavras. Por exemplo, ele diz: “O verdadeiro começo da purgação da
se aplica à justiça, e assim por diante. Na medida em que a pessoa alma é a tranquilidade, na qual a língua não tem permissão para discutir
impassível está em comunhão com Cristo, é natural que as virtudes de os negócios dos homens, nem os olhos para contemplar as faces rosa-
Cristo se tornem também suas. Não queremos aqui nos demorar no das ou os corpos bonitos, nem os ouvidos para rebaixar o tônus da alma
tema das virtudes. Diremos apenas que, do mesmo modo como existes escutando canções cujo único objetivo seja o de divertir, nem para as
as paixões do corpo e as da alma, também existem virtudes da alma e palavras espirituosas ou aquelas ditas por bufões – uma prática que,
do corpo. E assim como existem estágios e graus das paixões, também acima de todas as coisas, promove o relaxamento do tônus da alma”.
os há para as virtudes. E assim como existem mães e filhas das paixões,
existem mães e filhas das virtudes. Mas não cremos necessário listá- Isso expressa o estado de quietude que o santo Padre desfrutava no
las aqui. Encaminhamos o leitor para a leitura dos seguintes Padres: deserto quando buscava adquirir o conhecimento de Deus na universi-
para as virtudes do corpo e da alma, São João Damasceno; para as vir- dade do deserto, depois do tempo que passara nas escolas dos homens
tudes que correspondem aos três estágios espirituais – iniciantes, in- adquirindo o conhecimento humano. Como resultado, esse luminar da
termediários e avançados –, São João Clímaco. Cesareia nos brindou com uma passagem clássica que mostra que ele
Quando uma pessoa não se encontra perturbada por nenhuma paixão, possuía um excelente conhecimento da vida na hesíquia. Ele escreve:
se seu coração aspira mais e mais por Deus, se ela não teme a morte “Quando a mente não se encontra dissipada por coisas estranhas a ela,
mas a encara como um sono, então ela atingiu o penhor de sua salvação nem divagando pelo mundo através dos sentidos, ela se retira para den-
e “alegrando-se com indizível felicidade, ela traz o Reino dos Céus tro de si mesma, e por sua própria vontade ascende até a visão de Deus.
dentro de si”. Então ela se vê iluminada por dentro e por fora por essa glória, e se
esquece até de sua própria natureza. Ela já não arrasta a alma para pen-
samentos sobre o sustento ou as necessidades do corpo, mas desfruta

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nhão com Deus. “É necessário estar em paz para poder ter uma con- Uma pessoa não recebe a graça da impassibilidade de modo causal.
versa clara com Deus e gradualmente trazer o nous de volta de suas Isso requer uma intenso esforço e uma grande luta. Por isso vamos ver
divagações”. Com a paz e o repouso o homem purifica seus sentidos e agora como a impassibilidade acontece. Claro que o que dissemos na
seu coração. Então ele conhece a Deus, e esse conhecimento de Deus seção precedente sobre a luta para curar as paixões nos mostra a ma-
constitui sua salvação. neira de adquirir a impassibilidade. Agora vamos trilhar alguns breves
caminhos que nos poderão conduzir à terra da promessa, ou seja, à
São Thalassius, que adere totalmente a essa linha, declara: “A hesíquia terra da impassibilidade. Seremos concisos, sempre citando as passa-
e a oração são as maiores armas da virtude, porque elas purificam o gens patrísticas.
nous e dão a ele uma percepção espiritual”. Por intermédio da hesíquia
o nous é purificado e se torna um instrumento adequado para ver a “A humildade provém da obediência, e da própria humildade vem a
Deus. impassibilidade”. A humildade que provém da obediência traz a im-
Conforme sabemos pelos ensinamentos patrísticos, o nous é diferente passibilidade. Se um homem escolher outro caminho que não este, ele
da inteligência. Quando o nous é oculto pelas paixões e cessa de con- não encontrará o que deseja. A impassibilidade não pode ser obtida
templar os mistérios de Deus ele está morto, enquanto que quando ele sem amor. Como existem graus de amor, e como as virtudes se inter-
se liberta das paixões e percebe com clareza, ele vê a Deus como luz, penetram – porque a vida espiritual é unificada e organicamente inter-
e essa luz é a vida do homem. Como dissemos, essa purificação do ligada – a vida de amor traz a impassibilidade, e esta é estreitamente
nous acontece por meio da hesíquia. conectada ao amor. o amor e o autocontrole “mantêm o nous impassí-
vel diante das coisas e das imagens conceituais derivadas delas”. A
É bem conhecido por quem estuda as obras dos Padres e por quem impassibilidade é “o prêmio do autocontrole”. Jejuns, vigílias e ora-
tenta viver essa vida de quietude, que existem uma hesíquia do corpo ções ajudam enormemente no desenvolvimento da impassibilidade:
e uma hesíquia da alma. A primeira se refere às coisas exteriores e a “Jejuns criteriosos e vigílias, unidos à meditação e à prece, rapida-
segunda às coisas interiores. A hesíquia do corpo usualmente se refere mente conduzem aos umbrais da impassibilidade”, desde que a alma
à postura hesiquiasta e ao esforço para minimizar as representações esteja também de posse da humildade, cheia de lágrimas e queimando
exteriores, as imagens recebidas e trazidas à alma pelos sentidos. A de amor por Deus. Uma dieta seca e regular, junto com a caridade,
hesíquia da alma significa que o nous atingiu a capacidade e o poder “leva o monge rapidamente à porta da impassibilidade”. Quando a pes-
para não aceitar nenhuma tentação ou ilusão. Nesse estado o nous, pos- soa trabalha com paciência, autocontrole em todas as coisas e em cons-
suindo atenção e compunção, está centrado no coração. O nous (ener- tante súplica, ao mesmo tempo conservando o terreno conquistado,
gia) está concentrado no lugar do coração (essência), unido a ele, e se com autorreprovação e o máximo de humildade, “no momento opor-
torna capaz de alcançar um conhecimento parcial ou maior de Deus. tuno ela receberá a graça da impassibilidade”. São João Clímaco diz
que a impassibilidade alcançada por meio do repouso do corpo não
O repouso do corpo é uma restrição do corpo. “O começo da hesíquia permanece inamovível “quando o mundo a afeta”, enquanto que “a
é um repouso divino”. O estágio intermediário é o de “um poder e uma impassibilidade obtida pela obediência é genuína e sempre inamoví-
visão iluminantes; e o final é o êxtase ou o arrebatamento do nous em vel”. O estado de pureza que provém da guarda dos mandamentos de

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Deus engendra a impassibilidade. “A guarda dos mandamentos de Psicoterapia Ortodoxa - Capítulo V
Deus gera a impassibilidade”.

Mas apenas mediante exercícios corporais, sem a fé, nenhum homem


pode entrar “no lugar de repouso da impassibilidade e da perfeição do A hesíquia como método de cura
conhecimento espiritual”. São Teognosto diz também claramente que
quando uma pessoa atinge a virtude prática, ela não consegue alcançar Um dos métodos de cura fundamentais consiste no repouso no pleno
a impassibilidade “a menos que a contemplação espiritual confira ao sentido do termo. Creio que já esclarecemos esse ponto. O homem
seu nous o conhecimento luminoso e o entendimento das coisas cria- contemporâneo está buscando a cura para sua vida, especialmente para
das”. Essa passagem é muito importante. Pois hoje em dia existem sua condição interior, precisamente porque ele está hipertenso. Por isso
muitos homens que dizem ser possível alcançar a impassibilidade atra- uma das mensagens que a Ortodoxia pode oferecer o cansaço moderno,
vés da virtude prática. São Teognosto não aceita isso. Ela deve ser ne- para o mundo desencorajado e que se debate, é a mensagem do silên-
cessariamente acompanhada pela contemplação espiritual, pelo arre- cio. Penso que a tradição Ortodoxa tem muito a oferecer nessa área.
pendimento e a prece, e, em especial, a prece noética. Portanto, a seguir tentarei explicar mais a fundo o valor da hesíquia e
do Hesiquiasmo na cura da alma, do nous, do coração e da inteligência.
A tristeza divina dá uma importante ajuda em adquirir a impassibili- Acreditamos que a hesíquia e o Hesiquiasmo estão entre as medicinas
dade. De acordo com São João Clímaco, “para muitas pessoas, a tris- mais básicas para obter a saúde interior. E uma vez que a falta de si-
teza preparou o caminho para a abençoada impassibilidade. Ela traba- lêncio é o que cria os problemas, a pressão, a ansiedade e a insegu-
lhou junto, lavrando o campo, e afastando a pessoa do pecado”. A tris- rança, bem como as doenças psicológicas, psíquicas e físicas, tentare-
teza é, assim, um modo de vida. Ela lava a alma, purifica o nous e o mos buscar as causas dessas coisas, que constituem o anti-hesiqui-
torna capaz de receber as consolações divinas. Essa tristeza se liga ao asmo. O vento desértico do anti-hesiquiasmo que está soprando e quei-
arrependimento, ao verdadeiro arrependimento que é a aversão ao si. mando tudo prevalece por toda parte, e é a causa dominante dessas
O Senhor falou de detestar nossa vida e ao mesmo tempo seguir a situações anormais. Vamos então estudar a hesíquia como uma método
Cristo para ganhar o Reino dos Céus. “Aquele que ama sua vida a per- de cura da alma, e a anti-hesíquia como a causa das doenças físicas e
derá, e aquele que detesta sua vida neste mundo receberá a vida psíquicas.
eterna[30]”, e “se alguém não detesta seu pai e sua mãe (...) e toda a
sua vida, ele não pode ser meu discípulo[31]”. São Gregório Palamas 1.1 . A hesíquia
escreve que aqueles que vivem no mundo devem se forçar a usar as Antes de definir a hesíquia, ou repouso, veremos o grande valor que
coisas deste mundo em conformidade com os mandamentos de Cristo. ela tem para a alma.
Esse esforço, prolongado num hábito, torna fácil para nós aceitarmos
os mandamentos de Deus e transformar nossa disposição mutável num Os santos Padres, que viveram a plenitude da tradição ortodoxa, enfa-
estado fixo. Essa condição traz uma sólida aversão “contra os estados tizaram a grande importância da hesíquia Ortodoxa. São Gregório o
malignos e as disposições ruins da alma”, e a aversão produz a impas- Teólogo considerava a hesíquia como essencial para atingir a comu-
sibilidade. Portanto, a aversão ao nosso “eu” mau e confuso se torna

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uma fonte de impassibilidade. E, quando um homem possui a impas-
sibilidade, o pecado já não consegue dominá-lo e ele descansa na li-
berdade e na lei do Espírito.

Quando vemos que algumas pessoas proeminentes na vida espiritual


apresentam certas faltas e pequenas paixões, não devemos ficar escan-
dalizados, porque Deus, em Sua providência, muitas vezes deixa ves-
tígios das paixões para que elas se envergonhem de si mesmas e obte-
nham a riqueza da humildade que ninguém poderá roubar.

Esse é o grande tesouro da impassibilidade. Ele está conectado com


todas as virtudes e com a vida espiritual. Por isso devemos orar para
adquirir a abençoada impassibilidade. São João Clímaco nos exorta a
todos os que somos devastados pela paixão a orar “incessantemente ao
Senhor, pois todos os impassíveis avançaram assim da paixão à impas-
sibilidade”. E não devemos buscar a impassibilidade com orgulho e
egoísmo, a fim de recebermos grandes e sobrenaturais dons. Pois é
possível que um homem procure esse dom e o receba do demônio, que
age assim para enganá-lo em sua vaidade. Por isso São Teognosto ad-
verte: “Não peça a impassibilidade, porque você não é digno desse
dom; peça persistentemente pela salvação, e você receberá a impassi-
bilidade em acréscimo”.

Apesar de nossas orações e de uma intensa luta, é possível que Deus


não permita que nos afastemos de uma paixão, para que possamos des-
frutar da impassibilidade parcialmente. Isso pode acontecer, seja por-
que pedimos a Deus prematuramente, indigna ou orgulhosamente, ou
porque, caso Ele nos concedesse a impassibilidade total, isso poderia
nos encher de vanglória ou nos tornaríamos negligentes e descuidados.
Portanto, não devemos nos afligir, “se no momento o Senhor não dá
ouvidos às nossas súplicas”. Deus gostaria de nos tornar impassíveis
“num instante”, mas Sua providência visa nossa salvação, como já dis-
semos. Ademais, na história da Igreja tivemos casos em que homens
que obtiveram a impassibilidade pediram a Deus que lhes retirasse essa

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bênção, para que eles voltassem a lutar contra o inimigo. Depois que [1] João 5: 3.
são Efrém conquistara todas as paixões da alma e do corpo pela graça [2] Gálatas 2: 20.
de Cristo, “ele pediu que essa graça lhe fosse retirada”, para que ele [3] Romanos 7: 23-24.
não caísse no ócio e não fosse condenado por deixar de lutar contra o [4] Marcos 7: 21-23.
inimigo. [5] Lucas 8: 14.
[6] Romanos 7: 5.
A impassibilidade total ou parcial demonstra a cura da alma. A alma [7] Romanos 1: 26.
alcança a saúde. O nous, que havia sido mortificado pelas paixões, re- [8] Marcos 12: 30.
vive e se levanta novamente. “A bendita impassibilidade levanta o po- [9] Gálatas 5: 17.
bre nous da terra aos céus, ergue o ladrão dos calabouços da paixão. E [10] Gálatas 5: 19-21.
o amor, feliz com isso, o faz sentar-se entre os príncipes, ou seja, entre [11] Romanos 1: 28-31.
os santos anjos, os príncipes do povo do Senhor”. [12] II Timóteo 3: 1-5.
[13] Efésios 5: 5.
[14] Tiago 1: 14 ss.
[15] Colossenses 3: 5-10.
[16] Efésios 5: 3ss.
[17] Gálatas 5: 26.
[18] Romanos 5: 7ss.
[19] Gálatas 5: 25ss.
[20] Gálatas 5: 16-18.
[21] Cf. Gálatas 5: 19-21.
[22] I João 1: 8.
[23] João 20: 22ss.
[24] Salmo 104.
[25] Efésios 6: 17. [26] Mateus 5: 22.
[27] Mateus 5: 28.
[28] Cf. Mateus 10: 37ss.
[29] Mateus 12: 43-45.
[30] João 12: 25.
[31] Lucas 14: 26.

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Cristo e pela libertação de sua alma de toda conexão pecaminosa com vocês pensam em seus corações?’[9]”. Ao acusar os Escribas e os Fa-
as coisas criadas. Ele será iluminado pela luz inacessível “abundante- riseus, Ele disse: “Fariseu cego, primeiro limpe o interior da taça e do
mente através de uma união inconcebível”. Ele vê a Deus através dessa prato, e assim o exterior poderá ficar limpo também[10]”.
união. Assim ele se torna luz e vê a luz. Ao ver a luz incriada, ele
reconhece a Deus e adquire o conhecimento Dele, porque agora “ele As epístolas dos Apóstolos também apontam o grande valor do de-
reconhece verdadeiramente que Deus está acima da natureza e além da serto, da hesíquia noética, da purificação interior e da vigilância. Va-
compreensão”. mos relembrar algumas passagens relevantes.

São Gregório desenvolve esse ensinamento em outras passagens das Depois de se converter a Cristo, o Apóstolo Paulo viajou pelo deserto
Tríades. da Arábia, e ali se arrependeu de seu comportamento anterior[11].

A visão de Deus, a theoria da luz incriada, não consiste numa visão O Apóstolo, que conhecia o repouso interior do nous, aconselhava
sensorial, mas numa deificação do homem. Falando sobre a visão de muito seus discípulos. Percebendo que os Cristãos que estavam unidos
Moisés “face a face, e não por enigmas”, ele relembra a passagem de a Cristo possuíam também o nous de Cristo, ele escreveu: “Mas nós
São Máximo o Confessor, que diz: “A deificação é uma iluminação temos o nous de Cristo[12]”. Em outro trecho, ele exorta: “Deem morte
direta e anipostática que não tem início, mas que surge naqueles que aos seus membros que estão no mundo”. Pela graça de Deus o Após-
são dignos de algo que excede sua compreensão. Ela é de fato uma tolo viu a lei interior de seus membros guerreando contra a lei do
união mística com Deus, além do nous e da razão no momento em que nous[13].
as criaturas já não mais conhecerão a corrupção”. Portanto, a visão da
luz incriada corresponde à deificação do homem. Ele vê a Deus através Nos ensinamentos dos Apóstolos é dada muita importância à atenção,
da deificação e não por cultivar sua inteligência. A visão da luz incri- vale dizer, à vigilância espiritual para evitar que a pessoa seja captu-
ada é chamada de dom deificante. Ela não é um dom da natureza hu- rada por um poder maligno exterior. “Por isso não durmamos como os
mana criada, mas do Espírito Santo. “Assim sendo, o dom deificante demais, mas vigiemos e estejamos sóbrios (...) nós que somos do dia
do Espírito é uma luz misteriosa que transforma em luz aqueles que sejamos sóbrios[14]”. Ele exorta o Apóstolo Timóteo: “Esteja atento a
recebem esse tesouro. Ele não apenas os enche com a luz eterna mas todas as coisas[15]”.
ainda lhes concede o conhecimento e uma vida agradável a Deus”.
Portanto, a visão de Deus não é externa, mas vem pela deificação. E a respeito da prece ele é claríssimo. A prece deve prosseguir inces-
santemente nos corações dos Cristãos. “Continuem confiantemente a
Assim é que a deificação é a união e a comunhão com Deus. De acordo orar, sejam vigilantes e deem graças[16]”. “Orem sem cessar[17]”.
com São Gregório, “a visão da luz incriada não é simplesmente uma
abstração e uma negação, ela é a união e a divinização que ocorre mís- O Apóstolo Pedro dá os mesmos mandamentos, mostrando que os
tica e inefavelmente pela graça de Deus, depois de afastar todas as coi- membros da Igreja possuem uma vida em comum. “Sejam sóbrios, se-
sas inferiores que se imprimem no nous, ou melhor, depois da cessação jam vigilantes, porque seu adversário o demônio ronda como uma leão
de toda atividade noética; é algo que vai muito além da abstração”. A que ruge, procurando a quem devorar[18]”.

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Todas essas coisas mostram que praticamente todos os Cristãos podem com o conhecimento de Deus, que está acima do conhecimento hu-
alcançar o repouso e também a visão de Deus. A esse respeito os Pa- mano e acima dos sentidos.
dres são absolutos e expressivos.
São Gregório explica toda essa teologia ao longo de todos os seus es-
Pedro Damasceno escreve: “Pois todos os homens precisam dessa de- critos. Mas como não é nossa intenção neste capítulo de fazer uma ex-
voção e dessa calma, total ou parcial, e sem isso é impossível alcançar posição sistemática desse ensinamento a respeito do conhecimento de
a humildade e o conhecimento espiritual”. Deus, vamos nos limitar a analisar o ponto central tal como ele o apre-
senta em sua obra fundamental “Sobre os santos Hesiquiastas”, conhe-
Nesse ensinamento de Pedro Damasceno devemos notar as palavras cida como “As Tríades”. Salientamos que não iremos apresentar todo
“todos os homens necessitam de devoção e calma”. Se ele se refere o ensinamento, tal como se encontra nesse livro, mas apenas os pontos
assim a todos os homens, mais necessária ainda será essa condição centrais.
para os monges. É inconcebível que exista um monge que não devote
seu tempo em participar da santa hesíquia. Dizemos isso porque sem- Eis uma passagem característica, na qual ele apresenta seu ensina-
pre existiram ideias diferentes em alguns círculos, especialmente entre mento: “Aquele que limpou sua alma de toda conexão com as coisas
aqueles que ao verem monges lutando para adquirir a divina hesíquia, desse mundo, que se desvinculou de tudo por meio da guarda dos man-
os chamavam de iludidos. Por essa razão aproveitamos a oportunidade damentos e pela impassibilidade que isso traz, e que passou além da
para apresentar outras ideias na próxima seção. Outro ponto que deve atividade cognitiva por intermédio de uma prece contínua, sincera e
ser enfatizado é que “sem isso, é impossível alcançar a humildade e o imaterial, e que foi abundantemente iluminado pela luz inacessível
conhecimento espiritual”. Esse é o único métodos e o único caminho numa união inconcebível, somente este homem, transformando-se em
para conhecer a Deus, como já mencionamos, de acordo com o ensi- luz, contemplando através da luz e vendo a luz, na visão e no deleite
namento de São Gregório Palamas. dessa luz, reconhece que Deus é transcendentalmente radiante e além
da compreensão; ele glorifica a Deus não apenas além do poder de
Algumas pessoas sustentam que a hesíquia, tal como descrita pelos Pa- compreensão do nous humano – pois muitas das coisas criadas estão
dres, é inação e que ela não é ação. Na realidade, acontece exatamente além daí – mas até além da união maravilhosa que é o único meio pelo
o oposto. A hesíquia é uma ação imensa feita na invisibilidade e no qual o nous se une com aquilo que está além das coisas inteligíveis,
silêncio. A pessoa está em repouso e em paz para poder falar com ‘imitando divinamente os nous supracelestiais’”.
Deus, de modo a obter sua própria liberdade e para receber o próprio
Deus. E se considerarmos o fato de que os maiores problemas que nos Encontramos nessa passagem o ensinamento central de São Gregório.
atormentam são psíquicos e internos, e se pensarmos que a maior parte Para alcançar a visão da luz incriada, a pessoa deve cortar todas as
das moléstias (psicológicas e físicas) se originam da elaboração dos conexões entre a alma e aquilo que está abaixo dela, desvinculando-se
pensamentos, ou seja, da impureza do nous e do coração, poderemos de tudo pela observância dos mandamentos de Cristo e por meio da
entender o grande valor da hesíquia noética. Portanto, ela é ação e vida. impassibilidade que provém daí, e transcender toda atividade cognitiva
A hesíquia oferece as condições indispensáveis para amar os irmãos “por intermédio de uma prece contínua, sincera e imaterial”. Para isso,
ele já deve estar curado, por meio da guarda dos mandamentos de

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1.2 . O conhecimento de Deus de acordo com São Gregório Palamas desapaixonadamente, para adquirir um amor não egoísta e desinteres-
sado. “Aquele que não é atraído pelas coisas mundanas ama a paz.
Agora que explicamos o ensinamento de Santo Isaac o Sírio a respeito
Aquele que não ama a nada meramente humano ama todos os ho-
dos três graus do conhecimento, podemos nos debruçar sobre o conhe-
mens”, diz São Máximo o Confessor. Como pode alguém ter um amor
cimento de Deus de acordo com o santo Athonita, Gregório Palamas.
não egoísta, que é um dos objetivos da vida espiritual, se estiver pos-
Quando uma pessoa se eleva do conhecimento corporal para o da alma
e daí para o conhecimento espiritual, ela vê a Deus e possui o conhe- suído pelas paixões?
cimento de Deus, que é a salvação. O conhecimento de Deus, como
Por isso a vida hesiquiasta é uma vida de intensa atividade, mas de uma
será explicado adiante, não é intelectual, mas existencial. Ou seja, todo
atividade genuína e boa. “O repouso dos santos não deve ser visto
o ser é preenchido com o conhecimento de Deus. Mas para que seja
como indolência, mas como uma forma de intensa atividade. Princi-
possível atingir isso, o coração da pessoa deve ter sido purificado, ou
palmente porque Deus se revela de modo similar em suas relações com
seja, a alma, o nous e o coração devem ter sido curados. “Bem-aven-
os homens. o movimento de Deus em direção aos homens não é apenas
turados os puros de coração, porque eles verão a Deus[1]”.
um movimento de manifestação, mas também um movimento de reve-
lação. Ele não é apenas a revelação de uma palavra, mas também a
Vamos ver as coisas mais analiticamente.
expressão da paz. É por isso que o homem, de modo a se aproximar de
Conforme indicamos, Barlaam insistia em que o conhecimento de Deus, não se satisfaz com apenas receber Suas energias reveladas, mas
Deus não dependia da visão de Deus, mas do entendimento da pessoa. ele também avança para receber em silencio o mistério de Seu desco-
Ele dizia que podemos adquirir o conhecimento de Deus por meio da nhecido. Não é o bastante ouvir Sua palavra, mas é preciso avançar
filosofia, e considerava que os profetas e apóstolos que viram a luz para o inaudível de Sua paz. Essa segunda parte conduz à perfeição, e
incriada, estavam abaixo dos filósofos. Ele dizia que a luz incriada era a primeira parte é um pressuposto. De fato, como Santo Inácio obser-
sensorial, criada e “inferior ao nosso entendimento”. Entretanto, São vou, apenas ‘aquele que adquiriu a palavra de Jesus pode também ou-
Gregório Palamas, que trazia em si a Tradição e era um homem da vir Seu silêncio, de modo a se tornar perfeito’. Por isso o movimento
revelação, sustentou o ponto de vista oposto. Em sua teologia ele apre- do homem em direção a Deus não se resume a um movimento de ação,
sentou o ensinamento da Igreja de que a luz incriada, ou seja, a visão mas é também um movimento de ocultação; ele será não apenas um
de Deus, não é apenas uma visão simbólica, nem sensorial nem criada, testemunho de confissão, mas também um testemunho de silêncio e
muito menos inferior ao conhecimento, mas ela consiste na deificação. paz”.
Através da deificação o homem é considerado digno de ver a Deus. E
essa deificação não é um estado abstrato, mas uma união do homem Por isso os Padres falam de “repouso frutífero”. Quando praticado cor-
com Deus. Vale dizer que o homem que contempla a luz incriada a retamente ele oferece uma grande ajuda à pessoa, remodela sua perso-
enxerga porque está unido a Deus. Ele a vê com os olhos interiores, e nalidade, renova seu ser e o une a Deus. A partir daí suas relações so-
também com seus olhos corporais, os quais foram alterados pela ação ciais se corrigem. Quando o homem adquire o amor a Deus ela também
de Deus. Consequentemente, a theoria é a união com Deus. E essa adquire o amor à humanidade.
união é o conhecimento de Deus. A essa altura a pessoa é agraciado

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1.2 . O Hesiquiasmo seja, o conhecimento de Deus, é fruto da theoria. Ele é recebido pela
pessoa que progrediu do conhecimento carnal para o da alma e daí para
Até agora explicamos o melhor que pudemos no que consiste a hesí-
quia, quais são as suas características e o quanto ela é indispensável o conhecimento espiritual.
para nossa vida espiritual. Ela é recomendada por todos os Padres
Em resumo, podemos dizer que o primeiro conhecimento “torna a alma
como sendo melhor método de purificação e de retorno a Deus. Acima
fria para as obras da busca de Deus”. O segundo conhecimento aquece
de tudo, conforme apontamos, a Ortodoxia é uma ciência terapêutica
a alma para uma corrida veloz “no nível da fé”. O terceiro conheci-
que almeja curar as moléstias do homem. Isso nunca deve ser esque-
mento é o descanso das obras, “que é o tipo do século futuro, pois a
cido, porque fazê-lo equivaleria a destruir toda a essência e o conteúdo
alma extrai seu prazer apenas da meditação da mente sobre os misté-
do Cristianismo. A purificação, como uma precondição necessária à
rios das boas coisas que virão”.
deificação, é alcançada mediante o método da devoção Ortodoxa no
qual a hesíquia desempenha um papel importantíssimo.
Esse ensinamento de Santo Isaac é muito relevante para o tema que
estamos tratando, pela seguinte razão. No começo do livro nós menci-
Todo esse método e mais seu modo de vida são chamados de hesiqui-
onamos que os membros da Igreja não se dividem em bons e ruins,
asmo. Vale dizer que a pessoa que luta numa atmosfera de repouso é
morais e imorais, tomando a ética humana como critério, mas em do-
chamada de hesiquiasta, e esse modo de viver na paz é chamada de
entes na alma, em processo de cura e curados. Precisamente essas três
hesiquiasmo. Certamente conhecemos o hesiquiasmo como uma mo-
categorias correspondem aos três graus de conhecimento. Aqueles cuja
vimento teológico do século XIV, representado especialmente por São
alma está doente possuem o conhecimento corporal e mundano, os que
Gregório Palamas, que emprega um método psicossomático específico
estão em processo de cura são os que, em diferentes graus, estão ad-
e busca, com a ajuda da divina graça, unir o nous ao coração e também
quirindo a sabedoria e o conhecimento da alma, e os que foram curados
viver em comunhão com Deus. São Gregório sustenta que isso acon-
são os santos de Deus, que possuem o conhecimento espiritual e o ver-
tece no corpo da mesma forma. Ou seja, também o corpo pode adquirir
dadeiro conhecimento de Deus. Muitas pessoas de nosso tempo, que
a experiência da vida em Deus. Barlaam, ao contrário, sem conhecer o
estão doentes da alma porque não conhecem nada do nous e do cora-
método, se tornou seu oponente, com o resultado de ter sido finalmente
ção, se mantêm no primeiro conhecimento, o carnal. Outras pertencem
condenado pela Igreja e removido da esfera Ortodoxa. O conflito he-
ao segundo conhecimento, porque lutam para serem curadas pelos
siquiasta, como ficou conhecido, terminou com os Concílios que tive-
meios da método ascético disponível na Igreja Ortodoxa. E os santos,
ram lugar em Constantinopla nos anos de 1341, 1346 e 1351. O último
que mesmo hoje ainda existem, pertencem ao terceiro conhecimento,
desses Concílios, que “justificou” Palamas, proponente da vida hesi-
pois foram curados de suas enfermidades e adquiriram o conhecimento
quiasta, foi considerado Ecumênico: “Acreditamos que o Concílio de
de Deus.
Constantinopla no tempo de São Gregório Palamas em 1351, pode e
deve ser contado entre os Concílios Ecumênicos da Igreja Ortodoxa,
por não ser de modo algum inferior e pelo significado soteriológico de
sua teologia. Esse Concílio constitui a prova da continuidade concilia-
tória da Igreja Ortodoxa e da experiência viva e da teologia relativa à
salvação em Cristo”.
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O terceiro conhecimento é o espiritual. Quando o conhecimento do ho- Entretanto, esse movimento hesiquiasta não fez seu primeiro apareci-
mem se eleva acima das preocupações mundanas e começa a olhar in- mento no século XIV, mas existiu desde os primeiros séculos da vida
ternamente “o que está oculto aos olhos”, e quando ele despreza as da Igreja. Encontramos a hesíquia na Sagrada Escritura e nos primeiros
coisas “das quais nascem a perversidade das paixões” e se esforça em Padres da Igreja. Já mencionamos exemplos dos Padres de todos os
sua ânsia pelas promessas do século futuro e em sua busca pelos mis- séculos da história da Igreja, tais como Santo Inácio, São Basílio o
térios ocultos, “então a própria fé devora o conhecimento, transforma- Grande, São Gregório o Teólogo, São Máximo o Confessor, São Tha-
o e faz nascer um novo, de tal modo que o torna total e completamente lassius, São João Clímaco, São Simeão o Novo Teólogo e São Gregó-
espírito”. rio Palamas. Este último não foi o introdutor do hesiquiasmo, mas seu
expoente, aquele que viveu e expressou toda essa santa viagem da
A partir daí ele pode voar pelos espaços dos anjos incorpóreos; ele co- alma. Assim, o hesiquiasmo constitui a forma autêntica da vida Cristã.
nhece os mistérios espirituais, a governança do espiritual e do corpó-
reo. Ou seja, ele conhece os princípios internos dos seres. Então os Porém, o termo hesiquiasmo é utilizado também para caracterizar o
sentidos interiores despertam e a alma recebe a ressurreição que lhe dá método empregado para concentrar o nous no coração. Esse é um tema
a certeza da ressurreição futura do homem. Santo Isaac, que possuía muito amplo e eu gostaria de apontar aqui apenas alguns tópicos.
esse conhecimento espiritual – que é a vida na fé –, escreve: “Então
ele pode planar nos reinos incorpóreos e tocar a profundidade de um No esforço para ser purificado, o nous “permanece orante no coração”,
oceano insondável, contemplando as maravilhosas e divinas obras de repetindo sem cessar a prece monológica de Jesus. Ele não é pertur-
Deus sobre as criaturas inteligíveis e corporais. Ele procura por nossos bado por muitas palavras. Incessantemente, ele repete o Nome de Jesus
mistérios espirituais que só são percebidos por um nous simples e sutil. Cristo. Ao mesmo tempo, o nous vigia para que os pensamentos não
Então os sentidos internos despertam para a ação espiritual, de acordo passem pela porta do coração. Assim, conforme diz São Máximo o
com a ordem que haverá na vida imortal e incorruptível. Pois desde já Confessor, a vigilância está ligada à oração.
ele recebeu, como num mistério, a ressurreição inteligível como um
testemunho verdadeiro da renovação universal de todas as coisas”. “Mas o nous pode penetrar ainda mais profundamente no coração,
quando, por um impulso divino, ele se une de tal maneira ao coração
Esse conhecimento foi possuído por todos os santos de Deus, como que ele se despe de todas as imagens e conceitos, enquanto o coração
Moisés, Davi, Isaías, os Apóstolos Pedro e Paulo, e todos os santos que se fecha contra todo elemento estranho. Então a alma penetra numa
foram considerados dignos desse conhecimento perfeito, “no grau pos- ‘escuridão’ de natureza especial, e em seguida ela é considerada digna
sível para a natureza humana”. Na realidade, esse conhecimento pro- de permanecer diante de Deus inefavelmente, com um nous purifi-
vém da visão de Deus e da luz incriada, das divinas revelações, ou, cado”.
como coloca Santo Isaac, “das diversas contemplações e revelações
divinas, pela visão eminente das coisas espirituais e dos mistérios ine- Muitos métodos são utilizados para atingir essa concentração e o re-
fáveis”. Então o conhecimento é engolido por essas visões de Deus e torno da divagação do nous ao coração. É essencial que o método que
a pessoa se sente como poeira e cinzas. Ela adquire o abençoado estado vamos usar esteja combinado com o arrependimento porque de outro
de humildade e de simplicidade. Então o conhecimento espiritual, ou modo ele pode degenerar num processo apenas mecânico.

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Em seu sermão do Domingo do Fariseu e do Publicano, São Gregório a pessoa dogmatize e se oponha à palavras dos demais, se torne mal-
Palamas apresenta a prece do dosa para com todas as ações do outro e procure meios para desonrar
Publicano, o modo como ele reza, como o protótipo da prece hesi- os demais. Esse conhecimento contém a presunção e o orgulho.
quiasta. Ele se refere ao Evangelho: “O coletor de impostos, permane-
cendo à distância, não podia nem erguer os olhos para os céus, e batia Vemos claramente que o conhecimento corporal é típico da civilização
no peito, dizendo: ‘Tem piedade de mim, pecador’[19]”. Interpretando contemporânea. Com intuição profética Santo Isaac apresenta as cau-
essa passagem, diz que a palavra usada aqui para “permanecer” [ma- sas e a vocação desse homem carnal, descreve suas lutas e sua angús-
kroqen], indica uma longa permanência, juntamente com uma persis- tia, e ainda apresenta os temíveis resultados desse conhecimento cor-
tência da súplica e das palavras penitenciais. O Publicano diz: “Deus, poral. Os distúrbios dos relacionamentos interpessoais, a falta de amor,
tem piedade de mim pecador”, e nada mais. “Nem visando nem pre- a obstinação e a malícia em todas as ações são coisas que definem o
tendendo nada além, ele prestava atenção apenas em si mesmo e em homem contemporâneo que se encontra doente da alma e longe de
Deus, fazendo girar sua prece, apenas multiplicando sua súplica sim- Deus.
ples, que é o modo mais eficaz de prece”. Podemos ver aqui valor da
prece simples “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de O segundo conhecimento é aquele da alma. Quando um homem renun-
mim, pecador”. O hesiquiasta, assim como o Publicano, não pensa em cia ao primeiro, o conhecimento corpóreo e carnal, ele se volta para os
mais nada, mas concentra seu nous nas palavras da prece. Palamas in- desejos e as conversações da alma, e a isso seguem-se todas as boas
terpreta as palavras de Cristo de que o Publicano “sequer erguia seus ações do conhecimento da alma. Essas são o jejum, a prece, a miseri-
olhos para os céus”, como se referindo à figura do hesiquiasta: “Essa córdia, a leitura das Escrituras, os modos da virtude, a batalha com as
permanência era ao mesmo permanência e submissão, e simbolizava paixões, etc. Todas essas ações são perfeccionadas pelo Espírito Santo.
não apenas um servo humilde, mas também um condenado”. Por suas Elas não acontecem pelo poder do homem, mas pelo trabalho conjunto
maneiras e postura o Publicano mostrava “a correta condenação e a do homem com o Espírito Santo. Existem estágios na aquisição do co-
autorreprovação, pois ele via a si mesmo como indigno tanto dos céus nhecimento. O segundo grau de conhecimento é tornado perfeito
como do templo terreno”. O fato de que ele batia no peito também “quando lançou as fundações de sua ação no isolamento em relação
mostra a participação de seu corpo na dor e na tristeza da alma. “Ao aos homens, na leitura das Escrituras e na oração”. Ou seja, o possuidor
bater em seu peito, com extrema compunção, e se apresentando como desse conhecimento da alma vive na paz, com tudo o que ela implica,
digno de punição, gemendo com profunda tristeza e inclinando sua ca- conforme descrevemos no capítulo precedente. Ele ora a Deus inces-
beça como um condenado, ele se declarava pecador e com fé pedia santemente e estuda as Escrituras nessa santa atmosfera de repouso e
piedade”. paz, de modo a alimentar sua alma, não para aprender as palavras de
Deus por curiosidade. Essa categoria inclui as pessoas que estão em
Parece claro que a parábola do Publicano e do Fariseu foi usada por processo de cura das chagas psíquicas e das feridas de suas almas. Essa
Cristo, e também por São Gregório Palamas – que interpretou a pará- cura oferece um conhecimento que pode ser chamado de etapa preli-
bola “hesiquiasticamente”- para apresentar o repouso e a prece como minar e antessala do seguinte, o conhecimento espiritual, que aparece
a melhor maneira para receber a misericórdia de Deus. Essa é a prece com a vida da graça de Deus no coração do homem.

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corpo, a diligência na sabedoria racional, tal como é adequada ao go- mais perfeita. É a prece monológica, que contém uma profunda peni-
verno do mundo e que cria as invenções, as artes e das ciências. Esse tência, na qual o corpo, que participa da oração, também receberá a
conhecimento se opõe à fé, conforme já explicamos, porque ele consi- graça de Deus, enquanto a prece toda se desenvolve numa atmosfera
dera que “todas as coisas são realizadas por sua própria providência”. de autorreprovação e justa condenação.
A sabedoria e o conhecimento das coisas do mundo, sem os outros dois
tipos de conhecimento são inúteis e acabam criando muitos problemas Devido ao fato de que Barlaam ridicularizou os hesiquiastas de seu
para o homem. Esse tipo de conhecimento é raso e rude, pois “está tempo por praticarem uma inclinação de cabeça e do corpo específica
despido de tudo o que se refere a Deus”. Ele se refere apenas ao mundo, para adquirir a concentração do nous e um desenvolvimento uniforme
e por ser controlado pelo corpo, “introduz na mente uma impotência das potências da alma, São Gregório se referiu ao caso do profeta Elias,
irracional”. que orava a Deus com sua cabeça entre os joelhos: “E esse Elias, per-
feito na visão de Deus, com sua cabeça entre os joelhos, concentrando
Muitos homens de nosso tempo, que não se curaram na alma, possuem assiduamente seu nous sobre si mesmo e sobre Deus, remediou a seca
esse conhecimento e o cultivam continuamente. Toda a civilização de muitos anos”. Assim, São Gregório recomendava um modo de con-
contemporânea, que criou tantas anomalias da alma e do corpo, se en- centrar o nous: “Para que os olhos não passeiem aqui e ali, mas, de
contra nesse estado. Além disso, esse conhecimento unilateral cria algum modo, se deixem ficar sobre o lado direito do peito ou sobre o
muitos problemas, conforme descreve Santo Isaac. O homem que pos- umbigo, para enviar o poder do nous, que foi disperso enquanto olhava
sui o conhecimento corporal está sujeito ao desencorajamento, à an- para fora, de volta para o coração, por intermédio do corpo parado
gústia, ao desespero, ao medo dos demônios, ao sobressalto diante dos nessa posição”.
homens, aos rumores de ladrões e ao relato de mortes, à ansiedade di-
ante das enfermidades, à preocupação com os desejos e o não atendi- Referindo-se ao tema de como orar, São Gregório Sinaíta recomenda:
mento das necessidades, ao medo da morte e dos sofrimentos, dos ani- “Pela manhã, sentado num banco baixo, force seu nous a descer da sua
mais selvagens e outras coisas do gênero, que configuram o mar da cabeça para o coração, e segure-o ali; curvando-se dolorosamente, com
vida presente. O homem que possui esse conhecimento humano e cor- dores no peito, ombros e pescoço, clame incessantemente em sua alma
poral não sabe como se abandonar à misericórdia de Deus, mas tenta e em seu espírito: ‘Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim’”. Ele diz
resolver todos os problemas por seus próprios meios. E quando ele não ainda que devemos restringir a respiração de modo a concentrar o
consegue chegar a soluções, por várias razões, ele “antagoniza com os nous: “Limite a inalação do hálito para não respirar livremente, porque
outros homens, como se eles impedissem ou se opusessem” a esse co- o movimento do ar, subindo desde o coração, obscurece o nous e ven-
nhecimento. Ele começa a se indispor com os homens porque eles atra- tila a razão, afastando o nous do coração”.
palham a aquisição dos bens do conhecimento corporal.
Existem muitos outros testemunhos patrísticos a esse respeito.
Esse conhecimento corporal, as preocupações mundanas, erradicam
por completo o amor. Ele faz com que a pessoa examine os pequenos Em outra parte São Gregório Sinaíta descreve o método de oração que
pecados e erros dos outros, suas causas e suas fraquezas, faz com que concentra o nous e que é chamado de hesiquiasmo. “Algumas vezes, e
geralmente, por ser cansativo, sente-se num banco; outras vezes, mais

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raramente, deite-se esticado para relaxar. Ao sentar-se, adote uma pos- Existem três modos concebíveis pelos quais o conhecimento ascende
tura de paciência, ‘persistindo na oração’. Não se desencoraje com o ou desce. Esses modos são o corpo, a alma e o espírito. Quando os
esforço laborioso, mas trabalhe em seu coração e dirija seu corpo, bus- Padres falam de corpo, alma e espírito eles não estão se referindo às
cando o Senhor em seu coração. Por todos os meios, obrigue-se a esse três partes do homem, mas, com o termo ‘espírito’ eles querem dizer o
trabalho. Pois para contemplar, disse o Profeta, ‘as dores me assalta- dom da graça, dessa divina graça com a qual o homem é abençoado.
ram como as dores da mulher em trabalho de parto’. Mas inclinando- Sem a graça de Deus o homem pode ser dito um homem de corpo ou
se para baixo e reunindo seu nous em seu coração, desde que este já se de alma, enquanto que com a presença da graça ele é chamado de es-
encontre aberto, chame pelo socorro do Senhor Jesus. Mesmo que seu piritual. Ao mesmo tempo em que a natureza do conhecimento é uma,
ombros estejam fracos e sua cabeça doa, persevere nessas coisas com ela é refinada e muda seus modos de acordo com esses três reinos in-
diligência e amor, buscando o Senhor no seu coração. Pois ‘o Reino teligíveis e sensíveis. Então, assim como existem três modos sencien-
dos Céus sofre violência, e são os violentos que o tomam à força’. Com tes e inteligíveis – corpo, alma e espírito- existem três tipos de conhe-
essas palavras o Senhor nos mostrou como devemos realmente perse- cimento relacionados a eles. De acordo com o tipo de conhecimento
verar nessa obra. Pois a paciência e a perseverança em todas as coisas que um homem possui, ele mostra seu progresso espiritual e sua con-
gera os trabalhos tanto do corpo como da alma”. dição espiritual. Ademais, o tipo de conhecimento que alguém possui
é uma indicação de sua purificação e sua cura. Quando a pessoa não é
Devemos enfatizar o fato de que o valor da hesíquia noética, a prece saudável ela possui o conhecimento corporal, enquanto que a pessoa
incessante, a repetição da prece monológica de Jesus, o modo especí- que está sendo curada possui o conhecimento da alma, e aquela que foi
fico de concentrar o nous e uni-lo ao coração, a postura do corpo du- curada possui o conhecimento espiritual. Esse último mostra os misté-
rante a oração e o confinamento dos sentidos, o ensinamento de que a rios do Espírito, que são incompreensíveis e desconhecidos para o ho-
graça de Deus é incriada e de que a pessoa pode recebê-la em seu co- mem de carne.
ração, que a luz do Tabor está acima do conhecimento humanos e
nunca “inferior ao pensamento”, todas essas coisas definem aquilo que O primeiro conhecimento é adquirido por um estudo constante e pelo
é chamado de hesiquiasmo, que foi “justificado” pelo Concílio de aprendizado diligente, o segundo provém de um modo de vida puro e
Constantinopla; consequentemente, quem falar contra essas coisas não bom e da fé mental, e o terceiro é “concedido apenas pela fé; pois pela
apenas não estará mais dentro da tradição Ortodoxa, como ainda estará fé o conhecimento é abolido, as obras chegam ao fim, e o emprego dos
criando as condições para ser cortado da própria vida Ortodoxa. sentidos se torna supérfluo”.

A partir dos ensinamentos de Santo Isaac, vamos nos debruçar mais


1.3 . O anti-hesiquiasmo analiticamente sobre esses três tipos de conhecimento que indicam a
Uma vez que falamos rapidamente sobre o que é a hesíquia, sobre o doença ou a saúde da alma da pessoa.
que é o hesiquiasmo e sobre como o hesiquiasmo foi confirmado pelo
Em primeiro lugar, o conhecimento corporal. Alguns dos elementos
Sínodo que é corretamente chamado de Ecumênico, vamos agora lan-
característicos do conhecimento humano que estão conectados com os
çar um breve olhar sobre os métodos anti-hesiquiastas de conhecer a
desejos da carne são a riqueza, a vanglória, o adorno, o descanso do

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aquilo que é parcial é abolido. A partir daí, “será por nossa fé que Deus e sobre o modo de vida anti-hesiquiasta, que infelizmente preva-
aprenderemos as coisas que não podem ser compreendidas pela inves- lece em nossos dias e que nos mostra que estes são realmente dias
tigação e pelo poder do conhecimento”. Todas as obras de justiça que maus.
são as virtudes, ou seja, o jejum, as esmolas, as vigílias, a santidade e
“todas as demais obras realizadas pelo corpo” e todas as realizadas pela “A hesíquia sempre recebeu antagonismo, especialmente no Ocidente.
alma, ou seja, o amor ao próximo, a humildade do coração, o perdão Por falta da necessária experiência, seus oponentes argumentam de
“aos que pecaram”, a lembrança das boas coisas, a investigação dos modo abstrato e chegam ao ponto de ver nessa prática algo puramente
mistérios ocultos nas Escrituras, a ocupação da mente com as boas coi- mecânico, um tipo de técnica espiritual que conduz a uma visão do
sas, o refreamento das paixões da alma e as demais virtudes, “tudo isso Divino”.
requer conhecimento”. O conhecimento “as guarda e ensina sua or-
dem”. E todas essas coisas são passos por meio dos quais a alma as- Infelizmente esse modo de vida Ocidental chegou a influenciar a pró-
cende “às mais elevadas alturas da fé”. Por isso, “o modo de vida na pria Grécia, de modo que temos hoje uma séria distorção da tradição
fé é mais exaltado do que ao trabalho das virtudes, e ele não consiste Ortodoxa. Para ser exato, muitas pessoas afirmam que nós mudamos
em trabalho, mas num repouso perfeito, na consolação, e se realiza no pelo espírito Ocidental, e elas identificam essa mudança em diversos
coração e dentro da alma”. outros aspectos, tais como os usos e costumes. Eu creio, porém, que a
maior mudança aconteceu na questão da hesíquia e do hesiquiasmo. A
Todas essas coisas indicam que, de acordo com o ensinamento de hesíquia é vista como um método antiquado, como uma vida de inati-
Santo Isaac e de outros santos Padres, a fé é mais elevada do que o vidade, inadequada para os nossos dias, para nossa era de ação. Infe-
conhecimento humano, mais elevada inclusive do que o conhecimento lizmente, essas concepções prevalecem mesmo entre pessoas que de-
adquirido com a prática das virtudes. Pois a fé é uma condição caris- sejam viver dentro da tradição Ortodoxa. Nosso tempo é um tempo de
mática, a comunhão com Deus; ela consiste “no entendimento e na vi- ação. “O mundo contemporâneo não é um mundo de anamnese e paz,
são do coração”; é a vida que se desenvolve na alma com a chegada da mas um mundo de ação e luta”. Numa época como a nossa, hedonista
luz da divina graça. Na próxima seção, no ensinamento de São Gregó- e autogratificante, o hesiquiasmo não consegue encontrar eco. Está
rio Palamas, veremos esse conhecimento de Deus, que é realmente acontecendo aquilo que São João Clímaco disse: “O peixe se desvia
uma “comunhão no ser”, a comunhão e a união do homem com Deus. rapidamente do anzol; e alma passional se desvia da solidão”. Uma
Esse é um conhecimento que está acima de qualquer conhecimento época que ama o prazer é por completo anti-hesiquiasta. Uma monja
humano, mesmo daquele obtido com a prática das virtudes, por meio me disse que em nossos tempos sopra “um vento quente anti-hesi-
do qual encontramos o próprio Cristo, que se esconde na profundidade quiasta” que queima tudo. Creio que essa visão é absolutamente ver-
dos mandamentos. dadeira: esta é a realidade contemporânea. A atmosfera que prevalece
hoje é muito mais a de Barlaam do que a de São Gregório Palamas.
Santo Isaac o Sírio fala de três tipos de conhecimento. Vamos exami-
nar no que eles diferem, pois pensão que isso mostrará o quanto a tra- Hoje em dia a teologia vem sendo desenvolvida através de elaborações
dição Ortodoxa difere da tradição cultural humana, e o quanto o co- lógicas. Ela se tornou nada além de um sistema lógico. Ela não é mais
nhecimento divino difere do conhecimento humano. fruto da hesíquia e da participação em Deus. É por isso que apareceram

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tantas diferenças no pensamento e nas perspectivas teológicas. Hoje a fé “requer um modo de pensar que é simples, limpidamente puro e
em dia a amior parte de nós não vive a teologia como uma ciência simples, distante de qualquer desvio ou métodos inventivos (...) A mo-
terapêutica, como eu disse anteriormente. Já não reconhecemos o ca- rada da fé é um pensamento infantil e um coração simples”. Enquanto
minho da devoção Ortodoxa. Se lermos a Filocalia, onde se encontram que o conhecimento humano tem seu centro na inteligência, a fé possui
os textos mais representativos relativos ao método da teologia, pode- o coração simples e sincero. O conhecimento humano “se mantém den-
remos ver que a maior parte deles fala da cura das paixões. Eles não tro dos limites da natureza”, enquanto que a fé “faz sua viagem acima
fazem análises, nem de detêm a apresentar os estágios elevados, mas da natureza”. Vale dizer que o conhecimento humano constitui uma
ao mesmo tempo eles descrevem os meios que devemos empregar para condição puramente natural, que trabalha dentro dos limites naturais,
sermos curados das paixões. Acredito que existe uma falha fundamen- enquanto que a fé consiste numa condição supranatural. Da mesma
tal na teologia contemporânea, que consiste em não se interessar pela forma, o conhecimento humano não é capaz de fazer nada sem a ma-
Filocalia. Talvez devesse se introduzida uma cátedra especial para in- téria; ele se move num mundo material, enquanto que a fé possui a
troduzir o ascetismo e o hesiquiasmo, baseada nos textos da Filocalia. autoridade, a partir da semelhança com Deus, para realizar uma nova
criação. O conhecimento humano não ousa nem pretende ultrapassar
Além dessas coisas, é preciso uma experiência pessoal do método da os limites da natureza, enquanto que a fé “os transgride com autori-
teologia Ortodoxa, tal como descrito nos textos patrísticos. dade”. Isso fica demonstrado pelas vidas de todos os santos que, pelo
poder da fé, “entraram no meio das chamas e refrearam o poder incen-
O que o Arquimandrita Sofrônio diz é muito característico, quando ele diário do fogo, caminhando desarmados no meio deste, e andaram so-
mostra a diferença entre a teologia conjectural e aquela que acontece bre as ondas do oceano como se estivessem em terra seca”. E todas
em Deus: “A menos que o coração tenha sido purificado é impossível essas coisas que faz a fé estão acima da natureza e são contrárias aos
atingir uma contemplação real. Somente um coração purificado é ca- modos do conhecimento humano. O conhecimento humano “perma-
paz dessa veneração especial e desse maravilhamento diante de Deus nece dentro dos limites da natureza”, enquanto que a fé “vai além da
que coloca o nous num silêncio jubiloso”. natureza”. O conhecimento humano sempre procura meios “para sal-
vaguardar os que o adquiriram”, ou seja, sempre toma medidas prote-
“O pensador teológico almeja a theoria por um caminho, o monge as- toras e busca proteger os homens por meios humanos. Mas a fé vive
ceta por outro. O principal objetivo do monge é o de alcançar a paz da inteiramente em Deus. “O homem que ora com fé nunca emprega
oração no coração, com o nous livre de reflexões, mantendo uma se- meios e procedimentos, nem se envolve com isso”. O conhecimento
rena vigilância como uma sentinela para ter a certeza de que nada que humano não inicia uma obra sem examinar como ela irá terminar, en-
venha de fora penetre no coração. Onde existe esse sagrado silêncio, o quanto que a fé diz: “Tudo é possível para quem acredita. Pois para
coração e o nous se nutrem do Nome de Cristo e de Seus mandamen- Deus nada é impossível”.
tos. Eles vivem como um, controlando todos os acontecimentos desde
dentro, não por meio de uma investigação lógica, mas de modo intui- É verdade, de acordo com Santo Isaac, que o conhecimento humano
tivo, por uma sentido espiritual específico”. não é falho, mas a fé voa mais alto. O conhecimento é perfeccionador
pela fé, uma vez que “o conhecimento é um passo por meio do qual o
homem pode se elevar às eminentes alturas da fé”. Quando chega a fé,

318 327
Ele começa por contrastar o conhecimento com a fé. O conhecimento “Assim que o nous se une ao coração ele consegue ver todos os movi-
humano é caracterizado pelo fato de que ele não estabelece uma auto- mento no domínio do subconsciente (utilizamos aqui esse termo de um
ridade sobre nada “sem investigação e exame”, e que ele deve investi- modo convencional a partir da psicologia científica contemporânea).
gar o que deseja na medida em que isso seja possível. No conheci- Enquanto o nous habita no coração ele percebe as imagens e o pensa-
mento humano existe uma grande participação da inteligência, princi- mentos que o rodeiam provenientes da existência cósmica, que tentam
palmente da inteligência decaída que é quem opera, por ter excedido capturar o nous e o coração. O ataque dos pensamentos intrusos é fe-
seus limites naturais. Ou seja, é o tipo de inteligência que dominou o roz. Para diminuir sua investida o monge é obrigado durante todo o dia
nous. A fé, naturalmente, possui limites diferentes, e nisso parece re- a não admitir uma única consideração passional, nem se permitir pre-
sidir sua grande diferença em relação ao conhecimento humano, e tam- dileção de nenhum tipo. Seu objetivo constante é o de reduzir o número
bém seu grande valor. Santo Isaac diz que quando usamos a palavra de impressões externas ao mínimo. De outro modo, no momento da
“fé” não queremos nos referir à expressão de verdades dogmáticas so- prece noética todas as impressões do dia se agitarão desordenadamente
bre as Pessoas da Santíssima Trindade, ou sobre Cristo ter se tornado em seu coração, causando uma enorme perturbação”.
homem, ou sobre a assunção da natureza humana pela Segunda Pessoa
da Trindade, “embora essa fé seja também muito eminente”; mas o “O propósito do monge é adquirir uma vigilância contínua do nous no
principal significado daquilo a que chamamos fé é “essa luz que, pela coração; e quando, após longos anos de esforço – que é a mais difícil
graça, amanhece na alma e fortifica o coração pelo testemunho da de todas as práticas ascéticas, pior do que qualquer outra – o coração
mente, dando-lhe a certeza por intermédio da segurança da esperança”. se torna mais sensível, enquanto o nous, depois de tantas lágrimas, re-
Essa fé espiritual não ensina os mistérios por uma tradição ouvida, cebe a força para expulsar p menor sinal de pensamento passional, en-
“mas, com olhos espirituais, ela contempla os mistérios escondidos na tão o estado de oração da pessoa pode continuar ininterruptamente, e
alma, e os tesouros secretos e divinos ocultos dos olhos dos filhos da o sentimento de Deus, presente e ativo, se torna poderoso e claro”.
carne, mas que são revelados pelo espírito àqueles que são convidados
à mesa de Cristo por seu estudo de Suas leis”. Vale dizer que enquanto A teologia Ortodoxa precisa estar embebida desse método hesiquiasta
o conhecimento humano é adquirido através da atividade da inteligên- para ser realmente Ortodoxa e não acadêmica. Esforços têm sido feitos
cia e por meio de pesquisas humanas, o conhecimento divino é adqui- nessa área. Mas o problema permanece essencialmente. Será que a te-
rido através da fé. Essa fé é principalmente aquela que amanhece na ologia contemporânea fala em lágrimas, tristeza, humildade e autorre-
alma pela luz da graça, e por intermédio de cujo poder a pessoa aprende provação? Ela pode ser vista como uma caminho para o conhecimento
todos os mistérios que jazem ocultos dos olhos dos homens carnais de de Deus “capaz de deter o nous e o mundo, esquecendo-se das coisas,
nossa época. Assim, “a fé é mais sutil do que o conhecimento, como o deixando de lado o entendimento por aquilo que é o melhor?”. Será
próprio conhecimento é mais sutil do que as coisas palpáveis”. A fé, que ela pressupõe que para atingirmos a comunhão com Deus “deve-
que é o conhecimento divino, é mais sutil do que o conhecimento hu- mos abandonar tudo o que é sensorial, juntamente com as sensações,
mano. elevando-nos acima dos pensamentos e raciocínios, do conhecimento
e do próprio pensamento, totalmente envolvidos na energia da sensa-
Santo Isaac explica a diferença entre o conhecimento humano e a fé. ção espiritual, que Salomão chamou de sentido do divino, e em busca
O conhecimento humano não pode aprender sem exame, enquanto que

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do desconhecido acima do conhecimento, ou seja, acima de toda forma Psicoterapia Ortodoxa - Capítulo VI (final)
da assim chamada filosofia”?

Ei acredito que, ao contrário, a teologia contemporânea é conjectural, 1. Epistemologia Ortodoxa


racionalista. Ela é baseada na “riqueza”, que é a razão. O que diz o O tema da epistemologia pertence a este livro e forma seu capítulo fi-
Arquimandrita Sofrônio é característico: “Outro tipo de imaginação nal, porque está ligado estreitamente à cura da alma humana. Os capí-
sobre a qual queremos falar, é a tentativa da inteligência de penetrar o tulos precedentes mostraram que a queda, a doença e a morte do ho-
mistério da existência e aprender o mundo Divino. Esse esforço inevi- mem correspondem precisamente à morte de sua alma, de seu nous,
tavelmente envolve a imaginação, para a qual muitos estão inclinados seu coração e sua razão, sob a influência dos maus pensamentos. A
a atribuir o rótulo exagerado de inspiração divina. O asceta, que se queda é principalmente a queda do nous. Quando a alma, o nous e o
devota ao ativo silêncio interior e à prece pura, combate resolutamente coração são curados, a pessoa atinge o conhecimento de Deus. De fato,
esse impulso ‘criativo’ dentro de si mesmo porque ele o vê num ‘pro- não é apenas quando estes se curam que a pessoa adquire o conheci-
cesso’ contrário à verdadeira ordem da existência, em que o homem mento de Deus, mas na medida em que são curados. Quando eles se
‘cria’ a Deus à sua própria imagem e semelhança”. curam por completo, na medida do possível, a pessoa alcança um co-
nhecimento de Deus que não admite palavras sobre Deus, mas que co-
O Arquimandrita Sofrônio escreve ainda: “O teólogo que é um intelec- nhece ao próprio Deus. Em outras palavras, é no coração curado que
tual constrói seu sistema como um arquiteto constrói um palácio ou Deus se revela e oferece o conhecimento de Si mesmo. Assim, fica
uma igreja. Conceitos empíricos e metafísicos são os materiais utiliza- claro que a epistemologia Ortodoxa está diretamente ligada à terapia
dos, e ele está mais preocupado com a magnificência e a simetria ló- da alma. O conhecimento de Deus aumenta na medida em que a cura
gica de seu edifício ideal do que em sua conformidade com a verda- progride, e o puro conhecimento de Deus é concedido à pessoas que
deira ordem das coisas. Por estranho que pareça, muitos grandes ho- foi inteiramente purificada e curada.
mens foram incapazes de resistir a essa vulgar tentação, cuja causa
oculta é o orgulho. A pessoa se liga aos frutos da inteligência como Para vermos isso mais claramente, vemos nos concentrar nos ensina-
uma mãe ao filho. O intelectual ama a sua criação como a si mesmo, mentos de dois Padres da Igreja: Santo Isaac o Sírio e São Gregório
se identifica com ela, acabando por se encerrar nela. Quando isso Palamas. Veremos primeiro os três graus do conhecimento de acordo
acontece, nenhuma intervenção humana será capaz de ajudá-lo – se ele com Santo Isaac e então o conhecimento de Deus de acordo com São
não renunciar àquilo que ele acredita ser seu tesouro, ele jamais alcan- Gregório Palamas.
çará a prece pura e a verdadeira theoria”.

Isso é uma teologia Barlaamita e não uma teologia Ortodoxa e Pala- 1.1 . Os três graus do conhecimento segundo Santo Isaac o Sírio
mita.
Santo Isaac o Sírio desenvolve o tema dos três graus do conhecimento
Da mesma forma, existe hoje um preconceito contra a prece de Jesus e nos capítulos 52 e 53 de suas Homilias Ascéticas.
o modo como ela deve ser dita. Certamente devemos dizer que temos

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[1] Romanos 7: 23. um florescimento da oração, de esforços para publicar os trabalhos dos
[2] Mateus 4: 1. Padres e os escritos sobre a oração, mas ao mesmo tempo se observa
[3] Mateus 14: 13. que as pessoas são ignorantes dessas coisas e são incapazes de se apro-
[4] Mateus 14: 23. ximar de uma vida de oração. Muitas das leituras são feitas para star
[5] Marcos 6: 30-31. na moda. E ainda vemos homens que se dizem “espirituais” ridiculari-
[6] Lucas 6: 12. zando a vida hesiquiasta, ou, o que é pior, prevenindo as pessoas sob
[7] Mateus 6: 6. sua influência de se engajar nessas coisas. A visão de que “essas coisas
[8] Mateus 36: 41. não são para nós”, e coisas assim, é recorrente. Muitos pensam que
[9] Lucas 5: 22. para as pessoas bastam alguns minutos pela manhã e à noite para dizer
[10] Mateus 23: 26. uma prece improvisada, ou que ler alguns trechos de passagens esco-
[11] Gálatas 1: 17. lhidas é suficiente. Ainda por cima, até a santa atmosfera da hesíquia,
[12] I Coríntios 2: 16. ou seja, a compunção, a autorreprovação e a tristeza, são vistas como
[13] Romanos 7: 23. inadequadas para os leigos, em contraste com o que os Padres diziam,
[14] I Tessalonicenses 5: 6-8. como vimos.
[15] II Timóteo 4: 5.
[16] Colossenses 4: 2. Pior do que tudo é o fato de que essa atitude “mundana”, a vida anti-
[17] I Tessalonicenses 5: 17. hesiquiasta, está dominando mesmo os monges e invadiu os mosteiros,
[18] I Pedro 5: 8. que se supõe serem “escolas dedicadas a Deus”, escolas médicas onde
[19] Lucas 18: 13. a ciência médica deveria ser ensinada. Uma atitude mental prevalece,
no sentido que essas coisas devem ser conhecidas, mas elas não são
para nós! Eu conheço pessoalmente monges “proeminentes”, respon-
sáveis pela orientação de jovens monges Ortodoxos, que descrevem os
temas relacionados com a vida hesiquiasta como “fábulas”, que não
são dignas de que se fale delas, que são pura ilusão!

Isso realmente é triste. “A hesíquia desde o início foi a marca da vida


monástica Ortodoxa. O monaquismo Ortodoxo é ao mesmo tempo um
hesiquiasmo”.

Afortunadamente, ainda podemos ver algumas tentativas de retorno


aos Padres. E com isso queremos dizer viver a vida dos Padres, em
especial a vida hesiquiasta. Existem muitos jovens desencantados com
o clima contemporâneo de luta e angústia, de ação sem descanso e
missão sem silêncio, que se voltam para a vida hesiquiasta e começam

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a ser nutridos por ela. Muitas pessoas com esse desejo estão vindo para Xanthopoulos: “Esse caminho, essa vida espiritual em Deus, essa prá-
o monaquismo e voltando a viver das fontes dos santos Padres, que é tica sagrada do verdadeiro Cristianismo constitui a verdadeira e genu-
a tradição Ortodoxa. Mesmo no mundo, centro de vida em paz estão ína vida secreta em Cristo. O dulcíssimo Jesus, o DeusHomem, deixou
sendo criados. esse caminho e lhe entregou Sua misteriosa guia; os divinos Apóstolos
o percorreram, assim como todos depois deles. Desde o princípio,
Essa vida deve ser desenvolvida e incentivada também nas cidades, é desde a primeira vinda de Cristo à terra até o nosso tempo, nossos
assim que eu vejo a organização da Igreja e da vida paroquial. Assim gloriosos mestres, que o seguiram, brilharam como lâmpadas sobre o
poderemos chegar a entender que a Igreja é o lugar onde as almas po- mundo com a radiação de suas vivificantes palavras e de suas maravi-
dem ser curadas – mas também é o lugar de uma teofania. Dentro da lhosas ações, transmitiram uns aos outros até os nossos dias essa boa
purificação surge o conhecimento de Deus, a visão de Deus. Talvez semente, essa bebida sagrada, essa pedra preciosa, a herança divina
cada pessoa deva cultivar a prece de Jesus com suas melhores habili- dos Padres, esse tesouro enterrado no campo, essas bodas do Espírito,
dades, e essa prece se tornará a mestra de toda a sua vida espiritual. esse símbolo real, essa fonte de água da vida, esse fogo divino, esse sal
Ela pode nos ensinar quando falar e quando calar, quando interromper precioso, esse dom, esse selo, essa luz. Essa herança continuará a ser
a oração para ajudar o irmão e quando continuá-la, quando pecamos e transmitida de geração em geração, desde o nosso tempo, até a segunda
quando recebemos as bênçãos de Deus. E devemos também lutar para vinda de Cristo. Pois é verdadeira a promessa que Ele fez: ‘Eu estarei
ter e conservar um nous puro. sempre com vocês, até o final do mundo’. Amém”.

A exortação de São Thalassius deve se tornar uma regra de vida:


“Prenda seus sentidos na cidadela da hesíquia para que eles não envol-
vam o nous em seus desejos”.

As palavras de São Gregório Palamas que anotamos no começo devem


ser vistas como o objetivo básico da vida: “É necessário guardar silên-
cio para entrarmos em puro contato com Deus e para minimizar qual-
quer ilusão da alma”.

Devemos estar conscientes de que a hesíquia “é realmente a verdadeira


e infalível maneira de se viver em Deus, conforme nos foi transmitida
pelos Padres”, conforme as palavras de Calixto e Inácio Xanthopoulos.

Eu gostaria de terminar essas palavras sobre a hesíquia com o ensina-


mento de Calixto e Inácio

322 323
contemplação da luz incriada é a “comunhão divinizante do Espírito”.
“Então, a contemplação dessa luz é uma união, ainda que ela não dure
no imperfeito; mas pode a união com essa luz ser outra coisa do que
uma visão?”.

São Gregório fala do êxtase. Mas esse êxtase, no ensinamento patrís-


tico, não tem nada a ver com o êxtase da Pítia ou de outras religiões.
O êxtase acontece quando, na oração, o nous abandona toda conexão
com as coisas criadas: primeiro, “com tudo de ruim e de mau, e depois
com as coisas neutras”. O êxtase é principalmente uma retirada em re-
lação às opiniões do mundo e à carne. Com prazer sincero o nous
“abandona todas as coisas criadas”. Esse êxtase é mais elevado do que
a teologia abstrata, ou seja, do que a teologia racional, e pertence ape-
nas àqueles que alcançaram a impassibilidade. Mas ele ainda não cons-
titui a união. Vale dizer que o êxtase que é a prece incessante do nous,
no qual o nous possui a lembrança contínua de Deus e não se relaciona
com o “mundo do pecado” ainda não constitui a união com Deus. Essa
união acontece quando o Paráclito “ilumina desde o alto o homem que
na sua prece atingiu o estado que é superior às mais elevadas possibi-
lidades, e que espera pela promessa do Pai, e que por Sua revelação é
eletrizado pela contemplação da luz”. A iluminação por Deus é aquilo
que mostra Sua união com o homem.
A visão, a deificação e a união com Deus são as coisas que oferecem
ao homem o conhecimento existencial de Deus. A partir daí o homem
possui um conhecimento real de Deus. O dom deificante do Espírito
Santo, que é a luz misteriosa, transforma em luz divina aqueles que o
alcançaram, e não apenas os enche com a luz eterna, “mas ainda lhes
concede o conhecimento e uma vida agradável a Deus”. Nesse estado
a pessoa possui o conhecimento de Deus. Em resposta ao ensinamento
de Barlaam de que Deus só pode ser conhecido pelos maiores contem-
plativos, os filósofos, e de que o conhecimento de Deus transmitido
“pela iluminação noética (...) de modo algum é verdadeiro”, São Gre-
gório Palamas declara: “Deus se dá a conhecer não apenas através da-
quilo que é, mas através daquilo que não é, através da transcendência,

337
ou seja, das coisas incriadas, e ainda através de uma luz eterna que
transcende todos os seres”. Esse conhecimento, diz ele, é oferecido
hoje como uma espécie de promessa àqueles que são dignos dele e “os [1] Mateus 5: 8.
ilumina sem nunca acabar, no século que nunca acabará”. É por isso [2] Festa da Transfiguração.
que a visão que os santos têm de Deus é verdadeira, “e aquele que a [3] São Simeão o Novo Teólogo, SC 129, 186-188.
declara como falsa se extraviou do divino conhecimento de Deus”. As- [4] Santo isaac o Sírio, Homilias 36 e 16.
sim, qualquer um que ignore ou desconsidere a visão de Deus, a qual
oferece o verdadeiro conhecimento, este é na realidade ignorante a res-
peito de Deus.

Essas coisas mostram que a visão de Deus, a deificação, a união e o


conhecimento de Deus estão intimamente ligados. Eles não podem ser
entendidos independentemente uns dos outros. Quebrar essa unidade
empurra o homem para longe de qualquer conhecimento de Deus. A
base da epistemologia Ortodoxa é a iluminação e a revelação de Deus
no interior do coração purificado do homem.

Como vimos, o conhecimento de Deus está além do conhecimento hu-


mano. A visão da luz incriada ultrapassa toda atividade epistemológica
e está “além da intuição e do conhecimento”. Uma vez que a visão da
luz incriada é oferecida apenas aos corações dos fiéis e dos perfeitos,
por essa mesma razão “ela é superior à luz do conhecimento”. E não
apenas ela é superior à luz do conhecimento humano “a partir dos es-
tudos Helênicos”, como ainda a luz dessa theoria difere “da luz que
provém das Sagradas Escrituras”, uma vez que a luz das Escrituras
pode ser comparada a “uma lâmpada que brilha num local escuro, en-
quanto que a visão da luz incriada se assemelha à estrela da manhã que
brilha durante o dia, ou seja, ao sol”. Assim sendo, a graça da deifica-
ção transcende a natureza, a virtude e o conhecimento humano.

A visão da luz incriada e o conhecimento que dela provém não são um


desdobramento da potência racional, nem a perfeição da natureza ra-
cional, como afirmava Barlaam, mas são coisas superiores à razão. São
o conhecimento oferecido por Deus aos puros de coração. Quem quer

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“Ele se transfigurou sobre o monte, ó Cristo nosso Deus, mostrando que afirme que o dom deificante é um desenvolvimento da natureza
Sua glória aos Seus discípulos, tanto quanto estes puderam compreen- racional se coloca em oposição ao Evangelho de Cristo. Se a contem-
der. Pelas intercessões da Mãe de Deus, que Sua luz eterna brilhe sobre plação fosse um dom natural, todas as pessoas poderiam ser deuses,
nós, pecadores, o Dispensador da luz, glória a Ti[2]”. algumas mais e outras menos. Mas “os santos deificados transcendem
a natureza”, eles são gerados por Deus, que lhes concede o poder de se
tornarem “filhos de Deus”.
1.3 . Orações
A visão da luz incriada, que oferece o conhecimento de Deus ao ho-
1.3.1 . Na busca por um médico espiritual
mem, é sensorial e suprassensorial. Os olhos do corpo são remodelados
“Ó Senhor, que não desejas a morte do pecador, mas que todos vivam, para poderem ver a luz incriada, “essa luz misteriosa, inacessível, ima-
que vieste à terra para restaurar a vida daqueles que jazem mortos pelo terial, incriada, deificante, eterna”, essa “irradiação da Natureza Di-
pecado e para torna-los dignos de ver Tua verdadeira luz, tanto quanto vina, essa glória da divindade, essa beleza do Reino celestial”. Palamas
isso é possível ao homem, envia-me um homem que Te conheça, para pergunta: “Você vê que essa luz é inacessível aos sentidos que não
que, servindo-o e submetendo-me a ele com todas as minhas forças, foram transformados pelo Espírito?”. São Máximo, cujo ensinamento
como se a Ti fosse, e cumprindo Tua vontade através dele, eu possa é citado por São Gregório, diz que os Apóstolos viram a Luz incriada
agradar a Ti, o único e verdadeiro Deus, para que mesmo eu, pecador, “por uma transformação da atividade de seus sentidos, produzida neles
possa me tornar digno de Teu Reino[3]”. pelo Espírito”.

1.3.2 . Pelo conhecimento de Deus e o amor a Ele A visão da luz incriada e o conhecimento que provém dela transcen-
“Tornai-me digno, ó Senhor, de conhecer-Te e amar-Te, não com o dem não apenas a natureza e o conhecimento humano, mas também a
conhecimento exercido por um nous disperso; mas fazei-me digno virtude. A virtude e a imitação de Deus nos preparam para a união
desse conhecimento para que, contemplando-Te, o nous glorifique Tua divina, mas a união misteriosa em si é efetuada pela graça.
natureza, na visão divina que retira a mente dos cuidados do mundo. Portanto, a deificação, que é o objetivo da vida espiritual, é uma mani-
Torna-me digno de me elevar acima dos caprichos do meu olho vaga- festação de Deus no coração puro do homem, essa visão da Luz incri-
bundo que engendra imaginações, e para contemplar-Te na prisão da ada é o que cria o deleite espiritual na alma. Pois, de acordo com São
Cruz, na segunda parte da crucificação do nous, que voluntariamente Gregório, a evidência dessa luz é que a alma cessa de se entregar aos
deixa suas imagens conceituais para habitar na Tua visão contínua que maus prazeres e às paixões, adquirindo a paz e a quietude dos pensa-
ultrapassa a natureza. Coloca em meu coração um amor crescente por mentos, o repouso e a alegria espiritual, o desdém pela glória humana,
Ti, para que ele possa se retira deste mundo por um fervoroso amor a humildade unida a um júbilo secreto, a aversão ao mundo, o amor
por Ti. Desperta em mim o entendimento de Tua humildade, com que pelas coisas celestiais, ou melhor, o amor exclusivamente ao Deus dos
andastes pelo mundo revestido da carne que recobriu Teus membros Céus, e a visão da luz incriada, mesmo que os olhos da pessoa estejam
pela mediação da Santa Virgem, para que, com essa contínua e infalí- cobertos ou tenham sido arrancados.
vel lembrança eu possa aceitar a humilhação de minha natureza com
prazer[4]”.
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Daquilo que dissemos fica claro que o final da cura do homem é a visão a isso. Todas essas coisas provêm de uma operação da graça divina.
da luz incriada. Mas como nesse capítulo estamos falando sobre a the- Certamente a theoria perfeita é a visão da luz incriada, a qual se dife-
oria, vejamos o que diz o ensinamento de Palamas sobre os diversos rencia entre visão e visão contínua, como diz Palamas.
graus da theoria. Ele diz que a theoria tem um começo, e as coisas que
se seguem a esse começo diferem em graus de escuridão ou claridade, Assim, a purificação que acontece pela graça de Deus cria as precon-
mas que não existe fim, pois ela progride sempre assim como o arre- dições necessárias para atingir a theoria, que é a comunhão com Deus,
batamento da revelação, que é infinito. A iluminação é uma coisa, e a a deificação do homem e o conhecimento de Deus. O método ascético
visão contínua da luz é outra, e outra ainda é a visão das coisas nessa da Igreja conduz a esse ponto. Ele não está baseado em critérios hu-
luz, por meio da qual mesmo as coisas mais distantes ficam acessíveis manos e não pretende tornar a pessoa “doce e amável”, mas sim curá-
aos olhos, e o futuro é mostrado agora como se já existisse. Portanto la perfeitamente e adquirir para ela a comunhão com Deus. Enquanto
existem graus de theoria e, com esses, graus de conhecimento. a pessoa estiver distante da comunhão e da união com Deus, ela não
terá ainda alcançado a salvação. A pessoa espiritualmente treinada que
Esse ponto pode ser visto no ensinamento de São Pedro Damasceno vê a luz incriada é chamada, na linguagem dos Padres, de “deificada”.
sobre os oito estágios da theoria. Os primeiros sete pertencem a este Essa expressão foi usada por São Dionísio o Areopagita, e repetida,
século, enquanto que o oitavo pertence ao século futuro. A primeira como vimos, por São Gregório Palamas.
theoria é o conhecimento dos desafios e tribulações desta vida. A se-
gunda é “o conhecimento de nossas próprias faltas e da bondade de A cura da alma, do nous e do coração conduz a pessoa à visão de Deus
Deus”. A terceira theoria é o conhecimento das coisas terríveis antes e e faz com que ela conheça a vida divina. Esse conhecimento constitui
depois da morte. A quarta é o entendimento profundo da vida que a salvação do homem.
nosso Senhor Jesus levou neste mundo, e também da de Seus discípu-
los e santos, ou seja, das palavras e das ações dos mártires e dos santos Devemos orar fervorosamente a Deus para que nos conceda alcançar
Padres. A quinta é o conhecimento da natureza e do fluxo das coisas, esse conhecimento de Deus. A exortação é clara:
a sexta é a theoria dos seres criados, ou o conhecimento e o entendi-
mento da criação visível de Deus. A sétima é o entendimento da cria- “Venham, subamos a montanha do Senhor,
ção espiritual de Deus, ou seja, dos anjos. A oitava é o conhecimento Até a causa de nosso Deus,
relativo a Deus, que é o que chamamos de “teologia”. E contemplem a gló-
ria de Sua transfigu-
Consequentemente, a theoria possui muitos estágios e graus, e muitos ração, Glória do Fi-
devem vir antes da visão da luz incriada, que é a “beleza do século lho Único do Pai.
futuro”, “o alimento celestial”. Dentre os graus da theoria está a lem- Possamos nós receber a luz de Sua luz,
brança da morte, que é um dom de Deus, bem como a prece incessante, E com os espíritos elevados
a inspiração para manter integralmente os mandamentos de Cristo, o Possamos cantar louvores à Trindade consubstancial”.
conhecimento de nossa pobreza espiritual, ou seja, o entendimento de
nossos pecados e de nossas paixões, e o arrependimento que se segue Assim nos erguemos e cantamos:

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